Вы находитесь на странице: 1из 28
MAPEAMENTO DE POLÍTICAS E MOVIMENTOS NEGROS NO NORDESTE DO BRASIL Relatório Analítico JANEIRO, 2010

MAPEAMENTO DE POLÍTICAS E MOVIMENTOS NEGROS NO NORDESTE DO BRASIL

Relatório Analítico

JANEIRO, 2010

2

Coordenação Executiva do CEAFRO: Vilma Reis Coordenação Administrativo-Financeira: Iranildes Aquino

PESQUISADORAS/ES

Antônio Cosme Lima da Silva

Artemisa Odila Candé Monteiro

Cláudia Alexandra dos Santos João Teixeira dos Santos Luiz Chateaubriand Maria Nazaré Mota de Lima (Coordenação) Paulo Rogério Nunes

COLABORAÇÃO

Josafá Araújo

Lícia Barbosa

Marta Alencar

Vilma Reis

ARTICULADORES/AS

Lindivaldo Leite Junior - Pernambuco Solange Rocha - Paraíba Maria Batista - Sergipe Arísia Barros e Vanda Menezes - Alagoas Artemisa Odila Candé Monteiro - Piauí Carlos Benedito da Silva (Carlão) e Valdira Barros - Maranhão Elizabeth Lima da Silva - Rio Grande do Norte Juliana Holanda - Ceará Paulo Rogério Nunes e Iranildes Aquino Bahia

3

SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO

2. METODOLOGIA UTILIZADA

3. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS

3.1 Questões fechadas

3.2 Questões abertas

4. RESULTADOS POR SEGMENTO

4.1 Sociedade civil

4.2 Setor público

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

6. ANEXOS

4

LISTA DE TABELAS E GRÁFICOS

TABELAS

Tabela 1: Distribuição das organizações por estado. Nordeste, 2009 Tabela 2: Distribuição das organizações por tipo e por estado. Nordeste, 2009. Tabela 3: Formas de divulgação utilizadas pelas organizações. Nordeste, 2009 Tabela 4: Avaliação da situação atual da comunicação da organização. Nordeste, 2009 Tabela 5: Dirigentes das organizações por cor ou raça e sexo. Nordeste, 2009

GRÁFICOS

Gráfico 1: Distribuição das organizações por tipo. Nordeste, 2009

Gráfico 2: Distribuição das organizações segundo a situação formal. Nordeste,

2009

Gráfico 3: Número de organizações por ano de criação. Nordeste, 2009 Gráfico 4: Áreas de atuação das organizações por tipo. Nordeste, 2009 Gráfico 5: Público preferencial por tipo de organização. Nordeste, 2009 Gráfico 6: Distribuição do grau de instrução dos/as dirigentes das organizações. Nordeste, 2009

5

1. INTRODUÇÃO

Este relatório analisa informações sobre o Mapeamento de políticas e movimentos negros no Nordeste do Brasil obtidas por meio de levantamento realizado de junho a setembro de 2009, nos 9 estados da região, a partir de proposta aprovada pela Fundação Kellogg, construída com base no termo de referência do mapeamento de políticas, organizações, movimentos, lideranças, conhecimento e financiadores no campo da equidade e inclusão racial no nordeste.

A pesquisa teve caráter exploratório e não extensivo, na medida em que foi realizada junto a sujeitos que a ela aderiram mediante convite de articulador/a local , visando a subsidiar a Fundação na sua política de apoio às organizações que atuam no campo da equidade racial na região nordeste do Brasil.

Apesar de constituir metade da população no Brasil, os negros historicamente estiveram em situação de desvantagem, demonstrada pelos conhecidos indicadores sociais na educação, saúde, mundo do trabalho, principalmente. Na região nordeste, há maior concentração de pretos e pardos (PNAD, 2008), portanto essas desigualdades estão mais presentes nesta população, o que termina por explicar as desigualdades sociais existentes na região, demandando ações específicas a ela destinadas.

região, demandando ações específicas a ela destinadas. A Pnad 2008 confirma a histórica distribuição racial do
A
A

Pnad 2008 confirma a histórica

distribuição racial do Brasil. Enquanto no Norte e no Nordeste as pessoas se declaram predominantemente pardas ou pretas (índice superior a 70%), na região Sul, 78,7% dos entrevistados se classificaram como brancos.

No período mencionado, o CEAFRO realizou pesquisa de campo, com base na metodologia abaixo descrita, da qual resultam 9 Informes, um por estado, e esse relatório, que apresenta a síntese das informações obtidas relativas aos 9 estados.

6

2. METODOLOGIA UTILIZADA

O Mapeamento identificou 191 organizações 1 que atuam na defesa dos direitos

de pessoas negras/as, nos nove estados da região, utilizando uma metodologia que incluiu abordagens qualitativa e quantitativa. Os seguintes instrumentos de coleta foram aplicados junto a representantes das organizações pesquisadas e lideranças, convidados por um/a articulador/a local: questionário, com questões fechadas e abertas, entrevistas, grupo focal, reuniões e rodas de conversa. As informações obtidas foram tratadas e analisadas por segmento setor público e sociedade civil , e estão apresentadas neste documento, assim como nos 9 Informes, um por estado, como acordado.

Para obter as informações necessárias, os estados foram visitados por uma dupla de pesquisadores/as, sendo que um dos membros foi a Coordenadora do Mapeamento, com o fim de assegurar a unidade necessária ao trabalho de campo. Os encontros em cada um dos estados duraram 2 dias 2 , na capital, estendendo-se por algumas cidades próximas, dentro do possível.

Escolhido no âmbito das relações do CEAFRO, como pessoa-chave para intermediar o trabalho, o/a articulador/a teve papel fundamental neste mapeamento, pelo seu conhecimento, seja das pessoas convidadas, seja das dinâmicas dos movimentos no seu estado. Sua atuação permitiu a identificação das Organizações e lideranças em um pequeno espaço de tempo, facilitou a interlocução, e sua colaboração se deu em todos os sentidos, sobretudo na coordenação local, nas providências de infra-estrutura, assessoria à equipe durante a pesquisa de campo, participando, ainda, como sujeitos pesquisados.

Nos encontros e reuniões, os questionários eram respondidos por todas as organizações presentes, após apresentação dos objetivos do Mapeamento, das organizações proponentes e também das organizações convidadas. Foram feitas, dentro das possibilidades, visitas a quilombos, terreiros, museus e outros espaços importantes, e as reuniões ocorreram em diferentes espaços, todos significativos para a história de lutas e conquistas em cada estado visitado. Algumas lideranças foram entrevistadas, individualmente ou em dupla; em alguns casos, foi realizado Grupo Focal, reunindo um número maior de lideranças (6 a 8 pessoas, por grupo).

O processo foi bastante enriquecedor para todas as pessoas e organizações

envolvidas, extrapolando a função exclusiva de levantamento de informações, pois agregou significados importantes: articulação/rearticulação de grupos; socialização de informações; discussões sobre encaminhamento de questões diversas; debates sobre formas de continuidade da luta contra o racismo e a

favor da promoção de políticas de igualdade racial, de gênero, sexualidade,

1 No caso, consideram-se organizações, genericamente, órgãos de promoção da igualdade, núcleos de estudos sobre a temática, a exemplo dos NEABS, assim como entidades do movimento negro, dentre grupos culturais, associações, conselhos, etc., atuando no combate ao racismo e/ou promoção da igualdade racial.

2 Na Bahia, o Mapeamento durou 15 dias, pois não implicou viagem, uma vez que quase toda a equipe envolvida é residente em Salvador. Isso explica o número maior de organizações nesse estado.

7

regionalidade, territorialidade, classe social. As falas foram gravadas e constam de Banco de Dados do CEAFRO; também constam do acervo do CEAFRO algumas publicações, CDs, DVDs e outras peças de divulgação das organizações pesquisadas.

Alguns fatores restritivos ao trabalho desenvolvido podem ser assim sintetizados, e ajudam a entender os resultados apresentados adiante:

realização de encontros somente nas capitais, embora incluindo representação de alguns municípios do interior; tempo limitado de realização da pesquisa, inclusive de campo. No total, foram levantadas 191 organizações, como mencionado, sendo que 300 pessoas, aproximadamente, participaram dos encontros nos estados, de junho a setembro de 2009.

Basicamente, as organizações identificadas foram: núcleos, coordenações e assessorias existentes no setor público, aqui chamadas órgãos de promoção da igualdade racial; núcleos existentes nas universidades, geralmente NEABs Núcleos de Estudos Afro-brasileiros ou núcleos de Estudantes Negros/as; organizações do movimento social, dentre ONGs, entidades do Movimento Negro, Conselhos de Desenvolvimento da Comunidade Negra, Terreiros de Religiões de Matriz Africana, Blocos Afro, Fóruns e Articulações de Entidades Negras, grupos de Hip-Hop, Associações de Capoeira, Grupos de jovens, grupos de mulheres e de LBGT que transversalizam a dimensão racial, e muitos outros.

8

3. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS

As informações obtidas por meio de questionário aplicado às organizações serão analisadas, inicialmente, em relação às questões fechadas e, em seguida, em relação às questões abertas.

3.1 Questões fechadas

A pesquisa identificou 191 organizações 3 do movimento negro, atuando na defesa dos direitos de pessoas negras nos nove estados da região nordestina, com a seguinte distribuição espacial:

Tabela 1 Distribuição das organizações por estado. Nordeste, 2009

 

Número

de

 

Estado

organizações

Distribuição

(%)

Bahia Pernambuco Alagoas Ceará Maranhão Paraíba Piauí Sergipe Rio Grande do Norte Total

60

31,4

26

13,6

26

13,6

18

9,4

15

7,9

14

7,3

14

7,3

12

6,3

6

3,1

191

100

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta

Os estados da Bahia, Pernambuco e Alagoas aparecem concentrando a maioria das organizações do Nordeste (59%), sendo que as localizadas no estado da Bahia respondem por quase um terço do total (31%); as dos estados de Pernambuco e Alagoas 4 representam quase 14%, cada um. Contudo, constatou-se, nos encontros realizados nos estados, que as organizações da Bahia, Pernambuco e Maranhão são as que têm maior expressão e influência regional.

As organizações foram classificadas como vinculadas ao setor público ou à sociedade civil. Entre as instituições do setor público, estão órgãos estaduais e municipais, escolas (incluindo faculdades e universidades), outras organizações acadêmicas, fundações, conselhos e comitês; entre as da sociedade civil, encontram-se associações, movimentos, ong’s, oscip’s, fundações, instituições religiosas. Como um número expressivo de organizações respondeu “Outros” à questão que classifica as organizações, e considerando os objetivos do Mapeamento, de identificar e localizar o máximo

3 No caso, consideram-se organizações, genericamente, órgãos de promoção da igualdade racial, núcleos de estudos sobre a temática, a exemplo dos NEABs, assim como entidades do movimento negro, grupos culturais, associações, conselhos, etc., atuando no combate ao racismo e/ou na promoção da igualdade racial. 4 Em Alagoas, o Mapeamento fez parte de evento do Projeto Raízes de África, mediante proposta da Articuladora no estado.

9

de organizações atuantes no nordeste brasileiro, decidimos agrupá-las em setor público ou sociedade civil, de acordo com conhecimento obtido nos encontros realizados.

No geral, as organizações da sociedade civil respondem por 71% do universo, e as do setor público por 29%, como se visualiza no Gráfico 1.

Gráfico 1 Distribuição das organizações por tipo. Nordeste, 2009

29% 71% Setor Público Sociedade civil
29%
71%
Setor Público
Sociedade civil

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta.

A participação das organizações do setor público, no conjunto dos estados, varia entre o máximo de 42% do total, observado em Sergipe, até a ausência, no estudo, das informações sobre a instância pública de promoção da igualdade racial no Rio Grande do Norte, porque o questionário, embora aplicado, não foi devolvido até então. O resultado relativo a todos os estados pode ser observado na tabela seguinte:

10

Tabela 2 Distribuição das organizações por tipo e por estado. Nordeste, 2009.

(Em percentagem)

   

Sociedade

 

Estado

Setor Público

civil

Total

Bahia Pernambuco Alagoas Ceará Maranhão Paraíba Piauí Sergipe Rio Grande do Norte Total

33,3

66,7

100

26,9

73,1

100

30,8

69,2

100

27,8

72,2

100

13,3

86,7

100

28,6

71,4

100

28,6

71,4

100

41,7

58,3

100

0,0

100,0

100

28,8

71,2

100

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta.

No que se refere à situação legal 5 , a grande maioria, se encontra formalizada (63%) ou em processo de formalização (21%). Dessa maneira, há um empenho das organizações em cuidar da documentação, certamente visando se adequar às exigências de participação em editais e outras formas de acesso às fontes de financiamento (Gráfico 2).

Gráfico 2 Distribuição das organizações segundo a situação formal. Nordeste, 2009

(Em percentagem)

1,5 100% 5,9 90% 8,1 80% 21,3 70% 60% 50% 40% 63,2 30% 20% 10%
1,5
100%
5,9
90%
8,1
80%
21,3
70%
60%
50%
40%
63,2
30%
20%
10%
0%
FORMALIZADA
EM PROCESSO DE FORMALIZAÇÃO
NÃO FORMALIZADA
NÃO SABE
OUTRA

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta.

As respostas sobre tempo de existência mostram o dinamismo e a maturidade das organizações pesquisadas. A média de tempo de criação é de 13 anos, sendo que metade delas possui mais de 7 anos de existência. O Maracatu Carnaval do Leão Coroado, fundado em 1863, em Olinda, é a mais antiga entre as pesquisadas e 13 organizações ainda não haviam completado um ano de existência no momento da pesquisa.

As organizações da sociedade civil têm mais tempo de existência. A média é de 14 anos; metade tem mais de 9 anos de existência e 6 existem há menos de

5 Para efeito desta análise, considerou-se que todas as organizações do setor público são formais.

11

um ano. As do setor público são mais recentes, pois a média é de 10 anos, metade tem até 4 anos de criadas e 7 entre as 55 ainda não completaram um ano.

Em relação à dinâmica de criação das organizações pesquisadas, os dados apresentam alguns picos (Gráfico 3) que refletem o impacto de eventos como campanhas de visibilização dos 100 anos de (falsa) abolição, Marcha Zumbi e realização da III Conferência Mundial de Combate ao Racismo, Discriminação Racial, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata, em Durban, África do Sul, 2001.

Gráfico 3 Número de organizações por ano de criação. Nordeste, 2009

1863 1949 1959 1978 1982 1985 1988 1991 1994 1997 2000 2003 2006 2009

18 16 14 12 10 8 6 4 2 0
18
16
14
12
10
8
6
4
2
0
Setor Público Sociedade Civil Total

Setor Público

Sociedade Civil

Setor Público Sociedade Civil Total

Total

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta.

Áreas de atuação, público e ocupados nas organizações

No que se refere às áreas de atuação, há uma predominância para educação (presente entre as três mais importantes áreas de atuação em 77% das organizações), direitos humanos e ação afirmativa (71%) e arte e cultura (70%) (Gráfico 4). No primeiro caso, uma explicação possível é a existência da Lei 10.639/03, que motiva a atuação na área; no segundo caso, provavelmente, a intensificação das ações de combate ao racismo e as políticas de cotas nas universidades; e, em relação à arte e cultura, é a pujança da cultura negra que pode estar influenciando a emergência de organizações com esta característica. Uma análise das questões abertas também indica que a cultura é área forte na escolha das organizações.

Essas três áreas estão igualmente presentes entre as de maior atuação nas organizações do setor público e nas da sociedade civil, porém em intensidade e ordem hierárquica diferentes. As organizações da sociedade civil atuam muito mais intensamente na área de arte e cultura e as do setor público em direitos humanos e ação afirmativa.

12

Gráfico 4 Áreas de atuação das organizações por tipo. Nordeste, 2009

(Em percentagem) 90,0 80,0 78,4 80,4 78,2 70,0 75,9 70,1 70,7 66,9 60,0 76,6 50,0
(Em percentagem)
90,0
80,0
78,4
80,4
78,2
70,0
75,9
70,1
70,7
66,9
60,0
76,6
50,0
49,0
45,9
40,0
39,7
30,0
20,0
23,3
22,8
21,6
17,6
20,3
18,0
19,6
17,4
15,7
10,0
23,5
15,0
11,8
14,1
0,0
Setor público
Sociedade Civil
Total
Arte e Cultura
Educação
Meio-Ambiente
Emprego, Trabalho e Renda
Saúde
Direitos humanos e Ações Afirmativas
Informação
Outra

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta.

As organizações pesquisadas foram instadas a informar os três principais públicos com que trabalham. A população negra, de modo geral, aparece como o público principal para 81% delas, seguida da infância e adolescência (73%), da população quilombola e das mulheres negras, presentes em metade das organizações. Os grupos indígenas (11%) e o das lésbicas, gays, bi-sexuais e transgêneros, com 17%, são os menos assinalados pelos/as respondentes (Gráfico 5).

Esse quadro não se altera em relação aos grupos menos assistidos pelas organizações do setor público e da sociedade civil. Contudo, a hierarquia resulta diferenciada em relação à infância e juventude e à população quilombola. A infância e adolescência estão mais contempladas por organizações da sociedade civil (82%), que no setor público (47%), chamando atenção que a sociedade toma a si a responsabilidade de cuidar desses segmentos tão vulnerabilizados, enquanto o Estado atua junto a esse público, mas não lidera os percentuais, como deveria.

Quanto á população quilombola, são as organizações do setor público que assumem mais intensamente (64%), enquanto nas organizações da sociedade civil encontramos um percentual menor (43%).

13

Gráfico 5 Público preferencial por tipo de organização. Nordeste, 2009

(Em percentagem) 90,0 80,0 81,5 81,5 81,1 80,0 70,0 72,6 60,0 64,4 50,0 50,3 51,1
(Em percentagem)
90,0
80,0
81,5
81,5
81,1
80,0
70,0
72,6
60,0
64,4
50,0
50,3
51,1
46,7
45,4
40,0
50,3
50,0
30,0
13,3
20,0
10,8
11,4
20,0
17,7
18,3
10,0
15,9
17,2
17,7
0,0
Setor Público
Sociedade Civil
Total
População negra
Infancia e juventude
Quilombolas
Mulheres negras
Outro
Lésbicas, gays, bi-sexuias e trangêneros
Índígenas

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta.

Em relação à quantidade de pessoas atendidas anualmente, a média foi calculada em 1.763, sendo que 20% das organizações atendem até 100 pessoas/ano e metade até 300 pessoas/ano. O Museu Afro-brasileiro, em Salvador, com 30 mil pessoas/ano, é a instituição que declarou atender ao número maior de pessoas; a organização que afirmou possuir o menor público é a Mulheres Desempregadas, de Maceió, com 10 pessoas/ano.

O número de pessoas atendidas a cada ano é maior no setor público (4,3 mil/ano), obviamente, que na sociedade civil (1,0 mil/ano), embora essas sejam em maior número, fato também previsível, vez que para cada estado, há muitas organizações, enquanto o setor público possui um órgão de promoção da igualdade, em algumas de suas secretarias municipais e estaduais e, igualmente, algumas universidades possuem, geralmente, apenas um, ou dois núcleos de estudos voltados para a questão racial.

Em média, as organizações ocupam 42 pessoas. Dez instituições têm até quatro pessoas ocupadas e nove mais de 100. No conjunto dos ocupados, 51% são mulheres, e 82%, negros 6 .

Aspectos da comunicação e da divulgação

É relativamente pequeno o número de organizações que possui assessoria de imprensa (29%) 7 . A situação é mais precária entre as classificadas como da sociedade civil, já que apenas 21% utilizam esse tipo de profissional, em face de metade das organizações do setor público. Esse fato pode ser explicado

6 Os quesitos número de mulheres e homens e o de negros e brancos que atuam nas organizações apresentam algumas discrepâncias que devem ser mencionadas. Em primeiro lugar, o número total de mulheres e homens diverge do de negros e brancos, a favor da distribuição por sexo na maioria das vezes. Nesse texto, consideramos o valor mais elevado para a totalização da quantidade de pessoas atuando nas organizações. Outro viés advém do fato de algumas organizações ligadas ao mundo dos espetáculos terem contabilizado o número de pessoas que participam dos eventos, especialmente do carnaval, no total de pessoas que atuam na organização. Nesse caso, alertamos os/as leitores/as para a

natureza dos resultados apresentados.

7

Oito organizações não responderam ao quesito.

14

pela baixa compreensão das organizações sociais acerca da importância de

organizarem ações de comunicação e marketing, sobretudo com a contratação

de especialistas na área. Já a falta de compreensão é fruto da histórica de

concentração dos meios de comunicação em poucos grupos familiares e da idéia errônea de que comunicação é algo inacessível e demasiadamente caro, apesar do crescimento de veículos alternativos, do barateamento das tecnologias de comunicação e informação e da possibilidade de utilização das brechas na própria estrutura oligárquica da mídia.

O uso de telefone, no entanto, é generalizado: 162 organizações têm

aparelhos 8 sendo que 17 forneceram mais de um número. Contudo, o número

de fax é bastante reduzido, apenas 53, dos quais 25 no setor público e 28 nas

organizações da sociedade civil.

Outra forma de comunicação bastante difundida é o e-mail: 141 organizações informaram o endereço eletrônico, sendo 36 do setor público e 105 da sociedade civil. Entretanto, apenas 50 organizações têm site: 20 são de instituições do setor público e 30 da sociedade civil.

Em relação às formas de divulgação, prevaleceu a utilização de folders e

folhetos por parte de 64% das organizações. Em segundo lugar, os sites, blogs

e outras formas de comunicação virtual, à exceção dos boletins eletrônicos,

são utilizados por mais da metade das organizações (52%). Embora com importâncias relativas distintas, essas formas são prevalecentes tanto em relação às organizações do setor público quanto da sociedade civil (Tabela 3).

Tabela 3 Formas de divulgação utilizadas pelas organizações. Nordeste, 2009

(Em percentagem) 9

Forma de divulgação

Setor Público

Sociedade civil

Total

Folder ou folhetos Jornal ou periódico Vídeos Boletim eletrônico Site, blog com. virtual Outras

68,5

61,5

63,5

22,2

17,0

18,5

22,2

34,8

31,2

29,6

25,2

26,5

59,3

48,9

51,9

27,8

37,0

34,4

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta.

Esse quadro da comunicação das organizações está na origem da avaliação

feita no momento da pesquisa: mais de 2/5 dos/as respondentes classificaram

a situação atual da comunicação como regular, ruim ou péssima. Embora as

organizações do setor público tenham mais acesso à comunicação, a avaliação

é mais negativa exatamente nesse segmento, como pode ser observado na tabela seguinte:

8 Devemos destacar que muitas organizações não possuem número(s) de telefone fixo, apenas de aparelhos celulares. 9 Percentual das respostas válidas.

15

Tabela 4

Avaliação da situação atual da comunicação da organização. Nordeste,

2009

(Em percentagem)

Avaliação

Setor Público

Sociedade civil

Total

Ótimo

4,3

21,8

16,9

Bom

42,6

39,5

40,4

Regular

38,3

26,1

29,5

Ruim

14,9

10,1

11,4

Péssimo

2,5

1,8

Total

100

100

100

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta.

Dirigentes das organizações

As informações sobre raça ou cor e sexo dos/as dirigentes revelam predominância de pretos (76%) e pardos (19%), assim como de mulheres negras (50%), sobretudo no setor público (62%); na sociedade civil, os homens negros são maioria (52%) (Tabela 5). Aqui, vê-se uma inversão do que ocorre na sociedade em geral, onde são os brancos e os homens que se encontram nos postos de direção, até mesmo onde mulheres e negros são maioria.

Tabela 5 Dirigentes das organizações por cor ou raça e sexo. Nordeste, 2009

 

Setor público

Sociedade civil

Total

Raça ou cor e sexo

Quantidade

Distribuição

Quantidade

Distribuição

Quantidade

Distribuição

(%)

(%)

(%)

Negros

50

90,9

126

96,9

176

95,1

Homem negro

16

29,1

68

52,3

84

45,4

Mulher negra

34

61,8

58

44,6

92

49,7

Brancos

5

9,1

2

1,5

7

3,8

Mulher branca

5

9,1

2

1,5

7

3,8

Indígenas

 

2

1,5

2

1,1

Homem indígena

1

0,8

1

0,5

Mulher indígena

1

0,8

1

0,5

Total

55

100

130

100

185

100

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta.

A escolaridade dos/as dirigentes mostra percentual elevado com nível superior, inclusive com pós-graduação. Isto é animador, considerando-se a exclusão histórica e sistemática dos negros da educação, até mesmo com proibição de ir à escola, no pós-abolição. As ações afirmativas, sobretudo as cotas e programas de permanência, provavelmente, contribuem para esse crescimento no nível de escolaridade.

Contudo, o quadro resulta radicalmente diferenciado em função da instância administrativa das organizações, devido ao contingente de pessoas com elevada instrução nas organizações do setor público. Enquanto a parcela com instrução igual ou maior que o curso superior completo nas organizações da sociedade civil é de 42%, essa proporção chega a 89% no setor público, como

16

se percebe no gráfico seguinte. A exigência de nível superior para cargos de direção no setor público pode ser um dos fatores de influência para esse percentual encontrado, além do próprio crescimento de escolaridade dos/as negros/as, já referido.

Gráfico 6 Distribuição do grau de instrução dos/as dirigentes das organizações. Nordeste, 2009

(Em percentagem) 100% 20,0 28,7 90% 4,4 80% 50,0 17,0 7,9 70% 60% 18,5 17,0
(Em percentagem)
100%
20,0
28,7
90%
4,4
80%
50,0
17,0
7,9
70%
60%
18,5
17,0
50%
16,7
13,2
40%
26,7
30%
22,2
3,7
20,6
20%
5,6
1,6
9,6
2,2
1,9
6,9
10%
3,0
2,1
0%
Setor Público
Sociedade Civil
Total
Fundamental incompleto
Fundamental completo
Médio incompleto
Médio completo
Superior incompleto
Superior completo
Pos-graduação incompleta
Pós-graduação completa

Fonte: CEAFRO, Pesquisa direta.

17

3.2 Questões abertas

Neste item, analisamos as respostas a questões abertas do questionário aplicado às organizações, quando foi solicitado que expusessem acerca dos seus objetivos, projetos em andamento, pontos fortes, pontos frágeis, dificuldades, principais parcerias e fontes de financiamento. A análise resulta da leitura atenta a essas respostas, relacionando-as ao conteúdo das falas dos/as representantes das organizações presentes aos encontros realizados.

Objetivos das Organizações

Considerando o conjunto das organizações pesquisadas, de acordo com os objetivos declarados no questionário aplicado, fica evidente sua atuação diversa, com incidência em questões que passam pelo propósito de construção de uma sociedade mais democrática”. O combate ao racismo e a promoção da igualdade racial se traduzem na perspectiva de atuar em áreas como profissionalização da juventude negra, arte, educação, cultura, direitos de crianças e adolescentes, pesquisa e outros (ver listas de respostas em anexo).

As respostas mais frequentes dão conta do objetivo de proporcionar acesso a atividades culturais, sobretudo a crianças e jovens, sendo que a educação profissionalização, formação, cursos, seminários também sobressai nas respostas dadas, assim como pesquisa, ensino e extensão.

As organizações da sociedade civil, nas respostas ao questionário, referem-se a resgatar a identidade negra, conscientizar, levar informação a crianças e jovens, promover a autoestima, educar sem esquecer as nossas raízes, tirar crianças e adolescentes da rua, mas também ser auto-sustentável, articular ações com o poder público, formar educadores, defender os direitos humanos, atuar no reconhecimento e valorização das terras quilombolas, contribuir para a equidade racial e de gênero, manter as tradições, desenvolver ações afirmativas em favor da pessoa negra, enfim.

Já as organizações do setor público referem-se, contundentemente, por exemplo, a “diminuir o déficit social, a fome, a miséria no seio das comunidades afro-descendentes” como objetivo de sua existência, no caso, na estrutura de governo, criadas para articular as políticas em nível de governo.

Se, além das finalidades para que as organizações pesquisadas foram criadas e/ou existem, consideram-se projetos que concretamente realizam no momento da pesquisa, temos uma idéia acerca de como as idealizações conseguem ser postas em prática, quando, mais uma vez, as atividades de cultura e educação sobressaem - essas últimas traduzidas como cursos, seminários, capacitação, formação -, dois temas recorrentes e valorizados no processo de resistência negra no Brasil.

18

Projetos em Execução

Quando se focalizam os projetos que s organizações estão executando, as respostas, em geral, variam de ações de cunho cultural e valorização estética (dança, teatro, culinária etc.), passando por iniciativas no campo da educação (Lei 10.639, cursos pré-vestibular e alfabetização e adultos) e ações de mobilização, como campanhas, encontros e seminários.

Chama atenção, no conjunto de respostas, a presença de respostas que falam de projetos “em preparação”, posto que trata-se de uma idéia ainda não posta em prática, indicando que essas organizações não têm, no momento, ações em curso, provavelmente, por falta de condições efetivas de realização.

No Setor Público, ações de fortalecimento institucional, criação de espaços de participação social (conselhos), formação de professores/as e implementação da Lei 10.639/03 são os principais projetos em andamento. No caso das Universidades, projetos de permanência de estudantes cotistas e pesquisas acadêmicas são as principais referências.

Já na Sociedade Civil são citados, em especial, ações de arte e cultura, ações educativas (formação profissional, Educação de Jovens e Adultos, pré- vestibular etc.) e campanhas voltadas para a juventude negra.

Quando perguntados sobre dificuldades que enfrentam, os/as respondentes apontam a dificuldade em “obter recursos” como um grande problema para a execução dos projetos. Conclui-se, portanto, que, apesar do grande potencial das organizações, a quantidade de projetos em andamento poderia ser maior e esses mais significativos, caso existisse um apoio sistemático por parte dos órgãos públicos, empresas e/ou agências de cooperação.

Dificuldades e pontos frágeis

Muitas são as dificuldades e/ou pontos frágeis das organizações representadas nos Encontros do Mapeamento. Dentre as principais dificuldades, confundindo- se com os pontos que os sujeitos pesquisados consideram mais frágeis, estão a questão da sustentabilidade e a formação política.

Com relação à sustentabilidade, às vezes as pessoas entrevistadas se referiram explicitamente, usando este termo, mas outras vezes falaram ou assinalaram no questionário opções, como: recursos financeiros, infra- estrutura; falta gente pra trabalhar, falta pessoal, sede, recursos humanos, recursos materiais e equipamentos. Associadas à formação política, encontramos a expressão em si e outras, como: baixa ou pouca participação nas reuniões e frentes de trabalho; não há aceitação para os temas que são desenvolvidos; há poucos militantes.

Essas dificuldades, presentes no cotidiano do trabalho, se relacionam a outras, que mencionam quando interrogados/as diretamente acerca de parcerias e fontes de financiamento, por exemplo. As respostas mostram a insuficiência de

19

recursos financeiros, apontada diversas vezes e de diversas formas, o que explica a incidência maior de respostas sobre dificuldades na questão do financiamento. Este, se mais acessível, daria certa sustentabilidade, a médio e longo prazo, a essas organizações, seja no setor público, seja na sociedade civil.

Com efeito, os recursos a que as organizações têm acesso, quando têm, são provenientes dos cofres públicos, e o acesso se dá, geralmente, através de editais e formas similares de concorrência. Para as organizações da sociedade civil, maioria, de acordo com este Mapeamento realizado nos estados, participar desta concorrência, nos moldes em que ela acontece, exige estar legalizada, implica estar em dia com obrigações que também demandam recursos, implica lidar com a burocracia (também citada como uma dificuldade em questão aberta do questionário).

Este investimento na busca de recursos nem sempre se coaduna com a natureza de muitas das “pequenas” organizações, e quase sempre se constitui em transtorno, especialmente, para grupos de jovens, de dança, mulheres, capoeira, hip-hop, quilombolas. Paradoxalmente, o que precisam para se desenvolver, atuar, crescer, pode significar um sacrifício, inclusive das próprias ações que realizam, uma vez que muito do esforço se volta pra conseguir recursos, às vezes em prejuízo das ações-fim. Neste sentido, a cooperação internacional faz falta, pois aparece muito pouco entre as principais fontes de financiamento das ações realizadas pelas organizações; o maior investidor é o governo federal, estadual e municipal, cujas exigências burocráticas são enormes.

Fontes de financiamento

Ao analisar as principais fontes de financiamento foram identificadas iniciativas de autofinanciamento através de doações voluntárias dos/as militantes, recursos públicos, cooperação internacional, iniciativa privada e eventos para captação de recursos. Há, portanto, uma diversidade de fontes, o que não significa que exista uma estratégia de sustentabilidade definida.

Em geral, chama atenção o fato de poucas organizações da sociedade civil apontarem a comercialização de produtos e/ou serviços como forma de financiar suas ações e diminuir a dependência de agentes externos, o que pode ser caracterizado como uma contradição pois, com um grande número de organizações trabalhando com o segmento cultural, a venda de CDs, Dvds, camisas, shows e demais produtos de entretenimento seria uma alternativa financeira bastante viável, como já fazem os blocos afro, na Bahia, por exemplo.

Outro aspecto interessante é a quantidade de organizações que disseram não ter financiamento ou parceria alguma, o que nos leva a afirmar que a causa da igualdade racial é um tema, de fato, com dificuldade de financiamento, haja vista que a região nordeste em si é uma região que historicamente tem

20

recebido significativos apoios para o desenvolvimento e enfrentamento à pobreza e que, nos últimos anos, é a região que mais cresce no Brasil. 10

Ao analisar os principais financiadores no segmento sociedade civil registra-se uma incidência bastante significativa de respostas apontando o governo municipal, estadual e federal, em especial, os órgãos de promoção da igualdade racial dessas estruturas, todos com problemas de recursos, eles próprios também.

Já as organizações do setor público, são financiadas, em geral, pelo próprio orçamento público, verbas “carimbadas” de programas do Governo Federal, emendas parlamentares e, em menor nível, pela cooperação internacional.

10 Segundo a Revista Exame (19/04/2007), desde 2001, a economia nordestina vem crescendo a taxas superiores à média nacional, enquanto a média da região foi de 4,2% nesse período; o país cresceu 2,3%. Se fosse um país isolado do resto do Brasil, o Nordeste hoje teria um crescimento semelhante ao da Irlanda.

http://portalexame.abril.com.br/revista/exame/edicoes/0891/economia/m0127107.html

21

4. RESULTADOS POR SEGMENTO

4.1 Sociedade civil

Os aspectos a seguir, em síntese, são as principais características que podem ser apontadas como aquelas que se encontram presentes nas organizações da sociedade civil, identificadas nesta pesquisa:

Visão diferenciada sobre a questão racial nos estados

Em virtude das diferenças regionais, tempo de organização do Movimento Negro no estado e sua composição racial, as organizações consideradas como da sociedade civil possuem grande diversidade em suas bandeiras políticas e prioridades.

Sendo assim, em alguns estados, como Bahia, Pernambuco e Maranhão, o conhecimento sobre a questão racial já não mais se encontra restrita ao grupo de militantes, há uma consciência negra mais forte e mais visibilizada; em outros estados, porém, como Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte, o Movimento Negro se empenha prioritariamente no reconhecimento de uma identidade negra, aspecto que em outros estados já pode ser secundarizado.

Nesse último grupo de estados, apesar de haver um significativo percentual de negros/as na população, a identidade negra é bastante referida através de termos que cumprem um papel de camuflar esta identidade, a exemplo de moreno, mulato, etc. Na Paraíba, registrou-se fortemente o apelo à necessidade de visibilização do Movimento Negro que, segundo os/as pesquisados/as, é invisível para o resto do país.

Emergência de novos atores

Um dos aspectos que mais chamou atenção nas visitas feitas pela equipe de pesquisa foi a crescente incorporação de novos atores políticos ao Movimento Negro. São grupos que não fizeram parte da geração anterior de militantes, mas que ao longo dos anos foram assumindo mais e mais a pauta política do antirracismo em suas ações. É o caso do Movimento Hip-Hop, dos/as religiosos de matriz africana e de outros grupos culturais que sempre fizeram política negra, mas nem sempre eram considerados enquanto tal ou que nem sempre se autopercebiam nesse lugar.

Assim, o hip-hop se mostrou preocupado e/ou envolvido com a formação política de seus membros, mas também da juventude negra e não negra 11 . Por conta da intolerância religiosa, outros pela adesão de ativistas do movimento negro a essas religiões e, ainda, pelas formas como a violência racial se mostra nas comunidades onde os terreiros se inserem, pais/mães de santo

11 Lembrando que o movimento, em si, já é político, mas percebemos o desejo e identificamos mesmo ações especificas de formação política, para dentro e para fora do movimento.

22

demonstraram que sua ação não alcança apenas os/as que estão dentro da religião ou que a procuram; os/as que encontramos, participam de fóruns, conferências, atos públicos, e interferem de várias maneiras na situação de desigualdade racial, incorporando essas ações à sua prática religiosa.

Por outro lado, há também novas agremiações que se reivindicam parte do movimento negro, mas que não possuem relação com o chamado “movimento negro histórico”, como associações profissionais, ONGs, grupos oriundos de partidos, do movimento sindical.

A pesquisa mostra que existem tensões e disputas, mas também que há uma tendência de constituição de um novo campo político negro. Este campo delineia-se como composto pelo movimento negro mais tradicional, mas também por núcleos partidários e sindicais, grupos de hip-hop e juventude negra, agremiações profissionais (advogados/as negros, comunicadores/as negros, etc.), ONGs com projetos/ações antirracismo, núcleos de estudantes e pesquisadores/as, religiosos (matriz africana, cristãos negros/as católicos/as), grupos culturais, em geral, e outros.

Questão geracional e rural/urbano

As diferenças etárias e a identidade territorial são aspectos que emergem na pesquisa. No primeiro caso, são conflitos na disputa política dentro do movimento ou até mesmo dentro das organizações pesquisadas. Se, por um lado, os/as jovens acusam os/as ativistas mais experientes de centralizar os debates e recursos, esses/as afirmam que a juventude está despolitizada e não os/as ouve para dar continuidade à luta antirracismo. Ocorre que, em geral, existe pouco diálogo entre as duas gerações, fazendo com que essas adotem suas próprias estratégias de ação, que não são excludentes.

No caso das diferenças rural/urbano, é notório que o movimento negro é majoritariamente urbano, mas percebe-se um avanço na promoção da igualdade no campo, em especial, nas comunidades quilombolas que são, cada vez mais, alvo de políticas públicas governamentais, apesar dos militantes negros urbanos criticarem a desracialização da luta quilombola, uma vez que estas políticas seriam mais aceitáveis pelo poder público em virtude de tratar-se de programas de assistência social básica, como saneamento básico, segurança alimentar, saúde etc.

Liderança de mulheres negras

Contrastando com os dados da sociedade em geral, dentro das organizações que pautam a luta antirracismo, as mulheres ocupam um papel de destaque, em especial na gestão pública, conforme dados quantitativos já referidos. Esse fato deve estar relacionado ao movimento de mulheres negras, que reivindica o fim das desigualdades nas relações de gênero dentro do movimento negro e que vem ocupado mais espaços de poder dentro desse campo político. Outro fator relevante é o aumento da escolaridade dessas mulheres que por sua vez

23

ficam mais aptas a assumir cargos de direção em instituições do movimento e de órgãos de promoção da igualdade.

Diversidade e predominância em expressões artístico-culturais

Identificamos que o principal foco do movimento negro na região Nordeste é a realização de atividades de cunho artístico-cultural. Um dos fatores que podem ter contribuído para isso é o fato de que um dos poucos espaços que foi permitido aos negros/as se colocarem foi o campo da cultura, através da capoeira, da música, dança e demais manifestações artísticas. Apesar de cumprir um papel histórico importante para denunciar o racismo e disseminar a mensagem de consciência negra, a cultura precisaria estar lado a lado com outras demandas que se apresentam contemporaneamente, como: incidência em políticas públicas, disputa pela opinião pública, desenvolvimento econômico, etc.

Busca de sustentabilidade e de formação política

A maioria das organizações pesquisadas reclama das dificuldades financeiras encontradas para manter o trabalho que desenvolvem, pois alega dificuldade de captação de recursos, fruto das exigências dos editais públicos, da centralização dos recursos no Sul-Sudeste e da dificuldade de compreensão da questão racial pelo empresariado. Poucas organizações possuem uma estratégia de sustentabilidade e a maioria não consegue manter um corpo de funcionários dedicados à mobilização de recursos.

As organizações queixam-se de não terem uma estrutura para formação política de seus quadros, principalmente os mais jovens. Apesar de terem um certo saudosismo da militância política dos anos 80, afirmam que naquela época a formação era um dos pilares do movimento e que esse aspecto foi sendo minimizado dentro das organizações. Aliado a isso, falta conhecimento sobre fontes de financiamento, como captar os recursos e até mesmo como se adequar às exigências para tal.

Desenvolvimento econômico e empresariado

Questões relacionadas ao papel do empresariado foram observadas, embora não tivesse sido possível explorar com mais detalhes, nas visitas realizadas, de apenas 2 dias, a cada estado.

Apesar de uma tendência dentro do terceiro setor em buscar aproximações com o segmento empresarial progressista, visando estabelecer parcerias de responsabilidade social, não foi identificado como isso se reflete nas organizações pesquisadas. A incidência dos movimentos negros na região junto ao empresariado parece incipiente, até porque falta aos financiadores empresariais uma conscientização acerca da dimensão racial, como esta determina a pobreza em nosso país. O movimento negro, tudo indica, não vê o

24

segmento empresarial como agente estratégico de mudanças sociais, e falta diálogo entre os dois segmentos.

Identificamos uma parceria, no estado de Alagoas, entre a ONG Maria Mariá e

a Federação das Indústrias do Estado de Alagoas, mas não deu para explorar

como ela se dá, ou como foi estabelecida. A Associação dos Coletivos de Empresários Negros (ANCEABRA), na Bahia, se fez presente em um dos encontros, quando seu representante reclamou da não valorização do aspecto

ascensão social de negros/as, da dimensão econômica, no combate ao racismo e na promoção da igualdade. Em Pernambuco, durante o mapeamento, um empresário negro foi contatado por uma Consultora da Kellogg, a fim de ver as possibilidades de contribuição mais sistemática à questão, mas não temos conhecimento dos resultados do contato.

4.2 Setor público

Identificamos órgãos governamentais que implementam políticas de igualdade racial em nível estadual e municipal. O aspecto mais criticado, por parte dos pesquisados/as, ao avaliar o segmento de governo, independente da instância administrativa, é o fato de o tema equidade racial ainda não ter força para figurar como linha de ação estratégica fora dos órgãos de promoção de igualdade.

A questão do combate ao racismo é invisibilizada na ação estratégica dos governos. Não está na prioridade nem da administração estadual nem da municipal e, portanto, não está prevista no orçamento. “Há um esforço grande para fazer políticas, mas não há política”, analisa Claudilene Silva, gerente do Núcleo de Cultura Afro-brasileira de Recife.

As principais questões enfrentadas pelos núcleos de promoção da igualdade são: o Racismo institucional, que impede a efetivação de políticas públicas; ausência de uma política estratégica e coordenada de ação governamental; falta de articulação entre as políticas, que se constituem em ações isoladas e pontuais; falta de efetividade no cumprimento da Lei 10.639/03, sobretudo porque a formação de professores/as é tímida e não há recursos alocados para garantir a implementação.

A falta de compreensão da questão racial e o racismo institucionalizado são as

principais causas da ineficácia das políticas de igualdade racial e de combate ao racismo. Em geral, o enfrentamento às iniquidades raciais não é prioridade

das gestões cuja estratégia adotada é “guetizar” os órgãos, conferindo-lhes, mesmo sem orçamento, toda a responsabilidade por essa agenda política. Mesmo nas gestões ideologicamente mais próximas ou mais sensibilizadas com a questão, essa dificuldade foi apontada.

25

Racismo institucional e efetivação de políticas

Considerando as organizações entrevistadas que produzem e disseminam conhecimento, embora o momento político seja favorável, o avanço é lento, e as ações ainda decorrem do esforço militante de professores/pesquisadores/as, com pouco apoio da universidade, enquanto instituição.

O principal entrave para o avanço ainda é, também, o racismo institucional dentro das universidades, que dificulta desde a realização de projetos, passando pela formação de parcerias e mesmo a obtenção de recursos, que são escassos.

26

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste item, apresentamos uma síntese do que consideramos particularmente relevante na pesquisa exploratória realizada, com base nos Informes por estado (Ver anexo) 12 , elaborados logo após a visita a cada um deles, e também com base nas análises de respostas contidas no questionário aplicado, por organização.

Foram identificadas, nos estados pesquisados, além de organizações

independentes”, de natureza bastante heterogênea e com formas diversificadas

e graus diferentes de atuação, alguns coletivos que congregam outras

organizações Fóruns e Articulações, estaduais ou municipais, além dos já

conhecidos em nível nacional, como CEN e CONEN, também representados.

Os coletivos são organizações que dizem ter como objetivo fortalecer o

movimento negro e retomar uma articulação política, no sentido de fazer frente

às demandas inerentes ao racismo tal qual se apresenta contemporaneamente.

Na Bahia, especificamente, o Fórum de Entidades Negras diz que foi criado para articular agremiações em torno do Carnaval.

No geral, as demandas das organizações se referem, basicamente: à luta contra a violência policial que atinge sobremaneira jovens negros; ao enfrentamento da reação das elites contra os direitos de quilombolas, contra as cotas raciais nas universidades e pela efetivação da lei 10.639/03, dentre outros. Toda a situação de conquista de direitos abala privilégios, e o Movimento e as suas lideranças necessitam estar pensando estratégias renovadas para combater formas também renovadas de manifestação do racismo. Em todos os estados, praticamente, observa-se a preocupação em dar respostas a essas situações, continuar a luta e consolidar as políticas de igualdade.

Dessa forma, a iniciativa de criar coletivos de organizações ou rearticular os existentes parece caracterizar esse momento vivido contemporaneamente pelas organizações.

Ao mesmo tempo, é expressiva a quantidade de organizações de naturezas diversas, com os mais diversificados objetivos, mas sempre atuando em condições indesejadas e precárias, do ponto de vista financeiro e de infra- estrutura. A maior parte das organizações não-governamentais e lideranças que atuam no movimento negro estão ligadas ao campo artístico-cultural e buscam ter sustentabilidade para cumprir suas metas.

Em todos os estados há organizações diversas em sua natureza e em estágios diferenciados; os movimentos, ações e políticas em curso, também se apresentam com uma diversidade evidente. Em alguns, como Paraíba e Ceará,

12 Os Informes contêm caracterização da presença negra em cada estado, apresenta dados de questões fechadas do questionário e relatam a visita de 2 dias a cada estado, quando foram identificadas organizações, lideranças e outros representantes das organizações, os quais participaram de rodas de conversa e de entrevistas.

27

o movimento é muito mais invisibilizado do que pouco representativo.

Pernambuco, Bahia e Maranhão possuem organizações mais consolidadas e em maior número do que no Rio Grande do Norte, por exemplo, onde as desigualdades raciais ainda precisam ser reconhecidas e tornadas mais visíveis.

Em termos das políticas de promoção da igualdade, os dados confirmam que é preciso fazer muito, ainda, pois a articulação e transversalização são bastante precárias; não se tem, ainda, uma estratégia coordenada de ação governamental. Nas universidades, há estudos, pesquisas, mas esses precisam ser assumidos pelas instituições acadêmicas, uma vez que, via de regra, ainda resultam de esforços individuais de professores/pesquisadores junto a alunos/orientandos. Em ambos os casos, Governo e Universidade, o racismo institucional impede a efetivação de ações, ainda pontuais e desarticuladas.

Identificamos que poucas organizações no Nordeste brasileiro pensam a comunicação como ação estratégica para o enfrentamento ao racismo. A

maioria delas utiliza apenas a comunicação instrumental (site, blog, panfletos, etc.), mas quase nunca se pensa na idéia do direito humano à comunicação,

na propriedade de meios, apesar dessa pauta dentro dos movimentos sociais

ter crescido bastante a partir de 2005, com as mobilizações da Articulação

Nacional pelo Direito à Comunicação.

Em Alagoas, a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (COJIRA), do Sindicato dos Jornalistas, possui uma coluna semanal em um jornal de grande circulação); na Paraíba, um comunicador se articula com os movimentos negros e divulga suas ações na internet; na Bahia, o Instituto Mídia Étnica, formado por jovens comunicadores/as e que possuem um portal de notícias, uma rede social e parcerias com universidades para formação de estudantes

de comunicação que tange à questão racial.

No geral, as organizações possuem apenas website/blog e divulgam suas ações por meio digital, mas não utilizam os serviços de assessoria de imprensa nem ocupam os espaços abertos dos jornais (carta do leitor, seção de opinião e Ombudsman). A não ocupação de espaços na mídia abre brechas para a hegemonia de segmentos contrários às políticas de igualdade racial dentro da opinião pública.

A efetivação da Lei 10.639/03, estratégica na educação das relações

etnicorraciais, se mostrou bastante referida, mas poucas ações consistentes foram identificadas. Uma exceção foi a aprovação de uma lei no estado de

Pernambuco, determinando que toda formação de profissionais de educação em Recife, pelo menos, é obrigada a incluir conteúdos relativos à questão racial.

Os principais aspectos que consideramos característicos das organizações pesquisadas encontram-se comentados no corpo do relatório e são:

28

Visão diferenciada sobre a questão racial nos estados

Diversidade e predominância em expressões artístico-culturais

Emergência de novos atores

Questão geracional e rural/urbano

Liderança de mulheres negras

Busca de sustentabilidade e de formação política

Desenvolvimento econômico e empresariado

Racismo institucional e efetivação de políticas

Por fim, chamamos atenção para a necessidade de dar continuidade ao mapeamento em questão, de modo a contemplar organizações existentes nos estados que não foi possível incluir, por diversas razões. Esta continuidade poderá ser viabilizada, preferencialmente, utilizando as estruturas existentes nos governos, nas universidades e nas organizações da sociedade civil, o que será produtivo até mesmo para consolidar mais ainda sua legitimação na luta antirracismo, a exemplo do que ocorreu em relação ao CEAFRO, ao participar deste trabalho.