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10/03/2017

ResenhasBrasil:POLIARQUIA­PARTICIPAÇÃOEOPOSIÇÃO

POLIARQUIA­PARTICIPAÇÃOEOPOSIÇÃO

POLIARQUIA­PARTICIPAÇÃOEOPOSIÇÃO Asrazõesda'Poliarquia' RenatoLessa ROBERTDAHL

Asrazõesda'Poliarquia' RenatoLessa ROBERTDAHL

oprincipallivrodeRobertDahlchegaaopúblicobrasileiroquase30anosapóssua

primeiraediçãoamericana.Aatenuarasensaçãodeatraso,aqualidadedaedição,na qualaocuidadográficoeeditorialsoma­seaótimaapresentaçãofeitaporFernando Limongi.Oleitorbrasileiro,quejádispunhado"PrefácioàTeoriaDemocrática"edo "PrefácioàDemocraciaEconômica"(Zahar),temagoraapossibilidadedeacessoao núcleobásicodaobradeDahl. Depoisdetantotempo,aperguntadoleitorávidopornovidadeséinevitável:qualo graude"atualidade"dotexto?Porconterumateoriaarespeitodademocraciabaseada

nosprocessosdedemocratizaçãoocorridosatéosanos60,teriaolivro"resistido"à

caóticaavalanchedeeventosquemarcouomundoemdécadassubsequentes? Descontando um certo grau de obsessão na avidez por "inovações", há boas e evidentesrazõesparaapergunta.Mesmoumdesavisadoobservadorécapazdenotar queastrêsdécadasincompletasquenosseparamdaprimeiraediçãode"Poliarquia" foram repletas de inovações: sistemas políticos poliárquicos, segundo suas

característicasnosanos60,deramlugaraditaduras,parainiciaremnadécadade80

novo processo de democratização; o Leste Europeu, nos últimos dez anos, abrigou uma variedade de tentativas de superação do legado soviético e, por extensão, algumas "manchas" poliárquicas a emitir sinais de consistência. Além disso, os significados de noções dahlsianas centrais, tais como "inclusão" (incorporação da populaçãoaoprocessopolítico)e"institucionalizaçãodacompetiçãopolítica",foram, aparentemente, desafiados por concepções deliberativas da democracia e pela valorização analítica e normativa da sociedade civil, numa clara tendência a desinstitucionalizarnossasdescriçõesarespeitodomundopolítico.Issotudoparanão mencionarosapocalípticosatestadosdeóbitodirigidosaosEstadosnacionais,lugares deocorrência"natural"dospercursospoliárquicos,talcomonosensinouateoriada poliarquia.

Comefeito,umabismointransponíveldivideasexperiênciasdasdécadasde50e60­

ambiente histórico e intelectual da teoria dahlsiana da democracia­ daquilo que se testemunha nesses anos finais do milênio. Para usar de forma licenciosa uma expressãodopróprioDahl,contidanotítulodosegundocapítulodeseulivro,écabível

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perguntar:a"Poliarquia"(ainda)fazsentido?Arespostadevesertãosimplesquantoo

éoestilodahlsiano:faztodoosentido;éumadasobrasmaisimportantesdaciência

políticanametadefinaldoséculo.

Com um pouco mais de ousadia, não seria um absurdo completo atribuir­lhe característicasdeumclássicodateoriapolítica.Duascaracterísticasfortes,inscritas naquiloquedesignamoscomoobrasclássicas,estãoaquipresentes:ovínculodenso comtemaseproblemasdatradiçãodareflexãopolíticaeacapacidadedeconfigurar

as perguntas que dirigimos ao mundo. Se o conhecimento político, como qualquer

outro, depende do tipo de pergunta que formulamos a nossos experimentos, os clássicosconstituemoléxicobásicodessaartedeinvestigar:elesdefinemosnossos problemas; eles nos ensinam a perguntar. Tais requisitos estão presentes em "Poliarquia". Em notação moderna, o livro opera sobre um dos problemas clássicos da reflexão política:odaclassificaçãodostiposderegimeexistentes,segundosuascaracterísticas próprias. Os primeiros exercícios neste sentido são tão antigos quanto a própria disciplina.JáemPolíbio,HeródotoeAristóteles,paraficarmoscomosqueiniciaram essaricatradição,amarcafortedafilosofiapolíticaseapresenta:acombinaçãoentre esforços de descrição e classificação do mundo político e perspectivas de corte normativo.Emoutraspalavras,dizerdomundocomoeleéedesuavariedade.Mas, aomesmotempo,sugerirdesenhosalternativos,jáqueestemundoéapenasumdos

muitospossíveis.Nosantigos,asdiferentesclassificaçõesdasformasdegovernotêm em comum a aversão ao despotismo, domínio do medo, da brutalidade e do imprevisível.Desdeentão,odespotismoéograuzerodavidapolíticacivilizada:aqui nãoháinstitucionalizaçãodosmodosdecompetiçãopolíticae,muitomenos,inclusão, parausarmosmarcasdahlsianas.Trata­sedeumexperimentodefinidopelaexemplar ausência de atributos positivos. A principal implicação é clara: os outros tipos se caracterizamporsuasmaneirasprópriasdesedistinguirdodespotismo.Apergunta decorrente, já discernida pelos antigos, ainda guarda algum apelo: em que medida regimesnão­tirânicospossuemmecanismosdeproteçãocontraodespotismo? Dahliniciaseulivrodeformacaridosaparacomoleitor.Semsubterfúgio,apresenta nasprimeiraslinhasdoprimeirocapítuloopropósitoqueoguiará­edefatoguiou­ durantetodoolivro.Seupontodepartida,descritoaquiàmodapretérita,éodesaber oquefazerparaafastaroespectrododespotismo.Éoquerevelaaquiloquepodemos designar como "a" pergunta dahlsiana: dado um regime em que os opositores do governonãopossamseorganizarabertaelegalmenteempartidospolíticosparafazer­ lheoposiçãoemeleiçõeslivreseidôneas,quecondiçõesfavorecemouimpedemsua transformaçãonumregimenoqualissosejapossível?

O regime inicial, de onde se parte para iniciar esse experimento analítico, é

apresentadocomoumlugardeprivação.Opontodechegadapretendidoéolugarno qual o impossível sob a ordem despótica se torne regra. Trata­se de uma bela circularidade,que,contudo,nãopadecedeimperícia.Ela,aocontrário,édeliberadae fértil,poisnosliberadainsolúvelquerelaarespeitodaboadefiniçãodedemocracia, além de desempenhar um papel preciso na história do debate a respeito da teoria

democrática,deflagradonesteséculo.A"soluçãodahlsiana"paraessedebaterevelaa

outradimensãoexigidadeumclássico:acapacidadedeconstituirnovasperguntase

áreasdeinvestigação.

As décadas iniciais do nosso século não foram exatamente auspiciosas no que diz

respeitoàteoriademocrática.Algunsdosmelhorescérebrosdeentão­VilfredoPareto, Gaetano Mosca, Robert Michels, Carl Schmitt, Sigmund Freud e Max Weber, entre outros­, por caminhos e com finalidades distintas, sustentaram a hipótese de que o mundosocialnãoestávocacionadoparaafelicidadepública.Aafirmaçãodocaráter

diabólico e adversarial da política, das potências humanas irracionais e não­

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conscientes,dainelutabilidadedadistinçãoentreelitesemassasedovírusoligárquico inerenteàdemocracia,entreoutrasmaldições,soterrouaingênuapostulaçãoliberal democráticaarespeitodaexcelênciadohomemcomum,aindaqueFrankCapralhe tenha garantido sobrevivência cinematográfica a partir dos anos 30. A descrição do mundoentãovitoriosaindicavaaimpotênciadohomemcomumparadecidirarespeito deassuntospúblicosesuadiluiçãonasmalhasdaimpessoalidadeedamultidão.O tradicionalsujeitodaordempolíticaliberaldemocrática­mitoourealidade,nãoimporta aqui­haviadesaparecido. No final dos anos 30, Joseph Schumpeter estabeleceu as bases de uma nova concepçãodedemocracia.Seuprincipalmérito,emalgunscapítulosde"Capitalismo, Socialismo e Democracia", foi demonstrar que a devastação proporcionada pelos realistasdoiníciodoséculonãofoicompleta.Nãoháincompatibilidadedeprincípio entrerealismopolíticoedemocracia.Ademonstração,écerto,tempesadoscustos.O principaléaerradicaçãodequalquerutopismoeatransformaçãodademocraciaem ummétododeproduçãodegoverno.Aatividadepolíticaédotadadamesmalógica quehabitaomundodomercado,abrigotantodeconsumidoresordinárioscomode empreendedores,agoradesignadoscomoempresáriospolíticos.Ademocraciaéum regimequelevaemcontaaspreferênciasdessesconsumidoresnomercadopolíticoe quenãooperacomimpedimentosdiscricionáriosparaimpediraemergênciadenovos empresáriospolíticos.Ocidadãoordinário,porsuavez,temcomotraçoumaindelével idiotia:suacompetênciacognitivaéinversamenteproporcionalàdistânciaexistencial que mantém com relação aos assuntos que considera e opina. É na diminuta circunstância de sua vida privada e de seus vínculos primários que pode aspirar a alguma soberania e destreza. Como cidadão, é um membro de um "unworkable committee". A concepção dahlsiana da democracia evitou tanto o utopismo de definições substantivas e dedutivas da democracia quanto o congelamento da descrição schumpeteriana.AconstruçãodessaalternativateveinícioemumoutrolivrodeRobert

Dahl­o"PrefácioàTeoriaDemocrática",editadoem1956­,queestabeleceuasbases

dotratamentocontidoem"Poliarquia".Nolivrode1956,Dahldistinguedoismétodosa

partirdosquaispoder­se­iaconstruirumateoriademocrática:odamaximizaçãoeo descritivo.Oprimeiroexigeumadefiniçãoclaradasmetasaserematingidasporum regimedemocrático,assimcomodeseusrequisitosmínimos.Ograudedemocraciade regimes políticos reais poderia ser atestado na medida em que maximiza aqueles valoressubstantivos.Umexemplodedefiniçãodessanaturezapodeserencontrado em E.E. Schattsneider, para quem "a democracia como sistema moral é um experimento de criação de uma comunidade". A proposta de Dahl explora a outra alternativa.Emnotaçãolivrepodemosdizerque,adespeitodenãopossuirmosum conceitodedemocracia­comoenteléquiaindependenteeanterioraomundo­somos capazesdereconhecerumsistemapolíticodemocráticonamedidaemqueneleestão afastadas ou contidas características típicas de uma ordem despótica (ou de hegemonia fechada, nos termos de Dahl). É possível, portanto, de forma intuitiva, assumirquealgunssistemaspolíticostêmcaracterísticasdemocráticas,quepodemser isoladaseapresentadascomocomuns.Eupossodescrevê­lastantodopontodevista de seu estado atual quanto no que diz respeito à sua história e às chances de desenvolvimentoouretrocesso. Nareflexãodahlsiana,ademocraciaéumsistemahipotéticodegoverno.Emoutra semântica,elaéumidealregulatóriodecisivoparaquenosorientemosnomundo,mas insuficienteparanosrevelaroquefavoreceeoquedificultaouimpedeaconstrução desistemaspolíticosdemocráticosreais.Anovidadede"Poliarquia"estácontidaem suaperguntainicial,cujafertilidadeinstauraalgumasordensdeindagaçõesderivadas.

Duasmeparecemserasmaisrelevantes:1.Dadoquetodasaspoliarquiasexistentes

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foram, em algum momento, não­poliarquias, que processos e sequências estiveram presentes nessa transformação? E mais, que fatores podem ampliar o caráter poliárquico das poliarquias realmente existentes? Em que medida o esclarecimento

dessespercursospodeserútilparaapostaspoliárquicasfuturas?2.Queeventocrucial

marcaapassagemdeumestadonão­poliárquicoparaoseuopostosimétrico? Aprimeiraordemdeindagaçõesdemonstraoquanto"Poliarquia"procuradesenvolver uma teoria da mudança política, tendo o despotismo ­ou as hegemonias fechadas­ comoidealregulatórionegativo.Aquiseapresentaadimensãohistóricaecomparada do empreendimento, associada a um importante enquadramento analítico. Os diferentespercursosqueresultaramemsistemaspoliárquicosapresentaramdiferentes associações históricas entre dois componentes básicos: a criação de um sistema institucionalizadoepacíficodecompetiçãopública(enãode"contestação",comoquis otradutor )eainclusãodapopulaçãoadulta­viaincorporaçãoeleitoral­aoprocesso político. As implicações, na verdade, são ainda maiores. As duas dimensões destacadasporDahl­liberalização/institucionalizaçãodoconflitoeinclusão­podemser utilizadasnaavaliaçãodequalquersistemapolítico. Poliarquias são ordens políticas democráticas realmente existentes que podem ­e devem­ experimentar formas de aperfeiçoamento tanto de seus sistemas de competição política como de seus mecanismos de incorporação popular. Em outros termos,nãohálimiteconceitualquepossaaprisionaraspossibilidadesdeextensão tantodaparticipaçãoquantodosistemadecompetiçãopolítica.Essaconsequênciaé surpreendente,jáqueaanálisedeDahlreclamaumaorientaçãoanalíticarealista. Oeventocrucialenecessárioparaqualquerprocessodepoliarquizaçãonosérevelado porDahlmedianteumenunciadoque,aparteíconesutilitaristas,temumindisfarçável saborschmittiano.Apoliarquiaexigecomocondiçãonecessáriaque,dopontodevista daselitesquecompetem,oscustosdatolerânciasejammenoresqueosdatentativa de supressão dos adversários. Há aqui grandes afinidades com a proposição ontológicabásicadeCarlSchmitt,quesustentaseroconflitoamigoXinimigoamarca específicadapolítica.AsafinidadesideológicasepolíticasdísparesdeDahleSchmitt não erradicam o fato de que a democracia dahlsiana não resulta de consensos normativosoudeadesõesafinalidadeséticas.Trata­sedeumarranjoinstitucionalque procuraabrigarformasdeexpressãodoconflitodotadasdeumsistemadegarantias mútuasparaosqueestãoenvolvidos.Ademocraciaresulta,pois,dofatobrutaldo conflitoamigoXinimigo,enãodesuanegação. As implicações normativas da reflexão de Dahl não se materializam apenas na sua pergunta inicial, a de saber de que maneira sistemas não­poliárquicos podem se democratizar. Ao estabelecer as dimensões da inclusão e da institucionalização do sistemadecompetiçãopolíticacomofundamentaisemqualquersistemapolítico,Dahl, além de nos fornecer um quadro analítico para o exercício comparado, indica a possibilidadedeadotarpontosdistintosdeobservação.Asdimensões,queconstituem eixosdotadosdeescalashipotéticasdelocalização,podemsertomadascomoformas de observação da sociedade. Um analista que observe o sistema político e seus dilemas, adotando, por exemplo, o ponto de vista do eixo da institucionalização da competiçãopolítica,tenderáapercebercomocrucialparaademocraciaesforçosde engenhariainstitucionalvoltadosparaaestabilidade.Aobservaçãoexercidadoponto devistadainclusão/incorporaçãonãopossuiasmesmasimplicações, jáquenesse casoaextensãodademocraciaestaráassociadaàdefesadeformasmaisinclusivas de representação, sem excluir como coadjuvantes formas diretas de participação. A existênciadepossibilidadesdecombinaçãodessasduasformasdeobservaromundo nãoésuficienteparaeliminarasuadistinçãobásica. RobertDahléumdosprincipaiscientistaspolíticosamericanoscontemporâneos.Em companhiadeintelectuaiscomoMichaelWalzereRichardRorty,entreoutros,pertence

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à vertente mais progressista do pensamento americano contemporâneo, na qual versõesradicalizadasdoliberalismopolíticoencontramsuaafinidadecomostemasda democraciaedaquiloque,deummodoinfelizmentesaudosista,podemoschamarde justiçasocial.Comefeito,jáem"Poliarquia",Dahlnoschamouaatençãoparaofatode queaspoliarquiasmaisconsolidadas,alémdeapresentarótimodesempenhonasduas dimensõesdeseumodelo,manifestamfortecorrelaçãoentredemocratizaçãopolíticae Estado de Bem­Estar. Em outros termos, a incorporação política da população teve comocoroláriootratamentogovernamentaldequestõesdejustiçasubstantiva.Isso nos permite supor que o maior desafio ao livro de Dahl, no que diz respeito à sua capacidade de resistência à erosão do tempo, não seja representado tanto por modificaçõesrecentesnaesferapúblicaquantopeladisseminaçãodaquiloqueKarl Polanyitãobemdesignoucomoreligiãodemercado.Mas,nessecaso,jánãosetrata maisdeumdesafioà"Poliarquia",masàpoliarquia.

Renato Lessa é diretor executivo do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro(Iuperj)eprofessordaUniversidadeFederalFluminense(UFF).

FolhadeSãoPaulo