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5/8/2017 Mercury Reader

alias.estadao.com.br

Ensaio analisa performance


do corpo na literatura
brasileira - Aliás - Estadão
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Foto: Tomas Rangel/Flip

O escritor João Gilberto Noll, morto recentemente, está


entre os autores citados em 'A Máquina Performática'

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O livro A Máquina Performática: A Literatura no Campo


Experimental, dos ensaístas argentinos Gonzalo Aguilar e
Mario Cámara, ambos professores de literatura brasileira na
Universidade de Buenos Aires, está dividido em quatro
capítulos, dedicados a revelar um aspecto pouco estudado da
literatura nacional: “A ideia é convocar a performance para
mostrar que sua presença transforma as leituras de uma
obra”. Abrangendo diferentes momentos históricos
(privilegia-se, porém, a época vanguardista, na qual a
máquina performática acelerou seu funcionamento), os dois
primeiros capítulos são dedicados ao século 20, enquanto os
outros, justamente os mais instigantes, adentram o século 21,
tratando, sobretudo o último, das singularidades da literatura
atual.

Do primeiro capítulo, Nudez Sem Vergonha, destacarei o


resgate do Movimento Arte Pornô, dos anos 1980, cujos
textos eram muitas vezes escritos à mão e traziam “marcas
corporais (lábios que deixam uma marca de batom, por
exemplo) como se escrita e corpo fossem parte de um
mesmo devir”. Um dos seus expoentes, Eduardo Kac,
explorou depois o holograma e chegou à arte transgênica,
como somos informados numa breve nota: “Desse modo, em
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uma deriva inesperada, mas lógica em relação às


transformações políticas, Kac se centrou no caráter
performativo da ciência e no papel dos laboratórios na
modificação dos corpos vivos”. É uma pena que os ensaístas
não tenham explorado mais o papel do corpo na obra desse
artista singular, preferindo, em vez disso, propor uma sucinta
genealogia da nudez na cultura brasileira, citando autores
consagrados, como Jorge Amado e Nelson Rodrigues. 

No capítulo seguinte, Mapas Acústicos, Constelações Sonoras,


valorizam as origens modernistas da nossa literatura, fazendo
uma leitura, por exemplo, do célebre poema O Sapo, de
Manuel Bandeira, mas a parte mais reveladora é o breve
comentário, muito perspicaz, sobre o “farfalho” (o não dizer
ou o dizer pela metade), que caracteriza as vocalizações do
romancista João Gilberto Noll: “As leituras públicas de Noll
proporcionam outras interpretações para seus textos,
descobrem em sua prosa caudalosa e dinâmica as marcas
desse farfalho”. Ao caracterizar esse tipo de discurso como
um solilóquio hesitante, os autores concluem: “O farfalho
permite a constituição de uma língua literária sempre
próxima do fracasso e do desvario, é um procedimento que
estilhaça tramas e gêneros”.
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No terceiro capítulo, Espaços: Táticas de Ocupação, o mais


abrangente de todos, os autores citam a carta de Pero Vaz de
Caminha, os pré-modernistas, os modernistas e os pós-
modernistas, e, no final, falam da criatividade no espaço
público do nosso século, com destaque para os saraus, que
utilizam todos os gêneros já estabelecidos: “O corpo que
recita não só se coloca como testemunha de uma vida (e um
pertencimento social), mas também dota os textos de
inflexões coloquiais, gestos de rua e, frequentemente, um
ritmo de rap e hip-hop que combina oposição e
pertencimento”, afirmam. É nesse momento, segundo
Aguilar e Cámara, que a senzala e o quarto de despejo tomam
a palavra na literatura brasileira.

Se a modernidade literária era o tema principal dos outros


capítulos, no último, A Máscara e a Pose, estamos em tempos
de Facebook, mas, curiosamente, o escritor contemporâneo
não está reduzido à sua dimensão virtual. “Desde 2000, a
vida literária no Brasil tem exigido cada vez mais a presença
física do autor, ao mesmo tempo em que sua projeção
virtual”, constatam os ensaístas, que então se debruçam
sobre as feiras literárias. O escritor bem-sucedido é, nesse
contexto, um tipo de figura pública, realizando constantes
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viagens de divulgação no Brasil e no exterior. Porém, sobre o


que escreve o autor contemporâneo? “Sem lugar para grandes
gestos, sem mártires, cínicos ou românticos”, sustentam
Gonzalo e Cámara, no final do livro, “desfazer-se do enigma
do escritor modernista parece ser a performance do
presente”.

Essa “performance do presente” teria, no entanto, um


componente polêmico, a ira. É a tese mais ousada do livro, e
também a mais discutível. Primeiro, os ensaístas afirmam
que, nos últimos anos, “é difícil encontrar na cultura
brasileira momentos de ira”, o que, a meu ver, pode ser
facilmente contestado, oferecendo exemplos de atitudes
irascíveis que nunca deixaram de existir; a seguir,
acrescentam: “Em 2013, entretanto, com o prenúncio da
Copa do Mundo no Brasil, as palavras de Luiz Ruffato no
discurso de abertura da Feira de Frankfurt pareciam anunciar
uma nova performance da ira, talvez em sintonia com as
manifestações de rua então recentes, ainda frescas na
memória dos brasileiros”. O debate sobre a ira
contemporânea está apenas começando, e este livro, fácil de
ler, chama a atenção para sua pertinência e atualidade.

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*Sérgio Medeiros é poeta, dramaturgo e ensaísta. Publicou, entre


outros, os livros 'A Idolatria Poética e a Febre de Imagens'
(poesia) e 'As Emas do General Stroessner' (teatro), ambos pela
editora Iluminuras

A Máquina Performática

Autores: Mario Cámara e Gonzalo Aguilar

Tradução: Gênese Andrade

Editora: Rocco

192 páginas

R$ 34,50

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