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Otan lança resposta para os desafios da nova ordem

internacional
Força expedicionária é chave no processo de transformação da organização

Entrou em serviço em outubro deste ano a Força de Resposta da Otan (Nato Response
Force – NRF). Com efetivo de aproximadamente 20 mil homens, pronta para
desenvolvimento em cinco dias após aviso, capaz de fazer entrada à viva força e com
meios para se manter em operação por 30 dias sem reabastecimento, a NRF é a resposta
da organização ao novo cenário internacional.

Esse cenário se caracteriza pelas ameaças do terrorismo, do crime organizado, da


proliferação das armas de destruição em massa, da instabilidade criada pelos chamados
failed States – Estados sem governança forte que mergulham em desordem e violência.

Com base nesse cenário, a estrutura da NRF foi pensada para permitir a organização e
que a preparação de forças adequadas às diferentes missões. Para isso, ela é composta
de elementos terrestres, marítimos e aéreos. Seu componente terrestre é composto por
uma brigada. O elemento naval é uma força-tarefa constituída por um grupo de batalha
aeronaval, um grupo-tarefa anfíbio e um grupo de ação de superfície. A parte aérea é
capaz de 200 saídas de combate por dia.

Entre os cenários de emprego possíveis estão o emprego como força de demonstração e


solidariedade para deter uma agressão, como força capaz de se manter pelos próprios
meios em defesa dos Estados membros ou no gerenciamento de crises e estabilização,
ou como força de entrada para força maior.

Sua constituição faz parte de amplo processo de reestruturação da Otan. Desde o fim da
Guerra Fria, a organização estava em busca de um novo papel.

Transformação
Desde sua fundação, em 1949, até o fim da Guerra Fria, em 1989, a possibilidade de um
confronto militar na Europa dominou o planejamento militar e a ação política da Otan.

Com o fim das condições que lhe deram origem, a primeira missão da organização seria
se reinventar ou desaparecer.

Nesse contexto, surge o processo de transformação da organização. Do ponto de vista


militar, esse é um processo dinâmico, sem fim previsível. Por isso, em seus
pronunciamentos, o atual secretário geral da aliança, Jaap de Hoop Scheffer, sempre
enfatiza o caráter permanente desse processo.

Do ponto de vista histórico, a transformação da organização pode ser dividida em duas


fases. A primeira, começa na declaração de Londres, em julho de 1990, influenciada
pelo fim da Guerra Fria. O foco do documento era assegurar o auxílio necessário para
construir um continente mais unido, com base nos valores democráticos, direitos
individuais e a solução pacifica de controvérsias que fundam a Otan.
A segunda fase do processo de transformação tem início com a Reunião de Cúpula de
Praga, em novembro de 2002, e marcada pela experiência da campanha aérea contra a
Iugoslávia e pelos desenvolvimentos posteriores aos ataques de 11 de setembro.

Segundo Robert Bell, que foi assessor do secretário geral da aliança para Investimentos
em Defesa, a Guerra de Kosovo mostrou como era grande o fosso entre os aliados
europeus e os EUA. Naquele conflito, 90% das bombas guiadas usadas foram lançadas
por aeronaves americanas. Além disso, poucas aeronaves aliadas eram capazes de se
comunicar no ar por canais seguros, o que obrigou o uso de freqüências abertas. Esses e
outros fatos levaram o então secretário geral, lorde Robertson, a declarar,
posteriormente, que Otan tinha três prioridades: capacidades, capacidades, capacidades.

As forças terrestres da aliança, por sua vez, continuavam presas ao solo. Em outubro de
2003, lorde Robertson observou que, fora os EUA, os outros 18 países da organização
tinham aproximadamente 1,4 milhão de soldados em serviço e cerca de um milhão de
reservistas e, por isso, deveriam ser capazes por em campo mais do que os cerca de 55
mil soldados que serviam em forças multinacionais sem sentir-se sobrecarregados,
como estava ocorrendo.

Após Praga, o processo de transformação passou a ter quatro objetivos principais. O


primeiro era a expansão da organização, com a admissão de novos membros e a
ampliação de sua área geográfica em direção do Leste da Europa, Ásia central, norte da
África e Oriente Médio. O segundo era a transformação da Otan para fazer frente às
novas questões de segurança, das quais a participação no Afeganistão é um exemplo. O
terceiro, a expansão da rede de parcerias da aliança através da área euro-atlântica. Por
fim, a transformação das capacidades militares da organização, cujo motor e resultado é
a NRF.

O compromisso de constituir a Nato Response Force foi manifesto no primeiro dos


chamados sete pontos de Praga. Previu-se que a NRF deveria “consistir uma força
tecnologicamente avançada, posicionável, interoperacional e sustentável incluindo
elementos terrestres, marítimos e aéreos prontos para se mover rapidamente para
qualquer lugar necessário, como decidido pelo conselho”.

No mesmo item, estabeleceu-se, ainda, que a força também seria “o catalizador para
focar e promover melhorias nas capacidades militares da Aliança”. O pesquisador
alemão Henning Riecke observou que esse processo de transformação militar consiste
em grande medida na transferência para o resto da aliança das inovações tecnológicas,
doutrinárias e estruturais que mudaram a forma como os EUA são capazes de realizar
operações militares.

Por fim, acordou-se em Praga que a NRF teria sua capacidade operacional inicial
estabelecida o mais breve possível, sendo a data limite outubro de 2004. Ela deveria
estar completamente operacional até outubro de 2006.

Relacionado com as capacidades necessárias para a nova força e a própria organização,


na mesma reunião foi assinado o Compromisso das Capacidades de Praga. O
documento se focou em melhorias nas áreas de defesas QBRN, vigilância e aquisição de
alvos, vigilância ar-terra, C3, eficiência em combate, reabastecimento aéreo, transportes
aéreo e naval estratégicos e serviços de apoio ao combate e de apoio administrativos
desdobráveis.

Desenvolvimento
O conceito da força de resposta foi aprovado na reunião de ministros da defesa realizada
em junho de 2003. No comunicado final, os ministros confirmaram o compromisso
assumido em Praga em relação à constituição da NRF.

O passo seguinte foi a constituição da primeira NRF, inaugurada em 15 outubro de


2003. O primeiro comando foi criado em Brunssum (Holanda) sede do Quartel General
Regional das Forças Aliadas Norte (RHQ/AFNORTH), atual Joint Forces Command
(JFC) Brunssum. As forças da primeira rotação (NRF 1 e NRF 2) totalizavam 8,5 mil
homens cada.

Na cerimônia de lançamento da NRF, o então comandante do RHQ/AFNORTH, general


sir Jack Deverell, destacou entre as carências da organização a falta de transporte
estratégico para mover a força bem como de sistemas de informação e comunicação
desdobráveis.

A função dessas duas primeiras rotações foi experimental. Os testes realizados com
essas forças serviram de base para desenvolver os padrões de doutrinas, de treinamento
e de certificação, bem como os requisitos operacionais quando da entrada em serviço da
NRF.

Apesar de servirem de laboratório para o desenvolvimento dos conceitos da NRF, deve


observar-se que as forças que compuseram as duas primeiras rotações tinham
capacidade real de executar missões de evacuação de não-combatentes, de apoio a
operações de contra-terrorismo e, por fim, de auxílio a áreas atingidas por catástrofes
naturais ou não.

O processo de criação da força teve por princípio o aprender fazendo. Por isso, ele foi
marcado pela realização de exercícios militares para a certificação dos comandos e das
forças. A rotina tem sido de primeiro se fazer um exercício para certificar o QG e depois
outro para certificar as unidades. A certificação do primeiro quartel general, por
exemplo, foi feita na manobra Allied Action 2003 e da NRF 1 na Allied Response 2003.
Os dois exercícios foram feitos na Turquia.

No último exercício dessa etapa, o Allied Action 2004, pela primeira vez um
Deployable Joint Task Force Headquarters (DJTF HQ) passou por certificação. O
DJTF HQ é parte do QG da Combined Joint Task Force (CJTF). Sua função e
características serão explicadas mais adiante.

Em julho de 2004, o comando da NRF foi passado para o comando sul da organização,
em Nápoles então conhecido pela sigla RHQ/AFSOUTH, atual JFC Nápoles.

Nessa rotação, o programa de desenvolvimento da NRF atingiu maior maturidade. As


forças NRF 3 e NRF 4 foram as primeiras a passarem por etapas de certificação e
avaliação. Depois, foi anunciado que a força de resposta havia atingido o chamado
estado de capacidade operacional inicial durante reunião informal de ministros da
Defesa na Romênia, em outubro de 2004.
O comando das NRF 5 e NRF 6 ficou a cargo do Joint Command (JC) de Lisboa a partir
de junho de 2005.

Foi durante nesta rotação de comando que houve os primeiros empregos formais da
força. Entre setembro e outubro de 2005, elementos do grupo de transporte aéreo foram
empregados para levar ajuda humanitária às vítimas do furacão Katrina, nos EUA. Em
fins de outubro do mesmo ano, foi a vez das vítimas do terremoto no Paquistão
receberem esse tipo de ajuda. A operação de 90 dias incluiu o deslocamento, pela
primeira vez, do QG e de unidades terrestres da força – especialmente nas áreas de
engenharia e saúde.

Antes, na segunda rotação, unidades das NRF 3 e 4 haviam sido empregadas


informalmente na segurança das Olimpíadas de Atenas, das eleições no Afeganistão e
do funeral do papa João Paulo II.

Em junho deste ano teve início a quarta rotação de comando e a entrada em serviço da
NRF 7. Foi nesta fase que a NRF atingiu o status de completa operacionalidade. O
Steadfast Jaguar 2006 foi o último exercício antes do anúncio do novo status. Ele foi
realizado na República de Cabo Verde por sua distância da Europa e pelas
características de seu meio ambiente.

Organização da NRF
De acordo com o compromisso assumido na Reunião de Cúpula de Praga, as unidades
que compõem as NRFs são selecionadas com base nas ofertas feitas pelos Estados
membros e nas necessidades identificadas nas conferências sobre geração da força
realizadas pelo Saceur. Essas reuniões acontecem com pelo menos um ano de
antecedência antes do início do treinamento.

As unidades designadas servem em regime de rotação que varia de acordo com sua
posição na hierarquia e com o meio ambiente em que atuam.

No nível operacional, os Joint Force Command (JFC) de Brunssum e Nápoles e o Joint


Command (JC) de Lisboa alternam-se na direção da NRF. Cada comando é responsável
pela força durante um ano.

A rotação dos comandos e das unidades táticas, por sua vez, varia em função do meio
em que atuam, podendo chegar a dois anos de serviço na NRF.

O primeiro turno do serviço é o período de treinamento, que tem três fases. A primeira
delas começa antes da entrada da unidade na NRF. Sua execução é de responsabilidade
dos Estados membros da Aliança. Nela as forças designadas devem atingir padrões pré-
determinados pela Otan para o treinamento tático no nível da unidade.

Na fase seguinte, dura seis meses e está sob responsabilidade da Otan. É nesse momento
que se assegura que as unidades designadas têm os níveis necessários de proficiência e
interoperacionalidade. A última fase do treinamento é a extensa preparação das
estruturas de comunicações e comando e é concluída com um exercício. Este certifica
que a NRF está pronta para ser colocada em estado de alerta.
O tempo que as unidades permanecem nesse estado varia em função do meio em que
atuam. As unidades navais e aéreas ficam por períodos de 12 meses. As forças terrestres
cumprem turnos de seis meses.

Subordinada ao Supreme Headquarters Allied Powers Europe (Shape), a estrutura de


comando da NRF tem dois níveis. O primeiro deles é o operacional e cabe aos JFCs e
do JC. Esses comandos são responsáveis pelo treinamento e o estado de alerta das
unidades, bem como pela criação dos QGs das Forças-Tarefa Conjuntas Combinadas
(Combined Joint Task Forces Headquarters – CJTF HQ), que são formados com
elementos dos segundos escalões. O CJTF HQ deslocado para o exercício Allied Action
2003 tinha 500 assessores e 1,5 mil pessoas de apoio.

Esses comandos são responsáveis pela coordenação dos comandos das forças de terra,
mar e ar que formam a NRF. Os comandos das forças terrestres, navais e aéreas são
retirados dos QGs das Forças de Alta Prontidão (High Readiness Forces – HRFs) e da
estrutura de comando da aliança.

Cada QG de CJTF tem um Deployable Joint Task Force Headquarters (DJTF HQ)
capaz de se deslocar junto com a NRF para a Área de Operações Conjuntas (Joint
Operations Area) fornecendo comando e controle no nível operacional. Por essa razão
seu tamanho é o menor possível. Em outubro de 2003, um DJTF HQ tinha 140
soldados.

O elemento terrestre da força tem o tamanho de uma brigada com aproximadamente 9,5
homens quando completa. Ela tem um mix de forças de combate, de apoio ao combate e
administrativas tais como artilharia, aviação, defesa antiaérea, guerra eletrônica e
inteligência.

Entre as tropas especializadas estão unidades de forças especiais e de defesa QBRN.


Elas tanto podem ser incorporados como unidades independentes quanto como parte de
uma das forças – terra, mar e ar. A unidade de forças especiais pode ter um efetivo de
400 homens. O batalhão QBRN tem efetivo de mil homens.

A logística da força será provida pelo QG do Joint Logistics Support Group (JLGS),
parte da cadeia de comando da NRF. Com isso, privilegia-se a abordagem multinacional
a nacional.

Desde a Reunião de Cúpula de Praga, um dos problemas que os Estados membros da


aliança tentam superar é a falta de transporte estratégico naval e, em especial, aéreo.

Soluções para esse problema foram tratadas em três ocasiões diferentes. Na primeira,
em fevereiro de 2004, quando nove nações assinaram acordo para reduzir a falta de
transporte marítimo para forças de rápido emprego ao usar uma combinação de
afretamento integral e contratos multinacionais de acesso garantido de navios do tipo
Roll-on/Roll-off. Com isso, a organização tem de um dois navios dinamarqueses Ro/Ro
afretados em tempo integral e acesso garantido a outros três navios. Como capacidade
residual, existe a possibilidade de emprego de quatro embarcações do mesmo tipo da
Grã-Bretanha. Uma embarcação norueguesa pode ser requisitada para serviços ad hoc.
O problema do transporte aéreo estratégico foi visto na reunião de ministros da Defesa
em junho de 2003. Em junho de 2004, na Reunião de Cúpula de Istambul, 15 países
assinaram um memorando de entendimento para a implementação de uma solução
provisória conhecida como Strategic Airlift Interim Solution (Salis). O contrato entrou
em vigor em março de 2006 e consiste no afretamento de dois Antonov AN-124-100,
com a previsão de mais dois com aviso de seis dias e outros dois com aviso de nove dias
de antecedência.

Uma solução de caráter definitivo foi apresentada no dia 12 de setembro de 2006, com a
decisão de se constituir o Strategic Airlift Capability da Otan, nos mesmos moldes do
programa Salis. A carta de intenções foi assinada por 13 países e prevê a aquisição de
três a quatro aeronaves C-17.