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A Vida de Armínio

No século XVI, nos Países Baixos, Deus levantou um homem para trazer uma importante contribuição para a soteriologia a doutrina da salvação, e por Sua eterna graça, o colocou entre os grandes teólogos de todos os tempos. Seu nome: Jacó Armínio. Armínio nasceu no dia 10 de outubro de 1560, em Oudewater, cidade situada no sul da Holanda, entre Utrecht e Roterdam. Esta típica cidade holandesa, erguida às margens do rio Ijssel, contava na época com cerca de dois mil habitantes 1 e era uma cidade importante, onde aconteceu uma das primeiras reuniões que estabeleceram a nova República da Holanda, quando a região ainda fazia parte do Império Espanhol.

O menino foi registrado com o nome de Jacob Harmenszoon (“filho de Harmen”) e, seguindo um

costume da época, posteriormente ele latinizou seu nome para Jacobus Arminius (Arminius era o nome

de um chefe germânico do século I que lutou contra os romanos). Seu pai, Harmen Jacobszoon, era cuteleiro (ou armeiro) e faleceu quando Armínio ainda era bem pequeno ou mesmo antes que seu filho

nascesse não há um registro claro. Sua mãe chamava-se Engeltje Harmensdochter, cujo nome depois foi latinizado para “Angélica”. Seus pais eram naturais de Dordrecht e tiveram outros filhos, sendo Armínio

o caçula. A vida deste pequeno holandês não seria nada fácil, marcada por momentos de perdas,

perseguições, tribulações e muitas outras dificuldades. Porém, como acontece na vida de homens escolhidos por Deus para realizar grandes obras, o Senhor iria usar todos estes momentos de provações para lapidar um homem humilde, de um caráter aprovado e dedicado a servi-lo.

A infância deste futuro teólogo foi um tempo difícil, pois além das dificuldades familiares, o

momento era de tribulação, na Holanda. Os Países Baixos lutavam para libertar-se do domínio espanhol

e da tradição católica romana. Carlos V, que foi educado naquela região, tornou-se imperador do Sacro

Império Romano no início do século XVI, quando eclodiu a Reforma Protestante na Alemanha (1517), que se espalhou por toda a Europa. O sucessor de Carlos V, Filipe II, rei da Espanha, declarou que preferia

morrer cem mortes a ser um rei de hereges e decidiu eliminar os protestantes de suas terras. Em 1566, alguns calvinistas atacaram igrejas católicas para destruir imagens e Filipe II enviou para os Países Baixos

o Duque de Alba, chamado de Duque de Ferro, com o seu exército. Alba atacou várias cidades com

rigor e também estabeleceu elevados impostos sobre a população. A nobreza holandesa se uniu e pediu o fim das punições contra a fé católica, o que foi negado e provocou um violento movimento contra a

1 BANGS, 2015, pág. 36.

restrição da liberdade religiosa que resultou na revolta da Holanda, liderada por Guilherme de Orange, dando início à Guerra dos 80 Anos, que durou de 1568 até 1648. Ao mesmo tempo em que buscava a libertação política, os holandeses estabeleciam a sua igreja protestante, rejeitando a doutrina católica da salvação pelas obras e estabelecendo o calvinismo como o pensamento dominante. A fé protestante já se fizera sentir na Holanda em 1523, através de contatos do holandês Hinne Rode com o reformador suíço Zuínglio. Em 1561, o belga Guido de Brès escreveu uma confissão de fé que ficou conhecida como a Confissão Belga. A igreja reformada de Amsterdã foi fundada em um sínodo realizado em Antuérpia, em 1566 e adotou a Confissão Belga como o principal padrão doutrinário dos calvinistas holandeses. Em 1579, os estados do sul (situados hoje em sua maioria na Bélgica) declarariam lealdade ao rei espanhol. Nos dez anos seguintes ele restabeleceria a religião católica na maior parte desta área. Como resposta, Guilherme de Orange, que abraçaria o calvinismo em 1573, uniria os estados protestantes na União de Utrecht. Esta União levaria mais tarde (1581) à independência, separando-se da Espanha e formando a República das Sete Províncias Unidas dos Países Baixos. Após o assassinato de Guilherme, em 1584, seu filho Maurício de Nassau assumiria o comando dos exércitos. Como resultado dos conflitos, os Países Baixos se dividiriam em Bélgica e Luxemburgo (católicos) e Holanda (reformada). Apenas em 1648, a Espanha reconheceria, pelo Tratado de Munster, a emancipação das Províncias Unidas. Definitivamente, era um tempo angustiante para uma mãe que tinha filhos pequenos para criar. Porém, como Deus não desampara o seu povo, Ele providenciou um protetor para cuidar de Armínio neste momento de dificuldade financeira, o primeiro dentre muitos tutores e patrocinadores que o Pai Celestial levantaria para amparar este filho da Holanda durante a sua vida. Este homem seria responsável por estabelecer os primeiros rudimentos da fé e da formação clássica de Armínio. Seu nome: Teodoro Emílio. Ele era um ex-sacerdote católico romano convertido ao protestantismo, provavelmente um parente de Armínio, que levou o menino para morar em Utrecht, a fim de instruir-se. Além de tratar o pequeno holandês como seu próprio filho, este professor introduziu o menino nos estudos de grego e latim, e inculcou nele os rudimentos da fé e da virtude 2 . Armínio provavelmente estudou na Escola São Jerônimo, onde recebeu uma orientação baseada na Bíblia e também uma formação clássica, com estudos em matemática, retórica, dialética e física. Quando Armínio tinha 15 anos, este seu protetor faleceu e Deus levantou outro patrocinador para seus estudos, o professor de filosofia e matemática Rodolfo Esnelio, que visitava Utrecht, quando conheceu o desamparado órfão e o levou consigo para Marburgo, na Alemanha, para que ele pudesse continuar seus estudos. Outra vez a providência divina ampara o jovem, cumprindo a palavra de que Ele

2 GUNTER, 2012, pág. 14.

é pai de órfãos. Numa época de guerra, um menino órfão sem recursos financeiros tem financiados seus

estudos em escolas de primeira categoria. Deus é um Pai amoroso, que cuida dos seus filhos! Rodolfo Esnelio (Rudolph Snel van Roijen - 1546-1613), foi um hebraísta e matemático holandês, nascido na mesma cidade que Armínio, que deu aulas na Universidade de Marburgo e Leiden. Esnelio teve muita influência em algumas das forças políticas e intelectuais da Era de Ouro da Holanda. Era proveniente de uma família rica da Holanda, ele cresceu e foi educado em Oudewater, estudou na Universidade de Colônia e de Heidelberg e em pouco tempo recebeu o cargo de professor na Universidade de Marburgo. Embora fosse treinado na lógica Aristotélica, ele ficou impressionado com a nova lógica de Petrus Ramus,

a qual ensinou junto com matemática e idiomas em seu posto universitário. 3 Em 1578, ele retornou para Oudewater logo depois de sua devastação por um assédio espanhol durante a Revolta Holandesa. Não muito tempo depois, aceitou o cargo de professor de Hebraico e de matemática na Universidade de Leiden. Um de seus alunos em Leiden foi o garoto prodígio Hugo Grotius,

o qual não apenas se envolveria nas lutas políticas em torno de Armínio, mas que posteriormente iria se

estabelecer como um teórico político fundamental da baixa idade moderna. Enquanto Armínio estava na Alemanha, sua cidade natal se encontrava cercada por um exército inimigo. Este é outro momento de grande tribulação na vida do rapaz. Em 1575, o Duque de Alba, após um cerco de meses, tomou a cidade e matou a maioria dos seus habitantes. A família de Armínio foi completamente dizimada neste massacre, a cidade foi quase completamente arrasada, as mulheres violentadas e quase todos os habitantes foram mortos. Após duas semanas de pranto e lamentação, o jovem holandês vai à sua terra natal apenas para chorar sobre as cinzas de sua casa e dos corpos consumidos de seus parentes, inclusive sua mãe e irmãos, retornando a Marburgo para continuar sua formação. Esta viagem de retorno, de cerca de 400 quilômetros, ele a fez inteiramente a pé e permaneceu na Alemanha até a data de fundação da universidade de Leiden, quando retornaria ao seu país. Concluída a sua formação escolar básica, Armínio viu mais uma vez a boa mão de Deus sobre ele, levantando um ministro da Igreja Reformada da Holanda, Pedro Bertius, que o enviou a Leiden para estudar na recém-fundada Universidade protestante, a primeira universidade criada na Holanda, onde a igreja de Amsterdã custeou seus estudos, por considerá-lo um jovem promissor ao ministério 4 . Muitas personagens importantes da Europa viriam a estudar nesta Universidade, tempos depois, tais como René Descartes, Rembrandt, Hugo Grotius e Baruch Spinoza. Armínio figura entre os ilustres estudantes desta universidade, criada para dar aos jovens cidadãos holandeses e seus governantes a formação teológica e secular, tendo efetuado sua matrícula em 23 de outubro de 1576.

3 BANGS, 2015, p. 43. 4 OLSON, 1999, pág. 472.

Nesta academia, que foi criada por William de Orange (1533-1584), juntamente com Pedro Bertius,

o jovem (1565-1629), filho de seu benfeitor, Armínio estudou teologia, matemática, lógica, hebraico, grego

e latim, entre outras disciplinas. A aula inaugural foi dada por Caspar Jansz Coolhaes (1536-1615). Alguns professores de teologia que deixaram marcas profundas no pensamento de Armínio, além deste, foram Guilhelmus Feuguereus, Lambertus Danaeus (1530-1595) e Johannes Drusius. Coolhaes estudou em Colônia e Dusseldorf, na Alemanha, onde foi influenciado por Johannes Monheim (1509-1564). Ele viveu alguns anos em um monastério, tornou-se pastor em Zweibrucken, onde mostrava mais simpatia por Melancton e Zuínglio do que por Calvino e Lutero. Era conhecido por seu pensamento moderado em relação aos radicais calvinistas. Em 1574 foi convidado para pastorear em Leiden e se tornou uma figura notável no século XVI na Holanda, no conflito entre a forma como a Igreja

e o Estado devem interagir. Ele enfrentou oposição de pastores calvinistas como Pieter Cornelisz e

Johannes Hallius (1549-1619), que defendiam o pensamento de Calvino, quanto à predestinação, a rígida disciplina eclesiástica, a autoridade dos sínodos e a intolerância aos dissidentes. Coolhaes defendia o pensamento tradicional do norte da Holanda, com uma piedade bíblica, um espírito pacífico, exercício da oligarquia no poder e aversão a extremismos. Não há registros de que Armínio tenha se envolvido pessoalmente nestas controvérsias, mas certamente isto deixou marcas em seu pensamento, e ele, anos depois, demonstrará sua apreciação por Coolhaes. Por causa de sua oposição ao modelo governamental calvinista e à doutrina calvinista da predestinação absoluta, Coolhaes é considerado por alguns como um precursor importante para Arminianismo. 5 Feuguereus era conhecido por ter editado em Londres uma obra do pastor huguenote 6 Augustin Marlorat (1506-1562), de 800 páginas, em 1574. Quatro anos antes ele havia dedicado outro livro a Guilherme de Orange, quando escreveu que o Príncipe deveria cultivar a religião, mas observando o método correto, e que os homens deveriam ser liderados, mas não movidos. Por mostrar uma “ortodoxia reformada branda” 7 e tendo sido recomendado por um calvinista moderado, Petrus Villerius (1530-1590), ele foi convidado a lecionar em Leiden. Lambert Daneau (1530-1595), nome latinizado para Lambertus Danaeus, é uma das mais importantes personagens da primeira geração de teólogos calvinistas. Nascido no sul da França, ele foi professor de teologia em Genebra, e foi titular da cadeira de teologia na Universidade em Leiden. Instruído pelo próprio Calvino, tornou-se muito influente na Academia de Genebra, nas décadas após a morte do seu fundador, sendo o primeiro a tornar-se um professor em tempo integral naquela academia. Os outros,

5 Bangs, 2015, p. 58 e http://en.wikipedia.org/wiki/Caspar_Coolhaes, acessado em 15/11/2014.

6 Nome dado aos calvinistas franceses.

7 Bangs, 2015, p. 57.

incluindo Beza, serviam na dupla função de pastor e professor. Ele é mais lembrado pela criação de uma sistematização da ética calvinista. Esses escritos morais afirmavam que as bases das teorias morais dos romanos e gregos eram inúteis por causa da queda de Adão. Para Daneaus, a filosofia moral e a filosofia natural (ou seja, a ciência moderna precoce) devem ser fundamentadas sobre uma compreensão das Escrituras. Assim, Danaeus considerou que as ambições científicas de pagãos como Aristóteles e seus seguidores estavam completamente equivocados por causa de uma falta de conhecimento sobre a queda do homem 8 . Sua extensa produção literária, de cerca de sessenta livros, inclui um compêndio de teologia dogmática, tradução de comentários dos Pais da Igreja e três livros sobre a Ética Cristã 9 . Danaeus perdeu todos os seus bens no massacre de São Bartolomeu e era amigo de Teodoro Beza. Por indicação deste, foi ensinar em Leiden. Ali, entretanto, teve sérias divergências por causa de sua visão política influenciada pelo que era praticado em Genebra, que não era compartilhada pelos holandeses. A grande controvérsia daqueles dias era quanto a relação entre igreja e estado e entre a soberania divina e o livre arbítrio 10 . Caspar Coolhaes discordava dele nestes pontos e defendia um ponto de vista que mais tarde será atribuído a Armínio. Por causa da discórdia, Danaeus deixou Leiden em 1582. Johannes van den Driesche (1550-1616) foi um importante professor de línguas orientais, que se distinguiu especialmente como hebraísta e exegeta. Ele nasceu em Oudenarde, em Flandres (norte da Bélgica), estudou grego e latim em Ghent, filosofia em Leuven e hebraico em Cambridge, com Antoine Rodolphe Chevallier. Em 1572 ele se tornou professor de línguas orientais na Universidade de Oxford. Em 1577 foi nomeado professor de línguas orientais na Universidade de Leiden. Em 1585 ele mudou-se para a Frísia, e foi admitido como professor de hebraico na universidade de Franeker, um cargo que ele ocupou com grande honra até sua morte. Ele adquiriu uma reputação como professor e suas turmas eram frequentadas por estudantes de todos os países protestantes da Europa 11 . Tendo estes professores como seus mestres, vemos que Armínio teve uma sólida formação teológica e bíblica, com bases calvinistas, porém com moderação e aceitação de divergências. Outra influência que ajudou a delinear as ideias de Armínio na universidade foi o pensamento de Petrus Ramus (Pierre de la Ramée - 1515-1572), um professor de teologia e filosofia francês que rejeitava a lógica aristotélica, contrariando o método e a base filosófica escolástica da teologia de Genebra. Armínio teve contato com os ensinos de Ramus através de seu benfeitor de Marburgo, ainda antes de vir para Leiden, e mais ainda a partir de agosto de 1581, quando Esnélio veio a ser professor de matemática naquela universidade. Ramus foi um filosofo e humanista francês que, decepcionado com a chamada "ciência aristotélica", procura demonstrar em sua tese de mestrado, em 1536, que Aristóteles não era infalível. Seus

8 http://www.theopedia.com/Lambert_Daneau, acessado em 15/11/2014. 9 http://www.ekd.de/calvin/wirken/schueler/danaeus.html, acessado em 15/11/2014. 10 ROGUE apud BANGS, 2015, pág. 58. 11 http://en.wikipedia.org/wiki/Johannes_van_den_Driesche, acessado em 15/11/2014.

argumentos são considerados brilhantes, ganhando grande repercussão. Ele tornou-se calvinista em 1561 e, neste ano, propôs importantes reformas no ensino e na estrutura da Universidade de Paris. Com a eclosão da guerra religiosa entre Católicos e Protestantes na França, foi obrigado a deixar Paris, no ano seguinte. Encorajado pelo sucesso de sua tese, ele decidiu examinar cuidadosamente a doutrina aristotélica e publicou dois livros de crítica a Aristóteles, particularmente à sua Lógica, que semearam na escola grande perturbação. Ele publicou sua Nova Logica em três obras, incluindo Animadversiones Aristotelicae em 1543. Ramée desenvolveu o "método" como um conceito pedagógico significando a comprovação das teorias através de sua aplicação prática. Ele não aceita o uso de hipóteses teóricas para decidir entre teorias, mas advoga que se baseie a teoria em evidencias observáveis 12 . De 1568 a 1570 lecionou matemática em Heidelberg e em Genebra e Lousane. Em 1572, três mil huguenotes reunidos em Paris para comemorar o casamento de Marguerite de Valois com o protestante Henrique III de Navarra foram massacrados na véspera da festa de São Bartolomeu e Ramus foi assassinado por pistoleiros de aluguel dois dias depois em sua sala no College dês Presles. Seu corpo foi arrastado pelas ruas de Paris, decapitado e jogado no Rio Sena. Após sua morte violenta suas ideias concernentes a organização lógica e sua proposta de metodologia foram grandemente difundidas nas partes protestantes da Alemanha, na Grã-Bretanha e na Nova Inglaterra durante o século XVII. Ramus discordava de Teodoro Beza quanto à lógica aristotélica, a presença de Cristo na Santa Ceia e ao modo de governo eclesiástico, e defendia uma teologia mais prática que acadêmica. Aos 21 anos, Armínio era considerado um brilhante aluno e foi incentivado a continuar seus estudos. Foi, então, estudar em Genebra, tendo sua manutenção garantida pela Câmara do Comércio de Amsterdã, assumindo o compromisso de pastorear a igreja nesta cidade, quando concluísse sua formação. A Academia de Genebra foi fundada por Calvino em 1559. Quando ele faleceu, em 1564, Teodoro Beza (1519-1605), então com 62 anos de idade, tornou-se seu sucessor. Beza ensinava um calvinismo mais extremado, onde a doutrina da predestinação tornou-se o centro da discussão e um inescrutável mistério da vontade divina. A grande especulação da época era sobre a “ordem dos decretos divinos”: qual a ordem lógica dos decretos divinos relativos à criação e à redenção? Ele deduziu a doutrina da expiação limitada (que Cristo morreu apenas pelos eleitos) a partir da providência e dos decretos divinos, indo além das deduções de Calvino. Defendia uma forma extremada de predestinação, chamada supralapsarianismo, onde os decretos de eleição e condenação veem antes (supra) do decreto de permissão da queda do homem. A grande ênfase estava na soberania divina e considerava que o homem no pecado não tem livre arbítrio, nem desejos de bondade ou santidade e não pode fazer nenhum esforço para deixar o pecado. Para Beza, tudo o que acontece é por determinação divina. Porém, ele nega que o homem tenha pecado por decreto divino, o que tornaria Deus o autor do pecado, mas afirma que o homem peca por sua própria

12 Cobra, Rubem Q. Época, vida e obras de Pierre Ramée (Petrus Ramus), em www.cobra.pages.nom.br, 2011.

vontade. O propósito principal de Deus em realizar todas as coisas, para Beza, era glorificar a si mesmo, tanto nos que se salvariam como nos que seriam condenados. O reitor da Academia de Genebra e seus seguidores acreditavam que estavam apenas esclarecendo os pontos da teologia de Calvino, mas muitos estudiosos acreditam que Calvino preferiria a outra linha de pensamento: o infralapsarianismo, que ensina que o decreto de permitir a queda do homem vem antes (infra) do decreto de salvar ou condenar. Assim Armínio foi doutrinado em Genebra. Entretanto, logo evidenciou-se o conflito entre o aristotelismo de Beza e a influência da lógica de Ramus no pensamento de Armínio. Ele defendeu abertamente este pensamento e foi convidado por alguns alunos a dar aulas particulares de filosofia, especialmente sobre o ramismo. Isto despertou ciúmes e insatisfação no professor da disciplina em Genebra, o espanhol Petrus Galesius (1537-1595), ardoroso defensor de Aristóteles, que morreria nas mãos da inquisição espanhola. Para evitar o conflito, o jovem teólogo holandês deixou Genebra por um tempo e foi estudar em Basileia, no verão de 1583. Ali, ele tornou-se o aluno predileto de Johannes Jacobus Grynaeus (1540-1617), professor de literatura sacra e deão da faculdade de teologia. Na Basileia, Armínio começou a fazer exposições públicas da Epístola aos Romanos, sob aprovação de Grynaeus. Em reconhecimento de suas excelentes preleções, a universidade ofereceu-lhe o título de Doutor em Teologia. Armínio gentilmente recusou, por julgar-se jovem demais para tal honra. Aquele professor escreveu uma carta à igreja de Amsterdã, elogiando o jovem teólogo por sua piedade e assiduidade nos estudos, recomendando que aquela igreja continuasse a dar o suporte financeiro ao jovem holandês. Porém, isto não aconteceu e o ele teve que pedir dinheiro emprestado para manter-se. Em 1584, o jovem teólogo retornou a Genebra e, desta vez, evitou as discussões filosóficas. Quando as autoridades de Amsterdã escrevem para a universidade requerendo informações sobre ele, Beza responde que a vida e os estudos de Armínio estavam aprovados por todos. Ele elogia a piedade, a inteligência e a maturidade do jovem e demonstra a esperança que ele produza bons frutos. Ele ainda recomenda que Amsterdã continue a financiar os estudos de Armínio, e desta vez a recomendação é atendida. Naquela universidade Armínio pode ter sido também influenciado pelas ideias de Charles Perrot, que pregava a tolerância, que se mantivessem os fundamentos do cristianismo, mas também a paz na igreja, rejeitando as controvérsias causadas pelas pequenas diferenças entre os irmãos. No prefácio de uma obra sua que foi condenada pelas autoridades de Genebra ele afirma seu desejo que todo homem possa expressar sua própria opinião livre e totalmente. Em 1585, Armínio fez uma viagem a Zurique e, no ano seguinte, ele foi à Itália. Durante a viagem, na companhia de Adrian Junius, o teólogo holandês levava uma cópia do Novo Testamento em Grego e dos Salmos em Hebraico. Em Pádua, assistiram palestras de um famoso professor de filosofia aristotélica,

Giacomo Zabarella. Em Roma, ao contrário do que dirão seus acusadores em período posterior, viu o Papa de longe e não encontrou-se com o Cardeal Belarmino. Por dar margem a acusações de seus opositores, a viagem foi um desastre. Após esta viagem, Armínio retornou a Genebra e, de lá, seguiu para Amsterdã, no outono de 1587, onde o ministério pastoral o aguardava. Armínio iniciou seu trabalho pastoral pregando no domingo pela manhã, em 07 de fevereiro de 1588. De acordo com Bertius, ele pregava com extraordinária graça e era ouvido com toda a atenção por todos. Aos 29 anos de idade, ele tornou-se o pastor da principal igreja protestante da Holanda e a pastoreou por 15 anos. A partir do mês de novembro de 1588, Armínio começou a pregar na Epístola aos Romanos e no livro de Malaquias (onde pregou 69 sermões), alternadamente, continuando esta série, especialmente na epístola paulina, até setembro de 1601. Também pregou em textos de Marcos, Jonas, Gálatas e Apocalipse 2 e 3 13 . Sempre demonstrou em seus sermões o desejo de encontrar um equilíbrio entre a graça soberana e o livre arbítrio humano 14 . Armínio era respeitado e querido por todos, tendo realizado um ilustre ministério de pregação e ensino e se tornado um dos homens mais notáveis da Holanda. Contudo, não demonstrava sinais de arrogância ou ambição. Seus críticos nunca o acusaram de qualquer falha pessoal ou ministerial. Alguns autores afirmam que Armínio, em seus estudos sobre o tema, foi convencido pelos argumentos de Coornhert, mas seu principal biógrafo afirma que ele nunca concordou com o pensamento de Beza quanto à dupla predestinação ou mesmo o infralapsarianismo 15 . Em suas pregações baseadas em Romanos, o pastor de Amsterdam já negava a eleição incondicional e a graça irresistível 16 . Armínio foi acusado por Plancius, de ensinar o pelagianismo, desviando-se da Confissão Belga e do Catecismo de Heidelberg. Armínio negou desviar-se das fórmulas doutrinais, apelou para a autoridade dos Pais da Igreja e para a tradição protestante holandesa, de não seguir nenhum sistema teológico específico, em sua tolerância à liberdade nos pormenores de doutrina. Armínio começou a pregar sobre a epístola aos Romanos em novembro de 1588 (concluindo em setembro de 1601); em 1591 chegou ao capítulo sete, e em 1593 concluiu o capítulo 9, atraindo para si muita atenção, dadas as suas opiniões e por causa da sua crescente popularidade. De 1593 a 1603, as águas da controvérsia se tornaram mais calmas, com a atenção da Igreja holandesa se voltando para outros problemas e devido à praga devastadora em 1601-1602. Durante este período, sua visão foi foram solidificada e quarenta e cinco por cento de sua escrita foi concluída. Embora tudo tenha permanecido inédito até depois de sua morte, ele escreveu suas palestras sobre Romanos 7 e 9, realizou uma

13 BANGS, 2015, p. 171.

14 OLSON, 1999, p. 473.

15 BANGS, 2015, pág. 160.

16 OLSON, 2001, pág. 473.

correspondência com Francis Junius, escreveu sua resposta ao tratado de William Perkins e duas cartas a Uitenbogaert “que podem ser considerados tratados teológicos” 17 . O jovem ministro casou em 16 de setembro de 1590, com Lijsbet Reael, filha de um dos mais importantes homens da cidade e pertencente a uma das mais tradicionais famílias locais. Assim como o Jacó bíblico, Armínio teve 12 filhos. Herman, o primeiro, nascido em 1591, recebeu o nome do avô, e faleceu um mês após o nascimento. O segundo, de mesmo nome, faleceu doze dias após o nascimento,

pois a taxa de mortalidade infantil era alta, na época. Engheltien (Engeltje ou Angélica), é a primeira filha

e primeira sobrevivente, nascida em 14 de julho de 1593, e recebeu o nome da avó paterna. Herman é o

primeiro filho homem a sobreviver, nascido na véspera do Natal de 1594. Pieter nasceu em 07 de outubro de 1596. Jan nasceu em 25 de agosto de 1598, e recebeu o nome em homenagem a Johan (Jan) Uitenbogaert, o amigo de Armínio. Laurens é o próximo filho, que recebeu o nome do avô materno, mas não atingiu os oito meses de vida. Em 20 de setembro de 1601 nasceu outro filho, que também recebeu o nome de Laurens e sobreviveu. Jacó nasceu em 20 de junho de 1603, com a família já residindo em Leiden. Willem nasceu dia 02 de maio de 1605. Daniel nasceu em 28 de novembro de 1606. A caçula, Geertruyd, nasceu dia 12 de setembro de 1608. Dos 12 filhos nascidos, 3 morreram nos primeiros dias de vida e 9 sobreviveram. Em 08 de maio de 1603, Armínio foi nomeado professor de Teologia na Universidade de Leiden

e mudou-se com a família para esta cidade. Ali, recebeu o título de Doutor em Teologia em 11 de julho de

1603. Ele estava, então com 44 anos de idade, era “um pastor vigoroso, ativo nos concílios da igreja, ocupado em questões de cuidado pastoral e disciplina; estudioso, produzindo bastante, persistente, incansável em investigações de questões teológicas; um lógico habilidoso, o líder emergente de uma escola teológica recém-articulada, edificada sobre as antigas bases do protestantismo holandês, associado à nova era da lógica e da razão; corajoso pela verdade, mas sem medo da tolerância” 18 . Como professor, o seu ensino tornou-se conhecido e sua série de publicações começou. Armínio iniciou seu ensino com três orações sobre teologia. Suas primeiras palestras regulares foram preleções sobre o livro de Jonas (que vão até o final de 1605). Em 7 de fevereiro de 1604, ele participou de uma disputa pública sobre predestinação. Em 29 de maio, ele discorreu sobre a doutrina da igreja, e em julho, sobre o pecado original. A disputa com Francis Gomaro começou, efetivamente, em 31 de outubro de 1604, quando este palestrou em uma disputa pública sobre predestinação. Armínio preparou sua resposta, sendo esta “a última de suas longas e intimamente bem pensadas análises do escrito de um oponente” 19 . As duas disputas foram publicadas juntas, antes da morte de Armínio.

17 BANGS, 2015, p. 215.

18 BANGS, 2015, pp. 269-270.

19 BANGS, 2015, p. 309.

Em 1605, os ataques teológicos contra Armínio ficaram mais densos, com muitas acusações caluniosas de seus adversários calvinistas. Ele se envolveu em muitas disputas públicas, foi interrogado por autoridades acerca de seus ensinos e foi acusado publicamente nos púlpitos de Amsterdã. Em 1606, ele iniciou suas preleções no livro do profeta Malaquias. No dia 08 de fevereiro, em sua oração reitoral era o final de seu mandato anual como Rector Magnificus, ele sugere a convocação de um sínodo nacional para resolver as controvérsias. Armínio sofreu acusações de frentes diversas, tendo que se defender sobre a predestinação, sobre a questão do sínodo nacional, e sobre a doutrina da Trindade, pois tinha sido acusado de ser sociniano. Há acusações levianas contra ele até mesmo em países vizinhos. Espalharam rumores até mesmo que havia fantasmas na sua casa, o que seria um sinal de que um herege morava lá, bem como rumores de que ele era simpatizante do catolicismo. Em 1608 alguém fez circular 31 proposições teológicas, que foram atribuídas a Armínio e seu amigo Borrius, sobre as quais Armínio escreveu um comentário extenso, que somente foi publicado em 1629. Ainda em 1608, ele escreveu sua carta a Hipólito de Collibus. Em 30 de outubro de 1608, Armínio defendeu suas posições controversas perante as autoridades dos Estados da Holanda, em Haia, onde apresentou a sua Declaração de Sentimentos, que foi a mais sucinta e direta exposição de seus pontos de vista que foi publicada durante sua vida. No final deste mesmo ano, Gomaro compareceu diante das autoridades para acusar Armínio de ser pelagiano e de ensinar heresias secretamente. Em fevereiro de 1609, Armínio teve uma série crise de saúde. Parte de seus escritos foram publicados neste ano, por seus apoiadores, numa tentativa de calar os rumores mentirosos sobre seus ensinos. No final de agosto, ele ficou muito doente, e iniciou os preparativos para amparar sua família após sua partida. Em sua casa, aproximadamente ao meio-dia de 19 de outubro de 1609, rodeado por sua família e amigos, Jacó Armínio foi transferido às mansões celestiais. O sepultamento aconteceu no dia 22, quando Pedro Bertius proferiu uma oração fúnebre, que finaliza com a célebre frase: “viveu na Holanda um homem que os que não o conheceram, não puderam estima-lo suficientemente; os que não o estimaram jamais o conheceram suficientemente”. No ano após a morte de Armínio, quarenta e quatro ministros que sustentavam as mesmas ideias que ele, apresentaram um documento aos Estados da Holanda, que ficou conhecido como Remonstrância, onde defendiam estas teses. Em 1618-1619 ocorreu um sínodo na cidade de Dordrecht (Dort), quando os remonstrantes foram condenados como hereges e proibidos de pregar e ensinar, por um sínodo politicamente determinado, onde o inimigo fez o papel de acusador, juiz e carrasco. Alguns remonstrantes foram presos, outros foram decapitados e os outros fugiram ou foram exilados. Em 1625, com a morte de Maurício de Nassau, eles retornaram à Holanda, sob a liderança de Simão Episcópio e Uitenbogaert, e fundaram a Igreja Reformada Remonstrante, que existe até os dias de hoje.

Lijsbet, esposa de Armínio, faleceu em 25 de março de 1648, tendo testemunhado, para sua tristeza, a morte prematura da maioria de seus filhos. Apenas Daniel e Geertruyd estavam vivos para sepultar sua mãe, na mesma igreja onde Armínio iniciou suas pregações na Holanda, sessenta anos antes. A filha caçula se tornou “a matriarca do vasto clã dos descendentes de Armínio” 20 . A influência dos ensinos deste simples, porém célebre holandês se fará sentir ao longo dos séculos, tornando-se, provavelmente, o ensino mais popular acerca da salvação por meio da fé em Jesus Cristo no mundo inteiro.

Bibliografia:

BANGS, Carl. O. Armínio um estudo da reforma holandesa. São Paulo: Reflexão, 2015.

GONZALEZ, Justo L. Uma História do Pensamento Cristão. Vols 1, 2. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. GUNTER, W. Stephen. Arminius and His Declaration of Sentiments. Baylor University Press, 2012. OLSON, Roger E. História da Teologia Cristã: 2000 anos de tradição e reformas. São Paulo: Vida, 2001. SALVADOR, José Gonçalves. Arminianismo e Metodismo. São Bernardo do Campo: Imprensa Metodista, 1989. WARREN, William F. Nos Passos de Arminius - uma agradável peregrinação. New York: Phillips & Hunt,

1888.

Kleber Maia é ministro da CEMADERN Convenção de Ministros da Assembleia de Deus no RN. É graduado em Teologia com Especialização em Teologia do Novo Testamento Aplicada. Casado com Dione, têm dois filhos: Álvaro e Diana.

20 BANGS, 2015, p. 424.