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LITERATURA BRASILEIRA E LITERATURA AFRO-BRASILEIRA

Segundo a Lei n. 10.639/03, todas as escolas brasileiras da educação básica, privadas ou públicas, precisam incorporar em suas práticas a diversidade étnica de seu país. Porém, muito antes da implementação da lei, encontrávamos registros de ações individuais ou coletivas, realizadas pelos movimentos sociais. Cientes que nossas práticas precisam superar o âmbito da denúncia, a intenção deste Módulo de literatura afro-brasileira é efetivar ações que modifiquem o cenário de exclusão e inferiorização da comunidade negra. Nossas ações precisam envolver todos os atores da escola (secretarias de educação, diretores(as), professores(as), alunos(as), funcionários(as) e a comunidade) e requerem também uma pesquisa de qualidade e sua inclusão no projeto pedagógico da escola.

Nesta unidade, discutiremos sobre o papel da literatura na construção da nação brasileira e refletiremos sobre as representações dos afro-brasileiros e africanos na literatura.

Tópico 1 - Literatura Brasileira e Literatura Afro-brasileira

São objetivos desta unidade:

Analisar como a Literatura Brasileira representa os africanos e seus descendentes;

Refletir sobre as representações estereotipadas no tocante à população negra.

Vamos começar a refletir sobre literatura negra?

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Tópico 1 – Literatura brasileira e literatura afro-brasileira

A literatura possui papel preponderante na constituição de um discurso de homogeneização nacional, constituindo-se como um dos imaginários de um território nacional, desenhando perfis, transmitindo idéias e valores que irão compor discursos oficiais e extra-oficiais de uma nação específica.

No intuito de delimitar o patrimônio artístico-cultural de cada país, pelo menos desde fins do século XV, nações européias elegem obras literárias consideradas clássicas dos seus idiomas oficiais. Posteriormente, as novas nações americanas, nascidas sob o jugo da colonização européia, seguiram o mesmo caminho, canonizando obras literárias, que acabaram por se transformar em representantes dos traços característicos de cada nação. Na verdade, traços específicos, imaginados como verdadeiros e autênticos dentro de cada projeto de nação. Essa imaginação nacional, no caso da produção literária brasileira, implica sobretudo representações de diferentes grupos étnico-raciais.

Em relação a países da América Latina, que ingressaram no cenário da modernidade ocidental a partir do projeto europeu de colonização, o jugo de determinados grupos étnico-raciais torna- se um processo intimamente ligado a uma subalternidade que se estende desde o período de dominação européia direta. Dessa forma, grupos tomados como a degenerescência do projeto europeu de civilização, sejam descendentes de africanos escravizados ou indígenas e índio-descendentes, são rebaixados à condição de subalternos, tanto em termos físicos quanto nos níveis social, cultural, intelectual ou político.

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Tal processo de subalternização perpassa por diversas instituições sociais que constituem um Estado-nação, dentre elas uma que nos interessa mais de perto: a escola. No artigo The Nation Form: History and Ideology [A forma nação: história e ideologia], Étienne Balibar 1 contextualiza a estreita correlação histórica entre formação nacional e desenvolvimento da escola enquanto instituição popular, ou seja, não restrita à educação e cultura das elites. Nesse processo, a escola se torna a instituição principal na produção de etnicidade baseada em uma comunidade lingüística comum, sendo decisiva não só na oficialização da língua nacional, como também na transformação do idioma materno 2 em realidade afetiva e identitária para cada indivíduo. Dessa forma, a ambígua realidade idiomática, a um só tempo individual e coletiva, será um dos meios pelos quais a identidade nacional se constituirá, utilizando um código comum, por sob as diferenças lingüísticas de classe, geração, grupos profissionais, grupos étnicos, entre outras. Embora uma comunidade de língua não seja suficiente para, sozinha, produzir etnicidade, o encaminhamento teórico de Balibar coloca em questão algo que interessa de perto às reflexões deste módulo, levando-nos a olhar criticamente um ensino de literatura que tem excluído as textualidades negras, sejam elas afro-brasileiras ou africanas, além de questionar o nosso papel como professor de língua materna, no caso brasileiro, do professor de língua portuguesa ou de qualquer outra disciplina, como agente do processo de legitimação de determinadas narrativas nacionais. Estudos sobre historiografia literária têm demonstrado que o processo de eleição dos clássicos literários se relaciona ao ensino formal da literatura, é importante questionar em que medida os professores de língua materna no Brasil têm reproduzido uma perspectiva limitadora de nossa nação ao ensinarem acriticamente uma excludente história da literatura brasileira, em

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circulação tanto nos manuais didáticos mais usados quanto nas salas de aula.

No Brasil do século XIX, o indianismo romântico pode ser visto como a primeira tentativa intelectual sistematizada de, no plano metafórico da literatura, representar o que se entendia por nossa especificidade nacional, construída pelo apagamento do papel de grupos étnico-raciais não ocidentais. Dessa maneira, excluindo a mão-de-obra africana escravizada dessa representação e construindo literariamente o indígena de maneira europeizada, o indianismo deu forma, ainda na primeira metade do século XIX, a uma concepção de Brasil caracterizada por um harmonioso relacionamento étnico, pois subtraía da tessitura textual-literária as violências sofridas pelos grupamentos africanos e indígenas no processo histórico da colonização brasileira. O amparo que a literatura indianista recebeu do público letrado da época traduz plenamente a função ideológica dessa interpretação das relações étnico-raciais no Brasil.

interpretação das relações étnico-raciais no Brasil. A importância estratégica da supervalorização do

A importância estratégica da supervalorização do indígena na literatura brasileira do século XIX revela o viés excludente da tradição literária brasileira, cujo movimento canonizado como principal 3 se

comprometeu a criar uma idéia de nação que ignorava os nossos problemas sociais e acabava por velar nossas desigualdades

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sociais e étnicas, através do tom exótico ao representar o nativo 4 , concebido como o antepassado mítico dos brasileiros.

A face conservadora do indianismo romântico pode ser apreendida quando se percebe que a visão européia restringiu a representação do índio, definindo-a segundo parâmetros da imaginação do ocidente.

Assim, de modo semelhante ao mecanismo da (re)invenção dos selvagens pelos cronistas europeus do século XVI, reafirma-se, com o indianismo, a visão exógena, comprometida com a perspectiva européia de mundo. Além disso, ignora a presença de africanos nessa imaginação de nação brasileira. Perpetua-se, portanto, o racismo, já que, no plano da imaginação literária, naturalizam-se relações sociais desiguais, injustas e baseadas, inclusive, no extermínio físico, cultural e imaginário de grupos étnico-raciais subalternizados. A partir do que foi demonstrado, pode-se perceber que a passagem da literatura colonial para a pós-colonial, no Brasil, não significou mudança radical de enfoque, pois a medida e o olhar continuaram ainda a ser europeus.

Acreditando na existência de diferenças ontológicas entre as etnias, capazes de determinarem as características físicas e psicológicas dos seres humanos — cuja divisão hierárquica tomava como parâmetro a etnia branco-européia — estudiosos brasileiros responsabilizavam, por um lado, a união de diferentes

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grupos étnico-raciais pelo atraso do país caso, por exemplo, do médico legista baiano Nina Rodrigues, cujas idéias concebiam a mestiçagem como degradação; todavia, por outro lado, representavam-na como a marca essencial da nossa brasilidade caso da singular interpretação do Brasil feita pelo historiador literário Sílvio Romero 5 , que acreditou na possibilidade de a mistura étnica ser positiva para o Brasil.

O antropólogo Kabengele Munanga, no livro Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra, argumenta que a mistura étnico-racial só era considerada positiva, para Silvio Romero, porque resultaria na homogeneização da sociedade brasileira a partir do desaparecimento dos segmentos étnico-raciais negros e indígenas, que se diluiriam na predominância biológica e cultural branca.

Na visão do intelectual de fins do século XIX, a seleção natural faria prevalecer na mestiçagem, após algumas gerações, o tipo racial mais numeroso, no caso do Brasil, segundo ele, a raça branca. O arcabouço do pensamento de Romero leva então a uma visão otimista, segundo os parâmetros das elites letradas da época, pois interpreta a cultura brasileira mestiça como em vias de embranquecimento. O fundamento de tal ideologia parece, portanto, óbvio: a inferioridade e o conseqüente apagamento dos grupos étnico-raciais não-brancos.

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Nesse sentido, a quase total ausência, nas salas de aula, da

produção literária em que vozes negras articulem sentidos sobre sua própria condição social pode ser vista como a perpetuação dessa representação de Brasil. O que se observa na produção editorial dirigida à escola é a obliteração da problemática racial nos poucos escritores negros que têm suas literaturas analisadas, além da minimização dos papéis das representações estereotipadas ou animalizadas dos negros em obras literárias que fazem referência a teorias raciais ou discutem as especificidades das relações entre os diferentes grupos étnico- raciais no Brasil, caso de parte da produção literária de Machado

de

Assis, Cruz e Souza, Lima Barreto, Euclides da Cunha, Mário

de

Andrade, Jorge Amado, entre tantos outros.

Trabalhar a historicidade do texto literário tem significado, portanto, na Escola Básica brasileira, tratá-lo em uma linha de tempo linear-cronológica, desde o século XVI até o século XX, reproduzindo a organização tradicional dos estudos em estilos de época, seus autores e obras mais representativos. Organizado dessa forma, nosso ensino reduz tanto o multiperspectivismo

próprio do texto literário quanto a concepção de história literária,

ao compreender a literatura como uma naturalizada sucessão de

estilos, períodos ou movimentos literários.

O reducionismo desse tipo de concepção se torna ainda mais

complexo, porque, sob tal quadro cronológico, surgindo como um fundamento da escolha da maioria dos autores e obras canonizados, encontra-se um projeto de nação limitador, marcado pela amenização de tensões sociais que possam levar a lembrar

a violência sofrida por grupos étnico-raciais sujeitados, dizimados

ou silenciados no decorrer de nossa história.

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Dentro do contexto aqui apresentado, a literatura brasileira em seu termo abrangente – todas as formas literárias produzidas no Brasil – não tem representado, em equidade, todos os grupos étnicos que compõem o país, nem os conflitos nem a complexidade cultural de cada um deles. E, principalmente, não dá conta dos escritores negros e de suas produções, mantendo-

os fora dos cânones e das salas de aulas.

Levando em consideração as questões até aqui apresentadas, os estudos literários voltados para textualidades negras ou afro- brasileiras suprimidas de nossa tradição literária lidam com, pelo menos, duas perspectivas metodológicas: por um lado, uma análise das representações negativas ou estereotipadas do negro na literatura brasileira; por outro, uma preocupação por inserir a produção literária afro-brasileira, que contempla a opressão cotidiana das populações negras no Brasil, implicando, além de matrizes culturais africanas, contradições sociais por elas vivenciadas, em decorrência sobretudo do racismo.

Uma observação do romance de Mário de Andrade Macunaíma um herói sem nenhum caráter, por exemplo, pode demonstrar o quanto uma obra canonizada como uma das mais importantes do Modernismo brasileiro, tradicionalmente conhecida como representante de um nacionalismo crítico em oposição ao nacionalismo ufanista dos escritores românticos, é construída, todavia, a partir da representação negativa do negro e do indígena.

O herói civilizador sem nenhum caráter nasce preto retinto em

tribo indígena; adulto, toma banho em uma cova de água encantada, embranquecendo. Entretanto, os irmãos Jiguê e Maanape, ao se lavarem na cova encantada, não tiveram o mesmo destino, ficando o primeiro cor de bronze e o último preto, somente com as palmas dos pés e das mãos vermelhas, devido à

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sujeira e à quantidade ínfima de água na cova. O fragmento que narra a transformação física dos irmãos é bem significativo de como as relações étnico-raciais são tratadas na narrativa:

Nem bem Jiguê percebeu o milagre, se atirou na marca do pezão do Sumé. Porém a água já estava suja da negrura do herói e por mais que Jiguê esfregasse feito maluco atirando água para todos os lados só conseguiu ficar da cor do bronze novo. Macunaíma teve dó e consolou:

_ Olhe, mano Jiguê, branco você ficou não, porém pretume foi- se e antes fanhoso do que sem nariz.

Maanape então é que foi se lavar, mas Jiguê esborrifara a água encantada pra fora da cova. Tinha só um bocado lá no fundo e Maanape conseguiu molhar só a palma dos pés e das mãos. Por isso ficou negro bem filho da tribo Tapanhumas. Só que as palmas das mãos e dos pés dele são vermelhas por terem se limpado na água santa. Macunaíma teve dó e consolou:

_ Não se avexe, mano Maanape, não se avexe não, mais sofreu nosso tio Judas! (Macunaíma, p. 37)

Trabalhada como um milagre, a metamorfose física do herói e de seus dois irmãos é uma construção ficcional de um dos traços que tem tradicionalmente caracterizado o brasileiro, mestiço por excelência.

Dessa forma, mesmo com tonalidades de pele diferentes são — tanto os personagens do romance quanto os próprios brasileiros — representados como irmãos. A valorização de uma mestiçagem harmoniosa, caracterizada pela ausência aparente de tensão entre os diferentes grupos étnicos, está explícita nesse episódio. Todavia, as falas do herói demonstram o desejo latente de embranquecimento, na medida em que concebe o “pretume” como um defeito ou um intenso sofrimento, respectivamente, construindo de forma explícita uma representação pejorativa do brasileiro negro.

sofrimento, respectivamente, construindo de forma explícita uma representação pejorativa do brasileiro negro. 17

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Além do discurso nacionalista baseado na união harmoniosa de distintos grupos étnico-raciais, a construção dos personagens baseada em estereótipos também é uma das marcas do romance de Mário de Andrade. O capítulo “Macumba” pode ser lido, inclusive, como um fragmento que congrega, ao máximo, representações estereotipadas e negativas de culturas de matrizes africanas. De acordo com o enredo do romance, o herói, na busca do amuleto que se perdeu e de destruir o seu principal inimigo, usa uma série de estratégias para recuperá-lo, dentre elas a ida a um ritual de candomblé.

Talvez com o intuito de trabalhar o sincretismo religioso brasileiro, intimamente relacionado à ideologia da mestiçagem, a qual concebe a cultura como una, todavia composta por diversidades étnicas que se somam harmonicamente, Mário cria ficcionalmente um terreiro de candomblé que representa um verdadeiro inferno na terra, mundo da animalidade e dos baixos instintos. Situada no Rio de Janeiro, a casa da Tia Ciata é o lugar onde acontece a orgia ritualística dedicada a Exu-Diabo 6 .

De acordo com o estudioso de cultos africanos Pierre Verger 7 , Exu, intermediário entre os homens e os deuses, é um orixá de múltiplos e contraditórios aspectos, revelando-se o mais humano entre eles, nem completamente mau, nem completamente bom. Como dono da encruzilhada, Exu revela um lado favorável e um lado caótico, incorporando em si a ambigüidade, as múltiplas identidades. Entretanto, devido ao viés astucioso e sensual com que é caracterizado na cosmogonia africana, missionários católicos europeus fizeram dele símbolo de tudo o que é maldade, comparando-o ao Diabo.

O capítulo “Macumba” deixa de lado a ambivalência da divindade, construindo-a apenas como Diabo; por isso, Exu, no episódio, só concede os pedidos pernósticos de seus fiéis e se porta como um pai espiritual do “herói sem nenhum caráter”, que se vinga de

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Venceslau Pietro Pietra, através dos poderes demoníacos desse orixá. A reza final dedicada a Exu, construída como paródia à prece “Padre Nosso”, reduz o culto afro-brasileiro a uma caricatura infernal do ritual católico:

- Padre Exu achado nosso que vós estais no trezeno inferno da esquerda de baixo, nóis te quereremo muito, nóis tudo!

- Quereremos! quereremos!

- O pai nosso Exu de cada dia nos dai hoje, seja feita vossa

vontade assim também no terreiro da sanzala que pertence pro nosso padre Exu, por todo o sempre que assim seja, amém!

Glória pra pátria jeje de Exu!

- Glória pro fio de Exu!

Macunaíma agradeceu. A tia acabou:

- Chico-t era um príncipe jeje que virou nosso padre Exu dos século seculoro pra sempre que assim seja, amém.

- Pra sempre que assim seja, amém! (Macunaíma, p. 63-64)

O humor zombeteiro presente no capítulo “Macumba” é, portanto, a forma extremada de uma série de representações estereotipadas que perpassam pelo romance. Perceber representações negativas do negro na literatura é condição indispensável para compreender que há representações literárias positivas tanto dos afro-descendentes quanto das culturas e conhecimentos por eles produzidos. A literatura contemporânea que se auto-nomeia afro-brasileira produz uma perspectiva radicalmente oposta às visões correntes dos afro-descendentes na literatura que mais comumente tem circulado nas salas de aula do país.

Acadêmicos brasileiros cuja produção tem se voltado para textualidades negras demonstram a ampliação identitária que o texto afro-brasileiro proporciona à sociedade, na medida em que joga com a possibilidade de deslizar produtivamente entre a tradição ocidental européia e tradições africanas aqui retrabalhadas.

Dentro de tal processo de deslizamento identitário, a mudança de referenciais do texto afro-brasileiro desnaturaliza um leitor fabulado como único no Brasil: branco e, quase sempre,

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masculino 8 . O escritor negro precisa lidar, portanto, com no mínimo duas contradições: não só ser exceção em seu meio social como escrever para leitores formados segundo parâmetros da tradição literária ocidental. O escritor e crítico literário Cuti esmiúça o drama vivido pelo autor negro que reivindica essa condição social, ao escrever para leitores negros, mestiços e brancos:

A relação leitor/texto/autor, na literatura brasileira, implica quase sempre a invisibilidade do leitor negro. É, como no contexto social o foi por muito tempo, desconsiderado enquanto cidadão. A experiência do leitor negro ante o grande espectro da literatura nacional é a mesma de quem tivesse ouvindo uma conversa entre brancos, atrás da porta, do lado de fora. E só encontra uma saída: abstrair-se de sua concrecute e admitir, em si, o branco, enquanto autor, personagem principal e destinatário do discurso. Não se constitui como “leitor ideal” para os escritores brancos nem mesmo para os mestiços ou negros, inclusive a maioria dos modernos. Até que o escritor, sendo negro que escreve sem renegar sua experiência subjetivo- racial, eleja-o em seu ato de criação. Nasce o interlocutor negro do texto emitido pelo “eu” negro, num diálogo que põe na estranheza, na condição de ausente, o leitor “branco”. [grifos do autor] 9

Essa liberação da criação literária, sob a perspectiva étnico-racial do negro no Brasil, abre espaço não só para o intercâmbio com outras tradições culturais não legitimadas no ambiente escolar como também para uma discussão mais aprofundada dos lugares de privilégio reservados aos brancos brasileiros enquanto categoria social. Um ensino de literatura que promova o desbloqueio de vozes literárias tradicionalmente silenciadas possibilita ao educando estar no lugar, literalmente na pele do outro, apreendendo-lhe a dimensão humana.

Dando continuidade às questões até aqui abordadas, na próxima Unidade, discutiremos a produção literária afro-brasileira, do século XIX até a contemporaneidade.

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Concluímos a Unidade 1. Na próxima Unidade, discutiremos em pormenores a literatura denominada afro-brasileira e

Concluímos a Unidade 1. Na próxima Unidade, discutiremos em pormenores a literatura denominada afro-brasileira e suas diferenças em relação à literatura canônica.

Leituras sugeridas

FONSECA,

http://www.letras.ufmg.br/literafro/frame.htm (artigos).

SILVA, Luiz. “O leitor e o texto afro-brasileiro”. In: http://www.cuti.com.br/ensaios3.htm

Maria

Nazareth.

“Poesia

Afro-brasileira:

vertentes

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In:

Para saber mais

CAMARGO, Oswaldo. O negro escrito: apontamentos sobre a presença do negro na Literatura Brasileira. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 1987.

FONSECA,

http://www.letras.ufmg.br/literafro/frame.htm (artigos).

In:

http://www.palmares.gov.br/_temp/sites/000/2/download/revista2/revista2-i64.pdf

OLIVEIRA, Sílvio. “Séculos de Arte e Literatura Negra”. In: LIMA, Maria Nazaré e SOUZA, Florentina (Org.). Literatura Afro-brasileira. Salvador: CEAO / Brasília: Fundação Cultural Palmares, 2006. (p. 39 – 76).

SOUZA,

vertentes e feições”. In:

Maria

Nazareth.

“Poesia

Afro-brasileira:

Florentina.

“Literatura

Afro-brasileira:

algumas

reflexões”.

BARRETO, Lima. Os melhores contos. São Paulo: Martin Claret, 2003.

BERND, Zilá. Introdução à Literatura Negra. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1988.

Literatura e identidade nacional. 2ª. Ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2003. p.

103-123.

DUARTE,

Eduardo

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FREITAS,

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“Lima

Barreto:

um

intelectual

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na

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central”.

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http://www2.uerj.br/~intellectus/textos/Celi.pdf.

JESUS, Carolina de. Quarto de Despejo: diário de uma favelada. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1960.

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LIMA, Maria Nazaré e SOUZA, Florentina (Org.). Literatura Afro-brasileira. Salvador: CEAO, Brasília: Fundação Palmares, 2006.

MARGARIDO, Alfredo. Estudo sobre literatura das nações africanas de língua portuguesa. Lisboa: a regra do jogo, 1980.

SANTOS, Jean Carlos Ferreira. “Saber, beleza e arte em Carolina Maria de Jesus”. In:

http://www.palmares.gov.br/sites/000/2/download/revista2/revista2-i96.pdf

Material de apoio

Convite ao livro Clara dos Anjos – Lima Barreto http://www.youtube.com/watch?v=hBQyvJaMbOI

Canção para Solano Trindade

http://www.youtube.com/watch?v=L8YmtGkX5LE&feature=related

Filmes “Cruz e Sousa – poeta do desterro” de Sylvio Back Documentário “Carolina” de Jeferson De, 2003. “Macunaíma” de Joaquim Pedro de Andrade, 1969. “Alma no olho” de Zózimo Bulbul, 1973.

Enquanto isso, na sala de aula

de Zózimo Bulbul, 1973. Enquanto isso, na sala de aula A necessidade de uma revisão da

A necessidade de uma revisão da

historiografia literária se faz urgente

e sistemática, no tocante às

representações simbólicas da

população negra, especialmente, no

contexto da sala de aula. Pensamos

algumas estratégias de práticas

pedagógicas e convidamos os

professores e professoras a

experimentarem outras; aos

professores(as) que já realizam

ações na perspectiva da lei 10.639/03, que socializem suas experiências, pesquisas e/ou

produzam materiais didáticos que contemplem a dimensão étnicorracial na escola.

Uma das estratégias sugeridas é contrapor as representações da literatura brasileira

canônica com outros modos de representação - a exemplo a produção literária afro-

brasileira, evidenciando as versões que contemplem a diversidade étnicorracial e cultural

brasileira. Os professores de língua portuguesa, por vezes, enfrentam o desafio de

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trabalhar obras específicas (cumprindo o projeto pedagógico da escola) no qual os negros não aparecem, ou, quando são inseridos nas narrativas, é em posição de subalternidade. O importante, nesse caso, é ter professores atentos e capacitados para desconstruir essas representações para que, no processo, possam aproveitar para problematizar junto a seus(suas) alunos(as) as mais diversas situações encontradas. Na perspectiva das discussões desta Unidade, propomos um trabalho com o livro “Vítimas Algozes” (1869), de Joaquim Manoel de Macedo, no qual o escravo Simeão é assim

descrito:

Simeão, o crioulo mimoso, perdido, malcriado pelas afetuosas condescendências e fraquezas dos senhores em casa, pervertido pelos deboches da venda e pelo veneno do crápula, ingrato pela condição de escravo, sem educação e sem habito de trabalho, contando com a liberdade e não conseguindo era um perverso armando loucamente contra os seus senhores pelas mãos de seus senhores (MACEDO, 2005, p.49)

Apesar da existência de personagens negros, estes não eram vistos como brasileiros pela maioria das narrativas do século XIX. Alguns autores da época ignoraram completamente a presença da população de origem africana de suas narrativas. Ou representavam de forma estereotipada, como no trecho do romance “Vítimas

Algozes”, no qual pudemos ver a descrição do escravo perverso, traidor e pervertido. Infelizmente, muitos estigmas foram construídos

e são reiterados em obras literárias até os dias atuais.

Para um debate em classe, destacamos a escritora maranhense, Maria Firmina Reis, com romance “Úrsula” (1859),

Maria Firmina Reis, com romance “Úrsula” (1859), Senhor Deus! Quando calará no peito do homem a

Senhor Deus! Quando calará no peito do homem a tua sublime máxima – ama a

teu próximo como a ti mesmo – e deixará de oprimir com tão repreensível injustiça

aquele que é seu

irmão?! E o mísero sofria; porque era escravo, e a escravidão não lhe embrutecera a alma; porque os sentimentos generosos, que Deus lhe implantou no coração, permaneciam intactos, e puros como sua alma. Era infeliz; mas era virtuoso; e por isso seu coração enterneceu-se em presença da dolorosa cena, que se lhe ofereceu à vista.

ao seu semelhante!

aquele que também era livre no seu país

A leitura proposta por Firmina sobre a escravidão e os escravos é completamente diferente

do olhar de Macedo. Sob a perspectiva feminina, os escravos eram virtuosos, possuindo sentimentos de generosidade mesmo em meio à violência e aos maus tratos. Os trechos de Macedo e Firmina aqui expostos evidenciam os diferentes modos de interpretação para o mesmo evento: escravidão. A importância de Firmina não está só nos

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modos como os escravos são descritos, acrescenta-se o fato de ser a primeira escritora mulher e mulata. Com base nos recortes, propor discussões em classe, pesquisa sobre o século XIX, a escravidão; pensar como as novelas de época, filmes, materiais publicitários representam os escravos na atualidade. Será que a representação de Macedo ficou lá, no século XIX, ou ainda é possível encontrarmos sua reprodução atualmente? Outra possibilidade é a realização de oficina de produção textual, em que o(a) aluno(a) é estimulado(a) a escrever sobre o período escravocrata. No momento reservado à leitura oral dos textos, observar e registrar os diferentes tipos de narração, como foram descritos os corpos e as ações da população negra.

Na educação infanto-juvenil, recontar histórias é sempre bem aceito e estimula a criatividade. Como sugestão, recriar a história de Tia Nastácia, personagem de Monteiro Lobato que, quando não é ofendida e humilhada pela boneca-falante Emília, é destituída de qualquer ligação com sua origem africana para ser evocada e apresentada como princesa. A seguir, o trecho do livro Reinações de Narizinho:

A seguir, o trecho do livro Reinações de Narizinho : Tia Nastácia não sei se vem.

Tia Nastácia não sei se vem. Está com vergonha, coitada, por ser preta.

— Que não seja boba e venha — disse Narizinho

— eu dou uma explicação ao respeitável público

— Respeitável público! tenho a honra de apresentar

(

ser preta. É preta só por fora, e não de nascença. Foi uma fada que um dia a pretejou, condenando-a a ficar assim até que encontre um certo anel na barriga de um certo peixe. Então, o encanto quebrar-se-á e ela virará uma linda princesa loura. (LOBATO, 1931, p. 206)

)

a Princesa Anastácia. Não reparem

Sugerir que os(as) alunos(as), a partir de uma provocação (“Nastácia a heroína negra”, “As aventuras de Nastácia em África”, ou outro qualquer), criem uma nova história, que pode ser uma produção coletiva, sob a condução e orientação do(a) professor(a), atentando para as falas da narrativa de modo que “Tia” Nastácia saia do contexto de submissão dos textos de Monteiro Lobato, que não precise negar sua identidade. Enfim, não mais ser tolerada via a condição de um dia aparecer uma fada madrinha que a transforme numa princesa loura. Para os menores, selecionar histórias infantis que contemplem a diversidade étnica brasileira, além dos materiais didáticos como: livros, cartazes, bonecos, entre outros. A cada Unidade são disponibilizados, no tópico “Textos literários”, alguns poemas e contos que podem ajudar a viabilizar práticas afirmativas na educação. Os poemas selecionados

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questionam a não participação dos negros nas narrativas nacionais, seus textos também expõem à participação do negro na construção do país, entre outros, como: o papel da literatura afro-brasileira, a abordagem da mídia na representação da população negra, a desconstrução de alguns estereótipos.

O meta-poema “Outras notícias” de Éle Semog, (ver Unidade I, em Textos Literários), além

de falar sobre o seu fazer poético, crítica o não envolvimento de alguns poetas nos problemas sociais, os escritores que apresentam uma excessiva preocupação formal. Nessa linha, encontramos o poema “A um poeta”, de Olavo Bilac - preocupação formal e necessidade de isolamento para chegar à perfeição artística; já no texto “Emparedado”, de Cruz e Sousa, o isolamento tem outra perspectiva, vamos descobrir? (consta no texto de Silvio Oliveira – módulo). Na perspectiva da literatura comparada, o poema “Ser universal” de Oubi Inaê Kibuko e a

música epígrafe do compositor Chico César, possibilitam um trabalho que dialogue literatura

e música. Quanto ao conteúdo, temos: a relação entre África, Brasil e Minas Gerais, a

discussão do que é ser negro no Brasil. Professores de Geografia, alerta! Milton Santos é uma excelente sugestão para guiar essas discussões. Para fomentar debates na escola sobre os modos de construção de personagens negros na mídia, sugerimos o poema “Efeito Colaterais”, de Jamu Minka. O mito da democracia racial, mídia e racismo e o objetivo da poesia negra são alguns dos temas a serem trabalhados. É importante que os(as) estudantes possam evidenciar na prática essas versões, perceber o cerceamento desses espaços, conseguir flagrar a não equivalência quanto aos lugares sociais em que os personagens se constituem e são representados nas diferentes etnias. Outro texto sugerido é a crônica “Maio”, de Lima Barreto, publicada em 04 de Maio de 1911. Nela, percebemos a forma irônica com que o assunto da libertação dos negros escravizados no Brasil adquire contornos de crítica. Além da leitura crítica da crônica, podemos mencionar o nome de figuras significativas no processo da abolição no Brasil como José do Patrocínio, André Rebouças, Luiz Gama, Francisco de Paula Brito e outros. Todos negros na linha de frente da intelectualidade escravista. Os intelectuais negros no Brasil, a exemplo de Lima Barreto, sempre esboçaram preocupações que extrapolaram o texto literário. A militância, sempre fez parte da vida do escritor como homem de cultura e intelectualmente engajado. Estimule seus(suas) alunos(as) a conhecer nossos intelectuais negros e negras!

O desafio foi lançado, Professoras(es)! Usem a criatividade e o conhecimento específico de suas áreas e proponham outras

Bom trabalho !!!!

leituras

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LITERATURA AFRO-BRASILEIRA

Os(as) escritores(as) negros(as) apresentam desejos e denominam suas produções de diferentes modos. Nesta unidade, conheceremos algumas delas a partir da interpretação dos próprios autores(as). O destaque é para a produção literária das mulheres negras.

Tópico 1 – Produção literária afro-brasileira Tópico 2 – Auto-representação da mulher negra

Tópico 1 – Produção literária afro-brasileira Tópico 2 – Auto-representação da mulher negra

Tópico 1 – Produção literária afro-brasileira Tópico 2 – Auto-representação da mulher negra

Objetivos:

Discutir a leitura dos autores/as da literatura afro-brasileira sobre suas produções;

Estudar a produção literária feita pelas escritoras negras;

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Tópico 1 – Produção literária afro-brasileira

Escrever é dar movimento à dança-canto Que meu corpo não executa. A poesia é a senha que invento Para poder acessar o Mundo. (Conceição Evaristo)

Retomando as palavras de Conceição Evaristo, poetisa negra, essa escrita-corpo - mistura de canto e dança, com poder de “acessar o Mundo” - é a literatura, que se auto-declara produção textual afro-brasileira e/ou negra. Para o poeta negro Elio Ferreira, escrever

É uma maneira de falar para o mundo, contar a história dos meus

antepassados negros e a minha própria história, influindo e

participando na transformação da sociedade através da denúncia contra as violências racial e social. O que me levou a escrever foi uma necessidade interior de falar de mim e da condição humana.

A sensação e a crença de escrever é uma forma de perpetuar a

nós mesmos e as pessoas que estimamos; as pessoas simples,

sobretudo negras, da nossa convivência. 1

Com o intuito de reverter imagens negativas e estereótipos que os termos “afro” e “negro” assumiram ao longo de nossa história, a escrita negra e/ou afro-brasileira visa apresentar uma leitura crítica dos preconceitos disseminados na sociedade, além de apontar possibilidades de o escritor/ escritora negro/a consciente de seu papel lutar contra um modelo de identidade nacional baseado na idéia de democracia racial.

A literatura afro-brasileira está, portanto, mergulhada na experiência de vida da população negra, não só como estratégia artística de denúncia da exclusão do afro-descendente, mas também como meio de liberação de tradições africanas silenciadas em nossa cultura. Conforme Cuti,

O texto escrito começa a trazer a marca de uma experiência de vida distinta do estabelecido. A emoção – inimiga dos pretensos intelectuais negros – entra em campo, arrastando dores antigas e desatando silêncios enferrujados. É a poesia feita pelo negro brasileiro consciente. 2

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Para o afro-descendente, escrever reivindicando direitos de cidadão e ocupando novos lugares sociais, não limitados aos espaços destinados aos escravizados, passa a ter visibilidade durante o século XIX, com uma imprensa negra de viés abolicionista, cujo nome principal foi José do Patrocínio, escritor

e jornalista que atuou intensamente na campanha pela abolição

da escravatura. Todavia, em diferentes partes do país, escritores

atuaram como defensores da abolição do trabalho escravo também através da imprensa escrita, caso de Maria Firmina dos Reis (Maranhão), Antonio Rebouças (Rio de Janeiro), Luiz Gama (São Paulo), entre outros.

Desde então, escritores e intelectuais afro-brasileiros dão continuidade à tradição de fundar grupos, jornais, revistas e coletâneas de textos literários, como, por exemplo, durante o século XX, o Jornal Quilombo, os Cadernos de Cultura da Associação Cultural do Negro, a Revista Tição, o Jornal do Movimento Negro Unificado, o grupo Gens, os Cadernos Negros, a antologia Quilombo de Palavras, para citar alguns dos mais significativos.

No decorrer do século XX, podemos fazer referência a autores que produzem literatura com a intenção óbvia de trabalhar com vozes rasuradas de nossa tradição cultural hegemônica, tais como Solano Trindade, Abdias do Nascimento, Ruth Guimarães, Joel Rufino dos Santos, Geni Guimarães, Conceição Evaristo, Jônatas Conceição da Silva, Cuti, Adão Ventura, entre outros e outras que produzem textos sobre

tradições histórico-culturais de origem africana no Brasil ou sobre

o cotidiano do afro-brasileiro. É nesse falar de si e das próprias tradições culturais que escritores afro-brasileiros rasuram a pretensa universalidade e ocidentalidade da arte literária.

Embora o uso dos termos literatura negra, literatura afro-brasileira ou literatura afro-descendente não seja consenso entre críticos

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literários e escritores, importa perceber o quanto textualidades negras no Brasil têm representado positivamente populações negras, tirando do silêncio, através da escrita, tradições africanas suprimidas e experiências sociais relacionadas ao cotidiano dos afro-descendentes.

Antecedentes da literatura negra

O escritor Oswaldo de Camargo, no livro O negro escrito, levanta o primeiro registro de um negro letrado no Brasil. Fato importante, tendo em vista as condições adversas dos africanos e afro- descendentes na época. Tratava-se de Henrique Dias, que escreveu uma carta ao rei de Portugal, reclamando maus tratos, em 1650. Há também registros em nossa história colonial de textos que informavam sobre atos de resistência ao sistema escravista e de textos de irmandades religiosas e de sociedades negras, demonstrando a existência de negros alfabetizados e o uso da escrita como resistência a um meio opressor.

Todavia, o primeiro a fazer esparsas referências à condição do negro em sua produção poética foi Domingos Caldas Barbosa, no século XVIII. Fortemente aclamado pelo público, levou seus lundus (música de origem africana) e modinhas para Portugal. Em “Retratos de Lucinda”, o eu lírico canta a beleza suprema de uma mulher trigueira, de pele escura, construindo uma inversão de valores dentro dos padrões europeus do Arcadismo no Brasil:

Não tens nas faces Jasmins de rosa, Cor mais graciosa Nas faces tens.

Todas t’a invejam, E há quem ser queira, Assim trigueira Como tu és.

(Viola de Lereno, p. 10, v. 2)

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Luiz Gonzaga Pinto da Gama, no século XIX, foi um abolicionista que utilizou a intelectualidade para a libertação de negros escravizados, como rábula (advogado sem diploma), jornalista em escritor. Em 1959, publicou Primeiras Trovas Burlescas de Getulino, através das

quais satirizou a aristocracia da época. No período em que se construía literariamente uma brasilidade representada sobretudo pelo indianismo de caráter ufanista, Luiz Gama, com lirismo e sátira, escreveu, a partir da perspectiva de um negro, impressões de um Brasil autoritário, como se pode ver no fragmento do poema abaixo:

Luiz Gama

Luiz Gama

No álbum do meu amigo J.A. da Silva Sobral

Se tu queres, meu amigo, No teu álb’um pensamento Ornado de frases finas, Ditadas pelo talento;

Não contes comigo, Que sou pobretão:

Em coisas mimosas Sou mesmo um ratão ( )

Ouvindo o conselho Da minha razão, Calei o impulso Do meu coração.

Se o muito que sinto Não posso dizer, Do pouco que sei Não quero escrever. Não quero que digam Que fui atrevido; E que na ciência Sou intrometido.

Desculpa, meu amigo, Eu nada te posso dar; Na terra que rege o branco Nos privam té de pensar!

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Maria Firmina dos Reis

Maria Firmina dos Reis

No mesmo ano das Trovas de Gama, foi editado o romance de compromisso abolicionista Úrsula, escrito pela maranhense Maria Firmina dos Reis. Dois anos após a edição de O Guarani de José de Alencar, obra emblemática do indianismo romântico, a escrita literária

de uma mulher negra e nordestina põe no centro as dores dos negros escravizados, além disso posiciona-se a favor de um Brasil sem preconceitos, cujas diferenças de classe, raça e gênero não signifiquem desigualdade no plano social.

Apesar de protagonizado pelos jovens brancos Úrsula e Tancredo, o enredo se desenrola de tal forma que os personagens submetidos à escravidão são dignificados, sobretudo Túlio, que ajuda o jovem advogado Tancredo, e a preta Susana, através da qual a maior parte dos discursos contrários à escravização de africanos são enunciados. No fragmento a seguir, Susana, aconselhando Túlio, faz um discurso dolorido sobre a realidade dela:

A africana limpou o rosto com as mãos, e um momento depois exclamou:

Dizes bem! Elas são

inúteis, meu Deus; mas é um tributo de saudade, que não posso deixar de render a tudo que me foi caro! Liberdade!

ah! Eu gozei na minha mocidade! — continuou

Mais tarde deram-me em

matrimônio a um homem, que amei com a luz dos meus olhos, e como penhor dessa união veio uma filha querida, em que me revia, em que tinha depositado todo o amor da minha lama: — um filha que era a minha vida, as minhas ambições, a minha suprema ventura, veio selar a nossa santa união. E esse país de minhas afeições, e esse esposo querido, essa filha tão extremamente amada! Oh! Túlio! Tudo me obrigaram os bárbaros a deixar! Oh! Tudo! Até a própria liberdade!

Liberdade

Susana com amargura — (

— Sim, para que estas lágrimas?!

)

Dois outros importantes escritores, em termos de produção literária que lida com representações positivas do negro no Brasil,

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são conhecidos por um público mais amplo, pois constam na maioria dos livros didáticos em circulação no país: Cruz e Sousa e Lima Barreto. Todavia, eles são, geralmente, apresentados de forma superficial ou inadequada ao estudante.

Cruz e Sousa (1861-1898)

Cruz e Sousa

(1861-1898)

A obra de Cruz e Sousa, nesse sentido, é a que mais tem sido deturpada em manuais de ensino de literatura, fazendo com que a visão corrente sobre o escritor seja a de quem representou em sua produção poética um latente desejo de embranquecer, devido a uma pretensa

preocupação obsessiva pela cor branca no vocabulário por ele usado. Entretanto, tem sido sistematicamente ignorada a produção literária em que um eu negro se coloca bravamente contra a violência que o racismo cravava na sociedade brasileira da época em que Sousa viveu e produziu. Nascido em Florianópolis, foi poeta, escritor e advogado preocupado com a situação do escravizado e com a discriminação sofrida pelos descendentes de africanos.

Poemas como Escravocratas, Na senzala, Grito de Guerra, a prosa poética Emparedado, entre outros textos, demonstram a participação de Sousa no processo social de seu tempo. As paredes que cerram um sujeito poético aos limites autoritariamente demarcados por uma sociedade racista são uma hiperbólica imagem que traduz as contradições e a dor com que um escritor negro, de fins do século XIX, tinha que lidar:

Não! Não! Não! Não transporás os pórticos milenários da vasta edificação do mundo, porque atrás de ti e adiante de ti não sei quantas gerações foram acumulando, pedra sobre pedra, pedra sobre pedra, que para aí estás agora o verdadeiro emparedado de uma raça. Se caminhares para a direita baterás e esbarrarás, ansioso, aflito, numa parede horrendamente incomensurável de Egoísmos e Preconceitos! Se caminhares para a esquerda, outra parede, de Ciências e Críticas, mais alta do que a primeira, te mergulhará profundamente no espanto! Se caminhares para a frente, ainda nova parede, feita

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de Despeitos e Impotências, tremenda, de granito, broncamente se elevará ao alto! Se caminhares, enfim, para trás, ah! ainda, uma derradeira parede,

fechando tudo, fechando tudo - horrível - parede de Imbecilidade e Ignorância, te deixará num frio espasmo de terror absoluto E, mais pedras, mais pedras se sobreporão às pedras já acumuladas, mais pedras, mais pedras Pedras destas odiosas, caricatas e fatigantes

Mais pedras, mais

Civilizações e Sociedades

pedras! E as estranhas paredes hão de subir longas, negras, terríficas! Hão de subir, subir, subir, mudas, silenciosas, até as Estrelas, deixando-te para sempre perdidamente alucinado e emparedado "

(Cruz e Sousa Obra

dentro do teu Sonho Completas, p. 664)

A devastadora ironia da poesia Caveira, do mesmo autor, publicada em Faróis (1900), é também sublime ao trabalhar com uma inversão existencial e política dos papéis do branco e do negro na sociedade brasileira do final do século XIX. Através de uma imagem hedionda, a morte acaba, neste interessante poema, por humanizar a todos, sem distinção:

I

Olhos que foram olhos, dois buracos Agora, fundos, no ondular da poeira Nem negros, nem azuis e nem opacos. Caveira!

II

Nariz de linhas, correções audazes, De expressão aquilina e feiticeira, Onde os olfatos virginais, falazes?! Caveira! Caveira!!

III

Boca de dentes límpidos e finos, De curva leve, original, ligeira, Que é feito dos teus risos cristalinos?! Caveira! Caveira!! Caveira!!!

(Cruz e Sousa Obras Completas, p. 119)

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Lima Barreto , por sua vez, é apresentado aos estudantes da Escola Básica quase exclusivamente

Lima Barreto, por sua vez, é apresentado aos estudantes da Escola Básica quase exclusivamente através do romance nacionalista Triste fim de Policarpo Quaresma, deixando de lado toda a produção literária em que encenou condições sociais do afro-descendente do início do século XX, através de

personagens que denunciam a aspereza do preconceito racial e social. Nesse sentido, a temática aparece em romances como Clara dos Anjos, Recordações do escrivão Isaías Caminha, entre outros contos e crônicas. O protagonista de Recordações, no trecho a seguir, demonstra como escritores de origem negra motivaram seus interesses intelectuais e artísticos:

E o monstruoso redator desandou dizendo asneiras. Eu estava ali de colarinho sujo, esfomeado, mas tive ímpeto de discutir e de quebrar a cara dos idiotas que o ouviam. Entre eles, havia alguns a quem cabia bem a carapuça, mas que se calaram cobardemente. Queria perguntar-lhe se aqueles seus artigos acacianos, cheirando ainda muito à brochura francesa de dois mil e quinhentos se podiam por a par dos trabalhos de Tito Lívio, do Tobias Barreto; eu queria perguntar-lhe se sua genialidade no artiguete seria capaz de aparecer se tivesse nascido nas condições desfavoráveis do Caldas Barbosa, do José Maurício, do Silva Alvarenga e outros!

A intenção aqui é traçar um panorama da produção literária que,

no século XIX e nas primeiras décadas do século XX, já fazia referência à condição social subalterna do escravizado (no

período pré-abolição), ou do afro-descendente (no período pós- abolição). No entanto, cabe a você, professor, conhecer a fundo outros escritores que também produziram literariamente em torno da mesma questão, tais como Silva Alvarenga, Gonçalves

Crespo, Machado de Assis, etc

e textos esquecidos é condição central para compreender que a

resistência literária ao racismo, através de tratamento direto ou

O conhecimento desses nomes

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indireto, foi fundamental em nossa história social e literária. Dentre esses(as) primeiros(as) escritores(as), destaca-se o nome da escritora maranhense Maria Firmina dos Reis, que rompeu não só com a barreira racial, mas também com a barreira de gênero. Como mulher e negra, conseguiu ter acesso à escrita em pleno século XIX. Além disso, apresentar-se como intelectual, escritora de romances e poesias coloca-a num lugar de exceção. Esse espaço será também ocupado pela escrita de outras mulheres na contemporaneidade. A próxima seção será destinada a refletir um pouco sobre a escrita literária de mulheres negras no cenário brasileiro contemporâneo.

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Tópico 2 – Auto-representação da mulher negra

( ) A noite não adormecerá Jamais nos olhos das fêmeas Pois o nosso sangue-mulher Do nosso líquido lembradiço Em cada gota que jorra Um fio invisível e tônico Pacientemente cose a rede De nossa milenar resistência.

(A noite não adormece nos olhos das mulheres, Conceição Evaristo)

Como diz o poema de Conceição Evaristo, em homenagem à memória de Beatriz Nascimento 1 , “a noite não adormece nos olhos das mulheres”! É pensando nessa rede milenar de resistência que as representações do sujeito-mulher-negra não poderiam ficar de fora das produções afro-brasileiras contemporâneas.

A escrita da mulher negra é de grande importância devido sobretudo aos séculos de silenciamento a que as mulheres negras foram submetidas; elas têm se apoderado do espaço privilegiado da literatura e apresentado outras formas de representação, dando legitimidade, principalmente, ao papel histórico delas e de tradições negras na cultura nacional.

dando legitimidade, principalmente, ao papel histórico delas e de tradições negras na cultura nacional. 37
dando legitimidade, principalmente, ao papel histórico delas e de tradições negras na cultura nacional. 37

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Quantas vezes não ouvimos tais frases em nossas vidas ou até as repetimos sem pensar? Crescemos vendo os espaços discriminados e também discriminando os que são ocupados pelas mulheres e pelos homens. Na literatura não ocorre de maneira diferente: as representações dos papéis das mulheres na

sociedade brasileira constituem um acervo simbólico que acaba por reforçar estereótipos e demarcar os possíveis lugares sociais

a serem ocupados por elas. Infelizmente, algumas dessas

representações condicionam as mulheres negras a espaços ainda menos privilegiados que os reservados às mulheres não-negras – espaços já tão limitados, diga-se de passagem! Segundo Sueli Carneiro,

As denúncias sobre essa dimensão da problemática da mulher na sociedade brasileira, que é o silêncio sobre outras formas de opressão que não somente o sexismo vêm exigindo a re-elaboração do discurso e práticas políticas do feminismo. E o elemento determinante nessa alteração de perspectiva é o emergente movimento de mulheres negras sobre o ideário e a prática política feminista no Brasil 2 .

Na literatura, desde o século XIX, podemos citar as escritoras Maria Firmina dos Reis e Francisca Júlia da Silva que furam o cerco do patriarcado e, através da palavra, apresentam uma versão da história em que as mulheres se auto-representam como sujeitos. É essa presença resistente de escritoras negras – tais como Rosa Egipcíaca, Teresa Margarida da Silva, Antonieta de Barros, Maria Carolina de Jesus, Conceição Evaristo, Miriam Alves, Alzira Rufino, Esmeralda Ribeiro, Geni Mariano Guimarães, Sônia Fátima, dentre outras – que vem publicando

de forma organizada e representando na sua escrita a perspectiva

“mulher” e “negra” –, o foco desse tópico no módulo de Literatura Afro-brasileira. A literatura produzida por mulheres negras, no ambiente da sala

de aula, contribui para a redução da desigualdade de gênero e o

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enfrentamento do preconceito e da discriminação étnico-racial, visando uma educação equânime. Esses textos literários podem ajudar a eliminar e/ou problematizar os conteúdos sexistas e discriminatórios que rondam as representações simbólicas e o imaginário brasileiro, sejam nos livros didáticos, na mídia, nas músicas, entre tantos outros.

Algumas temáticas trabalhadas pelas escritoras:

Tradições de mulheres em rede, através das gerações

A voz de minha mãe ecoou

Criança

Nos porões do navio. Ecoou lamentos De uma infância perdida.

A voz de minha avó

Ecoou obediência Aos brancos-donos de tudo.

A voz de minha mãe

ecoou baixinho revolta no fundo das cozinhas laheias debaixo das trouxas roupagens sujas dos brancos pelo caminho empoeirado rumo à favela.

A minha voz ainda

ecoa versos perplexos com rimas de sangue

e

fome.

A voz da minha filha

recolhe todas as nossas vozes recolhe em si as vozes mudas caladas engasgadas nas gargantas.

A voz da minha filha

recolhe em si

a

fala e o ato.

O

ontem — o hoje — o agora.

VOZES-MULHERES

(Conceição Evaristo)

Na voz de minha filha Se fará ouvir a ressonância O eco da vida-liberdade.

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Definição do que é ser negra

Ser negra Na integridade Calma e morna dos dias

Ser negra De carapinhas, De dorso brilhante De pés soltos nos caminhos

Ser negra De Negras mãos De negras mamas, De negra alma.

Ser negra, Nos traços, Nos passos, Na sensibilidade negra.

Integridade

Ser negra, Do verso e reverso, De choro e riso, De verdades e mentiras, Como todos os seres que habitam a terra.

Negra Puro afro sangue negro Saindo aos jorros, Por todos os poros.

(Geni Mariano Guimarães)

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Corpo da mulher negra em ação, como sujeito

• Corpo da mulher negra em ação, como sujeito 41

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Leituras sugeridas EVARISTO, Conceição. “Da representação à auto-representação da mulher negra na literatura

Leituras sugeridas

EVARISTO, Conceição. “Da representação à auto-representação da mulher negra na literatura brasileira. In: Revista Palmares - Cultura Afro-brasileira. Ano 1, n. 1, ago. 2005. p. 52-57.

FERREIRA, Luzilá Gonçalves Ferreira. “Maria Firmina dos Reis, a primeira romancista brasileira”. In:http://www.cesargiusti.bluehosting.com.br/Especiais/MFReis/critica.htm#luzila

MAYA-MAYA, Estevão. “Análise e reflexões críticas sobre a produção literária afro- brasileira nos anos 70”. In: Criação Crioula: Nu elefante branco. São Paulo: Secretaria de Estado da Cultura, 1987. p. 107- 111.

Para saber mais

BRITTO. Carla dos Santos. “Antologia de escritoras afro-brasileiras: afirmação de

identidade

<http://www.uel.br/revistas/afroatitudeanas/volume-1-

2006/Carla%20dos%20Santos%20Britto.pdf>

Cadernos Negros: contos afro-brasileiros. São Paulo: Quilombhoje, 1979-2005.

Cadernos Negros: poemas afro-brasileiros. São Paulo: Quilombhoje, 1978-2006.

CAMARGO, Oswaldo de. O negro escrito. São Paulo: Imprensa oficial do Estado S.A IMESP, 1987.

Disponível em:

nas

escrituras

de

Miriam

Alves”.

A razão da Chama. São Paulo: GRD, 1986.

O estranho. São Paulo: Roswitha Kempt Editores, 1984.

CONCEIÇÃO, Jônatas da Silva. Outras Miragens. São Paulo: Confraria do Livro, 1989.

COSTA, Madu. Meninas negras. (coleção Griot Mirim, vol. 3). Belo Horizonte: Mazza

42

edições, 2006.

CUNHA JUNIOR, Henrique. Tear africano: contos afrodescendentes. São Paulo: Selo Negro, 2004.

CUTI. Sanga. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2002.

EVARISTO, Conceição. Ponciá Vicêncio. Belo Horizonte: Mazza edições, 2003.

JESUS, Carolina de. Quarto de Despejo: diário de uma favelada. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1960.

LOPES, Nei. Vinte contos e uns trocados. Rio de Janeiro: Record, 2006.

LUCINDA, Elisa. Euteamo e suas estréias. 2ªed. Rio de Janeiro: Record, 2000.

MAYA-MAYA, Estevão. “Análise e reflexões críticas sobre a produção literária afro- brasileira nos anos 70”. In: Criação Crioula: Nu elefante branco. São Paulo: Secretaria de estado da cultura, 1987.

ONAWALE, Landê. O vento. Salvador: ed. Do autor, 2003.

PADILHA, Laura Cavalcante. “Nas dobras dos panos – feminino e textualidade em duas narrativas fundacionais angolanas”. In: Novos pactos, outras ficções. Porto Alegre:

Edipucrs, 2002.

PALMEIRA, Francineide S. “Representações de gênero e afrodescendência

na obra de Conceição Evaristo”. In: http://www.cult.ufba.br/enecult2008/14440.pdf

RIBEIRO, Esmeralda. Malungos e milongas. São Paulo: Quilombhoje, 2003. (conto).

“A Relação Afetiva entre o Homem e a Mulher na Poesia dos Cadernos Negros”. In: http://www.quilombhoje.com.br/ensaio/esmeralda/relacao_afetiva.htm

SILVA, Jônatas C. da. Miragem de Engenho. Salvador: IRDEB, 1984. (poemas).

SOUZA, Florentina da Silva. “Intelectual negro e mediações culturais: Solano Trindade”. In: Revista SCRIPTA, Belo Horizonte, v. 8, n. 15, p. 226-239, 2º. sem. 2004.

http://www.letras.ufmg.br/literafro/frame.htm (índice de autores)

TRINDADE, Solano. Poemas antológicos. São Paulo: Nova Alexandria, 2008.

Canto Negro. São Paulo: Pallas, 2006.

VENTURA, Adão. Litanias de cão. Belo Horizonte: edição do autor, 2002.

Material de apoio

Filmes:

Documentário “Solano Trindade: 100 anos” de Alessandro Guedes e Helder Vieira, 2008. “As filhas do vento” de Joel Zito Araújo, 2005. “A cor púrpura” de Steven Spielberg, 1985. “Makota Valdina: um jeito negro de ser e viver” de Ana Verena Carvalho, Joiciléia Rodrigues Ribeiro e Paulo Rogério Nunes, 2005. “Atabaque Nzinga” de Octavio Bezerra, 2008.

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Enquanto isso, na sala de aula

O uso de textos literários é de fundamental importância para desenvolver as habilidades

dos(as) alunos(as), por possibilitar múltiplas perspectivas e níveis de apreensão do texto. O(A) leitor(a) compartilha do jogo da imaginação para captar o sentido das coisas e os sentimentos ali contidos permitindo, assim, “o desenvolvimento de todas as virtualidades da linguagem e, portanto, permite-nos analisar os mecanismos empregados pelo autor para produzir beleza, recriar mecanismos, desentranhar os símbolos que estruturam a mensagem, brincar com a musicalidade das palavras liberadas de sua função designativa, etc.” (KAUFMAN & RODRIGUEZ, 1995)

Nesta Unidade, a seleção de “textos literários” baseou-se nos artigos e entrevistas dos(as) escritores afro-brasileiros(as). Alguns poemas, como “Vento Forte”, de Lepê Correia, “Ancestral”, de Landê Onawale, “Cumplicidade” e “Quase hai kai”, de Graça Graúna, “Diário de uma favelada”, de Ademiro Alves, abordam a importância da ancestralidade, além de contribuir para a constituição de uma historiografia afro- brasileira, trazendo para o bojo das discussões contemporâneas a influência de autores(as) que há muito tempo escreviam textos literários sobre a história e cultura afro- brasileiras.

Em “Acerto de cotas”, do poeta baiano Landê Onawale, além da riqueza de imagens poéticas e do ritmo, destaco o polêmico tema a ser abordado: as políticas de cotas. Muitos são os recursos complementares, artigos de jornais, revistas, e demais debates realizados sobre o assunto. Interessante propor - após o trabalho com o poema e leitura de demais fontes, a construção de um júri, no qual os educandos(as) possam argumentar sobre o tema e defender suas teses. Passeiam pelo poema ainda discussões sobre: a história do negro no Brasil, o contexto de pobreza e abandono em que vive a maioria da população negra e os modos como os negros foram e são representados pela mídia.

O conto “Desenganos” de Márcio Barbosa é uma alternativa para incluir as disciplinas de

Matemática e Geografia no trânsito pela literatura. A situação-problema relatada no conto, independente de todo trabalho de análise textual que pode - e deve - ser realizada, motiva a realização de uma “pesquisa de campo” nos principais Shoppings Centers da cidade quanto ao número de funcionários negros e negras contratados; ou a realização de uma entrevista na própria escola entre alunos(as) e professores/as sobre terem ou não enfrentado situações de racismo; ou ainda, o número de pessoas negras em cargos de poder. Enfim, uma série de possibilidades de pesquisa, que, com base em seus

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resultados, podem depois virar fontes estatísticas e fomentar o desenvolvimento de

conteúdos da matemática. Detalhe, se o trabalho acontece em acordo e consonância

com diferentes disciplinas, enriquece ainda mais os resultados.

A literatura produzida por mulheres negras recebeu um espaço especial, por se tratar de

produções tão significativas e ricas de poesia. A apresentação em power-point facilita o

trabalho do(a) professor(a) na exposição e disposição dos poemas e informações básicas

das referidas autoras. Essa literatura surge em oposição à literatura canônica, que

durante muito tempo reservou às mulheres negras perfis bastante questionáveis.

Vejamos alguns exemplos clássicos: Gregório de Matos (1636-1695) é o primeiro escritor

da literatura brasileira a propor uma hierarquização étnica na qual à mulher branca cabe

o papel de mãe e esposa e à mulher negra apenas o papel de amante.

Em “O Cortiço” (1890), de Aloísio de Azevedo, a personagem Rita Baiana é assim

descrita:

E toda ela respirava o asseio das brasileiras e um odor sensual de trevos e plantas aromáticas. Irriquieta, saracoteando, o atrevido e rijo quadril baiano, respondia para a direita e para a esquerda, pondo a mostra um fio de dentes claros e brilhantes que enriqueciam a sua fisionomia com um realce fascinador. Acudiu quase todo o cortiço para recebê-la. Choveram abraços e as chufas do bom acolhimento( ) Ele tinha “paixão” pela a Rita, e ela, apesar de volúvel como toda a mestiça, não podia esquecê-lo por uma só vez ( ) (AZEVEDO, 1975, p.45-57)

O apelo ao corpo e a vulgarização da mulher negra, não fica apenas nessa obra, a

personagem principal do livro “Gabriela Cravo e Canela” (1958) do escritor Jorge Amado,

mantém esses estereótipos, acrescentando o apelo a mistura das raças e a democracia

racial do país. A lista é grande de representações negativas sobre o corpo, o caráter e

identidade da mulher negra. Quando menos esperamos, encontramos as marcas desses

imaginários no nosso dia-a-dia e comportamentos sociais, seja nas letras de música

popular, no cinema, na mídia.

O estudo dos textos literários produzidos pelas escritoras negras proporcionam ouvir e

sentir através de seus versos e narrativas a força de seu descontentamento quanto a

essas representações negativas, deixando evidente o desejo por mudança. É preciso

que nossos(as) alunos(as) se apropriem desses debates e possam reconhecer como

construções culturais as características socialmente atribuídas a homens e mulheres, a

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negros e não-negros, tomando um posicionamento contra a discriminação de raça e

gênero.

Quanto ao trabalho em classe, a partir do texto ou obra selecionada, o aluno deve ser

estimulado a levantar questionamentos e verificar os comportamentos dos personagens,

em consonância com os Parâmetros Curriculares Nacionais: “Em língua portuguesa, nos

textos literários, podem-se perceber as perspectivas de gênero por meio da análise das

personagens e descrição de suas características”. No ensino da língua portuguesa,

também podemos observar que nas regras do idioma as questões de gênero não estão

muito bem colocadas, como podemos encontrar nas gramáticas e livros didáticos.

Veremos, a seguir, a discussão proposta por José de Nicola, no livro “Língua literatura e

redação” (1990),

É interessante notar como o patriarcalismo de uma sociedade se manifesta nos mais variados setores da atividade humana. Por exemplo, na gramática. Francisco da Silva Borba, em seu livro “Introdução aos estudos lingüísticos, ao analisar o gênero dos substantivos, a certa altura afirma: ‘Nas línguas românicas a oposição masculino/feminino oscila entre critério de sexo e contraste superior/inferior (em português o aumentativo em “-ão” é masculino: carta/cartão; porta/portão) (NICOLA, 1990, p. 29-39)

Na “Nova gramática do Português Contemporâneo” de Celso Cunha e Lindley Cintra,

encontramos a seguinte citação: “Há dois gêneros no português: o masculino e o

feminino. O masculino é o termo não marcado; o feminino é o termo marcado” (CUNHA &

CINTRA, p. 182). Diante desses registros, constatamos que a língua portuguesa entende

que o feminino, como gênero marcado, está relacionado à categoria dos diminutivos, ao

passo que o masculino é apontado como gênero não marcado e ligado ao aumentativo.

Também no contexto lingüístico as mulheres se encontra numa posição desprivilegiada

em relação aos homens.

Outra atividade a ser realizada em classe é uma pesquisa de consulta em dicionários no

tocante às questões étnicas. Como as palavras: “branco” , “negro”, “negrume”, “denegrir”

são apresentadas?

Conforme Leda Martins,

O signo “negro” está intimamente identificado com um valor depreciativo, nas mais diversas situações da fala brasileira, definindo uma posição social ou adjetivando um grupo racial e uma cultura. “Um

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dia negro”, a “ovelha negra da família”, por exemplo, são expressões que explicitam uma analogia entre o que é negro e o que é considerado ruim ou desagradável. “lugar de negro é na cozinha”, “negro quando não suja na entrada, suja na saída”, “trabalho de negro” são ditos ou expressões populares que têm o negro como objeto. Identificando um sujeito enunciado na própria margem do discurso, essa linguagem destaca-o como um outro não apenas diferente, mas indesejável, ou desejável em lugares previamente determinados” (MARTINS, 1995, p.

36)

O resultado da pesquisa e a constatação de Lêda Martins são desanimadores, porém, o

domínio dessas informações e o bom uso delas podem ser significativos para que os(as)

alunos(as) percebam as armadilhas do racismo e possam se defender dessas

construções sociais. Esse trabalho de pesquisa, aliado aos poemas afro-brasileiros,

passa pela tentativa de criar novas palavras. Mesmo as já existentes, com sentidos

pejorativos, passam a ganhar outros sentidos, além da possibilidade de discutir e

problematizar o perfil de nação traçado pela língua e produção canônica.

Nas turmas de alunos(as) que ainda se encontram na infância e pré-adolescência, a

seleção das obras é um fato que precisa ser enfatizado, não apenas em seus conteúdos,

mas as ilustrações e abordagem precisam ser bem observadas. A ausência desses

sujeitos no imaginário simbólico dos(as) alunos(as) dificulta bastante a construção de

cidadãos atentos e sensíveis às diferentes diferenças ou que se engaje na luta pelo fim

do machismo, discriminação e racismo. Algumas obras serão sugeridas na 3ª Unidade

deste módulo, atendendo o perfil do público infanto-juvenil. Além dos textos literários,

podemos ainda fazer uso de histórias em quadrinhos, filmes e jogos que abordam a

história do negro no Brasil.

Agora, acrescente muita criatividade e crie uma aula bem interessante!!!

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48

TRADIÇÕES ORAIS NEGRAS E ESCRITA LITERÁRIA

Sabemos que os mitos, lendas, contos populares africanos constituem a memória dos afro-brasileiros que, em diáspora, guardaram, re-significaram e re- organizaram esses registros e foram constituindo o acervo simbólico das tradições culturais da população negra. Nesta Unidade, voltaremos nossas atenções para o uso e apropriações das riquezas de conteúdos, significados e valores contidos na tradição oral no âmbito das atividades em sala de aula. Outro foco desta Unidade é a literatura infanto-juvenil afro-brasileira e os modos de participação e representação dos personagens negros dirigidas ao publico infantil.

Tópico 1 – Tradições orais Tópico 2 – Literatura afro-brasileira infanto-juvenil

Objetivos:

Refletir sobre a importância da tradição oral na constituição do acervo simbólico das tradições culturais da população negra.

Subsidiar professores quanto o ensino da literatura afro-brasileira infanto- juvenil.

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Tópico 1 – Tradições orais

Conforme as questões trabalhadas nas unidades anteriores, pode-se inferir que um dos traços característicos da produção literária afro-brasileira é ser porta-voz de uma coletividade. O escritor se debruça sobre os desejos, dores, projetos e tradições de um grupo étnico-racial que tem sido historicamente silenciado, retrabalhando-os no jogo do texto literário. Dentro desse processo, a oralidade é elemento fundamental para o reencontro com tradições históricas suprimidas.

Nas culturas orais, o conhecimento adquirido por várias gerações ao longo dos tempos é guardado na memória. A importância da tradição oral africana, na transmissão de valores simbólicos, liga-se ao fortalecimento das relações entre os integrantes de um grupo ou comunidade e à criação de uma rede de transmissão de conhecimentos que consolida a cultura do grupo.

No contexto africano tradicional, é destacável o valor do ancião na garantia da socialização dessas memórias/palavras. É ele o

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responsável pela manutenção do laço social da comunidade. Segundo A. Hampaté Ba, “A tradição oral é a grande escola da vida”.

A força da palavra contém a vibração e a circulação do axé (força da natureza, energia, poder de realização pela força sobrenatural). Vale lembrar, aqui, a chamada pedagogia negra, iniciativa das comunidades de terreiro, na qual as crianças são iniciadas e passam a conhecer as histórias de seus orixás, através das narrativas orais transmitidas pelos mais velhos.

A palavra contada, todavia, não é simplesmente fala. Ela carrega significados, através do gestual, do ritmo, da

entonação, da expressão facial, etc

na conjugação harmoniosa desses elementos. Em grupamentos humanos onde a palavra falada possui força vital para os comportamentos, para as atividades diárias e para os vôos do imaginário, a voz participa da significância do texto, porque este só se realiza em performance, processo em que a

mensagem é produzida e transmitida simultaneamente em um contexto onde dialogam intérprete, ouvintes e circunstâncias. Dessa forma, todos os traços característicos de formas expressionais orais são decorrentes da aludida situação de performance, maneira pela qual elas são propagadas corpo a corpo.

O seu valor estético está

Como essa prática de produção e recepção textual está estruturada a partir do diálogo em presença entre os envolvidos, nas culturais orais, conhecer implica passar pela

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vivência, diferentemente do conhecimento solitário mediado pela escrita. Por isso, em sociedades africanas tradicionais, o texto oral não somente diz, mas, principalmente, coloca o vivido em movimento, possuindo a capacidade dinâmica de construir ou desconstruir mundos. Segundo J. Vansina, intelectual africano,

oralidade é uma atitude diante da realidade e não ausência

a “

de uma habilidade”.

Dentro desse contexto de oralidade, portanto, a voz, gestos, contos e cantos têm reencenado memórias negras e feito do processo de recepção um ato coletivo. Como bem enfatiza a professora Florentina da Silva Souza, a dinâmica da oralidade tem sido

Um exercício de sabedoria e de memória que se mostrou de extrema produtividade na transmissão e preservação de contos, procedimentos rituais, cantos e tradições que só sobreviveram até a presente data justamente porque os ancestrais acreditaram na memória e na oralidade como instrumentos privilegiados na correia de transmissão de conhecimentos e saberes. No campo das tradições religiosas do candomblé, da umbanda, das congadas, pode- se observar uma série de exemplos de releituras de gestos, movimentos, códigos secretos e rituais que foram/são memorizados, reinterpretados e transmitidos pela “escola da oralidade” em exercícios constantes de memória e de sabedoria.

Busca-se aqui, portanto, destacar as possibilidades de se trabalhar na escola com as narrativas orais, fazendo dessa “atitude” um instrumento pedagógico, já que vivemos cercados por elas no nosso dia-a-dia pelos provérbios, orikis (canto de louvor, gênero da literatura oral africana que louva divindades ou pessoas dignas de serem lembradas), pregões (das feiras livres e ambulantes), emboladas, repentes, ladainhas da capoeira, cantigas de roda, raps (hip hop), contos orais, entre outras produções artístico-culturais.

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Na literatura afro-brasileira, a reencenação da oralidade na escrita pode acontecer através de vários caminhos. No plano das tradições religiosas, Abdias do Nascimento, Mestre Didi, Solano Trindade, entre outros e outras, reanimam mitos, evocam forças de diferentes orixás, além de representarem outros elementos de religiões brasileiras de matrizes africanas em seus textos. Solano, no poema Olorum Ekê constrói um maravilhoso grito de resistência à discriminação racial:

Olorum Ekê Olorum Ekê Eu sou poeta do povo Olorum Ekê

A minha bandeira

É de cor de sangue

Olorum Ekê Olorum Ekê Da cor da revolução Olorum Ekê

Meu avós foram escravos Olorum Ekê Olorum Ekê

Eu ainda escravo sou Olorum Ekê Olorum Ekê

Os meus filhos não serão Olorum Ekê Olorum Ekê

O contexto de oralidade também está presente em inúmeras canções de protesto, criadas para blocos afros, com a intenção direta de combater a opressão vivenciada pelos negros brasileiros. Suka, em Ilê de Luz, através de enunciados que circulam oralmente, critica a construção de estereótipos negativos, discutindo o processo de exclusão a que é submetido o afrodescendente. A partir de uma inusitada conjugação de cores, a letra fala em brilho, intensa luz na

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escuridão da pele dos componentes do Ilê, tornando mais vigoroso o discurso crítico:

Me diz que sou ridículo, Nos teus olhos sou mal visto, Diz até tenho má índole

Mas no fundo tu me achas bonito

!

Negro sempre é vilão! Até meu bem, provar que não

É

Todo mundo é negro de verdade

É

E se eu tiver barreiras?

Pulo, não me iludo não, "Com essa" de classe do mundo, Sou um filho do mundo, Um ser vivo de luz Ilê de luz

Lindo! Ilê Aiyê

racismo meu? Não

tão escuro que percebo a menor claridade

A cultura hip hop (na tradução, balanço de cintura) também nasceu em contexto de oralidade das ruas de bairros pobres de Nova York, com grande concentração de negros e, como lá é chamado, de latinos. Na década de 80, a cultura hip hop chegou a bairros proletários da cidade de São Paulo, espalhando-se, desde então, para várias regiões marcadas pela pobreza e concentração de população negra.

marcadas pela pobreza e concentração de população negra. Em 2003, o grupo maranhense Clã Nordestino lançou

Em 2003, o grupo maranhense Clã Nordestino lançou o álbum A peste negra: o vírus da informação, trabalhando em todas as letras a idéia de quilombologia. Na letra Coração feito de África, o termo é explicado poeticamente como misto de orgulho negro com a atitude política preconizada pelo grupo, constituindo-se em uma forma discursiva de construção identitária étnico-racial. Segundo a referida letra, a “ideologia quilombola ferve da sul até o nordeste”, ou seja, estende-se da

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zona sul de São Paulo, uma das mais fortes regiões da cultura hip-hop, a todo o Brasil.

A música central do álbum é aberta com referência a Zumbi:

“Zumbi Rei!!!! Vixe! Zumbi dos Palmares, Quilombo dos Palmares, quebrem as algemas, queimem os emblemas. Avante! Revolução! O guerreiro de antes!”. Há a exposição do sofrimento dos negros e pobres ao lado da colocação da necessidade de uma união a partir de referenciais étnico- raciais africanos: “Guerreiros, avante, a guerra é constante/ No solo, no berço da África, no coração do guerreiro de antes”.

Essa África é representada como origem, “berço”, mas não se restringe a ser uma África mítica, una, passada e impalpável, constituindo-se como todos os espaços da diáspora africana onde há afro-descendentes em condição social subalterna. Para tanto, é feita a mixagem do Hino da Liberdade Africana, segundo palavras da letra: “o mais célebre dos hinos”, pois faz relembrar a luta de africanos pela libertação colonial.

A relação entre essa África mítica criada como ancestral e a

atualidade de pobreza dos afro-descendentes da ampla diáspora encontra-se visível no seguinte trecho:

Antigamente quilombos, hoje periferia/ O esquadrão zumbizando as origens africanias/ Somos filhos de uma

guerra sagrada, qualquer periferia, qualquer quebrada é

um pedaço da África/

cabinda, mina, angola, Brasil, Cuba Ruanda, Haiti,

Jamaica e Etiópia/

poesias, saquei um Garrincha e da mão de Luiz fiz a

melodia, a fusão, a toada de uma raça libertária. Sou

James

Brown, Berimbrown, Lino Brown, sou da favela. Sou Kingston, sou do Capão, sou Marrous, sou Sucupira, / Sou um da sul/ Nos antigos mistérios da Quilombologia/ Toda quebrada é quebrada na grande periafricania

Haile Salassie, sou Múmia Abu-Jamal

Tirei do Cartola, leniniei as

/

Quiloas, bantos, monjolos,

/

/sou

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A ligação entre todas as quebradas da diáspora se dá não só através da miséria e de péssimas condições de sobrevivência, mas também por ícones negros da música e da esfera de luta política contra a discriminação racial. O enunciado construído em torno de um poderoso neologismo,“ Toda quebrada é quebrada na grande periafricania”, grava uma idéia de diáspora negra, contraditoriamente unida e dispersa desde a época do périplo europeu em torno do continente africano.

Caso do pioneiro Teatro Experimental do Negro (1944-1957), companhia teatral idealizada, fundada e dirigida por Abdias do Nascimento, possuía como principais objetivos a valorização do negro no teatro e a

criação de uma nova dramaturgia. O projeto do Teatro Experimental do Negro - TEN, englobou o trabalho pela cidadania do ator, por meio da conscientização e também da alfabetização do elenco, recrutado entre operários, empregadas domésticas, favelados sem profissão definida e

modestos funcionários públicos. A companhia iniciou suas atividades em 1944, colaborando com o Teatro do Estudante do Brasil - TEB, na encenação da

A companhia iniciou suas atividades em 1944, colaborando com o Teatro do Estudante do Brasil -

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peça Palmares, de Stella Leonardos. Quando decide empreender um espetáculo próprio constata que não há, na dramaturgia brasileira, textos que sirvam aos seus objetivos. Abdias do Nascimento descobre em O Imperador Jones, de Eugene O'Neill, o retrato mais aproximado da situação do negro após a abolição da escravatura. O espetáculo, dirigido por Abdias do Nascimento, estréia em maio de 1945 no Theatro Municipal do Rio de Janeiro e obtém boa receptividade, com elogios ao protagonista, Aguinaldo Camargo.

Com montagens teatrais até fins da década de 50, o Teatro Experimental do Negro nunca atingiu o prestígio que pretendia em seu tempo. Mas, em termos de história do teatro, significou uma iniciativa pioneira, que mobilizou a produção de novos textos, propiciou o surgimento de novos atores e grupos e semeou uma discussão que permaneceria em aberto: a questão da ausência do negro na dramaturgia e nos palcos e, posteriormente, nas telenovelas de um país de maioria negra.

Contemporaneamente, grupos de performance teatral negra buscam ainda furar o cerco da exclusão. Destacam-se o Grupo de Teatro do Olodum (Salvador – década de 90) e Cia dos Comuns (Rio de Janeiro - 2001), que, através de textos que conjugam o cotidiano com memórias africanas ancestrais, têm produzido belos e críticos espetáculos.

ancestrais, têm produzido belos e críticos espetáculos. Elenco de Bakulo, encenado em 2005 pela Cia dos

Elenco de Bakulo, encenado em 2005 pela Cia dos Comuns

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Esses são alguns exemplos de como a oralidade e a escrita podem se encontrar, recriando formas de resistir ao racismo. O trabalho pedagógico com as culturas orais também permite um diálogo com muitos escritores africanos de língua portuguesa, que produzem textos reencenando contextos orais na escrita, como estratégia de resistência aos valores europeus do colonialismo. Esse é o caso de Pepetela (Angola), Manuel Rui (Angola), Mia Couto (Moçambique), Paulina Chiziane (Moçambique), entre tantos outros e outras. Experimente também ouvir seus alunos(as), permitindo que eles contem suas histórias na sala de aula. Enfim, o desafio está lançado, professor(a)! Experimente fazer da oralidade de origem africana instrumento de promoção da igualdade étnico- racial dentro da sala de aula.

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Tópico 2 – Literatura afro-brasileira infanto-juvenil

( ) Eu era criança Papai me contava Histórias de Trancoso Que entravam, Por uma perna de pinto E saíam por uma perna de pato

E papai Viver me fazia, Com rei e rainha, E bichos que falavam, Fadas e monstros, Princesas encantadas, “Comadre onça morreu, Disse a cabra ao macaco” Eu achava bonito Eu achava engraçado (Abençam papai, que bicho é esse? Solano Trindade)

O poema de Solano Trindade traz à cena lembranças da infância, as viagens pelo mundo da imaginação, levando-nos a refletir sobre como a criança, no processo de se constituir sujeito leitor, introjeta valores, crenças e padrões em relação a si mesmo e à sociedade onde interage. No universo literário infanto-juvenil, o pequeno leitor se reconhece ou se estranha nos modelos de ambientes, emoções e personagens transmitidos. Por isso, torna-se fundamental buscar compreender como a criança negra e culturas de matrizes africanas têm sido representadas na literatura infanto-juvenil brasileira.

Pesquisas recentes têm demonstrado o viés eurocêntrico da produção infanto-juvenil brasileira, inclusive na década de 80, período em que houve uma inserção quantitativamente relevante de protagonistas negros em obras dirigidas a esse público. Esse segmento literário, no Brasil, constitui-se como um espaço privilegiado de produção simbólica e de sentidos.

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Apenas nos fins do séc. XIX e início do séc. XX, a literatura infanto–juvenil surge com fins didáticos, moralizantes e/ou de catequização de crianças e jovens, tendo como referência a Europa.

Nessas narrativas, somente foram encontrados personagens negros no final da década de 20. Esses personagens, porém, apresentam um perfil de subalternidade, como os presentes nas narrativas de Monteiro Lobato, por exemplo. Esse tópico do módulo de Literatura Afro-brasileira atenta, basicamente, para uma pergunta: como o negro tem sido representado na produção literária brasileira dirigida a crianças? É preciso que pais e/ou professores estejam sensíveis à importância de se ter na infância referências e heróis negros para constituição, inclusive, da própria identidade infantil.

Quais personagens negros aparecem em nossa memória da infância? Quantos invadiram o mundo de fantasia e nos fizeram sonhar que éramos eles?

o mundo de fantasia e nos fizeram sonhar que éramos eles? Infelizmente, ter a presença de

Infelizmente, ter a presença de personagens negros numa obra ou livro didático não resolve a questão da educação pela igualdade étnico-racial. É indispensável atentarmos ao modo como eles são representados: observar as ilustrações, os conteúdos, os personagens e os seus comportamentos, e outros aspectos apresentados nas narrativas. É fundamental que essas obras re-escrevam a história e re-signifiquem a memória dos negros, e demais grupos étnico-raciais do Brasil, construindo, de fato, uma representação literária da diversidade que nos constitui enquanto nação.

O objetivo principal de se ter um olhar crítico em relação à produção literária infanto-juvenil é questionar e desconstruir

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práticas racistas e discriminatórias em nossas salas de aulas, denunciando abordagens desfavoráveis à construção da identidade afro-brasileira, recusando livros didáticos que comprometam um trabalho pedagógico voltado a uma educação pela diversidade. Para tanto, é necessário redobrar os cuidados na seleção dos materiais didáticos e culturais dirigidos à educação infanto-juvenil.

Concluímos a Unidade 3. Na próxima Unidade conheceremos os Cadernos Negros e ouitras expressões literárias
Concluímos a Unidade 3. Na próxima
Unidade conheceremos os Cadernos
Negros e ouitras expressões literárias
negras.

Leituras sugeridas

GOUVÊA, Maria Cristina Soares. “Imagem do negro na literatura infantil brasileira:

análise historiográfica”. In: http://www.scielo.br/pdf/ep/v31n1/a06v31n1.pdf

OLIVEIRA, Anória. “Literatura afro-brasileira infanto-juvenil: enredando inovação em face à tessitura dos personagens negros”. In:

http://www.abralic.org.br/cong2008/AnaisOnline/simposios/pdf/024/MARIA_OLIVEIRA.pdf

SOUZA, Florentina da Silva. “Memória e performances nas culturas afro-brasileiras”. In:

ALEXANDRE, Marcos Antônio (org.). Representações performáticas brasileiras: teorias, práticas e suas interfaces. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007. p. 30-39.

In:

VASINA,

http://afrologia.blogspot.com/2008/03/tradio-oral-e-sua-metodologia.html

J.

“A

tradição

oral

e

as

metodologia”

Para saber mais

ANDRADE, Inaldete Pinheiro de. “Construindo a Auto-estima da Criança Negra”. In:

MUNANGA, Kabengele (Org.). Superando o racismo na escola. 2ª ed. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, 2008.

BÁ, A Hampaté. “A tradição viva”. In: KI-ZERBO, Joseph. História da África Negra I. 3ª.

61

Ed. Portugal: Publicações Europa América, 1999. (Ver: História da África).

CIANNI, Solange. Doce princesa negra. Brasília: LGE, 2006.

COSTA, Madu. Kolumba e o tambor Diamba. (coleção Griot Mirim, vol. 1). Belo Horizonte: Mazza edições, 2006.

GUIMARÃES, Geni. A cor da Ternura. São Paulo: Editora FTD, 1979.

LUIS, Augusto. Lápis de Cor. Coleção Papo sério. Salvador: Ed. FMP: Governo do Estado da Bahia, 2004.

LUZ, Marco Aurélio de Oliveira. “Novos espaços de comunicação: tradição dos contos na literatura escrita, no teatro, no cinema e no rádio.” In: Agdá: dinâmica da civilização afro- brasileira. 2ª. Ed. Salvador: EDUFBA, 2000.

LIMA, Fabiana. “É possível afrobetizar a excludente tradição literária brasileira?”. In:

http://www.abralic.org.br/cong2008/AnaisOnline/simposios/pdf/024/FABIANA_LIMA.pdf

O presente de Ossanha. 2ª. Ed. São Paulo: Global, 2006.

LIMA, Heloisa Pires. “Personagens Negros: um breve perfil na literatura infanto-juvenil”. In: MUNANGA, Kabengele (Org.). Superando o racismo na escola. 2ª ed. Brasília:

Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, 2008.

Histórias da Preta. São Paulo: Companhia das letrinhas, 1998.

MACHADO, Ana Maria. Menina bonita laço de fita. 7ª. Ed. São Paulo: Ática, 2005.

OLIVEIRA, Maria Anória de Jesus. “Negros personagens nas narrativas literárias infanto- juvenis brasileiras: 1979-1989”. Salvador: UNEB, 2003. [Dissertação]

ORTHOF, Sylvia. O rei preto de ouro. São Paulo: Global, 2003.

RODRIGUES, Martha. Que cor é a minha cor? (coleção Griot Mirim, vol. 2). Belo Horizonte: Mazza edições, 2006.

SOUSA, Andréia Lisboa de. “Nas tramas das imagens: um olhar sobre o imaginário da personagem negra na literatura infantil e juvenil”. São Paulo: USP, 2003. [Dissertação]

TRINDADE, Solano. Tem gente com fome. São Paulo: Nova Alexandria, 2008.

Material de apoio

Filme:

Kiriku e a feiticeira – Michel Ocelot, 1998. www.kirikou-lefilm.com Kiriku 2 – os animais selvagens – Michel Ocelot e Bénédicte Galup, 2005. As aventuras de Azur e Asmar – Michel Ocelot, 2005. Happy Feet, direção George Miller, 2006. A princesa e o sapo (em produção) Disney, 2009.

Enquanto isso, na sala de aula

Costumo iniciar minhas aulas sobre a importância da tradição oral africana, com uma

dinâmica que propõe a socialização da história do nome de cada um dos participantes.

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Estimulados(as) a contar para o grupo “qual história envolve a escolha do seu nome?” os(as) envolvidos(as) vão buscar em suas memórias o que ouviram ao longo da vida sobre essa escolha e, então, expõem para o grupo se gostam ou não deles. Além dessa etapa, os(as) participantes substituem seus nomes por outra palavra qualquer; todas elas são registradas num papel e colocadas num recipiente para o sorteio. Assim, à medida que os participantes retiram a palavra, vão complementando a história iniciada e construindo uma grande narrativa improvisada na oralidade.

Todo esse ritual é para motivar os envolvidos a atentarem para a importância da oralidade, a força da palavra falada, dos registros da memória, dos Griots, das contadoras de histórias, dos orikis, dos mitos e contos orais das religiões de matriz africana.

A dinâmica sugerida pode ser modificada, substituída ou adaptada a realidade da turma e as expectativas do professor. A música do compositor da MPB, Gilberto Gil, “Baba Alapalá” pode contribuir para uma pesquisa, nessa mesma linha, sobre a origem dos antepassados dos(as) alunos(as). Essa música requer um cuidado especial, já que a utilização de textos que envolvem as religiosidades (nesse caso, a de matriz africana) precisa ser conduzida de maneira saudável e respeitosa para com diferenças. Um(a) professor(a) precisa transitar, sem juízo de valor, pelas várias religiões existentes, independendo da sua opção pessoal.

O estudo da tradição oral compreende um universo muito rico de possibilidades. Além dos já citados, podemos lembrar ainda: das manifestações culturais brasileiras como:

congada, samba de roda, maracatus de baque solto e rurais, festas de bumba-meu-boi, festas de Reis, marujada, carnaval, capoeira, provérbios africanos, repentistas e emboladores, hip hop, entre tantos outros, constituintes do acervo vivo e simbólico da memória cultural afro-brasileira.

O(A) professor(a) encontrará na seção “Textos literários” alguns materiais que abordam, ou que tragam a tona, o tema da tradição oral. O poema “A velhinha do Angu”, de Solano Trindade, apresenta fragmentos de pregões dos vendedores de Recife. Este poema pode fomentar um concurso, no qual os(as) estudantes precisam escolher um objeto a ser vendido e, a partir dessa seleção, construir seu próprio pregão. Será escolhido o pregão mais criativo ou proposta uma pesquisa de campo com respectivo registro dos pregões de ambulantes nos ônibus, praias e/ou feiras livres, à escolha do(a) professor(a).

Os contos orais africanos, especialmente os contos de mestre Didi - que tenta manter na escrita os traços da oralidade - compõem um excelente acervo do universo mítico das

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religiões de matriz africana e cultura afro-brasileira. Eles podem, no ambiente de sala de aula, ser encenados pelos(as) alunos(as) em formato de peças teatrais e ou performances.

O conto de mestre Didi, “Obaluwaiyê – o dono da peste” (disponível na seção “Textos

literários”), ao contar a história/mito de Obaluaê, convida a comunidade a repensar suas práticas e seus julgamentos precipitados. O orixá citado na narrativa apresenta-se em situação de enfermidade e é desprezado por toda comunidade. Depois de ser abençoado pelo deus Olorum e receber o dom de cura, retorna à comunidade e salva a todos de uma epidemia. Pode-se também trabalhar a presença das folhas, no ritual de cura, descrito no conto de mestre Didi, para motivar um trabalho de pesquisa sobre essas práticas no cotidiano brasileiro e baiano. Afinal, quem nunca tomou um chazinho feito pela vovó para melhorar um desconforto alimentar ou para relaxar? Ver como a ciência vem se apropriando desses conhecimentos em seus estudos; destacar a importância das religiões de matrizes africanas na preservação dessa memória, assim como na tradição indígena.

O trecho de música “Sou negro d+ para você”, do rapper Thaíde, representa a linguagem

do hip hop, movimento que, atualmente, é um forte aliado da educação brasileira. De modo geral, escola, professores(as), alunos(as) e comunidade, quando se envolvem em projetos com o hip hop e seus elementos, conseguem resultados excelentes, principalmente, por parte da juventude. A escola passa a ser uma galeria de arte, com seus muros e paredes grafitadas e limpas – professores(as) de arte tomam conta dessa parte do projeto. Os(As) professores(as) de música, dança e educação física aliam-se aos b.boys e b. girls na arte do Break e dos DJs. A prática de escrita das letras de música favorece um melhor domínio da língua e dos recursos estéticos e literários, já que os(as) envolvidos(as) se dedicam a melhorar suas composições e rimas. O(A) aluno(a) exercita a escrita com mais prazer, passa a questionar, debater e argumentar sobre os problemas sociais, entre eles, as questões étnico-raciais, como a discriminação e o racismo.

Para a educação infantil, propomos um trabalho que envolva muita criatividade, alegria e cor. Conforme leitura dos textos sugeridos, constatamos que algumas obras deixam brechas, nas quais os(as) mediadores(as) devem intervir: seja nas descrição de personagens negras que, por vezes, ganham

traços animalizados, sejam os desenhos e ilustrações nos quais os personagens negros (embora, na narrativa, tenham sua identidade preservada), são representados como monstros e aberrações nas imagens, ou, mesmo, uma armadilha bastante discreta e

preservada), são representados como monstros e aberrações nas imagens, ou, mesmo, uma armadilha bastante discreta e

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recorrente nos conteúdos dos textos que se pretendem afro-brasileiros ou africanos. Um

bom exemplo podemos encontrar no livro Flor Encarnada (1919) de Tales de Andrade,

coleção Biblioteca Infantil, em que descreve uma princesa africana:

tão inteligente e tão instruída que todas as pessoas vinham lhe pedir conselhos

(

)

Ela sabia qual o remédio a dar aos doentes,

conhecia todas as espécies de plantas. (

Um dia Flor Encarnada ao passear encontrou uma linda moça, sentada junto de um algodoeiro. Era um jovem branca, de estranha

beleza — Quem é você? perguntou Flor Encarnada cheia de admiração. Eu nunca a vi em nossas cabanas — É verdade, respondeu a moça, sorrindo. Embora você não me visse, era eu quem segredava aos seus ouvidos tudo o que você sabe em relação à floresta. Quem julga você que lhe tenha ensinado as coisas que você conhece das plantas e dos animais? Era eu quem lhe ensinava, menina (Andrade, 1919, p. 7-8)

)

A Flor encantada, apesar de todas as qualidades e a visível valorização de sua cultura

descritas na narrativa, vacila ao atribuir ao personagem branco a bondade de ter passado

para o negro seus conhecimentos e saberes. Essa prática é recorrente em diversas

obras, inclusive em narrativas televisionadas, na qual os negros, ao ascenderem

socialmente, são sempre via bondade e desprendimento dos personagens não-negros.

Interessante criar ambientes agradáveis para a prática de leitura de textos infanto-juvenis

afro-brasileiros, decorando a sala e provocando a curiosidade dos alunos sobre o que vai

ser contado. A inclusão de imagens de negros(as) em situações do cotidiano na

decoração da sala, nos brinquedos, fantoches, etc. contemplando a diversidade étnica

brasileira, pois ajuda no desenvolvimento e na promoção de um melhor rendimento das

crianças negras, que passam a se sentir incluídas no processo educacional.

Nas unidades anteriores, vimos outras possibilidades de atividades e discussões a serem

propostas no ensino infanto-juvenil. Reforçamos a solicitação de inclusão de outras

formas narrativas e de representação para dialogar com essa literatura, assim como a

música, as telenovelas, revistas, propagandas e comerciais, o cinema, a pintura, o teatro,

entre outros, precisam e podem ser incluídos às nossas práticas em sala de aula.

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Professores(as), explorem os textos sugeridos, criem outras atividades com outras referências e, assim, vamos trocando nossas experiências!

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CADERNOS NEGROS E OUTRAS POÉTICAS

A última Unidade do Módulo de Literatura Afro-brasileira chegou e ainda há tanto

tantos são os acervos e as referências a serem citadas

sobre o assunto. É com o objetivo de criar mais oportunidades de inovação para a prática pedagógica antirracista que fechamos esse trabalho com o “Cadernos Negros e outras poéticas”.

a ser lido, dito, sugerido

Após trinta e um anos de publicação ininterrupta, a importante antologia afro- brasileira de literatura, os Cadernos Negros, também serão nosso tema de estudo. As outras poéticas são as demais publicações, canções, obras de arte e diferentes linguagens, que podem ser dialogadas com a literatura para o cumprimento da Lei nº 10.639/03.

Tópico 1 – Cadernos Negros e outras poéticas

Objetivos:

Estudar as produções mais significativas sobre a literatura afro-brasileira;

Refletir sobre o papel dos Cadernos Negros no que refere à legitimação da Literatura Afro-brasileira;

Dialogar a literatura afro-brasileira com outras expressões artísticas;

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Tópico 1 – Cadernos Negros e outras poéticas

A nossa fala desvela, delata, relata, invade quem ouvi-la ou lê-la. Ela é a própria personificação de negro sendo, re-sendo, mudando, re-mudando, sentindo, re-sentindo

Miriam Alves

mudando, re-mudando, sentindo, re-sentindo Miriam Alves Em São Paulo, um grupo de escritores afro-brasileiros se

Em São Paulo, um grupo de escritores afro-brasileiros se organiza e publica textos voltados para a condição social do negro no Brasil, com a colaboração financeira de cada um dos integrantes. Surgiam, assim, os Cadernos Negros em 1978. A idéia de se fazer uma antologia, para publicação de poemas e contos negros, surge no CECAN – Centro de Cultura e Arte Negra, espaço onde jovens se reuniam e participavam de discussões políticas. A estudante de Letras, no artigo “Uma história que está apenas começando” contextualiza o momento histórico em que a juventude negra paulista se voltava para a criação dos próprios meios de comunicação, como estratégia de luta contra o racismo e propagação de imagens positivas do negro:

Jovens como Jamu Minka se envolviam cada vez mais com mídias alternativas: “Eu vinha de uma experiência alternativa, um tablóide muito famoso na época: Versos. Era um tablóide de esquerda que criticava todas as ditaduras do Cone Sul. Em seguida fui para o CECAN para fazer o jornal dessa entidade, o Jornegro”.

(

)

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O jovem negro, nesse momento, começava, em quantidade, a entrar nas universidades, acessando a produção cultural: cinema, literatura, teatro — diferentemente de gerações anteriores, que tinham mais dificuldade de ingressar num curso superior e acessar os bens culturais pertencentes a esse universo. Eram jovens negros que estavam se destacando da realidade já há muito tempo tradicional: analfabetismo, exclusão, subempregos, marginalidade.

A série Cadernos Negros tem sido, desde então, publicada

anualmente, alternando poesia e conto, de maneira até hoje ininterrupta, envolvendo escritores comprometidos com a escrita literária afro-brasileira de várias partes do país. Em suas

publicações, consagram-se os nomes de Cuti (Luiz Silva), Oswaldo de Camargo, Miriam Alves, Márcio Barbosa, Jônatas Conceição, Éle Semog, Landê Onawale, Esmeralda Ribeiro, Conceição Evaristo, Alzira Rufino e muitos/as outros/as afro- brasileiros/as que fazem de sua escrita uma “arma” contra o preconceito e a discriminação.

Essa produção propõe a representação do Brasil pelo viés das negociações entre as múltiplas etnias que o compõem, questionando um modelo de sociedade na qual aos grupos excluídos só tem restado uma única alternativa: assumir valores e padrões da tradição erudita de viés branco-europeu.

Dentro de tal contexto de resistência cultural, o uso da expressão ‘literatura negra e/ou afro-brasileira’ justifica-se, para os escritores, por falar da realidade e identidade do negro, trazendo as marcas de sua história, memória, vida, diferenças

e, obviamente, trabalho estético com a palavra em cena no

texto literário. Segundo Florentina Souza, professora de Literatura Brasileira da UFBA e pesquisadora dos Cadernos Negros:

Os

depoimentos criativos de uma geração de escritores

textos dos CN podem ser lidos como

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que reivindica um espaço para a voz negra na vida cultural e literária brasileira. Para tanto, tematizam vários aspectos da vida cotidiana do afro-brasileiro em particular, tais como a necessidade de construção de uma auto-imagem positiva, o resgate das tradições de origem africana e o combate às manifestações cotidianas de discriminação e preconceito racial na escola e trabalho – problemas decorrentes da sistemática exclusão do negro dos direito de cidadania

1

A preocupação dos escritores na construção dos seus textos passa pela tentativa de criar novos paradigmas para a literatura brasileira, pois, conforme as reflexões de Cuti, um dos iniciadores da publicação, a língua portuguesa não foi estruturada visando à libertação do povo negro.

Os textos dos Cadernos Negros estão comprometidos com a história do povo negro e incomodam por trazerem à tona o problema das desigualdades sociais, por discutirem o perfil excludente de nação traçado pela maior parte da produção literária canônica. A literatura negra/afro-brasileira, devido a todas as questões discutidas neste módulo ligadas ao ensino formal de literatura e a uma concepção de nação limitadora, vive praticamente na marginalização, tentando lutar também contra outro problema brasileiro: a falta do hábito de leitura, sobretudo entre a população negra.

Ao trazer um discurso comprometido com a desidealização do negro e do branco na sociedade brasileira, os Cadernos Negros trazem outras imagens de Brasil, como no poema Menino BR, de Jorge Siqueira:

Dentes de Brasil, orelhas de abril Olhos d´águas claras, peito juvenil Cabelo pixaim, dono do amendoim Menino pro que der, pivete pro que vier destino que o mundo fez

Nos olhos, ilusão, nos pés, uma canção nas mãos, uma aflição (pronta pra uma solução)

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Traído no arranha-céu Culpado da solidão Lua de zinco, prato de alcatrão!

(CN melhores poemas, p. 84)

Outras antologias têm se mostrado importantes no cenário literário da contemporaneidade, como Quilombo de Palavras (2000), Schwarze poesie – Poesia negra (1988), Poesia Negra Brasileira: Antologia (1992), entre outras publicações coletivas e individuais que possuem como foco a escrita afro-brasileira. Na coletânea Terras de palavras (2004), através de textos ficcionais, memórias fragmentadas exigem um espaço para que sejam recompostas, caso, por exemplo, do conto A Bailarina do escritor baiano Landê Onawalê, em que a linda moça negra tem seu rosto escondido pela tarja do produto anunciado na TV, transformando-se em símbolo da invisibilidade da imagem negra nos meios de comunicação de massa:

Não via a hora da estréia do comercial. Seria no horário nobre, e o bairro inteiro, aliás, a cidade inteira se tornaria um buchicho só no dia seguinte. À tarde, fora buscar o cachê da sua participação e, junto com as outras dançarinas, assistiu ao filme já editado. Faltava apenas a inserção da logomarca do produto. As evoluções por demais ensaiadas no estúdio e na escola de balé que freqüentavam ficaram perfeitas. Os passos finais, em slow motion, culminavam com o salto de todas em direção à câmera. Uma das colegas, a de perfil mais próprio, mais nórdico, mostra, na palma da mão, o copinho do iogurte anunciado — o produto disputando a tela com os sorrisos sadios das moças por breves 5 segundos de imagem congelada.

Às 19 horas, a janela da sala — e o próprio cômodo — estava apinhada de gente. Quem possuía TV em casa ouvia as reclamações de quem não possuía o aparelho: todos consideravam mais emocionante assistir ao comercial na casa da artista.

Plim Plim. Os moleques largaram as bolas de gude na réstia de barro onde brincavam e se enfiaram por entre as pernas dos adultos. A irmã da bailarina, na varanda, interrompeu o beijo e

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adentrou a sala arrastando o namorado pela mão. Os comerciais que se sucediam, mesmo os mais tolos, nunca tiveram uma platéia tão e silenciosa.

Começou. As moças dançavam como as cabeças dos expectadores. “Cadê ela?! Cadê ela?!” “Ali ó. Aquela de roupa azul.” “Mas são várias! Bem que a TV poderia ser maior, né?”, observou o vizinho. “No final fico mais visível”, disse a dançarina aflita. “Psssiu!”, repreendeu a mãe. Para todos os 30 segundos foram eternos. Quando o balé iniciou os movimentos finais, a bailarina inclinou- se instintivamente para a TV. Na tela, ao canto superior direito, uma tarja branca com o nome do produto apareceu e foi

escorregando em diagonal. Foi entrando

e parou, escondendo ao fundo seu rosto negro tão

bonito.

entrando

Em termos de produção individual, têm se destacado escritores como Cidinha da Silva, Marcelino Freire, Conceição Evaristo, Edimilson de Almeida Pereira, entre outros nomes. Em Contos Negreiros (2005), Marcelino Freire apresenta ao público leitor o conto Trabalhadores do Brasil, constituído de imagens e vozes justapostas que acabam por criar um discurso que arrebenta agressivo, clamando por justiça racial e social:

Enquanto Zumbi trabalha cortando cana na zona da mata pernambucana Olorô-Quê vende carne de segunda a segunda ninguém vive aqui com a bunda preta pra cima tá me ouvindo bem?

Enquanto a gente dança no bico da garrafinha Odé trabalha de segurança pega ladrão que não respeita quem ganha o pão que o Tição amassou honestamente enquanto Obatalá faz serviço pra muita gente que não levanta um saco de cimento ta me ouvindo bem?

Enquanto Olorum trabalha como cobrador de ônibus naquele transe infernal de trânsito Ossonhe sonha com um novo amor pra ganhar 1 passe ou 2 na praça turbulenta do Pelô fazendo sexo oral anal seja lá com quem for ta me ouvindo bem?

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Enquanto Rainha Quelé limpa fossa de banheiro Sambongo bungo na lama e isso parece que dá grana porque o povo se junta e aplaude Sambongo na merda pulando de cima da ponte ta me ouvindo bem?

Hein seu branco safado?

Ninguém aqui é escravo de ninguém.”

Nos centros urbanos brasileiros, grupos de escritores têm criado alternativas de publicação e de circulação do texto literário afro-brasileiro, através de editoras em forma de cooperativa de autores, caso das Edições Toró (São Paulo), cuja produção e distribuição de livros é feita pelos próprios escritores e da Cooperifa (São Paulo), que desde 2002 promove saraus literários onde escritores marginalizados do mercado editorial comercialmente competitivo, ainda majoritariamente comprometido com representações literárias europocêntricas, têm espaço para exibir a própria produção e trocar com outros escritores.

Este módulo teve, portanto, como principal objetivo sugerir e fomentar a inserção da produção literária afro-brasileira na escola básica, seja nas aulas de literatura, em outras disciplinas ou em atividades pedagógicas interdisciplinares, como uma possibilidade de diversificar os discursos relacionados à convivência inter-racial no Brasil. Reflexões teóricas e literárias contemporâneas favorecem, por outro lado, a ruptura dos muros e limites disciplinares, proporcionando cruzamentos entre áreas de conhecimento e produções artísticas distintas.

Esse processo certamente enriquecerá o contato crítico do aluno com o texto literário e com o mundo social, proporcionando-lhe uma visão ampla da diversidade étnico- racial do Brasil e uma compreensão dos limites individuais e coletivos que o racismo instaura.

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Leituras sugeridas PRUDENTE, Celso Luiz. “Cinema Negro: aspecto de uma arte para afirmação ontológica do

Leituras sugeridas

PRUDENTE, Celso Luiz. “Cinema Negro: aspecto de uma arte para afirmação ontológica do negro brasileiro”. In: Revista Palmares: Cultura Afro-brasileira, Ano 1, n.1, agosto, 2005. p. 68-72.

QUILOMBHOJE. “Histórico dos cadernos negros”. In:

http://www.quilombhoje.com.br/cadernosnegros/historicocadernosnegros.htm

SOUZA, Florentina da Silva. “Os Cadernos Negros”. In: Afro-descendência em Cadernos Negros e jornal do MNU. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.p. 95-111.

Teatro experimental do negro. In: www.abdias.com.br/teatro_experimental.html

Para saber mais

ARAÚJO, Joel Zito. “A TV e a negação do Brasil”. In:

www.tvebrasil.com.br/salto/entrevistas/joel_zito_araujo.htm

BERND, Zilá (Org.). Poesia Negra Brasileira: Antologia. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 1992. Disponível em:

<http://books.google.com.br/books?id=bYasOKFh_kIC&pg=PA7&lpg=PA7&dq=Poesia+N

egra+Brasileira:+Antologia+zila&source=bl&ots=s5-

IoC0wBr&sig=eT7nDXi_McdKwKnfj9xe_B7S8Nk&hl=pt-

BR&ei=Uzc_SpfqHaHKtgefy62qBA&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=1>

Cadernos Negros: os melhores poemas. São Paulo: Quilombhoje, 1998.

Cadernos Negros: Os melhores contos. São Paulo: Quilombhoje, 1998.

Cadernos Negros, volume 24: contos afro-brasileiros. São Paulo: Quilombhoje, 2001.

Cadernos Negros, volume 28: contos afro-brasileiros. São Paulo: Quilombhoje, 2005.

Cadernos Negros, volume 29: poemas afro-brasileiros. São Paulo: Quilombhoje, 2006.

CONCEIÇÃO, Jônatas e BARBOSA, Lindinalva (Org.). Quilombo de Palavras: a literatura dos afro-descendentes. 2ª. ed. Salvador: CEAO/UFBA, 2000.

SOUZA, Florentina da Silva. Afro-descendência em Cadernos Negros e jornal do MNU.

Belo Horizonte: Autêntica, 2005.

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“Quilombo de Palavras” In: CONCEIÇÃO, Jônatas e BARBOSA, Lindinalva (Org.). Quilombo de Palavras: a literatura dos afro-descendentes. Salvador:

CEAO/UFBA, 2000.

Schwarze poesie – poesia negra. Alemanha: Edition diá, 1988.

Enquanto isso, na sala de aula

Alemanha: Edition diá, 1988. Enquanto isso, na sala de aula Nas atividades em sala, pode-se pensar,
Alemanha: Edition diá, 1988. Enquanto isso, na sala de aula Nas atividades em sala, pode-se pensar,
Alemanha: Edition diá, 1988. Enquanto isso, na sala de aula Nas atividades em sala, pode-se pensar,
Alemanha: Edition diá, 1988. Enquanto isso, na sala de aula Nas atividades em sala, pode-se pensar,

Nas atividades em sala, pode-se pensar, inicialmente, numa pesquisa sobre a história

dos 31 anos de existência dos Cadernos Negros (esses dados são encontrados

facilmente no site do Quilombhoje, em livros e trabalhos de pesquisa disponíveis na

internet e nas bibliotecas). O segundo passo, após a pesquisa, é estimular a confecção

de um caderno de poesia (atividade que envolve as habilidades artísticas). Caso não seja

viável a compra de um caderno para cada aluno, além da realização de um trabalho

processual de oficinas de criação literária, adapta-se a atividade com apenas uma oficina.

De posse dos textos de cada aluno, constrói-se um livro de poesia afro-brasileira da

turma. Nem vamos precisar de Hugo Ferreira, os próprios alunos devem ter ideias ótimas

para nomear essa “publicação”.

Falando em publicação, destaco duas das mais importantes sobre os Cadernos Negros:

o livro “Afro-descendência em Cadernos Negros e Jornal do MNU” de Florentina da Silva

Souza - publicado em 2005, resultado de uma longa e qualificada pesquisa que culminou

em sua tese de Doutorado em Letras, e a publicação-homenagem, “Cadernos Negros:

três décadas: ensaios, poemas, contos”, lançado em 2008, organizado por Esmeralda

Ribeiro e Márcio Barbosa (coordenadores do Quilombohje Literatura). Essa brochura tem

por objetivo mostrar um painel panorâmico sobre a série. Os textos foram selecionados

de diferentes edições contendo um conto e um poema de cada autor. Aqui destaco um

trecho da introdução feita pelos organizadores,

“Desta forma, podemos dizer que a cada lançamento de Cadernos Negros uma sensação de conquista para toda a sociedade se espalha pelo ar, pois o

todo se enriquece com pequenos passos como esses. Seria interessante que os educadores, tocados por essa sensação, dessem mais atenção aos

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Cadernos Negros, trabalhando com eles nas salas de aula para que os alunos também pudessem ser brindados com textos que falam, muitas vezes, de realidades muito próximas às deles.” (BARBOSA & RIBEIRO, 2008, p.16)

Oportunizar que os(as) alunos(as) acessem, possam discutir e reelaborar as leituras dos

textos contidos nos Cadernos Negros também foi uma preocupação ao elaborarmos esse

Módulo. Assim, durante todo curso foram utilizados contos e poemas publicados no CN.

Os(as) professores(as) podem, assim, preparar atividades adequadas a cada nível de

ensino, disciplina e objetivo, assim como promover atividades culturais e realizar oficinas

dinâmicas e criativas nas unidades escolares tendo em vista a sensibilização para a

leitura dos Cadernos Negros (CN).

No tópico “Textos literários” desta Unidade, poderão ser encontrados poemas e contos

dos CN, alguns em homenagem à própria série, outros abordam assuntos como estética

afro, o continente e as produções literárias africanas, as conseqüências do racismo (auto-

censura). As discussões em torno dessas temáticas ressignificam valores e crenças

acerca das populações afro-brasileiras, reconstituem o imaginário sobre o negro,

promovem a elevação da auto-estima, além de criarem espaços - dentro e fora da escola,

para discussão das diferenças étnicorraciais.

Quanto às “Outras poéticas”, poderia citar uma série de outras publicações

importantíssimas para a consolidação da Literatura Afro-brasileira, tais como “O negro

escrito” e “A razão da chama: antologia de poetas negros brasileiros”, de Oswaldo de

Camargo, “Axé: antologia da poesia negra contemporânea”, organização de Paulo

Colina, “Criação Crioula: nu elefante branco”, organização de Cuti, Mirian Alves e Arnaldo

Xavier, “Reflexões sobre literatura afro-brasileira”, do Conselho de participação e

desenvolvimento da comunidade negras, “Literatura e identidade Nacional”, de Zilá

Bernd, “Quilombo de palavras: a literatura dos afro-descendentes”, organização de

Jonatas Conceição e Lindinalva Barbosa, citando apenas algumas. Porém, o destaque do

subtítulo fica com as possíveis estratégias contemporâneas de apropriação de diferentes

linguagens e recursos – a notar pelos materiais sugeridos no tópico “Textos literários”, ou

seja, oriki, música, endereços eletrônicos de vídeos de músicas, entidades culturais,

cinema negro, museus afros, teatro negro, dança afro e capoeira, etc. para que, em

diálogo com a literatura afro-brasileira, possam contribuir para a efetiva inclusão da

história e cultura afro-brasileira tanto nas práticas educacionais como nos discursos

nacionais.

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Nesse ponto, convido os(as) professores(as) a criar suas atividades, aproveitando as

sugestões das unidades anteriores. No entanto, é preciso atentar ao cumprimento do

nosso objetivo, que é buscar como resultado das atividades das aulas a ampliação das

discussões quanto à presença e importância da população negra na formação e

constituição do Brasil.

As discussões e poéticas precisam sair das páginas dos livros e ganhar o mundo seja

através da música, da TV, da arte, da dança, entre outros caminhos.

Textos literários

VENTO FORTE - POESIA Lepê Correia

Hoje me falta o verso Como falta pão e farinha Na mesa do meu irmão. Meu estomago poético ronca Dá nó a tripa da inspiração Uns com tanto e outros sem saber

 

[como.

Vou gritar pelo velho Trindade Quero alguma imaginação pra beber Algo que aplaque esse misere

Poético sim

Por que não?

Ele sempre teve

Em cada caracol de sua carapinha Um verso, uma ilusão espalhada: Pelas barbas, nos cabelos do sovaco Até nos arames pubianos

 

É

até lá tinha versos pendurados

Me acode, Veio! Agora e na hora de qualquer papel em

[branco

E depois, vai ser poeta assim na casa

[d’Osanlá.

DIÁRIO DE UMA FAVELADA Ademiro Alves (Sacolinha)

Maria teve uma doença na perna Curada com o tempo e com as rezas Passou a adolescência de casa em

[casa

Na labuta de empregada Carolina já adulta continuava sozinha Andava aqui e ali Sempre à procura de emprego

Nunca de migalhas

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De Jesus herdou o nome E a coragem Foi jogada na favela Esperta que era Tirou proveito dela Relatando os tropeços Nasceu então o quarto de despejo

ANCESTRAL

Landê Onawale

Para Lindi e Abdias

Em mim falam vozes ancestrais Que conversam mais, se calo, Ou a alma silencia

- ainda que em meio à algaravia.

Carrego por dentro abismos Onde ecoam os mais leves sussurros, Canyons mergulhados por pássaros De guinchos e vôos atemporais

Assim é que, do meu canto, Surgem versos de improviso; No meu grito. Ecos de quilombos e porões; Em minhas teses, tramas dos canaviais.

Sei a oração que princípio, Mas não onde o desejo dos verbos acaba:

São incertos os ventos Que sopram as velas do meu destino.

CUMPLICIDADE Graça Graúna

Agora pela hora da minha agonia louvo Trindade e Jorge de Lima cantando, catando as duras penas, só.

- De onde vem, Solano, esta agonia?

- Vem de longe, nega, muito longe! De Afroamérica sonhada. lá, donde crece la palma plantada em versos de alma, del hombre José Martí.

- De onde vem, Solano, esta agonia?

- De muito longe, nega.

Do comecinho das coisas; de muito longe, minha nega, muito

longe

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QUASE HAI KAI Graça Graúna

Para Cruz e Souza

À cruz do poeta

Doura trêmulas quimeras:

Sempre-vivas sobre a mesa

ACERTO DE COTAS Landê Onawale

Depois de nos espremermos sob as pontes dividindo pedaços de vão

depois de esquentarmos nossos medos nos limites de cada prisão

e de disputarmos com todos os bichos buracos no parmesão

é hora de outras partilhas

distribuir agasalhos, e não o frio repartir comida, e não a fome

depois dos lares loteados pelas botas da violência

e dos empregos cotizados

para servir às aparências depois dos elencos rateados

nos cabendo a subserviência

é

tempo de outros papéis

e

- por que não? - de anéis

SE ELA FAZ EU DESFAÇO Éle Semog

A treze de maio fica decretado

Luto oficial na comunidade negra

E serão vistos com maus olhos

Aqueles que comemorarem festivamente

Esse treze inútil

E fica o lembrete:

Liberdade se toma Não se recebe Se toma Dignidade se adquire Não se concede.

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DOMÍNIO DAS PEDRAS Jônatas Conceição

As pedras caíam no silêncio das bocas que mal diziam. As peças eram trabalhadas com esmero, precisão, para a queda final.

Os parceiros não se olhavam (o jogo não permitia admiração) Mal miravam as mãos, os dedos hesitantes.

No domingo,

o domínio das pedras

era absoluto. Os homens se revestiam ao redor da tábua onde a vida não lhes pregava peças.

IDENTIDADE José Carlos Limeira

Houve um tempo em que Constava em sua carteira

o dado cor

na minha: pardaescuracabeloscarapinhados.

Diante do espelho, me pergunto que faço com estes lábios grossos, este nariz achatado? Que faço com esta memória de tantos grilhões, destas crenças me lambendo as entranhas?

Será que não é demais não ter o direito de ser negro ? Causa espanto?

Pardaescura é o aspecto que vocês deram

à nossa historia.

Morra de susto! Sou, vou sempre ser: NEGRO! ENE, É,ERRE,Ó. Aqui, Ó!

DESENGANOS

Márcio Barbosa

Benedito da Silva, ao entrar num shopping para resolver um assunto importante, parou

numa loja de artigos femininos. Escolheu algumas roupas, ia pagar quando o homem do

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outro lado do balcão perguntou:

- O cheque é seu?

"É da minha avó", quis dizer. Sempre perguntavam aquilo.

- É - respondeu.

- E o telefone do seu emprego?

Enquanto o homem pegava o cheque e ia telefonar, Benedito olhou para as roupas em

cima do balcão. Caríssimas. E se simplesmente saísse com elas? Não

pagar

quando voltou.

- Como?

- Ninguém jamais ouviu falar do senhor.

- Tá certo, então, amigo. Vou comprar em outra loja.

- O senhor aguarde um pouco.

- Aguardar o quê?

O homem, cínico, olhou para a porta, por onde entravam dois seguranças usando ternos

impecáveis. Um deles, o mais baixo, de bigodes, estendeu um queixo acusador e

ordenou:

- O senhor queira nos acompanhar.

- Isto é um erro muito grande - disse Benedito, espantado.

- Por favor, não complique as coisas.

Levaram-no - perplexo e emudecido - rapidamente para uma sala nos subterrâneos. Benedito, sentado numa das duas cadeiras, imaginava se não fora um equívoco ter

decidido por aquele shopping. O segurança bigodudo, por detrás de uma mesa, balançou o cheque.

- Temos um problema aqui - falou. É melhor o senhor dizer de quem é isto.

Benedito achou aquilo uma humilhação, um absurdo.

- Vocês não vêem - disse, sem poder conter a exaltação - que é tudo um engano? Merda

- Veja como fala.

- Falo do jeito que eu quiser - Benedito gritou.

O bigodudo cerrou os punhos e inflou o peito. Parecia feito de aço. O outro homem, o

careca, que estivera em pé, quieto, interferiu:

- Calma, bigode, vamos devagar. - Virou-se para Benedito - Pode ser que seja um

engano, mas tem um pessoal lá em cima que não vai pensar assim. Por isso, não seja

arrogante.

- Então, eu vou lhes dizer uma coisa

E a Preta merecia. Um ano de namoro. - Ninguém o conhece lá - o homem disse,

Ele podia

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- Diga de quem é o cheque - ordenou o bigodudo.

- Da tua avó.

- Preto filho da mãe.

Aquilo foi mais forte que um soco.

- Porra, bigode! - O careca contraíra os músculos do pescoço e seu nariz quase encostava na cabeça do outro.

- Então, é isso - Benedito conseguiu murmurar.

O careca acendeu um cigarro e falou numa voz macia:

- O meu companheiro se exaltou. Não é isso o que ele pensa, não é, bigode?

O outro encostara a cadeira na parede e não falou nada.

- Olha bem pra mim - o careca ordenou. - Eu sou negro também

- Porra nenhuma - era o bigode que cuspia no chão.

- Sou mulato. E nunca tive problemas por aqui. Mas o senhor vai compreender

supervisão lá em cima está nos cobrando. Vem um chefe novo aí e eles querem mostrar serviço

- Meto um processo em cima dos dois

O bigodudo cuspiu no chão outra vez.

- Você não tem onde cair morto. Quem sabe a gente não seja promovido se te der uma

lição? É isso aí, neguinho, promovidos

- Cala a boca. - o careca inflamou-se. Depois colocou a mão no ombro de Benedito. - Só irão deixá-lo sair se provar sua inocência. Compreenda, o novo chefe

Benedito levantou-se, sentia na boca o gosto de algo azedo. Encarou o bigodudo. Seu rosto iluminou-se.

- Eu não sei do que vocês estão me acusando.

Na verdade, sabia. No fundo, acusavam-no por estar ali - um local que supostamente não era para ele - , por consumir em lojas que não eram para ele, por ser atendido por pessoas que não eram iguais a ele.

- Parei naquela loja por acaso. Dei o telefone do meu antigo emprego - argumentou. - Talvez tenha errado algum número.

- Antigo? Quer dizer que o malandro não trabalha?

- Vim aqui para isso. Assinar a ficha do meu novo emprego. Os dois homens se olharam, surpresos.

- Aqui, no shopping?

-Era o que eu tentava dizer. Vou trabalhar na segurança. Dizem que está violenta.

Chamaram-me há uma semana

para ocupar a chefia

A

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O careca deixou cair o cigarro. O bigodudo pensou que a promoção não viria. E Benedito

lembrou-se da Preta. Sentiu ternura e, pensando que algumas coisas por ali seriam

mudadas, respirou aliviado.

GAROTO DE PLÁSTICO Cristiane Sobral

Tem gente que vem ao mundo a passeio, outros, a serviço. E ele vivia assim, à paisana.

Era um indivíduo descartável e nunca fizera o menor esforço. Malhar, só na academia,

para garantir o êxito dos amassos noturnos no seu ponto de encontro predileto, as

boates, onde costumava caçar seu objeto preferido: mulher. Mulher loira, claro.

Seu jeito era meio distraído durante o dia porque gastava toda a energia à noite, nos

agitos. Sua expressão era meio aérea e seu sorriso, completamente sintético. Marcava

presença na classe jovem que freqüentava pelo seu nada original nick name: "boy". Aliás,

ele considerava-se um dos melhores frutos da era da informática: o gato virtual. Nada de

contatos verdadeiros. Não tinha mesmo muitos neurônios disponíveis para desenvolver

sua inteligência emocional. Seu melhor trunfo era a memória, medida em gigabytes e

equipada com um eficiente kit multímidia. Um gato de plástico motorizado. Tinha um

carro do ano com um equipamento de som de última geração. Presente do pai.

Fazia cursinho de inglês, presente da madrinha. "How are you? Fine, thanks". "Cool".

Estudava Ciências da Computação numa faculdade privada paga por meio de um rateio

feito entre os irmãos mais velhos sem o menor desajuste financeiro. Um garoto de

plástico com roupas de marca. Presentes de uma gatinha "shopping-maníaca", que

sonhava com o seu amor eterno. "Morena", a menina, até estudiosa. Mas muito pé no

chão. O "boy" não agüentava. Papo cabeça. Politicamente correto. Música gospel. Só

mesmo apertando o "delete". Que alívio. Preferia suas batatinhas loiras fritas e

hambúrgueres de carne, muita carne. Boy. Fazia palavras cruzadas nível moleza e era

adepto do discman. Principalmente nas viagens. Uma viagem inesquecível? o primeiro

passeio com seu novo e moderno tênis da onda. Pisando em terra firme com seus pés de

plástico tamanho 42. Seu maior sonho era um mundo com meias descartáveis. Vida para

as meias de algodão do tipo "one way". Liberdade perfumada para dentro dos dedos. Se

alguém quiser lavar meias que lave. Que cara de plástico!

Outro dia, na sua aula de inglês reclamou com o "teacher" que não tinha tempo para

fazer o dever de casa, o "home-work", porque estava freqüentando a academia

regularmente, já que o importante, em sua opinião, era poder ficar sempre orgulhoso de

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não ter nenhuma dobrinha no abdome sob as suas camisetinhas tipo "mamãe olha como

estou forte"

E assim seguia nosso ilustre personagem, em sua existência perfeitamente descartável,

de shopping em shopping, de boate em boate, até que um dia, ficou totalmente derretido

por uma garota! Isso não fazia parte do seu roteiro de vida, baseado em técnicas yuppies

não fazia. Pois aconteceu. Só o amor constrói. Ou destrói. Sob

a sua cara-máscara de plástico totalmente derretida, havia um complexo de inferioridade

estrutural, que o fez ficar trancado em casa durante quatro longas semanas, período

suficiente para deixar crescer seus cabelos raspados à máquina zero a cada sete dias.

Seus cabelos eram negros, sua pele cor de azeviche, aquela vida de plástico era um

verdadeiro mito, mito de uma democracia racial. Junto com seus cabelos, cresceram

em noites de insônia sua mente formulara algumas perguntas: quem

sou eu? para onde vou? Meu nome é Maurício? Por que me chamam de Mauricinho?

O garoto ficou atordoado e decidiu investigar sua certidão de nascimento. Leu: Nome:

Augusto de Oliveira. Cor : Parda. Junto com a certidão de nascimento havia um álbum de

fotografias com uma foto de casamento de seus pais. Um casal negríssimo, sem dúvida.