You are on page 1of 1

Universidade Estadual de Campinas – 3 a 16 de abril de 2006

11
Historiador aborda a especificidade da área em palestra que encerrou o II Encontro de História da Arte

Horizontes e fronteiras da
história da arte, segundo Coli
Fotos: Antoninho Perri
LUIZ SUGIMOTO
sugimoto@reitoria.unicamp.br O encontro
organizado
professor Jorge Coli, convi-

O dado para fazer a palestra de


encerramento do II Encontro
de História da Arte na Unicamp, foi
por alunos de
pós-graduação já
virou referência
direto à questão logo que abriu sua
fala: “História da Arte é uma discipli- Estando apenas em sua
*** na histórica e não uma disciplina ar- segunda edição, o Encontro
tística”. Coli se dirigia a uma platéia de História da Arte,
especial, uma vez que o evento, orga- organizado por alunos da
nizado por alunos de pós-graduação pós-graduação do IFCH, já
em História da Arte do Instituto de se tornou o maior evento de
Filosofia e Ciências Humanas História da Arte do Brasil.
(IFCH), atraiu centenas de pessoas Entre 26 e 29 de março, perto
ligadas ao tema e que vinham de vá- de 300 pessoas
rias regiões do país. “Trata-se de uma acompanharam o evento,
questão essencial mas pouco pensa- que apresentou 140
trabalhos. “Esse encontro
da no Brasil. Quando procuramos re- nasceu em 2004 e vem
ferências no CNPq e em outras agên- cumprindo o objetivo dos
cias de pesquisa, a História da Arte pós-graduandos de promover
está relacionada não com a História, um espaço de discussão
mas com as Artes”, observa. para estudantes de todo o
A primeira pós-graduação especí- país que estejam envolvidos
fica em História da Arte no país foi com a história da arte. São
criada justamente poucos os eventos nessa
Criação da no IFCH da Uni- área e, por isso, quase todos
camp, em 1989, os trabalhos apresentados
primeira como lembra Jor- são inéditos, ou sequer foram
pós-graduação ge Coli. Ele lem- defendidos como teses ou
bra também que o dissertações”, afirma o
pelo IFCH Instituto de Artes professor Marcos Tognon,
foi alvo de se levantou em que atuou na coordenação. A
programação incluiu o
protesto, reivin-
polêmica dicando a matéria lançamento dos anais do
como de sua esfe- encontro de 2004.
ra. “Acabamos chamando uma Em meio às 140 O professor Jorge Coli fala a
comunicações, professores uma platéia especial de
reunião, que na verdade foi um de- convidados ofereceram
bate intelectual, até que as pessoas pós-graduandos: “A História
conferências. “Na primeira da Arte é uma disciplina histórica”
ficassem convencidas de que o his- edição vieram conferencistas
toriador da arte é, de fato, um histo- de São Paulo e da Bahia e,
riador”, afirma. Remetendo a uma agora, convidamos
comunicação que assistira antes de professores do Rio de
sua palestra, sobre desenho, o pro- Janeiro e Minas Gerais.
fessor ressaltou que a importância Estamos abertos a todos que
deste gênero não transforma seu façam uso de história da arte
artista em historiador da arte – este como suporte para suas
trabalha com arquivos e métodos. pesquisas. Daí a presença,
“Da mesma forma, o arquiteto que além de historiadores da arte,
pretende se transformar em historia- também de psicólogos,
dor da arte precisa ele mesmo se trans- antropólogos, cientistas
formar. Ele não pode ser historiador sociais, das mais variadas
da arquitetura enquanto arquiteto”, disciplinas”, conclui Marcos
insiste. Tognon.
Jorge Coli atenta, porém, para a
especificidade da História da Arte,
visto que seu objeto de estudo é di- ferente para o sujeito observador, tífico, que é dirigido de maneira es-narração X interpretação
ferente daqueles focados pelos de- que então passa a atentar para novos trita por procedimentos teóricos e
mais ramos da História. “A nossa sentidos. É com esse objeto que o voltado a experiências precisas, em
cultura ocidental criou esta palavra historiador da arte precisa lidar”, seu grupo cada pesquisador vai bus-
chamada arte, mas ela não é apenas exemplifica. car o objeto de seu interesse. “Para
classificatória, é uma palavra criado- o objeto em sujeito nós, o processo de conhecimento
ra. A palavra arte cria objetos artís- Paradoxo – O paradoxo, segun- passa pela narração e pela percepção
ticos. No passado, a idéia de arte era do o professor do IFCH, é que ao das coisas”, justifica. O professor *
um pouco diferente e podia estar mesmo tempo em que a arte dispõe acrescenta que enquanto a história,
ligada, por exemplo, a noções do do objeto, ela também transforma por si, é uma narração verdadeira, *
belo, à bela arte. Quando se desco- esse objeto em sujeito. Por isso, vê onde existe uma dimensão de rigor, *
bria a beleza de um objeto criado uma diferença essencial entre o do- a obra de arte, como os grandes pro-
pelo homem, então se tratava de um cumento histórico e a obra de arte. jetos teóricos, é interpretativa. “Ape-
objeto artístico. Agora, isso não fun- “O documento é um traço do passa- nas os grandes projetos teóricos a-
ciona mais”, afirma o professor. * do, que nos auxilia e nos dá pistas so- presentam uma interpretação am-
Para citar um caso célebre, Jorge * bre fatos que queremos entender. Já pla do mundo”.
Coli recorre ao mictório exposto em * a obra de arte continua emitindo sentidos parciais O professor Marcos Tognon, coordena-
museu por Marcel Duchamp, que já sentidos no correr do tempo. A ques- Mesa grande – Quando questio- dor do II Encontro de História da Arte:
tendo seu prestígio consolidado em tão para o historiador é enfrentar a nado sobre o que é mais importan- espaço consolidado de discussão
1917, escondeu-se sob um pseudô- obra de arte como sujeito, indo bus- te para o historiador da arte, Jorge
nimo. O objeto considerado a prin- car nela esses sentidos, sempre com Coli brinca: uma mesa grande, onde geologia é a ciência da terra ou i-
cípio vulgar, instalado de ponta- a consciência de que está buscando se possa dispor e se debruçar em conologia a ciência das imagens, me-
cabeça, se transformou quando o sentidos parciais”, pontua. cima dos enormes volumes de arte. todologia é a ciência dos métodos.
autor se revelou. “Aquilo que era Entrando na discussão sobre arte “Isso não deixa de ser verdade, mas Creio que a matéria é sobre artes e
*** uma brincadeira do artista, a partir e teoria, o professor Jorge Coli opina existe uma qualidade fundamental, não sobre métodos. Na maioria das
emissãodo momento em que foi instaurado que a teoria exige um processo in- que é a ética. É a postura do histori- vezes as pessoas usam a palavra me-
como objeto artístico, começou a terpretativo complexo, mas ao mes- ador da arte diante da obra. Se estou todologia, ao invés de simplesmente
de senti-emitir sentidos, sentidos que não mo tempo muito simples. Já a obra de tecendo um discurso que vai permi- método; ou metodológico, no lugar
dos eram percebidos antes. Existe na arte segue emitindo sentidos que tir entender melhor a obra, então de metódico”.
palavra arte um poder sacralizador, vamos captando segundo os mo- preciso ser rigorosamente ético com De qualquer forma, na visão de
poder capaz de fazer com que alguém pas- mentos, as épocas, e que por isso são ela, obedecendo as indicações que Jorge Coli, não há método que se
sacra- se a prestar atenção no objeto de ou- parciais. “A obra de arte, enquanto está me dando. Ao mesmo tempo aplique para o historiador da arte,
tra maneira”, ressalta. * sujeito, não é algo estável, ela se mo- * em que se procura entender o obje- ou mesmo para o historiador de ou-
lizador Na opinião de Coli, o museu extrai difica com o tempo, muda aos nos- to, é preciso se submeter a ele”. tras áreas. “De nada adianta aplicar
da pala-o objeto de seu contexto, esvazian- * sos olhos, oferecendo para cada ge-
* O historiador da arte também não determinado método para compre-
vra arte do-o de seu sentido utilitário e trans- * ração uma leitura diferente. A obra * recorre a métodos. Longe de parecer ender o período da civilização roma-
formando-o em pura arte. “Uma vir- vai continuar sendo pertinente, mas deselegante, Jorge Coli atentou para na. Não funciona. O historiador pre-
gem de Rafael sempre foi algo belo, os ângulos mudam”, explica. um equívoco na programação do e- cisa ler muito, conhecer muito a ci-
mas era uma virgem, destinada à Jorge Coli informa que ele e outros vento no IFCH, anunciando uma das vilização romana, como se sentisse
adoração. Quando foi transportada pesquisadores estão prestes a assu- mesas-redondas sob o tema “Debate dentro dela. Com a obra de arte é *
*** para o museu deixou de ter esta fun- mir um projeto da Fapesp, visando acerca dos desafios metodológicos da assim: precisamos nos sentir junto *
museu: ção religiosa e ganhou uma função a criação de um banco de dados so- pesquisa em Arte no Brasil”. “O ter- do objeto e aos poucos ir perceben-
sacralizadora. A arte escolhe um ob- bre a representação do corpo. Mas, mo metodologia é usado de maneira do suas dimensões e significação, *
extrai jeto e o dispõe de uma maneira di- diferentemente de um projeto cien- errada em todas as instâncias. Se quem podem ser inclusive teóricas”.
o obje-
to do seu contexto, esvazia seu sentido
ausência de métodos
utilitário e transforma-o em pura arte.