Вы находитесь на странице: 1из 5

“Por que o Estado precisa do nosso sexo como um critério definidor do que nós somos? 1

(Parte Final)”

1
1

Vou ficar mais um pouquinho Para ver se eu aprendo alguma coisa nessa parte do caminho. Martela o tempo pr'eu ficar mais pianinho Com as coisas que eu gosto E que nunca são efêmeras E que estão despetaladas, acabadas Sempre pedem um tipo de recomeço. 2

Ser humano significa ser um ente que só encontra correspondência em uma genitália?

Dando continuidade à nossa reflexão, vamos pensar um pouco na noção ou conceito do que seja pessoa. O Código Civil de 2002 informa que Art. 2º A personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida; mas a lei põe a salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro (BRASIL, 2002). Sem entrarmos no mérito das teorias da personalidade[1], hodiernamente, a partir do Código Civil de 2002, com o advento da repersonalização inspirada na Constituição de 1988, o ser humano é visualizado de forma ontológica e holística, sendo o mesmo o centro das relações jurídicas (FRANÇA, 2016).

Sendo assim, considerar ontologicamente a pessoa, significa dizer que a consideramos o ser com toda a sua generalidade, independentemente de que classe de “ser” se trate (MORA, 1996:523); visualizar holisticamente é, por interpretação, considera-lo num todo ou num sistema completo, e não à análise, à separação das respectivas partes componentes (FERREIRA, 2001:366), ou seja, ver a pessoa como parte de uma espécie – humana – contextualizando-a com seus simbolismos e significados culturais e íntimos.

Deste modo, podemos incluir considerar a pessoa envolvendo identidade, sexualidade, origem, etc (e vários outros marcadores identitários) e, assim, voltar nosso olhar para o gênero (compreendido como conceito corrente utilizado para designar os modos de classificar as pessoas como pertencentes a mundos sociais, a princípio, organizados pela diferença de sexo[2]) partindo de uma abordagem construcionista[3], onde as identidades sexuais são “construções” produzidas por sistemas particulares de classificação, organização social e regulação política, dotados de lógica própria e historicamente discerníveis (SIMÕES, 2012:

420) e não apenas como uma classificação biológica que o enquadra como homem ou mulher somente, já que sua construção não se limita a isto, como veremos.

De acordo com a Doutora em Ciências Sociais Berenice Bento, apenas alguém muito desavisado poderá fazer coincidir masculinidades=homens e feminilidades=mulheres e, ainda, afirma

que de pouco a pouco, pelas experiências de sujeitos concretos, por estudos e ativismos, o gênero está, finalmente, sendo abolido do corpo-cronossomático-neural-hormonal (BENTO, 2014:12), de tal monta que a construção do indivíduo está muito além de ser limitado à genitália que “ganharam” ao nascer.

E, para o espanto de alguns, cujo pensamento categoriza que gays, lésbicas e transexuais estão à margem da sociedade, sendo um número restrito de pessoas, tidas por pervertidos, isolados e, entretanto, é um conjunto de milhares de pessoas[4] e que não pode ser ignorado, encurralado,

a homossexualidade é

apresentada como um desejo reprimido (experiência negada), feita para parecer invisível, anormal e silenciada por uma sociedade que legisla a heterossexualidade como única prática normal (SCOTT, 1991). A questão não caminha na estrada de um reconhecimento/aceitação dos

demais

esquecido ou sufocado. Todavia, é assim que é tratada a questão: (

)

até porque, não cabe a qualquer pessoa aceitar o que o outro é. A aceitação é algo

íntimo, interno, que diz respeito ao que somos e como nos vemos. Ao outro cabe o dever geral de

não causar dano a outrem: “Iuris praecepta sunt haec: honeste vivere, alterum non laedere, suum cuique tribuere” – cujo principal é: não causar dano a outrem. E, ao Estado cabe a proteção da individualidade expressa pela própria dignidade humana.

Sendo assim, o ser humano, a pessoa, o sujeito de direitos deve ser visto sob o prisma de

multiplicidade e de existências reais que não se prendem aos modelos ideais propostos, dispostos em quadradinhos como se viéssemos com manuais de instrução ou botões on/off para sermos ou deixarmos de ser alguém. Já ouvimos, desde (sempre?) muito tempo, que nada que é humano nos surpreende[5], entretanto, o preconceito e a discriminação ainda nos colocam a pensar: surpreende menos a ignorância da discriminação do que o outro, mesmo reconhecidamente igual, a despeito de suas diferenças pessoais, preferenciais, “normais”

somos todos humanos!)? Que justificativa plausível temos para limitar a dignidade de

(afinal

alguns humanos por suas essências, escolhas ou seja-la-mais-o-que-for que compõe sua identidade, seu gênero ou – até mesmo – sua própria significação simbólica numa sociedade?

Considerando o papel do Direito, a partir da leitura dos direitos humanos, e a colocação da dignidade da pessoa humana como fundamento último do direito, temos que somos considerados “pessoa” enquanto sujeito de direitos e, portanto, merecedores da tutela protetiva no contexto das relações humanas e, ainda, exigimos uma conduta negativa da coletividade, como a não violação da personalidade alheia e, completando com os ensinamentos de Cristiano Chaves e Nelson Rosenvald (ao explicar a distinção entre direitos da personalidade e liberdades

públicas[6]):

"Os direitos da personalidade são estudados sob a ótica do direito privado, considerados como garantia mínima da pessoa humana para as suas atividades internas e para suas projeções ou exteriorizações para a sociedade. Por isso, impõem à coletividade uma conduta negativa,

evitando embaraço a seu exercício. (

Em outras palavras, enquanto os direitos da

personalidade afirmam a proteção avançada da pessoa humana, estabelecendo condutas negativas da coletividade (obrigação de não fazer, isto é, não violar a personalidade de outrem),

as liberdades públicas funcionam a partir de garantias constitucionais impondo condutas positivas ao Estado para que sejam assegurados direitos da personalidade" (2014:176-177).

)

Sofrem toda sorte de malefícios aqueles que não aderem ao mandamento de que “se você nasceu

com pênis, é homem e, portanto, haja como tal

portanto, haja como tal! Você pode até ter uma preferência ou ‘brincar’ de mudar os papéis aos

quais você foi destinado

se! Envergonhe-se! Engula o fato de que você acredita que é um ser humano, pois não é!” Querer

se você nasceu com vagina, é mulher e,

mas, faça-o longe das vistas das pessoas de bem!” Ou seja: “esconda-

cortar seu pênis e colocar uma vagina no lugar? Isso é contra as leis da natureza!!! (como se nós,

humanos, não desafiássemos a natureza o tempo todo

)

E, como já dissemos, em que se fundamenta a limitação de determinados direitos à pessoas que não consideram válidos os ditames da heteronorma? E a liberdade? E o direito à intimidade? E a proteção contra a discriminação e o preconceito? Fato é que esses questionamentos não acolhem todas as práticas discriminatórias e violências sofridas por pessoas cuja identidade não atende aos ditames da “heteronorma”. A violência de gênero é sentida por mulheres, gays, lésbicas e transexuais no Brasil e no mundo[7]. É o ciclo da discriminação trazida pela ignorância e pela não aceitação do outro: de piadinhas a homicídios. O quadro se repete. Edison Fachin[8], em voto no RE 845.779/SC[9], informa que:

“A Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização de Estados Americanos (OEA) registrou o Brasil como o país com o maior número de mortes violentas de pessoas trans no continente, no período de janeiro de 2013 a março de 2014. Com uma diferença de 100 casos para o segundo colocado, o país registrou 140 assassinatos”.

É muito mais grave do que podemos imaginar. O RE 845.779/SC trata de um pedido de indenização por danos morais, requerido por uma mulher trans (pessoa que nasceu com

genitália masculina, mas que se construiu mulher a despeito da rotulação biológica que recebeu), entretanto, a questão não se encerra aqui. São pessoas perseguidas de várias maneiras

e que sofrem violência diariamente, como consequência direta da visão preconceituosa de pessoa que se reproduz em nossa sociedade.

Em anotações para o voto oral do Min. Luís Roberto Barroso[10], ele esclarece, com muita propriedade e considerando os pontos que se deve considerar ao confrontar a violação de direitos que envolvem a dignidade da pessoa humana somada a proteção constitucionalmente dada às pessoas, que:

“Cabe por fim, dentro desse tópico, fazer a ponderação entre o direito de uso de banheiro feminino de acesso ao público por parte de transexual feminina e o direito de privacidade das mulheres (cisgênero). Note-se que o suposto constrangimento às demais mulheres seria limitado, tendo em vista que as situações mais íntimas ocorrem em cabines privativas, de acesso reservado a uma única pessoa. De todo modo, a mera presença de transexual feminina em áreas comuns de banheiro feminino, ainda que gere algum desconforto, não é comparável àquele suportado pela transexual em um banheiro masculino. Pedindo licença às pessoas por citar os seus nomes e condição, imagine-se o grau de desconforto que sentiriam, por exemplo, Roberta Close ou Rogéria se fossem obrigadas a utilizar um banheiro masculino”. (grifo nosso)

Assim, sem querer menosprezar o direito à intimidade de cada mulher cisgênero (aquela pessoa que nasceu com a genitália feminina e se constrói como mulher, socialmente), precisamos ponderar a fonte de cada um desses desconfortos, inclusive, considerando a amplitude e repercussão de cada um, sem ignorar o fato de que um se funda no preconceito e o outro, numa violação à sua identidade, personalidade, dignidade de uma pessoa discriminada. Neste caso, podemos dizer que estamos a vislumbrar uma passagem significativa da nossa sociedade: a

proteção da dignidade da pessoa humana, sem distinções (injustas) de gênero. Não encerra todo

a transformação que buscamos com nossas humildes reflexões, tendo em vista que tal

transformação depende da transformação de cada pessoa, no respeito às diferenças. Entretanto, já nos enche de esperanças de que, um dia, daremos valor ao reconhecimento e aplicação da

paridade de gênero.

Referências

***

BENTO, Berenice. A reinvenção do corpo: sexualidade e gênero na experiência transexual. Rio de Janeiro: Garamond, 2006.

BRASIL. Código Civil Lei 10.406. Texto publicado em 10 de janeiro de 2002. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/L10406.htm. Acesso em: 16/Set/2016.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Texto promulgado em 05 de

09/Set/2016.

CHAVES, C. e ROSENVALD, Nelson. Curso de Direito Civil. Vol. I. 12ª ed. São Paulo:

JusPodivm, 2014.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio Século XXI Escolar: o minidicionário da língua portuguesa. 4 ed. rev e ampliada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

FRANÇA, Catarina. A repersonalização do direito civil segundo a teoria tridimensional. Disponível em: http://bcej.com.br/direito-privado/repersonalizacao-do- direito-civil-segundo-teoria-tridimensional/. Acesso em: 16/Set/2016.

HEILBORN, Maria Luiza; ZAMBRANO, Elizabeth. Identidade de Gênero. In Antropologia e direito: temas antropológicos para estudos jurídicos. Souza, A. C. de. (org). Rio de Janeiro/Brasilia: Contra Capa / LACED / Associação Brasileira de Antropologia, 2012.

MORA, José Ferrater. Minidicionário de Filosofia. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

SIMÕES, Julio Assis. Identidades Sexuais. In Antropologia e direito: temas antropológicos para estudos jurídicos. Souza, A. C. de. (org). Rio de Janeiro/Brasilia: Contra Capa / LACED / Associação Brasileira de Antropologia, 2012.

***

[1] O código Civil privilegia a teoria natalista, entretanto, há as teorias da personalidade condicional e a teoria da concepção. Vide, dentre outros: CHAVES, C. e ROSENVALD, Nelson. Curso de Direito Civil. Vol. I. 12ª ed. São Paulo: JusPodivm, 2014.

[2] HEILBORN,

Gênero. In Antropologia e direito: temas antropológicos para estudos jurídicos. Souza, A. C. de. (org). Rio de Janeiro/Brasilia: Contra Capa / LACED / Associação Brasileira de

Antropologia, 2012, p. 412,

Maria

Luiza;

ZAMBRANO,

Elizabeth. Identidade

de

Essa

abordagem “construcionista” se contrapõe (

biomédicas, de identidades de sexo e gênero fundadas numa natureza biológica, trans-

[3] Simões

“essencialistas”

à visão “essencialista”, frequente nas ciências

explica

a

oposição

entre

e

“construcionistas”

ao

dizer:

)

histórica e transcultural, cujos efeitos traçam um grande divisor da humanidade entre uma maioria “heterossexual” e uma minoria “homossexual”. Para a visão “construcionista”, a sexualidade se torna suporte de identidades e comunidades apenas em determinados contextos históricos e culturais” (SIMÕES, 2012:421).

[4] SCOTT, Joan W. A invisibilidade da experiência. Trad. Lucia Haddad. “The evidence of experience”. Critical Inquiry, summer 1991, vol I nº 4, University of Chicago Press.

[5] Homo sum, humani nihil a me alienum puto” (Terêncio).

[6] Liberdades

autodeterminada, em face da autorização expressa ou implícita do Estado (LISBOA, Roberto Senise. Manual Elementar do Direito Civil, p. 176).

forma

públicas

são

condutas

individuais

ou

coletivas

realizadas

de

[7] Entre as seis regiões do mundo, os maiores números absolutos foram encontrados em países com movimentos trans e organizações da sociedade civil fortes que realizam algum tipo de monitoramento profissional: Brasil (802), México (229), Colômbia (105), Venezuela (98) e Honduras (79) na América Central e do Sul; Estados Unidos (132) na América do Norte; Turquia (41) e Itália (33) na Europa; e Índia (54), Filipinas (40), e Paquistão (34) na

Ásia. Disponível

content/uploads/2016/03/TvT_TMM_TDoV2016_PR_PT.pdf. Acesso em: 16/Set/2016.

[8] RE 845.779/SC. Disponível em: http://ibdfam.org.br/assets/img/upload/files/RE-845779- %20Voto%20Min%20%20Edson%20Fachin.pdf. Acesso em 16/Set/2016.

[9] RE 845.779/SC Ementa: TRANSEXUAL. PROIBIÇÃO DE USO DE BANHEIRO. FEMININO EM SHOPPING CENTER. ALEGADA VIOLAÇÃO À DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E A DIREITOS DA PERSONALIDADE. PRESENÇA DE REPERCUSSÃO GERAL.

[10] Disponível Acesso em 16/Set/2016.

[i] Postagem no facebook cuja autoria seria de Luiza Coppieters, candidata a vereadora pelo

PSOL/SP.

09/Set/2016.

Disponível

Acesso

em:

[ii] RUIZ, Tulipa. Efêmera. Disponível em: https://www.letras.mus.br/tulipa-ruiz/1686611/. Acesso em: 02.set.2016.

1 Postagem no facebook cuja autoria seria de Luiza Coppieters, candidata a vereadora pelo PSOL/SP. Disponível em:

https://www.facebook.com/luizacoppieters?fref=ts. Acesso em: 09/Set/2016. 2 RUIZ, Tulipa. Efêmera. Disponível em: https://www.letras.mus.br/tulipa-ruiz/1686611/. Acesso em: 02.set.2016.