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Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.

)
BIOGRAFIA

• Originário de uma família da classe média, apesar de não ser patrício nem plebeu, segue todo um
brilhante cursus honorum no âmbito das magistraturas republicanas. Com vinte e cinco anos de
política activa, aparece em 63 aC como cônsul, a derrotar a conjura de Catilina, então líder do
partido populista, e, graças a essa luta, obtém o título de pater patriae (pai da pátria).

• Assume, então, a liderança do terceiro partido, dos homens de negócios, distante dos populares e
dos nobiles (nobres), propondo uma terceira via, a aliança da classe média com os nobiles
moderados.

• Já depois do assassinato de Júlio César em 44 aC, assume a chefia do partido senatorial que
advoga o regresso ao pluralismo e às liberdades republicanas, mas acaba por ser derrotado na
sequência do advento do segundo triunvirato, onde o seu antigo aliado, Octávio, não consegue
impedir o seu assassinato.

• Entre as suas obras políticas, destacam-se De Republica, escrita entre 54 e 51aC, e De Legibus,
trabalho que deixou incompleto e que começou em 52aC. Estes dois títulos retomam,
respectivamente, a Politeia (República) e os Nomoi (Leis) de Platão, e, se não primam pela
originalidade, demonstram como o republicanismo romano tenta desenvolver as sementes lançadas
pelos gregos.

• Aliás, recebeu a sua formação nesse ambiente grego, assumindo-se como discípulo da primeira
fase da escola estóica de Zenão e como herdeiro das concepções de Aristóteles (384-322aC) e de
Políbio (201-120aC), servindo de ponte para o posterior estoicismo romano de Séneca, Epicteto e
Marco Aurélio.

• Assim, considera que uma República constituiria uma harmonia entre a liberdade, a autoridade e
o poder, onde a libertas estaria na participação directa do povo na decisão política, a auctoritas, no
órgão que conserva a memória da fundação da cidade e detém o poder legislativo, o senado, e a
potestas, no poder executivo dos magistrados.

ENQUADRAMENTO HISTÓRICO

Guerra civil na Judeia (67aC)

Campanhas vitoriosas de Pompeu no Oriente (67-63aC)

Pompeu vence definitivamente Mitridates e Tigranes, o último rei Selêucida, ou Seljúcida, e o


asmoneu Hircano de Jerusalém e levanta uma muralha de províncias romanas contra os Partos.
Cícero apoia Pompeu no Senado (66aC)

Pompeu conquista a Síria e intervém na Judeia, então um Estado dirigido pela dinastia dos
Asmoneus, vassalizando-a sob a suserania da dinastia dos Selêucidas. Tensão entre o Senado e
Pompeu (64aC)
Terminam as guerras com Mitrídates, rei do Ponto. Roma passa a controlar a Ásia Menor e a Síria.
Pompeu é o grande vencedor. Alia-se a Cícero e aos cavaleiros. Pompeu faz acrescer, mesmo sem
autorização do Senado, novas províncias (Bitínia, Síria, Cirenaica-Creta), ao lado das antigas (Ásia
e Cilícia). Consulado de Cícero. Conjura de Catilina. Este dizia: considero a república uma cabeça
sem corpo, e um corpo sem cabeça; pois bem, serei eu essa cabeça. Cícero pronuncia em 7 de
Novembro o célebre discurso contra ele (conhecido como Catilinárias): até quando, Catilina,
abusarás da nossa paciência? (63aC)

Júlio César vem à Lusitânia como pró-pretor da Hispania Ulterior. Os Germanos invadem a Gália
(61aC)

Primeiro triunvirato romano: Júlio César, Pompeu e Crasso (60aC)

ENQUADRAMENTO LINGUÍSTICO E CONCEPTUAL

Significado do termo “república”. Termo controverso com origem no latim res + publica = coisa
pública. Dito em inglês commonwealth e em alemão Gemeiwesen. Uma das primeiras utilizações da
palavra em português, por João de Barros, nas Décadas, opõe a república à tirania: «por causa dos
tiranos deles os povos se levantaram, e ora se governam per os mais velhos em modo de repúbrica».
D. Jerónimo Osório considera que a república, equivalente àquilo que os gregos chamavam kosmon,
isto é, “coisa perfeita” que resulta de um conjunto de homens unidos pelo direito, onde todos os
cidadãos estão ligados entre si por uma aliança pública, estão à uma, absolutamente de acordo no
que respeita à salvação pública.

Segundo Cícero, para que haja res publica, são necessárias três condições: um número razoável de
pessoas (multitudo); uma comunidade de interesses e de fins (communio); e um consenso do direito
(consensus iuris).

Para Kant, o Estado tanto é designado por coisa pública (res publica), quando tem por liame o
interesse que todos têm em viver no estado jurídico, como por potentia, quando se pensa em relação
com outros povos, ou por gens, por causa da união que se pretende hereditária. O que se poderia
dizer de outro modo, entendo o Estado como comunidade, soberania e nação, para utilizarmos
categorias de hoje, dado que o Estado é ao mesmo tempo Estado-comunidade, ou república, Estado-
aparelho, ou principado, e comunidade de gerações, ou nação.

Ideias-força do texto de Cicero “De Republica”

A ideia de civitas [cidadania]

O modelo clássico da polis foi sempre marcado pela ambivalência. Se, por um lado, ela visa atingir
a autarquia, aquele espaço de auto-suficiência que lhe permite satisfazer as necessidades vitais dos
respectivos membros, também existe para bem viver. Segundo as próprias palavras de Aristóteles, a
polis, formada de início para satisfazer apenas as necessidades vitais, existe para permitir bem viver
ou um viver segundo o bem. É esta exigência de bem viver que faz da polis uma forma de
associação humana totalmente diferente das associações infrapolíticas.
Haverá assim uma comunidade que é a mais alta de todas e a que engloba todas as outras. Esta
comunidade é aquela a que se chama polis, é a comunidade política. Parte-se do princípio que a
politicidade tem de ser poder mais liberdade, tem de ser governação mais participação, porque não
há polis que não tenha como base a cidadania.

A polis tem de ser suficientemente grande para poder atingir a auto-suficiência, para conseguir um
poder de governação, mas também tem de ser suficientemente pequena para permitir a liberdade e a
participação. Logo, não pode ser grande demais nem pequena demais. Tem de ser harmónica e
proporcionada. Tem de crescer na medida compatível com a sua unidade. Tem de ser suficiente na
sua unidade. A polis aparece, pois, como um conjunto geo-humano e geo-histórico, como
associação de pessoas e comunidade de gerações, como um todo que tanto é autarcia como
comunidade, que tanto é auto-suficiência em vista de um bem comum.

Assim se chega ao conceito romano de civitas, entendida como um agrupamento de homens livres,
estabelecidos num pequeno território, todos dispostos a defendê-lo contra qualquer ingerência
estranha e, sobretudo, onde todos detêm uma parcela de poder, bem diversa daqueles modelos
políticos territorialistas, onde um só homem exerce o poder duma forma absoluta e exclusiva. O
modelo de civitas apenas teria surgido quando as diversas etnias romanas (tribus), por comum
acordo ou por necessidade de se unirem para se defenderem, se coligam e escolhem um chefe (rex).
Saliente-se que o rei em Roma era vitalício, mas não hereditário. Além disso, assumia o poder
depois de ser electivamente investido pelo povo.

É a partir desta realidade que Cícero concebe a civitas como uma multitudo (povo) unido numa
comunidade communio, na qual a comunhão de interesses não pode deixar de traduzir uma
comunhão de fins. Contudo, sempre se considera que esse conjunto tem de ser movido por um
consenso de legalidade (consensus iuris), onde o direito positivo (o direito convencionalmente
estabelecido na cidade) não pode deixar de se nortear pelo direito natural (entendido este como lei
que inscrita na razão humana). Porque se o direito positivo é contingente, mutável e localizado no
tempo e no espaço, importa que este seja sempre corrigido por um direito eterno, imutável e
universal. É neste sentido que Cícero dá o nome de respublica àquilo que os gregos chamavam
polis, considerando-a como coisa do povo, como a sociedade firmada no Direito e formada em vista
da utilidade comum.

A ideia de populus [povo]

Deve-se a Cícero a consolidação de alguns dos tópicos fundamentais da concepção do mundo e da


vida da política europeia e ocidental de matriz democrática, como a ideia de povo, entendida como
a matriz do aparelho de poder e a consequente perspectiva daquilo que hoje qualificamos como
Estado de Direito.

Originário de uma família da classe média (não sendo portanto nem patrício nem plebeu) Cícero
pôde seguir todo uma brilhante carreira pública (cursus honorum) no âmbito das magistraturas
republicanas. Com vinte e cinco anos de política activa, aparece, em 63 aC, como cônsul a derrotar
a conjura de Catilina. Já depois do assassinato de Júlio César, em 44 aC, assume a chefia do partido
senatorial que advogava o regresso ao pluralismo e às liberdades republicanas, mas é derrotado na
sequência do advento do segundo triunvirato, onde o seu aliado, Octávio, não consegue impedir a
sua proscrição e consequente assassínio, às ordens de Marco António.

O seu republicanismo romano tentou retomar as sementes lançadas pela filosofia grega, na qual se
inspira a sua formação política, abrindo-lhe as portas tanto para o valor central do humanismo
(humanitas), como para a ideia de que os assuntos públicos, que a todos dizem respeito, devem ser
decididos em contexto consensualístico (omnium gentium consensus). Se em Platão e Aristóteles
ainda permanece aquilo que alguns qualificam como uma racionalização da natureza, já em Cícero
emerge uma espécie de naturalização da razão. Cabe à razão orientar essa busca permanente de
consenso.

É nessa linha que emerge, no seu diálogo De republica, o conceito de povo (populus), entendido,
não como massa anónima ou multidão amorfa, mas como comunidade unida (multitudo
congregata) pelo Consenso da lei (iuris consensus) e pela Utilidade comum (utilitas communis),
cuja coesão (Societas) a todos diz respeito. Para haver respublica, são necessárias então três
condições: uma multitudo (um número razoável de pessoas), uma communio (uma comunidade de
interesses e de fins) e um iuris consensus (consenso jurídico). É assim que, através de Cícero, o
Direito passa a fazer parte essencial da noção grega de polis, numa antecipação daquilo que é hoje o
nosso Estado de Direito. Só que não se invoca primordialmente o direito positivo, mas, antes, a lei
inscrita na razão, que manda atribuir a cada um aquilo que lhe pertence ou que lhe é próprio. É que
para Cícero, o direito não resulta do arbítrio, mas é dado pela natureza (jus naturalis). Coloca
assim, em primeiro lugar, um direito natural, estabelecido por uma razão natural, a razão que está na
natureza das coisas. Abaixo desse direito superior, surgiria um direito comum (ius gentium), um
direito já positivo, mas ainda superior a esta, que, como reflexo imediato da lei natural, teria de ser
comum a todos os povos. Em terceiro lugar é que surgiria o direito civil (ius civile), o direito
positivo aplicado exclusivamente aos cidadãos, a lei particular de uma determinada comunidade.

Conforme pode ler-se em De republica, a lei da natureza é uma lei verdadeira, a recta razão
conforme a natureza, universal, inimitável, eterna, onde as coisas convidam ao dever, onde as
proibições afastam do mal. Neste sentido não é legítimo alterá-la, derrogá-la ou repeli-la. Nem
provavelmente poderemos ser isentos dessa lei, seja pelo Senado ou pelo Povo; nem arranjar um
outro padrão para a explicar ou interpretar. Não pode haver uma lei para Roma e outra para Atenas;
o que se afirma hoje tem de ser respeitado amanhã; é uma lei eterna e imutável para os povos de
todas as eras; como se fosse dona e senhora, a única deusa, autora de si mesma, promulgadora e
compulsória. Quem não partilha este sentimento foge a si próprio e à natureza como um homem
desprezado.

E, aliás, a partir desta perspectiva jusnaturalista que adquire sentido um exercício republicano do
poder político. Uma república constituiria assim uma harmonia entre a liberdade (libertas), a
autoridade (auctoritas) e o poder (potestas): a liberdade residiria na participação directa do povo na
decisão política; a autoridade repousaria no Senado (órgão que conserva a memória da fundação da
cidade e detém o poder legislativo); o poder decorreria da função executiva dos magistrados.
Porque, se numa sociedade não se repartem equitativamente os direitos, os cargos e as obrigações,
de tal maneira que os magistrados tenham bastante poder, os grandes bastante autoridade e o povo
bastante liberdade, não pode esperar-se que a ordem estabelecida se conserve por muito tempo.
Cicero define, em suma, a res publica como a mistura da libertas do povo, da auctoritas do Senado
e da potestas dos magistrados, como forma superior de governo que nasce das três reunidas.
Considerando que o poder sem a sabedoria que ensina a governar-se a si mesmo e a dirigir os
demais, é uma vergonha, conclui, exortando: que pode haver de mais admirável do que uma
República governada pela virtude, quando aquele que manda os outros não obedece a nenhuma
paixão, quando não impõe aos seus concidadãos nenhum preceito que ele próprio não observe;
quando não dita ao povo qualquer lei a que ele próprio se não obrigue, e a sua conduta inteira
pode apresentar-se como exemplo para a sociedade que governa?.