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Alain Coulon Traducao de i Ephraim Ferreira Alves N ETNOMETODOLOGIA Capitulo IIT Os Conceitos-chave da Etnometodologia A etnometodologia forjou para si, com Garfinkel, um vocabulério particular. Mas nem sempre € novo, pois, ora toma de empréstimo alguns de seus termos alhu- res: a indicialidade da lingitistica, a reflexividade da fenomenologia, a nogdo de membro de Parsons: ora retoma termos da linguagem corrente modificando- Ihes o sentido. E o que acontece, por exemplo, com as nogées de prética ou de accountability. Mas 0 que acima de tudo impressiona, na etnometodologia, 6 a complementaridade e a solidariedade de seus concei- tos. Vamos apresentar aqui os mais acessiveis para quem descobre a etnometodologia. 1, Pratica, realizagio Desde as primeiras linhas do Primeiro Capitulo dos Studies, intitulado “O que 6 a etnometodologia?”, Garfinkel nos indica que seus estudos “abordam as atividades priticas, as ci teas e o racioeinio sosidlégica prético, coma temas de estudo empirico. Concedendo as atividedes corriqueiras da vida cotidiana a mesma atengdo que habitualmente se presta aos acontecimentos extraordindrios, tentaremos compreendé-los como fenémenos de direito pleno”. ineias pra- O interesse maior de H. Garfinkel se volta para as, tividades préticas e, em particular, o raciocinio pré- tico, quer seja profissional ou nao. Actnometodologia é a pesquisa empfrica dos mé- todos que os individuos utilizam para dar sentido e ao mesmo tempo realizar as suas acdes de todos os dias: ‘comunicar-se, tomar decisées, raciocinar. Para os etno- metodélogos, a etnometodologia ser4, portanto, 0 estti- do dessas atividades cotidianas, guer ‘sejam triviaisou 'n eruditas, considerando que a propria sociologia deve ser considerada como uma ativiaade préties, Como cheerva George Peathas, a etnometodclogia te apre- senta como “uma prética social reflexiva que procura explicar os métodos de todas as préticas sociais, inclu- sive os seus proprios métodos”. Diferenciando-se nisto dos sociélogos que geralmente consideram o saber do senso comum como “categoria residual”, a etnometo- dologia analisa as crencas e os comportamentos de senso comum como os constituintes necessdrios de “todo comportamento socialmente organizado”. Os etnometod6logos ttm a pretensio de estar mais perto das realidades correntes da vida social que os outros sociblogos. Torna-se necessdria uma volta & experiéncia, e isto exige modificar os métodos e as técnicas de coleta dos dados bem como da construgzo teérica. Os etnometodélogos trabalham efetivamente com a hipétese que os fenémenos cotidianos se defor- mam quando examinados através da “grade da descri- lo cientifica”. As descrigdes sociolégicas ignoram a sxperiéncia prética do ator, considerado cor tradicionais log - “Segundo eles, os socidlogos supdem a priori que um sistema estdvel de normas e significagdes partilhadas sistema social. Os conceitos 1.6, Paathas, 1980: Approaches ta the Study ofthe Word of Everyday Life ‘Human Studies, 3,9. 847 30 da sociologia, assim como as normas, as regras, as estruturas, provém do fato de que a construgao do i dispositive sociolégico pressupée a existéncia de um mundo significante exterior e independente das inte- ragées sociais, Para a sociologia essas hipéteses se tornam de fato recursos implicitos * _O que a sociologia chama de “modelos” é conside rado pela etnometodologia como “as realizagdes conti. nues dos atores’. Para a etnometodologia, mesmo quando os fatos os contradizem, os sociélogos dao um jeito para encontrar explicagSes que se conformem a suas hipéteses preestabelecidas, em particular a da /*consténcia do objeto”. A etnometodologia substitui esta hipétese da “constncia do objeto” pela de “proces. “Onde outros vem dados, fatos, coisas, a etnometodo- logia vé um processo através do qual os tragos da apa- rente estabilidade da organizagdo social séo continua- 4 mente criados"™. acETum artigo gua se tornaria clebre, Garfinkel © sacks afirmam (p. 953) que “os fatos sociais sio_as | ‘realizagdes dos membros". A realidade social é cons- tantemente criada pelos atores, no é um dado pree- ‘xistente. Por esse motivo, por exemplo, a etno- metodologia dé tanta atengao ao modo como os mem- bros tomam decisées. Em vez de fazer a hipétese, que 08 atores seguem regras, o interesse da etnometodalo- yy Bia 6 por em evidéncia os métodos pelos quais os atores pow" Katualizam” essas regras. E 0 que as faz observaveis ¢ uv" “descritiveis. As atividades praticas dos membros, em 2.M.Pollner, 1974: Sociological nd Common Sense Model ofthe Labeling "Proce, in R, Turner (Ea), Evinomethodology, Harmondsworth, Pen ‘ula Books, p. 27-0, 3.H. Garfinkel eH. Sac 970: On Formal Strsctures of Practical Action, So oS eboney ¢ BA Bashan (Bin, Pareea! Sete rapecios ond Decelopmente, Nova Yor, Appleton Century. Crots 535. m meee 31 “ guas atividades concretas, revelam as regras eos mo- dos de proceder. Noutras palavras, a observagio aten- ciosa e a andlise dos processos aplicados nas ages permitiriam por em evidéncia os modos de proceder pelos quais os atores interpretam constantemente a ~'\ realidade social, inventam a vida em uma permanente . | bricolagem. Seré portanto de importéncia capital ob- 3 | servar como os atores de senso comum 0 produzem e 9 | tratam a informagdonos seus contatos e como utilizam | a linguagem como um recurso. Em suma, como fabri- cam um mundo “racional” a fim de nele poderem viver. 2, Aindicialidade Avida social se constitui através da linguagem: ndo a dos gramAticos e dos lingitistas, mas a da vida de ‘Uma pessoa conversa com as outras, recebe ordens, reaponde a perguntas, ensina, descreve livros de sociologia, vai ao mercado para as compras, compra e vende, mente e trapaceia, toma parte em reunides, faz entrevistas, tudo isso usando a mesma io & que se desenvolve a interrogaplo etnometodolégica sobre a linguagem Os sociélogos usam em suas pesquisas, em suas deserigées e interpretagées da realidade social, os mes- mos recursos lingiifsticos que o homem ordinério, a linguagem comum. Os sociélogos passam o tempo “A procura de remédios para as propriedades indiciais do discurso pratico™. Esta idéia, as expressdes da lingua- gem ordindria so indiciais, nao encontra sua origem na etnometodologia. As expressdes indiciais so ex- presses, como por exemplo “isto”, “eu”, “vocé", etc., que tiram o seu sentido do préprio contexto. Constitui- ram j4 h4 muito tempo o objeto da preocupagao dos 4. Garfinkalo Sacks, 1970: On Formal Structures of Practical Action, op P89. 32 6gicos e dos linguistas, Podem-se definir como indicia: /) Yidade determinagses que se ligam_auma \\ palavra, a uma situagdoIndicialidade 6 um termo | téenico, adaptado da lingufstica, Isto significa que, ' embora uma palavra tenha uma significagso trans-si- tuacional, tem igualmente um significado distinto em toda situacdo particular em que é usada. Sua com- preensio profunda passa por “caracterfsticas indicati- ‘yas™ e exige dos individuos que “vaio além da informagao que Ihes é dada”. _Ista designa portanto a incompletude natural des palavras, que s6 ganham o seu sentido “completo” no seu contexto de produgio, quando stio “indexadas” a uma situagfio de intercimbio linguistico, E ainda: a indexacdo nao esgota a integralidade do seu sentido potencial. A significagio de uma palavra ou de uma expresso provém de fatores contextuais como a bio- grafia do locutor, sua intengao imediata, a relagio tinica que mantém com seu ouvinte, suas conversagdes passadas. O mesmo se diga quanto as conversas ou quanto aos questionérios utilizados em sociologia: as palavras e as frases nao tém 0 mesmo sentido para todos, © no entanto 0 tratamento “cientifico” que 0 soci6logo 6 levado a fazer dessas conversas faz como se existisse uma homogeneidade semantica das palavras e uma adesdo comum dos individuos ao seu sentido. A linguagem natural é um recurso obrigatério de toda pesquisa sociolégica. Para Garfinkel, as caracteristicas das expressées indiciais devem ser estendidas ao conjunto da lingua- gem. Segundo a sua convicgdo, 0 conjunto da ingua- gem natural é profundamente indicial, na medida em que, para cada membro, o significado de sua lingua- gem cotidiana depende do contexto em que esta lingua- 5. ¥, Bar Hillel, 1954 (abr: Indexial Expressions, Mind 63, 280, p 369.387, 33 A gem aparece] A linguagem natural néo pode fazer ntido independ das suas condigdes de uso fe ‘Wilson e Zimmerman (p. 57-68)° dio 0 exemplo desta palavra enigmatica, rosebud, pronunciada por Kane em seu leito de morte, em Citizen Kane, o filme de Orson Welles. 0 filme 6 inteiramente construfdo em torno da busca do significado dessa palavra, o autor do roteiro nos arrasta para diversos caminhos que logo se verificam serem impasses e, no momento em que se vai renunciar, como as personagens do filme, a compreen- der, pode-se entrever, nos tiltimos segundos do filme, a palavra eserita no pequeno trené de Kane, quando crianga, que acaba de ser lancado ao fogo pelos encar- regados da mudanga. 86 entao é que se pode compreen- der o sentido eo cardter pungente dessa iltima palavra de Kane, depois de se perder em interpretagées intermi- néveis e ndo satisfatérias, presos nos meandros do caréter irremediavelmente indicial do discurso e da aghio’. Essa nog&o de indicialidade foi transposta pela etnometodologia para as ciéncias sociais, Ela quer dizer que todas as formas simbélicas, como os enuncia- los, 08 gestos, as regras, as agées, comportam uma “margem de incompletude? que s6 desaparece quando elas se produzem, embora as préprias complecses anunciem um “horizonte de incompletude”, As situa- 0.TR Wilton ¢ D.H. Zimmerman, 1970-1980: Bthnomethodology, Sosilony ‘and Theory, Humboldt Journal of Social Relations, 7,1. 782:88. 7. Observemes que as obras ou iteraris, exploram som eres, parecer saber explorar ‘ates fenbmence da indicalidade, ito &, aquees que nes Per rtaturando oreutelao, pr er cena onoaso imagindria. . Mehan eH, Wood, 1975: The Realty of Ethnomethodotogy, New York, “Wiley-ntersconce, p80. 34 ges sociais, aquelas que fazem a vida de todos os dias, tém uma interminével indicialidade, e 0 soci6logo s¢ acha diante de “uma tarefa infinita de substituigao por expressdes objetivas das expressdes indiciais’ Por isso Garfinkel cita Husserl que falava “de expresses cujo sentido no pode ser decidido por ‘um ouvinte sem que necessariamente saiba ou presuma alguma coisa sobre a biografia e os objetivos do usudrio da expresso, das circunstancias do enunciado, do curso anterior da conversagéo ou da relagdo particular da interapao atual ow potencial que existe entre o locutor € © ouvinte” (Studies, p. 4). Assim, diz-nos P Pharo, “A indicialidade nto se relaciona 26 com esses termes, chamados pelos linguistas de déicticos (isto 6 indicado: res de pessoa, de tempo. lugar envolvidos na interagaa), mas de modo mais geral com todas as expressdes da linguagem ordindria cujo sentido, enquanto otorréncia Ge palavrastipos, nfo se pode nunca reduzir pura ¢ simplesmente & significagéo ‘objetiva’ das palaveas da Simplesmente & signfcagdeshjetiva’ dee palavras ‘Uma expressio da linguagem corrente foi minucio- samente analisada por diversos etnometodélogos"’: trata-se da expresséo “et caetera”. Ela desempenha muitas vezes a funco de complemento de demonstra $0, subentende: “Vocé sabe muito bem o que quero, Gizer, ndo preciso insistir, definir com precisio tudo 2 Pat: Canadas uation ur wer Aopen ene a uti etry spin fe Sat Biba Pea 3 Bie Radi A Sy ae Sly Krewe ‘gmerza Sotlgial Resi, 28, 88894; Cours iO Ae fee oe Scr ads Boule anguage and Meaning, em: ouglss (Ed), Understanding Eve Si ree Rd og Rae eae ace pete a teeta carn os ‘thodologique, Université de Paris VIil, "re derecherehe ebinomé: 35 aquilo que se relaciona com aquilo que acabo de dizer, ‘voo8 pode facilmente completar por si mesmo, conti- nuar a minha demonstrago, encontrar outros exem- plos para a minha enumeragéo, et caetera”. Aregra do fet cactera” exige que um locutor e um ouvinte aceitem tacitamente e assumam juntos a existéncia de signifi- ‘cages e de compreensves comuns daquilo que se diz quando as descrigdes so consideradas evidentes, ¢ mesmo que néo sejam imediatamente evidentes. Isso manifesta a idéia de existir um saber comum social- mente distribufdo. A isso Cicourel deu o nome de “cardter retrospectivo-prospectivo dos acontecimen- tos”, que se acha bem “significado” na regra do “et caetera” e de suas sub-rotinas: 4 x vvagas, amb(guas ou truncadas, sf identi- Feades pelos membros, que thes dao significagées con- textuais transcontextuais, grapas ao caréter retros- ivosprospectivo os acontecimentos que essas oxpres~ ca Goacrovors Os enunciagos presenias dos fats ds- eritos, que comportam nuances amb{guas ou previsfveis, podem ser examinados prospectivamente pelo locutor-ouvinte em seus sentidos potencais fut: Fos, supondo assim que a completude das significarses ‘2das intengbes presentes se manifestaré mais tarde, Ou ‘ntdo comentarios passados podem de repente clarificar enunciados presentes. Os principios de completude e de conexio permitem ao ator manter um sentido da estru- {tara social, além do tempo dos reldgios e do da experién- ito do cardter deliberadamente vago, 0% considerado tal, da informacdo transmitida pelos atores no decorrer de seus interc&mbios"™. Para os légicos, as expresstes indiciais sfo vistas como inconvenientes, pois n&o permitem enunciar pro- posigées gerais, ou decidir acerca da verdade de uma Coisa quando se ignoram as circunstAncias contextuais de sua produgo, Daf, muitas vezes, os socilogos ten- tarem, e de modo ainda mais geral os que se dedicam cose, 1972 CohiiveSoilogyLanguage and Meaning in Soil Bre Nore Serks Brew Preset a brn exh deoniel es et ana: Ea tovlogtetognioe, Pra, PUR 1978 36 as ciéncias antropo-sociais, extirpar as expressées in- diciais, a fim de substituf-las por expresses objetivas. Mas trata-se de uma tarefa muito dificil, e mesmo imposstvel, pois como decidir que esta expressao ¢ indi- cial, ao passo que aquela é objetiva? Por isso Garfinkel, mesmo que nao tenha certamente introduzido o con: ceito de indicialidade, sugere que se examine de ma- neira diferente: as expressdes indiciais nao constituem expressdes parasitas no decorrer de nossas converses de cada dia, Sdo, pelo contrério, elementos constituti- vos desse discurso constituido gragas a0 seu uso. A Tinguagem cotidiana tem um sentido ordindrio que as pessoas ndo sentem dificuldade para compreender. A inteligibilidade de nossos didlogos, mais do que sofrer por sua natureza indicial, dela depende, e é 0 conheci- mento das circunstancias do enunciado que nos permi- te atribuir-lhes um sentido preciso, E assim, ao invés de criticar a linguagem ordindria porque seria incapaz de explicar um certo niimero de principios metodolégi- cos, Garfinkel se propde estudd-la considerando o seu ceréter indicial néo como um defeito, mas como uma de suas principais caracteristicas, procurando como ¢ que usamos a linguagem ordinéria dando sentido, de uma maneira rotineira e banal, as expressdes indiciais, Falar de indicialidade significa igualmente que o sen- tido 6 sempre local e ndo tem generalizagdo possivel, contrariamente ao que nos desejariam fazer crer as cigncias antropo-sociais, Isto quer dizer que uma palavra, por suas condigées de enunciacdo, uma instituigao, por suas condigdes de existéncia, s6 podem ser analisadas tomando em conta as suas situagdes. Por conseguinte, a anélise dessas situagdes indiciais nunca termina: “Atentativa de limpar o mundo das expressdes ndiciais, que é uma tentativa de substituir por expressées obje tivas as expressdes indiciais, torna-se um tema de des- righ e anglise ao invés de um esforgo para resolver 0 problema”, 32, D, Benson oJ.A, Hughes, 1983: The Perepective of Bthnomethodalay ‘Londres e Nova York, Longman, p. 118 37 3, Areflexividade Pablo se acha internado em um estabelecimento de readaptagdo para toxicOmanos. Teme represdlias da parte de um outro detento recentemente posto em liberdade condicional e que em breve chegard também a0 centro, Pablo entra em pAnico diante da idéia de o outro achar que ele 6 um delator, Alguns anos antes, eles consumiam e vendiam drogas juntos. Ambos fo- ram detidos, mas somente o outro foi condenado. As- sim, Pablo acha que o outro deve pensar que ele 0 denunciou, mas nao é verdade. Quer deixar o estabe- lecimento, para evitar represdlias, inclusive dos seus atuais companheiros que, sabendo de sua propalada delacdo, poderdo agredi-lo, talvez até mesmo assassi- né-lo, Sua “confissio” coloca Lawrence Wieder na pista do c6digo implicito em vigor entre os detentos. Wieder certamente jé descobrira, desde 0 coméeo do seu estudo sobre o centro, a existéncia de tal cédigo, como existe em todos os centros de detengdo, mas jamais tivera a ocasito, exceto no “caso Pablo’, de analisar casos de delagao, de ver funcionando esse c6digo. Mas Pablo, durante uma conversa, diz a um educador do centro: “Voce sabe muito bem que no sou um delator”. Os detidos falavam facilmente desse c6digo, verda- deira ordem moral que regia seus comportamentos cotidianos, bem como dos castigos aplicados aos “puxa- sacos, delatores e aos maricas”. Esse cédigo, constan- temente aplicado mas ndo formalizado dessa maneira pelos detidos, se referia portanto em primeiro lugar & delagio, mas também por exemplo ao fato de nao se queixar dos roubos de que se é vitima, compartilhar ou vender aos outros detidos a droga que se conseguiu, 18, D.L, Wieder, 1974: Tellin the Code, em: R. Turner (Bd), Ethnometho ology op. ep. LAUT 38 ajudar os outros a satisfazer o seu comportamento desviante, nunca confiarnos educadores, ete. As regras do e6digo se tornam aos olhos dos internados maximas de conduta: por exemplo, nunca delatar é sempre ficar longe e em atitude desafiadora em face dos guardas, para mostrar claramente aos outros que ndo hé perigo de algum dia delatar os outros tendo logo adotado uma atitude de proximidade ou simples cordialidade para com os guardas. Trata-se de um modo néo verbal de dizer 0 cédigo. Wieder ilustra aquilo que denomina uma formula- $0 reflexiva (p. 152), repetindo a expresso de Pablo: “Voce sabe muito bem que ndo sou um delator’. A anélise dese enunciado faz aparecer diversos elemen- tos: ~Enuncia o que acaba de se passar, por exemplo: “Voce me convidou a delatar” ~ Formula aquilo que o jovem faz quando diz: “Minha resposta é nfo responder". {formula o "motivo" dando resposta, a saber «lei do = Indica a distancia permanente e institucionalizada entre um detido © um educador, um vigilante ow um sociélogo. ~Corta de safda a possibilidade da solieitagao potencial daquele que faz as perguntas, que estd do outro lado da barreira Pode-se dizer que os primeiros elementos fazem referéncia & interacdo; os segundos, ao contexto insti- tucional que funda, segundo Parsons, as relagdes entre os papéis. Mas se estes aspectos, como observa Wid- mer", postos em destaque pela anélise de Wieder, podem levar a pensar em uma demarche de andlise 14.5, Widmer, 1966: Langage et action sociale, Aspects philesophiques et ‘sémiotiques du langage dans la perspective de lethnorethodoogie, Test ‘e'doutorado em Letras, Universidade de Friburg, Sule, 39 sociolégica, na realidade estamos sempre no terreno da etnometodologia. Com efeito, admite-se que tudo aquilo que ¢ realeado pela andlise permanece ampla- ‘mente implicito na resposta do jovem interno. E uma maneira de atualizar o cédigo em uma férmula que é exigida pela situagdo presente, pela interagdo. Como a codificagio do saber magico de Don Juan, descrito por Castafieda™, é uma tradugio analftica de um conheci- mento vernacular, a andlise da lei do siléncio, da mesma forma é também um discurso erudito, analiti. co, sobre uma espécie de linguagem secreta do interd to que traduz a lei implacdvel do grupo de delin- quentes. Lei que ndo se formula na realidade a ndo ser ‘em situagdo e em uma interago concreta. Wieder apresenta de infcio a lei do siléncio dos Jovens do centro como o faria um sociélogo descrevendo leis informais em “subculturas desviantes’. Mas a seguir ele acentua o aspecto reflexivo e interacional dessas formulagées. A “lei do silencio" é constitutiva da situaggo. A linguagem constitui o mundo, no decorrer das atividades indiciais. Nao existe um lugar a partir do qual o mundo seria produzido; ele se autoproduz. O c6digo ndo é uma coisa exterior & situago. E algo de prético, com enunciados indiciais, A interagdo “diz” 0 c6digo. Nao se pode separar o cédigo daquilo que esta codificado, isto 6, o interdito constantemente ativado nas ages, no momento em que surge o perigo de transgressio do interdito, Pablo corre o perigo da transgressio. O cédigo emerge porque Pablo teme que © c6digo Ihe seja aplicado, O cédigo nao 6 o objeto de conversagies, de comentérios mundanos entre os de- tentos; ele 6 vivido. O e6digo 6 geralmente técito, mas 18.C. Castefieda, 1972: A Journey fo etlan, Nova York, Simon & Schuster. 40 ‘a0 mesmo tempo estrutura a situagdo, Pode aflorar & linguagem, Nao se deve confundir a reflexividade com a refle- xo, Quando se diz que as pessoas tém préticas refle- xivas, isto significa que refletem sobre aquilo que fazem. Os membros no tém evidentemente conscién- cia do cardter reflexivo de suas ages. Seriam incapa- zes, caso disso tomassem consciéncia, de dar prosse- guimento as agdes priticas a que se entregam. Como 0 frisa Garfinkel, os membros se desinteressam pelas circunsténcias préticas e ages praticas enquanto te- mas. Nao se preocupam em teorizar e “consideram essa reflexividade como algo evidente. Mas reconhecem, demonstram e tornam observavel a cada ‘um dos outros membros o cardter racional de suas réticas concretas ~o que significa ocasionais ~ embora considerando essa reflexividade como uma condigao inalterével e inevitavel de suas pesquisas" (Studies, p. 9, e “Arguments”, p. 61-65) Em vez de considerar a reflexividade como um obstdculo para a manutengao e a compreensio da ordem social, Garfinkel a toma ao contrério como uma condig&o primeira, Areflexividade designa portanto as préticas que ao mesmo tempo descrevem e constituem o quadro social. a propriedade das atividades que pressupSem a0 mesmo tempo que tornam observavel a mesma coisa, No decorrer de nossas atividades ordindrias, nao pres- tamos ateng&o ao fato de que ao falar construimos 20 mesmo tempo, enquanto fazemos nossos enunciados, © sentido, a ordem, a racionalidade daquilo que esta: mos fazendo naquele momento. As descrigSes do social, se tornam, assim que proferidas, partes constitutivas daquilo que deserevem: “Para os membros da sociedade, 0 conhecimento de senso comum dos fatos da vida social é institucionaliza- do como conhecimento do mundo real. O conhecimento de senso comum nao pinta apenas uma sociedade real para os membros, mas, & maneira de uma profecia que al 40 realiza, as caracteristicas da sociedade real sfo pro- uzidas pela aquiescéncia motivada das pessoas que jé alimentam essas perspectivas” (Studies, p. 55). Descrever uma situacdo é constituf-la, A reflexivi dade designa a equivaléncia entre descrever e produzir uma interagGo, entre a compreensao e a expresso dessa compreensao. E vamos ver que Garfinkel chama de acount o suporte, 0 vetor, o vefculo dessa equivalén- cia. “Fazer” uma intera¢do ¢ 0 mesmo que “dizer” a interagdo. A reflexividade pressupde ‘que as atividades pelas quais o8 membros produzem e administram as situagdes de sua vida organizada de todos os dias sdo idénticas aos procedimentos usados para tornar essas situacdes deseritfveis” (Studies, p. 1) 4. Aaccountability No prefécio aos Studies, escreve Garfinkel: “Os estudes etnometodolégicos analisam as atividades janas dos membros como também dos métodos que ‘mesmas atividades visivelmente racionais todos 08 fina praticos, sto 6, descritiveis accountable), enquanta organizagdo ordindria das at. vvidades de todos os dias”, Louis Quéré" sublinha “duas caracterfsticas im- portantes da accountability: ela ¢ reflexiva, é racional, Dizer que ela 6 reflexiva 6 0 mesmo que sublinhar que a accountability de uma atividade e de suas circuns- . um elemento constitutive dessas ativida . Diz cional significa “ q _& metodicamente produzida em situa, fo, ¢-aue 2 dade” Quéré vai pedir emprestados de Garfinkel quatro exemplos de accountability: 0 estudo do Centro de Prevengao do 16. L, Quéré, 1984: Largument sociologique de Garfinkel, em: "Arguments thnométhodclgiques’ p. 100-187 42 Suic{dio de Los Angeles (SPC em inglés), o caso Inés, ‘a descoberta do pulsar ético e enfim uma conversarao ordinéria relatada e analisada nos Studies. Examina- remos 08 dois primeiros exemplos neste capitulo; va- mos nos encontrar de novo com os dois outros quando apresentarmos os terrenos de aplicagdo da etnometo- dologia, Oestudo das atividades do SPC aparece no primei- ro capitulo dos Studies. Este Centro realiza, a pedido do juiz, pesquisas sobre casos de morte néo natural, Deve estabelecer se se trata de suicfdio ou de outra coisa. Garfinkel quer saber se as sondagens do pessoal do SPC sio compardveis, por seu procedimento de senso comum e de sociologia leiga, as deliberagdes do Jiri de um tribunal, a selegéo dos doentes para um tratamento psiquidtrico ou aos procedimentos de codi- ficagdo do contetido de dossiés médicos por estudantes de sociologia, bem como “aos procedimentos profissio- nais, dos mais diversos, aplicados na realizagdo de uma sondagem antropolégica, linguistica, psiquidtrica ou sociolégica”. Na conclusdo deste mesmo capitulo, Garfinkel enuncia algumas recomendagdes que cons- tituem um elemento importante de metodologia em matéria de pesquisa etnometodolégica. Quéré comenta essas recomendagtes sublinhando que existem dois niveis de andlise: 0 da auto-organiza- 40 do Centro de Pesquisas - 0 SPC - eo dos accounts, ou da representacdo do outro: “No primeiro nivel 0 SPC se auto-organiza como reali- de objetiva ordenada, finalizada, dotada de raciona- lidade e coaréncia. Esta auto-organizagao se traduz por arranjos materiais, por uma divisdo do trabalho, pela definigao de procedimentos de pesquisa, de procedimen- tos de constituipdo e de revisdo de dossiés, de métodos de arquivamenta, pelo actimulo de recursos (informagées, redes de informagdes, agendas com enderegos, etc.). No segundo nivel, o organismo constréi, mediante préticas de investigagao e interpretagao sobre si mesmo, accounts em que ele se langa no paleo como se fosse realidade 43 objetiva, dotada de identidade, finalidade e estrutura de ordem (racionalidade, coeréncia, eficiéncia, clareza...). Oemembros tim & sua disposipso, a partir des accounts, que thes silo fornecidos e que contribuem para produzir, ‘uma representago do organismo como realidade obje- tiva, racionalmente ordenada em fungéo de fins ou de razSes sociais, Eases accounts, deste modo, sto parte integrante de auas circunsténcias préticas e informam a sua atividade de pesquisa; fornecem-lhes recursos para ao mesmo tempo garentir a inteligibilidade, a descritibilidade e a racionalidade de suas praticas e produzi-las como prdticas ordenadas e racionais” (Qué- 6, p. 104). Aqui se pode compreender que os etnometodélogos procuram definir e teorizar a accountability, dizer em que os accounts sGo “informantes” ou “estruturantes” da situagdo de enunciagao". Tx wtntoctous © O segundo exemplo proposto por Quéré éa histérid de Inés, que ocupa todo 0 quinto capitulo dos Studies. ‘Inés é um transexual que decidiu tornar-se mulher pediu para ser operado na clinica da UCLA, onde se apresentou em 1958, quando tinha 19 anos. Mandou extrair o pénis e substituf-lo por uma vagina. Garfin- kel invervém no caso a titulo de perito no contexto de uma pesquisa sobre a transexualidade, organizada pela clinica. Durante 35 horas ele conversa com Inés, que a esta altura trabalha como secretéria. Ele a descreve como “uma moga bonita, com medidas impressionantes, uma pele feminina, totalmente imberbe, maquiagem discre- ta, de porte fino, com pés um pouquinho grandes, voz doce, feminina, mas grave”. Garfinkel mostra que Inés deve continuamente exibir, em todas as atividades da vida cotidiana, as caracterfsticas culturais da mulher considerada “nor- 17, DH, Zimmermann e M, Poller, 1970: Underatonding Everyday Life ‘Londres, Routledge & Kegan Paul mal”. Essa produgdo do seu ser-mulher é uma tarefa pratica que ndo cessa, jamais acabada, pois ela nao possui um dominio rotirieiro da feminilidade. Ela deve a0 contrério controlar continuamente as préprias ati- tudes, quando come, quando vai & praia ou quando dissimula a sua anatomia diante da amiga com a qual partilha o apartamento. Mostra assim, segundo a for- mula cara a Simone de Beauvoir: “Ninguém nasce mulher; torna-so”. Em geral se nasce em um corpo de vardo ou de mulher, mas em seguida é preciso tornar- se cultural mente um rapaz ou uma moga e mostrar a0 mesmo tempo para o préprio circulo o cardter efetivo da masculinidade ou da feminilidade. Aaccountability, aqui, é esta “exibigdo” da perso- nalidade sexual nas atividades e nos comportamentos de cada dia, E sua declaragéo constantemente renova- da, ao passo que de modo geral ela se vive como natural, por ser rotineira, Mas Inés deve tomar cuidado no modo como faz essa “auto-apresentagdo”, a fim de se mostrar como um “caso da coisa real”. O trabalho de instituig&o da sexualidade em cada um de nés 6 geral- mente escondido e olvidado, mais ou menos como em Karl Marx os produtores esquecem a produgio da mercadoria no processo da reificagao". Essa reificarao @ esse esquecimento surgem como efeito das “disposigdes mediante as quais a sociedade esconde de ‘sous membros as suas atividades de organizagto e os leva assim a apreender os seus tragos como objetos determinados e independentes” (Studies, p. 182). Dizer que o mundo social ¢ accountable significa que ele é algo dispontvel, isto é, descrit{vel, inteligivel, relatdvel, analisdvel. Essa analisabilidade do mundo social, a sua descritibilidade e sua objetividade se mostram nas ages praticas dos atores, O mundo nao 18, Sobre ete processo do rificapto ef. J. Gabel, 1962: La faves conscin. ‘ce Paria, Minuit 45 NN. 6 dado de uma vez por todas. Ele se realiza em nossos, tos préticos Entéo a etnometodologia borda os relatos do mundo social feitos pelos seus ‘membros como realizagtes em situagSo, nfo como indi- cios daquilo que se passa verdadeiramente. A etnome- todologia, de modo geral, se preocupa em elucidar a maneira como os relatérios ou relatos, ou as descrigées de um acontecimento, de uma relago ou de uma caisa, ‘880 produzidos em interagio, de tal modo que atingem lum estatuto metodolégico claro, por exemplo estabele- cido ou ilusério, objetivo ou subjetivo ete.” Contrariamente ao que as vezes se pretende, os etnometodslogos ndo tomam como descrigées da reali- dade social os relat6rios dos seus atores. A anélise desses relatos ou relatérios nao Ihes é itil a nao ser na medida em que mostra como os atores reconstituem permanentemente uma ordem social frégil e precdria, a fim de se compreenderem e serem capazes de inter” cambio, A propriedade dessas descrigies nao é a de descrever o mundo, mas de lhes mostrar sem cessar a constituipao, E o sentido que se deve dar, em todos os estudos etnometodoldgicos, a expresstio, tdo repetitiva e tdo misteriosa, de account: se eu descrevo uma cena da minha vida cotidiana, no o faco enquanto ela me “diria” o mundo que minha deserigdo pode interessar a um etnometodélogo, mas enquanto essa descrigio, em se realizando, “fabrica” o mundo, o constr6i. Tornar o mundo visfvel significa tornar_a minha ago com- preenafyel, descrevendo-a, pals eu mostro oeu senti bela revelapto a outrem dos processes pelos quais eu a relato. 18, DH, Zimmerman, 1976: A Reply to Professor Coser, The Americen “Sociologist 11 (ex), p. 4-18 46 5. Anogiio de membro No vocabulério etnometodol6gico a nogao de mem- bro ndo se refere a pertenga social mas ao dominio da linguagem natural: “Agiopt Te riembRD constitu ofundo do problema. Nao satne teri em referéncia a uma pessoa. Refere-se sobretudo ao dominio da linguagem comum, que ouvi- mos da maneira seguinte. Afirmamos que as pessoas, por causa do fate de falarem wi EGham-se de certa forma empenhadas na producto ena apresentagtio objetivas do saber d& a negécfos cotidianos enquanto-fondmenos chservaveis.e relatdvels Com uma frequéncia e uma insisténcia universais, os membros emprogam férmulas destinadas a reme- diar o cardter indicial de suas expressdes e, concreta- mente, procuram substituir as expressbes indiciais por expressées objetivas™”. Parece até que Garfinkel teria passado da concep- fo parsoniana da node de membro, que insistia na collectivity membership”, isto &, 0 fato de pertencer a uma comunidade, aquela, mais “Linguistica”, que su- blinha o dominio da linguagem natural. Mais recentemente, conversando com Bennetta Jules-Rosette”, Garfinkel volta a usar o conceito de membroe rejeita mais nitidamente ainda que em 1970 a definigao parsoniana do “membro” “Bm uma férmula-manifesto falo da produgdo local edo carter naturalmente ‘disponivel-e-favordvel’ da ardem social. Nossas pesquisas nos remetem fatalmente a Merleau-Ponty, para reaprender o que ele nos ensinou a nossa familiaridade com a sociedade é um milagre sem 20,H. Garfinkel eH. Sacks, 1970: On Formal Structures of Practical Action, op. cit, p. 342 21, Garfinkel indica mui claramente, nas notas dea pégines 87 & 76 dos Stdien que a exreat cles mambeahp deve ss tomade eu aments ho sentido que lhe € ateibuldo por T, Parson, ery The Social Sytem partcularmente 22, B. Jules Rosette, 1985: Pniretien avec Harold Garfinkel, Soi, m6 ‘eiambro, vl Ip. 508, 47 4o cessar renovado, Essa familiaridade, tal como a conce- bemos, abrange o conjunto das realizagées da vida coti- diana como prdticas que se acham na base de toda forma de calaborapde e de interapio. Temos que felar das aptidees que, enquanto competéncia vulgar, afo neces- drias para as. produgdes constitatives. do fenémeno otidiano da ordem social, Resumimos essas competén- clas introduzindo a nogto de ‘membros Usar a nogio de ‘membros’ é algo que envolve riscos, Na sua acepeio mais comum, para nés ela é pior que inutil. O mesmo se diga quanto aos conceitos de ‘pessoas particulares’ ou ‘individuos’. Certos sociélogos insistem, e segundo eles em harmonia conosco, que temos de conceber membros como individuos coletiva- mente organizados, Nés rejeitamos redondamente alegac&o. Para nés, as ‘pessoas’, ‘pessoas particu- e ‘individuos’ ndo passam de aspectos observa- veis de atividades ordindrias". ‘Tornar-se um membro significa filiar-se a um gru- po, a uma instituigdo, o que exige o progressivo domi- nio da linguagem institucional comum. Essa filiago repousa sobre a particularidade de cada um, sua ma- neira singular de enfrentar 0 mundo, de ‘estar-no- mundo’ nas instituigdes sociais da vida cotidiana, Uma ver ligados & coletividade, os membros ndo tém neces- sidade de se interrogar sobre o que fazem. Conhecem as regras implicitas de seus comportamentos e acei- tam as rotinas inscritas nas préticas sociais, Com isso ndo se ¢ um estranho a prépria cultura e, ao invés, 08 comportamentos e as perguntas de um estrangeiro podem nos parecer estranhos, Um membro nio ¢ portanto apenas uma pessoa que respira e pensa. E uma pessoa dotada conjunto de iiédos de agir, de métodos, de at de savoir-faire, que a fazem capaz de inven sitivos de adaptagdo para dar sentido ao mundé que a éerca. E alguém que, tendo incorporado os etnométo- dos de um grupo social considerado, exibe ‘natural- mente” a competéncia social que o agrega a esse grupo e The permite fazer-se reconhecer e aceitar. 48 ”