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SILVA, F.B. da. Turismo e sexualidade na metrópole: o caso de São Paulo. p.704-716.

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TURISMO E SEXUALIDADE NA METRÓPOLE: O CASO DE SÃO


PAULO

Flavio Bezerra da Silva1

Introdução

Na última década do século XX, houve na cidade de São Paulo, aumento no


fluxo de turistas, principalmente junto ao turismo de negócios (SPTURIS, 2008),
concomitante ao número de empresas transnacionais instaladas na metrópole (FIX,
2006), (FRÚGOLI JUNIOR, 2000).
A cidade atende diferentes tipos de turismo, desde o já mencionado turismo de
negócios, passando pelo de compras, pelo cultural, educacional, feiras e congressos,
dentre outros. Temos a Rua 25 de março como símbolo do turismo de compras,
juntamente com os shoppings centers; o centro antigo com seus equipamentos culturais,
como a Sala São Paulo e a Pinacoteca do Estado; a Avenida Paulista e suas dezenas de
salas de cinema; o Palácio das Convenções do Anhembi, marco da dinamização de
feiras e eventos, somente para ficar em alguns exemplos.
Porém, observando a cidade atentamente, notamos a existência de equipamentos
dando suporte a um novo tipo de turismo, com fluxo de pessoas relacionando-se com os
mesmos, em suas opções de lazer. Tais equipamentos são: boates, cinemas pornôs,
clínicas de massagem, clubes de swing, clubes BDSM2, motéis, privés, saunas LGBT3 e
sex-shops. Este turismo será chamado de underground e terá como referência a busca de
práticas sexuais a partir do anonimato e da clandestinidade.
Conceitualizando o turismo underground, em conformidade à definição de
turismo segundo a Organização Mundial do Turismo (OMT, 2009), seria o

1
Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana da Universidade de São Paulo, sob
orientação do Profº Dr. Eduardo A. Yázigi.
2
Bondage, dominação, sadismo e sadomasoquismo.
3
Lésbicas, gays, bissexuais e transexuais.

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deslocamento de indivíduos ou grupos, além de sua morada, por tempo superior a 24


horas e inferior a 365 dias, no qual a demanda seja o lazer em anonimato.
O turismo underground não é explícito, aproveita a dimensão da cidade para se
manifestar de forma oculta, clandestina. É no anonimato que ele constrói a sua
identidade.
Observamos uma lacuna referente a estudos sobre turismo e sexualidade. Nessa
abordagem, a associação entre o turismo sexual e a pedofilia é constante. Qualquer lazer
que vá ao encontro dos preceitos morais da sociedade contemporânea é visto com
descrédito, contrário à proposta desta pesquisa, que considera o sexo ligado ao lazer,
categoria social importante na dinâmica turística da cidade de São Paulo.
A presente pesquisa tem por objetivo analisar o turismo underground na cidade
de São Paulo e a territorialidade formada a partir da espacialização de seus
equipamentos turísticos. Em função desta pesquisa estar em processo de
desenvolvimento, por ora, serão abarcados a formação do turismo underground, o
processo identitário do potencial turista e a demanda originada a partir dos
equipamentos espacializados na cidade.

Espaço, Território e Turismo Underground

Não é tarefa fácil analisar o espaço urbano de uma cidade como São Paulo,
inserida no circuito mundial da economia globalizada, com acentuado fluxo de pessoas,
mercadorias, capitais e informação, sem dizer do tamanho de sua área e população, com
estimativa de 10.998.813 habitantes no ano de 2009, distribuídos numa área de 1.509
km² (SEMPLA, 2009).
Para a elaboração de uma pesquisa, é indispensável a base teórico metodológica
que a norteie. Assim, ao analisarmos o turismo na cidade de São Paulo, especialmente
do ponto de vista da Geografia, precisamos buscar elementos para a compreensão de
suas especificidades. Para isso, serão elencados alguns conceitos para análise e
compreensão desse processo.
Como referencial teórico de partida foram escolhidos o conceito de espaço, em
função de estar associado às relações e práticas sociais, concomitante às transformação
ocorridas resultante da interação dos sistemas de objetos e dos sistemas de ações
(SANTOS, 2004); o território, como resultado das relações de poder, seja simbólico-
cultural, econômico ou político (HAESBAERT, 2004), que acaba por resultar numa

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possível territorialidade; e as redes, resultante das relações/interações entre diferentes


territorialidades (nós) que mantêm conexões entre si (fluxos), sejam elas políticas,
econômicas ou simbólicas (CASTELLS, 2006).
O espaço entendido por Milton Santos (2004, p.63) é

(...) formado por um conjunto indissociável, solidário e também


contraditório, de sistemas de objetos e sistemas de ações, não considerados
isoladamente, mas como o quadro único no qual a história se dá.

O espaço não é estático, está em constante transformação, resultante da interação


dos sistemas de objetos e dos sistemas de ações, sendo o primeiro condicionante das
formas em que se dão as ações e o segundo levando à criação de objetos novos ou se
realizando sobre objetos já existentes (SANTOS, 2004, p. 63).
Para o turismo, o sistema de objetos é caracterizado pelos equipamentos que dão
suporte ao fluxo de pessoas que se deslocam para a cidade, como hotéis, restaurantes,
museus, teatros, aeroportos e rodovias. São os objetos fixados, construídos socialmente.
Já a interação do turista e a cidade, a partir da relação com os objetos, faz parte do
sistema de ações.
Não existe turismo sem o turista. O indivíduo se desterritorializa no momento de
seu deslocamento à cidade e, ao chegar, cria um processo de reterritorialização,
transformando-se num turista (DELEUZE E GUATTARI, 1995).
Ao se territorializar, ocorre uma apropriação do espaço, concreta ou
abstratamente, formando um território a partir do espaço (RAFFESTIN, 1993, p. 143).
Para Souza (2002, p. 78), “o território é fundamentalmente um espaço definido e
delimitado por e a partir de relações de poder”.
Haesbaert (2004, p. 40), define o território em 3 vertentes básicas: a política, a
econômica e a cultural ou simbólico-cultural. Todavia, a noção de território, e
conseqüente territorialidade underground, tem na relação de poder a partir do
simbólico-cultural sua melhor representação, sendo que esta “prioriza a dimensão
simbólica e mais subjetiva, em que o território é visto, sobretudo, como o produto da
apropriação-valorização simbólica de um grupo em relação ao seu espaço vivido”.
Dois tipos de redes se efetivam no underground, a virtual e a “real”. No primeiro
tipo, em função da popularização das tecnologias da informação, sobretudo o uso do
computador e da internet, gera-se intensa troca de informações e interações entre os
internautas, através dos espaços de fluxos, aproximando os potenciais turistas
undergrounds, por meio de comunidades virtuais ou redes sociais, com temáticas

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referentes à sexualidade. Segundo Castells (2006, p. 501), espaço de fluxos são “uma
nova forma espacial característica das práticas sociais que dominam e moldam a
sociedade em rede”.
No segundo tipo, há as redes de relações reais, geradas a partir da demanda, do
turista e dos equipamentos turísticos que acabam por materializar o turismo
underground em lugares como São Paulo.
Ao analisarmos o turismo na cidade de São Paulo a partir da junção dos
conceitos e o objeto de estudo, tem-se a consolidação do turismo underground a partir
da apropriação do espaço pelo turista, criando relações de poder, simbólico e identitário,
que se efetiva a partir da conexão das diferentes territorialidades existentes.
A metodologia utilizada na elaboração desta pesquisa dividiu-se em 3 partes:
empírica, bibliográfica e trabalhos de campo. A empírica baseou-se em fontes informais
e acompanhamento de redes sociais na internet, buscando compreender as relações entre
possíveis turistas e seus deslocamentos para práticas sexuais, identificando a formação
de uma identidade underground. A bibliográfica deu sustentação teórica para a
elaboração da pesquisa com base nas categorias da geografia, juntamente ao
planejamento territorial do turismo, além do suporte para o entendimento e elaboração
do conceito de turismo underground. Os trabalhos de campo foram e estão sendo
fundamentais, tanto para legitimar a existência dos equipamentos e conseqüente
mapeamento, quanto para relacionar o turismo e o espaço urbano da cidade de São
Paulo.
O Turista e a Identidade Underground
A partir do olhar geográfico, o underground seria a formação/conjunto de
territorialidades efêmeras e/ou flexíveis, individuais ou grupais, tendo como
característica fundante a clandestinidade e/ou anonimato. A partir dessa premissa, no
qual ocorrem novas relações sociais e culturais, em contradição à moralidade vigente, o
underground se materializa. O hedonismo e o sexo são os alicerces de sua sustentação.
Underground, segundo o dicionário Larousse (2005, p. 196), traduzido da língua
inglesa para a portuguesa, significa subterrâneo, secreto, clandestino. Essas
características seriam a base da identidade formada pelo potencial turista. Já
clandestino, segundo o dicionário Novo Aurélio (1999, p. 483), significa “feito ou
realizado às ocultas”; e anônimo (1999, p. 146), “indivíduo obscuro, sem nome ou
renome”.

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Correlacionando com o tema, seria um tipo de turista que busca nas práticas
sexuais o seu lazer, porém de forma “oculta”, “secreta”, preservando sua moralidade.
O deslocamento não é necessariamente exclusivo do turismo underground, pode
ser simultâneo a outros segmentos turísticos que a cidade oferece. Como exemplo, um
executivo hospedado na cidade para um evento de negócios que, nos momentos de ócio,
busca o underground, seja na contratação de uma prostituta ou na ida a uma sauna
LGBT, ou mesmo um casal que viaja para o turismo cultural e, após assistir uma peça
teatral, vai a um clube de troca de casais.
Apesar de o senso comum ditar que o “povo brasileiro” tem em sua essência a
liberdade de expressão, sendo passivo com o que pode ser chamado de “liberal”, tendo o
carnaval e a exposição de corpos nus como um dos ícones dessa ideologia, na realidade,
os preceitos morais ainda estão ligados à sociedade.
Existe um tabu quando se fala em sexo, é incomum uma referência livre em
relação ao tema. Como exemplo, pode-se citar Almeida (2007, p. 153) que numa
pesquisa sobre práticas sexuais, originada no PESB (Pesquisa Social Brasileira),
classificou o Brasil de conservador. Eis alguns dados: 81% do país é totalmente contra o
homossexualismo masculino, 78% é totalmente contra o homossexualismo feminino,
60% é totalmente contra o sexo anal entre homem e mulher, 50% é totalmente contra o
homem fazer sexo oral na companheira, 49% é totalmente contra o uso de revistas
pornográficas para excitação sexual, 49% é totalmente contra a mulher fazer sexo oral
no companheiro, 44% é totalmente contra a masturbação feminina e 40% é totalmente
contra a masturbação masculina. Por essa pesquisa observa-se uma contradição entre o
“país liberal” e a realidade vigente.
Dessa forma, pressupomos imaginar a existência de pessoas que se chocam ao
verem casais homossexuais de mãos dadas na Avenida Paulista ou no Shopping Frei
Caneca, apelidado carinhosamente de “Gay Caneca”; ou mesmo quando descobrem
algum conhecido (a) fazendo parte da engrenagem da indústria do sexo na cidade de
São Paulo. Entretanto, estão ocorrendo transformações sociais e culturais na sociedade
contemporânea que colocam em xeque esse conservadorismo.
Alguns autores, dentre eles Featherstone (1995), Giddens (1993), Harvey (2005)
e Maffesoli (2006), tratam das mudanças socioculturais ocorridas a partir da década de
1970, chamada de “pós-modernidade”, “pós-modernismo” ou simplesmente “pós-
moderno”, no qual sustentam o argumento de que estão ocorrendo mudanças

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significativas na sociedade contemporânea; de ordem econômica, política e, sobretudo,


cultural.
O que se percebe é que tais mudanças estão intimamente ligadas ao
descontentamento da sociedade em relação à cultura moralista ocidental.
Coincidentemente, esse processo iniciou-se com as transformações iniciadas na
contracultura dos anos 1960, culminando com uma série de eventos que demonstraram a
insatisfação e o desencanto com a cultura vigente, americanizada.
Pode-se colocar como marco desse movimento a revolução sexual, iniciada nos
anos 1960, e o surgimento da pílula anticoncepcional, concomitante ao movimento
feminista. Importante ressaltar que a pílula anticoncepcional rompeu a relação sexo-
reprodução e a partir deste momento o sexo-prazer torna-se uma referência.
O paradoxo é que o subproduto dessa manifestação social e cultural surge a
partir dos anos 1990, com a exacerbação da individualidade, do consumo, do culto ao
corpo e do hedonismo. É a partir da concepção desses valores que o underground se
materializa. A busca do prazer se torna a essência de uma sociedade consumista.
Lipovetsky (2005, p.28) classifica de sociedade pós-moralista estas novas
relações sociais e culturais, pautadas numa construção identitária de uma sociedade que
consagra os direitos individuais, que repudia a retórica do dever rígido. Nas palavras do
autor,
Em poucas décadas, passamos de uma civilização do dever a uma cultura da
felicidade subjetiva, do lazer e do sexo. É a cultura do self-love que nos
comanda, em vez do antigo sistema de repressão e de planejamento calculado
dos costumes. (...) A época atual derrubou a hierarquia moralista das
finalidades e, uma vez que o prazer em boa medida se tornou um conceito
independente de regras morais, a noção de felicidade subjetiva passou a
irrigar em profundidade a cultura cotidiana.

Stuart Hall (2006, p.12) traz uma concepção de identidade que ajuda a
compreender esse novo tipo de turista, flexível em sua essência. Para o autor, “o sujeito,
previamente vivido como tendo uma identidade unificada e estável, está se tornando
fragmentado; composto não de uma única, mas de várias identidades”. Por essa
abordagem, o turista assume identidades diferentes em diferentes momentos, ou seja,
mantém sua moralidade preservada no contexto social e se torna um turista
underground nos momentos de lazer.

São Paulo – Pólo do Turismo Underground


Após a definição do turismo underground e sua identidade, partimos para a
classificação de quais equipamentos turísticos fariam parte do espaço turístico da cidade

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de São Paulo. Nesse primeiro momento, atentamos para os equipamentos turísticos


citados por Boullón (2002, p. 50), em especial os relacionados aos meios de
hospedagem e entretenimento.
Dessa classificação estruturamos a primeira lista de equipamentos voltados para
o turismo underground: boates, cinemas pornôs, clínicas de massagem, clubes de swing,
clubes sadomasoquistas, motéis, privés, saunas LGBT e sex-shops. Optamos pelos
equipamentos relacionados à temática sexual, sendo essa a razão para a não citação de
hotéis, flats ou mesmo bares temáticos. Tais equipamentos estão ligados ao turismo
urbano, dando suporte ao turismo underground, porém abarcam todos os segmentos
turísticos.
Após inúmeras pesquisas de campo e buscas em sites na internet, foram
catalogados, num primeiro momento, 1140 equipamentos com temática sexual.
Apresentaremos o número parcial de equipamentos e suas respectivas funcionalidades:

a) 221 boates: são “estabelecimentos comerciais que funcionam durante noite e, em


geral, constam de bar, restaurante, pista de dança e palco para apresentações de atrações
artísticas” (AURÉLIO, 2002, p. 309). São geralmente locais freqüentados por
prostitutas, ocorrendo a interação com os turistas/clientes. Algumas boates funcionam
somente como casa de shows, com dançarinas se revezando em palcos, não sendo
permitidas as práticas sexuais nesses ambientes, outras, além dessa similaridade,
permitem as práticas sexuais em suas dependências.

b) 260 sex-shops: são estabelecimentos comerciais que vendem produtos eróticos.


Algumas casas estão se especializando na venda de roupas sensuais.

c) 168 privés: são casas ou apartamentos onde se concentram um grupo de


prostitutas para atender seus clientes. Têm como característica a discrição e funcionam
geralmente durante o dia.

d) 148 clínicas de massagem: são ambientes que têm como característica a oferta
de massagens sensuais e de relaxamento, feitas por mulheres.

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e) 260 motéis: ambiente com características de hotel, porém adentra-se com


automóveis. A alta rotatividade é uma característica e geralmente são sinônimos de
local para práticas sexuais. Atualmente existem inúmeros motéis com suítes específicas
para determinadas práticas sexuais, como exemplo, equipadas com jaulas e camas
elásticas, voltadas para adeptos do sadomasoquismo e outras com camas maiores que as
convencionais, de modo a agrupar casais ou grupos de pessoas adeptas do swing.

f) 23 saunas LGBT: são ambientes masculinos, tendo como característica o contato


para possíveis práticas sexuais homossexuais em suas dependências. São também
freqüentados por prostitutos (michês).

g) 21 cinemas pornôs: locais onde são exibidos filmes eróticos. São divididos por tipos de
freqüência e práticas sexuais. Existem cinemas com territorialidades distintas, divididas
em LGBT, prostituição feminina, travestis e, mais recentemente, casais adeptos do
swing.

h) 15 Clubes de swing: são similares às boates, com bares, pistas de dança etc, porém, a
prática predominante é o voyerismo e a troca de casais.

i) 3 clubes sadomasoquistas: espaços reservados ás práticas BDSM – bondage ,


dominação, sadismo e masoquismo – sendo um “conjunto de comportamentos e
necessidades sexuais entre parceiros adultos, comumente denominados
sadomasoquismo ou SM, e que tem como adeptos pessoas de todas as opções sexuais”.
(SHAKTI, 2008, p. 20)
Uma vez definidos e localizados os equipamentos, observamos a distribuição
espacial de alguns de forma heterogênea, estando localizados em diversas regiões da
cidade de São Paulo, caso das boates, motéis, privés e sex-shops. Em relação aos clubes
sadomasoquistas, foram encontrados somente 3, nas regiões do Tatuapé, de Santana e
de Pinheiros. Para o restante, constatamos relativa concentração de equipamentos,
estando os cinemas pornôs na região central, majoritariamente; as clínicas de
massagem, em sua maior parte, na região do quadrante sudoeste da cidade, com
destaque aos bairros de Vila Mariana, Moema, Campo Belo e Brooklin; em relação aos
clubes de swing, dos 15 localizados, 10 estão no bairro de Moema; das 23 saunas LGBT

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encontradas, 15 estão na região central com o restante dividido entre os bairros de Vila
Mariana e de Pinheiros. Importante ressaltar que tais números são parciais, vista a
dimensão da cidade de São Paulo e pela efemeridade de alguns equipamentos.

Considerações finais

A pesquisa apresentada refere-se à dissertação de mestrado do Programa de Pós-


Graduação em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo, encontrando-se em
desenvolvimento, portanto, as considerações são parciais.
Podemos constatar que as transformações sociais e culturais ocorridas a partir da
década de 1960, contrárias à moralidade vigente, americanizada, foram fundamentais
para o surgimento de uma identidade underground. A partir desse contexto, a
sexualidade e o hedonismo despontam como símbolos de contestação. Paradoxalmente,
após esse movimento cultural, surgem as tecnologias da informação e comunicação
(TICs), matriz de novas mudanças.
Sobre os TICs relacionam-se dois momentos: primeiro, a apropriação dos meios
de comunicação pela propaganda e pelo marketing, que acabam por construir um
indivíduo pautado na individualidade e no consumo desenfreado; segundo, do
surgimento do computador e da internet, que aproxima indivíduos com identidades
sexuais semelhantes, porém espacialmente separados.
A junção dos TICs, do consumismo desenfreado e do hedonismo são os
sustentáculos da formação da identidade underground. O sexo-prazer se consolida nessa
nova sociedade consumista e o turismo underground é uma parte dessa dinâmica. O
grande número de equipamentos undergrounds espacializados na cidade de São Paulo
reflete esse momento.
Alguns turistas, ao se depararem com a cidade de São Paulo, tem inúmeras
opções de lazer relacionado às práticas sexuais. Pode contratar uma prostituta, seja pela
internet solicitando uma visita a seu quarto de hotel , seja na ida a uma boate ou clínica
de massagem; pode ir a uma sauna LGBT em busca de práticas homossexuais ou
mesmo a um cinema pornô. Um casal pode buscar sexo e lazer num clube de troca de
casais ou em um motel que possua quarto temático (masmorra) para adeptos do
sadomasoquismo. Os sex-shops são as lojas de abastecimento do turismo underground,
com a oferta de acessórios e roupas sensuais.

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Pode-se dividir o turismo underground em quatro grandes territorialidades: a


prostituição (feminina e masculina), o swing (troca de casais, ménage masculino e
feminino), o BDSM (Bondage, Dominação, Sadismo e Masoquismo) e o LGBT
(lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais).
A prostituição feminina é a que está mais solidificada em São Paulo. Somando
boates, privés e clínicas de massagem chegamos a 537 endereços, sem dizer da oferta de
“acompanhantes” (prostitutas sem locais fixos para atender seus “clientes” /turistas) em
revistas, jornais e sites.
Ao analisarmos a localização dos equipamentos observamos a concentração
sistemática de clínicas de massagem nos bairros do Moema, Campo Belo e Brooklin,
bairros de alto poder aquisitivo, próximos do aeroporto de Congonhas e da região da
Avenida Eng. Luís Carlos Berrini, interligados por vias de circulação rápida (avenidas
perimetrais) e com concentração de outros equipamentos como casas de shows, hotéis,
flats, shopping centers, restaurantes etc., transformando a região numa das mais
valorizadas da cidade de São Paulo.
Esse destaque não se refere somente à territorialidade da prostituição. Das 15
casas de swing localizadas no município, 11 estão nessa mesma região, com destaque
para o bairro de Moema, com 10 casas.
O universo LGBT tem uma dinâmica especial na cidade. Pode-se citar como
marco a Parada do Orgulho Gay, com participação de mais de 2,5 milhões de pessoas,
entre turistas e moradores da cidade. A região da Avenida Paulista, juntamente com a
Rua Frei Caneca e o shopping de mesmo nome, forma um grande território LGBT. Na
região do centro antigo, a Avenida Dr. Vieira de Carvalho se destaca.
Em simetria com os territórios LGBT citados, estão localizados os maiores
números de equipamentos para atender essa demanda, dentre eles as saunas e os
cinemas pornôs. Todos os cinemas pornôs estão localizados na região central e 15 das
23 saunas estão entre o Largo do Arouche e a Avenida Paulista.
Até o presente momento, foram encontrados 3 clubes BDSM na cidade. Porém,
observamos aumento expressivo no número de motéis que oferecem quartos temáticos
para práticas BDSM, como jaulas, celas de ferro, camas elásticas e outros acessórios.
Os sex-shops oferecem inúmeros produtos para os praticantes, desde acessórios, como
algemas, prendedores, cordas etc, até roupas especiais, geralmente fabricadas em couro.
Ao analisar a espacialização dos equipamentos turísticos undergrounds
constatamos a relação indireta com outros equipamentos que dão suporte ao turismo na

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cidade de São Paulo, sobretudo os meios de hospedagem (hotéis, flats etc.), os de


alimentação (restaurantes, cafés etc.) e os de entretenimento (bares, casas de shows,
cinemas, teatros etc.). A densidade turística, tanto do turismo tradicional quanto do
turismo underground, é concentrada, parte da região central em direção a região do
quadrante sudoeste da cidade de São Paulo e estão simetricamente concatenados.
Enfim, ao finalizar a proposta inicial desta pesquisa, chegamos à conclusão,
parcial, de que o turismo underground é uma realidade na cidade de São Paulo.
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