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Tribuna da Imprensa

Breve História de um Jornal de Campanha

Universidade Federal do Rio de Janeiro


Centro de Filosofia e Ciências Humanas
Escola de Comunicação
Curso de Graduação em Comunicação (Jornalismo)

Disciplina: História do Jornalismo


Professora Ana Paula Goulart Ribeiro

Trabalho de Final de Curso

Bernardo Mello Franco 10203015-9


Mônica Silva Ribeiro
Pedro Aguiar 10204280-5

Rio de Janeiro, dezembro de 2003

0
ÍNDICE

1. O Jornalismo Brasileiro nos Anos 1950 2

2. A Tribuna de Carlos Lacerda 10

3. A Tribuna de Helio Fernandes 18

4. Estudos de Caso: agosto de 1954, setembro de 2003 30

5. Bibliografia 36

1
O Jornalismo Brasileiro nos Anos 1950

2
Anos Dourados
Na década de 1950, o mundo ocidental começou a viver os anos dourados do
capitalismo. Com o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-45), inaugurou-se uma era de
crescimento que só teria freio no início dos anos 70, com o choque do petróleo. Em virtude
da guerra e da valorização das matérias-primas nacionais, o Brasil foi obrigado a se
industrializar, seguindo uma política de substituição dos produtos importados.
A eleição presidencial de 1950 traria de volta ao palácio do Catete o ex-ditador
Getúlio Vargas, o “Pai dos Pobres”. Vargas tomou para si o posto central nas discussões
políticas sobre o desenvolvimento econômico. A seu ver, era necessária a intervenção
governamental para direcionar o crescimento econômico brasileiro, e esse era um dos
pontos que mais desagradava os seus opositores, que se beneficiavam com a interferência
mais direta do capital estrangeiro, como ocorria no governo de Dutra.
Essa questão fez com que suas relações com a imprensa fossem caracterizadas por
constantes ataques ao presidente, uma vez que os donos e representantes dos grandes
jornais brasileiros da época, resguardando seus interesses econômicos, também se
encontravam em oposição ao ideário nacionalista de Vargas. Além disso,
“embora Vargas tenha sido eleito e governado constitucionalmente neste
período (1950-1954), suas relações com uma imprensa caracterizada pela
combatividade e politização foram profundamente marcadas pelo tratamento
anteriormente reservado pelo Estado Novo aos meios de comunicação de
massa.” 1

Já eleito, Vargas daria início a uma política econômica nacionalista, cumprindo


aquilo a que se propôs durante sua campanha. Esta política nacionalista iria desagradar em
muito a certos políticos, principalmente udenistas, interessados no capital externo. O
principal crítico do presidente seria o então diretor do jornal Tribuna da Imprensa, o
jornalista e político udenista Carlos Lacerda. Além das críticas à política nacionalista, surge
o financiamento oficial ao jornal Última Hora, de Samuel Wainer, que vai ser severamente
criticado por Lacerda e, também por outros representantes da grande imprensa.
No ano de 1954, as críticas tornam-se cada vez mais severas às ações do presidente
Vargas, contribuindo para a crise, surgida quando do início da campanha em prol da

1
ALDÉ, Alessandra. Imprensa e política no segundo governo de Getúlio Vargas. [s.l.], p. 27.

3
nacionalização do petróleo e agravada com a proposta de aumento de 100% ao salário
mínimo, sugerida pelo então Ministro do Trabalho, João Goulart.
A crise ia aumentando cada vez mais até que, em agosto do mesmo ano, Gregório
Fortunato, então chefe da Guarda Pessoal do presidente, comandou um movimento para
assassinar o jornalista Carlos Lacerda. No dia 05 de agosto de 1954, no chamado Atentado
da Rua Toneleros, ao invés da morte programada de Lacerda, morreu o major Rubem Vaz,
desencadeando a pior crise do governo Vargas. Este fato veio favorecer a mobilização de
todos os críticos à política de Getúlio, que passaram, assim como a imprensa, a exigir a
renúncia do presidente.
Segundo Alzira Alves de Abreu e Fernando Lattman-Weltman 2, após o chamado
Atentado da Rua Toneleros, alguns jornais brasileiros passaram todo o mês de agosto de
1954 exigindo o afastamento do presidente. Da exigência de afastamento, a grande
imprensa passaria a exigir a renúncia. Logo depois era a vez dos militares passarem a
articular golpes contra o presidente da República, sempre apoiados pela imprensa e,
também, pela recém-chegada televisão, com a TV Tupi, de Chateaubriand. Todo este clima
contribuiria para o contexto de crise armado no mês de agosto de 1954.
No dia 22 de agosto de 1954, quando a exigência da renúncia por parte dos jornais
atingiu o ápice, depois de apurados os nomes dos autores do crime da Toneleros, oficiais da
Aeronáutica, exigem a renúncia do presidente Vargas, seguidos dos oficiais do Exército. No
dia seguinte, Getúlio reúne seu ministério, que propõe uma licença ao presidente para que
os ânimos se acalmassem. Os militares, todavia, não se contentam com a licença e
continuam com a exigência de renúncia do presidente. Getúlio, então, ao saber da decisão
dos militares, suicida-se na manhã do dia 24 de agosto de 1954. Deixaria uma “Carta-
Testamento”, onde denunciaria as conspirações contra sua pessoa e ao povo brasileiro,
sendo este ato extremamente importante para a reviravolta da situação política no país.
Os jornais tentam, então, se utilizar do suicídio para demonstrar uma suposta
comoção para com o presidente morto, fazendo uso de uma imagem carismática do
presidente nas suas notícias. No entanto, isto não foi generalizado, pois
“houve a tentativa, por parte de alguns, de minimizar o
acontecimento, dando destaque não ao suicídio, mas à posse de
2
ABREU, Alzira Alves de; LATTMAN-WELTMAN, Fernando. Fechando o cerco: a imprensa e a crise de
agosto de 1954. In: GOMES, Angela de Castro (org.). Vargas e a Crise dos Anos 50. Rio de Janeiro: Relume-
Dumará, 1994. p.39.

4
Café Filho, como se este outro evento significasse um alívio,
representasse enfim a solução da crise que estava polarizada na
pessoa de Vargas. A posse do vice-presidente garantiria o
restabelecimento da ordem e da paz” 3.

Seja com o apoio repentino de uma parte da imprensa, seja com a crítica velada com
que sua morte é recebida, a imagem de Vargas foi, sem sobra de dúvida, renovada. A partir
do suicídio de Getúlio, verifica-se a força do mito. A população indignada, antes levada
pela mídia a criticar Getúlio, faz manifestações que levam o exército às ruas para impedir
uma convulsão social. Villas-Bôas Corrêa descreveu deste modo o que o suicídio de Vargas
provocou no Rio de Janeiro:
“E vi a cidade virar. Nunca assistira a cena igual. O ar de festa, o
clima de desafogo que percebia nos pedaços de conversa afinada
pelo tom de repulsa do ‘já vai tarde’, incendiado pela chispa da
tragédia, transformou-se instantaneamente. Estaquei na avenida
Passos, siderado pela cena patética: uma senhora, preta e de idade
indefinida, parecia trespassada pela notícia trombeteada pelo rádio
e que juntava gente aturdida à porta de uma loja. Esbugalhou os
olhos, estufou como se fosse arrebentar e estourou num desespero
que uivava e berrava os mais terríveis xingamentos bíblicos e
prometia implacável vingança popular. Não era louca. Mas a
profeta da turbulência que se espalhou pelo Rio, aos gritos de
punição aos assassinos, com a fúria indiscriminada de grupos que
carpia suas lamentações em uivos de ódio contra tudo e todos, os
mesmos que aplaudira até então. A cidade ardeu em incêndios,
desatinou-se no quebra-quebra e na pilhagem, até que exauriu o
ímpeto da desforra. Só então a multidão encontrou-se para chorar o
suicida que aplicara seu derradeiro golpe político. Um golpe de
mestre” 4.

Enquanto Café Filho assumia a presidência, o clima de revolta era tão imenso que
foi necessária a convocação das Forças Armadas para conter possíveis motins populares
devido ao suicídio do presidente Vargas. Por isso, tudo o que lembrava a UDN, Carlos
Lacerda, ou qualquer elemento que, em algum momento, fez críticas ao presidente em vida,
era alvo do povo.
Neste contexto, a turba empastelou quase todos os jornais de oposição e acabou com
as sedes e comitês eleitorais da UDN nas principais capitais do país. Do outro lado, Samuel

3
Idem.
4
CORRÊA, Villas-Bôas. Eu vi. In: GOMES, Angela de Castro (org.). Op. cit, p.16.

5
Wainer, e o seu jornal, Última Hora, porta-voz da política getulista, foram saudados pela
população.
Quando se encerrou o segundo governo de Getúlio Vargas (1951-1954), o Brasil
havia passado por uma série de mudanças que ganharam velocidade a partir da década de
1930. Essas mudanças diziam respeito principalmente às bases do desenvolvimento, ao
modelo econômico adotado, à ênfase na industrialização orientada pelo Estado, à
liberalização política e ao controle social e sindical.
De maneira geral, a segunda metade da década foi decisiva para o país Juscelino
Kubitschek chegou ao poder em uma democracia de massas regida por uma Constituição
liberal, por um sistema partidário de âmbito nacional, por um Congresso valorizado, por
eleições livres e periódicas e pela liberdade de imprensa. As liberdades políticas eram, no
entanto, limitadas quando se tratava das organizações sindicais e de esquerda.
Os anos do governo Juscelino Kubitschek (1956-60) foram marcados por
importantes realizações. Tendo assumido a Presidência já com o projeto de levar o país a
um novo patamar de crescimento, JK instalou rapidamente o Conselho Nacional de
Desenvolvimento (CND). Este era integrado pelos ministros de Estado, pelos chefes do
Gabinete Civil e do Gabinete Militar e pelos presidentes do Banco do Brasil e do BNDES.
Começou a delinear-se então o Plano de Metas, cuja vigência corresponderia aos anos de
mandato de JK. Estava lançado o famoso slogan “Cinqüenta anos em cinco”.
Do ponto de vista econômico e de planejamento, JK pôde se beneficiar de uma série
de instrumentos já produzidos, que iriam facilitar a realização de suas metas. Em seus 19
anos de governo, e especialmente no último mandato, Getúlio promovera a criação de uma
série de agências para estudar, formular e implementar políticas de desenvolvimento,
sempre dentro de uma ótica que valorizava a ação do Estado, a iniciativa local e o
nacionalismo. Entre esses empreendimentos figuravam o Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico (BNDE, hoje BNDES) e a Petrobrás, e ainda vários outros,
que visavam o mesmo objetivo de promover o desenvolvimento econômico a partir do
direcionamento estatal.
Nos anos 50, o país vivia sob a crença no desenvolvimento, no progresso e na
mudança. Este era um legado deixado por Vargas, do qual JK se apropriou. Juscelino
adicionava ao desenvolvimentismo a ótica do otimismo e da tolerância política. E contava

6
com um corpo institucional já formalizado e uma estrutura burocrática e estatal
razoavelmente consolidada, que lhe permitiriam agir e decidir mesmo em momentos de
crise política ou militar.

Técnicas Americanas
Os anos do governo de Juscelino Kubitschek foram marcados por mudanças
significativas na imprensa brasileira, com a introdução de novas técnicas – provenientes do
modelo norte-americano – de apresentação gráfica, inovações na cobertura jornalística e
renovação da linguagem. Nesse período, o Diário Carioca, jornal do Rio de Janeiro, criou
o primeiro manual de redação do jornalismo brasileiro, introduziu o lead e criou em sua
redação uma equipe de copydesk que passou a desempenhar papel formador de novos
quadros para o jornalismo. Foi nesses anos, também, que ocorreu a reforma do Jornal do
Brasil, essencial para a compreensão das transformações do jornalismo brasileiro.
Na segunda metade da década de 1950, a imprensa brasileira começou a abandonar
o perfil do jornalismo de “missão”, de combate, de crítica, de doutrina e de opinião, que
predominava até então. Apesar disso, pode-se afirmar que
“ao contrário do ‘jornalismo empresarial’ que dominou a imprensa
a partir de então, o jornalismo dos anos 50 era francamente
polarizado em termos políticos, e a retórica corrente era literária e
inflamada, com grande destaque para os editoriais e para o tom
pessoal e virulento das acusações políticas. Os jornais eram
ostensivamente udenistas, brigadeiristas, pessedistas, trabalhistas,
getulistas” 5.

Gradualmente, passou-se a praticar um jornalismo que privilegiava a informação,


que separava o comentário pessoal da transmissão objetiva da notícia. Esse jornalismo se
baseava na objetividade, na imparcialidade e no uso de técnicas narrativas. O crescimento
dos jornais e revistas passou também a depender mais da publicidade do que dos anúncios
classificados.
As revistas ilustradas semanais, com circulação nacional, tiveram um importante
crescimento durante os anos JK, com a introdução de uma nova estética na distribuição das
fotografias. A revista O Cruzeiro deu espaço a grandes reportagens onde a cor e as imagens
eram dominantes.
5
ALDÉ, Alessandra. Imprensa e política no segundo governo de Getúlio Vargas. [s.l.], p. 30.

7
A revista mensal Senhor, publicada no Rio de Janeiro a partir de março de 1959,
apresentou características gráficas ousadas, com formato e paginação muito originais. Deu
grande destaque aos ensaios fotográficos. O conteúdo da revista privilegiava os temas
culturais e abria espaço especialmente para as artes.
Quando se observa a imprensa escrita nesse momento, percebe-se que a contestação
da eleição e da posse de Juscelino Kubitschek partiu da maioria dos jornais, como a
TRIBUNA DA IMPRENSA, O Globo e Diário de Notícias, O Estado de São Paulo e Folha de
São Paulo. Todos eles estavam identificados com a UDN, encamparam a tese da maioria
absoluta e se posicionaram contra a posse de JK. O Diário Carioca e a Última Hora, do
Rio de Janeiro, e o Estado de Minas defenderam a política de Juscelino durante todo o seu
período de governo.
A construção de Brasília atraiu uma grande oposição ao governo por parte da
imprensa. O Correio da Manhã via na transferência da capital o esvaziamento político do
Rio de Janeiro. Já O Jornal assumiu posições contraditórias: Brasília foi apontada ao
mesmo tempo como possível geradora de um processo inflacionário e como "abertura para
o oeste e um núcleo político e social no centro do país". O Jornal do Brasil foi
declaradamente contrário a Brasília e acusou JK de responsável pela corrupção e pelos
desmandos havidos na construção da cidade.
A década de 1950 possibilitou ainda o crescimento de uma imprensa nacionalista
alternativa, devido ao fato de que os jornais de maior circulação e prestígio não abriam
espaço para a divulgação das posições nacionalistas, pois defendiam teses favoráveis à
participação de capitais estrangeiros no desenvolvimento industrial do país. Para romper as
dificuldades de divulgação de suas idéias, os nacionalistas criaram pequenos jornais, como
O Semanário, que começou a circular no início do governo JK, mas que tinha sérios
problemas para se manter. O único jornal de grande circulação e penetração que encarnava
o espírito nacionalista era a Última Hora, de Samuel Wainer.
“De uma forma geral, o crescimento e a modernização empresarial
das empresas jornalísticas foram grandemente impulsionados nesse
período. Criou-se um contexto onde a profissão do jornalista foi
reforçada por meio dos salários, com o aumento dos rendimentos, a
criação de cursos de jornalismo, a regulamentação da profissão, o

8
associativismo sindical e o surgimento de uma ética de
responsabilidade social” 6.

6
GOULART RIBEIRO, Ana Paula. Imprensa e História no Rio de Janeiro nos anos 50. Tese de doutorado
apresentada a UFRJ, 2000.

9
A Tribuna de Carlos Lacerda

10
Lacerda, demolidor de presidentes
A TRIBUNA DA IMPRENSA tem início pelas mãos de uma das figuras mais importantes
da História brasileira no século XX. Carlos Lacerda foi jornalista, governador, deputado,
conspirador e, acima de tudo, um eloqüente orador. Filho e neto de magistrados, aprendeu
desde cedo a retórica, manipulando as palavras para defender suas opiniões com maestria.
Até sua morte, em 1977, Carlos Lacerda iria usar esse talento para influenciar episódios
cruciais na história política do País.
Carlos Frederico Werneck de Lacerda nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1914,
mas foi registrado em Vassouras, interior do estado, onde seu pai era vereador. Além deste,
tios e avô também eram políticos atuantes, o que proporcionava um ambiente bem propício
à politização precoce de Carlos.
Vindo morar em Laranjeiras, na capital, a família Lacerda matriculou Carlos na
Escola José de Alencar — hoje localizada atrás da rua que leva o nome de Sebastião
Lacerda, seu avô — onde ele completou o primário. Mais tarde, estudou no Liceu Franco-
Brasileiro, no mesmo bairro, e com 18 anos entrou para a Faculdade Nacional de Direito na
Praça da República. Dois anos depois, abandonou o curso e a vontade de ser advogado,
dedicando-se ao Jornalismo.
Na verdade, Carlos começara ainda com 15 anos como colaborador do Diário de
Notícias, numa seção dirigida pela poeta Cecília Meirelles. Mais tarde, foi redator nos
periódicos do Partido Comunista Brasileiro, como A Marcha, dirigido por Francisco
Mangabeira.
Embora negasse anos depois que tivesse sido membro do PCB, Carlos Lacerda
começou a militar na Juventude Comunista ainda quando estudante de Direito. Seus tios
Paulo e Fernando eram dirigentes do Partido. O próprio pai de Carlos, Maurício Lacerda,
defendia militantes do movimento operário como advogado e como colaborador da
imprensa. O principal jornal em que publicava artigos era o Correio da Manhã, um dos
principais veículos da época, pertencente a Paulo Bittencourt. O início de sua carreira é
marcado por intensa participação nas seções de política e cultura, inclusive dividindo a
redação com o futuro inimigo Samuel Wainer.

11
“A partir de 1938 dedicou-se às atividades jornalísticas,
escrevendo artigos para a revista mensal Observador Econômico e
Financeiro e para a revista Diretrizes - lançada nesse ano por
Samuel Wainer. Colaborou na revista Seiva, também surgida em
1938, na Bahia, única publicação antifascista e legal na época, sob
o pseudônimo de Marcos Pimenta. Trabalhou ainda como
secretário de redação de O Jornal - órgão líder da cadeia dos
Diários Associados, de propriedade de Francisco de Assis
Chateaubriand, onde permaneceria até 1944.”7

Em seguida, os contatos de sua família favoreceram seu ingresso e permanência no


Correio da Manhã. Nesse jornal, em que começou como free-lancer, Carlos Lacerda fez
sua primeira matéria de grande importância, em janeiro de 1945, ao entrevistar José
Américo de Almeida. O candidato impedido de concorrer à Presidência em 1938 fez duras
críticas ao Estado Novo, que ainda era vigente, “reivindicava a convocação de eleições” 8.
Como o DIP não se manifestou no sentido de censurá-la, a relevância histórica da entrevista
foi o fato de desencadear a expressão da oposição pela imprensa. No mesmo ano, Vargas foi
deposto, houve eleições diretas e uma Assembléia Constituinte foi convocada.
Com a repercussão nacional, Lacerda foi contratado e ganhou uma coluna intitulada
“Na Tribuna da Imprensa”. Segundo o próprio Lacerda, o propósito era “fazer uma ‘crônica
da Constituinte’ que fosse ao mesmo tempo uma ‘reportagem sobre a vida nacional’” 9. Mas
o espaço foi usado mesmo como tribuna para discursos inflamados, condenações a
desafetos e elogios a amigos. Foi a partir dessa experiência que Carlos Lacerda, já vereador
em 1947, firmou-se como polemista de relevância nacional.
"Em 1949 foi afastado do Correio da Manhã em conseqüência da
publicação de um artigo em que atacava a família Soares Sampaio,
ligada por laços de amizade a Paulo Bittencourt, proprietário do
jornal. Conservando, no entanto, o direito de usar o título de sua
coluna - "Tribuna da imprensa" - da maneira que melhor lhe
conviesse, decidiu lançar um novo jornal com esse nome. Assim,
em 27 de dezembro de 1949, fundou a Tribuna da Imprensa, que,
representando as principais propostas da UDN, viria a fazer
oposição à forças políticas vinculadas ao getulismo."10

7
Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro, Fundação Getúlio Vargas, ed. online: http://cpdoc.fgv.br/dhbb
8
idem
9
idem
10
idem

12
Um jornal como arma antigetulista
Os objetivos de Carlos Lacerda ao fundar a TRIBUNA talvez não fossem ainda parte
de um projeto tão ambicioso, mas certamente se converteram rapidamente. Como voz ativa
da classe média conservadora carioca, Lacerda era estrategicamente interessante. Por isso, a
iniciativa do jornal recebeu o apoio de influentes políticos conservadores da oposição, que
viam na TRIBUNA um bom palanque para divulgar os discursos anti-getulistas.
De fato, a TRIBUNA DA IMPRENSA veio ser o que os clássicos periódicos desde o
século XIX já eram no Brasil: um jornal de campanha. Não era uma simples questão de
tomar partido da UDN, então, mas sim de engajar-se ativamente em causas, embates,
pressões e cruzadas que tiveram repercussão nacional.
O diferencial é que, como já dito, o contexto histórico e econômico já apontava para
a modernização da atividade jornalística. Falava-se no “jornal-empresa”, no modelo
industrial de edição e impressão, adoção de novas técnicas de redação, como o lead. Todo o
processo de produção do jornal passou a ser organizado como uma fábrica, substituindo o
sistema quase artesanal de antes.
O jornal de Carlos Lacerda adotou o novo modelo, mantendo o espírito engajado e
denuncista do veículo. Curiosamente, a TRIBUNA DA IMPRENSA e sua inimiga Última Hora
foram os jornais pioneiros em fazer jornalismo de campanha sob uma lógica industrial.

Campanhas da Tribuna: contra Getúlio


No período de 1949 a 1961, a TRIBUNA DA IMPRENSA abraçou diversas causas, quase
sempre condizendo com os interesses da UDN — e sempre com os de Lacerda. Foi contra,
por exemplo, o monopólio de exploração de petróleo pela Petrobrás, então em fase de
criação, e geralmente se alinhava com o capital internacional em defesa de uma maior
liberalização da economia.
O jornal chegou a ter participação expressiva no exterior.
“Em meados de 1950 a TRIBUNA DA IMPRENSA participou da VI
Conferência Interamericana de Imprensa, realizada em Nova
Iorque, durante a qual Lacerda foi eleito membro do conselho
diretor da Associação Interamericana de Imprensa e designado
secretário da organização no Brasil. Nesse mesmo evento o jornal
apresentou uma moção que acabaria por constituir a Declaração de
princípios da Imprensa do continente americano, e pleiteou dos

13
governos americanos a retirada do papel de jornal da lista de
mercadorias sujeitas a licença prévia.”11

Entretanto, o foco principal entre 1950 e 1954 foi a oposição violenta ao segundo
governo de Getúlio. Ainda na eleição, a TRIBUNA lembrava aos leitores a repressão
promovida por Filinto Müller, chefe de polícia do Rio de Janeiro, e as torturas durante o
Estado Novo. Contra a imagem do “pai dos pobres”, Lacerda tentava fazer de Vargas uma
figura cruel, tirânica e corrupta.
A estratégia provou-se mal sucedida e Vargas foi eleito. No entanto, tão logo foram
divulgados os resultados do pleito, “a UDN exigiu a impugnação da chapa vencedora,
alegando que os candidatos não haviam alcançado maioria absoluta”12 e a TRIBUNA DA

IMPRENSA abraçou dessa tese, mais tarde derrubada pela justiça. Assim, “ao longo do
governo Vargas, a Tribuna da Imprensa tornou-se porta-voz da oposição, encabeçando os
mais violentos ataques ao governo”13.
Em 1951, com a posse de Getúlio Vargas, Samuel Wainer é incentivado a criar a
Última Hora como veículo de apoio ao presidente. Isso converte o jornal e o jornalista em
inimigos ferrenhos de Carlos Lacerda, que já de início desencadeia uma campanha
virulenta contra ambos. Não ataca apenas o jornal, mas seu próprio criador, incluindo uma
tentativa de provar que Wainer era estrangeiro (a lei, na época, só permitia a posse de
veículos de comunicação por brasileiros natos).
Lacerda contou com o apoio dos barões da imprensa em sua cruzada. Roberto
Marinho franqueou as páginas de O Globo e os microfones de sua rádio para as denúncias.
Assis Chateaubriand, para quem Lacerda trabalhara na cobertura da Segunda Guerra
dirigindo a Agência Meridional, lhe ofereceu espaço na TV Tupi. O veículo ainda
engatinhava no Brasil, e Lacerda inovou para usá-lo na campanha. Diante da câmera fixa,
desenhava esquemas num quadro negro e respondia às perguntas dos telespectadores pelo
telefone.
Se não me engano, eu nunca tinha falado antes na tevê, e me deram
cinco minutos para explicar o caso da Última Hora. E aí me senti
pela primeira vez diante daquele monstro, aquele negócio com um
microfone e a luz toda em cima. Fiquei assustado. “Como é que eu
11
Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro, Fundação Getúlio Vargas, ed. online: http://cpdoc.fgv.br/dhbb
12
idem
13
idem

14
vou explicar, em cinco minutos, que não está a par dessas tricas
todas? (...)
E aí eu fui para o quadro negro, tracei assim um sol e uma porção
de satélites, lá embaixo eu fiz um satélite pequenininho e escrevi
Última Hora, e disse: “Eu estou aqui, daqui vou passar para aqui”.
O outro satélite era o Banco do Brasil. “Daqui eu vou passar para
aqui e depois vou chegar aqui” e apontei para o sol, e escrevi
“Getúlio Vargas” 14.

A fritura de Getúlio na imprensa se reproduzia, com menos alarde e mais eficácia,


entre os militares. Dois manifestos circularam no Exército em 1954. Em fevereiro, o
Memorial dos Coronéis provocou a queda do então ministro do Trabalho, João Goulart. Em
23 de agosto, o Manifesto dos Generais selou o destino do presidente que, sem saída, se
mataria no dia seguinte. Ambos os documentos foram redigidos por Golbery do Couto e
Silva, ideólogo e eminência parda do regime de 1964.
Segundo a historiografia moderna, o suicídio de Getúlio, em 24 de agosto de 1954,
teria adiado por dez anos o golpe udenista, apoiado por setores interessados na proteção do
capital estrangeiro. Como a direita militar, cuja base ideológica era a Escola Superior de
Guerra (ESG), conhecida como Sorbonne. Segundo Elio Gaspari,
“desde o retorno de Vargas ao poder, [esses setores militares]
insuflavam e seguiam o jornalista Carlos Lacerda, cujos artigos na
Tribuna da Imprensa devastavam o governo. Em 1954 Lacerda
estava entre os estagiários de meio expediente da ESG.”15

A crise política e institucional de agosto de 1954 teve na TRIBUNA DA IMPRENSA e em


seu dono os principais catalisadores. Logo após o atentado que sofreu em frente à sua casa
na Rua Tonelero, no dia 5 de agosto, e no qual morreu o major Rubens Vaz da Aeronáutica,
a TRIBUNA “responsabilizou o governo pelo atentado” e afirmou que “elementos da alta
esfera governamental estavam implicados no crime”. No dia 9, publicou editorial exigindo
a renúncia de Getúlio e no dia 12 incitou os militares a forçarem a deposição do presidente.
A esta altura a TRIBUNA já defendia abertamente a intervenção militar na crise,
chamava por um golpe sem pudores e pela dissolução do congresso. Mas quando Getúlio
comete suicídio em 24 de agosto e provoca intensa comoção nacional, os populares se
revoltam contra os jornais de oposição, principalmente a TRIBUNA, cuja redação tentam
14
Carlos Lacerda, Depoimento, p. 127.
15
Elio Gaspari, A ditadura derrotada, p. 132-3.

15
empastelar. Lacerda é mais uma vez obrigado a fugir e permanece escondido por algum
tempo. A intervenção militar no governo é adiada por dez anos.

Campanhas da Tribuna: contra Juscelino e Jânio


As campanhas da TRIBUNA DA IMPRENSA são, a partir de então, dirigidas contra a
formação da nova chapa PTB-PSD que tem em Juscelino Kubitschek, governador de
Minas, seu candidato à presidência. O jornal publica ataques ao candidato e, depois da
eleição, evoca novamente a tese da maioria absoluta dos votos e do golpe militar para
impedir a posse.
Mais uma vez, a campanha fracassa. O contra-golpe do Marechal Henrique Teixeira
Lott garante a posse do “presidente bossa-nova”. Lacerda, junto com outros conspiradores,
é forçado a se refugiar no navio Tamandaré e depois a se exilar. Mas retorna no ano
seguinte, disposto a continuar a oposição sistemática.
“Em 11 de novembro de 1956 Lacerda desembarcou no Rio,
recebido por grande manifestação popular, e logo em seguida
reassumiu o mandato de deputado federal e a direção da Tribuna da
Imprensa, dando início, de imediato, aos ataques ao governo
Kubitschek.”16

Finalmente, em 1960, a UDN consegue eleger seu candidato à Presidência. Jânio


Quadros vence a chapa do Marechal Lott e leva o partido anti-getulista ao governo, depois
de 15 anos na oposição. No entanto, o ex-governador e ex-prefeito de São Paulo não
representava exatamente o projeto político que os udenistas queriam para exercer o poder.
Seu perfil e seu programa faziam muito mais uso de táticas populistas que o aproximariam,
contraditoriamente, ao grupo do PTB.
O próprio Lacerda chamava Jânio Quadros de “a UDN de porre”. Assim, apesar de
ter sido de 1959 a 1960 o principal cabo eleitoral de Jânio e de estar no mesmo partido que
o novo presidente, Lacerda passou a atacá-lo logo após a posse, usando a TRIBUNA. O jornal
faz campanha contra as relações exteriores do Brasil com países socialistas, especialmente
Cuba, atacando violentamente as políticas "independentes" de Afonso Arinos de Mello
Franco.

16
idem

16
Carlos Lacerda teve papel decisivo na queda de Jânio, fazendo declarações no jornal
e na televisão que acusavam o presidente de tramar um golpe-de-estado, de cima para
baixo.
Ao mesmo tempo em que Jânio chegou à presidência, Lacerda foi eleito governador.
A partir de dezembro de 1960, ele assume o governo do ex-Distrito Federal, recém-
nomeado Estado da Guanabara, e passa a dividir seu tempo entre o jornal e a administração
pública. Por isso, em pouco tempo, ele procura passar adiante a propriedade da Tribuna. Já
havia transferido o cargo de editor-chefe, na década de 50, e agora pretendia vender o
jornal. A última grande causa defendida pela TRIBUNA ainda sob a direção de Lacerda foi o
impedimento da posse do vice João Goulart, após a renúncia de Jânio Quadros. Logo
depois, no final de 1961, Manuel Francisco do Nascimento Brito, genro da proprietária do
Jornal do Brasil, adquire a TRIBUNA DA IMPRENSA por uma quantia vultosa na época. Com o
dinheiro da venda, Lacerda montou um antigo sonho: a Editora Nova Fronteira.
Desse momento em diante, a TRIBUNA deixa de estar em mãos lacerdistas e passa ao
controle de Nascimento Brito, que tenta transformá-la num “jornal de estrelas”, contratando
alguns dos nomes mais prestigiados do jornalismo brasileiro, como Paulo Francis, Millôr
Fernandes, Carlos Castello Branco e Armando Nogueira. A conseqüência é o aumento da
folha de pagamento muito além da renda proveniente de um jornal relativamente pequeno,
embora relevante. Por isso, um ano depois, com pressa de se livrar de uma fonte de
prejuízos, Nascimento Brito passaria o controle do jornal a Hélio Fernandes, que o
“comprou sem dinheiro”.

17
A Tribuna de Helio Fernandes

18
Resumo Biográfico até 1962
Helio Fernandes nasceu no subúrbio carioca do Méier, em 17 de outubro de 1924.
Órfão desde cedo, teve uma infância difícil, partilhada com o irmão Millôr Fernandes. Em
1945, Millôr o chamou para trabalhar na revista O Cruzeiro, dos Diários Associados. Helio
entrou com a função de recolher os artigos assinados e, um ano depois, já era diretor de
redação. Nesse cargo, iniciou a trajetória de polemista, batendo de frente com o chefe Assis
Chateaubriand ao defender a greve dos alunos da Escola Naval.
Demitido, Helio passou um ano viajando pela Europa. De volta ao Rio, foi
convidado por Pompeu de Sousa para chefiar a seção de esportes do Diário Carioca, onde
participou de um dos momentos mais importantes na modernização do jornalismo
brasileiro na década de 1950. Lá contratou cronistas como Millôr, Fernando Sabino e Paulo
Mendes Campos, que promoveram uma renovação estilística no noticiário esportivo.
O próximo emprego foi a direção da recém-criada revista Manchete, de onde Helio
sairia dois anos depois, devido a divergências com o proprietário Adolpho Bloch. Nos anos
seguintes, dirigiu por períodos curtos a TRIBUNA DA IMPRENSA (1953-54), a Revista da
Semana e o Noticioso Mauá. Participou como assessor da campanha presidencial de
Juscelino Kubitschek em 1955. Depois, foi contratado pelo jornal A Noite, de propriedade
do governo, e se demitiu alegando a existência de um complô palaciano.
Devido ao seu temperamento difícil e às suas repetidas divergências com as
direções das empresas em que trabalhava, Helio Fernandes passou a encontrar dificuldades
para empregar-se, até que, em 1962, comprou a TRIBUNA DA IMPRENSA.

O Gosto pela Polêmica


Foi em 1958, na revista na revista Mundo Ilustrado, que Helio Fernandes começou
a escrever sua coluna “Fatos e rumores em primeira mão”. Com o interesse do Diário de
Notícias, surgiu a coluna diária em 2 de junho de 1959, num formato próximo do atual,
inclusive com a seção “Ur-Gente” no rodapé. Nesse tempo, já apareciam suas “marcas
17
registradas” de estilo: o uso de expressões irônicas e de apelidos . Sobretudo, se fazia
notar o gosto do jornalista pela polêmica, em todas as áreas.

17
REFKALEFSKY, Eduardo. Helio Fernandes: a gênese do jornalismo polêmico. ECO/UFRJ, 1997.

19
O jornalista usa o espaço para comentar os mais variados assuntos, de política
econômica e licitações públicas (dizem que ele sabe todos os resultados com antecedência)
a futebol (é o brasileiro que cobriu mais Copas do Mundo, de 1950 a 1990). Hoje, assina
um artigo no primeiro caderno do jornal e a coluna “Fatos e rumores” no segundo. Também
assina um informe na página 2 com o pseudônimo de Mauro Braga, fato desconhecido de
grande parte dos leitores. Trata-se de uma herança dos tempos em que a ditadura o impedia
de publicar seu próprio nome no jornal.

Conspirando contra Jango (1961-64)


A exemplo de toda a grande imprensa – com exceção da Última Hora, herdeira da
tradição getulista –, a TRIBUNA DA IMPRENSA passou os três anos do governo João Goulart
na oposição. Na verdade, como comenta a edição comemorativa de 40 anos,
antes mesmo do governo João Goulart existir, a Tribuna da
Imprensa já era oposição a ele. Nos dias tumultuados que vieram
após a renúncia de Jânio Quadros à Presidência da República, em
agosto de 1961, a posição do jornal era bem clara: com a vacância
do cargo, quem assumia era o presidente a Câmara dos Deputados,
Ranieri Mazzilli 18.

Carlos Lacerda escreveu violentos editoriais contra a Campanha da Legalidade, que


defendia a posse do então vice-presidente João Goulart. Em 27 de agosto, a polícia de
Lacerda – que acumulava a diretoria da TRIBUNA ao governo da Guanabara – cercou a sede
da Última Hora. No dia seguinte, a TRIBUNA reviveu o embate do segundo governo Getúlio
com a manchete “Cerco da UH foi para evitar a subversão”. Enfurecido, um grupo de
manifestantes tentou depredar o prédio da TRIBUNA, causando alguns danos.
Diante da radicalização de março de 1964 e já sob o comando de Helio Fernandes, o
jornal elevou o tom dos ataques ao presidente e aos políticos identificados com sua linha
nacional-populista, como Leonel Brizola e Miguel Arraes. No dia 13, data do histórico
comício na Central do Brasil, a TRIBUNA afirmava que a concentração popular serviria de
senha para a invasão de terras e o desrespeito à Constituição. No dia 16, a manchete
prenunciava um auto-golpe de Jango para manter o poder: “Goulart quer fechar Congresso
a 1o de maio”.

18
Tribuna, 27 de dezembro de 1989, p.5

20
O golpe da direita veio um mês antes. Na tarde de dia 31 de março, militares
descontentes com o governo dispararam telefonemas para desarmar os setores leais ao
presidente e organizar o levante. Horas depois, na madrugada de 1 o de abril, o dispositivo
militar de Jango começou a cair. Nas palavras do jornalista Elio Gaspari, “o Exército, que
no dia 31 dormira janguista, acordaria revolucionário” 19.
A vitória do golpe foi festejada pelos governadores dos estados mais importantes do
país: Carlos Lacerda, da Guanabara, Magalhães Pinto, de Minas Gerais, e Adhemar de
Barros, de São Paulo. No Recife, o socialista Miguel Arraes, um dos poucos dispostos a
resistir, foi rendido e preso em seu gabinete no Palácio das Princesas. O ex-presidente
Juscelino Kubitschek, com planos de voltar ao Planalto pelas urnas em 1965, saudou a
“restauração a disciplina e da hierarquia nas Forças Armadas” 20. No Rio, a migração de
quatro tanques que defendiam a entrada do Palácio Laranjeiras, residência presidencial,
para o portão do Palácio Guanabara, sede do governo do Estado, simbolizou o fim de uma
batalha que não começou 21.
Na imprensa, repetiu-se o apoio maciço aos golpistas. No dia 2 de abril, apenas a
Última Hora condenou o golpe. A TRIBUNA DA IMPRENSA, já comandada pelo jornalista
Helio Fernandes, celebrou com a manchete “Democratas assumem comandos militares” e
exigiu a cassação dos direitos políticos do comando civil janguista. O editorial “Pela
recuperação do Brasil” era claro:
“Escorraçado, amordaçado e acovardado deixou o poder como
imperativo da vontade popular o sr. João Belchior Marques
Goulart, infame líder dos comuno-carreiristas-negocistas-
sindicalistas” 22.

Na edição comemorativa de seus 38 anos, em 1987, a TRIBUNA reafirmou sua


participação ativa em favor do golpe:
“A TRIBUNA foi importantíssima na derrubada do governo Goulart.
Todos os erros, todos os desmandos, escândalos, atos de corrupção
por parte das autoridades eram diariamente denunciadas [sic] pelo

19
Elio Gaspari. A ditadura envergonhada, p. 95.
20
Artigo sem título, publicado na edição extra da revista O Cruzeiro com data de 10 de abril de 1964.
21
Elio Gaspari. A ditadura envergonhada, p. 84-5. A esquerda costuma atribuir o colapso do “dispositivo
militar” à inércia de Jango. Mas não houve resistência armada ao golpe por parte das forças à esquerda do
presidente – Partido Comunista, Ligas Camponesas, Grupos dos Onze brizolistas, Comando Geral dos
Trabalhadores (CGT) e União Nacional dos Estudantes (UNE).
22
Tribuna da Imprensa, 2 de abril de 1964.

21
jornal, tendo à sua frente seu redator-chefe, Helio Fernandes. Em
conseqüência dessa posição da Tribuna, (...) Helio Fernandes foi
preso várias vezes (...) numa seqüência de fatos que se sucederiam
até 1964 23.

Ditadura: a Tribuna vai para a oposição (1964-68)


Logo depois do golpe, o afastamento dos governadores do núcleo decisório do
regime, a demora na prometida devolução do poder aos civis e as medidas autoritárias do
governo Castelo Branco (1964-67) tratariam de dissolver parte do apoio da imprensa aos
militares.
O Ato Institucional n° 1 (AI-1), de 9 de abril de 1964, transferiu atribuições do
Legislativo para o Executivo, extinguiu os partidos anteriores ao golpe e permitiu punições
extralegais aos adversários do novo regime 24. No dia 11, antes mesmo que Castello Branco
fosse empossado, a TRIBUNA já anunciava restrições ao novo comando militar:
“Não acreditamos nas revoluções que se omitem. Não acreditamos
nas revoluções que pretendem sobrepor-se a elas mesmas. Não
acreditamos nas revoluções que se excedem. E a primeira grande
Revolução brasileira dos nossos dias omitiu-se, sobrepôs-se,
excedeu-se” 25.

As convicções nacionalistas de Helio Fernandes logo se chocaram com as diretrizes


econômicas do governo Castelo, que impôs uma política recessiva em nome do combate à
inflação e ao déficit público e promoveu a entrada do capital estrangeiro no país.
Quatro dias antes das eleições legislativas de 1966, o jornalista teve sua candidatura
a deputado federal pelo Movimento Democrático Brasileiro (o MDB, partido de oposição
moderada ao regime) impugnada e os direitos políticos cassados por dez anos. Para Helio, o
episódio significou o fim de uma carreira política com grandes ambições. Em depoimento
para este trabalho, o jornalista afirmou que pretendia se candidatar a governador do Rio de
Janeiro em 1970 e presidente em 1975, caso viesse a redemocratização 26.
Também foi proibido de escrever em seu próprio jornal. E até março de 1967,
quando Castelo Branco deixou o poder, assinou sua coluna diária com o pseudônimo de
João da Silva.
23
Tribuna da Imprensa, 26/27 de dezembro de 1987 (p. 7).
24
DHBB, p. 2136.
25
Editorial “A grande decepção”. Tribuna da Imprensa, 11 de abril de 1964.
26
Depoimento aos autores em 24/10/2003

22
Durante este período, a TRIBUNA abriu suas páginas para vozes dissidentes do
regime. Helio Fernandes diz ter redigido a primeira versão do manifesto da Frente Ampla
27
, movimento que aglutinou os três principais líderes civis do país – Carlos Lacerda,
Juscelino Kubitschek e João Goulart – contra o arbítrio da ditadura.
Em 1o de março, Carlos Lacerda criticava a Arena, o partido oficial, como
“instrumento da oligarquia”. A manchete deste dia era sugestiva: “Castelo Branco facilita a
investida de trustes na imprensa”. Na mesma edição, a coluna de Helio, ainda com o
pseudônimo, começava a contagem regressiva para o fim do mandato do marechal-
presidente.
A contagem se encerrou na capa histórica de 13 de março, com a manchete “Falta 1
dia para Castelo Branco deixar o governo”; o enorme “1” se estendendo do cabeçalho ao
rodapé da página. Do lado direito, em uma coluna, um texto festejava a saída do presidente.
Nele estão reunidas três marcas fundamentais do estilo polêmico de Helio Fernandes: o uso
de hipérboles, a virulência dos ataques pessoais e a pregação nacionalista.
“Amanhã é o dia do alívio nacional. Castelo deixa o poder e
grandes manifestações se preparam no país inteiro. Na Avenida Rio
Branco, teremos a tradicional chuva de papel picado, reservada aos
dias de grande emoção nacional. E nada mais significativo dessa
emoção do que a saída do pior presidente de toda a História
brasileira. (...)
Os incapazes congênitos como Castelo Branco têm que apelar para
a ditadura para sufocar os anseios populares e os protestos da
população esclarecida (...).
Durante três anos, as riquezas brasileiras, o seu patrimônio e o seu
potencial para o futuro foram miseravelmente roubados por grupos
estrangeiros, associados a personagens de proa no governo Castelo
Branco” 28.

Por essas críticas à desnacionalização da economia, Helio Fernandes chegou a


respondeu a 27 processos simultâneos movidos pelo governo 29.

A Luta conta a Censura (1967-79)

27
Depoimento aos autores em 24/10/2003
28
Tribuna da Imprensa, 13 de março de 1967.
29
DHBB, p. 2136.

23
Os anos seguintes à saída de Castelo seriam de muito maior dificuldade para a
Tribuna. No dia da posse de Costa e Silva, em que também entrou em vigor a Constituição
de 1967, Helio Fernandes redigiu o editorial “A catástrofe que termina e a esperança que
começa”. O tom era otimista, mas condicionava o apoio ao novo presidente à ruptura com
as diretrizes do antecessor.
“Se o presidente Costa e Silva enveredar pelo caminho do
progresso e do desenvolvimento, com independência e liberdade,
terá o nosso apoio e o nosso aplauso, mesmo que não precise deles.
Se seguir o caminho tortuoso, traidor e antinacional do que [sic]
Castelo Branco, o presidente Costa e Silva terá que suportar a
oposição (violenta e implacávcel como sempre) deste jornal e deste
repórter, mesmo que me casse mais 10 vezes, me prenda 20 ou me
confine 50” 30.

De fato, o final do texto parecia prever o que vinha pela frente. No próprio dia 15,
Helio foi detido e preso por três dias. Em 18 de julho de 1967, um acidente aéreo no
Nordeste matou Castelo Branco 31. No dia seguinte, Helio assinou o obituário mais violento
de que se tem notícia, especialmente num país que guarda a tradição de santificar os
mortos:
“Com a morte de Castelo Branco, a humanidade perdeu pouca
coisa, ou melhor, não perdeu coisa alguma. Com o ex-presidente,
desapareceu um homem frio, impiedoso, vingativo, implacável,
desumano, calculista, ressentido, cruel, frustrado, sem grandeza,
sem nobreza, seco por dentro e por fora, com um coração que era
um verdadeiro deserto do Saara” 32.

Como conseqüência, o jornalista permaneceu 30 dias desterrado em Fernando de


Noronha e igual período em Pirassununga (SP).
O ano de 1968 foi marcado por uma onda de protestos estudantis em todo o mundo
e pelo endurecimento da repressão no Brasil. O Ato Institucional n° 5 (AI-1), de 13 de
dezembro, suspendeu os direitos individuais, aboliu o habeas-corpus e instaurou um regime
semi-absolutista no país, tamanha a concentração de poder nas mãos do presidente.
No dia seguinte à edição do ato, o Jornal do Brasil, em capa histórica, usou de
artifícios para driblar a censura e comunicar aos leitores a gravidade da situação que o país
30
Tribuna da Imprensa, 15 de março de 1967.
31
O DHBB atribui o fato erradamente ao dia 18 de agosto.
32
Tribuna da Imprensa, 19 de julho de 1967.

24
viria a enfrentar. No topo da página, à direita do cabeçalho, uma manchete dizia: “Ontem
foi o Dia dos Cegos”. Do outro lado, o quadro de previsão do tempo advertia:
“Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O
país está sendo varrido por fortes ventos. Máx.: 38º, em Brasília.
Mín.: 5º, nas Laranjeiras”.

Na TRIBUNA DA IMPRENSA, não houve espaço para mensagens cifradas. Na verdade,


33
o jornal já sofria censura prévia desde 23 de outubro, quase dois meses antes do AI-5 .A
atitude dos militares se deveu à recusa de Helio Fernandes de praticar autocensura em seu
jornal, “sugestão” aceita pela larga maioria dos jornais e revistas brasileiros.
Em 21 de dezembro, o jornal conseguiu repetir o truque do JB e aproveitou uma
brecha na previsão do tempo:
“Este fim de semana poderá registrar a temperatura mais alta da
temporada. A pressão vai acompanhada de uma advertência aos
pais: não exponham seus filhos ao sol depois das nove da manhã.
No mais, é importante manter as medidas de precaução para todos,
não se expondo muito ao sol” 34.

Afastado Costa e Silva, por motivos de saúde, o Brasil foi governado


temporariamente por um triunvirato militar, composto pelo almirante Augusto Rademaker.
Em 30 de outubro de 1969, o general Emílio Gastarrazu Medici assumiu a presidência. No
dia seguinte, a leitura atenta da TRIBUNA dava a dimensão do controle sobre os meios de
comunicação no Brasil. Como notícia do dia, o jornal era obrigado a reproduzir o discurso
de posse do general Emílio Gastarrazu Medici, que dizia: “ao término do meu período
administrativo, espero definitivamente deixar instaurada a democracia em nosso país”. Nas
páginas seguintes, a TRIBUNA noticiava que o compositor Geraldo Vandré era chamado para
depor em Inquérito Policial Militar (IPM) sobre sua música “Para não dizer que não falei
das flores”, que traria mensagens de “guerra revolucionária”. Mais adiante, uma nota
anunciava o sexto dia de confinamento de Helio Fernandes em Campo Grande, no Mato
Grosso do Sul.
Em 20 de outubro, o jornalista voltou a assinar seus artigos. Na primeira página
desta edição, escreveu um editorial de desabafo, com direito a momentos de fina ironia:

33
Tribuna da Imprensa, 26/27 de dezembro de 1987 (p. 6).
34
Tribuna da Imprensa, 21 de dezembro de 1968.

25
“Devolvam meus direitos políticos, acabem com as injustiças,
cessem a perseguição a um homem, concentrem energias na defesa
das grandes distorções nacionais” 35.

Ainda no período Médici, ocorreu a Guerrilha do Araguaia (1972-74), único foco


rural de resistência armada à ditadura militar. Como toda a imprensa, a TRIBUNA foi
proibida de publicar qualquer coisa a respeito. Aliás, como consta no especial de 40 anos do
jornal,
“foi a própria Censura Federal, ao mandar a ordem de proibição
para os jornais, que informou a imprensa sobre a existência do
conflito” 36.

Devido à obstinada resistência da TRIBUNA à prática da autocensura, o jornal acabou


recebendo um tratamento discriminatório do regime. Confrontando o noticiário da TRIBUNA
com o de concorrentes como O Globo e Jornal do Brasil, é possível atestar que as
restrições ao jornal de Helio Fernandes iam além da censura política. Em 1984, quando
condenou a União a indenizar o jornal pelos anos de censura, o juiz Jorge Octávio
Figueiredo, da 12a Vara Federal do Rio, lavrou em sua sentença:
“Assim é que a morte do jornalista Vladimir Herzog, fartamente
noticiada por toda a imprensa do Brasil e do mundo, nenhuma
referência teve na Tribuna da Imprensa” 37.

Impedido de noticiar fatos e obrigado a publicar fartos espaços em branco no lugar


das matérias censuradas, o jornal foi perdendo leitores. Em alguns dias, a sobrecarga de
trabalho para suprir o noticiário cortado quase eqüivalia a fazer dois jornais no mesmo dia
38
.
O governo Geisel (1974-78) marcou o início da abertura política – “lenta, gradual e
segura”, nas suas palavras – e o fim do AI-5, revogado nos últimos meses do mandato. No
entanto, a TRIBUNA chegou a sofrer cinco apreensões num ano (1977). Sentindo o ar menos
rarefeito, Helio Fernandes retomou o estilo agressivo nas denúncias contra o regime. Em
1978, foi processado por ofensa a Geisel. Nenhum outro presidente havia feito uma
denúncia pessoal contra um jornalista. Finalmente, com a saída dos militares da redação,
35
Tribuna da Imprensa, 31 de outubro de 1969.
36
Tribuna da Imprensa, 27 de dezembro de 1989 (p. 7).
37
Tribuna da Imprensa, 26/27 de dezembro de 1987 (p. 6).
38
Depoimento aos autores em 24/10/2003

26
em fins de 1978, o jornal passou a estampar o selo “Sem censura” no seu cabeçalho. Mas
continuava sofrendo pressões e ameaças do regime.

A vez do “prendo e arrebento” (1979-81)


“Eleito Figueiredo, 355 coniventes”. Esta foi a manchete da TRIBUNA DA IMPRENSA

do dia 16 de outubro de 1978, noticiando a escolha do general João Baptista Figueiredo


como o último presidente da ditadura. Que entrou para a História neste dia, com sua frase
mais famosa: “É para abrir mesmo, e quem quiser que não abra, eu prendo e arrebento”.
Promulgada em agosto de 1979, Lei da Anistia deveria coroar o projeto de abertura
iniciado por Geisel, mas acabou deixando de fora muitos opositores do regime. A TRIBUNA
alertou: “Anistia restrita é perigosa”. Em 9 de setembro, Helio Fernandes acompanhou
músicos como Chico Buarque e Paulinho da Viola até o presídio Milton Dias Moreira, no
Rio, em visita a presos políticos excluídos da Anistia.
Na madrugada de 26 de março de 1981, a sede da TRIBUNA DA IMPRENSA foi
invadida por 15 homens fortemente armados, que renderam os funcionários e explodiram as
rotativas do jornal. O atentado foi um dos primeiros de uma reação da extrema-direita do
regime à abertura, que culminaria no 1o de maio com o episódio do Riocentro.
No dia seguinte, a TRIBUNA conseguiu produzir e imprimir o jornal em versão
tablóide, numa gráfica na rua Ibituruna, na Tijuca. A manchete sintetiza a determinação do
veículo: “A ditadura vai acabar. Nós não”. Na primeira página, a TRIBUNA atribuía a ação ao
regime “próximo do fim”, que tinha fracassado ao tentar “silenciar o jornal”. Por sua vez, o
general Ernani Airosa, chefe do Estado-Maior do Exército, atribuiu a autoria do atentado ao
jornalista Helio Fernandes, com a justificativa de que as rotativas seriam confiscadas pela
Previdência. O caso ficou sem uma apuração séria, e o crime ficou impune.
Ao fim do governo Figueiredo, a campanha pelas eleições diretas para presidente
ganhou as ruas e as páginas dos jornais. Em 10 de abril de 1984, a TRIBUNA convocava para
o comício na Candelária, com a manchete “Rio pára pelas Diretas”. A campanha foi
derrotada, mas o novo presidente, Tancredo Neves, eleito em 14 de janeiro de 1985, seria
um civil. A manchete da TRIBUNA no dia 15, em caixa alta, solta o grito contido de vinte
anos de ditadura: “Vendilhões e torturadores de malas prontas”.

27
Dos Generais ao Operário (1985 – )
A TRIBUNA à época da redemocratização era um jornal debilitado financeiramente,
com baixas tiragens, mas ainda influente. Em outubro de 1984, antes da reunião do Colégio
Eleitoral, Helio Fernandes recebeu Tancredo para um jantar com 200 convidados em sua
casa.
Em abril de 1985, a morte do presidente eleito jogou uma ducha de água fria na
expectativa popular. A hiperinflação seguia devorando o salário do trabalhador, quando o
novo presidente José Sarney anunciou o Plano Cruzado, que previa o fim da correção
monetária e o congelamento de preços e salários. A TRIBUNA apoiou a iniciativa desde o
lançamento. Em 1o de março, a manchete “Sarney pede, o povo pune” registrou o
empastelamento de supermercados que remarcaram os preços. No dia 3, um entusiasmado
editorial de Helio Fernandes manifestou a posição do jornal:
“A Revolução sem sangue vai sendo ganha pelo povo e pelo
governo. De mãos dadas, completamente convencidos de que
alguma coisa precisava ser feita, e nesse estilo” 39.

Oito meses depois, a inflação galopante já estava de volta. Na seqüência das


eleições para governador, em novembro, Sarney lançou o Cruzado II. A reação da TRIBUNA,
estampada na capa de 22 de novembro, foi violenta: “Plano Cruzado II é traição ao povo”.
Para o jornal, tratava-se de ajudar as multinacionais, não de resolver os problemas da
economia popular.
O apoio ao ex-presidente Fernando Collor nos últimos dias de seu governo
representou a perda de credibilidade do jornal de Helio Fernandes como ator político.
Apesar das evidências de corrupção levantadas pelo Congresso e reproduzidas na grande
imprensa, a TRIBUNA insistia em se posicionar contra o impeachment, alegando que se
tramava uma “quartelada parlamentar” contra o presidente 40.
Após o mandato-tampão de Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso assumiu a
Presidência com grande apoio popular. Apesar disso, a TRIBUNA acusou o Plano Real de
eleitoreiro, desonesto e complicado. Durante os oito anos do governo FHC, Helio
Fernandes moveu campanha implacável contra o processo de privatização das companhias

39
Tribuna da Imprensa, 3 de março de 1986.
40
DHBB, p. 5795

28
estatais. Novamente, o nacionalismo levou a TRIBUNA a atacar violenta e diariamente o
governo.
Desta vez, no entanto, os resultados não seriam os mesmos. Com a degradação do
jornal, as críticas de Helio Fernandes deixaram de incomodar. Em maio de 2001, a TRIBUNA
chegou a ter sua sede lacrada por um dia, após sua falência ser decretada pela Justiça.
A concorrência aproveitou a ocasião para publicar a “folha corrida” do jornal em
forma de obituários. O Jornal do Brasil, cujo ex-proprietário Manoel Francisco do
Nascimento Brito costumava ser chamado por Helio Fernandes de Nascimento Brito-
Comlurb, carregou nas tintas:
“Com uma tradição de dificuldades financeiras e teor golpista, com
notório desapreço pela reputação alheia, a TRIBUNA entrou numa
fase [com Helio Fernandes] na qual o tratamento sensacionalista e
partidário dado à política iria somar-se uma operação no varejo.
Não sendo um veículo capaz de canalizar publicidade, pois tinha
público incerto e eventual, a TRIBUNA degradou-se. A Justiça
decretou a falência de um jornal que perdeu a credibilidade como
veículo de informação” 41.

A TRIBUNA conseguiu voltar, mas segue longe de se tornar um empreendimento


viável. As dificuldades para manter a folha salarial e a reputação do jornal, arranhada por
denúncias de extorsão a empresários e políticos, afastaram o público leitor e os anunciantes.
Em 2002, a TRIBUNA apoiou a candidatura de Lula como antídoto para a gestão
econômica da era FHC. Nos primeiros meses do governo, tem caminhado para a oposição,
sem contudo se alinhar a nenhum outro grupo político.

41
Jornal do Brasil, 4 de maio de 2001.

29
Estudos de Caso
agosto de 1954
setembro de 2003

30
Estudo de Caso: agosto de 1954
Nesse período, a TRIBUNA DA IMPRENSA se ocupava diariamente da corrupção
policial, do “desmoronamento da oligarquia Vargas”, do grupo Wainer, entre outras
questões. Na madrugada de 05 de agosto de 1954, na rua Toneleros, em frente ao edifício
onde morava, Carlos Lacerda foi atacado por um grupo de homens, que assassinaram o
major Rubens Florentino Vaz. Este acompanhava Lacerda, juntamente com Sérgio Lacerda,
filho do diretor da TRIBUNA.
O atentado, que pretendia silenciar o jornalista Carlos Lacerda, teve efeito contrário.
Ao invés de se calar, Lacerda reforçou a pressão contra o governo. A manchete da TRIBUNA,
em letras muito grandes, ocupando 3 linhas, cobrava: “A nação exige o nome dos
assassinos.”
Em editorial do dia seguinte, Lacerda dava seu recado, narrando o episódio e
apontando o presidente Vargas como o responsável pelo crime:
Afunda-se a Oligarquia no sangue. A corrupção – suas vantagens,
seus privilégios, seu gozo – já não satisfaz ao bando que explora o
poder, a serviço dos mais sórdidos interesses.
Nossa voz não silenciará. Desmande-se o governo até onde quiser,
chafurdando-se no sangue, que foi sempre a sementeira dos
grandes sacrifícios, das salvações heróicas. Pode conseguir
atemorizar os tímidos, degradar os fracos, corromper os que se
põem a leilão, sem destino e sem glória.

Lacerda, do hospital onde se internara, ferido no pé, denunciou, em artigo, o


começo da “impostura dos mandantes”:
O governo de Getúlio é, pois, além de imoral, ilegal. É um governo
de banditismo e de loucura. Nenhum homem digno pode a ele
pertencer, pode tolerá-lo sequer, sem arrastar-se com ele na lama de
sua indignidade funcional e política e, já agora, no sangue inocente
que os bandidos a seu soldo derramaram.
Quanto a mim, tenho apenas a dizer que o sacrifício de Rubens
Florentino Vaz torna irretratável o meu compromisso de luta.
Nunca mais, enquanto viver, deixarei de lutar para que o Brasil seja
redimido dessa mancha que se chama Vargas.
Não é a vingança que procuro. Não é a vindita que reclamo.

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A TRIBUNA publicava, no dia 09 de agosto, uma enorme foto de Climério Euribes de
Almeida, investigador, homem da guarda pessoal de Getúlio, sob uma manchete em oito
colunas, duas linhas: “Eis um dos assassinos que está sendo procurado.”
Apenas ferido no pé, o diretor da TRIBUNA ampliou as denúncias. Daí em diante,
vieram a exigência de “um inquérito que vá até o fim” por parte da Aeronáutica, nascendo,
então a célebre “República do Galeão”, na qual foram chamados a depor até membros da
família Vargas.
A crise política desencadeada pelo atentado provocou verdadeiro ultimato dos
militares para que o presidente renunciasse em favor de seu vice, Café Filho. Nesse sentido,
os artigos de Lacerda pedindo a renúncia do presidente tiveram grande influência no
contexto do momento. Em algumas das edições da TRIBUNA, as manchetes diziam em letras
imensas: “Renuncie à presidência para salvar a República” (11 de agosto) e “Decisão
unânime: renúncia de Vargas”, conclamava Lacerda.
Artigos da TRIBUNA DA IMPRENSA tratando da descoberta de novos implicados no
atentado, ligados à Guarda Pessoal de Getúlio (Gregório Fortunato, entre outros) e a
revelação dos mandantes foram agravando a crise. No dia 23 de agosto, a TRIBUNA
antecipava o fim do governo Vargas. Noticiava a crise militar ante à resistência de Getúlio,
a passeata de estudantes paulistas ao Palácio do Catete, a promessa de greve na Marinha e
Aeronáutica se Vargas permanecesse no cargo por mais 48 horas, e dava como certa a
renúncia do presidente até, no máximo, o dia 25.
No dia seguinte, a TRIBUNA colocou uma manchete em um exemplar que não pôde
sair às ruas: “Suicidou-se Getúlio Vargas”. Foi o clímax dos 19 dias que abalaram o país. A
edição não saiu, pois houve uma grande manifestação popular contra as denúncias da
Tribuna, após o suicídio de Vargas. O povo tomou a Rua do Lavradio e apedrejou o prédio
do jornal.
Os 19 dias que antecederam a renúncia e o suicídio de Vargas foram decisivos. Foi a
fase mais intensa da campanha da TRIBUNA DA IMPRENSA contra o governo. O jornal era
quase todo ocupado com noticiário dando conta da insatisfação das Forças Armadas,
estudantes, políticos e, em particular, das pessoas que cobravam a responsabilidade pelo
assassinato do major Rubens Vaz, da Aeronáutica.

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Através dessas edições, é possível perceber que foi ainda no período em que era
dirigida por Carlos Lacerda, seu fundador e primeiro diretor, que a TRIBUNA DA IMPRENSA

consagrou a combatividade como sua arma no jornalismo carioca.


As principais manchetes da TRIBUNA DA IMPRENSA nesse período, assim como ocorre
até hoje, são redigidas num tom claramente opinativo, diferentemente do estilo imparcial
que se tentava implantar, naquele momento, na maioria dos jornais. O tom agressivo das
críticas nos títulos, nos editoriais e nas reportagens também é uma característica bastante
perceptível nas edições da TRIBUNA de agosto de 1954.

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Estudo de Caso: setembro de 2003
A circulação da TRIBUNA DA IMPRENSA se baseia nas vendas em banca, concentradas
num pequeno público fiel e no interesse eventual pelas manchetes. Por isso, sua capa
costuma adotar como estilo o que o professora Eduardo Refkaleksky chama de “publicismo
sensacionalista”: o uso de manchetes claramente opinativas e contundentes.
Segundo o jornalista Helio Fernandes, a TRIBUNA atual tem tiragem diária de 25 mil
exemplares, vendidos em banca, com público nas classes A e B 42. Helio afirma que a equipe
trabalha sem certeza de que haverá dinheiro para rodar a edição do dia seguinte. De fato, o
custo da economia pode ser visto no jornal, que sofre com a falta de pessoal e com o
anacronismo de sua administração.
Segundo Helio Fernandes, todo jornal no Brasil dá prejuízo. A concorrência
sobreviveria do conluio com a classe empresarial. A TRIBUNA, para ele, é vítima de sua
inadequação ao establishment.

A capa da TRIBUNA DA IMPRENSA de 18 e 19 de outubro de 2003 (o jornal circula


com edição única de fim de semana) é uma boa amostra do que Refkalefsky chama de
“publicismo sensacionalista”.
As duas principais manchetes, acima da dobra, são redigidas num tom claramente
opinativo, distante do estilo impessoal usado na maioria dos jornais:
Benedita enfim devolve dinheiro
CPI do Banestado confirma: Maluf é ladrão mesmo

No rodapé da página, um outro título, desta vez tratando do aumento do número de


cursos de ensino superior no Brasil nos últimos cinco anos, chama a atenção pelo tom
agressivo da crítica:
Cursos que proliferam como praga
A capa da TRIBUNA usa manchetes em duas linhas, sempre em tipo bastão, e
algumas em negativo. A tentativa é de provocar impacto e induzir os jornaleiros a
colocarem o jornal com destaque nos mostruários.

42
Depoimento aos autores em 24/10/2003

34
A TRIBUNA DA IMPRENSA de 2003 é um jornal fino, na acepção literal da palavra. Os
esportes ocupam apenas uma página, a última do primeiro caderno. Nenhuma matéria é
assinada, salvo no caderno Bis, dedicado à cultura. Todas as fotos, salvo na coluna social de
Marcio Gomes, são creditadas à Agência Brasil (do governo federal), a “divulgação” ou a
“reprodução de TV”.
Até aqui, Helio Fernandes consegue ver virtude na limitação: “Um bom jornal deve
ter 12 páginas”, diz. Questionado sobre como conseguiu manter um veículo antieconômico
por tanto tempo, o jornalista foi franco: “Não sei como conseguimos chegar até aqui. Acho
que, no fundo, [a persistência] deve ser por conta da minha insensatez” 43.

43
Idem

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Bibliografia

ALDÉ, Alessandra. Imprensa e Política no Segundo Governo de Getúlio Vargas. s/d.


AZEVEDO, Luiz Vitor Tavares. Carlos Lacerda e o Discurso de Oposição na Tribuna da
Imprensa (1953-1955). Mestrado – UFF, 1988.
BOJUNGA, Claudio. JK: o artista do impossível. Rio: Objetiva, 2001.
DICIONÁRIO HISTÓRICO BIOGRÁFICO BRASILEIRO. Rio: Fundação Getúlio Vargas, 2002.
GOMES, Angela de Castro (org.). Vargas e a Crise dos Anos 50. Rio: Relume-Dumará, 1994.
LACERDA, Carlos. Depoimento. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1977.
MAGALHÃES, Mauro. Carlos Lacerda – o sonhador pragmático. Rio: Civilização Brasileira,
1993.
RIBEIRO, Ana Paula. Imprensa e História no Rio de Janeiro nos anos 50. Tese de doutorado
apresentada a UFRJ, 2000.
REFKALEFSKY, Eduardo. Hélio Fernandes: a gênese do jornalismo polêmico. Mestrado –
ECO/UFRJ, 1997.
WAINER, Samuel. Minha Razão de Viver (org. Augusto Nunes). Rio: Record, 1987.

E os arquivos da TRIBUNA DA IMPRENSA

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