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Este é o conto que dá origem a todo o projeto Quero ser Reginaldo Pu- jol Filho. Ele foi originalmente publicado no livro Azar do personagem (Não Editora, 2007) com o título de As linhas desnecessárias do círculo.

Em um conto de Os lados do círculo, de nome esquisito, A/c editor cultura segue resp. cf. solic. fax, Amílcar Bettega Barbosa traz à tona um jovem aspirante a escritor e jornalista que consegue en- trevistar Julio Cortázar lá na década de 50, em um café de Buenos Aires, após um seminário de jornalismo literário. Mas a entrevis- ta em si é o de menos para o acontecer da história. É quando ela acaba, e o escritor argentino se vai, esquecendo sobre a mesa um envelope, que a trama começa. Nele, o narrador descobre páginas datilografadas com um trabalho inédito do autor que acabara de entrevistar. Não tendo condições imediatas de devolver a obra ao dono e com a conclusão de que o mesmo devia ter mais cópias, regressou com as folhas para o Brasil. Seu primeiro intento seria realizar uma tradução e publicá-la em seu jornalzinho literário. Além dessa possibilidade, muitas outras se abriram com o passar das décadas, desde a tentativa de entrega para o autor até a in- serção do achado em um livro nunca publicado do protagonista- aspirante-a-escritor. É uma história que eu não vou contar toda, mas que leva a pensar o que se faria numa situação dessas e sobre plágios, influências, cópias e tantas mais divagações. Mas chega desse conto, que eu não quero estragar a leitura de ninguém – se

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você ainda não leu – e também porque você deve estar se per- guntando qual o motivo desse chato estar cagando gomas sobre contos, escritores e cortázares e sei lá mais o quê. Bom, é que isso me veio à mente aqui, sem um original do argentino, mas com dois livros de Amílcar Bettega Barbosa nas mãos. Onde é aqui? Aqui é a uns passos do Amílcar em pessoa, de quem estou a poucos metros de pedir autógrafos, e, se for possí- vel, se a timidez deixar, se não for incômodo, pedir também uma atençãozinha e trocar algumas palavras a mais com o autor. Ele veio à Palavraria para uma espécie de palestra sobre processo de criação e quetais, e eu vim ouvir, ver se aprendo alguma coisa e

conseguir a assinatura dele nos livros. E estou prestes a ter suces- so, já ensaio a forma como vou me dirigir, se será Olá, Amílcar, me dá um autógrafo? ou Licença, Seu Amílcar, desculpa atrapa- lhar, ou sei lá. Na verdade, nem penso nisso, o que me vem mes- mo na cabeça vendo ele ali sentado à mesa, a cinco metros daqui,

é o tal do conto do qual estava agora há pouco a lembrar. E mais

do que me vir esse texto à cabeça, vem junto uma ideia, uma coisa maluca. Imagina se um negócio desses acontece:

Dou os passos que faltam, sento com ele, peço autógrafos; ele, simpático, pergunta meu nome, faz dedicatórias “Ao Reginaldo, um abraço do Amílcar Bettega Barbosa”, eu meio que gaguejo, mas dou um jeito de puxar conversa, digo que gosto de escrever, ou alguma coisa assim, e ele, surpreendente, apesar de todos os

caras da minha idade dizerem o mesmo pra ele, me dá corda e pergunta O que é que tu escreve, tá escrevendo o que no momen- to?, e eu falo um pouco de mim e faço perguntas que ele responde

e estou eu, Reginaldo, trocando uma ideia com Amílcar Bettega

Barbosa. É mole? E mais do que isso: conversa vai, conversa vem,

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o assunto flui, e ele meio que esquece por uns instantes ser figura

pública, astro da noite, ter que circular, dar atenção aos demais presentes, etecétera e tal e deixa nosso papo correr por algum bom

tempo até um chato qualquer puxar-nos de volta ao café e o es- critor, de volta ao centro do espetáculo, e ele se desculpa, diz que, bem, tem que levantar e eu, não, Não precisa se desculpar, tudo bem, que é isso, muito obrigado pela atenção, obrigado mesmo. Aperto de mãos e lá se vai o Amílcar – acho que já posso chamá- lo assim –, mas e lá vai o Amílcar. Eu sem mais, continuo à mesa,

a relembrar a conversa, degusto os momentos, fico até orgulhoso,

me acho um cara um pouco mais interessante do que costumava achar, e saio pra casa, não sem antes pegar os livros devidamen- te autografados, mas sem perceber que junto vem um envelope pardo, que ficara esquecido sob os volumes. Envelope esse que só será descoberto na mesa lá de casa, quase hora depois de mi- nha chegada, quando eu lembrar dos livros e for até a mesa dar uma conferida nos autógrafos e me perguntar Mas que envelope

é esse? E ao natural abri-lo para, então, loucura, encontrar quatro

páginas, formando elas um inédito de Amílcar Bettega Barbo- sa. Dá pra imaginar minha reação? Espanto, curiosidade, medo, vontade de ir ao banheiro? Pode ser, mas primeiro ler e reler, em especial, o nome ao final do texto e todas as anotações a caneta, marcando correções a serem feitas. E então? Bom, passado o sus- to, penso em como devolver o envelope ao dono, que ninguém aqui foi escoteiro à toa e esse é o certo a ser feito. Telefone da Pala- vraria chama, chama e ninguém atende. Nem era de se esperar o contrário quase à meia-noite de sábado. A editora pode me dar o contato do autor. Mas não a essas horas. Muito provavelmente só na segunda-feira vai ser possível encontrar alguém capaz de me

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dar condições de contatar Amílcar para devolver o original. Mas

e se ele já houver regressado a Paris? Puxa, e essa é só a primeira ideia que surge na mente deste pós-adolescente, daquelas capa- zes de desviar meus ímpetos escoteiros e convencerem-me a dar outros destinos ao conteúdo do envelope. E nas mais de 24 horas que existem entre um sábado à noite e a manhã de uma segunda, muito mais poderá ser ventilado. Por exemplo: pô, mas se fosse importante, o Amílcar não esqueceria na mesa, aliás, nem andaria com ele por aí. E mais: hoje, escritores usam computador, gravam suas obras em HDs, CDs, imprimem. Não vivem mais à base de temerários manuscritos, que, se chover ou o cachorro mastigar, vão pro saco como acontecia com meus temas de casa nas des-

culpas escolares. Por outro lado, toda essa facilidade tecnológica também pode pregar peças nos literatos. E se o computador do Amílcar queimou mesmo, o e-mail que ele enviara para o editor com o arquivo anexado foi barrado e deletado por um antivírus

e então a cópia esquecida era filha-única-de-mãe-solteira, e ele

andava com aquele envelope debaixo do braço pra poder copiar em outra máquina e salvar sua obra? Pouco provável. Muito Deus Ex-Machina pra história de menos. E também é pouco provável que este conto esteja pra ser publicado agora, agora, afinal, está cheio de correções por fazer e rasuras. Não é urgente. Não vai fazer tanta falta. Quem sabe, não o passo pro meu computador com os devidos ajustes e depois, só pra brincar, por teste, envio pro crivo de uma dessas publicações literárias de internet, só pra ver se os caras aceitam uma obra do Reginaldo Amílcar Bette- ga Barbosa. Então o vejo publicado no www.bestiario.com.br e, desse momento em diante, ele passa a ser meu produto. Depois imprimo uns cartazes e colo em paredes e murais de cafés, cen-

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tros culturais, bares, com o meu nome no lugar do autor. Uma bela divulgação pra começar a minha carreira literária. As pesso- as lendo e depois a comentarem por aí que Esse Reginaldo tem

um estilo maduro, né? Nem parece iniciante, ou Tão bom esse conto, parece que já li em algum lugar, me é familiar, será que esse Reginaldo tem algum livro? Com uma divulgação dessas, bem feitinha, depois é só me apresentar a editoras, com um livro meu, contendo, lógico, meu primeiro grande conto, batalhar meu me- recido espaço, publicar. E, nas livrarias, muita gente comprando

o lançamento daquele cara, aquele que a gente leu na parede do

bar, lembra? E o Amílcar com isso? Ah, nem se dá conta da his- tória toda lá em Paris, onde ele mora, só bem mais tarde, quando alguém ler o novo livro dele – se é que o computador dele não pifou mesmo e ele tinha uma outra cópia do texto que já é meu

–, mas só quando alguém ler o conto no livro dele e reparar que é igual ao meu e surgir o boato de apropriação da obra de um autor desconhecido, surgindo um bafafá intelectual, aí sim o Amílcar vai ficar sabendo. Não, mas eu não quero que isso aconteça com o cara. Bom escritor. Original. Ótimos livros. Tá louco eu estragar

a carreira dele. Não quero crescer assim. Por isso é que pego essa

oportunidade e a transformo num exercício estilístico-literário. Sabe o que faço com o conto achado? Reescrevo, só que pondo

o meu estilo nele e, depois, claro, imprimo em cartazes e espalho

por aí e tudo mais. Daí não é plágio, nem sacanagem, né? E, se o computador do Bettega não queimou, e ele vier a publicar a histó- ria, daí quem ler a dele e a minha dirá Mas que loucura, os caras tiveram a mesma ideia, mas ninguém suspeitará de imitação ou coisa parecida e até pode ser que gostem mais do meu estilo, vai que levo jeito pra coisa e a minha versão é boa mesmo? Mas pode

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ser que a melhor saída seja fazer desse conto achado o ponto de partida para um novo conto, uma novela, por que não? Sem a me- nor chance de criar problemas pra quem perdeu, nem pra quem achou o texto. O enredo: eu como protagonista, um aspirante a escritor, fã de Amílcar Bettega Barbosa, que tem uma conversa com ele e acaba, por acidente, ficando de posse de um original do autor e daí, não, não, essa saída sim é que me parece um belo dum plágio, cópia descarada do Amílcar e de todos esses que já escreveram sobre manuscritos achados em gavetas, armários, li- vros e cadernos. E, pra ser sincero, tenho a impressão de que tudo isso aqui que eu estou pensando ao olhar o escritor ali na mesa a poucos passos daqui foi o tempo inteiro um senhor plágio de A/c editor cultura segue resp. cf. solic. fax. Não sei. Que tem muita influência, tem. Mas acho que não é plágio não. Até porque são só meus pensamentos, não é conto. Ninguém vai se prestar a escre- ver nem ler essas bobagens.

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Quero ser Machado de Assis

Desocupado leitor, a história é a seguinte, quer dizer, não, me perdoe. Não leve a mal o adjetivo desocupado da linha acima, não era exatamente no sentido, digamos, de vagabundo que eu queria falar. Era mais algo como, perceba, você, mas como posso explicar, observe, trata-se de estilo, compreende? Descontrair de uma forma contemporânea com quem está do outro lado, mas longe, longe, deveras longe deste narrador, porventura ofender você. Melhor começarmos assim:

Ocupado leitor – sim, admito, ocupado não chega a elogio, to- davia não ofende –, mas, ocupado leitor, precisamos correr, visto que as delongas acima já atrasam o andar da história e, afinal, é para ler histórias que o amigo tem um livro nas mãos. Pois acelerarei. Não contarei o antes, até porque não o vi, desculpe, conversá- vamos e não sei fazer de pleno duas coisas ao mesmo tempo. Por- tanto, perdoe este narrador e vamos ao já: um homem e uma mu- lher estão em um apartamento. Com mais precisão, se encontram em uma sala, a luz é baixa, dessas sob as quais talvez o letrado leitor esteja agora, muito confortáveis para a leitura e a reflexão. Parece-me que ambos conversam. Mas pouco se vê, lembre-se a

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