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2009-2010

Teus Olhos 
Teus olhos são a pátria do relâmpago e da lágrima,
silêncio que fala,
tempestades sem vento, mar sem ondas,
pássaros presos, douradas feras adormecidas,
topázios ímpios como a verdade,
Outono numa clareira de bosque onde a luz canta no ombro
duma árvore e são pássaros todas as folhas,
praia que a manhã encontra constelada de olhos,
cesta de frutos de fogo,
mentira que alimenta,
espelhos deste mundo, portas do além,
pulsação tranquila do mar ao meio-dia,
universo que estremece,
paisagem solitária.
Octavio Paz, in Liberdade sob Palavra
Fernando Pessoa

Tradução de Luis Pignatelli

Olhos 
Olhos:
brilhantes da chuva que caiu
quando Deus me mandou beber.
George Underwood, Left Eye
Olhos:
ouro, que a noite me contou nas mãos,
quando colhi urtigas
e fiz arrepender as sombras dos Provérbios.
Olhos:
noite, que sobre mim resplandeceu, quando escancarei o portão
e atravessado pelo gelo invernoso das minhas fontes

Rafal Olbinski
saltei pelos lugares da eternidade.
Paul Celan, in Papoila e Memória
2009-2010

Tradução de João Barrento e Y. K. Centeno


2009-2010
Imagens que Passais pela Retina De Quem é o Olhar
De quem é o olhar
Imagens que passais pela retina Que espreita por meus olhos?
Dos meus olhos, porque não vos fixais? Quando penso que vejo,
Que passais como a água cristalina Quem continua vendo
Por uma fonte para nunca mais!... Enquanto estou pensando?
Ou para o lago escuro onde termina Por que caminhos seguem,
Vosso curso, silente de juncais, Não os meus tristes passos,
E o vago medo angustioso domina, Mas a realidade
— Porque ides sem mim, não me levais? De eu ter passos comigo?
Sem vós o que são os meus olhos abertos?
— O espelho inútil, meus olhos pagãos! Às vezes, na penumbra
Aridez de sucessivos desertos... René Magritte (1898-1967), Do meu quarto, quando eu
Fica sequer, sombra das minhas mãos, O Espelho Falso, 1928 Por mim próprio mesmo
Flexão casual de meus dedos incertos, Em alma mal existo,
— Estranha sombra em movimentos vãos.
Toma um outro sentido
Camilo Pessanha, in Clepsidra Em mim o Universo —
É uma nódoa esbatida
Olhar e Chorar De eu ser consciente sobre
Not ável criatura são os olhos! Admirável instrumento da
Minha ideia das coisas.
natureza; prodigioso artifício da Providência! Eles são a primeira Rafal Olbinski
origem da culpa; eles a primeira fonte da Graça. São os olhos duas
Se acenderem as velas
víboras, metidas em duas covas, e que a tentação pôs o veneno, e
E não houver apenas
a contrição a triaga. São duas setas com que o Demónio se arma
A vaga luz de fora —
para nos ferir e perder; e são dois escudos com que Deus depois
Não sei que candeeiro
de feridos nos repara para nos salvar. Todos os sentidos do homem
Aceso onde na rua —
têm um só ofício; só os olhos têm dois. O Ouvido ouve, o Gosto gosta, o Olfacto
Terei foscos desejos
cheira, o Tacto apalpa, só os olhos têm dois ofícios: Ver e Chorar. Estes serão os
De nunca haver mais nada
dois pólos do nosso discurso.
No Universo e na Vida
Ninguém haverá (se tem entendimento) que não deseje saber por que ajuntou
De que o obscuro momento
a Natureza no mesmo instrumento as lágrimas e a vista; e por que uniu a mesma
Que é minha vida agora!
potência o ofício de chorar, e o de ver? O ver é a acção mais alegre; o chorar a
mais triste. Sem ver, como dizia Tobias, não há gosto, porque o sabor de todos
Um momento afluente
os gostos é o ver; pelo contrário, o chorar é o estilado da dor, o sangue da alma,
Dum rio sempre a ir
a tinta do coração, o fel da vida, o líquido do sentimento. Por que ajuntou logo
Esquecer-se de ser,
a natureza nos mesmos olhos dois efeitos tão contrários, ver e chorar? A razão
Espaço misterioso
e a experiência é esta. Ajuntou a Natureza a vista e as lágrimas, porque as
Entre espaços desertos
lágrimas são consequência da vista; ajuntou a Providência o chorar com o ver,
Cujo sentido é nulo
porque o ver é a causa do chorar. Sabeis porque choram os olhos? Porque vêem.
E sem ser nada a nada.
2009-2010

Padre António Vieira, in Sermões E assim a hora passa


Metafisicamente.
Rafal Olbinski
Fernando Pessoa, in Cancioneiro
Fuga

2009-2010
O músico procura
Fixar em cada verso
O cântico disperso
Na luz, na água e no vento.

Porém, luz, vento e água


Variam riso e mágoa,
De momento a momento.

E em vão a área dos dedos


Se eleva! Não traduz
Os súbitos segredos
Escondidos no vento,
Nas águas e na luz...

Pedro Homem de Mello, in Segredo


Rafal Olbinski

Pobre Velha Música!

Pobre velha música!


Não sei por que agrado,
Enche-se de lágrimas Fernando Pessoa
Meu olhar parado.

Recordo outro ouvir-te,


Não sei se te ouvi
Nessa minha infância
Que me lembra em ti.

Com que ânsia tão raiva


Quero aquele outrora!
E eu era feliz? Não sei:

Rafal Olbinski
Fui-o outrora agora.

Fernando Pessoa, in Cancioneiro


2009-2010

Rafal Olbinski
2009-2010
Uma Gargalhada de Raparigas
DIÁLOGOS E ANALECTOS
Uma gargalhada de raparigas soa do ar da estrada.
Riu do que disse quem não vejo.
Lembro-me já que ouvi. Antelóquio
Mas se me falarem agora de uma gargalhada de rapariga da estrada,
Direi: não, os montes, as terras ao sol, o Sol, a casa aqui, Aprendiz – Como posso ouvir-te? Como posso entender-te?
E eu que só oiço o ruído calado do sangue que há na minha vida dos dois Como soa a tua voz quando me falas?
lados da cabeça. Jacek Yerka
Alberto Caeiro (heterónimo de Fernando Pessoa),
in Poemas Inconjuntos Silêncio – Soa tal como a tua quando me pronuncias.
E, se me pronuncias, como podes tu não me escutar?
Não há música ou palavra que não me contenha;
O Suporte da Música
Desenho contornos, preencho vazios
Dou tempo ao tempo para que o sentido flua.
o suporte da música pode ser a relação
entre um homem e uma mulher, a pauta
Aprendiz – Talvez seja por isso que o mundo me parece cheio de música
dos seus gestos tocando-se, ou dos seus
Sobretudo quando o encontro dentro de um livro
olhares encontrando-se, ou das suas
Ou penso estar a criá-lo quando escrevo.
Talvez seja por isso que as palavras parecem brotar
vogais adivinhando-se abertas e recíprocas,
De todas as coisas que existem ou penso.
ou dos seus obscuros sinais de entendimento,
Ora cantam, ora voam, ora se calam…
crescendo como trepadeiras entre eles.
E, no entanto, continuo sempre a ouvi-las…
o suporte da música pode ser uma apetência
Será apenas a ti que ouço?
dos seus ouvidos e do olfacto, de tudo o que se
Palavra – O que farás agora comigo?
ramifica entre os timbres, os perfumes,
Não te menosprezes.
mas é também um ritmo interior, uma parcela
O que seria o mundo sem os aprendizes?
do cosmos, e eles sabem-no, perpassando Rafal Olbinski Escuta todos os silêncios.
É na minúscula centelha do teu ser que eu sou eterna.
por uns frágeis momentos, concentrado
O que serias tu sem a minha eternidade
num ponto minúsculo, intensamente luminoso,
Para interrogar e criar permanentemente?
que a música, desvendando-se, desdobra,
entre conhecimento e cúmplice harmonia.
Silêncio – Por que insistes em chamar-me silêncio,
Se não paras de me escutar, de me falar, de me dizer.
Vasco Graça Moura, in Antologia dos Sessenta Anos
Bem sabes que não sou mais do que as palavras que nascem de ti.

Suy, Diálogos e Analectos


2009-2010

«A música é o barulho que pensa.»


Victor Hugo
Os Cinco Sentidos

2009-2010
Os nossos sentidos
Já tos vou distinguir
Com palavras excelentes,
- Escuta, amor, se queres ouvir.
O primeiro era ver
Tua boquinha a falar.
Que linda cara para beijos,
Se os quisesses aceitar.
Segundo era ouvir,
Gosto de ouvir novas tuas,
Trago-te no pensamento
Muito mais do que tu cuidas.
Terceiro era cheirar,
Tu cheiras mesmo a rosa
Oh que lindos olhos tens!
Oh que cara tão formosa!
O quarto era gostar,
Que gostos posso eu ter,
Ausente do teu amor
Mais me valia morrer.
Charles West Cope, 1811-1890, The Thorn, 1866
O quinto apertar
As tuas mãos com as minhas. AFORISMOS
Havemos de ir à igreja «A rosa tem espinhos que o olfacto ignora.»
Trocar nossas palavrinhas. Rui de Morais, in Do Riso das Insónias, 2007

(poema tradicional da Beira Baixa, «O instinto é o olfacto da mente.»


Rochas de Baixo), Jaime Lopes Dias, D. Gay de Girardin
Etnografia da Beira, 2ª edição, vol. V,
Lisboa, 1966. «A memória é o perfume da alma.»
George Sand

Robert Mapplethorpe
«Aquilo a que a terminologia «De todos os sentidos, a vista é o mais
romântica chama génio ou superficial, o ouvido o mais orgulhoso, o olfacto
inspiração não é mais do que o mais voluptuoso, o gosto o mais supersticioso
2009-2010

encontrar empiricamente o e inconstante, o tacto o mais profundo.»


caminho, seguir o próprio olfacto, Denis Diderot
tomar atalhos.»
Italo Calvino
2009-2010
As Rosas Amo dos Jardins de Adónis Quando Olho para Mim não Me Percebo
Quando olho para mim não me percebo.
As Rosas amo dos jardins de Adónis,
Tenho tanto a mania de sentir
Essas volucres amo, Lídia, rosas,
Que me extravio às vezes ao sair
Que em o dia em que nascem,
Das próprias sensações que eu recebo.
Em esse dia morrem.
A luz para elas é eterna, porque
O ar que respiro, este licor que bebo,
Nascem nascido já o sol, e acabam
Pertencem ao meu modo de existir,
Antes que Apolo deixe
E eu nunca sei como hei de concluir
O seu curso visível.
As sensações que a meu pesar concebo.
Assim façamos nossa vida um dia,
Inscientes, Lídia, voluntariamente
Nem nunca, propriamente reparei,
Que há noite antes e após
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
O pouco que duramos.
Walter Pfisterer,
Serei tal qual pareço em mim? Serei
Ricardo Reis (heterónimo de Fernando Pessoa), in Odes
Physalis
Tal qual me julgo verdadeiramente?
Antes o Voo da Ave
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto, Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa), in Poemas
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada. Ditosa Ave
A recordação é uma traição à Natureza, Quem fosse acompanhando juntamente
Porque a Natureza de ontem não é Natureza. Por esses verdes campos a avezinha,
O que foi não é nada, e lembrar é não ver. Que despois de perder um bem que tinha,
Passa,
Albertoave, passa,
Caeiro e ensina-me
(heterónimo a passar!
de Fernando Pessoa), in O Guardador de Rebanhos - Poema XLIII Não sabe mais que cousa é ser contente!

E quem fosse apartando-se da gente,


Passa uma Borboleta por Diante de Mim Ela por companheira e por vizinha,
Passa uma borboleta por diante de mim Me ajudasse a chorar a pena minha,
E pela primeira vez no Universo eu reparo E eu a ela também a que ela sente!
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor. Ditosa ave! que ao menos, se a natura
A cor é que tem cor nas asas da borboleta, A seu primeiro bem não dá segundo,
No movimento da borboleta o movimento é que se move, Dá-lhe o ser triste a seu contentamento.
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
2009-2010

A borboleta é apenas borboleta Mas triste quem de longe quis ventura


E a flor é apenas flor. Que para respirar lhe falte o vento, Fonte: Dover
E para tudo, enfim, lhe falte o mundo!
As Mãos

2009-2010
Brandamente escrevem dos espasmos do sol.
Envelhecem do pulso ao cérebro, ao calor baço
de um revérbero no eixo dos ventos, usura
das máscaras que, sucessivamente, as transformam
de consciência em cal ou metal obscuro.
E já não é por si que a presença existe ou
subsiste o que separa. Destroem as sementes,
apodrecem como um sopro e não são remanso
na areia ou domadoras de chamas. Igualam-se
à água, para serem raiz do que se cala
e insinuam-se, para sempre, no pó da noite.
Um castelo de pele tomba. Deixam de ser
nomeadas ou nome. Escrevem, brandamente,
do termo da música o luto do silêncio.
Orlando Neves, in Decomposição - o Corpo

Rafal Olbinski
2009-2010

Robert Mapplethorpe
CACIDA DA MÃO IMPOSSÍVEL

2009-2010
Não quero mais que uma mão,
mão ferida, se possível.
Não quero mais que uma mão,
inda que passe noites mil sem cama.
Seria um lírio pálido de cal,
uma pomba atada ao meu coração,
o guarda que na noite do meu trânsito
de todo vetaria o acesso à lua.
Não quero mais que essa mão
para os diários óleos e a mortalha de minha agonia.
Não quero mais que essa mão
para de minha morte ter uma asa.
Tudo mais passa.
Rubor sem nome mais, astro perpétuo.
O demais é o outro; vento triste
enquanto as folhas fogem debandadas.
Federico García Lorca, in Divã do Tamarit
As Tuas Mãos Terminam em Segredo Tradução de Óscar Mendes

As tuas mãos terminam em segredo. Em Todas as Ruas te Encontro


Os teus olhos são negros e macios Em todas as ruas te encontro
Cristo na cruz os teus seios (?) esguios em todas as ruas te perco
E o teu perfil princesas no degredo... conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
Entre buxos e ao pé de bancos frios que é de olhos fechados que eu ando
Nas entrevistas alamedas, quedo a limitar a tua altura
O vendo põe o seu arrastado medo e bebo a água e sorvo o ar
Saudoso o longes velas de navios. que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
Mas quando o mar subir na praia e for que o meu corpo se transfigura
Arrasar os castelos que na areia e toca o seu próprio elemento
As crianças deixaram, meu amor, num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
Será o haver cais num mar distante... onde um braço teu me procura.
Pobre do rei pai das princesas feias
2009-2010

Em todas as ruas te encontro


No seu castelo à rosa do Levante! em todas as ruas te perco.
Fernando Pessoa, in Cancioneiro Mário Cesariny, in Pena Capital
Dobrada à Moda do Porto

2009-2010
Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.

Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.

Quem sabe o que isto quer dizer?


Eu não sei, e foi comigo...

(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,


Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).
Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,

Anton Arkhipov, Coffee Break


Nunca se pode comer frio, mas veio frio.
Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa), in Poemas
«A fome só se satisfaz com a comida e a fome de imortalidade da alma
com a própria imortalidade. Ambas são verdadeiros instintos.»
2009-2010

Ayd, Bulgária, 2009 Fernando Pessoa


2009-2010

«Um homem com fome não é um homem livre.»


Miguel de Unamuno
«A fome de cultura sentem-na muito poucos,
muito menos do que os que crêem senti-la.»

Robert Stevenson, Discursos


Christopher Gilbert

Gostava de Gostar de Gostar


Gostava de gostar de gostar.
Um momento... Dá-me de ali um cigarro,
Do maço em cima da mesa-de-cabeceira.
Continua... Dizias
Que no desenvolvimento da metafísica Fred Wessel, Anticipating Bacchus
De Kant a Hegel
Não só Vinho, mas nele o Olvido
Alguma coisa se perdeu.
Concordo em absoluto. Não só vinho, mas nele o olvido, deito
Estive realmente a ouvir. Na taça: serei ledo, porque a dita
Nondum amabam et amare amabam (Santo Agostinho). É ignara. Quem, lembrando
Ou prevendo, sorrira?
Que coisa curiosa estas associações de ideias!
Dos brutos, não a vida, senão a alma,
Estou fatigado de estar pensando em sentir outra coisa. Consigamos, pensando; recolhidos
Obrigado. Deixa-me acender. Continua. Hegel... No impalpável destino
Que não 'spera nem lembra.
Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa), in Poemas Com mão mortal elevo à mortal boca
2009-2010

Em frágil taça o passageiro vinho,


«Hoje, setenta por cento da humanidade Baços os olhos feitos
Para deixar de ver.
ainda morre de fome... e trinta por cento faz
dieta.» Ricardo Reis (heterónimo de Fernando Pessoa), in Odes
Os Cinco Sentidos

2009-2010
Os nossos sentidos
Já tos vou distinguir
Com palavras excelentes,
- Escuta, amor, se queres ouvir.
O primeiro era ver
Tua boquinha a falar.
Que linda cara para beijos,
Se os quisesses aceitar.
Segundo era ouvir,
Gosto de ouvir novas tuas,
Trago-te no pensamento
Muito mais do que tu cuidas.
Terceiro era cheirar,
Tu cheiras mesmo a rosa
Oh que lindos olhos tens!
Oh que cara tão formosa!
O quarto era gostar,
Que gostos posso eu ter,
Ausente do teu amor
Mais me valia morrer.
Charles West Cope, 1811-1890, The Thorn, 1866
O quinto apertar
As tuas mãos com as minhas. AFORISMOS

Giuseppe Guadagno, A tight couple, 2007


«A rosa tem espinhos que o olfacto ignora.»
Havemos de ir à igreja
Rui de Morais, in Do Riso das Insónias, 2007
Trocar nossas palavrinhas.
(poema tradicional da Beira Baixa, «O instinto é o olfacto da mente.»
Rochas de Baixo), Jaime Lopes Dias, D. Gay de Girardin
Etnografia da Beira, 2ª edição, vol. V,
Lisboa, 1966. «A memória é o perfume da alma.»
George Sand
«Aquilo a que a terminologia «De todos os sentidos, a vista é o mais
romântica chama génio ou superficial, o ouvido o mais orgulhoso, o olfacto
inspiração não é mais do que o mais voluptuoso, o gosto o mais supersticioso
2009-2010

encontrar empiricamente o e inconstante, o tacto o mais profundo.»


caminho, seguir o próprio olfacto, Denis Diderot
tomar atalhos.»
Italo Calvino
2009-2010
As Rosas Amo dos Jardins de Adónis Quando Olho para Mim não Me Percebo
Quando olho para mim não me percebo.
As Rosas amo dos jardins de Adónis,
Tenho tanto a mania de sentir
Essas volucres amo, Lídia, rosas,
Que me extravio às vezes ao sair
Que em o dia em que nascem,
Das próprias sensações que eu recebo.
Em esse dia morrem.
A luz para elas é eterna, porque
O ar que respiro, este licor que bebo,
Nascem nascido já o sol, e acabam
Pertencem ao meu modo de existir,
Antes que Apolo deixe
E eu nunca sei como hei de concluir
O seu curso visível.
As sensações que a meu pesar concebo.
Assim façamos nossa vida um dia,
Inscientes, Lídia, voluntariamente
Nem nunca, propriamente reparei,
Que há noite antes e após
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
O pouco que duramos. Walter Pfisterer, Serei tal qual pareço em mim? Serei
Ricardo Reis (heterónimo de Fernando Pessoa), in Odes Physalis

Tal qual me julgo verdadeiramente?


Antes o Voo da Ave
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto, Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa), in Poemas
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada. Ditosa Ave
A recordação é uma traição à Natureza, Quem fosse acompanhando juntamente
Porque a Natureza de ontem não é Natureza. Por esses verdes campos a avezinha,
O que foi não é nada, e lembrar é não ver. Que despois de perder um bem que tinha,
Passa,
Albertoave, passa,
Caeiro e ensina-me
(heterónimo a passar!
de Fernando Pessoa), in O Guardador de Rebanhos - Poema XLIII Não sabe mais que cousa é ser contente!

E quem fosse apartando-se da gente,


Passa uma Borboleta por Diante de Mim Ela por companheira e por vizinha,
Passa uma borboleta por diante de mim Me ajudasse a chorar a pena minha,
E pela primeira vez no Universo eu reparo E eu a ela também a que ela sente!
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor. Ditosa ave! que ao menos, se a natura
A cor é que tem cor nas asas da borboleta, A seu primeiro bem não dá segundo,
No movimento da borboleta o movimento é que se move, Dá-lhe o ser triste a seu contentamento.
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
2009-2010

A borboleta é apenas borboleta Mas triste quem de longe quis ventura


E a flor é apenas flor. Que para respirar lhe falte o vento, Fonte: Dover
E para tudo, enfim, lhe falte o mundo!
Fernando Pessoa

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