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Mudar de sociedade, refazer a sociologia.

 Um artigo sobre Bruno Latour 
  "Bruno Latour pensa, com 
efeito, que o erro dos sociólogos, de Augusto Conte a Bourdieu, passando por Durkheim, é de ter 
abordado os elos sociais como entidades já constituídas, tão fixas como as estrelas do céu de 
Aristóteles", escreve Nicolas Weill em artigo publicado no jornal Le Monde, 28‐4‐06. Citando Latour, o 
articulista escreve: "como o mostra Zygmunt Bauman, a invenção da noção de sociedade se faz no 
século XIX, com o objetivo de evitar a revolução".  
 
Eis a íntegra do artigo.  
 
 
Leitores, cuidai‐vos ante este antropólogo sem fronteiras que navega entre a Califórnia, a Nova‐
Inglaterra e a França. Ele é autor de uma quinzena de obras e animador de duas exposições 
controvertidas na Alemanha, de títulos cortantes: Iconoclash (2002) e Making Things Public [Tornando 
públicas as coisas](2005).  
 
Seu pensamento não é daqueles que confortam certezas. Ele precipita, ao contrário, com felicidade, 
aqueles que o abordam sobre extensões cada vez mais movediças. Seu último livro dá disso uma nova 
ilustração: ele nos convida para uma verdadeira crítica da razão sociológica. Quem segue este caminho 
se expõe a uma revisão profunda dos próprios fundamentos da disciplina.  
 
Bruno Latour, nascido num meio vinícola em Beaune (Cote‐dOr), em 1947, professor de filosofia e 
sociologia das ciências, se prepara para envolver‐se com Ciências Po, após haver ensinado numerosos 
anos na Escola de Minas de Paris. Não há dúvida que ele encontrará diante deste novo público ocasião 
de praticar a provocação amável e o humor com ar de seriedade que o caracterizam. O sabor especial de 
seu estilo, mais familiar ao mundo acadêmico anglo‐saxão do que à Universidade francesa, onde a 
escritura sábia afeta antes o registro da dramaturgia e da indignação, certamente não contribuiu pouco 
para fazer proliferar em seu caminho adversários e céticos. Tanto assim que é toda particular a leitura 
que ele extraiu de sua observação das "ciências duras" e do laboratório, pela qual ele mostra a 
importância da retórica e das estratégias institucionais na fabricação das verdades científicas.  
 
Pierre Bourdieu, numa de suas últimas obras, Science de la science et réflexivisté (Raison dagir, 2001), 
se inquietou consagrando‐lhe algumas páginas severas. Para o mestre a pensar sobre "sociologia 
crítica", Bruno Latour seria um "construtivista radical", ou seja, um pensador convencido do caráter 
artificial da realidade.  
 
Outro pecado, de que Bruno Latour se teria tornado culpado (o que este último reivindica): ter 
alegremente ignorado a fronteira que separa a filosofia e as ciências sociais, caindo da mesma forma na 
"vulgata normaliana" [de alunos da Escola Normal Superior de Paris], odiada pelo autor de La Misère du 
monde.  
 
SORRIR DE SOSLAIO  
 
É também como "construtivista" que Bruno Latour foi fustigado, em companhia de outros intelectuais 
franceses, como Jacques Derrida, Julia Kristeva ou Jacques Lacan, pelo físico americano Alan Sokal, por 
ocasião duma mistificação tornada célebre (Le Monde de 20 de dezembro de 1996).  
 
Publicando numa revista supostamente "pós‐moderna" um artigo de físico voluntariamente atulhado de 
erros grosseiros, Sokal quisera denunciar a bazófia de uma esquerda intelectual que se julgava ter‐se 
convertido em massa ao relativismo, ou até ao irracionalismo, e ter rejeitado como "positivista" a 
própria idéia que possa existir um mundo exterior ao discurso...  
 
Todos estes ataques não empanaram o perpétuo sorriso de soslaio do antropólogo. Para Bruno Latour, 
seja que vítima que ele tenha sido, o "affaire Sokal" representa esse momento privilegiado em que 
indivíduos observados ‐ na ocorrência, cientistas ‐ por primeira vez se revoltaram contra as análises de 
seus observadores sociólogos, estabelecendo, assim, que sua reflexão sobre si próprios não tivesse nível 
inferior em relação à dos especialistas. "É preciso escutar os gritos das pessoas que se explica", comenta 
ele, divertido.  
 
À censura de "construtivismo radical" Bruno Latour replica também, indiretamente, por sua espantosa 
insistência em estender os limites do "social" ao que ele chama de os "não‐humanos". Com isso ele 
entende não somente os animais, mas também as plantas e as rochas, pleiteando zombeteiramente por 
um Senado em que seriam representadas as aves migratórias e as zonas inundáveis! É este realismo de 
um gênero todo particular que o leva a querer substituir à noção de "ator" a de "atuante".  
 
"É uma honra ser uma coisa", afirma ele seguindo a filósofa Isabelle Stengers, que, com o editor Philippe 
Pignarre, fundador dos Desmancha‐prazeres de pensar [Empêcherus de penser em rond] (hoje uma 
coleção du Seuil), e o sociólogo Michel Callon, seu colega na École des mines, fazem parte de seus 
velhos cúmplices.  
 
 
Esta extrema extensão do domínio da sociologia não arriscaria comprometer novamente este saber com 
uma concepção "organicista" duma sociedade concebida como um formigueiro, ao risco de naturalizar 
as hierarquias sociais?  
 
"Eu caí na sociologia muito cedo, aprendendo a dos babuínos, reconhece Bruno Latour. "É aí que eu 
aprendi que a definição do órgão é difícil de estabelecer, tanto como a do gene, o que evitou de eu 
naufragar no darwinismo social. As grandes descobertas se tornam muito amplamente espantalhos por 
causa da epistemologia que se lhes acrescenta. O que faz Edward Wilson (professor de zoologia em 
Harvard, fundador da sociobiologia) com as formigas, é apaixonante. O que ele deduz com a sociologia, 
é grotesco!"  
 
Multiplicar as incertezas, seja sobre os grupos, a ação, os fatos, os objetos ou a experiência, contra a 
soberania duma sociologia segura de si, fosse ela combinada com o adjetivo "crítica", tal é o projeto de 
sua obra com título em forma de programa: Mudar de sociedade, refazer a sociologia (La Découverte, 
402 p.). "Eu considero a epistemologia como o amianto. Ela é um produto perfeito, do qual se retirou 
todas as construções para evitar os incêndios e agora a gente se apercebe que há doenças 
profissionais", atira ele.  
 
"COLETIVO"  
 
Bruno Latour pensa, com efeito, que o erro dos sociólogos, de Augusto Conte a Bourdieu, passando por 
Durkheim, é de ter abordado os elos sociais como entidades já constituídas, tão fixas como as estrelas 
do céu de Aristóteles.  
 
Sob a inspiração do fundador americano da "etnometodologia", Harold Garfinkel, um dos ancestrais dos 
estudos de gêneros, mas sobretudo do filósofo, criminologista e sociólogo francês Gabriel Tarde (1843‐
1904), que opunha seu individualismo metodológico ao "todo social" de Durkheim, Bruno Latour estima 
ser preciso abandonar não somente a noção de "substância social", mas a de sociedade, que ele sugere 
substituir pela expressão mais móvel de "coletivo".  
 
"É social para mim o que é novo e quando se sente que há alguma coisa que não cola. É preciso chamar 
de "social" o momento em que isso estala, onde, nas associações, não se chega mais a compor. Pode‐se 
falar de elo social, quando é se trata de sua perda: os subúrbios queimam, o Gulf Stream congela, o urso 
devora carneiros que ele não deveria comer: isso, sim, é social!" Contra um saber petrificado em 
ideologias, ele propõe, em suma, fluidificar a sociologia.  
 
O olhar do especialista deve, segundo ele, se deslocar até um nível em que os atores se reúnem, quer 
dizer, aquém daquilo onde se situa a tradicional "sociologia do social" e sua exasperação em sociologia 
crítica.  
 
"Como o mostra Zygmunt Bauman, a invenção da noção de sociedade se faz no século XIX, com o 
objetivo de evitar a revolução".  
 
É inaudito pensar que se estuda nos departamentos de sociologia Marx, Weber, Durkheim como 
novidades. Ao crer nisso, as ciências sociais correm o risco de produzir agora explicações saídas todas 
armadas do computador sobre fatos que não existem. Assim, temos, por exemplo, a pretensa agressão 
por pretensos jovens neonazistas da jovem mitômana Marie L.. Por mais fictícia que ela tenha sido, nem 
por isso ela deixou de desencadear sábios desenvolvimentos sociológicos.  
 
A sociologia deve igualmente ser sensível às circulações e integrar o acontecimento como a surpresa. 
Nisso Bruno Latour está próximo da "sociologia do risco" do alemão Ulrich Beck, edificada em reação a 
diversos incidentes abalando as certezas duma era industrial abalada (as catástrofes de Bhopal ou de 
Tchernobyl), embora o francês prefira qualificar sua própria teoria de "sociologia do ator‐em‐rede" 
(Actor Network Theory, segundo a sigla ANT, palavra que em inglês significa "formiga").  
 
É sempre como etnógrafo, preocupado, em primeiro lugar, em descrever bem que, nos seus trabalhos 
mais recentes, Bruno Latour se debruçou sobre a via política e o que ele chamou, no termo de uma 
enquête sobre o Conselho de Estado conduzida nos anos 1990, de "a fábrica do direito". Ele apela, para 
isso, ao pragmatismo do americano John Dewey (1859‐1952), que ele contribuiu a fazer descobrir e 
traduzir.  
 
"Contrariamente à tradição de engenharia social antes européia, de ciências camerais a serviço do 
Estado, comenta ele, a idéia de Dewey é que os políticos são cegos, as ciências sociais também e que as 
conseqüências de nossas ações são desatendidas. Cego por cego, a questão é aquela dos instrumentos 
de tateação comum. São essas varas brancas que definem a política. Se está numa situação em que é 
preciso organizar o tateamento, longe do racionalismo guiando o progresso da República. Os 
pragmáticos não seriam menos democratas e absolutamente não seriam reacionários à antiga".  
 
Do lado desconcertante duma obra e de referências que se querem igualmente como reabilitação em 
regra do relativismo enquanto única atitude científica, ao menos como sendo levada a sério a 
multiplicidade dos pontos de vista.  
 
"Considerar o relativismo como uma injúria é inaudito quando se pensa no elogio contínuo que se faz de 
Einstein e da relatividade", se insurge Bruno Latour. O fato de que em moral ou em direito o relativismo 
é uma virtude apreciada, torna tanto mais estranho que o mal‐estar se instale desde que se pronuncia a 
palavra. É o medo do relativismo que é causa de que a gente se agarre a essa categoria toda feita que se 
chama de o social". Se o relativismo significa estabelecer distância, então, para ele o relativismo 
continua muito bem como sua bandeira.  
 
Diversamente daqueles que os americanos identificam coletivamente sob o vocábulo de "French 
theory"[Teoria francesa] ‐ os Derrida, Lacan, Foucault ‐, os intelectuais franceses que pertencem à 
geração seguinte, contemporânea de Bruno Latour, ainda não receberam uma "etiqueta", nem na 
França, nem no exterior.  
 
Embora muito heterogêneos, os trabalhos do sociólogo Luc Boltanski, do etnólogo Philippe Descola, do 
biólogo e filósofo Henri Atlan ou do próprio Bruno Latour têm, no entanto, em comum que eles se 
esforçam, cada um à sua maneira, em subverter os hábitos adquiridos das ciências humanas.  
 
A diversidade dos assuntos abordados por este último após a publicação de suas primeiras obras, La Vie 
du laboratoire [A Vida do laboratório] (La Découverte, 1991) talvez seja também responsável.  
 
Entre seus principais ensaios, convém mencionar Nous navons jamais été modernes. Essai 
danthropologie symétrique [Jamais fomos modernos. Ensaio de antropologia simétrica] (La Découverte, 
1991), Aramis ou lamour des tecnhniques [Aramis ou amor das técnicas] (La Découverte, 1992), Petites 
leçons de philosophie des sciences [Pequenas lições de filosofia das ciências] (Seuil, 1996), Petite 
réflexion sur le culte moderne des dieux Faitiche [Pequena reflexão sobre o culto moderno dos deuses 
Fetiche] (Les Empêcheurs de penser en rond, 1996), Jubiler ou les difficultés de lénonciation religieuse 
[Jubilar ou as dificuldades da enunciação religiosa] (Les Empêcheurs, 2002) e La Fabrique du droit. Une 
ethnographie du Conseil dEtat [A Fábrica do direito. Uma etnografia do Conselho de Estado] (La 
Découverte, 2002).