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RELER 4

REVISTA DOS ESTUDANTES DA FACULDADE DE LETRAS

Maio 2004

Distribuição gratuita

RELER

Ficha Técnica
Ficha Técnica

RELER Gabinete de Apoio ao Estudante da Faculdade de Letras da UC Largo da Porta Férrea 3000-447 Coimbra Telefone - 239859912 E-mail - reler@mail.pt

DIRECÇÃO

John Pallister

Nélio Conceição

Tiago Alves

CONSELHO ADMINSTRATIVO Ana Luísa Santos Bruno Julião

GRAFISMO E PAGINAÇÃO José Noras Tiago Carvalho

CHEFE DE REDACÇÃO José Noras

REDACÇÃO Carla Santos Luís Rodrigues Pedro Bandeira Simões Ricardo Carrilho Rita Mineiro Sandra Dias

COLABORADORES Ana Rita Amaral Bruno Julião Eduardo Costa Inês Carvalho Doutor João Gouveia Monteiro Jonas Batista Jorge Vaz Nande Doutor José Amado Mendes Korapat Preukchaikul Maria João Gonçalves Renato Teixeira Victor Barros

AGRADECIMENTOS Conselho Directivo da FLUC Reitoria da Universidade de Coimbra DigiQuick Ateneu de Coimbra Livraria Dr. Kartoon

IMAGEM DE CAPA Otto Steinert, Máscara de Bailarina, 1952

EDIÇÃO Alunos do Conselho Directivo da FLUC com colaboração do NEFLUC Tiragem: 2000 exemplares

Os textos publicados são da responsabilidade dos respectivos autores

REVISTA DOS ESTUDANTES DA FACULDADE DE LETRAS

4
4
Mensagens
Mensagens

Editorial

Mensagem do Pró-Reitor para a Cultura

3

3

Desafectos
Desafectos

A

FaculdadeFaculdade dede LetrasLetras rumo ao futuro

4

Queremos inovar

5

“Cidadania Estudantil”

6

A

praxe: o “caloiro” e o monstro

7

Tubo de Ensaios
Tubo de Ensaios

A

falsa ideia de progresso

8

O

melhor dos mundos possíveis?

10

O

quinto evangelho

13

Da surpresa e das imagens

14

Estilhaços
Estilhaços

Nuwdbxwudw

16

Achei sempre que as ideias acabavam à partida

17

a

conta se faz favor

18

Grão (carta à família que aí habita)

19

Um cinismo a pairar nos olhos hipnotiza

20

Cortejo

21

Audiofilia
Audiofilia

Um muro sem lamentos

22

~ O Olho de Bunuel
~
O Olho de Bunuel

Subversão real Jan Dara: o polémico filme tailandês do século XXI

24

26

Instantes
Instantes

Reencontros Possíveis

28

Nélio Conceição
Nélio Conceição

Editorial

Tiago Alves

Contra todas as dificuldades

inerentes

a

um

projecto

cujo

apoio não tem a regularidade de-

sejada, apesar da ajuda incondi-

cional do Conselho Directivo ao

longo destes quatro anos, eis a

Reler 4, elaborada por um grupo

que sabe que pode sempre fazer

melhor, mas que tem igualmente

orgulho por tudo o que já fez. A

continuidade deste projecto re-

cebeu, por ora, o apoio (e a com-

preensão) da Reitoria da Univer-

sidade de Coimbra, que teve a

sensibilidade para perceber a im-

portância que uma revista tem

para

os

estudantes,

especial-

mente no caso de Letras. Por is-

so, estamos particularmente gra-

tos.

Aproveitamos

também

para

felicitar os colegas de Estudos

Artísticos

pelo

lançamento

da

sua revista, que poderá enrique-

cer o espaço cultural da FLUC.

Apenas um reparo: o artigo que

encerra a revista devia estar as-

sinado

pessoalmente,

que

nem todos os alunos daquela li-

cenciatura o subscrevem; além

disso, as críticas deveriam ser

devidamente

fundamentadas,

em vez

de se esconderem por

detrás de uma prosa pretensio-

sa, que confunde em vez de es-

clarecer. A única “imolação” que

não repugna o livre debate de

ideias é a da falta de inteligên-

cia

Neste número, continuamos a

tratar os mais diversos temas

culturais e

a

revelar

o

que de

criativo se produz na nossa fa-

culdade, o que constitui um dos

nossos maiores objectivos. Po-

rém, os assuntos concretos do

nosso quotidiano académico são

da

maior

relevância.

Achamos

que deve existir igualdade no

tratamento de opiniões diferen-

tes, o que nem sempre acontece

nos órgãos de comunicação lo-

cais; como tal, a RELER decidiu

confrontar as divergências com

igualdade

e

lisura, de forma

a

que o debate acerca do futuro da

FLUC seja efectivamente plural,

num momento em que a faculda-

de atravessa um difícil período

de reno-vação.

Mensagem do Pró-Reitor para a Cultura

Doutor João Gouveia Monteiro

Num Mundo dominado pelos audio-

visuais, é especialmente gratificante

saudar a existência de um projecto co-

mo o da “RELER”. Ele representa, para

mim, o reencontro dos estudantes de

Letras com o gosto pela escrita e pela

leitura, a redescoberta da paixão do li-

vro e da revista, como fontes de infor-

mação mas também como espaço de

criatividade e até como objecto estéti-

co.

Que,

para

além de tudo

isso,

a

“RELER” possa ser também um lugar

de debate e de reflexão sobre a identi-

dade e o futuro das Faculdades de Le-

tras e – por que não? – sobre os rumos

do Ensino Superior Português, numa

hora de mudanças cruciais.

Felicito o NEFLUC pelo seu empenho

na prossecução deste projecto – a que

a Reitoria da Universidade de Coimbra

se associa com muito agrado –, convi-

do todos à leitura da “RELER” e, por

fim,

desejo à revista uma vida longa

e radiosa.

Pedro Bandeira Simões
Pedro Bandeira Simões

A FFaculdadeaculdade dede LetrLetrasas rumo ao futuro

Doutor José Amado Mendes*

A Faculdade de Letras da Univer-

sidade de Coimbra (FLUC) encontra-

se

numa fase de reconversão e

adaptação às novas necessidades,

com vista a dar resposta cabal ao

que dela se exige, continuando as-

sim a cumprir

a sua missão. Com

efeito, desde a sua fundação, há cer-

ca de um século (1911), a FLUC tem

vindo a desempenhar um papel da

maior relevância no que concerne à

investigação e ao processo de ensi-

no- -aprendizagem, na área das

Ciências Humanas e Sociais.

A evolução que tem vindo a veri-

ficar–se, ao longo da sua já longa

história, é condicionada e induzida

por diversos factores: progresso ve-

rificado nos diversos saberes; procu-

ra por um número crescente de pes-

soas; desenvolvimento das Ciências

da Educação; exigências crescentes

da parte da sociedade. Num mundo

em mudança rápida, as organizações

só se desenvolvem e progridem se

os

seus

responsáveis

souberem

compreender o sentido dessa mu-

dança e, bem assim, se forem capa-

zes de a acompanhar ou até anteci-

pá-la.

Em algumas das reformas efec-

tuadas no passado, a FLUC teve ne-

cessidade de oferecer novos cursos,

através de cisões ou de combinató-

rias em domínios já nela lecciona-

dos. Assim sucedeu com a separação

entre a História e a Geografia (1930)

e, posteriormente, entre a História e

a Filosofia (1957). Mais recentemen-

te, estabeleceram-se novas combi-

natórias no domínio das Línguas e Li-

teraturas e criou-se o Ramo Educa-

cional.

Entretanto, dado o avanço verifi-

cado em novos ramos do saber e a

necessidade de oferecer aos seus

alunos uma formação actualizada e

de excelência, tornou-se evidente a

necessidade de ir mais além, actuan-

do em diversos sentidos. Por um la-

do, remodelando os cursos de licen-

ciatura, diversificando a oferta de

disciplinas, diminuindo a carga lecti-

va e adoptando o sistema de ECTS,

com vista a facilitar a mobilidade e

as equivalências. Por outro, criando

cursos de licenciatura em novas

áreas, cujo êxito se revela hoje in-

contestável, como sejam as de Jor-

nalismo e de Estudos Artísticos. No-

vas iniciativas foram tomadas recen-

temente, no âmbito da Ciência da

Informação Arquivística e Biblioteco-

nómica, dos Estudos Europeus, do

Turismo Lazer e Património, dos Es-

tudos Ingleses e Espanhóis e Anglo-

-Americanos, cujas licenciaturas se

encontram a aguardar registo. Trata-

se de desenvolver o ensino-aprendi-

zagem, de promover a investigação

e de formar pessoas com conheci-

mentos e competências de elevado

nível, em sectores muito carenciados

e com perspectivas de acelerado de-

senvolvimento.

Uma nova vertente que tem esta-

do a ser incrementada e que deverá

prosseguir futuramente é a das pós-

graduações. As universidades de re-

ferência têm vindo a investir cres-

centemente na formação ao longo da

vida. Também na

FLUC

se

está

a

avançar nesse sentido. Por tal moti-

vo, têm vindo a multiplicar-

-se os

cursos de Mestrado e de Pós-Gra-

duação, estando prevista a abertura

de 32 desses cursos no próximo ano

lectivo (2004-2005), além dos Cur-

sos de Especialização em Tradução e

em Ciências Documentais, que têm

registado um considerável sucesso.

Entretanto, terão igualmente início

os Programas/Cursos de Doutora-

mento que permitirão reduzir consi-

deravelmente o lapso de tempo tra-

dicionalmente dedicado à obtenção

do referido grau, sem reduzir a res-

pectiva qualidade e o rigor que lhe é

inerente. Complementarmente, as-

segurar--se-á um número cada vez

mais diversificado de cursos livres,

ao mesmo tempo que se encontra

regulamentada a frequência de disci-

plinas isoladas, o que permitirá aco-

lher todos aqueles que desejem

completar ou actualizar a sua forma-

ção em determinadas disciplinas.

Em suma: como se pode deduzir

pelo que sucintamente acaba de ex-

por-se, na FLUC encontram-se em

fase de concretização as linhas mes-

tras do seu Plano Estratégico (2002).

Espera-se que as medidas tomadas

ou em vias de realização contribuam

para que a Faculdade de Letras, ao

completar um século de existência,

se torne ainda mais dinâmica, activa

e actualizada, em prol da cultura, da

educação, da formação e do desen-

volvimento da sociedade e do País.

*Presidente do Conselho Científico da FLUC

Exigentes e naturalmente sonha-

dores do quotidiano como somos,

perturba-nos diariamente a raivosa

necessidade de ver alteradas muitas

das coisas que nos rodeiam. Muito

por assumirmos, na forma de uma

aplaudível teimosia pessoal, que não

alcançámos o Ensino Superior em

vão, mas sim após várias etapas es-

colares ou de vida que, com muitas

ou algumas dificuldades (para quase

todos, com a ajuda dos pais), fomos

percorrendo por opção. É bom em-

pregar à vivência do dia-a-dia o sen-

tido de desafio, porque nos motiva,

dá-nos força. Temos força para refor-

mar.

Uma realidade que cada um de

nós sente de maneira muito pessoal

é a gestão do custo de frequência do

ensino. Muito se fala só de propinas,

porque estrategicamente há quem

queira esconder o preço do aloja-

mento, sempre com recibo e condi-

ções principescas; a alimentação,

que vai ficando mais barata a cada

dia que passa; as bolsas de estudo,

que não estão rotas; as deslocações

no nosso país, que como é do conhe-

cimento geral são grátis; o também

ele gratuito acesso à cultura e infor-

mação (perdão, a nossa formação

humana reduz-se à lógica de memo-

rização que caracteriza o nosso siste-

ma avaliativo). É preciso reformar.

Urge efectivamente reflectir acer-

ca do papel que as Humanidades de-

vem ter nas sociedades modernas e

por arrastamento o papel dos seus

estudantes e graduados. São neces-

sárias novas ou reformadas licencia-

turas, com planos curriculares que

Queremos inovar

Bruno Julião

concretizem

a

flexibilidade

nas

opções, tornando o estudo mais au-

tónomo e que não castrem as pers-

pectivas de saídas profissionais, ten-

do em mente a sua utilidade para o

desenvolvimento do país. Isto, claro

está, nunca desvirtuando a missão

universitária que deve favorecer, an-

tes de tudo, a independência do sa-

ber. O país precisa de Humanidades e

Ciências Sociais para contrariar o

marasmo e prioridades anti-sociais,

como o obsessivo cumprimento do

défice, e de, com iniciativas indivi-

duais ou estatais, potenciar uma ci-

dadania cultural. É preciso reformar.

Na Nossa Faculdade, cuja gestão

deve ser direccionada para os estu-

dantes (somos os principais destina-

tários do sistema de ensino), foram

tomadas decisões contra a opinião da

maioria. Imposto o sub-financiamen-

to estatal, decidiu-se criar novas li-

cenciaturas para receber mais propi-

nas com mais alunos, cujo número

tem vindo a decrescer. Simultanea-

mente, e como tem sido assumido in-

clusive por docentes, é “necessário”

atribuir horas de leccionação a pro-

fessores que, com a redução da car-

ga horária dos novos planos curricu-

lares, ficaram “mais livres”. Coleccio-

nar com grande obsessão licenciatu-

ras (quando, a título de exemplo, al-

gumas têm um carácter politécnico

ou um plano curricular sem novida-

des) para “resolver” estes problemas

é de uma irresponsabilidade e (atre-

vo-me a dizer) corporativismo atro-

zes (sobre uma das licenciaturas fala

o presidente do C. Científico no Se-

nado Universitário: “o voto desfa-

vorável do C. Pedagógico vale o que

vale

”).

Por isto, houve momentos

no C. Pedagógico em que se tentou

vetar esta política. Nota: claro que

tudo parece muito mais bonito quan-

do se chama a esta estratégia “aber-

tura a novos públicos”. Reforma?

Em suma, a prioridade é pagar

mais salários, passar a mentira de

que existe dinheiro para mais biblio-

grafia, saídas de campo, marketing

de novas licenciaturas, proporcionar

melhores condições estruturais para

receber novos alunos, adquirir meios

de ajuda à pedagogia antes de se re-

solverem problemas que persistem

nas licenciaturas já existentes (ques-

tionado acerca do facto de as licen-

ciaturas poderem trazer problemas

para além dos que já existem, diz o

presidente cessante do C. Pedagógi-

co

na

RUC: “é natural que alguns

problemas se mantenham”). Priori-

dade é, portanto, não fazer estudos

de viabilidade financeira para aferir

as condições para novos cursos e

mais alunos, não resolver a falta de

livros para requisitar, a não lecciona-

ção, os inícios de leccionação tardias

(ou interrupção) de algumas cadei-

ras, o nosso deambular de edifício

em edifício (uns condignamente a

cair), a inexistência (ou degrada-

ção) de materiais didácticos, a for- mação pedagógica docente e a im- pessoalidade na relação professor-

–aluno

nos/financiamento, vamos esque- cer os outros que já cá estão. Eu preferia reformar/inovar.

Vamos é trazer mais alu-

“Cidadania Estudantil”

Pedro Bandeira Simões

estudante s. 2 gén. pessoa que estuda; aluno, discípulo; esco- lar; colegial (De estudar+-ante)

Dicionários Editora 8ª Edição. Porto Edi-

tora

É o que nos permitem e o que nos

exigem: que estudemos, que nos

preparemos para a vida, pois é mui-

to importante para nós que conclua-

mos uma licenciatura,

para ter as-

segurado um futuro profissional,

para poder ter a capacidade econó-

mica necessária para viver bem,

para ter as condições fundamentais à

constituição de uma família, para

para garantir o futuro.

O

que nos

apregoam é que nos devemos prepa-

rar para a vida, esquecem-se, no en-

tanto, que a vida não se prepara. A

vida vive-se.

Penso, por isso, que cada um de

nós deve encarar cada momento da

sua vida como se fosse o último. De-

ve aproveitar cada segundo para tra-

çar os seus projectos/sonhos.

Decido. A vida pede-nos decisões

a toda a hora e nós tomamo- -las.

Não temos tempo para preparar as

respostas, lê-las nos manuais (rara-

mente existentes), consultar biblio-

grafia ou esperar por uma aula sobre

o tema.

Intervenho, de todas as formas

que posso. Tento não desperdiçar

oportunidades de participação políti-

ca, cultural, desportiva, artística

É neste pensar, decidir e intervir

constante que vivemos, não é na

preparação do futuro (porque não te-

mos tempo para nos preparar para

algo que já estamos a viver). É atra-

vés deste pensar, decidir e intervir

que somos aqui, isto é, existimos

num espaço e tempo que nos mol-

dam.

A Universidade, espaço de saber

por excelência, espaço e tempo de

reflexão e de encontro de saberes e

opiniões, deveria ser um local que

nos estimulasse o pensamento, que

nos facilitasse a decisão e que nos

indicasse a intervenção como possí-

vel solução para os nossos proble-

pouco democrática, já que a parida-

de entre docentes e estudantes nos

órgãos de gestão não é, muitas vez,

efectiva) que a lei de autonomia das

universidades anterior nos atribuía.

Se até aqui havia a garantia de par-

ticipação de todos os universitários

na gestão da sua casa, agora os Es-

tudantes são atirados para décimo

plano

Em conclusão, é necessário que

acordemos para a Cidadania Estu-

dantil. Para

isso, nada

mais nos é

exigido do que ser

aqui, ou seja,

Nélio Conceição
Nélio Conceição

mas. Em vez disso, apresenta-nos

um “saber acabado”, algum dele

completamente desactualizado; não

nos envolve, a nós, estudantes de li-

cenciatura, na investigação, impres-

cindível para o dinamismo científico;

não nos oferece condições condignas

para trabalhar; não

mas, como se

isso não bastasse, querem agora,

através da nova legislação, acabar

com ela – a Universidade Pública.

Com efeito, o Governo, através

das recentes reformas legislativas,

às quais é imperativo dizer não, pre-

para-se para, por exemplo, acabar

com a gestão democrática (embora

pensar, decidir e intervir no nosso

dia-a-dia de universitários: participar

no associativismo académico e na

gestão democrática das Faculdades e

da Universidade; ir às conferências e

debates subordinados aos mais va-

riados temas; discutir nas Assem-

bleias Magnas e nas tertúlias; inves-

tigar no Arquivo e na Biblioteca Ge-

ral; propor formas de protesto e so-

luções para os nossos problemas.

Numa palavra, é preciso ser Estu-

dante, não daqueles que aprendem

para

viver,

mas

aprendendo.

dos

que

vivem

A praxe: o “caloiro” e o monstro.

Renato Teixeira

Há três grandes argumentos a que

quem defende a Praxe frequente-

mente recorre. São eles: a tradição, a

integração e a igualdade. Vamos lá,

então, percorrer e aprofundar a dis-

tância entre a letra e a prática destes

três conceitos.

Sobre o paradigma tradicionalista,

sem sufrágio nem revoluções, dire-

itos,

liberdades

e

garantias

con-

sagradas na lei geral.

Por fim,

no

que diz

respeito à

História, lembremos o que fez voltar a

“Polícia Académica” nos anos 80.

Diziam os profetas da restauração: “A

democracia está conquistada, tudo

bater, humilhar, perseguir a diferença,

nada

tem

de

romântico

e

muito

menos integra, especialmente quem

mais necessita. Permite, isso sim, que

a violência fique disponível nas mãos

de tantos

que

para aí

andam tão

pouco sensatos, e que usam a praxe

como uma auto-estrada rumo à cura

que radica na História todo

o

seu

está garantido, está na hora de feste-

das

mais

recônditas

frustrações.

argumentário, diga-se apenas duas

jar.” Esqueceram-se (ou não) que a

Bateram-me

 

,

pois

baterei;

coisas.

A primeira

é

que a praxe

é

demo-cracia era ainda uma criança

raparam-me

,

pois raparei, e assim

tradicionalista no pior dos sentidos,

ou seja, a cada tempo dos vários tem-

pos que teve na História dos últimos

150 anos, a praxe esteve sempre con-

tra as mudanças estruturais dos sis-

temas políticos e sociais.

Com

a

Monarquia contra a Repú-blica, contra

a Revolução e pelo Estado Novo. Nas

duas principais Revoluções do último

século da nossa História, a praxe foi

suspensa, não só como forma de luta,

mas acima de tudo por ser absoluta-

mente contraditória com o ideal da

Liberdade.

Outro lado pernicioso quanto ao

carácter das tradições académicas é o

facto de elas perpetuarem e ampli-

arem sempre as características mais

conservadoras da sociedade. Se a

sociedade é machista, homofóbica,

classista, punitiva, e hierárquica, sob

prematura, que o país se afogava,

como ainda se afoga hoje, no mais

castrante

liberal-fascismo,

e

que,

quanto a lutas por travar, só alguém

alienado ou comprometido é que não

encontra horizontes.

Quanto ao paradigma da inte-

gração, deixem-me que cite um livro

curioso.

Intitula-se

“Coimbra

Boémia”, livro este que, como tantos

outros livros de memórias da cidade

velha, permite constatar a violência

dos relatos de antigamente, sem cos-

méticas nem falsas retóricas. Diz o

livro qualquer coisa deste género

o

caloiro é para saciar os desejos dos

doutores, é para entreter. “Integrar” é

uma palavra que vem na praxe sem-

pre com um duplo sentido, e são os

relatos

que

o

confirmam.

Ainda

segundo o livro publicado nos anos

sucessivamente, olho por olho dente

por dente, até à derrota final, no ano

da cartola e do juízo.

Por último, o paradigma da igual-

dade. Com o traje todos somos iguais.

Pobres e ricos serão iguais aos olhos

da Academia. A última das mentiras.

No dia em que o traje, seja ele qual

for, tornar iguais as pessoas, o mundo

vai ter uma só cor. Como se o poder

económico não estivesse antes na

carteira e nas suas potencialidades.

Entre

nós,

por

mais

que

todos

andássemos trajados, distinguir-se-ia

o carro,

a

casa,

o

trabalho

que

teríamos que ter (ou não), os litros de

álcool no sangue por semana (e o tipo

de

álcool que lá

circula), os outros

consumos e vícios que poderíamos ter

ou

não,

as

férias

em

família, na

Indochina, ou o trabalho precário na

a

batuta da es-tranha selecção dar-

40,

é facilmente perceptível o terror

costa balnear. Quanto à principal

winista, a praxe ainda o é de forma

das

repúblicas

praxistas,

as

diferenciação que o traje impõe, é

mais brutal. As mulheres não podem

ser dux(as) nem cantar o fado, o con-

selho é de veteran(os); os gays são

figuras de gozo e de chacota (como

de resto todos os que primam pela

diferença); o caloiro é bicho e animal;

figura infra-humana para o gáudio dos

“doutores” com mais umas quantas

matrículas; e o código da praxe viola,

perseguições, as milícias, a arrogân-

cia ante os trabalhadores (vulgos

futricas), bem como a simpatia do

fascismo pelas trupes e vice-versa. O

argumento

da

integração,

usado

muitas vezes pelos românticos da

praxe, não é mais do que isso mesmo,

uma visão romântica na plena eti-

mologia da palavra. Mandar, rapar,

entre a cidade e “nós” estudantes.

Entre quem estuda e quem nos dá o

pão, os cafés, as refeições, nos limpa

a casa, as ruas ou a própria escola,

nos

constrói

os

estádios,

as

Universidade e os Hospitais, quem no

fundo nos garante a vida; e nós, sem

reconhecimento e em vaidade exacer-

bada, não retribuímos.

A falsa ideia de progresso

Victor Barros

Perdemos a promessa do pro- gresso, mas afinal foi um enor- me progresso descobrir que o progresso era um mito.

Edgar Morin

A nossa civilização, no estado e

estádio de desenvolvimento em

que

se

encontra,

consensualmente

caracterizada

de

moderna,

científica, avançada e globalizada,

não tem conseguido compatibilizar

o progresso científico com os re-

sultados que se esperavam derivar

desta ideia de progresso. Durante

os séculos XVI e XVII realizaram-

se grandes avanços científicos (o

sistema coperniciano, a obra de

Galileu, o cartesianismo, o sistema

de Newton

)

que caracterizam o

nascimento da dita ciência moder-

na.

O racionalismo cartesiano atri-

buiu à razão toda a responsabilida-

de no processo do conhecimento,

tornando-se assim no modelo pa-

radigmático

do

pensamento

da

época. Contudo, foi no séc. XVIII

que a idolatria da razão fundou a

“religião” do iluminismo, com os

seus fiéis seguidores e crentes – os

filósofos da época das luzes. De-

senvolveu-se então uma fé cega

na

razão, e

com ela

toda uma

crença escatológica no progresso

científico até aí conseguido e por

D. R.
D. R.
no progresso científico até aí conseguido e por D. R. conseguir. universalidade dos progressos Toda esta

conseguir.

universalidade

dos

progressos

Toda esta ideia messiânica de

científicos.

Direccionalidade,

no

progresso,

alimentada

no

séc.

XVIII, acabou, até certo ponto, por

profetizar um certo nível de desen-

volvimento e, por conseguinte, de

felicidade, que a civilização huma-

na alcançaria em breve na plenitu-

de.

sentido em que cada passo era o

aperfeiçoar da cientificidade e alar-

gamento das conquistas do ho-

mem; e universalidade, pelo facto

de

as conquistas e avanços da

ciência poderem ficar ao serviço de

toda a humanidade.

Em certa medida fazia (e ainda

faz) sentido pensar, crer e esperar

que a ciência levasse a humanida-

de a um nível civilizacional que a

distanciasse da barbárie, se tiver-

mos em conta a direccionalidade e

Toda

a

estrutura filosófica e

científico-conceptual ficou mar-ca-

da pelas nuances de uma crença

nos avanços da ciência, e o pensa-

mento tecnocrático dominou todo

o séc. XIX sob a forma de cientis-

mo puro.

Chegados ao séc. XX, fomos

confrontados com duas grandes

guerras onde a humanidade foi

“usada” de uma forma mortífera,

como um palco para ensaio, apre-

sentação e utilização dos mais al-

tos

prodígios

técnico-científicos

conseguidos até então no campo

militar.

Ainda

hoje

carregamos

connosco o pesado fardo de Hi-

roshima!

Desde o seu estado primitivo

até ao actual nível de desenvolvi-

mento civilizacional, a humanidade

nunca conhecera tanta capacidade

de aniquilamento.

Não tínhamos percebido que

esse progresso estava a ser aplica-

do nas inúteis indústrias de arma-

mento, transformadas em forças

de escravização que nos deixam

“lançados na corrida apocalíptica

para a morte”, deixando entrever

que “o futuro será o nosso próximo

nada” 1 .

Não deixa de ser verdade que a

ideia do progresso, tal como foi

idealizada, não passa hoje de um

mito cuja cegueira ofuscou a lu-

cidez do homem. E quando faze-

mos o balanço do séc. XX, senti-

mos que o homem e o conjunto de

valores que forma e caracteriza a

sua humanidade ficaram relegados

para

um

plano

inferior,

muito

aquém do tão esperado progresso.

Tudo neste mundo está em cri-

se. Assistimos aos poucos à morte

lenta e ao fim de uma civilização;

“o sujeito, há muito desaparecido

de todas as ciências, é considerado

um puro fantasma, o que constitui

o delírio mais subjectivo que se

possa conceber. Deste modo, os

progressos da ciência produzem

não só elucidação, mas também

cegueira” 2 . O ser humano ficou re-

baixado à categoria de objecto, e

tende mais cedo ou mais tarde a fi-

car órfão da humanidade.

O cenário da pós-modernidade

lançou o debate sobre a globaliza-

ção para tentar ofuscar o fardo pe-

sado e impúdico do nosso século.

Mas expandiu-se mais a ideia de

globalização do que uma globaliza-

ção objectiva que permitisse a

prosperidade, a riqueza e o verda-

deiro progresso, reduzindo o fosso

cada vez maior entre ricos e po-

bres.

Balawat
Balawat

Caricatura de René Descartes

Portanto, o dealbar deste novo

século e, por conseguinte, de um

novo milénio, implica uma reflexão

sobre o sentido do progresso que

põe um problema novo. Como per-

guntou Jean-Jacques Antier, “onde

se deve parar o olho desrespeitoso

da ciência em nome do progres-

so?” 3

Deste modo, apesar da incerte-

za resultante da crença num pseu-

do-progresso, resta ainda a espe-

rança na possibilidade de um novo

nascimento da humanidade, isto é,

o fim da agonia da escravização ou

do aniquilamento generalizados.

Corroboramos a opinião de Enrique

Rojas 4 de que não pode haver ver-

dadeiro

progresso

humano

en-

quanto este não se desenvolver

numa base moral.

Hoje, com todos os problemas

com que a humanidade se debate,

“perdemos a promessa do progres-

so, mas afinal foi um enorme pro-

gresso descobrir que o progresso

era um mito” 5 .

1 Edgar Morin – As Grandes Ques-

tões Do Nosso Tempo, Editorial No-

tícias (6ª edição), Lisboa, 1999, p.

259.

2 Edgar Morin – ob.cit., p. 247.

3 Jean-Jacques Antier e Jean

Guitton – O Livro Da Sabedoria e

das Virtudes Reencontradas, Edito-

rial Notícias (2ª edição), Lisboa,

1999, p. 203.

4 Enrique Rojas – O Homem Light

- Uma Vida Sem Valores, Ed. Grá-

fica de Coimbra, Coimbra, 1994, p.

6.

5

Morin, Edgar - ob.cit., p. 263.

O melhor dos mundos possíveis?

John Pallister

Cândido é um excelente rapaz de ascendência incerta, prova- velmente sobrinho do Barão Thunder-ten-tronckh. O seu mestre Pangloss, o maior filósofo da Vestefália, ensina que não há efeito sem causa e que tudo é necessariamente para o melhor dos fins. Infelizmente, um encontro demasiado próximo com Cune- gundes, a filha do Barão, leva o pobre Cândido a ser expulso do castelo. Depois de uma passa- gem penosa pelo exército búlga- ro, reencontra o seu mestre, que lhe conta que o castelo foi des- truído, Cunegundes violada e to- da a família assassinada. Além disso, Pangloss está quase irre- conhecível porque tem sífilis – mas há uma boa razão para isso:

«se Colombo não tivesse apa- nhado numa ilha da América a doença terrível que envenena a fonte geradora, que chega mes- mo a impedir a geração, e que evidentemente se opõe à grande finalidade da Natureza, nós não teríamos nem o chocolate nem a cochinilha». Depois disto, viajam num navio que é apanhado por uma tempestade e que fica total- mente destruído; Pangloss e Cândido sobrevivem, para che- garem às ruínas de Lisboa em

D.R.
D.R.

Litografia de Lisboa após o terromoto de 1755

1755 (além de referir o ter- ramoto neste conto, Voltaire de- dicou-lhe um poema). Como se tudo isto não bastasse, uma bre- ve troca de palavras à volta da mesa é suficiente para que eles sejam acusados de heresia, e a Inquisição enforca o mestre e açoita o aluno. Cândido é depois ajudado por uma velha, através de quem reencontra Cunegun- des, que sobrevivera afinal aos maus tratos por que passara.

O par sofre ainda outra sepa- ração e numerosas desventuras – por exemplo, Cândido assassi- na por engano o pai da amada, que afinal também sobrevivera. No final, reencontram-se todos e com o dinheiro que restou de

uma fortuna obtida na viagem, compram uma pequena quinta onde levam uma vida simples, mas pacata. Só que Cunegundes está feia, rabugenta e insuportá- vel, Pangloss não tem a glória que quereria como mestre de fi- losofia, e Martin (que se juntou a Cândido algures no percurso) es- tá firmemente convencido que se está igualmente mal em toda a parte. O optimismo inicial de Pangloss parece abalado, mas ele e Cândido ainda discutem, ocasionalmente, metafísica e moral. A velha a certa altura ou- sou dizer-lhes:

«– Gostaria de saber o que é pior, se ser violada cem vezes pelos piratas negros, ter uma ná- dega cortada, passar sob as ver-

gastadas dos búlgaros, ser chi- coteado e enforcado num auto- de-fé, ser dissecado, remar nas galés, enfim, se passar por todas as misérias que nós sofremos, ou ficar para aqui sem ter nada que fazer. – Eis um grande problema – disse Cândido. Esta tirada despertou novas

reflexões e Martin veio a concluir que o homem era nado e criado para viver na inquietação, ou na letargia do aborrecimento. Cân- dido não concordava, mas não contrariava. Pangloss confessava que sempre sofrera horrivelmen- te, mas tendo afirmado uma vez que tudo ia às mil maravilhas, mantê- -lo-ia para sempre, em- bora não acreditasse em nada disso.» Uma conversa com um turco leva Cândido a considerar a im- portância do trabalho e Martin acaba por concluir:

«– Trabalhemos sem filosofar

porque é o único meio de

), (

tornar a vida suportável.» É o que fazem, e a quinta tor- na-se um sucesso económico. O livro acaba com Pangloss a reite- rar a sua antiga convicção a Cân- dido:

«– Todos os sucessos estão encadeados no melhor dos mun- dos possíveis; porque, enfim, se vós não tivésseis sido expulso de um belo castelo com grandes pontapés no traseiro por amor da menina Cunegundes, se vós não tivésseis passado pela Inqui- sição, se vós não tivésseis dado um bom golpe de espada no ba-

rão, se vós não tivésseis perdido todos os vossos carneiros do ma- ravilhoso Eldorado, vós não esta- ríeis aqui a comer limões, doces e pistácios. – Tudo isso está certo – res- pondeu Cândido –, mas é preciso cultivar o nosso jardim.» As linhas anteriores são um resumo de Cândido. Neste romance satírico, Pangloss encarna a filosofia de Leibniz, pela qual Voltaire tinha uma grande aversão. Os pressupostos em que assentam as ideias daquele filósofo parecem-nos hoje estranhos, mas de facto são consistentes e fundamentam to- do o seu sistema filosófico, que é muito importante no desenvolvi- mento do racionalismo moderno no séc. XVII. Se o criador do mundo é um Deus bom e pode- roso, é impensável que ele tenha criado o mal: o que chamamos males (como a sífilis de Pan- gloss) são elementos necessá-

rios no melhor dos mundos pos- síveis, sem os quais o mundo se- ria, na sua totalidade, pior (neste caso, não teríamos choco- late). Numa época em que se confiava plenamente nas capaci- dades da razão para explicar o mundo e resolver todos os pro- blemas, este tipo de raciocínio não deve surpreender- -nos demasiado. Também é preciso dizer que Voltaire conhecia mal Leibniz (já tinha passado mais ou menos uma geração) e por isso a sua crítica não é sempre justa. Apesar disso, recomendo a sua ironia para lidar com cons- truções metafísicas tão distantes da vida concreta. É talvez o me- lhor método, desde que assente num bom fundamento teórico. Eis alguns pontos essenciais de crítica.

1. Martin diz que o homem é «nado e criado para viver na in-

Hermann Claasen
Hermann Claasen

Hermann Claasen, “Cristo entre as ruínas” , 1945

quietação, ou na letargia do abor- recimento». Parodiemos: será que não vivemos no pior dos mundos possíveis? O mundo como um todo não seria ligeiramente melhor se algumas situações específicas fos- sem piores? Esta hipótese é tão coerente como a de Leibniz, e igualmente irrefutável, o que mos- tra quão duvidosa é esta forma de

Werner Bischof
Werner Bischof

Werner Bischof, cerca de 1950 (pormenor)

argumentação. 2. No fim do romance, Cândido defende a importância do trabalho:

mais importante do que saber se este mundo é tão bom como Pan- gloss imagina, é ter consciência de que ele pode ser muito melhor se nos esforçarmos por isso. O mais irónico é que nisto os dois autores aproximam-se. Am- bos estiveram activamente envol- vidos envolveram activamente em questões práticas e políticas, ape- sar de defenderem filosofias tão di-

ferentes. A filosofia contemporânea costuma criticar a modernidade pe- la distância que o sujeito assume face ao mundo, mas talvez devesse prestar atenção aos exemplos de Leibniz e Voltaire, e ao apelo que este último faz no Cândido.

3. Finalmente, não será a teoria de Leibniz um insulto para aqueles que sofrem? De que servem argu- mentos metafísicos face à expe- riência real do mal? Vamos recorrer ao sábio Qohé- let acerca desta questão: «De novo voltei-me, e atentei para todas as opressões que se fazem debaixo do

sol: vi as lágrimas dos oprimidos, e eles não têm consolador; o poder estava do lado dos seus opresso- res, mas eles não tinham nenhum

Ainda há outra vai-

dade sobre a terra: há justos a quem acontece segundo as obras dos ímpios, e há ímpios a quem acontece segundo as obras dos jus- tos. Digo que também isto é vaida- de.» Será que tudo se vai desvanecer sem diferenciação de justos e in- justos? Não há, em última análise, justiça? Para Cândido, a resposta de Pangloss é basicamente inútil – o importante é a acção. Qohélet con- corda que a sabedoria acerca deste tema é escassa: «Não há limite pa- ra fazer livros, e o muito estudar é enfado da carne.» Mais à frente, diz que percebeu «uma boa e bela coisa: alguém comer e beber, e go- zar cada um do bem de todo o seu trabalho, com que se afadigou de- baixo do sol, todos os dias da sua

consolador. (

)

vida que Deus lhe deu; esta é a sua porção».

Mas Qohélet vai ainda mais lon-

ge: «De tudo o que se tem ouvido,

a conclusão é: teme a Deus, e

guarda os seus mandamentos, pois

isto é todo o dever do homem. Por- que Deus há-de trazer a juízo toda

a obra, inclusive tudo o que está

encoberto, quer seja bom, quer se-

ja mau.»

A solução para o problema do

mal é, na opinião dele, intangível:

aqui e agora não há nenhuma solu- ção, senão a confiança em Deus. Podemos, por isso, acusá-lo de não nos dar realmente nenhuma solu-

ção?

Dificilmente: admitir que não há nenhuma resposta simples, que pode mesmo não haver uma res- posta, é talvez a única forma de não menosprezar, de encarar com toda a seriedade o problema – e sobretudo a crueldade – do mal.

Bibliografia obrigatória:

Cândido ou o Optimismo: um pas-

seio agradável pelo séc. XVIII, através

da ironia e do pragmatismo de Voltaire.

Qohélet ou Eclesiastes, em qualquer

Bíblia: para complementar o pragmatis-

mo, recomendo o texto existencialista

mais antigo que conheço.

Bibliografia secundária:

Aos amantes do racionalismo mo-

derno sugiro Rutherford – Leibniz and

the Rational Order of Nature.

Ridendo castigat mores

A minha descoberta deste ig-

norado evangelho começou lon-

ge do Jordão, ao ler uma crítica

do DN. Trata-se d’A Verdadeira

História de Jota Cristo, da auto-

ria de Ferrand, editada pela Wi-

tloof e descrita pelo jornal como

o mais “apócrifo dos apócrifos”.

Após alguns anos de busca, foi

numa livraria de Coimbra que

encontrei o famoso livrinho, ho-

je para alguns um clássico da BD

portuguesa.

Politicamente

incorrecto,

o

humor de Ferrand abriu um es-

paço no panorama da Banda De-

senhada nacional, sendo ele, na

minha modesta opinião, um pro-

missor autor neste campo. De

facto, não estamos perante um

amador da nona arte,

mas al-

guém que já conhece os truques

do ofício. Ricardo Ferrand nas-

ceu em Moçambique em 1973,

terminou a licenciatura em En-

genharia do Ambiente na Uni-

versidade de Aveiro em 1999 e

actualmente frequenta o curso

de Design Gráfico e Ilustração

na ARCA-ETAC em Coimbra. Es-

treou-se na BD com a obra Que

grande trabalheira, onde já de-

monstrava

algumas

influências

da escola franco-belga. Entre-

tanto publicou uma nova obra

O quinto evangelho.

José Noras

Ferrand & Witloof
Ferrand & Witloof

Vinheta da 2º edição d’A Verdadeira História de Jota Cristo

em dois volumes, O Homem que

Não Parava de Urinar e A crian-

ça que tinha 100 anos. Em Outu-

bro de 2004, saiu da sua pena A

Verdadeira História de Portugal.

O recontar da

vida de Jota

Cristo é, nesta BD, uma miscelâ-

nea entre a história evangélica e

os nossos dias, dando origem a

situações rocambulescas. O au-

tor recorre a subtis ironias, que

por

vezes

roçam

o

sarcasmo,

devido ao anacronismo criado.

Já no que toca aos recursos ima-

géticos e figurativos, sublinho a

consistência

das

personagens,

nomeadamente na de Jota Cris-

to, que se tornou um símbolo do

fulgor da BD lusa. Destaco tam-

bém o pormenor do título no to-

po

da

página,

que

se

constantemente.

altera

patia pela BD. No tempo de uma

viagem de autocarro, numa da-

quelas aulas a que não devias

ter ido ou no café com os ami-

gos, as trinta páginas como que

pedem para

ser

lidas e vistas

com atenção. Entretanto, já está

nas bancas a 2º edição do cada

vez mais conhecido Jota Cristo,

incluindo oito páginas inéditas

que valem a pena, mesmo para

os que já leram a primeira edi-

ção. Sem dúvida um livro para

saborear,

guardar

e

com os amigos.

partilhar

na internet:

www.witloof.net

Livro a ler, mesmo por aque-

les que não têm particular sim-

Da surpresa e das imagens

Nélio Conceição

Já vou caminhando para o quin-

to ano nesta cidade, fazendo con-

tas à vida, mastigando passados e

cuspindo futuros, digerindo repas-

tos

duvidosos que por mais de

uma vez me causaram azia. Ainda

vou caminhando por esta cidade,

por suas encostas e escadas, e

uma das coisas que nela mais me

fascina

é

a

hipótese de ser sur-

preendido. É difícil, eu sei. Chega-

mos a um ponto em que tudo pa-

rece conhecido: as mesmas ruas,

as mesmas cantinas, os mesmos

cafés, a mesma empregada do bar

da faculdade (“diz lá, jeitoso!”), os

mesmos professores, os mesmos

apontamentos da mesma matéria

que vai passando de ano para ano,

os mesmos rituais da tradição, os

mesmos edifícios salazaristas da

alta, o mesmo do mesmo.

No entanto, ainda é possível

ser-se surpreendido por estas ban-

das. Em primeiro lugar, pelas pes-

soas,

que a

bem ou

a mal,

pelo

que trazem de novo ou pelo que

repetem na rotina dos dias, se tor-

nam um interessante fenómeno

social, ou seja, “coisa” de valor e

digna de alguns momentos de re-

flexão. A estupidez e a presunção

de verdade podem – devem, de-

viam! – ser motivos de surpresa.

Em segundo lugar, e talvez isto

seja a título ainda mais subjectivo,

é possível ser-se surpreendido pe-

Jorge Vaz Nande
Jorge Vaz Nande

las imagens que Coimbra nos ofe-

rece – e esconde. Gosto sobretudo

de percorrer as labirínticas ruas

que entremeiam a alta e a baixa,

embalado pelo vício fotográfico,

uns copos de cerveja ou uma qual-

quer agradável companhia. Pode

ser refrescante descobrir imagens

e registá-las na película ou na me-

mória, imagens de velhotas e ca-

sas velhas, de tascas e edifícios se-

culares, de paradoxos do tempo e

de reflexos nocturnos em pedras

cinzentas tocadas pela chuva.

É por vezes um lugar comum –

útil e quase despretensioso, mas

ainda assim demasiado comum – o

dizer-se que vivemos numa socie-

dade de imagens. Como se isso

não fosse óbvio, como se toda a

gente não soubesse que os putos

nascem de olhos e beiços colados à

televisão. Como se a maioria de

nós não tivesse já sentido o apelo

irrecusável que, numa insípida tar-

de de Domingo, um pequeno zap-

ping pode constituir. Como se o

vestir na moda e o vestir anti- não

fossem também manifestações do

poder da aparência, ou melhor,

tentativas de nos situarmos social,

ideológica ou “fixe-

-mente”

num mundo de democráticas indis-

tinções. Como se, enfim, a nossa

economia e o seu sistema de mun-

do não fossem alimentados pelo

ver (“ver para querer” e esquecer

o “crer que alimentava o ver”), o

que só se torna possível pelo culti-

vo da posse e pelo desejo suscita-

do na visão. Não, não somos ape-

nas consumistas, somos também

vítimas dos nossos olhos.

O marketing e a publicidade

aprenderam bem a lição das ciên-

cias humanas, sobretudo daquelas

que, psicologicamente falando, se

julgam por vezes naturais e exac-

tas. O homem é um ser de fragili-

dades e rupturas, mas é também

um animal dócil na forma como se

deixa educar e ludibriar. Um labra-

dor de pedigree elevadíssimo, de

fácil reacção aos estímulos, de de-

sejos recalcados que continuamen-

te se tornam visíveis sob a forma

de muco.

Mas tudo isto é relativamente

fácil de compreender. O difícil

é

aceitar que este mundo tão límpi-

do e claro, este mundo de imagens

e de consumo, não passa de uma

tela

onde se

projecta de forma

problemática a ideia de “realida-

de”. Significa isto que o conceito

de “realidade”, tal como é posto

pelas imagens modernas – foto-

grafia, cinema, televisão, vídeo, in-

ternet –, sofre ou deveria sofrer

um abanão extremo. Nunca tanto

como hoje a “realidade” é “irreal”,

nunca tanto como hoje sentimos a

marca das simulações fotográficas,

das montagens cinematográficas,

das manipulações televisivas, das

ficções videográficas, das virtuali-

dades do ciberespaço. Mas o gran-

de paradoxo desta situação é que

nunca na história da humanidade

existiram tantos meios técnicos e

uma tão forte capacidade de tornar

“real” o que nunca o foi, de trans-

formar futilidades em grandes ob-

jectos de desejo. De facto, as nos-

sas sociedades não são menos de-

sejantes, não perderam o fulgor e

o ímpeto; simplesmente foram al-

terados os objectos de desejo. An-

tes adoravam-se imagens divinas,

agora adora-se quinquilharia. E de

forma natural, como se esta fosse

a “realidade”, a única que existe.

Porque tudo está dado em visão, o

mundo

em

imagem

é

a

tela em

que nos

fixamos e com que nos

consolamos, fugindo das surpre-

sas, das diferenças que fazem ruir

os nossos pequenos castelos de

verdade.

Biobibliografia:

Passear por Coimbra como se

fosse pela primeira vez

Desconfiar da intelectualidade

e das instituições de ensino que

desconfiam da cultura da imagem.

Perguntar a Descartes (e ou-

E clarificar tudo isto é um desa-

fio urgente, sobretudo para as Le-

tras e as Ciências Sociais e Huma-

nas, lugares de pensamento onde

ainda é suposto usufruirmos do

tempo necessário para suspender

o “real” que as imagens nos dão. O

“real” da guerra no Iraque, o “real”

de um Durão Barroso a estender

orgulhosamente a bandeira portu-

guesa ao lado da norte-

-ameri-

cana, o “real” dos reality shows, o

“real” dos incêndios transformados

em (dramático) espectáculo televi-

sivo, o “real” dos dirigentes acadé-

micos a trabalhar para a imagem,

o “real” de uma universidade que

se consome nas cinzas do passado.

tros companheiros modernos) o

que significam o primado da visão

e a confiança nos sentidos. Este ví-

cio das verdades absolutas, dos

“reais” que adormecem a surpresa,

ainda nos persegue como um fan-

tasma; com o actual pormenor de

que já não vemos somente o mun-

do

da

natureza

construída

por

Deus, mas também o mundo das

imagens forjadas pelo homem. Cf.

sobretudo as Medi-tações Sobre a

Filosofia Primeira.

Pensar com Walter Benjamin.

“Em grandes épocas históricas al-

tera-se, com a forma da existência

colectiva da humanidade, o modo

da sua percepção sensorial”. Por

A questão não está tanto em

concordarmos

com

uma

teoria,

neste caso a de que as sociedades

ocidentais vivem num culto da

imagem, mas sobretudo nas con-

sequências de uma “realização” do

mundo por imagens. Negarmos ou

aceitarmos este processo de “rea-

lização” é já um posicionamento

face aos fenómenos a ele perten-

centes.

Surpreendo alguém

? Ou tudo

isto é errado, tudo isto já está ul-

trapassado, tudo isto não interes-

sa?

outras palavras: os hábitos cultu-

rais

domesticam

a

nossa

per-

cepção, dão-nos a naturalidade, ti-

ram-nos o espanto das coisas. Cf.

A Obra de Arte na Era da sua Re-

produtibilidade Técnica.

Conversar com A Câmara

Clara de Roland Barthes e Figuras

do Espanto de Pedro Miguel Frade.

Dois bons livros sobre fotografia, o

meio técnico que introduziu uma

silenciosa revolução no mundo.

Inês Carvalho

Nuwdbxwudw

uxbwugdvvx

Enlouqueci. Z<swnquqn estou perdida aqui.w n44b

Aqui Aqui (no léxico)

Aqui Wej899993rhhhhhh (onde??!) hvvvvvvvvvvvvve (perdi-me entre conceitos que não soube definir. as palavras são vazias e apodreceram-me nos lábios quando quis pedir ajuda. na minha cabeça bóiam letras soltas que não sei ligar choques entrei em curto-circuito com a realidade zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz

não sinto tornei-me gelada como um computador que só compreende linguagem binária100111011100111) vida-morte o que dói vem sempre antes e perdura

dura dura isto só pode ser loucura é loucura! Mmmmmmmmmmmjiwdbb3ugd

xoeji3yr8gdcvhjyiqwhs2gu8weuzxvywfex

dio3ei3bcx3bx

há muito tempo que isto perdeu o sentido que tinha e ganhou um sentido que não tem sentido absolutamente nenhum. alguém me quis ligar à corrente e estalei. enlouqueci. antes assim. 2basu29h sinto- me um robot avariado que nem para a sucata serve porque ninguém quer saber de reciclagem. queria ser diferente fugir da linha de montagem mas um dia enferrujamos todos e eu enferrujei cedo de mais porque chorei e o metal não gostou sssssssweh3uevd3fry3fry crycdy3geheu3bsu3he8bu3

ebu3egu3vde

hwdvefry3ev2whsvwge23 j dwd3ihdi3d3ih3

Diz-me se isto tem sentido

DIZ-ME!!!!

Tu não és tu Eu não sou eu Ninguém é alguém Somos peças sem vida própria De uma engrenagem maléfica e maior Corremos atrás de algo que desconhecemos

E que nos deixa um sabor a ferrugem na boca Tão amargo Sobrevivemos sem viver Uma imposição oca

Abafa-nos a vontade

qns82hs00x

Enlouqueci à procura de palavras diferenteswsd2 Arrancar os conceitos a esta monotonia que me estrangula

Mas vou morrer (se calhar) mais cedo do que aquele tipo

suposto ele

Que nunca

procurou nada,

que

se limitou a

ser

o que lhe disseram que

era

ser e não resmungou não arrancou desesperado as folhas do dicionário

porque

não vinha lá aquela palavra que ele não sabia qual era

Uhhhhhhhhhhhhhh988888888hhhhhhhh<wg12huuqgwyv

syvsdvwdydvywdvwydv FIM

Tiago Alves

Achei sempre que as ideias acabavam à partida, Que estar demasiado tempo imóvel fazia-nos desaparecer. Talvez de estar tão certo não sei bem se é verdade, Talvez de não estar assim tão seguro duvido se o pensei.

O que importa é que o horizonte ficou para trás. Todo o tempo que julguei percorrer, afinal passou-me E não ouvi o tiro de partida. Provável é ter feito bem, ficar quieto.

Se o que motivava se subverte, Se o ouro que reluzia perante a vontade É o atavismo que depois queremos esquecer, Então o saldo é o conta-gotas que os dias bebem.

Não se lamenta o pequeno reflexo que deixa entrever o resto,

O pequeno quotidiano sem eternidade,

De nunca estar satisfeito, e de milhões o terem sentido Satisfeitos de não terem tempo.

Preparo-me para outro longo período sem palavras, Com esperança que a voz desvaneça, Não mais lhe ordenar sons de sinceridade Ou sílabas sem alma.

Afinal, somos todos um pouco iguais, Sempre com medo do encontro,

A traição do aceno, o cumprimento que separa

E só o vazio que trazemos nos enlaça.

Dizer coisas faz-nos perder, desejar isso também. Digo-o do alto de um espírito doente, com uma dor chata. O enfado do compromisso de estar aos olhos de alguém, Tão distante já, que duvido que hajam olhares que sintam.

a conta se faz favor José Noras As luzes de néon foram-se desligando e o
a conta se faz favor
José Noras
As luzes de néon foram-se desligando e o dono do café olhava para a mesa
do fundo renitente
deveria pedir-lhe que saísse? Bem, sempre eram quatro ho-
ras da manhã, e devia ter fechado às duas
porque é que aquela estranha e ma-
cambúzia personagem simplesmente não pagava e se ia embora? Faltava-lhe co-
ragem, ou melhor, coragem talvez não fosse a palavra certa, não era capaz de o
mandar sair. Porquê? Não sabia
mas a ideia de pedir a um cliente que se fosse
embora parecia-lhe como que contraproducente, era quase como matar a galinha
dos ovos de ouro
o que era sem dúvida fantasia a mais, mas era a imagem que
lhe surgia na mente sempre que se tentava convencer a mandar alguém embora.
Apenas duas pessoas existiam ali, ele e o misantropo cliente
os empre-
gados há muito haviam saído, até as cadeiras estavam já de pernas para o ar em
cima das mesas
excepto, claro, a do fundo. Nessa, o estranho bebia há duas ho-
ras e meia, calma e languidamente, o seu Bloody Mary.
Tornava-se forçoso agir
e se a polícia ali passasse? Não era a primeira
multa, arriscava-se a perder a licença. Apesar de o café ser um passatempo de
fim de semana, não queria ter de o abandonar, mas não era capaz de, pura e sim-
plesmente, aproximar-se do homem e dizer-lhe saia, por favor, temos de fechar.
Se ao menos ainda tivesse um dos dois empregados no qual pudesse delegar tão
nefasta
tarefa
O
homem acendeu mais um cigarro e colocou o maço em cima da mesa, co-
mo quem se prepara para ficar. Os gestos dele reflectiam tal naturalidade que pa-
recia ser o mais trivial estar ali às quatro e meia da manhã a fumar, tranquila-
mente, num café deserto. Inútil para o dono tentar convencer-se a fazer alguma
coisa
e os minutos não paravam, não esperavam
tique-taque, tique-taque
que barulho infernal, e já cinco horas, marcavam os ponteiros
cinco e meia
já não aguentava de sono, queria ir para casa. Isso significava uma hora de car-
ro, ainda por cima amanhã era segunda
e tinha de acordar às nove. Aproximou-
se da mesa do fundo, balbuciando:
Olhe, não que eu o queira mandar embora
mas isto era para fechar às
duas
não sei se está ver, já são seis
sair
Compreendo perfeitamente, estava apenas à espera que me pedisse para
olhe, já agora a conta, se faz favor.
18
Estilhaços
Grão (carta à família que aí habita) Sandra Dias Apetece-me muito pensar. Mas acontece-me, neste
Grão
(carta à família que aí habita)
Sandra Dias
Apetece-me muito pensar. Mas acontece-me, neste exacto e simétrico momento, que levo horas
para vos compreender. E isso aborrece-me. Não pretendo ser autobiográfico, nem esteta, deixem-me
que desde já vos diga. Quero simplesmente dar vazão ao esforço que faço para vos compreender. Que-
ro responder- -vos. Mas saibam que não levo horas para amar. Nesta cabeça que uso à Fernando Pes-
soa já existe cabelo branco suficiente para cobrir a manjedoura das virgens. E a cera que me entope os
ouvidos ainda não é suficiente para
O Robert Wyatt é um mestre! Compôs a “Pigs”.
Costumo criticar-vos, meus semelhantes, porque vos sei insensíveis e muito pouco ou nada avisados de
que a vida um dia parte. Preciso avisar-vos. Deixem-me passar que vou com pressa e levo no bolso um
livro chamado “Tributário”.
Estilhaços
Hoje quero pôr as palavras na boca, na minha desmanchada boca. Irei buscá-las a uma floresta
imensa a que chamo inconsciente. Juntá-las-ei todas num compêndio de papel opaco e expurgarei ge-
midos e lamentos sufocados. Liberdade. Depois
depois colocá-las-ei nas vossas mãos. Serão vossas.
Sim, hoje quero cumprir promessas. Todas as que faço a mim mesmo, todas as que vêm com o dia, o sol
ou a chuva, todas as que batem à minha porta e triunfam, culpadas, dentro da minha cama. Todas as
que confundo com o hálito da manhã. Todas as que cheiram melhor à noite.
Quero dar-vos a novidade da existência, a que sempre fica para o fim. Consiste em querer pen-
durar-
-vos a todos de cabeça para baixo. Quero ver-vos morrer, inchados de sangue absurdo e lascivo.
Quero esmagar-vos contra a obliquidade de todos os sonhadores. Será sempre melhor do que ver-vos
morrer de flatulência, de sedentarismo mental. O Darwin jamais vos perdoará. Nem eu.
Tenho dias em que levanto a cabeça e só me apetece ver o que há de melhor em cada um de nós.
É como num teatro de fantoches. Para além da harmonia, vem sempre a Maria e o António. E o feiticei-
ro bom. Ensinam-nos a sonhar devagarinho e depois não vão. São os alfaiates da felicidade, da magia e
dessas coisas todas. Creio que, por isso, os podemos ter sempre ali a dançar para nós. Deixem-nos ser
assim. Aprenderam hoje a sorrir e só se sabem babar e brincar. Cristalizaram-se eternamente em bran-
dura como o pingo triunfal do caramelo. São fantoches, mas são civilizados. E nós não. Uns anos passa-
dos e ainda vamos limpar-lhes o pó. Continuamos a dar-lhes todas as oportunidades. Com as pessoas
não é assim. O nosso passo civilizacional depende disso, da miserável desconfiança.
Mas para mim o teatro continua, meus amigos, e o feiticeiro bom acaba de me introduzir numa
espécie de corredor, espécie de vértice glacial. Tem o aspecto duma vida. Por isso tem também muito
de morte. Preciso segurar-me à parede. Abandonaste-me Duarte? Meu irmão, ouço-te gritar. Há uma cé-
lula do meu coração que te pertence. Não sabes? Tenho que te contar
Uma noite destas vi a transpi-
ração do rio. Chorava, sem rancor, e nada. Só chorava. Julgo que era de saudade, acredito nisso. Se lá
estivesses comigo, sei que também tu ias acreditar. Meu irmão, tantas histórias que te conto e que tu
não ouves, ninguém ouve. Também eu já tropecei um dia na pressa. As pessoas são ridículas quando o
fazem e a consciência delas não as absolve dessa frivolidade. As pessoas são tão ridículas.
Finda o desalento, expira o meu prazo, e não sei mais como vos explicar que levei toda a vida a
amar. Acabei por misturar tanta coisa. Confundi-vos. Ainda bem. Porque um planeta, que pode ser a
Terra, é como um único e simples grão. Come-se e pronto.
19
Inês Carvalho Um cinismo a pairar nos olhos hipnotiza A ponta do lápis, E a
Inês Carvalho
Um cinismo a pairar nos olhos hipnotiza
A
ponta do lápis,
E
a testa rosada
É
uma simples película aderente
Que uso como mero objecto decorativo.
As mãos são luvas
Geladas
Sem vida
E
sem sangue.
tenho ganas
De viver
E não sei como,
Perdi o manual de instruções
E metade das peças
E agora simulo
Uma intelectualidade
Que é tão artificial
Quanto eu própria
E
Será que estou viva cá dentro?
Um dia grito
arranco o coração pela boca
Com um ferro em brasa
Só para ter a certeza
De que todo este tempo
Vivi enganada
E
E
que se calhar sou
Uma pessoa a sério
E
não uma cyborg enferrujada.
20
Estilhaços
Cortejo a memória dos dias nasce das curvas e horas dissonantes em que os gestos

Cortejo

Cortejo a memória dos dias nasce das curvas e horas dissonantes em que os gestos aprendem

a

memória dos dias nasce das curvas

e

horas dissonantes em que os gestos

aprendem a utilidade do esquecimento

de todo o ruído do mundo sobra apenas um murmúrio pesado e silente como todas as pedras como todo

o chão que alguém um dia

terá de limpar sob os nossos pés

um murmúrio pesado e silente como todas as pedras como todo o chão que alguém um
Um muro sem lamentos Eduardo Costa Ao som horritroante de dinâmica suficientes para vai revelando
Um muro sem lamentos
Eduardo Costa
Ao som horritroante de
dinâmica
suficientes
para
vai
revelando
aos
poucos
aviões
junta-se
o
soluçar
mudar
o
rumo
das
coisas,
uma
parafernália
de
emo-
sangrento
das
metralhado-
pois é por demais evidente
ções, desde protestos pes-
ras e o ribombar acutilante
a
insatisfação
que
escorre
soais
do
próprio
Waters
à
dos canhões. Com uma sin-
na
nossa
pele,
como
suor
mais alta harmonia instru-
fonia bélica doentia, dá-se
frio face aos problemas que
mental que só aqueles qua-
inicio à audição de
um dos
nos
assolam
e
à
falta
de
tro
músicos
conseguem
álbuns
mais
marcantes
da
respostas convincentes pa-
c
ri a r, e q u e o n o s s o e s pí ri t o
história
da
música
moder-
ra
o s
r e s ol ve r.
C o nvi d o -
-
bem compreende em toda a
na, construído por uma das
os,
portanto,
a
ouvir
com
sua bele za . Todo s o s e fei to s
bandas
mais
influentes
de
atenção
este
álbum,
a
fe-
cénicos
criados
em
redor
sempre
trata-se
de
The
char
os
olhos e
imaginar o
dos
espectáculos
ao
vivo
Wall, dos Pink Floyd. Muita
espectro
poeirento,
sujo,
tornam-se
uma
mais
valia
tinta
correu
sobre
este
porém humano que o envol-
na compreensão da estrutu-
álbum,
imbuído
de
concei-
ve; só desta forma é possí-
ra do álbum, nas dimensões
tos
muito
bem
definidos,
vel compreender toda a for-
sociais e humanas com que
com uma estrutura lírica e
ça
de mudança com a
qual
este foi projectado: ao lon-
musical ao mais alto nível.
este foi produzido.
go do concerto,
um
muro é
Não é, contudo, minha pre-
É certo que nesta altura
edificado em frente dos mú-
tensão escrever sobre fac-
os Pink Floyd resumiam–se
sicos,
simbolicamente
ma-
tos históricos ou sistemati-
à
luta
pela
liderança
da
nifestando a reclusão social
zar
uma crítica a cada mú-
banda
entre
os
dois
mem-
e
a alienação humana, fruto
sica
e
ao
seu
conteúdo.
bros mais importantes, Wa-
de uma urbanização desen-
P r e t e n d o
f a z e r,
i s s o
s im ,
t
e r s
e
G i lm o u r,
t e n t a n d o
f
reada .
Toda s
a s
angú s tia s
uma abordagem recente ao
cada um assumir o protago-
de
Waters
transformam-se
teor emocional que percor-
nismo.
O
deste
álbum
vai
em metáforas físicas, como
re todas as canções
do
ál-
todo
para
Waters,
sendo
o
boneco feminino de olhos
bum, assim como o espec-
também
o
último
com
a
vorazes e corpo disforme, a
táculo ao vivo e o filme que
prestação dos quatro mem-
mãe edipiana nas suas mais
lhe
ficam
indelevelmente
bros, considerado por mui-
cruéis intenções – a loucura
associados.
tos como o grito moribundo
da solidão, o casulo de aço
Olha-se para o passado
de
adeus
do
grupo,
como
que emaranha e tolda a na-
para perceber o presente e
até
então
era
conhecido
-
tureza humana, a educação
construir
o
futuro.
A
con-
mas um grito que ainda ho-
ríspida e ineficaz e todo um
juntura
do
mundo
em
que
j
e
s e
f a z
o u vi r.
O
c o n c ei t o
mundo competitivo e dema-
vivemos
apela
não
mais
à
musical,
em
conjunto
com
siado maquiavélico. Waters
inércia, mas sim à
força e
à
as
letras
de
cada
música,
grita em surdina por ajuda,
22
Audiofilia

“is there anybody out the-

muro

é

destruído;

aquele

forma por demais evidente.

re?

.”;

não há

mão que se

muro

que

havíamos

criado

Foi

por

este

motivo

que

estenda na frieza do mundo

para

fugir

ao

medo é dizi-

quis chamar a vossa aten-

moderno. O muro teima em

ser

edificado,

pedra

sobre

mado pela vontade de mu-

d a r,

d e

vol t a r

a

s e r

h um a -

ção para que conheçam, ou

v o l t em

a

c o n h e c e r,

e s t a

pedra,

opressão

sobre

no. O próprio Waters afir-

obra; não só o álbum como

opressão.

O

povo

(os

mou que a parede simboli-

o

filme,

não

a

música

“sheep” do álbum Animals),

a classe social,

o

beco da

zava a sua própria reclusão

proteccionista

e

opressiva

como todo o conteúdo con-

ceptual que o adorna – por-

democracia,

confronta-se

q

u e e ra n e c e s s á ri o d e s t r ui r.

que enquanto o muro ainda

com dilemas arrebatadores,

E

todo

o

álbum

torna-se

estiver aí, enquanto prefe-

as respostas são depressi-

vas e paranóicas; há um te-

mor

ingente

e

constante

que nos persegue

a fuga

é

a resignação: “I have be-

come

com for tably

numb”.

Waters tenta fazer ouvir o

seu lamento, puir todas as

suas mais íntimas enfermi-

dades da alma

-

e

nós sa-

bemos como hoje em dia as

nossas vozes ecoam no va-

zio, como as nossas vonta-

des

são

tijolos

do

esmagadas

pelos

muro

a

que

so-

mos votados pela socieda-

de. E então criamos másca-

uma catarse. Mas este não

rirmos

emparedar

os

nos-

másca- uma catarse. Mas este não rirmos emparedar os nos- ras, cerramos os lábios da deve,

ras, cerramos os lábios da

deve,

nem

pode,

à

luz

de

sos

sentimentos,

o

nosso

alma para não mais gritar-

todos

os

acontecimentos

percurso

enquanto

seres

mos o nosso sofrimento, e

hodiernos, ser considerado

humanos pode estar conde-

vivemos

dia

após

dia

es-

um

álbum

vetusto,

sem

nado,

assim

como

tudo

condidos

atrás

dos

segun-

qualquer

hipótese

de

so-

aquilo

que

da

nossa

boa

dos do relógio que marcam

breviver em conceito à evo-

vontade

depende.

“Don’t

os

lentos

passos

da

mor-

lução

das

nossas

mentali-

tell

me

there’s no hope at

te

E

fugimos

de

todos,

dades.

Muito

pelo

contrá-

all; together we stand, di-

até que o muro sejamos só

nós e mais ninguém esteja

atrás dele connosco

“Hey

rio, quando se pensava que

vided we fall .”

o nosso caminho era em di-

recção à recusa de qualquer

you!, out there in the cold,

muro

que

nos

separasse,

getting lonely, getting old,

outros

muros,

cada

vez

can you feel

mais

fortes,

continuam

a

No fim do espectáculo o

ser

erguidos

alguns

de

Subversão real

Maria João Gonçalves

Graças a Deus sou ateu.

Nasce

a

Luis Buñuel

22

de Fevereiro de

1900, em Aragon, Espanha, uma

figura sobre a qual recai constante-

mente a controvérsia; os seus de-

fensores aclamam-no como uma

das maiores figuras do cinema, ao

passo que alguns críticos olham-no

com um certo desinteresse. Os pri-

meiros admiram a sua moral sur-

realista

expressa

por

imagens

cruas, mas depuradas; os segun-

dos não vêem nele

mais do que

uma lúcida força de subversão uni-

versal.

Pai do surrealismo cinemato-

gráfico e um dos mais originais

realizadores da história do Cinema,

Luis Buñuel recebe uma austera

educação jesuíta, que funda quer a

sua obsessão pela religião quer to-

do o seu comportamento subversi-

vo. Muda-se para Madrid para es-

tudar na Universidade, tornando-

se amigo de Salvador Dalí e Fede-

rico García Lorca. Quando começa

a interessar-se pela burguesa in-

dústria do cinema europeu, decide

ir morar para Paris, onde frequenta

a Academia de Cinema e faz de tu-

do um pouco no mundo da Sétima

Arte.

Em 1929, com o apoio financei-

ro da sua mãe e com a “assistên-

cia” criativa (no argumento) do seu

D.R.
D.R.

Cena do filme “Un Chien Andalou”, de 1929

amigo Dalí, faz o seu primeiro fil-

me, Un Chien Andalou. Aclamados

ou

vilipendiados

unanimemente

nas últimas sete décadas, estes

dezassete

minutos

tornaram-se

clássicos na História do Cinema de-

vido ao seu imaginário chocante,

fortíssimo até, graças à imagem

inicial do olho a ser laminado, que

ainda hoje é um murro no estôma-

go para quem o vê. Acerca desta

imagem, faço minhas as palavras

de Juan Vasques, comissário de

uma exposição dedicada a Buñuel:

“deu um profundo golpe na órbita

de um olho e abriu um abismo pe-

lo qual se precipitou no coração

das trevas, como antes o tinham

feito Darwin, Freud, Lautréamont

ou Sade. Como eles, Buñuel pene-

trou até ao centro do labirinto

e

examinou os fantasmas que nele

habitam, fantasmas que surgem do

conflito entre as maravilhas do

mundo e o seu lado mais obscuro,

fantasmas semelhantes ao da li-

berdade. De certo modo, Buñuel

seguiu o conselho de Friedrich:

“Cerra o teu olho físico para que

vejas com o olho do espírito”.”

Entretanto, o realizador cria um

forte impacto no mundo surrealis-

ta, que o acolhe rapidamente nas

suas fileiras (embora pouco tempo

depois surja um desentendimento

com o grupo de André Breton). No

ano seguinte, realiza a sua primei-

ra longa-metragem, o acutilante e

violento L’Âge d’Or, no qual critica

fortemente a Igreja e a classe mé-

dia. Este filme sai de exibição treze

dias após a estreia em Paris, por

alegadas razões de ordem pública.

Os seus principais oponentes são

membros da hierarquia superior da

Igreja Católica, que consideram o

filme gravemente sacrílego.

Depois da erupção cinemato-

gráfica

vivida

de

revolta

e

de

amour fou, Buñuel escolhe durante

algum tempo o silêncio. Quando

“acorda”, encontra-se falido e con-

siderado persona non grata no seu

próprio país, devido à polémica ge-

rada pelos seus filmes. A sua car-

reira parece ter chegado ao térmi-

no por volta dos anos 30, dadas as

dificuldades para continuar a tra-

balhar em Espanha.

Entre 1939 e 1942, reside nos

E.U.A., trabalhando no Museum of

Modern Art e na Warner Bros. Nes-

ta altura, pensa em montar

um

épico anti-nazi a partir de imagens

do arquivo do MoMA, mas tal pro-

jecto nunca se concretiza na totali-

dade. Desta época, deixa-nos o do-

cumentário March of Time (1940),

sobre o Vaticano.

Viaja para o México e trabalha

com o produtor Óscar Dancigers,

onde, depois de alguns filmes me-

nos bem sucedidos, capta a aten-

ção internacional, ganhando o Pré-

mio de Melhor Realizador no Festi-

val de Cannes com Los Olvidados

(1950). Esta obra realista de um

realizador surrealista assume–se

como uma arma de luta social, de-

nunciando as condições de vida de-

gradantes dos jovens delinquentes

da Cidade do México. Contém ce-

nas surrealistas admiráveis e uma

fabulosa imagética onírica que in-

troduz beleza e poesia num univer-

so cruel. No entanto, apesar deste

novo fulgor pela sua pessoa, Bu-

ñuel passa a maior parte da déca-

da seguinte envolvido em projectos

de pequeno orçamento, e poucos

são aqueles que conseguem cha-

mar as atenções para lá das fron-

teiras dos países de língua espa-

nhola.

Em 1961, o General Franco, an-

sioso por parecer apoiante da cul-

tura espanhola, convida Buñuel a

regressar ao seu país de origem. O

realizador aceita, sob a condição

de ter autonomia em relação às

posições do produtor, e realiza a

obra Viridiana. Este filme escanda-

liza muita gente, sobretudo pela

terrífica sequência da última ceia,

na qual os discípulos, substituídos

por pedintes, mendigos e ladrões,

aparecem envolvidos numa cena

de orgia e violação;

e mais uma

vez Buñuel é acusado de sacrilégio

e blasfémia. Apesar destas reac-

ções, Viridiana recebe a Palma de

Ouro do Festival de Cannes. O fil-

me é exibido na Europa que não o

censurou, garantindo a aclamação

de Buñuel.

Inaugura-se aqui o seu último

grande período, em que realiza se-

te grandes obras, começando com

Le Journal d’une Femme de Cham-

bre (1963). Mesmo sendo de maior

orçamento e com grandes estrelas,

os filmes demonstram que até na

sua época dourada Buñuel não per-

deu nenhum vigor criativo. O clima

de censura nos E.U.A. acalma-se o

suficiente para permitir que, em

1972, Le

Charme Discret de la

Bourgeoisie vença o Óscar de Me-

lhor Filme Estrangeiro. Depois de

afirmar que cada um dos seus fil-

mes posteriores ao Belle de Jour

“seria o seu último filme”, cumpre

a promessa com Cet Obscur Object

du Désir (1977). Posteriormente,

escreve uma memorável (apesar

de factualmente duvidosa) auto-

biografia, na qual afirma que seria

magnificamente feliz se pudesse

queimar todas as cópias das suas

películas – um clássico gesto sur-

realista, se alguma vez existiu um.

Morre a 29 de Julho de 1983,

na Cidade do México.

Bibliografia:

Nuno Sena et al. – EUROPA 60:

Ventos de Mudança, Cinemateca Portuguesa, Lisboa, 2002.

Tomas Pérez Turrent e José de le

Colina – Conversations avec Luís Buñuel, Cahiers du Cinéma, Paris,

1993.

Henri Agel – Les Grands Cinéas-

tes. Paris, Les Editions du Cerf,

1967.

na internet:

www.colina.residencia.csic.es/ima

genes/bunuel

www.imdb.com

Jan Dara: o polémico filme tailandês do século XXI

Korapat Pruekchaikul*

Todos os tailandeses conhe-

cem

hoje

Nonzee

Nimibutr,

o

realizador que trouxe a glória ao

cinema tailandês através do fil-

me Nang Nak, que se baseia na

história

verídica

do

amor

de

Nang Nak (a mulher que, embo-

ra já morta, tem a esperança de

ressuscitar

e

reencontrar

seu

marido), tornou-se bastante po-

pular entre o público daqui. De-

pois de Nang Nak, Nonzee reve-

lou que realizaria um filme polé-

mico no mesmo ano, baseado

num

romance

contemporâneo

tailandês que, quando foi lança-

do, causou bastante polémica.

U-Sana Plerngtham é um ro-

mancista

tailandês

cuja

única

obra, Jan Dara, choca os leito-

res há

30 anos,

visto que fala

explicitamente

dos

problemas

que

muitas

pessoas

preferem

ignorar: o cruel sistema patriar-

cal, o abuso das crianças, a hi-

pocrisia, o incesto, o lesbianis-

mo e o aborto.

Tendo um nome que significa

“o merdas”, Jan

é órfão:

a

sua

mãe morreu enquanto dava à

luz.

O

pai dele,

o aristocrata

Luang Vijit, detesta-o tanto que

o educa com injustiça e violên-

cia; por isso, Jan retribui depois

ao pai da mesma maneira,

le-

vando a um final triste e horrí-

vel.

D. R.
D. R.

Cartaz orginal do filme Jan Dara

O filme começa quando Jan,

bonito e experiente, regressa a

sua

casa,

vindo de

um exílio

provocado pela educação pre-

conceituosa de Luang Vijit. Fica-

mos depois a conhecer o passa-

do obscuro deste homem, que

parece ser sexualmente obseca-