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“Da Basílica à Feira do Oásis ao Shoppingleu a Religiosidade com Contorno de Comércio” na

“Da Basílica à Feira

do Oásis ao Shoppingleu

a Religiosidade com Contorno de

Comércio” na Trajetória das Metáforas do Jubileu em Congonhas-MG

Autoria: Thiago Duarte Pimentel, Mariana Pereira Chaves Pimentel

Resumo: Partindo da agenda de pesquisa em metáfora organizacional defendida por Cornelissen et al. (2008), este trabalho tem como objetivo central explorar a relação entre a elaboração de metáforas e a identidade dos espaços, físico e simbólico, a partir das propostas de análise da identidade do espaço de Smith (1999) e da análise das embodied metaphors de Heracleous e Jacobs (2008). A revisão teórica pautou-se nos desenvolvimentos clássicos e recentes sobre metáfora organizacional. Realizou-se um resgate desde os principais conceitos da lingüística, passando pela mudança do paradigma de interpretação metafórica até chegarmos a metáfora no contexto organizacional, onde exploramos os principais desenvolvimentos teóricos e analíticos que se situam nos trabalhos recentes de Cornelissen et al. (2008) e Heracleous e Jacobs (2008). O foco nesses autores se justifica pela ampliação do esquema teórico analítico das metáforas que eles propõem por meio da sua abertura à captação de domínios não lingüísticos, o que coaduna com as proposições, aqui defendidas, de Smith (1999) que propõe um modelo de análise espacial. Para proceder à análise das metáforas observadas nos discursos que formaram as narrativas da Feira do Jubileu recorreu-se como orienta Zanotto (1998) a um método qualitativo de pesquisa, no caso o da Análise do Discurso (FIORIN, 2003). Esta técnica foi aplicada ao corpus de análise extraído a partir de 22 entrevistas semi-estruturadas com os participantes mais antigos do Jubileu, estratificados nos seus diferentes aspectos (festa religiosa, comercial e de lazer). Dessa análise foram obtidos 3 grupos de metáforas relacionadas a 3 espaços distintos, cada um deles com seu traço distintivo e sua característica identitária própria (SMITH, 1999):

o da basílica, o da cidade e o da feira. Em cada um desses espaços realizou-se a análise dos personagens envolvidos na sua produção, o comportamento predominante no tipo de ação de cada um deles – uma vez que ela oriente a visão dos atores para uma determinada forma de pensar e se relacionar com a realidade – as metáforas identificadas nos fragmentos discursivos destes atores e, correspondentemente, a representação que cada uma delas possui, traduzindo- se numa identidade projetada (a partir do e) sobre o espaço social em que ela se articula. Ao explorar e descrever as metáforas elaboradas a partir da identidade espacial, tomando como referência artefatos, monumentos e representações relacionadas aos espaços em que elas se inserem (sagrado, mundano e profano) pode-se observar que os elementos materiais, além de serem indexadores por excelência da produção de sentidos metafórica, cumprem um papel fundamental de fornecer significados num domínio ontológico. Justamente por serem materialmente incorporadas essas metáforas perecem ser de mais fácil aceitação, difusão e consenso, pois os elementos materiais ou figurativos facilitam a visualização da imagem metafórica, promovendo a associação entre os dois mundos ou domínios. Adicionalmente, pode-se perceber – conforme afirma Smith (1999) – que as metáforas elaboradas, parecem seguir uma trajetória espaço-temporal condizente com as mudanças institucionais ocorridas.

1. INTRODUÇÃO Partindo da proposta de uma agenda de pesquisa em metáfora organizacional defendida por

1. INTRODUÇÃO

Partindo da proposta de uma agenda de pesquisa em metáfora organizacional defendida por Cornelissen et al. (2008) – que busque analisar as unidades lexicais, palavras únicas ou combinações de palavras, no caso de expressão inteiras ou nomes próprios, e os artefatos metafóricos concretos do contexto de produção e veiculação das metáforas –, este trabalho tem como objetivo central explorar a relação entre a elaboração de metáforas e a identidade dos espaços, físico e simbólico, a partir da proposta de Smith (1999) de análise da identidade do espaço, por meio de suas metáforas e narrativas, aliado as contribuições da proposta de Heracleous e Jacobs (2008) de análise semiótica e material das metáforas incorporadas (embodied metaphors). Especificamente, busca-se explorar e descrever como a elaboração de metáforas – enfatizando aqui as “metáforas incorporadas” (embodied metaphors) – está fortemente ancorada na produção discursiva contextual, que utiliza elementos materiais, artefatos concretos e simbólicos relacionados a uma dada representação de identidade espacial para elaborar a construção de palavras e expressões lexicais únicas, mas que efetuam a transposição de significados entre dois domínios de conhecimento. Autores como Grant e Oswick (1996a) salientam a importância do estudo das metáforas nos estudos organizacionais como uma forma de se pensar e investigar as organizações, uma vez que estas podem ser vistas como um resultado de múltiplas conversações, discursos e narrativas construídas pelos diversos atores organizacionais ao longo de suas histórias e da história da organização (GRANT; OSWICK, 1996a). Nesse sentido, as metáforas ajudariam a compreender a construção dessas narrativas organizacionais e das formas pelas quais elas fornecem significados aos atores sociais e uma noção de identidade construída historicamente através de processos de identificação. Para a execução do objetivo proposto focou-se aqui na trajetória de sentido construída pelas diferentes metáforas elaboradas por turistas, comerciantes e moradores ao longo dos últimos 50 anos da Feira do Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, realizada anualmente em Congonhas-MG. A pluralidade de sentidos e de vozes contidas nesse material linguageiro permitiu um rico acervo sobre a forma como as metáforas são utilizadas para expressar as representações desses atores, além do que, fundou-se como base sobre a qual se torna inteligível o transporte de significados e o compartilhamento de representações sociais entre os diferentes atores em jogo. O interesse por tal evento se deu em função de sua relevância histórica, social e econômica, pois a tradicional e bicentenária festa religiosa do Jubileu é um evento institucionalizado e enraizado na cidade de Congonhas/MG, que afeta quase toda a população local: uma miríade de atores sociais (ambulantes, camelôs, moradores que prestam serviços diversos, etc.), organizacionais como empresas de diversos segmentos, desde infra-estrutura até produtos importados, e atores institucionais como a Igreja, que é a entidade responsável pela organização do evento religioso, e a prefeitura da cidade, que é responsável pela organização do evento como um todo (da parte não religiosa). Além desses atores, ainda há os turistas e visitantes que vêm por motivos religiosos e/ou de compras, assim como os barraqueiros que vêm de outras cidades para revender seus produtos na Feira. Estima-se que no total esse evento movimente um volume financeiro que chega à ordem de R$ 20 milhões (PIMENTEL, 2008). Enfim, o terceiro motivo que justifica este recorte deve-se ao fato de que ao longo de sua história, sobretudo nos últimos 50 anos, as transformações ocorridas na feira expressaram a desconstrução e reconstrução de institucionalizações, que por sua vez se manifestaram na incorporação, uso e desenvolvimento de léxicos apropriados e consoantes com as diferentes visões de mundo estabelecidas temporalmente. Assim, a Feira representa um importante campo fértil para a pesquisa em estudos organizacionais, e especificamente para o estudo de metáforas.

Para proceder à análise das metáforas observadas nos discursos que formam as narrativas organizacionais dos

Para proceder à análise das metáforas observadas nos discursos que formam as narrativas organizacionais dos expositores da Feira do Jubileu recorreu-se como orienta Zanotto (1998) a um método qualitativo de pesquisa, no caso o da Análise do Discurso (FIORIN, 2003), visto que a AD, enquanto paradigma teórico e metodológico fornece um amplo quadro conceitual que permite a análise da produção oral e escrita de discursos, enfatizando, sobretudo, o contexto social de produção dos discursos e de seus significados socialmente construídos (SOUZA et al., 2005). Especificamente, como técnica de análise dos discursos foram utilizados elementos específicos da AD, como: a análise dos temas e figuras existentes nos percursos semânticos do intradiscurso; e as estratégias de persuasão de seleção lexical e de relação entre conteúdos explícitos e implícitos (FARIA; LINHARES, 1993). No seu conjunto, os discursos coletados contribuíram para a construção de narrativas, tanto organizacionais quanto institucionais (da Feira como um todo), sendo a análise destas um potencializador do entendimento das mudanças físicas e simbólicas manifestadas discursivamente a respeito do objeto em questão. Assim, a relevância deste artigo pauta-se na sua contribuição, tanto teórica quanto empírica, ao explorar as questões levantadas por Grant e Oswick (1996b) em suas sugestões de pesquisa como: a) a necessidade de pesquisa aplicada sobre metáforas na teoria e análise organizacional; b) o uso das metáforas como veículo (método) de pesquisa; e c) uma maior exploração da metonímia, sinédoque e ironia, conceitos estreitamente relacionados ao pensamento metafórico. Especificamente, procura-se preencher aqui uma lacuna de pesquisa sugerida por Cornelissen et al. (2008) que observam a necessidade de se aprofundar os estudos sobre metáforas com foco nas unidades lexicais e sua relação com o espaço onde estão inseridas e a partir do qual são elaboradas para melhor compreender sua construção contextual. O presente artigo está organizado em cinco partes, incluindo esta introdução, em que

se faz uma breve abordagem do tema, antecipando a contextualização do assunto e delineiam- se as principais questões a serem abordadas. Na segunda parte, faz-se uma breve revisão teórica acerca do estudo das metáforas que balizará o estudo. Na sequência, explicitam-se a natureza da pesquisa e os principais procedimentos metodológicos utilizados na coleta e tratamento dos dados. Na quarta parte, realiza-se a descrição do objeto de estudo e, em seguida, são analisados os elementos do discurso e as metáforas na trajetória histórica dos últimos 50 anos da Feira. Por fim, na quinta parte, tecem-se as considerações finais.

2. O ESTUDO DAS METÁFORAS

Partindo de uma abordagem fenomenológica, ancorada em Schutz, Berger e Luckmann, com enfoque na linguagem (e na ação) cotidiana, os elementos centrais aqui trabalhados baseiam-se no que tradicionalmente tem sido considerado como perspectiva construcionista da realidade (BERGER; LUCKMANN, 2004; REALI; ANTISERI, 2003; SCHULTZ, GROENEWALD, 2004) – do comportamento, das identidades, estruturas sociais

e organizações (WESTWOOD; LINSTEAD, 2001). Assim, a interpretação intersubjetiva

seria a maneira pela qual se compreenderia a interdependência da linguagem cotidiana na interação social e a construção dos significados manifesta a partir de sua relação contextual. Nesse sentido, recorreu-se a um arcabouço teórico sobre metáforas, pois enquanto um fenômeno discursivo de valor cognitivo e indeterminado (ZANOTTO, 1998), seu papel na passagem de elementos da dimensão simbólica para a concreta no contexto organizacional pode revelar os universos simbólicos construídos pelos atores sociais e organizacionais. Este entendimento é fundamental ao permitir a compreensão da construção social das racionalizações, representações, normas e valores que conformam e legitimam determinadas formas de pensar, isto é, a construção de determinadas visões de mundo (BERGER;

LUCKMANN, 2004). Portanto, assu me-se aqui que o estudo das metáforas (CORNELISSEN et al .,

LUCKMANN, 2004). Portanto, assume-se aqui que o estudo das metáforas (CORNELISSEN et al., 2008) e das abordagens lingüísticas (CARRIERI; RODRIGUES e LUZ, 2003), como formas de se investigar e compreender os universos simbólicos nas organizações e instituições, são ferramentas potencialmente úteis para a compreensão dos fenômenos sociais, tal qual eles se apresentam em sua complexidade. Atualmente, o entendimento acerca das metáforas se insere em um novo paradigma, que rompe com o modelo objetivista baseado na teoria aristotélica em que a metáfora era vista apenas como uma figura de linguagem ou retórica com função de ornamentar o discurso e passa a ser percebida como dimensão cognitiva constitutiva da linguagem e do pensamento da realidade cotidiana (ZANOTTO, 1998). Nesta nova visão é salientada a importância do papel da linguagem, tanto como produto social quanto individual, e vai ao encontro dos estudos que vêem as organizações como grandes narrativas, como uma rede de discursos construídos por atores sociais e que conferem uma dada noção de ordem, identidade e sentido para a organização; enfim, estabelecem uma noção de ‘organização’ em relação à ‘desorganização’ que a envolve (WESTWOOD; LINSTEAD, 2001). Jakobson (1988) defende que os caminhos da construção de sentido do processo de interpretação e da construção da linguagem variam em dois sentidos: o da similaridade, pelas operações de seleção e substituição na linguagem, e o da contigüidade, formado pela faculdade de combinação e contexto, que levariam, respectivamente, a elaboração da linguagem metafórica e metonímica. Baseada nessa proposição, Zanotto (1998) desenvolveu três processos de interpretação da construção de sentido metafórica: a) a relação ontológica entre os dois domínios do conhecimento, que ativa o conceito de referencial metafórico; b) o processo analítico (ou jogo de adivinhação) por meio do qual se estabelecem relações entre dois diferentes domínios; e c) o prévio conhecimento de mundo dos sujeitos sociais, baseado em suas visões de mundo. No campo dos estudos organizacionais, Grant e Oswick (1996a) apontaram a existência de duas correntes: de um lado, a organização de metáforas, que focaliza o aspecto de como as metáforas servem à organização, no sentido de gerar intervenção; e, de outro, as metáforas da organização, que focalizam a pluralidade de sentidos e construções simbólicas elaboradas pelos atores organizacionais que expressam o universo simbólico da organização. Enquanto a primeira corrente tem sido associada a uma visão mais pragmática e instrumental da realidade, que buscaria a simples transposição de conceitos da filosofia, lingüística e psicologia cognitiva a sua aplicação nas organizações visando a replicação de estudos de caso a fim de instrumentalizar o conhecimento sobre metáforas e construir uma ferramenta gerencial; a segunda corrente tem sido associada ao entendimento das metáforas como formas de se pensar, entender e analisar a organização, transcendendo a simples visão instrumental acerca das metáforas e contribuindo assim para o desenvolvimento teórico do campo (GRANT; OSWICK, 1996a, b). Mais recentemente o periódico Organization Studies dedicou uma edição especial ao tema, onde diferentes trabalhos apresentaram o estado da arte do tema em termos de seu desenvolvimento teórico e prático. Em seu artigo Cornelissen et al. (2008) conceituaram as duas principais contribuições enquadrando a literatura existente em duas grandes correntes:

projecting metaphors (metáforas projetadas) ou eliciting metaphors (metáforas provocadas) i . A distinção básica é se as metáforas são impostas ou projetadas na realidade organizacional ou se tais metáforas surgem naturalmente nas conversas e na produção de sentido dos indivíduos e podem, assim, ser identificadas ou ‘elicited’ pelos pesquisadores organizacionais. Segundo os autores grande parte (senão toda) da teoria organizacional tem um foco na projeção de metáforas, porque o objetivo da maioria da teorização é essencialmente identificar e abstrair construtos de segunda ordem os quais, quando relacionados ou projetados em arranjos empíricos, descrevem e explicam as experiências reais

de primeira ordem das pessoas dentro das organizações. A descoberta ou extração de metáforas (

de primeira ordem das pessoas dentro das organizações. A descoberta ou extração de metáforas (elicitation aproach), por sua vez, envolve a identificação de metáforas no contexto do uso da linguagem das pessoas e a análise de seus usos, significados e impactos (CORNELISSEN et al., 2008). Outra questão fundamental abordada pelos autores refere-se ao entendimento da metáfora como uma produção contextual, isto é, plena de sentido quando associada a um contexto específico ou a uma produção abstrata – ou descontextualizada – que não necessariamente se prende a um determinado contexto, mas, ao contrário, possui sentido universal ii . A teoria conceitual de metáfora sugere que muitas expressões lingüísticas de metáforas apontam para a mesma metáfora conceitual de base, onde a correspondência é sistemática e, por isso, significativa como um modo convencional de falar sobre a compreensão de determinado sujeito. Nela os padrões das expressões lingüísticas cotidianas sugerem a existência de um sistema de metáforas conceitual-convencional, tais como “amor é uma jornada”, “argumento é uma guerra”, dentre outros. Aqui os lingüistas cognitivos focam os significados cognitivos de uma metáfora em um nível geral e conceitual, passível de ser aplicada, reproduzido e compreendido em qualquer contexto (CORNELISSEN et al., 2008). Por outro lado, o foco nos repertórios culturais compartilhados de metáforas de uma maneira descontextualizada contrasta com a teoria do discurso e a análise discursiva que enfatiza que a natureza indicativa ou da situação das categorias sociais na interação lingüística. Aqui os analistas do discurso enfatizam a importância da prática discursiva, e das funções estabelecidas pelo uso da metáfora no discurso. Exemplos de tal abordagem em pesquisas organizacionais incluem os estudos sobre produção de sentido, que focalizam as práticas discursivas e a produção de sentido em contextos localmente específicos, em torno de uma metáfora (CORNELISSEN et al., 2008). Outro trabalho importante para este estudo é o de Heracleous e Jacobs (2008) que se orienta na perspectiva da elicitation metaphor. Estes autores discutem como eles suscitaram metáforas dos artefatos que as pessoas produziam em workshops de estratégia. Haracleous e Jacobs (2008) ampliaram a contribuição sobre o entendimento da metáfora nos estudos organizacionais para modalidades além da linguagem e do discurso (metáfora lingüística ou verbal), incluindo outras modalidades como a metáfora visual, constituída por sinais, elementos pictóricos, imagens e artefatos construídos, e a metáfora sonora, composta de sons ou música. A idéia destes autores é aprofundar o que Zanotto (1998) considera como processo analítico (ou jogo de adivinhação) por meio do qual se estabelecem relações entre dois diferentes domínios de elaboração das metáforas, porém tomando como base o elemento espacial como fator determinante de incorporação da metáfora. Neste estudo, a concepção de Heracleous e Jacobs (2008) será tomada no sentido de investigar como elementos espaciais – artefatos, landmarks, paisagens, etc. – são utilizados pelas pessoas na elaboração de metáforas. Adicionalmente, neste estudo recorreu-se as contribuições de Simth (1999), que desenvolveu um modelo de análise espacial a partir do legado durkheimiano, considerando 4 formas elementares de espaço: a) sagrado, b) profano, c) liminar iii e d) mundano. Cada um deles corresponde a uma identidade espacial e estas identidades espaciais são mantidas e alteradas através de rituais e narrativas que dependem das ações sociais para sua sustentação. Essas mudanças de significado e identidade dos espaços ocorrem ao longo do tempo, a partir das mudanças nos rituais e nas suas formas de uso e representação (SMITH, 1999).

3. CAMINHOS PERCORRIDOS

Este estudo foi desenvolvido sob a forma de uma pesquisa qualitativa (TRIVIÑOS,

] compreende um

1987). Luz (2001, p. 95) define esse tipo de pesquisa como aquela que “[

conjunto de práticas interpre tativas, mas não privilegia qualquer tipo de metodologia, inexistindo teoria ou

conjunto de práticas interpretativas, mas não privilegia qualquer tipo de metodologia,

inexistindo teoria ou paradigma que lhe seja próprio [

de vários tipos de métodos, como semiótica, análise do discurso, análise de narrativas, estudo de caso, observação participante e análise de documentos. Já como método de análise empírica, utilizou-se o estudo de caso. Para Yin (1984), o estudo de caso consiste numa investigação empírica de um fenômeno social cujos limites com

o seu contexto não são bem definidos, exigindo, portanto, a utilização de várias fontes para

adentrar na sua essência. Esse tipo de método é útil para pesquisas de caráter exploratório, mas também para aqueles de caráter descritivo e explanatório, pois fornece a possibilidade de maior penetração na compreensão dos significados expressos pelos sujeitos e pela interação destes, (con)formando a construção histórica-social de suas realidades (YIN, 1984). Para a coleta de entrevistas em profundidade foi desenvolvido um roteiro semi- estruturado, apenas como ferramenta de apoio. Tal ferramenta auxilia o pesquisador a acessar

o universo cultural dos indivíduos e, por extensão, pode potencializar a capacidade de

compreensão e explicação de um dado fenômeno, na medida em que permite ao pesquisador se inteirar junto ao pesquisado das causas que o levaram a agir de determinada forma. De modo complementar, este estudo utilizou-se da observação assistemática como técnica de verificação in loco das questões levantadas pela pesquisa. Considerou-se pertinente, para o estudo em questão, a coleta de entrevistas com os sujeitos de pesquisa de forma intencional e não-probabilística, utilizando o critério de antigüidade para a seleção dos mesmos. Isto é, pretendeu-se aqui realizar entrevistas com os sujeitos de pesquisa que estavam há mais tempo na Feira, pois partiu-se da suposição de que esses sujeitos conheceriam mais a fundo a realidade e as transformações ocorridas na Feira desde seu surgimento. Ao todo, foram realizadas 22 entrevistas, que constituíram o corpus de

análise extraído do estudo. Utilizou-se a técnica da análise do discurso (AD) para investigar os textos escritos e as entrevistas coletadas. Enquanto paradigma teórico e metodológico de análise, a AD possibilita

a apreensão das formas de produção do discurso e das estruturas materiais e sociais que as

que se caracteriza pela utilização

]”,

elaboram. Pode-se considerá-la uma técnica potencialmente útil nas análises de processos ou fenômenos sociais (SOUZA et al., 2005). Isto se deve ao fato de a AD mostrar que o enunciador está ligado de modo interdependente ao seu contexto sociohistórico-cultural, ou seja, ao seu locus de produção do discurso (MAINGUENEAU, 1998). Dessa forma, a AD permite a compreensão em profundidade da realidade social, refletida na formação discursiva, por meio da apreensão de discursos dos atores sociais. Em suas pesquisas, Faria e Linhares (1993) relatam a existência de quatro principais estratégias de persuasão:

a) a seleção lexical – compreende a escolha do vocabulário usado nos discursos, que, segundo Faria e Linhares (1993), pode-se caracterizar não só pelo uso de termos pouco comuns que substituem vocábulos populares, tendendo a diferenciar o entrevistado das outras pessoas;

b) a construção das personagens no discurso e sua relação com as personagens efetivamente existentes – que pode levar a uma dramatização do que está sendo exposto pelo discurso do enunciador, de suas funções e papéis, bem como à transferência de responsabilidade do enunciador para aquele a quem ele atribui seu discurso (KUBO, 2003);

c) relações entre os conteúdos explícitos e os implícitos – que possibilitam criar um efeito ideológico de sentido; ou seja, o enunciador busca apoiar-se no interlocutor para a construção do sentido de seu discurso, deixando a cargo desse interlocutor a reconstrução dos sentidos que o enunciador não pode ou não quer explicitar (KUBO, 2003);

d) o silêncio sobre determinados temas – aquilo que não é dito e, que, de acordo com Faria e Linhares (1993), refere-se à omissão de determinados temas e objetiva excluir temas indesejáveis a quem tem o poder da palavra.

Zanotto (1998) desenvolveu três processos de interpretação da construção de sentido metafórica: a) a relação

Zanotto (1998) desenvolveu três processos de interpretação da construção de sentido metafórica: a) a relação ontológica entre os dois domínios do conhecimento, que ativa o conceito de referencial metafórico; b) o processo analítico (ou jogo de adivinhação) por meio do qual se estabelecem relações entre dois diferentes domínios; e c) o prévio conhecimento de mundo dos sujeitos sociais, baseado em suas visões de mundo.

4. FESTA RELIGIOSA E FORMAÇÃO HISTÓRICA DA FEIRA DO JUBILEU DO BOM JESUS DE MATOSINHOS EM CONGONHAS (MG)

O Jubileu de Matosinhos é uma das festas religiosas que mais se destacam no norte de

Portugal. Acredita-se que o documento mais antigo a fazer referência à devoção ao Bom Jesus do Matosinhos data de 1342, tendo sido depositado no cartório do mosteiro de Oeja, na Galiza. Tal documento relata um voto de peregrinação a Santiago e São Salvador de Bolças, antigo templo onde a imagem estava instalada. Porém, o início das festividades ao Senhor Bom Jesus deu-se em 1733, na cidade portuguesa de Matosinhos, quando a imagem foi colocada no altar, inaugurando a igreja que a abriga até os dias de hoje (VITARELLI, 1997).

O fluxo de peregrinos passou a se intensificar em fins do século XIX, quando os meios de

transporte (barco, trem e automóvel) então existentes passaram a facilitar os deslocamentos massivos. Pacheco (1962 apud VITARELLI, 1997) relata que o jornal Comércio do Porto, de 1899, relata a chegada de 81.443 pessoas de carro e de 25.250 passageiros no comboio de Póvoa de Varzim, durante os três dias de romaria. Apesar das motivações religiosas, como pedir auxílio ou cumprir promessas, muitos se dirigiam a Matosinhos por diversão ou para fazer comércio. O caráter religioso da festa sempre foi acompanhado pelas manifestações profanas. Ao lado das procissões, missas, bênçãos e novenas, a diversão acompanhava o evento. Circos, parques, bandas de música, rodas de canto e de dança e a famosa Feira das louças marcavam a festa do Jubileu, complementando as festividades religiosas. Segundo Pacheco (1962 apud VITARELLI, 1997)

o jornal Comércio do Porto contabilizou a participação de 322 feirantes já no Jubileu de 1902. Já no Brasil, o culto do Jubileu do Senhor do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, teve início em meados do século XVIII com a construção do Santuário da Basílica iv do Senhor Bom Jesus, onde Feliciano Mendes teria depositado em 8 de abril de 1757 a imagem, vinda de Portugal, do Cristo Crucificado (VITARELLI, 1997). Acredita-se que as festividades religiosas do Jubileu nasceram junto com a construção do Santuário. Os devotos da imagem do Senhor Bom Jesus, que não podiam ir a Portugal, passaram a se dirigir a Congonhas quando queriam pagar alguma promessa, tornando o local reconhecido como ponto de peregrinação (JORNAL DE CONGONHAS, 2005). Por volta de 1780, a Irmandade Senhor Bom Jesus de Matosinhos de Congonhas do Campo aprovou a realização de duas festas de maior solenidade: a da semana de 3 de maio, em intenção da Santa Cruz; e a da semana do dia 14 de setembro, dia da exaltação da Santa Cruz. O Jubileu de maio foi reduzindo o número de romeiros devido às fortes chuvas, que impossibilitavam o deslocamento e a própria realização da festa em Congonhas, em razão do seu relevo, sendo esta comemoração em maio suprimida pouco tempo depois. Atualmente, o Jubileu é comemorado apenas na semana de 14 de setembro (VITARELLI, 1997). Acompanhando a tradicional e bicentenária Festa religiosa, é realizada tradicionalmente durante o período da Festa do Jubileu uma Feira constituída por centenas de pessoas da cidade, outras cidades e, até mesmo, outros estados, que vêm expor e vender seus produtos para o grande fluxo de pessoas que vêm à romaria para participar da Festa do Jubileu. Ainda hoje, a Festa do Jubileu reúne milhares de fiéis de todo o Brasil, que vêm pagar promessas e dar graças ao padroeiro (JORNAL DE CONGONHAS, 2005). Os feirantes

se instalam em barraquinhas improvisadas erguidas nas principais ruas da cidade, geralmente

em torno do Santuário, onde há as celebrações e, por extensão , o maior fluxo

em torno do Santuário, onde há as celebrações e, por extensão, o maior fluxo de pessoas. Essa prática é tão tradicional quanto a própria Festa e são muitos aqueles que há tanto tempo vão à Feira que já é uma tradição familiar, passada de pai para filho. Outro comércio que é movimentado na cidade é o das pousadas e restaurantes improvisados pelos próprios moradores, que somado ao aluguel das calçadas permitia que moradores da cidade se sustentassem o ano todo. Atualmente, a Diretoria de Turismo tem feito um acompanhamento do fluxo de turistas e romeiros que se dirigem à cidade na época do Jubileu em setembro. Segundo os dados coletados pela pesquisa de demanda turística, o perfil do romeiro de 2005 e 2006 registra que em 2005 aportaram cerca de 106.880 pessoas na cidade, contra 119.610, em 2006 (DIRETORIA DE TURISMO, 2005; 2006). O volume de fluxo financeiro gerado pela Feira, que chega à ordem de R$ 20 milhões, demonstra a sua relevância para a cidade não apenas do ponto de vista econômico, mas também do social, pela geração de diversas atividades que as pessoas realizam temporariamente nessa época.

4.1 O percurso semântico da identidade espacial na Feira do Jubileu

A análise aqui desenvolvida foi estruturada a partir das metáforas incrustadas em

diferentes espaços físicos e simbólicos e fortemente associada a grupos de atores sociais específicos, que ocupam majoritariamente cada um desses espaços e exercem sobre eles influencia específica. Nesse sentido, distinguimos aqui três grandes espaços ou enclaves: o da basílica, o da cidade e o da feira.

O enclave da basílica, que congrega essencialmente os romeiros, os turistas religiosos, e a igreja, enfim, os personagens que exercem um comportamento tipicamente religioso. Para esse grupo as principais metáforas elaboradas foram “oásis”, “retórica barroca”, onde a basílica e os festejos religiosos do Jubileu são associados a imagem do sagrado;

Já o enclave da cidade, que reúne essencialmente os moradores, que exercem um

ambíguo, de, por um lado, participar da parte sacra da festa, orando, fazendo procissões, etc e,

por outro, participar também da parte profana, passeando na feira, comprando produtos e prestando pequenos serviços para complementar a renda doméstica. Aqui o comportamento observado orienta-se nem tanto pela fé nem pela economia, mas sim oportunisticamente de acordo com situações que lhes são apresentadas, fazendo com que esses atores sociais transitem entrem os dois mundos: o sagrado e o profano. Por fim, o enclave da feira, que reúne como principais personagens os barraqueiros, comerciantes, vendedores ambulantes, etc., cujo comportamento pode ser classificado como essencialmente econômico. Aqui as principais metáforas utilizadas, como “shoppingleu”, “depenar romeiro”, etc, trazem a idéia de que este tipo de espaço (da feira como shopping) utilizado por esses personagens tem uma imagem associada ao lado profano do Jubileu, à questão da materialidade, da sobrevivência e da exploração do outro.

Quadro 1: principais metáforas, espaços e personagens correspondentes

Espaços

Personagens

Comportamento

Metáforas

Imagem

Basílica

Romeiros

Religioso

Oásis, retórica barroca

Sagrado

Cidade

Moradores

Oportunista

Bagunça organizada, depenar romeiro

Mundano

Feira

Barraqueiros

Econômico

Shoppingleu, esteio

Profano

Fonte: elaborado pelo autor a partir dos dados da pesquisa.

4.1.1 Basílica, romeiros e turismo religioso

A partir das características religiosas das festividades do Jubileu, contexto a partir do qual se insere a referida Feira, foi possível observar que este é um elemento diferenciador de sua identidade (PIMENTEL, 2008). Há que se identificar aqui a existência de duas

“oásis”, “retórica barroca”, enfim

o sagrado

organizações, ou instituições (c omo se prefere denominar aqui), que têm crenças e orientações em

organizações, ou instituições (como se prefere denominar aqui), que têm crenças e orientações em termos de sua organização estrutural-material e simbólico-ideológica distintas, mas que estão associadas e parcialmente se interpenetram no caso estudado. De um lado, encontra-se a Igreja, cuja orientação organizativa (valores centrais) pauta- se na construção de um universo simbólico baseado na fé e que funda o movimento de atração de pessoas (demanda turística) para o culto das festividades religiosas que são realizadas durante o Jubileu na cidade; de outro, encontra-se a Feira, cuja orientação organizativa (valores centrais) pauta-se na construção de um universo simbólico baseado na racionalidade econômica, fundamento que legitima e orienta a condução dos negócios e do comportamento dos atores sociais e organizacionais na Feira, o que corrobora as proposições de Simth (1999). Mas essa racionalidade econômica surge de modo imbricado, complementar e justaposto à do universo simbólico da fé que orienta as festividades religiosas, pois encontra justamente nesse evento religioso de grande magnitude, a oportunidade econômica de atuar preenchendo as necessidades e apoiando-o. É justamente nessa lacuna de complementaridade que se dá a inserção da racionalidade econômica da Feira. Assim, esta surge de modo dependente e complementar ao evento religioso. Como conseqüência, este evento religioso acaba servindo de parâmetro, reforçando a singularidade da Feira, servindo como um predicativo que irá diferenciá-la dos demais tipos de feiras.

(072) É engraçado porque, ao mesmo tempo, tem lá em cima, está lá um oásis, que seria o Senhor Bom Jesus lá, a igreja, né? E aquele lado humano, as pessoas ali

(contam) seu pecados, [

às vezes, você está no espiritual e desce para o material, sabe? Então, é uma

questão assim [

lá rezando, pedindo e agradecendo, e você sai daquele ambiente e (entra) num

Você está naquele meio religioso

ambiente diferente, das barracas, negócio de [

o Jubileu, ele é uma retórica barroca mesmo. Porque você está

a questão material, e você vai em busca do espiritual. E,

],

]

]

e você entra no profano, e você está no profano e entra no religioso (E08).

No trecho (072), fica explícita, a questão de como o “Jubileu”, figura discursiva que é antropomorfizada pelo enunciador, desenvolve uma “retórica barroca” que envolve os lados espiritual e material. Dessa forma, o Jubileu é colocado pelo enunciador como “o todo” que compreende tanto a parte espiritual, que concerne às celebrações religiosas que são realizadas pela Igreja, quanto a parte material, que diz respeito às relações comerciais de apoio à organização dessas festividades religiosas e também à circulação de bens de consumo para o pessoal de baixa renda que freqüenta a feira. Mas há também um implícito subentendido, que se refere à questão do próprio espaço (HERACLEOUS; JACOBS, 2008), em que “lá em cima”, que está por implícito pressuposto associado à parte mais elevada do Jubileu e é onde se localiza o Santuário, refere-se ao lado espiritual, espaço tido como sagrado, e à sua superioridade em relação à ordem material da Feira. Esta, inclusive, que se situa no entorno da Igreja, abarca justamente a parte imediatamente inferior, tanto em sentido literal (topográfico) quanto em sentido conotativo de sua ordem material e seus valores orientados pela e para a racionalidade econômica (SMITH, 1999). Essa lógica estaria em relação de inferioridade com a ordem religiosa da Igreja Católica. Assim, enquanto a Igreja, com sua ordem espiritual superior, é associada às seleções lexicais lá em cima, Igreja, espiritual, para se referirem à parte das celebrações religiosas que se concentram espacialmente na Igreja Basílica do Senhor do Bom Jesus de Matosinhos, a figura discursiva Feira é associada às seleções lexicais: lado humano, profano, desce para o material.

(073) Eu acho que a Feira é o lado humano mesmo. E a Basílica é o espiritual.

Então, se pudesse unir os dois espaços: o lado humano, com toda questão, com todos os seus problemas, com todas as suas carências, com toda aquela fantástico

troca de cultura, e o lado espiritual, que é mais transcendental [

]. (E20)

No trecho (073), se pudesse unir os dois espaços leva ao implícito pressuposto de que isso não pode ser feito. Mas se a união desses dois espaços não pode ser contemplada, isso

não quer dizer que não haja uma relação entre eles. Essa relação é de forte

não quer dizer que não haja uma relação entre eles. Essa relação é de forte complementaridade, em virtude tanto de sua contigüidade – ou seja, quando se sai de um desses espaços, automaticamente já se insere no outro –, como de sua interdependência: a Feira só existe porque há uma enorme concentração de pessoas, o que justifica a sua instalação, com vistas a extrair algum benefício econômico. Por outro lado, a própria celebração religiosa do Jubileu depende da infra-estrutura que a Feira e o comércio de modo geral que gira em torno dela permitem abrigar, alimentar e fornecer oportunidade de lazer e de sociabilidade para as pessoas que se destinam à cidade.

toda história religiosidade tem o seu contorno de comércio. Não tem a

menor dúvida. Se você tem uma igreja e a igreja funciona com casamento, tem um

pipoqueiro na porta da igreja, tem um vendedor de não sei o quê, tem algodão-doce,

um carro pequenininho, que abre a

traseira e lá tem uma lanchonetezinha armada, e tem muito em porta de igreja, de casamento, etc. E não é só isso. Você tem um baile, por exemplo, um clube que tem baile, não sei o que, sempre na porta tem alguém vendendo alguma coisa. Na verdade, é em toda a aglomeração de pessoas, né? (E03).

4.1.2 A Cidade, os residentes, ambulantes e as mudanças estruturais e na dinâmica do

evento

Segundo a Diretoria de Turismo (2006) nas últimas duas décadas poucas mudanças ocorreram nas festividades do jubileu, porém, se considerado um período mais dilatado de tempo, por exemplo, da década de 1950 até os dias atuais, é possível identificar várias mudanças nos hábitos, usos e costumes tanto da população quanto dos turistas freqüentadores da Festa. Destacam-se aqui as mudanças em termos dos tipos de produtos consumidos na Feira, mudança essa que se supõe ter ocorrido, parcialmente, em virtude da própria modificação dos hábitos de consumo da sociedade, como a introdução e exclusão de vários gêneros de produtos e as formas como os atores sociais interagem e suas rotinas. Algumas mudanças do perfil do turista ocorreram, sobretudo, em virtude do desenvolvimento do transporte automotivo. Assim, haveria duas fases marcantes da Feira:

uma anterior à utilização dos transportes automotores e outra posterior à utilização desse tipo de transporte, conforme trecho (001), em que fica explícito o tema da mudança em relação aos meios de transporte, ocorrida a partir da década de 1930, conforme pode ser observado pelo uso da seleção lexical “até”, que demarca os limites entre as duas fases. Vale ressaltar o conteúdo implícito subentendido relacionado à capacidade de mobilidade, que pode ser relacionado ao conteúdo explícito “facilidade das pessoas virem”. Essa relação de conteúdos evidencia pelo menos dois conteúdos implícitos: a) um pressuposto, relacionado à dificuldade de mobilidade ao período anterior à década de 1930, embora houvesse uma variedade de meios de transporte (ferroviário, animal e pedonal), que dificultava o acesso dos viajantes à Feira; e b) o implícito subentendido de que a maior mobilidade e rapidez advinda do uso do transporte automotivo está associado a um tipo de transporte específico: o automobilístico.

(001) Agora, uma coisa que a gente vê que houve uma mudança mesmo do Jubileu.

não tinha transporte. As pessoas vinham de trem, E hoje tem a facilidade das pessoas virem de van,

(077) [

]

tem um pequeno comerciante que tem uma [

]

a “bagunça organizada”

É porque até a década de 30 [ vinham a cavalo, vinham a pé

]

virem de ônibus. Vêm de manhã e volta à tarde [

] (E5).

É possível observar ainda as conseqüências deste tipo de transporte específico sobre o tempo de permanência e sobre o tipo dos visitantes (romeiros ou turistas) na cidade de Congonhas. Ocorreram alterações nas práticas sociais dos sujeitos sobre o tempo destinado à visitação da festa religiosa e da Feira, não só pelo fato de os visitantes se deslocarem com mais rapidez e permanecerem menos tempo na Festa e na Feira do Jubileu como também, pelo aumento expressivo em termos de visitantes que vem ocorrendo a cada ano, o que é acompanhado pelo aumento do número de romeiros e barraqueiros. Em 2005, a Diretoria de

Turismo registrou 106.880 pessoas na cidade, contra 119.610 pessoas, em 2006, ou seja, um acréscimo

Turismo registrou 106.880 pessoas na cidade, contra 119.610 pessoas, em 2006, ou seja, um acréscimo de cerca de 13 mil pessoas em apenas um ano (DIRETORIA DE TURISMO, 2005;

2006).

(003) o Jubileu de Congonhas é do dia 8 até 14. Então, como a igreja tinha que manter o pessoal em Congonhas nesse período, porque eles tinham que ficar até dia 14 por causa da Indulgência Plenária, que era a benção final, que era a despedida, 3 horas do dia 14, então, com isso o romeiro vinha para cá para ficar no mínimo sete dias. Ele vinha de lombo de burro, ou vinha de caminhão, ou vinha de trem, mas ele tinha que ficar esses dias. Agora, não; agora a benção do Jubileu é todo dia. Todo dia tem. Então, o cara vem de ônibus e tal, vem de manhã e de tarde ele vai embora. Agora, com isso, percebeu o seguinte: é que mesmo assim o movimento de Congonhas é muito grande em todos os dias da semana (E03).

Outro fator que contribuiu para as transformações do Jubileu foi a mudança da benção final de única, ocorrendo apenas no último dia do evento, para diária, estendeu-se a possibilidade de participação no evento para inúmeras pessoas que antes não tinham a disponibilidade de permanecer na cidade durante todo o Jubileu. Tal fato é reforçado pela afirmação de que mesmo com a mudança o movimento é grande em todos os dias do evento. O transporte contribuiu para a modificação não só da dinâmica do Jubileu, mas também, em parte, do próprio perfil dos visitantes e turistas. Segundo o discurso oficial da Prefeitura, hoje o perfil do freqüentador da Festa e da Feira do Jubileu é considerado como

(005) [

viaja em grupo, possui renda e nível escolar baixos, com predominância do sexo feminino e faixa etária entre 41 e 60 anos. Freqüenta o Jubileu há mais de 10 anos,

tendo como principal motivação a devoção. A maioria dos visitantes desconhece o

termo turismo religioso, [

cidade, a maioria motivada pela fé (DIRETORIA DE TURISMO, 2005E, p. 49).

[e] Quase todos os freqüentadores pretendem retornar à

excursionista, que permanece o dia todo na cidade, porém não pernoita,

]

]

No trecho (008) surge a questão da mudança dos usos e costumes dos próprios visitantes, que impactaram não só o seu perfil, como também a própria configuração da Feira em relação aos tipos de produtos comercializados. Nesse caso, a personagem discursiva “pessoa alinhada” representa os hábitos e costumes existentes nos visitantes de antigamente, onde a tradição religiosa era pautada pelo respeito expresso até mesmo nas formas de se vestir. Por outro lado, os visitantes atuais aparecem descritos pela informalidade, onde pode- se inferir implicitamente que a tradição dos trajes formais perdeu espaço, ou ainda, que tais trajes mais “informais” ou de passeio, denotem a interpretação da visita, conforme explícito no fragmento (080), por parte do visitante atual, não apenas como obrigação religiosa, mas também como oportunidade de “passeio”, onde implicitamente subentende-se a questão do lazer, do turismo e das compras.

(008) E a gente vê também no Jubileu a questão da roupa, do traje. As pessoas vinham de chapéu, de terno, de bengala, as mulheres com roupa muito bem alinhada, e hoje a coisa está mais aberta. As pessoas vêm mais informais, de bermuda,

chinelo, de calça jeans [

antiga, você até tira uma foto, porque é um elemento que se perdeu no tempo e que a

gente consegue ver. Então, assim, as pessoas mudaram. E, obviamente, mudou o mercado. Então, os produtos que são comercializados são diversificados (E5).

(080) A tradição religiosa é a maior [motivação]. [Mas] Eu acho que ela vem perdendo assim um pouco do sentido. Vem perdendo. Antigamente, o povo vinha

] está

com sentido religioso mesmo. Nos últimos anos, ela já não é tão religiosa. [ vindo mais a passeio. (E 4).

Então, quando você vê uma pessoa alinhada, à moda

]

Todas essas mudanças repercutem também diretamente no modo como os residentes locais interagem com o Jubileu. Nessa perspectiva de comércio informal, a Feira vira também um espaço de oportunidade para alguns dos próprios moradores da cidade aproveitarem o clima de festa e o afluxo de milhares de pessoas para explorar comercialmente produtos e

serviços informais, considerados como “bic os”, que vão desde a adaptação para o aluguel temporário

serviços informais, considerados como “bicos”, que vão desde a adaptação para o aluguel temporário e provisório de cômodos de suas residências para os romeiros, passando pelas casas que criam “cantinas” – ou restaurantes populares para atender esse público – até os vendedores ambulantes que oferecem “cafezinho e bolo” aos romeiros que chegam nos ônibus que vêm do interior e aportam na cidade ainda de madrugada (e retornam no mesmo dia).

(026) Então, a gente faz uma economia, e eles ganham muito, sim. Agora, esse mercado que a pessoa faz de comida, que ele também é forte, porque muita gente tem que almoçar e tem que lanchar, esse daí também a pessoa ganha muito dinheiro. Tem gente que tira, às vezes, a sala, desfaz da casa, para poder fazer ali um lugar de alimentação (E01).

No fragmento (071), estão explícitas as estratégias utilizadas pelos novos integrantes da Feira a cada ano (os “desempregados”) que compram produtos dos “atacadistas” (personagem explícito no texto) para revenderem na Feira, atuando então como “vendedores ambulantes”, pois assim eles não pagariam os aluguéis dos espaços destinados às barracas. Ainda nesse trecho, fica explícito que esse tipo de comércio é incentivado pelos atacadistas, pois eles estariam ganhando duplamente: com a venda de suas barracas montadas nos espaços alugados da cidade e também com a revenda feita pelos vendedores ambulantes na Feira. De todo modo, é atribuída à personagem atacadistas a responsabilidade por incentivar a atuação dos vendedores ambulantes na Feira (e com isso o crescimento da informalidade na Feira), pois ambos, mas sobretudo os atacadistas, estariam ganhando com essa atividade. Já a responsabilidade pelo desemprego (outro elemento responsável pelo crescimento da Feira) fica silenciada no trecho abaixo.

(071) O desemprego está fazendo a Feira crescer. Desemprego faz a Feira crescer.

]. De uns

anos para cá, o número de camelô está aumentando a cada dia. Nós recebemos aí um 20 ônibus, todos lotados de camelô. Vem, traz a sacolinha deles mercadoria, vende.

O atacadista já sabe disso. O atacadista vem atrás deles, porque na hora que eles

vendem a mercadoria deles, eles vão no atacadista e renovam a mercadoria. Então, o

É incentivar eles a vender, porque eles estão ganhando. Se

a mercadoria tiver uma aceitação e vender, ele já sabe que o atacadista vai estar aqui para vender para ele. Aí, ele renova a mercadoria. Então, está crescendo (E04).

Tendo que concorrer com os barraqueiros que vêm de outras cidades, os próprios barraqueiros de Congonhas já buscam uma localização de suas barracas distante da localização das barracas de quem vem de Nossa Senhora de Aparecida, pois como os de Congonhas são revendedores, obviamente eles necessitam adicionar uma determinada margem de lucro para que seu negócio se torne economicamente viável. Mas, além disso, há a questão da técnica de venda que diferencia os barraqueiros de Congonhas dos de Aparecida, pois estes “são especialistas em depenar o romeiro”, conforme o fragmento abaixo.

(046) Geralmente, alugam numa área onde eles vão ficar distantes do pessoal de

Aparecida, por causa da técnica que o pessoal de Aparecida tem de comércio. E o

Por quê? Uma pessoa que está desempregado tenta ser um camelô. [

objetivo do atacadista [

]

de chamar

atenção não, de fazer bom negócio. E isso o pessoal de Aparecida faz qualquer coisa. Eles não deixam o romeiro sair. São especialistas em depenar o romeiro. (risos). Mas eles são bons negociantes. E o pessoal de Congonhas prefere ficar longe

deles (E04).

pessoal daqui é mais humilde. Talvez não tem muita facilidade de [

]

No trecho (046), há o uso do vocábulo depenar, que já denota o sentido da ação de extrair tudo aquilo que o outro tem. Mas é interessante o sentido metafórico em que é utilizado, pois o personagem romeiro é colocado em uma situação de inferioridade, como se fosse uma presa solta num terreno cheio de predadores que estão disputando a sua captura, à captura do seu dinheiro. Esses predadores seriam os barraqueiros: de Congonhas ou de fora. Se, de modo geral, a leitura da organização do espaço (e sua representação) é a forma

que as pessoas têm tornar inteligível a sua re lação com o espaço; isso não

que as pessoas têm tornar inteligível a sua relação com o espaço; isso não quer dizer que a organização espacial represente, de fato, uma organização de sua sistemática. Isso porque, enquanto para uns a percepção da Feira como um todo, e de sua sistemática, não necessariamente reflete a mesma “organização” que se tem da percepção espacial. No fragmento (053), por exemplo, o enunciador, partindo de uma observação da Feira com base no seu modo de funcionamento, defende que as várias ações dos atores sociais sobre o espaço nem sempre estão coordenadas, o que se traduz na desarticulação entre elas e, conseqüentemente, em ações que se contrapõem à desorganização, tanto da Feira quanto da Festa do Jubileu. Vale ressaltar que o imbricamento explícito no fragmento (053), em que a percepção do enunciador mescla a Festa, a Feira e o espaço. Ao defender a sua idéia de desorganização, inicialmente, ele se refere à Festa, a fim de englobar todos os fluxos de ações que se desenrolam durante o Jubileu, englobando assim a Feira e seu espaço. Esse imbricamento é expresso pela relação ambígua entre Festa e Feira, pela relação entre Feira e espaço, que é metaforizada e metonimizada pela manifestação de ações sociais no espaço. Mas para evidenciar e justificar o seu argumento, o enunciador recorre a desorganização da Feira, por meio da seleção lexical dos vocábulos padronização, barracas, topografia, pedaço de ripa, estacionamento, desorganização na hora de ir, de subir a ladeira, etc. por meio dessa crescente enumeração de apostos, chega-se ao implícito pressuposto, de que os mesmos estão relacionados ao espaço e à sua falta de organização, o que, em última instância, seria uma responsabilidade da Prefeitura, personagem explícita responsável pela organização da parte profana da Festa – ou seja, da Feira.

(053) Eu considero como a Festa mais desorganizada que eu já vi na minha vida. [ ] A Prefeitura quer padronizar as barracas de toda maneira. Muito legal isso aí, só que a topografia da cidade não vai oferecer tanta condição de padronização. Então, ainda há aquelas barracas com lona, com plástico, com papelão, com pedaço de bambu,

tudo, para proteger e montar a barraca. Então essa é

uma desorganização. Desorganização no estacionamento. É um transtorno para o

povo estacionar os carros. Desorganização na hora de ir

tumulto de gente descendo pela ladeira. Deviam fazer um sistema que nem Aparecida, que tem a divisória e a passarela. Mão e contra mão. O povo desce, [ ], tem hora que não vai nem para frente e nem para trás, de tanta gente. Então, essa é

uma desorganização (E04).

(054) Eu falo que é uma bagunça organizada é porque não acontecem grandes fatos assim, sabe? Igual, por exemplo, você vai no centro de uma cidade grande igual Belo Horizonte, tem sempre um assalto, tem sempre um nego correndo, um nego querendo passar a perna no outro, não sei o que e tal. E tem muitos carros buzinando. Aqui não, é bem silenciosa, é bem calma, sabe? O povo sobe e desce o dia inteiro. Então, dificilmente acontece um fato assim de uma pessoa sair correndo. Todo mundo até fala que isso é parte da parte religiosa (E03).

com pedaço de ripa, com [

]

que é terminada as missas,

4.1.3 A Feira, os barraqueiros e o turismo de compra

A Feira, organizada paralelamente e de forma integrada à Festa do Jubileu, representa a outra face do evento e atende ao turismo de compras, além de proporcionar diversas opções de alimentação e de lazer aos romeiros. Um ponto importante a ser ressaltado, a partir da análise do perfil sociodemográfico dos freqüentadores da feira, é que se há freqüentadores com um dado perfil do lado da demanda, então surge no lado da oferta um conjunto de pessoas para atender a essa demanda. Assim, para atender à demanda de um público cujo perfil, além de ser de baixa renda e escolaridade, é também pouco exigente, surge um conjunto de barraqueiros – personagem discursiva recorrente no material analisado – que se dispõe a oferecer bens de consumo voltados para atender às necessidades e desejos desse determinado tipo de público.

(080) [Antes] Na área de mercadoria era muito comum só o artigo religioso.

Shoppingleu, Paraguai e esteio

Hoje, a mercadoria do Paraguai [ barracas. Parece que já vem alguém até do Paraguai

Hoje, a mercadoria do Paraguai [

barracas. Parece que já vem alguém até do Paraguai (E04).

]

é, é do Paraguai mesmo, dominou as

Como pode ser visto no trecho (080), apesar da manutenção do caráter comercial da Feira, antigamente era comum que até os produtos comercializados tivessem relação com a característica religiosa da festa do Jubileu ou então fossem mercadorias de gêneros alimentícios e produtos domésticos e de trabalho, como panelas e ferramentas. Atualmente, esses produtos tradicionais têm sido gradualmente substituídos por outro tipo de produtos:

“piratas” ou contrabandeados, vulgarmente entendidos como mercadoria do “Paraguai”, o que fica explícito em “na área de mercadoria era muito comum só o artigo religioso. Hoje, a mercadoria é do Paraguai”. A centralidade do comércio informal da Feira está enraizada nas pessoas a ponto de ter sido criada uma metáfora para o comércio informal realizado na Feira do Jubileu: o ShoppingLeu, cuja fácil decomposição em “shopping” e “Leu” (abreviação de Jubileu) permite identificar a composição do caráter central da Feira: o comércio popular ou informal junto ao espaço das festividades religiosas do Jubileu. A palavra shopping, do inglês “shopremete a “compras”, serve para designar explicitamente o caráter de centro comercial da Feira. Além disso, há aqui pelo menos dois implícitos: um pressuposto, que se refere a um espaço artificial criado para o consumo; e um subentendido, de que há uma tentativa de rebuscamento lingüístico do nome para um local de status inferior (Feira) para criar uma valorização desse espaço ao associá-lo a uma imagem teoricamente positiva. Isso é criado pelo efeito semântico da associação da palavra shopping – termo estrangeiro usualmente associado a um espaço artificial, racional e deliberadamente produzido, com lojas e produtos de qualidade – a um espaço “popular”, sem tal planejamento ou restrições, como o da Feira. Assim, o neologismo criado ShoppingLeu é uma invenção lingüística para designar um espaço próprio, com características próprias, que une sincreticamente o sagrado e o profano, o lado comercial do trabalho e o do lucro vendendo o que quer que seja, mas também o lazer que se faz desse e nesse ambiente que se torna e fornece uma atração para os moradores da cidade e seus visitantes.

(065) Esses romeiros que vêm, pessoas humildes, que fazem a sua economia durante

o ano, é a oportunidade para eles estarem fazendo as suas compras. São pessoas

para durante todo o ano. Compram

suas lembrancinhas para levar para o Natal, compram calçados para as crianças,

brinquedos, essas coisas assim parecendo meio Paraguai, entendeu? Então, é shopping mesmo. Elas compram presentes de shopping. Assim, o nosso Jubileu virou um Shoppingleu, né? A gente fala: “Compra no Shopping do Jubileu” (E02).

humildes mesmo. Elas compram as coisas [

]

(067) A festa que é o lado religioso, né? Mas a Feira, ela foge um pouco a parte que

era do religioso, apesar de que

comprar artigos religiosos. Mas ela é mais mesmo na questão econômica, eu acho.

E tem o aspecto lazer também. Tem pessoas que têm prazer em fazer compra. É

um grande shopping ao ar livre, né? Então, as pessoas sobem, e descem, e escolhem preços, e deixam para comprar. As pessoas da cidade, por exemplo, as que

permanecem na cidade, não compra de cara; ele faz uma pesquisa, pechincha, ele espera mais uns, que os preços vão baixar. Então, tem essa questão. E tem também o

aspecto de lazer, porque vêm parques, vem os circos [

atender um pouco nessa área também; você pode

] (E07).

Já no fragmento (065), a relação de conteúdos estabelecida entre a seleção lexical pessoas humildes e é a oportunidade para eles estarem fazendo as suas compras, identifica mais uma vez o caráter da Feira voltado para as pessoas de baixa renda, e daí sua função social – implícito subentendido; e além disso, a questão da ocasião única e exclusiva que essas pessoas tem para fazer as suas compras, implícito pressuposto derivado de “é a oportunidade” – ou seja, não há outra durante o ano. Ainda no trecho (065) há outra explicação para o neologismo. Esta é dada pela analogia que o enunciador faz entre os tipos de produtos adquiridos pelos consumidores e aqueles produtos que são comumente

comercializados em shoppings . Ou seja, a Feira se parece (e tem a função de)

comercializados em shoppings. Ou seja, a Feira se parece (e tem a função de) com um shopping devido ao fato de comercializar os mesmos produtos. Vale ressaltar ainda que a Feira também tem uma função social, a de lazer, o que é inclusive expresso de forma explícita pela ordem cronológica de atividades que são realizadas durante as festividades do Jubileu: primeiro, as pessoas se dirigem à igreja para rezar e fazer seus votos; em seguida, quando elas saem da igreja e retornam ao universo profano, elas se dirigem a Feira, por onde passeiam, observam as novidades, conversam e se atualizam como se pode observar no fragmento (068).

(068) Eles vêm primeiro pela devoção, pela fé, e depois que eles rezam, cumprem as suas promessas, eles vão fazer compra (E05).

(070) Por exemplo, o que você encontra para comprar aqui, você encontra em qualquer supermercado, em qualquer loja que você vai numa cidadezinha melhor. Você encontra esses produtos todos, só que tem que o preço é bem melhor, é bem mais em conta, e você encontra em grande quantidade para você escolher à vontade e a qualidade, igual eu te falei, é muito boa, são feitos em fabriquetas pequenas mas conceituadas. Então, assim, eu acredito que o povo vem mesmo pela parte religiosa e, é claro, o lazer, e a compra faz parte da própria estrutura que é montada (E03).

No trecho (070), o conteúdo discursivo “só que tem que o preço é bem melhor, é bem mais em conta” é o traço subjacente distintivo explícito da característica distintiva da Feira em relação aos demais espaços de comércio e consumo que lhe são semelhantes. A seleção lexical “só que” estabelece a relação de distinção, de modo explícito, entre a Feira, que tem preços baixos e os outros espaços de comércio (“supermercado” e “loja”). Nos demais aspectos, a Feira seria igual ou semelhante a “qualquer supermercado” ou “loja” de uma “cidadezinha melhor”, mas no que se refere ao preço a Feira do Jubileu é diferente: os preços são mais baratos, justamente pelo seu caráter de espaço de comércio informal. Já no que se refere à percepção do espaço no seu sentido simbólico, pode-se inferir que o espaço da Feira, que acontece de cidade em cidade, é representado e manifestado como um espaço de sobrevivência. Um espaço que está ligado à forma de sustento do barraqueiro e de seu grupo familiar. É da Feira e, na Feira, que eles extraem o seu sustento. Tanto que os barraqueiros não participam de apenas uma feira, mas de várias. Nesse sentido, eles já são considerados como profissionais desse ramo de negócio. Inclusive já há um calendário de feiras, que giram em torno das festas religiosas, que eles seguem durante o ano, como fica evidente no fragmento (057). Assim, as feiras são o esteio que sustenta os barraqueiros.

(057) Trabalho em Conceição do Mato Dentro, trabalho em Bocaiúva, trabalho em Iguape, São Paulo, trabalho em Machado, trabalho em Três Pontas, trabalho em

] Os outros vão

passando, né, falando que tem feira em tal lugar, tal lugar e a gente vai seguindo o

roteiro. E como sobra produto, aí daqui eu já vou para outra, tem que ter bastante

tudo na minha vida é essa feirinha, né? Porque se sobrevive

dela. E para mim é muito bom, eu gosto de trabalhar aqui. Aqui que dá pra mim

Catalão, em Goiás, e trabalho em Angra dos Reis, Rio de Janeiro. [

mercadoria. [

]

sobreviver. É o nosso esteio. (E22).

5. CONSIDERAÇÕES

Este trabalho teve como objetivo central explorar a relação entre a elaboração de metáforas e a identidade dos espaços, físico e simbólico, a partir da proposta de Smith (1999) de análise da identidade do espaço, por meio de suas metáforas e narrativas, complementarmente às contribuições da proposta de Heracleous e Jacobs (2008) de análise semiótica e material das metáforas incorporadas (embodied metaphors). Ao explorar e descrever as metáforas elaboradas a partir da identidade espacial, tomando como referência artefatos, monumentos e representações relacionadas aos espaços em que elas se inserem (sagrado, mundano e profano) pode-se observar que os elementos

materiais, além de serem inde xadores por excelência da produção de sentidos metafórica, cumprem um

materiais, além de serem indexadores por excelência da produção de sentidos metafórica, cumprem um papel fundamental de fornecer significados num domínio ontológico, cuja carga de significados possa ser transportada para outro domínio. Assim, os elementos materiais ou figurativos facilitam a visualização da imagem metafórica, promovendo a associação entre os dois mundos ou domínios. Resgatando as idéias de Heracleous e Jacobs (2008) é possível afirmar que as “metáforas incorporadas” (embodied metaphors) permitem aos pesquisadores ganhar em termos de compreensão dos significados do quadro de referência dos atores. Além disso, especificamente em relação a identidade, estes autores observaram que as metáforas representam uma rica fonte de dados empíricos para o entendimento das visões de identidade compartilhada pelos atores, que são literalmente construídas por eles. Essas proposições são corroboradas neste estudo, que acrescenta também o fato de elas estarem incrustadas em determinados enclaves. Assim, a análise desses espaços, como propõe Simth (1999), contribui no sentido de mostrar como as principais formas desses espaços influem neste processo. Essas construções metafóricas são tão associadas ao contexto e seus elementos materiais que algumas das próprias construções metafóricas (ex.: Shoppingleu) são elaboradas a partir de unidades lexicais diretamente relacionadas aos elementos incorporados (embodied) pelas metáforas, no caso em questão, o espaço em que se inseriam os atores sociais responsáveis pela sua produção. Pode-se sugerir, embora este trabalho não tenha sido exaustivo e por várias limitações não permita uma generalização teórica, que parece haver uma predominância de metáforas convencionais em relação às incorporadas, porém, estas últimas parecem ter maior riqueza e força de adesão junto aos atores envolvidos, possivelmente pela sua fácil visualização e incorporação de sentido. Em síntese, ao analisar os três grupos de metáforas aqui encontrados e sua relação com determinados espaços ou enclaves específicos, pode-se perceber – conforme afirma Simth (1999) – que as metáforas elaboradas, embora sua origem cronológica seja espaço- temporalmente indeterminada, remetem a contextos específicos que evidenciam uma trajetória de sentido relativa a esses espaços e como eles vêm sendo transformados ao longo do tempo. Por exemplo, enquanto a metáfora da basílica como oásis remete a dimensão sagrada das festividades do Jubileu, o que remonta o início de sua história, as metáforas da bagunça organizada relacionada à dinâmica da feira e suas transformações recentes e, de modo, mais recente a metáfora do Shoppingleu está associada ao contexto das últimas duas décadas, implicando um deslocamento da centralidade do Jubileu para o espaço profano.

REFERÊNCIAS

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i Vale ressaltar que é possível estabelcer uma aproximação entre a divisão proposta por Grant e Oswick (1996a) e a proposta por Cornelissen et al. (2008), especificamente, entre os pares: organização de metáforas e metáforas projetadas e, metáforas da organização e metáforas provocadas.

ii No original: contextual versus de-contextual approaches to metaphor (CORNELISSEN et al., 2008).

iii Liminaridade: do Latin līmen, significa “limiar”. O estado liminar é caracterizado pela ambigüidade, abertura e indeterminação. O sentimento de identidade se dissolve em certa medida, trazendo à tona desorientação. É o período de transição em que os limites normais do pensamento, do autoentendimento e do comportamento estão relaxados, situação esta que pode levar a novas perspectivas (LIMININARIDADE, 1989).

iv Ao ter sido acometido por uma doença “incurável”, Feliciano Mendes – um dos mineradores portugueses que estavam à margem do rio Maranhão (atual região da cidade de Congonhas/MG) na metade do século XVIII – teria prometido erguer uma igreja em sua homenagem ao Senhor Bom Jesus de Matozinhos caso fosse curado, o que ocorreu e em 1757 iniciou-se a construção da basílica (DIRETORIA DE TURISMO, 2005).