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O TRANSEXUAL E A POSSIBILIDADE DE MODIFICAÇÃO DO PRENOME NO REGISTRO CIVIL

ROBERTO LEONARDO DA SILVA RAMOS 1

RESUMO

O presente artigo objetivou atestar a possibilidade do transexual modificar seu prenome e

gênero, tendo como fundamento as normas existentes no ordenamento jurídico brasileiro. Discorreu-se acerca do direito ao nome, onde foi mencionada sua importância e função para o meio social. Houve a localização das normas que regem o nome, sendo mencionado o Código

Civil de 2002, especificamente no Capítulo II da Parte Geral (Direitos da Personalidade) além

da Lei 6.015/73, conhecida como Lei dos Registros Públicos. Diferenciou-se o transexual do

homossexual e do travesti, havendo ampla conceituação de transexualismo. Mencionou-se a transexualidade como doença reconhecida pelas ciências médicas, estas que possuem resolução específica, normatizando procedimento cirúrgico para adequar o estereótipo do transexual. Foi discorrida a relevância de modificação do nome e gênero do transexual, relatando que a legislação vigente reflete a Declaração Universal dos Direitos da ONU, sendo apontados dispositivos legais a exemplo do art. 1º inciso III da Constituição Federal. Concluiu-se por meio de interpretação sistemática e teleológica que a legislação atual é suficiente para que o operador do direito reconheça a possibilidade de modificação do prenome e gênero do transexual, sob pena de desvirtuar a finalidade dos regramentos que disciplinam o nome.

Palavras-Chave: Transexual Prenome Gênero - Modificação

TRANSEXUAL AND THE POSSIBILITY OF CHANGING THE FORENAME AND

GENDER IN CIVIL REGISTRY

ABSTRACT

The present work aims to demonstrate the possibility of transsexuals to change their forename and gender, having as fundament the existing rules in the Brazilian legal system. It was discoursed about the right to a name, being mentioned its importance and role for the social environment. It was made the location of the rules governing the name, being mentioned to the Civil Code of 2002, specifically in Chapter II of the General Part (Personality Rights) besides the Law 6.015/73, known as the Public Records Law. It was made the difference between homosexual, transsexual and transvestite, having a broad conceptualization on the transsexuality. It was mentioned CID and medical science law, these have specific resolution, normalizing surgical procedure to adequate the stereotype of a transsexual. It was discoursed the relevance of changing the transsexual’s name and gender, reporting that the current

1 Advogado e Professor da Faculdade de Integração do Sertão.

C onstruindo D ireito Serra Talhada. Ano 2, v. 1, p. 12-28 jul. 2011.

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legislation reflects the UN Universal Declaration of Rights, being pointed legal devices like the art. 1, item III of the Federal Constitution. It can be seen through systematic and teleological interpretation that the current legislation is sufficient for the law operator recognize the possibility of modifying the transsexual’s forename and gender, under the penalty of misrepresent the purpose of regulations that regiment the name.

Keywords: Transsexual - Forename- Gender - Modification

INTRODUÇÃO

O “século tem sido marcado por um problema que envolve comportamento sexual,

indagações jurídicas, moralidade pública, tolerância ou aceitação pelos meios sociais,

participação da mídia, e discussão científica. Trata-se dos denominados “desvios sexuais”,

cuja apreciação tem cabimento aqui, por atingir os direitos da personalidade. Há um

desencontro entre o sexo biológico e o sexo registral, gerando três tipos de comportamentos:

homossexualismo, bissexualismo e transexualismo. E, em conseqüência, causando desajustes

psíquicos, conduta antissocial e distúrbios que marcham para definição patológica.”

(PEREIRA, 2001, p.38)

Transexualismo é uma realidade, que não deve ser ignorada pelo estado nem pela

própria sociedade. O transexual não deixou de ser pessoa por não seguir os parâmetros pré-

estabelecidos de orientação sexual da cultura hodierna, devendo ser respeitado com todas as

suas peculiaridades, pois como sujeito de direito permanece a tutela de sua personalidade.

Com fundamento na doutrina da constitucionalização do direito civil, personalidade jurídica é

a qualidade de uma pessoa em titularizar direitos e contrair deveres na sociedade, possuindo,

desta forma, uma tutela jurídica mínima, denominada de direitos da personalidade. O nome

faz parte da personalidade do ser humano, indicando o sinal externo pelo qual é identificado e

singularizado no meio social.

Frise-se que, o Pacto de São José da Costa Rica, conhecido como Convenção

Interamericana de Direitos Humanos, estabelece que os Estados devem obedecer e fazer

cumprir os direitos da personalidade.Deste modo, o transexual não poder deixar de ter

reconhecido seu direito ao nome, pelo que é identificado no âmbito social, sendo tal pleito

tutelado por normas internas e até mesmo internacionais. O artigo em questão discorre acerca

da aplicação das normas já existentes à possibilidade de adequar novo nome ao transexual

com o escopo de proteger sua identificação e vida digna na sociedade, e por consectário

expurgando assim qualquer tipo de manifestação preconceituosa.

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1. NOME COMO MANIFESTAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS

O nome reveste-se de importância por se tratar da identificação social da pessoa, tendo

a finalidade de individualizá-lo e assegurar estabilidade jurídica desde as relações negociais até a sua própria satisfação psicológica. Nessa linha de entendimento, o nome civil é o símbolo, a marca, o elemento designativo, que manifestará a imagem da pessoa em comunidade. Adriano de Cupis (2004) dispõe que o nome da pessoa tem o condão de designar

e distinguir todas as pessoas na sociedade civil.

O sistema jurídico baseia seu poder diretivo com a finalidade de proporcionar ao ser

humano uma vida digna, e com fundamento na tendência mundial da valorização dos direitos humanos, é que o legislador brasileiro elege a princípio constitucional a dignidade da pessoa humana, prescrito no art. 1º, inciso III da Constituição Federal (1998). Pois bem, é em observância a estas tendências normativas que o legislador infraconstitucional elenca no CC

(Código Civil Brasileiro, Lei Nº 10.246/2002) entre os artigos 11 ao 21 o que se chama de diretos da personalidade, rol aberto e não taxativo, que dentre eles está a proteção ao nome.

A dignidade da pessoa humana é o mais imperioso valor do direito brasileiro, haja

vista está atrelado ao próprio conceito de personalidade jurídica, sendo elemento norteador para a elevação do ser humano como bem principal a ser tutelado pelo ordenamento jurídico. Imprescindível que o direito proporcione às pessoas não apenas uma vida, mas uma vida digna, ou seja, que haja garantias mínimas para que os indivíduos gozem de salutar existência no meio social. Cediço que a dignidade da pessoa humana é o fundamento do ordenamento jurídico brasileiro, unindo valores reconhecidos aos sujeitos de direitos, abrangendo a ratificação de

sua integridade física, psíquica e intelectual, que garante o livre e salutar desenvolvimento da personalidade. Nesta linha de intelecção, vislumbra-se o alcance do princípio da dignidade da pessoa humana e especificamente os direitos da personalidade, uma vez que são orientados a todos os seres humanos, independente de qualquer diferença de cultura, religião e raça.

A Constituição Federal por meio de suas normas gerais visa responder as indagações

que surgem com a evolução social, o que seria impossível com um sistema fechado e positivista. Ao eleger a pessoa como foco do sistema jurídico, a dignidade da pessoa humana que é traduzida na codificação infraconstitucional pelos direitos da personalidade, reflete a personalização do direito e o respeito à dignidade do sujeito em todas as suas peculiaridades. Interessante explanação de Elimar Szaniawski (1998, p. 25), a seguir colacionado.

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Esta preocupação em valorizar o sujeito como ser humano e em salvaguardar sua dignidade, colocando o indivíduo como centro, como principal destinatário da ordem jurídica, tem sido denominada de “repersonalização” do direito.

Fácil perceber a influência da dignidade da pessoa humana aos direitos da personalidade, que são entendidos como aqueles que têm por objeto os atributos físicos, psíquicos e morais da pessoa projetada na sociedade e em si mesmo. Em outros termos, todos devem se abster, respeitar os bens individuais de cada pessoa, sob pena de responder judicialmente pelos seus atos. Os direitos da personalidade possuem inúmeras características. Abaixo serão pontuadas as mais importantes para aos fins do presente estudo. Indisponíveis na forma prevista no art. 11 do Código Civil, podendo ser entendidos pela somatória da irrenunciabilidade e da intransmissibilidade. Sendo a impossibilidade de cessão do direito de uma pessoa a outra e aquela pela impossibilidade de abdicação dos direitos. Os direitos da personalidade excepcionalmente são relativamente indisponíveis, visto que o seu exercício podem ser disponibilizados, desde que obedeçam certos limites, como previsto no Enunciado 4 da Jornada de Direito Civil, “o exercício dos direitos da personalidade pode sofrer limitação voluntária, desde que não seja permanente nem geral.” (I, Brasília, 2002) Eles são extrapatrimonias, uma vez que os direitos da personalidade não possuem apreciação econômica, ou seja, não há como realizar sua valoração. Não se pode confundir a auferição econômica realizada pelo exercício dos direitos e nem com a sua lesão, esta que implica em indenização por danos morais, cuja finalidade é punitiva pedagógica. Assim, nunca poderá ocorrer delimitação econômica dos direitos da personalidade. Por fim, a vitaliciedade, haja vista os direitos da personalidade perdurarem por toda a vida de seu titular, havendo sua perda apenas com o advento da morte, pois o ser humano a partir daí não mais existirá, consequentemente perdendo a personalidade jurídica, isto conforme previsão do art. 6º do Código Civil Brasileiro, in verbis: “A existência da pessoa natural termina com a morte; presume-se esta, quanto aos ausentes, nos casos em que a lei autoriza a abertura de sucessão definitiva.” É com base no supra exposto, que o Código Civil prevê tutela jurídica ao nome nos arts. 16 ao 19, elevando-o a condição de direito da personalidade, que se combina com a Lei de Registro Público (Lei 6.015/73), formando o microssistema jurídico do nome. O art. 16 do Código Civil prevê o prenome e sobrenome, e no art. 19 menciona o pseudônimo. O prenome

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é o primeiro elemento da estrutura, podendo ser simples (João) ou composto (Roberto Leonardo). Consigne-se que é obrigatório o prenome composto em situações de gêmeos com o mesmo prenome (art. 63 da Lei 6.015/73). O sobrenome ou nome de família ou apelido de família ou patronímico, alude à origem familiar da pessoa, também podendo ser simples (Lucena) ou composto (Silva Ramos). Ainda há o agnome, que serve para diferenciar pessoas da mesma família e que possuem o mesmo nome, a exemplo de Filho, Sobrinho e Segundo. O pseudônimo é utilizado para a pessoa disfarçar sua identidade civil da população, por isso “são adotados por pessoas ilustres e autoridades constituídas, como o então Presidente da República José Ribamar Ferreira de Araújo, que governou o País com o pseudônimo de José Sarney.” (AMORIM, 2003, p.17). Por fim, o hipocorístico, que é uma abreviação de parte do nome, que a pessoa é conhecida notoriamente a exemplo de Zé (José).

O nome, por se tratar de um direito da personalidade, possui características gerais (já

mencionadas) e específicas. Agora nos ateremos a esta última, que é a imutabilidade. Com o escopo de proteger a estabilidade jurídica, o nome não pode ser alterado, sendo inclusive preceito de ordem pública. Entretanto, excepcionalmente o nome pode sofrer alteração, havendo relativização de sua imutabilidade. Isso se deve a uma patente necessidade de adequação da pessoa ao meio social que convive, pois não faz sentido alguém ter um nome que não o identifique ou que provoque desconforto psicológico, ocorrendo flagrante desrespeito ao Princípio da Dignidade da Pessoa Humana. Vale ressaltar, que a relativização da imutabilidade do nome é de natureza de ordem privada, por interessar apenas a pessoa de forma individualizada, devendo o interessado buscar os meios processuais pertinentes para que haja o reconhecimento e adequação jurídica de sua vivência em sociedade.

2. A REALIDADE DO TRANSEXUAL

A designação do sexo pode ser analisada sob vários parâmetros, todos indicando dois

pólos, o masculino e o feminino, sendo de suma importância o enquadramento da pessoa, uma vez que daí decorrerão reflexos jurídicos e sociais. Sob o prisma genético, o ser humano pode ter conjugado cromossomos “XX” (feminino) ou “XY” (masculino). Também pode ser

diferenciado tendo como base glândulas (órgãos que sintetizam hormônios) sexuais, estando presente no organismo feminino o ovário e no masculino o testículo. A verificação da

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genitália é a forma mais simples de classificar o sexo a pessoa, visto que indivíduos femininos estão presentes vagina, trompas e útero, já nos masculinos pênis, testículos e saco escrotal. Há também o sexo psicossocial, que é o resultado da interação entre o fator genético, fisiológico e psicológico dentro de um contexto cultural, levando ao indivíduo a se classificar no sexo que seja conveniente e proporcione satisfação própria. Em tempos antanhos, a definição do sexo da pessoa se dava unicamente por meio da genitália, ou seja, pênis designava o gênero masculino e vagina designava o gênero feminino. Tal entendimento não se coaduna com as necessidades hodiernas, haja vista a designação do sexo ser analisada sob o prisma plurivetorial e não univetorial, como menciona Maria Berenice Dias (2006, p.120).

Para a Medicina Legal, não se pode mais considerar o conceito de sexo fora de uma apreciação plurivetorial, resultante de fatores genéticos, somáticos, psicológicos e sociais. A Psicologia define a sexualidade humana como uma combinação de vários elementos: o sexo biológico (o sexo que se tem), as pessoas por quem se sente desejo (a orientação sexual), a identidade sexual (quem se acha que é) e o comportamento ou papel sexual. Como os fatos acabam se impondo ao Direito, a rigidez do registro identificatório da identidade sexual não pode deixar de curvar-se à pluralidade psicossomática do ser humano.

O Transexual não pode ser confundido com o homossexual, travesti nem hermafroditismo, sob pena de banalizar a modificação do prenome e por consectário gerar instabilidade jurídica ao meio social. Homossexual é a pessoa que aceita sua genitália

morfológica, utilizando-a inclusive para obter prazer sexual. Nesta situação, o indivíduo não rejeita seu fenótipo, mas apenas sente atração por pessoas do mesmo sexo. O travesti também não possui rejeição pelos seus órgãos sexuais, entretanto possui atitudes como se fosse do sexo oposto, por exemplo, o homem que se veste com roupas femininas ou a mulher que traja vestuários masculinos, mas não nega seu sexo físico. O hermafrodita ou intersexual

é aquele em que o organismo apresenta os dois sexos anatômicos, havendo um desejo para

que seja especificado se o masculino ou feminino é o mais adequado, ou seja, neste caso, a pessoa não tem pré-estabelecido qual sexo deseja assumir.

Já o transexual possui alto grau de insatisfação com seu estereótipo, isto por não aceitar o sexo atribuído pela natureza. A pessoa que se adéqua ao que denominamos de transexualismo considera que está em um corpo errado, sendo capaz de se submeter a qualquer tipo de tratamento para adaptação do sexo biológico ao sexo psicossocial. Portanto,

o transexual apresenta um elevado grau de angústia, sofrimento, depressão e negação do

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próprio corpo, logo o que deveria proporcionar prazer, motiva sofrimento profundo à pessoa, afetando sensivelmente sua qualidade de vida. A transexualidade está catalogada na Classificação Internacional das Doenças sob o número CID-10 F64.0. Vale frisar que o transexual acredita está em um corpo errado, que o gênero atribuído em seu nascimento é incompatível com a forma que é conhecida em sociedade. Apesar do transexual ser formalmente um portador de doença, há uma corrente nas ciências psicológicas, que defende a retirada da transexualidade do rol do CID, o que a primeira vista poderia prejudicar no financiamento público da cirurgia de transgenitalização 2 . Seria simples solução, submeter o transexual a um tratamento terapêutico para que houvesse um ajuste do sexo psicológico ao morfológico. Entretanto, é incabível tal prosseguimento, como se expõe abaixo.

inócua qualquer tentativa no sentido de reconduzir psicologicamente o transexual ao seu sexo anatômico, uma vez que todas as técnicas psicoterápicas se mostram absolutamente ineficazes, nesse sentido, possivelmente devido à falta de cooperação do paciente, que rejeita o tratamento. (SUTTER, 1993, p. 115)

Desta forma, o caminho mais adequado seria a ablação dos órgãos rejeitados e a adaptação do corpo ao sexo desejado. No Brasil, o Conselho Federal de Medicina (CFM), por meio da Resolução Nº 1.482/97 foi pioneiro em normatizar o tema, rompendo o entendimento de que o procedimento cirúrgico para adaptação do sexo seria mutilatório e não terapêutico. A mencionada cirurgia está atualmente disciplina pelo CFM na Resolução Nº 1.652/2002. Cabe mencionar, de forma simplificada, os termos da vigente resolução para que haja uma noção técnica do transexualismo para fins cirúrgicos. O CFM prevê os procedimentos denominados de neocolpovulvoplastia 3 e neofaloplastia 4 além de procedimentos complementares para o tratamento do transexualismo. Segundo o art. 3º da resolução, enquadram-se como transexuais para fins terapêuticos, as pessoas que possuem desconforto com o sexo natural, desejo de retirar os genitais e ganhar órgãos do sexo oposto, permanência de forma contínua destes transtornos por pelo menos 02 (dois) anos e ausência de outros distúrbios mentais. O art. 4º dispõe que a seleção de quem se submeterá aos procedimentos, deverá obedecer a uma avaliação de equipe médica multidisciplinar composta por médico psiquiatra, cirurgião, endocrinologista, psicólogo e

2 Procedimento médico, em que há mudança da genitália, assim os órgãos sexuais masculinos são transformados no feminino ou vice-versa. 3 Transformação do órgão genital masculino em feminino. 4 Mudança do sexo morfológico feminino em masculino.

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assistente social. A Resolução Nº 1.652/2002 do CFM reflete o empenho da categoria médica em proporcionar vida digna a pessoas humanas, que ao ser realizado o tratamento cirúrgico, alcançará plena satisfação e felicidade, pondo fim a todo sofrimento derivado de humilhação e preconceito. Assim, todo sujeito de direito que possuir transexualismo pode lançar mão dos meios acima explicitados, podendo ser tudo financiado pelo sistema público de saúde. Vale mencionar, que é desnecessária qualquer autorização judicial para a submissão dos procedimentos em apreço.

3. O ORDENAMENTO E A POSSIBILIDADE DA MODIFICAÇÃO DO PRENOME DO TRANSEXUAL

Pelas explanações já feitas anteriormente, inconteste que a pessoa que seja reconhecida como transexual tem o direito de realizar a cirurgia emasculatória ou de transgenitalização ou redesignação do estado sexual. As ciências médicas de forma exemplar reconhecem o problema do transexualismo e já lança mão de solução adequada e destituída de qualquer tipo de preconceito e de entendimentos arcaicos sobre o tema. Vale enaltecer a função social da Resolução 1.652/2002 do CFM. Feita a cirurgia emasculatória, nos deparamos com uma pessoa que tem identificação social de um sexo, entretanto com documentos do sexo oposto. Imagine a situação de alguém do sexo feminino que ao realizar uma compra paga com cartão de crédito cujo titular tem um nome masculino. De plano observamos os transtornos e humilhações que suporta o ex- transexual, que modificou seu estereótipo, mas continua com identificação cível inadequada a sua nova realidade. Inconteste que a pessoa perde totalmente sua identificação, sendo seu nome incompatível com a finalidade a que se destina, como já ventilado em tópico específico. O direito ao nome já não mais se coaduna com os princípios norteadores dos direitos da personalidade, pois não proporciona dignidade ao ex-transexual, havendo patente lesão a Declaração Universal dos Direitos Humanos, regramento que orienta o atual sistema jurídico brasileiro, principalmente o art. 1º mencionando que “todos os seres humanos nascem livres e

iguais em dignidade e direitos. Dotados de razão e consciência, devem agir uns para com os outros em espírito e fraternidade”.

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Neste diapasão, fácil perceber a necessidade de mudança do nome da pessoa, para que a identificação civil volte a cumprir sua função social e proporcionar o desenvolvimento salutar da personalidade do ex-transexual. Cediço que até a presente data não há norma positivada e específica sobre o tema, entretanto sabe-se que a tutela aos direitos da personalidade é feita de forma genérica por meio do art. 1º, inciso III da Constituição Federal, onde materializa o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana. A Carta Maior é o norte do sistema jurídico brasileiro, logo as modificações sociais devem ser acompanhadas pela doutrina e jurisprudência. Desta forma, impreterível a aplicação da norma geral aos casos concretos que naturalmente surjam, a exemplo da situação do transexualismo. Corroborando com o entendimento aqui exposto, Maria Berenice Dias (2006, p. 127/128) profere que “o direito à identidade tem assento constitucional, pois está inserido na sua norma de maior relevância, que proclama o princípio do respeito à dignidade humana” e conclui que “nenhuma justificativa é cabível para negar a mudança, não se fazendo necessária sequer a alteração de dispositivos legais para chancelar a pretensão”. Perceba que totalmente desnecessária a criação de regra específica ou de alteração das que já existem, uma vez que o ordenamento jurídico por meio das normas em vigor já tutela a mudança do nome do ex-transexual. Como mencionado alhures, o aspecto público do nome impõe a impossibilidade de modificação, entretanto por meio excepcional pode haver alteração, isto devido ao caráter privado do direito ao nome e a necessidade de adequação da pessoa ao meio social. Com base nesta linha de raciocínio, a Lei 6.015/73, conhecida como Lei de Registros Públicos (LRP), prevê algumas hipóteses em que o nome pode ser modificado. Ao caso em análise no presente trabalho, podemos utilizar por analogia o art. 55, parágrafo único da LRP, abaixo in verbis.

LRP Art. 55 [ ] Parágrafo único. Os oficiais do registro civil não registrarão prenomes suscetíveis de expor ao ridículo os seus portadores. Quando os pais não se conformarem com a recusa do oficial, este submeterá por escrito o caso, independente da cobrança de quaisquer emolumentos, à decisão do juiz competente.

Conforme amplamente demonstrado, o ex-transexual está constantemente expondo-se ao ridículo ao identificar-se civilmente com nome incompatível ao do seu estereótipo, o que autoriza a adaptação do prenome.

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A Lei de Registros Públicos ainda no art. 58 possibilita a modificação do prenome em situações de apelidos públicos e notórios, como segue abaixo. LRP. Art. 58. O prenome será

definitivo, admitindo-se, todavia, a sua substituição por apelidos públicos notórios.

Um dos requisitos para se identificar o transexualismo é sua apresentação em sociedade, ou seja, o prenome que é conhecido no meio em que vive, sendo importante que as pessoas o conheçam pelo prenome compatível com o sexo que afirma ter. Assim, o prenome que todos conhecem a pessoa é justamente o apelido público e notório mencionado na norma supra.

Com isso, a modificação do prenome do cidadão que se amolda à situação em apreço, representa respeito a sua nova realidade, proporcionando-o felicidade, satisfação e dignidade no desenvolvimento de sua personalidade jurídica. Apenas com o entendimento aqui defendido, o aplicador do direito observará o sistema jurídico vigente, que encontra esteio na Declaração dos Direitos Humanos e a dignidade da pessoa humana. Consoante já mencionado no presente artigo, a identificação civil da pessoa em desacordo com sua identidade social e até psicológica, acarreta em insatisfação que põe em risco a saúde do indivíduo, tendo como fundamento a idéia de saúde propagada pela OMS (Organização Mundial de Saúde). Desta forma, ao atribuir nome compatível com o sexo psicossocial, o ordenamento jurídico também estará resguardando o próprio direito à saúde, tutelado pela Constituição Federal no art. 196, abaixo in verbis.

CF Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.

Neste diapasão, ao proporcionar alteração do prenome do ex-transexual, haverá verdadeiro reconhecimento deste indivíduo como cidadão, que apesar de não ser maioria na sociedade brasileira, possui direitos como qualquer outra pessoa. Aliás, este é o entendimento mais amplo de cidadão, que não se limita à pessoa que titulariza direitos políticos ativo e passivo. Assim, A Constituição Federal também é prestigiada em seu art. 1º, II, abaixo colacionado.

CF Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:

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II - a cidadania;

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Assente o entendimento jurisprudencial, representado abaixo por julgados do STJ (Superior Tribunal de Justiça), no sentido de que o transexual possui direito de alteração do prenome, além de mudança do gênero o registro civil.

REGISTRO PÚBLICO. MUDANÇA DE SEXO. EXAME DE MATÉRIA CONSTITUCIONAL. IMPOSSIBILIDADE DE EXAME NA VIA DO

RECURSO ESPECIAL. AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO. SUMULA N. 211/STJ. REGISTRO CIVIL. ALTERAÇÃO DO PRENOME

E DO SEXO. DECISÃO JUDICIAL. AVERBAÇÃO. LIVRO

CARTORÁRIO. 4. A interpretação conjugada dos arts. 55 e 58 da Lei n. 6.015/73 confere amparo legal para que transexual operado obtenha autorização judicial para a alteração de seu prenome, substituindo-o por apelido público e notório pelo qual é conhecido no meio em que vive. 5. Não

entender juridicamente possível o pedido formulado na exordial significa postergar o exercício do direito à identidade pessoal e subtrair do indivíduo a prerrogativa de adequar o registro do sexo à sua nova condição física, impedindo, assim, a sua integração na sociedade. 6. No livro cartorário, deve ficar averbado, à margem do registro de prenome e de sexo, que as modificações procedidas decorreram de decisão judicial. 7. Recurso especial conhecido em parte e provido. (REsp 737.993/MG, Rel. Ministro JOÃO OTÁVIO DE NORONHA, QUARTA TURMA, julgado em 10/11/2009,

DJe 18/12/2009)

No julgado acima, o STJ explicita de forma objetiva que o transexual possui o direito de adequar o prenome a sua nova realidade, agregando o até então apelido público e notório a qual é conhecido em sociedade, para tanto fundamenta o decisum com os arts. 55 e 58 da Lei 6.015/73. Vale mencionar, que o processo foi remetido ao STF (Supremo Tribunal Federal) em de 17 de março de 2010, não havendo julgamento até a presente data. A mesma Corte Superior, também se posicionou de forma positiva pela mudança do prenome do transexual no Recurso Especial 1008398/SP, de relatoria da Ministra Nancy Andrighi, sendo julgado em 15 de outubro de 2009, e publicado na data de 18 de novembro de 2009. A decisão analisa o caso sob a ótica do Princípio da Dignidade da Pessoa Humana, perspectiva dos princípios da Bioética, da beneficência, autonomia e justiça. O processo transitou em julgado sem a interposição de Recurso Extraordinário, ou seja, não haverá apreciação deste caso concreto pela Suprema Corte. Tribunais Estaduais enfrentam a matéria, perfilhando-se com o posicionamento do presente artigo, valendo destaque julgados do Tribunal de Justiça do Rio do Sul, vanguardista do tema ora em apreço.

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REGISTRO CIVIL. TRANSEXUALIDADE. PRENOME. ALTERACAO. POSSIBILIDADE. APELIDO PUBLICO E NOTORIO. O fato de o recorrente ser transexual e exteriorizar tal orientação no plano social, vivendo publicamente como mulher, sendo conhecido por apelido, que constitui prenome feminino, justifica a pretensão já que o nome registral e compatível com o sexo masculino. Diante das condições peculiares, nome de registro está em descompasso com a identidade social, sendo capaz de levar seu usuário a situação vexatória ou de ridículo. Ademais, tratando-se de um apelido público e notório justificada está a alteração. Inteligência dos arts.56 E 58 da Lei N. 6015/73 e da Lei N. 9708/98. RECURSO PROVIDO. (Apelação Cível Nº 70000585836, Sétima Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Sérgio Fernando de Vasconcellos Chaves, Julgado em

31/05/2000)

Abaixo julgado que chama atenção, de relatoria da então desembargadora Maria

Berenice Dias, por mencionar que mesmo antes da cirurgia de redesignação sexual, a pessoa

possui o direito de alterar o nome e gênero, entendimento ainda bastante controvertido.

APELAÇÃO CÍVEL. ALTERAÇÃO DO NOME E AVERBAÇÃO NO REGISTRO CIVIL. TRANSEXUALIDADE. CIRURGIA DE TRANSGENITALIZAÇÃO. O fato de o apelante ainda não ter se submetido à cirurgia para a alteração de sexo não pode constituir óbice ao deferimento do pedido de alteração do nome. Enquanto fator determinante da identificação e da vinculação de alguém a um determinado grupo familiar, o nome assume fundamental importância individual e social. Paralelamente a essa conotação pública, não se pode olvidar que o nome encerra fatores outros, de ordem eminentemente pessoal, na qualidade de direito personalíssimo que constitui atributo da personalidade. Os direitos fundamentais visam à concretização do princípio da dignidade da pessoa humana, o qual atua como uma qualidade inerente, indissociável, de todo e qualquer ser humano, relacionando-se intrinsecamente com a autonomia, razão e autodeterminação de cada indivíduo. Fechar os olhos a esta realidade, que é reconhecida pela própria medicina, implicaria infração ao princípio da dignidade da pessoa humana, norma esculpida no inciso III do art. 1º da Constituição Federal, que deve prevalecer à regra da imutabilidade do prenome. Por maioria, proveram em parte. (SEGREDO DE JUSTIÇA) (Apelação Cível Nº 70013909874, Sétima Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Maria Berenice Dias, Julgado em 05/04/2006).

O posicionamento de Maria Berenice Dias não é isolado, pois o acórdão a seguir colacionado de relatoria do desembargador Alfredo Guilherme Englert, já possuia entendimento de que a modificação do prenome pode ser realizada até mesmo antes da cirurgia emasculatória, como abaixo transcrito.

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APELAÇÃO CÍVEL. REGISTRO CIVIL. ALTERAÇÃO DO REGISTRO DE NASCIMENTO RELATIVAMENTE AO SEXO. TRANSEXUALISMO. POSSIBILIDADE, EMBORA NÃO TENHA HAVIDO A REALIZAÇÃO DE TODAS AS ETAPAS CIRÚRGICAS, TENDO EM VISTA O CASO CONCRETO. RECURSO PROVIDO. (Apelação Cível Nº 70011691185, Oitava Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Alfredo Guilherme Englert, Julgado em 15/09/2005)

Ponto ainda não pacificado é acerca da (in)existência de averbação no registro do motivo da alteração do prenome, principalmente quando a modificação foi feita antes da cirurgia de redesignação de sexo. O Des. Sérgio Fernando de Vasconcelos Chaves defende que no assento de registro cível deve mencionar a mudança e seu motivo, isto com espeque nos art. 21 da Lei 6.015/73. Todavia, há outra corrente defendida pela doutrinadora e ex- magistrada gaúcha Maria Berenice Dias, defendendo que no registro não deve haver nenhuma menção sobre os fundamentos da alteração. Corrobora com a segunda corrente, a Dra. Catarina Rita Krieger Martins, do TJ/RS, conforme julgado abaixo.

APELAÇÃO CÍVEL. REGISTRO CIVIL. Alteração do registro de nascimento. Nome e sexo. Transexualismo. Sentença acolhendo o pedido de alteração do nome e do sexo, mas determinando segredo de justiça e vedando a extração de certidões referentes à situação anterior. Recurso do Ministério Público insurgindo-se contra a não publicidade do registro. Sentença mantida. RECURSO DESPROVIDO. (Segredo de Justiça) (Apelação Cível Nº 70006828321, Oitava Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Catarina Rita Krieger Martins, Julgado em 11/12/2003)

Apenas a título ilustrativo, antes do STJ posicionar-se acerca do tema, houve tribunais manifestando-se contra a modificação do prenome em caso de transexualismo, como segue julgado do TJ/MG.

Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Retificação. Registro Civil. Estado individual da pessoa. Competência. Vara de Família. Nome. Conversão jurídica do sexo masculino para o feminino. Incide a competência da Vara de Família para julgamento de pedido relativo a estado da pessoa que se apresenta transgênero. A falta de lei que disponha sobre a pleiteada ficção jurídica à identidade biológica impede ao juiz alterar o estado individual, que é imutável, inalienável e imprescritível. Rejeita-se a preliminar e dá-se provimento ao recurso. Apelação n. 1.0000.00.296076-3/000. Relator:

Almeida Melo. Belo Horizonte, j. 20.03.2003.

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É de se notar, que o entendimento positivista do tribunal mineiro está superado, sendo indubitável que o sistema jurídico brasileiro admite a alteração de prenome e gênero do transexual, pelos fundamentos já amplamente dispostos neste artigo. No que pertine à alteração do gênero (masculino e feminino), claro é a sua possibilidade, até mesmo pelo raciocínio lógico, haja vista o objetivo aqui defendido não ser apenas alterar o nome, mas sim adequar a pessoa ao seu novo modo de vida, que para lograr êxito deve ser acompanhada da modificação do gênero. A Constituição Federal no art. 5º tutela a intimidade, vida privada, honra e imagem dos cidadãos, o que autoriza a modificação do sexo, caso contrário patente o desrespeito à dignidade da pessoa humana. Por fim, o Deputado Federal Luciano Zica, atento à matéria em comento, propôs o Projeto de Lei Nº 72/2007, que prevê alteração do art. 58 da LRP, “possibilitando a substituição do prenome de pessoas transexuais”. Atualmente encontra-se na Subseção de Coordenação Legislativa do Senado. Mesmo não sendo necessária previsão legal específica para a modificação do prenome do transexual, o projeto de lei acima mencionado representa o reconhecimento pelo legislativo da importância do tema já prestigiado pela doutrina e jurisprudência, além das ciências médicas. Ressalte-se, que com o reconhecimento da mudança de prenome e sexo no registro civil, surgem alguns outros pontos a serem discutidos, como por exemplo a situação jurídica do ex-transexual que é casado. Filiação, a saber se haverá alteração no registro dos filhos, e até mesmo a geração de novos filhos por método de útero de substituição, conhecido vulgarmente como “barriga de aluguel”. Tais problemáticas devem ser levadas em conta e serão discutidas em outras oportunidades, já que o objetivo deste artigo é analisar a questão de mudança do prenome. Assim, pelas explanações feitas no presente artigo, é de fácil conclusão reconhecer que o transexual possui direito de adequar o nome e gênero nos assentos civis, visando a observância de sua dignidade como pessoa e sujeito de direito e por consectário seu salutar desenvolvimento social.

CONCLUSÃO

O princípio da dignidade da pessoa humana tem destaque por ser elemento importante para o aplicador do direito, uma vez que orienta todo o ordenamento jurídico, elegendo o ser

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humano como fim da norma e rompendo com a visão patrimonialista que vigorou antes da

Constituição de 1988 e predominante no Código Civil de 1916.

O nome pertence aos direitos da personalidade, que são normas com o escopo de

tutelar a integridade física, psíquica e intelectual das pessoas. O transexual é o sujeito de

direito que não aceita seu sexo biológico, provocando desconforto e sofrimento ao ponto de

perder o interesse pela vida. Muitas vezes o transexual opta por mutilações físicas, mudança

de vestuário e adoção de apelido, tudo com o intuito de adaptar sua imagem ao que ele

acredita ser.

Diante da situação acima mencionada, as ciências médicas por meio do Conselho

Federal de Medicina edita resoluções, que autorizam cirurgia de adaptação física do

transexual. Neste contexto, valorando normas de caráter geral além de princípios jurídicos e o

reconhecimento e apontamento de solução da realidade do transexual indicado pelas ciências

médicas, é imprescindível que o direito ateste a possibilidade de modificação do nome e

gênero no registro civil, visto que só desta forma o transexual estará inserido com dignidade

em seu meio social.

A possibilidade de proporcionar uma vida digna ao transexual, que vem utilizando o

prenome escolhido para se identificar em sociedade, está atrelada as modificações necessárias

no registro civil, tendo como base os arts. 55, parágrafo único e 58 da Lei de registro Público.

Outro posicionamento não pode ser, senão a de cooperar com a alteração do prenome e estado

sexual da pessoa que já suportou o preconceito e a intolerância da sociedade, garantindo o

pleno exercício da cidadania e dignidade.

Com a adaptação de seu nome e sexo no registro de nascimento, é que o transexual

pode exercer seus direitos civis e sua autonomia privada igualmente a qualquer ser humano,

sem nenhum tipo de discriminação.

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