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Política migratória australiana: insegurança e Securitização

O que se pode chamar de “antigo racismo” na Austrália, de acordo com Babacan


(2008), relacionado ao processo de colonização que colocava os aborígenes e migrantes
“não-brancos” como biologicamente inferiores, foi um paradigma institucionalizado até
a década de 1970 quando foi substituído pelo multiculturalismo como política do
governo, quando o poder de voto e a contribuição destes ficou mais clara. Ainda que
institucionalmente o tenha sido, o “antigo racismo”, como o nome sugere, não teve seu
fim então, tendo sido substituído pelo “novo racismo” ou “racismo cultural”, em que as
assimetrias nas relações de poder permitem que um grupo possa representar o outro em
uma lógica de nós-eles, reforçando a própria identidade, podendo representá-lo
negativamente e usando isso para excluí-lo ou explorá-lo.

Pode-se dizer que política da Austrália Branca (White Australia policy) funda a
ideia moderna de nação australiana em vários sentidos. Dentre eles, pela sua primazia
política e jurídica, tendo sido o Immigration Restriction Bill (1901), sua legislação
fundadora, a primeira com a qual lidou primeiro parlamento da recém-formada
Commonwealth of Australia (ANG; STRATTON, 1998), no início do século do qual foi
a política migratória predominante. Além disso, constitui um projeto de nação, tentando
manter a Austrália “britânica, europeia e ‘branca’” (VAN KRIEKEN, 2012), favoreceu
uma certa composição demográfica, um modelo de relação intergrupal, e um sentido de
insegurança que, de algum modo, permanece até hoje. Essa insegurança tem sua origem
no chamado “medo de invasão pelo Norte”, sendo parte, de acordo com Devetak (2004)
do processo de formação nacional, que envolve noções de nação, raça e segurança. Isso
pode ser percebido na origem da política em questão como barreira à imigração chinesa
(MCMASTER, 2002).

Podendo ser dividida em dois períodos, “assimilação”, de 1947 a 1966, e


“integração”, de 1966 a 1972 (ainda que a integração de fato se desse na absorção dos
migrantes pelo mercado de trabalho, de forma bem-sucedida ou não), a política da
Austrália Branca começou a declinar nos anos 1950, mas só teve fim de fato em 1973, no
governo Whitlam. Seu declínio deve-se em grande parte ao prejuízo que causou às
relações da Austrália com outros países e à imagem do país em um mundo pós-colonial
(e pós-Segunda Guerra Mundial, com o conceito de raça cada vez mais deslegitimado) e
ao fim da carreira política de alguns dos seus principais defensores (VAN KRIEKEN,
2012). Até 1973, no entanto, a mudança tendia mais ao assimilacionismo do que ao
multiculturalismo, ainda que as tentativas de preservação de homogeneidade racial
tenham sido substituídas por esforços pela manutenção de coesão social e cultural
(JORDAN, 2006).

A primeira mudança de distanciamento do conceito de assimilação e em direção


ao multiculturalismo foi a fase de “integração”, quando, no final dos anos 1960 se tornava
inegável o fato de que o assimilacionismo puro não se adequava à situação de muitos
migrantes que vinham ganhando cidadania e direito a voto. A própria importância do
chamado “voto étnico” facilitou a transição politicamente, garantindo apoio partidário
(CLYNE; JUPP, 2011).

Quanto à questão do refúgio, foi parte da política de imigração até a década de


1970, quando, devido principalmente ao aumento do fluxo de refugiados causado pela
Guerra do Vietnã, foi estabelecida a primeira política específica para refúgio no país. A
adaptação dos refugiados desse fluxo, com poucas tensões sociais, facilitou a
implementação da política de Multiculturalismo (Multiculturalism policy). Termo usado
inicialmente no Canadá, sua adoção na Austrália serviu a dois propósitos: descrever o
aumento de diversidade da sociedade australiana e denotar uma série de políticas voltadas
à migrantes assim como uma ideologia de sociedade (MCMASTER, 2002).

Dentre os fatores que, entre as décadas de 1950 e 1970, favoreceram a


implementação da política de Multiculturalismo, Van Krieken (2012) cita o aumento do
número de migrantes não-britânicos (inicialmente, a política migratória australiana,
favorecia apenas britânicos, usando como justificativa uma origem majoritariamente
britânica que caracterizava a identidade nacional, predominância que seria perturbada
pela entrada de migrantes de outras origens), bem como sua inserção nas instituições
(principalmente de educação), a já mencionada importância crescente do voto étnico,
concepções mais plurais de cultura, normas sociais e valores, maior distanciamento de
discriminação por raça ou algum desses critérios, e maior organização de grupos de
migrantes, em particular gregos e italianos (CASTLES, 1992).

Não só a política migratória e uma série de políticas públicas foram reformuladas


na época, como a própria identidade nacional. Isso fica claro no discurso do ministro de
imigração do governo Whitlam, Al Grassby (1973), de que era necessário repensá-la em
função das mudanças ocasionadas pela migração no pós-Segunda Guerra Mundial e na
defesa do Relatório Gallbally (1978) da compatibilidade entre cidadania e diversidade
cultural. Até então, a identidade nacional era fortemente atrelada à ideia de uma origem
britânica, sendo expandida também, a partir dos anos 1970, pelo reconhecimento da
população indígena, a única com direito a reivindicação de indigeneidade (VAN
KRIEKEN, 2012). De certa forma isso beneficiou os migrantes, já que reforçava a
formação migratória do país, possibilitou o reconhecimento de discursos como o da anciã
Gungalidda, Wadjularbinna (2002) que aborda a conexão espiritual entre os povos
aborígenes e a terra, sua hospitalidade e indignação com o tratamento conferido aos
refugiados.

Em 1988, no entanto, como resposta ao Relatório Fitzgerald, que enfatizava a


necessidade de se ressaltar a dimensão econômica da imigração, o governo australiano
redefiniu o multiculturalismo em termos econômicos, tratando a diversidade cultural
como um recurso importante em um mundo globalizado (CASTLES, 1992).

No ano do centenário do Immigration Restriction Bill, uma série de eventos ecoou


a insegurança em relação a questões migratórias, particularmente o refúgio, que pareceu
ter sido superada com o multiculturalismo. Desde o fim da Guerra Fria, os refugiados
deixaram de ser vistos, quase heroicamente, como indivíduos fugindo de regimes
autoritários, para serem tratados como “ondas de migrantes”, que usam falsas alegações
de perseguição para aproveitar benefícios das democracias liberais que os recebem. Os
ataques de 11 de setembro de 2001 foram utilizados politicamente para caracterizar certos
grupos de refugiados como, além de migrantes econômicos, potenciais terroristas,
abrindo margem à implementação de modelos de política migratória de Securitização, na
classificação de Mármora (2010).

Na Austrália, dois incidentes podem ser destacados nesse ano: o Tampa affair e o
Children overboard affair. No primeiro, o governo australiano impediu a entrada de um
navio norueguês (MV Tampa), que tinha resgatado 438 solicitantes de refúgio de um
navio indonésio naufragado, alegando se tratar de uma ameaça à soberania da Austrália
por parte de imigrantes “ilegais”, potenciais terroristas que queriam usar o status de
refugiado para se aproveitar das leis australianas e que não poderiam ser enviados aos
centros de detenção, já no limite de lotação (MCKAY et al, 2011). No segundo caso, o
governo liberou fotos acusando solicitantes de refúgio em uma embarcação “ilegal”, o
SIEV 4, de jogar crianças no mar para garantir resgate pela marinha australiana, e assim
sua entrada no país (SLATTERY, 2003).
Utilizando esses eventos como justificativa e se apoiando em um histórico de
tratamento securitário das migrações, o governo Howard tornou-a um assunto de
segurança e soberania nacional. Reformas securitizantes na política migratória australiana
já vinham sendo feitas desde 1999 com as Migration Amendment Regulations (que
criaram o Temporary Protection Visa e, com isso, duas classes de refugiados no país),
mas a Migration Amendment de 2001 foi provavelmente a mais restritiva (BABACAN,
2008). Do ponto de vista humanitário, o governo alegava ser necessário manter a
soberania do Estado para proteger os refugiados “verdadeiros”, que seria diluída pela
entrada de migrantes “ilegais” no país.

A política migratória do país manteve-se, em geral, a mesma, com uma inflexão


durante o governo Rudd (que em 2007 já vinha tomando algumas medidas favoráveis a
solicitantes de refúgio) em que um fluxo reduzido permitiu maiores mudanças em
procedimentos e políticas de refúgio. Essa continuidade deve-se em grande parte ao apoio
da mídia e da opinião pública. Estas representam solicitantes de refúgio com base em um
sistema binário, sendo a principal divisão legal/ilegal. Dentre os considerados “ilegais”,
predominam duas categorias: a do migrante rico de um país pobre, cujo objetivo é
“explorar” a Austrália economicamente; e a do terrorista, mantida mais pela opinião
pública do que pela mídia, e associada à ideia de que refugiados tentariam dominar, ao
invés de assimilar a cultura australiana (MCKAY et al, 2011).

Essa ligação com o terrorismo converge com os discursos e práticas


criminalizantes do governo em relação a solicitantes de refúgio. A dicotomia legal/ilegal,
além de criar diferença e uma divisão nós-eles, naturalizar uma noção de pertencimento,
serve de justificativa às políticas do governo para refugiados (BABACAN, 2008).
Representados como “ilegais”, falsos refugiados, ameaças à cultura e à soberania
australianas e associados a traficantes de pessoas e atividades criminosas, solicitantes de
refúgios são tratados de forma similar a criminosos pelo governo.

Bibliografia:

ANG, Ien; STRATTON, John. Multiculturalism in crisis: The new politics of race and
national identity in Australia. TOPIA: Canadian Journal of Cultural Studies, n. 2,
1998.
AUSTRALIA. REVIEW OF POST-ARRIVAL PROGRAMS AND SERVICES TO
MIGRANTS; GALBALLY, Frank. Migrant services and programs. Australian
Government Publishing Service, 1978.

BABACAN, Alperhan. The Criminalisation of Asylum Seekers in Australia. The


Complexities of Racism, 2008.

CASTLES, Stephen. "The Australian model of immigration and multiculturalism: is it


applicable to Europe?" International Migration Review, 1992, 549-567.

CLYNE, Michael; JUPP, James. Multiculturalism and integration: a harmonious


relationship. ANU Press, 2011.

DEVETAK, Richard. In fear of refugees: The politics of border protection in Australia.


The International Journal of Human Rights, v. 8, n. 1, 2004, p. 101-109.

GRASSBY, Al, ‘A multicultural society for the future’, discurso para o Cairnmillar
Institute’s Symposium Strategy: Australia for Tomorrow, Melbourne, 11 de Agosto de
1973.

JORDAN, Matthew. The reappraisal of the White Australia policy against the
background of a changing Asia, 1945–67. Australian Journal of Politics & History, v. 52,
n. 2, 2006, p. 224-243.

MÁRMORA, Lélio. Modelos de Gobernabilidad Migratoria. La perspectiva política en


América del Sur. Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana, Brasília, ano XVIII,
no 35, julho/dezembro 2010, p. 71-92.

MCKAY, Fiona H.; THOMAS, Samantha L.; BLOOD, R. Warwick. ‘Any one of these
boat people could be a terrorist for all we know!’ Media representations and public
perceptions of ‘boat people’ arrivals in Australia. Journalism, v. 12, n. 5, 2011, p. 607-
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MCMASTER, Don. Asylum-seekers and the insecurity of a nation. Australian Journal


of International Affairs, v. 56, n. 2, 2002, p. 279-290.

SLATTERY, Kate. Drowning Not Waving: The ‘Children Overboard’ Event and
Australia's Fear of the other. Media International Australia Incorporating Culture and
Policy, v. 109, n. 1, 2003, p. 93-108.
VAN KRIEKEN, Robert. Between assimilation and multiculturalism: models of
integration in Australia. Patterns of Prejudice, v. 46, n. 5, 2012, p. 500-517.

WADJURLABINNA, 'A Gungalidda grassroots perspective on refugees


and the events in the US', borderlands ejournal, v. 1, n. 1, 2002.

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