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AJUDAR

AS CRIANÇAS
A APRENDER:
Uma Conferência Internacional sobre
Educação Bilingue em Timor-Leste Volume Um

Realizada pelo Ministério da Educação


Com o patrocínio de UNICEF, UNESCO e CARE International

17 a 19 Abril de 2008, Dili, Timor-Leste


UNICEF Timor-Leste/2006/Smithies UNICEF Timor-Leste/2006/Rabemiafara UNICEF Timor-Leste/2006/Rabemiafara
UNICEF Timor-Leste/2006/Asael
UNICEF Timor-Leste/2006/Berry
UNICEF Timor-Leste/2006/Berry
Índice
Glossário dos Termos-Chave

Prefácio 1
Resumo Executivo 2
1. Contexto e Objectivos da Conferência 5
2. Educação e Língua em Timor-Leste 8
3. Ajudar as Crianças a Aprender: Educação Multilingue 12
3.1 Língua e a sua relação com a Educação
3.2 A melhor forma das crianças aprenderem
3.3 Benefícios da Educação Multilingue

4. Ensinar em contextos multilingues: implicações para os professores e 18


formação de professores
4.1 O que os professores precisam?
4.2 Implicações para a formação de professores e apoio
4.3 Projectando Materiais
4.4 Desafios e oportunidades do Ensino de Línguas Nativas/Maternas

5. Implicações para a Política do Desenvolvimento Linguístico 23


6. As melhores práticas e lições aprendidas: Estudos de caso aprofundados 26
6.1 Camboja: Uma abordagem ao estudo-piloto
6.2 Papua Nova Guiné: Uma abordagem nacional
6.3 Moçambique: Enfoque sobre as questões políticas

7. Lições-chave para Timor-Leste 35


8. Conclusões da Conferência: o que é necessário para tornar o trabalho 36
educativo multilingue em Timor-Leste
A. Investigação e Politica
B. O que os docentes necessitam
C. Desenvolvimento da Língua
Os próximos passos
Glossário de Termos-Chave
Bilingue Indivíduo: Capacidade de falar/perceber (e }às vezes de ler/escrever) dois idiomas; Sociedade: a presença de pelo
menos dois grupos de idiomas
Educação bilingue Utilização de duas línguas para a alfabetização e instrução
Fluência Elevado grau de competência na fala, leitura e/ou escrita
Língua como uma Quando uma língua é ensinada como uma língua estrangeira. É uma disciplina que os alunos estudam quando
disciplina aprendem acerca de uma língua
Desenvolvimento Promoção do uso oral e da escrita de uma língua, por exemplo através da expansão do seu vocabulário,
linguístico concordando com uma forma escrita e criando livros e materiais escolares
Primeira língua para a Esta é a língua que uma criança, ou adulto, aprende em primeiro lugar para se tornar alfabetizado. Cada pessoa
alfabetização apenas aprende a ler uma vez e depois transfere essas aptidões para outras línguas. Isto é preferível se estas
aptidões são aprendidas na língua materna/nativa da pessoa.
Língua de instrução Esta é a língua utilizada para ensinar (orientar e instruir) estudantes nas suas disciplinas, sendo esta decretada
pelo Governo ou a que é utilizada na prática dentro da sala de aula
Língua de utilização oral, Quando uma língua apenas é falada na sala de aula para ajudar os estudantes na compreensão mas não é utilizada
apenas na sala de aula na escrita
Alfabetização Competência de ler, escrever, calcular e usar a língua numa variedade de assuntos, incluindo a capacidade de
conceptualizar nessa língua.
Língua materna/nativa A primeira língua da criança. Esta é a língua que elas falam em casa. Línguas vernáculas, linguagens locais e
primeira linguagem também são termos utilizados para referir língua materna/nativa.
Educação multilingue A escolaridade começa com a língua materna/nativa (a primeira língua da criança) para ler, escrever e aprender
baseada na língua enquanto que o ensino da segunda língua (normalmente a língua oficial/nacional) como língua estrangeira e como
materna/nativa disciplina a estudar tal como a transição para a(s) segunda(s) língua(s) como língua(s) de instrução é feita no 3º
ano. (ver também Modelo de Transição)
Multilingue Indivíduo: a competência de falar/entender (e às vezes de ler/escrever) mais do que duas línguas; Sociedade: a
presença de mais de dois grupos linguísticos/idiomas.
Educação multilingue O uso de duas línguas para a alfabetização e instrução.
Língua Oficial/Nacional A(s) língua(s) que o Governo ou a Constituição declaram como a língua oficial/nacional de um país. Estas línguas
são usadas para negócios governamentais e muitas das vezes são as línguas de instrução.
Ortografia Sistema padrão para a escrita de uma língua, incluindo um código e regras de escrita e pontuação.
Modelo de Submersão O uso de uma segunda língua (estrangeira) para toda a instrução, com a ajuda mínima ou nenhuma para os
formandos. Toda a instrução é feita na língua oficial ou nacional desde a entrada das crianças pela primeira vez na
escola. (ver também Educação Multilingue baseada na língua materna/nativa)
Modelo de Transição Onde as crianças iniciam a sua educação na sua língua materna/nativa e depois aprendem a língua oficial/nacional
e transitam para uma instrução nessa mesma lingua quando se encontram no 3º ano.

Este Glossário foi adaptado do “Advocacy Kit for Promoting Multilingual Education: Including the Excluded” e do First Language First:
Community-based Literacy Programmes For Minority Language Contexts in Asia of UNESCO. A Informação sobre como obter estes
documentos encontra-se no Volume Dois deste documento.
Prefácio
A Constituição de Timor-Leste identifica o Tétum e o resultaram em debates acesos e envolventes, bem como
Português como línguas oficiais. O Inglês e a língua proporcionaram discussões abertas e troca de ideias
indonésia são ambos utilizados como língua de trabalho entre os participantes.
e a Constituição estabelece que outras línguas nacionais Esta publicação “Ajudar as Crianças a Aprender: uma
também deverão ser valorizadas e desenvolvidas pelo Conferência Internacional sobre Educação Bilingue em
Estado. Timor-Leste” sintetiza os resultados desta conferência.
Dado este contexto multilingue de Timor-Leste, O Volume Um incide sobre os objectivos da conferência,
as crianças nas escolas, os pais e os professores têm a educação e língua em Timor-Leste, os modelos de
várias experiências e estão expostos a estas línguas. educação multilingue, as necessidades dos professores
É importante destacar que a maioria dos timorenses e as implicações para as políticas de desenvolvimento
são bilingues e que existe um número crescente de da língua. Também apresenta as melhores práticas e
timorenses multilingues. Estando cientes dos desafios as lições aprendidas a partir de vários países incluindo
com que nos defrontamos em termos linguísticos e de Camboja, Moçambique e Papua Nova-Guiné. O Volume
educação para as crianças, temos pela frente o desafio Dois faculta os materiais da conferência incluindo as
de criar políticas que irão estabelecer fundamentos apresentações em Power-Point apresentadas pelos
sólidos na Educação em Timor-Leste. oradores convidados, o programa da conferência, os
O Ministério de Educação, em conjunto com discursos de abertura e de encerramento e uma lista
parceiros de desenvolvimento, organizou a primeira detalhada de leituras recomendadas.
Conferência Internacional de Educação Bilingue de Numa altura em que objectivamos um aumento e uma
17 a 19 de Abril de 2008. A conferência teve como melhoria dos recursos humanos e materiais, o Ministério
objectivo disponibilizar informação aos educadores da Educação irá estudar com interesse os resultados e as
e aos decisores políticos em termos de educação ideias que foram expressas nesta conferência.
sobre as experiências de outros países e aplicar esta O Ministério da Educação espera que professores,
aprendizagem na criação e implementação de políticas investigadores, políticos e parceiros de desenvolvimento
de língua e metodologias de ensino de forma a melhor considerem esta publicação útil para apoiar um futuro
servir as necessidades das crianças em Timor-Leste. mais próspero para todas as crianças de Timor-Leste.
Os participantes desta conferência, incluindo os Finalmente, gostaria de agradecer a todos os participantes
oficiais do Ministério da Educação, representantes pelas suas contribuições para esta conferência. Também
da UNTL, professores, investigadores e parceiros de gostaria de exprimir a minha sincera apreciação à UNICEF,
desenvolvimento, estiveram muito interessados nas UNESCO e CARE International pelo seu apoio em assegurar
apresentações e desejosos de discutir questões linguísticas que a conferência fosse gratificante para todos.
no sentido de encontrar boas práticas que melhor se
adequam às necessidades das crianças em Timor-Leste.
Neste momento, a questão da língua é uma
questão muito sensível em Timor-Leste, estando a João Câncio Freitas, PhD
maioria das pessoas alertas para tal facto. Nesta Ministro de Educação
conferência, as discussões dos grupos de trabalho RDTL

1
Ajudar as Crianças a Aprender: Uma Conferência Internacional sobre Educação Bilingue em Timor-Leste

Resumo Executivo

UNICEF Timor-Leste/2008
Este documento relata a Primeira Conferência Este documento está organizado em dois volumes.
Internacional acerca da Educação Multilingue em O Volume Um descreve os procedimentos e realça as
Timor-Leste. Esta conferência, “Ajudar as Crianças a principais recomendações. O Volume Dois inclui os
Aprender: uma Conferência Internacional acerca da Power-Points usados nas diferentes sessões e outros
Educação Bilingue em Timor-Leste”, foi realizada em Díli, detalhes do programa da conferência.
Timor-Leste, de 17 a 19 de Abril de 2008. Foi realizada Esta conferência foi realizada durante o Ano
pelo Ministério de Educação e patrocinada por UNICEF, Internacional da Língua e assenta em trabalhos
UNESCO e CARE Internacional, tendo estado presente previamente realizados no Sudeste Asiático e Timor-
mais de 140 pessoas. Esta conferência constituiu Leste. Existem mais de 16 línguas em Timor-Leste.
uma oportunidade de aprendizagem para educadores A Constituição de Timor-Leste declara que existem
e políticos de educação a partir da investigação e duas línguas oficiais – Tétum e Português – e que
das experiências de outros países e aplicação desta outras línguas timorenses devem ser valorizadas e
aprendizagen na concepção e implementação da política desenvolvidas. Apenas 40% das crianças conhecem
de língua e metodologia de ensino que melhor servirão Tétum e Português (as línguas de instrução) quando
as necessidades das crianças de Timor-Leste. entram para a escola1, sendo a língua uma das principais

1 Fonte: Sistema de Informação e Gestão da Educação (EMIS), como foi apresentado pelo Sr. Cidálio Leite, Deputado Director Geral, Ministério de Educação, na sua
apresentação na conferência.

2
barreiras à educação, levando a poucas matrículas, alocados para o desenvolvimento da educação
elevadas taxas de desistência e repetição e a fraco multilingue.
sucesso escolar. • Necessidade de fazer investigação sobre:
Cinco décadas de investigação mostram que a - onde estão a ser utilizadas as diferentes
educação multilingue baseada na língua materna pode línguas em Timor-Leste, de forma a planear
melhorar a capacidade das crianças no sentido de adequadamente um programa de educação
se tornarem fluentes nas línguas oficiais de um país, multilingue baseado na língua materna.
quando estas não são a língua materna de muitos dos - os níveis de proficiência em diferentes línguas
cidadãos. Este modelo de educação multilingue envolve para avaliar a necessidade de um programa de
iniciar a escolaridade na língua materna (a primeira educação multilingue baseado na língua materna.
língua da criança) para ler, escrever e aprender, bem - o impacto da língua na educação, particularmente
como uma segunda língua de ensino (normalmente a na avaliação das crianças que estão fora da escola
língua oficial/nacional) como língua estrangeira e como (não matriculadas) de forma a analisar o impacto
disciplina de estudo, dando início à transição para a(s) da língua no acesso à escola no contexto de Timor-
segunda(s) língua(s) de instrução quando as crianças Leste.
se encontram no 3º ano. Utilizando esta abordagem
para a educação multilingue podemos assegurar que as • Desenvolver a fluência dos professores e dos
crianças atinjam bons resultados de desenvolvimento, estudantes nas línguas oficiais.
bem como se tornem fluentes em ambas as línguas • A necessidade de assegurar um compromisso dos
oficiais de Timor-Leste. Este modelo tem sido funcionários do Governo pois é importante para
implementado em todo o mundo e em Timor-Leste promover a importância da educação multilingue.
algumas das lições-chave centram-se na importância
da formação de professores e no desenvolvimento de
ortografias e de recursos nas línguas locais. B. O que os professores necessitam:
As principais conclusões da conferência apontam
para que se Timor-Leste adoptar a língua materna • Proficiência e fluência nas línguas oficiais e nas
segundo uma abordagem multilingue serão necessárias línguas maternas.
mudanças em três áreas: • Capacidades e conhecimento acerca do ensino de
uma segunda língua e manuais orientadores.
• Formação de professores e respectivo apoio. O
A. Investigação e Política papel dos professores é crucial na aprendizagem
das crianças. Para isto, os professores necessitam
Diferentes tipos de apoio e mudanças políticas incluem: de ser apoiados e formados sistematicamente e
continuamente na sua proficiência nas línguas oficiais
• A necessidade de desenvolver uma política e o uso da língua materna.
compreensiva para a educação bilingue, em conjunto • Livros didácticos, materiais e guias de ensino
com a Direcção Nacional de Currículo, Materiais e traduzidos da língua oficial/nacional para o conjunto
Avaliação do Ministério da Educação, apoiando o de línguas maternas/nativas timorenses e torná-las
futuro desenvolvimento da educação bilingue (ou culturalmente mais relevantes.
multilingue). • Conselhos claros e orientações políticas autorizando
• Os recursos financeiros e humanos têm de ser os professores a ensinar nas línguas locais. Ter

3
Ajudar as Crianças a Aprender: Uma Conferência Internacional sobre Educação Bilingue em Timor-Leste

múltiplas línguas maternas/nativas numa sala de C. Desenvolvimento linguístico:


aula é uma excepção e não a norma – os professores
necessitam de ter a autoridade para poderem • Desenvolver ortografias padrão para as línguas locais
escolher (sozinhos ou em conjunto com os pais e a timorenses. Estas ortografias necessitam de ser
comunidade) a língua de instrução. Foi sugerido que disseminadas e socializadas.
o Governo desse essa autoridade através de uma • Desenvolver e disseminar adicionalmente a ortografia
circular que autorize os professores a leccionar em Tétum. Isto deverá ser realizado pelo Instituto
línguas locais. Nacional Linguístico com o apoio do Governo.
• Uma campanha de sensibilização para os professores • Desenvolver as línguas locais por:
dos infantários e do 1º e 2º ano acerca da importância
do uso de línguas locais. - Convidando pessoas a escrever histórias nas suas
• Pais e comunidades apoiantes: as comunidades próprias línguas locais e usando imagens.
e os pais necessitam de ser convencidos sobre a - Investigando a criação de um repositório/centro onde
importância das suas crianças aprenderem nas suas as pessoas de várias partes de Timor-Leste possam
línguas maternas em vez de aprenderem nas línguas ir, escrever e gravar histórias, músicas, etc. nas suas
oficiais. línguas maternas e outras línguas (um dos oradores
• Bons materiais de recursos para o ensino num partilhou a experiência do “Bomeo Literature Bureau”
sistema de educação multilingue ou bilingue criado que usa esta abordagem, sendo o seu papel encontrar
nas muitas línguas maternas/nativas de Timor- e publicar materiais escritos em línguas locais).
Leste. Com base nas experiências de outros países é • Promover as línguas oficiais e outras línguas locais
possível desenvolver materiais para todas as línguas através do uso dos media.
e regiões: • Assegurar que o Instituto Nacional Linguístico (INL)
- O Governo pode formar os professores a criar os tenha recursos e capacidades suficientes.
seus próprios materiais de ensino.
- As comunidades podem apoiar os professores no Os próximos passos a ser tomados são:
desenvolvimento dos seus próprios materiais de • O Grupo de Trabalho que foi estabelecido para esta
ensino. Conferência deverá continuar a encontrar-se para
- As comunidades podem ser envolvidas no incidir sobre as conclusões da mesma (apresentadas
desenvolvimento dos recursos – disponibilizando mais à frente) e desenvolvê-las.
histórias, pais e membros da comunidade podem • Uma delegação do Ministério de Educação deverá
criar muitos conteúdos na língua em que as ir às conferências organizadas pela Organização
crianças serão ensinadas. do Ministério de Educação do Sudoeste Asiático
• Recrutamento e desenvolvimento apropriado: (SEAMEO) a realizar em Julho de 2008.
preferência no recrutamento de “pais -professores” • Deverá ser considerado o envio de uma delegação de
ou professores da área local para assegurar a sua Timor-Leste ao Cambodja, visto que o Vice-Secretário
proficiência na(s) língua(s) materna(s) dessa área ou, de Estado, Sr. Chey Chap, referiu na conferência que
por outro lado, formar professores de fora nas línguas teria muito gosto em receber um grupo de Timor-Leste
maternas. para trocar experiências e aprender das mesmas.

4
1 Contexto e Objectivos
da Conferência

UNICEF Timor-Leste/2008/Vas
Da esquerda para a direita: Sr. Teodosio Ximenes (Gestor de Operações, CARE), Sr. Jun Kukita (Representante, UNICEF Timor-Leste), Dr. João
Câncio Freitas (Ministro, Ministério da Educação) e Dr. Sheldon Shaeffer (Director, UNESCO Banguequoque).

Este documento relata a Primeira Conferência e como disciplina de estudo, começando-se assim a
Internacional sobre a Educação Multilingue em Timor- transição para a(s) segunda(s) língua(s) de instrução
Leste. A conferência, “Ajudar as Crianças a Aprender: quando as crianças se encontram no 3º ano.
uma Conferência Internacional sobre Educação Bilingue A conferência teve como objectivo fornecer
em Timor-Leste”, foi realizada em Díli, Timor-Leste, de informação a educadores e políticos de educação para
17 a 19 de Abril de 2008. Existem duas línguas oficiais que estes pudessem aprender através das experiências
mandatadas na Constituição de Timor-Leste: o Tétum e de outros países e aplicar essas aprendizagens na
o Português (Artigo 13.1). Investigação mostrou que a concepção e implementação de políticas linguísticas
educação baseada nas línguas maternas pode melhorar e metodologias de educação que melhor servirão
a capacidade das crianças no sentido de se tornarem as necessidades das crianças em Timor-Leste,
fluentes nas línguas oficiais/nacionais de um país, quando assegurando assim que estas alcancem bons resultados
essas línguas não são as línguas maternas de vários de desenvolvimento e adquirem fluência em ambas
cidadãos. Este modelo de educação multilingue pressupõe as línguas oficiais de Timor-Leste.Esta conferência
iniciar a escolaridade na língua materna (a primeira língua representou uma oportunidade de desenvolver
da criança) nomeadamente para a leitura, escrita e ensino, posteriormente uma estrutura de conhecimento em
enquanto que a segunda língua (normalmente a língua Timor-Leste, tornando possível a aprendizagem através
oficial/nacional) será ensinada como língua estrangeira das experiências de outros países sobre a educação

5
Ajudar as Crianças a Aprender: Uma Conferência Internacional sobre Educação Bilingue em Timor-Leste

multilingue e o uso de línguas maternas na educação. em Tétum para os anos e disciplinas que serão
Em Outubro de 2007, o Ministério de Educação leccionados nessa língua.
realizou encontros iniciais para discutirem os temas-
chave da conferência. Foi formado um grupo de trabalho A participação da delegação timorense na conferência
pelo Ministério de Educação conjuntamente com a da SEAMEO aumentou a urgência e a sensibilidade para a
UNESCO, UNICEF, a Universidade de Timor-Leste e a necessidade de efectuar uma conferência que abordasse
CARE Internacional. Este grupo de trabalho centrou-se a educação multilingue baseada nas línguas maternas em
inicialmente nas questões da educação multilingue Timor-Leste. Seguindo a conferência da SEAMEO, o grupo
e desempenhou também um papel importante na de trabalho mencionado anteriormente centrou-se no
preparação da conferência em Timor-Leste. Sendo início da preparação da conferência timorense.
2008 o Ano Internacional da Língua (UNESCO), Esta conferência, “Ajudar as Crianças a Aprender:
particularmente centrado nas línguas maternas, este uma Conferência Internacional sobre Educação Bilingue
tornou-se um momento perfeito para Timor-Leste se em Timor-Leste”, foi realizada em Díli, Timor-Leste, de
envolver mais nos debates globais sobre a importância 17 a 19 de Abril de 2008. Foi organizada pelo Ministério
da língua nas políticas de educação. da Educação e patrocinada por UNICEF, UNESCO e CARE
Os países do Sudoeste Asiático iniciaram a Internacional. No total, estiveram presentes 140 pessoas
discussão sobre a educação multilingue baseada nas no primeiro dia da conferência, 114 no segundo dia e
línguas maternas a partir da conferência organizada pela 93 no terceiro dia. A maioria dos participantes eram
Organização dos Ministros de Educação do Sudoeste timorenses e participaram também algumas pessoas de
Asiático (SEAMEO), realizada em Banguecoque organizações internacionais. A maioria dos participantes
em Fevereiro 2008. Uma delegação de Timor-Leste timorenses pertencem ao Ministério da Educação.
participou nesta conferência. As recomendações feitas Os restantes participantes timorenses vieram de
por esta delegação ao Governo Timorense/Ministério de organizações Internacionais e Timorenses. Participaram
Educação foram as seguintes: também nesta conferência administradores educativos,
professores e formadores de professores.
• Investigar a viabilidade do uso de línguas maternas Foram efectuadas nove apresentações, nas quais
timorenses, tais como o Mambai, Baikenu and 13 oradores apresentaram as suas investigações e
Fataluku, de forma a verificar se é possível utilizá-las trabalhos acerca da língua e educação. Alguns focaram-
como línguas de instrução. se nas experiências de Timor-Leste, outros trouxeram as
• Desenvolver e promover o Tétum e o Português. suas experiências de trabalho na região ou outras partes
• Usar o Tétum como língua de instrução no pré-escolar do Mundo. Apresentam-se, de seguida, os respectivos
e do 1º ao 3º ano do ensino primário. oradores:
• Usar o Tétum nos anos mais elevados aquando
o ensino dos direitos humanos, educação cívica, • Sua Exa. Chey Chap, Sub-Secretário de Estado do
religião, educação física e saúde/higiene. Ministério de Educação, Juventude e Desporto,
• Continuar a utilizar o Tétum como língua auxiliar de Cambodja.
instrução (oral) para outros anos e disciplinas, nas • Dr. Benjamim de Araújo e Corte-Real, Presidente do
quais o português é a língua de instrução. Instituto Nacional de Línguistica (INL) e Reitor da
• Desenvolver um currículo e materiais didácticos Universidade Nacional de Timor-Leste (UNTL).2

2 Note que os slides de Power-Point de cada apresentação estão dísponiveis no Volume 2 deste documento.

6
• Sra. Paula Gubbins, Administrador de Programa Papua Nova-Guiné, Moçambique, Namíbia, Bolívia,
Sénior, Global Education Center Academy for Guatemala, Quénia, Filipinas, China, Libéria e Egipto..
Educational Development, Washington. Foram realizadas apresentações durante as manhãs e,
• Dr. Andrew Ikupu, Conselheiro Regional de Capacitação após estas apresentações, seguiu-se uma sessão de
do Departamento de Educação, Papua Nova Guiné. perguntas e respostas. No primeiro e segundo dia foram
• Dra. Donna Kay LeCzel, Conselheira Sénior em realizadas discussões em grupos de trabalho durante a
Reformas Políticas e Educação de Professores , tarde, permitindo que os participantes pudessem discutir
Global Education Center Academy for Educational em maior pormenor as apresentações.
Development, Washington.
“É da vossa responsabilidade decidir o que fazer em
• Sr. Cidálio Leite, Adjunto do Director Geral, Ministério
Timor-Leste. Eu apenas posso partilhar as nossas
da Educação, Timor-Leste.
experiências em Moçambique e vocês podem
• Professor Sozinho Francisco Matsinhe, Departmento
retirar aquilo que entenderem das mesmas.”
de Línguas Africanas, School of Arts, Education,
(Sozinho Matsinhe)
Languages and Communication, College of Human
Sciences, Universidade da África do Sul No seu discurso de abertura, o Ministro da Educação
• Sr. Cliff Meyers, Conselheiro de Educação Regional, afirmou que a educação em Timor-Leste está num ponto
UNICEF, Bangequoque. de encruzilhada e que o país está a construir uma base
• Sr. Jan Noorlander, Coordenador do Programa de sólida para desenvolver a educação para o futuro de
Educação para as Comunidades das Terras Altas, Timor-Leste. O Ministro introduziu três questões que os
CARE Cambodja. participantes deveriam ter em consideração durante o
• Sr. Khath Samal, Gestor do Programa de Educação para decorrer da conferência.
as Comunidades das Terras Altas, CARE Cambodia. Caixa 1.1 As questões do Ministro a ter em
• Mr. Pa Satha, Sub-Director Geral do Escritório da consideração
Educação, Juventude e Desporto para a província
• O que deveremos considerar como língua
Ratanakiri, Cambodja.
materna num determinado distrito, dada a
• Dr. Sheldon Shaeffer, Director do Escritório Regional
diversidade linguística?
da UNESCO para a Ásia e Pacífico, Bangkok.
• Dra. Kerry Taylor-Leech, Investigador na area de • Deverão os professores decidir quais as línguas
Linguística Aplicada, Universidade Macquarie. de instrução em cada sala de aula?
• Estaremos a expor as nossas crianças a stress e a
A apresentação por parte destes oradores constituiu complicar as suas vidas ao esperarmos tanto delas?
uma oportunidade para os políticos, administradores de
educação e professores de Timor-Leste reflectirem sobre Todo o material apresentado neste documento
o contexto e as perspectivas linguísticas, bem como provém da discussão e dos recursos humanos/oradores
contactarem com as investigações realizadas acerca da conferência. No Volume 2 poderá ser encontrada
da importância de uma educação baseada em línguas uma informação mais detalhada da conferência,
maternas nos primeiros anos de vida. Os participantes incluindo o programa, os discursos de abertura e
puderam, também, aprender como qual foi a abordagem encerramento, dispositivos de Power-Point de cada
utilizada por outros países na implementação de uma das apresentações, biografias dos oradores, a
uma educação multilingue baseada em línguas lista dos participantes e uma posterior lista de leituras
maternas. Foram partilhadas experiências de Camboja, recomendadas.

7
Ajudar as Crianças a Aprender: Uma Conferência Internacional sobre Educação Bilingue em Timor-Leste

2 Educação e Língua
em Timor-Leste
Timor-Leste é um mosaico de línguas, no qual se avançada no Sistema de Educação, isto fará com que a
fala mais de 16 línguas3. A maioria dos timorenses introdução do Português seja adiada, distanciando as
é no mínimo bilingue e alguns multilingues. Existem crianças da língua portuguesa.
duas línguas oficiais mandatadas na Constituição de A situação linguística em Timor-Leste é muito
Timor-Leste: o Tétum e o Português (Artigo 13.1). A complexa, estando ligada a questões culturais,
constituição nota também que o Tétum e as outras históricas, políticas e de identidade. De qualquer modo,
línguas nacionais têm que ser valorizadas e o seu países que foram analisados neste documento e que
desenvolvimento promovido (Artigo 13.2). De acordo foram discutidos na conferência ainda apresentam
com os Censos de 2004, aproximadamente 36,8% da situações complexas em relação às línguas e à escolha
população fala, lê e escreve Português e 85,6% fala, da língua. Muitos deles adoptaram com sucesso,
lê e escreve Tétum4. Torna-se importante realçar que programas de educação multilingues que utilizam as
a maioria das pessoas que fala Tétum fala-o como línguas maternas como língua inicial de instrução e de
segunda língua.5 alfabetização, levando a fortes resultados educacionais.
O INL foi estabelecido em Timor-Leste em Julho de Torna-se importante relembrar que Timor-Leste faz parte
2001. A 14 de Abril de 2004 saiu um decreto-lei que de uma comunidade global que luta com questões de
fez com que a ortografia tétum do INL se tornasse a identidade e de língua. Muitos países estão a explorar
ortografia oficial e decretou ainda o INL como o guardião ideias acerca da educação multilingue baseada em
científico para o desenvolvimento do Tétum e de outras línguas maternas, tendo estes experiências ricas que
línguas. A ortografia desenvolvida pelo INL foi declarada poderão servir de exemplo para Timor-Leste.
com o padrão. O INL produziu muitas publicações e
esteve envolvido em muitos encontros e discussões.
Dr. Benjamim de Araújo e Corte-Real referiu, na sua Língua e Identidade em Timor-Leste
apresentação, que existem muitas palavras portuguesas
utilizadas pelos timorenses quando falam Tétum e A Dra. Kerry Taylor-Leech, Investigadora na Universidade
que muitas das pessoas não se apercebem que sabem Macquarie, entrevistou 78 pessoas com idades
e utilizam a língua potuguesa. A preocupação do Dr. compreendidas entre os 18 e os 65 anos acerca das suas
Corte-Real baseia-se no facto de que se introduzirem o atitudes perante a língua e as políticas de língua. Ela
Tétum e as línguas maternas até uma escolaridade mais encontrou fortes ligações entre a língua e a identidade

3 Note que existem três graus de estimativas para o número de línguas, dependendo da fonte.
4 Ver as tabelas 5.3A e 5.3B do Censo de Prioridades Nacionais. Os Censos estão disponíveis em: http://dne.mopf.gov.tl/census/tables/national/index.htm, acesso
feito a 13 Maio 2008. Note que é incerto o quão bem as pessoas falam estas línguas – a proficiência poderá variar de apenas algumas palavras à fluência, quando
a competência linguística é auto-relatada, e, as pessoas não foram questionadas acerca do seu nível de proficiência.
5 De acordo com o Censo de 2004, Tétum, Tétum Prasa e Tétum Terik são as línguas maternas utilizadas por 58,270 (6%), 169,060(18%) , 57,449 (6%) pessoas,
respectivamente.

8
Figure 1.1
Local Languages
Spoken in Timor-Leste

Source: Lafaek Magazine,


CARE International Timor-Leste

em todos os participantes do seu estudo. A Dra. Taylor- salientaram que não puderiam aprender as suas línguas
Leech apresentou as suas principais conclusões a partir locais nas escolas. Tal como um estudante referiu: “Não
dos grupos de discussão dos estudantes. As análises existe nenhuma escola em Timor-Leste onde eu possa
efectuadas sobre os estudantes mostraram que a aprender Makasai”. A Dra. Taylor sugeriu que os pontos
maioria dos participantes entenderam o Tétum como de vista dos estudantes no seu estudo pudessem servir
uma expressão de identidade e de unidade nacional. para informar acerca do desenvolvimento de uma política
Uma visão comum é a de que o Português ajudaria educativa mais inclusiva que reorganiza as identidades
a modernizar e desenvolver o Tétum. Os estudantes etno-linguísticas de todos os falantes da língua.
afirmaram que o Português seria importante porque iria
ajudar o país a desenvolver relações com outros países,
especialmente na Europa e na comunidade de países Língua e Educação: História Política e
que falam a língua Portuguesa (CPLP – Comunidade Actual Política
dos Países de Língua Portuguêsa). Os estudantes
também expressaram uma forte lealdade para com A Política Educativa de 2004-2008 incluída na estrutura
as suas línguas locais. Eles referiram que as pessoas curricular que declara que as línguas ensinadas como
deveriam ter orgulho da sua herança cultural e das suas disciplinas deveria ser de 4 horas semanais de Tétum e
identidades locais. Os estudantes concordaram que 4 horas semanais de Português no 1º ano, transitando
gostariam de ver o Tétum mais desenvolvido e que este para 6 horas semanais de Português e 2 horas semanais
apresentasse um estatuto igual ao do Português. Outros de Tétum no 6º ano6. Em 2004, o projecto inicial da

6 Ministério da Educação, Cultura e Desporto (2004), Política da Educação 2004-2008, Díli, República Democrática de Timor-Leste.

9
Ajudar as Crianças a Aprender: Uma Conferência Internacional sobre Educação Bilingue em Timor-Leste

declaração curricular do ensino primário usou este declaração em termos de currículo do pré-secundário,
modelo, o qual apresentava estudantes a transitar embora isto ainda a decorrer e não foi oficialmente
do Tétum para Português. Contudo, à medida que a aprovado.
política foi sendo finalizada, o Ministro decidiu que toda Esta nova política (Abril 2008) é uma melhoria sobre
a instrução seria em Português. Em 2006, o Tétum foi a política anterior. Contudo, continua a não apoiar o
definido como uma língua auxiliar que poderia ser usada ensino da língua materna nos primeiros anos da criança.
para ajudar o processo de ensino. Além disso, o Tétum Note-se que a língua materna é a primeira língua que
foi aceite como língua de instrução nos primeiros dois a criança fala. O Tétum é a língua materna de uma
anos escolares. proporção muito pequena de timorenses.
Em Abril de 2008, este modelo auxiliar foi substituído
por uma política que definiu que o Tétum e o Português
como línguas de instrução. Esta nova política de Desempenho Educacional, Formação
educação foi aprovada pelo Conselho de Ministros e de Professores e Materiais: A Situação
centra-se na educação multilingue. Em termos de tempo
em Timor-Leste
que as crianças passam a aprender nas duas línguas
oficiais e sobre as mesmas, esta lei estipula que:
Existe uma relação entre os seguintes aspectos?

1º ano Tetum 70% Português 30% • Apenas 40% das crianças conhecem o Tétum ou o
2º ano Tetum 50% Português 50% Português (as línguas de instrução) quando entram
3º ano Tetum 30% Português 70% para a escola8.
4º ano Tetum 0% Português 100%7 • Apenas 46% das crianças terminam o ensino
primário.
Apesar dos documentos de política especificarem • 22% das crianças Timorenses repetem o 1º ano.
percentagens, a intenção dos mesmos é que essas • 13-19% das crianças repetem o 2º ano.
percentagens dêem uma ideia geral acerca de qual • 80% das crianças do 3º ano em 2006 avaliadas
língua deverá ser a dominante na sala de aula nos em 2006 não atingiram os níveis mínimos de
diferentes anos escolares. A partir do 4º ano, o aprendizagens em matemática, nas línguas Tétum e
Português será a principal língua de instrução e a Português9.
única língua escrita; o Tétum será apenas usado como
língua de instrução oral, excepto na leitura do Tétum. A Factores como a língua, a pobreza, longas distâncias
recomendação da delegação de Timor-Leste à SEAMEO até chegar às escolas, um número inadequado de salas
durante a conferência é a de que determinadas de aula, falta de materiais e de professores qualificados
disciplinas deveriam ser leccionadas em Tétum ao longo constituem barreiras para as crianças receberem uma
do ensino pré-secundário, tal como foi reflectido na educação de qualidade em Timor-Leste. Olhando para a

7 Apresentado na conferência pelo Sr. Cidálio Leite, Director-Geral Adjunto, Ministério de Educação.
8 Note-se que esta percentagem diz respeito às crianças quando elas começam a escola (i.e. idade desde os quatro aos sete) e compara com os números muitos
mais elevados de fluência da população como um todo em Tétum (85,6%) e Português ((36,8%) mencionada anteriormente. Esta diferença confirma que a maioria
dos Timorenses fala Tétum e Português como segunda ou terceira língua.
9 Fonte:Sistema de Informação e Gestão da Educação (SIGE) e o Estudo Nacional para Medição dos Resultados de Aprendizagem (2006), tal como foi apresentado
na conferência pelo Sr. Cidálio Leite, Vice-Director Geral do Ministério da Educação.

10
UNICEF Timor-Leste/2008/Vas

investigação internacional, a língua tem sido identificada e na língua Indonésia, ensinar em Tétum e Português
globalmente como uma das principais razões para as continua a ser um desafio, apesar dos programas de
elevadas taxas de repetição e retenção, bem como formação de professores (sobretudo em Português).
baixas taxas de desempenho, como as que existem em Após 8 anos de independência, Timor-Leste tem falta
Timor-Leste. de professores fluentes em Português capazes de
Sob o sistema Português, no período colonial, poucas ensinar em em Português. Os recursos em Tétum ainda
crianças tiveram acesso à educação. O ensino era feito estão a ser desenvolvidos e a proficiência Iindonésia
em Português e os professores vinham de Portugal ou tem diminuído. Os professores de Timor-Leste não têm
eram enviados a Portugal para formação profissional. recebido formação específica sobre como ensinar às
Hoje em dia, isto não é uma opção, na medida em que crianças uma língua que não é a que é falada nas suas
existe um número muito maior de escolas e um currículo casas. Apesar da orientação dada é a de que o ensino é
independente.. No período Indonésio, a educação foi para ser efectuado em Português, com algum Tétum, na
expandida para que muito mais crianças pudessem prática os professores usam uma variedade de línguas
aceder à educação. O ensino era realizado na língua na sala de aula para ajudar as crianças a aprender.
Indonésia; a maioria dos professores eram indonésios Os materiais existem nas línguas oficiais. O
e o nível de formação dos professores, de uma forma Ministério de Educação, em conjunto com parceiros
geral, era pobre. Quando os Indonésios saíram do de desenvolvimento tais como a UNICEF e a CARE,
país em 1999, o sistema de educação foi deixado em tem vindo a desenvolver materiais de ensino e de
ruínas. Cerca de 80% dos professores abandonaram o aprendizagem em Tétum e Português, tal como guias
país, voltando para a Indonésia, e muitas das escolas e manuais de ensino bilingues. O INL tem trabalhado
e edifícios administrativos foram destruídos.10 Hoje em muito para desenvolver o Tétum, incluindo a produção de
dia, Timor-Leste enfrenta o desafio de fornecer uma uma ortografia padrão. Os materiais também têm vindo a
educação de qualidade a um número elevado e cada vez ser produzidos por “Mary McKillop Sisters” e Timor Aid.
maior de crianças. Poucos, se alguns, materiais estão disponíveis noutras
Como a maioria dos professores activos em Timor- línguas de Timor-Leste, mas o INL e ONG´s começaram
Leste foram educados durante a ocupação Indonésia já a desenvolver dicionários noutras línguas.

10 Susan Nicolai (2004) Learning Independence: Education in emergency and transition in Timor-Leste since 1999, International Institute for Educational Planning,
UNESCO, Paris; ver capítulo dois.

11
Ajudar as Crianças a Aprender: Uma Conferência Internacional sobre Educação Bilingue em Timor-Leste

3 Ajudar as Crianças a Aprender:


Educação Multilingue
3.1 Língua e a sua Relação com a não ser usada como língua de instrução nas escolas. As
línguas não desaparecem do dia para a noite. Existem
Educação
sinais de alarme antecipados, incluindo o de uma
língua não fazer parte do sistema de educação, fazendo
“Qualquer ferramenta tem usos múltiplos. A língua…
com que as crianças não a possam aprender ou não
tanto pode ser uma ponte como uma barreira.”
conheçam nada sobre a sua própria língua na escola.
(Shane Tourtellotte 2006 ).11
A língua é importante na educação, na medida que é a
ferramenta que os professores utilizam para comunicar com
Um terço das línguas mundiais encontram-se na
os alunos. Existem três principais formas de usar a língua
Ásia (aproximadamente 2200 de 6000). Noventa e
na educação, sendo todas elas importantes. Estas são:
seis por cento das línguas mundiais são faladas por
apenas 4% da população mundial. As línguas são
1. Língua de instrução (Lol)
repositórios culturais, sendo muito importantes para
2. Língua como disciplina de estudo (isto é, aprendendo
a sustentabilidade cultural. Muitas línguas estão a
uma língua estrangeira ou estudando uma língua mais
desaparecer e é possível que no final do século apenas
profundamente), e
restem cerca de 600 (10%). Quando as línguas se
3. Língua de alfabetização (isto é, a língua que uma
perdem, perdemos diversidade e conhecimento humano.
pessoa utiliza para aprender a ler e a escrever).
A língua faz parte da identidade nacional e a identidade
e a diversidade cultural são importantes. Se as línguas e
Todos os três usos da língua são importantes, mas
as culturas são protegidas podemos assegurar a nossa
a forma e o momento em que cada língua é usada nas
diversidade e sustentabilidade linguística e cultural. A
três formas tem implicações na forma como as crianças
educação deveria representar a diversidade cultural de
irão aprender. Existe uma evidência empírica global
um país, o que inclui a diversidade linguística.12
que mostra que as pessoas necessitam em média de
As línguas desaparecem muitas vezes devido a
5 a 6 anos para conceptualizar (pensar) numa segunda
atitudes nos sistemas educativos, particularmente
língua. Isto afecta quer estudantes quer professores e
quando as línguas não são escolhidas como línguas de
tem implicações para a introdução e o ensino de uma
ensino. Só a Indonésia possui 748 línguas diferentes. A
segunda (e terceira) língua.
língua Javanesa é muito rica culturalmente. No entanto,
esta irá perder-se caso a língua Javanesa continuar a

11 Shane Tourtellotte em “String of Pearls”, uma história de ficção cientifica de Analog, 7/8, 2006. Esta citação foi partilhada por vários oradores na conferência.
12 Dr. Sheldon Shaeffer, Representante Regional Residente da UNESCO, sedeado em Bangkok, apresentou no seu discurso na conferência.

12
3.2 A melhor forma das crianças língua(s) oficial(ais)/nacional(ais).
As crianças aprendem a ler apenas uma vez e
aprenderem
fazê-lo na língua materna ajuda-as a aprender esta
aptidão adequadamente. A investigação mostra que
“Devemos pensar acerca das crianças. Elas são
as crianças aprendem melhor na sua primeira língua
a prioridade e ajudá-las a aprender melhor é o
durante, pelo menos, os primeiros três anos escolares
que devemos fazer” (Comentário feito por um
da educação formal. Uma vez adquiridas, as aptidões
participante na conferência durante a sessão de
aprendidas na primeira língua podem ser transferidas
perguntas e respostas).
para outras línguas. A existência de uma forte literacia
Em contextos multilingues existem duas abordagens e uma educação básica assente na língua materna ajuda
comuns para ensinar as línguas oficiais/nacionais: as crianças a construir uma base sólida e ajuda-as a
construir uma ponte entre a casa e a escola (ver Fig.
• O modelo de submersão, onde toda a instrução é
3.1). Para obter um bom resultado da aprendizagem,
realizada na(s) língua(s) oficial(ais)/nacional(ais) a partir
é importante começar o ensino a partir do conhecido
do momento que as crianças entram para a escola.
seguindo para o desconhecido.
• O modelo de transição, em que as crianças iniciam
Existem três aspectos a ter em conta na
a sua educação na sua língua materna e depois
aprendizagem de uma segunda ou terceira língua: o
aprendem a(s) língua(s) oficial(ais)/nacional(ais) e
conteúdo da aprendizagem, a aprendizagem de novas
transitam para esta de forma a poderem efectuar a
línguas e a aprendizagem para a literacia. É mais fácil
sua instrução na(s) língua(s) oficial(ais)/nacional(ais) a
para as crianças aprenderem se estes três aspectos
partir do 3º ano.
forem desenvolvidos separadamente. O desempenho
Este segundo modelo é conhecido como a educação das crianças é melhor se não tiverem de aprender
multilingue baseada na língua materna. Cinco décadas novas palavras e línguas ao mesmo tempo que tentam
de investigação acerca da educação multilingue aprender novos conteúdos curriculares. No programa
baseada na língua materna (o modelo de transição) tem linguístico Lubuagan Kalinga nas Filipinas, todos os
empiricamente provado várias vezes e em muitos países novos conteúdos dos primeiros anos escolares são
que a educação e a alfabetização desde cedo deveriam ensinados na língua materna. Um dos participantes
ser providenciadas na primeira língua da criança – a do grupo de discussão sugeriu que, no âmbito desta
sua língua materna – de forma a adquirir os melhores investigação, a abordagem à introdução das línguas
resultados educacionais e uma melhor fluência na(s) oficiais em Timor-Leste fosse revista.

Caixa 3.1 O que é uma educação multilingue baseada na língua materna?

• Uma educação que promove uma instrução e literacia inicial na língua materna e melhora a qualidade
educacional através da construção de um conhecimento e experiência dos formandos e professores.
• Uma educação que muitas vezes permite a exclusão de grupos linguísticos dos estilos de vida
predominantes sem os forçar a deixar para trás a sua identidade linguística e étnica.
• Uma educação que permite aos alunos excluídos por motivos linguísticos ganhar fluência e confiança na
fala, leitura e escrita da língua nacional (e depois em línguas internacionais) e de participar totalmente e
de contribuir para o desenvolvimento nacional económico e social.

13
Ajudar as Crianças a Aprender: Uma Conferência Internacional sobre Educação Bilingue em Timor-Leste

Fig. 3.1. Educação multilingue baseada na língua materna: uma ponte entre casa e escola.

Ponte superior: os alunos cuja


língua materna é a língua de
instrução e alfabetização no sistema
de ensino: podem atravessar o rio
facilmente, fazendo a ligação entre
casa e escola.

Ponte inferior: os alunos que não


falam a língua adoptada na escola,
a partir do momento que entram
na escola, esforçam-se para
efectuarem a transição entre casa
e escola.

Um fundamento sólido na primeira língua


da criança permite a construção de uma
ponte forte entre casa e escola.

14
Caixa 3.2. Um modelo de educação multilingue “Ideal”

Os modelos de educação multilingue que constroem uma ponte entre a língua materna e a(s) língua(s)
oficial(ais)/nacional(ais) podem apresentar diversas formas. O modelo “ideal” apresentado em baixo na Fig. 3.2
foi construído tendo por base décadas de investigação global. Aparece na publicação da UNESCO “Promoting
Literacy in Multilingual Settings” de 2007 e foi apresentado na conferência pelo Sr. Cliff Meyers, Conselheiro
para a Educação Regional da UNICEF. Este modelo é considerado como ideal na medida em que se baseia na
investigação e nas melhores práticas de modelos de implementação que fornecem um modelo óptimo para
crianças aprenderem uma língua oficial/nacional. Contudo, este modelo necessita de ser adaptado ao contexto
para que possa ser implementado em Timor-Leste, particularmente pelo facto de existirem duas línguas oficiais/
nacionais, em vez de apenas uma, que os estudantes necessitam de aprender.
Fig. 3.2 Um modelo “Ideal” de educação multilingue baseado na língua materna
• KG1 é o primeiro ano de infantário, G1 é o 1º ano e assim
G6 L1 (LoI + subject) L2 (LoI + subject) adiante.
• L1 é a língua materna.
G5 L1 (LoI + subject) L2 (LoI + subject) • L2 é a segunda língua, normalmente a língua oficial/
nacional
Primary Level

G4 L1 (LoI + subject) L2 (LoI + L2SL) • L2SL é a segunda língua (língua oficial/nacional) ensinada
como segunda língua (isto é, como língua estrangeira,
G3 L1 (LoI) L2SL que difere ligeiramente do quando é considerada como
uma disciplina de estudo).
G2 L1 (LoI) L2SL • Lol é a língua de instrução, isto é, a língua que o
(oral + written) professor fala enquanto ensina as disciplinas.
• Subject refere-se à língua que está a ser ensinada como
G1 L1 (LoI, literacy) L2SL (oral) disciplina de estudo.
• Literacy refere-se à língua utilizada para ensinar a leitura
KG2 L1 (LoI, literacy) L2SL e a escrita, e a figura mostra que ambas deverão ser
Pre-primary

(oral)
ensinadas na língua materna.
Level

KG1 L1 (LoI) • Os blocos de cada língua estão relacionados com o tempo


gasto na aprendizagem ou no ensino de cada língua.

O uso de cada língua está relacionado com todas as disciplinas. Por exemplo, se em ambos os anos do infantário
(KG1 e KG2) e no 1º ano (G1), a língua materna é usada como língua de instrução em todas as disciplinas –
por exemplo em matemática, ciências, etc. – a língua oficial/nacional é ensinada como segunda língua. Nos
primeiros dois a três anos de educação apenas a língua materna é escrita, enquanto que a língua oficial/nacional
é leccionada como língua estrangeira, sendo a instrução apenas realizada oralmente. A alfabetização é realizada
na língua materna e, gradualmente, é introduzida a língua oficial/nacional, primeiro como segunda língua e no
4º ano também como língua de instrução. No 5ºano, metade das disciplinas serão leccionadas na língua oficial/
nacional e a outra metade na língua materna (por exemplo as ciências na língua oficial/nacional e a matemática
na língua materna), tendo os estudantes de estudar ambas as línguas também como disciplinas. Após o ensino
primário, o ensino poderá continuar a ser realizado em ambas as línguas ou poderá ser efectuado através de uma
transição completa de todo o ensino para a língua oficial/nacional. Num modelo ideal de educação multilingue
baseado na língua materna, as crianças serão fluentes na língua oficial/nacional no final do ensino primário.

15
Ajudar as Crianças a Aprender: Uma Conferência Internacional sobre Educação Bilingue em Timor-Leste

CARE International
3.3 Benefícios da Educação Uma das razões para promover uma educação
multilingue baseada na língua é dar a todos as crianças
Multilingue
um igual começo, independentemente da língua que
aprendem em casa.
Existem muitos benefícios associados à educação
multilingue baseada na língua materna:
“As crianças aprendem melhor se iniciarem a
• Maiores taxas de matrículas
aprendizagem na sua língua materna.” (Dra. Donna
• Menores taxas de abandono (um dos motivos comuns
Kay LeCzel)
para o abandono escolar nos primeiros anos de
Durante a discussão de um dos grupos de trabalho,
escolaridade tem a ver com a língua; as crianças que
uma das participantes, representando Mary McKillop
falam uma língua materna diferente da língua de
Sisters em Timor-Leste, partilhou a sua experiência de
ensino têm elevadas taxas de abandono escolar)
trabalho, de 21 anos, numa comunidade Aborígene na
• Menores taxas de repetição para as crianças que
Austrália. Ela e outras irmãs introduziram um programa
necessitam de repetir certos anos escolares
bilingue, ensinando crianças aborígenes na sua língua
• Maiores taxas de sucesso para as raparigas
materna e em Inglês durante os primeiros três anos
permanecerem na educação
escolares. As crianças do 3º ano do programa bilingue
• Maiores taxas de participação dos pais e da
alcançaram aproximadamente os mesmos resultados
comunidade na educação das crianças
educativos que as crianças que apenas estudavam em
• Pode melhorar a relação entre líderes políticos e uma
Inglês. Porém, nos 4º, 5º e 6º anos, algumas das crianças
população multilingue
no programa bilingue estavam com dois anos de avanço
• Conduz a uma maior proficiência e fluência em
perante os seu colegas.
línguas oficiais/nacionais (e também em línguas
Num programa de educação bilingue realizado
internacionais, se estas forem desenvolvidas) se a
numa parte da China, as crianças que receberam uma
instrução inicial for realizada na língua materna
educação inicial na língua Dong e transitaram para o
• O envolvimento da comunidade na educação é
Chinês tiveram melhores resultados do que todos os
muito importante - Envolvendo pais, professores
seus colegas que estudaram Chinês desde o início da
e comunidade na educação ajuda as crianças a
sua escolaridade:
aprender. Existe uma maior participação quando o
“A escola primária de Miolan tem investigado os
ensino inicial é efectuado na língua materna

16
filhos e paiss envolvidos no projecto. Descobrimos que apresentação na conferência pela Dra. Sheldon Shaeffer,
essas crianças que estudaram primeiro Dong e, de Directora Regional da Ásia e do Pacífico da UNESCO,
seguida, o Mandarim Chinês estão num nível superior Secretária de Educação em Banguecoque)
relativamente aos que nunca estudaram Dong. Isso
aplica-se não só à leitura e à escrita Pinyin Chinesa, à A questão empírica tem sido resolvida – em todo o
matemática simples e à expressão verbal, mas também mundo tem sido provado em muitas culturas e contextos
à música, educação física e arte. Em todos esses que a alfabetização na língua materna é muito melhor
aspectos, as crianças que não estudaram Dong não do que iniciar a escolaridade numa segunda língua em
estão ao nível das que o estudaram. As que estudaram termos de melhores resultados educacionais. O que é
Dong são mais independentes e têm mais iniciativa interessante é aquilo que os políticos decidem fazer com
no que diz respeito ao estudo e à vida em geral” este conhecimento. Na secção seguinte destacam-se
(Saima Township, Rongiang County, 20 de Março de diferentes abordagens para o uso das línguas maternas
2005, traduzido de Chinês por D. N. Geary; Citação da em diversas regiões e em todo o mundo.

Quadro 3.3 Português e Línguas Maternas

Foram expressas algumas preocupações durante a conferência relativas à introdução das línguas maternas
como forma de remoção do Português de Timor-Leste ou adiamento da introdução do Português em todo o país.
A maior parte do debate foi aceso, sólido e intenso.

O objectivo da conferência não é o de remover o Português de Timor-Leste ou adiar a sua introdução. O


Português é uma das duas línguas oficiais (juntamente com o Tétum) definidas na Constituição de Timor-Leste. A
Constituição é totalmente respeitada pelo Ministério da Educação e pelos apoiantes da conferência.

Se as crianças aprenderem primeiro na sua língua materna, os seus resultados na educação são em geral muito
melhores do que os das crianças que são educadas numa língua com a qual não se sentem familiarizados. É
vital reconhecer que nesta abordagem eles terão muito mais possibilidades de se tornarem proficientes em
Português. Isto deve-se ao facto de eles não estarem a tentar aprender novos conceitos ao mesmo tempo que
aprendem uma nova língua. Serão ensinados em Português como uma segunda língua, dando-lhes as aptidões
necessárias para aprender melhor o Português. As crianças educadas primeiro na sua língua materna têm
também uma maior probabilidade de ficar mais tempo na escola e, consequentemente, desenvolver capacidades
linguísticas mais avançadas do que as outras crianças.

O objectivo é criar uma ponte e não substituir línguas nacionais/oficiais.

“Poderemos ter uma constituição bonita e políticas bonitas, mas se não forem para o bem das
crianças, não sei… As línguas maternas são para o bem das crianças e não para eliminar outra língua”
(Comentário efectuado por um dos participantes da conferencia na sessão de perguntas e respostas no
terceiro dia)

17
Ajudar as Crianças a Aprender: Uma Conferência Internacional sobre Educação Bilingue em Timor-Leste

4 Ensinar em Contextos Multiculturais:


Implicações para os Professores e
Formação de Professores
4.1 O que precisam os professores?
A relação entre os professores e os estudantes é
vital para a educação. Os professores precisam
de saber teorias de aprendizagem da língua para
entenderem como é que as crianças adquirem e
aprendem línguas. As crianças aprendem línguas em
casa, mas a aprendizagem é baseada numa aquisição
sólida. Os professores precisam de entender como é
que as crianças aprendem, por exemplo, as crianças
precisam de momentos de silêncio para absorver a nova
UNICEF Timor-Leste/2008/Arakawa

informação. Os professores precisam de:

• Conhecimento
− De teorias de aprendizagem da língua (aquisição e
aprendizagem);
Muitas vezes as políticas acerca das línguas reflectem − Das necessidades das crianças (“momento de
uma situação ideal e, frequentemente, essas politicas silêncio”, taxas de repetição, quando e como
não reflectem a realidade da sala de aula. Os corrigir erros);
professores em todo o mundo estão a definir soluções − Da língua materna da criança ou primeira língua;
práticas para lidar com a realidade da sala de aula − Fluência na língua nacional/oficial e língua de
em termos de língua de instrução e, se necessário, instrução;
produzem os seus próprios materiais. − Métodos directos de instrução.

“Se vamos desenvolver as nossas línguas maternas • Aptidões


em Timor-Leste, precisamos de desenvolver os − Capacidade de avaliar o nível de domínio da língua
recursos humanos, os nossos professores. Os dos alunos;
nossos professores definem como podemos − Capacidade de utilizar uma vasta variedade de
desenvolver a nossa língua materna” (Participante técnicas de aprendizagem;
no Grupo de Trabalho três no segundo dia) − Capacidade de diferenciar estratégias de ensino

18
baseadas nos diferentes níveis de domínio da Noutros locais, recrutar professores com
língua entre os alunos; competências adequadas e retê-los nas escolas tem
− Capacidade de elaborar e usar materiais sido um desafio, especialmente se as escolas estiverem
pedagógicos localmente disponíveis. em áreas remotas. Em Timor-Leste, a maioria dos
professores são contratados localmente e nas zonas
• Atitudes remotas a questão é que muitos dos professores
− Compreensão e respeito pelas línguas locais; localmente recrutados são insuficientemente
− Sensibilidade pelas normas culturais dos seus qualificados. Para um programa multilingue baseado em
alunos e pais; línguas maternas, desde que seja dada uma formação
− Respeito pelas necessidades da política de língua adequada, é preferível contratar professores localmente
actual; do que contratar professores de outras áreas. Isto
deve-se ao facto de demorar muito mais tempo até
• Materiais e Formação que uma pessoa se torne proficiente numa língua (a
− Os professores precisam de bons materiais, estes, língua materna de uma determinada região), comparado
ou são providenciados ou as aptidões necessárias com o tempo muito mais curto necessário a que se
para produzir os materiais adequados desenvolvam competências de ensino. No Camboja e na
− Os professores precisam de formação para Papua Nova Guiné, os professores recebem formação
desenvolver o conhecimento, aptidões e atitudes intensiva e apoio, bem como são sujeitos a uma
mencionadas aqui monitorização e supervisão contínua, incluindo os das
− Os professores precisam de ser formados no uso zonas remotas que possuem um nível de educação mais
de línguas maternas como línguas de instrução; baixo. No modelo de Camboja, a supervisão desempenha
saber uma língua materna não é o mesmo que um papel importante; há visitas regulares às escolas e
saber usá-la como uma ferramenta de ensino. apoio na sala de aula dado por supervisores qualificados.
(Ver os estudos de caso na secção seis deste relatório
para mais informações sobre as abordagens à formação
4.2 Implicações para a Formação de de professores nestes dois países).
Professores e Apoio Os professores precisam de formação sobre
como ensinar línguas como línguas estrangeiras. São
De forma a ensinar com sucesso uma língua materna necessárias competências e metodologias particulares,
com base num programa de educação multilingue, as as quais devem ser desenvolvidas através da formação
aptidões dos professores precisam de ser melhoradas de professores. Os professores também precisam que
em três áreas chave: as suas competências linguísticas sejam desenvolvidas
de forma a se tornarem fluentes tanto na língua materna
• Ensino de língua estrangeira; dos seus alunos como nas línguas de transição na
• Proficiência em línguas maternas e línguas oficiais/ escola. Os professores precisam tanto de formação
nacionais; inicial como de formação em exercício.
• Formação sobre como produzir os seus próprios Na Namíbia, onde os três primeiros anos de escola
recursos; 13 são realizados na língua materna, sendo o Inglês

13 Isto foi apresentado e reiterado por vários oradores tendo também sido discutido nos grupos de trabalho.

19
Ajudar as Crianças a Aprender: Uma Conferência Internacional sobre Educação Bilingue em Timor-Leste

ensinado como língua estrangeira. O nível 4 é um ano de Mayan, o que atribuí competências tanto para os
transição, em que o Inglês se torna a língua de instrução professores como para os alunos. Na Guatemala, ainda
e, a partir deste ponto, as línguas maternas tornam-se com maior impacto do que os materiais produzidos pelos
uma disciplina que os alunos podem ter em vez de uma professores, são os materiais produzidos pelos alunos.
língua de instrução. A formação de professores é toda Num programa, os alunos criaram livros de histórias e
dada em Inglês, mas as línguas maternas são ensinadas um calendário. Os livros foram publicados por editores
como disciplinas às pessoas em formação para serem Guatemaltecos e vendidos.
professores. Os estabelecimentos de formação de No Egipto, materiais na língua materna – livros
professores estão localizados nas áreas onde a principal grandes para os professores lerem aos alunos e livros
língua materna para essa região é falada. pequenos para os alunos – foram produzidos por
Na Bolívia, que tem uma politica de educação bilingue, editores Egípcios e comprados pela USAID para um
existe um apoio alargado aos professores. Há uma rede programa que estavam a apoiar. Tinha como objectivo
de apoio activa de 500 professores conselheiros de todo não só criar materiais de qualidade para a leitura na
o país; recebem formação especial para dar apoio aos língua materna, mas também estimular a publicação de
professores em exercício. Os conselheiros recebem dos livros infantis por editores Egípcios.
seus colegas, aulas nas línguas locais. Assim que os Na Papua Nova Guiné há materiais padrão –
conselheiros aprendem as línguas, têm que aprender livros mestre ou shell books – que os professores
como ensiná-las. É-lhes exigido que desenhem módulos posteriormente traduzem para as línguas dos seus alunos
de aprendizagem nas línguas locais. com vista à utilização na sala de aula. Tendo por base
uma estrutura da história principal providenciada pelo
Ministério da Educação, para que estes livros alcançem
4.3 Concebendo Materiais os seus objectivos de aprendizagem. Este shell book é na
realidade um modelo e a história pode ser traduzida pelo
É importante que os materiais estejam disponíveis professor para as línguas locais e os detalhes da história
nas línguas locais para que um programa de educação podem ser adaptados para incluir referências a culturas
multilingue com base nas línguas maternas funcione locais. Assim como os materiais produzidos centralmente
efectivamente. Os professores e comunidades em todo que podem ser adaptados à cultura e contexto local dos
o mundo, desenham os seus próprios materiais nas estudantes, outros materiais são desenhados localmente
línguas maternas. pelos professores para utilização na sua própria sala de
Na Namíbia foram publicados livros de histórias aula. (É apresentada mais informação nos estudos de
na língua oficial/nacional (Inglês) e nas quatro línguas caso na secção seis deste relatório).
maternas, sendo alguns produzidos em formato Nalguns locais, particularmente em áreas rurais
bilingue. Os livros foram escritos por alunos-professores remotas, há pequenas escolas – filiais – com salas de
e professores durante workshops de uma semana, aula de multi-niveis. Recrutar professores e desenvolver
ilustrados pelos estudantes da escola nacional de materiais para estas escolas pode ser desafiante. Na
arte, traduzidos pelo Instituto Nacional de Língua e Guatemala, a idade oficial das crianças a frequentar
publicados no país.Isto resultou em materiais de alta o ensino primário situa-se entre os sete e os 13 anos.
qualidade produzidos em línguas locais. No entanto, algumas crianças mais velhas e mais
Os materiais produzidos pelos professores dão-lhes jovens também a frequentam. Portanto, na prática,
poder para direccionar o programa na sala de aula. Na situa-se entre os quatro e os 15 anos. São necessárias
Guatemala, os professores viraram-se para conteúdos metodologias diferentes para idades e níveis diferentes

20
de forma a tornar possível ensinar este leque de idades. materiais bilingues em Tétum e em Português, com
Na Guatemala, materiais de auto-aprendizagem (guias conteúdo Timorense. As May Mckillop sisters e a Timor
de auto-aprendizagem), foram criados para os alunos, Aid também produzem materiais de alta qualidade em
para responder a esta questão do leque de idades e Tétum. No entanto, é necessário produzir materiais
variedade de níveis na sala de aula. semelhantes noutras línguas de Timor.
Em Timor-Leste, as revistas Lafaek são excelentes

Caixa 4.1 Ensino e Línguas Maternas em Timor-Leste

Como é que os professores em Timor-Leste usam as línguas maternas na sala de aula?


• Como língua de instrução, traduzindo os conteúdos para a língua materna
• Usando recursos locais
• Facilitando a aprendizagem da criança usando a língua materna
• Conservando as línguas locais através do uso das línguas maternas nas actividades na sala de aula

O que os professores em Timor-Leste dizem que precisam


• As línguas maternas são necessárias para o processo de aprendizagem das crianças do primeiro ao terceiro ano
• Precisam de desenvolver materiais de ensino na língua materna das crianças
• Precisam de formação adequada e de desenvolver manuais para professores
• O apoio das ONGs, parceiros e o Governo, é necessário para o desenvolvimento de manuais noutras línguas
maternas
• O INL precisa de desenvolver ortografias para todas as línguas Timorenses, padronizando-as
• Desenvolver recursos locais como seja: pequenas histórias, poemas, canções etc. que possam tornar-se
materiais de ensino
• Formar professores no desenvolvimento de materiais didácticos (ensino) nas línguas maternas
• Desenvolver um sistema de comunicação para facilitar a comunicação entre professores e alunos na sala de aula.

Como é que os professores em Timor-Leste podem ensinar usando a língua materna?


• Usar muitos materiais
• Usar recursos locais – não há necessidade de importar muitos recursos
• Desenvolver a história local como material de ensino
Fonte: Discussão do Grupo de Trabalho no 2º dia da Conferência

4.4 Desafios e Oportunidades do


ensino nas Línguas Maternas
Existem, desafios no ensino de línguas maternas, alcançados por uma abordagem à educação e à literacia
implicações significativas na formação de professores multilingue com base na língua materna.
e resultados positivos importantes que podem ser

21
Ajudar as Crianças a Aprender: Uma Conferência Internacional sobre Educação Bilingue em Timor-Leste

Caixa 4.2 Desafios Comuns Enfrentados no Ensino da Língua Materna e Soluções Viáveis/Oportunidades

Desafio Solução/Oportunidade
Falta de ortografias Para as línguas orais devem ser desenvolvidos alfabetos de forma relativamente fácil, usando
metodologias já existentes e trabalhando com nativos na língua, preferencialmente usando as
mesmas letras da língua oficial/nacional. Os estudos internacionais demonstram que apenas um
número muito pequeno de palavras são necessárias para iniciar a leitura e a escrita, sendo que
apenas será necessário uma ortografia básica que pode ser organizada com brevidade permitindo
o início da educação na língua materna muito rapidamente.
Falta de vocabulário desenvolvido As línguas podem ser desenvolvidas formando novo vocabulário através da construcção de
em muitas línguas palavras compostas e recorrendo ao empréstimo de palavras de outras línguas. As ideias
complexas podem ser explicadas em línguas que não possuam vocabulário científico. É um mito
colonial afirmar que as línguas sem escrita são incapazes de expressar conceitos complexos.
Um dos oradores na conferência explicou como o Presidente do Senegal traduziu a Teoria da
Relatividade de Einstein na língua local – Wolof – em 1960
Custo de produzir materiais nas As Comunidades e os professores podem trabalhar conjuntamente na produção de materiais
línguas maternas/necessidade de apropriados.
materiais didácticos em línguas
maternas
Preocupação dos pais com a O Ministério da Educação e/ou outros grupos podem explicar aos pais de que forma a proficiência
possibilidade de que os seus filhos da criança na língua materna pode levar a uma maior fluência na língua oficial/nacional e línguas
permanecerem marginalizados por francas.
aprenderem na língua materna
Escolher qual será a língua de O governo da Papua Nova Guiné deu esta escolha às comunidades, especialmente porque de
instrução tempo a tempo várias línguas são faladas na mesma comunidade; ou diferentes salas de aula
poderão ter diferentes línguas.
Receio da não unidade caso os Usar múltiplas línguas pode na realidade providenciar grande unidade (“Unidade na nossa
cidadãos iniciem a sua educação Diversidade” é o mote que sintetiza a política de língua da Papua Nova Guiné). As pessoas que
em línguas diferentes. são frequentemente marginalizadas devido à sua língua e falta de competência na língua oficial/
nacional podem ser incluídas nas actividades da nação e a sua competência na língua oficial/
nacional pode aumentar

A língua é um tema de discórdia em todo o mundo. aprendizagem na sua língua materna, eles serão melhores
Há uma crença generalizada de que as línguas locais a falar a língua oficial e terão melhores resultados na
não são devidamente desenvolvidas para serem aprendizagem. Para iniciar um programa de educação
adequadas à escolarização ou capazes de expressar multilingue com base na língua materna, é necessário
conceitos científicos ou abstractos. Mas se as línguas apenas um pequeno número de palavras. A ortografia
locais não forem usadas em novos domínios então não pode ser desenvolvida ao longo do ensino nessa língua.
poderão ser modernizadas. Todas as línguas são ricas e Ao longo da conferência foi expressa a preocupação sobre
capazes de expressar ideias complexas. o custo do ensino em mais de 16 línguas em Timor-Leste,
Existem receios em relação ao ensino de muitas particularmente em termos de produção de material. As
línguas nas escolas por todo o país, especialmente quando experiências de outros países mostram que isto pode ser
os professores e os alunos já se debatem com o uso das feito facilmente e de forma económica, com os professores
línguas oficiais. Este é um problema vivido em Timor- locais a criarem os seus próprios materiais ou adaptando
Leste e não só. No entanto, se os estudantes, antes de e traduzindo os seus materiais a partir de livros mestre ou
transitarem para as línguas oficiais/nacionais, iniciam a shell books produzidos centralmente.

22
5 Implicações para o Desenvolvimento
da Política de Língua
A Política é o meio através do qual o Governo traduz as 4. Revisão de programas ou da legislação para
suas visões políticas em programas que dêem resultados. problemas específicos.
Uma política em si não é uma lei. Uma política de educação 5. Directivas, currículos administrativos, cartas para
linguística pode apoiar ou ignorar o multilinguismo e a todos os directores escolares, etc.14
multi-alfabetização. A língua reflecte o meio social, cultural,
político e, por vezes, o ambiente económico. Existem cinco Os países podem fazer bastante para apoiar a
níveis políticos (listados do maior para o menor): educação multilingue e muitas dessas mudanças apenas
requerem um nível baixo de mudança política, sobretudo
1. Principais declarações políticas a partir da Constituição. tendo em conta que a Constituição de Timor-Leste
2. Recomendações a partir de estratégias globais. declara que todas as línguas devem ser valorizadas e
3. Programas ou legislação para problemas específicos. desenvolvidas.

Caixa 5.1 A Política faz a diferença: estudos caso de abordagens à educação multilingue

Bolívia – Onde a Política de Língua é um sucesso. Existem 35 línguas Ameríndias faladas e 4 línguas oficiais,
sendo todas escritas (três são línguas locais e a quarta é o Espanhol). Na reforma da educação Boliviana, as quatro
línguas são usadas como língua de instrução e ensinadas como línguas estrangeiras. Foram criados módulos de
aprendizagem, em que cada uma das quatro línguas é usada como língua de ensino e como língua estrangeira.
Com esta nova abordagem, os resultados das aprendizagens das crianças foram fortemente melhorados.

Quénia – Onde a Política de Língua constitui um problema. Embora existam mais de 40 línguas, a maioria
destas não são reconhecidas oficialmente; O Inglês é a língua oficial e o Kiswahili a língua nacional. O Inglês
é a língua de ensino nas escolas, mas as crianças de escolas pobres ou onde o Inglês não é utilizado em casa
não dispõem de modelos padrão de Inglês. Muitas crianças chumbam os exames que são efectuados tendo por
base esse padrão em Inglês. A maioria das crianças não continua a sua educação após o 8º ano.

Libéria – Onde nenhuma Política de Língua constitui um problema. Embora não exista nenhuma política de
língua, o Inglês Liberiano é a língua de ensino de-facto. Muitos dos professores têm fracas competências
em inglês, pelo que afecta a sua capacidade para ensinar os alunos de forma eficaz. Os resultados da
aprendizagem são pobres.

14 Este resumo baseia-se num resumo das melhores práticas mundiais, conforme foi apresentado na conferência pelo Sr. Cliff Meyers, Conselheiro Regional de
Educação do UNICEF.

23
Ajudar as Crianças a Aprender: Uma Conferência Internacional sobre Educação Bilingue em Timor-Leste

UNICEF Timor-Leste/2008/Vas
Devido aos constrangimentos políticos e múltiplas maioria fale a língua indígena. Existem mais de 20
pressões sobre o governo, muitas das vezes, as línguas, predominando quatro destas. Os grupos mayanos
necessidades tecnológicas ideais necessitam de ser perfazem quase metade da população, porém apenas uma
ajustadas para que se adequem à realidade política. O minoria tem acesso a uma educação bilingue.
modelo técnico ideal permite às crianças uma transição Na China, um programa de educação multilingue
durante o ensino primário da sua língua materna para a baseado na língua materna foi implementado com a
língua oficial/nacional. Isto representa uma longa ponte população Dong. Nos primeiros quatro semestres de
entre a casa e a escola, usando a metáfora ilustrada estudo o Dong é utilizado como língua de instrução para
anteriormente neste relatório. Papua Nova Guiné tem a leitura e para a escrita, aritmética, vida comunitária
implementado esta técnica ‘ideal’;., Contudo, muitos e cultura. No segundo ano do infantário é introduzido
governos e agências que têm implementado programas o chinês oral, seguindo-se a escrita chinesa no 1º
de educação multilingue baseados na língua materna ano escolar. No 2º ao 6º ano, o Chinês e o Dong são
têm usado pontes mais curtas devido a pressões utilizados para o ensino, com o uso crescente do Chinês.
políticas. Por exemplo, na Camboja o Governo nacional No 5º ano é introduzido o Inglês. No final da escola
permitiu que o Departamento Provincial de Educação e primária, os estudantes são proficientes em Dong e
a CARE Internacional implementassem um programa de Chinês e iniciaram também a aprendizagem do inglês.
transição de três anos, fazendo com que os estudantes Algumas das regiões vizinhas de Timor-Leste
transitem da sua língua materna para a língua oficial/ implementaram políticas de educação multilingues
nacional. baseadas na língua materna. Cambodja, Tailândia e
Existem muitas experiências em vários países do Vietname implementaram (quer universalmente ou em
mundo com diferentes modelos de política disponíveis, regiões específicas) as línguas maternas como língua de
através dos quais Timor-Leste poderá aprender. Na instrução no ensino pré-primário e do 1º ao 3º ano, sendo
Guatemala, o Espanhol é a língua oficial, mas a as línguas oficiais/nacionais ensinadas como línguas
Constituição estipula que o Governo deverá respeitar estrangeiras durante os primeiros anos escolares. Para o
as línguas, línguas locais e cultura Mayana. Existe um 3º e anos seguintes, a língua de ensino é a língua oficial.
acordo de que as pessoas que falam línguas indígenas Nestes países as línguas maternas são também usadas
receberão uma educação bilingue nos locais onde a na Educação Não-formal.

24
Caixa 5.2 Algumas questões a considerar em Timor-Leste

• Quais as implicações culturais, sociais e económicas da política actual?


• Como é que os elementos dessas implicações / limitações / apoios serão considerados na implementação de
política?
• Existem lições a aprender / aplicar das políticas de língua desenvolvidas em sistemas de educação
semelhantes?
• Que literatura está disponível actualmente na(s) língua(s) proposta(s)?
• Pode essa literatura ser inserida no programa de instrução?
• Qual é a capacidade de ensino actual face à nova política?
• Que planos existem para que a capacidade linguística dos professores corresponda às necessidades
de implementação de políticas (quer antes de desempenharem as suas funções quer ao longo do
desenvolvimento profissional)?
• Como é que o currículo didáctico e os materiais de ensino serão desenvolvidos de forma a apoiar esta nova
política?
• Como será a publicação, distribuição e o desenvolvimento profissional no uso de novos materiais?
• Quais são os planos relacionados com o acompanhamento / avaliação das políticas e as estratégias de
implementação?
• Que governo local e doadores internacionais de recursos serão necessários para apoiar a política de
implementação?

A língua nas políticas de educação pode mudar e


novos modelos são testados como iremos ver em maior
detalhe nos estudos de caso da próxima secção deste
documento.

25
Ajudar as Crianças a Aprender: Uma Conferência Internacional sobre Educação Bilingue em Timor-Leste

6 As Melhores Práticas e Lições


Aprendidas: Estudos de Caso
Aprofundados
6.1 Cambodja: Uma Abordagem a um Terras Altas falam um pouco da língua oficial/nacional,
mas muitos não a conhecem. O Governo do Cambodja
Projecto-Piloto
queria que os Povos das Terras Altas falassem a Língua
oficial/nacional, em parte, para permitir que o Governo
O Program Educativo das Comunidades das Terras Altas
desenvolvesse uma relação com os Povos dessas áreas
(Highland Community Education Program)
e também para melhorar a sua educação e qualidade
de vida, através do processo de acesso à informação e
Contexto
serviços do Governo. Os desafios nas comunidades das
O Sub-Secretário de Estado para a Educação, Sua Terras Altas estavam marcados pela falta de infra-
Excelência Sr. Chey Chap afirmou que existem algumas estruturas e um nível de educação baixa. É difícil enviar
semelhanças entre a situação de Timor-Leste agora e professores para áreas remotas devido às suas más
ao Cambodja depois de 1979. Depois do período do condições de vida. Aqueles que iniciaram o Programa
Khmer Rouge, existiam muito poucos professores no Educativo das Terras Baixas sentiram que muitas
país, muitos dos edifícios escolares eram utilizados para crianças desistiram no primeiro ano devido à barreira
outras funções ou estavam destruídos ou danificados. da Língua, dado não estarem a aprender na sua língua
Mais de 90% dos professores foram assassinados. materna.
E assim, depois de terminar a guerra, ao Cambodja
começou a partir do nada – nenhum edifício e muito O que fizeram
poucos professores qualificados.
Desde 1998, o Ministério da Educação, Juventude e
Em 1999, o governo do Cambodja assinou o acordo
Desportos (MEJD) tem vindo a desenvolver programas
“Educação para todos” (EPT) em Dakar no Senegal,
de Educação Não-Formal usando um modelo de
comprometendo-se a alcançar determinados objectivos
Educação bilingue. Desde 2002, a Care Internacional
até 2015. Isto constituiu quer um impulso quer um
trabalhou com o Governo no desenvolvimento de um
quadro para o envolvimento do Cambodja na educação
programa bilingue para a educação formal. Desta
bilingue, na medida em que esta é uma das estratégias
forma, surgiu o Programa Educativo das Terras Altas.
para alcançar os objectivos da EPT.
O Programa iniciou como projecto-piloto, começando
Existem 24 línguas no Cambodja. O Governo
com duas das principais línguas indígenas. O Governo
anunciou que a língua Khmer seria a língua oficial/
do Cambodja pretende que o ensino seja feito em
nacional e até recentemente é a única língua a ser
todas as línguas, mas o programa iniciou-se apenas
utilizada na Educação. Algumas das minorias étnicas das

26
com duas para permitir que fosse estabelecido um formação por parte do Governo e das Organizações Não
bom sistema nas escolas que participaram no projecto- Governamentais parceiras. Esta formação é dada na sua
piloto, incluindo aquelas que foram criadas como parte zona de residência. Recebem formação antes e durante
do projecto-piloto. Assim que o Programa esteja a o exercício das suas funções, incluindo a aprendizagem
funcionar bem com estas duas línguas, mais línguas para criar os seus próprios materiais de ensino. Muito
serão incluídas. Os resultados iniciais foram positivos: do curriculum nacional é irrelevante nas Terras Altas,
“aprendemos que se usarmos apenas a língua Khmer por isso a comunidade sugere tópicos que gostariam que
(a língua oficial/nacional) com as crianças indígenas, o as suas crianças estudassem e o curriculum nacional é
seu progresso de aprendizagem é muito lento” (Sr. Chey adaptado à realidade diária da criança.
Chap). Foram desenvolvidos materiais que se relacionam
com a vida dos Povos das Terras Altas, uma vez que
O modelo bilingue é descrito na Figura 6.1. As se assim não fosse as crianças estariam a aprender
percentagens referem-se ao tempo dedicado a cada coisas diferentes do ambiente que conhecem. Todos os
língua no curriculum. materiais pedagógicos são aprovados por uma Direcção
que é constituída pela Academia Real do Camboja (The
Figura 6.1 O modelo Bilingue usado no Camboja Royal Academy of Cambodja) e pelo MEJD antes de
serem utilizados na sala de aula. Os materiais reflectem
Língua Língua Língua o respeito pelas leis, politicas e regras Cambojanas. O
Ano Materna Oficial/ horário escolar é alterado para se adaptar à realidade
Nacional local, como por exemplo ao trabalho sazonal na
1º Ano 80% 20% agricultura e às tarefas domésticas.
2º Ano 60% 40% O governo trabalhou em estreita relação com as
3º Ano 30% 70% organizações Internacionais. Coopera com a Care
4º Ano 0% 100% Internacional, UNESCO e UNICEF. O Governo está a
desenvolver uma politica e linhas orientadoras e as
ONGs estão a implementar actividades e programas
Uma vez que as línguas das Terras Altas referidas não
tendo por base essas políticas e linhas orientadoras.
eram línguas escritas, foi utilizado o alfabeto khmer
O Programa tem vindo a ser implementado ao longo
para desenvolver uma ortografia para outras línguas
dos últimos seis anos e é ainda um trabalho em
Cambojanas. As escolas foram abertas inicialmente
desenvolvimento. O Ministério está a trabalhar
em seis comunidades remotas e, desde então, mais
lentamente na direcção de uma política.
escolas foram abertas. Cada escola tem uma Direcção
que gere todas as actividades escolares. Os membros
Resultados Chave
desta Direcção desempenham um papel na selecção
dos professores na comunidade. O Governo está a Após três anos do programa de educação bilingue, as
seleccionar professores da comunidade das Terras crianças estão a aprender mais rapidamente no 4º ano,
Altas para lá exercerem a sua função, dado que os dado que transitaram para a língua Khmer como língua
professores de outras áreas não desejarem lá residir. de instrução, o que foi parcialmente facilitado devido
Esperar que pessoas com fracas habilitações se tornem ao alfabeto ser o mesmo. Os resultados são uma taxa
professores tem os seus desafios. As pessoas que de aprovação maior, baixa taxa de desistência, 90% das
sabem ler e escrever são seleccionadas e todos recebem crianças estão agora matriculadas e as comunidades

27
Ajudar as Crianças a Aprender: Uma Conferência Internacional sobre Educação Bilingue em Timor-Leste

estão fortemente envolvidas na educação, sentem- quando a Papua Nova Guiné se tornou independente,
se parte da escola e das actividades desenvolvidas. herdou a política do “apenas-Inglês” nas escolas. Após
Os benefícios do Programa resultam no acesso das 10 Anos de independência, o governo apercebeu-se de
comunidades das Terras Altas à aprendizagem da língua que 85% da população é rural e não precisa do inglês
oficial/nacional e, através da melhoria da educação, na sua vida diária. Em 1986 a questão passou a ser
têm oportunidade de aumentar os níveis de rendimento “educação para quê?”. Muitas crianças abandonavam a
familiar. Neste momento, o MEJD está a replicar o escola depois de três ou quatro anos sendo praticamente
modelo em três províncias no nordeste do Cambodja analfabetos, desiludidos e desenquadrados por uma
em quatro línguas indígenas. A educação bilingue está velha política que apenas usava o inglês na Educação.
a ser usada tanto no ensino formal como não formal. O As comunidades por toda a Papua Nova Guiné
Programa Não-Formal engloba mais línguas. enfrentam grandes desafios ao terem que lidar com o
desajustamento social dos que abandonaram a escola.
Lições Aprendidas Esta tendência aumenta a cada ano e mais jovens,
rapazes e raparigas, abandonam o sistema de ensino.
1. É necessário apoio especial para manter os professores
em zonas remotas e isoladas. O Governo do Cambodja
O que fizeram
agora tem uma política especial e apoia os professores
nas áreas isoladas, dando-lhes apoio adicional. Nos anos 90, foi escrita uma nova política depois de
2. Recrutar professores das comunidades locais garante uma grande revisão do sistema educativo desenvolvido
que os professores dominem a língua materna e se no tempo colonial. Desde então, a Papua Nova Guiné
comprometam e estejam disponíveis para viver na tem vindo a implementar um programa de educação
área por um período longo. bilingue usando as línguas maternas por todo o país.
3. A implementação pode ser um desafio. Sua Excelência A politica de língua é orientada por uma agenda de
o Sr. Chey Chap, Sub-Secretário de Estado do MEJD alfabetização, competência matemática e identidade,
diz que “falar não é o mesmo que trabalhar. O bem como pela adesão a objectivos gerais como os da
trabalho é mais difícil do que a conversa.” EPT. Na Papua Nova Guiné, todas as línguas são apoiadas
4. Iniciar com um estudo-piloto poderá ser uma boa e desenvolvidas. Na politica de educação, a língua foi
abordagem para desenvolver um modelo que funcione redefinida para incluir competências em cinco áreas:
bem na prática. oralidade, escrita, leitura, audição e sentido do tacto. O
Inglês, a língua colonial, foi adoptado como uma das três
línguas oficiais/nacionais enquanto língua de instrução e
6.2 Papua Nova Guiné: Uma de aprendizagem ao nível primário, secundário e terciário.
Abordagem Nacional O novo modelo, principalmente para os três anos
do programa pré-escolar, é baseado numa abordagem
Contexto bilingue com base na língua materna. O ensino é feito
100% na língua materna nos três primeiros anos e,
A Papua Nova Guiné é a nação mais multilingue no em muitos casos, a língua que a criança fala em casa
mundo, com mais de 860 línguas. Hoje em dia, 350 facilita o processo de aprendizagem muito mais do que
das 860 línguas possuem forma escrita na Papua Nova as complexidades de uma língua estrangeira. À medida
Guiné. Existem três línguas que são usadas por muitos que as crianças progridem na sua educação, o ensino
cidadãos para comunicar entre aqueles que falam do Inglês aumenta em cada ano. O Inglês é usado tanto
línguas diferentes: Tok Pisin, Hiri Motu e Inglês. Em 1975

28
como disciplina de estudo como língua de instrução. formados para traduzir o quadro do curriculum nacional e
No 3º ano, cinco por cento do ano escolar é em Inglês desenvolver aulas com professores de cultura, recebendo
e 95% é ensinado numa língua materna. A transição posteriormente 28 unidades de auto-didáctica para
para a língua Inglesa demora seis anos. No 7º ano, completar a sua formação ao longo do ano. Estas 28
50% é em Inglês, no 8º ano os alunos são ensinados unidades de auto-didáctica, são divididas pelos 3 anos
100% em Inglês e têm exames nacionais em Inglês. O de formação, sendo este o tempo que demora a obter a
ensino primário termina com 8º ano. Depois do 8º ano, certificação em Ensino Elementar (CET). Normalmente,
os estudantes são encaminhados para programas de são dados oito livros aos professores em formação para
educação gerais ou programas profissionais. Ambas completar cada ano. O ensino dos alunos na língua
as vertentes são encorajadas pela política de língua a materna é feito apenas na parte da manhã (as chamadas
utilizar uma abordagem bilingue até ao 12º ano. escolas elementares), enquanto que na parte da tarde
O Governo não escolhe a língua de instrução; as espera-se que os professores aprendam por si próprios
pessoas numa dada escola seleccionarão a língua de através das unidades de auto-didáctica. Há também
instrução para as suas crianças e essa língua será a que alguma formação em grupo, na qual os professores (quer
domina nessa comunidade. Em áreas urbanas e outros em formação quer já graduados) trabalham em conjunto
locais com mais do que uma língua materna, a língua em workshops sobre o curriculum. Esta abordagem de
de instrução alterna entre as línguas maternas locais e várias aproximações assegura que os professores sejam
outras línguas que as crianças falem (muitas vezes as formados de modo compreensivo.
línguas geralmente utilizadas na Papua para comunicar Os professores não ficam responsáveis por conceber
entre diferentes grupos linguísticos). No quarto período o curriculo e criarem todos os materiais necessários; há
e final dos três anos de ensino da língua materna, os apoio significativo dado pelo Ministério da Educação
alunos começam a ouvir inglês durante as ultimas 10 ao nível central. Os livros são escritos em Inglês para
semanas de aulas. os professores traduzirem. Há um quadro nacional que
A comunidade selecciona os seus professores, permite que os professores traduzam ao nível local. É-lhes
dado que estes são nomeados pela comunidade e não dado um livro mestre ou um“shell book”, o qual contém
podem ser transferidos para outras escolas ou áreas. a estrutura das histórias e estes podem ser traduzidos e
Os pais nomeiam homens e mulheres que conhecem adaptados a situações locais, bem como convertido para
a cultura local. Para serem designadas, as pessoas línguas locais. Algumas temáticas mantêm-se nacionais
devem ter concluído o 10º ano do ensino secundário em vez de locais: matemática, algumas lições de ciências
e devem dominar o Inglês, dado que a formação e sociais e em ciências onde é usado o currículo nacional,
os respectivos materiais são em Inglês. O Governo bem como materiais que apesar de serem traduzidos
seleccionou inicialmente 217 formadores nacionais para as línguas locais não são adaptados para reflectir
para dar formação aos professores. A formação inicia- referências culturais locais. A avaliação dos professores
se com 6 semanas de curso presencial que prepara os em formação abrange a formação em geral dada pelo
professores em termos de auto-didáctica e também para formador, o supervisor, os módulos de auto-didáctica e a
perceberem os desafios da formação no que se refere à opinião dos pais sobre o envolvimento dos professores. Os
aprendizagem tendo por base o local. professores poderão passar ou chumbar.
A formação de Professores inclui aspectos como Há guias para os professores e livros a que podem
sejam saber como é que as crianças aprendem e como é recorrer. Os professores são formados sobre como
que se pode incluir a cultura e a aprendizagem da língua planificar uma aula, como escrever esses planos, ligando
em geral num formato integrado. Os professores são estes elementos à agenda temática – às épocas e

29
Ajudar as Crianças a Aprender: Uma Conferência Internacional sobre Educação Bilingue em Timor-Leste

acontecimentos importantes na zona. A Papua Nova 3. Os livros orientadores, quando a linha geral, a
Guiné usa um calendário cultural para o ano escolar. estrutura e os resultados da educação estão bem
Se estiverem a acontecer eventos importantes na definidos, são uma boa forma de dar aos professores
comunidade, por exemplo uma disputa de terra ou um recursos em contextos multilingues. Desta forma, os
festival, a escola não funcionará. Por exemplo, em Maio, professores podem adaptar as histórias ao contexto
Setembro e na Páscoa, há grandes festivais católicos, local e traduzi-las para a língua local.
particularmente nas escolas católicas, pelo que esses 4. A supervisão regular de professores é vital para
alunos aprendem sobre esses festivais. assegurar o sucesso do sistema de educação.
A abordagem em termos de calendário escolar cultural 5. O slogan “unidade na diversidade” exemplifica a
também influencia o modelo do currículo. Por exemplo, experiência da Papua Nova Guiné, na qual o direito
há duas estações, a estação seca e a da chuva; o que à aprendizagem na língua materna é central para o
acontece na estação das chuvas define o currículo, na desenvolvimento de uma identidade nacional. Um
medida em que aquilo que os alunos aprendem na escola país deve celebrar toda a sua diversidade linguística
reflecte o que está a acontecer à sua volta. O currículo e cultural.
também reflecte um número de eventos culturais entre 6. Ser literado na língua materna constitui a base para a
outros, por exemplo a época do futebol em que as aprendizagem de uma língua estrangeira..
crianças aprendem a matemática e a ciência do futebol. A
cultura em que cada criança cresce dita as actividades de
ensino e de aprendizagem nas escolas primárias. 6.3 Moçambique: Enfoque sobre as
Questões de Politica
Resultados chave
Esta abordagem à educação multilingue com base na “Quando falamos em educação, falamos em
língua materna tem vindo a ser implementada com termos de desenvolvimento. Assim, qual a língua
sucesso em toda a Papua Nova Guiné em muitas línguas que devemos usar? Se usamos uma língua que a
locais diferentes. criança não entende,será que seremos capazes de
alcançar os objectivos da educação?” (Professor
Lições Aprendidas Sozinho Matsinhe)
1. Se os professores são bem formados e ensinados sobre
Contexto
como criar materiais pedagógicos na língua materna
dos seus alunos, é possível ensinar a criança na sua A herança colonial dos países Africanos afecta a politica
língua materna em todo um país, mesmo quando esse de educação actual em termos linguísticos. Em África,
país possui muitas línguas locais diferentes. os portugueses, franceses e espanhóis, enquanto
2. A forma como é dada a formação de professores colonizadores, procuraram assimilar as culturas locais
é muito importante. A combinação da auto- na cultura Latina. As línguas locais não foram mais
aprendizagem , aprendizagem em grupo e desenvolvidas e nunca foram consideradas como línguas
aprendizagem dada por um formador assegura os para a educação. Em Moçambique, o português era a
melhores resultados em termos de aprendizagem e é única língua com estatuto oficial, apesar da maioria da
um modelo que pode ser usado para assegurar que os população não falar a língua. Durante o período colonial,
professores recebem tanto a formação em exercício se os alunos falassem outra língua que não o português
como a formação anterior. na sala de aula seriam punidos pelos professores.

30
Os britânicos e alemães tiveram uma abordagem da escola, os pais deveriam frequentar aulas de
diferente e não forçaram totalmente e de forma alfabetização e de educação para adultos à noite nas
tão rápida os colonizados a usarem a língua dos escolas e áreas residenciais onde os centros foram
colonizadores. Isto significou que as línguas locais criados. Esta educação era toda feita em português e,
desenvolvidas, incluindo gramática, vocabulário, através das grandes campanhas de alfabetização, as
literatura e dicionários foram desenvolvidos durante taxas de analfabetismo desceram de 93% na época
os períodos de colonização. Na Tanzânia, os alemães da independência para cerca de 72% em poucos anos.
trabalharam o Swahili, a língua predominante, No entanto, o conflito armado travado pela Resistência
estando esta altamente desenvolvida. Muito deste Nacional Moçambicana (RENAMO), com o apoio do então
desenvolvimento inicial das línguas locais ocorreu regime de Apartheid (agora a RENAMO é o principal
através das igrejas, que dominaram a educação nos partido da oposição no Parlamento Moçambicano),
primeiros tempos da colonização. destruiu muitas escolas e clínicas, enquanto que o
Quando os países em África se tornaram Apartheid Sul Africano bombeou o país, destruindo
independentes, os novos líderes procuraram os recursos novamente muitas escolas. As pessoas sofriam de um
disponíveis em cada língua. Caso não existissem “retorno à iliteracia”, tendo perdido a capacidade de ler
recursos nas línguas locais, havia a tendência para e escrever em português. Isto ocorreu principalmente
escolher a língua do colonizador para ser a língua oficial nas zonas rurais que foram mais afectadas pelo conflito
e encorajar o desenvolvimento de línguas locais. Em armado e onde o português não estava presente na vida
países com colonizadores latinos, o latim era geralmente diária das pessoas, dado que estas utilizavam quase
adoptado como Língua oficial e as línguas locais não exclusivamente as línguas africanas no decorrer das suas
eram desenvolvidas. Assim, depois da independência, actividades. É de salientar que isto ocorreu também nas
a língua do colonizador era muitas vezes adoptada áreas urbanas onde as pessoas estavam mais expostas
como a língua oficial/nacional. Em países com poderes ao português do que nas zonas rurais.
coloniais anglo-saxónicos ou germânicos, as línguas
locais foram desenvolvidas e utilizadas na educação O que fizeram
pós-independência: por exemplo a Zâmbia possui sete Actualmente, Moçambique tem cerca de 20 milhões de
línguas adoptadas na educação ao nível dos primeiros habitantes e destes:
anos escolares e a Tanzânia adoptou o swahili. Isto foi
possível porque já existiam recursos nas línguas locais • 6.5% dos moçambicanos fala português como língua
na época da independência. materna.
Em 1975, Moçambique tornou-se independente. O • 25.2% fala português como segunda língua, mas é
português foi adoptado como língua oficial por razões desconhecido o nível de fluência.
históricas: era parte da herança cultural e também a • 68.3% da população não é fluente em Português
língua usada pela resistência na luta pela independência. (Censos 1997).
A constituição declara que todas as outras línguas
devem também ser valorizadas. A questão que então O português continua a ser limitado às áreas
se colocou de seguida foi a de saber que língua devia urbanas e as crianças nessa áreas, frequentemente,
ser usada na educação, sendo o português a língua não entendem as línguas locais moçambicanas faladas
escolhida. A educação era uma grande prioridade na pelos seus pais. Quase ninguém nas áreas rurais fala
independência e o ensino iniciava-se às sete da manhã português. Isto tem implicações para a educação. Se
até às onze da noite; quando as crianças regressavam

31
Ajudar as Crianças a Aprender: Uma Conferência Internacional sobre Educação Bilingue em Timor-Leste

o Governo moçambicano decide que a Educação será como segunda língua em Moçambique. Isto aconteceu
apenas em Português (como foi até recentemente), estas no inicio dos anos 90. Os relatórios de tais estudos
estatísticas precisam de ser tidas em conta dado ser confirmou que o português era uma barreira ou uma
problemático que 68% das crianças vão para à escola ferramenta de exclusão da educação para a maioria
sem perceberem a língua de instrução (Português). das crianças que o tinham como segunda língua ou
A partida da maioria das pessoas que falavam mesmo como língua estrangeira. Em todos os relatórios,
português durante a independência, parece ter uma das principais recomendações foi no sentido de
contribuído para o aparecimento e a disseminação usar a língua materna como meio de intrução pelo
de várias formas não padronizadas do Português. Isto menos na sua fase inicial de educação. Foi atribuída a
significa que, além do português padrão usado nos responsabilidade ao INDE de levar a cabo projectos-
livros escolares, documentos oficiais e comunicações, piloto sobre o uso de línguas locais como língua de
surgiram novas fomas linguísticas usadas pelas pessoas instrução em Moçambique. Isto desencadeou vários
que falavam o português como segunda língua. Estas debates que marcaram o início do processo de mudança
variedades parecem competir por espaço no mosaico das políticas. Introduzir línguas locais na educação não
linguístico moçambicano. Isto coloca não só problemas significaria desistir do português, mas sim tentar obter
no ensino do português como também gera grandes uma coexistência pacífica entre esta língua e as línguas
debates sobre qual das variedades de português deve locais faladas pela maioria dos moçambicanos.
ser usado, o que devem ser considerados erros e o Em 1993, iniciou-se um projecto de educação bilingue
que deve ser considerado uma variedade emergente conhecido como PEBIMO. Envolveu duas línguas locais,
do português moçambicano. As tarefas relacionadas cinyanja e xitsonga, faladas nas províncias de Tete e
com o desenho curricular, preparação e produção de Gaza, respectivamente. No início, o projecto envolvia um
novos manuais e formação de professores de língua total de 357 alunos no 1º ano e terminou com 156 alunos:
portuguesa tornaram-se extremamente complexas. 98 de Gaza e 58 de Tete. A escolha das línguas teve
Note-se que a maioria das pessoas que ensinam por base o facto de terem ambas uma longa tradição
português ou se submete a formação para se tornar como língua de instrução na África do Sul e no Malawi,
professor não falam o português europeu padrão que respectivamente. Tendo em consideração o que foi
foi adoptado como língua oficial do país e único meio mencionado anteriormente, o PEBIMO foi o culminar de
de instrução após a independência. Assim, o uso do anos de reflexão sobre o uso de línguas locais como meio
português como único meio de instrução constitui um de instrução em Moçambique, o que inclui:
problema sério – a desistência e a repetição nos vários
anos aumenta. Portanto, foi necessário perceber o que (1) 1988: primeiro workshop sobre acordo em torno do
se estava a passar no sistema educativo moçambicano, modelo ortográfico de línguas locais e moçambicanas,
particularmente no que dizia respeito ao meio de organizado pelo Núcleo para o Estudo das Línguas
instrução. Assim foi levada a cabo uma investigação Moçambicanas (NELIMO), sedeado na Faculdade
centrada nas diferentes versões do português. Os de Artes da Universidade Eduardo Mondlane, em
resultados preliminares indicaram que o uso do colaboração com o Ministério da Cultura. Além de
português como único meio de instrução constituía parte conter regras de ortografia para estas línguas, o
do problema. O Instituto Nacional de Desenvolvimento relatório do workshop faz recomendações no sentido
Educativo (INDE) – uma instituição semi-autónoma que de se desenvolverem estudos piloto sobre a educação
opera no contexto do Ministério da Educação – autorizou na língua materna.
vários estudos que incidiram no ensino do português (2) 1989 e 1990: o INDE respectivamente organizou

32
o primeiro e segundo workshop sobre educação Poderá haver alguma relação entre este aumento no
bilingue. O workshop juntou pessoas de vários número de matrículas e uma maior consciencialização,
quadrantes como a Rádio de Moçambique, Ministério bem como aumento dos materiais nas línguas locais e
da Educação, o Summer Institute of Linguistics (SIL) e posteriores alterações formais às politicas de língua que
o Instituto de Formação em Exercício (IAP). ocorreram nesse mesmo período.
(3) Estudos piloto anteriores sobre educação bilingue de Existiam imensas questões políticas a afectar as
adultos, realizados pelo INDE em colaboração com o decisões sobre a educação na língua materna. A maior
NELIMO. dessas questões diz respeito ao facto de Moçambique
não ter uma politica de língua clara, incluindo a política
O estudo piloto realizado pela PEBIMO, uma vez de língua na educação, mesmo durante a colonização.
mais, provou que as crianças que aprenderam na Torna-se difícil introduzir todas as línguas a qualquer
sua língua materna passaram a participar mais no momento dado o constrangimento de recursos e de ser
processo de aprendizagem e os pais envolveram-se difícil de formar todos os professores. Foi necessário
mais na educação dos seus filhos. Por outras palavras, dar formação inicial e contínua aos professores no
a diferença que existia entre casa e escola foi reduzida. sentido de os ensinar a leccionar na sua própria
No seguimento deste projecto-piloto, em 1997, o INDE língua. Os materiais de ensino poderiam ser criados por
organizou um workshop para debater a introdução e especialistas ou pelos professores e pais. Devido à falta
a expansão da educação bilingue em Moçambique. de uma política de língua clara, a educação bilingue não
Finalmente, em 2003, a educação biligue foi introduzida é obrigatória, pelo que os pais podem decidir se enviam
em Moçambique. Tendo em conta a experiência do INDE, os seus filhos para as escolas bilingues ou para as
desde a concepção, apresentação do novo currículo escolas de língua portuguesa.
(novo sistema educativo nacional), preparação de
materiais didácticos e responsabilidade pela formação Resultados Chave
dos respectivos docentes (tanto inicial como em As crianças aprenderam mais rapidamente na
exercício), depois da independência, linguistas e outros investigação e projecto-piloto implementados
interessados sugeriram uma abordagem que introduzisse inicialmente com a educação multilingue com base
um modelo de educação multilingue com base nas na língua materna. As crianças também participaram
línguas maternas desenvolvido em diversas fases. activamente na sala de aula, os pais tornaram-se
Esta abordagem faseada deu tempo aos professores mais activos na educação dos seus filhos, e a taxa de
para serem formados e aos recursos para serem aprovações das crianças aumentou fortemente.
desenvolvidos para cada língua. No entanto, outras
partes interessadas, incluindo legisladores, adoptaram Lições Aprendidas
dezasseis línguas locais de uma só vez como línguas
de instrução em diferentes zonas do país. Assim que a 1. Ninguém pode dar a resposta ou o modelo perfeito de
decisão sobre a língua materna foi tomada, teve de ser uma política de língua para Timor-Leste. No entanto,
implementada. Tem havido melhorias significativas no olhando para experiências à volta do mundo e vendo
número de matrículas das escolas primárias nos anos o que os outros já aprenderam e fizeram pode ser
recentes. Entre 1992 e 2005, as matriculas no ensino muito útil.
primário cresceram de 1.3 milhões para 3.5 milhões15. 2. As mudanças políticas e de política para o
desenvolvimento da língua deve reflectir os objectivos
15 DFID Mozambique, Education Fact Sheet. Disponível em: http://dfid.gov.uk/pubs/files/mozambique-education-factsheet.pdf,downloaded 13 May 2008.

33
Ajudar as Crianças a Aprender: Uma Conferência Internacional sobre Educação Bilingue em Timor-Leste

de desenvolvimento do país. Promovendo a educação A política tem que ser enquadrada no contexto
bilingue nos primeiros anos de escolaridade tem local. Os especialistas definem as políticas, mas a
demonstrado ser um sucesso em Moçambique e implementação da política nada tem a haver com os
ajuda a manter a equidade no sistema de educação. especialistas de língua, mas sim com os utilizadores
3. Ter uma língua oficial/nacional não é o único factor da língua e aqueles que se encontram no sistema
que pode fortalecer a unidade nacional. Podem ser educativo. O processo de consulta deve ser efectuado
usadas outras coisas para fortalecer essa unidade aquando o desenho e o desenvolvimento da politica.
em vez de fazer depender apenas de uma língua 5. É necessário procurar parcerias e todas as partes
nacional/oficial. Por exemplo, no Brasil, o futebol e o interessadas precisam de ser envolvidas no processo,
samba unificam o país. particularmente no desenvolvimento, mas também na
4. A política não deve ser desenhada por especialistas implementação da língua na política da educação.
sem existir um processo de consulta. As políticas 6. Se for decidido que os primeiros 3 anos deverão ser
devem ser propostas e discutidas com instituições ensinados na língua materna, o processo tem de ser
linguísticas, bem como essas propostas devem monitorizado e avaliado e o que for sendo elaborado
ser discutidas com a população em geral. As tem de ser continuamente avaliado.
políticas precisam de ter a contribuição de todas 7. O uso de uma língua materna como meio de instrução
as parte interessadas, caso contrário não serão não implica negligenciar a aprendizagem e ensino do
implementadas. Não poderão ser só os especialistas português. Pelo contrário, poderá ajudar a aprender e
ou conselheiros externos a escolher a política. a ensinar melhor esta língua.

Caixa 6.1 Desafios e Preocupações na Implementação dos Programas de Educação Multilingues com base
na Língua Materna.

O Dr. Benjamim de Araújo e Côrte-Real levantou uma questão após a apresentação do Professor
Sozinho Matsinhe. Depois de reconhecer os desafios enfrentados pelos Moçambicanos na
implementação da sua politica para introdução das línguas maternas no sistema educativo, o Dr.
Côrte-Real estava preocupado com a possibilidade de Timor-Leste vir a ter uma experiência negativa
na implementação de uma política semelhante.

O livro da UNESCO “Promover a Literacia em Contextos Multilingues” reconhece os desafios na


implementação deste tipo de política:

“Nesses casos onde é testado um programa de educação multilingue com base na língua materna, é muitas
vezes 1) insuficientemente planeado e implementado, 2) com professores formados de forma inadequada, 3)
inluindo fraca qualidade de materiais de ensino na sala de aula e 4) dado pouco tempo aos estudantes para
construírem quer os fundamentos da educação na sua primeira língua quer uma boa ponte para a segunda
língua (escolar)” (UNESCO 2006, pag. 13)

É verdade que há desafios, mas Timor-Leste tem a oportunidade de aprender a partir das experiências
de outros países para dar resposta a estas questões e evitar ou pelo menos minimizar os desafios.

34
7 Lições chave para Timor-Leste
“Não estamos aqui para vos dizer o que fazer, mas aprendizagem na língua materna antes da transição
para partilhar convosco no sentido de vos ajudar a para a segunda língua, melhores serão as bases.
decidir o que é melhor para as vossos crianças.” No modelo “ideal”, a transição demora oito anos,
(Dr. Kerry Taylor-Leech) sendo este o modelo adoptado na Papua Nova Guiné.
Noutros países é adoptada uma ponte mais curta).
“Para os Timorenses as experiências apresentadas • É importante trabalhar com as comunidades na
por outros são muito importantes para nós porque medida em que tem vários benefícios (especialmente
são essas mesmas experiências que nos ajudarão nos resultados da educação das crianças). É mais
a saber como utilizar a língua, especialmente como provável de acontecer caso o ensino comece na
usar diferentes idiomas (muitas línguas) de modo a língua materna.
ajudarmos as crianças a aprenderem como devem • A colaboração com um leque de parceiros pode
usar as línguas oficiais e as suas línguas maternas” unir especialistas, recursos e a capacidade de
(Participante da Conferência). implementar a educação multilingue com base na
língua materna.
Há um número de lições que Timor-Leste pode aprender a • A formação contínua dos professores origina
partir da experiencia de outros países no que concerne à melhores resultados.
educação multilingue com base na língua materna. Esses • É necessário criar um modelo ortográfico para as
países que implementaram este modelo de educação, quer línguas locais de modo a permitir que as crianças
numa ou em muitas áreas, constataram, de forma coerente, se alfabetizem na sua língua materna. Contudo,
que as crianças que aprendem primeiro na sua língua na Bolívia, os decisores de política decidiram
materna têm maior sucesso na escola, ficam no sistema que a educação em diferentes línguas maternas
educativo mais tempo e tornam-se muito mais competentes poderia começar antes do modelo ortográfico ser
na língua oficial/ nacional por comparação às crianças que desenvolvido e disseminado.
são alfabetizadas e iniciam a escola com uma segunda
língua, como a língua oficial/ nacional. Uma boa formação para o desenvolvimento de
Na Conferência e, em particular, neste relatório professores num contexto multilingue requer:
foram apresentados, com maior ou menor profundidade,
• O uso de referências multilingues e referências à
vários exemplos de educação multilingue com base na
cultura local, tradições e literacias
língua materna. Resultaram as seguintes lições chave:
• Assegurar que os professores conhecem bem as
• Os conteúdos de aprendizagem, a aprendizagem línguas maternas das crianças que ensinam
de uma nova língua e a literacia devem ser • Que os professores sejam formados para desenvolver
desenvolvidos separadamente. livros e outros recursos
• O apoio aos professores é vital. • Que os professores não abandonem o sistema depois
• Quanto mais longa for a ponte, melhor será o da formação inicial, mas que lhes seja dado apoio e
resultado (i.e. quanto mais longo for o período de formação contínua

35
Ajudar as Crianças a Aprender: Uma Conferência Internacional sobre Educação Bilingue em Timor-Leste

8 Conclusões da Conferência:
O que é necessário para fazer a
Educação Multilingue funcionar em
Timor-Leste

As políticas de educação multilingue com base na A. Investigação e Politica UNICEF Timor-Leste/2008/Vas

língua materna têm como objectivo ajudar as crianças a


aprender mais eficazmente, assegurando que alcançam Existem diferentes tipos de apoior as politicas e as
um bom desenvolvimento e resultados educativos, bem mudanças que poderiam ou deveriam ser usadas em
como se tornam fluentes nas línguas oficiais/ nacionais. Timor-Leste de forma a apoiar e desenvolver várias
Se Timor-Leste pretende assimilar os benefícios intervenções que poderiam resultar numa boa política
associados à educação multilingue com base na língua multilingue com base na língua materna. Estas incluem:
materna, são necessárias mudanças em três áreas: • A necessidade de desenvolver uma política

36
compreensiva para a educação bilingue, com serem traduzidos das línguas oficiais para as diversas
a Direcção Nacional de Currículo, Materiais e línguas maternas timorenses
Avaliação do Ministério da Educação, apoiando o • Conselhos claros e orientações políticas, autorizando
maior desenvolvimento da educação bilingue (ou os professores a ensinarem nas línguas locais. A
multilingue) excepção ocorre quando existem múltiplas línguas
• Os recursos humanos e financeiros precisam de ser maternas na sala de aula - os professores precisam
distribuídos para desenvolver a educação multilingue de ter a autoridade para escolher (sozinhos ou em
• A necessidade de investigação: conjunto com os pais e a comunidade) a língua de
ensino. Foi sugerido que o governo permita essa
- saber onde é que as diferentes línguas em Timor-
autorizaçaõ através de uma circular que autorize os
Leste estão a ser usadas de forma a conseguir
professores a ensinar nas línguas locais
planear adequadamente um programa de educação
• Uma campanha de sensibilização para convencer os
multilingue com base na língua materna
professores do jardim-de-infância e dos 1º e 2º anos
- sobre os níveis de proficiência em diferentes línguas
da importância do uso das línguas locais
para avaliar a necessidade de um programa de
• Apoio das comunidades e pais: as comunidades e
educação multilingue com base na língua materna
os pais precisam de ser convencidos da importância
- sobre o impacto da língua na educação,
da aprendizagem na língua materna para as suas
particularmente analisando as crianças que estão
crianças, na medida em que pode ser encarado como
fora da escola (não matriculadas) de modo a
um passo para a aprendizagem das línguas oficiais
averiguar se a língua influencia o seu acesso no
• Bons materiais de recurso para ensinar num sistema
contexto de Timor-Leste
de educação multilingue ou bilingue nas várias
• Desenvolver a fluência na língua oficial quer para os línguas existentes em Timor-Leste. Tendo por base as
professores quer para os estudantes experiencias de outros países, é possível desenvolver
• A necessidade de assegurar o compromisso dos materiais para todas as línguas e regiões:
funcionários do governo para com a promoção da
- O Governo pode formar os professores para criarem
importância da educação multilingue.
os seus próprios materiais pedagógicos
- As comunidades podem apoiar os professores a
desenvolver os seus próprios materiais pedagógicos
B. O que os Professores precisam - As comunidades podem ser envolvidas no
desenvolvimento de recursos - fornecendo histórias;
• Proficiência e fluência nas línguas oficiais e maternas
os pais e os membros da comunidade podem criar
• Competências e conhecimentos sobre ensinar uma
vários conteúdos na língua em que as crianças serão
segunda língua e produzir os manuais necessários
ensinadas
• Formação e apoio aos professores. O papel dos
professores é crucial para a aprendizagem dos alunos; • Recrutamento adequado; de preferência recrutamento
portanto, os professores necessitam de ser apoiados de pais/ professores ou professores locais de forma
e receber formação de forma sistemática e contínua a assegurar que são proficientes na língua materna
sobre como melhorar a sua competência nas línguas local, ou então professores de outras áreas mas com
oficiais e uso da língua materna formação na língua materna local
• Livros didácticos, materiais e guias pedagógicos para

37
Ajudar as Crianças a Aprender: Uma Conferência Internacional sobre Educação Bilingue em Timor-Leste

de literatura do Bornéu, no qual foi utilizada esta


abordagem, tendo como objectivo encontrar e
publicar material escrito em línguas locais).
• Usar os media para promover as línguas oficiais e
outras línguas locais.
• Assegurar que o INL tenha recursos e capacidade
suficientes.

Os próximos passos
O objectivo final da conferência foi o de reflectir sobre
as opções e identificar áreas de acção para Timor-Leste
de forma a que a aprendizagem das crianças fosse
melhorada. Cada contexto cultural é diferente e único,
pelo que precisa de ser considerado adequadamente,
embora o desenvolvimento do cérebro das crianças e a
forma como estas aprendem seja universal. Os próximos
passos identificados na conferência incluem:
UNICEF Timor-Leste/2008/Vas

• O grupo de trabalho estabelecido para esta


conferência deve continuar a encontrar-se, centrando-
se nas conclusões da conferência (acima referidas) e
dar-lhes seguimento, por exemplo:

C. Desenvolvimento da Língua - Realizar investigação sobre o uso e a proficiência de


língua, bem como sobre as barreiras à educação em
• Desenvolver uma ortografia estandardizada para as Timor-Leste
línguas locais timorenses. Esta ortografia necessita - Considerar realizar um estudo piloto de um
de ser disseminada e socializada. programa multilingue com base na língua materna
• Continuar a desenvolver e a disseminar a ortografia em Timor-Leste num dos vários distritos
tétum. Isto deve ser feito pelo INL com o apoio do - Desenvolver ortografias estandardizadas para as
governo. línguas timorenses locais
• Desenvolver as línguas locais através de: • Uma delegação do Ministério da Educação deverá
- Convidar pessoas a escrever histórias nas suas participar nas conferências SEAMEO em Julho de
línguas locais e usar imagens 2008
- Investigar a criação de um repositório/ centro • Para continuar a aprofundar a compreensão, uma
onde os timorenses poderiam ir e escrever, delegação de Timor-Leste deverá ir ao Cambodja,
bem como gravar historias e canções, etc. na tendo o Sub-Secretário de Estado Sr. Cheu Chap
sua língua materna e noutras línguas (um dos referido na conferência o desejo de receber um grupo
oradores partilhou a sua experiencia do escritório de Timor-Leste.

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UNICEF Timor-Leste/2008 CARE International CARE International
UNICEF Timor-Leste/2008/Vas
CARE International
UNICEF Timor-Leste/2008
UNICEF Timor-Leste/2008 UNICEF Timor-Leste/2008/Vas CARE International
UNICEF Timor-Leste/2008/Vas
UNICEF Timor-Leste/2008
O melhor investimento que o mundo pode fazer
é dar às crianças uma educação de qualidade e
relevante.
Objectivo 2 de Desenvolvimento do Milénio
e Objectivo 6 da Educação Todos

Crédito:
Consultor/Escritor: Beth Rushton
Design: Yulian Setyanto, consultor da UNICEF

Agradecimentos:
Intérpretes da Conferência : Tradutora/Intérprete, UNMIT
Voluntários da Conferência: Estudantes UNTL