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CONCURSO MARQUINHA DO BIQUÍNI: CIDADE, EVENTO LGBT, E VISIBILIDADES POLÍTICO-CORPORAIS ENTRE JOVENS HOMOSSEXUAIS EM UM

CONCURSO MARQUINHA DO BIQUÍNI: CIDADE, EVENTO LGBT, E VISIBILIDADES POLÍTICO-CORPORAIS ENTRE JOVENS HOMOSSEXUAIS EM UM BAIRRO PERIFÉRICO DE BELÉM 1 Ponencia presentada en el V Coloquio de Estudios de Varones y Masculinidades. 14-16 enero 2015, Santiago de Chile.

Ramon Pereira dos Reis 2

Resumo:

Esta é uma pesquisa de doutorado, em curso, cujo principal objetivo é apresentar um estudo antropológico em perspectiva comparada entre as cidades de São Paulo e Belém sobre os processos de constituição de sociabilidades homossexuais em bairros periféricos destas capitais, a partir de etnografias nos bares Guinga’s (São Mateus), Luar Rock (Itaquera) e Refúgio dos Anjos (Guamá). Para este paper privilegiei os dados recolhidos durante a incursão etnográfica que realizei (2º semestre de 2013) no concurso Marquinha do Biquíni, no bairro do Guamá, em Belém - evento que ocorre desde 2008 no quintal de uma casa, com a finalidade de “eleger o melhor bronzeado, a melhor marquinha do biquínidas candidatas (rapazes homossexuais). Durante o texto utilizei o método de observação direta, que levou em conta, principalmente, minhas percepções e conversas no lugar; a ideia foi olhar para dentro do bairro a partir desse concurso e mostrar seus efeitos capilares na conexão com fluxos pela cidade e ao acionamento de marcadores sociais de gênero, sexualidade, raça/cor. Trata-se então de uma pesquisa com percurso de campo bastante avançado que pretende, tanto em São Paulo quanto em Belém, esquadrinhar uma leitura a contrapelo do discurso senso comum sobre bairros de periferia, levando em conta agenciamentos, processos de diferenciação/identificação, e diferentes inserções de sujeitos homossexuais em malhas urbanas específicas. Sobre o concurso, alguns aspectos que me chamaram a atenção dizem respeito aos desejos e vontades daqueles jovens

1 Paper apresentado no V Colóquio de Estudos sobre Homens e Masculinidades. 14-16 de janeiro 2015, Santiago de Chile. Pesquisa de doutorado, em andamento, financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) Processo nº. 2012/11721-8 -, sob orientação do Prof. Dr. Júlio Assis Simões. “As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações expressas neste material são de responsabilidade do(s) autor(es) e não necessariamente refletem a visão da FAPESP”. 2 Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade de São Paulo PPGAS/USP. E-mail: ramonreis@usp.br Universidade de São Paulo

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homossexuais que, de algum modo, se assemelhavam: a busca por visibilidade; a produção de corporalidades

homossexuais que, de algum modo, se assemelhavam: a busca por visibilidade; a produção de corporalidades femininas; a iniciativa de grupos a respeito de uma “necessidade” de promover eventos para LGBTs. Aspectos vivenciados com veemência, destacados em sentimentos de decepção, alegria e desespero. Portanto, nesta etnografia, procurei evidenciar os aspectos supracitados, de um evento que propõe, mesmo que indiretamente, um diálogo entre juventude homossexual e cidade em uma chave que mescla visibilidades político-corporais e modos de apropriação do espaço urbano com menos fixidez e mais circulação e borramento de fronteiras.

Palavras-chave: Bairro periférico. Belém. Evento LGBT. Jovens homossexuais. Visibilidades político-corporais.

CONCURSO MARQUINHA DO BIQUÍNI: CIDADE, EVENTO LGBT, E VISIBILIDADES POLÍTICO-CORPORAIS ENTRE JOVENS HOMOSSEXUAIS EM UM BAIRRO PERIFÉRICO DE BELÉM

Guamá e suas conexões: bairro de sociabilidade festiva e homossexual

Esta é uma pesquisa de doutorado em curso, cujo principal objetivo é apresentar um estudo antropológico em perspectiva comparada entre as cidades de São Paulo e Belém sobre os processos de constituição de sociabilidades homossexuais em bairros periféricos destas capitais, a partir de etnografias nos bares Guinga’s (São Mateus), Luar Rock (Itaquera) e Refúgio dos Anjos (Guamá). Para este paper privilegiei os dados recolhidos durante a incursão etnográfica que realizei (2º semestre de 2013) no concurso Marquinha do Biquíni, no bairro do Guamá, em Belém - evento que ocorre desde 2008 no quintal de uma casa, com a finalidade de “eleger o melhor bronzeado, a melhor marquinha do biquíni” das candidatas 3 (rapazes homossexuais) 4 .

3 Optei por manter a palavra candidatas, enquanto acionamento situacional, referindo-se exclusivamente aos participantes do concurso. 4 Mantive a palavra homossexuais como forma de dar inteligibilidade ao termo. Estou ciente de que o uso desse termo não dá conta de explicar realidades, principalmente pela diversidade de usos e sentidos em questão. Foi possível observar em campo a recorrência a termos como “gay”, “viado”, “bicha”.

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Sobre o bairro do Guamá, Dias Júnior (2009) aponta que: trata-se de um universo cultural

Sobre o bairro do Guamá, Dias Júnior (2009) aponta que:

trata-se de um universo cultural muito rico, um bairro de bastante movimento, como uma sementeira humana que desabrocha todos os

dias nas ruas, nas feiras, nas escolas, indo e vindo para o trabalho, se articulando de diversas formas, participando de eventos lúdicos e festas religiosas. Enfim, um espaço específico da urbe, que guarda algumas características que lhe dão singularidade, determinando o nível de identificação de seus moradores com o espaço.

A construção de uma identidade coletiva, genuinamente guamaense, está

ligada a sua formação sócio-espacial. Alguns indícios apontam o processo

de ocupação do bairro como um dos fatores responsáveis pela formação das afinidades sociais de identificação dos moradores com o espaço. A

gênese do bairro se deu a partir de duas direções: uma primeira ocupação desencadeada no início do século XX, a partir do bairro de São Braz, e outra intensificada na década de 1950, proveniente do Rio do Guamá.

A ocupação das primeiras áreas do Guamá, como já foi dito, se deu como

extensão do bairro de São Braz, onde se encontravam principalmente migrantes nordestinos que chegavam a Belém atraídos pela economia da borracha. A facilidade de ficar em terrenos próximos ao bairro de São Braz, ponto de entrada e saída da cidade, possibilitou a ocupação do espaço por grande número de migrantes, que se embrenharam nas matas próximas, formando caminhos e passagens por onde foram se fixando as famílias (p. 38).

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Quero deixar claro que o interesse não é empobrecer meu argumento em torno do privilégio ao aspecto de lazer e sociabilidade homossexual em detrimento dos altos índices de violências que são noticiados diariamente sobre os bairros periféricos de Belém, incluindo o Guamá. Seguirei uma construção textual a contrapelo do discurso legitimado de violência, dando ênfase para um evento LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) específico enquanto mais uma faceta da constituição do bairro. O caráter processual do bairro e do evento LGBT enquanto “lugares de eventualidades espaço-temporais” (Massey, 2013) contribui para colocar em primeiro plano o aspecto micropolítico das relações (que compõem “coleções de estórias”) sempre

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inacabadas e produzidas no cotidiano. As “geografias imaginativas” do bairro borram/conectam fronteiras e aproximam

inacabadas e produzidas no cotidiano. As “geografias imaginativas” do bairro borram/conectam fronteiras e aproximam grupos e sujeitos. Há, sem dúvida, aqui pistas interdisciplinares promissoras entre geografia e antropologia, mas que por uma economia textual não será adensada. Ainda sobre Massey (2013) acerca do uso que ela faz do conceito de relação, a autora evidencia:

Uma política relacional de lugar, então envolve tanto as inevitáveis negociações apresentadas pelo encontrar-se ao acaso [throwntogetherness] quanto uma política dos termos de abertura e fechamento. Mas um sentido global de lugares evoca, também, outra geografia do político: uma geografia que irá olhar para fora, para dirigir- se às espacialidades mais amplas das relações de sua construção. Isto levanta a questão de uma política de conectividade (p. 255)

Assim, a partir de uma perspectiva relacional, vale notar que tanto o Guamá quanto os bairros contíguos Jurunas e Terra Firme (também periféricos) se constituem enquanto áreas de extensa mobilidade e sociabilidade marcados por fluxos e contrafluxos com vistas menos a isolar determinado bairro num tempo ou espaço e mais a destacar a dinâmica de transformação cotidiana que interliga centros e periferias, asfaltos e rios, passado e presente, tal como mostra Rodrigues (2008) em sua pesquisa no bairro do Jurunas:

Essa mistura de novos e velhos padrões de relações vão dar a feição das formas de sociabilidade produzidas e do surgimento de novas identidades e/ou formas de identificação em espaço urbano. Seriam então os migrantes sujeitos cindidos entre o rural e o urbano, a tradição e a modernidade? Analisando as falas dos moradores sobre suas experiências de viver a cidade a partir da localidade do bairro, percebemos que os espaços de tradição e modernidade não se excluem mas se complementam e se transformam o tempo todo, de modo que o que não era nada agora é um bairro moderno, pois o progresso chegou e está aqui na nossa porta. Ao mesmo tempo, o bairro que se modernizou é visto por muitos entrevistados como uma extensão do interior; pois aqui tem tudo ou quase tudo que tinha lá. Assim, a partir das falas dos moradores, é muito difícil separar ou opor, de forma rígida, espaços

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rurais e urbanos, assim como formas tradicionais ou modernas de viver o cotidiano (p. 103).

rurais e urbanos, assim como formas tradicionais ou modernas de viver o cotidiano (p. 103).

Rodrigues (2008), apoiada em Simmel (1983) (sobre seu clássico conceito de sociabilidade enquanto “forma lúdica de sociação”), identifica uma sociabilidade festiva” (ao usar este termo a autora faz referência direta a Costa (2002)) na constituição do bairro do Jurunas, enquanto uma “sociedade de bairro” (Cf. Costa, 1999) a partir da produção de processos de identificação situados em um espaço-tempo que mesclam elementos locais e globais -; o argumento da autora é de que essa “sociabilidade festiva é, portanto, central para a transmissão da tradição e, ao mesmo tempo, um espaço produtor de relações, valores e experiências extremamente atuais” (Rodrigues, 2008, p. 58). Em campo ela ouvia a seguinte frase: O Jurunas não dorme!”, que procurava representar este bairro, pela mídia e por seus moradores, como um lugar festeiro e alegre, não obstante as constantes manchetes sensacionalistas e exageradas a respeito da violência, em bairros periféricos, que pululam nas mídias televisivas e jornalísticas da capital paraense. Costa (2009) ao desenvolver pesquisa na Terra Firme, sobre lazer e sociabilidade, percebeu práticas de “entrosamento” entre moradores em torno, principalmente, da música e do esporte; a capacidade de se organizarem fortalecia laços e movimentava a economia local. O ponto comum nesses três bairros (Guamá, Jurunas e Terra Firme), nesta chave de análise, são as sociabilidades, os fluxos, e mercados (movimentação financeira local), que se constituem em quintais de casas e ruas, como é o caso, por exemplo, do concurso Marquinha do Biquíni, que garante certo protagonismo de moradores e não- moradores homossexuais no bairro do Guamá. Meu primeiro contato com o bairro do Guamá aconteceu em 2004 quando tive que ir na UFPA (Universidade Federal do Pará) resolver algo referente ao vestibular. Conheci-o mais de perto logo após ter sido aprovado no curso de ciências sociais dessa mesma universidade, em 2005. A aproximação ficou mais intensa quando passei a frequentar o bar Refúgio dos Anjos (que em 2014 completou 18 anos, figurando como o espaço de sociabilidade homossexual mais antigo de Belém). O Guamá é um dos maiores e mais antigos bairros de Belém, reconhecido na mídia televisiva e impressa de modo pejorativo, por estar na periferia e ter altos índices de violência. Interesso-me menos por essa construção discursiva enviesada e mais pelas facetas e seus efeitos, procurando levar em conta agenciamentos, processos de

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identificação/diferenciação, e inserções na malha urbana da cidade de Belém. A ideia foi olhar para

identificação/diferenciação, e inserções na malha urbana da cidade de Belém. A ideia foi olhar para dentro do bairro a partir da escolha de um evento LGBT e procurar mostrar os efeitos capilares na conexão com fluxos pela cidade e ao acionamento de marcadores de gênero, sexualidade, raça/cor (Brah, 2006; McClintock, 2010) presentes nas relações entre jovens homossexuais (para além de uma perspectiva etária, mas como um estilo de vida (Cf. Debert, 2010)) e suas apresentações de si (o que chamo de visibilidades político- corporais). Soube da existência do concurso Marquinha do Biquíni quando retornei a Belém no dia 25 de setembro de 2013, à noite, em uma ida ao bar Veneza (localizado no bairro de São Braz, majoritariamente frequentado por homens e mulheres homossexuais), na companhia do amigo e antropólogo Milton Ribeiro 5 . O bar costuma ser movimentado nas noites de quarta-feira, funcionando como esquenta e ponto de encontro, além de uma espécie de termômetro noturno ao indicar, pelas conversas, qual o lugar que está bombando (badalado) na noite. Naquela quarta-feira calorosa me pareceu oportuno tomar umas cervejas para refrescar e socializar. Durante aqueles primeiros momentos os clichês iniciais de cumprimentos, acenos, sorrisos, aos poucos caminhavam para uma exaltação de ânimos. Sob efeito alcoólico uma corporalidade estridente se evidenciava por meio do grito, rebolado, aumento no tom de voz, se havia algum tipo de convenção prévia, ela acabava desaparecendo. Com o avançar da hora, na minha tentativa de manter o controle da situação tendo em vista o meu nível de sobriedade diminuído, mantive-me atento e passei por vários grupos de amigos em busca de novidades, parecia um repórter, senti-me na experiência de antropólogo- repórter. Em uma das minhas investidas, fui apresentado a um dos amigos de Milton. Na nossa conversa ele se mostrou exímio conhecedor de festas juninas paraenses e de concursos de beleza gay. Continuar aquele diálogo foi se tornando cada vez mais pertinente, seus relatos me davam conta da complexa rede de amigos e de eventos que era acionada, tal como uma árvore genealógica cheia de filiações. Enquanto prosseguíamos,

ele deu ênfase ao concurso Marquinha do Biquíni: “

É um concurso que acontece no

5 Durante o desenvolvimento desta pesquisa reconheço a importância de fazer incursões etnográficas na presença de amigos, além de fortalecer laços de amizade contribui para a sofisticação dos argumentos e dos insights a partir da nossa inserção no campo de estudos em gênero e sexualidade. Feita esta ressalva, mantive seu nome verdadeiro, principalmente, por uma questão de reconhecimento.

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Guamá, no quintal de uma casa, há mais de três anos quiseres saber mais detalhes

Guamá, no quintal de uma casa, há mais de três anos

quiseres saber mais detalhes.” Pensando na estratégia acima, que toma como ponto de partida minhas circulações pela cidade e observações na internet, a incursão etnográfica que trago à baila ocorreu no dia 28 de setembro de 2013, como mostrarei no próximo tópico.

Tem o evento no Face [book] se tu

Um concurso que elege o melhor bronzeado, a melhor marquinha do biquíni

elege o melhor bronzeado, a melhor marquinha do biquíni ” Imagem disponível em: <

Imagem disponível em:

No dia 28/09/13 (sábado) voltei ao Guamá. Convidei, novamente, Milton para me conduzir nas travessas e ruas do bairro e irmos juntos ao concurso. Ele foi o meu guia. Não obstante o curto percurso da casa dele ao espaço onde aconteceu o evento (passamos duas quadras e cruzamos a avenida José Bonifácio de grande fluxo de automóveis pelas manhãs e tardes), consegui perceber distinções, por exemplo, quando comparei aos bairros Cidade Velha e Batista Campos, onde a crescente lógica de verticalização se fortalece anualmente, o aumento do custo de vida embranquece o cenário; no Guamá quase não se vê prédios, há uma predominância de casas de madeira e de alvenaria, meninas e meninos, moças e rapazes, senhoras e senhores, a maioria negras/negros, brincam, bebem e conversam nas ruas. Tais dinâmicas aparecem fortemente em pesquisas que foram realizadas em periferias de Belém: Dias Júnior (2009), Rodrigues (2008) e Costa (2009), onde parentes,

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amigos, vizinhos, não só se conhecem como transitam entre casas e se prostram a frente

amigos, vizinhos, não só se conhecem como transitam entre casas e se prostram a frente destas observando o movimento da rua. Acredito que fomos os primeiros a chegar, às 21h00. O que nos fez localizar a casa foram os balões e a bandeira do arco-íris na frente. Um sobrado, em construção, com muros altos e um pequeno portão de entrada e saída. Após algumas batidas surge um rapaz, organizador da festa. Ele nos informou que o evento não tinha começado, ainda esperavam as fitas de controle, que seriam colocadas nos pulsos das pessoas. Enquanto esperávamos a liberação da entrada, acompanhados de um amigo de Milton, dei um giro de 180 graus com vistas a esquadrinhar a rua. Terreno abandonado. Bar. Casa. Casa. Rua. Casa que vendia bebidas e comidas. Ali, além da sociabilidade, era expresso um aspecto econômico que movimentava o trânsito de sujeitos e retroalimentava economias familiares de pequeno porte: pátios de casas que serviam de bares e lanchonetes. Aos poucos foram se formando pequenos grupos de amigos, de diversos bairros de Belém, juntos por determinados fatores de semelhança: vizinhança, afinidades, trabalho, torcida por candidatas. Grande parte de homens homossexuais, efeminados, negros, na faixa etária de 18 a 20 anos, de classes populares. A entrada foi liberada às 22h30. Pagamos R$10,00. No hall a primeira coisa que notei foi um cartaz com um fundo nas cores do arco-íris, estampando o rosto de Fernando Carneiro, eleito ao cargo de vereador, em 2012, pelo Partido Político Socialismo e Liberdade PSOL -, com a seguinte frase: “Enquanto houver homofobia, não haverá uma sociedade verdadeiramente democrática: o direito à cidade é o direito à diversidade6 . A capilaridade do poder político se mostrava eficaz naquele contexto, por um efeito discursivo que procurava se conectar às demandas de LGBTs em Belém e por todo o Pará.

6 Fernando Carneiro, 50 anos, foi eleito com 3.452 votos, é natural de São Luís, MA (ver site:

<http://www.eleicoes2012.info/fernando-carneiro-psol-50050/>, [consultado 5 Junho 2014]). Em seu site, na aba projetos destaco os seguintes: “Nome social de travestis e transexuais – projeto de lei proveniente da demanda do Movimento LGBT, tem a intenção de garantir o direito de travestis e transexuais utilizarem os nomes que consideram mais dignos para si nos órgãos da PMB”; e “Calendário de eventos LGBT – Projeto de lei tem como objetivo principal garantir maior visibilidade, bem como maior possibilidade de efetivação das demandas do movimento LGBT. Trata-se de tentativa de minimizar os enormes danos causados pelo preconceito existente em nossa sociedade. A homofobia ainda é uma constante no Brasil, situação esta que afeta milhões de cidadãos brasileiros em seus direitos mais básico e Fundamentais, sendo por isso importante a intervenção de políticas públicas que ajudem a combater tal prática”. Ainda no site, na galeria de fotos, é interessante notar a ênfase em manifestações públicas onde integrantes do Movimento LGBT do Estado Pará estão em destaque (ver site: <http://www.fernandocarneiropsol.com.br>, [consultado 5 Junho 2014]).

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Os fundamentos contingentes daquele cartaz se não causam um efeito imediato no receptor, marcam a

Os fundamentos contingentes daquele cartaz se não causam um efeito imediato no receptor, marcam a representação de figuras públicas como multiplicadores e, em algum sentido, porta-vozes de políticas públicas. Não pretendo me alongar nesta questão, fiz este apontamento levando em conta não somente o cartaz, mas à presença da travesti Bruna Lorrane, candidata a vereadora pelo PSDB, em 2012, que nos últimos dois anos tem falado publicamente em nome do Movimento LGBT do Pará e causado constrangimento por parte de algumas lideranças, sendo acusada de oportunista e não representante legítima do Movimento. Por tais controvérsias, preferi tecer apenas este breve comentário, eventualmente poderei voltar a este ponto quando for necessário. Sigamos adentrando ao espaço.

Passamos por um corredor estreito e escuro. Chegamos nos fundos e observei o seguinte cartaz que fazia alusão às misses de concursos de beleza: uma mulher branca, longilínea, de cabelos pretos lisos, usando biquíni, salto alto, pulseiras, brincos, óculos escuros e tiara, com a mão na cintura, ao lado as palavras em caixa alta: “CONCURSO MARQUINHA DO BIQUÍNI”, logo abaixo: “Luxo, Glamour e Beleza”. No rodapé: “Porque um closet, é um closet!”. A cozinha funcionava como camarim, a laje servia de passarela, composta por quatro canhões de luz e uma bandeira do arco-íris de pano de fundo. O espaço central (a pista) foi decorado com balões e cortinas coloridas, além da mesa de juradas/os, cadeiras nas laterais, um estande que funcionava como cabine de DJ, um banheiro improvisado, cujo mictório era um vasilhame de plástico cortado (uma cisterna), e por fim um bar dentro de uma pequena casa aos fundos. Horas antes do início do concurso, o que víamos era um fluxo intenso de pessoas, burburinho, som em volume máximo e um canhão de laser que se movimentava freneticamente. Os homens homossexuais presentes possuíam corporalidades e estilos semelhantes: efeminados, negros, trajando calça jeans skinny, camiseta justa e tênis ou sapatênis. O público aumentava e apareciam conhecidos e amigos de Milton, alguns montados de Drag Queen. Não obstante a pouca divulgação, notei que o uso da rede social Facebook, além de fortalecer grupos de homossexuais, foi um canal importante de comunicação. Assim como nós, muitos estavam ali pela primeira vez, também por conta da criação de uma página do evento no Facebook, a notícia pôde se espalhar com maior velocidade.

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Seguindo a pista acima (a respeito da relação com a internet), considero significativa a análise

Seguindo a pista acima (a respeito da relação com a internet), considero significativa a análise empreendida por Raffestin (2013) sobre o que ele chama de binômio circulação-comunicação; ainda que suas análises estejam centradas quase sempre em eixos de poder (tal como a seguinte assertiva: La circulación es espejo del poder, incluindo uma análise sobre os efeitos desse reflexo), o interessante é pensar que o fluxo dos sujeitos estão embasados em redes que constroem centralidades e marginalidades a depender do lugar e de fatores diversos. Deste modo, determinados tipos de linguagens comunicativas constroem circulações e vice-versa. Ressalto, então, os efeitos informativos que incidem diretamente na constituição de fluxos pela cidade, na movimentação dos sujeitos, na própria comunicabilidade a respeito de eventos específicos, como é o caso do concurso Marquinha do Biquíni e da rede social Facebook. Não se trata aqui de uma netnografia ou de uma etnografia virtual, mas de como a comunicação digital possui relação direta com fluxos e produções de grupos e eventos tanto on-line quanto off-line. Na esteira desse argumento, Parreiras (2008) buscou pensar interações desenvolvidas do e no ciberespaço, tomando como ponto de partida os relacionamentos estabelecidos entre homens que se relacionam afetivo-sexualmente com outros homens e que participam de uma comunidade no Orkut. A partir dessa investigação, ela pôde perceber que a internet representa uma maneira de sair do armário para vários sujeitos da pesquisa, majoritariamente homens homossexuais. Na tentativa de alargar ainda mais o escopo de análise, ela levou em conta como se construía o discurso sobre a homossexualidade dentro e fora da rede (on-line e off-line), buscando compreender de que maneira as homossexualidades eram construídas e expressas no virtual, bem como quais eram as convenções e categorias classificatórias empregadas, procurando perceber se houve uma reiteração/reprodução ou subversão/rompimento com o off-line. Note-se que neste cruzamento entre ambientes on-line e off-line se articulam marcações sociais através de convenções e categorias classificatórias na produção de linguagens específicas ou de sujeitos e práticas discursivas. Então, é válido destacar, sobre o evento LGBT Marquinha do Biquíni que desde 2008 “elege o melhor bronzeado, a melhor marquinha do biquíni”, que a justificativa para a existência do concurso se deu por iniciativa de jovens homossexuais moradores do Guamá, que após as férias escolares de julho, se reuniram e decidiram criá-lo, como forma de dar visibilidade e destaque a um esforço estético-corporal que visa bronzear o corpo na busca por acentuação de silhuetas.

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O que se procura é uma estrutura corporal curvilínea, com músculos tonificados e enrijecidos. Não

O que se procura é uma estrutura corporal curvilínea, com músculos tonificados e enrijecidos. Não obstante a acentuação de estéticas corporais, o que também está em jogo são visibilidades político-corporais que articulam questões de gênero (performances de gênero masculinas e femininas), raça/cor, cidade, juventude, e uma apropriação da cidade que descentraliza sociabilidades homossexuais na malha urbana de Belém, como veremos

a seguir.

Porque um closet, é um closet!: candidatas, representações e manejos

Com o avançar do concurso notei que o corpo das candidatas que adentravam o espaço era delineado pelo uso de vestidos de lycra justos, acentuando suas curvas e volumes de coxas, peitos e bunda. Antes do desfile começar algumas andavam pelo salão cumprimentando amigos e organizando suas torcidas, dos mais variados bairros (centrais

e periféricos) - Marco, São Braz, Pedreira, Marambaia -, e distritos Icoaraci, Mosqueiro.

De acordo com o censo demográfico de 2010 e de dados populacionais estimados em 2013 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBGE para a cidade de Belém, a sua população em 2010 foi de 1.393.399 hab., sendo estimada em 2013 um total de 1.425.922 hab., compreendidos numa área de unidade territorial (km 2 ) de 1.059,406 7 ; proporções bastante distintas se comparadas a capital São Paulo, cidade brasileira com o maior número de habitantes, com uma população em 2010 de 11.253.503 hab., sendo estimada para 2013 de 11.821.873 hab., em uma área da unidade territorial (km 2 ) de 1.521,101 8 . Tais dados confirmam o sentido coloquial das falas dos paraenses/belemenses ao verbalizarem que “Belém é um ovo! Todo mundo se conhece”. Deste modo, tomando como ponto de referência o Guamá na relação com o trânsito de grupos e pessoas, no concurso, advindas de regiões distantes, é possível evidenciar fluxos menos pautados na extensão

territorial e mais voltados à constituição prévia de parcerias, afinidades e redes de amizades. Semelhantes a capital São Paulo, sobretudo nos fluxos periferias-centros, o que

o [consultado 5 Junho 2014]. De

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paulo>, [consultado 5 Junho 2014].

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está em jogo nem sempre é a distância; é, no caso das candidatas, a busca

está em jogo nem sempre é a distância; é, no caso das candidatas, a busca por prestígio, status, e pelo prêmio de R$500,00. São apresentadas as doze concorrentes, de mais ou menos 1,70m, 65 quilos, com uma estética que se associa a padrões de beleza brancos (Cf. Fry, 2002): efeito de maquiagem para afinar o nariz, perucas lisas e loiras. Embelezamento. Aparências. Seriam corpos que almejam uma feminilidade embranquecida? De que luxo, glamour e beleza os organizadores do concurso estavam se referindo? Era mais uma forma de enfatizar a

figura da mulata desejável (Cf. Correa, 1996) / morena cor de jambo, por sua sensualidade e exuberância corporal? Questionamentos estes que iam e vinham durante toda a pesquisa

de

campo em Belém e que não tive como fugir. O marcador raça/cor em Belém, mas não apenas nesta capital, é bastante caro para

o

debate sobre a própria constituição da identidade (sexual) brasileira enquanto

população miscigenada. (Guimarães, 2008; Pinho, 2008; Schwarcz, 1993; Sovik, 2004, para

citar apenas alguns) Neste sentido, a pergunta qual é a sua cor é sempre respondida de modo a subsumir as palavras negra/negro e/ou preta/preto, e, para não serem acusadas/os de racistas classificam embranquecendo - a constante tentativa do embranquecimento (Munanga, 2009, 2004) -, e erotizando (Moutinho, 2004):

parda/pardo, morena/moreno, morena/moreno cor de jambo, mulata cheirosa, morena gostosa/moreno gostoso, negão. Na chave do desejo, é como se não houvesse preferência

de cor, mas cor de preferência (Cf. Silva Filho, 2013).

Na pesquisa que desenvolvi por ocasião da minha inserção no projeto de pesquisa intitulado “‘Para entrar no mundo que não é meu’: a iniciação sexual a partir de entrevista com as/os jovens pobres e de camadas médias de Belém do Pará” (Reis, 2013), sob coordenação da Profa. Dra. Mônica Conrado, duas entrevistas despontaram como significativas para que eu pudesse compreender como se constituem as relações pela marcação de raça/cor no contexto da capital paraense. Então, perguntei a Pietro

(heterossexual, 22 anos) como era, fisicamente e fenotipicamente, a parceira na sua iniciação sexual, ele respondeu: “Ela era morena, alta, tinha as nádegas e os peitos grandes; o corpo dela me atraiu. Ela era gostosa e, também, pela idade, por ser dois anos mais velha e por pensar que era virgem” (p. 134). Em outra entrevista, desta vez com Amanda (heterossexual, 32 anos), após eu ter insistido no questionamento se a cor foi um fator que influenciou na escolha do parceiro para a sua iniciação sexual, ela respondeu:

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“É. Foi também. Porque na época do colégio tinha um menino que eu era muito

“É. Foi também. Porque na época do colégio tinha um menino que eu era muito a fim dele. Ele era negão, bonito e tudo, mas eu ficava pensando:

Meu deus! Se eu tiver um filho com ele, será que eu vou ter preconceito do meu filho ser negro e eu ser branca? Será que eu vou aguentar as

críticas do pessoal dizendo assim? [

os filhos dela são bem negros, e ela é branca. Então, ela sofreu muito

preconceito por causa disso. E eu via isso, às vezes, e ficava pensando:

Será que eu vou ter essa coragem de ouvir as piadinhas de mal gosto e

É uma coisa que, também, apesar de eu não ser preconceituosa,

mas eu não sei se eu estava preparada para enfrentar o preconceito, porque eu já era gorda, e já tinha preconceito de ser gorda, eu já era toda complexada, mas o que influenciou, mesmo, foi o porte físico: ele era todo sarado” (p. 135).

Porque eu tenho uma prima que

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tudo? [

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É significativo notar como o marcador raça/cor “aparece, por vezes, imperceptível ou perceptível, cabendo uma análise mais arguta [para o contexto de Belém] e que o considere como constituinte de sistemas hierárquicos, por exemplo, da economia do desejo, ou na própria corporalidade” (Reis, 2013, p. 135 [grifos meus]). Volto, então, ao concurso. Por uma fração de segundos o espaço foi todo ocupado, deixando uma pequena abertura para o desfile. As doze candidatas foram divididas em grupos de seis, uma parte ficou na pista e a outra na laje. A vizinhança parecia não se incomodar com o barulho e se fixavam nas janelas dos quartos para acompanhar. A polícia talvez fosse a mais preocupada. Durante minhas saídas, presenciei rondas na frente da casa, como se estivessem atrás de “suspeitas/os”, ou simplesmente por se tratar de uma festa com a presença de viados. Esse clima de vigilância permaneceu da metade para o fim do concurso, mas não atrapalhou seu andamento. Com o término do desfile em grupos as candidatas saíram de cena e os votos recolhidos. As duas Drags apresentadoras tomaram seus postos e trouxeram à tona piadas com os corpos das concorrentes. Enquanto aguardávamos o resultado, a Drag Shantara Gomes se apresentou dublando a música “Easy as life”, interpretada pela cantora Deborah

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Cox, num estilo de “ performance de diva ” em que mais se dubla e

Cox, num estilo de performance de divaem que mais se dubla e menos se bate cabelo 9 . Na metade da música ecoou um grito (de gongação): “De novo essa música?!”. Shantara retrucou: “Você que gritou sabe a procedência e o significado da letra da música?”. A tensão se estabeleceu por segundos e logo ela retomou sua performance e finalizou o show sob os aplausos do público. As gongações entre bichase Drags, e vice-versa, é mais comum do que se pode imaginar, eu diria que é, também, uma forma de tirá-las das suas zonas de conforto pelo próprio movimento de desestabilização. A reação à gongação é imprevisível, pode vir em tom irônico, ou ríspido 10 . Os ânimos ficaram mais estridentes e tomaram a rua.

Aludindo à frase do vereador Fernando Carneiro, com foco sobre o direito à cidade” (Lefebvre, 2001), apropriar-se daquela casa e da rua garante afirmação e visibilidade, é uma forma de ocupar o espaço de modo produtivo/propositivo e político. Silva Filho (2012) e Noleto (2014) empreendem construções analíticas sobre festas específicas no contexto de Belém articuladas diretamente ao Estado. Silva Filha (2012) em sua pesquisa de doutorado, em curso, sobre a Festa da Chiquita 11 , mostra o jogo de forças entre homossexuais (principalmente os que organizam a festa) e igreja católica (em geral

9 O bate cabelo é um tipo de performance bastante utilizada em determinadas apresentações de Drag Queens, cujo objetivo é apresentar ao público movimentos ziguezagueados ou circulares com a cabeça, em ritmo acelerado, sem que a peruca seja descolada; tal expressão não está circunscrita ao espaço do palco, mas aparece nas performances de rapazes homossexuais que emulam cenas performáticas entre si, em espaços de sociabilidade homossexual, sem o uso de peruca. 10 Não sei até que ponto possa existir nessas dinâmicas relações de parentesco por brincadeira, por exemplo, entre madrinhas(Drags) e afilhadas(bichas), o fato é que essa gongação, no sentido da construção de relações de jocosidade e seriedade, expressa um caráter ambíguo, de amistosidade e hostilidade (Cf. Radcliffe-Brown, 1973). 11 A festa da Chiquita já virou lugar comum durante a quadra nazarena para grande parte de LGBTs paraenses. Conforme foi se popularizando pelos seus mais de trinta anos de existência, a festa acabou ganhando destaque em âmbito nacional. Hoje, as proporções extrapolam a marcação territorial destinada ao evento: num quadrilátero no centro da praça da República, nas proximidades com o Teatro da Paz, hotel Hilton e bar do parque, no bairro da Campina (centro). Em outubro, seu aspecto simbólico reverbera pela cidade de Belém, além da tímida e pouco divulgadas apresentações na cidade de São Paulo, por dois anos, no primeiro semestre de 2013 e de 2014, na Casa Fora do Eixo e na Universidade de São Paulo USP, respectivamente. De lógicas e de discursos diversos a Chiquita tem se valido. Costumo compreender o efeito da festa num equilíbrio entre sagrado e profano. Balizar tal evento por uma lógica unilateral não ajuda a compreender o Círio enquanto processual e contextual, e inviabiliza lançar um olhar histórico-antropológico sobre a constituição do Círio atrelado ao aspecto festivo (Cf. Coelho, 1998). Não obstante o hiato entre os primeiros Círios realizados em Belém e as primeiras Chiquitas, reconhecer que esta festa, desde 2004, foi incluída no processo de tombamento do Círio como patrimônio imaterial da humanidade, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), é, no mínimo, não estar alheio à sua existência.

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padres e senhores e senhoras que representam a Chiquita enquanto evento profano não digno de

padres e senhores e senhoras que representam a Chiquita enquanto evento profano não digno de estar vinculado ao Círio de Nazaré 12 ). Noleto (2014) desenvolve uma pesquisa de doutorado sobre os concursos de “Miss Caipira Gay” e “Miss Caipira Mix” nas festas juninas; este autor traz à baila as demandas de determinados sujeitos travestis e “trans” em protagonizarem suas participações no São João de Belém, sem que sejam invisibilizados nesse cenário por aquilo que ainda é legitimado pelo Estado: grupos juninos formados por pares heterossexuais. A partir de uma chave que leva em conta o caráter estético-político, é importante refletir sobre o modo como tais festas possibilitam uma construção discursiva que se afirma na ocupação de espaços públicos, a princípio, não acolhedores ao público homossexual. Ao inspirar-se em autoras como Douglas (1991) e Butler (2010), e propor uma articulação instigante entre periferia e marcadores sociais de sexualidade, gênero e raça (importante investimento para o que também pretendi neste texto), Noleto (2014) enfatiza:

Tendo em vista que as candidatas aos concursos “Miss Caipira Gay” e

“Miss Caipira Mix” advêm, em grande parte, de bairros periféricos de

Belém, busco alargar o conceito de periferia numa tentativa de vinculá-lo

não apenas às definições espaciais e socioeconômicas dos centros

urbanos, mas de associá-lo, numa lógica mais ampla, às experiências de

sexualidade, de gênero e de raça, possibilitando enxergar que, além de

residirem em periferias urbanas, estes sujeitos habitam periferias

sexuais, raciais e de gênero. Dessa maneira, é possível vislumbrar que os

sujeitos desta pesquisa vivenciam, em geral, sexualidades e convenções

de gênero consideradas periféricas, pois apresentam elementos

poluidores em relação a uma ordem social hegemonicamente pautada em

12 O Círio de N. S. de Nazaré é uma das maiores festas religiosas do país, agrupando na peregrinação principal quase 2 milhões de pessoas. Seu mito de origem está ligado diretamente ao caboclo Plácido, que encontrou uma imagem da santa à beira de um igarapé, mas ao levá-la para casa e tentar mantê-la por lá, esta sempre retornava para onde fora achada. Neste lugar fora construída a atual Basílica de Nazaré […] Além da procissão principal, durante o mês de outubro, e já no final de setembro, a cidade passa a contar com várias procissões e festejos periféricos ao evento principal que é a ida da berlinda que leva a imagem da Virgem de Nazaré, da Catedral Metropolitana de Belém (a Igreja da Sé) à Basílica de Nazaré […]” (Silva Filho, 2012, p. 4)

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relações heterossexuais e em fronteiras rígidas que definem a inteligibilidade daquilo que é masculino e

relações heterossexuais e em fronteiras rígidas que definem a inteligibilidade daquilo que é masculino e feminino (p. 104).

A visibilidade político-corporal com a qual o concurso Marquinha do Biquíni é expresso (não necessariamente apresentando uma relação direta com o Estado) mostra que os gritos, gargalhadas, beijos, correrias, além de fazerem parte, extrapolam a dimensão interna da festa, da rua, do bairro. São sociabilidades que possuem um sentido de lugar marcado por eventualidades espaço-temporais” (Massey, 2013) periféricas não exclusivas da geografia, mas construídas em relação ao que é considerado central e legitimado. Em meio ao aglomerado de pessoas e às gongações entre torcidas, o carro da polícia voltou a rondar e ali se fixou. O resultado foi divulgado quando a maioria que estava na rua entrou. Pensando nos corpos e gradiente de cores, compunham o seguinte quadro: a terceira parda ou morena, com peruca na cor castanho, 1,70m, 65 quilos; a segunda branca, de peruca loira, 1,70m, 66 quilos; a primeira negra, usava peruca preta, 1,70m, 68 quilos (de um corpo com músculos definidos). Olhei para elas e vi, primeiro, rosto e corpos muito novos, nitidamente, com pouca experiência em concursos. O que também me chamou atenção diz respeito ao traço daquelas juventudes que, de algum modo, se assemelhavam: a busca por visibilidade; uma potencial corporalidade que não se furtava em se colocar em primeiro plano; aspectos vividos com tamanha voracidade destacada em sentimentos de decepção, alegria, desespero. A vencedora recebeu o prêmio em dinheiro e a faixa e logo virou celebridade instantânea. A premiação causou alvoroço e desentendimentos. Enquanto eu tentava sair, ouvi uma gritaria vindo da rua. Tratava-se de rivalidade entre candidatas e grupos que afirmavam que o resultado tinha sido forjado. O tumulto se dissipou na avenida José Bonifácio. Entre troca de acusações, não presenciei agressões físicas. A polícia observava de longe. Voltei para a festa, mas tinha terminado. Milton me deixou no ponto de táxi e nos despedimos. Às 04h00 da manhã, no caminho de volta para casa, procurei compreender o sentido daquele concurso e seus efeitos; lancei mão do meu desconhecimento sobre tais sociabilidades e da minha figura de outsider. Portanto, nesta etnografia procurei colocar em primeiro plano o que chamei de visibilidades político-corporais, de um evento que é muito mais que estética e corpo, e se propõe, mesmo que indiretamente, ao diálogo entre

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juventude e cidade em uma chave que mescla visibilidades e modos de apropriação do espaço

juventude e cidade em uma chave que mescla visibilidades e modos de apropriação do espaço urbano, com menos fixidez e mais circulação e borramento de fronteiras.

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