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Experiência com um Comitê de Ética em Pesquisa (CEP)

O que segue são algumas observações sobre o funcionamento de um Comitê de Ética numa Universidade Federal brasileira. São observações breves e despretenciosas e somente se referem a alguns aspectos que mais me chamaram mais a atenção durante a minha participação. Não pretendi, e nem pretendo fazer, uma análise profunda, nem uma etnografia. Dentro destes limites - ou seja, de um “salvo engano meu” - seguem as observações de tal experiência.

O Comitê

Participei como membro do Comitê geral da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) pouco mais do que dois anos. Esse Comitê, na realidade, ainda se localizava na Faculdade de Medicina, porque, se entendi bem, se originou nesse campo; apesar de já fazer um tempo que tratava de todos os casos que eram submetidos dentro da Universidade, em que a instância responsável seria a UFPE. Havia um esforço do coordenador para mudar esta situação formal, ou seja, para ser oficialmente um Comitê de toda a Universidade, inclusive para ter mais apoio administrativo. A coordenação distribuía, mensalmente, os processos a serem relatados. Havia um entendimento por parte da coordenação sobre qual projeto de pesquisa poderia ser relatado por qual relator; suponho que a partir da noção de competência que a mesma detinha sobre os membros do Comitê. O coordenador, diga-se, tinha vários anos de experiência, era pessoa dedicada, e foi reeleito no fim do meu período. O cargo necessita uma dedicação considerável e um acúmulo de conhecimento sobre as normas regentes (aliás, bastante amplas, além de haver convites para renovar ou tomar conhecimento de novidades por parte do sistema nacional a que, de certo modo, o Comitê deve certa obediência). De todo modo, eu recebia projetos de várias disciplinas. Tenho a impressão de que a coordenação evitava que se relatasse sobre colegas da mesma disciplina, mas relatei sim projetos de antropologia, além de matérias como psicologia, pedagogia, serviço social, odontologia, sociologia, ciência da informação. É claro que em matérias especializadas, como testes e experimentos de medicina, o parecer caía na mão do pessoal da área, por razão óbvia. No meu caso e de outros (o meu colega da área de filosofia, por exemplo), havia este amplo leque de projetos, em áreas em que não tinhamos competência específica. A média por relator era algo em torno de dois pareceres por sessão (com sorte somente um, alguns chegavam a relatar até três. Sem ter perguntado sobre isso à coordenação, tenho a impressão de que eram pessoas que o coordenador considerava como experientes, dedicadas e com pareceres bastante circunstanciados). A coordenação costumava mandar os processo pelo correio da Universidade, o que funcionou bem até que ocorreu o infeliz incidente quando um destes pacotes não chegou (justamente não chegou na minha mão). Vejamos alguns pontos.

1. Sempre se deve ter recomendações éticas educativas, benefícios.

Logo no começo recebi alguns documentos com as normas que regulavam o parecer e já no mês seguinte recebi um projeto para relatar. Na primeira sessão que participei como relator tinha sido indicado para relatar uma pesquisa sobre grafiteiros. No projeto não havia menção a respeito da necessidade de educar/informar este pessoal sobre eventuais ilegalidades cometidos. Havia um sentimento entre alguns membros importantes do Comitê de que os grafiteiros deviam ser informados pelo pesquisador sobre possiveis atos ilegais, aparentemente porque estes membros se irritavam com os grafitis na cidade em lugares não autorizados. Afirmei que eles deviam saber muito bem o que era legal ou não, que era inócuo, e, talvez, até contraproducente para a pesquisa uma tarefa dessa. O coordenador insistiu e fui voto vencido. A representante de Direito, uma advogada, insistiu, certo momento da discussão, de que todas as ilegalidades encontradas durante qualquer pesquisa, na verdade deveriam ser sempre reportadas às autoridades, por imposição da lei, e que isso valia para todos. Ela não insistiu nesse ponto, mas o sentimento de “esclarecer”, por assim dizer, os desviantes é forte entre o pessoal da área de saúde, pelo menos entre os médicos (como o coordenador), e a advogada. Um sentimento do dever de educar as pessoas que, salvo engano meu, não consta formalmente nas normas, mas que faz parte do ethos médico. Então, ainda salvo engano, parece haver, com as melhores intenções, uma certa noção da necessidade de educação de categorias sociais menos informados e, consequentemente, uma certa vontade de exigir ou impor isso aos pesquisadores.

Por outro lado, havia certas exceções feitas nas exigências formais quando se tratava de pesquisas de grupos verdadeira ou potencialmente engajados em ilegalidades, mas certamente há um problema mais geral destas formalidades aqui, que aparece principalmente para ciências sociais e afins (mas as vezes também em saúde, trabalhar uma coleção de dentes já guardados por exemplo para o ponto a seguir). Um outro ponto destes é que sempre se exige que se deva ter um “capitulozinho” sobre vantagens e desvantagens possíveis para os sujeitos da pesquisa. Vantagem direta para o pesquisado, bem entendido. Qual a pesquisa social que sempre tem vantagem direta facilmente identificável pelos pesquisados, e para todos? Para os romeiros de Monte Santo com quem se conversa na rua sobre qual o sentido para eles da romaria, ou aquele que sobe junto com você o Monte e com quem se conversa rapidamente? Além disso, de preferência, deve-se ter a carta de consentimento, um Termo TLC, assinada pelo pesquisado, também esta já sendo padronizada em sua redação. Ocorre que um TLC pode ser desnecessário, impraticável e mesmo prejudicial para a pesquisa. Claro que o Comitê acaba não sendo tão rígido. Mas o molde está lá e a realidade fora do laboratório não se adequa ao molde ideal. O problema é do molde, não da realidade para que se deve fazer cada vez “exceções” de vários tipos para pesquisas de outras áreas .

2.

Expansão à vista

Havia, aliás, muitas pesquisas apresentadas da área de psicologia, as quais muitas vezes achei que não necessitavam realmente passar pelo Comitê. Vejamos como exemplo um dos casos que relatei: o objeto da pesquisa era as concepções dos estudantes de pedagogia sobre a educação de jovens e adultos (EJA), depois destes terem feito a matéria sobre a EJA no seu currículo do curso de pedagogia. Tratava-se de uma pesquisa bem simples, objetivando conhecer algo sobre o efeito de um dos seus próprios cursos. Qual a real necessidade de se fazer passar pelo Comitê uma pesquisa tão endógena e simples? E o benefício direto para os pesquisados quando já terminaram o curso? Em relação à área de antropologia, poucos foram os projetos que passaram nesse tempo; entre os quais, achei que somente para poucos havia uma necessidade premente de se fazer um parecer, mas há claramente um sentimento por parte da liderança do Comitê de que toda pesquisa deveria passar por lá.

Resumindo, parte importante dos projetos não parecia ter necessidade real de ser avaliada pelo Comitê. Bastaria, por exemplo, uma declaração padrão, talvez para registro no Comitê, algo como uma adesão a um código mais geral para este tipo de pesquisa. Há ritos sumários para estudantes etc., mas mesmo assim o uso do Comitê parece tender à expansão. Por exemplo, tive pareceres sobre pesquisas de fim de curso, de estudantes que estavam terminando o curso de psicologia, quando o nome da pessoa responsável ainda deveria ser a orientadora. Não me parece que seja à toa que mais membros (de instâncias de fora) tenham sido incorporados ao Comitê, aumentando a quantidade de gente para dar parecer. No entanto, para mim ficou a impressão de que, se todos os projetos potencialmente abarcados realmente tivessem de ser submetidos, o trabalho do Comitê aumentaria em muito (há um problema prático aqui porque com uma sessão por mes e número reduzido de membros apesar do aumento para mais de 40 nesse tempo há um limite de avaliações; além disso, atualmente há ainda a imposição de se notificar explicitamente no formulário/projeto que só depois de aprovada pelo Comitê a pesquisa pode ser começada! Sem dúvida, nessas circunstâncias, os membros teriam de gastar muito mais tempo com o trabalho do Comitê do que as leituras, elaboração dos pareceres e presença nas reuniões já exigem. O que significa uma perda de tempo precioso, no meu entender, às custas do tempo de pessoas qualificadas que já são sobrecarregadas em suas outras atividades, especialmente tendo em vista a lógica do produtivismo a que somos submetidos hoje em dia.

3. O modelo de avaliação

O que me impressiona é o caráter absolutamente totalizador da avaliação. O modo de avaliar um projeto engloba tudo que diz respeito ao seu conteúdo. Aliás, o Comitê da UFPE,

trouxe o coordenador do Comitê de outra Universidade para dar um cursinho aos membros

que quissessem ampliar seu conhecimento. Este tinha elaborado um roteiro de itens a serem

vistos: eram várias páginas de coisas a serem controladas

reclamam do português (com razão) e recomendam uma revisão ortográfica. Isso geralmente não impede a aprovação, mas entra no dossiê como “recomendação”. Uma recomendação não

é uma obrigação (ou seja, não pode ser exigida). A maior parte dos projetos é aprovada com

alguma “pendência”; boa parte disso, talvez, ainda se deve ao desconhecimento das várias regras formais do que deve constar no projeto. A(s) “pendência(s)”, aliás, é o mecanismo mais eficiente para a burocracia andar: é raríssimo que o projeto deva ser refeito e novamente apresentado para passar no plenário com outro parecer (e, portanto, entrar de novo na fila de espera). Com a pendência, o proponente resolve as questões diretamente na coordenação e

não precisa retornar para o plenário.

De fato, tem pareceristas que

Mas o pior, em se tratando do modelo de avaliação, é que o parecer deve ser

“completo”, tratando de formalidades e ainda de tudo que diz respeito ao conteúdo: é incrível como, nesse roteiro, o parecerista deve olhar criticamente teoria(s), método(s), dados

apresentados, roteiro de entrevista, literatura citada (e ignorada), tudo

normas gerais ocorre o mesmo fenômeno, e parece que o coordenador no roteiro apresentado desenvolveu o que estava contido nestas normas. Por exemplo, no formulário de apresentação do projeto uma folha de rosto para pedir submissão ao Comitê deve ser mencionada a quantidade de pessoas a serem entrevistadas; no corpo do projeto deve ser explicada esta quantidade. Claro que, se não consta algum destes números, ou se os números na frente e no corpo do texto não batem, já haverá uma pendência aí. Outro exemplo: no Termo de Consentimento (vulgo TLC) é obrigatório mencionar algo sobre riscos à integridade física, moral ou psicológica. Normalmente, tem sido o entendimento deste Comitê de que a priori a pesquisa contem sempre um constrangimento, e portanto, isso deve ficar explícito no TLC. Ou seja, há o pressuposto de que qualquer pesquisa causa um risco neste sentido, o que me parece um exagero. Há entrevistas em que as pessoas gostam de falar e não se sentem nem um pouco constrangidas, nem há outros riscos (e, desse modo, tive de recomendar a inclusão deste item no TLC para um projeto de sociologia que não fazia nenhuma referência a isso, apesar de me parecer desnecessário).

Nas instruções e

Claro que o TLC faz sentido quando se trata de um teste de laboratório que envolve gente e, por exemplo, o teste já foi feito ou o teste implicaria em sofrimento desnecessário, e

o método não convém etc. Neste caso, o Comitê tem que avaliar bem todo procedimento.

Agora, examinar o projeto mais detalhadamente (método, teoria), tendo sido já visto por outras instâncias (orientador do projeto, ou o pesquisador supostamente qualificado, já doutor), parece-me ir além da competência de um Comitê de Ética. Por exemplo, tive que dar

um parecer em um projeto de Serviço Social, que usava um marxismo antigo e rigoroso (algo

que parece ser mais comum nos projetos dessa área), inadequado no meu entender. Entretanto, vou reprovar, mandar rever a teoria? Pelo modelo deveria fazer isto, mas tal desaprovação seria interferir na liberdade teórica e metodológica de cada um. A representante de serviço social, quando discutíamos o caso antes da reunião, me perguntou um pouco assustada: “não vai desaprovar, não é?”. Como avaliar, numa outra área, uma pesquisa de uma pessoa bem qualificada na sua área? Por exemplo, como relatar um processo de uma pesquisadora em Psicologia, doutora, com uma bolsa de pesquisa do CNPq? Como um antropólogo vai dar uma opinião sobre a qualidade da teoria ou o método, a amostragem,

a entrevista dada em anexo, cronograma? E, naturalmente, como é que as pessoas de outras

áreas avaliam um projeto antropológico? Lembro ter visto uma pendência em ciências sociais ou humanas porque não fixava o número de entrevistas previstas (mais exatamente, pergunta-se o número de “sujeitos” da pesquisa). O que, em consequência disto, eu normalmente fazia, era aplicar uma espécie de checklist de exigências formais, normalmente considerando a teoria e o método adequados. Mesmo assim relevei, uma vez, a falta da previsão do número de entrevistas, alegando que nem sempre era possível de prever isso. Afinal, sabe-se de antemão quantos romeiros vai-se encontrar na subida de Monte Santo e com quantos trocará alguma palavra? A outra solução, obviamente, é dar um número fictício, estimativo, e creio que deve haver casos de “chutes” assim só para atender as exigências. Não houve, no caso em questão, problema levantado no plenário, porque todos sabem que, na realidade, o rigor da lista de exigências formais não cabe bem em certas áreas. No entanto, as pessoas de áreas mais “exatas” tendiam a ser mais rígidas do que pessoas das “sociais” (um exemplo é o caso citado). Havia até uma certa caracterização de “vocês os sociais” no Comitê, contra a qual vi a representante de psicologia que estava no Comitê há bem mais tempo do que eu se insurgir uma vez com alguma veemência. Diga-se de passagem que, pela sua origem e critérios, me parece, salvo engano meu, que há uma preponderância de representantes da área de saúde e exatas no Comitê. Lembre-se que formalmente a aprovação é do plenário, que pode levantar questões e pedir esclarecimentos se achar preciso. A instância responsável é o Comitê, não o parecerista.

À guisa de conclusão

Este modelo de avaliação, e o seu roteiro, é totalmente inadequado para situações fora de um laboratório. Como o modelo não funciona fora desse contexto, o que o Comitê faz

é aprovar casos de exceção para não se exigir o que ditam as regras formais. Ou seja, para

todos esses casos se faz exceções à regra, desde que sejam argumentados e justificados. Apesar

disto, o atual modelo complica sempre a situação dos cientistas sociais, porque não funciona bem para esta área. Por isso, deve-se ter um outro protocolo mais adequado à realidade das

ciências que não estão dentro de laboratório. Do jeito que está, sempre se é julgado pelos

critérios de “testes de laboratório”, além de se sofrer com a burocratização que está em

expansão. Isso não quer dizer, evidentemente, que não se deva ou não se possa ter um

sistema de avaliação, aprovação e controle, mas teria de se pensar em uma forma pouco

burocrática, ágil e adequada às pesquisas sociais (e, como visto, a outras áreas afins). 1

1 Sem querer ser completo, falta mencionar que o Comitê também tem a obrigação de acompanhar o andamento das pesquisas aprovadas. Para este fim são sorteadas duas pessoas por reunião que vão visitar e verificar duas pesquisas em andamento, também sorteadas. Ou seja, mais trabalho e responsabilidade ainda.