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JUSTIÇA SOCIAL: PRINCÍPIOS A ELA ASSOCIADOS E A IMPORTÂNCIA DA SUA CONJUGAÇÃO COM OS TRIBUNAIS

JUSTIÇA SOCIAL: PRINCÍPIOS A ELA ASSOCIADOS E A IMPORTÂNCIA DA SUA CONJUGAÇÃO COM OS TRIBUNAIS COMUNITÁRIOS OBJECTIVANDO A REVITALIZAÇÃO DA SOCIEDADE.

Ronaldo Marcio de Campos Celoto

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RESUMO

Este texto pretende contextualizar a justiça social através do resgate dos seus princípios do bem comum, subsidiariedade, solidariedade e dignidade da pessoa humana; destacar a importância dos Tribunais Comunitários (TC) como auxiliares à justiça social e desburocratização das normas e procedimentos jurídicos estatais, e, por fim, pugnar pelo reforço do Estado e de suas instituições como catalisadores da sociedade e vitalizadores destes TC, e consequentemente, da justiça social.

Palavras-chave: Justiça social; bem comum; tribunais comunitários; Estado; solidariedade; dignidade; subsidiariedade; sociedade.

ABSTRACT

This text aims to contextualize social justice through the redemption of its principles of the common good, subsidiarity, solidarity and human dignity; highlight the importance of the Community Courts (TC) as aids to social justice and (de) bureaucratization of the state legal norms and procedures, and finally, strive for the state strengthening and its institutions as catalysts of society and vitalizing these TC, and consequently, of social justice.

Keywords: Social justice, common good, community courts, State, solidarity, dignity, subsidiarity; society.

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ÍNDICE

I Gênese e Estrutura do Conceito de Justiça Social 3

I. 1 A Justiça Geral de acordo com Aristóteles 3

I. 2. A Contribuição de Tomás de Aquino: A Justiça Legal e a Justiça

Comutativa 4

I. 3. De Justiça Legal Para Justiça Social: Da Adequação Conceitual com Base

na Percepção de uma Sociedade Democrática até a Verificação de uma Estrutura

Institucional

a atender os Princípios da Necessidade, Mérito e

de

modo

Igualdade 5 II Princípios Associados à Justiça Social 8

II.

1. O Princípio do Bem Comum 8

II.

2. O Princípio da Subsiariedade 9

II.

3 O Princípio da Solidariedade 11

II.

4 O Princípio da Dignidade da Pessoa Humana 11

III. A Justiça Social sob a Óptica Jurídica e sua Conjugação com os Tribunais Comunitários 13

III.

1. Justiça Social e Acção Afirmativa 13

III.

2. A Justiça Social Através dos Tribunais Comunitários 16

III.

3. A Importância do Estado no Reforço do Papel dos Tribunais Comunitários

17 IV. Conclusão 19 Referências Bilbiográficas 20

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JUSTIÇA SOCIAL: PRINCÍPIOS A ELA ASSOCIADOS E A IMPORTÂNCIA DA SUA CONJUGAÇÃO COM OS TRIBUNAIS COMUNITÁRIOS OBJECTIVANDO A REVITALIZAÇÃO DA SOCIEDADE.

I Gênese e Estrutura do Conceito de Justiça Social

I. 1 A Justiça Geral de acordo com Aristóteles

A concepção de justiça foi inaugurada por Aristóteles como sendo “a virtude que nos leva a desejar o que é justo 1 ”. De acordo com as observações por ele colhidas "as leis se referem a todas as

coisas, visando o interesse comum (

para a comunidade

política 2 ". Esta ideia de legalidade atribuida à justiça determina a primeira das três

concepções aristotélicas: a da justiça geral. A seguir à mesma, tem-se a justiça distributiva e a justiça corretiva que se enquadram à justiça particular, onde “o padrão do que é devido é dado pela noção de igualdade 3 ”.

A justiça distributiva seria aquela “que se exerce nas distribuições de honras,

Assim, neste primeiro sentido, chamamos justo

(dikaion) aquilo que produz e conserva a vida boa (eudaimonia) (

).

)

dinheiro e de tudo aquilo que pode ser repartido entre os membros do regime (politeia) 4 ”. Na democracia, por exemplo, o critério de distribuição oferecido por esta justiça seria a própria condição de liberdade, de ser humano livre.

A justiça corretiva seria a justiça que “que exerce uma função corretiva nas

1 ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco, 1, 1129a.

2 Id., op. cit. v. 1, 1129b. 3 BARZOTTO, Luis Fernando. Justiça Social Gênese, Estrutura e Aplicação de um Conceito, in Revista da Procuradoria Geral do Município de Porto Alegre, nº 17, Porto Alegre: PMPA, 2003.

4 ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco, V, 2, 1130b.

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relações entre os indivíduos 5 ”, tendo o juiz como sujeito que busca o restabelecimento desta igualdade. A ideia é simples: “Segue-se da ação cumprida por um e sofrida por outro, uma divisão desigual. O juiz tenta restabelecer a igualdade, concedendo algo à vítima (aquele que perdeu algo), e tirando alguma coisa do agressor (aquele que ganhou algo) 6 ”.

I. 2. A Contribuição de Tomás de Aquino: A Justiça Legal

Tomás de Aquino acresceu o Direito Romano à concepção aristotélica, de modo

ordena o homem com relação a outrem, o que pode ter

lugar de dois modos: primeiro, a outro considerado individualmente, e segundo, a outro em comum, isto é, na medida em que aquele que serve a uma comunidade serve a todos os homens que nela estão contidos 7 ". Com esta concepção, Aquino quis dizer que a justiça legal não resume, por si só, e, tampouco esgota o conceito de justiça 8 . Por exemplo: um soldado que, durante a guerra não desiste do combate pratica um acto de coragem que não é devido a um membro específico da comunidade, mas para toda a comunidade. Mas como regular o que é devido aos membros da comunidade com relação à distribuição (justiça distributiva) e as trocas (justiça comutativa)? A resposta está na justiça particular. No concernente ao conceito de justiça distributiva, este encontrou um alcance maior. Em Aristóteles, a justiça distributiva existe na comunidade política. Tomás de Aquino estendeu-a a todas as comunidades, como por exemplo, as comunidades de moradores, as comunidades familiares, as comunidades educadoras, entre outras. A justiça comutativa, que substituiu o conceito de justiça corretiva, ampliou também o espaço de actuação. Em Aristóteles, o juiz era o único autor possível para aplicar esta ‘correção’ no seio social. Já o ‘comutador’, que é o sujeito de actuação da justiça comutativa, é qualquer pessoa, desde que engajada em uma relação, por exemplo, de troca (Aquino, 2001 [1265-1273]).

a concluir que “a justiça (

)

5 Id., V, 2, 1131a.

6 Id., V, 4, 1132a.

7 TOMÁS DE AQUINO, Suma Teológica, II-II, q. 60, a. 3.

8 BARZOTTO, Luis Fernando. Justiça Social - Gênese, estrutura e aplicação de um conceito’. Artigos, Pareceres, Memoriais e Petições. Op. cit.: “A justiça legal não esgota o conceito de justiça. É necessário o desenvolvimento da justiça particular”.

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I. 3. De Justiça Legal Para Justiça Social: Da Adequação Conceitual com Base na Percepção de uma Sociedade Democrática até a Verificação de uma Estrutura Institucional de modo a atender os Princípios da Necessidade, Mérito e Igualdade.

Em uma sociedade democrática, o conceito de dignidade é certamente o mais próximo de conceber a ideia de igualdade absoluta de direitos e deveres iguais para todos. A sociedade, ai, é o sujeito principal, e, não mais a lei, para que possa ser alcançado o bem comum, sendo necessária uma adequação conceitual que vá da justiça legal para a justiça social. Afinal, se todos possuem a mesma dignidade, a igualdade fundamental entre os membros da comunidade não é proporcional, mas absoluta. Não é, portanto, a justiça distributiva, baseada na igualdade proporcional, o princípio ordenador da vida em sociedade, mas a justiça legal, fundada em uma legalidade que afirma a igualdade de todos os seres humanos como membros iguais da sociedade. Como a lei impõe direitos e deveres iguais para todos, a justiça legal torna-se justiça social, aquela em que todo membro da sociedade vale tanto como qualquer outro, e todo ato em conformidade com a lei redunda, beneficia igualmente a todos. Na sociedade democrática, desloca-se a ênfase do meio utilizado para alcançar o bem comum - a lei - para o sujeito do bem comum - a sociedade em seus membros - justificando a mudança de denominação, de justiça legal para justiça social.(BARZOTTO, 2003) Louis Taparelli d’Azeglio, no seu livro Saggio teoretico di diritto naturale, de 1840, foi o primeiro autor a falar em justiça social. Para ele: “A justiça social é para nós a justiça entre homem e homem”. O homem, para ele, é “dotado somente do requisito de humanidade, considerado como puro animal racional", e, suas relações devem exprimir- se em “perfeita igualdade, porque homem e homem, aqui, não significam senão a humanidade reproduzida duas vezes” (TAPARELLI d’AZEGLIO, Louis. Saggio teoretico di diritto naturale, p. 183). Westell Willoughby (1900) entendia que a expansão do conhecimento era responsável por gerar uma demanda natural por justiça social. Para ele: “Os povos de todos os países civilizados estão a submeter as suas condições sociais e económicas às mesmas provas de equidade e de justiça com que já se questionaram no passado a legitimidade das instituições políticas”. A sociedade, tanto em Willoughby como posteriormente, em Hobhouse (1922), era encarada como “um organismo em que o desbabrochar de cada um dos seus elementos requer o concurso de todos os outros, consistindo o objectivo da justiça social

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em determinar os arranjos institucionais que permitirão a cada pessoa contribuir

plenamente para o bem-estar social”. David Miller (1998) defendia que a combinação de necessidade, mérito e igualdade, em virtude das diferenças entre os grupos sociais, era suficiente para configurar uma teoria da justiça. Para ele: “A menos que tenhamos a ideia de que a sociedade é constituída por partes interdependentes, com uma estrutura institucional que afecta as perspectivas de cada um dos seus membros individualmente e que é susceptível de ser reformada desta ou daquela maneira, a justiça social continuará a ser uma expressão sem significado”. Hayek (1978) muito embora não seja objectivo deste texto analisar a justiça social sob a óptica econômico-política ou alertar para os riscos de sua desvirtuação conceitual entendia o conceito de justiça social como um aditamento novo e perigoso ao vocabulário político. Tal assertiva sugere algumas indagações, evidentemente, e, um bom exemplo é a verificação oferecida pelo próprio Miller, ao questionar os diferentes tratamentos que os indivíduos recebem sob a óptica comparativa a ser observada pela

por que há-de A os direitos que B não tem, por que há-de o

rendimento de C ser muito mais alto do que o de D, e assim por diante”, e, obviamente,

justiça social: (

)

permite uma observação crítica da actuação do Estado Social com relação às políticas públicas e normas que configuram um interesse que vai além da realidade da justiça social, mas que são equivocadamente entendidas como resultados de sua acção. É que a justiça social, enquanto inserida e utilizada na conjectura da acção política e do papel do Estado na vida económica e social, de modo a fomentar políticas públicas chamadas de ‘sociais’ e conduzidas pelo Estado-Providência na saúde, educação, habitação, segurança, assistência social principalmente sob os olhares acadêmicos daqueles que defendem a responsabilidade individual centrada no indivíduo como garantidor do seu próprio bem-estar e de sua família, e, nunca as instituições públicas tem sido referenciada como geradora de prejuízos não somente no aumento do sector estatal e nas despesas, mas favorecem a própria perda humana. Considerável crítica a este respeito foi tecida na Encíclica Centesimus Annus:

“Ao intervir diretamente, irresponsabilizando a sociedade, o

Estado assistencial provoca a perda de energias humanas e o aumento exagerado do sector estatal, dominado mais por lógicas burocráticas do que pela preocupação de servir os utentes com um acréscimo de despesas. De facto, parece conhecer melhor a necessidade e ser mais capaz de satisfazê-la

] [

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quem

frequentemente, um certo tipo de necessidades requer uma resposta que não seja apenas material, mas saiba compreender

nelas

em:

Centesimus

vizinho. Acrescente-se que,

dela

a

está

mais

exigência

Annus,

humana mais profunda.” (Encíclica

48

Disponível

[

]

Pergunta-se: Por meio da justiça social, seria possível, por exemplo, promover uma distribuição de bens em decorrência das necessidades individuais de cada ser humano? E, esta distribuição de bens seria capaz de atender aos preceitos de dignidade da pessoa humana? Pode o mercado suportar esta distribuição? Como poderíamos olhar para uma sociedade vivente dentro de um mercado devidamente regulamentado, e, entende-la como ‘justa’? Teria ela de oferecer oportunidades iguais e leis antidiscriminatórias? Tais questões não podem ser respondidas sob a óptica da justiça social sem estabelecer relações com outros conceitos. Não é o Direito, nem a Economia, nem a Ciência Política, entre outros, que serão capazes de responder a estas de maneira isolada. É necessário, primeiramente e principalmente, que o ser humano venha a compreender que a sociedade civil é muito maior e mais importante do que Estado. É a sociedade o elemento responsável pela gênese do princípio da subsidiariedade. Não pode esta, jamais, negar o seu papel em relação ao Estado, e, principalmente, deve ela concebê-lo a um patamar mais rico. José Manuel Moreira (2002), a este respeito, tece algumas considerações acerca da importância das sociedades genuinamente livres, e, sua capacidade de potenciar o próprio desenvolvimento de suas instituições:

] [

pleno desenvolvimento das instituições próprias da sociedade civil estão divididas em três sistemas de liberdade

“As sociedades plenamente livres – as que potenciam o

(independentes, ainda que interdependentes): o político, o

(MOREIRA, José Manuel.

(2002). Ética, Democracia e Estado. Principia. São João do

Estoril, p. 98).

económico e o moral-cultural.” [

]

Os seres humanos, notoriamente, tém plenas condições de realizar melhorias uns pelos outros por meio de organizações, associações, tribunais comunitários objecto de estudo neste texto sem a necessidade de esperar por burocracias, morosidades e

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antagonismos de seus governantes. Pudessem os governos, preocupados em contribuir para esta acepção, conceber leis, políticas e planos económicos que fossem capazes de incentivar os cidadãos a uma espécie de ‘conversão’, de si próprios, em activistas do seu próprio bem. A digidade da pessoa humana enquanto princípio estabelece todos os seres humanos na condição de sujeito e fim de todas as instituições por onde ele se relaciona e se insere no contexto de sua vivência social 9 .

II Princípios Associados à Justiça Social

II. 1. O Princípio do Bem Comum

Bem comum não é e jamais deverá ser confundido com bem governamental. Tampouco o princípio ao qual ele se refere é parte desta identificação equivocada. A governamentalização da sociedade civil de forma excessiva afasta-a demasiadamente da busca pela realização do bem comum enquanto um dos princípios idealizados da justiça social. E condiciona-a na situação similar a de um torcedor em uma partida de futebol, à espera que o seu clube lhe forneça o bem desejado, que, no caso, é o golo. O Concílio do Vaticano, em sua Gaudium et Spes (1966), definiu o bem comum como como sendo “o conjunto daquelas condições da vida social que permitem aos grupos e a cada um dos seus membros atingirem de maneira mais completa e desembaraçadamente a própria perfeição”. No campo do Direito, por exemplo, o Direito Penal atinge uma perspectiva similar a de realizador de uma justiça social, pois protege a pessoa humana de forma universal, e, não um ou outro indivíduo de formas diferentes. Considera-se a ofensa a um único indivíduo uma ofensa a toda uma sociedade, e, a resposta a esta ofensa de modo a promover o bem comum é assumida pelos órgãos responsáveis, que, ao

9 “Desde a encíclica Rerum Novarum, o Magistério Romano tem ressaltado que a sociabilidade do homem não se esgota no Estado, mas realiza-se em diversos corpos intermediários, desde a família até aos grupos econômicos, sociais, políticos e culturais. Tais corpos intermediários são os principais garantidores da liberdade individual e do funcionamento das instituições políticas de uma sociedade, conforme demonstrou Alexis de Tocqueville (1805-1859) na clássica obra ‘A democracia na América(1830 / 1835). Tais corpos intermediários são provenientes da própria natureza humana, visto que é uma característica intrínseca do homem se relacionar com seu semelhante e formar diferentes tipos de comunidades, como sabiamente afirmou o monge trapista Thomas Merton (1915-1968): Nenhum homem é uma ilha’”. (IORIO, Ubiratan. Princípios, Valores e Instituições de Uma Sociedade Livre e Virtuosa. Rio de Janeiro, 2006. Disponível em http://www.ubirataniorio.org/antigo/virtuous.pdf)

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verificarem a injustiça social no campo jurídico (evidentemente, de acordo com as normas que estejam em vigor para tipificar tal injustiça), quantificam e aplicam ao agente a pena respectiva. Pela analogia supra atribuida ao Direito Penal, pode-se traduzir o bem comum com resultante directo dos princípios da igualdade, universalidade e dignidade dos seres humanos, pois é por ele que a justiça social busca um sentido em sua actuação. Mas atribuir este mesmo bem comum meramente aos bens materiais resultantes de

políticas públicas como, por exemplo, bolsa família, cestas-básicas, salário-natividade, renda mínima é afastá-lo da condição exigente da participação da sociedade neste processo, e, condicioná-lo à simples actuação do Estado como agente principal da justiça social, o que, pela linha de pensamento cá defendida, é inadmissível.

A miserabilidade, a burocracia, entre outras bactérias nocivas da sociedade,

poderão sempre ser combatidas, sob a óptica da justiça social, desde que de modo a equilibrar a acção estatal que combine o imediatismo de responder aos riscos produzidos (em curto periódo de tempo, para não condicionar e condenar os supostamente beneficiados à ineficácia e dependência social), por exemplo, pela falta de comida e educação, e o fomento de leis, políticas e planos económicos capazes de incentivar os cidadãos a tornarem-se activistas do seu próprio bem.

II. 2. O Princípio da Subsidiariedade

A liberdade individual e a limitação de poderes ao Estado conjugam-se ao

princípio da subsidiariedade. Todo ser humano deve possuir autoridade e responsabilidade no seu seio social, e, actuar para a construção dos elementos da justiça social sem ter de transferir suas atribuições ao Estado. Esta ideologia presente neste princípio impulsiona que os indivíduos da sociedade civil são os que realmente conhecem e podem se envolver directamente com o problema ofertado, e, uma vez que o transferem ao Estado, deixam de reconhecer a própria dignidade humana 10 e conduz à limitação de conhecimento.

] [

apresenta-se sempre espalhado desigualmente, a negação do

“Como o conhecimento na sociedade é incompleto e

decorre do fato de termos sido criados à imagem e

semelhança do Criador. Assim, remover ou sufocar a responsabilidade e a autoridade individuais equivale a não reconhecer suas habilidades e sua dignidade.” (Id.)

10 Cit.:

(

)

a dignidade da pessoa humana (

)

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princípio da subsidiariedade, que ocorre quando as soluções dos problemas são passadas para o Estado ou para organizações hierarquicamente superiores, na prática, acarreta uma ilusão de ótica, uma crença em um “olho central” que pode enxergar todas as coisas, conhecer todas as necessidades e demandas individuais, regular os setores envolvidos a contento e solucioná-las da forma socialmente correta. Ora, o planejamento central sempre fracassou e haverá de fracassar exatamente porque esse “olho” não apenas não existe, mas principalmente porque jamais poderá existir.(Iorio, 2006: 6).

Outro elemento intrínseco e que acaba por ser potencializado com a actuação da sociedade civil em busca da aplicação da justiça social no contexto político, jurídico, económico, por exemplo e que depende do princípio da subsidiariedade para sua subsistência, é a solidariedade, que, neste texto, também será analisada como princípio basilar da justiça social. Solidariedade, neste contexto, não significa transferência de recursos materiais aos mais pobres. Uma sociedade que vive enraizada à espera que os governantes lhe ofereçam programas governamentais ainda que bem gerenciados e munidos de notória intenção sempre será abastecida por necessidades materiais. Mas não são estas necessidades que completam o ser humano num todo. Elas são paliativas, e, esbarram na burocracia dos trâmites processuais, do desconhecimento da realidade. Obviamente, neste contexto, funcionam melhor as organizações da sociedade civil e as comunidades se mobilizadas em alcançar e garantir os princípios basilares da justiça social. A solidariedade ai, por exemplo, pode nascer desde um acto voluntário que envolva projectos de inclusão social, inclusão digital, e, no caso dos Tribunais Comunitários que serão estudados com mais ênfase no próximo tópico deste texto o desenvolvimento de grupos de Conselheiros e Defensores Oficiosos de modo à objectivar o aconselhamento e resolução problemas no próprio âmbito da comunidade, para “criar solidariedade entre as partes” (Gomes; Fumo; Mbilana; Santos, 2003: 312). E, quem são estes Conselheiros e Defensores Oficiosos? O Conselheiro é alguém que aconselha as pessoas antes de qualquer envolvimento com os juízes. Em outras palavras:

“Quando há problemas, primeiro aconselho as pessoas,

primeiro entre as pessoas, às vezes chamo outras pessoas para dar conselho, só depois é que chamamos os juízes para

(GOMES, Conceição; FUMO, Joaquim;

MBILANA, Guilherme; SANTOS, Boaventura de Sousa. ‘Os

resolver.”

] [

[

]

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Tribunais Comunitários’ in Boaventura de Sousa Santos; João Carlos Trindade (orgs.), Conflito e Transformação Social: Uma paisagem das Justiças em Moçambique. Porto: Afrontamento, Volume II, p. 312).

O Defensor Oficioso, nos dizeres dos autores supracitados, tem “uma atividade específica de ouvir e desqualificar o crime feito de modo a criar a solidariedade entre as partes” (Id.).

II. 3. O Princípio da Solidariedade.

Solidariedade não é simplesmente ter compaixão. É, antes de tudo, um sentido de determinação que objectiva o bem comum. É o ser humano que assume a dívida individual que ele possui com relação à sociedade, pois é ele o grande beneficiário de todas as condições nela existentes, entre as quais: o acesso à justiça, à cultura, ao trabalho, entre outros. Quando assume esta responsabilidade perante o seu meio social, o ser humano eleva o princípio da solidariedade ao patamar de justiça, pois ambas convergem para alcançar o bem comum. Imagine-se, por exemplo, a importância deste princípio em uma sociedade cujos avanços produzidos pela atividade econômica sejam extraordinários e ocorram de forma acelerada, se, através da solidariedade, os seres humanos também puderem acompanhar este processo com actos concretos de interpendência na ética e na justiça social, que possam evitar que este crescimento económico não produza aumento da distância que separa os ricos e os pobres.

II. 4. O Princípio da Dignidade da Pessoa Humana.

O desenvolvimento de uma sociedade deve estar amparado no respeito aos direitos da pessoa humana. A natureza intrinsecamente social de cada um 11 e a sua centralidade herdada e fundamentada principalmente na antropologia cristã, lhe colocam num patamar superior a qualquer ameaça de intervenção de valores terrenos de ordem científica, económica, cultural, judicial (sob a óptica da injustiça). Uma sociedade justa, a partir desta concepção, é uma sociedade que pode garantir a todos os seres humanos, os seus direitos de maneira inalienáves, sejam eles económicos, políticos, culturais,

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jurídicos, internacionais. Outra não é a opinião de Barzotto (2003), de quem novamente recorre-se à citação:

“Não pode haver justiça particular entre sujeitos que já não

sejam considerados como iguais de algum modo. As distribuições e trocas ocorrem no interior de uma comunidade onde as pessoas já se consideram como iguais, em alguma

medida. Para concorrer a uma distribuição ou operar uma troca,

o indivíduo já deve ser considerado como igual aos demais

partícipes da distribuição e troca. Para ser, em ato, titular de um direito de justiça distributiva ou de justiça comutativa, o indivíduo já deve ser considerado, em potência, como sujeito de direito. Em outros termos: para ser considerado como portador de um direito de uma igualdade atual, absoluta ou proporcional,

o indivíduo já deve ser considerado como igual em um sentido

mais

igualdade na dignidade. (

termo que expressa o princípio subjacente à justiça social: a pessoa humana é digna, merecedora de todos os bens necessários para realizar-se como ser concreto, individual, racional e social. Ora, elencar os direitos e deveres derivados da mera condição de pessoa é assumir uma determinada concepção do que é a vida boa, a vida plenamente realizada para o ser humano. A comunidade fundada sobre a dignidade da pessoa humana é aquela em que há um consenso sobre uma determinada concepção de vida boa. Todos consideram a todos como sujeitos merecedores dos bens que integram a vida boa, apenas em virtude da sua condição de pessoas humanas.” [ ]

A dignidade da pessoa humana é o

Esta igualdade básica, absoluta, é uma

] [

básico.

(

)

)

(BARZOTTO, Luis Fernando. Justiça Social Gênese, Estrutura e Aplicação de um Conceito, in Revista da Procuradoria Geral do Município de Porto Alegre, nº 17, Porto Alegre: PMPA, 2003)

Este merecimento de todos os bens necessários é avaliado sob a óptica de que não poderá jamais haver justiça social entre sujeitos, se estes já não forem considerados como iguais quanto à cidadania e a sua formulação deve expressar-se de modo a garantir “a todos a mesma coisa 12 . Poderá haver, posteriormente, distinções entre os

12 Cit.: “A fórmula da justiça social pode ser expressa nos seguintes termos: ‘a todos a mesma coisa.’ ‘Todos’ aqui designa a totalidade das pessoas humanas que compõem a comunidade. A sociedade constitui-se como comunidade no momento em que os indivíduos passam a considerar-se como participantes em um projeto comum de realização de uma determinada concepção de vida boa para os seus membros. Esta concepção de vida boa assume um caráter normativo pelo fato de os bens que a compõem (liberdade, saúde, etc.) serem afirmados como direitos. As pessoas tornam-se partícipes da comunidade quando estão engajadas em um processo de garantir os mesmos direitos para todos. Cada um deve respeitar nos outros os mesmos direitos que exige para si. A contrapartida se impõe: todos têm os mesmos deveres, como membros da comunidade. Deste modo, a justiça social é que forma o laço constitutivo da comunidade, uma vez que a existência da comunidade, depende do fato de ‘todos’, como

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cidadãos necessitados e não necessitados, por exemplo, quanto à destinação de recursos públicos de programas governamentais. Embora, como eu já disse, não corroboro com a idealização de justiça social no campo político, sob o ponto de vista de simples destinação de recursos públicos, mas sim, de forma complementar, em uma sociedade onde poder e público e cidadãos conjugam ideias e estas ideias são transformadas pelo poder público em leis, projectos e iniciativas que permitam a estes cidadãos serem activistas de seu próprio bem comum.

III. A Justiça Social sob a Óptica Jurídica e sua Conjugação com os Tribunais

Comunitários

III. 1. Justiça Social e Acção Afirmativa

Dar “a cada um segundo sua contribuição” e “a cada um segundo sua necessidade 13 ” significa inserir o conceito de justiça distributiva em nome da partilha dos bens. Muito pode ser questionado sobre a injustiça do sistema político e econômico neste processo de partilha, sob a óptica da justiça social enquanto fundamentada puramente na dignidade e na igualdade de todos. Nesse sentido, a simples condição existencial, a condição humana, não é capaz de avaliar pela justiça social, quais os bens que lhe são atinentes. Segundo Barzotto: “Um destes bens é a capacidade de autodeterminação. A ausência deste bem vem negar uma das exigências derivadas da dignidade da pessoa humana. Assim, mesmo que a igualdade proporcional tenha sido preservada, a dignidade foi violada, o que torna o ato em questão injusto do ponto de vista da justiça social: o ser humano não obteve o que lhe é devido em virtude da sua condição de pessoa” (Id.). No Direito, esta “consciência da própria dignidade e a capacidade para pô-la em acção” significa que “cada cidadão tem os mesmos direitos políticos e jurídicos” (WALZER, Michael. Esferas de la justicia, pp. 288 e 286).

membros da comunidade terem ‘a mesma coisa’, isto é, os mesmos direitos e deveres, e não do fato de estarem submetidos a um poder comum, ou habitar o mesmo território.(BARZOTTO, Luis Fernando. Justiça Social Gênese, Estrutura e Aplicação de um Conceito, in Revista da Procuradoria Geral do Município de Porto Alegre, nº 17, Porto Alegre: PMPA, 2003) 13 TOMÁS DE AQUINO, Suma Teológica, II-II, q. 60, a. 3.

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Esta acção afirmativa da justiça social, nas palavras de Joaquim Barbosa Gomes

(2001: 40) constitui “um conjunto de políticas públicas e privadas (

vistas ao combate à discriminação racial, de gênero e de origem nacional, bem como para corrigir os efeitos presentes da discriminação praticada no passado, tendo por objetivo a concretização do ideal de efetiva igualdade de acesso a bens fundamentais como a educação e o emprego. Um exemplo interessante a ser verificado na contramão da efectividade do acesso a estes bens fundamentais é o caso do estudante Allan Bake (1978), que, mediante a política de estabelecimento de quotas para minorias, teve seu ingresso negado na Faculdade de Medicina da Universidade da Cakifórnia, mesmo com notas superiores aos estudantes inseridos no contingente das minorias. A Suprema Corte, embasada na 14ª emenda constitucional dos Estados Unidos, decidiu pela sua inclusão na lista de aprovados, e, pela inconstitucionalidade do programa elaborado pela instituição, mas afirmou a constitucionalidade de programas similares, mas que obedeçam a critérios mais flexíveis (Barzotto, 2003). É evidente, e, isto nos faz pensar, que esta intervenção governamental como pressuposto de aplicação da justiça social, no sentido de estabelecer políticas de acções afirmativas como a reserva de vagas, traduz-se como decorrência da própria exploração e discriminação que as minorias sofreram no decorrer dos séculos. Mas, como se verificaria, por exemplo, a teoria da justiça social sob a óptica das Constituições de diferentes países? Observe-se, por exemplo, que o Direito dos Estados Unidos da América é mais centrado na óptica da igualdade (Sarlet, 2001). No Brasil, por exemplo, o direito assenta-se na dignidade da pessoa humana 14 . A educação, neste caso entendida como o direito social pretendido, é regulada pelo Estado através da garantia do acesso às Universidades, e, a justiça social implícita neste direito é o dever do Estado para com seus cidadãos, no sentido de proporcionar- lhes plenas condições de ensino público e de qualidade, por exemplo. É evidente que, mediante os factores decorrentes das próprias incertezas econômicas, em muitos casos o ensino público, devido a escassez de recursos e de profissionais altamente qualificados, acaba por operar-se de maneira insuficiente em relação aos estabelecimentos de ensinos

) concebidas com

14 Constituição da República Federativa do Brasil Artigo 1º - A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado

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privados, e, cujo acesso não é garantido pela igualdade de condições de concorrência, mas sim, pelas condições económicas de cada um. Não se pretende cá, tecer analogias a respeito, por exemplo, do utilitarismo 15 exigido pela sociedade no caso do estudante referenciado. A ideia do texto é contextualizar a justiça social e seus princípios não apenas no campo jurídico, e, em seguida, observar a importância dos tribunais comunitários para valorização destes princípios e resgate da sociedade civil. Antes de adentrar ao estudo da justiça social e sua conjugação com os Tribunais Comunitários, elaborei um gráfico de modo a demonstrar um simples organograma cíclico a respeito da mobilização da sociedade e do próprio Estado no papel conjunto de garantir melhores resultados à justiça social.

1º Passo: Reconhecimento o papel da sociedade civil dentro de um domínio mais rica e
1º Passo: Reconhecimento o papel da sociedade civil dentro de um domínio mais rica e
1º Passo: Reconhecimento o papel da
sociedade civil dentro de um domínio
mais rica e importante que o Estado, e
não vice-versa.

5º Passo: Avaliação dos resultados por parte da sociedade civil em conjunto com o Estado, deliberações e nosos planeamentos.

2º Passo: Valorização dos princípios associados à justiça social.

4º Passo: Simultaneamente, verificação dos problemas gravíssimos que requerem uma acção assistencial imediata (porém de curto prazo) do Estado.

3º Passo: Investimento em leis, políticas e planos económicos que transformem os membros da sociedade em activistas do seu próprio bem comum. Ex: Criação de órgãos comunitários jurídicos, para evitar morosidades e burocracias judiciais.

15 RICOEUR, Paul. Em torno ao político. São Paulo: Loyola, 1995, p. 115.

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É uma operação cíclica e constante, que pode elevar os patamares de justiça

social pretendidos entre os membros da sociedade civil, e, afastar a dependência exagerada em relação ao Estado e, consequentemente, o direcionamento do conceito de justiça social à simples elaboração de políticas públicas paliativas, mas não socializadoras, integradoras, e, tampouco, capazes de fomentar no meio social a capacidade de confecção do seu próprio bem comum.

III. 2. A Justiça Social Através dos Tribunais Comunitários

A designação de justiça comunitária que ora adopto relaciona-se a um sistema de estruturas de resolução de conflitos cuja actuação assenta em formas de regulação com origem na comunidade, privilegiando meios diferentes dos tradicionalmente propostos pelo Estado. Estas instâncias podem ou não ter algum vínculo com as instituições estatais ou outras; recorrer a formas de actuação e a direitos altamente diversificados; e ser mais ou menos permeáveis à influência do direito e dos mecanismos do Estado” (ARAÚJO, Sara. ‘O Estado Moçambicano e As Justiças Comunitárias’ in CIEA7 # 29:

Conflicto Social y Sistemas Juridicos Consuetudinários. Lisboa, 10/set/2010). Ela difere da justiça concebida em seu modelo liberal, que, entre outras características, é burocrática, hierarquizada, profissionalizada e centralizada no Direito do Estado (Santos, 1992: 37). É sabido que o direito comunitário não é estático 16 , ao contrário, encontra-se em dinamismo constante e suas regras modificam-se em consonância com as transformações sociais e económicas de um povo, bem como suas tradições 17 . Dentro desta concepção, como poderiam os Tribunais Comunitários auxiliar no processo de aplicação da justiça social?

É preciso primeiramente isentar-se de quaisquer concepções pré-estabelecidas a

respeito do que vem a ser o direito e a justiça de acordo com o modelo central. Isto porque este texto tentou, desde o seu início, traçar um panorama histórico do conceito de justiça até a sua adequação à justiça social, mas separando-a das concepções tradicionalmente vigentes, para enfatizar a sociedade e sua importância como agente promotora do seu bem comum, que, se impulsionada pelo Estado através de leis,

16 E. Cotran; N. N. Rubin, Readings in African Law, xix, (1970). 17 KURUK, Paul. ‘El Derecho Consuetudinario en Africa y la proteción del Folclore’ in Boletín de Derecho de Autor vol. XXXVI, nº 2, 2002, p. 6.

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políticas e programas que potencializam este papel, teria resultados de justiça social muito mais significativos no campo económico, político, judicial. A partir desta concepção de justiça social, minha proposta é valorizar, por meio dos tribunais comunitários, a não sujeição a regras procedimentais legais burocráticas e centralizadas no modelo estatal. Também não pretendo descartar a informalização 18 , e, não quero torna-la um elemento nocivo para os Tribunais Comunitários. Ao contrário, entendo como necessário pugnar pelo esforço do Estado para oferecer estratégias de conhecimento e integração dos componentes destes Tribunais e da população local com vistas à sua realidade (e não à realidade imposta pelo Estado em leis centradas na sua concepção), com vistas a dirimir quaisquer consequências negativas à justiça social que pudessem ser causadas pela diversidade de funcionamento e de conhecimento encontradas entre os seus membros, como também, pela dificuldade estrutural 19 . Isto não significa dizer que um ambiente com pessoas menos instruídas ou em piores condições estruturais traga prejuízos à concretização da justiça social. Como já caracterizada no subtópico ‘II.2’ deste texto, o papel do Conselheiro e do Defensor Oficioso, por exemplo, tem extrema importância nesta configuração de justiça social, também no aspecto de diminuição da burocracia estatuída pela justiça nos moldes estatais. Neste contexto de potencialização da sociedade através de leis, políticas e programas que valorizem o seu papel, a informalização não significará despreparo ou desconhecimento. No caso dos Tribunais Comunitários, ela poderá ser considerada como ruptura para com os procedimentos burocráticos e uma agilização das soluções.

III. 3. A Importância do Estado no Reforço do Papel dos Tribunais Comunitários

Michael Novak (1993) desenvolve uma linha de raciocínio importante, à qual me associo neste texto, no sentido de que “o melhor que o governo pode fazer, em

18 GOMES, Conceição; FUMO, Joaquim; MBILANA, Guilherme; SANTOS, Boaventura de Sousa. ‘Os

Tribunais Comunitários’ in Boaventura de Sousa Santos; João Carlos Trindade (orgs.), Conflito e Transformação Social: Uma paisagem das Justiças em Moçambique. Porto: Afrontamento, Volume II, p.

318.

19 Ibid., cit. pp. 321-322: “Por exemplo, um JP mais socializado com os tribunais judiciais, como é o caso dos do TC do Bairro da Liberdade ou do TC da Mafalala, cujo Presidente é também juiz eleito no tribunal Judicial, tenderá a reproduzir mais os procedimentos da justiça judicial. Naturalmente que o grau de instrução tem, também, reflexos no processamento dos litígios, sobretudo, no que diz respeito à sua

o mobiliário é emprestado para as sessões de julgamento por outras estruturas

próximas, ou, nos casos em que os tribunais funcionam ao ar livre, pelos residentes das casas vizinhas. A

maioria dos juízes faz notar falta de papel, cadernos, lápis, canetas”.

redução a escrito. (

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sentido positivo, é catalisar os esforços da sociedade civil, de modo que a cidadania, no

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governo não tem que fazer tudo aquilo de que a boa sociedade necessita. Os seres humanos podem fazer bastante mais uns pelos outros através de associações livres da sociedade civil, do que limitarem-se a tudo esperar via governamental. Sabemos, contudo, que, quando o governo actua como catalisador positivo, é possível desenvolver mais estas atividades do que quando a atividade voluntária actua sozinha”. (NOVAK, Michael. The Catholic Ethic and The Spirit of Capitalism. The Free Press. New York, 1993, pp. 190-191). [grifo meu] O Estado passivo, dentro desta óptica defendida para este texto, ainda é um gigante sem imaginação, sem capacidade de inspirar, descobrir e apoiar as obras da sociedade civil. Mas é possível a sua transformação em Estado activo, por exemplo, em uma situação que é de conhecimento de todos, de que as Igrejas são certamente as instituições que possuem o maior número de membros dentre todas as demais pertencentes à sociedade civil. Imagine-se uma actitude do Estado, por meio dos Presidentes das Autarquias, no sentido de que eles possam incentivar estes líderes religiosos a promover encontros que potencializem a acepção aos princípios inseridos da justiça social: bem comum, dignidade, solidariedade, subsidiariedade. Em seguida, esta acepção é transferida para destacar a importância dos Tribunais Comunitários localizados naquelas regiões. Não tenho dúvidas de que, ao final, ocorrerá um envolvimento natural de líderes comunitários, advogados, profissionais forenses, membros da comunidade interessados em conhecer de perto a realidade dos Tribunais Comunitários e actuar de alguma forma para o desenvolvimento destes, professores, líderes culturais e religiosos que seguem as tradições seculares presentes em cada um dos povos e que possa, de alguma forma, contribuir como Conselheiros nestes Tribunais, entre outras pessoas inseridas na sociedade civil. Não é um papel sequer dispendioso para o Estado, pois ocorre a partir da mobilização natural e da clarificação dos novos fenômenos da justiça, dos ideais de justiça social e das novas instituições populares e comunitárias que se fazem presentes na realidade de todos. Outros exemplos poderiam ser verificados, por exemplo, nas leis de incentivo à formação de líderes comunitários, Conselheiros, entre outros membros actuantes nos Tribunais Comunitários, ainda que se possa questionar até que ponto o distanciamento destes Tribunais das regras gerais do direito centrado no Estado possa promover

seu conjunto, contribua com os seus numerosos e não muito variados talentos. (

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maiores ou menores êxitos de justiça social, mas acredito que este assunto deva ser tratado em outro texto, pois não é objetivo a ser discorrido.

IV Conclusão

A revalorização da sociedade civil não é um mito. A justiça social passa pela

capacidade associativa de cada ser humano em assimilar e tornar prático a busca pelo

bem comum, pelo progresso de sua comunidade, de seu ambiente, de sua cidade. Uma vez vivificada, a própria cidade acaba por inspirar os seus cidadãos a

aprofundarem cada vez mais a justiça social e sua acção afirmativa perante o tempo e o espaço, de maneira cíclica.

O ser humano jamais se esgotará, tendo em vista a sua natureza social, nos

muros edificados pelo Estado. Mas pode este último, enquanto instituição, fornecer

elementos que catalisem, através de leis, programas e políticas sociais, a mobilização da sociedade civil pela busca e não pela espera meramente material de seu bem comum.

O bem comum é muito maior que o simples bem material. Ele associa-se à

transformação do ser humano e de suas capacidades, a edificação da justiça social envolvendo a sociedade como participante neste processo.

Como exemplo importantíssimo desta associação, este texto trouxe a figura dos Tribunais Comunitários, e modo a positivar a sua importância e a pugnar pela

participação do Estado no processo de reconstrução destes Tribunais, mas desde que mantidas as identidades, as não-burocraciase o distanciamento do direito liberal centrado nas leis estatais.

É, antes de tudo, uma humilde proposta a ser analisada.

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