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Sonia Alberti Luciano Elia
[ organizadores J
Clínica e Pesquisa em Psicanálise
MESTRADO EM PESQUISA E CLÍ'.\JICA EM PSICA'.\JALISE
INSTITUTO DL PSICOLOGIA - UERJ
Cop)Tight © 2000, dos autores
Capa, projeto gráfico e preparação
214, casa·
Clínica e pesquisa em psicanálise
(orgs.J
Sonia Alberti e Luciano Elia
Rio de Janeiro: Rios Ambiciosos, 2000.
154p.; 16x 23 cm
ISBN: 85-87184-13-9
1. Psicanálise. 2. Clínica. 3. Pesquisa. I. Título. li. Série
CDD 150.195
CDU 159.964.2
Agradecemos a ajuda obtida do Instituto de Psicologia da UERJ, da CAPES, da FAPERJ e dos seerctáriosdo Mestrado cm Pesquisa e Clínica em Psicanálise
Apoio
C
A
P
E
S
Coordenação de Aperíeiçoomento de Pessoal de Nível Superior
Todos os direitos desta edição resen-ados à
Marca d' Água Livraria e Editora Ltda.
Rua Dias Ferreira, 214
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Te! /Fax (55 21) 511-4082 / 511-4764
Sumário
Apresentação -
SoniJ :1.lbcni
Psicanálise: clínica & pesquisa Luciano Elia
Psicanálise: a última flor da medicina
Sonia Alberti
Ser doente, ter uma doença
Jcan SLpirko
7
19
37
57
|
Édipo: o homem antitético Marco Antonio Coutinho Jorge |
73 |
|
|
Culpa e angústia: algumas notas sobre a obra de Freud Doris Rinaldi |
85 |
|
|
Do reconhecimento do desejo à sua interpretação Kátia \Vainstock Alves <los Santos |
93 |
|
|
Estrutura e fcnômeno: uma distinção fundamental Lcnita Bcntcs |
1O1 |
|
|
A |
noção de estrutura cm psicanálise |
107 |
Nclma Cabral
|
O |
fenômeno elementar na psicose ou Lacan com Clérambault |
115 |
|
André Schaustz |
||
|
O |
real do sintoma |
1 21 |
|
Ana Paula Corrca Sartori |
||
|
Ética e política: Maquiavel com Lacan Lia Amorim |
129 |
|
|
Infâncias |
139 |
|
Sônia Altoé |
|
|
Ação e reflexão no campo dos cuidados Ademir Pacelli Ferreira |
145 |
|
Sobre os autores |
155 |
Apresentação
No ano de 1993, um grupo de professores do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (DPC/ IP/ UERJ) 1 e docentes do então Curso de Especialização cm Psicologia Clínica do mesmo Departamento pensaram cm criar um Mestrado cm razão de sua identifi- cação com a psicanálise. Com efeito, há alguns anos o referido Curso de Especia- lização Yinha desenvoh-endo um projeto de ensino de psicanálise na universidade não só a partir de aulas teóricas, mas também de supervisões e monografias que tangiam questões da clínica psicanalítica, muitas vezes por meio de uma prática
institucional, por exemplo, a do Serviço de Psicologia Aplicada. Quando final- mente, cm dezembro de 1998, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pesquisa e Ensino Superior aprovou o projeto, de imediato setenta candidatos se inscreve- ram para a seleção da primeira turma, com doze vagas, de nosso Mestrado cm Pesquisa e Clínica cm Psicanálise. No momento, estamos na fase final de seleção para a terceira turma e os primeiros alunos se preparam para a defesa de suas dissertações. Este livro, portanto, visa sobretudo trazer a público tanto o perfil de nosso trabalho, quanto os primeiros frutos dos projetos em andamento. O que é o Mestrado em Pesquisa e Clínica em Psicanálise da UERJ? Sem dúvida essa pergunta, que acompanha seu projeto desde as discussões iniciais, leva
em conta as preocupações então expressas pela professora Circe Vital
Brazil - que
nos deu a honra de integrar o grupo de professorcs que redigiram a primeira versão de seu projeto - no tocante a um possível questionamento a respeito da inserção da psicanálise na universidade cm rúvcl de pós-graduação strícto scnsu, ou seja, perfeita- mente adaptada aos moldes acadêmicos. Com efeito, até há pouco tempo, se havia psicanalistas que ensinavam nas uniYcrsidadcs brasileiras, eles o faziam como uma segunda atiYidade, dificilmente ditando um programa de ensino com a finalidade de
um diploma específico. Em sua vertente de ensino, a transrrússão da psicanálise era basicamente restrita às instituições de formação psicanalítica, privadas, cada
uma com seu próprio programa, e que, como Jacques Lacan observara cm 1956,
1 Composto pelos seguintes professores: Márcia Mello (então coordenadora do Curso de Espe- cialização), GilsaTarré de Oliveira, Francisco Ramos de Faria, Malvine Zalcberg, SoniaAlberti e. logo cm seguida, Luciano Elia. Num primeiro momento, foi solicitada, e imediatamente 1tcndida, a colaboração da professora Circe Vital Brazil, de grande valia para nós.
não obstante muitas vezes se assemelhavam ao sistema de ensino acadêmico, com
toda burocracia aí envolvida. Foi cm 1968 que ele, com o auxílio de alguns amigos
- por exemplo, Claude Lévi-Strauss e Michcl Foucault-, fundou na Universidade
de Vincennes, nos arredores de Paris, o primeiro Departamento de Psicanálise do
mundo. Como muitos sabem, a Universidade de Vinccnncs era aberta a essas ino-
vações e foi um dos pilares do movimento estudantil de 1968 na França. Por essas
mesmas razões, foi fechada alguns anos depois, tendo sido o Departamento de
Psicanálise criado por Lacan transferido para a Universidade de Paris VIII, cm
Saint Denis, onde existe até hoje. Como se pode ler nos documentos de divulga-
ção dessa universidade, o Departamento de Psicanálise "tem uma missão de ensino
superior e de pesquisa", e visa transmitir tanto os saberes que emanam da experi-
ência psicanalítica quanto os que lhe são conexos, já que "o saber freudiano não é
redutível a um corpo de doutrina fechado e definitivamente constituído".
De qualquer maneira, mais de trinta anos após a criação do primeiro Depar-
tamento de Psicanálise cm uma universidade, ainda hoje há questões acerca da
validade de sua inserção no meio acadêmico. É interessante notar, por exemplo,
que a fala de abertura de Elisabcth Roudinesco durante um dos últimos grandes
eventos psicanalíticos do século XX, os Estados Gerais da Psicanálise, ocorrido
|
cm |
julho de 2000 cm Paris, atribuiu ao Brasil a vanguarda do ensino da psicanálise |
|
nas |
universidades, particularmente nos Institutos de Psicologia. Digo interessante |
porque historicamente esse ensino se deu na França, e cm alguns cursos esparsos
cm outros países da Europa e nos Estados Unidos.
Certamente a história da própria universidade no Brasil tem alguma relação
com esse fato ressaltado por Elisabeth Roudincsco e já observado por Marco An-
tonio Coutinho Jorge cm seu artigo "Por que a psicanálise do Brasil?":
Neste ponto, coloco para o dehate a c1ucstão que me ocorreu, exemplar, talvez, mas certamente fecunda e que diz respeito ao modo pelo qual o discurso univer- sitário, veiculador dos saberes adquiridos, penetrou e~ nosso país. Tomo para tal um trac,:o histórico surprcendcntt: e fundamental para análise: existindo na Europa desde o século XI, a UniYcrsidacle - instituição gue faz vigorar esta for- ma de liame social gue Lacan matemizou enguanto o Discurso Universitário - só passa a adguirir existência, aqui, no século XIX. Enumero alguns dados histó- ricos bastante re,·cladorcs. Se por um lado Portugal não permitiu que se crias- sem centros de ensino superior cm sua colônia, muito embora tivesse sua Uni-
versidade de Lisboa desde 12 90, a qual
por outro, até o final do século XVI, a América Espanhola contava com seis Universidades e, por ocasião da Independência, cerca de 19, tendo essas institui- ções graduado aproximadamente 150 mil estudantes. Em contraste, o Brasil não
foi transferida para Coimbra cm 15 37,
8
Clínica e pesquisa em psicanálise
tcYc nenhuma UniYcrsidadc enquanto colônia de Portugal e até a Independênci.1 formou menos de três mil jo,·cns, a maioria cm Coimbra e alguns cm Toulouse,
Montpellier e na Grã-Bretanha.[
] O aparecimento da UniYersidade no Brasil
é extremamente recente cm sua história, passando-se mais de trezentos anos até sua implantação aqui. Como ler esse fato histórico e suas conseqüências? 2
Até que ponto, pois, essa origem da universidade no Brasil marca uma inde-
pendência - nesse caso, dos anos de submissão a Portugal, a serem levados cm
conta como determinantes para o acolhimento de novas idéias, talvez mais do que
cm outros lugares do mundo - e pode explicar por que o Brasil é hoje um dos
países cm que mais psicanálise há nas universidades? Historicamente, de todo
modo, o interesse dos psicanalistas pelo ensino da psicanálise na universidade não
prm·ém de Lacan. A história desse ensino acompanha a própria história da psica-
nálise. Freud sempre se preocupou com a inserção da psicanálise na série dos
saberes e das ciências. Ele próprio procurou ingressar na universidade, o que, cm
decorrcncia fundamentalmente de sua origem judiai, não foi fácil cm uma Viena
já bastante anti-semita desde fins do século XIX. Mas não somente por causa dessa
origem. Freud tinha conscit-ncia de c1ue a dificuldade de insers:ão na universidade
também tinha relação com a dicotomia existente entre a própria ética da psicaná-
lise e a norma universitária. Eis como ele se refere a esse problema cm sua pri-
meira conferência na Universidade de Viena, cm 1915:
J do jeito como andam as coisas, aquele que quisesse construir hoje um rela- cionamento duradouro com a psicanálise perderia qualquer possibilidade de um eventual sucesso na uniYersidadc, da mesma forma como seria mal visto e hostilizado por outros colegas médicos que não entenderiam seus anseios e li- Hariam contra ck todos os piores e mais mah·ados espíritos.~
[
A importância do ensino de Freud na universidade pode ser testemunhada
ainda hoje pelas duas séries de conferências - de 1917 e de 1932 -- as quais,
principalmente a segunda, afinam conceitos que já desenvolvera ao longo dos
anos, ou seja, comportam material que ainda hoje é precioso tanto para estudos
teóricos quanto clínicos.
~Cí. JORGE, M. A. C. :icxucdíscursocm Frcudclacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, J988, p. 146.
1 Por exemplo, o sonho de Freud com o amigo R. Cf. f-REUD, S. "DieTraumdcutung" (1900). Em: Studicnau.<gabc, rnl. II. Frankfurt a.M.: S. Fischer, 1974, cap. 4.
• FREUD, S. "Die Fehlleistungen - 1. Vorlesung". Em: Studicnausgabc, mi. 1. Op. cit., p. 42.
9
Em 1926, cm seu texto sobre a análise leiga 5 , Freud observa que não advogava por uma psicanálise que se inscrevesse, com o tempo, como mera opção terapêutica nos manuais de psiquiatria. "Ela merece destino melhor e o terá, espero". O destino me- lhor é associado à"psicologia profunda" (Tiefenpsychologie), o saber do inconsciente, por meio do que ela poderia se tornar indispensável para todas as ciências que lidam com a histc)ria da formação da cultura e de suas grandes instituições, tais c01:10 a arte, a religião e a ordem social. "O uso da análise para a terapia das neuroses é somente um de seus empregos; talvez o futuro venha mostrar que ele não é o principal" 6 • Assim, se Jacques Lacan propõe o ensino da psicanálise na universidade é por- que ele se inscreve na mesma direção que Sigmund Freud apontou cm seu texto de 1926: o real da clínica psicanalítica que permitiu a ele a construção da psicanálise pode ser encontrado em outros campos da cultura. Encontramos o ser falante para além da clínica psicanalítica, nos campos que lhe são conexos e que mais circulam e interagem no meio acadêmico. Ora, essa constatação não deixa de justificar a possi- bilidade de transmissão da psicanálise nesse meio. A psicanálise, como um saber, deve poder conviver, questionar. e ser questionada por outras disciplinas, isto é, enriquecer e ser enriquecida por elas, já que a universidade é o lugar desse universo de disciplinas. Freud não deixou de frisá-lo nas últimas páginas de seu texto sobre a análise leiga e sobretudo no apêndice desse texto, redigido cm 1927, em razão das reações que haviam surgido após sua publicação no ano anterior. Duas observações desse apêndice são tão importantes para a referência de nosso Mestrado, que as retomo aqui na Íntegra. Em primeiro lugar, Freud observa que o plano para um curriculum de disciplinas para o analista ainda estava para ser feito, e que deveria ter estofo tanto no campo das ciências do espírito, as psicoló- gicas, as da história da cultura e da sociologia, quanto nas ciências anatômicas, biológicas e da história do desenvolvimento. Ele também nota que seria cômodo contra-argumentar que não havia faculdades que dessem tal gama de conhecimento, que isso seria da ordem do ideal e que, portanto, era impossível. Mas sugere que os institutos de formação analítica começavam a realizar tal plano que "pode ser reali- zado e deve ser rcalizado" 7 . Certamente é possível pensar na Universidade como
; FREUD, S. "Die Frage der Laienanalyse". Em: Studicnausgabc, vol. Ergánzungshand. Op. cit.
"Ibid., cap. VII, p. 338-ss. Em algum lugar, Lacan chega a prever que a Única saída para a psicanálise nos próximos séculos é justamente a possibilidade de se desenvolverem esses
outros
:mpregos
aos quais Freud fez alusão nessa passagem.
7 FREUD, S. "Nachwort zur 'Fragc dn
Ergiú1zu11gsband. Op. cit., p. 343.
Lai<.:nanalys
:'
" ( 1927). Em: Studicnausgabc, ,·oi.
10
Clínica e pesquisa em psicanálise
lugar privilegiado, e é isso que Lacan retoma quando funda o Departamento de Psicanálise na Universidade de Vinccnnes, accresccntando à lista freudiana como
"ciências anexas de uma Faculdade ideal de psicanálise" as seguintes matérias que
determinariam o "cursus de um ensino técnico [
tido técnico que esse termo assume nos Tópicos de Aristóteles, a gramática e, auge supremo da estética da linguagem, a poética, que incluiria a técnica, deixada na obscuridade, do chiste" 8 . Lacan inscreve a psicanálise no campo das ciências conjecturais em decorrência do fato de a conjectura ser não o improvável mas antes a estratégia para que ela própria se ordene como certeza, da mesma forma que o subjetivo definidor do que a psicanálise sempre leva em conta não o "valor de sentimento com o que é confundido", mas as leis matcmáticas9, o que, mais uma vez, advoga pela importância do intercâmbio disciplinar que o contexto uni- versitário possibilita. Em segundo lugar, Freud observa que a psicanálise não só não é uma especia- lidade da medicina ("kcin Spczialfach der Mcdizin ist"), como é- e eis o que efetivamente é importante aqui ressaltar -- um pedaço da psicologia ("Dic Psychoana{ysc ist cin Stück
P~\'chologic"), "provavelmente seu fundamento" 10 • Questão que até hoje ainda pode provocar polêmicas, já que continuam a existir aqueles que pretendem fazer da psicanálise uma especialidade médica, contra a noção freudiana de sua inscrição como fundamento da psicologia, explicitada com todas as letras cm um momento cm que ele assistia, atônito, a um movimento médico que pretendia excluir os não médicos da formação psicanalítica. Em 1927, Freud chega a se perguntar se a tentativa dos médicos de apoderar-se da psicanálise naquela época não levaria ao risco de a psicanálise ser destruída pela medicina, já que, de início, foram os pró- prios médicos que de fato a rejeitaram, a mal disseram e a condenaram 1 1 . E consi- dera, literalmente, que a questão de saber se a psicanálise, como ciência, é uma parte do campo da Medicina ou da Psicologia "é uma questão para um doutorado,
J: a retórica, a dialética, no sen-
'
comp etamente esmtcressante para a pratica . Eis, portanto, o que é preciso distinguir: de um lado, as questões que podem e mesmo devem ser tratadas quando a oportunidade de desenvolver a pesquisa da
.
.
1
d
l)J)
8 LACAN, J. "Fonction et champ de la parole et du langage" (1953). Em: Écrits. Paris: Seuil, 1966, p. 288.
9 LACAN, J. "Situation de la psychanalysc cn 1956". Em: Écrits. Op. cit., p. 472.
'° FREUD, S. "Nachwort zur 'Fragc der Laicnanalysc' ". Op. cit., p. 343.
" Ihid., p. 344.
" Ibid., p. 345.
:\presentação
:
1
e sobre a psicanálise na universidade se apresenta e, do outro, o fato de que a "análise não tem nenhum outro material que não os processos psíquicos do ho-
mem, sb podendo ser estudada no homem" 13 , o que implica a absoluta determina-
ção do que mais genuinamente constitui a psicanálise: sua prática e sua indepen-
dência absoluta do discurso universitário, que, no entanto, pode dessa decorrer. Uma coisa é o ensino da psicanálise; outra, sua transmissão, mesmo se ambos
são interscccionais, como o são, por exemplo, no mais genuíno campo clínico: se
toda análise é didática, como diz Lacan, é porque a experiência psicanalítica, na transferência, ensina algo ao sujeito com o objeto que o causa, e cuja verificação se
dá a partir da transmissão incrente ao ato psicanalítico. Um Único lugar para isso: o
di,·ã e a transferência analítica. Para que haja transmissão, é necessária a transferên-·
eia que Lacan identifica cm duas versões: a transferência por amor ao saber e a transferência ao analista no lugar do objeto a, o que não quer dizer que o analista não possa ocupar o lugar de sujeito suposto saber para que se instale, em análise, uma
transferência na primeira versão. Para ensinar psicanálise, não há qualquer exigência de que o ensinante seja um psicanalista. Mas o que é transmitido? Certamente, o desejo de saber que não se reduz à experiência analítica e cujo lugar não é a universidade. A questão que se impõe é sobre o fato de o psicanalista ensinar psicanálise na universidade e sobre os efeitos desse ensino, questão essa que sb pode ser respondida com a prática desse ensino e de sua análise clínica. É aqui que devemos convocar os analistas a responderem a partir de sua prbpria experiência. Em vez de proibi-la, criticá-la ah ínitio, propomos antes escutar os analistas com essa experiência e, a partir disso, enriquecer o saber da prbpria psicaná-
|
lise |
com seus efeitos. Dessa forma, o próprio Mestrado cm Pesquisa e Clínica |
|
cm |
Psicanálise é um campo de pesquisa para verificar a relação da psicanálise |
com a universidade, e s6 se tornará fecundo por meio do estudo da produção dessa interseção. Para o estudo dessa interseção é importante observar que os psicanalistas pro- fessores desse Mestrado têm vinculação institucional com associações psicanalíti-
cas de suas escolhas particulares, onde exercem atividades que tangem à política
da psicanálise e de seu ensino e transmissão. Saber como distinguem ambas as práticas institucionais e como as justificam são questões que permanecem abertas
para um exame mais aprofundado, cuja realização é cada vez mais urgente.
,i Idem.
12
Clínica e pesquisa cm psicanálise
O projeto
Para esclarecer o leitor deste livro acerca da direção que se quis dar a esse Mestrado, sói retomar algumas passagens de seu projeto, por mim coordenado, e que deu as bases para a redação da deliberação que o regulamenta. Objeto de debates durante três anos, ele foi redigido pelo professor Luciano Elia, atual CoordenadorAdjunto do Mestrado. Nossa primeira preocupação foi justificar a criação de um Mestrado nessa área específica. Ele se constitui a partir de cinco pontos:
1) A psicanálise se inscreve no discurso da ciência como campo do saber com um alcance muito mais amplo do que a prática clínica de consultório particular. Assim, ela "abre amplas possibilidades de rediscussão de relevantes questões que compõem a problemática do sujeito contemporâneo, viabilizando modos concre-
tos de intervenção clínica-social, tanto no aspecto clínico[
institucional [
2) Isso abre novos campos de pesquisa, exigindo do psicanalista uma postura investigativa, o que também traz consigo a exigência do domínio conceituai, pois a questão que se impõe diante da maior amplitude de sua prática é, fundamental- mente, "o que pode fazer o psicanalista no campo institucional sem ceder quanto ao rigor de sua prática?"; 3) A psicanálise não é uma prática individual e individualizante, como normalmente é divulgada. Ao contrário, "a estrutura mesma do saber psica- nalítico impõe um modo novo, peculiar e próprio de estabelecer uma articula- ção do sujeito do inconsciente, eixo central deste saber, e a ordem social", no qual o sujeito do inconsciente é constituído sob condição da alteridadc, de forma estrutural; 4) Assim, ele definitivamente institui um outro campo da psicologia no Ins- tituto de Psicologia da UERJ, ao lado do Mestrado cm Psicologia e Processos Sócio- culturais já existente, sublinhando a importância da manutenção das diferenças nas orientações e "refletindo a complexidade e a diversidade que caracterizam o
], quanto no aspecto
]";
campo da psicologia, preservando a identidade de tendências que, embora articuláveis, mantêm suas especificidades irredutíveis"; 5) Aproveitando o trabalho e a pesquisa de docentes do mesmo Instituto que se definem com.o professores-pesquisadores além de psicanalistas, com titulação aca- dêmica suficiente para sustentar um programa de pós-graduação. A esse trabalho se associarão outros pesquisadores na área, os alunos e membros da comunidade aca- dêmica que poderão contribuir para a promoção e o incremento desse núcleo de excelência na própria UERJ e instituições com as quais venha a trabalhar.
13
Dessa forma, o Mestrado cm Pesquisa e Clínica cm Psicanálise visa, para além da formação de docentes de ensino superior, a criação de pesquisadores, incentivando pensadores e acolhendo em seu corpo discente "profissionais que se interessem pela psicanálise como método e como processo, sejam eles pesquisadores ou tenham uma
prática profissional que os confronte com questões de saúde mental ou outras, como toxicomanias, delinqüência, deficiências diversas e demais questões que demandam atenção técnica". Articulando teoria e prática, "não acentuando o destaque a uma des-
sas dimensões em detrimento da outra", e sempre na perspectiva de pri\ilegiar "uma
direção ética voltada para o sujeito em sua dimensão inconsciente", visa-se uma "aber-
tura ao diálogo interdisciplinar, produzindo conexões com outros campos de saber".
O Mestrado não é um curso de formação psicanalítica - "já que a Universida-
de não é o lugar para tal formação" -, nem sustenta "quaisquer tendências ou sectarismos, identificáveis no movimento psicanalítico (campo das instituições psicanalíticas e suas diferentes orientações)" que poderiam "obturar o espírito do
debate científico", necessariamente caracterizado pela "abertura de um espaço
acadêmico voltado para o debate teórico sobre a prática clínica, que permita pensá-
la criticamente".
Além disso, o Mestrado, por um lado, se associa aos esforços de inserção da psicanálise no meio acadêmico que vêm sendo realizados no Rio de Janeiro e, pelo outro, deles se diferencia cm razão da concentração na associação do campo clínico com a pesquisa, articulados à teoria psicanalítica, baseando-se inclusive nas
Freud. Essa diferencia-
contribuições de Jacques Lacan à descoberta de Sigmund ção é necessária em prol de uma especificidade.
Os textos
Por ter procurado refletir o trabalho que se realiza nesse Programa de Pós-Gra-
duação, este livro reúne textos escritos por professores/pesquisadores psicanalis- tas, professores-pesquisadores de áreas conexas, alunos do próprio Programa e conferencistas por ele convidados.
O primeiro texto funda sua direção: a relação da psicanálise com a ciência.
O inconsciente é o campo de pesquisa que inclui o sujeito, normalmente foracluído
do discurso da ciência. Se isso é verdade, então, como diz Luciano Elia, o analista não se define pelo sctting, mas pela ética, já que uma simples referência ao sctting seria equivalente àquela a que estão submetidas as pesquisas experimentais na tentativa de manterem um controle da variável do campo. O campo da psicanálise é clínico e todas as elaborações teóricas que nele se articulam só têm validade para
14
Clínica c pesquisa em psicanálise
ela enquanto se referem ao campo clínico que é, essencialmente, o campo d,~,
sujeito. Donde sua maior referência ser a ética que Lacan define, cm 1960, como
a ética de bem dizer a relação do sujeito com o desejo e com o gozo. Seguem-se dois textos que expõem diretamente a prática da pesquisa clínica
cm psicanálise no contexto de um intercâmbio com a medicina - campo privile-
giado das conexões da psicanálise por se referir a um campo clínico, mais precisa- mente, por se referir ao campo clínico que deu origem ao exercício da psicanálise.
De que maneira é possível retomar hoje a relação da psicanálise com a medicina,
de forma que elas possam contribuir uma com a outra para seus respectivos avan-
ços e manter suas especificidades?
Em seguida, o texto de Marco Antonio Coutinho Jorge retoma o mito de Édipo a partir de Sófocles para ressignificar sua importância para a psicanálise na articulação com o saber inconsciente. Oidípous, conforme a transliteração da grafia grega de seu nome, é a condensação de dois significantes: oidos e paus- pés
inchados. O significante oída, todavia, equivoca com "cu sei", remetendo, por- tanto, ao fato de que Édipo é precisamente esse saber inconsciente que não se sabe. Édipo sabe sem saber que sabe que seus pais eram adotivos, e por isso protagoniza a relação do homem com seu inconsciente. Essa observação nos leva a uma nova questão: até que ponto o próprio saber inconsciente não se
sustenta, cm última instância, na história cdípica de cada um, ou· seja, na dialetização imposta pela refcrência cdípica ao significante mestre no discurso
do mestre que é o discurso do inconsciente? Além disso, seu trabalho inspira a
capa do livro: o quadro de Ingres, trabalhado em seu texto, ilustra a interseção
clínica e pesquisa que determina a direção do Mestrado. Édipo e a Esfinge são dois elementos inseparáveis na relação que o sujeito tem com o saber inconsci-
ente, objeto de sua curiosidade quando pode querer saber, que define, para nós,
|
a |
pesquisa no campo clínico, mesmo se inserida na universidade. Examinando a noção de culpa a partir de Freud, Doris Rinaldi a retoma como |
|
o |
mais importante problema do desenvolvimento da civilização. Assim, seu texto |
chama a atenção para a relação da psicanálise com a cultura, o Outro, o social, a
)".Se
o objeto da psicanálise é justamente esse peso do real na ex-sistência, ou seja, o
objeto dito a por Lacan, então fica claro que a moral e o objeto atêm uma relação fundante para o sujeito. Isso vem confirmar as observações freudianas na aurora da psicanálise já que, cm seu "Projeto para uma psicologia", em 1895, associa, no mesmo capítulo, o surgimento da Coisa---- das Ding (que, na teoria lacaniana, deter- mina o conceito de objeto a) - ao estatuto moral do sujeito.
moral. "A moral, como diz Lacan, traz o peso do real cm sua ex-sistência [
Kátia WainstockAlvcs dos Santos retoma a importância do desejo como base para a articulação da teoria da clínica cm Freud, referência necessária para o de- senvolvimento de sua pesquisa em que examina a importância dessa teoria no trabalho com crianças bastante comprometidas psíquicamente, atendidas no CAPSI Pequeno Hans. Apesar de não fazer menção a esse trabalho específico em seu texto aqui publicado, observa-se sua preocupação cm articular o desejo como único meio possível de sustentação do trabalho clínico: de um lado, mediando; de outro, especificando a função do analista. Em última instância, Kátia pode con- cluir que é o real da clínica que provoca a produção de um saber para além do saber teórico. O interessante, nesse contexto, é a diferença entre saber produzido
e saber teórico, diferença essa decorrente do desejo. É também o desejo que determina a posição na estrutura, tema explorado em seguida pelas contribuições de Nelma Cabral e Lcnita Bentcs. Enquanto a primei- ra articula a importância do próprio conceito de estrutura para a psicanálise, em sua história e cm suas conexões, a segunda, após indicar essas contribuições, reto- ma a particularidade da estrutura cm psicanálise, inscreve-a na diferença entre desejo e gozo e sustenta a importância da referência ao objeto a como parte da noção de estrutura em suas especificidades cm relação à noção de fenômeno. Essa diferença entre fenômeno e estrutura também pode ser corroborada pelo
exame que André Schaustz faz a respeito da particularidade da estrutura psicótica, a partir da contribuição de Clérambault à obra de Lacan, que chega a chamá-lo de "seu único mestre cm psiquiatria". O"automatismo mental" cunhado por Clérambault torna possível identificar cm seu trabalho a percepção do que, mais tarde, Lacan relacionaria com a estrutura. Por sua vez, Ana Paula Sartori ilustra o trabalho psica- nalítico no campo das psicoses com casos de sua clínica. E, como sempre, observa-se que, na pesquisa cm psicanálise, a elaboração da clínica é sem dúvida o contexto cm que melhor se verifica que sempre há mais alguma coisa a saber. O volume se encerra com três textos sobre as conexões da psicanálise com o social. O primeiro, de Lia Amorim, aprofunda a questão da política a partir de
Maquiavel e da ética de O Príncipe. Se, como dizia
diante da psicose, vemos aí um convite a que o analista não recue diante da maldade
e das questões que se colocam no momento cm que a "Revolução da Informação"
Lacan, o analista não deve recuar
escamoteia, em última instância, a própria castração, fazendo o sujeito enganar-se quanto ao fato de que, pondo o gozo a seu alcance, pode recusar o desejo sem qualquer prejuízo. O segundo texto dessa série, de SoniaAltoé, torna presente nes- te livro a importância da tomada de posição do psicanalista diante de sua clínica e na sociedade cm que atua, demonstrando que não existe pesquisa psicanalítica sem
16
Clínica e pesquisa em psicanálise
referência política. Com efeito, não se pode confundir a questão freudiana da absti- nência com uma pretensa neutralidade do analista. A primeira, necessária para o ato analítico, exige que o analista ocupe o lugar de objeto enquanto agente do discurso analítico, ao passo que a neutralidade - tantas vezes atribuída ao analista - o implica como sujeito do engano cm tentar velar o fato de que a toda direção de tratamento são imanentes os princípios de seu poder. Se a pesquisa cm psicanálise necessaria- mente parte e retorna à clínica, então é fundamental, antes de mais nada, não cair no engodo que vela os princípios do poder e cujas conseqüências inúmeras vezes ultrapassam os próprios limites da psicanálise, por mais que as instituições psicana- líticas já tenham se esforçado para encobri-lo. Por fim, o texto de Ademir Pacclli retoma as várias éticas que podem permear os atos clínicos, não somente de forma teórica, como também a partir de sua experiência clínica. Deixar seu texto para o final do volume foi uma maneira de terminá-lo com a questão que deve sustentar todo trabalho presente nesse Mestrado: que ética para a psicanálise na universidade?
Apresentação
Rio de Janeiro, novembro de 2000.
Sonia Alberti
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Psicanálise: clínica & pesquisa
Luciano Elia
fsicanálisc, ciência e pesquisa
Partiremos, neste artigo, de um exame da própria noção de pesquisa tal como ela se faz possível cm psicanálise. Mas não se trata apenas de examinar as condições de possibilidade da pesquisa cm psicanálise. Trata-se também de verificar cm que medida a pesquisa se impõe à prática (ou à práxis, a um só tempo clínica e teórica) do psicanalista. Não estamos num nível meramente facultativo, no plano do direi- to que o psicanalista --- enquanto indidduo e cidadão line da democracia -- tem e de\'e continuar tendo de conferir àsua prática uma dimensão de pesquisa ou, mais exatamente, de reconhecer cm sua prática a dimensão que a pesquisa necessaria- mente tem por razões de estrutura. Referimo-nos ao nível da estrutura dessa práxis, que, conforme sustentamos, implica e impõe a dimensão da pesquisa, queira ou não o psicanalista cidadão democrático, saiba ele disso ou não. O inconsciente não é democrático, embora seja na democracia que ck encontra as condições sociais e políticas mais propícias à sua incidência e ao seu reconhecimento, por razões que foram objeto de um outro trabalho nosso, apresentado em 1999. 1 A pesquisa é uma dimensão essencial da práxis analítica, cm função de sua articulação intrínseca, e não circunstancial, com o inconsciente. A esse respeito, evocamos a frase escrita por Freud, sob sua forma habitual de rccomcndaça-o, cm um de seus cscrítos ditos "técnicos": "A psicanálise faz cm seu favor a reivindicação de que, cm sua execução, tratamento e investigação coincidem" 2 •
1 Cf. ELL\, L. "A psicanálise, a ciência, o capitalismo e a democracia". Comunicação apresen- tada na Reunião Lacanoamei-icana de Rosario, ocorrida nos dias 27, 28, 29 e 30 de julho de
1999.
' f-REUD, S. "Recomendações aos médicos c1uc praticam a psicanalise" ( 1913). Em: Obw
mmplct.is, rnl. Xll. Rio ele Janeiro: Imago, 1969, p. 152.
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Podemos, assim, dizer que a resistência ao reconhecimento dessa dimensão é uma forma de resistência ao real da prática ana}ítica. Trata-se, contudo, de um modo de rn11edfcr e de fazer pesquisa que deve ser claramente diferenciado, cm sua especificidade, do modo cientÍÍico de conceber e de fazer pesquisa. As razões dessa exigência de diferenciação sustentam-se, cm última instância, nas relações que a psicanálise mantém com a ciência clássica. Assim, sem alongarmo-nos demasiadamente no exame dessa questão, já cm si bastante ampla e complexa e à qual temos dedicado a devida atenção cm outros trabalhos 1 , limitemo-nos a obscnar que a relação da psicanálise com a ciência pode ser formulada cm termos de dcriraçào da primeira cm relação à segunda, como propõe Lacan+. A psicanálise deriva da ciência, tendo, no corte que inaugu-
ra a ciência moderna no século XVI, com Galileu e Descartes, a sua condição de
possibilidade. Mas se a psicanálise deriva da ciência, não se reduz a ela, operando, cm rela- ção ao passo inaugural da ciência, um corte, um rompimento discursivo, para cujo entendimento a noção de sujeito é a chave fundamental, porquanto é cm rclaç:ão à posição dessa noção cm cada um desses dois campos discursi\·os, o da ciência e o da psicanálise, que melhor se esclarecem as relações entre esses campos. Foi o pensamento de Lacan que trouxe as condições epistemológicas para este esclarecimento. Freud aspirava a que a psicanálise viesse a ser reconhecida como uma ciência. Neste sentido, ele nutria o Ideal de Ciência, como se exprime Jean- Claude Milner', o que significa que ele não podia, do ponto cm que se situava como fundador da psicanálise, tirar todas as conseqüências de seu passo. Lacan coloca para a ciência a questão: "que ciência poderia incluir a psicanálise?", de-
monstrando, com isso, que é a psicanálise que coloca para a ciência uma questão, precisamente a de ter reintroduzido o sujeito na cena discursi\·a cm que a ciência, ao fundar-se, o situou e da qual, no mesmo golpe, o excluiu. Pode a ciência supor- tar a inclusão do sujeito, por ela mesma suposto, na cena discursiva que constitui
o seu campo operatório? Ou tal inclusão implica o corte discursivo que funda a
psicanálise? Lacan responde negativamente à primeira questão e afirmativamente
1 Ver,
por exemplo, ELIA, L. "Uma cicncia sem coi-ação", Rcri,'ta Agora: estudos cm teoria psic,rnalicicJ,
vol. II, n. 2. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria /Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica - UFRJ, 1999, p. 41-5 3.
., Cf. LACAN, J. "La scicnce ct la \'érité". Em: Écrits. Paris: Seuil, 1966, p. 880.
; MILNER, J. -C. L'CEurrc c/Jirc. Paris: Seuil, 1995.
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Clínica e pesquisa em psicanálise
à scgllllda, situando, assim, com rigor e precisão, a relação de derivação e ultra- passagem da psicanálise cm relação à ciência, no ponto preciso cm que tal deriva- ção se constitui: o ponto do sujeito. Sustentamos, a partir desses ensinamentos de Lacan, que a psicanálise não constitui simplesmente um "saber" a mais, entre outros, a integrar o rol daquilo que, a partir de uma velha discussão com ares epistemológicos, seriam as ciências (da "natureza" ou da "cultura") ou o campo dos saberes ditos não-científicos, pré- científicos ou simplesmente indiferentes à científicidade. Para nós, e seguindo Lacan, que foi quem o demonstrou, a psicanálise constitui um saber inteiramente derindo porém não integrante do campo cientifico, porquanto resulta de uma operação <le "subversão" desse campo pelo viés <lo sujeito: Lacan afirma a existência de um sujeito ela ciência, constituído no e pelo mesmo ato fundador da ciência moderna, com Galileu Galilci, e formulado por Descartes. Podemos dizer que àquilo que se produziu como fundação da ciência no sentido moderno do termo, a física moderna, empírica e matematizada (Galileu), corresponde uma elabora- ção filosófica que consiste cm tirar as conseqüências desse ato por relação à subje- tividade (Descartes). Essa "dobradinha" tem uma causa maior: se a ciência moder- na abole, com seu gesto de violência conceitual desferida contra as evidências imediatas e perceptuais, a certeza que até então o homem podia ter quanto à consistência dessas evidências, o sujeito, assim abalado, sai de sua toca, despren- de-se do fundo indiferenciado cm que, crédulo, se mantinha, para desenhar seu contorno angustiado de dúvidas, perguntando-se: "de que então posso estar cer- to?" Exaurindo ao máximo todos os planos duvidosos, e radicalizando assim a função mesma da dúvida nascida desse abalo e elevada acondição metódica, Descar- tes responde: "Só posso estar certo de que penso, pois mesmo que disso duvide, ainda assim continuarei pensando". O passo cartesiano inventa o sujeito da ciência, segundo Lacan comentado por Jean-Claude Milner6, como um sujeito sem qualidades, sejam sensoriais, pcrccptuais, anímicas, morais, enfim, numa palavra, empíricas. Nas palavras de Milner, formulando a hipótese do sujeito, "há algum sujeito, distinto de toda e qualquer forma de individualidade empírica". As qualidades fariam do sujeito assim constituído um indivíduo, efeito de revestimentos identificatórios e imaginarizantes do sujei- to. Tais revestimentos são via de regra aquilo que as ciências ditas "humanas" to- mam como objeto de estudo e investigação.
6 Ibid., p. 35.
Psicanálise: clínica & pesquisa
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A ciência, por sua vez, por operar pela via do significante, tratando o real pelo simbólico, obriga àsuposição de um sujeito (um sujeito é sempre o que é suposto pelo significante) sem qualidade alguma. Ora, dizer com Lacan que a psicanálise deriva do campo da ciência (não habitando, contudo, esse campo) é dizer, como aliás ele também diz, que o sujeito com que opera a psicanálise - o sujeito do inconsciente - é precisamente um sujeito sem qualidades: "O sujeito com que operamos cm psicanálise não pode ser senão o sujeito da ciência", diz ele cm "A ciência e a vcrdadc" 7 . Eportanto insustcntáYcl que a psicanálise seja uma"ciên- cia hun1ana", não se tratando, nela, de forma alguma, do "homen1" - sendo a própria noção de "ciências humanas" o efeito da "humanização" do sujeito consti- tuído pela ciência moderna. Mas nem por isso a psicanálise seria uma ciência "física", ou "natural", un1a :\fatunrisscnschaít, con10 queria Freud, ao sustentar o ideal de ciência, que mencionamos anteriormente, levando-o a fazer da psicanálise a aspi- rante a uma ciência ideal, sob o modelo da física. Por isso, a partir da obra de Lacan, podemos dizer que a psicanálise não mais cabe no campo da ciência. Esta, ao obrigar à suposição de um sujeito (sem as c1ualidacles que lhe emprestarão as ciências humanas) o ejeta, contudo, de seu campo operatório, a fim de constituir-se como um saber (conceitua] e matematizado) sobre o real (empírico). Um saber que supõe um sujeito, mas que não opera sobre ele, não o coloca em cena, cm questão, fundan- do-se, antes, cm sua exclusão do campo de sua incidência operatória. A psicanálise, ao retomar uma démarchc científica, subverte o sujeito suposto e excluído, a um só tempo, pela ciência, e trabalha a partir ela inclusão do sujeito no campo de sua experiência, inclusão que curiosamente se faz, não por acaso ou contingência, pela Yia do inconsciente: retirado da condição de excluído, condi- ção própria ao sujeito da ciência, o sujeito da psicanálise só pode ser incluído como sujeito do inconsciente. Se consideramos que ha um modo ele conceber e fazer pesquisa cm psicanálise que lhe é próprio, estamos no terreno do método. Daí a importância que esta palavra - método - e essa noção, com todas as suas conseqüências para o exercício da psicanálise, tem para nós há já bastante tempo, a ponto de termos dedicado toda uma seção de nossa tese de doutoradoº a essa questão, metodológica\', à qual
7 LACAN, J. "La science et la \'érité". Op. cit., p. 858.
8 ELIA, L. "Para além ela scxualiclacle: a psicose na psicanálise". Tese de Doutorado. Rio de Janei- ro: Pontifícia Uni"ersidade Católica, 199 2. Inédito.
9 Cf. "Pela elaboração dos princípios de uma metodologia da psicanálise ~ Os postulados da Analítica". Em: "Para além da sexualidade: a psicose na psicanálise", Op. cit., parte 1.
22
Clínica c pes'luisa em psicanálise
remetemos portanto o leitor, dispensando-nos da tarefa de retomar, aqui, os prin- cípios metodológicos que, à época, procuráYamos estabelecer para a psicanálise.
O ponto central da questão metodológica, que não podemos não retomar
aqui, pode ser, contudo, resumido como a necessária inclusão do sujeito em toda
a extensão, e cm todos os seus níveis-· saber teórico, prática clínica, atividade de
pesquisa etc. --, do campo da psicanálise. Ora, faz toda a diferença se o sujeito, pressuposto pela ciência mas excluído da cena de seu agenciamento operacional e
metodológico, é posto cm cena (cm Outra Cena, na expressão de Fechner cin andcrer Schauplatz de que Freud tanto gostava) pela psicanálise. Veremos as conseqüências
desse passo. Princípios freudianos tais como tomar cada caso como se fosse o primeiro
(cuja tradução conccitual seria: o saber do inconsciente não é apreensível por uma
mera aplicação do saber acumulado pelo analista-cientista, mas se recoloca a cada
\TZ, inédito, Único e singular, a ser lido segundo uma estrutura que, por sua vez, não coincide com o saber universal e genérico da ciência clássica, mas inclui ne- cessariamente o real inapreensível pelo universal); ou como o analista deve man-
ter uma atenção uniformemente distribuída, cqüiflutuantc na escuta de seus
analisantes, que definem a contrapartida, para o analista, da regra fundamental (a
Grundregef) da psicanálise, interditam que a escuta do analista seja guiada pelas qualida-
des \·aloradas de sua consciência, ainda que tais qualidades se traduzam pelos inte- resses "científicos" de um saber acumulado a progredir.
Toda e qualquer pesquisa cm psicanálise é, assim, necessariamente uma pes-
quisa clínica, não tanto pelo fato de utilizar como "campo" - campo da pesquisa dita "de campo" - um espaço terapêutico - consultório, ambulatório, hospital ou
outro -, modo como normalmente se concebe o caráter indicado pelo atributo
"clínico" <lado a uma pesquisa. Em psicanálise não há, a rigor, "pesquisa de cam-
po", formulação que pressupõe a existência de outras modalidades de pesquisa, que justamente não seriam "de can1po", e sim "teóricas", por exemplo, como se
costuma dizer. Na psicanálise, há, isto sim, um "campo de pesquisa", que é o in-
consciente, e ciue inclui o sujeito. Por isso, a clínica, como forma de acesso ao
sujeito do inconsciente, é sempre o campo da pesquisa.
Toda pesquisa cm psicanálise é clínica porque, radical e estruturalmente, impli- ca que o pesquisador-analista empreenda sua pesquisa a partir do lugar definido no dispositivo analítico como sendo o lugar do analista, lugar de escuta e sobretudo de
causa para o sujeito, o que pressupõe o ato analítico e o desejo do analista.
Esta afirmação -- a de que o lugar do pesquisador corresponderia ao do analista
no dispositiYo - requer, contudo, uma nova interrogação, uma volta a mais no
Psicanálise: clinica & pesquisa
23
sentido de seu rigor. Se o pesquisador é um psicanalista operando no dispositirn analítico a partir de seu lugar, de seu desejo e cm seu ato, é no entanto desde a posição de analisante que sua atividade de pesquisa propriamente dita terá lugar e atravessará os momentos de seu descnvolYimento. Nesse ponto, a estrutura do discurso tal como Lacan a concebeu 10 permite o giro pelo qual, em uma mesma disposição discursiva, que estabelece lugares e letras que os ocupam, é possível ocupar mais de uma posição. Assim, o lugar de agente ou semblante do discurso analítico, nele ocupado pelo objeto a- objeto dito "mais-de-gozar" em posição de causa de desejo - não se compatibiliza com a posição de pesquisador. Pesquisar é antes uma posição de trabalho, a segunda posição no discurso, também designada como "lugar do Ou- tro" do discurso, lugar do trabalho na transferência de um sujeito dividido a partir do saber constitutivo do campo do inconsciente, campo de pesquisa, como o de- finimos. Toda pesquisa cm psicanálise é, portanto, uma pesquisa clínica, porquanto o modo pelo qual o saber cm questão será produzido obedecerá, pelas mesmas razões, a lógica do saber inconsciente, implicará a transfcrência 11 e será elaborado a partir da instalação do dispositivo, interditando, por exemplo, que uma hipótese conccitual prévia à escuta venha a ser colocada à prova experimental, no que Thomas Khun denomina o"contcxto da verificação", em oposição ao"contcxto da dcscoberta" 12 , e na qual ela seria verificada ou refutada. Na psicanálise, cm decor- rência das exigências estruturais do dispositivo através do qual ela opera, o con- texto da descoberta coincide com o contexto da verificação. Qualquer que seja a temática da pesquisa, qualquer que seja a problemática investigada, tais exigências metodológicas se impõem, fazendo com que o analista-pesquisador dirija sua es- cuta, sua intenção -· sempre clínica - de pesquisa ao que visa a saber, mas sem partir de um saber previamente estabelecido, a ser verificado ou refutado. Énesse
'º Referimo-nos à chamada "teoria dos quatro discursos", empreendida por Lacan a partir de O Scminàrio, li,ro XVlf: o arcsso da psicanálise ( 1969- 70) (Rio d<.: Janeiro: Jorge Zahar Edito1·, 1992), no qual define o discurso como laço social articulando quatro lugares (agente ou scmhlantc; outro ou trahalho; produção ou ;csto; e ,·crdadc) e quatro letras que ocupam esses lugares, cm determinada ordem (o par significante\,\, o sujeito$ e o ohjcto a). CL também o texto de Sonia Alberti neste volume, cm especial a página 45.
11 Ver, a este respeito, artigo de nossa autoria intitulado"A transferência na pesquisa em psicanálise:
lugar ou excesso?", Rc1jsta Psicologia, Refie.tão e Crítica, vol. 12, n. 3, Porto Alegre, UFRGS, 1999.
12 KHUN, T. A estrutura das remluçõcscientíficas. São Paulo: Perspectiva, 1971.
24
Clínica e pesquisa cm psicanálise
sentido que Lacan, tomando a frase de Picasso, dirá, cm 1964, referindo-se à
auv1 .
O inconsciente comporta uma forma de saber, ou, mais exatamente ainda, é
uma forma de saber que não se deixa apreender por todo e qualquer método
ortodoxo ou tradicional da ciência clássica: ao estabelecimento de um novo "objeto"
de saber o inconsciente - corresponde o estabelecimento de um novo método de
saber, o método analítico. Aqui caberia parafrasear Mauricc Merlcau-Ponty, quan-
do diz, a respeito da fenomenologia, que ela só é acessível a um método
fenomenológico. Diremos, pois: a psicanálise só é acessível a um método psicana-
lítico.
.d
a
d
e
d
e pesqmsa: ·
"E
u nao - procuro, ac h o
"
13
.
A psicanálise e sua extensão social
Nesses anos que encerram nosso século XX, a psicanálise faz cem anos, e, ao
longo dessa sua secular existência no mundo, vem demonstrando robustez, vigor
e solidez capazes de resistir às mais veementes críticas feitas às suas concepções e
modos concretos de intervenção clínica, tendo mudado, definitivamente, os mo-
dos de ser, pensar e tratar do sujeito humano moderno, e, no campo mais propria-
mente clínico de seu exercício, tendo demonstrado eficácia e sucesso no trata-
mento das neuroses, que, cm função do advento psicanalítico, deixaram de habi-
tar o campo das doenças médicas para configurarem-se como resposta do sujeito
falante frente aos impasses de sua sexualidade, de sua posição como sujeito do
desejo.
O locus específico do exercício clínico da psicanálise, ao longo de toda a sua
história, tem sido, clássica e ortodoxamente, o consultório particular. Queremos
colocar precisamente em questão o consultório particular como lugar princcps ou,
na maioria das vezes, exclusivo, do exercício da prática clínica desse saber que,
por outro lado, tanto revolucionou os modos de pensar e de viver nesse primeiro
século de sua existência.
Tomado, via de regra, não como categoria articulada no campo teórico-clíni-
co da psicanálise, mas como mero lugar físico cm que se pratica o ofício de psica-
nalista, o consultório particular encontra assim as Yias de sua "naturalização", pro-
cesso pelo qual ele deixa de ser interrogável como condição estrutural da prática
psicanalítica. Ele foi concebido, durante boa parte da história do movimento psi-
11 LACAN, J. Lc Séminairc, Lirrc XI: Lcs ()uatrc Conccpts Fondamcntaux de la Psychana{vsc ( 1963-4 ). Pari~:
Seuil, 1979, lição 1.
Psicanálise: clínica & pesquisa
25
canalítico, como mero arranjo ou disposição mobiliária e imobiliaria de elemen- tos (poltrona, divã etc., dispostos em determinada posição numa sala) e, acrescido da dimensão da relação analista-analisante, recebeu o nome de settinganalítico. Essa concepção de settínganalítico não é inocente nem desprovida de conseqüên- cias. A primeira que apontaremos é a mais imediata: a clitização da psicanálise, sua restrição a determinadas camadas <la população que têm acesso à configuração clínica denominada consultório particular. Procede-se como se os princípios teó- rico-clínicos e éticos da psicanálise autorizassem, a\·alizassem e até exigissem cer- tas condições ditas "técnicas" para o exercício da prática psicanalítica, condições entre as quais situa-se uma configuração logística eivada de pre-requisitos sociocconômicos, políticos e ideológicos: pertinência às classes de renda mais elevada, critérios de encaminhamento e chegada ao consultório particular que dependem de um determinado código de classe, poder aquisitirn para pagar o preço de mercado da sessão analítica, chegando até a exigências do tipo nível intelectual, código lingüístico e outros, que se reduzem a meros critérios de in- clusão e exclusão social e econômica. Tais critérios de natureza exclusivamente ideológica são alçados, assim, a condições de análise, e é esse o primeiro nível da deformação da questão. A utilização de algum rigor no exame da questão revela rapidamente o grau dessa deformação. A psicanálise introduz no campo do saber e da experiência do homem a dimensão do sujeito do inconsciente. Ora, sem nos alongarmos nas inúmeras, complexas e profundas conseqüências desse passo, limitemo-nos a dele extrair uma conseqüência fundamental: o sujeito do inconsciente não é um sujeito empírico, dotado de atributos psicológicos, sociais, políticos, ideológicos ou afetivos. Enquanto tal, ele é sem atributos, e trata-se, na experiência analítica, de reconstruir os modos pelos quais ele construiu, sintomaticamente, a imensa ilo- resta de valores, identificações, traços de pertinência social, política ou ideológi- ca, aspectos psicológicos etc. O sujeito do inconsciente não é, cm si mesmo, po- bre ou rico, branco ou negro, tampouco - e aí se situa talYez o ponto mais escan- daloso da descoberta freudiana - homem ou mulher. É em sua relação com a alteridadc, cm que para ele consistem a linguagem, a família, a sociedade, enfim, todos os elementos do que Lacan denominou o Outro, que o sujeito vai scxuar-se, definir-se homem ou mulher, e definir também seus demais atributos.
A despeito disso, é clássica a acusação de elitismo feita à psicanálise. Remonta aos textos freudianos ditos "sobre a técnica" a proposição de que a psicanálise não dc\'e ser barata, que seus custos são elevados, que o analista não <leve ceder às primeiras e inequívocas tentativas do paciente de barateá-la, na medida cm que
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Clínica e pesquisa em psicanálise
isso corresponde à resistência, e que, via de regra, diz Freud cm "Sobre o início do tratamento", as razões financeiras alegadas como impeditivas da análise, do tipo "não posso pagar isso", encobrem uma dificuldade de outra natureza: os proble- mas financeiros alegados pelos pacientes como impossibilidade de arcar com o custo de sua análise Yia de regra se acompanham da recusa dos mesmos pacientes a abrir mão de outros gastos, cm geral supérfluos, ou pelo menos indicativos de que o paciente os situa cm um lugar de prioridade cm relação à sua análise, que fica assim cm lugar secundário em sua hierarquia de despesas. Isso, para Freud, funciona cm termos da realidade social da classe média.
Não é a psicanálise, portanto, de saída, uma prática caritativa, social (no sen- tido filantrópico ou assistcncialísta cm que o termo é comumente empregado) ou samaritana. A isso a psicanálise se opõe com o máximo rigor. É necessário, embora fosse eYidente ao primeiro exame mais detido, assinalar que essa postura cedo desYirtuou-sc em uma forma de franco elitismo, caracteri- zado pela aversão às classes populares, apresentadas, nesse contexto, como inca- pazes de heneficiarcm-se da psicanálise, desprovida dos famosos códigos lingüísticos "não-restritos" e destituida da suposta "complexidade subjetin" necessária à reali- zação de uma análise. Freud não sustenta uma posição como essa. O que ele faz, não eYitando com isso os riscos de acusação de elitismo, é colocar o sujeito acima de suas conllgura- çõcs ou inserções sociais. Não se trata, nessa démarchc, de desprezar as determina- ções sociais da subjetividade, mas de evidenciar a relativa independência que o processo de constituição da subjetividade mantém em relação às referidas deter- minações. Ou seja: quando se trata do sujeito, a questão ultrapassa a contex- tualização social que o cnvoh·e, fixando-se cm pontos que lhe são, fundamental- mente, independentes. Exemplo disso é a proposição de Freud de que as pessoas pobres, ,·ia de regra (o que significa, por razões de estrutura), encontram na neurose um gozo que lhes substitui as agruras da sua condição social, da qual não podem linar-se facil- mente. A neurose é um presente, por assim dizer, para encobrir outras desvanta- gens. Passa-se da desvantagem à vantagem. Daí resulta que a superação da neuro-
|
se |
seria mais difícil entre os pobres. Outro exemplo diria respeito aos deficientes. |
|
O |
sujeito (seja ele quem for, pertença ele à classe que pertencer), procura sempre |
flxar-se cm uma posição de gozo por relação à realidade, ao seu sintoma, à sua condição. Trata-se, para Freud, de evidenciar o gozo. É difícil apreender a verdadeira dimensão do que propomos (seguindo o que Freud propõe), se não enfrentarmos uma questão mctodológico-conccitual que
Psicanálise: clínica & pesquisa
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se enunciaria assim: "a psicanálise não pode reivindicar uma transcendência cm relação ao social. O conceito de inconsciente, ou de grande Outro, não pode ser independente da realidade histórica, social, não está fora do tempo e do espaço". Se o pobre de Freud goza de sua pobreza a ponto de aderir sem resistência à neurose é porque ele está, como sujeito, além do que o social lhe determina, como cidadão: ele pode gozar disso. Se ninguém é defi.nfrcl como negro, pobre, judeu, homossexual, deficiente, louco, é na medida cm que sua condição de sujei-· to situa-se para além do significante (no caso, o significante do preconceito), de- pendendo, de forma mais fundamental, de sua relação com o objeto a, isto é, da condição de objeto que o sujeito tem no real. Mas se o sujeito, para a psicanálise, o sujeito do inconsciente, é a rigor sem qualidades - e, nomeadamente, no caso cm questão, sem qualidades sociologica- mcntc determinadas - e portanto não é definível dessa forma, ele contudo, uma vez constituído pelo significante, engaja-se no empenho de produzir as identifica- ções que, no imaginário, vão constituir a tcssitura que o compõe. Assim, o sujeito, não por um assujcitamento intç:gral ao "Social" e seus signos, mas por adesão ao objeto constituído precisamente por aquilo que escapa à possibilidade de significantização, ou seja, pelo que, da ordem significante, é não-significável e com o qual estabelece uma relação fantasmática, vem a produzir sua teia de iden- titlcações que recobrem o fato de que, no inconsciente, ele não é idêntico a si mesmo, não tem identidade, não sabe quem ele é. O sujeito den: autorizar sua própria condcnac;:ão social. As formas de aplicação da psicanálise são inúmeras. A psicanálise não é sensí- vel a certas formas e critérios de ordenação dos sujeitos, como classe social, nível cultural (de instrução), gostos, partidos políticos, credo, raça e cor. Não: ela lhes é indiferente. Atravessa todas essas categorias, visando o sujeito que, se as escolhe, não é por elas acessível ou não à experiência analítica. A psicanálise é sensível a outros critérios, aos quais ela é diferente: posição do sujeito cm face de seu desejo, de seus pontos de gozo, nível de sua diYisão em relação ao que o determina,
pontos de angústia, pedido ao Outro, modo de funcionamento fantasmático e de organização (ou desorganização) sintomática etc. É possível, assim, fazer psicanálise cm qualquer estrato social, cm qualquer am- biente institucional, desde que haja analista, de um lado, e_sujeito dividido, de outro. O analista não deve confundir seus critérios com os critérios sociàis'. Assim, o elitismo
é aqui demonstrado como impossírel numa postura rigorosamente psicanalítica. Mas o suposto elitismo da psicanálise é também fruto da imaginarização, da atribuição de sentido seguida de sua "naturalização" e da decorrente impressão do
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Clínica e pesquisa em psicanálise
caráter necessário (e não contingente) das significações atribuídas, e de modo algum é algo que se possa sustentar, a rigor, nos princípios teórico-clínicos e éti- cos da psicanálise, que definem, sim, as condições de análise, condições estrutu- rais que estão longe de confundir-se com o plano imaginário que tece as significa-
ções atribuídas e tornadas"necessárias" ao exercício da psicanálise, e que são antes
o efeito de fatores sociocconômicos relacionados
psicanálise no sistema capitalista. Nessa direção, Jacques Lacan, ao empreender sua famosa rcleitura dos textos freudianos, pela qual revigorou os princípios mesmos da psicanálise, que vinham perdendo sua ,·irulcncia e radicalidade, introduziu um outro modo de conceber o lugar cm que se pratica uma psicanálise, situando-o como lugar estrutural, cm que um analista estabelece um modo inteiramente peculiar, definido pelo discur so analítico, de relacionar-se com um sujeito - o analisante - no trabalho de análise. Deu a esse lugar o nome de dispositirn analítico, que tem, sobre seu antecessor sctting, a imensa vantagem de discernir o plano imaginário (físico, espa- cial, mas cfctinmcntc marcado por critérios econômicos e ideologicamente construídos) da situação analítica do plano estrutural, que, como tal, não depende de uma configuração particular e circunstancial (transformada cm necessidade técnica), mas, ao contrário, determina, por seus eixos simbólicos, toda configura- ção particular e circunstancial que se queira analítica: consultório, ambulatório, enfermaria ou qualquer outra configuração institucional. Aproximando a discussão que acabamos de fazer de nossa questão de pesqui- sa, identificamos duas características fundamentais que marcam a ortodoxa confi- guração do dispositirn psicanalítico como um consultórioparticular. Aliás, valendo-nos da dimensão interprctatin que a psicanálise confere ao uso da palavra, podemos enxergar essas duas características no próprio binômio, nas duas pala\Tas que com- põem a expressão consuitório particular. A primeira característica de uma tal con- cepção do dispositiYo analítico é a de que ele deva ser um consultório, ou seja, a de que ele não deva ser outra coisa (ambulatório, enfermaria ou qualquer outra configuração institucional). Esse modo de conceber o dispositivo é restritivo e imaginarizantc, interditando, de saída, a prática psicanalítica exercida cm outro espaço, ou desautorizando-a como Ycrdadciramente analítica (incidentalmente, podemos verificar nesse segundo efeito o sentido da atribuição de alternativa a
toda prática que se exerce cm outros espaços e disposições). A segunda caracterís- tica <la concepção do dispositivo analítico como dcYcndo coincidir com o consul- té)rio particular é dada pela segunda palavra: particular. Se o dispositivo deve ser particular, então não deve ser público. Confunde-se aí, cm primeiro lugar, o fato
à inserção da prática clínica da
Psicanálise: clínica & pesquisa
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de que toda experiência psicanalítica é particular, no sentido de ser a experiência de
um sujeito particular e de ter um caráter privado, com o sentido vulgar de particu-
lar corno scn-iço pago (e caro), ofício "necessariamente" praticado cm espaços não públicos, não constitutivos das instituições públicas de saúde, por exemplo. Acrescente-se a essas conseqüências da concepção do dispositivo analítico como consultório particular a exclusão, do campo de aplicação clínica da psicanálise, de todo e qualquer quadro psicopatológico ou de toda e qualquer estruturação clíni- ca do sujeito que não se enquadre nessa modalidade específica. Em outras pala- vras, além do efeito de elitização da prática psicanalítica, verificamos o efeito ela
restrição à neurose ou a condições psíquicas e subjctiYas que se adeqüem aos modos de encaminhamento e chegada a um consultório, e às idas e vindas a ele. É claro que, para além das conseqüências dessa concepção do dispositivo, ou- tros fatores ele importância maior determinam, por exemplo, os impasses da psi- canálise na abordagem clinicamente eficaz de quadros não neuróticos: psicoses, toxicomanias, perversão, delinqüência, deficiências diYersas etc. Partimos, con- tudo, da redução da concepção do dispositiYo ao consultório particular porc1uc parece-nos que esse é, historicamente, o viés pelo qual tomou forma e encontrou lugar um certo conjunto de resistências dos psicanalistas a confrontarem-se com novas configurações, no entanto internas ao campo da clínica, no sentido de faze- rem avançar a psicanálise ou de darem passos nos impasses que tais situações colo- cam ao analista. Nesse ponto, vale lembrar a conclamação que Lacan fez aos ana- listas quanto à psicose: "Não recuar diante da psicose". Contrastando com esse recuo e resistência, os analistas são loquazes e prolixos
cm campos não clínicos, dispondo-se a intenir assiduamente, através da mídia, na
vida familiar e conjugal dos cidadãos, cm seus comportamentos sociais, em seus modos de viver, sem que o sofrimento psíquico dos sujeitos assim "analisados" tenha demandado, justificado ou autorizado sua intcnenção. Enquanto isso, sujeitos que vivem seus transtornos psíquicos com grande sofrimento, procurando ou não os psicanalistas (e quando não os procuram é porque estão exchúdos do "perfil" - "psí- quico" ou, na maioria das vezes, socioeconômico - traçado por esses últimos como "sujeitos analisáveis"), permanecem fora do campo de atuação da psicanálise, cm instituições públicas ou privadas cm relação às quais é proclamada uma suposta e injustificável "incompatibilidade" entre as"condições da prática psicanalítica" e a con- figuração institucional, como se o dispositivo analítico nelas não se pudesse instalar. Sobre isso, nada melhor do que recorrer às próprias palavras do fundador da psicanálise, a quem se tem a tendência de atribuir a posição segundo a qual a psicanálise é uma prática elitista e burguesa. Ouçamo-lo:
30
Clínica e pesquisa em psicanálise
[
) nossas atiYidades terapêuticas não têm um alcance muito vasto.[
) Com-
parada à enorme quantidade de miséria neurótica que existe no mundo, e que talvez não precisasse existir, a quantidade que podemos resolver é quase despre- zível. Ademais, as nossas necessidades de sobre,·frência limitam nosso trabalho às classes abastadas, que estão acostumadas a escolher seus próprios médicos e
cuja escolha se des\"ia da psicanálise por toda espécie de preconceitos. Presente-
mente, nada podemos Fazer pelas camadas sociais mais amplas, que sofrem de neuroses de maneira extre- mamente gran:. ; 4
Neste trecho, vemos claramente que, no pensamento de Freud, as limitações sociais da psicanálise fundam-se cm questões, elas também, sociais - a necessida- de de sobrcún':ncia de profissionais liberais c1uc exercem a função social de psica- nalistas - e não deriYam de posições metodológicas e discursivas do saber psicana- lítico. Ao contrário, do ponto de vista de uma teoria da clínica, o que é afirmado é que "as camadas sociais mais amplas sofrem de neuroses de modo extremamente grave", e que portanto poderiam bencflciar-se da-psicanálise, enquanto as classes abastadas tendem a desviar-se da psicanálise "por toda espécie de preconceitos". Freud então antevê uma situação diferente daquela que descreve no momen- to em que escreve esse texto, e a situa no futuro:
\'amos presumir que, por meio de algum tipo de organização, consigamos au- mentar os nossos números cm medida suficiente para tratar uma consideráYcl
massa da população. [
ciência da sociedade despertará, e lembrar-se-á de que o pobre tem exatamente tanto direito a uma assistência à sua mente quanto o tem agora à ajuda oferecida pela cirurgia, e de que as neuroses ameaçam a saúde pública não menos do que a tuberculose, de que, como esta, também não podem ser deixados aos cuidados impotentes de membros indh·iduais da comwlidade. Quando isto ocorrer, ha\'e- rà instituições ou clínicas de pacientes externos, para os quais serão designados médicos analiticamente preparados, de modo que homens que de outra forma cederiam à bebida, mulheres que praticamente sucumbiriam a seu fardo de pri-
vações, crianças para as quais não existe escolha a não ser o e1nbrutecimento ou a neurose, possam tornar-se capazes, pela análise, de resistência e de trabalho eficiente. Tais tratamentos serão gratuitos. Pode ser c1ue passe um longo tempo
)
antes que o Estado chegue a compreender como são urgentes esses deveres. [ Mais cedo ou mais tarde, contudo, chegaremos a isso. 1 ;
) é possh-cl prever que, mais cedo ou mais tarde, a cons-
,. FREUD, S. "Linhas de progresso na terapia psicanalítica" (1919). Em: Obras completas, vol. XVII. Op. cit., p. 209-1 O.
1 '
Ibid., p. 210.
?si<.:análise: clínica & pesquisa
31
Finalmente, depois de tecer algumas considerações sobre a "tarefa de adaptar a nossa técnica às novas condições", perigosas porque abrem para a possibilidade, já por nós apontada neste artigo, de que se procurem "técnicas alternativas" - à psicanálise -- para tratar as camadas economicamente desfavorecidas da popula- ção, Freud adverte, em direção frontalmente contrária a esta perspectiva "alter- nativa":
No entanto, qualquer que seja a forma que esta psicoterapia para o povo possa assumir, quaisquer que sejam os elementos dos quais se componha, os seus ingredi-
entes mais efcthos e mais importantes continuarão a ser, certamente, aqueles tomados apsicanálise estrita e não tendenciosa. 10
Um princípio metodológico de pesquisa pode então ser claramente formula- do sob a forma dedutiva, através de premissas, hipóteses derivadas e, cm ,-cz de conclusões, perguntas cuja formulação circunscreve os problemas cruciais a se- rem investigados. Se é verdade que a psicanálise não estabelece como condições estruturais de ~l'll exercício o sctting clássico, cm um "consultório particular" sociocconômica e clinica- mente bastante restritivo (respectivamente às classes mais favorecidas da sociedade e às estruturações neuróticas do sujeito), mas determina outros tipos de critério e condições para o advento da experiência analítica (a serem definido~ e cxpliL·itados posteriormente, mas já distintos <los critérios extra-analíticos apontados); E que, cm sua estrutura metodológica, a clínica não é lugar de aplicação de saber mas de sua produção, o que significa que, havendo produção de saber, há necessariamente condições para a prática clínica, uma vez que o saber produzido, não tendo caráter especulativo, foi gerado a partir de uma experiência cm que o sujeito está necessariamente implicado; Então os impasses que marcam a extensão social da psicanálise - a extensão do dispositivo analítico a configurações sociais e institucionais mais amplas e dife- renciadas do consultório particular -- persistem porque os analistas aderem a uma configuração do dispositiYo analítico decorrente de um processo de imaginarização das condições de análise, processo este que é sobrcdctcrminado, resultado de fatores teórico-clínicos, mas também ético-metodológicos e relacionados no mais alto grau a uma ideologização da prática psicanalítica a partir de sua inserção no sistema capitalista.
"Ibid., p. 211, grifo nosso.
32
Clínica c pesquisa cm psicanálise
Psicanálise e universidade
-\ psicanálise é um campo relativamente recente na universidade. Aliás, a psicaná-
lise é, cm si mesma, recente no mundo, uma ciência jovem. Nos primeiros cin-
qüenta anos de sua história, a psicanálise permaneceu fundamentalmente entrincheirada nos guetos institucionais de estatuto médico, regidos pelas normas da lntcrnational P~rchoana{rtical Association, a famosa IPA. Foi o ensino de Jacques Lacan que mudou esse quadro. Com seu rigor, fez ver àcomunidade de psicanalistas que a psicanálise não poderia definir-se como espe- cialidade médica, e abriu seu exercício, de modo legitimado teórica, ética e metodologicamente, a outros agentes, sobretudo aos psicólogos, que se manti- nham até então cm um raro, tímido e ilegítimo exercício da psicanálise, tendo que
refugiar-se no abrigo problemático das chamadas psicotcrapias de base analítica, curiosa e aberrante fórmula segundo a qual a base é analítica mas o topo, suposta- mente, não, ou onde ouvem-se os pacientes com ouvidos"analíticos"mas fala-se a eles com "boca" não analítica. Esse era o quadro reinante para os psicólogos que, como nós, formaram-se há cerca de vinte anos. Com a entrada do ensino de Lacan no Brasil, há cerca de 25 anos, esse quadro começou a transformar-se, e isso efetivamente ocorreu a tal ponto que, hoje, os psicanalistas são, cm sua expressiva maioria, psicólogos e não médicos psiquiatras formados nas instituições "médicas" de formação psicanalítica. Outros aspectos mudaram, correlativamente: não se acredita mais que análise só se faz quatro vezes por semana com um analista da IPA (este mesmo que se atendesse a alguém duas vezes por semana cm vez de quatro, não podia dizer que exercia a psicanáli- se, ainda que fizesse exatamente a mesma coisa nas suas duas sessões semanais em questão que faria em quatro). Gcssagem tecnicista, obsessiva e burocrática, em
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vez |
de rigor teórico e clínico. Tampouco se· acredita que a psicanálise só se exerce |
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cm |
consultório particular burguês, e que, cm instituições públicas de saúde men- |
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tal, |
por exemplo, só se pode pensar em "técnicas alternativas" (à psicanálise, é |
claro!). A psicanálise "propriamente dita" era, depois de Freud e antes de Lacan, uma prática do "de x cm diante": de três sessões por semana cm diante, da classe média cm diante, de determinado nível de instrução cm diante etc. Leia-se: de certo patamar de identificação imaginária com os psicanalistas cm diante. Ou seja, de forma correlata à desmcdicalização da psicanálise, assistimos também à
sua desclitização. Tais efeitos não deixam de estar relacionados com a articulação entre psica-
nálise e universidade, cm que o oxigênio do saber e da discussão entre diferen-
tes saberes e práticas desintoxica e retira o gesso de uma prática que até então
Psicanálise: clínica & pesquisa
33
mantinha-se rígida, pobre e reprodutiva. Ao estabelecer claramente as condições do discurso analítico cm uma teoria a "teoria dos quatro discursos", na qual
estabelece as relações entre o discurso analítico, o discurso do mestre, o discurso
da histérica e o discurso uniYersitário 17 -, Lacan não receia
psicanálise em decorrência da abertura à relação com outros discursos. Sua apos- ta, que tomamos para nós, é a de que o discurso analítico pode habitar a universi- dade, sem prejuízo ou deterioração para si ou para as práticas universitárias, e, ao contrário, com a possibilidade de que a conexão entre essas duas formas discursivas pode ser frutífera a ambas. A psicanálise, com Lacan, não precisa resguardar-se
cm guetos institucionais e profissionalistas, o que não significa que a psicanálise
tenha passado a depender da universidade para presentificar-sc no mundo. Em sua proposta de uma escola de psicanálise, que a diferencia radicalmente de um "sociedade de psicanálise", entre outras coisas por não exibir o caráter profissionalista desse tipo de sociedade, Lacan estabelece as condições da psicaná-
lise em extensão precisamente como forma de presentificar a psicanálise no mun-
do através do laço entre analistas, para o qual a escola de psicanálise é uma condi-
ção estrutural de possibilidade e, portanto, um dispositivo necessário.
Sobre o impacto do ensino de Lacan no Brasil e, em particular, nas relações da psicanálise com a universidade, fizemos, cm trabalho apresentado em uma comu- nidade estrangeira de psicanalistas 18 , a seguinte suposição: esse efeito do ensino de Lacan deve ser entendido à luz do fato de que Lacan substituiu o proselitismo político-ideológico de caráter sociologizantc e de cunho marxista, que marcou o movimento neoklciniano argentino, bastante influente na década de 1970 no Rio de Janeiro, por uma proposta discursiva que atingiu a própria estrutura da práxis
analítica, provocando profundas alterações na concepção que os analistas têm de
a perda do rigor da
sua prática. Pensamos que, apesar de sua orientação política extremamente oportuna e interessante, sobretudo nos termos de uma realidade socialmente aberrante, como a brasileira, as propostas freudo-marxistas características do neokleinianismo so- cialista não eram capazes de alterar a estrutura mesma da concepção da práxis analítica cm termos discursivos, mantendo a oposição psicanálise "rigorosa" x
17 Ver nota 10, na qual referimo-nos a essa teoria e indicamos sua referência bibliográfica.
18 ELIA, L. "Lacan, analyste au Brésil". Trabalho apresentado no
Colloquc Lacan, Ana~rstc, organizado
pelo Mouvement du Cout Freudien (Paris) e realizado no Hospital de la Salpêtriere, Anfite- atro Charcot, nos dias 27 e 28 de março de 1999, em Paris.
34
Clínica e pesquisa em psicanálise
psicanálise "alternatiya" como correlata de uma hierarquização socioeconômica da população, ainda que "optando" pelas formas alternativas de exercício da psica- nálise. Ora, dizer "alternativa" uma certa forma de exercer a psicanálise "social- mente engajada" é manter, na estrutura discursiva que rege essa prática, a oposi-
ção segundo a qual a psicanálise "propriamente dita", cm relação à qual as alterna-
tivas se definem como tais, existe para a elite. Acrescente-se a isso o fato de que a psicanálise, hoje, é cada vez mais convocada
a sustentar teórica e clinicamente sua intervenção em campos socialmente mais amplos, tanto em termos de extensão econômica da população atendida, quanto
cm termos de quadros clínicos que se apresentam de modo muito mais freqüente
no campo das instituições públicas (de saúde, de reabilitação, entre outras) do que
no consultório privado. Os numerosos alunos que formamos na graduação cm
psicologia, enfim, os psicólogos que formamos na uniYersidade, encontram um estreitamento cada vez maior das possibilidades de início de sua carreira em con- sultório particular - coisa que não era tão difícil há vinte anos, quando iniciamos
a nossa, por exemplo. Mas podem, cm contrapartida, encontrar possibilidades
crescentes de atuação no campo da clínica psicanalítica institucional, que deve ser
associada à prática da pesquisa, porquanto constituem situações em que o saber fazer ainda é muito incipiente. Concluímos este trabalho com uma franca aposta nessa direção, para a qual tudo o que aqui desenvolvemos constitui os fundamentos.
Psicanálise: clínica & pesquisa
35
Psicanálise: a última flor da medicina
A clínica dos discursos no hospital
Sonia Alberti
O mercado editorial hrasílcíro fez surgir cm 1997 pelo menos três importantes publicações sohre o tema da clínica psicanalítica no hospital no Brasil. Dessas três publicações, somente uma foi escrita por um autor -estrangeiro: a tradução de textos de Cario \'igano, publicados cm Belo Horizontc 1 • As outras duas são brasi- leiras: Psicanalisc chospital', coletânea organizacL.1 por Marisa Decat de Moura, e \ástas confusões e Jtcndimenros imperfeitos 3 , puhlicação da tese de doutorado de Ana Cristina Figueiredo, psicanalista e professora da UFRJ. É interessante notar que o resultado da Yasta pesquisa de Ana Cristina Figueiredo detectou enorme influência do ensino de Lacan junto aos analistas que tentam hoje - mesmo c1ue de forma às \·ezes confusa e normalmente imper!'eita inserir a psicanálise no serviço público de assistência à saúde. Faz-se necessario, a meu ,-cr, examinar essa obserYação mais de perto, a fim de ,·erificannos a possível relação existente entre a psicanálise de Freud com Lacan, como é designada, e o trabalho no hospital. Certamente a leitura que Lacan permite do legado freudiano insere algo norn na psicanálise e penso tratar-se justamente da grande referência e da alta conta da ética da psicanálise no ensino de Lacan. É po,- ter descm·oh·iclo todo um seminario sobre o assunto+ que hoje podemos delimitar o campo ético ela psicanálise que nos scne ele parâmetro para as possíveis ações no campo social. E quando me refiro aqui adelimitação, isso implica, inclusi\·e, a diferenciação da ética <la psicanálise das outras éticas: a médica, a religiosa, a humanitária.
1 \'J G A NÓ, C. Saâdc mental: psiquiatria e psicanálise. Belo Horizonte: Instituto de Saúde Mental / Associação Mineira de Psic1uiatria, 1997.
! .\,lOURA, 1\1. D. (org.) Psicanáliscchospital. Rio de Janeiro: Rc\'intcr, 1996. O volume consta
como tendo sido editado cm 1996, mas só foi distribuído cm 1997.
'FIGUEIREDO, A. C. \:1stas mnlusiics 1•.1tcmlimcntos impcrkitos. Rio de Janeiro: Rclume
" L.AC :\'.'J, J. /.e ScminJirc, l.irrc 1'/1: L'Óhiq11c dcl.i Psychana{rsc ( 1959-60). Paris: Scuil, 1986.
Dumará, 1997.
37
Além disso, a preocupação de Lacan com o laço social e seus discunos não deixa
de fornecer um instrumento de grande valia para o trabalho nas in,ütui
penso que os chamados textos institucionais de Lacan - e que tratam da politica da psicanálise-, como, por exemplo, "Psicanálise e seu ensino", "Proposição de 9 de outubro" e"Situação da psicanálise e formação do psicanalista em 1956";. produzem parâmetros para o psicanalista dirigir sua prática em laços institucionais tão diferen- tes como é o caso das equipes multidisciplinares nos hospitais. Com efeito, o legado de Lacan por meio do qual se pode Yerificar as diferentes posições que um sujeito assume no laço social, é necessariamente um ponto de partida fundamental para todo aquele que deseja intenir na instituição como psica- nalista. Trata-se aqui da chamada "teoria dos quatro discursos", descnvoh-ida entre 1969 e 1970 cm seu décimo sétimo seminário, publicado na íntegra sob o título de O arcsso da psicanálisc 6 . Lacan sugere a existência de quatro discursos que regulam o laço social: o do psicanalista, o do mestre, o da histérica e o da uniYersidade. Se o sujeito
do discurso (aquele que fala) proYoca o laço social, é porque ocupa uma das posições
,·ô(·~
\lias,
|
cm |
um desses quatro discursos. 7 A partir dessa formulação, o psicanalista passou a |
|
ter |
a seu alcance um importante referencial com consistência teórica, c1uc lhe per- |
mite, dentro de sua própria teoria - a psicanálise -, examinar e dialctizar a sua função no campo social. A meu ver, e voltarei a isso a seguir, o referencial teórico é
absolutamente fundamental para a prática clínica e hospitalar. Lanço mão da potente conccitualização dos quatro discursos para Ycrificar a especificidade do tema cm questão. O hospital, sendo originalmente terra de mé- dicos -- que hoje temem a possibilidade dele se tornar"tcrra de ninguém" 8 ·· , é, na
' LACAN, J. "Psicanálise e seu ensino" e "Situação da psicanálise e formação do psicanalista cn 19 56". Em: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998; LACAN, J. "Proposição de 9 de outubro", Opçãol.acaniana, n. 16, 1998.
6 LACAN, J. Lc Séminairc, Urre XVII: L'Enrers de la ps_rchana{rsc. Paris: Seuil: 1991. Cf. também o texto de Luciano Elia neste ,·olumc, cm particular a página 24.
- ALBERT!, S. Üsc .,ujcito Jdolcscenrc ( 1996). Rio ,k Janeiro: Rios :\mhiciosos, 1999, p. 165-9.
8 Refiro-me aqui ao fato de ciuc wna das \'ertcntcs da entrada de equipes multi e interdisciplinares no hospitai tenha, efetivamente, modificado muito a hierarquia no hospital cm relação à epoca cm que o médico <lctinha nde um poder absoluto. Quem manda no hospital hoje? Dependendo das políticas institucionais, da \Ínculação ou não com a academia, com wn discurso mais ou menos dcmagógio, democrático, ou até mesmo de políticas partidárias, a pergunta se impõe em relação, particulanncn- tc, ao capital. Para um estudo introdutório aos quatro discursos, chamo a atenção, entre outros, ele ALBERT!, S. Esscsujeitoadolescentt'. Op. cit., capítulo 10, onde eles são estudados a partir de sua re- ferência ao laço social, o que pude exemplificara partir de um caso da literatura, o jovem Karl, que, à medida que sua história se dese1wolvc, se exercita ·- como agente··· nas voltas dos 9uatro discursos.
38
Clínica e pesquisa em psicanálise ,
verdade, um campo de cntrccruzamcntos discursivos cm que pretendemos veri- ficar o lugar daquele que, cm princípio, seria seu maior interessado: o paciente. O legado de Lacan permite uma análise da estrutura da instituição, do lugar que os diferentes sujeitos ocupam nessa estrutura e das forças que dirigem o funciona- mento dessa estrutura. Não custa retomar seus fundamentos: cada discurso tem
um agente, que é agente frente a um outro. Esse, levado a agir por aquele, produz um
produto. O agente é sempre ator sustentado numa vcrdade 9 , particular para cada
dos quatro discursos. É evidente que não será possível prorncar qualquer mudan- ça no laço social enquanto não se assumir - pelo menos, em alguns momentos - o lugar de agente. Ora, a relação do médico com o hospital é muito anterior à do psicanalista. Poderíamos dizer grosso modo que hoje a relação do médico com o hospital é necessária - no sentido de ser constituinte. O psicanalista deverá estu-
um
dar a melhor forma de sua inten-enção, pois sua relação com o hospital é contin- gente, permanecendo a pergunta sobre a possibilidade de ele se tornar agente.
Uma experiência
Com a publicação de alguns artigos e do livro Esse sr9cito adolescente, a sólida funda- mentação teórica do trabalho no Núcleo de Estudos da Saúde do .\dolcsccntc (NESA) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE/UERJ) foi amplamente reconhecida. Era como se os demais profissionais do hospital dissessem a partir de então: "eles sabem o que estão fazendo!". Esse fenômeno pode ser observado sobretudo no âmbito da equipe multidisciplinar do Núcleo, que como equipe sempre funcionou de forma exemplar, o que foi fundamental para o trabalho cm razão do grande número de médicos, enfermeiros e também assistentes sociais, fonoaudiólogas e nutricionistas que integram a equipe e orientam seu trabalho conforme a bagagem teórico-prática que trazem de sua própria formação. Desse fenômeno pudemos depreender uma lição: o trabalho do pesquisador só passa a ser reconhecido como um trabalho consistente a partir do momento cm que ele fundamenta o que faz. No caso em questão, tratava-se do trabalho com adolescen- tes com base nas teorias de Freud e de Lacan, vale dizer, da psicanálise transposta para o cotidiano da assistência aos adolescentes em um hospital geral, realizado por uma equipe de psicc'>logos e de uma psiquiatra que, a partir de um projeto iniciado cm 1994, integram o Setor de Saúde Mental do NESA/HUPE/UERJ.
"Cf. LACA'.\!, J. "Radiophonic". Em: Scilicct, 213. Paris: Scuil, 1970, p. 99.
Psicanálise: a última llor da medicina
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Se posso incluir a aprendizagem feita, nesse mesmo âmbito, por ocasião de meu doutoramento no Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de Paris X- Nanterre, na Unidade dos Adolescentes do Hospital de Bicêtrc (França), somam-se mais de 13 anos de pesquisa e intercâmbio com equipes multidisciplinares em hospitais gerais. Sempre mais voltada para as questões que dizem respeito cspccificamcn~c ao sujeito adolescente, dcscm·oh·cndo projetos nesse âmbito e instigando a p~squisa dos colegas para essa questão, tenho grande parte de minha produção vinculada a esse tema. No entanto, a prática clínica e hospitalar desper- tava cada ycz mais uma outra questão que procurava debater, sempre que possível, no Setor de Saúde Mental do NESA/HUPE/UERJ: o lugar da psicanálise no hos- pital geral, os impasses e aYanços na equipe multidisciplinar, os efeitos e a eficácia do trabalho com a psicanálise na assistência, no ensino e na pesquisa cm um hospi- tal universitário. Assim, antes de serem publicados os textos mais recentes sobre a questão, escre- vemos cm 1994 - a pesquisadora e três alunas do Curso de Especialização em Psico- logia Clínica <lo IP/ UERJ 10 - um artigo intitulado"A demanda do sujeito no hospi- tal", no qual apontávamos, entre outras questões, a importância de caracterizar a intervenção clínica a partir da posição que o psicanalista assume no hospital e que leva cm conta, antes de mais nada, a fala do sujeito e a transferência:
É assim que podemos pensar hoje a furn,:ão do psicanalista no hospital público. não ac1uele que rcsoh-e os prohlcmas, nem aquele que se nega a atender c1ualqucr sujeito que vem procurá-lo, seja por qualquer moti,·o, mas aquele que, juntamente com cada sujeito que vem procurá-lo, seja pelo motirn que for, recolocará a demanda de tratamento <le forma que o sujeito possa Yir a se engajar nele. Se esse trabaU10 Cor feito, grande passo terá sido dado para a definição da função do psicanalista no hospi-
tal que passa a depender, exclusivamente, de sua pr6pria fala e escuta. [
Assim, a via para uma clínica do sujeito no hospital público necessariamente passa pela transformação da queixa cm demanda de tratamento, demanda na qual o sujeito se implica, passando a reconhecer-se como sujeito ela fala, ,·erificanclo sua implicação no seu sintoma e seu engano quando atribui a um outro os seus problemas. 11
]
1 " Uma delas, Sdma Correia da SilYa, atualmente integrante da primeira turma do Mestrado cm Pcsc1uisa e Clínica cm Psicanálise --- IP /UERJ.
11 ALBERT!, S. ct ai. "A demanda do sujeito no hospital", Cadernos de Psicolota. Rio de Janeiro:
Instituto de Psicologia- UERJ, Série Clínica, n. 1, 199+, p. 25. Em 1994, com base na rdcitura c1u(' Lac:111 fez da obra de Freud, puhlicá\'amos cssc- texto para cstahelccer nossa pn'ocupa\:5.o maior no âmbito do trabalho do psicanalista no hospital: a questão da demanda. Referência para a tese de Ana Cristina Figueiredo, esse artigo é, pois, um dos pioneiros no tratamento da questão do psicanalista no hospital a partir das contribuições teórico-clínicas de Jacques I.acan.
40
Clínica e pesquisa cm psicanálise
Obscnamos, então, que são tantas as demandas dirigidas ao psicólogo quan- do esse chega a um scniço hospitalar que se ele não puder dizcr"não" a algumas, jamais terá como começar efetivamente um trabalho. Além das demandas de todo tipo de assistcncia, há também demandas de intervenção que, na realidade, são da alçada de outros profissionais - por exemplo, anunciar a morte de um adolescen- te para a família -- , e demandas rclacionaclas ao próprio atendimento: "é melhor você trabalhar com grupos, com psicoterapia breve etc". Escrevemos então, com base na questão tratada por Canguilhcm cm 1958: "O que é psicologia?"P, que só seria possível discriminar todas essas demandas a partir do momento em que, fundamentado cm uma teoria c1ue desse direção a seu trabalho, o psicólogo introdu- zisse aí um limite e já não senisse para quJ/qucr coisa. Para mim, é a psicanálise de Freud com Lacan que permite ao analista dizer o c1uc ele faz, e é por isso que julgo fundamental o referencial teórico na prática clínica hospitalar. O que seria, genuinamente, o trabalho do analista no hospital? Para respondê-lo, não creio que possamos nos distanciar da máxima freudiana (apesar de terem razão aqueles que afirmam ter sido ela ditada, originalmente, para a função da psicanálise enquanto tratamento cxclusiYo de um único sujeito): Wo cs war sol/ ich ircrdcn, retomada por Lacan ao corrigir a tradução de Marie Bonapartc 13 • Essa máxima implica toda a ética da psicanálise que não é a ética humanitária, nem a ética do bem supremo de .-\ristotcks ou de Kant, mas a ética do desejo, mais precisamente, a ética de bem dizer a relação do sujeito com o clescjo. 14 Em relatórios de prnjeto~ rc,:tlizados nesses anos, afirmei a necessidade de vir um dia a precisar a ética do psicanalista no hospital, pois pude verificar que ela não é a mesma ctica do médico, e tah-cz seja essa uma das maiores dificuldades cm implementar uma parceria entre a prática médica e o ato psicanalítico. Freud já alcrta,·a, como escreve Hgucin.:do, "para a ineducabili<lade <las pulsões" e, de ou-- tro la<lo, para os perigos do "J11ror sanandi " 11 , c1ucstões que escapam totalmente à ciência médica pois implicam a prática da teoria psicanalítica.
1.• CA:'\GUILHEM, G. "O que f dezembro de 1972.
,; ?v1aric Bonaparte, a primeira tradutora de Freud na França, havia traduzido: "O cu (moí) dcYc desalojar o isso (ça)''. Lacan mostrou como a obra de Freud ia cm direção absolutamente oposta a essa tradução, retraduzindo a passagcm:"Ondc isso era dcYo (cu) advir". Cf. LACAN,J. "La chosc frcudiennc" ( 1955). Em: Écrirs. Op. cit., p. 417-8.
'' L:\C:\:'\, J. Lc Séminairc, Lirrc VII: L'Étbiquc de la P.~rciwia{rsc. Op. cit.
,; FIGUEIREDO.A. C. E1.<tascr,n/i1sricscatcndimcnro.<impcrfritos. Op. cit., p. 73.
psicologia?" (1958), Rcri.,t,1 Tcmpo Brasileiro, n. 30/ l, julho/
·
Psicanálise: a última 11or da mcclicina
41
Medicina e psicanálise
Muito antes de querer corrigir um possível impasse na relação entre medicina e psicanálise, cabe procurar um aprofundamento do estudo do impasse generalizado de que se presta contas atualmente cm publicações, conferências e debates nos
mais diferentes âmbitos 16 .
Levanto como hipótese que esse impasse tem origem na questão tanto
discursiva quanto ética, o que necessariamente terá que ser verificado a partir do
estudo dos diferentes discursos do âmbito hospitalar e do aprofundam
suas ancoragens éticas, articulando ambas as variáveis com a prática p~i.:·ar:alttica
no hospital, privilegiando o atendimento ao paciente; o intercâmbio com a~ equi-
pes multidisciplinares; a psicossomática - tanto aquela sustentada por um certo
discurso médico, quanto os avanços da psicanálise para com essa questão específi-
ca, questão que leva, necessariamente, à posição do corpo, tanto para a medicina
quanto para a psicanálise; a transmissão e o ensino, inclusive pela via da rnpcn-i-
são e preccptorias, da teoria da clínica, e o intercâmbio de pesquisas e de teorias. Entendo que somente conhecendo as razões dos impasses da clínica psicanalí-
tica no hospital geral a partir da prática e de sua análise, alguns passos poderão \·ir a ser tomados para tentar modificar a situação. E entendo que a primeira forma de
conhecimento nesse âmbito diz respeito à observação quotidiana. ~star atento às falas dos sujeitos no hospital, desde o paciente até o coordenador de um Serviço, permite estar também atento ao posicionamento e às questões de cada um. Um
exemplo disso ocorreu quando um importante médico da equipe cm que traba- lho17 disse, num debate público cm que se referia ao NESA, que haYeria um ·
cm
princípio, a direção que se quer privilegiar no NESA, nem do lado da disciplina
médica, nem do lado do Setor de Saúde Mental. Ambos os setores - o médico e o de saúde mental - têm sólidos compromissos com a doutrina - médica e psicana- lítica, respectivamente - e o "sintoma do ecletismo" que apareceu na fala desse
importante médico é, no caso (e entre outras interpretações), muito mais o
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1 • Além dos textos já c.-itados, acrescente-se o colóquio ocorrido em 5 de dezembro de 1997: "Psica-
nálise com c.Tianças e adolescentes na instituição", no Centro de fatudo e Pesquisa cm Psicanálise com Crianc,.aS (CEPPAC), no Rio de Janeiro, cm que essas questões também foram debatidas por mim, Cristina Duba e Manica Rolo, a partir de nossas experiências clínicas na rede pública.
17 Atualmente como preceptora da Residência cm Psicologia Clínica Institucional no NESA/ HUPE/UERJ.
42
Clínica e pesquisa cm psicanalise
sintoma de que ainda ha uma falha na transmissão do que querem ali os psicanalis- tas, de forma que para os médicos isso que querem os psicanalistas ainda lhes pareça eclético, ou seja, necessariamente confuso. TalYcz sem o saber, esse médico denuncia uma incongruência que transparece no discurso, e me pergunto, ao ter estado atenta para ela, pelas razões desse tipo de incongruência no dia a dia do hospital. LcYanto a hipótese de que esse sintoma - como o nomeio - se baseia no fato de que, mesmo no interior de uma equipe multidisciplinar modelo como a nossa, ainda falta muito na construção de um trabalho conjunto a partir da fala de cada um de seus membros. Dois anos depois da publicação de nosso artigo "A demanda do sujeito no hospital", ou seja, cm 1996, tive a oporturnidacle de participar de um caloroso debate num congresso cm Curitiba, cm que minha posição causava alguma polê- mica. ;s Dessa polêmica vale ressaltar a incredulidade de alguns debatedores ante a possibilidade, que cu afirmava, de fazer passar algo do Discurso do Psicanalista - tal como Lacan o formulou ·- para o contexto médico, ou seja, num hospital. tradicional, de funcionamento regrado pelo Discurso do Mestre, que é aquele ao qual os médicos, de uma forma geral, estão afiliados. Com efeito, outros participantes do debate relataram algumas experiências cm que não deu certo essa associação do trabalho do analista no hospital, sendo que sus- tentavam, Ycementcmente, a impossibilidade dessa associação com base, justamente, no funcionamento distinto dos discursos - o do mestre e o do analista. Queixavam-se da posição dos médicos que impediam qualquer ação do analista, uma vez que os médicos estariam completamente identificados com o lugar do saber e do poder abso- lutos, tal como o mestre no Discurso do Mestre, na teoria de Lacan. Como a experiência cios outros dcbatedores era muito diferente da minha, e para sustentar meu ponto de vista, levantei a hipótese de que talvez os debate<lores que, às vezes, tão calorosamente se contrapunham à minha posição segundo a qual é possh·el uma intervenção efctin de nossa parte num hospital - tivessem tido mais dificuldades cm seus trabalhos em hospitais pelo fato de não terem trabalhado dentro de hospitais universitários - o que era o meu caso--, e sugeri a hipótese de que talvez a vinculação universitaria tivesse introduzido, cm meu caso, uma outra variável capaz de dialctizar a rigidez da relação com os médicos
" Este debate foi posteriormente publicado. Cf. os textos de LAURENT, E., GURGEL, I., ALBERT!, S. e BATISTA, M. C. cm Correio, n. 15. Publicação da Escola Brasileira de Psica- nálise, out/noY 1996.
Psicanálise: a última flor da medicina
43
da qual meus dcbatedorcs tanto se qucixanm. HouYc, por exemplo, um colega que observou -- a partir ele minha articulação da questão com a teoria dos quatro discursos de Lacan --- que, conforme sua experiência, o analista na instituição esta- ria no lugar do escravo no Discurso do Mestre, onde o mestre (S) seria "a eficácia do econômico, do estatístico". É claro que essa obsenação do colega é de total incongruência - o analista, se .é analista, ocupa uma determinada posição no dis- curso do analista que está muito longe de ser a do escravo. Essa fala do colega, porém, há de ser lenda cm conta e voltarei a ela mais tarde. Por ora, tenho certeza de uma coisa: tal como o sujeito que vem procurar um analista, também a instituição hospitalar demanda o trabalho do psicanalista que integra uma equipe de saúde mental, se e somente se esse analista, ou essa equipe, oferecer seu trabalho. As pessoas da equipe multidisciplinar jamais fariam a de- manda pela psicanálise se essa não lhes fosse ofertada, ou seja, é preciso que o psicanalista que trabalha numa instituição faça a oferta da psicanálise para criar uma demanda cspccíllca. Sem oferta não há demanda. Em meu texto de 1996 definia essa demanda com Lacan ([UC, cm sua segunda conferência naYale Univcrsity, disse: "Eu tento fazer com que essa demanda os force (os analisantes) a fazer um
]" 19 . A demanda pela intervenção cio
psicanalista implica então num esforço daquele que demanda e, normalmente, quando se faz um esforço, espera-se algo cm troca. Donde a pergunta: o que pode oferecer o psicanalista cm troca elo esforço daqueles que integram uma equipe multidisciplinar num hospital geral e que lhe dirigem uma demanda?
esforço, esforço que será feito por eles [
A ameaça de um quinto discurso
Retomando a intervenção do colega que dizia, durante o debate cm Curitiba cm 1996, que não há integração possível do psicanalista no contexto médico por esse estar regulado pelo Discurso do Mestre tomando o analista como escraYo, intro- duzo aqui uma pequena nuança que me parece fundamental: para além dos quatro discursos que fazem laço social, Lacan não deixou de se referir a contextos cm que, justamente, não se produz o laço social, ou seja, cm que não há rela~:ão entre o agente e o outro. A referência que fazia aguclc colega aos fatores econômico e estatístico se inscrc\'c muito mais nesse contexto específico do que não faz laço social do que no contexto do Discurso <lo Mestre que faz laço social. Na realidade,
19 LACAN, J. "Entreticns ayec des étudiants -Yale University, 24 de novembre 1975", Scilicct, n. 6/7. Paris: Scuil, 1976.
44
Clinica e pcsc1uisa cm psieanális,·
não se trata tanto do fator econômico, mas do capitalismo -- e aqui vale, inclusive, a referência à obra tão conhecida de Delcuze e Guattari cm que capitalismo e esquizofrenia surgem como fatores contemporâneos da quebra dos laços sociais 20 . Múltiplas n~zes, Lacan observou que Karl Marx já sabia o quanto algo sempre fica Yclado no cliscw·so. Ele observou também que Marx já sabia que, quanto ao Discurso do Capitalista, o laço social fracassa o que, a longo termo, levará ao fracasso do próprio capitalismo porque o homem é um ser que faz, por definição, laço social. 21 Sendo O Seminário, lil'ro 17 o marco para o estabelecimento dos quatro discursos, ele é tanto produto do que Lacan vinha ensinando quanto base de sustentação para seu ensino nos anos seguintes. Optei por retomá-los a fim de facilitar, para o leitor, o acompanhamento do texto que segue:
10
Discurso do I\ kstre
li
Discurso Universitário
OS DISCURSOS
Discurso da Histórica
li
Discurso do Analista
i
si
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li
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Discurso do Capitalista
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)<:
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OS LUGARES
|
agente |
outro |
semblante |
gozo |
|
|
ou |
||||
|
\'erdade |
produto |
verdade |
mais-de-gozar |
|
|
DELEUZE, G. |
& GUATTARI, |
F. O anti-Édipo. Rio de Janeiro: Imago, 1976. |
||
:, Proponho aqui que o termo Gattungs,rescn, conforme Marx, traduzido por"ser genérico" (cf. Marx, K. Manuscrits de 1844. Paris: Flammarion, 1996), possa equivaler ao conceito de laço social empregado por Lacan em vários de seus seminários.
Psicanálise: a última flor da medicina
45
Encontramos referências explícitas ao Discurso do Capitalista nos textos de
Tclcrisào, onde aparece no
Lacan entre os anos 1970 e 1974 22 , sendo a última cm
seguinte parágrafo: "Quanto mais somos santos mais rimos, é meu princípio, ou seja, é a saída do discurso capitalista-, o que não constituirá um progresso se for
somente para alguns" 23 . O santo, aqui, é o lugar do psicanalista no Discurso do Psicanalista, rebatalho que não faz caridade. Lacan propõe o Discurso do Psicana- lista como Única saída para a ausência de saída do Discurso do Capitalista. Daí ele dizer que isso não traria nenhum progresso caso seja somente para alguns, caso a psicanálise não possa estar ao alcance de Yários. Que cu saiba, essa é a última vez cm que Lacan se refere explicitamente ao Discurso do Capitalista, falando pois da importância do Discurso do Psicanalista para sair do Discurso do Capitalista. Esta importância reside no fato de que o Discurso do Psicanalista é o Único que dá lugar de sujeito ao outro - o sujeito está na posição do outro e o psicanalista é mero objeto a. É essa posição do psicanalista como agente do discurso que subYcrtc e barra o Discurso do Capitalista no qual o sujeito se crê agente sem se dar conta de que age somente a partir dos significantes mestres que o comandam e que, no Discurso do Capitalista, estão no lugar da verdade. Quando o Discurso do Mestre se põe a serviço do cicntificismo, o saber, o escravo hegeliano, que detinha o saber do mestre, deixa de detê-lo; ao mestre "capital" já não interessa esse saber como ele podia, por exemplo, interessar a
a números, a estatísticas, a unidades de
valor; o escravo, o outro no Discurso do Mestre, passa a ser, no Discurso do Capitalista, mera unidade de valor, de forma que até mesmo o mais-de-gozar passa a ser contabilizado. O saber que ele podia deter no discurso hegeliano dei- xou de ser dele - ele agora é só "máquina de influenciar".
Sócratcs 24 . O cientificismo reduz tudo
22 Em OSeminário, lirro 17, Lacan não se refere explicitamente a um quinto discurso. Ele o cons- trói durante os dois anos seguintes: "De um discurso que não seria do semblante" ( 1970-1)
ou pior" ( 1971-2). Contemporâneo a esse último, há um conjunto de palestras realiza-
das no Hospital Saintc-Anne, conhecidas sob o título de "O saber do psicanalista", cm que ele mais uma vez toca na questão, e, finalmente, a "Conferência de Milão", realizada em 12 de maio de 1972, ou seja, na mesma época dessas duas últimas referências.
e"
23 LACAN,]. Té/érision. Paris: Seuil, 1974.
24 No Menon, por exemplo, é possível observar o quanto esse saber interessa ao mestre que, questionando o escravo, o faz dizer o saber que detém sem o saber. Cf. PLATÃO. "Mcnon". Em: Ocurrcs completes, vol. 1 Paris: Gallimard, 1950.
46
Clínica e pesquisa em psicanálise
Não há dú,·idas de que, ao formular os quatro discursos nos anos 1969 e 1970, Lacan já se questionava sobre a subversão do Discurso do Mestre nos dias de hoje, ou seja, sobre as contribuições da sociedade capitalista para as mudanças a serem obsenadas no funcionamento do Discurso do Mestre. Corruptela do Discurso do Mestre, no Discurso do Capitalista o mestre é ainda o significante mestre, as marcas dos gadgcts que, no entanto, não estão no lugar do semblante mas no lugar da verdade 25 . E o sujeito, que se crê agente, é no fundo um engano que não deYe se levar em conta pois o que conta, na verda- de, é o brilho daqueles significantes. Isso, de certa forma, subverte a própria noção de semblante, razão <le Maria Anita Carneiro Ribeiro ter proposto, cm seu texto sobre o assunto, que o Discurso do Capitalista seria o tal discurso que não seria scmblante 26 . Para estudá-lo, e fundamental levar cm conta as setas, que fazem com que não dê para sair dele, pois as coisas, nele, entram num
círculo vicioso. Em primeiro lugar, não há qualquer relação entre o agente e o outro - não há laço social no Discurso do Capitalista. É o S 1 que se dirige a S,, pondo o gozo
a seu serYiço. O outro não é mais, como no Discurso do Mestre, o que detém
um saber, por mais que esse seja da ordem da doxa; o outro é reduzido a seu lugar de gozo que, no interior do Discurso do Capitalista (seguir as flechas), Yolta ao S 1 , aumentando o seu capital. O endereçamento de S 1 a S 2 produz os
gadgcts supostos satisfazerem o saber reduzido ao gozo, gadgcts identificados com
o mais-de-gozar. Mas cm vez de ser impossível ao sujeito - como no Discurso
do Mestre - aceder a esse gozo, isso passa a ser possível, de forma que a castra- ção fica foracluída e o sujeito fixado nesse lugar que o S 1 determina. É como se pudéssemos dizer: o Discurso do Capitalista não exige a renúncia pulsional; ao contrário, ele instiga a pulsão, impondo ao sujeito determinadas relações com a demanda, sem se dar conta de que, ao fazê-lo, sustenta sobretudo, e cm primei- ra mão, a pulsão de morte.
n Nos seminários posteriores ao décimo sétimo, Lacan modifica o nome dos lugares, manten- do somente um: o lugar da verdade. Os outros mudam: o agente passa a ser o semblante, o outro, o gozo, e o lugar da produção é o lugar do mais-de-gozar (cf. o materna do Discurso do Capitalista, p. 45). Isso é importante para avançarmos um pouco na articulação do que ele propõe para o Discurso do Capitalista.
26 CARNEIRO RIBEIRO, M. A. "Capitalismo e esquizofrenia". Em: ALBERT!, S. (org.) Autismo e esquizofrenia na clínica da csquize. Rio de Janeiro: Rios Ambiciosos, 1999, p. 167.
Psicanálise: a última flor da medicina
47
"Isso funciona tão bem, tão rápido, que isso se consuma" 27 diz Lacan, cm Mi- lão, corroborando Marx quando esse preYiu seu fim, não sem que com isso se consuma boa parte da população. Se em 1969/70 Lacan diz que é impossível que haja um mestre que faça funcionar seu mundo - porque fazer os outros trabalha-
rem é ainda muito mais cansatirn do que trabalhar-, no Discurso do Capitalista,
é o próprio capital que faz esse trabalho de fazer os outros trabalharem, a seu
serviço, e isso não pára, tal máquina de gozo -- que, como disse outra fcita 28 , está
longe de ser desejante.
A psicanálise a serviço da medicina
Mas não é somente o analista que experimenta os efeitos desse discurso contem- porâneo, o médico também os experimenta, e muitas Yczes tem grandes ditlcul- dades em enfrentá-lo, de forma que o saber médico, tão fundamental para a prá- tica da medicina, corre hoje o risco de ser subsumido pelo Discurso do Capitalista. Tanto pacientes quanto médicos podem estar submetidos ao Discurso do Capita- lista que não faz laço social e que anula o sujeito no lugar da verdade - lugar, aliás, que ele ocupa no Discurso do Mestre tal como formulado por Lacan. Eis onde a psicanálise pode dar algo cm troca do esforço que demanda das equipes multidisciplinares nos hospitais: aparamcntar seus membros com instrumentos que lhes permitam resistir ao Discurso do Capitalista que anula os laços sociais. É fundamentalmente cm seu texto "Psicanálise e medicina" que Lacan norteia
o encontro desses dois saberes cm seu ensino, o que ele evidencia quando esclare- ce aí a função do psicanalista junto ao médico: a de acompanhá-lo na luta contra sua subserviência à capitalização de seu saber e de sua prática, fazendo aí resistên- cia. Lacan se refere aqui ao Discurso do Capitalista como variante do Discurso do Mestre: "O que o médico poderá opor aos imperativos que fariam dele o empre- gado dessa empresa universal da produtividade? Não há outro terreno a não ser a relação através da qual ele é médico, ou seja, a demanda do doentc" 29 . Assim, não é só o psicanalista que ganha terreno quando se insere no hospital, mas é também o
n LACAN, J. "Milan, 12 de mai 1972". Em: Lacan cn !ta/ia. Milano: La Salamandra, 1972.
18 ALBERTI, S. "Apresentação". Em: ALBERT!, S. (org.). Autismo e esquizofrenia na clinica da csquize. Op. cit., p. 7-13.
"LACAN,J. "Psychanalysc ct médécinc" (1966). Em:"Pctis écrits ct confércnccs 1945-1981 ". Inédito, grifo nosso.
48
Clínica e pesquisa em psicanálise
medico que podera encontrar no psicanalista -· submetido a um outro discurso, o do psicanalista - um sustento para fazer frente à atual febre de subsumir o saber
da medicina e o ato médico nos contratos empresariais, reforçando o sujeito da
fala, aquele que demanda.
:\ pergunta que se impõe de imediato é: como? Lacan, ainda em Yale, dizia aos norte-americanos: "Aconteceu que num certo momento da história, a medicina observou que ela não podia tratar tudo, que ela
tinha diante de si algo novo". E identificou a psicanálise como o lugar onde a medi-
cina "pode encontrar refúgio, pois cm outros ares ela se tornou científica, coisa que
menos interessa às pessoas" 30 • O científico aqui, referido por Lacan, não diz respeito
ao que classicamente se identifica como ciência, como herança do legado cartesiano,
mas à sua contemporânea interseção com o Discurso do Capitalista, a tecnologia a
promm·cr uma "transformação que fez da sociedade a campo apropriado para o
desdobramento do complexo nuclear (que) atrelou o gozo às leis e à lógica do
a segregação. Em
mercado'·,·, o que o sujeito paga com sua exclusão do laço social troca disso, Lacan concluiu cm Yale que:
Freud pcnsa,·a que ele fazia ciência. Ele não fazia ciência, ele estava produzindo uma certa prática que pode ser caracterizada como a última flor da medicina. Essa última flor encontrou refugio aqui porque a medicina tinha tantos meios de operar, inteiramente repcrtoriados de saída, regrados, que ela te,·e que se en- contrar com o fato de que havia sintomas que não tinham nada a ver com o corpo, mas somente com o fato de que o ser humano é afligido, se eu posso dizer, pela linguagem. Através dessa linguagem pela qual ele é afligido, ele elabo- ra a suplência do que é absolutamente incontornável: não há relação sexual no ser humano. 32
Há algo que a medicina corre o risco de perder na interseção com o discurso
capitalista, algo que lhe é intrinsecamente original, a verdade do sujeito que a
procura por estar aflito, esse algo que também está na origem da psicanálise que pode serYir à medicina para que reencontre sempre, e ainda, o que corre o risco
io l
,ACAN,
J. "Entreticn avcc eles étudiants". Op. cit., p. 18.
31 CABAS, A. G. "Os paradoxos da ci,·ilização e o desgarrarnento da cultura", Agora: estudo.< em
Pós-Graduação em
teoria p,icanalítica, \'oi.
1, n. 1. Rio de Janeiro, Contra Capa Livraria /
Teoria Psicanalítica Uf-RJ, 1998, p. 10-5.
11 LAC.-\N, J. "Entretien avcc eles étudiants". Op. cit., p. 18, grifo nosso.
Psicanálise: a última llor da medicina
49
de perder. Então, o que a psicanálise tem a oferecer à medicina é o espelho do que, no fundo, a medicina é: a flor de que falava Lacan. Como também mostrou ao comentar o conto de Guy de Maupassant "L'Horla": o ser, a essência do sujeito, isso não se reflete no espelho, isso não tem imagem 33 , assim como essa flor, esse umbigo - retomando uma expressão que Freud utilizou cm 1900 para falar do núcleo do sonho -, é o reflexo da medicina que ela não vê mas que a psicanálise pode apontar. Eis o que, em princípio, a psicanálise teria a oferecer à medicina. Para além da alta qualidade da formação dos médicos com os quais trabalha- mos no NESA/HUPE/UERJ, qualidade que certamente contribui para a aber- tura que os nossos colegas de equipe demonstram cm relação a nossos esforços, o fato de nossa experiência inscrever-se dentro de uma Universidade com incen- tivo à pesquisa introduz a outra variável que certamente poderia ter ajudado a nossos debatedorcs nas tentativas de implantação de serviços cm outras insti- tuições. Quando n-1c refiro ao termo "hospital universitário", não incluo apenas os hospitais diretamente dirigidos pela universidade, mas também aqueles hospitais que, além do exercício da assistência clínica, têm alguma Yinculação acadêmica, alguma tradição de ensino e pesquisa, o que os leva, necessariamente, a um víncu- lo direto com o discurso da universidade e cuja característica mais facilmente observável, para quem nele trabalha, é o fato de que no Discurso Universitário um saber equivale a outro, desde que bem sustentado por títulos acadêmicos. É diferente trabalhar num hospital em que o professor adjunto do Instituto de Psi- cologia recebe o mesmo salário que um professor adjunto da Faculdade de Medi- cina e num hospital cm que o médico tem um salário mais alto do que o psicólo- go, pelo simples fato de ser médico. A univcrsi<ladc implica numa subversão discursiva cm relação ao Discurso do Mestre. Assim, naquele debate em Curitiba, cm 1996, levantei a hipótese de que o Discurso Universitário, tendo de alguma forma subvertido o Discurso do Mestre no hospital universitário, introduziu uma dialctização na ordem médica, abrin<lo vias para a ação do analista. Mas atenção: isso não quer dizer, cm hipótese alguma, que a medicina se resguarda da injunção do Discurso do Capitalista pelo simples fato de se encontrar articulada ao Discurso Universitário. Ao contrário.
"LACAN, J. "l.c Séminaire, LiYrc X: L' Angoissc" ( 1962-3). Inédito.
50
Clínica e pesquisa em psicanálise
O Discurso Uni\·crsitário modificou a relação do homem com o saber; o sa- ber se sustenta meramente no próprio significante mestre, que no discurso da universidade está no lugar da verdade, aquela que é velada, ou seja, os títulos, as citações, as referências e quantidade de publicações - independentemente de te-
rem ou não estofo. Aliás, o próprio estofo de uma publicação é atribuído via con- ceitos, números, sempre padronizados. No Discurso Uni\Trsitário um saber equi- nlc ao outro pois são os títulos universitários que garantem, nessa equivalência, o \·alor de um saber. Quando, no Discurso Universitário, o saber se conta cm títulos acadêmicos, pouco importando se esses títulos efetivamente condizem a algum estofo de sujeito, a conseqüência, o que se produz, o que se joga fora, no discurso da uni\·crsidadc, é o próprio sujeito. Um pequeno passo apenas seria necessário para instituir aí a perversão na própria ordem do discurso. E essa perversão é a que abre a porta para o Discurso do Capitalista - o ·Discurso UniYersitário é,
] se trata
do sujeito reconstituído na alienação, ao preço de ser apenas o instrumento do
gozo"
trc, uma vez que pode dialctizá-lo, mas basta verificar o quarto de volta que o Discurso Universitário faz cm relação ao Discurso do Mestre, que é visÍYd seu retrocesso. Em relação ao Discurso do Mestre, é o Discurso do Psicanalista que faz a verdadeira subYcrsão, instituindo-se como seu avesso (cf. as duas diagonais nos Discursos do Mestre e do Psicanalista). Se o Discurso Universitário alwiu a possibilidade para a instituição do Discurso do Capitalismo, sem saída, é preciso retroceder cm relação ao Discurso Universitário, para abrir o caminho para novas Yicissitudes do Discurso do Mestre que, como Lacan dizia, é o próprio discurso do inconsciente. Esse institui a possibilidade para o Discurso do Analista que se ·constitui, que se fundamenta, no fato de se dirigir ao sujeito (no discurso <lo analista o sujeito é o outro ao qual o agente do discurso endereça seu ato). Temo, cfetiYamcntc, que não reste muito ao verdadeiro medico, senhor cm sua própria clínica - certamente não é aquele que banca o capitalista 3 ' -, e que tahez sua melhor saída seja, hoje cm dia, juntar forças com o psicanalista. Dessa
~
paradoxalmente, a transição mais imediata para o contexto cm que "[
34
. O Discurso Universitário é um avanço cm relacão ao Discurso do Mcs-
'
11 Simplificação <lo esquema para a pernTsãu à guisa de ilustração do que aqui quero ressaltar. Cf. L:\CA'.\', J. "Kant avec Sacie" ( 1963 ). Em: Écrit.,. Op. cit, p. 775.
,; É cada Yez mais freqüente, por excmpio, obscnarmos a prática dos mais Yariados inYcsti-
mentos financeiros entre os médicos
na tcntatiYa de colmatar a impossÍYel ascensão.
·,·também entre aqueles que se dizem psicanalistas .
Psicanálise: a última flor da medicina
51
forma, também poderia intitular meu trabalho "Medicina e psicanálise" não tanto para parodiar o título de Jacques Lacan, mas antes para repensar a relação de duas práticas que podem convfrcr, desde que se respeite o campo e os limites de cada uma. Resposta também a algumas tentativas anteriores que terminaram por em- palidecer a psicanálise submetendo-a a um discurso médico e, então, não fazendo nem uma coisa nem outra. Veja-se, por exemplo, alguns clínicos da psicossomática com formação psicanalítica referidos por Ana Cristina Figueiredo cm seu livro e "que já têm lugar garantido na ambígua especialidade conhecida como medicina
]: uma espécie de terra de ninguém, ou de todo mundo, onde grassa
psicologica [
o psicologismo e a interpretação carregada de sentido facultada a quem for mais imaginati\'o, prorncando uma disseminação banalizada tanto do jargão médico quanto do psicanalítico" 36 . Meu trabalho propõe a articulação de dois conjuntos, cada um deles regido por leis próprias e internas e que, cm determinadas circunstâncias - nas quais
prime o respeito mútuo - sofrem uniões e interseções. Eis o objetivo: estudar a relação desses dois conjuntos, igualmente consistentes, para a qual as leis da união
e da interseção da teoria dos conjuntos talvez deixem perceber uma luz no fim do
túnel ainda tão obscuro, das relações entre a medicina e a psicanálise. Ele se baseia no desenvolvimento de uma metodologia que justifique, no laço social específico
do hospital, a inserção da psicanálise.
Por uma metodologia da prática do psicanalista no hospital
Articular à teoria a prática c1uotidiana certamente não é das coisas mais simples. Talvez por isso sintamos falta, hoje, de uma teorização do exercício da psicanálise na interseção com a medicina. Ela implica uma inYcntividadc, mas implica, sobre- tudo, a sólida ancoragem teórica do analista que se propõe a contribuir nessa tarefa, a fim de manter sua direção e esforçar-se por não cair nos des\"Íos citados desde 1956 por Jacques Lacan. Se é a sólida ancoragem teórica que está no comando, então não podemos
fazer outra coisa senão utilizar na própria psicanálise a atenção flutuante, método por excelência de investigação psicanalítica. É através dele que Freud pôde ouvir
o
discurso de seus pacientes sem dar valor apriori a este ou aquele tema. Ele o toma
16 FIGUEIREDO, A. C. \'.mas confu.<àc.,e atendimentos imperfriros. Op. cit., p. 49.
52
Clínica e pesquisa em psicanálise
emprestado de Jakob Burckhardt (1818-97). Com efeito, cm recente artigo pu-
Grubrich-Simitis, uma das editoras da obra de
blicado cm Freud: conflito e cultura, Ilsc
Freud na S.Fischer, cita a seguinte anotação de Freud encontrada entre as várias guardadas na Biblioteca do Congresso Americano: "Para a atitude correta frente
ao trabalho de interpretação: Burckhardt. História da cirilizaçào grega, p. 5: o esforço intenso é o menos profícuo para atingir o resultado desejado; uma escuta tranqüi- lamente atenta, assim como uma aplicação regular, lcYa mais longe" 37 . É, pois, de sua leitura de um historiador que quer encontrar"o interior de uma humanidade desaparecida" fazendo disso "o objeto da pesquisa sobre as civilizações antigas para o que se inspira naquilo que as fontes e monumentos nos comunicam
sem intencionalidade, [
da obra de Burckhardt citada por ele - que Freud se inspira para o método de pesquisa e interpretação que utilizaria na sua prática clírrica. É através de um méto- do que deriva das disciplinas interpretativas cm geral- o da atenção ao nível sempre igual (ou flutuante) (glcichschwcbcndc Aulrncrksamkcit) que "Freud procura seguir a via do inconsciente, aquela que só se ouve e só se acompanha entre linhas" 38 . Eis a metodologia que tomo como ponto de partida para o trabalho cotidiano --- que em psicanálise é sempre de pesquisa-, a ser empregada no dia-a-dia do trabalho no hospital, a fim de que, num segundo momento, possamos, em feedback, responder, de maneira a especificar o trabalho do analista no hospital. Esse só adquirirá credibilidade realmente - para além do ecletismo-, se soubermos referir a psicanálise ao discurso da ciência na mesma relação cm que a medicina está aí referida, ou seja, levando cm conta a especificidade da relação da psicanálise com o discurso da ciência (difercntc da especificidade da relação da medicina com o discurso da ciência).
Digo que psicanálise e medicina são dois conjuntos igualmente consistentes, porque atribuo, a cada um deles, uma autori~ade discursiva advinda de suas histó- rias, teorias e práticas. Mas para justificar a pertinência da inscrição da psicanálise como um conjunto, ao lado da medicina e dentro da uniYersidadc, tal como su- posto acima, faz-se necessário articulá-la com a ciência, verificar sua inserção no discurso da ciência, e daí detalhar a pesquisa de campo, úsando a construção de uma metodologia. 39
] mas de forma inconsciente" - como se lê na introdução
17 GRUBRICH-SIMITIS, J." 'Nada sobre a refeição totêmica!': sobre as anotações de Freud". Em: ROTH, M. Freud: conflito e cultura. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000, p. 27.
18 Cf. LAURENT, E. Em: Ornicar!Digital, n. 63, 13 de janeiro de 1999.
19 Cf. também o texto "Psicanálise: clínica e pesquisa", de Luciano Elia, neste volume.
Psicanálise: a última ílor da medicina
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Quando Descartes 40 propôs que tudo podia ser questionado, criou um método que fundamentaria o discurso da ciência, no qual também a psicanálise se inscre- ve. Em linhas gerais, como referir a psicanálise à metodologia cartesiana? Como vincular a psicanálise à ciência? Uma resposta a esta questão foi esboçada por O. Mannoni 41 e retomada no texto que introduz o já mencionado volume Psicanálise e hospital: a via que melhor responderia essa questão é a que dá as razões da contemporaneidade de Freud e Einstein - "a psicanálise encontrou um lugar na
cultura científica por se ocupar do que a ciência exclui [
de conhecimento e eliminando deste campo a superstição" 41 . Mas o que vem a ser aquilo que a ciência exclui? Quando digo que Descartes fundou o método científico a partir de seu cogito, refiro-me exatamente ao fato de que, com Descartes, tornou-se possível a cons- trução de uma linguagem conceitua! dentro da qual os objetos, até então inaprcensíveis, puderam adquirir existência. O cogito cartesiano inaugura uma ci- são do objeto na ciência e, por conseguinte, no discurso: de um lado, o objeto real -- por exemplo, a estrela no céu--, do outro, o objeto construído como conceito, ou seja, a simbolização do objeto, a estrela formulada no papel do astrônomo fazendo-a existir no papel e no cálculo científico, substituindo metaforicamente aquela que continua no céu. O cogitoergosum é, fundamentalmente, a possibilidade de fazer existir o sujeito como objeto do pensamento, distinto da imagem q~e temos desse sujeito, e distinto do real. Em termos freudianos, trata-se do traço mnêmico desse sujeito, de sua representação como traço, marca significante, que figura na fala do sujeito quando este diz: "cu". Trata-se, então, do "cu" como inscri- ção, do "eu" como figura gramatical que tanto pode ser sujeito quanto objeto - esse "cu" não passa de um signiflcante, independentemente de tudo o que é possí- vel imaginar sobre ele, tal como Jakobson 43 pensou o shiltcr, tomando o termo emprestado a Jesperscn. Fazer o sujeito existir no pensamento, enquanto conceito, enquanto shiftcrna fala e na linguagem, é também eliminar desse campo tudo o que não pode ser conceitu- ado, daí a eliminação da superstição, conforme Mannoni, da qual, até então, sempre se procurava lançar mão na tentativa de particularizar o ser humano.
] resgatando um campo
•o DESCARTES, Rcné. Discours de la méthodc ( 1636 ). Paris: Flammarion, 1966.
41 MANNONI, O. et ai. O objeto cm psican.ílisc. Campinas: Papirus, 1989.
42 MOURA, M. D. Psicanálise e hospital. Op. cit., p. 4.
43 JAKOBSON, R. "Shiftcr, verbal catcgories and the russian verb". Em: Russian languagc project. Dcpartmcnt of Slavic Languagcs and Littcraturcs. Harvard Univcrsity, 1957.
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Clínica e pesquisa cm psicanálise
.\ psicanálise é filha da ciência porque se atém perfeitamente às determina- ções científicas criadas por Descartes, segundo as quais há um pensável e um impenshel, um dizível e um indizível, um conceituável e um impossível de
conceituar. ~1as, ao mesmo tempo, a psicanálise se distingue da ciência porque
não se restringe a estudar o pensável, o dizível e o conceituável; ela também se
ocupa do impensá\·el, do indizíYel e do impossível a conceituar e que está do lado do sujeito como nzio de significantes, poderíamos dizer, do lado do real do sujei- to. É, como Yimos, o que a ciência exclui: o real do sujeito. Para a ciência, o sujeito é somente uma variáYel passível de mensuração quando, por exemplo, interfere num experimento cientifico. Não é esse o sujeito da psicanálise. O sujeito da psicanálise é o sujeito da fala, sempre cindido, sempre da paixão (do pathos, ele sofre). Assim, para referir a psicanálise à metodologia cartesiana há que se pensar a psicanálise como método de im·estigação - o que ela é, desde os primórdios, desde os primeiros textos de Freud -, mas um método de investigação que se inscreYe no discurso da ciência-· por inserir-se nos mesmos fundamentos de qual-
quer ciência moderna (Descartes i -, com o único intuito de resgatar aquilo que a ciência propriamente dita excluiu de seu âmbito: o sujeito. Explanação introdutória para uma possível construção da metodologia que fundamente nosso trabalho, especialmente necessária tendo cm vista a particula- ridade de ambos os campos nck propostos à pesquisa: psicanálise e medicina, ,·isto que essa última também exige que sua própria articulação com a ciência seja Yerificada. Não é evidente, à primeira Yista, a possibilidade de uma interseção entre psi- canálise e medicina, pois essa última não se ancora no discurso da ciência da mes- ma maneira que a psicanálise, até porque se origina muito antes do nascimento da ciência moderna, tendo firmes raízes no legado hipocrático. Longe de dcsmcrccê- ia por isso, há nessa origem razões suficientes para a assunção de uma mestria que a torna diferente da psicanálise. É essa diferença que se pretende respeitar, destacar, a
fim de que ela saia da obscuridade - onde sempre atrapalha (o que sabemos a
partir das descobertas de Marx e de Freud) - e se torne produtiva, no sentido da
produção do saber e do ganho na prática. Aproveitando um pouco da conhecida palavra de ordem "a luta continua",
atrevo-me a terminar com "a pesquisa continua!", para o que levanto a questão:
cm que medida saber algo sobre o Discurso do Capitalista pode promover uma eficácia maior do analista, de forma que isso não seja só para alguns?
Psicanálise: a última llor da medicina
ss
Ser doente, ter uma doença 1 , 2
Jean Szpirko
Um certo número de médicos constatou que a observância das prescrições de medicamentos ou de regime não se mostraYa efetiva cm doenças crônicas para as quais essa prescrição, do ponto de \·ista médico, era necessária. Podemos, a esse respeito, evocar a diabete e a hipertensão, a titulo de exemplos privilegiados para ilustrar um tipo relacional que, para além da relação médico-paciente, concerne à relação de toda e qualquer pessoa suscetÍYel de dispensar seus cuidados a uma outra pessoa que os recebe. Em uma situação de não-obscnància, o médico per- gunta a si mesmo se ele tem o direito de permanecer cm uma atitude passiva, deixando seu paciente correr os riscos inerentes à sua afecção. Se ele considera a possibilidade de adotar uma atitude ativa - contrapondo-se assim à atitude de seu paciente - a questão que se apresenta é a de saber como intcnir. Alguns médicos procurarão obter a colaboração de seus pacientes. Freqüen- temente, tais esforços que o médico então empreende a fim de influenciar, para conrcncerseu paciente, longe de lograrem um efeito positivo, traduzem-se por um agravamento da recusa ao tratamento, por uma ênfase nos efeitos secundários. Uma conseqüência bastante freqüente é a troca de médico. Assim, o paciente poderá c\·entualmcnte reproduzir a mesma situação com outro médico que, na ocasião, talvez saiba tão pouco o que fazer quanto seu colega. Postulamos que a obserra'ncia dependerá da maneira pela qual o paciente estará im- plicado, a partir dos comentários que ele próprio fará, cm ligação com a atitude do médico, com a terminologia utilizada para designar sua doença. A própria noção de risco só tomará sentido para ele através de uma cadeia de associações de idéias imprevisíveis para o médico. Além disso, o modo de implicação do paciente dependerá
1 Do original: "Êtrc malade, avoir une maladic", Santé Menta/e - Le manuel des équipes soig11antes en
p~rchiatrie, n. 38. Paris: Acte Prcsse, maio de 1999. Tradução de Luciano Elia.
2 N. do T. O verbo être, cm francês, significa tanto ser quanto estar. Optamos por ser doente, em função do conteúdo da discussão do autor no texto acerca da dialética do ser e do ter, preser- vando, no limite, a admissibilidade do sentido de estar doente.
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das posições tomadas pelo médico cm face de sua queixa. Ora, a atitude cio médico depende das representações que ele faz para si mesmo do paciente, da doença, e sobre- tudo de seu próprio estatuto, de suas próprias funções, de suas competências. Tratar-se-á, neste artigo, de buscar fundamento na análise de alguns proble- mas relacionais a fim de tornar perceptíveis para os leitores alguns mecanismos que intervêm na relação médico-paciente. Esses se depreendem de forma exem- plar no momento da comunicação do diagnóstico de uma doença crônica. A difi- culdade não reside - como muitos supõem - na maneira de formular essa comu- nicação, mas na forma de permanecer atento às reações a ela. O modo de acolher as reações do "paciente" determina um valor qualitativo da relação, e o estudo dos diferentes modos de acolhê-las nos permitirá formular alguns parâmetros representáveis em uma "clínica da relação". Tentaremos igual- mente cernir a incidência dessa relação na "obsen·ância" ou na "não-observância" das prescrições e das regras de higiene de Yida por parte de pacientes acometidos de doenças crônicas.
Esclarecimento psicanalítico da função de cuidar
É preciso lembrar que o estilo relacional entre o médico e o paciente não é algo auto- evidente, e que existem muitos tipos de práticas espontâneas em que o prazer não é sempre "de praxe" para os protagonistas. O modo relacional está ligado à manei- ra pela qual cada um sofre a coerção das representações que tem, a um só tempo, de seu próprio papel e do papel do outro, que o primeiro avalia, mesmo cm silêncio, seja qual for seu estatuto. Se essa anliação tampouco é conscientemente expressa, ela contudo sempre é lc,·ada em consideração, através da"decodificação" de atitudes, de injunçõcs às quais nenhum dos atores da relação permanece indife- rente. Não Yisamos promover o que seria uma pseudo-posição psicanalítica, para uso dos médicos, dos tratadores, confrontados com seus pacientes, mas tentare- mos depreender de que modo a psicanálise permite esclarecer certas posições subjetivas que poderiam então ser levadas cm conta. Em outras palavras, trata-se de demarcar certas complexidades nas diversas formas de se formularem deman- das de tratamento, que não devem ser confundidas com demandas de análise. Essa demarcação exige a atenção de todo aquele que exerce a função de cuidar, seja qual for seu estatuto, a partir do momento em que se encontra na situação de ter que escutar uma demanda ou uma queixa. Neste artigo, privilegiaremos o estudo da posição médica, que constitui uma espécie de paradigma da relação de cuidado,
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Clínica e pesquisa em psicanálise
a ponto de ser cm referência a essa posição médica que psiquiatras e enfermeiros, certamente, mas também psicólogos e psicotcrapeutas tentam estabelecer difc·-
renças entre as suas disciplinas. Tais diferenças preservam esse paradigma confe-
rindo-lhe uma dimensão universal. É nesse movimento que algW1s procuram in-
cluir a psicanálise como um elemento a mais no vasto conjW1to de práticas de
cuidado. Ora, a psicanálise propõe uma outra relação com o saber, que difere daquele que, até então, propunha-se como universal através do modelo médico.
Trata-se aí de uma espécie de evidência não questionada. Que os psicanalistas
tenham proposto outra relação com o saber e com a clínica foi algo que produziu
partir do momento cm que sua prática
se pôs a questionar o modelo utilizado pelos médicos, esses se viram acusados de não sustentarem uma função terapêutica. Esse a,pccto merece ser explicitado atra-
vés de um breve desvio. A relação com o saber pode ser anliada em situações
priúlegiadas que encontramos cm todas as disciplir.as. médicas ou não. Seja qual
for a disciplina, ela se apóia cm referencias e nos modos de c:~á.-las; isrn constitui um "saber", que é capitalizado e que certos npcrt, s5.o incun:bido~ de gerir, de
experimentar e de transmitir. O modelo médico necessariamente instaura entre o SJÍJio - seja ql,al for seu estatuto - e os estudantes ou discípulos, de um lado, e os pacientes, de outro, uma
relação de poder. Aqueles que detêm saber divulgam uma parte dele para aqueles que têm menos saber; os que recebem os cuidados se beneficiam dessa dádiYa que
lhes é oferecida, enquanto se oferecem para serem "lidos", decifrados, interpreta- dos, pelo saber de um outro.
Ninguém pode saber tudo e, necessariamente, o paciente depende do saber da-
quele a quem confia sua pessoa. Essa prática é de tal modo habitual e geral que, apriori,
escândalo, e esse escândalo permanece
-\
'
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so um esp1nto e porco
questionamento que a psicanálise faz, e é com esse esclarecimento que se torna possí- vel interrogar de maneira diferente o que, até então, se dava como auto-evidência.
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ana . cm co l oca- ' l a cm questao. -
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Em contrapartida - e este é um aspecto fundamental da subversão do modelo
ele relação com o saber operado na psicanálise -- o cxpert ou o sábio, na psicanálise,
é não o psicanalista, mas o psicanalisante. É o analisante que instrui o processo ele
sua própria subjeti,·idade, enquanto titular de um saber não sabido que se trata de
1 N. do T. No original, esprit torclu, literalmente espírito torcido ou distorcido, que tradu:âmos pela expressão idiomática corrente espírito de porco que guarda o valor de uso e o sentido da expres- são francesa.
Ser doente, ter uma doença
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fazer emergir. Essa démarchc só é possível se o analista sustenta seu lugar É essencial- mente para isso que ele não se toma por médico, nem por "paramédico" ou por psicólogo, ainda que essas sejam formações que ele teve antes de sua própria análise, no momento cm que essa se revelou didática. O saber do psicanalista lhe concerne cm primeira ordem, uma vez que ele aprendeu - contra si-mesmo, contra sua própria formação anterior -- que o saber é inseparável de tramas não- sabidas, inconscientes, e que as tramas de cada um sustentam-se de diferentes modos, em uma singularidade que escapa a todo e qualquer projeto de classificação, inclusive aquelas esquematicamente evocadas pela noção de estruturas.
Problemas gerais da observância
Para especificar um tipo de relação suscetível de levar a uma "observância maior", particularmente nas doenças crônicas, cumpre formular também por que essa ob- servância é um problema, não somente no nfrel do próprio ato - tomar ou não um medicamento na hora marcada, seguir ou não tal ou qual prescrição alimentar ou de higiene de vida - mas também em vista das representações dessas formas de agir4. Tais representações, que nem sempre são racionais, são inconscientes: nem por isso são menos ativas e determinantes, produzindo inclusive efeitos no médico, que, a partir do momento cm que se sente questionado, não sabe mais que atitude tomar. Se a preocupação é menor em relação às doenças que não são qualificadas de crônicas, isso se deve tanto ao fato de que, nesses casos, a obsen·áncia é menos importante, quanto à possibilidade de que ela possa ser adiada. A dimensão psico- lógica da relação médico-paciente não é ignorada, mesmo se dificilmente delimi- tada. Um médico, com efeito, sabe se certos pacientes já se sentem melhor ao
curso de uma consulta, com a receita no bolso. Além disso, já na farmácia, ou em casa, o paciente efetua uma seleção das prescrições, através de critérios cuja racionalidade escapa a todo mundo e, freqüentemente, o envio do prontuário à Previdência Social5 reforça a ação terapêutica do médico. A avaliação da qualidade do médico é totalmente subjetiva, sem relação direta com a qualidade de seu exame clínico ou com a pertinência de suas prescrições.
• N. do T. No original: miscs cn actc, expressão que, como todas aquelas que são formadas pelo
particípio do verbo mettrc, é de difícil tradução literal, tendo algumas passado ao uso corrente
cm português (misc cn sccnc, misc cn plü).
' N. do T. Trata-se, evidentemente, de uma prática usual cm um contexto político e sociocconômico particular, o francês, diferente do brasileiro.
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Clínica e pesquisa cm psicanálise
O médico se acomoda mais ou menos com isso, cm vista de uma clientela que seleciona prestadores de serviços com base cm critérios indeterminados - mes- mo se cada um constrói sobre isso as razões que lhe convêm. Todo médico sabe, com efeito, que ele não se reduz à sua função terapêutica, que ele é outra coisa; essa outra coisa que cada médico pressente, contudo, raramente é elucidada, como se fosse preciso nada saber sobre isso (esse desconhecimento de bom grado não é aliás uma característica exclusiva dos médicos: encontramo-lo cm todo indivíduo). Nas situações de não-observância, o médico se vê cm uma posição similar àquela que ele encontra cm sua relação com a histeria:
• a doença não é rcpcrtoriada de modo adequado na nomenclatura médica;
• oi a paciente não é conforme ao que deveria ser;
• oi a paciente deseja curar-se de uma doença, mais ou menos dramática, e para a qual ele/ ela encontra benefícios secundários aos quais ele/ ela- não quer renunciar.
É que a doença histérica afeta o corpo do paciente através das palavras que têm uma função de representação simbólica (de significante), e essas nada têm a ver com as palavras que têm uma função conccitual no campo do saber que o médico adquiriu ao longo de seus estudos. Com efeito, cada ciYilização, cada disciplina, constrói uma representação cspccífl- ca do corpo. Ora, a notá,·el eficácia das construções da medicina ocidental não elimina certas concepções populares, poéticas ou religiosas que utilizam os mesmos termos para exprimir coisas diferentes. Às vezes as denominações dos órgãos, cm medicina, cruzam metáforas: ter coração, direilo de sangue, ler estômago'', por exemplo.Trata-se de regis- tros diferentes, que se superpõem, se nodulam, sem que se possa abolir os efeitos de seu poder eYocador. Não é possível ignorar ou excluir outras concepções como as que são propostas no campo médico, uma vez que são justamente essas concepções outras que sustentam para cada ser humano seus ,-alares de referência, suas concepções sobre o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, o justo e o injusto, o belo e o feio, assim como o orientam na busca de um sentido a <lar às questões sem resposta. Essa diversidade irreduthd nutre, entre outras coisas, o debate entre os médicos sobre questões éticas, a dor, o aborto, a procriação medicamente assistida, o diagnóstico pré-natal etc.
• N. do T. Utilizamos expressões que traduzam, em português, a mesma idéia daquelas que, cm francês, têm, cm sua composição, termos designando órgãos do corpo. Indiquemos as expressões utilizadas pelo autor: ,1roirduca't1r, droitdusang. aroirdcl'cstomac. No caso da primeira, traduzimos por ter coraçàu, literalmente portanto, esclarecendo ao leitor, por outro lado, que o sentido da francesa aroir du nrur não é exatamente o mesmo, exprimindo, antes o" ter coragem". Por outro lado, contém o mesmo termo designativo de um órgão do corpo, que é o objeti\'O do emprego do autor.
Ser doente, ter uma doença
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A observância nas doenças crônicas
Nem sempre o médico procura aprofundar as causas da não-observância no caso
de doenças crônicas como a diabete e a hipertensão. Quando ele o faz, sente-se
posto cm xeque, como se fosse, de alguma forma, culpado por não influenciar
uma pessoa cm perigo. Parece-nos que, no enunciado precedente, encontram-se certas cha,·cs essen-
ciais à compreensão do problema da não-obscn-ância.
• <lo lado do paciente: a maneira pela qual tenta estabelecer para si mesmo
categorias do ser(um homem, uma mulher, um
guir, a ponto de ter necessidade de especificar essas categorias (um Yerdadciro
homem, uma verdadeira mulher etc.), e sem que a categoria de Ycrda<le esgote a
falta-a-ser. Com efeito, a característica do ser é justamente a <le não poder dizer-
sc, como todo mundo pode comproYar, mais ou menos dolorosamente, para si mesmo.
• do lado do médico: a maneira pela qual ele se representa para si mesmo,
carioca 7 etc.), sem jamais conse-
através do valor atribuído à palavra médico, valor subjetirn muitas vezes determinante
da escolha dessa profissão que, mais que qualquer outra, exceto a de padre, canfore
ser suposto àquele que porta seu título. Ora, a não-obediência funciona como um
questionamento desse ser médico, o que freqüentemente provoca tentatiYas de re- cuperação daquilo que parece ser perdido nessa relação, e tais tcntatiYas não se fa- zem sempre de forma serena
• efeitos gerados no paciente pelas atitudes e reações - conscientes ou incons-
cientes - do médico. Um breve lembrete epistemológico permitirá caracterizar
melhor a relação médico-paciente através da maneira pela qual cada um estabele- ce sua relação com o outro.
A relação médico-paciente
A relação médico-paciente é uma relação de poder, como já dissemos. O exercício
desse poder é necessário nas práticas de cuidados.
Ora, o homem-medicina, o homem de poder, cm todas as civilizações, é um feiticeiro.
É ele que é suposto deter as chaYes do saber relativo ao sentido a dar aos sintomas e ao sofrimento, bem como à forma de curá-los e de exorcizá-los. Essa concepção
7 N. do T. :-.lo original: w1 Bourguignon, adjetivo que qualifica os nascidos na região da Borgonha, na França. Em português, e nu Brasil, consideramos que um carioca cumpre bem a função da expressão na frase.
62
Clínica e pesquisa em psicanálise
permanece d vida ainda hoje, inclusive na França, como o evidenciaram numero- sos etnólogos, particularmente Jcannc Favrct-Saada, cuja tese permanece atual 8 • O saber do médico difere do saber do feiticeiro no sentido cm que o médico representa a medicina, da qual ele é um fruto, elaborado no corpus e na história das
ciências, que Yisa a distinguir, desde Descartes, o sujeito e o objeto de seu saber.
O médico decodifica o sofrimento através de um crivo de saber aplicado sobre a
palavra do paciente, permitindo-lhe identificar signos a serem especificados com
a ajuda de perguntas e exames complementares cuja ftIDção escapa ao saber do
paciente. O paciente é, assim, de alguma forma, lido cm um sistema de referênci-
as que lhe escapa totalmente. Entretanto algo, como já \"imos, resiste na doença, no sentido cm que os paci- entes são osso duro de roer 9 . Seja qual for a maneira de identificar o sofrimento, a maneira de responder a ele, de tratá-lo, ocorre que os pacientes não respeitam exatamente as prescrições dos médicos, quer se trate de produtos e/ ou de regras
de higiene de vida. Alguns doentes se queixarão de não lerem sido bem cuidados,
e porão cm xeque o médico. Assim, o médico que quiser ser c!i'cJz deverá usar ele
toda a sua arte. Isso significa que, além do saber (anatomia, fisiologia, patologia
e terapêutica) de que dispõe, o médico deve usar de convicção, de persuasão. Podemos nisso ver bem a ilustração de uma outra dimensão, aquela que co- nhecemos na origem da psicanálise, quando essa ainda se empenhava cm se de- sembaraçar da medicina: os fenômenos relacionais com o paciente eram então decifrados cm termos de influência e de sugestão. Assim, a medicina pode ser considerada como uma ciência bordejada pela feitiçaria, na qual encontra suas
origens. O médico o confessa, por vezes, sob a forma de denegação, que pode ser enunciada sob a forma afirmativa que lhe permite manter esse saber não sabido:
"a n1cdicina é uma arte" 10 •
Contudo parece necessário sublinhar que se a medicina aspira à ciência, é na medida cm que seu objeto não é o doente, mas a docnça. 11
> FAVRET-SAADA, Jeannc. Lcs mots, lcs sorts, la
9 ;'\!. do T. ;-,Jo original: "sont de mau,·aise composition".
10 SZPIRKO, Jean. "À la croiséc dcs champs". Em: L'ana(rsc. /'analystc. Paris: Solin, 1991.
11 Cf. CLAVREUL, Jean. L'nrdrc médic,1/. Paris: Scuil, 1978. Abordar a questão do doente consis- tiria cm saber manifestar uma intenção dirigida a singularidades. Ora, é fácil constatar que o promotor da ação coletiva, como as associações científicas ou laboratórios farmacêuticos, ,·isam, paradoxalmente, construir tipologias que nos reconduzam ao ponto de partida.
mort. Paris: Gallimard, 1977.
Ser doente, ler uma doença
63
É nessa arte que o médico traduz sua competência, cm conformidade com o ensino de seus mestres, que ele adquiriu ao cabo de longos esforços que lhe deram
o título e o estatuto de médico. Esse estatuto não está exclusiva e especificamente
referido à prática de um
médico em uma posição social particular, mesmo se, hoje, essa posição parece às vezes desvalorizada cm relação a um tempo passado mais ou menos mítico -- algo do ser médico parece perdido. Examinemos a questão do lado do paciente. Ele é aquele que demanda cuidados, remédios, para um sofrimento. Ele se qualifica de doente, e o médico terá que avaliar a doença: diagnosticá-la, nomeá-la, situá-la no quadro de seu saber, determinar as ações a empreender para:
Ele situa wn homem (ou uma mulher): o
ato médico
• interrompê-la;
• retardar sua evolução;
• restringir-lhe determinados efeitos nefastos.
Assim, há doenças para as quais o tratamento é notavelmente dkaz, outras para as quais não proporciona uma cessação radical do sofrimento: as doenças crônicas. Muitas vezes a doença não é aparente, perceptível para o doente. Ocor- re simplesmente que o médico a nomeia, sem que ela apareça na consciência. Para isso, o médico se apóia em cifras abstratas: tensão, resultados de exames
É o médico que oferece uma espécie
laboratoriais a partir de análises biológicas
de estatuto de existência à doença cm um quadro de saber que o doente ignora.
A distinção entre doença grave porém curável e doença crônica tornou-se
habitual, e permite julgamentos de atribuição:
• "há uma angina, um apendicite, um reumatismo
• "ele é canceroso, diabético, hipertenso
".
";
Uma outra distinção pode ser feita: algumas doenças são espontaneamente situadas a partir do uso dos Ycrbos ter e ser. 12
A distinção entre ter e ser é problemática cm lingüistica 13 . Ela não é forçosamente
referenciada ànoção de gra\--idade: por exemplo, ter a doença de Crohn não L'. benigno. Contudo ter refere-se a algo que pode ser adquirido ou suprimido. Ter uma doença nem sempre é um amais, perder uma doença nem sempre é um a menos.
11
11
FREUD, S. Résultats, idécs, problcmcs. Paris: PUF, 1985, p. 2Sí; e L.i ric scxuellc. Paris: PUF, 1969, cap. IX, p. 123.
BENVÉNISTE, Émilc. PmblcmcsdclinguistiqucgénérJlc, 1. Paris: Gallimard, 1964, cap. XVI, p. 193-5.
64
Clínica e pesquisa em psicanálise
Em contrapartida, suprimir de alguém alguma coisa que é do registro do ser é amputá-lo de uma dimensão que o tornaria não semelhante a si mesmo, a sua
própria natureza.
A distinção entre os dois verbos remete à !àlta fundamental que Freud designava
com o termo de castração, termo cujo valor é simultaneamente significante e
conceituai. A relação com a falta orienta as questões singulares de cada um através das relações com o amor, a verdade, o saber
A nomeação de uma doença crônica marcada, para determinado doente, pelo
verbo ser constitui um elemento de sua carteira de identidade inconsciente, do
mesmo modo que o título de médico se integra igualmente à carteira de identida- de inconsciente, mesmo se ele não mais exerce ou até mesmo se nunca exerceu a
medicina. Essa carteira de identidade inconsciente, adquirida por uma nomeação,
proYoca efeitos similares àqueles que estruturam a pertinência dos indivíduos a uma religião, seita, minoria, gangue de adolescentes etc., que situam-se por trás
de um símbolo ou sigla. Poderia ser interessante estudar o que a carteira de identidade inconsciente de cada um pode representar, mas isso exigiria dcscm·oh·imcntos que
ultrapassariam cm muito o âmbito deste artigo.
De todo modo, claro está que essa carteira de identidade, que está ligada às identifica-
-\ trama
das identificações é feita de termos que são representações ou signiúc2::::·;, afetados por uma carga afctiya/ erótica específica que celebra os traços de uma história familiar
passada cm uma consciência que não cessa de reinventar suas propria~ lembranças.
O que constitui a especificidade dos mamíferos que são os homens é a relação
que essa espécie entretém com a palavra, porquanto aqi.;ilo que encadeia as
genealogias entre os humanos se estabelece por meio da pa:a\Ta. Insistamos: o
que se transmite de uma geração a outra, além do có<ligc ::::c:wtico, é a linguagem.
É isso que torna cada um herdeiro de uma terminologia m.al identificada, a partir
da qual, contudo, se especifica através das identificaçõc5 que faz e que oferece à decifração a cada Yez que fala, sem nem mesmo se dar conta disso. A palavra é o
substrato mesmo a partir do qual elabora-se a iksão do pensamento, em um rasgo de onde se origina o apelo.
Essa demarcação colcti\·a do que o significante põe cm jogo, permitida pela psicanálise, não torna possÍYcl, nem legitima, por si mesma, uma prática com os
doentes que não tenham formulado uma demanda singular. Todavia o delinea-
mento de uma dimensão subjctiYa sempre presente no paciente como no médico permite sustentar uma atenção dirigida por outros parâmetros, diversos daqueles constituídos por signos referenciados na etiologia médica.
ções fundadoras da subjetividade, oferece signos a serem lidos ou 01.:.údos
Ser doente, ter uma doença
65
Atitude do paciente em face de uma doença crônica
Uma doença crônica é experimentada como uma fatalidade e todo o teatro antigo nos mostra como os heróis não aceitam a fatalidade sem reticência, até o momen- to cm que não podem mais agir de outro modo. O que se passa em uma doença crônicai Para decodificá-lo, cumpre situar-se para além da questão médica em uma cronologia subjetiva para a qual dirigiremos agora nossa atenção.
A. Situação
|
• |
um doente procura um médico; |
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• |
o |
médico diagnostica uma doença crônica; |
|
• |
após várias discussões com outros médicos, verificações, hesitações etc., ele |
|
|
a |
comunica ao doente; |
|
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• |
o |
doente recebe a notícia de sua doença. |
B.
Efeitos sobre o doentc 14
• desmentido da realidade, recusa do rótulo da doença;
• revolta;
• barganha;
• aceitação passiva;
• aceitação ativa e integração.
C. Reflexão sobre a situação e as atitudes Na situação A reencontramos o contexto já eyocado no qual o paciente é "lido pelo saber de um outro". Ele integra a categoria daqueles a quem é anunciado que encontram-se sob o golpe do acaso (feitiçaria) ou do destino (tragédia clássica) através de um traço específico (a doença crônica) que etiqueta, de algum modo, seu ser identificado com a doença. Ora, pode o ser resumir-se a apenas um signo pelo qual se manifesta o destino? Isso é propriamente insuportável, pois para o doente trata-se de integrar esse signo, a doença, à sua identidade, sem que tenha podido se acostumar a essa pre- sença que doravante faz parte de si, é ele.
14 Essas atitudes devem ser distintas daquelas que Elizabeth Küblcr-Ross propõe para o anún- cio da morte.
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Clínica e pesquisa em psicanálise
Desmentido e dcncgação 15 são conceitos freudianos que dão conta do modo pelo qual um saber, mesmo que evidente, pode ser recusado por um indivíduo, no momento cm que esse saber vai de encontro a algo de essencial para ele, algo cm que ele se sustenta. Um exemplo desse desmentido em Freud deve-se à percepção da diferença dos sexos. O menino, quando confrontado com essa diferença, ao mesmo tempo sabe e não quer saber, como se não quisesse ter visto. A menina, em contrapartida, parece diretamente informada pela visão. Ela conjuga de ma- neira diferente do menino sua relação com os verbos ser e ter. A notícia da doença provoca uma ruptura entre um estado anterior e uma perspectiva posterior. Se é fácil compreender a revolta de alguns doentes, reYolta que pode atingir uma dimensão trágica, como se o indivíduo fosse designado pelo destino ("por que cu?"), para outros essa notícia engendra um júbilo, como se comportasse um ganho de ser. Aqui perfila-se uma construção metafísica subter- rânea que se apóia sobre crenças específicas do doente, suas fantasias, cm sua relação com a culpa e com o erro. A barganha já é uma marca de aceitação. Quanto à aceitação ativa, tratar-se-ia de Icnr cm conta a existência de um signo e de tirar as conseqüências racionais disso em termos de higiene de vida e de observância de medicações. Ora, "essa racionalidade" jamais é adquirida, ainda que isso desagrade aos indivíduos irracio- nais que sonham com a racionalidade. Nesse movimento, a doença se inscreve na carteira de identidade subjetiva do doente, e como, em função da higiene de vida e da medicação, os signos da doença podem desaparecer, o doente terá pontualmente a tendência, de forma mais ou menos repetida, de verificar de alguma maneira a persistência da existência desse signo de seu ser que não mais se manifesta. Assim, para o doente, não mais dispor dos signos da doença, uma vez que essa foi aceita, seria, de algum modo, o testemunho da amputação de uma identidade novamente adquirida atra,·és do nome, finalmente aceito, da doença crônica. Para não mais sentir o sofrimento provocado pela amputação, a não-observância pode ser instaurada como terapêutica. Ela permite fazer reaparecerem os signos clíni- cos ou de laboratório que lhe confirmarão que ele está bem doente e que os elementos rcpcrtoriados cm sua carteira de identidade subjctiYa permanecem válidos.
Ser doente, ter uma doença
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Atitude do doente em relação ao médico
Na Antigüidade, aquele que ammciava mas notícias sofria um castigo, como se ele próprio fosse o responsável pelos eventos anunciados. Na feitiçaria, a pessoa que anuncia e revela a existência de uma fatalidade não é a mesma que tomará a fun- ção de exorcista. Esse último será solicitado a um só tempo para confirmar e remover a fatalidade. Na comunicação de uma doença cromca a um doente que até então a ignorava, o médico é ao mesmo tempo o anunciador da má notícia e o homem de poder encarregado de remediá-la. Isso equivale a dizer que o médico de- sempenha um papel ambíguo para o doente. Nessa situação, alguns doentes mudam de médico para levar a um novo médico o que lhes fora trazido pelo
primeiro. A dificuldade do doente cm aceitar que sua doença não é transitória, que ela porta o nome de um "mal" identificado que Yai acompanhá-lo por toda sua vida, como uma inscrição cm seu "ser", vai manifestar-se por uma rejeição cm particular daquilo que lhe é mais imediatamente acessível: seguir ou não as prescrições e as regras de higiene de \·ida que lhe são recomendadas. A rejeição do tratamento pode também encobrir alguns impulsos inconscien- tes, mascarados por efeitos secundários bem rcpcrtoriados. Trata-se então dera- cionalizações que se apresentam sob as melhores aparências de objetividade. Esse mecanismo oferece, a mais, a possibilidade às vezes jubilatória de pôr assim cm questão o saber médico e o de seu médico. Trata-se aqui de um deslocamento, no sentido freudiano do termo: um sujeito que não quer confessar a si mesmo um impulso, ou uma defesa cm relação a um objeto qualquer, desloca para outro objeto (ou outra pessoa) os sentimentos experimentados.
Atitude do médico em relação ao doente
Vimos como o questionamento do médico feito pelo paciente calava aquele cm seu "ser" de médico. Se, como já evocamos, a prática médica inscreve-se cm um modelo que mis-
tura saber e poder, competência e hierarquia, na relação com o doente que recusa
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a |
observância, resta ao médico: |
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• ou renunciar, e nesse caso ele não é mais médico a seus próprios olhos; |
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• ou lutar, cm uma relação de poder sem efeito que satisfaz a alguns doentes |
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e |
que provoca a ruptura, cm outros. |
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Clínica e pesquisa em psicanálise
Diante do doente que não se cuida, o médico procura persuadir, convencer
uma yez que a confiança dirigida a ele, e que ele representa, não basta para que haja obserdncia à prescrição. O médico argumenta, ameaça, antecipa os riscos
que o doente corre
Estabelece-se, assim, uma espécie de espiral infernal, cada um atribuindo ao ou- tro o deslocamento de suas próprias feridas. Nessa relação, não se trata de um "titular" de um diploma de medicina debaten- do com um "titular" de uma doença crônica, procurando, cm conjunto, as melhores condições de \'ida para o doente: trata-se de dois "seres" que confrontam suas iden- tidades respccti\·as, trata-se de duas rci\·indicac;õcs de existência - como se cada um só pudesse se fazer reconhecer à condic;ão de ganhar cio outro, suprimindo do outro seu ser adquirido com o estatuto de doente crônico ou de médico.
e se torna, de alguma forma, "perseguidor" de seu doente.
Conclusões
Seria ilusório crer que a não-obervância poderia ser combatida com a ajuda de uma campanha de comunicação que tomaria, de um modo clifcrcntc, argumentos muitas \'Czcs reiterados. Isso seria fazer pouco da dimensão inconsciente cm rela- ção àqual todo mundo se caracteriza por"nada querer saher sobre isso" 1 6, mesmo no momento do surgimento imprevisto de seus efeitos.
O que parece fayorccer a obserYância se passa na relação médico-paciente.
!\essa relação, não se trata de uma doutrinação do outro através de argumentos, amca<;:as ou procedimentos ele influência, mas ele uma forma de implicá-lo com·i- dando-o a falar de modo diYerso daquele que consiste cm recitar estereótipos ou fórmulas codificadas por antecipação. O médico situa-se então como testemunha
atenta de uma narrativa que por vezes se afasta do tema inicial a fim de suscitar uma tomada de consciência, permanecendo atento cm relação aos termos singu- lares do paciente, que não pode dizer com precisão (mas quem o poderia?) as dificuldades que ele experimenta para:
• integrar sua doença a sua vida pessoal, profissional;
• tirar conseqüências disso;
• fazer projetos.
Uma melhora do modo relacional instaurado freqüentemente torna a cliente- la do médico mais fiel.
'• LAC.-\:\, J. Lr Scminairc, Lirrr XX: Encare. Paris: Scuil, 1975.
Ser doente, ter uma doença
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Esse modo relacional não leva cm consideração exclusivamente a informação
a dizer ou a ouvir, mas exige uma tomada de consciência. De quê? Da demanda de reconhecimento que acompanha qualquer palaua, demanda de reconhecimento não-sabida e sempre presente, tanto na queixa do paciente quanto na maneira
pela qual o médico enuncia suas próprias recomendações. Insistamos: a maneira pela qual o médico ou o pessoal encarregado dos cuidados implicados na situação se manifestam inclui igualmente uma demanda de reconhecimento que por vezes excede por seu caráter desmedido, sob a capa de racionalizações mais ou menos bem elaboradas. Esse modo relacional implica, para o médico, estabelecer uma relação com o doente, renunciando por um determinado tempo ao saber médico para permitir
a ele dizer, cm suas próprias palaYras, por vezes imprevistas, até mesmo inapro-
priadas, aquilo que ninguém poderia dizer por ele. Não se trata de substituir a posição de médico pela de psicanalista, mas de permitir ao médico, no enquadre de sua função, levar em conta algo de inespera- do, algo fora da nomenclatura médica que o doente exprime. Esse discurso, mes- mo quando salpicado de questões precisas, comporta uma forte demanda de re- conhecimento, sem que haja forçosamente respostas a dar: basta, na maioria das vezes, testemunhar a atenção. O problema é que os médicos não estão familiariza- dos com esse procedimento, não mais que os delegados médicos formados por laboratórios farmacêuticos, quer se argumente e~ função de cxpectati, as estatis- ticamente identificadas, quer se manejem as técnicas de Ycndas que se apóiam cm simulacros de escuta, visto que, nesses casos, trata-se unicamente ele demarcar critérios já repcrtoriados. Trata-se, portanto, de sensibilizar o médico para aquilo que pode ser uma entrevista não estereotipada, que leve cm conta a singularidade e a afcti,·idadc elos interlocutores, sem por isso excluir uma intenção precisa: favorecer a obscnância porquanto é esse o seu ofício. Tratar-se-á cm particular de ilustrar o quanto é necessário diferenciar a im-
plicação elo doente cm um projeto de tratamento, e a culpabilização através de ameaças, que, mesmo quando formuladas para o "maior bem do paciente", não
deixam, por isso, de serem ameaças. A história nos ensina sobre essa questão que
"d
o maior
.
b
"
que se comete o p10r.
.
e sempre em nome
Realizar uma observância perfeita, ou "simplesmente" um ideal qualquer, não interessa ao psicanalista, nem ao leigo em medicina. O maior bem é inacessível. O menos ruim lhes basta!
,
em
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Clínica e pesquisa cm psicanálise
Uma abordagem diferente do paradigma da relação médico-paciente permite depreender como - através da consideração, em cada caso, do que o paciente diz, do vocabulário que ele utiliza - uma atenção pode relançar, provisoriamente, uma observância, até o próximo encontro. Trata-se, em cada consulta, não exclu- sivamente de prescrever, de aconselhar ou de escutar passivamente, mas também de se situar como testemunha atenta de um discurso singular que necessita ser pontuado no tempo por outros encontros. Um ganho em termos de observância pode ser usufruído por antecipação, sempre sem garantias. Esse procedimento de supervisionar o doente permite também que os paramédicos exerçam melhor suas próprias competências, suas próprias funções. Com efeito, um pessoal encarregado de cuidados pode, igualmente, efetuar um acompanhamento, sem que seja necessário evocar uma eventual necessidade de obsenância de prescrições ou de regras de higiene de vida. É importante, nesse momento, que esse pessoal possa desarmar, cm seu estatuto e cm seu papel, as armadilhas engendradas pelos auxiliares 17 ser e ter. A partir disso o "doente" pode se vincular a um "lugar" - aquele onde ele encontra um interlocutor privilegiado - que constitui uma espécie de referência que ele carrega consigo e que lhe dá uma espécie de carteira de identidade subjetiva, uma pertinência e um estatuto. Isso é particularmente importante para alguns doentes crônicos em momentos de perturbação emocional. A relação estabelecida com um doente põe cm jogo pro- cessos afctiYos que trançam laços, que não devem contudo ser confundidos com uma relação transfcrcncial, ainda que possam levar a ela.
1 ' l\'. do T. Em francês, os verbos ser e ter têm a função de auxiliares do verbo principal na formação de inúmeros tempos compostos.
Ser doente, ter uma doença
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,
Edipo: o homem antitético
Marco Antonio Coutinho Jorge
Caminho: para cima, para baixo, um e o 1ncsmo.
Hcráciito, frag.60
Este artigo é uma rcleitura da tragédia Édipo rei, de Sófocles, suscitada a partir do estudo de alguns textos escritos por especialistas cm cuLtura helênica. Quisemos confrontar duas possibilidades de leitura do texto grego, a do helenista e a do psicanalista, de modo a evidenciar o quanto elas podem se enriquecer mutuamen- te: se o historiador fornece elementos fundamentais que iluminam o contexto cultural no qual a tragédia se inscreve, o psicanalista aponta a ocorrência da ação inconsciente do significante nesses mesmos elementos postos cm cena. Tendo como objeto de debate um artigo do psicanalista DidierAnzicu 1 , publi- cado cm 1966 na rcYista Lcs Tcmps Modcrncs, o historiador Jean-Pierre Vcrnant cscre- \'CU cm 1967 um artigo intitulado '"Édipo' sem complexo"~, no qual critica a Yisão freudiana do Édipo, considerando-a destituída dos elementos históricos e sociais que, segundo ele, forneceriam a verdadeira significação ao texto da tragé- dia de Sófocles. Vernant observa que o sentido que Freud extrai da peça, revelador da existência na mente infantil das mesmas tendências - ao parricídio e ao incesto - que conduzem o herói trágico à ruína, é situado por ele, assim como pelos psicanalistas posteriores a ele, na emoção que a peça consegue, de maneira uni- \·ersal, despertar no público, ao passo que, para um helenista, a análise do "efeito tragico" sobre o espectador não pode prescindir da contextualização geral na qual a tragédia grega se produziu: "Freud parte de uma vi\·ência Íntima, a do público, que não está historicamente situado; o sentido atribuído a essa experiência é en- tão projetado sobre a obra independentemente de seu contexto sociocultural" 3 .
1 Lcs Temps .\1odcrnrs, n. 245. Paris, outubro de 1966, p. 675- 715.
'VERNANT,J.-P. '"Édipo' sem complexo". Em: VERNANT,J.-P. &VIDAL-NAQUET, P. Mito e rragédiJ na Grécia .fatiga. São Paulo: Brasilil'nse, 1988, p. 77-1 O1.
3 lhid., p. 79.
Para Vernant, ao c~ntrário, a psicologia histórica procede de modo inverso, pois apenas o contexto histórico, social e mental torna possível extrair da tragédia toda sua força significativa, sendo somente após o estudo do contexto que a vivência do espectador adquire seu pleno sentido. Não tomar cm consideração os diferentes mecanismos simbólicos inconscientes faz com que Vcrnant veja, na tragédia de Sófocles, tão-somente as determinações increntes à cultura grega e à fase de transição do mito ao Estado que essa então vivia. Em contrapartida, cumpre ressaltar a pertinência de sua crítica aos excessos interpretativos de Anzieu, que parece querer apontar, com excessiva facilidade, a onipresença do modelo freudiano da fantasia cdipiana na mitologia grega: "Segundo Anzieu, quase todos os mitos gregos reproduziriam, sob formas de variantes infini- tas, o tema da união incestuosa com a mãe e de assassinato do pai". 4 Contudo, referindo-se à passagem do uniYerso mítico ao do homem situado no âmbito da cidade, Vernant fornece-nos, à sua revelia, elementos para perceber que a tragédia grega -- ao pôr cm cena o problema do sujeito do direito, e, portan- to, da responsabilidade do homem por seus próprios atos, problema então emer- gente na Atenas do século V - evidencia a questão mesma cio inconsciente, pois cm seu cerne reside a pergunta: "em que medida o homem é realmente a fonte de suas açõcs?" 5 Nesse sentido, pode-se dizer que os deuses e os oráculos constituem, na tragédia grega, uma primeira metáfora do inconsciente, ou seja, daquilo que age nos sujeitos como uma determinação que lhes escapa e cm oposição àposição de agente de sua ação que lhes é outorgada pelo direito. Se Édipo constitui o paradigma do herói trágico, isso se dá porque o homem da ação trágica é, por definição, o homem antitético, surgido na divisão entre o agente da ação e o joguete dos deuses. O que essa divisão trágica revela é o homem na "encruzilhada da ação''6, diante de uma escolha que se opera "num mundo de forças obscuras e ambíguas, um mundo dividido onde 'uma justiça luta contra outra justiça', um deus contra outro deus, onde o direito nunca está fixo, mas desloca-se no decorrer mesmo da ação, \·ira' e transforma-se cm seu contrário"'. Tomemos, então, o texto de Sófocles.
4 Ibid., p. 85-ss. 'Ibid., p. 80. 6 Ibid., p. 82. 7 Idem.
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Clínica e pesquisa em psicanálise
Para nós, o âmago da tragédia de Édipo rci 8 situa-se na questão: "Édipo sabe ou não sabe que seus pais Ycrdadciros não são Pôlibo e Mérope de Corinto?"Vernant acredita que Anzieu falsifica a "evidência do texto" 9 ao afirmar que Édipo bem sabe que seus pais não são aqueles e afirma que tal falseamento é necessário à interpretação psicanalítica. Mas o fato é que Anzieu está corretíssimo cm sua po- sição, pois Édipo fornece dementas que sugerem que ele sabe que seus pais eram adotiYos. Trata-se, todavia, de uma forma de saber muito particular, um saber inconsciente: Édipo sabe sem saber que sabe, ao mesmo tempo que age movido pelo desconhecimento ativo desse saber. Tal saber permanecia recalcado em Édipo, que não queria saber nada disso de que se trata, fórmula por meio da qual Lacan define o recalcamento: "O inconsciente é o testemunho de um saber, no que em grande parte ele escapa ao ser falantc" 10 . Édipo faz uma insinuação a essa forma de saber que age nele mesmo à sua revelia quando, diante da dcsctição de Laia que lhe fez Jocasta, exclama: "Ai! Infeliz de mim! Começo a convencer-me de que lancei contra mim mesmo, sem saber, as maldições terríveis pronunciadas hoje!". Vejamos. Basicamente, o enredo da tragédia está calcado na desconfiança que Édipo mantinha, desde sempre, cm relação à legitimidade de sua filiação. Tudo começou, ele mesmo o narra num diálogo com Jocasta, quando, ainda jovem e considerado "o cidadão mais importante de Corinto", ouviu numa festa de um conYiYa bcbado -- in ríno rcritas - o insulto de que era filho adotiYo. Ao serem indagados por Édipo, seus pais o negaram de forma indignada mas, diz ele, "ainda assim o insulto sempre me doía; gravara-se profundamente cm meu espírito". Nessa mesma passagem, Édipo prossegue dizendo que, sem o conhecimento dos pais, isto é, sabendo que fazia algo que os contrariava, dirigiu-se no dia seguinte ao oráculo de Delfos para desfazer tais dúvidas e, cm vez de conseguir uma res- posta do oráculo a esse respeito, ouviu de Apolo que assassinaria seu pai e se uniria à própria mãe. É nesse momento que Édipo foge de Corinto e, no caminho de Tebas, encontra Laia com sua escolta e o mata durante uma briga criada pela preferência de passagem na estrada. Laia fugia, pois esta\'a sendo perseguido por Pélopcs, cujo filho Crísipo, raptara.
':\"ossa rcfcrt:ncia, daqui por diante, sâo os wrsos traduzidos do grego por Mário da Gama Kury. Cf. SÓFOCLES. A trilogia tcbana - Edipo rei. Edipo cm Colono, Antigana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990.
• VERNA:'-JT, J.-P. '"Édipo' sem complexo". Op. cit., p. 97.
'º LACAN, J. O seminário, /irra 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1982, p. 190.
Édipo: o homem antitético
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Essa fuga é, cm si mesma, bastante ambígua. Para Yernant, ela é reYcladora de que Édipo acredita-se filho de Pôlibo e Mérope; caso contrário, não fugiria e, permanecendo cm Corinto, ficaria a sako das predições tenebrosas do oráculo. Vernant não valoriza a pungente narrativa de Édipo sobre a dúvida a respeito de sua origem, que o corroía, e pri\"ilegia a idéia de que Édipo de fato acreditan ser filho dos dois: "Não apenas uma YCZ, mas muitas, Édipo afirma, sem a menor dúvida, ser filho de Méropc e de Pôliho".:, Mas a excessiva insistência de Édipo cm afirmar-se filho de seus pais adotiYos (Vernant faz questão de enumerar dez passagens no texto) lembra-nos uma das características do inconsciente, segundo a qual a proliferação excessiva de um elemento pode ser indicativa de sua falta, como no texto freudiano sobre "A cabe- ça de Medusa", cm que as inúmeras serpentes representantes do falo são inclicati,·as de seu oposto, qual seja, a castração. Por isso, elas surgem na cabeça decapitada, isto é, castrada, da Medusa. 12 Nesse mesmo sentido, a insistência rcpctitin dC' determinado elemento no discurso do sujeito pode consistir numa forma sofisti- cada de defesa denegatória cm relação a seu oposto: aqui, não se trata de utilizar a partícula negativa como na denegação trivial, mas antes da necessidade de reite- rar uma afirmação no sentido de escamotear com insistência sua ausência. Dito de outro modo, trata-se de uma afirmação repetitiva vinda, tal como uma negação, a serviço do recalque de seu oposto. Lacan sublinha que se Freud escolheu o mito de Édipo, isso se deveu não apenas à conjunção fundamental matar o pai e dormir com a mãe que pode ser encontrada cm muitos outros heróis, mas também ao fato de que "ele não sabia que tinha matado seu pai e dormia com sua mãe". ll Teria sido esse "de não sabe
mito de Édipo para falar da
dimensão absolutamente inconsciente do desejo. Que Édipo sabe sem saber que sabe, não só que Pôlibo e Méropc não são seus pais adotivos, como também que ele próprio é o assassino de Laio, seu pai, se evidencia através de um lapso que, muito sutilmcntc, Sófocles põe cm sua boca logo no início da tragédia. Quando Creonte, irmão de Jocasta, lhe diz de modo
fundamental" 11 que fez com que Freud escolhesse o
11 VERi\'ANT, J.-P. '"Édipo' sem complexo". Op. cit., p. 93.
11 Freud fala aí de uma Ycrdadci1·a "regra técnica": "a multiplicação dos símbolos do pênis significa castração". Cf. FREUD, S. "A cabeça de Medusa". Em: Ohrascomplct.1.,, nil. XVlll. Rio de Janeiro: Imago, 1980, p. 329.
1 ' LACAN, J. O seminário, /irro 8: a trJ11.<frrc;ncia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992, p. I O+.
1 " lbid., P· 45.
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Clínica e pesquisa cm psicanálise
peremptório gue não fora um único homem que assassinou Laia, mas muitos:
"alguns bandidos encontraram Laia e o trucidaram, não com a força de um só homem pois numerosas mãos se uniram para o crime", Édipo indaga: "Como teria ousado tanto o malfeitor sem conspirata cm Tebas e sem corrupção?". Para se referir ao assassino, Édipo, sem sabê-lo, assinala o singular onde Creonte falara clara e enfaticamente no plural. Mais surpreendente ainda é essa passagem, quando se vê que o poder revelador de seu saber inconsciente nesse pequeno lapso fôra anunciado por ele próprio imediatamente antes, ao dizer que "um mí- nimo detalhe ta!Yez nos leve a descobertas decisivas se nos proporcionar um fio de esperança". Que sua fala tem a estrutura de um lapso que expressa a verdade se corrobora quando, adiante, falará dos assassinos cm termos que admitem, apesar de a fala de Creonte ter sido tão clara a respeito, duas possibilidades distintas:
"O criminoso ignoto, seja ele um só ou acumpliciado, peço agora aos deuses que \"ÍYa na desgraça e miseravelmente!". A continuação dessa sua fala consegue ser ainda mais eloqüente, uma vez que ele se refere a si mesmo de forma tão ambígua, que sugere a possibilidade de ele próprio ser o assassino de Laia: "E se ele convive comi- go sem que cu saiba, invoco para mim também os mesmos males que minhas maldi- ções acabam de atrair inapelaYelmcntc para o celerado". Ainda aqui, e pela terceira vez, Édipo fala no singular para se referir ao possível assassino de Laia. O artigo de Vcrnant apresenta elementos valiosos para a reflexão psicanalíti- ca, ainda que fique evidente essa espécie de "olho mau" 15 que ele incide sobre a abordagem de Freud; por exemplo, quando contesta a afirmação freudiana de que "a lenda de Édipo é a reação da nossa imaginação a esses dois sonhos típicos [parrícídio e incesto] e, como esses sonhos são no adulto acompanhados de senti- mentos de repulsa, é preciso que a lenda traga o terror e a autopunição no seu próprio conteúdo", argumentando que nas primeiras versões do mito não se ma- nifesta nenhuma autopunição e "Edipo morre tranqüilamente instalado no trono de Tebas, sem ao menos ter furado seus olhos" 16 • Tal argumentação é tão falaciosa quanto aquela que quisesse destituir a força exercida pelo sorriso da Mona Lisa porque os esboços realizados por Da Vinci para a tela não o tivessem retratado ou então que ele não estivesse presente no semblante da modelo por ele retratada, Mona Lisa del Giocondo. Ora, foi a Yersão trágica de Sófocles, e apenas ela, que se
1 ; A categoria do "mau-olhado" é utilizada aqui no sentido de que "o olhar se presta especial- mente à condenação superegóica". Cf. DIDIER-WEILL,A. Os três tempos da lei. Rio de Janeiro:
jorge Zahar Editor, 1997, p. 70.
16 VERNA'.'JT, J.-P. '"Édipo' sem complexo". Op. cit., p. 82.
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impôs com seu elevado poder de comoção ao longo dos séculos e não os diferen- tes conteúdos legendários dos quais ele extraiu o material para realizá-la. Os efeitos de seu "mau-olhado" prosseguem, contudo: para Vernant, a força perturbadora de toda e qualquer tragédia reside não no fato de ela ,,eicular um tipo
particular de sonho, mas na maneira de dar forma à matéria que é por ela tratada. Isso permite que se entenda por que outras tragédias tenham igualmente o poder de comover o público, ainda que não tratem dos sonhos cdipianos.Vcrnant diz-se "estu- pefato" com o fato de Freud mencionar que dramas modernos fracassaram em ten- tar produzir o "efeito trágico" sem utilizar o material dos sonhos edipianos, e apela para as outras tragédias gregas que, cm sua quase totalidade, também não o utilizam, ainda que conscn-cm seu poder junto ao público. Vcrnant quer demolir a base sobre a qual Freud construiu um dos pilares de sua teoria, o complexo de Édipo. Não obstante, ao fazê-lo, colhemos elementos importantes para nossa reflexão: a psicanálise sabe aproveitar-se da palavra, ainda que muitas vezes essa pretenda ser uma maldição Refiro-me à estrutura da tragédia que é destacada por Vcrnant e que e mais bem desenvolvida num artigo subseqüente, intitulado "Ambigüidade e reviravol- ta. Sobre a estrutura enigmática de 'Édipo rei"'. 17 A estrutura da tragédia grega se baseia, nos ensina, na ambigüidade "como meio de expressão e como modo de pensamento". Além disso, Édipo rei é a tragédia de Sófocles que mais possui expres- sões de duplo scntido 18 ; por isso, W.B. Stanford considerou que, do ponto de vista da anfibologia, ela tem valor de modelo. O que é relevante, paraVcrnant, é que a ambigüidade presente cm Édipo é diferente dos tipos de ambigüidadc encontra- dos cm geral nas tragédias, seja a do conflito de valores semânticos, seja a da duplicidade de uma personagem. A ambigüidadc presente naquilo que Aristóteles chama de homonímias ou ambigüidadcs léxicas se relaciona com o fato de que as mesmas pala\Tas assumem sentidos diversos, ou até mesmo opostos, na boca de personagens diferentes, já que seu valor semântico muda segundo o contexto, seja ele religioso, jurídico, político ou a língua comum: "Cada herói, fechado no universo que lhe é próprio, dá
àpalavra um sentido e um só" 19 • Assim, o termo nómos designa, na fala
de Antígona,
17 VERNANT,] .-P., "Ambigüídade e reviravolta. Sobre a estrutura enigmática de 'Édipo Rei"'. Em: J.-P. VERNANT & P. VIDAL-NAQUET. Mito e tragédia na Grécia Antiga. Op. cit., p. 104.
18 Repertoriadas cm cinqüenta por A. Hug. Cf. HUG, A. "Der Doppclsinn in Sofhoklcs Ocdipus Konig', Philologus, 31, 1872, p. 66-84, apudVERNANT, ].-P. "Ambigüidade e reviravolta. Sobre a estrutura enigmática de 'Édipo Rei"', Op. cit., p. 103.
19 Ibid., p. 105.
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Clínica e pesquisa em psicanálise
uma regra religiosa, ao passo que, na de Creontc, um decreto promulgado pelo chefe de estado. O mesmo termo designa valores que são inconciliáveis e a ambi-
crüidade se encarrega de traduzir a tensão criada entre eles. O uso da homonímia
b pelo autor trágico é, dessa forma, o modo de transparecer a impossibilidade de comunicação entre as personagens, que, falando a mesma palavra, dizem coisas diferentes. É no destacamento dessas zonas de opacidade e de incomunicabilidade entre as falas humanas que se transmite, para Vernant, a mensagem trágica, sendo o espectador levado, desse modo, a experienciar"a ambigüidadc das palavras, dos valores, da condição humana". 20 Outro tipo de ambigüidadc trágica diz respeito à duplicidade de uma perso- nagem. São discursos que, por meio de uma particular destreza anfibológica, dis- simulam outro discurso, cujo sentido é contrário ao primeiro e perceptível ape-
nas pelo espectador. Em Édipo rei, todavia, a ambigüidade &de outra ordem, pois é o próprio Édipo que é duplo. Ele é um enigma, cujo sentido acabará por revelar
que ele é precisamente o oposto do que acreditava ser. Édipo diz a verdade de suas
palavras sem querer e, quando fala, diz o contrário do que está falando: é o que se
pode chamar de ironia trágica. 21
Para Aristóteles, em Édipo rei, os dois elementos que constituem a tragédia (além do patético incrente às emoções de terror e compaixão), o reconhecimento e
a pcripccia - ou seja, a rcriravolta da açio cm seu contrário - coincidem, pois o reconhe-
cimento que Édipo faz leva a ele mesmo. A ambigüidade surge logo na abertura da peça, quando Édipo, ao afirmar que ele mesmo descobrirá quem é o assassi- no de Laio, diz: Ego phano, significando "sou eu que porei à luz o criminoso", mas também "cu me descobrirei criminoso". O discurso de Édipo é tão duplo quan- to ele próprio o e. Na fala do coro que sucede o momento crucial, "catastrófico" 22 , cm que Édipo passa a saber quem ele era, seu destino (e desatino) é comparado ao do homem
cm geral: "Com teu destino por paradigma, desventurado, mísero Édipo, julgo
impossível que nesta vida qualquer dos homens seja feliz!". Nesse sentido, não cabe dizer, como Vcrnant o faz, que Freud faz uma generalização impertinente,
1 ºIdcm.
11 Esse artigo, escrito paralelamente ao liHo Fundam,-r.ro., da p.<icanálise de Freud a Lacan, rol. /: as bases
conceituais (Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000), dele retira algumas elaborações centrais, so-
bretudo aquelas sobre a significação antitética das palavras
primitivas ou não.
11 Mario da Gama Kury sublinha que "catástrofe" é o ponto da tragedia em que ocorre a rcvira-
rnlta, para pior,
na sorte do protagonista. Cf. SÓFOCLES. A trilogia tebana. Op. cit., p.98.
Édipo: o homem antitético
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mas sim perceber que o próprio Sófocles faz o mesmo, pois ele encerra a tragédia com uma fala do corifeu aos cidadãos de Tebas exortando-os a se mirarem no
destino trágico de Édipo.
O caráter antitético de Édipo é ressaltado por Vernant, que fala de Édipo como
dual, duplo. 23 Psicanaliticamcnte, porém, seria mais correto falar cm antítese, e não cm duplicidade, pois se há duplicidade, ela é uma duplicidade extrema, uma duplicidade dilacerante, que concilia num i'.mico ser não apenas dois elementos diferentes, mas sim, mais do que isso, dois opostos absolutos. Assim, se Édipo é o "renomado" no início da trage'dia, o "meIhor dos hon1ens", o "morta1 melhor que t odos", ao seu cabo, surgira· ' como o "mais infeliz entre os desventurados", "um crinúnoso", "um ente tão impuro que nem a terra, nem a chuva abençoada, nem mesmo a luz agora poderão tocar". Elisabcth Roudincsco e Michcl Plon chamam a atenção para o fato de que Freud não faz qualquer referência ao episódio homossexual de Laio, que raptara o belo e jovem Crísipo quando era rei de Tebas, e atribuem isso ao fato de que Freud era tão sensível à tolerância daAntigüidade cm relação à pederastia, que se csc1ucceu de que "mesmo entre os gregos o amor pelos rapazes podia ser reprovado como um vício que ameaçava a civilização". 24 Esses autores lembram que foi então que Hera, prote- tora do casamento, em resposta ao ato de Laio, em·iou a Esfinge a fim de punir os tebanos por sua tolerância quanto a essa forma de relacionamento. Mas é preciso
acrescentar que, agindo assim, Laio transgrediu a lei da hospitalidade, pois fora aco- lhido pelo rei Pélopcs, pai de Crísipo, cm seu palácio, onde começou o namoro com ele e depois o raptou, realizando uma afronta a Zeus. E Laio já desrespeitara o
oráculo de Apolo, filho de Zeus, que o aconselhara a não ter filhos
O caráter antitético de Édipo se evidencia com seus traços mais marcantes, se
percebermos que Édipo, o sábio decifrador do enigma da Esfinge, acaba por reve- lar-se como sendo, ele mesmo, a própria Esfinge. O que é a Esfinge? Chamada igualmente de cruel cantora, de rírgcm misteriosa, a Esfinge é um monstro absolutamente hctcróclito e antitético, composto da cabeça e busto de mulher, corpo e garras de leoa, cauda em forma de serpente, asas de ave e voz humana. Ora, sua composição feminina é uma condensação que conjuga cm uma única figura - como numa
2 5
13 VERNANT, J.-P. "Ambigüidade e reviravolta. Sobre a estrutura enigmática de 'Édipo Rei"'.
Op. cit., p.
108 e 110.
24 ROUDINESCO, E. & PLON, M. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p. 351.
i; Devo a Ana Vieentini de Azevedo o apontamento desses e de outros elementos fundamen- tais da língua e da cultura gregas.
80
Clínica e pesquisa em psicanálise
figura onírica - as partes mais poderosas de cada um dos seres vivos dos quais se constitui: das aves, as asas, e da leoa, a força do corpo e das patas com suas garras, isto é, uma associação antitética entre o leve e o pesado, o suave e o bruto.
A cauda, de elemento inofensivo, transformando-se numa serpente, torna-se, por
antítese, venenosa. De humano, ela possui apenas a cabeça, o busto e a voz.
A Esfinge é a própria antítese encarnada.
Se a voz é o elemento humano que mais lhe sobressai, Édipo, por sua vez, após
furar os olhos, afirma que "se houvesse ainda um meio de impedir os sons de me chegarem aos ouvidos, teria privado meu sofrido corpo da audição a fim de nada mais ouvir e nada \·er". Édipo diz que não quer mais ouvir o canto da Esfinge, sua voz, assim como a própria rnz dos homens e suas palavras tão ambíguas. Ele, porém, diz, mais essencialmente, que talvez seja possível deixar de ver, mas deixar de ouvir, não.
Se Édipo acaba por se revelar como sendo a própria Esfinge, e se todo homem
tem destino semelhante ao seu, todo homem é, igualmente à Esfinge, antitético
|
cm |
sua natureza, pois o fim de Édipo é semelhante ao da Esfinge, que foi lançada |
|
no |
abismo depois de ele ter decifrado seu enigma. Já cego, referindo-se a esse |
destino semelhante de ambos, ele pergunta: "Ai de mim! Como sou infeliz! Aon-
de You? Aonde vou? Em que ares minha voz se ouvirá? Ah! Destino!
negros abismos me lanças?" Ele fala como se só lhe restasse sua voz, precisamente
aquilo que a Esfinge - a cruel cantora -- possuía de mais humano.
O fato de Édipo ter furado os olhos com os broches de ouro que adornavam as
roupas de Jocasta (é de se notar que tais broches, na época, eram usados para segurar os tecidos das vestes), imediatamente após tê-la visto morta enforcada, nos faz pensar na
báscula do olhar para a voz. Com efeito, tudo se passa como se o espelho invisível que se encontra entre Édipo e a Esfinge se quebrasse, aliás, muito bem retratado por Ingrcs cm
sua famosa tela cm que Édipo explica o enigma da Esfinge. Nela, como se pode observar
na capa do presente volume, vê-se Édipo e a Esfinge situados um defronte ao outro, numa posição própria à cspecularização de uma imagem. O fato de Édipo ter sua mão estendida e ela, sua pata, não deixa dúvidas de que essa especularização existe. Além disso, cumpre notar que o olhar da Esfinge está voltado para o espectador da tela, como se denunciasse que esse também está implicado na trama que se passa entre eles dois Assim, se suas palavras são ambíguas, e se cm seu discurso transparece conti- nuamente a anfibologia, isso se dá porque eles apenas refletem o ser antitético de Édipo. Já foi bastante ressaltada a habilidade de Sófocles em manejar a ironia trágica, e um dos momentos cm que essa ambigüidadc tragicamente irônica surge com sua máxima força é aquele cm que Édipo, referindo-se a seu empenho cm descobrir o assassino de Laio, afirma: "Hei de lutar por ele como por meu pai".
Em que
F
dipo:
o homem antitético
SI
A enigmática Jocasta, por sua vez, refere-se à ambigüidade da eficácia das palanas trazidas pelo mensageiro, que anuncia as notícias, vindas de Corinto, de
que Pôlibo, pai adotiYO de Édipo, morrera. A brevíssima passagem de Jocasta na
peça e rcn:ladora de que o feminino parece possuir o saber sobre essa antítese
in
lhe- ,_- n-;:.r:~pJ.rente. Assim, se num primeiro momento ela solta "ingenuamente"
para Édipo que "Laio tinha traços teus" 26 , conforme o desYendamento de Édipo
a\"ança, ela pretende freá-lo: "De hoje em direita 27 em busca de presságios". Jocasta
im·estigação, agindo como se já soubesse de antemão aonde ela levaria. Jocasta tenta deter a inYestigação que Édipo, por sua yez, quer lc,·ar até o fim.
Ela chega ao ponto de tentar tranqüilizar Édipo de seus temores de m,mter uma
relação com a própria mãe com palaYras tão ambíguas, que estas parecem ao mesmo tempo dissuadi-lo de e induzi-lo a aceitar essa mesma idéia: "Não deYc
amedrontar-te, então, o pensamento dessa união com tua mãe; muitos mortais
cm sonhos já subiram ao leito materno. Vive melhor quem não se prende a tais
receios". Com efeito, num diálogo anterior, Jocasta respondera a Édipo, que lhe solicitava que fosse trazido até ele o pastor escravo, de maneira sumamente ambí- gua, como se acatasse o que lhe era pedido: "Tua vontade será feita sem demora.
Nada faria contra teus desejos".
De fato, ela se desespera no momento cm que sabe que Édipo mandara chamar
o pastor, o escravo de Laio ao qual ela mesma o entregara ainda menino para ser sacrificado. Jocasta se angustia - "Já é demasiada a minha própria angústia!" - so- mente quando vê que o pastor está chegando. Ela tenta impedir Édipo de prosse- guir, exclamando: "Peço-te pelos deuses! Se inda te interessas por tua Yida, livra-te dessas idéias!", e nisso insiste de um modo que reYela que já sabe e que, na ver<lade, só lhe importa evitar que Édipo venha a saber: ":Vada me importa! Escut·a-mc! Por làror: p.íra!". Depois de suas derradeiras palaYras para Édipo, "Nunca jamais saibas quem és!", ela se retira para o palácio sem esperar a chegada do pastor e ali mesmo se enforca. Não poderia essa frase servir de epígrafe para o olhar de ameaça da esfln- ge dirigido para o espectador no quadro de Ingres? Além disso, a mesma expres-
são - "com as próprias mãos" - é utilizada pelo pastor para mencionar que fora
não mais olharei à esquerda ou à
-r,:ntc
au humano. Ela identiflca a ,·erdade sobre a origem de Édipo, sua dualidade
diante
repele a possibilidade de prosseguir na
16 Dito no qual se percebe uma inYcrsão cuja significação é a de censurar a verdade: Edipo cem traço; de Laia!
17 Conforme nos explica Mario da Gama Kury, trata-se da observação da direção do YÔO dos pássaros, indicadora de bons ou maus presságios. Cf. A trilogia tcbana. Op. cit., p. 98.
82
Clínica e pesquisa cm psicanálise
ela, Jocasta, quem lhe entregara a criança pequena, e pelo criado para dizer que
ela se suicidara: "com
O nome de Édipo é paradigmático de sua própria condição, pois o enigma que lhe propõe a Esfinge está contido nele próprio. 18 Oidipous significa, em grego, "pés inchados", oidospoús, isto é, a marca indelével que ficou cm seus tornozelos amarra- dos quando, pequenino, foi levado ao sacrifício. Lembrando, com Lacan, que a homofonia - isto é, o máximo de equívoco e de pluralidade de sentido - é o que ''fayorece a passagem do inconsciente ao discurso" 29 , veremos que Oidípous designa, igualmente, aquele que sabe, 01aa, o enigma dos pés. Vernant ressalta que oida, "cu sei", é "uma das palavras dominantes na boca de Édipo triunfante, Édipo tirano". 30 Assim, ao longo de toda a tragédia, são várias as referências aos pés de Édipo 11 , e, mais essencialmente, é preciso YCr no que lhe é lançado pela Esfinge o enigma que diz respeito não só a ele mesmo, como também ao homem cm geral. A esfinge lhe interrogou: qual é o ser que é ao mesmo tempo dípous, trípous, tctrápous? A decifração de Édipo, Oid1'pous, dizendo respeito ao enigma inscrito cm seu nome próprio, também diz respeito ao próprio enigma do homem. Fica a questão: não é surpre- endente que tal enigma encontre meios de se expressar falando da postura ereta do ser humano por meio da condensação, no nome próprio de Édipo, do enigma da bipedia, de Oi-dípous? 32 Ao responder que é o homem o ser dípous, trípous, tctrápous, Édipo só faz relançar o enigma: afinal, o que é o homem?
as próprias mãos ela deu fim à existência".
1 • Cf. AZEVEDO, A. V.
de. "Entre Túche e Autómaton: o próprio nome de Édipo", Percurso:
Rcrist.idepsicaná/isc, XII, 23, 1999, p. 53-62.
29 LACAN, J. "Conférences et entreticns dans des universités norcl-américaincs", Scilicct, 6/7, Paris: Scuil, 1976, p. 36.
enigmática de' Édipo Rei"'.
ic'VERN ANT, J. -P., "Ambigüidade e reviravolta. Sobre a estrutura Op. cit., p. 116.
31 Ibid., p.
M .A. C. Fundamentos da psicaná-
J! Consultar a esse respeito
nossos desenvolvimentos cm JORGE,
117.
lisr de Freud a Lacan -- rol.!: as bases conceituais. Op. cit.
Édipo: o homem antitético
83
Culpa e angústia:
algumas notas sobre a obra de Freud 1
Doris Rinaldi
A noção de culpa tem grande importância na obra freudiana. Desde as cartas a
Fliess, quando menciona o remorso que sentiu após a morte do irmão poucos meses depois de nascido (1897), e os estudos sobre a neurose obsessiva, com a análise do Homem dos Ratos (1909), a "O mal-estar na cúltura", Freud retoma a idéia de uma onipresença da culpa, que se manifesta de múltiplas formas e que, fundamentalmente, não pode ser expiada. Nesse último texto, Freud considera o sentimento de culpa o mais importante problema do desenvolvimento da civiliza- ção. Ao demonstrar as diversas etapas de sua constituição, traça sua genealogia, que parte da angústia social e se dirige rumo àhipótese de um sentimento incons- ciente de culpa. Além disso, propõe uma articulação entre culpa e angústia: "o sentimento de culpa nada mais é do que uma nricdade topográfica da angústia" 2 . É essa relação que procuramos explorar neste trabalho, no sentido de compreen- der, cm termos da estrutura do desejo, o que está cm jogo na culpa. Se, inicialmente, os sintomas neuróticos despertaram a atenção de Freud para
a questão da culpa, foi a desproporção que observou entre a culpa e as ações
cometidas, como nos casos de "criminosos em conseqüência do sentimento de culpa", que o levou a buscar fora dos limites estritos de seu campo, nas origens da
humanidade e da cultura, as origens de uma culpa que supõe universal. Em "Re- flexões para os tempos de guerra e morte", por exemplo, ele se refere ao "obscu- ro sentimento de culpa a que a humanidade tem estado sujeita desde os tempos pré-históricos e que em algumas religiões foi condensado na doutrina da culpa
1 A primeira Ycrsão deste trabalho, foi apresentado no 2º Congresso Internacional do Colégio de Psicanálise da Bahia, Salvador, 4, 5, 6 e 7 de novembro de 1999. A atual versão sofreu pequenas modificações, tendo se beneficiado da discussão com os colegas do Mestrado cm Pesquisa e Clínica cm Psicanalisc do Instituto de Psicologia da UERJ.
1 FREUD, S. "O mal-estar na cultura" (1930). Em: Obras completas, vol. XXI. Rio de Janeiro:
Imago, 1976, p. 159.
85
primai, ou pecado original" 3 , reconhecendo algo extremamente importante e que
não pode ser desprezado.
Em "Totem e tabu", ele abordara a questão atraYés de um mito, cm que o advento da cultura é fruto de uma violência primordial. Nosso pecado original é
um crime, o parricídio - "ato memorável que foi o começo de tantas coisas: da
organização social, das restrições morais e da religião,,.-, no qual a culpa encon-
tra sua origem no retorno do amor sob a forma de remorso. Assim, o amor está na
origem da consciência moral, acompanhado da fatal ineútabilidadc do sentimen-
to de culpa. Para Freud, isso se deve à ambivalência emocional cm relação ao pai,
|
cm |
que coexistem duas correntes: a corrente agressiva, que se manifesta através |
|
do |
parricídio, e a corrente afetuosa, que surge com o remorso. Amor e ódio con- |
jugados na fundação do laço social ou, como indicaria mais tarde, a sociedade
perpassada pelo conflito pulsional cm que se defrontam pulsões de vida e pulsões
de morte.
No campo da clínica comum, ao identificar a força do sentimento de culpa nas contradições e inibições da neurose obsessiva, na autodeprcciação melancólica, na
resistência terapêutica negativa, no recurso à conduta criminosa pela necessidade de punição, ele reafirma que tudo tem sua origem na relação ambivalcntc com o pai.
No complexo de Édipo, condensam-se os dois grandes crimes humanos - o parricídio
e o incesto - fonte desse "obscuro sentimento de culpa" da humanidade, cm que a ontogêncsc repete a filogênese. Para Freud, portanto, há uma herança da culpa. Ao nos debruçarmos sobre esses e outros textos freudianos que abordam o tema, chama a atenção o fato de ele diversas vezes qualificar o sentimento de culpa como "obscuro", adjetivo que acompanha seu caráter primário e que, poste- riormente, seria definido como "inconsciente". Se o sentimento de culpa encon-
tra sua forma mais elevada a partir da delimitação da noção de supcrcu como
instância crítica, na tensão entre cu e supcreu, Freud deixa claro que ele é anteri-
or ao supercu, anterior à consciência moral. Parece haver aí algo de primitivo e
inconquistável, enigmático, que surpreende Freud na clínica e o leva a buscar na forma mítica, seja em "Totem e tabu", seja no "Édipo", um modo de explicá-lo.
O mito vem cm lugar daquilo que não pode ser dito.
3 FREUD, S. "Reflexões para os tempos de guerra e morte" (1915). Em: Obras completas, vol. XIV. Op. cit., p. 168.
4 FREUD, S. "Totem e tabu" (1913). Em: Obras completas, vol. XIII. Op. cit., p. 168.
86
Clínica e pesquisa em psicanálise
Uma Yia frutífera para pensar o caráter enigmático do sentimento de culpa são as aproximações que Freud faz entre culpa e angústia. Em alguns momentos, ele chega a identificar os dois termos, referindo-se ao sentimento de culpa como "angústia diante do supereu". Na genealogia da culpa que traça em "O mal-estar na cultura", define uma primitiva forma de culpa, caracterizada pelo medo de perder o amor dos pais, como angústia social5. Após o Édipo, quando é internalizada pela formação do supereu, a autoridade se transforma em consciência ou sentimento de culpa, que surge como uma "permanente infelicidade interna" 6 • Ambos são resultado de uma renúncia pulsional, a mais primitiva cm conseqüência do medo da agressão exter- na, e a posterior cm virtude do medo da autoridade interna representada pelo
supereu. Essa renúncia diz respeito à pulsão agrcssiYa, forma pela qual nesse texto Freud aborda a pulsão de morte. É a agressão face ao objeto externo que é assu- mida pelo supcrcu cm sua relação com o cu, cm que se acentua o fato de que a obediência ao supcrcu não elimina a "permanente infelicidade interna". Ao con- trário, são as pessoas mais Yirtuosas que mais se censuram de pecaminosidade. Há, portanto, um paradoxo, uma yez que a renúncia às pulsões agressivas não alivia o sentimento de culpa; ao contrário, ela o acentua. Para o nosso propósito, contudo, não se trata apenas de ver na angústia social uma forma primária de culpa, depois transformada cm sentimento de culpa, mas sim de analisar cm que medida algo da própria natureza da angústia está presente no sentimento de culpa, mesmo que em sua forma mais elaborada, denunciada por essa "infelicidade interna". :\ a verdade, desde "Totem e tabu" Freud apontava a relação entre culpa e angústia: a sensação de culpa tem cm si muito da natureza da angústia e essa última aponta para fatores inconscientes. "O caráter de angústia que é incrente à sensação de culpa corresponde ao fator dcsconhecido" 7 • No texto de 1930, ele observa que "o remorso contém, de forma um pouco alterada, o material sensorial da angústia que opera por trás do sentimento de culpa" 8 • As- sim, por um lado, a angústia corresponde ao fator desconhecido e, por outro, sua matéria opera por trás do sentimento de culpa. É nesse momento ainda que Freud
5 FREUD, S. "O mal-estar na cultura". Op. cit., p. 147-8. • Ibid., p. 151. ; FREUD, S. "Totem e tabu". Op. cit., p. 91. 8 FREUD, S. "O mal-estar na cultura". Op. cit., p. 159.
Culpa e angústia: algumas notas sobre a obra de Freud
87
afirma ser o sentimento de culpa uma ,·ariedadc topográfica da angústia, afirma- ção que consideramos importante para a análise da culpa e de sua implicação no campo do desejo. Ao examinarmos o conceito de angústia, Ycmos que Freud trabalha com duas concepções: a primeira delas diz respeito àangústia como algo decorrente da trans- formação direta da libido, como falta de representação, excesso quantitativo (teoria econômica); na segunda, apresentada cm"Inibições, sintomas e angústia", a angústia surge ligada a uma representação como sinal de perigo (teoria histórica) 9 . Sem ne- gar a primeira concepção, Freud a reelabora no âmbito da segunda tópica, na qual privilegia o cu como lugar da angústia. Ele passa a conceber a angústia como a marca histórica do traumatismo, e a vincula, secundariamente, àperda de objeto. Mantém, entretanto, duas modalidades: angústia automática e angústia sinal, sendo a passa- gem da primeira para a segunda o caminho que vai da pura alteração econômica para
a situação, já simbolizada, de perda objetal. Em que isso nos interessa para a compreensão do sentimento de culpa? De início,
é importante considerar que, para Freud, a origem do sentimento de culpa reside no
desamparo primordial (Hilflosigkeit), em que localiza a angústia primária relacionada ao trauma originário, como puro excesso econômico. O trauma do nascimento é o pro- tótipo dessa formulação: primeiro momento avassalador e excessivo, de radical de-
samparo.
Para ele, o "desamparo primordial é a fonte de todos os motivos morais" 1 º,
uma vez que a descarga pulsional está na dependência do outro e se desenvolverá rumo ao medo da perda do amor. Nesse sentido, pode-se reconhecer no excesso eco- nômico o que é apontado como fátor desconhecido, algo da natureza da angústia que opera por trás do sentimento de culpa e que busca encontrar uma \'ia de descarga, levando-nos
à aproximação entre angústia e sentimento de culpa em termos econômicos. É nessa direção também que podemos conceber a agressividade a que Freud se refere em "O mal-estar na cultura", algo além do princípio do prazer que insis- te cm perturbar todas as tentativas dos homens de conviverem e que, ao ser recalcado, retorna sobre o sujeito sob a forma de sentimento de culpa. Se a cultu- ra é obra de Eros, ela só alcança seu objetivo por meio de um crescente fortaleci-
9 É importante lembrar que da primeira à segunda teoria da angústia Freud alterou a relação entre angústia e recalque: se antes concebia a angústia como conseqüência do recalque, cm 1926, inverte esta relação, considerando-a anterior ao recalque. Cf. FREUD, S. "Inibições, sintomas e ansiedade" (1926). Em: Ohras completas, vol. XX. Op. cit.
'º FREUD, S. "Projeto para uma psicologia científica". Em: Obras completas, vai. I. Op. cit., p. 422.
88
Clínica e pesquisa em psicanálise
mento do sentimento de culpa, diz ele. Há um preço a pagar por sua construção:
paga-se com a perda de felicidade pela intensificação do sentimento de culpa. Em uma passagem desse trabalho, contudo, Freud reconhece que essa "per- manente infelicidadc interna" não resulta apenas da pressão da cultura sobre o homem, isto é, de algo externo que impõe uma renúncia pulsional; ela está ligada a algo da própria constituição psíquica que não pode ser conquistado, algo da natureza da própria pulsão sexual que nega a satisfação completa e leva a outros caminhos. O programa do princípio do prazer de nos fazer felizes necessariamen- te fracassa 11 • Essa insatisfação, o mal-estar próprio ao desejo, ele identifica com o sentimento de culpa produzido pela cultura, que permanece cm grande parte inconsciente. Portanto, o sentimento de culpa denuncia o mal-estar do sujeito humano como sujeito do desejo subsumido à ordem da cultura, entendida como ordem simbólica que funda a nossa "humanidade". Por isso, ele é feito da mesma matéria que a angústia. É a oposição interno/ externo, sujeito/ cultura, que se esfacela aqui. Desde o "Projeto", ao formular a noção de "complexo do próximo" para pen- sar a satisfação pulsional, Freud já indica essa torção fundamental cm que interno e externo se encontram, uma vez que a fundação da subjetividade pressupõe a alteridadc. Nos termos de Freud, é o desamparo primordial do homem que im- põe os caminhos do desejo nessa relação ao outro - próximo/semelhante-, cm que surge algo de enigmático, estranho e mesmo hostil, não assimilável pelo prin- cípio do prazer, que está mais além desse e que, paradoxalmente, comanda o desejo do sujeito. Se é no próximo que o homem busca sua via de satisfação, é aí mesmo que não encontra o que busca. Ele apenas reencontra seus rastros, o que o faz retornar. É essa altcridadc mais radical que a presença do próximo rc-vcla - das Ding, ou a Coisa freudiana - que pode ser associada ao enigma do desejo do Outro, que nos causa e nos faz buscar em outro semelhante, pela via do narcisismo, o caminho da nossa satisfação. É aí mesmo, contudo, que reencontramos o que o próximo tem de enigmático. Disso resulta a ambivalência que marca a relação do homem a seu
11 Nesse momento, Freud utiliza a noção de felicidade em um sentido restrito, vinculando-a à satisfação pulsional. Diz ele: "O que chamamos felicidade no sentido mais restrito provém da satisfação (de preferência repentina) de necessidades represadas em alto grau, sendo, por sua natureza, possível apenas como uma manifestação episódica". Cf. FREUD, S. "O mal- ·
estar na cultura". Op. cit., p.
95.
Culpa e angústia: algumas notas sobre a obra de Freud
89
próximo, onde se articulam a identidade e a separação, o amor e a morte
sentido, o laço social e a regulação moral articulam-se à constituição subjctiYa, alimentados por esse enigma que diz respeito àfalta de objeto. Na busca do objeto do desejo, o sujeito reencontra esse outro que 'pode servir', mas que sempre o reenvia a esse Outro enigmático (das Ding) 12 • Podemos articular o excesso pulsional que Freud idcnti±ka na angústia primi- tiva ligada ao desamparo, derivada do trauma originário, a este enigma -- a Coisa freudiana - causa de desejo, presente também na angústia de morte entre cu e supercu, onde o sentimento de culpa surge cm sua forma mais elevada. Pode-se dizer que a angústia de morte é a angústia de castração, esse Jàtordcsconhccidoquc jaz por trás do sentimento de culpa. Como diz Kaufmann, "é como se a instalação de instâncias intrapsíquicas não fizesse senão retomar, num nível mais elevado, a situ- ação do nascimento e a marca da hereditariedade filogcnética que ela implica" 13 . É nessa direção que podemos compreender a afirmação de Freud de que o sentimento de culpa é uma variedade topográfica da angústia. É da mesma coisa que se trata, porém situada cm camadas diferentes do aparelho psíquico, forma- das a partir do processo de recalcamento. Dito de outro modo, cm lugares dife- rentes do aparelho psíquico, pois enquanto a angústia, ainda que se manifeste no eu, diz respeito ao sujeito, o sentimento de culpa se localiza no cu. Se é possível falar cm herança filogcnética da culpa, como quer Freud, é no sentido de que o homem está marcado desde o seu nascimento por essa falta que o introduz na ordem simbólica. Vivida como perda e dívida, tanto no sentimento de culpa quan- to na angústia, essa falta diz respeito fundamentalmente ao desejo. Nesse ponto, acreditamos ser valiosa a contribuição de Lacan a respeito da exis- tência de uma relação essencial entre angústia e desejo do Outro. Em "O Seminário, livro 10: a angústia" 1 +, ele questiona a noção de angústia primitiva ligada ao desam- paro primordial e indica que, ao contrário, trata-se mais de amparo do que de de- samparo, onde se faz enigmático algo que diz respeito ao desejo do Outro. Pode-se dizer, como o faz Rabinovich, que o desejo do Outro é o nome que Lacan dá ao
Nesse
12 A idéia de "Outro enigmático" associada a das Ding provém das formulações que Lacan apre-
senta cm O Seminário, lil'ro 7: a ética da psicanálise (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988): "Falei- lhes hoje do Outro como Ding" (p. 73). Para o desenvolvimento dessa idéia ver RINALDI, D.
Editor, 1996.
A ética da diferença: um debate entre psicanálise e antropologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
13 KAUFMANN, P. Dicionário Enciclopédico de Psicanálise: o legado de Freud e Lacan. Rio de Janeiro: Jorge
90
Zahar Editor, 1996, p. 42.
14 LACAN,]. "O Scminario, livro 1O: a
angústia" ( 1962-3). Inédito.
Clinica e pesquisa em psicanálise
excesso cconômico 1 5, cm que o Unhcimlich representa o fenômeno da angústia
relação do sujeito ao Outro é traumática porque é marcada por esse enigma, frente ao qual surge a angústia mas também o desejo. O desejo do Outro não me reconhece, nem me desconhece, mas me põe em causa, justamente no ponto de enigma que está na raiz do meu desejo. Por isso, para Lacan, a angústia não é sem objeto, uma vez que põe cm jogo o real recortado pelo significante, sob a forma do objeto a, Única coisa comum entre o sujeito e o Outro. Nesse sentido, ela não é interna ao sujeito, mas antes sinal da operação de advento do sujeito no lugar do Outro (simbólico), em que algo se perde, tornando evidente a divisão constitutiva do sujeito que o funda como desejante. Éo que Freud indica em "Totem e tabu" ao mostrar que a ordem da cultura se funda a partir de uma perda. Assim, a matéria própria à angústia é o real, cm que podemos reconhecer o que está em jogo no trauma freudiano e na angústia de castração e de morte. É diante dele que surge a angústia, como o modo mais radical de manutenção da relação com o desejo. O real, portanto, é a matéria que opera por trás do sentimento de rnlpa, o làtor desconhecido que lhe dá um caráter obscuro e enigmático, situando-o no campo do desejo corno manifestação do mal-estar que lhe é constitutivo. A moral, como diz Lacan, traz o peso do real em sua cx-sistência, na tentativa de recobri-lo, simbólica e imaginariamente, ou de domesticá-lo. Se o supereu assume essa função, ele, em contrapartida, incita ao gozo, e é justamente esse excesso econômico, contabilizado do real como gozo, que reverte sobre o sujeito sob a forma de sentimento de culpa. Se esse é fruto do amor, como tentativa de suprimir a falta pelo medo da perda, por vias transversas mantém viva a relação radical com o desejo presente na angústia, como se observa na reação terapêutica negativa cm que se revela a relação de fundamental inadequação que marca o sujeito humano cm face de seu desejo. Tanto Freud como Lacan enfatizaram que a sustentação do desejo tem um preço. Há um preço a pagar e esse diz respeito ao gozo, o que Freud indica, por exemplo, em "Totem e tabu" ao mostrar que a morte do pai não libera o gozo, mas antes reforça sua interdição. Como lei fundante, essa interdição constitui o sujeito como desejante, determinando a parcialidade do gozo. Todo exercício de gozo
\
,; Ao se referir aangústia primordial que, para Freud, rompe todas as defesas, Rabinovich indica: "Qual é então, para Lacan, a invasão de estímulos que descreve Freud, essa invasão que supera a barreira protetora? O desejo do Outro é o nome que o excesso econômico recebe cm Lacan". Cf. RABINOVICH, D. La angustia ycldcscodcl Outro. BuenosAircs: Manantial,
1993, p. 103.
Culpa e angústia: algumas notas sobre a obra de Freud
91
engendra uma dívida simbólica, uma vez que se baseia cm uma transgressão efeti- vada sob a forma da Lei do desejo. Enquanto na angústia o sujeito se precipita, uma vez que aborda cedo demais a híância do desejo ao gozo, no sentimento de culpa isto retorna tarde demais sob a forma de necessidade de punição. Levando às últimas conseqüências a aproximação que Freud faz entre culpa e angústia, podemos dizer que o desejo é o remédio tanto para a angústia, quanto para o sentimento de culpa. Por isso, concordamos com Lacan: cm última instân- cia, ter aberto mão de nosso desejo é a Única coisa de que podemos rcahnentc nos sentir culpados.
Do reconhecimento do desejo a sua 1nterpretaçao
'
.
-
Kátia Wainstock AlYes dos Santos
Este trabalho pretende indicar um percurso que se refere a diferentes momentos da elaboração da noção de desejo construída por Lacan, para discutir as conseqüências que essas elaborações impõem à intc:ncnção do analista e às concepções de direção do tratamento e flm de analise. Es,c percurso, que \·ai do desejo como fundamental- mente desejo de reconhecimcnL1 ao desejo como metonímia da falta-a-ser, passan- do pelo desejo como significado e. nc:sse sentido, desejo que só é captado pela inter- pretação, desdobra-se cm implicações clínicas e revela a peculiar articulação exis- tente entre teoria e clínica psicanahticas. A partir dessa articulação, é nosso objetivo cernir o trabalho do psicanalista no que diz respeito ao saber psicanalítico, uma vez que sua escuta é orientada pdn nl\ L·l de elaboração da teoria que enfrentou através não só de sua análise, como tambcm ele sua formação.
Freud e o desejo
Como se apresenta a noção de de~ejo no ensino de Freud? Em primeiro lugar, o desejo é definido como um impulso psíquico que procura reinvestir o traço da percepção (única marca de uma experiência de satisfação) e evocar a própria per- cepção, a fim de restabelecer uma situação de satisfação. Nos seres humanos, a apreensão possível do objeto sempre se refere ao que diz respeito ao traço e a uma fruição. Essa nos parece ser outra forma de dizer que o objeto do desejo sempre é um objeto perdido, pois do objeto há apenas sua representação. Em segundo lugar, só o desejo pode pôr o aparelho mental em ação; ele é a única força motivadora da formação dos sonhos e dos sintomas neuróticos. O in- consciente não conhece ohjetírns que não visem a satisfação de desejos e não possui a seu comando senão o desejo. No inconsciente, portanto, trata-se de desejo.
93
Há ainda uma terceira tese: o desejo é indcstrutível 1 , tese com a qual Freud conclui sua obra inaugural sobre o desejo, "A interpretação dos sonhos". A expe- riência analítica se orienta para o acesso ao inconsciente por meio da associação livre, sendo a função do analista decifrar, através da interpretação, esse desejo. Posteriormente, cm sua segunda tópica, Freud modificaria a tese de que basta uma interpretação para que o sintoma desapareça, pois sempre há algo que resis- te, tornando-se isso a parte mais importante de uma análise.
O desejo como cerne da mediação analítica
Vejamos agora como Lacan repensa a noção de desejo. Desde o início de seu
ensino, ele critica a relação dual (ego a ego) e a análise das resistências que não
leva cm consideração o inconsciente. Ele opõe à relação duai pós-freudiana a es-
trutura quaternária, constituída pelo acréscimo da relação narcísica à funç:ão sim- bólica do Édipo.
Nesse período de retorno a Freud, o desejo é uma dimensão da experiência subjetiva e, como tal, sua origem integra a constituição do sujeito. As idéias de
que o desejo <lo homem é desejo de fazer reconhecer seu desejo e de que esse se
constitui sob o signo da mediação já tinham sido propostas pela dialética do se- nhor e do escravo de Hegel cm Fenomenologia do Espirita~. O desejo do homem é o desejo do Outro, afirmação que Lacan deduz do texto hegeliano e desdobra de várias maneiras.
Inicialmente, distingue uma vertente imaginária de outra simbólica, perma- necendo o desejo de reconhecimento como referencial para tudo o que se define como desejo. Nesse contexto, o primeiro ponto a ser trabalhado é a alienação, já presente
cm Freud, uma ,·cz que a experiência de satisfação implica uma altcridadc, um
auxílio externo que dc,·c se fazer presente mediante um apelo. Esse apelo, por sua vez, adquire a função secundária de comunicação, permanecendo o desamparo
inicial "a fonte
primordial de todos os motivos morais" 3 .
' í-REUD, S. "A interpretação dos sonhos". Em: Obras completas, YO!s. 4 e 5. Rio de Janeiro:
Imago, 1976.
'HEGEL, G., apud Lacan, J. O Seminário, /irra!: os escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, l 979, p. 205.
i FREUD, S. "Projeto para uma psicologia científica". Em: Obr.1smmplct.1s, vol. I. Op. cit., p. 422.
94
Clínica e _pcsc1uisa em psicanálise
Em sua \'Crtcntc imaginária, a alienação é desenvolvida por Lacan a partir do narcisismo. É no outro que o sujeito inicialmente se apreende como cu. Além
disso, a relação narcísica mantém os objetos do desejo sob o signo da alienação, uma Yez que, para o sujeito, o primeiro arroubo de desejo passa pela mediação de uma forma que ele inicialmente vê projetada, exterior a ele: sua imagem. 4 Assim, nesse momento do ensino de Lacan, a imagem do corpo próprio, que é esse pri- meiro objeto do desejo, não só articula desejo e narcisismo, como tamhém impli- ca o fato de que o narcisismo seja a matriz dos objetos do desejo. "Todas as formas do desejo são emelopadas pelo narcisismo" 1 e o primeiro objeto do desejo é ser reconhecido pelo outro. Dito de outro modo, há desejos no plural, porém todos plasmados sobre o desejo de reconhecimento. Ou ainda: todo desejo é sempre desejo de reconhecimento. Em sua Ycrtente simbólica. a alienação conta com a mediação da linguagem, posto que o desejo se articula a partir do Outro e é dessa forma que o desejo humano entra na relação simbo~ica elo cu e do tu, "numa relação de reconheci- mento recíproco e de transcendência na ordem de uma lei já inteiramente pronta
para incluir a história
A mediação é o segundo ponto a ser desenvolvido. Como afirmamos, a aliena- ção é necessária tanto para a constituição subjetiva como para a constituição do desejo; na vertente imaginá.ria elo desejo, a imagem especular medeia a relação dialética de alienação, função assumida pela linguagem na vertente simbólica do desejo. Portanto, a alteridadc diante da qual o desejo se constitui se desdobra tanto no outro especular, semelhante ao eu, quanto no Outro da ordem simbóli- ca, da linguagem, que estrutura o inconsciente e o desejo. Lembremos que, nesse momento do ensino de Lacan, o Outro da linguagem é regido pelas leis da fala. Enquanto ele se detém nas lei~ ela fala · ·· é possÍ\'cl delimitar esse período de "Função e campo da fala e da linguagem cm psicanálise" (1953) a "A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud" (1957) ·-, desejo é desejo de reco- nhecimento. Por fim, essa concepção a respeito ela mediação também está presente na experiência analítica. Para Lacan, é o desejo que faz mediação na experiência analítica. A questão do desejo dc\'e estar representada, deYe ser repetida no trata-
de cada indi\'íduo" 6 .
4 Cf. a "tópica do imaginário", cm O Seminário, lfrro l. Op. cit., p. 205.
; LACAN, J. "A Coisa freudiana". Em: facritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.
6 LACAN, J. O Seminário, lirro /: os escritos térnicosdc Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1979, p. 206.
Do rcconhcc:imcnto do desejo
à sua interpretação
95
mento. Ora, como nesse momento desejo é desejo de reconhecimento, a estrutu-
ra dialética da transferência é concebida por Lacan a partir do reconhecimento do
desejo.
Passemos agora à analise das implicações clínicas que essas elaborações im-
põem. De início, destaquemos os desdobramentos da experiência clínica desen-
volvidos cm O Seminário, lirro I. No interior da experiência analítica, trata-se inicial-
mente de desfazer as amarras da palavra:
A palavra é essa dimensão por onde o desejo do sujeito é autenticamente inte-
grado no plano simbólico. É somente quando ele se formula, se nomeia diante do outro, que o desejo, seja ele qual for, é reconhecido no sentido pleno do
termo. Não se trata da satisfação do desejo, nem de não sei que primar_r /ore, mas,
exatamente, do reconhecimento
do desejo. 7
Lacan demonstra que o terreno no qual a análise se desenvolve é o terreno
imaginário. Diz ele:
A primeira fase da análise é feita da passagem de a para a' - daquilo que, do eu, é
desconhecido para o sujeito a essa imagem em que reconhece os seus im·esti- mentos imaginários. Cada vez, essa imagem que se projeta desperta para o sujei- to o sentimento da exaltação sem freio, do controle de todas as saídas, que está na origem da experiência do espelho. Mas aqui, pode nomeá-la, porque desde então aprendeu a falar. Senão, não estaria em análise. 8
A função do analista é interpretar, nomeando o desejo somente nos momen-
tos, fecundos, de surgimento da angústia, nos quais ele emerge no lugar cm que
essa imagem tinha sido descompletada, ao mesmo tempo presente e inexprimível,
ou seja, único ponto cm que sua palavra se junta ao monólogo do paciente. No
final da análise, o passo a ser dado é simbólico. Ele pertence ao registro da "palavra
derradeira", da palavra conciliadora cm que há um acordo entre analista e analisante.
Vejamos como Lacan explicita essa idéia:
Uma vez realizado o número de Yoltas necessárias para que os objetos do sujeito apareçam, e sua história imaginária seja completada, uma vez que os desejos succssh·os, tensionários, suspensos, angustiantes do sujeito estejam nomeados e reintegrados, nem por isso tudo está acabado. O que esteve inicialmente lá, cm a,
|
7 lbid.' |
p. |
21 2. |
|
8 Ibid., |
p. |
21 5. |
96
Clínica e pesquisa em psicanálise
depois aqui cm a', depois de novo cm a, deve ir se reportar no sistema comple- tado dos símbolos. A saída mesma da análise o cxigc. 9
Desse modo, podemos dizer que a teoria do reconhecimento do desejo e do dese- jo de reconhecimento depende da concepção de um sujeito que, sendo reconhecido, experimenta uma satisfação, encontra uma"identidade". Nesse trecho citado, torna-se dara a possibilidade de o sujeito reintegrar seu desejo. O sujeito receberia de uma palavra a absohição que o devolveria ao seu desejo. No frm da análise, o sujeito pode bem dizer o seu desejo, ou seja, ele tem de reconhecer e fazer reconhecer os seus desejos para que, dessa forma, eles possam se li,nr dos efeitos do recalque. De todo modo, a concepção do desejo de reconhecimento engendra para Lacan a dificuldade de tratar, como Freud, o desejo como algo indestrutível. Além disso, diflculta a sustentação da dissimetria presente no dispositivo analítico uma vez que o desejo de reconhecimento sempre é recíproco. Em outras palavras, sua fidelidade ao dispositivo analítico o levaria a revisar a teoria. A passagem das leis da fala para as leis da linguagem marcada pelo escrito "A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud" opera uma modifica- ção na concepção sobre o desejo. O sujeito perde para sempre a possibilidade de uma "identidade" engendrada através da cadeia significante, pois Lacan substitui o sujeito da fala pelo sujeito da linguagem, da cadeia significante, isto é, surge o sujeito barrado. A palavra é impotente para dizer tudo. Não há significante sem resto e cada vez mais cm seu ensino Lacan se dirige rumo às conseqüências do fato de que a prática analítica gira em torno de um resto. Em "A direção do tratamento e os princípios de seu poder", por exemplo, Lacan já não consegue mais juntar reconhecimento e desejo. Como ele mostra:
[ ] isso nos leva à pergunta deixada cm suspenso mais acima: a quem o sonho
desvenda seu sentido antes que chegue o analista? Esse sentido preexiste à leitu- ra dele e à ciência de sua decifração. Ambos demonstram que o sonho é feito para o reconhecimento mas nossa voz fraqueja cm concluir: do desejo. Pois o desejo, se Freud diz a ,·erdade sobre o inconsciente e se a análise é necessária, só é captado pela interpretação. w
Os termos desejo e interpretação - desejo é interpretação - tomam o lugar de desejo e reconhecimento. A concepção de o desejo ser o cerne da mediação
• Ibid, p. 230. 1 ºLACAN, J. "A direção do tratamento eos prinópios de seu poder". Em: Escritos. Op. cit., p. 629.
Do reconhecimento do desejo
à sua interpretação
97
analítica é retomada cm O Seminário, /irra j; as formações do inconscicntc, contcmporàneo
ao escrito anteríormcnte citado. Ela, contudo, só será plenamente descnYolvida anos mais tarde com a noção de desejo do analista, que responderá como a mediação que leva o sujeito ao seu desejo. Nesse momento, o desejo é considerado como "demanda significada", o que implica sua passagem pelos desfiladeiros da deman- da e sua realização como significado. Vale dizer, o desejo de reconhecimento dá lugar ao desejo metonímico, sendo o falo o significante fundamental pelo qual o
desejo do sujeito tem de se fazer reconhecer.
A teoria e a clínica da psicanálise
Em psicanálise, teoria e clínica são termos que podem se juntar, assim como aYesso e direito na superfície topológica chamada banda de Moebius. Os conceitos funda- mentais que norteiam a psicanálise são obra da genialidade de Freud, porém foram decantados por ele na experiência clínica; eles dcYem ser ratificados pela clínica e só dessa forma podem permanecer no lugar de fundamentos teóricos. Sendo assim, a experiência clínica permanece como lugar de reencontro com o momento inaugu- ral da psicanálise já que é nela, ou seja, na particularidade de cada situação, que cada analista verifica a universalidade dos conceitos psicanalíticos. A clínica, portanto, não é lugar da aplicação de um saber teórico, mas sim da produção do saber psicanalítico. A prática clínica é estruturada de forma a incluir a irredutibilidade do real, que não pode ser totalmente recoberto pelo simbólico ou pelo imaginário, tanto para o analista quanto para o analisante. O real convoca o analista a tirar conclusões dos eventos clínicos através da produção de saber, buscando inclusive arnnçar as questões que foram deixadas por Freud e por Lacan como impasses. Além disso, como nos diz Lacan em sua"Proposição sobre o psica- nalista da escola", o real está na base de fundação das sociedades e escolas de psicanálise, levando o analista a estar entre pares para, num outro dispositiYo, procurar trabalhar sobre esses impasses. Por sua vez, o analisante encontra esse real na transferência. Todavia, pelas configurações de amor e ódio, o real prornca seu próprio desconhecimento e produz inclusive sua negação sistemática, o que dá a medida da transferência como mola e palco de dificuldades. A exigência de o saber do analista permanecer cm suspenso é outra conseqüência de a clínica estar situada no lugar de produção de saber. Essa exigência revela a estrutura própria à experiência e é condição para a atenção flutuante, a recomendação feita por Freud de que o analista acompanhe a associação livre do paciente pelo deslizamento da cadeia, sem se prender ao
98
Clínica e pesquisa em psicanálise
sentido ou significado do que está sendo dito porém atento ao encadeamento associati,·o. Como indicamos, contudo, a escuta analítica é orientada pelo nível de elaboração da teoria que cada analista enfrentou em sua análise pessoal (psicanáli- se cm intensão) e em sua formação (psicanálise em extensão). 11 No que diz res- peito ao saber psicanalítico, o trabalho do psicanalista é o trabalho do inconscien- te: Durcharbcitung; como analista, entre pares, se está cm formação, mas otrabalho é aquele do inconsciente, nos Cartéis e Seminários, quando se pode cernir o não saber, para fazer dele "a moldura do saber" 12 •
' 1 Essas duas dimensões da psicanálise, que se encontram formuladas por Lacan cm sua "Pro- posição sobre o psicanalista da escola", repetem a relação de junção que existe entre teoria e a clínica, já que a autoria do analista no trabalho de elaboração dos significantes da psica- nálise e sua autorização se encontram cm um ponto de junção. Cf. LACAN, J. "Proposição sobre o psicanalista da escola", OpçãoLacaniana, n. 16, São Paulo, 1998.
12 Ibid., p. 34.
Do reconhecimento do desejo à sua interpretação
99
Estrutura e fenômeno:
uma distinção fundamental
Lenita Bentcs
A preocupação cm distinguir fenômeno e estrutura presente neste trabalho de- corre da afirmação de que tanto as toxicomanias quanto o alcoolismo, na condi- ção de fenômenos, são no\'as formas ele gozar. Essas formas podem ser estudadas como uma tentativa ele colctiYização ele um gozo que Ycla radicalmente a estrutu- ra, a qual necessariamente comporta o sintoma e se caracteriza, entre outras coi- sas, por uma duração no tempo. Como indica Jacqucs-Alain Miller, "esse é um
assunto que dura" 1 •
A partir <le Lacan, a idéia de duração, de tempo, ganha um tratamento particu-
lar. Ela não concerne à cronoiogia, mas antes à sincronia e à diacronia. É dessa forma ou, ao menos, é essa uma das formas cm que se pode pensar as relações existentes entre duração e estrutura, tanto no que diz respeito à simultaneidade e à
indiscriminação, quanto à succssi\idadc. Por exemplo, c1uando se fala, tem-se à dispo- sição inúmeros elementos; no cronus, isso pode ser apreendido simultaneamente. No falar, contudo, há w11a seleção, algo que se desenrola cm wna sucessividade designada por Freud de associação linc e que permite não só diferenciar a noção ele tempo psíquico da noção de tempo real, como também definir os circuitos do desejo.
O retorno que Lacan faz a Freud se sustenta na noção de estrutura, quer dizer,
na linguagem, apreendida a partir de três fontes principais: a obra de Ferdinand de Saussure, cm particular seu Curso de lingüística geral\ Jakobson e seu binarismo \ e Lévi-Strauss e sua antropologia estrutural. 4
1 MILLER, J.-A. "Struc'<lure". Em: .\/JtcmJ; li. Buenos .-\ires: .\fanantial, 1994, p. 87.
: SAl!SSURE, r.
; JAKOBSON, R., ,1puc/MII.I.ER, ].-.-\. "Struc'clurc". Op. cit.
' LÉVI-STRAUSS, C. Antropologia csrruwrál, 2 ,·ois. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 199 3. Lacan tambem fez uso ela matemática para pcn,;ar a estrutura. Em "O Semínário, livro 14: a lógica da fantasia", por exemplo, ele recomenda .i leitura do artigo de Marc B.irhut"Acerca do sentido da
Curso de li11gü1;ticJ gml. São Paulo: Cultrix, 1974.
101
Para Saussure, o signo lingüístico é uma entidade de duas faces: o conceito e a imagem acústica, elementos intimamente ligados.
Significado
Significante
Um recl~ma o outro. O signo combina o conceito e a imagem acústica, e funciona segundo dois princípios: _<!rbitraricdade e lineariedade. No primeiro prin- cípio, há um laço não natural, imotivado, isto é, não há nada que una necessaria- mente o conceito e a seqüência de sons que lhe serve de imagem acústica; o segundo princípio reza que a relação entre ambos se liga a uma relação horizontal de signos uns com os outros.
Contudo, como Lacan mostrou, apesar de a significação local de um signo numa frase ser dada por sua relação com os outros elementos da frase, o que existe entre conceito (significado) e imagem acústica (significante) goza de consi- derável autonomia. Foi sua leitura de Freud que lhe permitiu subverter o primei- ro princípio, invertendo a representação do signo - significante/significado - e retirando a elipse que o envolvia. Em Lacan, a barra que separa significant~_e significado indica uma autonomia do primeiro cm relação ao segundo. Ele quebra a unidade do signo saussureano, concebendo a própria cadeia significante como
produtora de significados; assim, também subverte o segundo princípio saussu- reano ao dizer que todo significante deve ser pensado a partir de sua relação com
palavra estrutura cm matemática", no qual esse autor propõe como rcpn:scntantc do uso da noção de estrutura cm matemática o grupo de Klein, "célebre cm matemática e prcscntl' cm múltiplas atividades humanas", e que se aplica as permutações de quatro elementos quais-
quer. A noção de estrutura é definida do seguinte modo: "uma estrutura [
elementos eleitos ao azar, dentre os quais se definem uma ou ,·árias[
Jé um conjunto de
] operações".
102
Clínica e pesquisa cm psicanálise
os demais. É a associação/ oposição entre significantes
significado. 5 Roman Jackobson demonstrou a operacionalidade da afirmação saussureana
de que "na língua não há mais que diferenças [
termos positiYos entre os quais elas se estabelecem". Ao afirmar que nesse terreno tudo pode ser formulado a partir de uma oposição entre dois termos, a partir de um Yocabulário reduzido ao mais e ao menos, ao marcado e ao não marcado de uma oposição simbólica binária, o estruturalismo trouxe à tona correlações ele-
menta~es que, ao se combinarem, podem se tornar complexas. É esse binarismo jakobsoniano que funda a ordem simbólica, conforme o próprio Lacan reconhece. Por sua vez, Lévi-Strauss distinguiu subconsciente e inconsciente: "O sub- consciente é reserva de imagens e lembranças colecionadas ao longo da vida. Pelo contrário, o inconsciente é sempre \·azio"t_ Em outras pala\Tas, tal afirmação im- plica a disjunção entre a ordem simbólica e a dimensão das imagens. A realidade do inconsciente depende do que Lévi-Strauss chama de as leis estruturais. Além disso, definir o inconsciente como estruturado inclui o vazio. Ora, é precisamente
o aspecto anti-substancialista da antropologia estrutural que Lacan assimila para
desenvolver e dele extrair conseqüências para a clínica e a teoria psicanalíticas, ou seja, em psicanálise trata-se de relações entre elementos e não da diferença de
propriedades intrínsecas aos seres. Assim sendo, se na língua não há mais que diferenças, se isso pode ser obser-
vado tanto pelo lingüista, quanto pelo psicanalista, esses não reduzem a realidade
a uma suposta concretude, nem o sujeito a uma realidade material. O anti-
substancialismo e o binarismo terminam com a idéia de uma psicologia das pro- fundidades ao trazerem à superfície a oposição simbólica. Vejamos: é do intervalo entre dois significantes que se deduz o sujeito. Um significante pode se opor a outro significante como no fort-da ou ser um significante que se opõe a todos os outros do conjunto. Vale dizer, é a ausência de qualquer concretude possível que instala o fora como dimensão fundamental, e é nesse nÍYel fora da linguagem, da estrutura, que Lacan designa o objeto a. Na teoria dos discursos proposta por ele, as relações de sucessão e de permutação entre esses elementos se explicitam de
que produz os efeitos de
J, as diferenças em geral supõem
; Lacan, portanto, distancia a psicanálise da lingüística. Os lingüistas jamais consideraram o significado como um engodo da produção significante e, para ele, seus esforços para contro- lar o "falhe!" na língua denuncia\'am a impossibilidade, o recalcado do discurso.
6 LÉVI-STRAUSS, C.
.-lntrnpolngia estrutural. Op. cit., p. 224.
Estrutura e fenômeno: uma distinção fundamental
103
forma mais clara. A oposição entre os discursos se dá sempre por um quarto de volta cm relação progressiva ou regressiva, fazendo passar de um a outro discurso. 7 Todo esse aparato da hipótese cstruturalista do qual Lacan se serve permite a formalização de um inconsciente que não é a sede das imagens ou das diferenças entre os elementos da ordem simbólica, mas sim o lugar do corte, da disjunção que comporta o inominável. A escrita do sujeito do inconsciente com uma barra, tal como proposta por Lacan, comporta a idéia de corte como a marca do incons- ciente e, portanto, a presença do vazio. O vazio inclui na estrutura o impossível de dizer, ou seja, é o pivô cm torno do qual se agrupam, segundo uma lógica estrutural, determinados elementos de um conjunto. A estrutura da linguagem, porém, mostra que nem tudo é lingua- gem. Se há um ponto de fuga que Freud nomeou como umbigo do sonho, no qual reside o insensato, o sem sentido, para Lacan algo se refere ao real que o próprio sintoma comporta. Os registros se articulam cm torno de um Yazio estrutural que contém o objeto a numa relação de tensão necessária, denominada gozo.'
Linguagem e palavra
À medida que avança cm seu ensino, Lacan refina os dcsem·olvimcntos cstahclcci- dos, num trabalho de construção bem ao estilo do discurso analítico. Entre os remanejamentos ocorridos, pode-se notar um desajuste entre estrutura da lin- guagem e estrutura da palavra. Como mostrou Miller: "se [Lacan] tomou de Saussurc e de Jakobson a estrutura da linguagem, tomou de Hegel e Kojcn: a estrutura da palavra, que funda a mediação, quer dizer, que não há simetria entre o locutor e ouvinte; o ouvinte está cm uma posição de mestre porque decide o sentido do que o locutor pode dizer". O fato de decidir do sentido mantém uma relação, ainda que mediadora, dissimétrica entre palavra e sujeito. É a partir da noção de dissimctria que o Ou-
7 Em meu entender, Lacan chama essa estrutura de simbólico. As representações e os signifi- cados compõem o imaginário, e o c1uc não pode ser reduzido à lei simbólica nem à represen- tação é nomeado real.
~ A formulação de Lacan acerca de um sujeito determinado não só pelo significante, mas também como corte do objeto, ou corte de•, começa a aparecer cm "O Seminário, livro 9:
a identificação", e paulatinamente ganha uma formulação que desemboca na teoria dos nós, não sem passar pela formulação dos discursos cm que o objeto a aparece como o quarto elemento, mantendo a lógica dos quatro elementos que percorre o ensino de Lacan desde o esquema Z, no qual esse quarto elemento é a morte.
104
Clínica e pesquisa em psicanálise
tro se impõe com A maiúsculo, ou seja, ao situar o Outro que o escuta, o sujeito
encontra seu próprio estatuto naquilo que retorna para ele. Por exemplo, ao dizer
"tu és meu mestre", o sujeito se designa como "eu sou teu discípulo". Esse Outro,
todavia, é aquele que se toma como garantia e não o Outro da linguagem, e por
isso Lacan afirma que a estrutura da linguagem deve isolar o lugar do Outro, da
p~~avra.
A distinção entre palavra e linguagem já está presente no Grafo do desejo, no
qual os pisos demonstram o molejo da estrutura tanto cm sua sincronia, quanto
em sua diacronia. Os pontos de estofo dão conta de articulações distintas depen-
dendo do ponto cm que se situam. :\esse sentido, há o conjunto dos significantes
(estrutura ela linguagem) e outro conjunto que pertence à estrutura da palavra,
sendo na dissimctria existente entre c~ses conjuntos que se pode situar o sujeito. 9
O sujeito se expressa com os significante~ da cadeia inferior nos significantes da
cadeia superior; ao tentar articular suas necessidades, manifesta o articulável, ou
seja. o que é próprio ao desejo se articula cm sua demanda.
A introdução da estrutura da palavra na estrutura <la linguagem dcscomplcta
o conjunto dos significantes. Nesse ponto, deve-se distinguir no Outro, como
conjunto dos significantes, o sujeito barrado, que descomplcta o conjunto por
"não se contar ali mais que como falta". O sujeito é pois descontinuidade, a qual se
situa no intenalo entre as duas cadeias inscritas no grafo do desejo. O sujeito é
essa descontinuidade chamada desejo, descontinuidade temporal que pulsa e que
marca os batimentos do inconsciente. O sujeito do inconsciente é um efeito de
cadeia, desde que essa é capturada na palavra. O sujeito não é reconhecível na
cadeia senão quando se produzem nela irregularidades, lapsos, chistes, algo que
não está ali senão por faltar. Isto demonstra o que, no texto de Freud, encontra- mos como "formações do inconsciente".
Todavia, se o sujeito é um efeito da cadeia significante, há algo que não é um
efeito dela e que Lacan situa como um produto: o objeto a. Esse objeto faz parte
|
da |
estrutura do discurso, ou seja, é próprio ao discurso recuperar o que não está |
|
na |
estrutura da linguagem. Em outras palavras, a perda abrigada pela estrutura da |
linguagem é recuperada como produção na estrutura do discurso, mais precisa-
mente, no discurso do mestre. 10
9 Precisamente, na linha intermediária, ou seja, na linha que Yai de$ Oaa d, enquanto desejante.
,o O sujeito inscrito na estrutura é o que, no grafo do desejo, Lacan escreve com o materna
,l toda cadeia se honra ao fechar sua significação. Se é preciso esperar
S(Á), ponto cm que"[
Estrutura e l'cnômeno: uma distinção fundamental
105
O significante é causa do sujeito e o divide, porém não é a sua única causa.
O objeto também o corta e é, a partir dessa refenda, causa de desejo, conotado
como menos, e causa de gozo, conotado como mais. Ao passo que o modelo -- o Um
da unidade, a totalidade - é próprio ao fenômeno, o vazio - a inconsistência, o há
do Um - é próprio à estrutura. Nas toxicomanias e no alcoolismo, trata-se de oferecer um dispositivo, o dis- positivo analítico, que permita fazer passar do fenômeno à estrutura, isto é, do fazer Um com o objeto à impossibilidade de fazê-lo, ou ainda, da monotonia à diversidade, na qual o sujeito possa manter aberto o furo próprio à estrutura. É essa a razão fundamental de não considerarmos as toxicomanias e o alcoolismo como sintomas, mas antes fenômenos que, por sua natureza, fazem impasse ante o real, impedindo que o sujeito constitua um enigma e quase sempre procure um psicanalista a partir de uma demanda que não é sua. É como gozo no corpo toma- do como objeto que esses sujeitos se nomeiam e se agrupam. Cabe à psicanálise, portanto, resistir e romper com a segregação feita ao real. Dito de outro modo, cabe a ela, a partir de sua estratégia e de sua tática, fazer com que o sujeito advenha onde havia o silêncio pulsional.
tal efeito da enunciação inconsciente, é aqui cm S(I), e há que lê-lo: significante de urna falta no Outro, incrente à sua função mesma de ser o tesouro do significante. Isso, na medi- da cm que o Outro é solicitado (chc Yuoi) a responder pelo Yalor desse tesouro, isto é, a responder, certamente, de seu lugar na cadeia inferior, mas nos significantes da cadeia supe- rior, ou seja, cm termos de pulsão" (LACAN, J. "SubYcrsão do sujeito e dialética do desejo". Em: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p. 832-3). Nesse sentido, entendo que o S(p{) não quer dizer que ao conjunto falte um significante, mas sim que há um significante que se inscreve como falta, isto é, não quer dizer que há Um no sentido da unidade, mas antes que há do Um. Esse materna representa a inconsistência, o que mais tarde Lacan nomearia de êxtimo, de exterior Íntimo, para expressar que o inconsciente não se reduz ao simbólico, mas dele se deduz; seu núcleo é o real. Há um ponto de não saber que expressa a inconsistência do Outro e leva Lacan a dizer que o Outro não existe.
106
Clínica e pesquisa cm psicanálise
A noção de estrutura em psicanálise
Nelma Cabral
A noção de estrutura como um conjunto qualquer de elementos que se relacionam
entre si segundo determinadas leis surgiu na matemática no início do século XIX a partir dos trabalhos de É\'aristc Galois. Em face da questão da resolubilidade das equa- ções algébricas, Galois deixou de lado o método utilizado pelos matemáticos de sua época de tratar cada caso como se fosse único, para investigar os aspectos estruturais dessa questão, levando-o a inventar cm 1829 uma nova teoria, a teoria de grupos. Uma estrutura de grupo consiste cm um conjunto qualquer e cm uma opera- ção arbitrária definida sobre os elementos desse conjunto, de modo que essa satis- faça à lei associativa, possua um elemento neutro e um elemento simétrico para cada um de seus elementos. Se é possível colher a noção de estrutura nessa nova álgebra, ao considerarmos
o homem ou a sua linguagem como elementos de uma estrutura, outros domínios
se tornariam necessários para que essa noção ganhasse toda sua força cm psicanálise. A partir do início do século XX, o estruturalismo constituiu-se como um movimento do pensamento com base cm fundamentos lingüísticos e antropológi- cos. A lingüística estrutural estabeleceu como objeto de investigação a linguagem
e a antropologia de Lcvi-Strauss, o estudo das relações sociais. Ambas, portanto,
encontraram cm objetos formais inseridos não no reino da natureza e sim na cultura os seus objetos de pesquisa. Dessa forma, operaram uma separação radical que retirou o humano do campo do natural.
Nesses dois campos do saber, a descoberta dos objetos formais se deveu so- bretudo à aproximação da matemática ou, como mostra Milner 1 , a um processo de matematização desses saberes. Ao descobrir na relação de oposição distintiva o caminho para abordar as propriedades de seus objetos, a lingüística estrutural não só promoveu uma literalização, como também um despojamento de suas qualidades sensíveis. Por
1
MILNER, J.-C .
.4 obra clara. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996, p. 76.
107
sua vez, a antropologia estrutural encontrou fundamentos nas permuta<;Ões sime- tricas e cm outras leis matemáticas que lhe permitiram uma noYa forma de olhar e abordar o seu campo de pesquisa.
No entanto, não existe nenhuma conexão necessária entre a noção de medida e
estrutura. As pesquisas estruturais apareceram nas ciências sociais como uma
conseqüência indireta de certos desenYoh·imentos das matemáticas modernas, que deram uma importância crescente ao ponto de vista qualitativo separando-
se, assim, da perspectiva quantitativa das matemáticas tradicionais. Em di\·ersos domínios (lógica matemática, teoria dos conjuntos, teoria dos grupos e topologia), notou-se que problemas que não comportaYam solução métrica podiam, apesar disso, ser submetidos a tratamento rigoroso. 2
Ora, defender a idéia de que o homem fala porque o símbolo o fez homem implica uma nova idéia de humano e de sua constituição, uma idéia que rompe com a psicolo- gia e também com todo saber que considera o homem como um elemento da nature- za. O homem não nasce com todos os dados que lhe dizem respeito cm um "código
genético", à espera apenas ck seu desenYolvimento
mostrar, a condição do humano é de absoluto desamparo. Todavia, se para o homem o desamparo é seu princípio e seu fim, no sentido de que esse o acompanha em toda a sua vida, é na imersão constante no mundo da linguagem que ele se faz. A partir do reconhecimento de que as palaHas são o Único material do inconscien- te, Lacan se interessou pela lingüística estrutural e dessa se aproximou, produzindo o
que Milner chamou de
palavras articuladas, mostrando que possui uma estrutura precisa, que deve sua emer- gência a uma perda fundamental operada não por uma lei científlca, universal e sem sujeito, mas sim pela lei da castração, cm que a universalidade se revela caso a caso. Tal como um evento (que pode ocorrer ou não) operacionaliza, caso tenha ocorrido, a entrada na ordem do significante. A lei da castração, portanto, é uma lei contingente. O operador estrutural dessa lei, essencialmente simbólica, é o pai real, efeito de linguagem, e não o pai biológico. O pai real:
\o
contrário, como Freud pô<lc
o primeiro classicismo lacaniano 3 . O inconsciente fala e fala cm
J coloca para além da ausência ou presença da mãe, como sentido, presern,:a
significante, o c1ue lhe permite ou não manifestar-se. Écm relação a isso que, a partir do momento cm que a ordem significante entra cm jogo, o sujeito tem de se situar!
[
2 LÉVi-STRAUSS, C. Antropologia estruturai. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989, p. 320.
3 MILNER, J.-C. :1 obra clara. Op. cit., p. 90.
• LACAN, J. OScmi11.írio, lirroS: aslàrmaçõcsdoinconscicntc. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p. 284.
108
Clínica e pesquisa em psicanálise
O sujeito cm psicanálise, portanto, é efeito do estabelecimento de uma tríade
simbólica fundamental, uma estrutura. Como se pode pensar a noção de estrutura cm psicanálise dado que essa inclui
um sujeito, se a estrutura para Lévi-Strauss assim como as estruturas matemáticas não o incluem? Pensar essa questão implica delimitar o sujeito que emerge com a estrutura. Em psicanálise, a noção de sujeito não se compatibiliza com a de uma subjetiYidade dada. Ela se refere a um sujeito que emerge para, no instante seguinte, cvanescer. Emerge "entre o couro e a carne" por meio do desejo que se presentificou na linguagem, demandou sua existência, lhe deu um nome e lhe fez um corte.
O sujeito do inconsciente é algo que se repete insistentemente. Basta, contu-
do, uma Única repetição para que ele se constitua e engendre o automatismo da repetição. O que produz essa primeira repetição? Como podemos explicá-la? E também como explicar a insistência da repetição? Repete-se o efeito de um mau encontro, um encontro com a "coisa", cm que o desamparo do sujeito se faz presente de forma incontestável, marcando para todo sempre sua estrutura humana. Isso nos indica que a"coisa" existe nessa estru-
tura simbólica, que o mesmo nela se encontra.
Para que a "coisa" buscada esteja cm você, é preciso que a primeira característica seja apagada, porque a própria característica é uma modificação. É a eliminação de toda a diferença e, neste caso, sem a característica, perde-se a primeira "coi- sa". A chave para a insistência na repetição se deve ao fato de que, cm sua essên- cia, a repetição como repetição da identidade simbólica é impossível. De qual- quer modo, o sujeito é o efeito dessa repetição, na medida cm que precisa do CS\'anccimcnto, de obliteração da primeira base do sujeito, razão pela qual u sujeito, por seu status, sempre se apresenta como essência dividida. 5
Consideremos a lingüística estrutural. Sua base consiste cm três teses: um minir~1alismo da teoria, um minimalismo do objeto e um minimalismo das pro- priedades. Nada pode ser deduzido da segunda tese se não se garante o que cons- titui um sistema, pois o estruturalismo é, antes de mais nada, relacional, o que leva à impossibilidade de se pensar cm um objeto isoladamente. Em Saussurc, "existe um sistema, se e somente se existe diferença". Portanto, o que constitui um sistema é uma relação de diferença.:\. diferença não só é constitutiva, como também sustenta a existência dos elementos em um sistema.
; LACAN, J. "Da estrutura como intromistura, de um pré-requisito de alteridade e um sujeito qualquer". Em: A control'érsia cstruturalista. São Paulo: Cultrix, 1979, p. 204.
A noção de estrutura cm psicanálise
109
A partir da fala, Lacan encontrou a diferença pura no Outro. Para ele, existe o Outro, se e somente se existe a diferença pura. Isso pode ser demonstrado pelo fato de que isso fala, e fala em rede. 6 Foi com as contribuições da matemática que Lacan pôde então avançar cm sua teorização e, para tentar retraçar esse caminho, retomaremos algumas formulações de Georg Cantor e Richard Dedekind. O axioma de Cantor-Dedekind opera um corte no conjunto dos números racionais. Separando esse conjunto em dois conjuntos infinitos e abertos de nú- meros racionais, ele produz um número real, que pode ser irracional ou não. Consideremos que o corte produza um número irracional. :\onde isso pode nos levar? À emergência de um número irracional, incomensurá\·el. Emergência de um sujeito do inconsciente, conseqüentemente, de algo que "não tem medida, nem nunca terá", de algo irracional no discurso. Porque "algo de irracional apare- ce no discurso que vocês podem fazer intervir as imagens em seu valor simbólico
[ ]Tranqüilizem-sç, dou a este termo seu sentido aritmético [
]". 7
A teoria da estrutura qualquer, elaborada a partir da conjectura hipcrcstrutural - 'a estrutura qualquer tem propriedades não quaisquer'-, tem, segundo Jean- Claude Milner, um teorema que afirma: "entre as propriedades não quaisquer de uma estrutura qualquer, na medida pelo menos cm que ela é considerada unica- mente como uma estrutura e na medida cm que reduzimos as suas propriedades mínimas, existe a emergência do sujcito" 8 • Ora, como o significante é o elemento mínimo de uma estrutura qualquer, esse sujeito pontual e evanescente, que apare- ce no discurso como algo de irracional, só pode ser sujeito por um significante e para um significante. Das quatro teses definidoras do logion 'o significante representa o sujeito para
um outro significante', que são: 1) um significante só representa para; 2) aquilo para que representa só pode ser um significante; 3) um significante só pode reprc. sentar um sujeito; e 4) o sujeito é apenas o que um significante representa para o
• Deleuze utiliz.a o tipo de relação determinado pela equação diferencial ydy + xdx = O, na qual os elementos se conjugam reciprocamente, sem terem cm si Yalor determinado. Nessa relação, os elementos não têm existência, nem valor, nem significação, e surge a questão de saber se esse tipo de relação torna possí,·cl pensar uma estrutura que inclua o sujeito do inconsciente. Cf. DELEUZE, G. "Em c1ue se pode reconhecer o estruturalismo". Em: CHÂTELET,
F. História da filosofia, o século XX. Lisboa: Dom Quixote, 1967, p. 279. 7 LACAN, J. O Seminário, lirro 2: o eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar Editor, 1987, p. 321-2.
8 MILNER, J.-C. A obra clara. Op. cit., p. 90.
110
Clínica e pesquisa em psicanálise
outro, concluímos que o significante é autônomo cm relação à sua significação, e
que a sua função é representar o sujeito para um outro significante.
Conseqüentemente, o sujeito é um termo z numa relação ternária, em que x
e .r são significantes. Sendo assim, ele é segundo em relação ao significante.
A função significante depende da repetição e do automatismo da repetição.
Na aritmética de Gottlob Fregc, encontramos a chave para nos aproximarmos
do cngendramento da repetição; portanto, do surgimento do sujeito. Como nessa
aritmética a unidade não contáYel independe dos dados empíricos, segue que uma
única repetição é necessária para a gc:nese dos números, pois é a partir da identi-
dade e da primeira repetição que a numeração é engendrada. Essa primeira repe- tição do mesmo só é possível a partir do desaparecimento da coisa e do surgimento,
cm seu lugar, da marca. Ora, porque a marca substitui a diferença pura, abre-se a
possibilidade de tornar inteligfrel o surgimento do sujeito.
O sistema de Frege se dcsem·olve a partir do conceito de.conceito, do concei-
to de objeto, do conceito de número, de uma relação de subsunção entre o con- ceito e o objeto e de uma relação de atribuição entre o número e o conceito.
Nesse sistema, um objeto existe, se e somente se é subsumido a um conceito. Por
meio de uma função de identidade aplicada ao conceito empírico de coisa, Frcge promove o desaparecimento da coisa e a emergência do numerável; logo, o nasci-
mento da dimensão lógica. Do número a seu conceito, e desse a seu objeto e a seu número. O sistema opera, conseqüentemente, pela circulação de um elemento e pela passagem para o sucessor, acrescentando-se 1.
O engendramento dos números tal como concebido por Frege leva a um
paradoxo. Sua formulação: "o número atribuído ao conceito membro da série dos
números naturais terminando por n, que segue imediatamente n na série dos
números naturais", leva à gênese simultânea de dois números
Se esse paradoxo desgostou Frege e o levou, tanto quanto a outros matemáti-
cos, a buscar uma forma de eliminá-lo para que a teoria mantivesse sua consistên-
cia, para Lacan é a própria contradição presente nesse conjunto que torna possível
a inclusão do sujeito do inconsciente:
O objeto impossível que o discurso da lbgica convoca como não-idêntico-a-si e
rejeita como o negativo puro, que convoca e rejeita não querendo saber dele,
nbs o chamamos tanto quanto ele funcione como o excesso operando na série
distintos.
dos
números: o sujeito. 9
• MILLER, J.-A. "A sutura: elementos da lógica do significante". Em: COELHO, E. P. (org.)
Estruturalismo: antologia de textos teóricos. São Paulo: Martins Fontes, 1980, p. 221.
A noção de estrutura em psicanálise
1 11
A procura de Leibniz por uma escrita formal composta de um pequeno nú- mero de signos e regras de combinação dos mesmos permitiu a Yários matemáti- cos inverter a forma de investigação de suas questões, a fim de estabelecerem uma matemática independente do mundo empírico. Por exemplo, Frege, o inventor do cálculo dos predicados, excluiu de seu sistema lógico-formal o sujeito definido por seus atributos. Ele estabeleceu uma aritmética cm que a existência lógica de um objeto depende de ele estar subsumido a um conceito. Em sua aritmética, por exemplo, o zero não é o número em sua identidade pessoal, mas sim o número atribuído ao conceito "não idêntico a si". Por sua vez, Nicolai Lobachcvsky, Janos Bolyai e Georg Riemann, ao desen- volverem novas geometrias 10 , mostraram que não existe uma Única e verdadei- ra interpretação da realidade. Georg Cantor e Richard Dedekind retiraram do conceito de quantidade todas as suas conotações geométricas e Augustin-Louis Cauchy, Bernhard Bolzano e Karl Wcicrstrass libertaram o conceito de função da representação geométrica e da noção de continuidade, abrindo espaço para a concepção de funções com comportamento caótico. Além disso, tornaram pos- sível que o cálculo diferencial se estabelecesse sem que recorresse ao infinita- mente pequeno, tratando os processos de limite como um jogo de relações, como queria Leibniz. Como essas questões abordadas por esses matemáticos contribuem para esta- belecer relações entre a noção de estrutura matemática e a noção de estrutura cm psicanálise? Se o inconsciente descoberto por Freud fez Lacan recorrer à lingüística estru- tural e propor a fórmula "o inconsciente é estruturado como uma linguagem", os limites e os impasses levantados pela conceituação do registro do real o levaram a outros campos de saber, mostrando que a aproximação entre o discurso psicanalí- tico e a lingüística estrutural foi pontual. Do suporte fonemático, em que se pergunta "o que é o significante?", à possi- bilidade de fazer uma coleção qualquer ao indagar"o que é um significante?", Lacan mostra que a ênfase na função significante resulta do fato de este ser o fundamen- to da dimensão do simbólico. Todavia o discurso analítico diz mais do que isso 11 :
'º Geometrias não-euclidianas: geometria hiperbólica (Lobachevsky) e geometria elíptica (Riemann).
11 LACAN, J. O Seminário, lirro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996, p. 91 .
112
Clínica e pesquisa cm psicanálise
Daí surge um dizer que não chega sempre a poder ex-sistir ao dito. Por causa daquilo que vem ao dito como conseqüência. Está aí a prova por onde, na análise de qualquer um, por mais besta que ele seja, um certo real pode ser atingido. 12
Esse encontro inesperado e insistente leva Lacan a se aproximar mais ainda da
matemática. Mas de qual matemática?
O rompimento do compromisso com a realidade operado pelos matemáticos
implicou não só um processo de literalização da matemática, como também o surgimento de duas correntes distintas: o logicismo, com Gottlob Frege, Bertrand Russell eAlfredWhitehead, e o formalismo, com David Hilbert e o grupo Nicolas Bourbaki 13 . A formalização matemática implica concebê-la como a ciência da es- trutura dos objetos, cujas propriedades podem ser estudadas por meio de um sistema apropriado de símbolos, independentes dos signifiq1.dos. Lacan se aproxi- ma da matemática de Bourbaki por considerá-la fundamental para a introdução do materna, uma vez que ela se caracteriza por um tratamento axiomático dado à teoria dos conjuntos, à álgebra, à topologia geral e às funções de variável real, de modo que dessas emerjam suas estruturas. Esse procedimento foi realizado consi-
derando a conexão existente entre os fenômenos experimentais e as estruturas matemáticas:
Do ponto de Yista axiomatico, a matemática aparece assim como um repositório de formas abstratas: as estruturas matemáticas; e acontece - sem que saibamos por quê - que certos aspectos da realidade empírica se ajustam a essas formas, como por uma espécie de pré-adaptação. 14
A análise testemunha que no ser falante não se dá uma relação que de dois faça
um. Como Freud nos mostrou, Tânatos faz obstáculo a Eros, promovendo descontinuidades e cYidenciando o gozo nesses desencontros. Ao encontrar na teoria dos conjuntos a possibilidade de falar do Um para coisas sem qualquer relação entre si, Lacan vai além de suas primeiras interroga- ções a respeito do significante. Não se trata mais de perguntar"o que é o significante" ou"o que é um significante", mas antes de interrogar"o que é o significante Um?" 15 •
12 Ihid., p. 34.
13 Grupo de matemáticos, cm sua maioria franceses, gue aderiu sem concessões a um trata- mento axiomático da matemática, enfatizando a estrutura lógica do assunto.
14 BOURBAKI, N. "Thc architeturc of mathcmatics", Amcrican Mathcmatical Mont{r, 1950, p. 221. ,; LACAN, J. O Seminário, lfrro 20. Op. cit., p. 65 e 91.
A noção de estrutura cm psicanálise
113
A teoria dos conjuntos possibilita a formação de um conjunto ou ajuntamento qualquer de coisas heteróclitas, por exemplo, sapos, reis e estrelas, assim como a designação desse ajuntamento por uma letra. Para Lacan, contudo, as próprias letras já constituem e são os próprios ajuntamentos. Tal concepção permite então
uma nova fórmula para a estrutura do inconsciente: "[
estruturado como os ajuntamentos de que se tratam na teoria dos conjuntos como sendo lctras". 16
A articulação ternária que engendra a constituição do sujeito resulta da de- pendência estabelecida entre dois elementos quaisquer (que não podem se agüen- tar como suporte) e outro elemento, sendo que entre esses dois elementos "há sempre Um e Outro, o Um e o aminúsculo" 17 • Sob o regime da função fálica o ser falante pode situar-se todo ou não-todo nela. O caminho que ele percorre não é fechado. Os dados são dados, mas o ser falante escolhe. Situar-se do lado do não-todo implica a possibilidade de um outro gozo que não o fálico, um gozo suplementar, sobre o qual as mulheres e os místi- cos dão testemunho. Esse gozo do qual não se sabe nada re,·cla a existência da falta
no real. Assim, o sujeito só se constitui porque a falta no real operacionaliza a falta
no simbólico, o que Freud já intuíra com seu conceito de pulsão de morte. Con- seqüentemente, o Outro só pode participar do ajuntamento que estrutura o sujei-
] O inconsciente é
|
to |
do inconsciente por diferenciar-se. Ele participa do Um por meio da subtração. |
|
O |
Outro é um-a-menos. 18 |
J(,Ibid., p. 66.
17 Ibid., p. 67.
18 Ibid., p. 139 e 174.
114
Clínica e pesquisa cm psicanálise
O fenômeno elementar na psicose ou Lacan com Clérambault
André Schaustz
Este trabalho aborda a contribuição de Clérambault à teoria lacaniana no que diz respeito aos fenômenos iniciais na psicose. Ao longo de- sua obra, Clérambault constrói a síndrome do automatismo mental, apoiado na rigorosa acuidade com que trata sua extensa experiência clínica, da qual descreve fenômenos sutis que emergem no psiquismo dos psicóticos antes da constituição do delírio. Como atlrma, são fenômenos que geram o delírio, embora não estejam relacionados a uma psicogênesc, e sim a um automatismo mental oriundo de uma causalidade estritamente orgânica, "histológica". Clérambault -· embora contemporâneo de Freud e, portanto, do advento da psicanálise, assim como de Jaspers e de sua contribuição fenomenológica para o estabelecimento do campo da psicopatologia compreensiva - permanece, como mostra Bercherie 1 , em uma posição particular no debate psiquiátrico contempo- râneo: ele é considerado o último representante da psiquiatria clássica, um verda- deiro "fóssil" arraigado a suas concepções dogmáticas. Lacan, contudo, conside- rou-o, cm seu escrito "De nossos anteccdentes" 1 , seu único mestre cm psiquiatria, indispensável para o estudo das psicoses. Clérambault constrói o "dogma" do automatismo mental com base na tese de que não há ideogênese nos fenômenos obscn-ados na psicose; esses resultam de uma ruptura na "consciência" - ruptura do "moi" - cm função do caráter automá- tico, mecânico, que têm, ou seja, eles não decorrem da ideação trilhada pelo cu.
1 BERCHERIE, P. Os fundamcnrn.< da cbuCJ: !:i.,roria r c.,trutura do saber psiquiátrico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1989, p. 285.
i LACA:'-J, J. "De nossos antecedentes". Em: Esclitos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,
1998.
Sua obra procura realizar uma distinção, que até então não havia sido bem consi- derada, entre psicose, delírio e temas ideicos:
O delírio é o conjunto dos temas idcieos e dos sentimentos adequados ou inade-
J A psicose é esse delírio mais o fundo material
(histológico, fisiológico), necessário para produzi-lo e dcsenYohê-lo. [
tão, os temas idcicos estão longe de ser a psicose, são produções secundárias, são produtos intelectuais sobreacrescidos. 3
quados, mas conexos. [
J En-
O delírio elabora o que chama de "romance", domínio circunscrito aos campos emotivo e intelectual, cuja construção não nos informa sobre o mecanismo gerador da psicose. Em outras palavras, Clérambault busca distinguir esse "romance" da psi- cose cm si, isto é, do fundo material (histológico, fisiológico) necessário para produ- zi-la. Assim, com seu rigoroso método de obsen-ação clínica - no qual o olhar tem importância extrema, embora seja um olhar que desdobre o discurso do sujeito acaba identiflcando na origem desses fenômenos uma causa orgânica, ''histológica", através da qual infecções, intoxicações, mesmo que antigas, afetam o tecido cere- bral, levando posteriormente às manifestações dos fenômenos elementares. Trata-se de uma "histologia fantástica", tal como a "neurologia" de Freud no Projeto, de 1895: o dado empírico não tem relevância, uma vez que ela opera como um constructo teórico para dar conta da causa. Desse modo, é algo completa- mente diferente, por exemplo, da histologia, cuja dominância se apresenta no método anátomo-clínico - par~digma médico por excelência, aplicado, entre outros, por Bayle cm relação à sífilis na descrição da paralisia geral progressiva."' Clérambault, todavia, não se resume a essa histologia fantástica. No mecanis- mo propriamente gerador da psicose, distingue os fenômenos do "pequeno automatismo mental" - fenômenos elementares que revelam cm sua descrição a assinatura de seu talento clínico - dos fenômenos ideicos e verbais, mais tardios, observados no "automatismo mental". Em 1924, ele diz o que comprccn<lc por "automatismo": "pensamento antecipado, enunciação dos atos, impulsos \·crbais, tendências aos fenômenos psicomotores";.
1 CLÉRAMBAULT, G. G. de. Ocurrcsps_rchiatriqucs. Paris: Édition Frénési, 1987, p. 78-9.
4 Cf. GIRARD, M. "Gactan Gatian de Cléramhault: morceaux choisis pour un parcours historique". Em: MORON, P. et ai. Clérambaulr, maítrede Lacan. Paris: Lcs Empêcheurs de Pcnscr au Ron<l, 1993, p. 25.
5 CLÉRAMBAUII, G. G. de. OucrrcsPsrchiatriqurs. Op.,cit., p. 492.
116
Clínica e pcsc1uisa cm psicanálise
Não atribuindo a si próprio a paternidade da descrição dos fenômenos do automatismo mental, afirma que esses haviam sido assinalados por Baillarger e magistralmente descritos por Séglas. Em sua lição clínica "As alucinações'\ de 1894, Séglas lembra que "Baillarger assinalou que certos enfermos diziam não perceber o som de uma voz, pretendiam compreender por intuição, através de seu pensamento, sem som. Baillarger designou esse fenômeno com o termo 'alu- cinação psíquica', e a distinguiu das alucinações sensoriais - essas últimas eram para ele vozes exteriores e as outras vozes, interiores" 7 • Nessa mesma lição clínica, o próprio Séglas classifica as alucinações auditivas em clcmcntarcs, pois conduzem àpercepção de sons brutos; comuns, por estarem relacionadas a sons de objetos determinados; e verbais, nas quais os enfermos escutam palavras que representam idéias. Além disso, inova ao descrever uma outra forma de alucinação: a alucinação verbal motora. "Uma de minhas enfermas formulava muito exatamente suas impressões", ele o exemplifica com o relato que ela lhe faz: "escuto minhas vozes de maneira auditiva e sensitiva: auditiva, como um ser que me fala ao ouvido; sensitiva, isto é, percebo a sensação de um ser que habita meu pensamento e fala comigo" 8 • Séglas também observa que os alucinados motores movem os lábios ou pare- cem murmurar palavras ininteligíveis durante o fenômeno alucinatório, o que Lacan consideraria como uma "pequena revolução" - a séglasiana - ao constatar que a alucinação auditiva não tem sua origem no exterior, como resultante de uma alteração senso-perceptiva; ela se prescntifica, sob o nome de alucinação acústico-verbal, como efeito da ruptura da cadeia significantc. 9 Pode-se dizer que Clérambault se volta para os fenômenos classificados por ele como elementares, "deixados àsombra" por seus antecessores, isto é, "fenômenos puramente verbais (palavras explosivas, jogos silábicos), mas, sobretudo, fenôme- nos puramente psíquicos: emancipação do pensamento abstrato, intuis;ões abstratas, veleidades abstratas, parada do pensamento abstrato, desenrolar mudo das lembran- ças, ideorréia, interrupção do pensamento, es,·aziamento do pensamento" 10 • É esse
6 SÉGLAS, J. "Las alucinacioncs". Em: TE'.\"DL\RZ. S. (org.) Analisis de las alucinaciones. Buenos Aires: Paidos, 1995.
7 Ibid., p. 214.
8
9
Ibid. , p.
LACAN,]. O Seminário, lfrro 3: as psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988, p. 33.
2 15 .
10 GIRARD, M. "Gaetan Gatian de Clérambault: morccaux choisis pour un parcours historiquc". Op. cit., p. 29.
O fenômeno elementar na psicose ou Lacan com Clérambault
117
conjunto de fenômenos sutis que agrupa sob o termo "pequeno automatismo men- tal", buscando isolar "a passagem do psíquico puro e do pensamento abstrato ao verbal e àsensorialidade da voz" 11 • De início indiferenciado, o pensamento torna-se gradualmente verbo-motor, e as duas formas de alucinação, auditiva e motriz, são sempre tardias em relação aos fenômenos sutis anteriormente descritos. Clérambault inova ao afirmar que os fenômenos do pequeno automatismo mental se caracteri- zam por apresentarem teor essencialmente neutro, não-sensorialidade, continuida- de com o pensamento normal e o estabelecimento de uma cisão no eu, caracterizan- do uma estranheza, para, por fim, atribuir ao pequeno automatismo mental o papel inicial e gerador no desencadeamento da psicose. O conteúdo neutro indica que inicialmente esses fenômcnos não comportam cm
si mesmo nenhuma hostilidade: são neutros do ponto-de-,ista afetivo e não-temáticos
do ponto-de-vista ideico. Eles consistem somente no desdobramento do pensamento em fatos que o sujeito constata terem emergido cm seu psiquismo. Quanto ao caráter não-sensorial, Clérambault define: "o pensamento tornado estrangeiro se apresenta na forma ordinária de pensamento, isto é, numa forma indiferenciada, e não numa forma
sensorial definida: a forma indiferenciada é constituída por uma mistura de abstrações
e de tendências, quase sem elementos sensoriais" 12 • Para Clérambault, há apenas uma diferença entre os pensamentos adventícios e os pensamentos do sujeito "normal":
enquanto esses últimos são recalcados, aqueles são mais facilmente observados cm razão da imposição automática que estabelece a ruptura no cu, contemporânea ao caráter de estranheza desses fenômenos. Esses fenômenos do pequeno automatismo mental, portanto, se caracterizam como signos primeiros no decurso de uma psicose, enquanto as alucinações - tanto a auditiva como a psicomotora - se apresentam cm um segundo tempo. "O automatismo assim definido é um processo autônomo, encontrando-se freqüentemente isolado, não com- portando em si mesmo nenhum delírio: um delírio pode se acrescentar anos após o seu início" 13 • Dito de outro modo, o automatismo mental é um fenômeno primordial sobre o qual os delírios se edificam. Instruído pela lingüística estrutural de Saussure e de Jakobson, Lacan articula
a trajetória freudiana no campo da psicose - cm especial através do caso Schrcbcr - com a apropriação do conceito psiquiátrico de fenômeno elementar proposto
"
12
11
Ibid., p. 30.
CLÉRAMBAULT, Gaetan Gatian de. Ocurrcspsychiatriqucs. Op. cit., p. 493.
Ibid., p. 493.
118
Clínica e pesquisa em psicanálise
por Clérambault, culminando no conceito de foraclusão do significante ordenador da cadeia simbólica. Para ele, o que retorna como efeito da quebra da cadeia discursiva na psicose se presentifica como fenômeno elementar. No entanto, ao fazer o "transplante" do conceito de fenômeno elementar para a psicanálise, ele se afasta de Clérambault. Lacan afirma, por exemplo, que o delírio não é um produ- to secundário aos fenômenos elementares, mas antes tem a mesma estrutura dcs- ses1+. A psicanálise, principalmente, mas não exclusivamente, através dos percur- sos de Freud e Lacan, desenYolYe um arcabouço conceitua! para abordar a psicose
a partir da linguagem cm causa nessa posição subjetiva, ou seja, procura marcar a especificidade da estreita relação existente entre o sujeito psicótico e o Outro. Sendo assim, demarca o conceito de fenômeno elementar que se presentifica na psicose a partir da linguagem, uma vez que a estrutura da linguagem estaria como
e em causa nessa fenomenologia, contrapondo-se a uma etiologia orgânica desses
mesmos fenômenos - conforme a tese defendida por Clérambault. Essa tese, no entanto, não deixa de guardar certas particularidades. Segundo Poulmarc'h, há outra possibilidade de leitura já nas próprias entrevistas de
Clérambault com os psicóticos: "Ele retirava da imagem global todos os traços dife-
] Eram
renciais para desdobrar os fenômenos iniciais do automatismo mental. [
momentos clínicos excepcionais onde seu olhar procurava o inexplorado para abor- dar os limites da significação e descobria, segundo a fórmula de Laean, 'o envelope formal do sintoma"' 15 . O próprio Lacan, a propósito de seus antecedentes, escreveu
que seu caminho da psiquiatria à psicanálise, ou melhor, de Clérambault e Kraepclin
a Freud, foi fiel ao "envelope formal do sintoma, que é o verdadeiro traço clínico a que tomamos gosto, e nos levou a esse limite e que se inverte em efeitos de cria- ção"16. Vale dizer, desde os primórdios de sua aproximação da psicanálise, Lacan valoriza a estrutura formal do sintoma como um limite à significação.
14 Ele afirma em O Seminário, liiro 3: as psicoses que "o delírio não é deduzido, que ele reproduz a sua própria força constituinte, é, ele também, um fenômeno elementar. Isso quer dizer que a noção não deve ser tomada aí de modo diferente da de estrutura, estrutura diferenciada, irredutível a outra coisa que não ela mesma". LACAN, J. Seminário, Jilro 3: as psicoses. Op. cit., p. 28.
Des délires passionnels à
i; POULMAR'CH, Christian. "Gactan Gatian de Clérambault -
l'automatisme mental, une clinique possible des psychoses". Em: L'aborddespsychoses apres Lacan. Bordeaux: Point Hors Ligne, 1993, p. 53.
antecedentes". Em: Escritos. México: Siglo Veintuno Editores, 199 5,
16 LACAN, J. "De nuestros p. 60.
O fenômeno elementar na psicose ou Lacan com Clérambault
119
Ao ter se aproximado dos limites da significação, Clérambault reYelara o teor anideico dos fenômenos elementares, ou seja, prescindindo de toda explicação psicológica ou ideativa, procurara observar os fenômenos em sua pureza, isentos de toda causalidade psicogenética. Trata-se, nesse caso, da noção de estrutura como estrutura de linguagem, o que não só quer dizer que não se pode abordar um termo do campo que concerne a essa estrutura sem levar em consideração os outros que lhe estão articulados, como também que essa noção de estrutura implica que nenhum desses termos responde sozinho pela causalidade e produz efeitos sem os outros. "Assim o dis-
curso realiza sua intenção de rejeição na alucinação. No lugar onde o objeto indi- zível é rejeitado no real, faz-se ouvir uma palavra, por isso que, vindo do lugar do
que não tem nome, não pôde seguir a intenção do sujeito [
]" 17 • Da fratura, da
quebra da cadeia significante, ouve-se a palavra alucinada, delirada - como ensina a etimologia latina de delírio, uma palavra extraviada da lira, sulco aberto pelo
arado.
17 Lacan, J. "De una cuestión preliminar a todo tratamiento posiblc de la psicosis". Em: Escritos. Op. cit., p. 51.
120
Clínica e pesquisa em psicanálise
O real do sintoma
Ana Paula Corrêa Sartori
Do obstáculo ao desejo
O sintoma está presente desde o início da obra de Freud. Em seus primeiros casos, chama a atenção a profusão de sintomas descritos. Suas primeiras pacientes: Emmy (1889), Lucy (1892), Katharina (1893) e Elizabcth (1892), além dcAnna O., paci- ente de Breuer, apresentam uma vasta lista: afasia, alucinação, amnésia, anestesia, anorexia, atitudes passionais, convulsões, desmaios, dor de cabeça, estupor, espas- mos, constrição da garganta, insônia, lágrimas, mutismo, paralisias, tiques, tussis ner- vosa, perturbação da visão, vômitos etc. Nessa época, o chamado período pré-psica- nalítico, o tratamento era norteado pelos sintomas, por seu aspecto imaginário - se assim podemos chamar a sua fenomenologia - por sua mise-en-scene. Logo, porém, Freud percebeu que os sintomas tinham um sentido. Os sinto- mas eram metáforas, mal ou bem arranjadas, de algum desejo sexual inconsciente e proibido. Ele também observou que o "tratamento sintomático" produzia odes- locamento de um sintoma para outro. Com isso, substituiu as técnicas catártica e hipnótica pela associação livre, uma abordagem mais simbólica do sintoma, dando início à psicanálise propriamente dita: nenhum sintoma surge de uma experiência isolada do sujeito; às experiências atuais de um sujeito é preciso que se encadeiem lembranças do passado, de modo que uma cadeia dessas lembranças, ou cadeia associativa, seja formada. Eis a face simbólica de um sintoma: um significante se liga a outro e a mais outro, produzindo sentido ou ausência de sentido. O real do sintoma, cm Freud, começa a se descortinar quando ele nota que o sintoma não era somente sofrimento, mas"satisfação substitutiva de algum impul- so sexual e medidas para impedir tal satisfação" 1 , e que, durante um percurso de análise, resistia à cura. Freud fala de cinco tipos de resistência: as resistências do
1 FREUD, S. "Esboço de psicanálise" ( 1938). Em: Obras completas, vol. XXIII. Rio de Janeiro:
Imago, 1980.
cu provenientes do recalque, da transferência, do ganho secundário da doença (quando o eu assimila o sintoma), a que adYém do isso como ag_uela que necessita de "elaboração" e a do supereu, que se origina da necessidade de punição (maso- quismo). O que justifica a resistência do sujeito neurótico à cura é a satisfação obtida através do sintoma e que indica um real, ou seja, aquilo que o sintoma não
pode escrever. Neste artigo, abordo o conceito de real a partir de um texto de Lacan chama-
do "A terceira", de 1974. Nesse texto, Lacan se refere ao simbólico, ao imaginário e ao real, assim como à sua articulação borromeana e ao sintoma. Ele define o real de três modos. Na primeira definição, diz que "o real é o que volta sempre ao mesmo lugar". Num segundo tempo, o real se define "a partir do impossível de uma modalidade lógica", ou seja, não existe o conjunto de "todos os elementos";
os conjuntos são determinados caso a caso, como o S:, que faz exceção à cadeia significante, não tendo efeito de sentido, nem de agrupamento. No terceiro mo-
mento, ele articula o real com o sintoma: "chamo sintoma ao que Yem do real"; "o sentido não é aquele com o qual se nutre para sua proliferação ou extinção, o sentido do sintoma é o real, o real enquanto se põe em cruz para impedir que as coisas andem, que andem no sentido de dar conta de si mesmas de maneira
]"2. Assim, o sintoma é a própria manifestação do real e, por isso, é
pelo sintoma que o sujeito também pode advir. Em Freud, isso que não anda ou que retorna ao mesmo lugar, o real, pode ser
pensado a partir do conceito de "ganho secundário". O sintoma produz uma satis- fação com o próprio conflito. Satisfação paradoxal, no entanto, por ser obtida onde se tem sofrimento e renúncia. Na "Conferência XXIV" 3 , de 1917, chamada "O estado neurótico comum", Freud diz que o cu, quando se refugia na doença, obtém internamente um certo "ganho proveniente da doença" e que, além desse
ganho interno, se faz acompanhar de uma vantagem "externa que assume um valor real maior ou menor", para, em seguida, afirmar: "o eu preferiria libertar-se do desprazer dos sintomas, sem desistir do ganho que lhe dá a doença, e isto é justamente o que não pode obter". O que Freud diz nessa passagem? Ele mostra que não é possível separar o desprazer proYenientc do sintoma de sua parcela de
prazer. O ganho sempre é acompanhado do sintoma, ou seja, é preciso o sintoma para se obter ganhos. É claro que, a partir de um certo ponto, os ganhos não mais
satisfatória [
2 LACAN, J. "La tercera" (1974). Em:
3 FREUD, S. "Conferência XXIV". Em: Obras completas, vol. XVI. Op. cit.
lntcrrcncioncs y textos. Buenos Aires: Manantial, 1990.
122
Clínica e pesquisa em psicanálise
serão ganhos neuróticos, aqueles da formação de compromisso. Ainda assim, po- rém, permanecem ganhos que só podem ser obtidos a partir de uma amarração sintomática, pois essa é a Yia de articulação entre desejo e gozo. No terceiro capítulo de "Inibições, sintomas e angústia"4, Freud diz o seguinte:
"tudo isto resulta no que nos é familiar como o ganho secundário que se segue a uma neurose. Essa recuperação vem cm ajuda do cu no seu esforço de incorporar o sintoma, e aumenta a fixação deste último". Ele também lembra que, na análise, quando o analista tenta "ajudar o cu cm sua luta contra o sintoma, verifica que esses laços conciliatórios entre o cu e o sintoma atuam do lado das resistências e que não são fáceis de afrouxar". Esses, contudo, precisam ser afrouxados posto que, como o proprio Freud diz, só possibilitam uma realização substitutiva do desejo. No que diz respeito ao sintoma, há, portanto, uma passagem a ser feita numa análise. Ele não cessa de se escrever, pois tem sua face de simbólico e de real. "Não cessa" seria a face real, e "de se escrever", a simbólica. Mas o sintoma não deve permanecer como obstáculo na vida do sujeito. Eis um paradoxo que Freud tão bem apontou e que Lacan manteve até o fim cm suas articulações sobre o nó e o sintoma. "Que o deciframento se resuma ao que constitui a cifra, antes de mais nada, algo que não cessa de se escrever do real" 5 • Isso que não cessa de escrever é o gozo e, nesse sentido, o sintoma é o quarto elo do nó borromeano, a amarração possível e parti- cular do sujeito do RSI, e das três instâncias: cu, isso e supcrcu. A tentativa de Freud de dar um estatuto que não fosse apenas o de conflito ao sintoma e aos componentes duais da pulsão parece ter encontrado cm Lacan um lugar borromcano. O sujeito é o sintoma, ou, como diz Freud, há um estado neurótico comum. Passemos a fragmentos de dois casos clínicos, a partir dos quais pretendo pensar o sintoma na neurose e na psicose. Primeiro, o caso de uma mulher, de 44 anos, primeira filha entre seis irmãos, que procura análise queixando-se de "profundo desânimo e insensibilidade sexual". Ela chegou a uma análise após 16 anos de internações em hospitais psiquiátricos, tendo permanecido, num desses períodos, cinco anos internada sem ir a sua casa. Ela relata que sempre foi "nervosa", desde muito jovem, porque "nunca teve liberdade" na sua Yida. O pai, muito severo, não a deixava namorar, não queria que ela se casasse e a "segurava" em casa. Mesmo assim, ela acabou se casando aos 18 anos, com um homem do qual não gostava e que "nunca lhe deu carinho". Teve
4 FREUD, S. "Inibições, sintomas e ansiedade". Em: Obras completas, vai. XX. Op. cit. 5 LACAN, J. "La tcrcera". Op. cit.
O real do sintoma
123
quatro filhos com ele, mas '\·fria insatisfeita", tendo que "agüentar as bebedeiras do marido e um sexo sem carinho". Seus sintomas pioraram após ter tido um caso
extra-conjugal com um cunhado seu, com quem ela "se satisfazia" e de quem engravidou, culminando em sua internação. "PensaYa que era uma pecadora e que
ia queimar no fogo do inferno". Não pôde sustentar esse relacionamento por muito
tempo; c1uando seu filho nasceu, ela e o amante já tinham rompido. Não queria que ninguém soubesse que o bebê era filho do meu amante; só contei para o meu marido. Pedi-lhe segredo, mas ele contou para todo mundo. Eu queria morrer no parto. Via coisas, como caixões etc. Chora\·a o tempo todo. Alguns dias mais tarde fui internada no hospital psiquiátrico. Fiquei lá dentro, direto, por cinco anos. Minha mãe foi quem criou meu filho. Os outros foram criados com o pai e com uns conhecidos meus e do meu marido cm São Paulo. Sentia muita culpa por tudo, principalmente por não ter criado e abandonado os meus filhos. No hospital, eu tinha até um quarto só para mim, porque cu ajuda\'a muito: dava banho nas pacientes idosas, dava comida, lcvaYa-as para o pátio. penteava e lavava o cabelo daquelas pacientes mais debilitadas. O dia cm que minha filha me tirou de lá, ninguém queria que eu saísse. Sai por causa <los meus filhos. Nem meu pai, nem meu marido foram me buscar.
Esse é um caso extremo, no qual o sintoma obstaculiza o desejo da analisante
|
a |
ponto de ela "se prender" por longos 16 anos dentro de um hospital. É evidente |
|
o |
que ela perde com seus sintomas, com sua neurose, mas o que ela ganha? Com |
seus sintomas, ela obtém um primeiro ganho, econômico, ao solucionar seu con- flito psíquico. Por meio da internação, ela se pune por aquilo que ela considerava seus graves erros: ter traído o marido e abandonado os filhos. Como ganho secun-
dário, paradoxalmente, encontrou nessa "prisão" uma certa "liberdade" cm rela-
ção ao que dizia ser a "vontade do pai e do marido". Essa liberdade lhe permitiu
namorar, mesmo estando internada, pois paquerava e conseguia namorados nos horários de visita; num hospital misto, no qual se internou por alguns anos, arran- jou um namorado que também estava internado. "Doente dos nervos" foi o
significante que amarrou o sintoma. Como "nervosa", ou "doente dos nervos", ela
pôde formar seu sintoma através da identificação com o sintoma do pai - "ele
sempre foi nervoso, deprimido"-, pelo compromisso "entre o desejo inconscien- te, o castigo do supereu e os beneficias secundários do eu" 6 •
6 JIMENEZ, S. "Cem anos de psicanálise". Em: JIMENEZ, S. & !V10TTA, M. B. Odcscjococliabo:
as formações do inconsciente cm Freud e Lacan. Rio de Janeiro: Contra Capa Li \'raria, 1999, p. 8.
124
Clínica e pesquisa em psicanálise
Ao longo de seu tratamento fora do hospital, o que é patológico no sintoma
cede lugar ao desejo a partir do momento cm que o pai se revela como puro semblante e que um novo sintoma pode começar a se escrever sem que seja para restaurar esse pai. "Uma non identificação pode acontecer que não é ao inconsci-
ente, é à letra do sintoma" 7 •
A amarração sintomática
Nesta parte do trabalho, pretendo isolar alguns elementos cruciais à emergência da teoria do nó borromcano cm Lacan, conseqüentemente, à nova forma de pensar o
sintoma. Para tal, percorrerei
Simpósio Internacional James Joyce, na Sorbonne, cm junho de 1975. Nessa confe- rência, pela primeira vez Lacan se refere à nova grafia a ser utilizada por ele para o sintoma: "sinthoma"q. Ele diz que, tendo consultado o dicionário etimológico Blocb ct mn Wirtburg, descobriu que, cm francês, a grafia antiga de sintoma era "sinthomc". Para Lacan, essa nova grafia corresponde também a uma nova forma de conceituar
o sintoma, o que se refere à teoria dos nós, visto que a quarta rodela do nó será o
"sinthoma". Prosseguindo, ele diz que, com o título "Joyce o sintoma", dava a Joyce um nome próprio, uma nomeação e um destino. O que é o destino? Lacan chama de destino ao seu único encontro com J. Joyce; a esse encontro ocorrido por acaso e a qualquer outro encontro que ocorre na vida dos sujeitos, ele chama de destino. O destino, contudo, só existe porque nós falamos, porque há nomeação dos objetos comuns e de nós mesmos. "Nós acreditamos que dizemos o que queremos, mas é o que os outros quiseram, mais particularmente nossa família, que nos fala" 10 . Esse "nos" fala é para ser entendido como objeto direto. É essa trama falada, nomeada pelos Outros, que ele chama de destino, e foi isso que o lcYou até Joyce.
O liuo de Joyce de que Lacan faz uso nessa conferência sobre o sintoma é
Finncgam Hákc, livro singular na obra do autor, visto que nele usa a linguagem de forma totalmente inovadora. Não há tradução integral desse livro para o português. Utilizarei a tradução de alguns trechos feita pelos irmãos Augusto e Haroldo de
a conferência "Joyce
le s)·mptôme 1" 8 , proferida no 5"
7 LIMA, Celso R. "Momento de concluir", lista ela Associação Mundial de Psicanálise - Vere- das, Escola Brasileira de Psicanálise. Minas Gerais, 3 de fevereiro de 2000.
8 LACA:'\, J. "Joyce 1c symptôme !". Em: Joyce arec Lacan, Paris: Navarin Éditeur, 1987.
9 Tradução liHc do termo de Lacan: "sinthomc", diferenciando-o de symptômc.
'º LACAN, J. "Joyce 1c symptôme !". Em: ]oyccarcclacan. Op. cit., p. 22.
O real do sintoma
125
Campos no livro Panaroma de Fí1111cga11s Wakc 11 • Haroldo de Campos, na introdU<;ão à primeira edição, intitulada "Panaroma cm português", fala sobre essa relação es-
pecial de Joyce com a linguagem:
Ninguém como Joyce levou a tal extremo a minúcia artesanal da linguagem. Seu macrocosmo -- seu romance-rio - traz, cm quase cada uma das unidades verbais
que o tecem, implícito um microcosmo. A palana-mctáfora gem. A palavra-ideograma i 2 .
-\
palaYra-monta-
E, mais adiante, enfatizando a radicalidade da conexão entre Joyce e a lingua- gem, da qual Lacan extrairá conseqüências fundamentais: "À medida que os fatos e os caracteres recuam para um segundo plano, o Yerdadciro personagem se im- põe: a linguagcm" 13 • Para Lacan, Joyce tem cancelada sua assinatura no inconsciente ("Jésahonnc à
gozo tão
estrito. Ele marca uma diferença entre dizer "Jovcc o sintoma" e "Jovcc o símbo- lo". Em sua concepção, o sintoma não é um símbolo do inconsciente ou uma metáfora a ser decifrada, mas sim nomeação de gozo. É a isso que ele se refere quando diz que Joyce é o emblema do descrédito do inconsciente. Joyce é esse desabonado porque cm Fí1111cgans Wakc ele não Yisa o sentido, o sentido se perde: ''É sem dúvida fascinante, ainda que na verdade o sentido, no sentido cm que lhe damos habitualmente, se perca aí" 1 5.
/'inconscicnt" 1 +), justamente por sua relação com a linguagem reYelar um
-
-
Assim, é a partir dessa perda de sentido, ou dessa falta de necessidade (da impossibilidade) de decifrar o sintoma, que Lacan propõe o "sinthoma". Joyce o sintoma mostra que o sintoma é a redução da relação do sujeito com a linguagem ou, no dizer de Lacan: "a gente não goza com nenhum dos equívocos que moveri- am o inconsciente de qualquer outra pessoa" 16 . Nesse momento, a realidade
11
CAMPOS, Augusto e Haroido. Panaroma de Fiimcgans l~ákc. São Paulo: Editora Perspccti\'a, 1986. Rcccntcmcntc, foi publicada a tradução de Donaldo Schuler dos quatro primeiros capítulos do livro 1 (São Paulo: Ateliê Editorial, 2000).
Ibid., p. 21.
Ibid., p. 23.
14 "Abonncmcnt", cm franccs, quer di1:cr"assinatura", de uma rc\'ista por exemplo. Por isso, a tradução de "désabonné" por"cancclamento da assinatura".
11
12
15 "C' est sans doutc fascinant, quoiqu' à la \·crité, 1c sens, au sens que nous lui donnons
d'habitu<lc, y pen!". CL Jo_rcc arcc LJcJn. Op. cit., p.
16 Ibid., p. 27.
126
15.
Clínica e pesquisa em psicanálise
psíquica é o sintoma. Em "O Seminário, livro 22: RSI", apesar de trabalhar ainda com o nó de três elos, Lacan diz que Freud sempre trabalhou - claro, se ele tiYesse trabalhado - com o nó de quatro elos, sendo o quarto elo do nó a realidade psíquica ou o Édipo. Na conferência sobre Joyce, Lacan trabalha com o nó de quatro, sendo o quarto elo o sintoma: "Se isso já não é o que Joyce aponta, e indica, que toda realidade psíquica, quer dizer o sintoma, depende, cm última análise, de uma estrutura onde o Nome-do-Pai é um elemento incondicional" 17 . Ele reafirma, com Freud, que o pai é o quarto elemento do nó, o que possibi-
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lita |
a amarração do nó e a diferenciação entre simbólico, imaginário e real, ponto |
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cm |
que faz annçar sua elaboração do sintoma e do nó borromeano. O Nomc-do- |
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Pai |
é uma das formas de se chamar o pai e, através de Joyce, pode-se pensar no |
sintoma como uma nova forma de chamar o pai. Joyce o sintoma, portanto, é sintoma de uma nova forma de se pensar o sintoma, tão nova que mereceu uma nova grafia: "sinthoma". Há várias formas de amarração de RSI, no nó, não apenas pelo significante do Nome-do-Pai, mas também pela possibilidade do surgimento de uma assinatura (abonncmcnt) ou seu cancelamento, como no caso de Joyce. Passemos agora ao segundo caso clínico. Trata-se de uma paciente que conheci num dos hospitais psiquiátricos cm que trabalhei. Dar-lhe-ei o nome de Sofia. Ela chegou ao hospital para ser internada após ter sido encontrada pela Polícia Rodo- ,·iária, vagando pelas estradas do interior de Minas Gerais. Seu aspecto físico indi- ca,·a que estaya na estrada há bastante tempo. Era uma "andarilha". Tinha somente
uns farrapos que lhe cobriam o corpo, o cabelo bem curto e estava muito suja. Não trazia documentos que pudessem identificá-la. Aparentava cerca de quarenta anos e, pelas poucas palavras que usara no primeiro encontro que tive com ela, parecia ter tido estudo. Nesse primeiro encontro, não relatou nada de sua história; não "se lembrava"
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de |
nenhum dado sobre si mesma, nem mesmo de seu nome próprio. Dizia que |
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seu |
nome era Jacira, nome que lhe fora dado na portaria do hospital, no momento |
de sua internação, para ser colocado no seu prontuário, já que ela não sabia dizer
qual era. Ela, porém, se apegou a esse primeiro significante: Jacira, e foi através dele que começou a se relacionar com as pessoas no hospital. Ela não negan e
nem questionaYa esse nome que o Outro lhe dera. Após algumas entrevistas, ela compareceu àsessão trazendo um sonho. Pode- se considerar esse sonho como o significante da transferência, o S 1 , uma vez que
17 ldcm.
O real do sintoma
127
ela o sonhou para relatar cm análise. Eu então lhe perguntei se queria falar ou não do sonho. Ela disse que sim e contou o que se segue:
Sonhei que tinha uma menina algemada sendo trazida para cá, tipo aqui (
Acho que estou sendo trazida. Para mim meu nome não é Jacira. O nome da menina do sonho é Sofia da Sih·a. A Sofia teve contato com as coisas, estou Yiven- do a história dela. A Sofia era inteligente, alegre, animava as pessoas, depois o grupo se separou e ela ficou passeando sozinha. Eu não sou ela. A Sofia é mais
feliz do que a Jacira porque ela tem a família perto dela.
].
Desse dia cm diante, passou a ir às sessões regularmente. :'.\Jão narra,·a sua histó- ria, mas antes constatava a ex-sistência dos objetos e de si mesma. Ela o fazia através
da nomeação dos objetos, das pessoas de sua familia, dos dias de sua vida. Ela não relataYa a sua história através das lembranças, mas antes nomeava os objetos como se estivesse nascendo naquele momento. Ela dizia: "existe um José da Sih·a, pode ser
Certo
meu pai; existe Maria da Silva; existe uma cidade; existe o Rio de Janeiro
dia, ocorreu um episódio interessante durante a exibição de um filme cm uma sala
de vídeo fora das alas em que as pacientes ficavam. Nessa sala haYia um mapa do
corpo humano, desses de escola primária e secundária. Ela não assistiu ao filme; nomeou algumas partes do corpo até se deter no "cérebro", nomeá-lo e nomcar"scu
pro
. Assim, é possível pensar no nome "Jacira" como seu enganchamento no sim-
".
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o um mac h uca d o aqrn, . nessa parte
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o corpo, no ccrc ro
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bólico, o sonho como uma tentativa de reconstrução do imaginário, e a cx-sistência das coisas e dela mesma como o real. O nome próprio "Sofia da Silva" seria o quarto elo, que manteria RSI anodados.
Na neurose sempre há sinthoma, visto que o Nome-do-Pai é o quarto elo que amarra RSI. Na psicose, a suplência ao Nome-do-Pai é o que fará a amarração do nó, sendo assim também sintomática. No caso de Sofia, ela inicialmente recebeu um nome no momento da internação, já que ela "não se lembrava" do seu. Poste- riormente, ela"se lembraria" de seu nome próprio e passaria a nomear os objetos, começando pelas pessoas de sua família até chegar ao corpo. Dessa forma, pôs um limite cm todo sentido possível (e sentido nenhum) em que estava mergulhada. Com a nomeação do mundo, ela destacou os objetos e eles passaram a existir. A partir dessa nomeação, houve um ciframcnto do seu gozo; assim, o sentido até
pode ser perdido, como mostra Lacan. O sintoma, portanto, não tem de se pôr "cm cruz" para que as coisas não andem, mas tem de ser o limite dessa "andança" sem fim do sentido ou do não sentido absoluto.
128
Clinica e pes9uisa cm psicanálise
'
Etica e política:
Maquiavel com Lacan
Lia Amorim
Este trabalho visa discutir a relação do sujeito com o Outro à luz da tensão entre ética e política tal como presente cm i'j ?r:r::ipe, de ~faquia\·el, cujo enredo parece bastante esclarecedor para uma serie de questões atuais ligadas ao desejo, ao gozo
e a seus objetos, em particular se o lemos tomando como contraponto algumas
passagens da obra de Baltasar Gracián 1 , seu contemporâneo. Se, por um lado, ambos ditam preceitos para a obtenção de ações eficazes, por outro, o texto de
Maquiavel é fundamentalmente político e o de Gracián sobretudo estratégico. Sabe-se que a política pode ser entendida como um sistema de regras, uma
posição ideológica. No dicionário francês Littré, por exemplo, o mundo político, tanto quanto o físico, se regula por peso, número e medida. No sentido figurado, é político quem é hábil, sagaz, delicado, elegante, sutil. Por seu turno, estratégia é a
arte de planejar que Baltasar
Já segundo o Littré, estratégia é a arte de preparar um plano de campo, de dirigir um exército sobre os pontos decisivos e de reconhecer os pontos nos quais
é preciso, nas batalhas, empregar um número maior de soldados para assegurar o
Gracián nos ensina em Oráculo manual e arte da prudência. 2
1 Baltasar Gracián (1601-1658), jesuíta espanhol, professor, pregador, confessor do vice-rei, catedrático de interpretação da sagrada escritura e autor, sob pseudônimo, de livros de teor filosófico mundano.
2 GRACIÁN, B. Oráculo manual)' arte da prudencia. Madrid: Planeta, 1986. Cf., por exemplo, o aforisma 151: "Planejar: de hoje para amanhã e por muitos dias mais. A maior previdência é destinar a ela horas específicas. Para prevenidos não há acasos, e para advertidos não há apertos. Não se deve adiar a ponderação até a hora da aflição, é preciso antecipar-se. Previna-se o momento crucial com o amadurecimento da redobrada circunspecção. O travesseiro é muda sibila, e dormir sobre os problemas vale mais do que ficar acordado sob seu peso. Há quem aja e depois pense, o que significa antes buscar desculpas do que almejar finalidades. E há os que não pensam nem antes nem depois. A vida toda há de ser um contínuo pensar para acertar o rumo. Refletindo e prevendo alcançamos a liberdade para determinai' a nossa vida com antecedência".
sucesso. A ação é tática e visa a eficácia. De acordo ainda com o Littré, a tática é a arte de combater e de empregar as três armas principais - infantaria, cavalaria e artilharia - nos terrenos e nas posições em que elas são favoráveis. No sentido figurado, é a maneira de conduzir ou de dirigir os corpos deliberantes. 3 No oitavo capítulo de O Príncipe, que tem por título "Dos que chegaram ao principado pelo crime", pode-se colher um bom exemplo não só de política - com as instâncias que a viabilizam: estratégia e tática-, como também de ética. Maquiavel relata queAgátocles Siciliano, filho de um oleiro, viveu criminosamen- te em sua mocidade. Praticava seus crimes com tanto vigor de corpo e de espírito que, incorporando-se à milícia, chegou a pretor de Siracusa "por virtude de sua maldade". Nesse posto, cogitou chegar a príncipe e manter o poder pela violên- cia. Para efetivá-lo, fez aliança com um general cartaginês, cujo exército estava na Sicília e, numa manhã, mandou reunir o povo e o Senado de Siracusa, com o pretexto de falar sobre negócios públicos urgentes. Sob a ordem de um sinal com- binado, fez seus soldados exterminarem todos os senadores e os homens mais ricos da cidade. Apoderou-se, então, do governo e conservou-o, "sem sofrer qual- quer hostilidade por parte dos cidadãos". Quando os cartagineses cercaram Siracusa, determinou que uma parte do exército os exterminasse, enquanto a outra assalta- va a África, que a eles pertencia. Reduzidos à miséria, os cartagineses foram obri- gados a fazer um acordo. Pouca coisa nesses fatos pode ser atribuída à sorte. Foi conquistando os postos na milícia - não por favor, mas através de dissabores e perigos - que Agátocles pôde alcançar o principado, posteriormente sustentado por meio de resoluções audazes e perigosas. Considerada sua habilidade em entrar e sair de situações perigosas, assim como sua fortaleza de espírito em suportar e superar as adversi- dades, não há nada que leve a julgá-lo inferior a qualquer um dos mais ilustres comandantes. No entanto, a maneira como o fez marginaliza Agátoclcs cm rela- ção a esses. Como diz Maquiavel: "não se podendo considerar ação meritória a matança de seus concidadãos, trair os amigos, não ter fé, não possuir nem religião nem piedade, ainda assim pode-se com isso conquistar o mando. Nunca a glória, nunca será celebrado entre os mais ilustres homens da história".
3 Os termos "política, estratégia e tática" serão também os três eixos a partir dos quais Lacan articula o tratamento analítico como uma ação que pretende alguma eficácia e que tem seu próprio poder. A forma como os conceitua, contudo, é bastante diferente. Voltaremos a esse ponto na parte final do texto.
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Clínica e pesquisa em psicanálise
O ponto de partida, a mola propulsara que lança o desejo de ser um prín- cipe violento e despótico é, como diz o autor, "a maldade, agida com vigor pelo corpo e pelo espírito". A maldade é a matéria-prima de Agátoclcs e sua política, a conquista pela força e crueldade com a remoção de tudo o que possa atrapalhá-la. Foi cm nome dessa política que ele agiu. A estratégia, no caso, foi a reunião de todos num mesmo lugar, a aliança com o general, o combate cm duas frentes, todo o planejamento indispensável ao sucesso da ação, sua tática. E a ação, a realização do planejado, foi a matança de todos seguida da tomada do poder. Do desejo de ser príncipe ele nunca recuou, jamais empalideceu, como o criminoso <le Nietzsche; ao contrário, chegou a dar as costas para a glória (de ser capitão), que sempre está no futuro da ação, agindo conforme seu desejo, o que sempre é feito no presente. Eis o campo da ética que j\íaquiaYel reconhece. Por reconhecê-lo, não nega a esse príncipe seu mérito. Agátocles é um sujeito ético porque respondeu com o desejo que o habitava à voz que o compeliu ao "dever". Aqui dever ético, sobre o que Lacan se estende tanto cm O Scminario, lirro 7: a ética da psicanálise+, quanto cm, "Kant com Sadc" 5 , texto contemporâneo a esse.
Nos últimos quinhentos anos, a cultura trouxe à luz muitos significantes no- vos que podem ser relacionados às três grandes revoluções que os sociólogos, economistas e historiadores, entre eles, de maneira particular, Pctcr Drucker, têm se dedicado a traduzir. A primeira revolução, datada da última década do século XV com a invenção de Gutemberg, foi a da imprensa. A segunda, ocorrida no final do século XVIII, início do século XIX, a industrial, e a terceira, iniciada por volta de 1960, a chamada revolução da informação. Para nossa surpresa, a análise histórica mostra que, apesar dos significantes no- vos, não se pode deixar de examinar acuradamente que novidades essas revoluções trouxeram, uma vez que o novo, o inesperado, via de regra não surge onde era aguardado. Os livros impressos eram os mesmos que os monges copiaram à mão durante séculos, à exceção de OPríncipe, que foi o primeiro livro, após mil anos, a não conter nenhuma citação biblica e nenhuma referência aos escritores da Antigüidade.
4 LACAN, J. O Seminário, lirro 7: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988. 5 LACAN, J. "Kant com Sade". Em: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.
Ética e política: Maquiavel com Lacan
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Num certo sentido, pode-se dizer que a inYenção da máquina a \·apor apenas acelerou os processos de produção daquilo que já existia. Muitas indústrias foram criadas em pouco tempo e tiveram um crescimento acelerado, como a indústria siderúrgica, que tornou possível a fabricação em larga escala dos trilhos que jâ eram usados nas minas de can·ão por meio de processos manuais. A estrada de ferro utilizada para o transporte de passageiros deu mobilidade real às pessoas, e o horizonte se ampliou porque a diminuição do tempo para percorrer as distâncias criou mais facilidades no contato com outras civilizações, outras línguas, outras redes simbólicas e também outros objetos.
Segundo Peter Drucker, a máquina a vapor foi para a Revolução Industrial o que o computador é para a Re\'olução da Informação, assim como a ferrovia tem seu correlato no comércio eletrônico, para surpresa dos mais avisados analistas financeiros. Foi a verdadeira zebra da Re,·olução da Informação. Em razão de seu surgimento, o consumidor transformado pela Revolução Industrial é lendo ao paroxismo. Assim como a participação dos engenheiros ingleses no desenvolvi- mento da Revolução Industrial não lhes garantiu a aceitação da alta sociedade ingle- sa, nem o retorno financeiro e o reconhecimento dado aos cientistas, os tecnólogos dos dias atuais espalham-se subservientes ao modelo difundido primordialmente pelos Estados Unidos, sem passarem a fazer parte do grupo daqueles que detêm essa entidade cada vez mais virtual que é o capital. A exigência de lucro da empresa faz pressão sobre o tecnólogo da nova era. Para desviar seu olhar da perda do que lhe é verdadeiramente subtraído, é posto à sua disposição um serviço de bens que não só o obriga a ter prazer com o dever 6 , como também o impede de ver o lugar que ocupa no desejo do Outro: máquina de produção, substituível por qualquer outro tecnólogo, que, aliás, permanece à espreita de sua falha. Repetido onde quer que haja mercado de objetos, esse modelo produz conse- qüências que podem tomar várias direções que sempre implicam o sujeito. Desde os padecimentos do corpo, moeda fácil nesse campo, às ditas "novas patologias", que vão das toxicomanias e outras compulsões às depressões e à doença do pâni- co, a difusão do estresse, antes privilégio do tecnólogo classe A (agora globalizado
o mal-estar na civilização de que
Freud já falava cerca de quarenta anos antes da Revolução da Informação. É claro,
contudo, que a cada passo da humanidade aparecem novas estratégias para lidar
e barateado), parece designar de maneira generalizada
6 Como diz Zi~ek em seu texto "O supercu pós-moderno".
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Clínica e pesquisa em psicanálise
com o real que organizam a civilização e o surgimento dos sintomas. Afinal, a renúncia pulsional não existiria se o sujeito não pudesse gozar.
Lacan diz: "a relação do homem com o real dos bens se organiza em relação ao poder que é o do outro (o outro imaginário) de privá-lo" 7 . O bem e o mal estão na própria fundação do sujeito na linguagem, que, entre outras coisas, implica o ódio ao semelhante, quando esse tem o poder de negar aquilo que se quer para tentar recuperar o gozo perdido. Examinemos, então, a tensão entre sujeito do desejo e
gozo a partir de dois exemplos utilizados por Lacan em O Seminário, livro 7, nos quais
não há conflito pela posse dos bens, porque a posse não se faz presente.
O primeiro diz respeito à prática do potlastch, que Marcel Mauss descreve como
sendo típica das tribos do noroeste americano e também encontrada na Polinésia, na Melanésia e nas IlhasTrobrian. O potlastch é uma prática de combate e rivalidade
cm que os bens são destruídos cm nome não só do prestígio e da honra, mas
também de uma generosidade que, juntamente com outras prestações, compõe
um sistema de relacionamento entre as comunidades. O bem está presente para além do bem material, sendo nomeado pelos significantes.
O segundo exemplo vem do amor cortês, a erótica dos trovadores que remonta
ao século XII. Para além do desprendimento quanto à posse dos bens, o amor cortês revela uma estrutura de recusa 8 que chega até nós como um dos paradigmas do impossfrel da relação sexual. A política do trovador recusa o ato sexual com a dama que é seu objeto de amor. Esse objeto é preciso: deve ser uma mulher casada de alta estirpe, ao passo que ele próprio deve permanecer celibatário. Estabelece-
sc, portanto, um laço entre uma mulher poderosa e um homem vassalo. A Única recompensa que o amante pode esperar é a alegria, que, aliás, é dita no masculino:
troYadores permite a distinção
lc joy, o alegria. Segundo Jacques Sédat, a erótica dos
entre prazer e gozo, mas nos limites deste trabalho diremos apenas que se, por um lado, a alegria está do lado do prazer e do desejo, o alegria revela talvez a postura
do sujeito num certo tipo de gozo. 9
7 LACAN, J. O Seminário, lírro 7: a ética da psicanálise. Op. cit.
8 Termo cunhado por Denis de Rougemont e citado no artigo de Jacques Sédat "L' Amour Courtois" (Em: PERRIER, F. (org.) La Chausséed'Antin, tome 2. Paris: Union Générale d'Éditions, 1978), referência por mim utilizada para este trabalho.
9 É importante sublinhar que essa política inclui o afastamento do trovador após o ritual.
Ética e política: Maquiavel com Lacan
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São cinco os ritos pelos quais os amantes têm de passar:
1) o beijo, que é iniciativa da dama; 2) o dom do anel. A dama oferece o seu anel ao trm·ador e não recebe o dele, como prova de que ela pode se ligar a qualquer um, sem se ligar nele. Um ato de senhora, ou seja, masculino;
é um ato de ascese, um ato
3) a contemplação da dama nua. Segundo Sédat, esse
espiritual que demarca a orientação do desejo para outra coisa que não a beleza do
corpo, o véu que rela a morte; 4) o Asag. Ensaio, em provençal. Designa a experiência que consiste em passar uma noite com a dama, os dois deitados, nus, lado a lado na mesma cama, man- tendo uma atitude o mais fria possível. Representa o amor eternizado. 5) a troca de corações. Marca a recompensa plena que um trovador pode obter de uma mulher. A dama oferece seu coração ao trovador e este, em troca, lhe dá o seu, jurando amor eterno. O conceito medieval de cortesia representa algo como um duplo do corpo. Diferentemente do cavaleiro que, ao partir para a guerra, pode esquecer a mulher que um dia amou, o trovador jamais deserta de seu amor. Ele mantém com a mulher essa relação de inferioridade (o que não se lê nos romances de cavalaria) dela recebendo apenas as carícias ritualizadas. No século XIX, Villiers de L'Isle-Adam escre,·e o poema "Axel", no qual o desejo sexual também não se realiza. Em contrapartida, há a intenção explícita de que a fantasia permaneça intocada. Em nome disso, Axcl quer se suicidar com Sara, sua amada, mas não está nos planos dela morrer sem conhecer a felicidade de uma noite de amor. Segundo Hauser, Axel "prefere a ilusão perfeita à imperfei- ta realidade" 10 • Tratando essa questão a partir de um ponto de vista sociológico, ele constata uma mudança na estética do final do século XIX cm que o ideal de naturalidade é substituído por um ideal de artificialidade, que tem seus expoentes em Baudelaire, na literatura, e na imagem do dândi. Todavia, pode-se argumentar que é precisamente ondeAxel quer o crime contra si e contra a amada que está a chave para entender que o amante cortês busca um gozo cuja política é a estrutura de recusa. Em outras palavras, a mesma política (recusa do ato sexual) com estratégias diferentes para revelar um vazio. Vejamos. Axel tem duas questões que sustentam seu argumento: e se o amor que une os dois não resistir à prova do tempo? E se depois da noite
rn HAUSER, Arnold. História social da literatura e da arte. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1972.
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Clínica e pesquisa em psicanálise
de amor ele não tiver mais coragem para morrer? Gastar o amor, correr o risco de não mais tê-lo inteiro Por meio de Axel, o poema de Villiers de L'Islc Adam revela a morte como totalização do gozo em nome do amor, a fissura no gozo clamando por um gozo sem fissura. Mais do que a eternização do tempo, mais do que o prazer de uma recompensa plena, o amante cortês parece indicar um gozo que só é desvelado no projeto de Axel. A destruição de bens é correlata ao amor cortês porque nela o sujeito não goza do bem. Mas o corpo da dama não seria o bem gozável? Como Lacan demonstra, o amante cortês indica a impossibilidade da relação sexual ao revelar que o bem que procura é a dama habitada pelo vazio. Para mim, o sujeito não está interessado no corpo da dama porque dessa forma seu gozo estaria na procrastinação do ato com a mulher amada, isto é, seria uma maneira não cava- lheiresca, mas antes neurótica de dizer que a relação sexual não existe. A suspen- são do gozo do bem (a dama) mantém acesa a chama do desejo do trovador. Em Axel isso não se sustenta, pois de que serviria o desejo para um cadáver? Assim, só pode tratar-se do gozo. Em resumo, a mesma política, estratégias diferentes. Um precisa dos rituais, passa por eles e depois se afasta; o outro curto-circuita o gozo com a morte. Ao passo que o trovador diz versos, usa a palavra, Axel abole o tempo da palavra.
11
O mal-estar hoje, todavia, parece não estar sendo causado pela subsunção das pulsões à civilização, assim como as novas patologias parecem negar o conceito de sintoma. Hoje, o gozo é "dever" na própria civilização: gozar e falar do gozo (o que já é cm si uma forma de gozar) para o mundo cm livros, jornais, na TV e, de prefe- rência, na internet. Enquanto o sintoma liga o sujeito à cultura, as chamadas "novas patologias" individualizam, levam o sujeito a crer que ele pode se desligar do Outro, sendo o gozo o ''benefício" do qual quer e não quer se livrar. O corpo, por exemplo, é submetido ao mandado de um sinistro supereu, que exige o prazer. Lançando-se seja à malhação compulsiva e aos esportes radicais - que talvez sejam os rituais nascidos com a no\'a Revolução - seja ao "caminho de Santiago" ou se entregando a
11 É curioso o fato de que se trata de um escrito do final do século XIX no seio da literatura simbolista, escola !iteraria que surgiu como reação ascética ao naturalismo de Zola e na qual os personagens transitam num mundo de aparências, mas são perpassados pelo mundo ori- ginário cm que, segundo Gillcs Dcleuze, só há dejetos, fragmentos e cm que a fissura faz seu silencioso caminho em direção à morte.
Ética e política: Maquiavel com Lacan
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rituais menos românticos que absolutamente fazem parte da nossa cultw-a ociden- tal, o sujeito, na verdade, se lança ao caminho que leu àsua mais completa anulação. Sarado e armado de cartões de crédito e sobretudo de grande ignorância a seu
respeito, esse sujeito cai nas malhas daWeb, a estrada de ferro de seu tempo, onde se transforma, da maneira mais obscena, de consumidor cm consumido. Assim, se a ferrovia diminuíra o tempo necessário para percorrer as distàncias, o computador as eliminou, determinando uma nova mudança na mentalidade não dos
sujeitos, como anteriormente, mas dos
comprar, como o que comprar. Enquanto nos países desenvolYi.dos transformou o comportamento dos consumidores, nos países subdesenvolvidos, escancarou o enor- me fosso (que talvez seja uma das razões da proliferação das indústrias de < Tinunalidade) em que excesso e falta são as duas faces da mesma moeda, as duas pontas de um mesmo sistema em que o sujeito é uma mercadoria entre outras. Por exemplo, o nome "assi- nante", que indica fidelidade a uma determinada marca, faz do nome próprio a merca-
doria mais cobiçada 12 • Do ponto de vista daquele que manipula um portal na internet
(o tecnólogo mais cobiçado do mercado hoje), o bem é o potencial de compra. Mais
virtual impossível, pois é uma mercadoria que vale por estar no futuro.
A estratégia que sen-e à política de subserviência atual traduz-se na sedução
(e promessa) de que "aquele" objeto devolveria ao sujeito o gozo que ele perdeu
ao entrar na linguagem. A velocidade do ato de comprar - alguns cliques apenas - dificulta o aparecimento do logro, e elide o tempo para uma escolha verdadeira (o tempo do desejo), que forçosamente inclui e revela a falta. O objeto que poderia causar o desejo daquele que se põe a consumir, se ele se desse o tempo para isso, é transformado em objeto de uso, inYestido da função de mais-de-gozar. Ora, esse tempo não existe para o consumidor, e aí vale tudo, não importa se o eletrônico da vez ou a bundinha adolescente da novela. Fixado ao objeto, o homem da Revolução da Informação aparenta não precisar de ninguém, ter tudo o que precisa e não estar assujeitado a nada. Isso, porém, é uma dupla alienação: supor que o objeto concreto pode preencher uma falta que é justa-
mente a de objeto, que terá caido pelo corte do significante. Por não querer saber de sua alienação no Outro, ele se deixa à mercê do semelhante, como robô, a seu capri-
Diferentemente do analista, que está na cena como um faz de conta de objeto
consumidores. Mudou tanto a maneira de
cho
para que o sujeito possa falar e, falando, se confronte com aquilo que lhe falta.
12 Vale lembrar que uma das maiores fortunas do comércio eletrônico foi feita atra,·és da venda de assinantes, quer dizer, sujeitos assujeitados a um objeto, fiéis a uma marca.
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Clínica e pesquisa em psicanálise
Aparentemente, estamos outra vez mergulhados num ideal simbolista de artificialidade, cuja estética é necessariamente a da pura imagem, cm que a recusa do desejo dá iugar ao gozo imediato e desmedido. Aos que se preocupam com a direção do tratamento clínico, no entanto, a psicanálise continua respondendo com a mesma política referida à falta-a-ser e não ao ser; com a mesma estratégia que é a de relançar o jogo, a cada vez, e com a tática que Lacan idcntiflcou com a interpretação, à qual acrescentou a pressa, que, por sinal, não está distante dos tempos que correm. No caso do analista, sua estratégia na direção do tratamento
é fazer com que o jogo continue. Ele tem pouca liberdade na estratégia porque
não pode resistir ao jogo - se isso significa, entre outras coisas, que o desejo (do analista) é mais forte, então a ética talvez já esteja compreendida aí. Por sua vez, o
modo como ele opera para que sua estratégia se realize, passe à tática, é mais
liue: é seu estilo. Dito de outro modo, a tática diz respeito ao momento em que
o analista intervém no ponto cm que Lacan faz surgir a pressa, que sustenta a
política: não ceder sobre o seu desejo. Para a psicanálise, curar não se resume a interrogar o circuito que o sujeito montou para gozar com o objeto; curar implica a estratégia e sua relação com a ética. Assim, não se trata de o sujeito "desencanar-se e assumir-se como consumi-
dor". Ao contrário, curar tem a ver, por exemplo, com o reviramento do supcrcu:
ali onde era escraYo do mandado, o sujeito ad\'ém responsável pelo desejo e pelo gozo. Certamente não podemos dar Yivas ao capitão de Maquiavel pela maldade e pela crueldade, mas podemos, isto sim, recorrer ao manancial de conselhos para bem viYer de Baltasar Gracián:
ter algo a desejar para não ser infeliz de tanto bem-estar. O corpo respira e o espírito aspira. Quando tudo estiYer possuído, tudo será desilusão e desconten- tamento: mesmo nos conhecimentos há de ficar o que aprender para alimento da curiosidade. A esperança alenta: as farturas de felicidade são mortais. No premiar é destreza nunca satisfazer: se não há o que desejar, tudo é de temer:
fortuna desafortunada. Onde o desejo cessa o temor começa. 13
É aí que o analista espera o "sujeito endividado", para conduzi-lo ao lugar que Freud indicou ser aquele do sujeito: o lugar cm que realiza o trabalho de civilização.
13 GRAC!Ál\', B. "Aforismo 200". Em: Oráculo manual_r arte da prudcncia. Op. cit.
Ética e política: Maquiavel com Lacan
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Infâncias 1
Sônia Altoé
No campo da psicanálise é sempre delicado apreender o que se nomeia infância. Pensar a infância, esta infância que nos parece tão familiar: a nossa, que nos falta radicalmente, é esquecida e só retorna cm fragmentos, nos traços que encontra- mos nas crianças. A infância designa menos um momento no sentido cronológico do que um momento cm que se abre o grande livro de.inscrições inconscientes, no qual essas se enlaçam com o mistério da sexualidade. A psicanálise de crianças começou aos poucos e bem depois dos primeiros escritos de Freud. É importante lembrar que inicialmente as teorias sobre a infân- cia foram elaboradas a partir do tratamento dos adultos. A psicanálise produziu uma infância desconhecida até então, uma infância nova, a partir da descoberta de que a criança tem uma sexualidade e de que essa sexualidade não obedece a ne- nhum instinto preestabelecido. Ela não é natural. Embora nos seja difícil avaliar o quão revolucionária essa idéia foi para a época, sabemos que o termo sexualidade era reservado à sexualidade aduita, isto é, à maturidade dos órgãos sexuais permi- tindo a relação entre adultos. Assim, quando Freud utilizou o termo para falar da sexualidade infantil, não só mexeu nas fronteiras, como também mostrou uma continuidade entre o corpo erógcno e erótico da criança e o do adulto. Ainda hoje, não é fácil se dar conta de que a sexualidade concerne à criança e ao adulto ao mesmo tempo cm que é diferente em um e cm outro. Em outras palavras, Freud buscava encontrar o infàntil no sujeito. Lcmbremo- nos, por exemplo, de seu trabalho sobre o Homem dos lobos consagrado àneurose infantil do Homem dos lobos, adulto. Para ele, o sofrimento da vida sexual do adul- to reenviava ao período da infância cm que a sexualidade aparecia. Assim, a ênfase que incide sobre a criança no tratamento se refere ao infantil do sujeito, em um adulto. Reescrever sua história constitui o sentido mesmo do tratamento psicanalítico.
' Este trabalho foi originalmente apresentado numa conferência, para grande público, no Teatro Leblon, cm 9 de setembro de 1996. "Infâncias" era uma dos temas dos Debates Ciris, organizados pelo Jornal do Brasil e pelo Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro.
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Mas o que seria o tratamento psicanalítico para a criança? Poder-se-ia dizer que
se trata de encontrar o infantil na criança. A criança, porém, já tem um pedaço de sua
história construída, ou seja, uma história a ser reescrita. Trata-se, pois, de encontrar o adulto na criança ou, de maneira mais rigorosa, de encantar o sujeito na criança. 2
Entre a criança e o adulto há o mesmo campo psicanalítico, vale dizer, num e noutro há uma história a ser reescrita. Isso implica duas condições:
1) que haja para a criança, para o sujeito portanto, alguma coisa a ser reescrita,
ou seja, já esquecida ou não inscrita para ele; 2) que exista um querer dizer, um querer reescrever a história. Querer dizer constitui o próprio nome do sujeito, que não é nada além disso, ao menos para o sujeito dividido neurótico. Encontrar o sujeito pode ser entendido como uma exigência ética da psica- nálise de crianças. E também de um determinado trabalho institucional com as crianças. Para o neurótico, a exigência ética se refere ao surgimento do sujeito como responsabilidade: que ele responda a partir de seus significantes, de sua história e mesmo de suas fantasias. Dito de outro modo, trata-se de introduzi-lo
|
na |
responsabilidade de sua história. 3 |
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O |
termo infância se refere a infans, a um tempo cm que o homem não fala, e que |
desaparece por trás de algumas lembranças. Para Freud, esse esquecimento tem um valor particular: ele não é fortuito, mas antes fundador. A história do sujeito
se constitui sobre uma amnésia, ou melhor, só há história porque falta uma parte.
A reconstrução, o mito, dá forma a essa falta.
Aparentemente é paradoxal atentarmos para esse ponto, pois a intemporalidade do inconsciente constitui a hipótese fundamental da psicanálise. Isso, contudo, quer dizer que há outro tempo subjetiYo que não o da consciência, nem o da história cronológica. O tempo do inconsciente não é o tempo da memória histó- rica. Ao psicanalista importa não a recordação do passado, mas sim sua repetição. O tempo se impõe à criança. Dizemos que ela sempre tem tempo, esse tempo do Outro, pela voz materna, como algo que limita, distribui, enfim, algo que toma tempo.+ A aliança de trabalho com a criança, entendida como sujeito, é
2 STEVENS, A. "Intervention", Preliminaires, n. 3, Bruxelas, 1991, p. 133.
· 1 Idem.
4 VANIER, A. "Une mctapsychologic dcs prcmicrs tcmps ?", L'Enlànt ctla psrchana!rsc. Paris: Esq uisscs Psychanalytiques, CFRP, 1993.
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Clínica e pesquisa em psicanálise
distinta daquela de outros saberes preocupados com a infância. O psicanalista não é somente mais um especialista cm infância. Seu trabalho não é educar, nem cuidar. A criança que interessa ao psicanalista é antes de tudo o sujeito de desejo, e seu sofrimento é uma busca da verdade. Nesse sentido, o trabalho empreendido em
análise consiste em fazê-la passar de infàns, aquele que não fala, para aquele a quem é possível escutar como sujeito do discurso. 5 Considero entender a criança como sujeito muito importante, e isso pode repercutir de maneira significativa nos diYersos campos de trabalho com a crian- ça. Desde 1980; trabalho, direta ou indiretamente, com crianças e adolescentes oriundos das camadas mais pobres da população, os chamados "meninos de rua", "carentes" ou "delinqüentes". Assim, tenho oportunidade de ver de perto o que é oferecido a essas crianças tanto no setor público quanto no privado. Até o início da década de 1990, o asilo e o internato-prisão foram pratica- mente as Únicas formas de atendimento oferecidas a essas crianças. Esse tipo de atendimento, realizado em nome da ética do bem, teve como ponto alto a
organizada cm âmbito nacional. 6
Em nome do ideal de proteger e recuperar, milhares de crianças e jovens cres- ceram num ambiente marcado pelo constrangimento, pela coação, pela humi- lhação e por castigos imoderados, sem chance de se defenderem ou mesmo de recusarem a tutela, salvo pela fuga, em geral logo seguida do retorno cm razão da falta de outro tipo de acolhimento da sociedade. Viveram toda a infância e adolescência sem a possibilidade de se expressar, imersos em um cotidiano de constante massacre de toda manifestação de desejo. Conforme expressão de Circe Navarro Vital Brasil, uma experiência de "morte branca" 7 • E como não poderia deixar de ser, as conseqüências na vida adulta foram desastrosas para essas pessoas. 8
Fundação do Bem-Estar do Menor (FUNABEM),
5 BLEGER, L. "L'enfant dans la psychanalyse et la psychanalyse d' enfants - de Freud à Klein", l 'Enfant ct la ps_rchana{rse. Op. cit.
S. "A psicanálise pode ser de algum interesse no trabalho institucional com crianças
e adolescentes?". Em: Sujeito do direito, sujeito do desejo. Rio de Janeiro: Revinter, 1999, p. 55-64.
6 ALTO É,
'VITAL BRAZIL, C. N. "Morte branca", Jornal do Brasil, Caderno Idéias, Rio de Janeiro, 8 de agosto de 1990.
8 Mostro essa correlação em dois estudos feitos sobre a vida de egressos dos internatos. Cf. ALTO É, S. "Menores em tempo de maioridade". Rio de Janeiro: Editora da Universidade Santa Úrsula, 1993; ALTOÉ, S. "De menor a presidiário - a trajetória inevitável?". Rio de Janeiro: Editora da Universidade Santa Úrsula, 1993.
Infâncias
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Mas como, cm um trabalho institucional Yoltado para as crianças e joYcns, é possível conciliar a visão universalizante e normatiYa de toda política educativa com
o respeito e a promoção que valoriza as diferenças, caracterizando cada uma das
pessoas atendidas como sujeitos desejantes e singulares? Ao falarmos de sujeito desejante, deixamos de treinar corpos e julgar comportamentos. Assim, torna-se necessário não só o empenho na formação profissional, como também um constan- te trabalho de reflexão, a fim de tentar deslocar a suposição de que as crianças são como animais a serem adestrados, domesticados sob a exigência de uma submissão cega, julgados e punidos sem qualquer direito de defesa, e destituídos de sua condi- ção de seres falantes. Também aqui a psicanálise tem grande contribuição, pois per- mite que a subjetividade da criança seja percebida, impedindo que ela seja reduzida
a seus problemas, déficits ou carências, como o indica, por exemplo, a denominação "criança carcnte" 9 . Portanto, no trabalho com crianças, é importante enfatizar o desejo para que a invenção não deixe de se tornar possível. DeYe-se remarcar que o adulto não sabe apriori, e pode se surpreender pelo que a criança lhe ensina. Infelizmente, a realidade da vida de nossas crianças está muito distante disso. Somos cotidianamente informados pelos meios de comunicação da dura e sofrida situação de grande parte de nossa população infanta-juvenil: crianças nas ruas, rebe- liões nos internatos, mortes acidentais ou não, prostituição infantil, trabalho preco- ce, maus tratos domésticos, falta de escola, repetência escolar, precariedade do aten- dimento médico etc. Mas gostaria de ressaltar algo que surpreendeu a todos nós: o massacre das crianças que dormiam junto à Candelária, em pleno centro da cidade do Rio de Janeiro, e cujos responsáveis ainda não foram punidos. Como cidadã e psicanalista, é impossível deixar de se perguntar como isto pôde acontecer, e se esse ato de violência, praticado contra crianças e jovens, fora de qualquer limite, não tem efeito sobre toda a sociedade e sobre nossos modos de fantasiar e de desejar. O que nós, adultos, queremos? Como representamos a sociedade cm que Yivcmos e cm que queremos viver? Temos que pensar no que oferecemos às nossas crianças, para que suas infâncias não sejam perdidas1°, mas antes possam ter sentido e fazer parte de uma história. A psicanálise nos ensina a importância de que uma comunidade assegure a transmissão das proibições e da referência à Lei. Em outras palavras, de que não
9 ALTOÉ, S. "A psicanálise pode ser de algum interesse no trabalho institucional com crianças e adolescentes?". Op. cit.
10 ALTO É, S. Infâncias perdidas. Rio de Janeiro: Xenon, 1990.
142
Clínica e pesquisa cm psicanalisc
deixe cm perigo o que Pierre Lcgcndrc chama de os fundamentos institucionais da subjetividade, pois, caso contrário, a própria prática da psicanálise é posta cm questão. É fundamental perguntarmo-nos como nossa cultura organiza, em seu seio, a relação com o insuportávcl? 11 Assim, podemos concluir que se não há no Brasil uma política séria, e de longo prazo, para os cuidados, o atendimento e a educação das crianças, é porque a sociedade, as autoridades competentes e o Esta- do não entenderam ainda e não levam cm conta o que foi revelado pela teoria psicanalítica: a importância que o infantil tem para a construção subjetiva do ho- mem.
11 KHAN, P. "Eviclcncc ct énigmcs de la violcncc pour lc psychanalystc", Rcruc du College de
A:rchanalr,·tc, n. 45: riolcnccs ct subjectiration, Paris, 1992.
Infâncias
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Ação e reflexão no campo dos cuidados
Ademir Pacelli Ferreira
Primeira aproximação: internação e modalidades de ação
Este texto parte de experiências situacionais e tem como objetivo pensar os sen- tidos das intervenções, bem-intencionadas ou não, no dia-a-dia das instituições psiquiá- tricas. Traz em seu bojo algo da reflexão e das suspeitas que Richard Rorty afirma terem surgido nas mentes liberais da modernidade:
[ ) dúvida sobre sua própria sensibilidade à dor e a humilhação de outros, dúvi-
da sobre se os atuais arranjos institucionais são adequados para lidar com a dor e com a humilhação, curiosidade sobre possíveis alternativas. 1
Chego ao Serviço de Psiquiatria numa certa manhã, felizmente mais cedo do que o habitual pois havia a expectativa de alguém que pudesse desembaraçar a seguinte situação: C., uma das internas, portadora de problemas mentais - ditos distúrbios afetivos -desde a época em que cursava a faculdade de medicina, aguar- dava a aplicação da eletroconvulsoterapia (ECT). Ela tinha mais de quarenta anos e sua vida era uma sucessão de crises. Conseguiu exercer sua profissão de médica como servidora pública por um curto período, sendo aposentada por invalidez. Seu estado era crítico; permanecera algumas semanas bastante isolada, não estabelecendo contato com a equipe ou com seus colegas, apresentando falta de interesse pelos cuidados higiênicos, pela aparência, e permanecendo a maior par- te do tempo na cama. Tendo chegado com a preocupação de preparar o grupo e a equipe para um passeio externo, encontrei o clima de expectativa e tensão que geralmente acom-
1 RORTY, R., apud RIN ALDI, D. A ética da diferença: um debate entre psicanálise e antropologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996, p. 140.
145
panha a decisão de aplicar a ECT. 2 Alguns fatos eram desfavoráveis a sua aplicação.
A médica residente preferia evitá-la, a estagiária de psicologia estava empenhada
em estabelecer contato com a paciente e naquela manhã pude obsenar uma boa resposta afetiva dessa para com aquela. A possível aplicação da ECT impedia que a
interna tomasse o café - o jejum é uma de suas exigências - e que fosse ao passeio programado. Observei que a equipe de enfermagem torcia para que ela transgre- disse a norma, pois era uma das formas de eYitar a ECT. Também eles não esta,·am
convencidos da urgência de seu uso. Assim, partindo de sua resposta positin ao contato no acompanhamento com os estagiários, pudemos modificar a prescrição
da ECT. Com esses argumentos, não foi difícil fazer com que o supervisor-chefe de psiquiatria aceitasse a mudança, pois, além de sua disponibilidade para o traba- lho cm equipe, entendia a ECT como uma medida extrema, evitada sempre que
possível pelo uso de outros recursos psicoterápicos ou medicamentosos. Finalizando esse primeiro ato, C. foi ao passeio, o que produziu nela uma grande modificação de seu estado anterior. Daí para a frente, sua melhora foi enorme, tendo alta da internação e continuando seu atendimento no ambulatório
e no Espaço de Atividades e Convivência Nisc da Sih-eira. Mas não tenhamos ilusões quanto à sua rápida mudança. Ela não foi tão sim- ples assim. Sua história era longa e uma nova repetição logo se configuraria. Sua passagem da internação para a vida externa não foi muito bem preparada. Ao
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como médica (expectativa por parte da equipe de que assumisse uma atiYidade assistencial) e "militante de esquerda" (dizia-se filiada a um partido de esquerda)-, não suportou as exigências de um suposto lugar identificatório. Gradativamente, sua excitação aumentou e ela passou a empreender diversas atiYidades ligadas à militância política. Tentou, assim, responder ao que sentia como expectativa do Outro até sucumbir.
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' Como se sabe, a ECT desperta controvérsias em relação aos benefícios de sua aplicação. Trata-se de um instrumento empírico que produz uma reação paroxística (convulsão, in- consciência total com posterior amnésia) e causa impacto a quem o assiste. O paciente a recebe de forma passiva, sem saber o que ocorre. Em certas situações consideradas muito graves (depressão graYe com risco de suicídio, delírio de negação e estupor catatônico pro- fundo), a ECT às vezes parece 'milagrosa' por produzir efeitos de desinibição-da psicomotricidade e apagamento dos delírios de fundo. Mas não se sabe bem quais as conse- qüências para o psiquismo desse apagamento. Nas psicoses dissociativas, por exemplo, ob- serva-se comumente um aumento da desagregação do cu.
146
Clínica e pesquisa em psicanálise
Ela retorna ao Serviço cm estado crítico. Confronta-nos com seu corpo nu, com sua masturbação e seu desleixo generalizado. Ela é então permanentemente contida para preservar um pouco do pudor que já demonstrara e, por que não dizê-lo, para proteger a equipe do contato com esse real espantoso. Desse modo, o movimento de submissão foi levado às últimas conseqüências. C. tornou-se mero objeto, à mercê da ECT. Seja nas internações, seja no atendimento ambulatorial, nunca mais participaria do Espaço de Atividades e Convivência Nise da Seilveira, mantendo-se reservada diante daqueles que possivelmente passaram a ocupar o lugar do Outro da psicologia, apa- rentemente idealizado em um primeiro momento. Alguns anos mais tarde, C. se suicidaria pulando da janela de seu apartamento. Fim de uma jornada de muito sofrimento e angústia, que pesaram a ponto de ela não mais agüentar. A assistente social que tentava ajudá-la a organizar sua vida e a manter seu tratamento esforçou- se muito, angustiava-se com sua destrutividade e com sua incapacidade de se cuidar. Para a equipe, restou o sentimento de impotência diante dessa potência destrutiva. Frente ao vazio da ausência, contudo, surge a perplexidade que não só parali- sa, mas também produz movimento de instigação que exige resposta ··· uma pala- vra ou um ato que possa desatar nós e romper a repetição, para criar espaços de investimentos e emergência de subjetividades ligadas, ou seja, desejos que possam se articular uns aos outros, fazendo laços e protegendo os sujeitos da compulsão repetitiva e da avalanche destrutiva. De fato, esse é um desafio permanente cm que o imprevisível nos espreita e exige a análise diária de seus efcitos 3 • Como lembra Rinaldi, a partir de Lacan, a pulsão de morte não se reduz à pulsão de destruição; há também, como no mito de Fênix, algo de ressurgimento das cinzas, uma "vontade de criação a partir do nada, vontade de recomeçar" 4 •
As éticas dos cuidados
Com esse relato, procuramos apresentar uma situação próxima do dia-a-dia da assistência, para iniciar a reflexão contida nesse texto, cm que propomos uma .interlocução com a instância mediadora da relação do cu com o outro, apresenta- da aqui como a ética dos cuidados. Entendemos que a ética, nesse contexto, é um
3 FJGUEIREDO,A. C. "A ética do cuidar", Cadcrnosdo!PUBIUFRJ, n. 14, 1999.
" LACAN, J., apud RIN ALDI, D. A ética da difcrenpi: um debate entre psicaná/içc e antropologia. Op. cit., p. 146.
Ação e reflexão no campo dos cuidados
14-7
domínio sempre ameaçado, p_()_is há grande distância entre o que os discursos esta- belecem como limites da relação com o outro nas práticas sociais e a relatiYidade
de seu emprego. Torna-se difícil estabelecer os limites dessas inten-enções para que elas não sejam o mero exercício de um domínio sobre o outro. Em decorrên- cia disso, faz-se necessário delinear o campo de ação dia após dia, redefinindo suas ferramentas, seus conceitos, e lutar contra seus efeitos nociYos, como lembra
Oury. 5 Trata-se, portanto, de
referenciais teóricos que norteiem e possibilitem a reflexão sobre o significado social de nossa prática, para que ela não se torne uma mera atuação (acting out). Vásquez define a ética como sendo a teoria ou a ciência do comportamento moral dos homens em sociedadc 6 . Ela visa o comportamento moral - o bom--, sendo a essência da moral o conjunto de normas, aceitas lfrre e conscientemente, que regulam o comportamento individual e social dos homens, para que então torne-se possível a existência, simultânea, do eu e do outro. Para a psicologia, por sua vez, dois referenciais são, em geral, suscitados pela discussão ética: os valores internos e externos. A conduta ética ou moral pressupõe uma instância de julga-
mento individual, o que se refere à noção de livre arbítrio. Não se trata apenas de
a conduta estar de acordo com um padrão moral: o sujeito deve estar consciente de sua conduta e não agir cocrcitivamente, isto é, sua conduta não deve apenas parecer correta ao visar o bem, mas também ser resultante de um julgamento do sujeito, livre de imposições, tanto externas quanto internas ou inconscientes. O ato ético, entretanto, não é relativo. O julgamento é absoluto: ou é ou não é. Nesse sentido, não pode ser expressão de uma avaliação meramente subjetiva, pois o julgamento implica a capacidade de reconhecer os valores e normas da
sociedade em que se vive, e isso exige a atividade do sujeito. Q sujeito só é sujeito ao assujeitar-se à ordem simbólica, sua construção implica cm uma ordenação simbólica mediada pelo outro. Em outras palavras, o sujeito nasce dessa mediação
e se torna instância de submissão e agenciamento, a partir de seu acesso aos ins-
trumentos da cultura. Portanto, há que se articular desejo e ação de forma que o desejo de realização encontre o dever, o limite e a renúncia. No campo dos cuidados cm saúde mental, a ética do cuidar pode ser entendida como um modelo de ação 7 .Trata-sc de questionar o modelo tradicional da relação
refletir continuamente e buscar sempre critérios e
; OURY,J., apudCAVALCANTE, M.T. "Ética e assistência à saúde mental". Em: FIGUEIREDO,A. C.
& SILVA FILHO, J. F. Ética e saúde mental. Rio de Janeiro:Topbooks, 1996.
6 VÁSQUEZ, A. S. Ética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975.
7 FIGUEIREDO, A. C. "A ética do cuidar". Op. cit
148
Clínica e pesquisa em psicanálise
médica, ou seja, a representação de uma relação assimétrica em que um, portador da ordem saudável, inclina-se sobre o outro, que sofre uma perturbação e que traria a marca do desconhecido ou de algo não dominado e invisível, buscando encontrar uma resposta ou sentido: de cura, de ordenação ou de Lei. As queixas, o sofrimento e a dor humana oferecem um campo de reflexão importante, uma vez que deixam o indivíduo cm uma condição de fragilidade
e dependência do outro. A criação da cultura e da civilização pode ser enten-
dida como o esforço humano de proteger-se contra o inominá!'el da dor e da morte, cuja representação esfacela-se no psiquismo. Não adianta ao homem se perder na massa para refugiar-se do mal-estar, pois essa defensiva só o leva ao empobrecimento. Enfrentar o medo do espantoso, da estranheza e do va- zio8 é fundamental para o enriquecimento humano. Nesse ponto, os efeitos de uma ideologia da medicalização ou da psicologização do sofrimento ten- dem a esvaziar o conteúdo da experiência humana do sofrimento. Também a tentativa de patologizar, ou seja, de criar entidades nosográficas para todos os inales e desatinos, reduz a perspectiva de uma visão do que é o humano ou de como se produz a subjetividade e seus desdobramentos de sentido na cultura
e na história. Lançemos mão da análise feita por Jurandir Freire Costa 9 , estabelecendo três tipos de ética que podem ser inferidos dos discursos que sustentam as práticas assistenciais cm psiquiatria: a ética da tutela; a ética da interlocução e a ética da ação social. Evidentemente, existem fronteiras e transições entre esses tipos, mas eles procuram refletir e caracterizar atitudes e posições definidas nos discursos e práticas correntes.
Ética da tutela ou ética instrumental (Ótica asilar ou da reclusão)
Trata-se de uma posição através da qual o sujeito do tratamento é considerado previamente como privado de razão e vontade. Essa definição deriva de dois pon- tos: da descrição fisicalista dos sintomas apresentados pelo indivíduo, que são explicados como derivados de causas fisiológicas que escapam à razão e à vontade do sujeito; esse, por seu turno, seria privado da razão e da vontade não pelas
8 RILKE, R. M. Cartasaumjorcmpoeta:acançãodeamoremortedojoremporta-estandarte. São Paulo: Globo, 1996.
9 COSTA, J. F. "As éticas da psiquiatria". Em: FIGUEIREDO, A. C. & SILVA FILHO, J. F. Ética
esaúde mental. Op. cit.
Ação e reflexão no campo dos cuidados
149
causas, mas sim pelas conseqüências jurídico-legais de seus atos. Há aqui uma junção médico-jurídica de interdição do sujeito, uma vez que a origem biológica
de seus atos seria lesiva ao meio, sendo ele tido como incapaz ou irresponsa.Ycl
pelo que faz. Dito de outro modo, esse tipo de ética pressupõe a máxima objetivação
do sujeito: necessitado de assistência, seu tratamento é prescrito sem levar cm
conta a análise de uma possfrcl demanda por tratamento. É um modelo de prestí- gio, já que, ao oferecer a ilusão do cuidado total, carrega consigo a ilusão de
conforto e proteção contra o mal-estar e o sofrimento do lugar ocupado pelo doente mental na sociedade.
Ética da interlocução ou ética da moral privada
Essa posição é identificada a partir de uma relação cm que sujeito e agente são basicamente definidos no vocabulário psicológico. O sujeito não aparece como estando privado de razão, mas como portador de uma outra Yontade e de uma outra razão. Disso decorre o questionamento do instituído, do estabelecido.
O discurso do sujeito em tratamento é dotado de competência, tornando o
poder do especialista mais limitado, menos onipotente. Há uma valorização
da esfera privada cm que se concebe o sujeito como alguém dotado de Yida
interna e de desejo próprio. Podemos situar, nesse tipo de ética, o cuidar como sinônimo de tratar, ou seja, o cuidado e o convívio são entendidos como
o próprio tratamento.
Ética da ação social ou ética pública (ótica da re-inserção social)
Nesse terceiro tipo de ética, sujeito e agente se definem sobretudo como compa- nheiros de viagem em um mundo não estabelecido, tentando refazer a ordem geral, entendida como não determinada apriori. Os sujeitos ou atores envolvidos são considerados pares ou cidadãos, dispostos a renovar o instituído e abrir espaço para a ação e a integração. No ideal da assistência, juntam-se de forma equivalente virtudes políticas - conscientização, organização e ação no mundo objetivo e intersubjetivo - e virtudes terapêuticas - a cura e a possibilidade de desfrutar o bem comum. Essa posição tem caracterizado as práticas que buscam cuidar dos marginali- zados, sejam eles definidos pela psiquiatria ou incluídos cm outras formas de mi- norias, tais como diferentes etnias, drogadictos, pessoas que vivem com aids etc. Trata-se, cm suma, de um modelo de ação social que via de regra surge nas discussões encaminhadas por equipes interdisciplinares.
150
Clínica e pesquisa cm psicanálise
O Outro da loucura e da miséria: dissimetria radical?
Um aspecto que observamos, às vezes com revolta, outras vezes com tristeza, é a indiferença e a banalidade que predominam cm instituições assistenciais ante o sofrimento do outro, ou seja, justamente onde aqueles que sofrem esperam rece- ber atenção e solidariedade. A fim de indicá-lo, relatarei um acontecimento muito marcante do início de minha experiência em psiquiatria, na década de 1970. Faço
uso dele aqui depois de tanto tempo porque ainda retorna à minha mente sempre que me refiro a essa época. Para mim, trata-se de um ato que quebra o princípio de todas as modalidades de ética apresentadas anteriormente. Em 1975, ainda aluno do curso de psicologia, fazia plantão em uma emergên- cia psiquiátrica aos domingos. Certa noite, chegou uma ambulância de um hospi- tal municipal conduzindo uma moça que apresentara ~lgumas alterações emocio- nais e comportamentais. O médico queria simplesmente deixá-la e ir embora, entretanto o chefe de plantão era criterioso, e descobriu que ela havia sido alveja- da por uma bala de revólver que perfurara seu abdome. Como o setor não contava com equipe clínico-cirúrgica, ele a medicou psiquiatricamente, orientando ao medico da ambulância para que a levasse de volta, a fim de que pudesse receber a assistência adequada. Logo depois, fechada a grade de entrada da emergência, permanecemos de plantão apenas eu e uma residente de psiquiatria. Algum tempo depois, escuta- mos uns gemidos do lado de fora. Ao sairmos, ficamos horrorizados com a cena: o médico haYia retornado com a ambulância e abandonado a paciente, que recebeu sedativos, no chão do pátio externo do Hospital, sem qualquer intervenção cirúr- gica. Foi então recolhida e registrada a ocorrência em livro, esperando a manhã seguinte para ser encaminhada. Saímos do plantão sem saber dos desdobramentos da situação. Não soubemos se o médico foi punido ou se seu ato criminoso deixou marcas cm sua consciência. O fato é que o eco dessa experiência nunca calou cm mim. Por que um jovem médico, que deveria estar investido de um grande ideal em relação a sua profis- são, comete um ato desses? Participaram do ocorrido outros co-responsáveis: um auxiliar de enfermagem e o motorista. Todos eram profüsionais de uma institui- ção pública e deveriam estar ali para cuidar da população.
Sen-
do pobre, a paciente não foi tratada como uma pessoa com direito aos cuidados médicos e cujo anonimato favorecia os médicos em sua falta de ética. Provavel- mente, se a paciente tivesse mais poder aquisitivo, isso não aconteceria. Assim,
Podemos pensar que fatores de classe foram decisivos para essa conduta
Ação e reflexão no campo dos cuidados
151
parece ter prevalecido nessa situação a Ótica do dominante que não enxerga os indivíduos das classes pobres como cidadãos ou pessoas. Sem alma e sem valores,
são ~istos como seres desqualificados que não chegam a causar nem mesmo compaixão. Em vez de uma atitude compreensiva, desprendida e solidária, en-
contram indiferença e dcscompromisso. Costa tem chamado a atenção para os efeitos da banalização da vida, cm que o
outro despossuído (pobre, índio, negro, louco etc.) é anulado pelo olhar da indiferen-
ça e desaparece em sua humanidade. Ótica essa que leva ao alheamento e à irresponsabilidade em relação ao outro, assim como ao desrespeito e à violência
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cm |
relação a sua integridade física e moral 10 • |
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Pensar a ética no campo da assistência pública ou a conduta ética em relação |
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ao |
outro que sofre nos leva a refletir sobre a própria chegada do europeu na |
América. Os conquistadores não tiveram qualquer piedade no trato com os seus habitantes, praticando um verdadeiro genocídio 11 • Ao chegarem aqui, considera-
ram-se seus legítimos donos. Sem visibilidade na Europa, o continente americano
e seus habitantes não tinham existência, mesmo que contassem com culturas
bastante desenvolvidas, por exemplo, as culturas inca, asteca e maia. Vale dizer, não foram vistos como outros para o eu conquistador ou invasor (dito descobridor). Dessa forma, os nativos não surgem aos olhos do conquistador como outros seres
humanos e, portanto, não pertencem ao crivo de sua ética. Porque estavam fora de seus parâmetros normativos, não havia limite nas ações perpetradas contra eles.
Cuidar do outro não significa submetê-lo aos nos~os domínios, mas sim incli-
nar-se sobre alguém que vivencia a diversidade em seu próprio corpo e espírito. Isso exige uma dose de empatia e também de sofrimento. Sem esse patos, todavia,
não há o júbilo da superação. Como afirma Richard Sennett:
A simpatia corresponde ao entendimento de que as aflições exigem um lugar em que possam ser reconhecidas e onde suas origens transcendentes sejam visíveis.
[ J O sofrimento flsico possui uma trajetória na experiência humana. Ele desorien- ta e torna o ser incompleto, derrota o desejo de arraigamento; aceitando-o, estamos prontos a assumir um corpo cívico, sensível às dores alheias, presentes,
'º Cf. também FERREIRA, A. P. O migrante na rede do Outro. Rio de Janeiro: Te Corá, 1999.
11 Há estimativas que calculam o desaparecimento de aproximadamente setenta milhões de habitantes dessa região em pouco mais de um século após o embarque europeu. Cf.
TODOROV, T. A conquista da ,4mérica: a questão do Outro. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
152
Clínica e pesquisa em psicanálise
junto às nossas, na rua, finalmente suportáveis -
mesmo que a diversidade do
mundo dificulte explicações mútuas sobre quem somos e o que sentimos 12 .
A compaixão produz efeitos no desenvolvimento moral - efeitos do confronto
com o outro radical (morte - sofrimento físico - diferença) - que nos põem no centro da castração ou diante do desamparo e da incompletude. A inclinação sobre o outro que sofre leva ao exercício subjetivo do desenraizamento. É certamente algo que assusta, e por isso a atitude burocrática do técnico pode surgir como proteção contra esse temor. Ao ser institucionalizada, contudo, ganha status de senso comum e, como ideologia vigente, impede novas práticas transformadoras
e estanca a fruição da Yida. Ser neutro, tomar o outro como objeto, é um modelo
de assepsia contra a contaminação do outro que certamente esvazia a relação humana.
O lugar de sujeito e agente é contraditório, pois., de um lado, obriga o ser
humano ao assujcitamento que garante a entrada na ordem da cultura e, do outro, dele exige atividade e criatividade para adaptar-se e criar como cidadão produtor
de cultura. Aí reside o ponto de discussão sobre as instâncias internas e externas do julgamento ético. Na definição deVásquez, a essência do comportamento moral implica a dimensão da liberdade, o conjunto de normas que deve ser aceito livre
e conscientemente. -Esse conjunto de normas só existe intersubjetivamente, ou seja, regulando o comportamento individual e social dos homens. Trata-se, assim, de uma instância intersubjetiva, compartilhada, e não de algo gerado em um inte- rior, pois mesmo o interior é gerado em um campo interativo e cultural.
A conduta ética é resultante de um complexo processo de constituição da
subjetividade e da alteridade humanas, o que implica a possibilidade de o sujeito conduzir de forma consciente seu desejo cm face dos limites do Outro e da Lei. Na prática ética, ou seja, na relação com o outro, principalmente no exercício dos cuidados, devemos "ter noção do nosso desejo para que possamos nos situar em relação ao desejo do outro" 13 • Isso significa a introjeção de valores estabelecidos pela comunidade de pertinência, o que só é possível quando o sujeito-teve mode- los ou ideais de identificação. Sem isso, pode surgir espaço para a delinqüência,
seja pela miséria material, seja pela miséria de valores.
A internalização de uma instância capaz de julgar o que é certo e errado, o que
é o bem ou o mal, não é possível apenas pelo ato canibalístico de devorar ideais. Se a
11 SENNETT, R. Carne e pedra. Rio de Janeiro: Rccord, 1997, p. 305.
' 3 CAVALCANTE, T. M. "Ética e assistência à saúde mental". Em: FIGUEIREDO, A. C. & SILVA FILHO, J. F. Ética e saúde mental. Op.cit., p. 78.
Ação e reflexão no campo dos cuidados
153
identificação passa pela matriz canibalística, deve haYcr, cm contrapartida, o proces- so de digerir, confrontar, metabolizar, enfim, de desindentificar-sc 14 • Esse processo exige o confronto das várias identificações ao longo da formação social do indidduo. Em razão do mal-estar na sociedade e das decepções com os ideais sociais, temos a tendência de retornar a um ideal naturalista, cm que se imagina um ser essencial- mente bom e puro, sem as contradições de valores e sem a maldade atribuída ou projetada na vida em sociedade ou na civilização. Nossa sociedade moderna tem o ideal de construção de um sujeito livre que possa agir como agente social através de sua marca singular, uma forma de subjetivação ética que, segundo a tradição foucaultiana, não se daria pela submissão às regras universais, mas sim pela busca de individualização da ação, na qual a própria ,·ida ganha um colorido de singula- ridade15. O que assistimos na sociedade globalizada e do consumo, contudo, é a redução do sujeito a um mero consumidor, em que a cidadania é um mero valor de mercado.
"MANNONI, O. "A dcsidcntificação". Em: VV. AA. A idcnti/)cação. Rio de Janeiro: Relumc/ Dumará, 1994.
,; CHAVES, H. Foucaultcapsicanálise. Rio de Janeiro: Forense Uni\'ersitária, 1988.
154
Clínica e pesquisa cm psicanálise
Sobre os autores
Ademir Pacelli Professor do Programa de Pós-Graduação em Pesquisa e Clínica cm Psicanálise do IP/ UERJ. Professor Adjunto do IP /UERJ. Procicntista. Coordenador do Curso de Residência em Psicologia Clínica Institucional do Instituto de Psicologia da UERJ.Doutor cm Psicologia Clínica pela PUC-Rio. Autor de O migrante na rede do Outro (Rio de Janeiro: Te Corá, 1999).
Ana Paula Corrêa Sartori Mcstranda do Programa de Pós-Graduação em Pesquisa e Clínica em Psicanálise do IP/ UERJ. Bolsista da FAPERJ. Psicóloga. Psicanalista. Correspondente da Escola Brasileira de Psicanálise da Seção Rio de Janeiro.
André Schaustz Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Pesquisa e Clínica em Psicanálise do IP/ UERJ. Psiquiatra do Hospital Psiquiátrico de Jurujuba, Niterói. Psicanalista. Membro da Escola Letra Freudiana.
Doris Rinaldi Professora do Programa de Pós-Graduação cm Pesquisa e Clínica cm Psicanálise do IP/ UERJ. Professora Adjunta do IP /UERJ. Procientista. Doutora em Antropologia Social pelo Museu Nacional/UFRJ. Bolsista de Produtividade CNPq. Psicanalista. Membro da Intersecção Psicanalítica do Brasil. Autora de A ética da diferença: um debate entre psicanálise e antropologia (Rio de Janeiro: Eduerj / Jorge Zahar Editor, 1996) e de A terra do santo e o mundo dos engenhos: estudo de uma comunidade rural nordestina (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980).
Jean Szpirko Professor da Écolc Supéricur Montsourir, Paris XII. Psicanalista. Membro da Société de Psychanal_ysc Freudicnne e da Escuda de Psicoanálisis Sigmund Freud de Rosario, Argen-
tina. Autor de La clinica psicoanalitica
con d correr de la cicncia (Rosario: Homo Sapicns, 1995).
Kátia W ainstock Alves dos Santos Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Pesquisa e Clínica em Psicanálise do IP/ UERJ. Bolsista da CAPES. Psicóloga. Psicanalista. Membro de Laço Analítico Escola de Psicanálise.
Lcnita Bentcs Mestranda do Programa de Pós-Graduação cm Pesquisa e Clínica cm Psicanálise do IP/ UERJ. Bolsista da CAPES. Psicóloga. Psicanalista. Organizadora do livro O brilho da (in)felicidade (Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 1998).
Lia Amorim
Mestranda do Programa de P6s-Graduação em Pesquisa e Clínica em Psicanálise do IP/
UERJ. Bolsista da CAPES. Bacharel em Direito. Psicanalista. Membro da Escola Letra Freudiana.
Luciano Elia Coordenador-Adjunto do Programa de P6s-Graduação em Pesquisa e Clínica em
Psicanálise do IP/ UERJ. Coordenador do Curso de Especialização cm Psicanálise e Saúde
Mental do mesmo Programa. Professor Adjunto do IP /UERJ. Procicntista.
P6s-Doutor
em Psicanálise e Doutor em Psicologia Clínica pela PUC-Rio. Psicanalista. Membro do Laço Analítico Escola de Psicanálise. Membro Correspondente do Mouvement du Cout
Frcudicn. Autor de Corpo e sexualidade em Freud e Lacan (Rio de Janeiro:
UAPÊ, 1995).
Marco Antonio Coutinho Jorge
Professor Pesquisador pela FAPERJ do Programa de P6s-Graduação cm Pesquisa e Clínica
cm Psicanálise do IP /UERJ. Doutor cm Comunicação e Cultura pela UFRJ. Psiquiatra.
Psicanalista. Membro do Corpo Freudiano do Rio de Janeiro - Escola de Psicanálise.
Membro Correspondente do Mouvement du Cout Freudien (Paris). Autor de Fundamentos
(Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000)
da psicanálise de Freud a Lacan - vol.1: As bases conceituais
e Sexo e discurso cm Freud e Lacan (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988).
Nelma Cabral Mestranda do Programa de P6s-Graduação cm Pesquisa e Clínica cm Psicanálise do IP/ UERJ. Bacharel em Matemática. Psic6loga. Psicanalista.
Sonia Albcrti
Coordenadora do Programa de P6s-Graduação em Pesquisa e Clínica em Psicanálise do
IP /UERJ.
Nanterre. Psicanalista. Membro de Formações Clínicas do Campo Lacaniano do Rio de Janeiro e da Associação F6runs do Campo Lacaniano. Autora de Esse sujeito adolescente (Rio de Janeiro: Rios Ambiciosos, 1999, 2ª ed.) e organizadora de Autismo e esquizofrenia na clínica da
esquizc (Rio de Janeiro: Rios Ambiciosos, 1999).
Professora Adjunta do
IP /UERJ. Procientista.Doutora em Psicologia- Paris X,
Sônia Altoé Professora do Programa de P6s-Graduação em Pesquisa e Clínica em Psicanálise do IP! UERJ. Professora Adjunta do IP/UERJ. Procientista. Coordenadora do Curso de Especialização em Psicologia Jurídica (UERJ). P6s-Doutorado em Psicologia pela Université ParisVIII. Autora delnfâncias perdidas (Rio de Janeiro: Xcnon, 1990) e organizadora de Sujeito do direito, sujeito do desejo. (Rio de Janeiro: Revinter, 1999).
A importância de sab'ser c@mo e
onde torna-se p>ossí el W mitit a experiência ps·caqal:ítica tem acompanhacde a liiist6ria da invençã@ freudiana. As c@J.aseqiiên©ias Glo que tem sido rec;:€$.lhidope~ escuta d0s psicanalistas líl.ã© se resumém às mudanças oc@rridas ROS sujeitos que se submetem à aLJ.álise. O pr6pri0 freud demonstt0u diversas vezes seu interesse em inserir a pskanálise na sé'Fie dos saberes e das ciências. Ainda qm~ advertido aceFcai da dicotomia eJcistente e:ntre a ética psicanalíti11:a
e a norma w:ílive'Jrsiitária, ele procurou levar seu ensino :para
além de sua Frática clmica e da instimcion ·za~ão da pskanâlise. As duas séFies de comerências
introdutórias !i:J.Ye proferiu em 1~17
e 1932 em um. espaço un.iversitári@
testemunham sua preocupação em repassar c0m rigor os ep.sin.amen.t@s
decmren~s de sYa pesquisa. Elas afinam conceitos desenvolvidos ao long0 dos anos e compo'rtam material que permane@e valioso tamto para estudos teóricos quanto clínicos. Algillflas d.tcadas depois, Jacques Lacan estabeleceria as co:ndições da articulação do discurso analítico com os demais cdiscursos. A definição das ;relações eJcistentes enti'e o discurso analítico, e discurso do mestre, o discurso da histérica e o discurso u:mv.ersitárjo em vez de diluir a virulência dos conceitos psicanalíticos, o;vienta
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