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EL INGENIOSO HIDALGO DON QUIJOTE DE LA MANCHA EM AULAS DE

ESPANHOL COMO SEGUNDA LÍNGUA.

Nome do autor. Silvia Matturro Panzardi Foschiera1


Almudena Santamaría2
Cristina Sperotto de Moraes Pacheco3
Alberi de Souza Figueiredo4
Beatris de Andrade Pretto5
Caroline Roos6
Jade García7
Jéssica Rosa da Silveira8
Luana Froehlich Pacheco9
Tamires Iwanczuk de Oliveira10

Eixo Temático: A docência na escola e na formação de professores

1
Universidade do Vale do Rio dos Sinos UNISINOS, Letras Português Espanhol, CAPES (PIBID),
silvia.matturro@hotmail.com .
2
Universidade do Vale do Rio dos Sinos UNISINOS, Letras Português Espanhol, AECI (Leitora),
almusm@gmail.com
3
Escola Estadual de Ensino Médio CAIC Madezatti, Professora de Espanhol,
cristina.pacheco13@yahoo.com.br
4
Universidade do Vale do Rio dos Sinos UNISINOS, Letras Português Espanhol, CAPES (PIBID),
alberi.figueredo@gmail.com
5
Universidade do Vale do Rio dos Sinos UNISINOS, Letras Português Espanhol, CAPES (PIBID),
beatrisp@hotmail.com
6
Universidade do Vale do Rio dos Sinos UNISINOS, Letras Português Espanhol, CAPES (PIBID),
caroliineroos@gmail.com
7
Universidade do Vale do Rio dos Sinos UNISINOS, Letras Português Espanhol, CAPES (PIBID),
jadgarciar@gmail.com
8
Universidade do Vale do Rio dos Sinos UNISINOS, Letras Português Espanhol, CAPES (PIBID),
jrs190207@gmail.com
9
Universidade do Vale do Rio dos Sinos UNISINOS, Letras Português Espanhol, CAPES (PIBID),
luana.froehlich@hotmail.com
10
Universidade do Vale do Rio dos Sinos UNISINOS, Letras Português Espanhol, CAPES (PIBID),
myrysoliveira@gmail.com
Resumo:
Este trabalho inter-relaciona sequências didáticas (SCHNEUWLY; DOLZ, 2004),
literatura em aula de Espanhol como segunda língua (ACQUARONI, 2007;
ALBADALEJO, 2007; SANZ, 2006,2007; MARTINS, 2006; OCEM, 2006) e letramento
literário (SOARES, 1998). Através dele, apresentamos as atividades desenvolvidas pelo
Subprojeto Letras Espanhol na Escola de Ensino Médio CAIC Madezatti, situada em São
Leopoldo, Rio Grande do Sul, para abordar em sala de aula a obra El Ingenioso Hidalgo
Don Quijote de la Mancha, de Miguel de Cervantes y Saavedra, no ano em que a sua
segunda parte completa o seu 4º Centenário. As sequências didáticas tiveram o objetivo de
despertar o interesse pela obra Don Quijote e por seu autor. Buscou-se, através delas,
desenvolver o espírito crítico dos alunos, fomentando a apropriação de conteúdos cujo foco
fosse a utilização de estruturas linguísticas em língua espanhola que permitissem agir no
mundo. Um outro objetivo foi preparar os alunos para a participação na gincana anual
promovida pelo CAIC, que tinha como tema o Don Quijote, e que envolveu todas as
disciplinas do currículo. As atividades desenvolvidas nas aulas levaram em consideração
os conteúdos previstos no Plano de Trabalho de Língua Espanhola da escola para cada um
dos anos. Foram produzidas três sequências didáticas diferentes, baseadas em fragmentos
do livro de Cervantes, e aplicadas em cada uma das turmas dos três anos do ensino médio.
Os primeiros anos envolveram-se com a caracterização e apresentação física e psicológica
de personagens do livro, como se estas vivessem na atualidade; os segundos anos
prepararam um vídeo, no formato de telejornal, com a apresentação de notícias atuais sobre
situações que poderiam despertar o desejo de justiça de Don Quijote; e os terceiros anos
elaboraram charges denunciando as injustiças que levam as pessoas a lutarem por seus
ideais. As tarefas realizadas em aula foram, paralelamente, proporcionando aos alunos o
conhecimento necessário sobre a obra para que eles pudessem realizar as tarefas previstas
para a gincana. A partir das atividades desenvolvidas foi possível concluir que a literatura é
um instrumento relevante para a formação do cidadão e que o diálogo entre o texto/autor e
o leitor em sala de aula promoveu não apenas o aprendizado significativo da língua
espanhola como também o letramento literário.

Palavras-chave: Língua Espanhola. Sequências Didáticas. Literatura. Cervantes.


Letramento literário.

1. Introdução

A Universidade do Vale do Rio dos Sinos, UNISINOS, integra, junto a outras


instituições nacionais de ensino, o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência
(PIBID), que é financiado pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de
Nível Superior), órgão do Ministério de Educação do Governo Federal. Este programa tem
por objetivo inserir estudantes bolsistas de cursos de Licenciatura no ambiente escolar.
Nesse espaço eles desenvolvem atividades didático-pedagógicas orientados por dois
profissionais, um coordenador de subprojeto, docente da Instituição de Educação Superior
à qual eles estão vinculados, e um supervisor, professor da escola pública na qual eles
realizam as suas atividades como bolsistas. Essas atividades oportunizam a experiência na
docência e a reflexão sobre a relação entre a teoria e a prática no âmbito escolar. Busca-se,
a partir delas, qualificar e o aperfeiçoar o processo de ensino/aprendizagem na escola e,
como consequência, também na universidade.

O PIBID Letras Espanhol é um dos doze subprojetos do PIBID Unisinos e integra o


programa desde 2012. Desde essa época, atua na Escola de Ensino Médio CAIC Madezatti,
situada, na cidade de São Leopoldo, Rio Grande do Sul. Neste artigo socializamos as
experiências e atividades desenvolvidas pelo PIBID Letras Espanhol nessa instituição de
ensino, durante o mês de outubro de 2015. Elas tiveram como pano de fundo o livro El
Ingenioso Hidalgo Don Quijote de La Mancha, do autor espanhol Miguel de Cervantes y
Saavedra, obra que neste ano completa os quatrocentos anos da publicação de sua segunda
parte. Em função dessa comemoração, a gincana anual promovida pela escola e realizada
sempre no mês de novembro, também esteve relacionada à temática desse livro. Foi
buscando dar suporte a esse evento escolar que o grupo PIBID Letras Espanhol
desenvolveu sequências didáticas vinculadas à obra e programadas para serem aplicadas
em cada uma das séries do Ensino Médio, associando literatura e o ensino de língua
espanhola. A seguir, apresentamos os pressupostos teóricos que sustentaram o
planejamento das sequências didáticas, bem como o trabalho desenvolvido pelo grupo
PIBID Letras

2. Desenvolvimento

A proposta da gincana de abordar o livro de Cervantes, El Ingenioso Hidalgo Don


Quijote de La Mancha, desafiou o grupo a pensar como poderíamos trabalhar a temática e
a importância dessa obra universal em sala de aula. Também, a forma como a
relacionaríamos ao conteúdo de língua espanhola previsto. Estávamos em setembro e
contávamos apenas com o mês de outubro para desenvolver o trabalho, já que as provas
culturais da gincana estavam marcadas para o dia cinco de novembro. Além do pouco
tempo que tínhamos, deveríamos capacitar todas as séries e turmas do Ensino Médio a
realizar as atividades previstas para aquele evento do calendário escolar.

Buscando dar conta desses desafios, nos dispusemos a pensar em três sequências
didáticas, nas quais seriam trabalhados, para cada uma das séries, gêneros diferentes. Uma
sequência didática, segundo Schneuwly e Dolz (2004), é “uma sequência de módulos de
ensino, organizados conjuntamente para melhorar uma determinada prática de linguagem”.
(2004, p. 51). Em nosso caso, a prática de linguagem estaria relacionada a cada um dos
gêneros, já que esses textos são utilizados em situações contextualizadas de linguagem.
Através deles, seria possível trabalhar com os conteúdos, a estrutura e as configurações
próprias do texto, as três dimensões essenciais que, de acordo com Schneuwly e Dolz,
definem um gênero.

Uma vez definido que trabalharíamos com sequências didáticas, cabia pensar no
papel da literatura nesse contexto. Embora o livro de Cervantes nos assustasse pela
linguagem e dimensão, desde o princípio estávamos motivados a trabalha-lo em aula. No
início do ano, havíamos realizado uma análise dos livros didáticos adotados na escola e
constatado, na ocasião, a escassa presença que a literatura tem nesse material. Neles, os
fragmentos de textos literários são apresentados no final de algumas das unidades didáticas
que os compõem. Observando a prática docente, outra atividade prevista para o grupo
PIBID, percebemos que são essas partes do livro as que, na maioria das vezes, acabam
sendo relegadas a um segundo plano. Isso é um indicativo do quanto a literatura está
dissociada do aprendizado da língua, assumindo uma função de mero complemento em
sala de aula. Dito de outra forma, os aspectos linguísticos e socioculturais não estão
interligados no processo de ensino/aprendizagem. Acquaroni (2007) corrobora a
observação que fizemos, ao afirmar que, quando os autores do material didático deixam a
abordagem da literatura para o final da unidade, eles repassam para o professor a
dificuldade de incorporar esse tipo de texto ao desenvolvimento da aula. Como
consequência, a literatura acaba sendo deixada de lado na primeira dificuldade enfrentada,
seja ela de tempo, conhecimento ou programação. Desta forma, sentimos que, com o
desafio de abordar a obra cervantina, se apresentava uma excelente oportunidade para
poder explorar fragmentos de uma obra literária com o objetivo de que esta tivesse um
papel mais significativo na sala de aula. Esses fragmentos seriam o insumo para criar
atividades que propiciassem o desenvolvimento de aspectos linguísticos e socioculturais.
O vínculo entre esses aspectos ajudaria a evidenciar o quanto o ensino de uma língua deve
estar sempre aliado à cultura, já que a literatura é uma das formas de expressão artística de
um povo.

Anteriormente falávamos do caráter universal da obra El Ingenioso Hidalgo Don


Quijote de La Mancha, de Miguel de Cervantes y Saavedra. A universalidade está centrada
no fato de que ela aborda questões atemporais como, por exemplo, o enfrentamento entre o
ideal e a realidade, entre o social e o individual. Esses temas, segundo Albadalejo (2007),
perpassam todas as culturas e aproximam o texto literário à realidade do leitor,
possibilitando a construção de um diálogo intercultural com o autor e sua época, através
dos valores e ideias de seus personagens. Assim, a relação que se estabelece entre leitor e
escritor se dá para além do texto. Martins (2006, p.84) ratifica esse posicionamento quando
alega que o sentido se constrói na interação entre os textos. Para ela, o estudo da literatura
se torna significativo a partir da interação do aluno com o texto literário.

Ainda em relação aos temas universais, podemos dizer que eles suscitam discussões
valiosas em sala de aula, que propiciam a compreensão do mundo, promovem a formação
do aluno como futuro cidadão e sua inclusão na sociedade. As Orientações Curriculares
para o Ensino Médio (OCEM) afirmam ser de fundamental importância que os
professores, especialmente os de língua estrangeira, desenvolvam propostas de
ensino/aprendizagem que busquem promover letramentos múltiplos. Isso pressupõe,
segundo as OCEM (2006, p. 28), “conceber a leitura e a escrita como ferramentas de
empoderamento e inclusão social”. O conceito de letramento está vinculado à capacidade
de utilizar a leitura e a escrita para agir na sociedade. Infelizmente é possível constatar que
ainda há muitas pessoas incapazes disso, fato que desafia a escola a repensar o seu fazer
docente. Soares (1998) afirma que ainda se convive em uma sociedade em que há muitos
adultos incapazes de utilizar as ferramentas de leitura e escrita fora do ambiente escolar.
Cabe atentar que essa afirmação da autora está assentada nos resultados de uma pesquisa
realizada nos Estados Unidos. Que poderemos dizer nós a respeito disso, considerando o
Brasil?

Esse letramento também está relacionado ao letramento literário. Sanz (2006-2007),


vai ao encontro do que as OCEM afirmam, quando diz que o trabalho do texto literário em
sala de aula permite desenvolver estratégias de leitura semiótica. Isso significa,
Leer por debajo del texto, más allá del texto, identificando las
voces del texto y los lugares desde los que se pronuncian dichas voces,
reconociendo los interlocutores a los que se dirigen, estableciendo la
distancia entre una mirada, preñada de intenciones, y la voz que se
manifiesta, marcando la frontera o los puntos de concomitancia entre un
escritor y sus personajes, indagando sobre las relaciones entre el texto
literario y otros textos de la cultura, dilucidando las claves que
convierten el texto en un acto de rebeldía o de sumisión respecto al statu
quo. El diseño de actividades que se acerquen a los fragmentos de la
literatura desde la perspectiva esbozada ayuda al alumno a poner en
práctica recursos estratégicos extrapolables a la lectura de otros textos,
pertenecientes a otros géneros y a otras comunidades discursivas, y lo
capacitan, en definitiva, como un lector competente. (SANZ, 2006-2007,
p. 352)

Sanz (2006-2007) nos ajuda a entender que o papel da literatura em aula é o de


promover o letramento literário.

Uma vez que os pressupostos descritos acima nos permitiram inter-relacionar as


sequências didáticas, a literatura em aula de Espanhol como segunda língua e o letramento
literário, começamos a planejar as sequências didáticas, relacionando fragmentos do livro
de Cervantes aos conteúdos que deveriam ser desenvolvidos. A seguir, passamos a
descrever essas três sequências, que foram aplicadas em cada uma das séries e turmas do
Ensino Médio

2.1 Sequências Didáticas

É incontestável o quanto a obra El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de La Mancha


tem um significado atemporal. Entretanto, o fato de ser uma obra cuja segunda parte
completa quatro séculos neste ano já assusta os adolescentes. Se para os alunos de
espanhol da escola ler uma obra contemporânea em espanhol é complicado pelo nível de
conhecimento do idioma que possuem, ler um livro tão complexo, como o Don Quijote,
pode se tornar uma tarefa impossível. Tendo em vista esse fator, pensamos que seria
fundamental relacionar o livro à atualidade. Desta forma, as aulas foram planejadas para
que pudessem atrair o interesse dos alunos, tanto para a obra como também para a língua
espanhola. Sendo assim, pensamos em preparar sequências didáticas que pudessem ao
mesmo tempo abranger a obra, ter significância para os alunos nos dias atuais e dialogar
com a gincana escolar, evento muito significativo para toda a comunidade escolar. As
provas da gincana haviam sido elaboradas anteriormente pelos grupos PIBID Educação
Física e Letras Espanhol, o que auxiliou na seleção dos tópicos que deveriam ser
trabalhados nas aulas a respeito da obra de Cervantes, tais como o enredo, as principais
personagens e, especialmente, a relação dela com a atualidade. Para que de fato essas
sequências didáticas dialogassem com a gincana, precisamos aplica-las em todas as séries e
turmas do Ensino Médio, levando em consideração as peculiaridades e o conteúdo de cada
uma delas. A seguir, apresentamos um breve relato sobre as atividades desenvolvidas.

2.1.1 Primeiro ano do Ensino Médio

Para as turmas dos primeiros anos, propusemos atividades que desenvolvessem as


competências linguística e sócio cognitiva, bem como a reflexão sobre o vínculo existente
entre o tema do livro e a contemporaneidade. Para tanto, planejamos trabalhar conteúdos
relacionados à apresentação física e psicológica em língua espanhola. Os alunos deveriam
descrever o físico, as vestimentas e o caráter dos personagens principais da obra. Para que
os alunos pudessem fazer isso, durante as atividades aplicadas ao longo das aulas,
buscamos ativar os conhecimentos prévios, trabalhando o vocabulário específico,
instigando à reflexão crítica sobre os personagens, sensibilizando para a compreensão das
metáforas utilizadas por Cervantes nos fragmentos selecionados e fomentando a autoria
dos estudantes na expressão de suas ideias. A promoção da desenvoltura na apresentação
dos pontos de vista teve por objetivo não apenas considerar o espaço da aula, mas também
o da gincana. Desta forma, trabalhamos o exercício das estruturas frasais necessárias para
que os alunos pudessem se expressar e o respeito quanto à posição de outros colegas.

A sequência didática dos primeiros anos teve a duração de quatro aulas. Na


primeira, apresentamos a imagem de Don Quijote e Sancho Panza, sem que fossem ditos
os nomes dos personagens. Propomos a atividade como uma sondagem, na qual os alunos
deveriam dizer se conheciam aquelas pessoas. Após ouvirmos as manifestações dos alunos,
apresentamos esses dois homens por meio de fragmentos da obra. Destacamos a
importância da mesma para a literatura mundial e enfatizamos os ideais do cavaleiro Don
Quijote, tais como a luta pela justiça, a defesa dos mais fracos e a busca por outras pessoas
que comungassem dos mesmos valores. Durante a apresentação, utilizamos o léxico das
vestimentas, os aspectos físicos e psicológicos das personagens e os pronomes
demonstrativos, buscando introduzir esses conteúdos de forma breve.

Na segunda aula, promovemos uma reflexão sobre as personagens principais da


obra, questionando os alunos sobre como elas seriam nos dias atuais. Além de
características físicas e psicológicas, discutimos a respeito das roupas que elas usariam
hoje, retomando e aprofundando os tópicos de língua espanhola trabalhados na aula
anterior. Nesse mesmo dia, promovemos a formação dos grupos responsáveis para a
realização de uma tarefa que deveria ser apresentada ao final da sequência didática.

A terceira aula foi reservada para que os alunos, já em seus grupos, elaborassem
uma apresentação sobre um dos personagens principais do livro. A tarefa consistia na
caracterização de dois integrantes do grupo como o personagem escolhido, um da mesma
forma como este era representado na obra e outro como ele seria na atualidade. Os outros
alunos do grupo deveriam apresentá-los, descrevendo suas características físicas,
psicológicas e suas vestimentas, argumentando sobre o motivo pelo qual o personagem dos
dias atuais foi representado daquela forma. Durante a aula, auxiliamos os grupos na
preparação dessa atividade.

A quarta aula foi destinada para as apresentações dos grupos. A responsabilidade


pela avaliação da tarefa coube à professora titular e aos bolsistas do PIBID Letras
Espanhol. Foram considerados aspectos como: a postura dos alunos frente à turma, o uso
dos aspectos linguísticos trabalhados, a elaboração das vestimentas, a desenvoltura, a
reflexão e argumentação dos grupos na explicação sobre qual seria a relação que
estabeleceram entre o personagem e a figura escolhida para representá-lo na atualidade.

2.1.2 Segundo ano do Ensino Médio

Para pensar nesta sequência, debruçamo-nos sobre a essência da personagem Don


Quijote. Demo-nos conta de que, muitas vezes, os alunos têm como referência pessoas que
sonham e lutam contra injustiças, mesmo que estas nunca saiam vencedoras. Inclusive, eles
mesmos, como adolescentes, experimentam o sentimento de inconformidade com a
realidade. Levando isso em consideração, planejamos quatro aulas de modo a leva-los a
pensar e a identificar: quem é o Don Quijote da atualidade, em que situações podemos
encontra-lo e que tipos de ações são Quijotescas.

Para que os estudantes pudessem falar sobre esse Quijote, foi necessário refletir a
respeito do que eles iriam dizer sobre o personagem. Para relatar uma situação,
necessitamos localiza-la no espaço-tempo e, em especial, quando participamos dela,
costumamos dizer o que nos provoca. Então, para que os alunos pudessem falar desses
tópicos, trabalhamos em aula as expressões de tempo e os estados de ânimo. A obra foi
explorada a partir de trechos do filme “Don Quijote”, do diretor Peter Yates, e da
utilização do capítulo VII do livro.

Planejamos uma sequência didática para ser aplicada em cinco aulas. Na primeira,
os alunos tiveram contato com os trechos do filme, e conheceram, a partir deles, o
personagem principal, além de outros como Sancho Panza, Dulcinea del Toboso, el Cura e
a sobrinha de Don Quijote. Os alunos trabalharam com o conteúdo gramatical “estados de
ânimo” e, a partir das atividades propostas, fizeram suposições sobre o que sentia cada um
desses personagens nas situações apresentadas. Nos surpreendemos com o efeito que o
filme provocou, revelando-se uma boa ferramenta para abordar a obra. Além de servir para
exercitar a compreensão auditiva, agradou a turma por ser bastante engraçado. Ainda nesta
aula, foram divididos os grupos para a realização do trabalho final: um telejornal.

Na segunda aula, apresentamos um texto do escritor brasileiro Leonardo Chianca,


“¿Quién es Quijote hoy? ”, traduzido para o espanhol, que traz uma reflexão sobre a figura
Quijotesca e sua presença na realidade. Além do texto, trabalhamos o tópico linguístico
“expressões de tempo” para que os alunos pudessem localizar o Don Quijote ou qualquer
outra figura Quijotesca no espaço-tempo. Para exercitar esse tópico linguístico, os alunos
preencheram um texto com lacunas, sistematizando os dois conteúdos gramaticais
trabalhados em aula. O texto era uma suposta carta de uma amiga para a outra falando
sobre o papel dos professores. Foi escolhido esse tema por que os alunos identificaram a
atividade docente como uma atitude Quijotesca. Para eles, os professores acreditam na
educação apesar da dimensão das dificuldades enfrentadas.

Na terceira aula, apresentamos o capítulo VII da obra para que os alunos pudessem
reflexionar sobre as injustiças contra as quais Don Quijote lutou e contra as quais lutaria se
vivesse na atualidade. Abordamos o papel dos meios de comunicação na divulgação de
histórias de pessoas que fizeram algo de bom ou lutaram contra injustiças no Brasil ou no
mundo. Por isso, o tipo de trabalho final que deveriam desenvolver era uma produção de
um vídeo no formato de telejornal. Nele, os alunos apresentariam uma reportagem sobre
uma situação na qual encontrariam o Quijote na atualidade. A apresentação deveria conter
as estruturas e o vocabulário estudados em aula e os estudantes poderiam utilizar o material
de apoio disponibilizado. Para que eles pudessem escrever o roteiro que levaria à gravação
do vídeo, trabalhamos as características básicas do gênero telejornal. O final da aula ficou
reservado para que eles esboçassem as primeiras ideias. Nesta primeira produção,
surpreenderam-nos a riqueza de ideias verbalizada pelos alunos e a pluralidade de
concepções apresentadas sobre as atitudes Quijotescas.
A quarta aula foi reservada apenas para a escrita e correção do roteiro. No vídeo os
alunos deveriam demonstrar uma articulação entre o uso dos conhecimentos de língua
espanhola adquiridos e as reflexões sobre onde e em quem eles encontram o Don Quijote
na contemporaneidade. Na quinta aula, apresentaram os vídeos e uma cópia do roteiro.

2.1.3 Terceiro ano do Ensino Médio

Para os terceiros anos, pensamos em quatro aulas com o objetivo de relacionar a


temática da obra de Cervantes com o presente de subjuntivo, conteúdo programático que
seria trabalhado. Este é utilizado para expressar desejos, dúvidas, suposições, ações não
concretas e irreais. A nossa intenção era a de que os alunos pudessem valer-se do
subjuntivo para expressar o que o personagem Don Quijote desejava e quais eram as que
causas que ele defendia. Durante as quatro aulas, apresentamos fragmentos da obra e
tópico gramatical com o objetivo de que os alunos fossem capazes de produzir uma charge
que tivesse como tema: “Qual seria a luta de Don Quijote nos dias de hoje? ”.

Na primeira aula, motivamos os alunos para a temática proposta expondo uma


imagem do personagem e apresentando um breve relato do livro. Trabalhamos a biografia
de Cervantes e a influência que a obra El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de La Mancha
possui no mundo todo. Entregamos um fragmento, produzido pelos próprios pibideanos,
que expressava os desejos de Don Quijote. Esse fragmento era formado de frases em
presente de subjuntivo em língua espanhola. Destacamos as frases para que,
posteriormente, os alunos pudessem questionar seu conteúdo e, dessa forma, déssemos
início à sensibilização para o tópico linguístico previsto. Ainda nesta primeira aula,
orientamos a formação dos grupos para a realização do trabalho final, a charge.

Na segunda aula, trabalhamos a estrutura, o uso e a conjugação do presente do


subjuntivo. Para isso, realizamos uma comparação de frases do indicativo e do subjuntivo
para que os alunos pudessem entender o que este modo expressa e qual o seu uso. A seguir,
apresentamos a formação do presente do subjuntivo e propusemos exercícios como: a)
montar frases que expressem desejos, dúvidas ou suposições, relacionando uma imagem a
um verbo e uma palavra; b) organizar frases desestruturadas e com verbos não conjugados;
b) jogar o jogo “tres en raya” (jogo da velha), formando frases a partir de verbos em
subjuntivo; c) formar frases que expressem desejos, dúvidas ou suposições de Don Quijote
e de outros personagens da obra. Entregamos aos estudantes um material de apoio sobre
esse tópico gramatical (o uso, a conjugação dos verbos utilizados no fragmento e frases
modelo que os personagens da obra utilizariam) com o objetivo de auxilia-los em futuras
aplicações da própria sequência didática.

Na terceira aula, retomamos os conteúdos para que os estudantes concluíssem os


exercícios que haviam ficado pendentes A seguir, apresentamos um fragmento da obra de
Cervantes que revelava o motivo pelo qual Don Quijote lutava e outros fragmentos com
opiniões de personalidades da área da literatura. Estas opiniões estavam relacionadas a
quem seria o personagem principal nos dias atuais e às causas que o levariam a lutar.
Apresentamos esses textos com o intuito de que pudéssemos iniciar um debate que servisse
como suporte para a elaboração da charge. Nela, os alunos deveriam representar quem
seria Don Quijote nos dias atuais e as causas pelas quais lutaria, utilizando além do
desenho gráfico, uma frase com a estrutura do presente do subjuntivo. Para que pudessem
realizar a tarefa, apresentamos o gênero charge, as suas características e exemplos que
demonstrassem o que foi solicitado. Os alunos deram início à preparação da tarefa,
devendo considerar aspectos como a criatividade, a estrutura e o vocabulário estudados.

Na quarta aula, tiraram suas dúvidas, finalizaram a atividade e apresentaram o


trabalho realizado. As charges surpreenderam pela qualidade e visão crítica dos alunos
sobre o tema. Uma vez descritas as sequências didáticas desenvolvidas, a seguir, passamos
a relatar os resultados e as nossas considerações finais.

3. Discussão dos Resultados

Para um tema grandioso, uma proposta grandiosa. Ao escolhermos a temática que


seria trabalhada, levamos em conta a importância da obra e a comemoração dos 400 anos
da publicação da segunda parte do Ingenioso Hidalgo Don Quijote de La Mancha. É
sempre uma dificuldade fazer com que os alunos se interessem por leitura ou por literatura,
por isso, a saída encontrada foi a de aproximar a temática do livro à realidade dos jovens.
Esse contato possibilitou viajar no tempo e no espaço, acessar a outros mundos, e
reconhecer o próprio mundo dentro de outro. Foi uma proposta grandiosa, pois, pela
primeira vez, o grupo PIBID Letras Espanhol resolveu trabalhar a mesma temática com
todas as turmas de Ensino Médio, cada ano com um enfoque diferente e de acordo com o
que estava previsto no Plano de Estudos Curricular vigente.

Trabalhar com a literatura nos possibilitou ir além dos aspectos gramaticais e


estruturais da língua. Pudemos abordar questões culturais e temas universais que
facilitaram a aproximação dos estudantes ao autor e à sociedade da época, por mais
distante que os discentes estivessem deles. A partir do texto literário, conseguimos
envolver os alunos em um mundo imaginário/fictício, tornando-os parte daquela história.
Através da leitura, eles tiveram contato com outros costumes, valores, formas de pensar e
acabaram familiarizando-se com o mundo de Don Quijote. Assim, por meio da literatura
os alunos empoderaram-se, de forma prazerosa, como leitores, como intérpretes, como
sujeitos reflexivos, ativos, críticos e sensíveis em relação à sociedade em que vivem e ao
mundo. Dito de outra forma, as sequências didáticas promoveram não apenas o
aprendizado significativo da língua espanhola como também o letramento literário.

Olhando os resultados alcançados sob o ponto de vista do grupo, podemos afirmar


que a experiência foi imensamente gratificante. Em relação ao professor titular, a
participação nesta proposta oportunizou um trabalho compartilhado, desde a discussão até
a aplicação do planejamento. Possibilitou uma reflexão a respeito do exercício da docência,
uma provocação na busca de novas formas de pensar e desenvolver o fazer docente.

Por sua vez, os bolsistas PIBID puderam aproximar-se mais das turmas, sentir-se
mais à vontade para participar em classe, tiveram maior autonomia e puderam perceber-se
como protagonistas da aula. A discussão fomentada por este trabalho, permeada pela
socialização de experiências e vivências, pela observação de aulas, buscou preparar os
bolsistas para que, no futuro, também compartilhem a docência, saibam trabalhar com
outros colegas e socializar saberes. A experiência de unir literatura, gramática,
representação, telejornal e charge, com o objetivo de que tudo isso viesse auxiliar os alunos
em uma gincana baseada na respeitada obra de Cervantes, foi um desafio que, se em um
primeiro momento gerou apreensão, também promoveu muitas aprendizagens nesse
caminho de formação de um futuro profissional.

Não fossem esses os únicos ganhos, na elaboração das sequências didáticas, o


grupo PIBID Letras Espanhol contou com a assessoria externa da Professora-Leitora de
Espanhol da Agencia Española de Cooperación Internacional para el Desarrollo
(AECID), Almudena Santamaría, que atualmente atua na Unisinos. A troca de
conhecimentos e experiências estabelecida no desenvolvimento do trabalho entre a
professora leitora, a titular, os bolsistas PIBID e a coordenação do subprojeto, bem como
os desafios enfrentados no processo, formam um cabedal intelectual que perpassa as salas
de aula da graduação na formação dos futuros docentes.

Esperamos que a união entre teoria e prática, estudo e experiência, tornem-se


sempre um objetivo a ser perseguido na atuação docente. Obtivemos grandes aprendizados
a partir de Don Quijote e desta temática tão relevante e abrangente que mobilizou o grupo
PIBID Letras Espanhol e a Escola de Ensino Médio CAIC Madezatti.

Referências

ALBADALEJO GARCÍA, D. “Cómo llevar la Literatura al aula de ELE: de la teoría a


la práctica”. marcoELE. Revista de Didáctica Español como Lengua Extranjera. Julho-
dezembro 2007, número 5. Disponível em: http://marcoele.com/como-llevar-la-literatura-
al-aula-de-ele-de-la-teoria-a-la-practica ISSN 1885-2211 Acesso em: 03ago2015.

ACQUARONI MUÑOZ, R. Las palabras que no se lleva el viento: Literatura y


enseñanza de ELE/L2. Madrid: Santillana. 2007

BRASIL. Orientações Curriculares para o Ensino Médio. Brasília: Ministério da


Educação, Secretaria de Educação Básica, 2006.

CERVANTES SAAVEDRA, Miguel de. Don Quijote de La Mancha. Madrid: Alianza,


1996. 2 v. (Cervantes completa; 4 (v.1)) ISBN 84-206-4500-1 (obra completa)

MARTINS, Ivanda. A literatura no ensino médio: quais os desafios do professor? In:


BUNZEN, Clecio; MENDONÇA, Márcia. (Org.). Português no ensino médio e formação
do professor. São Paulo: Parábola Editorial, 2006. p. 83-102.

SANZ PASTOR, M. "El lugar de la literatura en la enseñanza del español:


perspectivas y propuestas" Enciclopedia del español en el mundo. Anuario del Instituto
Cervantes 2006-2007. Disponível em: http://cvc.cervantes.es/lengua/anuario/anuario_06-
07/lengua.htm Acesso em: 03ago2015.

SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros. 4. ed. Belo Horizonte:


Autêntica Editora, 1998.

SCHNEUWLY, Bernard; DOLZ, Joaquim. Traducción y organización: Roxane Rojo e


Glaís Sales Cordeiro. Gêneros orais e escritos na escola. Campinas: Mercado das
Letras, 2004.