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DIALETICA DA ESPERANCA Este é um livro de interpretagdo do pensamento utépico de ERNST BLOCH, fildsofo marxista néo ortodoxo. Combatido e perseguido pelo nazismo, questionado pela ortodoxia partidéria_comunista, Bloch ¢ um dos pontos altos do pensemento fi- losofico ocidental contemporaneo. A partir dos ensinamentos de Marx, ele situa a tutopia como um dado da realidade. © sentimento utdpico néo emana do misticismo. Montado na es- peranga, ele nasce da consciéncia de que 6 pos- sivel projetar uma sociedade justa, um mundo ha- bitdvel que seja realmente a morada de humeni- dade. A interpretagao bloquiana dos possiveis, no enten: dimento do autor, obriga a repensar o problema do conhecimento e a supor uma nova Iégica. “O ponto fundamental desta filosofia do possivel 6 que ela introduz o elemento transcendental no pre- sente vivido e faz com que o futuro seja obra hu- mana. Se 0 futuro no pensamento utopico ¢ an- tes de twdo um possivel, a sua realiza;éo como provavel e depois como fato depended justamen- te da praxis humar ‘Ao cansaco produzido’ pelo cotidiano dessnimador, ‘assim como ao proprio desénimo, Bloch opde a ESPERANCA, entendida néo como expectativa pas- siva_ de uma intervencdo da “providéncia”, mas ‘como um fator dindmico de agdo, uma fonte de praxis a “impregnar cada ato da vida coudiona do © autor rejeita toda analogia entre @ cosmovisdo de Ernst Bloch e Teilhard de Chardin, dada a po- a lista_do_primeiro. todas as, 8 alismo, da mais comum & mais cla- orada, Bloch opte Constantamente:o seu merle: lismo dialético como compreensao real co concre- to, através da préxis, que deve se tornar teoria para que o homem ‘se realize plenamente a si mesmo e a0 mundo”. "O Bem Supremo exprime-se por Bloch como o “totum das esperancas’, isto é, 0 lugar geométri- co em que convergem’ todas as esperangas dos MAIS UM LANGAMENTO DE PAZ E TERRA UMA EDITORA A SERVICO DOS RUMOS DA CULTURA MODERNA vonvasasa wa. wousivies ae i @ PIER Paz Tetra FURTER DIALETICA PIERRE FURTER SERIE RUMOS DA CULTURA MODERNA Vol. 46 A DIALETICA DA ESPERANGA Uma interpretagéo do pensamento utépico de Ernest Bloch ® | Paz e Terra © Pierre Furter Capa: Laura Gasparian ‘EDITORA PAZ E TERRA S/A Ay. Rio Branco 156 — $/1222 RIO DE JANEIRO — GB 1974 Impresso no Brasil Printed in Brazil A meméria de FERNANDO O. MOTA “$ ist noch nicht P. das Proletariat ist noch nicht aufgehoben, die Natur ist noch nicht Heimat, das Eigentliche ist noch nicht Priidizierte Wirklichkeit” ERNST BLOCH “La libertad del Nuevo Mundo es la esperanza del Universo” SIMON BOLIVAR SUMARIO PREFACIO — 13, NOTAS — 15 ABREVIATURAS — 17 AGRADECIMENTO — 19 CAPITULO 1: DA UTOPIA A REVOLUGAO: UM ITINERARIO — 21 Notas Uma vida errante — 23 ‘As limitagées de uma esperanga césmica — 26 Misica © esperanca — 30 Sobre 0 estilo da reflex bloquiana — 33 A atualizagio do passado filosético — 40 Na discrepéncia dos tempos — 48 Sobre 0 nazismo — 59 ‘A esperanca e 0 “Bem Supreme” — 66 Oswaldo de Andrade: 0 revisionismo no Brasil — 70 do Capitulo 1 — 72 CAPITULO 2: © PRINCIPIO DE ESPERANCA — 77 2 2 2: 1. As raizes antropolégicas da esperanca — 79 2 Do impulso a tendéncia — 87 8 0 papel da imaginagZo na consciéncla antecipadora — 94 2.4 A obra do arte como laboratério © festa — 101 2.5 Sobre 0 uso humano da obra de arte — 105 2.6 A dialética dos possivels — 111 2.7 0 fundamento ontolégico da esperanca: © “ainda-ndo-sondo” — 115, 2.8 Do principio de esperanga & “spes militante” — 119 Notas do Capitulo 2 — 122 CAPITULO 8: A REDESCOBERTA DA UTOPIA — 125 3.1. Alm do sociologismo — 127 3.2 Miséria © grandeza do “utopiso” — 128 Um inventério enciclopédico das utopias — 135 ‘As funges do pensamento utépico — 145 ‘A utopia como dialética antocipadora — 151 ‘A “antiutopia” — 155 3.7 Da comunicagdo da utopia — 180 Notes do Capitulo 3 — 164 CAPITULO 4: © ATEISMO COMO RADICALIZAGAO DE UMA FE REVOLUCIONARIA — 169 Um ateu tranqdilo — 171 © atelsmo como metareligiéo — 173 A dimens8o ut6pica do “esplrito do €xodo” — 175 © Reino de Deus como “utopia concreta” — 180 © “reino da iberdade” as dimensées politicas da 16 — 183 4.8 "Os mortos voltam sompre": a stualidade de ‘Thomas Minzer, 0 teblogo da Ravolugo ‘As ambiguldades da libertagso pela 16 — 202 8 Da necessidade do atelsmo — 299 Notas do Capitulo 4 — 212 CAPITULO 5: UMA GNOSE OU UMA TEORIA MARXISTA? — 219 5.1 Os tedlogos podem entender Bloch? — 221 5.2 Uma esperanca som garantia — 224 5.8 E possivel esperar, hoje? — 229 5.4 A tentacio do trigico — 235 Notas do Capitulo 5 — 240 169 APENDICE — 244 ORIENTAGAO PARA UMA LEITURA DE BLOCH — 244 BIBLIOGRAFIA — 255 PREFACIO Depois de G. Lukacs (1), de A. Gramsci (2), porque agora focalizar a ateng&o sobre Ernst Bloch, e nao, sobre 08 fundadores, sejam Hegel, Marx (3) ou Engels? N&o ser contribuir para perpetuar uma situagdo de margina- lidade — Gltimo trago de um colonialismo cultural apenas superado — ao favorecer esta busca ansiosa do herético em vez do fundamental, do epigono revisionista em vez do autor original? Nao estamos preferindo estes textos @ autores porque, de fato, oferecem menos resisténcias as glosas, as pardfrases, ao uso @ abuso de faceis inter- pretagdes? Existe, portanto, o risco de que, depois de ter consumido Lukacs, Gramsci e tantos outros... a “an- tropofagica intelligentsia” brasileira também faga o mes- mo com Bloch. Mas, de qualquer modo, seria pouco na linha do pré- prio Ernst Bloch, renunciar por medo de um risco. A formidavel disponibilidade e @ abertura total das novas geragées de intelectuais da América Latina a tudo que tem interesse, no devem ser vistas apenas com ironia 13 e ceticismo, Devemos aceité-las como uma provocagao a apresentarmos © melhor, @ da melhor maneira possivel. Afinal, quando certos europeus gozam a versatilidade € a superficialidade latino-americana, nao o fazem para jus- tificar 0 seu proprio medo diante de cada novidade? Es- tes tragos que tao facilmente eles denunciam numa "'soi disante” mentalidade latino-americana, nao sao afinal me- ros pretextos para manter o “statu quo” herdado de uma situagao colonial, hoje neocolonial? Para nds, ao contrario, a disponibilidade que se nota na América Latina de hoje, em geral e, mormente no Bra- sil, para tudo o que poderia esclarecer direta ou indireta- mente um ou outro aspecto da situacdo vigente, significa sobretudo uma oportunidade, a ultima talvez, para come- garmos um didlogo, através do qual o que 6 ainda valido (€ sé isto) na tradigéo européia pederd conhecer novos desenvolvimentos, até novas formas surpreendentes. O que ¢ particularmente claro no caso do marxismo em ge- ral, 0 € ainda mais para todos os “heréticos” (4), que nunea tiveram a ocasiao histérica de realmente ser lidos, discutidos, desenvolvidos até as suzs ultimas conseqlén’ clas. Assim, esta poderosa curiosidade latino-americana & muito mais um fermento do que o sinal de uma insta- bilidade ou de uma superficialidade. Acrescenta uma nova dimensdo ao nosso mundo, obrigando-nos a rever as hierarquias tradicionais de valores como os |uizos mais evidentes nos quais prendemos o que pensdvamos ser “a tradicao ocidental”. Devemos, pois, nos perguntar se cer- tas idéias, certas obras e até certs autores ndo foram de propésito esquecidos ou omitidos porque nés, os eu- ropeus, ndo éramos capazes de os assimilar ou, que achamos a priori que poderiam ser perigosos... para nos. Numa outra situagao, em outras circunstancias, como as. que a América Latina esta vivendo hoje, eles’ poderiam muito bem ressurgir, conhecendo um novo destino que no prevemos. A vontade de falar e de escrever sobre Emst Bloch Ao surgiu, portanto, de um entusiasmo subjetivo provo- cado pela simples novidade diante de um autor desconhe- cido, nem nasceu de uma arrogante convicgéo de que Bloch tinha qualquer “mensagem” para a América La- 14 fina, mas do nosso espanto diante da atualidade e da justeza do seu pensamento numa situagao que nunca ti- nhamos previsto nem imaginado. Foi a partir de uma experiéncia pessoal de reviséo de valores, no periodo agitadissimo em que desde 1962 tentamos entender a situacdo latino-americana que uma obra que aparecia es- tranhissima na Suica, tornou-se concreta e militante num contexto em que uma geragao inieira vive o drama de uma geragao frustrada. O que era “‘exético” e hermético numa Europa roida por um profundo ceticismo, aparece eticaz @ certo num continente projetado pelas suas aspi- rag6es para um futuro que ainda mal percebe. Assim fortaleceu-se, aos poucos, a idéia e 0 desejo deste livro, no qual pelo caminho dificil de um didlogo imaginario entre a propria obra de Ernst Bloch (represen- tada por uns fragmentos traduzidos com a vaga esperanca gue possam um dia interessar um editor), uma andlise cri- tica posta numa perspectiva historica e leitores supostos € dispostos, gostariamos de convencer da atualidade © da fertilidade de um pensamento praticamente desconhe- cido fora do mundo germénico (5). Este livro, sera, por- tanto, fragmentério, como convém a uma mediagao tao Provis6ria quanto © momento histérico que estamos vi vendo. Que estas paginas sejam “o fim do comego" de uma auténtica interpretagao latino-americana de Bloch — terpretacao que s6 poderd ser realizada, allés, pelos pré- prios latino-americanos. Caracas, setembro 1968. NOTAS PARA O PREFACIO 1. Consultar a antologia, coordenaca © pretaciada por L. Kender, de Ensaies sobre Literatura (Editor Civlizagdo Brasileira, Pio do Janeiro, 1985, 235 p) 2. Ver a antologia organizada por C. N. Coutinho e intitulada: A Con- Cepeso Dialética da Historia (Evitora Civillzagao.Srasilelta, Rio de Janeiro, 1986, 342 p,) 15 16 ‘Assim, para dar um s6 exomplo, nos parece muito significative que num pals em que os clentistas socials so referem tanto a Karl Marx, Das Kapital s6 agora esteja vertido em portugués! Neste sentido, fol muito simpatico o estorgo de Vamireh Chacon fem fazer 0 clogio da heterodoxia no seu Gallleus Modemnos (Ed tora Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, 1962, 142 p.), onde o tor recolheu numa vis8o caleidoscépica todos os heréticos poss! velo da alvalidade, Mas, hoje, nfo seré que devemos ir além da Citagdo truncada, da antologia, por amolo que seja 0 catélogo pro- posto? Nilo serd preciso que os leitores sejam obrigados a ir até 8 textos de maneira a aprofundar o seu ponsamento © a sua re- flexio num contalo direto com os oulros, @ no continuar engu- Tindo, antropofagicamente, uns concelios dispersos, palavras exé- ticas, norss estrangelros e soltes? No entanto, ¢ bastante simbélico que a primeira tradugfo numa lingua estrangelra de um tezto de Bloch, tiveses sido publica fem 1949 no México. Trata-so de El Pensamiento de Hegel (Ecito- fa Fondo de Cultura Economica, México, 1949, 470 p), infeliz- mente, eegotado © nunca mals resditado, malgrado a procura. .. ABREVIATURAS : Para simpliticar as referdncias, todas as citagdes de trechos da 4 obra de Emst Bloch serfo assinaladas por duas letras Indicando 0 texto original na edigdo aloma mais recente, seguidas do nimero das paginas eltadas. Sejam: AL ‘Avicenna und die Aistotelische Linke, 1963. ow Durch die Wiste, 1924. eZ Erbschalt dieser Zeit, 1962. cu Geist der Utopie, 1954. a Literarische Autsatze, 1966. ane Dor Monsch als Miglichkelt, 1965, Nw Naturrecht und Menschliche Wirde, 1961. Pa Philosophische Grundtragen 1, 1961. PH ‘Das Prinzip Hottnung, 1957. Ps sus et structure", comunicago de Bloch a um ‘coléqulo cujas atas foram publicadas om Gendse et Struc- ture, 1985. SN ‘Schadet oder Nutzet Deutschland eine Niederlage seine so sP t ‘TUbingor Einleltung in die Philosophie 1, 1963. ‘Tapinger Bifhitung in die Philosophie ll, 1964. ™ ‘Th, Minzer als Theologe der Revolution, 1962, um Uber Karl Marx, 1968. v Verfremdungen 1, 1962. vit Verfremdungen I, Geografica, 1968. wr Wiederstand und Friede, 1965, 7 AGRADECIMENTO Muitas foram as indicagGes, as sugestdes e as criti cas que, nos sucessivos avatares deste trabalho, recebe- mos generosamente de nossos amigos. Que Graham W. J. Randles, Henri Desroches, André Dumas em Paris; Leopol- do J. Niilus em Buenos ‘Aires; Christian Lalive d’Epinay em Santiago do Chile; Ivan lich em México; Richard Shaull em Princeton; Nilsa de Mello Teixeira, Waldo Cé- sar, Rubens Alves no Rio e sobretudo Julieta Calasan$ no mundo, possam encontrar nestas paginas a resposta correta as suas interrogagées. Gostarlamos de agradecer particularmente a Sulamita de Britto, Gisélia Franco Potengy e Julieta Calasans de ter dado ao’ texto, nas diversas etapas de sua elaboracao, uma forma mais “ortodoxa”. Caracas, setembro 1968. 19 Capitulo 1. DA UTOPIA A REVOLUGAO: UM ITINERARIO weNani ro Uma vida errante. As limitagdes de uma esperanga cés- mica. Misica e esperanca. Sobre 0 estilo da reflexdo bloquiana. A atualizagao do passado filoséfico. Na discrepancia dos tempos. Sobre 0 nazismo. A esperanca e 0 “Bem Supremo”. Oswald de Andrade: 0 revisionismo no Brasil. 24 22 Esta exploragéo nao ¢ obra de deuses, mas do homem. E 0 homem, com a sua capacidade de conhecer, que se transforma em “capacidade de saber", 0 autor do desenvolvi- mento cultural. FERNANDO 0. MOTA 1.1 Poucas figuras contemporaneas encarnam com tanta nobreza e profundidade as contradigées da condi- ‘gdo humana moderna como 0 fildsofo alemao Ernst Bloch que, antes de meditar e elaborar a categoria de esperanga ‘em fungdo das necessidades e das aspiragdes do nosso tempo, soube fazer da sua longa vida um testemunho incessante de uma esperanga concreta para o século XX, vivido por ele em toda a sua plenitude, até o amargor. Nascido em 1885, em Ludwigshafen, em pleno meio operario, Ernst Bloch descobre, simultaneamente, as pers~ pectivas e os impasses da civilizagéo industrial. Con- vencido da necessidade de uma revolugao socialista para superar esta contradicao, opés-se, muito cedo, ao milita- rismo do Império alemao que podia enganar ‘as massas ‘operdrias por um ilusério nacionalismo imperialista. Em 1917, escolhe conseqdentemente o exilio, na Suiga, néo para escapar a uma guerra que condena, mas para pre- Parar o apés-guerra depois de tudo que previra. Alguns de seus companheiros de exilio e uns dos seus amigos mais préximos formarao, mais tarde, o famoso grupo dadaista de Zurich. Bloch preferiré, a esta atitude que se esgotaré nas manifestagées simbélicas, um compromisso franca- mente politico, colaborando regularmente no didrio anti- imperialista dos republicanos alemaes: a “Freie Zeitung”, publicado durante toda a guerra e até 1919, em Berna. A derrota alema permite-Ine a primeira experiéncia de realizacdo da sua esperanga numa renovagdo alema. Vol- ta & Alemanha, tendo publicado um manifesto (SN) no qual sustenta publicamente e escandalosamente para os 23 nacionalistas pequeno-burgueses, que a derrota alema, sendo uma derrota de militares nao do povo, longe de marcar o fim da nagao, é antes de tudo uma ocasiao histérica para que 0 povo aleméo reflita sobre os seus erros historicos, sobre a sua passividade e 0 seu alienado patriotismo, para se empenhar na construgdo de uma ova sociedad, © fracasso da esquerda “libertaria”, quando da in- surreigdo spartakista selvagemente reprimida, e, em se- guida, a lenta, mas inexoravel faléncia da Republica libe- ral de Weimar, diminuem progressivamente as possibili- dades de realizar este projeto sem que, por isto, Bloch reduza sua obstinada luta contra um novo inimigo, muito mais maléfico do que o imperialismo prussiano. Com efeito, aproveitando a frustragao criada_pelo fracasso imperialista, aparecem as primeiras manifesta- oes de um nacionalismo exacerbado, no qual vao pac- tuar a burguesia alema, 0 futuro nacional-socialismo (os nazistas) @... 0s militares vencidos. Ainda que Ernst Bloch esteja dedicando-se a importantes trabalhos cien- ificos em que esboca uma nova interpretacao da utopia (GU), reabilita a figura de Thomas Minzer — o infeliz teo- logo das guerras dos camponeses (TM) —, ele nao deixa de lado a evolucéo da realidade politica alema. Desem- enha, portanto, uma intensa atividade jornalistica © po- lemica para denunciar 0 avango da “maré parda” (1). Esta luta, sempre mais radical e aberta contra o totalita- rismo nazista, assume cada ano um aspecto mais dram tico e cessa quando, em 1933, perdendo a naciona- lidade alema por ser judeu e comunista, Ernst Bloch é obrigado a deixar a Alemanha pata um’ segundo exilio. Publica, entéo, na Suica, uma antologia dos artigos que, Ro pensamento do autor em 1934 (EZ, pp. 20 e ss), devia revelar a toda a Europa os perigos inerentes as ambigili dades e as contradicoes de uma época de transicao, na qual a Revolugao, ainda que estivesse em gestacao, po- deria e deveria surgir. Trinta anos mais tarde, num ‘pos- facio & mesma obra (EZ: 212 e ss}, 0 autor reinterpreta totalmente a significagao destes artigos. Hoje deveriam desmascarar todas as mistificagdes que, no Oriente es- condem a cristalizagdo © a rigidez dogmatica da Revolu- 24 ¢0; no Ocidente, impedem de crer nas possibilidades de uma Revolugao. © que, em 1934, aparecia como um mo- mento limitado da histéria da Europa, tornou-se em 1966 um trago fundamental de toda uma época. ‘Seu ex'lio conduz Bloch, em 1938, aos Estados Uni dos, onde recomega a aguardar pacientemente, num quase total esquecimento e isolamento. Funda, no entanto, com ung amigos, entre os quais Bertold Brecht e Thomas Mann, a “Aurora Verlag” (de titulo bem simbélico @ bem blo- quiano), que prepara o apés-guerra, publicando em ale- mao livros destinados aos prisioneiros de guerra alemaes nos Estados Unidos. € desta experiéncia-piloto que nas- ceré no apés-guerra a moderna e audaciosa industria alema do livro, com Rowohit e Fischer. Ernst Bloch con- sagra seu tempo disponivel ao preparo e & primeira reda- 0 de sua obra monumental dedicada ao principio de esperanga (PH), cuja primeira edigdo sera publicada s6 ‘em 1956, apesar de ter sido terminada em 1949. Apés 0 fim da segunda guerra mundial, Bloch coloca novamente a sua esperanga na Alemanha, escolhendo a DDR. Aceita em 1949 uma cétedra de filosofia da Uni- versidade-Karl Marx em Leipzig, depois de ter recusado ostensivamente a mesma catedra na Universidade-Wolf- gang-Goethe de Frankfurt-am-Main. Escotha novamente simbélica, que tera duras conseqiiéncias. De fato, a rea- lidade social de novo surge dura e inexoravel. Bloch, a0 aceitar ser cidadaéo da DDR, nunca admitiu que a sua escolha incluisse uma submissdo intelectual A censura da ortodoxia partidaria. Nunca admitiu que se pudesse di- minuir a sua impetuosidade criadora ou a sua liberdade critica, que Ihe pareciam indispensdvels & busca da verdade. Portanto, no deu a minima importancia as ad- verténcias, as censuras, as press6es diretas ou indiretas dos ortodoxos do P.C. ‘Longe de ser um “filésofo de pa- rada’, ou um anti-comunista primério como gostariam que tivesse sido (2), Bloch faz da sua cAtedra uma fonte de perpétua inquietagdo e renovagao na DDR. Torna-se, por conseqiéncia, a besta negra dos filésofos oficiais que Ihe lancam, em 1959, a suprema injdria — na verdade, a mais séria homenagem que se Ihe poderia render. Ele & suspenso porque “perverteria a juventude”. Encontra-se 25 cada vez mais isolado. Seus alunos séo presos ou fo- gem para as zonas ocidentais. Ainda que as homenagens duvidosas sucedam-se as duchas frias (3), Bloch, em 1961, escolhe pela terceira vez, 0 exilio. ‘Atualmente, prepara’a edigao, de suas obras com- pletas pela Suhrkamp Verlag, dando cursos da filosofia na Universidade de TUbingen. Apesar de sous citenta anos, conserva uma surpreendente vivacidade, como 0 demonstra a sua brilhante improvisagéo na Universidade de Viena, recentemente vertida para o portugués (MM). Continua defendendo sua esperanca, menos na Europa de hoje do que talvez, no aparecimento de um “terceiro mundo”, no qual o seu pensamento néo sé encontraria uma sittagao mais adequada, como um singular eco. E nao hé nada tao significative ‘deste homem do que vé-lo, quase no fim de sua longa vida, meditar uma vez ainda sobre a férmula “incipit Vita Nova” (Til: 151-170). 4.2 Se as relagdes de Ernst Bloch com 0 marxismo nos parecem altamente proveitosas, a ponto de ser hoje uma das figuras mais significativas da sua renovacdo; se a fidelidade de Bloch ao '‘Heréi Vermelho" nunca foi des- mentida quaisquer que fossem as peripécias de sua vida agitadissima, as suas relagdes com um regime comunista institucionalizado e no poder, levantam sérias duvidas, Primeiro, pesa a acusacgao de nunca ter denunciado abertamente a ditadura stalinista (4). A este respeito J. Rihle propds uma hipdtese engenhosa que, néo somente explicaria um dos aspectos obscuros deste heterodoxo, como sobretudo ilustraria seu método filosético. J. Riihle (5) lembra que, na sua andlise da esperanca (PH, pp. 210 e ss), Bloch refere-se ao mito da “Helena Egipcia”, mito que Hugo von Hofmanstahl elaborou para uma épera de Richard Strauss. Neste mito, néo é a ver- dadeira Helena que provoca a guerra de Tréia, mas uma falsa criatura maléfica e sobrenatural, criada pelo Demo- nio, Em outros termos, 0 que provocou os acontecimentos no foi um patético amor, mas uma ilusdo. Assim, gene- ralizando, 0 mito indica que no é 0 que é justo e autén- tico — como o amor, a justiga... — que provoca os 26 acontecimentos histéricos, mas, as vezes, a mentira ou mais justamente as ilusdes propostas a0 homem. Assim, neste caso, Stalin — sendo a falsa Helena do comunismo — permitiu um arranco importante para o desenvolvimen- to. do comunismo, tornando-se por isso necessério, apesar dos seus erros ditatoriais. Esta concepoao tortuosa da Histéria pode ser associada & idéia que Bloch sempre detendeu, isto 6, que 0 curso da Hisiéria nunca segue uma linha ininterrupta de progresso infinito, mas, se pro- jeta por um processo contraditério, no qual’ as distorgdes e as ambiglidades so tais que é, por vezes, dificil se- guir 0 fio de Ariadne da autenticidade e da verdade. E justamente esta dificuldade que faz do filésofo al- quém de valor para nos orientar nos labirintos, nos rebo- licos, nas “pororocas” da Historia. Ele néo é, portanto, um mero ideélogo que aplicaria sobre a realidade, uma verdade prefabricada, e até certo ponto a priori, para fa- cilitar a orientacdo das nossas agoes. Nem um pobre sonhador e criador de metafisicas ilusdrias e enganado- ras, porque 0 seu papel nem se pode identificar a0 de um poeta nem ao de um profeta. 0 filésofo — e até certo ponio qualquer intelectual — & quem procura discernir, isto 6 ver o real na complexidade da realidade bruta. Nos acontecimentos do passado, o filésofo tenta redes- cobrir aquilo que esclarece o presente e que anuncia o futuro, Nas possibilidades que propde 0 futuro, o filésofo prevé 0 que informa o presente, de maneira a manté-lo aberto as promessas do amanha. Nas condigées que dominam o presente, o filésofo indica as qualidades e as diregdes que servirdo para orientar o rumo das nossas de- cisSes. 0 fildsofo nao podera ser um mero funcionario de um partido, 0 que explica a revolta de Bloch diante da ortodoxia partidaria. Tao pouco é um intelectual que ignora (ou finge ignorar) os seus elos de classe, 0 que faria dele um privilegiado inutile parasita, © filésofo é um militants especializado na interpretacao dos sinais do nosso tempo. Tem como tarefa especifica distinguir onde esta a esperanga dos homens e para onde estes condu- zem 0 nosso tempo. Posigao dificil, por ser critica e arris- cada; funcao necesséria, para impedir qualquer iluséo mecanicista, ar Seria interessante controntar neste ponto a posicéo de Bloch com a de A. Gramsci, que propunha a seguinte tarefa aos “‘filésofos profissionais”: “O filésofo profissio- nal ou técnico nao sé ‘pensa’ com mais rigor légico, com mais coeréncia, com mais espirito sistematico do que os outros homens, mas conhece, ainda, toda a historia do pensamento. Isto 6, ¢ capaz de explicar o desenvol- vimento que 0 pensamento teve até ele e 6 capaz de reto- mar os problemas no ponto em que se encontram, depois de ter sofride © maximo de soluc5es etc... 0 'ilésofo tem, no campo do pensamento, a mesma fungao que tém 08 especialistas nos diversos campos cientificos” (6). Mas se a clarividéncia e a reflexo caracterizam a atividade do filésofo sempre em busca dos tracos mais significativos e mais profundos de nosso tempo, por que Bloch se deixou iludir na sua estadia da DDR? Por que desprezou tao facilmente a inércia das instituicdes politi- case a rigidez das estruturas? Por que ignorou os pel gos implicitos na esclerose burocrética do Partido Co- munista Alemao? Talvez Bloch se tivesse deixado levar por um certo otimismo ao afirmar 0 dinamismo da esperanca, a0 ante- cipar a sua existéncia interpretando os sinais do tempo (sinais que, seja dito claramente, sao e permanecem reais). Subestimou os problemas novos da necessaria ins- titucionalizacéo da esperanga num regime comunista or- ganizado. Os limites da esperanca césmica bloquiana néo provém de uma ignorancia das exigéncias de uma mil tancia otimista, mas de uma impaciéncia, porque total- mente voltado para uma Revolugao que vem, que esté se fazendo, ndo deu bastante atencdo aos problemas de uma Revolugao, que chegou ao poder. Os limites do pensa- mento de Bloch, neste caso, seriam ligados a sua situa- go histérica. Pertence a uma geragao que concebia a Revolugéo como uma Revolucdo “permanente”, que es- capa “a priori aos problemas de institucionalizacéo que se instalaré sé uma vez o planeta completa e defi tivamente conquistado. __Esta hipétese nos parece ser confirmada pela impor- tancia crescente que se dé hoje ao problema do poder nas ciéncias politicas em geral, e a critica “da teoria le- 28 ninista do Estado” nos meios revisionistas. Assim 0 pen- samento de Bloch, neste aspecto, pertenceria a uma etapa do marxismo que deve ser superada em fungao dos novos problemas que surgiram, Bloch se identificou’ com quem fez a Revolugao e sé bastante tarde entendeu as preocupagoes da segunda ge- taco que cresceu depois da Revolucao e que tem a dura tarefa de saber como ficar revoluciondria. O que, aliés, poderiamos expressar nas proprias categorias do pensa- mento bloquiano: “como esperar nas novas estruturas, © do apesar delas”’? Mas, para isto, faz-se necessério uma “teoria da sociedade socialista” bastante ausente nas preocupagées de Bloch. P. Ludz, que levantou esta cri- tica (7), perguntou-se se Bloch ao se dedicar a elaborac&o de uma “gnose marxista” — talvez sob a influéncia lon- ginqua e quase indireta de Schelling — nao foi levado Por um medo de um certo "'sociologismo” também a igno- Tar a importancia sempre maior de uma reflexéo sobre as estruturas sociais necessérias & mediagao de uma espe- ranga concreta? Este problema nos parece particularmente crucial para os paises socialistas em que “a revolta das novas geracées” seria conseqiléncia da falta de “conviccao re- volucionaria da segunda, ou mesmo da terceira gerac&o, pés-revolucionéria, Indiferenga revolucionaria confirma: da, em particular, no caso da URSS por uma politica na- cional de bem estar e de comodismo internacional. As- sim, existiria nos paises socialistas a mesma situagao de tensdo geracional que no mundo ocidental. No entanto no mundo ocidental, esta revolta juvenil é provocada, ex tada e até certo ponto aceita; nos paises socialistas, @ mormente, na Russia, é severamente réprimida e social- mente desvalorizada. Nesta perspectiva é interessante lembrar a solugao original que a China parece ter dado ao problema juvenil através do surto dos “guardas-vermelhos”. Este movi- mento seria favorecido oficialmente de maneira a renovar “o espitite revolucionario” de modo dréstico e, até certo ponto dramatico, numa geracdo que nunca conheceu nem as lutas, nem os sofrimentos, nem “a longa marcha”, isto 6: nenhum dos momentos herdicos da institui¢éo do novo 29 regime. Se nos paises socialistas temos uma rebelido que nao pode tomar forma; nos paises ocidentais uma revolta aberta que perturba a vida nacional; na China, temos um movimento que é uma medida pedagégica, induzida pelos dirigentes. Resta saber se os dirigentes poderdo Sempre controlar as forgas assim cespertadas (8) 1.3. No entanto, a aco de Bloch nao s. , @ pode reduzir a0 eventos significativos de sua biogratia, Mais impor. fante do que a sua vida, por rica que seja, é sua obra na gual devemos fixar a nossa atengao. Afinal, quando Bloch Ponsa e reflete as suas experiéncias acu enxisténcla plenamente vivida, 0 seu ‘ive 6a comunice, 40, © néo @ mera conservacao das experléncias, ‘Aqui também, estamos diante de uma dificuldade ini- cial. Este filésofo da militancia e da praxis, da esperanca Concreta, escreve uma obra que, numa primeira leitura 40 menos, lembra a melhor tradigao hermética. Qualquer lel. tura dum texto de Bloch deixa de fato a impressao de ter sido a ocasiao de “uma iniciagao”, uma descoberta de um segredo ou de uma verdade oculta. O tilésofo se apre- senta, portanto, como alguém que descobre os “rastros” 50 _“Spuren”, palavra que designa um dos seus mais belos conjuntos de ensaios (SP) —, idéia que nao sé ca racteriza 0 seu estilo de pensamento, mas impregna tam- bem o estilo de sua prosa, uma das mais dificeis da lite. ratura alema contemporanea. Com eleito, o movimento da Sua prosa revela uma constante preocupagdo de fazer sur- gir © que esté oculto, de fazer sobressair o estranho do Cotidiano ou do dbvio, de realgar 0 nsuspeito da banali- dade, a tal ponto que certos criticos, sobretudo os comu- nistas ortodoxos, denunciaram a sua obra como sendo o produto de um misticismo obscuro. Ernst Bloch, segundo eles, nao passaria de um mistico sem verdadeira vocagao religiosa, um profeta hebraico que teria fracassado na pro- Cura de um absoluto religioso e que se teria voltado para © comunismo © 0 marxismo a fim de concretizar uma esperanga que nunca podia alcancar na realidade ou atra- vés das realidades. 30 E verdade que esta obra 6 curiosamente acientifica e estd na verdade bem longe das normas positivistas im- postas pela Academia Soviética de Filosofia & reflexao, ou ao que ficou da reflexao filoséfica comunista. Estaria mui- to mais préxima de um certo “romantismo revolucionério” defendido e ilustrado por H. Lefebvre (9), com o qual Ernst Bloch partilha uma comum admiragao e necessida- de pela musica. Seria dificil negar 0 papel que a arte musical de- sempenha constantemente no pensamento de Bloch. & ébvio, desde a sua primeira obra em que tentava uma primeira interpretacao da utopia, através de uma refle- xéo em profundidade sobre a musica em particular (GU, pp. 49 @ ss). Devemos mesmo reconhecer que, talvez sob a dupla influéncia da tradigao gnéstica judaica e do fi- lésofo Schelling, 0 jovem Bloch tivesse admitido facil- mente — ao menos nos anos 20 — que a musica pudesse ser 0 instrumento de uma sintese pela transcendéncia. Este processo teria como tema 0 fato “de que o mundo nao @ verdadeiro, mas que pode chegar a sé-lo gracas ao homem e a verdade” (GU, p. 347). Apoiar-se-ia na experiéncia vivida do ouvinte que sente durante a audi- 40 musical a presenga de algo de inefavel se desenvol- vendo. A audicao, com a participagao intima do ouvinte & execucéo musical, seria uma maneira concreta, nunca acabada, e sempre recomecada na ocasido de cada nova execugao de mesma obra musical, de se aproximar do absoluto cugerido pela obra, mas nunca totalmente pre- sente_numa interpretagéo e, ainda menos, numa nica audicdo. Existe portanto uma aproximagdo infinita — ainda que definida — do absoluto que o homem pode experimentar no seu intimo. “O estudo da arte mais pro- funda leva, portanto, ao mais profundo do homem” (10). A histéria da mUsica confirma a posicéo singular desta arte que surgiu bastante tarde no desenvolvimento da ci- vilizagéo ocidental; a mésica 6, também, a arte que me- nos se adapta a uma interpretacdo “sociologista” (GU, pp. 56 © ss), porque nunca coincidiu totalmente com o desenvolvimento e a evolucdo das estruturas sociais. Por- tanto, com a musica estamos chegando ao limiar, e tal- vez mesmo, estamos além de qualquer correspondéncia, 3t iain oo beret de qualquer paralelismo mecanico e imediato entre “es- truturas” esiéticas e “estruturas” sociais. A misica, se- ria_um dos exemplos mais requintados da “‘discrepancia dos tempos”. Se isto deve ser admitido para a primeira obra de Bloch, parece justo insistir que se trata de uma obra que foi trés vezes reescrita e que est muito longe, sobretudo na sua primeira verséo, de esgotar a reflexao bloquiana sobre 0 papel da arte musical na existéncia humana. De fato, Bloch, sem nunca chegar a desprezar a arte musi- cal, com o tempo, amptia a sua primeira interpretacao. Na sua juventude, dava importancia as promessas que a audi¢do musical, experiéncia intima e subjetiva Por exceléncia, continha. Nela, de um lado, abria-se a romessa para o homem de poder tornar-se presente um ‘Summum Bonum”, que até ai estava so esperado. Do outro, existia a promessa de uma libertagdo completa, sem qualquer constrangimento ou limitagdo imposta. A arte musical era, assim, uma das mais altas concretiza- Ges da busca da liberdade total pelo homem. Na sua obra de maturidade, no Principio de Esperan- ga (PH, pp. 1248 e ss.), Bloch insiste sobre outros as- pectos importantes da arte musical. Agora, o que conta & menos a experléncia subjetiva do ouvinie na ocasiéo da audicao, do que a realidade objetiva da obra criada. A arte musical néo é 86 uma interpretagao, uma audic&o, isto 6: uma experiéncia. € um conjunto de obras. Uma Criagéo humana, profundamente social, visto que é uma arte coletiva. A ‘compreensao musical, ainda que nasces- se na experiéncia individual, subjetiva, intima de um ine- favel presenciado, supera os riscos inerentes da pura au- digao por aguda, profunda e intense que seja: o fecha- mento do homem sobre si mesmo, a tentacéo do irra. cional, a “hybris' da soliddo. Agora, a arte musical abre sobre a pluralidade externa e objetiva de uma criacdo hu- mana continua de sinals que cabem aos outros homens interpretar e que poderdo, se quiserem, os ajudar na sua caminhada esperancosa. Em vez de propor uma ascética comunicagao com o transcendente, experiéncia que arris- ca acabar num mergulho no inefavel incomunicavel (11), Bloch vé hoje na arte musical uma interpretagao concre: 32 ta, objetiva € coletiva (pela sua tradigao histérica) que ordena o mundo pelo ritmo e pela harmonia, sempre aber- ta ao futuro de possiveis e novas interpretages. A arte musical 6 a encarnacéo da esperanga numa série de obras em desenvolvimento, pelas quais o homem pode discernir a sua propria capacidade criadora e encontrar, também, as ralzes do seu esforco pessoal de criacéo. ‘As obras musicais pelo seu dinamismo prometem e abrem horizontes novos, testemunhando de uma maneira discre- ta, mas eficaz ao homem atento, uma esperanca possi- vel. Ao passo que J. S. Bach — 0 misico-tedlogo — po- larizava a primeira interpretacao; no Principio da Espe- Fanga, ser Beethoven que Bloch invocaré mais fre- qUentemente, porque “foi o primeiro misico a saber pre- ver © anunciar a aurora da humanidade” (PH, p. 1266). Vale talvez a pena observar aqui que a evolugao do pensamento de Bloch de uma concepgao subjetiva da au- digéo musical para uma interpretacdo objetiva da con- cretitude musical é rigorosamente paralela a0 extraordi- nario papel que tem a arte musical na nossa sociedade. Assim, a importéncia crescente que se dé ao espetacular (ver os “happenings”) na criagao musical; a interpreta- 20 em agao (a renovacdo do teatro musical na “bossa Nova”); @ sobretudo @ necessidade de incamar para os outros a compreenséo musical na danca coletiva, a for- ma mais pura, da nova cultura juvenil. Se, na era do "jazz-hot”, tinhamos um fendmeno de retracdo, uma ver- dadeira descida nos inferninhos e nas catacumbas (12), hoje estamos assistindo com os hippies por exemplo, a uma expansao na esfera publica, isto 6 a descida na rua. Nao & pois pura coincidéncia se naqueles movimentos ju- venis renasce 0 pensamento utépico. De uma atitude de desconfianca agressiva, estamos entrando num processo de expansao vital. 1.4 O que é verdade para a arte musical no pensamen- to de Bloch pode aplicar-se ao estilo de sua reflexao filo sofica. Do mesmo modo, que para uma primeira interpre- tacdo, a reflexéo sobre a miisica podia ser o pretexto de voltar, de maneira disfargada, a uma tradicao gnéstica, 33 assim, para uma primeira leitura, o astilo de Bloch parece lembrar muito a tradigao esotérica dos grandes misticos alemaes, a comegar por Mestre Eckhart. Para desfazer esta primeira impressao, 6 necessério demonstrar como 0 estilo de reflexdo proprio a Bloch é funcional, isto 6, decorre de uma certa concep¢ao da relacao que deve estabelecer-se entre o autor — a obra — 0 leltor, afim de que a comunicarao seja auténtica. Se as obras de Bloch sao de leitura dificil, néo é porque o autor tenha dificuldade em dizer o que ndo pode ser dito sob pena de se aniquilar (0 dilema mistico); nem € por- que 0 acesso a verdade deva ser controlado permitido 86 aos poucos que merecem ser iniciados (a técnica eso- térica); 80 pouco sera para provocar no leitor um choque além do qual uma revelagéo poderé ser possivel (a solu- ao hermetica). & porque deve existir uma disciplina de leitura, através da qual 0 leitor deve participar de um mo- vimento dialético e, por conseqiéncia, parlicipar do pro- prio movimento da’ criagdo bloquiana. Assim cada obra se desenvolve, se estrutura progres- sivamente por um movimento em espiral partindo de cer- tas proposigées iniciais, estranhas e desconcertantes a primeira vista, Uma vez que a nossa atengdo foi chamada @ provocada, 0 autor procede por um movimento circular que amplia sempre mais o circulo de nossa atencao. A Proposigao inicial, obscura e densa, é reinterpretada num duplo movimento que abrange sempre mais elementos. O horizonte amplia-se, de um lado; de um outro lado, a and~ lise se aprofunda. Desta maneira, estamos penetrando no gue num primeiro. instante parécla um mistério ou um segredo e que, agora, se propde como o enigma que pe- de 0 nosso deciframento. A intengao da obscuridade ini- cial no era de nos prevenir que 0 essencial néo pode ser dito, mas de nos tornar logo atentos ao esforgo ne- cessério para realmente compreender a realidade © nao fugir por uma ligeira atengdo irresponsdvel. O autor her- mético deixa de propésito o mistério pairar e se tornar sempre mais denso @ medida que se avanca na leitura para entao provocar o espanto diante do indizivel. Bioch ao contrério conduz 0 leitor a sempre melhor penetrar entender uma realidade, que progressivamente torna-se 34 mais densa e mais complexa. Esta obra ndo é hermética, porque nao pretende deixar 0 leitor convencido que a rea- lidade 6 incompreensivel e que é necessério, portanto, escolher ou imaginar outros caminhos para conhecé-la. Bloch cré num conhecimento racional, ainda que nunca simplifique ou esquematize a complexidade, para ir mais depressa. Ele exige do leitor que faca a experiéncia de que a realidade € inteligivel; que se pode penetrar e en- tender um tema por mais surpreendente que seja (assim a afirmacao que abre a interpretacao de Thomas Minzer: “os mortos também voltam!”. No entanto esta certeza n&o deve levar a nenhuma suficiéncia, a nenhuma pretens&o racionalista. Assim, 0 estilo bloquiano revela-se altamen- te funcional na medida em que 0 leitor, ao fim do livro, encontra-se preparado para auto-desenvolver 0 esbogo su- gerido como modelo ou hipdtese de interpretacao. Bloch redescobre a funcdo ética da dialética platénica que Sé- crates aplicava de maneira tao extraordinaria; 86 que ago- raesta dialética é uma dialética “posta sobre os seus pés”. A dialética bloquiana passou pela critica hegeliana e mar- xista; isto é: 6 uma dialética pela qual se pode “caminhar’ A dialética platénica era uma interpretacdo racional da ex- periéncia religiosa da revelacdo; a dialética bloquiana 6 a iransformagao racional da experiéncia religiosa, numa pra- xis criadora Podemos agora entender porque a obra de Bloch apa- rece muitas vezes sob forma de fragmentos, de “interpre- tagdes esbogadas” (TI, p. 9), de tentativas, de ensaios no sentido original da palavra.'Nao € porque, como G. Lu- kacs (13), a totalidade original est perdida e sé poderé ser apreendida por fragmentos, sendo a busca do homem para sempre fracassada e portanto tragica. Nao & porque, como para T. W. Adorno (14), a totalidade original é um inefavel que s6 pode realmente ser entendido no silencio e no nada da contemplacao racional. Mas porque basta um fragmento auténtico, uma idgia vélida, um ato sensato para comegar a construir um mundo que um dia ultrapas- sar a realidade atualmente vigente. O homem para cons- truir 0 seu mundo nao necesita de dominar a totalidade do universo; como para fazer a histéria, ndo precisa de estar ao seu fim; para buscar a verdade, ndo deve ja pos- 35 sui-la. O importante é 0 ponto de partida e a certeza do rumo. Basta uma hipétese valida, mesmo que esteja ma- ciga ou relativamente obscura, para que, por uma série de proposicées, © leitor possa situar-se; portanto, tornar-se capaz de progredir; de participar desta imensa constru- ‘940 que a0 mesmo’ tempo pretende dar o nosso sentido a0 mundo, como ransformé-lo para que seja também & imagem da nossa interpretagéo. E importante, pois, que 0 leitor nunca seja preso de verdades feitas, cristalizadas em prematuras formulagdes de qualquer ortodoxia, que exprimiria uma inutil pressa para se instalar no reino da certeza e, portanto, na satista- 940 burguesa. O estilo de Bloch vai sempre provocar o lei- tor para que saia de sua satisfacao intelectual e se torne ainda mais critico e criador (TI, pp. 71 @ ss.). O estilo de Bloch 6 menos obscuro ou _herm‘tico do que exigente, Obriga 0 leitor a uma atengao teimosa, o que convém a uma obra que recusa transmitir os produtos acabados de um pensamento sistematizado numa ortodoxia, e pretende simplesmente comunicar a necessidade e as diretrizes de uma busca coerente. Bloch pode assim, nos parece, a jus- to titulo, se afirmar como um pensador dialético que res- peita a parte mais dinamica e mais frutifera da fertilidade de.um método de interpretacdo e de transformacao dialé- tica do mundo. Nao faz, nunca fez ou fara, a apologia de um sistema. , assim, que a simples leitura de uma obra de Bloch torna-se a ocasido de uma experiéncia concreta do principio de esperanca como certeza de uma solugéo humana possivel, mas nunca pré-fabricada ou proposta, nem dada e, ainda menos, imposta. Nao 6 para estranhar que esta obra tao perto da arte musical, que este estilo provocante, que esta reflexdo fi- loséfica sempre inquieta, sejam marcados pelo humor. ‘Com efeito, um pensamento que se considera sempre em ‘caminho, que obriga 0 leitor a nunca se satisfazer com uma 86 interpretagao, no pode cair em qualquer dogma- tismo que cristalizaria a atengao do leitor sobre imagens, idéias ou conceitos petrificados. E necessério manter no leitor uma constante inquietagao; ume preocupacdo entre © que esta pensando e o que deveria pensar; entre o que 36 faz e 0 que deveria fazer; isto é, uma disténcia que corres- onda a discrepancia necessaria a qualquer agdo e para qualquer pensamento humano frutifero. Assim, a cada pas- 80, 0 leitor se descobre também caminhando (PH, p. 1034). Para criar esta atitude ativa no leitor, existem vari técnicas; diversas segundo os géneros literarios e os meios de expresso, segundo as regras e os habitos das tradi- ges culturais ou do estégio em que se encontra uma civilizagdo; sem esquecer finalmente, as intengdes pro- fundas de um autor (PH, pp. 507 ¢ ss.). Na poesia popular por exemplo, a distancia serd criada, de maneira ambigua, € verdade, pelo uso sistematico do ‘maravilhoso. Na poe- sia literdria ocidental, sobretudo na poesia contempora- nea, sera pelo jogo sempre mais complexo e polivalente das varias interpretacées possiveis das imagens, das me- taforas e, até da significagéo de textos inteiros. Na refle- xo filoséfica, pelo espanto diante das analogias que se multiplicam &'medida que se aproxima das situacdes con- cretas, situagdes que se revelam sempre mais ricas de interpretagdes possiveis do que a primeira hipétese dei- xava pensar etc... Na obra de Bloch, de maneira mais particular, a distancia se cria pela recusa de tudo 0 que 6 dbvio ou “natural”, pela critica aspérrima de todas as evidéncias e do qualquer “a priori”. Depois por uma cons- tante vontade de retomar os mesmos temas e os mesmos assuntos, em diversos niveis de interpretagao, resultando esta linha em espiral que segue normalmente o pensa- mento bloquiano. Enfim pelo uso sistematico do humor que deve manter nesta busca engajada, séria, dedicada, um clima geral de alegria difusa, sinal fragil, mas real da felicidade que j4 paira sobre o destino do homem que realmente busca a verdade. Assim, Ernst Bloch mantém em todas as suas obras e até na sua vida — segundo testemunhas oculares e fa- miliares — um clima de seriedade ligeira que a filosofia ocidental esta redescobrindo (que se pense na jocosidade de certos didlogos platénicos) e criando sistematicamen- te desde Keirkegaard e Nietzsche. Uma outra fonte desta atitude talvez se encontrasse, por surpreendente que fosse, no proprio Karl Marx. Por exemplo, K. Axelos (15) mostrou que K. Marx visava 0 jogo livre, pleno de humor e de graga, 37 de uma felicidade prometida na libertacdo total do ho- mem. Tal como se revela na livre plenitude de um ins- tante inteiramente disponivel_e plenamente presente, como 0 homem ja a experimenta no ‘jogo sério” do adul- to (e nao na saudade ambigua do jogo inocente da crian- a); no iso provocado por uma piada; ou na alegria de uma felicidade coletivamente compartilhada, no publico da platéia, por exemplo. Nesta linha marxiana, Bloch pre- Ve que todas as desmistificacdes, todas as sinuosidades da reflexao critica, todo 0 esforco humano desempenha- do na praxis, desembocam por fim na plenitude do ins- tante, nesta total alegria do existir, cue Beethoven anun- Ciou no final da Nona Sinfonia, que o Fausto de Goethe tinha pressentido: “Verweile, du bist doch so schon!" ("De- mora, pois és to belo!"). Mas Bloch da mais um passo. Para o pensamento tradicional, e em particular na viséo tragica romantica, este mesmo momento marca o fim e 0 desaparecimento do herdi no nada da felicidade. Para 0 Fausto, a descoberta da plena felicidade, como o foi para D. Giovanni de Mozart, é téo preciosa, que nao existe mais @ possibilidade de um além, de uma vida com e depois da descoberta do momento de felicidade. A tragédia hu- mana se consumiria na descoberta de que a felicidade anuncia a morte. O “post-festum” dos realistas romanos! Ora Emst Bloch se insurge contra toda esta tradieao oci- dental da impossibilidade de viver a felicidade (16). Para Bloch, 0 momento de descoberta da felicidade marca, € verdade, um fim. Mas este fim néo é um tér- mino @ uma queda no nada e na morte. € 0 “fim do co- meco”. A descoberta do momento de felicidade é inter- Pretada como sendo a ocasigo, o quase trampolim, para a Consciéncia @ a vontade, ae criar a partir deste momento, outros momentos; de repetir ampliando, reinterpretando, transmitindo © testemunhando esta graga que consegui- mos captar. Bloch supera assim a alternativa tradicional- mente antagénica: — 0u uma felicidade ligada a uma ordem preexisten- te @ existéncia humana, a qual o homem deve se integrar, aniquilando-se para se reincorporar numa ordem na qual encontra a felicidade ao prego da 38 perda da sua personalidade e do seu destino pes- soal; — ou uma felicidade sempre prometida mas nunca alcangada, a esperanca da Caixa de Pandora, 0 fruto proibido dos mitos biblicos ou de Sisifo. Esta alternativa 6 superada na medida em que, por uma meditagao sobre 0 jogo humano (este comportamen- to tipico da seriedade ligeira), sobre a experiéncia esté- tica sempre renovada pela percepcao artistica de novas obras de arte, podemos visar uma felicidade enraizada em certos momentos privilegiados do nosso passado (momen- tos que podemos recolher e reanimar pela meméria) mas aberto sobre o futuro, A felicidade tem suas raizes no passado, sem as quais néo teria nenhum conteiido, ne- Thum argumento; nenhuma matéria sobre a qual _pu- desse apoiar-se. Portanto, a felicidade, por existencial que seja, nunca abole o passado; ao contrario, he da Uma nova significagao, uma nova atualidade. Tao pouco esta felicidade ignora o futuro, por ter um medo des- truidor e infantil das mudangas, dos riscos e do incégnito das situacdes imprevistas que 0 tempo nos promete. Ao ignorar © futuro, a felicidade seria cega e ndo poderia sair de um momento atual onipresente @ isolador. & pela mediagdo do futuro que se pode comunicar a felicidade ‘0s outros, por uma promessa de construgdo em comum de um mundo feliz. A felicidade esté, portanto, intima: mente associada a esperanca (como o veremos no proxt mo capitulo). & a maneira de viver 0 nosso destino dando uma certa qualidade ‘Caica ao instante vivido na_plena alegria da autenticidade assumida. Esta maneira nao nos fecha sobre 0 nosso destino, mas ao contrério nos obri: ga a tentar o impossivel para criar a felicidade com ou- rem, porque uma esperanca nao se vive sozinho. & um principio que tem a sua validez numa visdo totalizante Ga realidade (mas nao totalitaria!). Enfim, a alegria surge exatamente quando 0 encontro na felicidade vivida no destino pessoal, transmitido e mediatizado por uma es- peranca comum, pode exprimir-se e manifestar-se social- mente, Esta triade — felicidade, esperanca e alegria — forma o momento dialético que constitui aos poucos esta 39 ‘morada dos homens”, em que devemos transformar o universo (17). Assim, enquanto a felicidade, tradicional- mente, acaba por nos fechar egoisticamente dentro de és mesmos ou por nos lancar numa corrida absurda e indefinida, a felicidade segundo Bloch se realiza numa Plena e lucida disponibilidade de cada um de nés para © outro, ‘na intersubjetividade e na complementagao. Cada um de nés deve participar nela e, portanto, ter o Seu quinhao de responsabilidade alegre, no contexto do Summum Bonum’, na e com a sociedade verdade, € 0 veremos varias vezes a0 comentar ensamonto bioguiano, esta certeza alegre, Sala panes esperangosa, esta viséo da felicidade possivel nao eli- minam a possibilidade do fracasso, da desunido, do de- sentendimento e, por fim, da quede no nihilismo. Esta Presenga do nada, que acompanha cada uma de nossas vitérias, no 6 um mal radical, que paira e domina, como um principio negativo, 0 mundo. No entanto, nao’ existe No pensamento de Bloch nenhum traco de dualismo ma- niquéu, o que seria uma solugao de facilidade; nem uma ambiguidade ontolégica, que manifestaria a auséncia de uma op¢ao fundamental. Para Bloch s6 existe um s6 Principio: o de esperanga. O mundo visa o “Bonum Sum- mum". © mal portanto, sé uma ameaga que se deve Combater, porque exige ser combatido. A felicidade de Bloch nao exclui a possibilidade da infelicidade; mas esta do € necesséria; é contingente. Deve ser eliminada pelo nosso triunfo em favor daquela, 1.5. Se a obra de Emst Bloch é muito pouco mar- cada pela rigidez dem espinto clentic, este tonge do Ser um mero devaneio postico. Sem cessar, Bloch refe- re-se as obras de civilizagéo © apdia sua argumentagao sobre uma anélise critica da tradicao filoséfica. De uma perte, tira seus argumentos de uma imensa e ampla cul- tura pessoal, 0 que Ihe permite escrever tanto com faci. lidade quanto profundidade, sobre uma cangao de Bertold Brecht (Vi, pp. 220 e ss.); 0 simbolismo numa épera de Wolfgang Mozart (VI, pp. 97 e ss.); a obra de Wagner (Vl, pp. 104 € 8.); a significagao Tfilosética do romance 40 policial (VI, pp. 37 @ s5.); ou... sobre 0 encontro dra- matico @ grotesco de um’ pastor com a primeira locomo- tiva a vapor (SP, pp. 207 ¢ ss.). De outra parte, ele ndo ignora nenhum filésofo do passado, por mais heterodoxo ou desconhecide que pos- sa ser. Bloch nao necesita de omitir ou de suprimir a contribuigao de ninguém no passado para melhor sentir-se & vontade no presente. Néo ha para ele nenhuma ne- cessidade de negar a tradigao para se tornar mais mo- demo @ mais participante da modernidade. Ao contrario. € por uma leitura atenta e critica do passado, por um decitramento dos atalhos secretos que tragou a aventura humana ao longo da sua histéria, que pretende Bloch re- novar para realmente inovar. € por uma constante me- ditagao sobre a atualidade do passado, sobre a presenca do passado no nosso presente que Bloch cré no futuro. E pela andlise dos esforgos passados, que se sente a progresséo da humanidade. € pela consideragao das transformagées histéricas, que se adquire a prova que es- tamos no meio de um processo anterior @ posterior & nos- sa aivacdo. & porque conseguimos assim a prova da m danga, que nos é possivel progredir e tender para o que escolhemos. Claro que esta leltura do passado nada tem que ver com uma simples assimilagao dos fatos do passado ou uma consideracao passiva do dinamismo histérico, € uma leitura critica, de maneira a distinguir os verdadeiros minhos dos falsos atalhos — porque o caminho da his- téria nao 6 reto; os objetivos reais, dos valores supostos ou afirmados; as existéncias realmente significativas das biografias tradicionais. Ainda que nao seja s6 uma leitura do passado A luz do presente, esta leitura & motivada pela situagao nossa. Existem, portanto, escolhas em fun- G40 dos imperativos atuais e das possibilidades penden- tes, Esta leitura poder tanto chamar a nés, certos auto- res, supostamente enterrados para sempre no esqueci- mento, como eliminar outros, ainda que sejam conside- rados pela opiniéo comum ou pela tradi¢ao escolésstica: “classicos”, Esta revisdo do passado levard, portanto, a reescrever © reformular a histéria oficial do pensamento ocidental. Assim, Bloch interpretou @ antinomia que Karl a Marx propés, sem resolvé-la: evitar tratar a filosofia e os filésofos passados como um passaco superado, que s6 © marxismo podera eliminar e suprimir para sempre; no entanto, néo se embaracar com uma cultura filosética “‘clssica” que nao 6 senéo um pretexto para esquecer as suas responsabilidades presentes. A histéria da filosotia @ também uma maneira de esclarecer o presente e de se engajar nele. Para se ter uma idéia da maneira original como Ernst Bloch procede em relacdo ao pasado filosofico, para en- tender como a sua re-viséo 6 nova, podemos, por exem- plo, seguir Bloch na sua valoragéo da “esquerda aristoté- ica" que, segundo ele, é uma corrente constante desde Aristételes, para interpretar a realidade de maneira pro- gressiva e moderna (AL). O termo de “esquerda” aqui nao deve enganar. Nao significa que Bloch vai “‘politizar” a filosofia e, ainda menos 0 seu passado. Indica, sim- plesmente, que ao lado uma interpretagao cléssica, tra- dicional @ escoldstica, de “direita” por ser conformista e convencional, existiu sempre uma linha herética que tentou em cada época discernir 0 que era moderno no pensamento de Aristételes. Desta meneira, Bloch consi- dera, como Karl Marx, Aristételes como o “Filésofo” por exceléncia — contra Platéo! — por ter sido o primeiro na tradicao ocidental, a conceber 0 ser como “ser em movi- mento” (PH, pp. 225 @ ss.); 0 real como um “processo que evolui” e que nao se pode identtificar com um estado de coisas imobilizado na eternidade de uma criacdo per- feita e ja acabada; enfim, e talvez sodretudo, porque foi © primeiro filésofo'a acentuar o aquém das coisas @ ndo @ transcendéncia (AL, p. 32). Aristételes, como primeiro filésofo materialista e dialético, permite medir exatamen- te a radicalizacéo da interpretacao. Como varias vezes, E. Bloch se referiré a esta tra- digo aristotélica de esquerda, nos parece util resumir 0s grandes passos que marcard esta tradigéo até uma outra esquerda — “a esquerda hegeliana”. Na realidade, 0 materialismo e a dialética em Aris- t6teles s6 foram descobertos aos poucos. A esquerda aristotélica comeca na realidade por Avicena (anos 980-1037). Foi este filésofo arabe que radicalizou as 42 premissas aristotélicas quando insistiu sobre a_impor- tancia da atividade do intelecto humano (AL, p. 20). A\ vidade que nao € 56 peculiar ao homem, mas participa do movimento mesmo da matéria animada, segundo Avi cena, por um principio din&mico. A natureza € dindmica 6 uma “natura naturans” “porque esté inundada do de. sejo de realizagdo” (AL, p. 33). Existe uma profunda correlagao enire a atividade intelectual para entender o real e 0 dinémico que anima a propria natureza. Assim, pela primeira vez, se tentou superar no pensamento oci- dental 0 dualismo ainda implicito em Aristételes. Avicena esboca a primeira interpretagao monista e dialética, que permite de uma vez 86, entender o dinamismo comum 20 homem e @ natureza, ao espirito © & matéria (PH, pp. 235 e ss). Esta relagdo ¢ dialética no sentido de que é a matéria que dé as condicdes de realizagao da atividade humana, mas é por sua vez transcendida pelo espirito que anima o homem (AL, pp. 39 € ss.). © imputso dado por Avicena devia acentuar-se pro- gressivamente, e se aprofundar na Idade Média, quando os grandes heterodoxos medievais estudaram Aristételes através dos seus intérpretes arabes, Assim fizeram David de Dinant (por volta do ano 1210) e, sobretudo, Joaquim di Fiore (anos 1145-1202). Neste ultimo caso, 0 dinamis- mo césmico comeca a se estruturar, a partir da idéia das fases da evolucdo humana. O que era abstrato jé comeca a tomar — 6 verdade: de uma maneira mitolégica — as aparéncias, ao menos, de uma Histéria. O real entéo é interpretado numa evolugao ritmada por trés etapas, das quais a Ultima Joaquim di Fiore anuncia como sendo o momento de uma modificacao total deste mundo, a fim de que entremos na perfeicdo do terceiro grau, repre- sentado pelo Reino do Espirito Santo (PH, p. 1003). Assim comeca a surgir a idéia de que o mundo néo s6 evolu, mas deve ainda se transformar profundamente, de uma maneira radical; o primeiro esboco, portanto, da idéia de uma “revolucéo”. Este dinamismo se acentuard ainda mais, na obra de Nicolau de Cusa (anos 1410-1464); e evoluiré para o “ate'smo humanista” de Giordano Bruno {ano 1548 — queimado em 1600). 43 Com Bruno, vamos além da relagao, mais ou menos harménica, entre uma natureza que evolui progressiva- mente e de maneira suave (AL, pp. 30 ¢ ss.) e uma at Vidade humana e intelectual, que compreende este mo- vimento por um esforgo de identifcacao. Trata-se de uma tenséo violenta entre uma matéria incandescente (“glihend”) de qualidades novas que provoca uma re- Novagao profunda no ser humano (“os turores heréicos") A harmonia de um certo mundo fechado sobre si mesmo se desfaz, para nos introduzir num mundo em expansao, profundamente violentado sob o impacto das descobertas © das primeiras tentativas de interpretar cientificamente o universo. No entanto, 0 humanismo de Bruno néo vai ainda a8 suas Ultimas conseqiiéncias. Bruno néo chegou a dis- cernir — malgrado seus inquisidores que o acusavam de um franco ateismo — que o motor deste movimento era a prépria atividade humana (PH, p. 994). O seu humanismo era ainda preso de uma visao tradicional da realidade, passo decisive para 0 ateismo s6 foi realizado pelo estranho médico e filésofo alquimista Paracelso (anos 1493-1541). Segundo ele a atividade humana, para se de- senvolver plenamente em fungao das suas possibilidades reais, deve transformar-se num “humanismo integral” Prometeu. Este audacioso passo deu-se através de uma reinterpretagao da alquimia que, longe de propor uma vi- 80 arcaica e magica do mundo, era, simbolicamente, um primeiro esforgo para a constituigao de uma ciéncia e Para o dominio concreto e efetivo da natureza (PH, p. 789). Aqui, também, convém n&o misturar o progressive cop 0 reacionério; ‘0 que vai para frente e o que olha Para trés. Para entender a importéncia da alquimia, de- vemos comparé-la com uma outra técnica tradicional, tao importante social e historicamente (13) — a astrologia. A astrologia faz depender a aco humana do curso dos astros. Obriga a um estudo sempre mais atento do uni- verso. Ao invés de libertar 0 homem, o escraviza a um destino pré-estabelecido @ mecanico. A alquimia 6 uma técnica pela qual o homem pretende manifestar um poder ativo sobre a matéria. O alquimista tenta fabricar, mu: tando as matérias, 0 absoluto concretizado no ouro. Se trata de um poder positive, porque este absolute é a 44 matéria mais preciosa do mundo: 0 ouro. A alquimia 6 uma técnica — imperfeita quanto ao seu alcance e ao seu contetido (quando se pensa nas possibilidades reais que a quimica propde hoje) — mas, modernissima pela maneira de compreender o papel do homem. Na alqui- mia, 0 homem aparece como sujeito, criador e dominador da natureza cujas leis pretende penetrar para melhor mo- dificé-la. Mas também para o alquimista, a natureza exis- te para que seja mudada. Ela Ihe ¢ oferecida como campo de atuacdo e de realizacao. A aiquimia € 0 primeiro surto sistemético para inverter a ordem natural em vez de se submeter a ela. E 6 assim que na alquimia, e, em par- ticular, na obra de Paracelso, podemos discernir as ori- gens de um pensamento moderno que, procedendo de bai- Xo para cima, recusa uma visdo fatalista © absolutista do universo, que a astrologia confirma ao atuar de cima para baixo, subjugando o homem as fases de um destino imu- tavel (PH, pp. 744 e ss. e p. 1.595). Que a alquimia ndo se perdeu no esquecimento prova-se pelo fato de que o conceito, quase o “slogan” tdo sugestivo do triunfo no século XVIII da Razdo e da Ciéncia na Alemanha: “Aut- klarung” (A iluminagao racional) pertence justamente & linguagem esotérica dos alquimistas. E possivel estabelecer um elo através dos séculos entre Paracelso, reinterpretado e posto em justas perspec- tivas histéricas, o Leibnitz (PH, pp. 742 @ ss.), visto que ambos tentaram pensar o possivel até as suas mais ra- dicais conseqiéncias (PH, p. 1.008). Paracelso fazendo-o ainda de uma maneira quase simbélica @ indireta: pela mutagao do chumbo em ouro, isto 6, pela inverséo da ordem natural da matéria, Leibnitz imaginando e sistema- tizando uma interpretagéo do mundo “como paisagem da perfei¢ao do homem” (PH, p. 1.007). Na obra de Leibnitz, Ernst Bloch reencontra o que ja Ihe parecera tao essen- cial em Aristételes: 0 real animado pela inquietude do pro- vavel. Embora que 0 “Filésofo” 0 pensasse “sub specie aeternatis”, Leibnitz 0 pensa “sub specie perfectionis” Anuncia assim, 0 tema da “tendéncia”, isto é, de um principio que animaria 0 cosmos inteiro, quer seja atra- vés da acdo humana que tende para a plenitude, quer 45

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