Вы находитесь на странице: 1из 6
A Revolucao Haitiana e suas repercussdes Estilaque Ferreira dos Santos* ‘Como sabemos, a revolugo haitiana estendeu-se por uim perfodo de mais de doze anos (1791-1804), durante 0 gual todos os paises que possufam colOnias baseadas na escraviddo negra ficaram em sobressalto, E que, de uma forma ou de outra, as noticias da rebelio dos negros € de tudo que estava acontecendo no Haiti acabaram chegando aos ‘ouvidos dos negros escravos de outras resides, provocando entre cles um clima de expectativae inquietagio que acabou também por gerar sGrias preocupagées entre os senhores de escravos de todas a latitudes. ‘A concomitfncia parcial com a revoluclo francesa s6 serviu para abalar ainda mais a confianga das classes proprietérias das ccolénias. De tal forma que os principios liberals ¢ iluministas assoviados & grande revolugio serdo recebidos nessas regides com grande circunspecgao. Os “abomindveis principios franceses” haviam se tornado sinonimos de rebeliio escrava, 0 que era inadmissivel para aqueles que entendiam a escravidio como a base dos processos de colonizagao. As perspectivas de auionomiae separacio politica {que se abriam As antigas coldnias foram, dessa forma, profundamente condicionadas pelo temor de uma rebelido semethante Aquela que ‘ocommera na “pérola das aatihas” Os Estados Unidos, que haviam adquirido pouco antes sua independéncia (1774-1783), ¢cuja parte sul era inteiramente dominada pela escravidio africana, na presenga de ameaca to préxima, trataram de reduzir € até mesmo suspender a importagio de novos contingentes de negros afticanos. Por outro lado, os proprietatios, receosos, iniciaram lentamente um proceso de ‘melhoria das condigses de vida e de trabalho de seus escravos. De fato, naquele pafs, a eseravidao, em grande parte como reflexo da revolugéo haitiana, tornou-se, a partir de ent, menos opressiva ¢ adquirit um certo aspecto “patriarcal”, que seus apologistas sempre fazem questio de salientar, Nas ilhas vizinhas ao Haiti, como a Jamaica, arebeligo, que j era crénica, tomou- se cada vez mais ameagadora, A Inglaterra, sua metrépole, tudo fez para isolé-la do contigio revolucionatio, inclusive aproxi- mando-se de Toussaint-Louverture, 0 lider da revolugdo vitoriosa, com a finalidade de cdemové-lo de qualquer iniciativa com relagao a itha vizinha, Na América de colonizagao espanhola niio foram menores as repercussdes dos episidios haitianos, Sabemos que o pr6prio ‘Simon Bolivar no inicio de suas jornadas pela independéncia, no tencionava incluir a oligo da escravatura entre os pontos de set i on er cd pa no pomOduen beusenn mo Po mOdee programa politico. Porém, apés 0 fracasso inicial do movimento liderado por ele, 0 “Libertador” refugiou-se justamente no Haiti, onde 0 mulato Pétion, entéo governando a parte sul da ex-col6nia francesa, prometeu- Ihe ajuda politica e militar em troca da incluso da aboligio da escravatura entre os seus projetos, 0 que de fato ocorreu, Provocando uma intensificagao do ‘movimento bolivariano que se reacendeu com © apoio dos escravos libertos. No caso do Brasil, cujas condigées, em algumas regides, muito se assemelhavam as do Haiti, 0 medo da revolugdo dos negros tornou-se endémico e as referéncias a0 “perigo haitiano” tomaram-se recorrentes, Entre os negros, o exemplo da ilha caribenha abria esperangas e dava coragem para enfrentar mais abertamente a dominagio de seus senhores. Na Bahia da primeira metade do século dezenove, por exemplo, as rebelides negras tornaram-se comuns, e essa situagdo com certeza esteve vinculada ao clima internacional criado pela revolugao haitiana. Os senhores de escravos brasileiros tormaram- se entio muito mais conservadores © refratdrios a qualquer participagio em movimentos pela independéncia politica da colénia que pudessem colocar em risco 0 sistema escravista do qual eles eram os principajs beneficiados. Dessa maneira, podemos afirmar, sem sombra de divida, que aindependéncia da antiga colonia portuguesa, proclamada em 1822, da forma como ocorreu, ‘ousseja, por meio de um pacto politico tutelado pela propria monarquia bragantina, refletiu o impulso contra-tevolucionario e preventivo gerado a partir da revolucao haitiana. No campo especificamente europeu, a revolueda dos negros ampliou ¢ deu suporte radical ao movimento pela aboligdo do trfico € pela extingdo da escravidao, ¢ 0 perigo de uma revolugdo geral dos negros passou a contar muito mais que as cantilenas moralistas, dos moderados que lideravam a campanha antieseravista no continente europeu. Mas as oténcias colonialistas ¢ escravistas sentiam- se ltrajadas pela auelécia dos negros haitianos €, embora independente de fato, o Haiti tio cedo nao obteré o seu reconhecimento, Na verdade, ele passou a ser ameagado por aquelas poténcias, especialmente pela sua antiga metrOpole, a Franca, cujo governo, mesmo diante do desastre retumbante da famosa expedigo do general Leclerc, organizada por Napolego Bonaparte em 1801/ 1802 para destruir o experimento haitiano, insistine ameagava a todo momento com uma retomada do controle completo sobre a sua antiga “pérola” das antilhas. Ameacada por gigantes como a Franca, a Inglaterra, os Estados Unidos ¢ a propria Espanha, todos, alids, derrotados pela sua revolucio, € envolvida em suas disputas interimperialistas, a jovem nagao negra teve de manobrar inteligentemente no sentido de impedir uma cruzada contra-revolucionéria contra si mesma. Porexemplo, a aproximagéo comercial com a Inglaterra e com os Estados Unidos, ainda na fase de Toussaint Louverture, tinha esse objetivo estratégico de impedir a unio dos paises inimigos da revolugio, O Haiti buscard enti, com sofreguidio, o reconhecimento formal de sua independéncia, encontrando resisténcia por toda parte. Finalmente, jd em 1825 (sic), ele conseguiu negociar com a relutante rancorosa antiga metrépole 0 almejado reconhecimento. Mas este custou-lhe carissimo, cento e cingtlenta milhdes de francos-ouro, uma fortuna para a €poca, o que sobrecarregard imensamente a jd combalida economia da antiga colénia, que levard, mesmo assim, mais de cingiienta anos para guitar completamente a divida assumida com a sua ex-"mfle-pétria”. A Inglaterra ¢ os Estados Unidos, mesmo senclo seus parceiros comerciais, como jé vimos, néo foram mais indulgentes com a nova nagio ¢ sé a reconheceram depois da Franca. Como conseqiiéncia das ameagas externas, associadas A precariedade da situagio econdmica interna, a maior parte do combalido orgamento do novo estado passou a ser destinada aos gastos militares e 0 pais acabou radicalizando 0 processo de mmilitarizacZo j4 iniciado com a revolugéo. Nessas condigées, a reconstrugio da economia e da sociedade tornou-se cada vez mais dificil ¢ a militarizacao trouxe consigo oagucamento das contradigées e conflitos que jd se anunciavam na fase propriamente revolucionéria, © conflito entre mulatos © negros pouco a ponco assumia a preponderdncia no cenério politico e social, mas ele néo era o tnico que afetava a estabilidade do pats. Os dois segmentos raciais mencionados dividiam-se, por sua vez, em varias categorias sociais ou situacionais, Os negros, que eram a ampla maioria da populagdo, estavam longe de alcangar qualquer homogeneidade social. Por outro lado, a essas contradigbes logo se acrescentou lum outro aspecto: o carter regional ¢ local dos conflitos, contrapondo-se o norte ao sulle a0 oeste, Mas a questo central que se colocava ao novo estado vinculava-se A oped0 que ele deveria fazer: integrar-se ou nfo (c como) a uma perspectiva "ocidental” de reorganizactio econémica, social e politica do novo pais. Por um lado, a camada minoritaia, pporém muito influente, dos mulatos ricos, era fortemente ocidentalizada e propugnava por um modelo de sociedade integrada ao padraio burgués © ocidental. Mesmo algumas liderangas negras, como o préprio Toussaint- Louverture, ou 0 futuro presidente Cristévio, emuitos outros, eram também adeptos de uma perspectiva “modemnizadota”. Mas, por outro lado, a grande maioria dos ex-escravos era visivelmente refratéria a qualquer altemativa que Thes lembrasse vagamente a experiéncia dolorosa e certamente desastrosa que tiveram a0 “integrar-se” ao esquema produtivo ‘europeu, na condigdo subalterna e opressiva de esoravos. Esse esquema fora demasiadamente cruel com eles para que se sentissem atraidos por algum de seus aspectos. Assim, com esse pano de fundo, os conflitos @ as divisdes de toda ordem néo tardaram a incendiar a jovem nagio negra. ‘Como sabemos, a lideranga da luta pela independéncia, depois da prisio ¢ do afastamento de Toussaint, coube ao africano Dessalines, homem de confianca de Toussaint ¢ um dos seus generais. Ao contrario de seu lider, porém, Dessalines nfo hesitou em apontar no rumo de uma separacao integral da Franca, 0 que acabou the valendo a supremacia na organizagao do primeiro governo do Haiti, Assim, em outubro de 1804, Dessalines foi aclamado como imperador bao dan mu bom Odaan r MO bHoedne Rem One Jacques I, formando um governo que duraria apenas dois anos, deposto que foi por uma revolta liderada por mulatos do sul. © seu sucessor fai o ja mencionado Crist6vao, ex- gargom na cidade do Cabo, ¢ também um ex- general de Toussaint, mas os mulatos do sul se recusatfio a obedecer-the e elegerio como seu presidente Alexandre Pétion, um mulato tivo que se destacara & frente do exército do sul nas Iutas contra os franceses. O Haiti permaneceré com dois governos até a reunificago promovida pelo mulato Boyer, jdem 1822. As lutas de clas e de bandos militares suceder-se-fo praticamente sem interrupgo Por todo 0 século dezenove. Nenhuma estabilidade institucional foi atingida e a economia deu passos langos no sentido de um retrocesso definitivo. O resultado foi o definhamento do pais como um todo, sobretudo no ambito interno, mas também no extero, Esse enfraquecimento favoreceu a dependéncia e a invasto estrangeira, que néo tardou a vetificar-se. De 1915 a 1934, os Estados Unidos ocuparam permanentemente © Haiti, impondo-lhe governos e politicas, ‘mas uma forte aversfio de cunho nacionalista aeabou apressando o fracasso dos americanos, que foram obrigados a retirar-se, deixando airés de si um pais seriamente arruinado. Depois de varios golpes militares, assume 0 poder, em 1957, 0 famigerado Dr. Frangois Duvalier, mais conhecido como “Papa Doc”, ue, 20s poucos, com o auxilio de seus “tonton macoute”, construiré um poderoso esquema de dominagao ditatorial, cujos vestigios aparecem até hoje nos episédios relacionados 0 impedimento do presidente eleito, o padre rogressista Aristide, o popular “Padre Tide". Quando acabava de escrever este texto, a televisio e os jomais anunciavam o inicio de uum bloqueio naval ao Haiti liderado... pelos Estados Unidos. Eeextremamente dificil avaliar a historia de qualquer povo & luz de suas peripécias ¢ realizagdes Isso porque, parece-nos, cada experigneia histérica constitui os seus prdprios critérios de avaliacgio. © grande historiador da escravidio moderna, 0 americano Eugene Genovese, em seu livro “Da Rebelidio & Revalueo”, em grande parte baseando-se em C.L.R. James e seu “Black Jacobins”, que continua sendo 0 grande Classico sobre a revolugdo haitiana (e base também desta pequena introdugo a0 estudo da revolugio), conceitua a revolueio haitiana ‘em termos de sua insergio no movimento das revolugdes burguesas de fins do século dezoito. Assim, na perspectiva de Genovese, as revoltas de escravos anteriores & revolugdo, visavam & restauragao de um modo de vida tradicional que vigorava na Africa antes da sua escravizagio e deportagio para a América. Esse carter “restauracionista” dava-Ihes um certo cunho “reacionério”, para quem, como o marxista Genovese, pensa em termos do “desenvolvimento das forgas produtivas". No entanto, segundo ainda Genovese, com a revolugao haitiana, essa visio restauracionista teria dado um recuo e a revolugo marcaria assim um momento de ruptura na histéria das rebelides escravas, Pois, para ele, 0 episédio haitiano teria marcado a passagem para uma fase caracterizada pelas _reivindicagdes i oaEEEEEEEEEREnEnEeieemnmeeeenmnanine auntie ana universalistas vinculadas aos direitos do homem e nfio mais baseadas num apelo cultural e étnico. Nessa visdo, a revolucdo haitiana, pela sua insergao na “maré revoluciondria internacional”, seria um capitulo da luta pela liberdade, no contexto da chamada “civilizagio ocidental”. Aqui, valotiza-se 0 contexto em que se inseriu a revolugio, derivando dai a sua caracterizagao mais geral. E claro, e nesse ponto concordamos inteiramente com Genovese, que a revolugo braitiana seria impensdvel sem a consideragao da importancia que a revolugao francesa teve ara a sua eclosdo, fato que nés mesmos ja haviamos salientado no infcio deste modesto trabalho, De outra parte, também salien- tamos as repercussdes que o estabe- lecimento do primeito estado negro de ex- escravos na América Latina teve nessa sobre outras regives. O que nao podemos concordar com Genovese é com a sua desconsideragao do aspecto especificamente negro da revolucao. Tampouco podemos concordar inteiramente, e pelo mesmo motivo, com a ‘mais recente interpretagao da revolugio, feita pelo historiador francés Pierre Pluchon, para quem Toussaint-Louverture, em vez de um “Black Jacobin", como sugere a tradicao iniciada por C.LLR. James e reforgada por Genovese, era um revolucionério negro do antigo regime, ressaltando-se dessa forma a oposigio de Toussaint a revolugio francesa e sua adesio ao ideal monsirquico, Pensamos que examinar a revolucdo haitiana, inserindo-a no quadro mais amplo das transformagées da sociedade ocidental, sem sombra de diivida, um procedimento metodologicamente correto. Mas € preciso ue 0 fagamos pontuando com exatidio do que realmente se trata. Na nossa modesta compreensio, ahist6ria inteira do Haiti negro (sim, porque € da totalidade dessa histéria que se trata ¢ niio apenas de um momento rivilegiado como 0 revolucionério) é um capitulo trégico, no apenas da “Iuta pela liberdade no ocidente”, mas sobretudo da tejeigio que o elemento negro-afticano apresentou diante do ignominioso processo de destruigdo e aniquilamento opressivo aque foram submetidos os povos africanos a partir do século quinze pelo ocidente cristio e capitalista. E, portanto, de um processo vasto € brutal de assujeitamento de povos inteiros que se trata, e & também da resistencia (e da indiferenga interior) a esse modelo redutor e destruidor que os brancos ocidentais tentam impor e que, em um certo sentido, fracassa, Como poderiam os negros do Haiti se integrarem num processo civilizacional Fesponsdvel pela sua prépria dilapidagio enquanto povo? Que promessas foram feitas aos negros africanos que compulsoriamente foram wazidos para a América Esperava-se ‘mesmo que eles se “ocidentalizassem”? O que foi feito efetivamente nesse sentido? Que Promessas de integragio so feitas hoje ‘mesmo aos negros e seus descendentes, por toda parte onde eles se encontram? Pelo contrério, em qualquer parte, nos Estados Unidos, nas ilhas do Caribe, no Brasil, na prpria Africa, debatem-se os negros em sua tragédia. A Histéria do Haiti negro é um capitulo dessa tragédia que & também, a sim, uma tragédia do Ocidente. m pause no bo mOnoag pHoenden ao B 1 s Fy 6 R I A Bibliografia ARCINIEGAS, G. Blografia del Caribe, B.Aines, Sudamerics, 1957 BOSCH, Juan, De Crist6bal Colon a Fidel Castro. Mavi, Alfaguara 1970, CARPENTIER, A. El Reino de Este Mundo. Bacoslona, Leix Barsal, 1969. CLAVIER, IL. Temoignage: Tosssaint-Louvertue 1; Revue Francaise d'Histoire d’Outre Mér, ‘Tomo LXI, n. 228, 1975, DELAFOSSE, 5B.L. Segunda Campaiia ce Santo Domingo. Santiago, Distio, 1946 FAGG, 1.2, Cuba, Hai & The Dominican ‘Republic, N.York, Prentice Hall, 196. FOUBERT, B. Colones et Esclaves dane le sud de Saint-Domingue au debut de la Revoluién, In Revue Francaise @’Outre Mér, Tomo USI, 1.223, 1974 GEGGUS, DP, From his most Catholic Majesty 1 the Godless Republic. In: Revue Francaise Outre Mér, Tomo LXV, ». 241, 1979. GASTON, M, Histoire de "Esclavage dans les ‘Colonies Frangaises. Paris, PUF, 1948 GIRAULY, C. La Gense des Nations Haitienne et Dominicaine (1492-1900) In: Espace et Identité Nationale”. Pars, CNRS, 1981 JAMES, CLR. The Black Jacobins (Toussaint- Lowverture and the San Domingo Revolution). N. York, Vintage Books, 198°. PIERRE CHARLES, G Toussaint Louverture, In Revista Nossa América, 13,1992. PLUCHON, Pierre. Toussaint Lonverture (Un Reyo-lutionnaire noir d’Ancién Régime) Paris, Fayard, 1989, POUQUET, Jean Les Antilles Frangaises. Pars. PUR. 1952. SAUER, C.G, Deseubrimiesto y Dominacién Espaiiola del Caribe, México, Fondo de Cure EeonOmica, 1984. TERSEN, Emile, Histoire de 1a Colonisation Francaise. Paris, PUP. 1950. WILLIAMS, Eric From Columbus to Castro: The History of the Caribbean (1492-1969) Londres, A. Deutsch, 1989. GENOVESE, E. Da Rebelidio’ Revolucio, S. Paulo, Global, 1983. Notas * Professor do Departamento de Hist6ria da URES ‘¢Douor em Historia do Brasil pola Universidade de Sao Paulo.