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9 771807 156009

ISSN 1807-1562

ESPECIAL | ADOLESCENTES E SUICÍDIO

ANO XII

psicologia

psicanálise

neurociência

R$ 15,90

4,90 €

ÉTICA

A capacidade do cérebro de se acostumar à desonestidade

EMOÇÃO

Quando a empatia causa mais prejuízo que benefício

HÁBITO

Biologia pode explicar a mania de adiar tarefas

cuidados

Como aliviar o estresse e o risco de adoecimento de quem se dedica a prestar assistência a um ente querido idoso ou doente

para

quem

cuida

shutterstock

carta da editora

Para não se perder de si mesmo

A palavra “cuidado” tem origem latina, cogitatu, vo- cábulo do qual derivam também “pensamento”, “reflexão” e “cura”. Pode parecer estranho à pri-

meira vista, mas basta nos determos um pouco para nos darmos conta do quão intimamente ligadas estão essas ideias. Em suas várias facetas, o cuidar requer, por um lado, o planejamento racional e, por outro, recursos emo- cionais que ofereçam suporte a essa tarefa tão complexa. Nos últimos anos, cada vez mais pessoas têm deparado com a necessi- dade de amparar pessoas próximas – idosos ou acometidas por doenças e limi- tações severas – sem que tenham se preparado para tal. E não porque não saibamos que o imprevisto, a incapacidade (permanente ou momentânea) nos rondam. Como em outras épocas as pessoas evitavam pronunciar a palavra “câncer” numa tenta- tiva pueril de afastar a patologia, muitas vezes, ainda hoje, postergamos conversas, decisões e providências, na tentativa de adiar a angústia – embora tenhamos conhe- cimento dos processos inerentes ao envelhecimento, por exemplo. Obviamente não é prazeroso pensar em como queremos atravessar situações dolorosas, mas nos aproximarmos dessa realidade e nos familiarizarmos com ela pode ser a maneira mais saudável de enfrentar esse momento. Caso contrário, quando surge uma situação “repentina” em que as limitações de um parente se impõem, em geral uma única pessoa termina se sobrecarregando com os cuida- dos – e, não raro, adoecendo tanto física quanto mentalmente, já que esse tipo de acontecimento tende a mobilizar profundamente a família, muitas vezes trazendo à tona mágoas e conflitos não resolvidos. Nos últimos anos, algumas linhas de pesquisa na área da psicologia buscam não apenas enfatizar a importância de pre- parar as pessoas para momentos de crise, mas também encontrar maneiras de aliviar o profundo cansaço e a solidão, tantas vezes vinculados ao ato de cuidar do outro – em geral, deixando de cuidar de si mesmo. Ainda nesta edição, tratamos de outro aspecto do cuidado, focando os adoles- centes que em razão de variadas questões psíquicas e da dificuldade de lidar com pressões sociais também terminam por se perder de si mesmos – escolher a única saída que parece possível: a morte. Temas árduos, delicados, mas que pedem re- flexão e cuidado, em nome de nossa saúde física e mental. E de uma possibilidade de cura – não como na medicina, privilegiando a erradicação dos sintomas, mas no sentido tomado pela psicanálise, que privilegia o acompanhamento e a possibilida- de de transformação por meio do encontro e do afeto. Boa leitura.

GLÁUCIA LEAL, editora-chefe glaucialeal@editorasegmento.com.br

sumário | junho 2017

capa

  • 18 Quem cuida de quem cuida?

por Francine Russo

Milhões de pessoas oferecem assistência direta a um ente querido e, por consequência, postergam ou mesmo negligenciam a própria vida. A dedicação e as boas intenções não as livram do alto nível de estresse. Felizmente, pesquisadores têm comprovado maneiras eficientes de ajudar esses cuidadores a se dedicar ao outro sem adoecer ou se perder de si mesmos

especial

  • 51 Adolescentes

em risco

A transição entre infância e fase adulta pode ser psiquicamente dolorosa. E lidar com as pressões se tornar uma ameaça à própria vida

  • 52 A orca assassina contra a baleia azul

  • 54 Morte antes da hora

  • 62 Desafios da adolescência

  • 70 O incrível cérebro adolescente

Planejando

cuidados:

  • 28 o valor das decisões antecipadas

por Graça Leal

Pensar no envelhecimento – nosso ou de quem está próximo – ou mesmo na possibilidade de surgimento de alguma doença grave é uma tarefa necessária para melhorar a saúde física e mental do paciente da família

  • 16 Empatia faz bem, mas é preciso administrar Bons sentimentos não bastam; é importante aprender a lidar com as emoções que o sofrimento alheio nos causa, não só para evitar o próprio desconforto, mas também para ter alguma chance de ser útil aos outros

  • 36 Existe escolha certa? por Gláucia Leal Todos os dias, tomamos milhares de decisões. Nesse total, estão incluídos desde os pequenos impasses sobre nossa marca de café preferida até considerações a respeito da pessoa com quem queremos dividir (ou continuar dividindo) a vida

  • 40 O cérebro se acostuma com a desonestidade por Mônica Oliveira Agir de forma honesta é um hábito, assim como o oposto. Quanto mais as pessoas se acostumam a enganar, mais hábeis se tornam nessa prática

seções

novidade

  • 3 Um universo de conhecimento ao alcance de um toque

CARTA DA EDITORA

Parceria entre Biblioteca Pearson e Mente e Cérebro

  • 6 permite acesso a centenas de livros e artigos

PALAVRA DO LEITOR

Imagine ter diante dos olhos um mundo repleto de informações da mais alta

  • 8 qualidade sobre psicologia, psicanálise, neurociência, orientação vocacional, avaliação neuropsicológica, psiquiatria, educação e fi losofi a que podem ser consultadas a qualquer momento . Uma parceria entre Mente e Cérebro e Bi- blioteca Pearson Clinical Brasil proporciona exatamente isso aos leitores. São

ASSOCIAÇÃO LIVRE

Notas sobre atualidades, psicologia e psicanálise

  • 16 edições, 12 mensais impressas da revista (também em versão digital) e

11

NA REDE

O que há para ver e ler na internet

quatro especiais digitais sobre temas específi cos, além do acesso à biblioteca virtual da editora Pearson, uma plataforma com centenas de livros disponíveis para serem acessados onde, quando e quantas vezes o leitor quiser. Os dois produtos têm tradição no universo do conhecimento, da divul-

gação científi ca e da formação profi ssional. Em quase 13 anos de circulação

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CINEMA

Fragmentado

por Ana Luisa Cordeiro

46

CIÊNCIA PARA VIVER MELHOR

A mania de deixar para depois

por Trisha Gura

no Brasil, Mente e Cérebro, integrante do grupo Scientifi c American Inter- nacional, publicou aproximadamente 1.500 artigos e mais de 1.700 notas voltados para profi ssionais da área da saúde mental, em especial psicólogos (de diferentes abordagens), psicanalistas e estudantes dessas áreas. Entre os colaboradores frequentes estão alguns dos mais renomados professo-

res e pesquisadores do Brasil e do exterior. A biblioteca também tem tra- dição considerável: há 150 anos a Pearson está no mercado, presente em

  • 80 países. Uma das vantagens do acesso ao catálogo – reconhecido pelo

Ministério da Educação (MEC) como acervo complementar dos cursos de

psicologia – é a constante atualização das centenas de títulos que podem ser

78

LIVRO

Fragmentos – Sobre o que se escreve de uma psicanálise

por Roberto Propheta Marques

80

LIVROS/LANÇAMENTOS

lidos no tablet, no computador ou no smartphone, tanto modelos IOS quanto Android. Ao assinar por um ano, de R$ 606,20 por R$ 302,60, o desconto é de 50%. E todo esse material estará disponível por me- nos de R$ 0,90 por dia. Para mais informações acesse

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colunas

12

PSICANÁLISE

A geração de 1960 hoje

por Christian Ingo Lenz Dunker

82

LIMIAR

A renascença e a revolução psicodélica na saúde

por Sidarta Ribeiro

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Saiba com antecedência qual será o tema da capa da próxima edição

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NOTÍCIAS Notas sobre fatos relevantes nas áreas de psicologia, psicanálise e neurociência. AGENDA Programação de cursos, congressos e eventos.

A localização das estruturas cerebrais nas imagens desta edição é apenas aproximada Os artigos publicados nesta edição são de responsabilidade dos autores e não expressam necessariamente a opinião dos editores

ESPECIAL |

O PESADELO DO

ABUSO

EMOCIONAL, FÍSICO E SEXUAL

NO X

TRABALHO

Como na entrevista

a ciência de pode emprego

ajudar

TÉDIO

Tecnologia de é desânimo

aliada no

combate à sensação

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Riscos do e benefícios

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Mas Há calórica especialistas

indícios

de que a alertam: longevidade.

a restrição

combata

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Parkinson

e recomendado

aumente

não é

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todos

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Edição n o 293, junho de 2017, ISSN 1807156-2.

Distribuição nacional: DINAP S.A. Rua Dr. Kenkiti Shimomoto, 1678.

palavra do leitor

SEM “FAZER A CABEÇA”

Parabéns pela edição 292, de maio. A começar pelo texto sério e isento sobre jejum. Eu me interesso pelo tema e nunca tinha encontrado um material tão bom. O especial sobre abuso também está de ótima qualidade. O que gosto na Mente e Cérebro é essa coisa de não tentar “fazer a cabeça”

do leitor; vocês colocam os dados e deixam a gente escolher o que serve para a vida da gente. Eu sinto

minha inteligência respeitada lendo essa revista.

Juliana A. Alves – Vitória, ES

APOSTA NA LEITURA A nota sobre o livro A cura pelo espírito, de Stefan Zweig, publicada na edição 291, me deixou curioso. Muitas coisas têm sido ditas sobre o Mesmer e o Freud, muitas delas fantasiosas e fruto ou da idolatria ou do preconceito científi co, que levam as pessoas a fazerem afi rmações sem nunca terem lido nada desses autores. Espero que valha a leitura.

Anderson Santiago, via Facebook

JEITINHO BRASILEIRO

A respeito da coluna do psicanalista Christian Dunker, “Liberdade ou justiça”, da edição 291, em minha opinião, o que move as pessoas é a paixão pelo usufruto das riquezas que a sociedade produz. A moral requer uma base racional estruturante do comportamento do indivíduo social e no Brasil ser moralista é pejorativo,

porque as pessoas acham que se enquadrar em regras fere sua liberdade – de gozar de privilégios, fazer o que bem entende sem sofrer punições, de se sentir mais importante que os outros. Não existe moralismo brasileiro, mas “jeitinho” ...

AMAR UM E COMER OUTRO

alimentação

Por que você

ama um e come o outro?

Adoramos cães e gatos e a maioria de nós se horroriza diante da possibilidade de matá los No entanto não estranhamos o hábito de comer outros bichos também sensíveis afetivos e inteligentes Cientistas investigam os art fícios cognitivos que uti izamos para resolver esse d lema onívoro e classificar outros seres de acordo com nossa conveniência

por Marta Zaraska

Roberto Oliveira,

via Facebook

36

A AUTORA

MARTA ZARASKA é jo na ista É au ora de Meathooked the history and science of our 2 5-m l ion-year obsession with meat

(Viciados em carne A história e a ciência de nossa obsessão de

2 5 m lhões de anos por carne (Basic Books 2016)

dezembro

mentecérebro 37

IMPACTOS DA VIOLÊNCIA

Sugiro que seja feito um artigo sobre como as cenas de violência que vemos todos os dias nos noticiários impactam nossa mente.

Evandro Jorge Águas de Lindoia,SP

Eu tenho 12 anos e minha mãe acompanha a revista. Às vezes eu pego uma ou outra edição e dou uma olhada. O texto “Por quê você ama um e come outro?” da edição 287 está muito interessante, apresenta vários fatos em que eu não havia pensado antes. Por

exemplo, para nós aqui no Brasil, comer cachorro é

uma coisa totalmente fora de questão, mas já em alguns países orientais isso muda devido à cultura. Adorei esse estilo de reportagem que não contém tantos termos complicados da psicologia.

Vocês da revista Mente e Cérebro deviam fazer mais reportagens como essa.

Rafael Moreira – São Paulo, SP

CONCURSO CULTURAL: ESCREVA E GANHE UM LIVRO!

Mande sua opinião sobre um dos artigos desta edição para o e-mail redacaomec@editorasegmento.com.br ou uma sugestão e concorra a um livro. Por limitação de espaço, tomamos a liberdade de selecionar e editar as cartas recebidas. A premiada deste mês é Juliana A. Alves – Vitória, ES

divulgação

TRABALHOS DA SÉRIE ENVOLVIMENTOS:

o corpo aparece fragmentado, contextualizado como objeto de consumo

EXPOSIÇÃO

Cenas coloridas do desejo feminino

Em exibição no Masp, pinturas de Wanda Pimentel convidam a refletir sobre como a sociedade de consumo influi na subjetividade da mulher

A s pinturas cheias de cores da carioca Wanda Pimentel contrastam com as cenas que retratam: mulheres

representadas apenas por suas pernas e pés imersas em um ambiente doméstico aparentemente tedioso. A impressão é que elas estão interagindo profundamen- te com chaleiras, sofás e sapatos, entre outros itens. Imagens transmitem ao mesmo tempo a sensação de confinamento e a epifania diante de objetos cotidianos, reunidas na série Envolvimentos, em exibição no Museu de Arte de São Paulo (Masp). Envolvimentos é um dos destaques da programação de 2017 do museu, que tem a sexualidade como eixo temá- tico. Os trabalhos de Wanda, hoje com 74 anos, são es- pecialmente interessantes por causa do período em que foram produzidos: fim dos anos 60, quando o casamento e a vida doméstica ainda eram o destino tradicionalmente oferecido pela sociedade às mulheres, nas palavras da es- critora e ícone do feminismo Simone de Bouvoir. Nesse sentido, os produtos domésticos e pessoais

que parecem ser observados pelas personagens de Wan- da – que na verdade representam ela mesma, retratada na perspectiva de observadora da cena – são fragmentos de um único universo possível para as mulheres. Nas palavras do historiador e crítico de arte Fernando Mo- rais, estudioso da obra de Wanda, as pinturas são uma “metáfora do aprisionamento”. O corpo feminino aparece também fragmentado, contextualizado como um item de consumo. Assim, a mulher autobiografada pela artista deseja o que lhe é socialmente permitido e é também objeto de desejo. Interessante, assim, observar como a obra de Wanda, não apenas pelas cores e traços, conversa tematicamen- te com o movimento da pop art, caracterizado por utili- zar produtos fabricados em massa para chamar atenção para a sociedade de consumo.

Envolvimentos. Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp). Avenida Paulista, 1578, São Paulo. De terça a domingo, das 10h às 18h. Informações: (11) 3149-5959. R$ 30 (gratuito na terça). Até 17 de setembro.

divulgação

associação livre

ESTAÇÕES MULTISSENSORIAIS instaladas em esculturas de barcos convidam o espectador a “embarcar” na trajetória do artista, que viveu por 50 anos em um centro psiquiátrico

Mostra interativa sobre vida e obra de Bispo do Rosário viaja o Brasil

E mbarcações foram tema recorrente nos trabalhos de Arthur Bispo do Rosário, um dos maiores artistas

plásticos do Brasil, que passou a maior parte de sua vida internado em um centro psiquiátrico no Rio de Janeiro. Con- finado depois de um surto psicótico, começou a criar obras únicas com materiais que encontrava no lixo. Seus trabalhos mesclam delírio e elementos da realidade – as esculturas de barco, por exemplo, remetem ao tempo em que trabalhou na Marinha, na sua juventude. Tão valorizada por Bispo, a figura da embarcação foi escolhida para simbolizar a mostra O grande veleiro – um conjunto de estações multissensoriais que contam a vida e obra do artista e que circulará pelas unidades do Sesc no Brasil este ano e em 2018. As estações são barcos de madeira equipados com te- las, que exibem vídeos educativos e interativos. O visitante é convidado a “embarcar” na poesia de Bispo e a percorrer a trajetória do artista. Jogos pedagógicos desenvolvidos pelo Museu Arthur Bispo do Rosário Arte Contemporânea e fotografias do artista complementam a mostra, que es- treou na unidade do Sesc Sergipe, estado onde Bispo nas- ceu. Até agosto, as instalações ficam no Sesc Alagoas, em Maceió, e depois seguem para o Rio de Janeiro. Em 2018, a itinerância passará por outros estados.

O grande veleiro. Sesc Alagoas. Rua Barão de Alagoas, 229, Centro, Maceió. Informações sobre dias da semana e horários de visitação: (82) 3326-3133. De 15 de junho até 5 de agosto. Escola Sesc de Ensino Médio. Avenida Ayrton Senna, 5677, Jacarepaguá, Rio de Janeiro. Informações: (21) 3214-7402. A partir de setembro, com data exata a ser definida. Centro Cultural Sesc Paraty. Rua Santa Rita, 134-156, Centro Histórico, Paraty. Informações:

(24) 3371-4516. A partir de outubro, com data exata a ser definida.

joão caldas

reprodução de imagem/ www.youtube.com/c/joejoe

associação livre

TEATRO

UMA GRANDE DR:

Marília Gabriela e Caco Ciocler interpretam casal que discute vários momentos da relação

E se pudéssemos voltar atrás?

E m um doloroso período de luto pela morte do pai, o dramaturgo britânico Nick Paine zapeava os canais de

televisão quando deparou com uma programação de ciência que especulava sobre a existência de universos paralelos. O documentário inspirou Paine a escrever um texto que permi- tia aos personagens transpor barreiras de tempo e espaço e, assim, ter uma nova oportunidade de dizer palavras antes não ditas e de arriscar possibilidades não vividas. Em cartaz em São Paulo, Constelações é uma série de esquetes que exploram efeitos das nossas escolhas na relação de um casal. Marília Gabriela e Caco Ciocler interpretam a adaptação brasileira do texto, que recebeu vários prêmios internacio- nais e foi apresentado na Broadway. Por meio dos universos paralelos de Paine, o espectador pode refl etir sobre como poucas palavras, o estado de humor em determinada si- tuação ou um encontro ao acaso são capazes de mudar os rumos da vida.

Constelações. Teatro Tucarena. Rua Monte Alegre, 1024, Perdizes, São Paulo. Sexta e sábado, às 21h. Domingo, às 18h. R$ 60 (sexta) e R$ 70 (sábado e domingo). Informações: (11) 3670-8455. Até julho.

Filho documenta rotina da mãe com demência

O vídeo mais assistido do canal Joe Joe no You Tu- be é também o de conteúdo mais dramático: o americano Joey Daley capta em vídeo a primeira vez que sua mãe esquece quem ele é. Diagnosticada aos 65 anos com demência com corpos de Lewy, uma complexa doença degenerativa que mescla sintomas do Alzheimer, Parkinson e esquizofrenia, Molly Daley depende de cuidados diários, pois sofre tremores, perda de memória e alucinações. Seu filho tem do- cumentado seu dia a dia como forma de divulgar a doença e buscar apoio emocional. Já são mais de 30 episódios postados no canal, nos quais fala sobre como se sente e registra momentos com a mãe. Daley criou também um site e um grupo público no Facebook com informações sobre os vários tipos de demência e suporte emocional para cuidadores:

Mother and son’s journey with dementia.

MOLLY DALEY, de 67 anos, sofre de demência com corpos de Lewy, uma complexa doença degenerativa que mescla sintomas do Alzheimer, Parkinson e esquizofrenia

matt van der velde

o que há para ver e ler

| na rede

PROJETO FOTOGRÁFICO

Manicômios em ruínas

O interesse do fotógrafo e sociólogo canadense Matt Van der Velde em captar imagens de instituições mentais surgiu de uma experiência pes-

soal, quando foi diagnosticado com transtorno do estresse pós-traumático (TEPT) depois de ter servido como soldado nas Forças Canadenses. Como se sentiam pessoas que passavam longos períodos confinadas em centros psiquiátricos, em especial aquelas consideradas mentalmente insanas, num passado não tão distante, no qual eletrochoques e outras interven- ções desumanas não eram incomuns? Com essas questões em mente, ele viajou pelo continente registrando imagens de edifícios abandonados onde funcionaram instituições psiquiátricas. Der Velde fotografou desde centros psiquiátricos de elite – onde foram internadas Marylin Monroe e outras personalidades – até manicômios- -prisão que abrigaram psicopatas que povoam o imaginário americano, como Charles Manson, além de instituições onde ocorreram as primeiras experiências de lobotomia. Paredes e mobílias em ruínas que revelam um pouco dessa história oculta do cotidiano de pessoas marginalizadas. O fotógrafo reuniu as imagens em livro, Abandoned asylums, no qual descreve suas sensações em cada local que registrou. Criou também um site em que divulga as imagens e fala sobre a experiência: www.abandonedasylums.ca.

PARKINSON

Aplicativo usa música para melhorar coordenação motora

O Parkinson é uma doença neurodegenerativa progressiva, caracte- rizada principalmente por prejuízos da coordenação motora. Na

fase mais avançada, a capacidade de andar é afetada, o que interfere

na autonomia e na qualidade da vida. Ainda não existem medicações específicas para atenuar esse sintoma. No entanto, estudos recentes têm apontado que a música pode ser uma alternativa terapêutica efi- caz (além de nada invasiva) para melhorar a marcha de pessoas com Parkinson. Isso acontece porque os ritmos são capazes de sincronizar redes neurais associadas ao movimento, contribuindo para passos mais firmes e largos. Com base nessas evidências, a empresa Teva lançou o aplicativo Parkinsounds ®. Simples e intuitivo, permite que o usuário selecione, entre vários ritmos, aquele que sente que ajuda a melhorar sua marcha. Em seguida, a ferramenta monta uma playlist com músicas que trazem aquele ritmo, além de acrescentar batidas de fundo para tornar as melodias ainda mais funcionais. O aplicativo é gratuito e pode ser baixado na App Store e no Google Play.

arquivo pessoal (foto), shutterstock (imagem)

psicanálise

inconsciente a céu aberto

A geração de 1960 hoje

Em geral, são os jovens que criam novas formas de vida; mas parece que “velhinhos pioneiros” estão cada vez mais presentes na sociedade

CHRISTIAN INGO LENZ DUNKER

O Brasil vai viver sua primeira gera- ção na qual a terceira idade não

será minoria. Nem em termos de quan- tidade nem de poder. Costumamos ver a adolescência como a idade que inventa novas formas de vida, mas que- ro crer que desta vez teremos uma ge- ração de velhinhos pioneiros. A clínica vem mostrando isso de forma radical e inquestionável: graças aos recursos virtuais, hoje só permanece viúvo ou viúva (principalmente) quem quer (ou quem resiste à novidade). Só continua limitado sexualmente na terceira idade quem tem preconceito contra Viagras e Cialis. As doenças crônicas tornam-se cada vez mais bem equacionadas por meio do avanço da medicina, preocu- pada com a qualidade de vida. Eventos e viagens especialmente desenhados para a terceira idade são importados de forma cada vez mais constante para aqueles que podem pagar por isso. Ou seja, a tecnologia avançou, mas uma verdadeira cultura da terceira idade produtiva ainda está por se fazer. Por outro lado, essa geração tem a seu favor a experiência, uma vez que ela é pioneira pela segunda vez. São os herdeiros da contracultura dos 60, da geração que fez a revolução sexual, criando, ao mesmo tempo, outro mo- delo do que viria a ser uma vida bem realizada. Ainda não capturados pelo imperativo da vida feliz que prospera depois dos anos 80, e não mais domi- nados pela narrativa do trabalho-con- sumo, que marcou os baby boomers

do pós-guerra, nossos velhinhos power-fl owers são, também por aqui, os que fi zeram e sofre- ram a ditadura. Quem ti- nha 20 anos em 1964, e hoje está com 70, desprovido de uma narrativa de referência para o que vem a ser envelhecer, depois que se viveu uma vida de “jovem”. Dercy Gonçalves, Jô Soares e Ana Maria Braga vão se somar, daqui a pouco, a Caetano, Gil e Paulo Coelho (na falta de Raul Seixas) como ícones de uma geração de velhinhos “pra- frentex”. Como a psicanalista Angela Mucida mostrou em O sujeito não en- velhece: psicanálise e velhice (Autêntica, 2004), para essa geração, não enve- lhecemos, desde que possamos reco- nhecer o desejo e conferir dignidade a ele como centro e razão de uma vida bem realizada. Nossa condição de su- jeito se impõe à de pessoa, que gra- dualmente perde suas prerrogativas, à condição de indivíduo, que gradual- mente se perde na massa, e à nossa condição de corpo que se degrada. Esta é uma geração que nasceu e se criou com ideais ligados ao desa- pego identitário, ou seja, que se esta- beleceu no mundo desconfi ando um pouco dos papéis sociais que vieram a exercer. A ideia de que passar pela vida é passar o que se recebeu aos filhos e cumprir seus papéis (“fazer seu trabalho”) não deixa de ser expe- rimentada com certa autoironia. Pai,

médico, professor, fi - lho, trabalhador, aman- te ou marido – tudo isso, como diria Cartola, acaba moído pelo moinho do tempo. Com esse recuo, que outras gerações não tiveram, com uma redução substancial da expectativa de respeito e honra, que outras gerações tiveram, os nossos próximos velhinhos-power-raid serão os primeiros a montar uma infraes- trutura mais “comunitária” para seus últimos dias. O recolhimento na famí- lia, baseado na gratidão pelos servi- ços prestados, não é mais uma garan- tia, mas uma circunstância de sorte e contingência. A força da amizade e o crescimento da participação políti- ca entre nossos sessentões não são inesperados. Não se trata aqui de po- lítica institucionalizada, mas de preo- cupação com a vida comum: os síndi- cos, os críticos de jornal, os ativistas de Facebook, os denunciadores de iniquidades se tornarão tão comuns para nós como hoje é a fi gura do ido- so isolado, sozinho e “largado” pela família (ainda que tenham surgido leis que hoje protegem contra essa si- tuação). Tudo isso terá sido um futuro que não aconteceu, se a reforma da Previdência continuar como está.

CHRISTIAN INGO LENZ DUNKER,

psicanalista, professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).

INFORME PUBLICITÁRIO

São inúmeras as fantasias sobre o que alguém

fala em suas sessões de análise. Muitos pensam que

psicanálise é para quem tem problemas sexuais, é

preciso falar sobre eles. Há também os que acham

que é necessário falar sobre a infância. A vida atual

seria menos relevante, a menos, é claro, que tenha a

ver com a vida sexual do paciente.

Esses são estereótipos comuns sobre o que é

aos quatro cantos do mundo que criança tem sexua-

lidade, em uma época em que ninguém falava sobre

sexo, e que a libido é a energia que move o humano.

O que poucos sabem, é o sentido que a ideia de se-

xualidade tem para o pensamento psicanalítico.

O sexual para a psicanálise tem a ver com o pra-

zer, seja no encontro sexual propriamente dito, seja

nas pequenas coisas da vida, como comer, caminhar,

ler um livro, brincar

...

O prazer diz respeito ao que

está para além da necessidade. Ou seja, prazer fala

daquilo que supre não apenas o corpo como sobre-

vivência, mas do que nos nutre como sujeitos. Para-

fraseando Arnaldo Antunes “a gente não quer só co-

mida, a gente quer comida, diversão e arte”. Prazer

este, que sempre será constituído de forma singular,

dado que depende das marcas das experiências de

nossas vidas.

As marcas mais antigas, assimiladas na infância,

são de fato muito importantes, pois nosso psiquis-

mo se constitui a partir delas e de outras posterio-

res que tendem a se conectar a elas. De tal maneira

que as inúmeras marcas impressas em nosso psi-

quismo ao longo de nossas histórias e as possibi-

lidades de arranjos entre elas, compõem a forma

como cada um vivencia o prazer e o desprazer. Será

exatamente isto o que o psicanalista irá buscar es-

cutar. Quando há sofrimento psíquico possivelmen-

própria possibilidade de constituição de marcas ou

falha por algum tipo de “curto circuito” na combina-

tória entre elas.

O instrumento primordial do psicanalista é a

fala. Não à toa, ela ocupa lugar privilegiado no psi-

quismo, pois estabelece composições entre marcas

psíquicas. É tão extraordinária a forma com que ela

incide no ser humano que é capaz de se traduzir em

a forma como nossos corpos funcionam e habitam

o mundo.

Na proteção do espaço analítico, a fala tem po-

-

to, sem ligação. Aquilo que se estabeleceu com uma

como uma angústia ou mesmo uma dor. Ou, ainda,

a fala tem capacidade para desfazer os nós que nos

impedem de maior fruição em nossas vidas. E seja

o que for que se diga em análise, irá se referir ao

próprio sujeito que fala.

É comum acompanharmos transformações nas

-

neira como se relacionam com seus pares quanto

-

pressam, por exemplo. Parece mágica, mas não é!

ESTE TEXTO FOI ESCRITO POR PSICANALISTAS DA REDE DE ATENDIMENTO PSICANALÍTICO.

Para conhecer sobre a Rede ou ler mais sobre psicanálise, acesse o site www.redepsicanalise.com.br ou entre em contato pelo faleconosco@redepsicanalise.com.br ou pelo telefone (11) 3672-4205.

cinema

A fera e sua dor

FRAGMENTADO

117 min – Estados Unidos, 2017

Direção: M. Night Shyamalan Elenco: James McAvoy, Anya Taylor-Joy, Betty Buckley

Na trama, rapaz vive à mercê de 24 personalidades que se alternam; desintegração funciona como proteção contra a crueldade vivida na infância

por Ana Luisa Cordeiro

O impactante thriller Fragmentado,

do polêmico diretor M. Night

Shyamalan, conduz o espectador ao

surpreendente mundo do transtorno

dissociativo de identidade (TDI), ou

transtorno de personalidades múlti-

plas. O filme conta a história de Ke-

vin, um rapaz com 23 personalidades

bem diferentes umas das outras, que

se alternam. A cada momento, ape-

nas uma se apresenta e fica “na luz”.

Seria possível apenas descrever

em detalhes essas 23 personalida-

des e a vigésima quarta – que está

se formando ao longo da história

–, seu funcionamento, aspectos e

estruturas. E isso, por si só, já seria

fascinante. É possível levantar hipó-

teses sobre o surgimento de cada

uma dessas faces do personagem, e

Nada parece deter sua fúria, a não ser quando ele depara com uma de suas vítimas que, assim como ele, visivelmente, viveu experiências de abuso desde a infância, que podem ser reconhecidas por meio das marcas em seu corpo

ferentes habitando o mesmo corpo

que, inclusive, se transforma ao ser

“moldado” por cada uma delas.

O que teria acontecido que não

foi possível para o rapaz “ocupar”

o próprio corpo, tomando posse

dele e unificasse suas características

num todo?

Recorrendo às ideias do psicana-

lista inglês Donald Winnicott sobre o

desenvolvimento emocional primiti-

vo, levamos em conta que para o Self

se estabelecer como uma unidade é

necessário que ocorram três coisas

muito importantes: a integração, a

personalização e a realização. Em re-

lação aos dois primeiros processos,

partimos da ideia de que o eu habita

um espaço físico, o próprio corpo.

No início de nossa existência, nos-

considerar as ligações que as sustentam. Representariam

diferentes aspectos não integrados de Kevin? O próprio

nome original do filme em inglês, Split, significa “cisão”,

“divisão” – e o nome “dissociativo” para nos referirmos

ao transtorno já demonstra que, ao assumir o comando,

cada personalidade, tem existência separada, com carac-

terísticas próprias, como se fossem, de fato, pessoas di-

sos diversos aspectos e potencialidades não estão ainda

integrados e necessitam da mãe (ou de quem cuida do

bebê) e de um ambiente suficientemente bom para que

haja a integração.

Isso pressupõe a importância dos cuidados com o

bebê, assim como o holding, que implica na forma como

este bebê é segurado, carregado, sustentado, e todas as

divulgação

vivências e experiências de acolhimento, paz, seguran-

ça, confiança que ele deverá ter na relação com a mãe

que se mescla e confunde com o próprio ambiente.

Para que ocorra o desenvolvimento também se faz

necessária a personalização, que é justamente o sen-

timento de habitar o próprio corpo, estar dentro dele,

tomar posse – e depende das mesmas experiências já

descritas. Esses processos ocorrem simultaneamente

no início da vida. Mas o que pode ter ocorrido com Ke-

vin? Ou melhor: o que não ocorreu com ele?

Não temos muitos dados sobre sua relação inicial com

a mãe, mas uma cena do filme mostra uma memória de

infância, em que, apavorado, ele se esconde de sua mãe

embaixo da cama, quando esta o persegue para castigá-lo

com um ferro porque ele havia “feito bagunça”. O olhar

e o comportamento da mãe nessa cena são assustado-

res, principalmente sob o ponto de vista de uma criança

pequena. Com base nisso, podemos levantar a hipótese

de que Kevin não viveu em um ambiente suficientemente

bom, acolhedor, calmo, seguro. Em vez disso, sofreu hos-

tilidade e agressividade que causaram traumas.

A consequência foi ter seu processo de integração

interrompido, prejudicado, ou nunca alcançado de fato.

Em decorrência disso, a personalização também não

ocorreu. Kevin não pode viver seu corpo como uma uni-

dade e isso o impediu de “tomar posse” dele de forma

unificada e de habitá-lo verdadeiramente. Ainda segun-

do Winnicott, o bebê que não teve uma pessoa que “jun-

tasse seus pedaços” inicia sua vida já com desvantagem

para “autointegrar-se”.

No caso de Kevin, isso pode ter sido ainda mais agra-

vado pelas vivências de abuso e agressividade a que foi

exposto desde pequeno. É possível, então, que suas 23

personalidades se constituíram com o objetivo de ocu-

par o corpo, esse lugar não habitado, a fim de preencher

o vazio aterrorizante experienciado por um sujeito muito

frágil e indefeso. A vigésima quarta personalidade, cha-

mada de Fera, também tem o propósito de proteger o

rapaz e fazê-lo reagir contra o ambiente assustador que

o cerca. É o mais agressivo, poderoso e descontrolado

de todos os aspectos e acaba transformando Kevin em

um assassino em série.

Nada detém sua fúria, a não ser quando enfrenta

uma de suas vítimas que, assim como ele, visivelmente,

viveu experiências de abuso desde a infância, que po-

dem ser reconhecidas por meio das marcas em seu cor-

po. Nesse momento, o assassino se identifica com a dor

de sua presa, a reconhece como “diferente de todos”. E

parecida consigo mesmo.

ANA LUISA CORDEIRO é psicóloga, professora do curso de especialização em psicossomática psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae e membro do Espaço Potencial Winnicott, da mesma instituição.

emoções

Empatia

faz bem, mas é preciso

administrar

Bons sentimentos não bastam; é importante aprender a lidar com as emoções que o sofrimento alheio nos causa, não só para evitar o próprio desconforto, mas também para ter alguma chance de ser útil aos outros

R econhecer quando um amigo ou colega está

assustado, triste, irritado ou surpreso é uma

espécie de chave fundamental para manter bons

relacionamentos. Um novo estudo sugere, no

entanto, que, se a habilidade para escutar os sentimentos

alheios tomar proporções grandes demais, pode provocar

uma dose extra de estresse – e, na prática, não ajudar

quem está sofrendo nem aquele que se comove com a

dor alheia.

Em um estudo publicado na edição de setembro de

2016 da Emotion, as psicólogas Myriam Bechtoldt e Va-

nessa Schneider, da Escola de Frankfurt de Administração

e Finanças, na Alemanha, entrevistaram 166 estudantes

universitários do sexo masculino e fizeram a eles uma

série de perguntas com o objetivo de medir a sua capaci-

dade de lidar com as emoções. Na sequência, as pesqui-

sadoras mostraram aos voluntários uma série de fotogra-

fias de rostos de várias pessoas e perguntaram até que

ponto sentimentos como felicidade ou desgosto eram

expressos em seu semblante. Num segundo momento,

os estudantes participaram de um exercício no qual deve-

riam fazer negociações como se estivessem numa situa-

ção profissional, em frente de juízes exibindo expressões

faciais severas. Os cientistas mediram concentrações do

cortisol, hormônio associado ao estresse, presente na sa-

liva dos alunos antes e depois da tarefa.

Nos voluntários avaliados como mais inteligentes

emocionalmente, as medidas de estresse aumentaram

mais durante o experimento e demoraram mais tempo

para voltar ao nível inicial. Os resultados sugerem que

algumas pessoas podem ser emocionalmente espertas,

mas isso não se reverte, necessariamente, para o seu pró-

prio bem, diz Hillary Anger Elfenbein, professora de com-

portamento organizacional na Universidade de Washing-

ton em St. Louis, que não participou do estudo. “O envol-

vimento emocional pode causar apenas preocupação se

não for canalizado de forma saudável”, observa.

Essa e outras pesquisas desafiam a visão predominan-

te de que a empatia é sempre benéfica para quem a sente.

Um trabalho publicado em 2002 já sugeria que as pes-

soas emocionalmente perceptivas podem ser particular-

mente suscetíveis a sintomas de depressão, decorrentes

da sensação de impotência por não conseguir ajudar os

outros a sair de seu sofrimento.

shutterstock

Voz mais suave para diminuir conflitos

Não raro, os desencontros se dão muito mais pela forma como

falamos do que pelo conteúdo do que é dito. A intenção – ou a

“energia” – que permeia nossas frases expressa mais do que as

palavras em si. E o interlocutor percebe isso, pois o modo de falar

de cada pessoa tem uma musicalidade própria, com variação de

tom e ritmo, conhecida como prosódia, que transmite emoções.

Um estudo realizado por cientistas da Universidade do Sul

da Califórnia sugere que pessoas com entonação de voz mais

melodiosa estão mais predispostas à empatia.

Usando exames de ressonância magnética funcional, os

pesquisadores mediram a atividade cerebral de voluntários

enquanto falavam ou ouviam vozes com entonações de

felicidade, tristeza, interrogação ou neutralidade. Assim,

descobriram que a área de Broca, que funciona como centro da

fala no cérebro, era ativada quando o voluntário ouvia ou falava

algo com entonação animada. Participantes com nível mais alto

de atividade nessa área apresentavam maior empatia.

Ao contrário do que ocorre com a gramática, a semântica

e outras propriedades do idioma, a prosódia é universal entre

as culturas e espécies. “Animais de estimação, por exemplo,

entendem comandos pela entonação da voz, não pelas palavras

em si”, observa a neurocientista Liza Aziz-Zadeh, principal autora

do estudo. Alguns pesquisadores acreditam que a prosódia,

essencial para a comunicação, pode ser suavizada quando

colocamos a intenção de falar com delicadeza e respeito ao outro.

“Não há dúvidas de que a empatia é uma

qualidade extremamente útil, mas não bas-

ta; é fundamental aprender a lidar adequa-

damente com as emoções, tanto as nossas

quanto as alheias”, diz Bechtoldt. Segundo

ela, pessoas muito sensíveis podem se sen-

tir identificadas demais ou inclinadas a assu-

mir a responsabilidade pela tristeza ou raiva

alheias. Por mais que uma situação nos mo-

bilize, é importante ter em mente que cada

um tem responsabilidade sobre a própria

história, e, às vezes, o melhor a fazer num

momento delicado é estar perto, escutar e su-

portar que a pessoa sofra, sem tentar aplacar

a dor por causa das nossas próprias fragilida-

des. “Pode parecer pouco, mas é transforma-

dor”, comenta a psicóloga.

Ela enfatiza que para ajudar alguém é fun-

damental não se misturar às suas mazelas.

Especialistas acreditam que o autoconheci-

mento, alcançado por meio da psicoterapia, é

uma forma bastante eficaz de mobilizar e de-

senvolver recursos psíquicos, capaz de forta-

lecer a capacidade de reconhecer as próprias

limitações – e possibilidades.

Outros estudos mostram facetas ainda

menos exploradas da capacidade de com-

preender o que as pessoas sentem. Um de-

les, publicado em 2013 na PLOS ONE, revela

que essa habilidade pode ser usada para ma-

nipular outros e, assim, obter ganho pessoal.

Mais pesquisas são necessárias para mostrar

com maior clareza de que maneira se dá a re-

lação entre inteligência emocional e estresse.

Estão em andamento atualmente investiga-

ções similares em que são acompanhadas

mulheres e grupos mistos com pessoas de

diferentes idades e formação.

PARA SABER MAIS

O poder da empatia – A

arte de se colocar no lugar do outro para transformar o mundo. Roman Krznaric. Zahar, 2015.

capa

Quem

cuida de quem

cuida?

Milhões de pessoas oferecem assistência direta a um ente querido em período integral ou em parte do tempo e, com frequência, postergam ou mesmo negligenciam a própria vida. A dedicação e as boas intenções, no entanto, não as livram do alto nível de estresse. Felizmente, pesquisadores têm comprovado maneiras efi cientes de ajudar esses cuidadores a se dedicar ao outro sem adoecer ou se perder de si mesmos

A AUTORA

por Francine Russo

FRANCINE RUSSO é jornalista com especialização em psicologia e comportamento. É autora do livro They’re your parents, too! How siblings can survive their parents’ aging without driving each other crazy (Bantam, 2010, não publicado no Brasil).

capa

e m 14 de novembro de 2011, So-

nia Alvarado recebeu do exército

americano um telefonema às 5

da manhã. Seu filho, Luis, tinha

sofrido um acidente com um

explosivo improvisado, próximo

a Kandahar, Afeganistão. Sonia e o marido,

Julio, ambos pastores metodistas, imedia-

tamente pegaram um voo até a Alemanha,

onde o rapaz de 24 anos se encontrava em

uma cama de hospital, em coma, com son-

das instaladas em várias partes do corpo. Os

médicos disseram ao casal que se despedisse

do jovem, pois o prognóstico não era bom:

ele apresentava atividade cerebral mínima.

“Vocês não conhecem a teimosia de meu fi-

lho”, disse Sonia.

Ela e Julio sentaram-se ao lado de Luis e,

por horas a fio, não pararam de conversar

com o filho. Finalmente viram escorrer lágri-

mas pelo seu rosto. “Continue a lutar, nós

lutaremos junto com você”, disse a mãe. Re-

lembrando-se daquele dia, ela diz: “Naquele

momento tomamos a decisão de sempre cui-

darmos dele”.

Não há dados exatos, mas estima-se que

aproximadamente um em cada cinco adultos

tenha se voluntariado para esse tipo de res-

ponsabilidade (ou se vê diante da necessida-

de de assumi-la), fornecendo cuidados para

entes queridos que estão doentes, frágeis ou

incapacitados, de acordo com um relatório

conjunto da Associação Americana de Apo-

sentados (AARP) e da Aliança Nacional de

Cuidadores. Entre essas pessoas, a grande

maioria (em torno de 85%) cuida de um pa-

rente: um dos pais ou sogros responde por

metade dos casos, um cônjuge ou parceiro,

por outros 12%; e uma mistura de tios, tias,

avôs e avós e outros, pelo restante. Estudo

desenvolvido pela professora de serviço so-

cial Sara Sanders, da Universidade de Iowa,

mostrou que cuidadores relataram, basica-

mente, três tipos de benefício: crescimento

espiritual e aumento na fé, crescimento pes-

soal e sentimentos de domínio e realização.

É um trabalho difícil, inexorável e não

remunerado, embora seu valor econômico

seja enorme – estimado, nos Estados Uni-

dos, em US$ 470 bilhões em 2013. Como é

de esperar, aqueles que acumulam horas a fio

dedicando-se a uma pessoa com problemas

de saúde são particularmente propensos a

vivenciar estresse físico e emocional, efeitos

negativos de saúde e preocupações financei-

ras. Comparados à população em geral, são

mais aptos a descrever sua saúde como “ra-

zoável” ou “fraca”, e cerca de um quarto diz

que ser cuidador levou a uma deterioração de

sua saúde.

Conforme a estimativa média de vida au-

menta e o número de cuidadores informais

cresce, os custos emocionais, físicos e fi-

nanceiros tanto individuais quanto sociais

também incham. Em 1993, o Congresso dos

Estados Unidos promulgou a Lei de Licença

Médica e Familiar, que oferece a trabalhadores

qualificados alguma assistência na forma de li-

cença com garantia de emprego para cuidar de

um membro da família. No Brasil não há esse

benefício. Nos últimos anos, mais de metade

dos estados americanos aprovaram a legis-

lação desenvolvida pela AARP, que exige que

hospitais forneçam treinamento em tarefas

médicas essenciais para aqueles que cuidam

de um parente que recentemente recebeu alta

de um hospital. O Brasil ainda está bastante

defasado em relação ao apoio a cuidadores.

Cientistas constataram que a cultura, o gênero e a dinâmica de relacionamento podem ajudar a explicar por que algumas pessoas se saem melhor do que outras ao cuidar de alguém; participar de programas de apoio e fazer psicoterapia tendem a aliviar significativamente a carga

Especialistas garantem, porém, que há

formas eficientes de ajudá-los. Por décadas,

a longevidade e a demanda por cuidadores

cresceram vertiginosamente, o que levou

cientistas sociais a se empenharem em des-

vendar por que algumas pessoas se saem

melhor como cuidadores enquanto outras

têm grandes dificuldades para assumir a ta-

refa. No processo, identificaram estratégias

específicas para lidar com a sobrecarga e

aumentar as recompensas de desempenhar

esse papel.

GÊNERO, CULTURA, COMUNIDADE

Pesquisadores reconhecem que o bem-estar

dos cuidadores depende de muito mais do

que o atendimento de necessidades práticas,

médicas e financeiras. Cuidar de um ente da

família constitui uma experiência intensa e

profundamente pessoal, diz respeito ao con-

fronto com a própria mortalidade, à condição

humana vulnerável, às relações com filhos,

filhas, maridos e esposas, pais e mães; exi-

ge que seja encontrado sentido na perda e

satisfação naquilo que muitos veriam como

trabalho servil ou autossacrifício. Fundamen-

talmente, a maneira como pensamos o papel

de cuidador definirá em grande parte se en-

tramos em colapso diante da pressão dessa

posição ou se obtemos um senso de propósi-

to e realização.

Ou seja: as pessoas podem considerar

uma tribulação ou uma bênção cuidar de

um ente querido. Na prática, é uma combi-

nação dos dois – e muitos fatores diferentes

são capazes de tornar uma alternativa mais

provável do que a outra. Steven H. Zarit, ge-

rontologista pioneiro, professor emérito da

Universidade Estadual da Pensilvânia, está

entre os mais dedicados a essa questão. Ele

é responsável pela criação conjunta da En-

trevista de Sobrecarga Zarit, uma ferramenta

internacionalmente utilizada na prestação de

cuidados, para avaliar o impacto emocional,

físico e social dessa atividade nos indivíduos.

De acordo com o especialista, a percepção

da sobrecarga é subjetiva e depende mais

das convicções dos indivíduos, relaciona-

mentos e cultura do que do peso das tarefas

do dia a dia.

O relacionamento entre os “parceiros de

cuidados”, termo atualmente utilizado para

cuidador e recebedor, importa muito – as-

sim como a qualidade do vínculo: amoroso,

hostil ou ambivalente. Uma proximidade

emocional maior entre os pares cônjuge/

cônjuge ou filho/pais, por exemplo, costuma

beneficiar aquele que recebe o cuidado. Mas

num estudo de 2012 feito com cuidadores

de portadores de demência, a gerontologista

Elizabeth B. Fauth e seus colegas da Univer-

sidade Estadual de Utah descobriram que,

para o cuidador, a experiência era “mista”:

combinava experiências positivas com uma

sensação de perda, anseio e, para alguns,

propensão à depressão.

Em uma pesquisa de 2013, a psicotera-

peuta Judy R. Strauss, professora da Univer-

sidade de Nova York, relatou uma diferença

entre cuidadores que eram filhos e filhas em

comparação a genros e (principalmente)

noras. Os filhos adultos sofriam mais com

problemas de saúde mental e com estresse

na família, ao passo que os cônjuges relata-

vam menos tensão familiar e mais apoio de

seus companheiros. Esse padrão pode refletir

uma série de fatores. É possível que as pes-

soas ofereçam mais elogios e apoio a genros

capa

anatomia de uma intervenção

E ntre as abordagens mais bem-sucedidas

para ajudar cuidadores está uma intervenção

desenvolvida pela Universidade de Nova York

(NYUCI, na sigla em inglês), destinada a dar

apoio às pessoas que acompanham parentes

com demência. O programa, baseado no

trabalho realizado no fim da década de 90 pela

epidemiologista psiquiátrica Mary S. Mittelman,

tem garantido menos sofrimento às famílias e

adiamento da necessidade de institucionalização

do paciente, já que os participantes conseguem

cuidar de seus entes queridos em casa por mais

tempo do que os que não fazem parte do projeto.

Resultados positivos do programa NYUCI agora

foram constatados em intervenções em cinco

estados americanos.

O gerontologista Joseph Gaugler, da Universidade

de Minnesota, e seus colegas adaptaram o programa

NYUCI para pessoas que cuidam de pais. Em 2013

relataram que apenas 37% dos filhos adultos que

participaram haviam colocado os pais em uma

instituição, em comparação a 66% do grupo de

controle. Cuidadores relataram também uma melhor

qualidade de vida, sintomas reduzidos de depressão

e menos estresse em resposta a comportamentos

perturbadores.

O NYUCI é um programa multifacetado que

inclui encaminhamentos para grupos de apoio e

programas de meditação. O principal componente

é uma série de sessões de terapia individuais e em

família. Além de sessões regularmente agendadas,

os participantes podem buscar aconselhamentos

pontuais por telefone, seja quando o paciente

está gritando pela casa na madrugada ou quando

os parentes divergem sobre a forma de tratar

os pais. Um estudo clássico de 1993 mostrou

que para filhas cuidadoras casadas os irmãos

e irmãs constituíam tanto fonte de apoio como

de estresse. E um estudo de 2014 com 90

cuidadores de pessoas com demência na Colômbia

constatou que a dinâmica familiar negativa estava

significativamente associada à depressão e ao

estresse do cuidador.

Sheryl Fairbanks, de 65 anos, participou de

uma intervenção de Gaugler em 2009. “Eu estava

cuidando 24 horas por dia, sete dias por semana

de quatro idosos (meus próprios pais e os do meu

marido) em três casas, com uma variedade de

enfermidades, incluindo a demência vascular da

minha mãe”, lembra-se. Ela havia recentemente

abandonado uma longa carreira de sucesso como

executiva de TI. Sua irmã não estava “disponível”

para a prestação de cuidados ou para participar de

sessões de terapia familiar, e o marido de Fairbanks

foi seu principal ajudante.

Como parte do programa, Fairbanks reunia-se

por 90 minutos por mês com o terapeuta familiar

Mark Reese, às vezes na casa dela ou numa

cafeteria próxima. Reese ajudou-a a enfrentar

diversas dificuldades práticas e emocionais por um

período de 18 meses. “Mark salvou minha vida”,

diz ela a respeito da experiência que terminou em

maio de 2012, quando o último de seus “pacientes”

faleceu. “Driblei a depressão, consegui ver um

panorama mais amplo e encontrei sentido na

situação”, afirma.

O sucesso dessa iniciativa levou à criação do

Programa de Apoio Familiar à Doença de Alzheimer

e Demências Relacionadas da Universidade

de Nova York (N.Y.U.’s Alzheimer’s Disease and

Related Dementias Family Support Program), em

julho de 2016. O projeto, financiado pelo Estado,

oferece acompanhamento gratuito aos cuidadores

na área, seja pessoalmente ou por meio de

videoconferências ou telefone, dependendo da

preferência do cuidador. Mittelman está atualmente

recrutando cuidadores de todo o país para

participar em um estudo para determinar se a

versão por videoconferência é capaz de alcançar os

resultados do programa presencial.

divulgação

Estudo desenvolvido pela professora de serviço social Sara Sanders, da Universidade de Iowa, mostrou que cuidadores relataram, basicamente, três tipos de benefício:

crescimento espiritual e aumento na fé, crescimento pessoal e sentimentos de domínio e realização

e noras enquanto supõem que o cuidado de

seus filhos seja algo “líquido e certo”; há a

possibilidade de que os filhos se sintam mais

pressionados a cuidar dos próprios pais do

que de outra pessoa; e, finalmente, pode ser

menos emocionalmente angustiante acom-

panhar a deterioração do sogro ou da sogra

do que a dos próprios pais.

Diferenças de gênero sugerem questões

semelhantes. Mulheres, de forma geral, so-

frem mais quando estão nesse papel – e, em

especial, quando é o marido que adoece. Em

um estudo de 2014 desenvolvido com 533

cuidadores relatado no periódico científico

Journal of Family Nursing, por exemplo, pes-

quisadores demonstraram que homens ge-

ralmente parecem sentir menos sobrecarga.

No geral, a prestação de cuidados ainda é

considerada uma tarefa feminina. Portanto,

mulheres que assumem essa tarefa em re-

lação a um ente querido se conformam às

expectativas, mas os homens “quebram ex-

pectativas” e, assim, tendem a receber mais

reconhecimento e apoio. Outros estudos

constataram que a convicção de que a presta-

ção de cuidados é uma tarefa feminina contri-

bui para a relutância das mulheres em utilizar

serviços profissionais nessa área. Quando

recorrem a uma assistência externa, é como

se tivessem “menos controle” e, consequen-

temente, menor satisfação que homens nas

mesmas circunstâncias. Homens seriam,

portanto, melhores em pedir ajuda nessas

circunstâncias e capazes de receber mais

apoio sem sentir que falharam ou que foram

“substituídos” por fornecedores de serviços

remunerados, como colaboradores diários de

saúde ou assistentes de saúde domiciliar.

A cultura e a etnia também desempenham

papel nesse quadro. Vários estudos confirma-

ram a descoberta de Peggye Dilworth-Ander-

son, em 2004, de que, como um grupo, ameri-

canos afrodescendentes que cuidam de entes

queridos com demência têm uma experiência

mais positiva do que americanos brancos,

relatando mais equilíbrio emocional, menos

A BORBOLETA E O

ESCAFANDRO (2007):

história contada pela óptica do paciente revela busca pela preservação da própria identidade

depressão e estresse. Segundo a pesquisado-

ra, “valores culturais como a necessidade de

lutar por reconhecimento social desde mui-

to cedo podem fomentar maior resiliência e

estilos ‘ativos’ de lidar com os problemas”.

Ela observa que aqueles que enfrentam ati-

vamente as dificuldades administram os de-

safios de forma direta em vez de evitá-los,

ou sofrer exageradamente por algo que não

pode ser alterado imediatamente. Um estu-

do de 2015 desenvolvido pelo gerontologista

David Roth, da Universidade Johns Hopkins,

constatou que os hispânicos também viven-

ciavam mais o lado positivo da prestação de

cuidados do que os brancos. “Essa habilida-

de emocional pode estar associada a ligações

familiares fortes, o que resulta em mais apoio

social”, considera Roth.

Muitas lições podem ser tiradas desses

estudos de diferenças de grupo. A mulher,

buff strickland

capa

SONIA ALVARADO massageia o braço do filho Luis: acompanhamento de pessoas com limitações graves é um trabalho duro, inexorável e não remunerado, mesmo assim seu valor econômico é estimado em mais de US$ 470 bilhões por ano

por exemplo, pode questionar – e abandonar

– a crença opressora de que é a figura cuida-

dora “padrão” – e se dar conta de que não

só é possível, mas também legítimo buscar

apoio. Pesquisas sobre diferenças culturais

sugerem que todos os cuidadores, indepen-

dentemente da etnia, se beneficiariam de

maior apoio social. Muitas vezes, cuidadores

atribuem a essa função uma conotação nobre

ou uma tarefa sem reconhecimento impingi-

da pelas circunstâncias. “O que aprendemos

com as pesquisas é que, se as pessoas sen-

tem que estão ganhando algo positivo com

a experiência, como a possibilidade de viver

momentos afetivamente agradáveis juntos,

ou têm a sensação de que sua tarefa é valori-

zada, sentem menos estresse”, diz Zarit.

O MELHOR NA PIOR DAS HIPÓTESES

Quando Luis Alvarado foi levado para casa,

tinha as duas pernas amputadas e, por causa

das lesões cerebrais, era incapaz de falar ou

engolir. Ele sofreu uma colostomia e passou

a ser alimentando por meio de uma sonda e

se comunicar por meio de gestos e expres-

sões faciais. Os pais se dedicam desde então

a cuidar de seu filho 24 horas por dia, sete

dias por semana. A irmã do rapaz, Mariana

Stovall, o marido e as filhas do casal se muda-

ram para uma casa vizinha dois anos depois.

“Passamos pelo processo da dor, ficamos in-

dignados com Deus, com o exército, com o

governo, com todos; mas aos poucos chega-

mos à aceitação”, diz Sonia. “Desisti de meus

outros sonhos e ambições sem arrependi-

mentos porque cuidar de nosso filho é nos-

sa vida agora; não sabemos quanto tempo o

teremos conosco e somos gratos a cada dia

de convívio; é como se tivéssemos recebido o

presente de estar com ele mais um pouco.”

Amigos e membros da igreja frequentada

pela família costumam ajudar, levando comi-

da e assumindo tarefas quando os pais ficam

doentes ou se sentem extenuados e, por qual-

quer motivo, a irmã não consegue dar conta

dos afazeres. “Aprendi que é preciso aceitar

ajuda”, diz Sonia. A bem da verdade, os Al-

varado têm algumas vantagens que os ajuda-

ram a ser cuidadores bem-sucedidos. Como

latinos e metodistas, sua cultura e fé confe-

rem sentido aos sacrifícios. Sentiram desde

o início que tinham a competência necessária

para aprender e desempenhar as tarefas de

enfermagem com qualidade. Além disso, a fa-

mília já era unida e altamente funcional antes

de a tragédia os atingir.

Demonstram também quatro fatores já

provados para melhorar as chances de se dar

bem como cuidadores. Em 1990 o falecido

sociólogo Leonard Pearlin identificou três ele-

mentos psicológicos essenciais para a presta-

ção de cuidados: domínio (senso de controle

da própria vida), apoio social e estratégias para

oferecer cuidados. Recentemente, cientistas

adicionaram um quarto item a essa lista: for-

mas diretas de reduzir os níveis de estresse fí-

sico do cuidador. Na prática, há uma interação

dinâmica entre esses fatores. Melhorar o bem-

-estar físico favorece o senso de domínio da

pessoa. Fomentar a capacidade de cuidar de si

mesmo reduz os níveis de estresse e reforça a

capacidade empática e a paciência.

NÃO É PESSOAL!

Parceiros de cuidado se conhecem bem

melhor do que um médico e um paciente.

Mesmo assim, se às vezes falta ao cuidador

o conhecimento necessário para lidar com

colin lenton

WENDI STEINES com Adam, de 11 anos (à esquerda) e Nicholas, de 14, ambos com autismo; ela encontra força ao se concentrar na gratidão e se lembrar das conquistas dos filhos

sintomas assustadores ou irritantes, é fun-

damental manter algum senso de domínio

quando uma condição se agrava. Pessoas

que acompanham pacientes com demência,

por exemplo, costumam enfrentar situações

como agitação, insônia, perambulação e in-

continência de um ente querido.

Soluções são invariavelmente elaboradas

sob medida para doenças específicas, mas

muitas estratégias são adaptáveis. “É essen-

cial que cuidadores não levem os comporta-

mentos do paciente para o lado pessoal”, diz

Roth. Uma mulher que convive com um mari-

do com sintomas de Alzheimer, por exemplo,

pode aprender a ver as alterações bruscas de

humor dele não como um sinal de desrespei-

to ou desamor, mas como uma indicação de

que ele está frustrado com a perda da própria

capacidade de desempenhar tarefas rotinei-

ras. Roth mostrou que é possível ensinar esse

tipo de reavaliação.

Em 2004, ele coordenou uma equipe que

designou 406 voluntários (cônjuge tinha

doença de Alzheimer) a dois tipos de servi-

ços: um programa-padrão voltado a orien-

tações técnicas ou de aconselhamento e

apoio destinado a reduzir reações negativas

a problemas de comportamento do pacien-

te. Quatro anos depois, embora a frequência

de comportamentos problemáticos não se

tenha reduzido, os cuidadores que haviam

recebido aconselhamento eram significativa-

mente menos propensos a reagir negativa-

mente (com irritação, por exemplo). Isso é

importante, pois estudos demonstraram que

as avaliações subjetivas de cuidadores de suas

principais fontes de estresse constituíam in-

dicadores melhores de seu grau de êxito do

que a frequência com que de fato as situa-

ções estressantes ocorriam.

Outra estratégia poderosa é concentrar-se

em promover experiências gratificantes. Pes-

quisas clássicas constataram que é eficiente

que cuidadores de pessoas com demência

enumerem coisas que gostavam de fazer junto

com seus entes queridos – caminhar no par-

que, tomar um sorvete, dançar, por exemplo

– e as façam novamente. Ambos os parceiros

costumam vivenciar uma melhora e um refor-

ço da intimidade. Mais recentemente, um es-

tudo piloto coordenado pela doutora em psi-

cologia Dolores Gallagher-Thompson, profes-

sora da Universidade Stanford, constatou que

atividades compartilhadas alegres beneficiam

significativamente os cuidadores de pessoas

de diferentes idades com depressão intratável.

capa

Há aproximadamente 43,5 milhões de cuidadores não remunerados nos Estados Unidos. A maioria está cuidando de um parente, e quase um quarto relata que sua saúde tem sofrido com a tensão; no Brasil há indícios de que os efeitos sobre a saúde física e mental são similares

Dicas essenciais

Especialistas enfatizam quatro elementos-chave para administrar o estresse e aumentar as gratificações da pessoa que se dedica a acompanhar um ente querido doente ou fragilizado

Domínio

Aprenda o máximo que puder sobre o transtorno com

o qual está lidando. Quanto mais souber a respeito dos

sintomas e comportamentos típicos, melhor poderá prever

os problemas e não os levar para o lado pessoal – tudo

isso ajuda a construir um senso de competência e controle

Estratégias para lidar com a função

Recorra a grupos de defesa e apoio, conselheiros e

terapeutas para aprender habilidades específicas tais como

saber desenvolver uma visão mais positiva a respeito

do comportamento de um ente querido e como pensar

sobre a própria trajetória como cuidador. Aprenda a se

concentrar nos bons cuidados de seu parente, e não

em fazer a pessoa feliz, o que costuma ser uma tarefa

impossível

Apoio social

Descarte qualquer noção de que você deve ser capaz de

lidar com as responsabilidades sozinho. Recorra a serviços

profissionais especializados, família, amigos, organizações

religiosas, organizações voluntárias e grupos de apoio

específicos para a doença em busca de solidariedade,

humor e participação ativa

Redução do estresse

Faça exercícios e uso de programas de recesso. Tente

também treinamento de atenção plena. Embora trabalhar

com um especialista em meditação seja o ideal, aplicativos

como Calm and Headspace podem ser úteis

Gallagher-Thompson é autora também de

um estudo feito em 2015 com cuidadores de

pacientes com demência que envolvia a pro-

gramação de eventos agradáveis e a melhora

da comunicação entre os parceiros. O experi-

mento revelou a diminuição de sintomas de

depressão leve nos 29 cuidadores que passa-

ram por um programa psicoeducacional vol-

tado para a programação de atividades agra-

dáveis com os parceiros.

ADMINISTRANDO O ESTRESSE

“A parte mais difícil é conseguir algum ‘res-

piro’ para mim alguns dias”, diz a americana

Wendi Steines, de 44 anos, divorciada, mãe

de Nicolas, de 14 anos, e Adam de 11, ambos

com transtorno do espectro autista. Ela não

participou de nenhuma intervenção organi-

zada, mas juntou-se a seminários de pais e

grupos de autismo e leu muito a respeito do

assunto, improvisando o próprio programa

de autoajuda, composto de muitos dos ele-

mentos testados em universidades.

Parte de sua estratégia é apelar para

apoio social intenso. Muitas intervenções

trabalham para fortalecer esse elemento cru-

cial. Por exemplo, terapeutas do Grupo de

Intervenção para Filhos Cuidadores Adultos,

da Universidade de Nova York, destinado a

ajudar as pessoas que cuidam de pais com

demência, realizam sessões individuais e

familiares que intensificam o apoio da rede

social de um cuidador. A ajuda pode vir de ir-

mãos, membros da igreja ou velhos amigos.

Wendi Steines desenvolveu a própria rede

sólida de mães no subúrbio de New Jersey,

Filadélfia, onde mora. “Nós nos reunimos

sempre, bebemos uma garrafa de vinho,

rimos e cuidamos dos filhos umas das ou-

tras”, diz Steines. O grupo ajuda-a também

quando está triste e preocupada com o futu-

ro de seus filhos

De fato, uma equipe liderada pela psicólo-

ga Valerie Shilling, pesquisadora da Faculda-

de de Medicina de Brighton e Sussex, realizou

um estudo qualitativo que colocou em con-

tato por um ano 12 pais, 23 “colaboradores”

(pais de crianças com necessidades especiais

treinados para oferecer apoio emocional para

outros pais) e dez profissionais (psicólogos,

assistentes sociais e educadores). O estudo,

publicado em 2015, constatou que as expe-

riências compartilhadas se tornaram funda-

mentais. Os pais enfatizaram o sentimento

de maior estabilidade emocional, crescimen-

to pessoal e redução do isolamento. Os cola-

boradores também colheram benefícios: cita-

ram a satisfação e o aumento da autoestima

por se sentirem úteis.

Em muitas ocasiões, entretanto, os cui-

dadores precisam recorrer aos próprios re-

cursos. Quando Adam Steines tem um sur-

to de uma hora por causa da lição de casa

– gritando, agitando os braços e chutando

–, a mãe conta com estratégias comporta-

mentais. Respirar fundo e imaginar o ponto

de vista de seu filho, por exemplo, ajuda-a

a passar por um momento difícil. Essas ha-

bilidades podem ser cruciais. Um estudo

de 2015 conduzido pela pesquisadora Jieun

Song, da Universidade de Wisconsin-Ma-

dison, por exemplo, constatou um maior

“envelhecimento cognitivo” e problemas de

memória entre as mulheres em uma amos-

tra de 128 pais de meia-idade que haviam

criado seus filhos com incapacidades, com-

parados aos 512 pais de filhos saudáveis. A

cientista e seus colegas suspeitam que a di-

ferença pode ser atribuída ao alto índice de

estresse crônico.

Segundo vários estudos, entre eles um

publicado no ano passado por Nirbhay N.

Singh, da Universidade Augusta, a prática

diária da meditação é um dos meios mais efi-

cazes para reduzir a tensão de cuidadores. A

tecnologia também pode ajudar. Embora fal-

tem estudos nessa área, pesquisadores como

Gallagher-Thompson encorajam o uso de

aplicativos de smartphone para acessar me-

ditação orientada. Em muitos casos, a pessoa

que recebe cuidados também pode praticar –

e receber os benefícios da meditação.

PARA RESTAURAR ENERGIAS

Das quatro características cruciais da pres-

tação de cuidados bem-sucedida – domínio,

estratégias para lidar com a função, apoio

social e redução do estresse físico – esta úl-

tima talvez seja a que mais tem aspectos a

serem estudados. Nesse campo, cientistas

provaram recentemente que se afastar da

prestação dos cuidados em manhãs ou dias

regularmente programados pode trazer um

alívio estimável.

Pesquisadores do estudo de Estresse

e Saúde Diários (Daily Stress and Health

DASH), liderado por Zarit, testaram essa

ideia, com resultados excepcionais. Zarit e

seus colegas entrevistaram 158 cuidadores

familiares de pessoas com demência e acom-

panharam o hormônio cortisol dos voluntá-

rios. A ideia era examinar como o estresse

percebido e mensurado dos indivíduos mu-

dava quando conseguiam uma folga de suas

tarefas ao levar o recebedor de seus cuidados

a um serviço especializado com atendimento

durante o dia.

O estudo, publicado pelo periódico cien-

tífico Gerontologist, em 2016, constatou que

esses intervalos periódicos nas tarefas resul-

tavam na regulação do cortisol não só nos

dias de recesso, mas de forma geral. Foram

verificados níveis maiores do hormônio an-

tiestresse DHEA-S no dia após o descanso,

mesmo quando a pessoa já havia retomado

sua rotina. As descobertas sugerem que uti-

lizar serviços-dia de cuidados para adultos

para ter um recesso poderia melhorar a saúde

dos cuidadores a longo prazo. Os participan-

tes vivenciaram menos estresse psicológico

nas manhãs antes de tirar a folga – talvez por

já terem expectativa de seu próximo recesso.

Um estudo de 2013 da Universidade

Brigham Young sobre momentos de descan-

so para casais com filhos diagnosticados com

o espectro autista também revelou benefícios

impressionantes. Mais intervalos nos cuida-

dos não só reduzia o estresse diário, mas au-

mentava as gratificações dos pais na presta-

ção dos cuidados e melhorava a relação com

o cônjuge. Todos saíam ganhando.

PARA SABER MAIS

Meaningful activity for persons with dementia:

family caregiver

perspectives. Kaitlyn

  • P. Roland e Neena L.

Chappell, em American Journal of Alzheimer’s Disease and Other

Dementias, vol. 30, nº 6, págs. 559-568; setembro de 2015.

Family caregiver stress relief. Online video. Home Instead Senior

Care, 17 de maio de

2013.

www.youtube.com/

watch?v=XaonoH1XqNI

Effects of the NYU caregiver intervention- adult child on residential care placement. Joseph

E.

Gaugler e outros, em

Gerontologist, vol. 53, nº 6,

págs. 985-997; dezembro de 2013.

Cuidar do idoso em casa – Limites e possibilidades.

Ângela Maria M. de Lima

e Carine Teles Sangaleti. Unesp, 2010.

Is the glass half empty or half full? Reflections on strain and gain in caregivers of individuals with Alzheimer’s disease. Sara Sanders, em Social Work in Health Care, vol.

40, nº 3, págs. 57-73;

2005.

capa

Planejando

cuidados:

o valor das decisões antecipadas

Pensar de maneira prática e realista sobre o próprio envelhecimento e o daqueles que amamos nem sempre é tarefa fácil, mas é necessária e, quanto mais tivermos clareza do que queremos – e pudermos falar sobre isso com pessoas próximas – , maior é a possibilidade de conforto emocional e físico em momentos de crise

A AUTORA

por Graça Leal

GRAÇA LEAL é psicóloga, mestre e doutora em psicologia na área do envelhecimento e coordenadora do curso de aperfeiçoamento em gerontologia social do Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo.

capa

a s pessoas estão vivendo mais,

e maior longevidade carrega

em si determinada fragili-

dade. Isso significa que, em

algum ponto de nossa vida,

a maioria de nós vai deparar

com a necessidade de cuidar de alguém ou

até mesmo de ser cuidado. E quem nos dará

suporte para a realização desse trabalho?

Ter consciência do que poderá acontecer

nos orienta e ajuda na prevenção. Essa não

é uma reflexão fácil, mas não podemos nos

furtar a ela. A relação paciente/cuidador, na

verdade, significa exigências específicas de

todos os envolvidos. É interessante pensar

sobre elas de forma objetiva. Se alguém pró-

ximo – pais, cônjuge, filho etc. – ficou doen-

te ou incapacitado, é importante considerar

questões práticas. É importante, por exem-

plo, pensar em quem terá a responsabilida-

de de cuidar diariamente da pessoa doente,

bem como avaliar as condições de continuar

com o próprio trabalho. Além disso, que tipo

de suporte financeiro seria necessário para

obter assistência médica, psicológica e de

outros profissionais? Também cabe pensar

na necessidade de obter orientação sobre

a doença e ajuda prática no cotidiano, que

garanta, por exemplo, intervalos regulares

de descanso e noites bem dormidas, assim

como ter acesso, com o paciente, a alguma

facilidade de lazer, compras e transporte.

Por outro lado, a pessoa que está sofren-

do de uma doença crônica ou de alguma

dependência física talvez queira levar uma

vida independente (dentro do possível) com

acesso a uma emergência médica, se preciso.

Ou seja: quer ter acesso a uma vida próxima

ao normal, com independência e autonomia,

mesmo que com alguma ajuda? Ela gostaria

de participar da decisão de como será tratada

(custos/benefícios/riscos), e não ser só co-

municada/orientada? Quer escolher quando

suas necessidades pessoais serão atendidas

por um membro da família ou por um pro-

fissional pago? Pretende ter a oportunidade

de “ganhar a vida” em vez de depender finan-

ceiramente só da previdência social e do am-

paro familiar? Prefere viver em acomodações

adaptadas às suas necessidades físicas e ter

informações sobre suas condições de saúde

e de como melhorá-las?

fernando aguzzoli/arquivo pessoal

É muito provável que todas as pessoas

gostariam de ter satisfeitas essas exigências

– mas nenhuma delas é automaticamente

providenciada. Disso decorre que a experiên-

cia de estar incapacitado ou de se tornar cui-

dador provoca mudanças radicais na vida das

pessoas e é, muitas vezes, acompanhada de

muito sofrimento.

Um dos critérios de elegibilidade para a

admissão do paciente ao serviço de assistên-

cia domiciliar, providenciado pela rede oficial

ou entidades privadas, é a presença de um

familiar responsável e disponível para partici-

par ativamente dos cuidados a serem dispen-

sados e, principalmente, para dar continuida-

de a esses cuidados, mediante orientação e

treinamento.

Em geral, a pessoa é escolhida por carac-

terísticas que denotam sua atenção às neces-

sidades do paciente, demonstrando espírito

de solidariedade para iniciar um trabalho

que, na maioria das vezes, não escolheu. Nos

manuais de atendimento domiciliar, apare-

cem algumas condições que indicam o perfil

de elegibilidade de um cuidador familiar. É in-

teressante notar que essas prescrições sobre

o papel do cuidador são definidas sem men-

cionar o suporte para o cuidador realizar as

complexas tarefas inerentes a essa função.

Assim, o membro da família que estaria

apto a cuidar deve ter disponibilidade para

tanto, bem treinamento adequado a essa ta-

refa. São observadas sua firmeza nas atitudes

POR OPÇÃO:

aos 22 anos, Fernando Aguzzoli cuidou da avó, Nilva, diagnosticada com Alzheimer, falecida em 2013; o rapaz compartilhou experiência nas redes sociais e no livro Quem, eu? (Belas letras, 2014)

e sua abnegação em colocar a necessidade

do outro em primeiro lugar. Também se leva

em conta sua capacidade de tomar medidas

preventivas e seus anseios por orientações

pertinentes, fatores que indicam sua adequa-

ção a cuidados como higiene, alimentação,

vestuário, medicação, curativos, tratamento

de escaras, enfim, sua adequação à continui-

dade do tratamento no domicílio do paciente.

“SEM ESCOLHA”

Por imposição ou escolha, o cuidador fami-

liar é aquele que põe a necessidade do outro

em primeiro lugar. Geralmente, é tão pres-

sionado por necessidades imediatas que se

esquece de si mesmo e é modesto em suas

demandas. Dir-se-ia que “não tem escolha”.

É relutante em falar sobre suas dificuldades

e não parecer desleal à pessoa da qual cui-

capa

Como nos casos de dependências crônicas em que não há volta à relação anterior e os sentimentos precisam ser redefinidos, bem como as prioridades e os projetos de vida

da. Outros são tão agradecidos por pequenas

ajudas conseguidas que não querem fazer

críticas, mesmo que construtivas. Existe uma

tradição familiar para que o cuidador seja

mulher, e esta, na maioria das vezes, já está

sobrecarregada por outras demandas (veja

quadro abaixo).

De fato, cuidar não é tarefa fácil: é preci-

so uma mudança radical na vida de quem

oferece o apoio e exige a execução de tarefas

complexas, delicadas e sofridas. Em muitos

casos, essa pessoa também é frágil, já em

idade de envelhecimento ou em vias de adoe-

cer. Resultado: o cuidador sem suporte pode

ser o futuro paciente. A prática tem mostrado

que, por força das circunstâncias e indispo-

nibilidade de outros que partilhem a tarefa,

a pessoa torna-se cuidadora no processo de

cuidar: assume a função e não consegue sair

desse papel.

O que determina quem vai assumir a tarefa

A literatura sobre o tema tem revelado alguns fatores (em ordem

de importância) que determinam quem será o cuidador:

Parentesco

com frequência para os cônjuges, antecedendo sempre a presença

de algum filho

Gênero

com predominância para a mulher

Proximidade física

considerando-se quem vive com a pessoa que requer os cuidados

Proximidade afetiva

destacando-se, nesse caso, a relação conjugal e entre pais e filhos

Quanto mais se envolve, mais os não cui-

dadores se desvencilham, muitas vezes pe-

las ameaças que esse tipo de trabalho pode

conter. Ou seja: comprometimento sem fim;

mudanças na vida pessoal; readaptação da

casa ou mesmo mudança de casa; desarmo-

nia familiar como consequência do papel de

cuidador; peso das tarefas; doenças devidas

às exigências do trabalho e às características

do paciente que costumam estressar o cuida-

dor; insegurança quanto a procedimentos e

prescrições da equipe de atendimento domi-

ciliar e responsabilidade por equipamentos/

medicamentos; falta de paciência ou segu-

rança para procedimentos de enfermagem;

ausência de informações sobre a doença, de

ajuda prática, de treinamento, de apoio físico,

psicológico e financeiro. E, finalmente, ausên-

cia de saúde pessoal para enfrentar as sobre-

cargas da rotina.

Atitudes e emoções envolvidas no proces-

so de cuidar são ambivalentes. Ao desenvol-

ver essa atividade com um ente próximo que

se torna dependente, surge uma turbulência

de sentimentos: amor, pena, alívio, culpa e

até mesmo raiva (nem sempre consciente) e

revolta pela dependência do outro. Embora o

cuidar seja uma causa maior, pressupõe um

baixo status como trabalho (remunerado ou

não), e atitudes sociais discriminatórias são

direcionadas aos cuidadores. Como nos ca-

sos de dependências crônicas em que não

há volta à relação anterior e os sentimentos

precisam ser redefinidos, bem como as prio-

ridades e os projetos de vida.

SUPORTE PARA QUEM SUPORTA

Em vez de enfocar a incapacidade ou a doen-

ça crônica como um problema individual, tor-

na-se necessário focalizar uma sociedade de-

ficiente que permite a exclusão de seus mem-

bros “diferentes” do curso normal das ativi-

dades. A ausência total de facilidades para

divulgação

cuidadores e pessoas incapacitadas é que

faz essa dependência parecer uma “tragédia”

para ambos. A ausência de suporte em todos

os níveis para o cuidador e de facilidades para

o paciente, como rampas, telefones baixos,

banheiros adaptados, estacionamento priva-

tivo, transporte, informação disponível e ati-

vidades acessíveis, vai provocando um isola-

mento de ambos na sociedade e dificultando

o progresso do tratamento.

Embora o assunto seja considerado ár-

duo, a assistência aos cuidadores familiares

de pacientes crônicos/dependentes deveria

ser preocupação de todos. O cotidiano dos

pacientes e do cuidador poderia se tornar

mais fácil com reformas no meio ambiente

urbano e mesmo nas casas das pessoas, com

políticas socioeconômicas mais adequadas

para essa população. Caso contrário, o futuro

para esses indivíduos será sem expectativas

de descanso ou melhora, e serão reproduzi-

das as condições que impedem a inserção

social e uma qualidade de vida digna.

Trata-se de imprimir um caráter público

às ações que vêm sendo realizadas pela fa-

mília no reduto dos lares, em caráter privado.

Não se pode esquecer de que, quanto maior

o tempo de duração dos cuidados, pior será a

qualidade de vida do cuidador.

A orientação e a supervisão de qualida-

de têm o papel de preservar a saúde física e

mental de quem cuida e, simultaneamente,

incentivar o paciente a obter independência

funcional nas atividades diárias, autonomia

mental para decidir e fazer planos, aderência

ao tratamento e aos autocuidados, promo-

vendo sua saúde e sua participação social – o

que significa redução nos níveis de isolamen-

to e melhora na qualidade de vida.

Eis, então, o momento em que entra o tra-

AMOR (2012), do diretor e roteirista austríaco Michael Haneke, formado em psicologia; dois grandes fantasmas da velhice são tratados no filme: a solidão e a dependência que surgem, aparentemente, de forma repentina e transforma a vida de um casal de intelectuais aposentados

balho de orientação e treinamento para cuida-

dores promovido por uma equipe multidisci-

plinar. No caso de algumas enfermidades, a

família necessita de informações detalhadas e

suporte psicológico para compreender a evo-

lução da doença e ajudar o cuidador principal.

Na verdade, muitas das orientações à famí-

lia sobre a doença deveriam ser dadas ainda

no hospital, abordando até mesmo a eventual

perda de independência e autonomia. Por

medo e insegurança, muitas famílias ou pa-

cientes acreditam que o hospital é a sua pro-

teção, ignorando os riscos de infecções aos

quais estarão expostos quando internados.

A alta hospitalar e os projetos de assistên-

cia domiciliar pedem que o suporte ao cuida-

dor seja iniciado ainda durante a internação,

para avaliar as possibilidades ou dificuldades

divulgação

divulgação

capa

CENAS DOS FILMES MEU PÉ ESQUERDO (1989) E MAR ADENTRO (2004):

angústia, sofrimento e problemas sociais e mesmo das questões práticas são inerentes ao luto associados aos processos de adoecimento grave

a serem superadas na volta para casa. Algu-

mas considerações podem ser feitas como su-

gestão ao cuidador, para que ele e o paciente

possam (apesar dos limites) desfrutar de uma

vida saudável. Por exemplo, não é indicado

que o parente realize atividades que o doente

pode fazer; também não é aconselhável que se

tenha pressa para terminar tarefas. É impor-

tante reconhecer que um ambiente adequado

para locomoção e transferência evita quedas e

permite incentivar o paciente a participar em

atividades domésticas. Sugere-se estimular

uma sociabilidade prazerosa, dentro das pos-

sibilidades e interesses do doente, como ter

companhia, fazer e receber visitas e cultivar

amizades. É importante, ainda, valorizar e in-

centivar atividades realizadas pelo paciente. E

mais: buscar toda ajuda e orientação possível

para evitar a exaustão. Para isso, é fundamen-

tal incluir na rotina intervalos de descanso re-

gulares (veja artigo na pág. 18).

A experiência em outros países tem mos-

trado a importância da contribuição dos agen-

tes comunitários (vizinhos, voluntários, asso-

ciações) na solução de muitos problemas so-

ciais. Os serviços públicos de apoio no Brasil,

O meu, o seu, o nosso

Cuidar do outro muitas vezes é

necessário, seja por motivos pessoais

(como a chegada de um bebê ou o

adoecimento de um ente querido) ou pela

própria profissão que escolhemos (uma

escolha, aliás, que não se dá ao acaso;

certamente tem raízes na história de vida

de cada um). A experiência de dedicação

pode ser afetiva e psiquicamente muito

rica. Porém, não são raros os casos em

que a devoção ao outro funciona como

uma fuga, em especial quando surge de

forma exagerada, deslocada. O fato é que

quanto mais tranquilos estamos conosco,

mais estaremos verdadeiramente

disponíveis, sem exigir algo em troca de

nossa dedicação, ou misturar os próprios

sentimentos e desejo com os alheios,

fazendo projeções e cobranças, ainda que

não conscientes ou expressas claramente.

(Da redação)

entretanto, são sofríveis e o cuidador, na maior

parte das vezes, “trabalha sozinho”. A opção é

recorrer à ajuda de associações específicas de

pessoas com Alzheimer, Parkinson, Hunting-

ton, esclerose múltipla, autismo etc.

PASSO A PASSO

Muitas vezes, é possível prevenir e “empur-

rar” as doenças para bem mais tarde ou, tal-

vez, nunca tê-las. E o conhecimento sobre

o processo de envelhecimento nos permite

planejar uma longevidade saudável. Sempre

se ouve dizer que, quando se cuida de pais,

avós, tios ou outras pessoas idosas com de-

pendência, eles se tornam “crianças” e nós,

os únicos adultos. Isso não é verdade. Pelo

menos não sempre. A verdade é que seremos

sempre os filhos e eles, nossos pais, avós ou

tios, pois não importa quão frágeis se tor-

nem: podemos até nos tornar responsáveis

por nossos idosos – mas não nos transfor-

mar em seus pais. Ao infantilizá-los e dar-

-lhes ordens, só propiciamos situações de

humilhações que eles não poderão contestar

e em nada ajudarão a melhora do seu estado,

seja ele qual for. Retirar o papel do idoso e

a posição social na família é outra fonte de

humilhação.

Por isso, os planos feitos com antecedên-

cia possibilitarão que as pessoas enfrentem

os problemas com mais facilidade. Um con-

fronto com idosos debilitados durante uma

crise, por exemplo, pode ser avassalador – e

só piorar a situação. E de uma coisa pode-

mos ter certeza: se você tem pais idosos já

com início de problemas de autocuidado,

cedo ou tarde da noite receberá um telefone-

ma avisando que alguma coisa aconteceu.

Se ocorrer uma emergência médica (der-

rame, coma diabético, queda com fratura

etc.), as providências têm de ser tomadas

com urgência e depois decidir o que fazer, ou

seguir já um plano anterior para esses casos,

o que com certeza garantirá mais tranquilida-

de emocional num momento tão difícil. Mas

existia um plano? Chegou a hora de avaliar

como ficará o futuro próximo desse idoso, ou-

vindo, em primeiro lugar, a opinião médica. A

pessoa tem estrutura necessária para ficar em

casa? Poderá pagar cuidadores e empregada

doméstica? Qual o valor da pensão e da pou-

Conversar sobre temas delicados com antecedência ajuda a encarar situações difíceis com realismo e respeito, o que favorece a qualidade da saúde física e mental de todos os envolvidos

pança deles? Há possibilidades da mudança

para instituição de longa permanência (casa

de repouso)? Quais são as opções? Começar

do zero em um momento de crise é muito di-

fícil, trabalhoso e caro. Por isso, o mais práti-

co é já ter as opções debatidas com o próprio

idoso antes dos acontecimentos.

A melhor sugestão é começar a tomar

providências antes de a crise chegar. Por

exemplo: tão logo os pais comecem a enve-

lhecer, logo após os 60 anos, o correto seria

os filhos discutirem com eles questões de

saúde, legais e financeiras.

É essencial providenciar dois documen-

tos. O primeiro, um testamento em vida,

deve descrever que tipo de tratamento a pes-

soa prefere receber no final da vida ou quando

estiver tão doente que não poderá tomar as

próprias decisões – seria algo como uma “de-

claração de vontades”. Já existem esses mo-

delos na internet. O outro documento é uma

procuração na qual o idoso decidirá quem vai

representá-lo em relação a interesses médi-

cos e financeiros. Na prática, se os problemas

aparecerem, esses documentos diminuirão a

possibilidade de conflitos na família.

Mas os pais devem ter sempre a última

palavra em decisões que afetem sua vida, e

é por isso que decisões importantes devem

ser tomadas ainda quando estão saudáveis e

lúcidos.

O ponto crucial de toda esta reflexão é que

o idoso frágil ou com enfermidade não pode

ficar em casa sozinho, sem assistência. A al-

ternativa por uma instituição muitas vezes é

a única solução, mas, se essa alternativa já

estava no planejamento da família, e o plano

é feito junto com o idoso, a transição pode

ocorrer com menos conflito e tensão para to-

dos os envolvidos – o que repercute na quali-

dade da saúde física e mental de quem cuida

e de quem é cuidado.

PARA SABER MAIS

Cuidar de idosos no contexto da família:

questões psicológicas e sociais. Anite Liberalesso Neri. Alínea, 2012.

Psicogerontologia:

fundamentos e práticas.

Beltrina Côrte, Delia Catullo Goldfarb e Ruth Gelehrter da Costa Lopes (orgs.). Juruá, 2009.

Saber cuidar. Leonardo Boff. Vozes, 1999.

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emoções

Existe

escolha

certa?

Todos os dias, tomamos milhares de decisões, desde as corriqueiras sobre o tipo de bebida que preferimos até aquelas a respeito da pessoa com quem queremos dividir (ou continuar dividindo) a vida

por Gláucia Leal

O s mecanismos que influenciam nossas

decisões têm sido investigados pela ciência

há muito tempo. Um marco nesse campo

foi a troca de cartas entre dois eminentes

matemáticos franceses, Blaise Pascal e Pierre de Fermat,

em 1654. Seus insights sobre jogos de azar formaram a

base da teoria da probabilidade. No século 20, o tema

atraiu a atenção de psicólogos, cientistas sociais e econo-

mistas. Algumas “teorias da decisão” consideram que os

seres humanos tendem a pesar cada opção, levando em

conta seu valor e probabilidade para, em seguida, tomar a

resolução “mais adequada”. Na prática, porém, não é bem

assim. Talvez seja mais fácil entender como gostaríamos

de fazer escolhas, guiados por princípios lógicos, do que

como de fato as fazemos. A verdade é que uma gama de

fatores molda e embasa nossas opções: tendências inatas,

emoções, expectativas, equívocos, características de per-

sonalidade, aspectos culturais e conteúdos inconscientes.

Às vezes, a tomada de decisão pode parecer inconsistente

ou perversa, e o mais intrigante talvez seja o quão frequen-

temente forças aparentemente irracionais nos ajudam a

fazer a opção certa – se é que ela existe.

A AUTORA

GLÁUCIA LEAL é jornalista, psicóloga e psicanalista. Editora-chefe de Mente e Cérebro.

emoções

Todos os dias, tomamos milhares de de-

cisões – desde definir a marca de café que

preferimos até avaliar relacionamentos. Não

é novidade que nossas emoções podem ser

a força motriz nos processos de tomada de

escolha. Do ponto de vista evolutivo, mui-

tas vezes o que sentimos (mais até do que

aquilo que pensamos) nos direcionou para

a sobrevivência. A raiva, por exemplo, pode

nos motivar a punir um transgressor, o que,

para nossos antepassados, foi fundamental

na manutenção da ordem e da coesão do

grupo. Já o nojo nos torna exigentes e mora-

listas, levando a escolhas que podem evitar

doenças e o descumprimento de normas so-

ciais. O medo, por sua vez, nos deixa mais

cuidadosos – e, às vezes, nos mantém vivos.

Se pensarmos na reação de seres humanos

pré-históricos diante de um ruído nos ar-

bustos, talvez valha considerar que os mais

corajosos, que não apostaram na possibili-

dade de haver um predador escondido entre

as folhagens, tenham pago com a própria

vida pelo erro de avaliação – e, assim, não

conseguiram passar seus genes para a gera-

ção seguinte. Especialistas consideram que

emoções nos ajudam a nos concentrar no

que realmente importa em dado momento,

já que até mesmo as situações diárias mais

básicas são complexas para nosso cérebro

e exigem que inúmeras informações sejam

levadas em conta. Por isso, sempre que pos-

sível é preciso simplificar.

O pesquisador Gordon Brown, da Uni-

versidade de Warwick, no Reino Unido,

afirma, porém, que na maioria das vezes

tendemos a classificar possibilidades com

base em processos cognitivamente fáceis,

como comparações binárias. Por exemplo:

ao decidir se R$ 5,50 é muito para pagar por

um suco, você pode se lembrar de meia dú-

zia de ocasiões em que o mesmo produto

custou menos e de apenas duas nas quais

pagou mais, o que o fará colocar essa bebi-

da específica na categoria “cara” – e, even-

tualmente, optar por não comprá-la. Essa é

Reconhecer o erro faz bem

Do ponto de vista evolutivo, o arrependimento por ter

tomado uma decisão errada está associado à preservação

da espécie. Embora seja desagradável, esse sentimento

tem enorme importância, já que deveríamos tirar dele

lições e, assim, correr menos riscos de sofrer decepções

quando novamente precisarmos fazer escolhas no futuro.

Os mais habilidosos para tomar decisões contariam com

uma espécie de “superioridade”, teriam maiores chances

de viver mais, de forma saudável, e, consequentemente,

transmitir seus genes.

Hoje, numerosos estudos mostram que pessoas

com lesão no lobo orbitofrontal apresentam grande

dificuldade para tomar decisões que as beneficiem e,

por isso, tendem a perder o emprego, são incapazes

de manter relações pessoais estáveis e fazem

repetidamente investimentos financeiros desastrosos.

Porém, essa anomalia não resulta de falta de

conhecimento, criatividade ou inteligência.

O neurocientista António Damásio, professor de

psicologia e neurologia da Universidade do Sul da

Califórnia em Los Angeles, acredita que o problema está

relacionado a um déficit emocional. Esses pacientes

seriam incapazes de produzir “marcadores somáticos”,

isto é, reações emocionais manifestadas quando

antecipamos uma decisão, as quais nos previnem dos

resultados prováveis da escolha que nos preparamos

para fazer (por exemplo, o desconforto que sentimos

diante da ideia de repreender severamente um amigo).

Estudos desenvolvidos pela neuropsicóloga

Angela Sirigu, em parceria com os neuroeconomistas

Giorgio Coricelli e Nathalie Camille, então do Centro

Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), sugerem que

o arrependimento constitui um marcador somático

controlado primeiramente pelo córtex orbitofrontal –

daí lesões nessa região acarretarem consequências tão

específicas. Essa área teria se tornado muito importante

por conduzir todas as situações de escolha, produzindo

os “arrependimentos antecipados” − daí a sensação

desconfortável, uma espécie de “efeito colateral” de

nossa capacidade de fazer escolhas. Inversamente, as

pessoas incapazes de se arrepender tomam decisões

que com frequência lhes trazem dificuldades.

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uma tí pica “decisã o por amostragem”, ú til

quando temos à disposiçã o opçõ es simpli-

fi cadas, mas que podem levar a decisõ es

ruins quando as informaçõ es usadas para

classifi car possibilidades estiverem incor-

retas, forem limitadas ou se basearem em

crenç as falsas. A decisã o por amostragem

pode infl uenciar nossas escolhas até quan-

do enfrentamos ameaç as mais imediatas.

Pessoas que vivem em sociedades com al-

tas taxas de mortalidade, por exemplo, sã o

mais propensas a decidir colocar-se em ris-

co em comparaç ã o com algué m que tem

pouca experiê ncia de perigo.

SEGUINDO O REBANHO

Ainda do ponto de vista da evoluç ã o, por

meio da aprendizagem podemos aprimorar

nossa capacidade de escolher as informa-

ç õ es sobre as quais baseamos nossas de-

cisõ es. A seleç ã o natural pode explicar até

a intrigante propensã o da maioria das pes-

soas para evitar fazer escolhas mais amplas

– e simplesmente “seguir o rebanho”. O

pesquisador Rob Boyd, da Universidade da

Califó rnia em Los Angeles, destaca que nó s,

humanos, evoluí mos à medida que aprende-

mos com os outros e os imitamos – até por-

que essa é , muitas vezes, uma boa opç ã o.

Na maioria das situaç õ es, saber por si

só qual é a melhor coisa a fazer está alé m

da capacidade de um ú nico indiví duo. Mas

somos bons em reconhecer o que os out