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HOMENAGEM AO “ANTI-HEROI”
O PALHAÇO DE ALEPPO
Por: Osvaldo Macedo de Sousa

Prólogo
“…as lágrimas que derra-
mamos são a fingir, não se
alarmem portanto com as
nossas
dores e aflicções. Não!
Não! Em vez disso, o nosso
autor tentou mostrar-nos
uma faceta
da vida. A nossa máxima é
que o artista é humano. A
verdade é a sua inspiração.
/…/
Que o espectáculo comece!”
(Prólogo da ópera
“Pagliacci” de Ruggero
Leoncavallo)

A vida é o que cada um cria,
encena e cenógrafa, segun-
do as vontades do incon-
sciente, sendo mais fácil
viver na tragédia do que se Esperança”, andava entre os ha, as pessoas pagam, e num dos lados se ri,
esforçar no optimismo e na escombros da sua cidade, eles querem rir. enquanto do outro se chora,
filosofia humorística, do que de um país, de uma E se Arlequim rouba a sua fazendo do dia-a-dia uma
pintar a cara de palhaço e sociedade arruinada, a criar Columbina, ri Palhaço, e fatalidade incontornável. O
distribuir sorrisos e esper- sonhos, entre os pesadelos todo mundo vai aplaudir! zénite dessa tragicomédia
ança. do dia-a-dia. Ele era o Transforma a tua agonia e lírica é a ária do tenor "Vesti
Não, não é verdade que o “Palhaço de Aleppo” que um sofrimento em piada, trans- la giubba”, conceptualizando
“espaço de esperança” raid, não interessa de que forma as tuas lágrimas e esse amor/dor,
tenha morrido, apesar de lado, porque na guerra mágoas humor/desespero,
Anas já cá não estar: Não todas as partes conflituosas num rosto engraçado. Ri alegria/tristeza que vive den-
entenderam? É verdade, são assassinas de palhaço de teu amor arru- tro da personagem Palhaço,
quase ninguém o noticiou e inocentes, fez cair uma inado! o mais marcante “anti-herói”
a comunicação social que o bomba na hora errada, no Ri da dor que está envene- dos palcos.
fez já o esqueceu mas, em local errado, matando Anas nando o teu coração!” Como defende o palhaço
Dezembro último, morreu e as crianças que com ele (ária do Tenor dos Oleg Popov: “o meu objecti-
Anas Al-Basha, mais um sorriam para a vida. Morreu “Pagliacci” de Leoncavallo) vo é entrar na pele da per-
jovem entre os milhares que este “Palhaço de Aleppo”, sonagem de um homem vul-
todos os dias morrem na mas não a confiança, Em 1892, o compositor gar, que combine organica-
guerra das potências, neste porque por cada sorriso Ruggero Leoncavallo, ao mente excentricidade e real-
caso, na Síria. Porquê referir abatido, novo se levanta e escrever a ópera “Pagliacci” ismo.” Quando o Homem
Anas? Este jovem de 24 prossegue a luta de esper- (Palhaços) sintetizou nela a veste a roupa clownesca,
anos, em vez de partir como ança, de paz. imagem romântica do pinta a cara, coloca o nariz
refugiado com o resto da Palhaço, uma energia místi- vermelho da irreverência,
família preferiu ficar em 1º, 2º… Acto ca que reforça a tragédia do não põe a máscara da
Aleppo a distribuir sorrisos e “…você pensa que é um quotidiano em que a tristeza hipocrisia, como faz a corte
esperança entre as crianças homem? Você não é nada é a vida e a felicidade a do poder, mas antes tres-
e adultos. Vestido de pal- além de um palhaço. máscara social, explorando passa a fronteira da reali-
haço, dirigindo o “Espaço de Veste o fato, a cara enfarin- o jogo de espelhos onde dade na inversão dos

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HOMENAGEM AO “ANTI-HEROI” O PALHAÇO DE ALEPPO
grotescos, para melhor
desenvolver a ponte das
confidências, o elo da fanta-
sia onde vivem os sonhos,
onde nos podemos ver
como realmente somos, não
como Homens mas como
almas atormentadas pelo
poder da tragédia em vez da
luz da comédia. É nessa
máscara grotesca e bela
que se desenvolve o com-
bate entre o lado negro do
espírito e a luz dos sorrisos,
mesmo quando o lado
macabro dos criadores pro-
fana o romantismo clow-
nesco e os transmuta em
personagens diabólicas,
num jogo da matrix contro-
ladora e opressiva. Os cul-
tores da Coulrofobia pós-
modernistas invadiram as
páginas da literatura, narrati- nos uma visão grotesca de haço, um cómico, um fraquezas, nova força
va gráfica, cinema... com nós próprios para melhor humorista que não consiga eclode, se renovam as gar-
personagens macabras nos reconhecermos ao despoletar um sorriso no galhadas para enfrentar o
como “Pennyweise”, “Joker”, espelho. Pelos seus gestos, público, que um ser humano grotesco que nos querem
“Pogo”, “Krusty”, “Doink”... mimicas e aparência que não tenha um sorriso no fazer acreditar que é a vida,
mas o hábito não faz o desconcertante, o Palhaço coração. renovam-se os sorrisos com
monge, e cada palhaço leva o público adulto ou mais empenhamento contra
desenha a sua própria más- juvenil a um regresso à Epílogo a negritude da tragédia que
cara como uma impressão irreverência gaiata do riso “La Comedia è finita” nos querem impor.
digital, da sua alma. salutar e livre de precon- (“Pagliacci” de Leoncavallo) Bastaria esta força telúrica
Romântico, surreal, realista, ceitos. Com as gargalhadas, para invocarmos ainda mais
grotesco ou filosófico, o o público droga-se nas Não, a comédia nunca este “anti-herói”, para este
Palhaço continua a ser uma endorfinas necessárias para acaba. A morte de um pal- tributo ao Palhaço, à invo-
nobre arte de entreter, de a regeneração da vida, ensi- haço é a comédia trágica da cação de Anas Al-Basha.
sonhar, de exorcizar e de nando-o a rir-se de si vida porque por cada pal- Contudo, esta homenagem
fazer terapia contra os próprio, rir-se do pobre pal- haço assassinado a alma deve ser mais abrangente;
pesadelos da realidade. Ser haço que todos temos den- humana perde, momen- se Anas sonhava trazer feli-
Palhaço é desconstruir o tro de nós, para o bem e taneamente, um pouco da cidade e sorrisos numa
quotidiano, abrindo a janela para o mal. Não há nada sua luz, contudo por cada Aleppo destruída, represen-
do fantástico, devolvendo- mais trágico que um pal- intermitência de falsas tando a esperança na paz,
na vida e nos Homens, se
temos vários Patch Adams e
importantes “narizes vermel-
hos” como terapeutas do
riso entre as camas dos
hospitais a distribuir esper-
ança, todos nós também
deveriamos querer ser tra-
balhadores do sorriso, con-
strutores do optimismo e da
esperança, para que a paz,
a tolerância e a liberdade
sejam o nosso quotidiano.
“Viva Pagliacci!!!”

• Nesta homenagem
associou-se o cartoonista
sírio Wissam Assad.

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