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SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

Ricardo de Almeida Rocha


SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

©2010, 2017 Ricardo de Almeida Rocha

ricardrbrsp@gmail.com

Copyright by Ricardo Rocha

Texto protegido pela Lei de Propriedade Intelectual

No. 9.610 de 19 de fevereiro de 1998

Versão para eBook


O solitude! If I must with thee dwell

John Keats
Na janela junto à ponte se debruça absorta. A correntinha reluz em seu

pescoço. Na trilha do parque por onde ereta voltou como se nada tivesse

acontecido, arde a devassidão das aparências. Havia nas árvores aves como

essa — canto de um mundo que a abandonou. Ouve o barulho do mar

exatamente como em sua caminhada matinal. Em cores fortes e reflexos

passam os automóveis. Inquieta respira fundo. Afasta-se da paisagem com um

impulso no parapeito e num último relance deixa o sol filtrado entrar na sala

quase líquido sobre os móveis.

Enquanto procurava entender onde estava ao acordar suando frio no

meio da noite cruzara os braços sobre o peito e levara as mãos em cruz ao

calor do ventre. Recordou-se menina. Seu primeiro amor foi uma coleguinha

de classe. Um dia saiu de casa e esteve diante da portaria de seu prédio por

quase uma hora. Um dia foi magra sem indício de atrativos em vestidinhos

que ela masculinizava. Uma menina obediente e bondosa. Merecia um corpo

despercebível em que habitar. Jamais usaria maquiagem. Jamais iria beber ou

mentir. Cultivará todo propósito virtuoso.

Estava sempre ajeitando o biquíni sem que seus pais entendessem a

razão e em casa ficava horas olhando o nada. No enterro do avô o tempo todo
chorava e dizia "Vou sentir tanto a sua falta! Vou sentir tanto a sua falta!" Mas

ama agora a integridade de um homem e tudo que lhe diz respeito incluindo a

indócil virilidade que ele está longe de imaginar tenha tal efeito apaziguador.

Livrara-se do passado e enfim seria feliz se não tivesse sido de novo

transtornada pela humilhação renovada, outra perda da inocência. Em que

medida era culpada e como conviver com essa culpa? Como conviver com

esse ódio?

Gisele Drabska. Uma jovem simpática que todos achavam belíssima.

Que vantagem se a beleza só traz sofrimento? Um dia morrerá e nada ficará

além de seu caráter. Dos objetos pessoais impregnando de saudade a pessoa

amada. Os poemas na maior angústia.

Apesar da longa ducha parece que ainda dorme mas já é dia. Sobre a

cabeceira o relógio acusa seu atraso. Na penteadeira o perfume que recebeu no

Dia dos Namorados. Veja no espelho o quanto você é bela, dama triste de

olhar perdido na sacada da firma. As colegas a imaginam realizada com os

homens que quer. E amaldiçoam, amaldiçoam sempre, às vezes com gracejos

e outras simples maledicência.

Sobre a cômoda antiga as bonecas de porcelana numa cena perfeita de

reflexão acerca da infância que chegou a ser tão boa durante algum tempo.
Uma colina ao longe cuja neblina jamais se dissipa. Com uma última ajeitada

no cabelo desdenha de tempo ou contratempo.

Deu uma olhada ao sair percebeu que há orvalho nas folhas da árvore

em frente, a única do quarteirão. A grama do condomínio está dourada. Até

que horas durará esse brilho? No rosto pálido a resposta: não mais que alguns

minutos, o tempo da alegria de alguém.

O vermelho vivo passa e na distância marcada pelo motor se mistura o

som do telefone. Não achava que ele fosse capaz de ligar. – Vamos terminar

num lugar discreto o que a gente começou na trilha?

Gisele continua caminhando. Nem por doença falta ao trabalho e não

costuma se atrasar.
Todas as cidades se parecem sob a chuva. Todas as festas ao ar livre se

parecem. Todo flerte tem olhares semelhantes e todo recato esconde alguma

coisa. Junte tudo isso e eis aquele dia depois da aula. Gisele e Davi saíram em

direções opostas mas não demorou e logo ele estava atrás dela. Atrás de uma

árvore na verdade, o olhar cravado nas costas da menina. Desde aquela hora a

tempestade se anunciava. Trovões silenciosos no horizonte do entardecer.

Primeiro a chuva fina quando davam os últimos retoques nas barraquinhas.

Por muito pouco a previsão do tempo não acertrou ao tranquilizar os

organizadores de que se chovesse seria só depois que o pessoal estivesse em

casa. Por minutos. Ela escapou por menos que isso. O aguaceiro desabou

assim que entrou no prédio. Ele não teve tanta sorte. Até porque do prédio até

a sua casa ainda teve de caminhar mais de uma hora debaixo d'água.

Se tivesse deixado o cabelo crescer seriam cachos marrons e angelicais.

Mas gostava assim curto, era mais ele mesmo; embora isso seja uma questao

de que nunca se livro e de resto acha que jamais se livrarah. Seus labios bem
desenhados Gisele achou de primeira que foram feitos para dizer as mais

delicadas e platonicas palavras de amor.

;eragrandeegarbosoeproferiapequenasexclamaçõespetulantesquenãocom

binavamcomseutipo".Gassdiz:

David não usava o celular mas atendeu o pedido de Gisele e levava

consigo para um caso de emergência. Conheceram-se no ônibus. Não tinha

certeza de onde saltar. Gisele sabia?

– Ah! – respondeu ela. – Também desço nesse ponto.

Ela se angustiava com a possibilidade de uma ligação. Como ela

também não costuma receber chamadas quem poderá ser agora? De quem é

esse número no visor? “ Alô?” Um caminhão passou no exato momento. Terá

de perguntar novamente. Não teve tempo.

A seqüência é conhecida. Foi levado para a clinica tal. Está em coma.

Um pranto desesperado. Camadas de desespero sobre camadas de pranto. Ali

ela morreu e continuou morrendo pelos meses seguintes enquanto as

esperanças de que ele pudesse despertar eram retiradas como bebês a fórceps

não para a vida, natimortos.


Outrora era uma festa. Seu coração exultava por tudo e por nada. Até a

primeira vez. Ao menos não era mais uma criança. Então conheceu David e

todas as coisas passaram a existir em glória como se houvessem alma.

A madrugada de sábado ronda a janela em celebrações embriagadas.

Acordou consigo mesma ao despertar em nada pensar sobre a noite passada.

Esqueceria o monstro. Tinha essa sorte de não morarem na mesma casa. É a

miséria de tantas sobrinhas e enteadas e filhas.

Um dia ela acordou triste e sua tristeza parecia nascer da rua em que

morava. Andou pelo lado esquerdo de quem vai no sentido da praia e depois

trocou de calçada mas a percepção persistiu. Tudo cintilava — seu predio e a

clínica de olhos, a loja de ferragens e o posto de gasolina - imerso em uma

beleza invulgar, perigosa, por onde os banhistas chegam à areia e depois ao

mar. Desde sempre era arrastada por aquele caminho como se fosse a

extensão do apartamento de portas abertas e do prédio sem grades pontiagudas

ou muros ou porteiro. Continuou caminhando depois de breve parada diante

do cartaz do filme. Os olhos vermelhos. Vestia o jeans de sempre um número

maior que o seu e conseguirá afinal um óculos sem grau. Abaixou-se para ver

melhor o botão da flor mas logo endireitiu-se e continuou a caminhar e seu

primeiro pensamento depois que atravessou a última transversal antes do


parque foi com o desconcertante olhar que trocar(a) com o irmão quando se

encontraram antes do amanhecer na porta do banheiro. Estava tão apertada

que nem ligou muito na hora mas depois que tornou a deitar ficou pensando e

pensando e não parou mais de pensar ateh que decidiu sair e continuar

andando e andando e até nadando de repente desde que tão cedo não parasse.

Na manhãzinha a neblina acrescida de chuva. As ruas vazias estão

mortas. O espelho sorriu em cambraia branca com renda e bordado. Uma

jovem forte que só mas estava um pouco cansada.

Mal saíra do prédio notou-o no ponto. Que rapaz simpático e que

porte... Parado sob a chuva parecia familiar. Ela pensava nele sem perceber

que tambem tinha entrado ate ele lhe dirigir a palavra. O que é isso, Gisele?

Uma noite horrorosa. As olheiras sujam o redor dolorido de seus olhos.

Ainda dizem que isso lhe dá um charme especial. Uma mulher gorda passou

pisou em seu pé arfando e batendo o joelho em sua coxa. Gisele meneava a

cabeça rindo achando que era antes caso de chorar.


Toda luz estava acesa. As lâmpadas de teto e o dia. E havia a lua

estranha e teimosa entre nuvens visível entre bategas. Chegara independente

do tio a primavera. A saia de sarja sairia índiga em seus suaves quadris. Os

seios pequenos apontavam para a idade completada no dia anterior. Embora

discreto ele não pôde deixar de perceber.

Ele lutava contra limitações fisicas. Perdera a família e não tinha

amigos. Mas conseguiu um emprego de pesquisador. Seus relatorios estavam

mais para poesia e o chefe arrumou para que ele lecionasse. O professor que o

amigo do reitor precisava. Na universidade as coisas podem ser refinadas e

isso a concorrencia entre as empresas nao permite. De quebra haveria um

aceso mais fácil a verbas e a divulgação de congressos. No final das comtas

foi melhor para todos. A saúde melhorou; não tinha mais tempo de sentir-se

sozinho.

O coração parece que vai explodir ao descerem do ônibus. Um capricho

do destino com a delicadeza da garoa permanece na segurança do prédio. -

Trabalho aqui - disse ela. Quem dera eu pudesse também.

Atendeu a ligação lembrando. Pressentimento confirmado, chorou

muito; chorou tudo. De novo sozinha. Para sempre. Não. Antes sozinha. Mas
não: com o vizinho e o tio e o médico e o homem no metrô e os assaltantes.

Todos à solta a seu redor. E David uma falsa companhia - uma falsa

existência ligada às máquinas.

Como era infeliz!

Abandonou-a depois do pai e do irmão também o seu amor, partindo

para esse limbo.


A morte não existe para o homem. A moça do monitor atende o pedido

e tira mais uma peça. Com essa conseguiria de primeira. Os amigos de bar não

partilham suas fantasias. Sequer sao ligados nessa coisa de internet. A vida

não existe para ele se isso não for vida.

O barulho incomoda. Grita com os vizinhos. “ Parem com isso,

palhaços!” Não escutam. Não estão em casa. Vejamos o que digo para que

tire o resto, pensa com a mão direita.

- Aposto que você se depila toda.

Ela mostra que não e não deu para segurar. Depois do gozo não há nada.

Ela gosta de se exibir e agora se exibe para ninguém. No contato com a água

fria o pequeno menor.

Ele se vira assustado para o lado do ruído. Não sabe se está vendo o que

está vendo. Tenta lembrar tudo o que comeu no almoco e a aparencia da

maconha da noite anterior. Ou pode estar sonhando. Do chuveiro o que se vê é

um homem prostrado. Um menino. Quem entrasse naquele momento não veria

a luminosidade de uma perna feminina à luz do basculante. Na pele lisa e

luzente um reflexo desfigurado do homem caído. Ele balbucia. Pelo ângulo

não se poderia ver além da perna mas da perna se deduz uma jovem
magnífica. O menino no chão vê a mãe tão bonita e escuta o pai dizendo vou

embora e que não aguenta mais a mulher - Vou embora - diz - desse inferno.

Está se justificando?

Pede humildemente perdão. Nao pretendia. - Ando estressado por causa

do trabalho, você não imagina o que é a rotina de um executivo. Perdoe-me

por favor - pede. Estava cheio de dívidas e não conseguia se concentrar.

Estava quase falido e jamais teve amor. Encontrá-la no parque foi um

refrigério. - Reconheço que não foi uma maneira bonita de demonstrar o meu

amor mas é a verdade.

Não vai dar uma desculpa para a mulher na tela? A moça no banheiro

não se mexe e não fala. Nem poderia estar ali. Então do que se trata? Ela está

a ponto de chorar? Sim. Os olhos estão marejados.

- Perdoe—me toda crueldade que fiz ao longo de minha vida.

- Dói demais. É consciência demais.

- Fale, moça. Me faça compreender o que está acontecendo.

Não é remorso. É outra coisa.

Os lábios que recebiam as lágrimas se movimentam. Ameaçam um

sorriso apavorante. Nao sao palavras inteligíveis as desses lábios mas ele as
entende com a mesma clareza com que sente o pé descalço que em seu peito

se apoia.

Havia no olhar uma sentença. Desista de sua vida ou a dor crescerá

eternamente. O chuveiro pinga e a torneira da pia está aberta; gotas na janela

do banheiro — tudo chora o pranto ao qual a visão renunciou. O homem

admite o que sua razão rejeita. Está a ponto de desistir da vida.

Não há dúvida, é dela esse joelho. Como não seria? foi o que primeiro

lhe chamou a atenção. Mas não provém dela a dor desse estranho priapismo.

Uma vida inteira que não pode mais justificar.

A dor crescia pelas coxas e irradiava seca para o ventre e a secura

ignorava os gritos apoiada pela mão que tapou a boca.

Aí chegou alguém. Aí ele fugiu. Agora ninguem tampa a minha boca,

pensa. Mas eu não posso gritar. Enquanto ela descreve os detalhes ele

simplesmente não suporta mais.

É o fim. Precisa ser.


Ao ouvir as batidas na porta Gisele saiu da frente do espelho.

- Venha tomar café, minha filha. A mesa está posta.

A senhora Ewe tinha feito omelete de queijo com trigo.

- Vem logo, meu amor.

Quando descer será com garbo apesar das sombras na escada e ainda

que estivesse escuro na janela da sala pois abandonara os terrores noturnos e

esquecera o ruído das correntes. As síndromes tragadas pelo abismo.

Se fizera mulher ao longo de boas escolas e alimentação balanceada,

roupas quentes e tratamento de canal. A beleza abre portas. A garotinha

cresceu e não tinha mais medo. Mas alguma coisa se perdera no caminho.

Havia filas barulhentas no pátio batido pela chuva e a excitação das

crianças se media pela algazarra. Um garoto muito nervoso estava bem ao

lado de Gisele. Deve ter a minha idade, pensou ela. No máximo uns treze

anos. A fila começou a andar bem devagar como se fosse uma coisa viva

exalando um cheiro escuro de tempo.

Ela piedosamente ouvia o silêncio de David por experiência própria.

A sorte era o irmão e os amigos e amigas do irmão ou também estaria

ali sozinha e temerosa.


Moreno como ela. Covinhas no sorriso triste. Estavam se molhando.

Atrapalhadamente ele cobriu a cabeça com o capuz do blusão e em seguida

foram chamados a salas distintas. Não veria seu rosto outra vez até ele fazer a

pergunta no ônibus. E esqueceria. Não havia qualquer razão para lembrar.

Gisele era responsável pelo jornalzinho da escola. As matérias traziam

entrevistas com professores e informações sobre a diretoria e eventos, lista dos

melhores alunos, dos melhores atletas, os que se destacavam em atividades

extracurriculares. Aí ela reinava absoluta. Escrevia peças de teatro e poesias,

as mais belas. Menina linda e sensível. Todos tinham olhos para Gisele

Drabska.

O menino moreno também fazia um jornalzinho em casa, sobre os

campeonatos de futebol de botão que disputava sozinho.

Na noite de um dia chuvoso, primeiro do ano letivo, festejavam o

aniversário de Gisele. O pai, o senhor Pierce Drabska, é um homem bom, um

juiz. Íntegro e religioso. Adora os filhos e especialmente Gisele, embora nunca

vá admitir e diga que gosta dos dois irmãos por igual. A senhora Ewe Drabska

é mulher do lar, simples e feliz na medida em que a filha dava mostras claras
que em pouco tempo conseguirá o que a mãe sonhou a vida inteira sem

conseguir: realização profissional; independência; a admiração de todos. O

irmão é um chamego só e os primos estão presentes também. Descendiam sem

dúvida de valorosa estirpe. Homens inteligentes e fortes; mulheres sensíveis e

bonitas.

Gisele em tudo a todos excedia.

Adorou o que ganhou. Um perfume dado pelo tio a deixou louca de

vontade de que chegasse logo o dia seguinte na escola. Constrangeu-se um

pouco com o corpete de rendas presenteado pela tia Natacha com um sorriso

maroto. Mas amou mesmo as sandálias de couro entrelaçado que recebeu dos

pais; e, embora costumasse baixar as músicas que gostava da internet, sentiu

um prazer diferente quando o irmão lhe deu o CD, de músicas soul.

Enquanto ela abria os presentes alguém comentou na sala o quanto ela

seria uma moça alta. Diante do espelho alguns anos depois a menina que

recém perdera o pai é ainda relativamente baixa embora esbelta e empertigada.

A mãe comenta durante o café o quanto o terninho creme lhe caiu bem. Era

um dia frio, fora dos padrões para a época do ano.

Ela pede que a mãe lhe passe um pedaço de quindim. Como consegue

que fique com esse gosto?


É por causa da gelatina sem sabor.

O primeiro dia de trabalho e seu pai e seu irmão não estão ali para se

orgulhar dela. O tio escapou do acidente. Passou a noite apenas porque

precisava sair cedo e a casa da irmã era próxima do lugar aonde ia.

Transbordando em lágrimas silenciosas Gisele abraçou a senhora Ewe por trás

da cadeira. —Querida —diz a mãe. —Minha menininha...


Os que viviam naquele prédio do bairro nobre estavam protegidos por

muros e porteiros e supõe-se tenham todos os desejos satisfeitos. Havia vultos

na janela do segundo andar na noite azul arejada pelos ventos do camburi. O

rosto do homem grisalho se volta para a mulher ao lado mas deixa de dizer o

que pensou. “ Sigamos nosso caminho. O que temos a ver com isso?” Difícil

imaginar porém que exista para o casal um caminho comum a seguir exceto

salvaguardas que perderão mais cedo ou mais tarde o sentido.

O homem assassinado é conhecido do policial responsável pela

investigação.

Por que assassinado? Não há indício alguém tenha estado com ele. Não

arma ou vestígio além dessa expressão aterrorizada. Nada aponta para um

crime. Mais e mais pessoas se aglomeram sem o casal entre elas.

Pertiert passou a noite com uma garota nesse bar onde costumam ser

rigorosos com a questão da identidade e não permitir a entrada de menores. Há

essa construção ao lado. Ninguém pensa que existe no fundo um quarto com

alguma serventia.

Não toque o corpo, diz o policial ao porteiro. O homem exigia o inverso

de sua companhia. Não dá para ter certeza mas parece não ter mais de
quatorze anos, a idade da sobrinha quando descobriu que ele não era digno de

tanta admiração.

Vem cá, diz um policial ao outro. Segunda-feira passada houve morte

parecida. Cadáver muito parecido. Igualmente apavorado e próximo ainda em

vida da região das sombras. Que eu não precise ver um terceiro desses.

Olhe.

A tela do notebook mostra à luz do basculante a posição derradeira do

vizinho de Gisele Drabska com clareza digital que não dá todavia verdadeira

noção da luminosidade real. Quem é, como foi, por quê? — com rapidez se

deslocam as hipóteses entre o avanço tecnológico e a lerdeza humana.

Onde fica esse prédio? As coisas ficarão complicadas para essa moça.

O vento lá fora geme e remexe coisas que deveriam ser apagadas para

sempre.
Gisele se sentia bem com elogios. Esse agora inesperado a entusiasmou

além do que costumava se permitir. Sua beleza e inteligência de pouco valiam

mas agora é exaltada a possível glória literária — glória de homens do mesmo

modo e qual sua utilidade? O brilho da noite lembra o brilho dos sonhos e seu

tio está entre as raríssimas pessoas em quem acredita. Olhando-o aceitou o

dom como uma dádiva e não um fardo e foi se deitar com nova perspectiva

para o dia seguinte. O Sr. Pertiert no quarto era mais um. Não há exceções.

Como viver num mundo assim?

A cruel decepção com o tio deixa de ser um choque. Revive num desejo

forte de conseguir um bom trabalho e o mais depressa possível se tornar

independente. Ainda que exista no mundo um homem bom não irá pôr em

risco o relacionamento com dependência. De novo sozinha Gisele enche o

peito e se põe ereta e entra no prédio em que construirá uma carreira de

sucesso. Aí que o delegado pessoalmente pergunta se ela veio trabalhar e, pela

resposta, forma dentro de si a convicção.

Tem a sua suspeita.


Foi uma vez há séculos mas ela se lembra. Fazia frio como poucas

vezes sentira. Amanheceu e havia geado. Ela olhava súbito caleidoscópio as

folhas ao som de flauta. Um símbolo da paz esverdeado. Anos sessenta. Teria

David feito isso, e quando e como? — posto algum pó alucinógeno na xícara

de seu café?

O tronco da árvore entrelaçado ocupa toda a superfície da xícara. Não

evitará — desejará — o abrigo de uma casa e ele terá consumado seu plano.

Amanhecer de pedra e cores transformadas minuto a minuto, efeitos de um

programa de edição de imagens (filtros e canais e agora a aplicação de um

outro amanhecer sobre o primeiro numa camada de desejo de morrer sobre a

original camada do desejo de ser feliz). Pintura digital da dor que ah sim pode

ser bela. Naquela noite escreveu seu primeiro poema relevante. A primeira vez

sem que pudesse dizer abuso. Se David não aparecesse, provável ela acordasse

um dia achando que o rapaz que depois do cinema a convidou para o

apartamento tinha sido seu primeiro namorado.


Se não voltar a si rápido vai passar do ponto. Devaneio sobre devaneio e

está muito longe agora. A última parada antes do lugar em que deve descer. O

vento ondula a gola. Esfriaria o rosto se ele estivesse ali. Abstraindo-se ou

meditando, não percebe o olhar de Gisele enquanto passam as lojas da zona

comercial e mais além uma fumaça que bem pode ser da empresa procurada,

cujo projeto sustentável tem decerto muitas falhas. Pegajosa e desagradável.

Há algum tempo em seu trabalho ela mantém as ligações comerciais entre as

empresas.

Quando deu por si percebeu onde estava e tocou a campainha do ônibus.

Ela olha sem ver. Pensa no pai. Ele dizia que a beleza e a inteligência não a

deixassem se enganar. É quase como perdê-las. Ela então sorria mas não lhe

dava atenção. Era coisa de seu zelo.

Junte a coragem às virtudes. Junte a coragem em qualquer situação.

Assim respondeu tranquila à pergunta de David e seguiu olhando de cima. As

luzes do teto do ônibus são como cílios do carinho de papai. Ainda

caminharam por um pequeno trecho do calçamento juntos antes de deixarem

para mais tarde o futuro.


Sentados à mesa do jantar sozinhos enquanto a senhora Drabska

repousava após uma crise o pai pergunta o que Gisele tem. Não é bom para a

saúde guardar as coisas.

Não é bom, claro que não, ela bem sabe e admite enfim falar. Pai, diz.

Começa, do princípio. Não terá coragem de falar do tio. Conta sobre o médico

sem os detalhes mais humilhantes. Bem que o senhor Drabska tinha reservas

quando diziam “ um profissional competente” e “ um homem maravilhoso”

e louvavam seu interesse pelas pacientes.

As palavras de Gisele ainda procuram um caminho quando ela sente não

deveria ter falado. Olha de soslaio para o pai. Podia matá-lo de desgosto. O

senhor não deve se torturar assim. Não vale a pena sofrer por causa dele.

O pai pensa que se não vale a pena sofrer com tal motivo então qualquer

sofrimento é escusado. Minha filha, um dia eu disse para sua mãe: o que não

vale a pena é colocar uma criança no mundo.

O sol estava alto e o dia quente quando o carro do senhor Drabska saiu

da garagem gemendo a cada manobra. Ele perdera a hora. Nunca acontecia.

Só conseguiu adormecer pela manhã – tampouco era comum. O senhor


Pertiert a seu lado ao contrário parece ter passado uma noite ótima. Na

verdade ainda dorme. Só passou da cama para o banco do carona.

Nesse exato momento Gisele despertou num sobressalto. Correu até a

janela e viu por uma fração de segundo o carro do pai fazendo a curva e

pegando a avenida.
Por que não se conheceram antes? Por que o acidente aconteceu? A

concupiscência e crueldade dos homens. De nada servirá a luz do amanhecer.

E a beleza dessa manhã para que serve? E pensar o quanto gostava de morar

perto do parque. Correr e caminhar pelas trilhas antes e depois do trabalho.

- O que a senhora quer dizer?

A senhora Ewe Drabska a partir de certo momento não escutava mais o

policial. Olhou-o com olhos grandes e vazios.

– Minha filha é suspeita desses crimes?

– Lamento, senhora, mas ela é a única suspeita.

– Não pode ser, meu bom homem - disse a mulher. Louva a sua

diligência mas simplesmente não pode ser.

– Se quer prender minha filha, por que não a prende? — pergunta

meneando a cabeça.

A mãe a abraça com desespero e seu beijo não entende que ela vai

apenas dar uma corridinha antes do trabalho. Alguma coisa aconteceu durante

a noite. O que terá sido, se pergunta, embora saiba a resposta. Laços

sanguíneos agravam o mal do mundo. Em família tudo o que é apenas parece.


Então o delegado sentiu um horror vago que poderia se passar por

tristeza ou saudade ou loucura. Vê sua primeira esposa, a falecida, o que é

isso? Rápido demais. A mãe de novo diante dele em meio à escuridão em

pleno dia.

A mulher não mostra desagrado com a ideia de uma filha criminosa.

Fez-se silêncio e ele pressentiu contra toda a lógica que indicava Gisele a

assassina (por envenenamento decerto), que não. Ela é inocente.

Tem de ser inocente porque já estava morta.


Houve uma mudança essencial. Ele via o céu e o vento e as arvores e a

chuva com novos olhos. Houve uma autêntica transformação exterior porque

ele mudara e amar é transformar o mundo. Depara com essa gente nervosa se

angustiando por nada e gostaria de dizer “ A vida é bonita; é para ser vivida

em paz” . Quem diria. David, o ansioso tendente à depressão. Medroso e

triste. Cujas doenças se retroalimentavam.

Chegará o tempo quando se desesperará de novo. O coração aos pulos

entre vozes anunciadoras. Foi assim. Há tantos meses. Tudo mudara.

Ele era outro. Outro administrará a notícia.

Caminham pela rua como se não houvesse ao redor tudo o que há.

Pessoas passando e carros e um avião aqui e ali um trovão distante. Um cão

em alguma casa e as batidas na construção. Os trilhos do trem e a

possibilidade de um trem. Ambulantes. O sol e os raios invernais do sol e a

vizinhança bucólica dessa rua central. Ainda duas pessoas distintas? Passam e

ninguém dá por eles. Serão apagadas as luzes acesas mal percebidas de fora.

O olhar de Gisele. Seus movimentos de cabeça. Contida todavia está

determinada.
Contra a luz exterior vista de dentro o homem na mercearia os via. O ar

seco de origem polar ganha força no sudeste e afasta as nuvens de chuva

trazendo de volta o canto dos telhados. Estava começando a última parte da

tarde; aproximava-se o crepúsculo. O dia amanhecera com névoa mas no final

da manhã o sol já havia reaparecido e dominava esse resto de dia. A

temperatura subiu e não havia previsão de chuva. Ele estava com o poema que

escreveu para ela na escola. Carregava-o desde sempre. Entregou-lhe.

– Como assim "na escola"?

- Você não se lembra de mim naquela fila sob a chuva para entrar nas

salas de aula.

Espanto e regozijo. Agora está estão ali. Uma moça alta como a

compleição da menininha indicava. Pálida e saudável como ele a imaginara.

Em nenhum momento pensou se era bonita ou atraente exceto um ou outro dia

solitário e mais saudável. São muitos agora. Existe algo em Gisele que não

tenha sobrevivido ao reencontro? Como se o tempo não tivesse passado.

Entretanto passara e do menino insignificante nasceu o homem que daria

sentido à sua vida. Eterno herói se entregando. O mundo renasce porque ela é

como é; porque ele, que não existia, está ali.


Lado a lado se afastam de si mesmos tão perplexos quanto não o

esperassem. Nas crianças que foram e nos círculos de perguntas infantis.

Extremidades se tocam, papéis de diferentes finalidades guardados por muitos

anos em uma mesma gaveta. Ele a esperava desde sempre; ela não mais

esperava por ninguém.

Param numa banca. Ele compra uma barra de chocolate e tira o

invólucro e oferece o primeiro pedaço. Ela morde e mastigando articula as

palavras. Leva a mão ao ombro dele sem perceber. É aqui que devo entrar, diz,

mas está pensando o quanto seria bom se fosse também o lugar que ele

procurava.
Bem cedo os peritos começaram a procura de indícios. Os médicos

depois diriam se foi morte natural. Mesmo se nada indicasse um crime todos

tinham uma sensação estranha ao olhar o cadáver. Vultos para lá e para cá.

Falam entre si a cada poeira descoberta. Estava se divertindo antes de

acontecer. Vale a pena localizar essa mulher? Nos laboratórios haviam

também madrugado. Pincéis e líquidos. Fitas e ácidos. Uma ou outra

ferramenta. A lanterna e o microscópio. Isso é nojento. A internet é um

espelho do mundo: um espelho que aumenta mas ainda um espelho. Ninguém

imaginava que o perito tão jovem pudesse conhecer Baudelaire.

Quem? - disse o jovem.

O lugar foi preparado por um cafetão. Podiam ir atrás dele mas em

nada ajudaria na investigação; nada serviria para explicar o horror nas feições

dos mortos.

Não parece coisa humana. O sexo virtual e a pedofilia tampouco

parecem. Há um monstro inumano dentro de cada um. A gente desconhece

porque prefere desconhecer. Talvez pelo anseio de liberdade porque quanto

mais sórdida cada transgressão mais se aproxima de uma idéia que nos
aproxima dos deuses. Um dos homens se vira para a perita que falava. Você

parece ver em tudo aval para suas estranhas teorias. Mas no fundo ele pensava

de modo parecido. O pior não é descobrir pessoas anormais mas sentir

afinidade entre nós e elas.

David Choi estava com 28 anos quando tudo aconteceu. De repente

acordou e ali estava ela a seu lado. A face morna avermelhada da manhã

dourada. Ela é tão bonita. Ele precisa ir, está atrasado. Foi tão difícil conseguir

trabalho, voltar a ter uma renda. Ela sabe. Ficou um tempão desempregada

também. Mas veja, estou aqui, viva, conversando com um homem de manhã

deitada em uma cama, querendo ficar mais. Então se vê que as pessoas podem

superar qualquer coisa. Mas para ele embora tão belo era um momento

absolutamente normal e por um momento ele dúvida que tanta normalidade

seja saudavel. Porque ela levantou e mal olhou para ele. Foi ao banheiro e

demorou mais do que o normal é saiu dizendo que ia fazer o café sem olhar

para ele. Nao saberia dizer a cor de seus olhos aa luz da manhan, se ele

perguntasse. Todavia ia dizer com conviccao a cor das paredes e a textura da

mesa da cozinha e o que exatamente se via enquadrado pela janela da copa.

Talvez soubesse que a vizinha estava de jeans e camiseta e quem sabe tivesse

daí deduzido que ela tomava conta de crianças em uma creche.


Os peritos são sombras na manhã. Esse aqui parece ter passado uma

noite difícil, talvez insone. Talvez o cansaço do sexo ou ambos. O assoalho

estala com as idas e vindas num estranho refrão. Se a prova pericial é ciência e

a ciência é irrefutável, o que faremos com a expressão desses rostos? a

ausência de digitais? esse inquérito de sombras? Nenhuma materialidade,

tampouco testemunhas; nenhum vestígio ou agente que suporte a existência de

um crime. Nenhum vento que dobre árvores nem água das nuvens carregadas.

Rostos revestidos de pavor mais do que de pele. Nem autor nem material nem

indício qualquer e assim nenhuma evidência. Todavia não é possível ignorar

esses corpos retorcidos, não importa o que diga a autópsia. Assim o

investigador se antecipa, descobre a relação entre os mortos que se confirma

quando a mãe da suspeita chora à possibilidade do irmão ter abusado da

sobrinha. E todavia não há nada. Por que não desiste? Ela morreu sim. No

mesmo dia em que foi atacada no parque. Morreu por causa do ataque, ao

tentar se defender. Morreu porque ele fugiu. Que sonhos são esses de que

forjou a própria morte para se livrar? Seguirá ele na caça de um fantasma?


Se precisa de um corpo e a cremação está documentada, o que terá?

Mas é um profissional competente, racional. O que temos? Dois corpos; uma

jovem assediada pelos dois; uma mulher determinada, conforme os

testemunhos no trabalho. De inteligência incomum. E agora o resultado da

autópsia: ataque do coração nos dois casos.

Sim, e o que comeram?

Está muito próximo da aposentadoria. Jamais houve um desafio assim.

Será o fecho de ouro de sua carreira. Não se deixará ludibriar por uma mulher,

inteligente que seja, ainda que seus motivos sejam justos.


Uma tarde ensolarada e fresca. Não é incomum que o azul após um

longo período de dias chuvosos seja assim intenso antes que o crespusculo

embranqueça tudo e da isonomia noturna das cores. Naquela tarde não havia

nuvens e não era portanto possivel entender a logica do vento exceto talvez

pela voluta sonora da eritrina. Os canticos da igreja às seis horas ressoam em

pleno dia por causa do horario de verao e produzem uma melancolia imovel

ou antes tão lenta quanto o arco solar desde uma regiao específica além dos

montes. Era a fase da vida em que mais se sonha mas em Gisele havia uma

atividade cerebral máxima para uma atividade motora mínima nao oníricas

mas o céu efetivamente era de um azul intenso nas janelas dos condominios

em volta do parque e o fremito das folhas nas arvores que margeavam a pista

de corrida era quase imperceptível.

Os pardais estao agitados de uma bauinia para outra piando alto e

pulando na terra proxima ao corpo para em seguida baterem de novo as asas

para longe. Os caes acompanhando a caminhada de seus donos não

perceberam ainda a diferenca entre uma mulher se bronzeando junto ao lago e

outra estirada mais ou menos na mesma posição no gramado ao lado da pista

quando faz a curva na quadra de tenis. La em cima na calçada alguém parece

ter visto algo estranho. Diminuiu a velocidade da passada e olhou para a


pessoa a seu lado mas o que disse nao teve qualquer consequencia e seguiram

caminho, na passada de antes.

Num dos predios a direita o toque padrao de um celular se mistura ao

movimento do transito mas a mulher demora a acordar. Abre os olhos por fim

e com a mao direita espalmada na testa se levanta do sofa e segue na direção

do som. É jovem e morena. Usa uma camiseta verde sobre o sutian vermelho

cujas alcas estao à mostra. É muito bonita mas nao muito vaidosa a julgar pela

simplicidade da roupa e ausencia de maquiagem numa tarde de sexta. Demora

para encontrar o telefone na bolsa marrom e logo apos atender tem de dizer

para esperarem pois o alarme do forno substituira o ringtone. Sim é um céu

azul maravilhoso. Por um instante parou e se perguntou o que mesmo era céu.

Nao precisará se apressar. A torta estava pronta no dia anterior. Na verdade

sobrou menos da metade, todos na casa adoram. Estah entao sonhando um

desses sonhos em que a gente antecipa o dia seguinte. Mas os ladrilhos da

cozinha e as colheres e o pegador e os copos pendurados e a voz do

interlocutor e as plantas na varanda que da para o ceu azul -- tudo eh tão

nitido, nao parece um sonho.


Desde que conheceu Gisele, Eduard não consegue mais dormir depois

que acorda, bem antes do amanhecer. Agora desiste e se levanta. Chega à

janela. Que mulher extraordinária. Realmente obstinada, obsessiva, para não

dizer um pouco louca. Olha a rua. Orvalho nos cabos elétricos e nas folhas. O

fio de água correndo ao longo da calçada. E o que talvez sejam os passos de

uma mulher que vai apanhar o ônibus para o trabalho no ponto da esquina.

Uma vez ficaram conversando um bom tempo na cozinha da empresa.

Ela até se mostrou acessível. Ele chegou uma ou duas vezes a insinuar seu

interesse. Pelo menos pensou que sim. Que havia sido claro o suficiente. Não

sei o que aconteceu contigo mas você não pode viver a vida toda nessa

concha.

E por que não poderia? É a concha que a protege de pessoas como ele:

sinceramente interessado, íntegro, realizado na profissão, com os mesmos

interesses no trabalho e fora dele - cinema, literatura, teatro.

Mas não. Esses não são os reais interesses dela mas cortina de fumaça.

O que eu realmente quero é encontrar alguém que cuide de mim e seja o

oposto do que sou. Porque se aceitasse uma pessoa como ele, tão parecida
com ela mesma, deixaria de descobrir coisas. Um amante tem esse dom de

fazer com que ao amarmos o que está fora de nós se revele o que vai dentro.

Não é o caso de Eduard. Seria como se apaixonar por si mesma.

Em determinado momento nesse dia ela resvalou em sua mão. Olhou

dentro de seus olhos. Todos os homens são iguais. Egoístas e irresponsáveis.

Não se entregam. Foi o mais próximo que eles chegaram um do outro. Depois

ela se encostou na parede, calada. Pensativa. Ou só queria fazer tipo? Ele

ameaçou se aproximar uma ou duas vezes e ela esperou. Subitamente

entretanto retornou para a planilha aberta na tela de seu terminal. Inspirou

respeito mas não amor. Sequer um desejo remoto. Não havia esperança e

também ela regressou à sua mesa de trabalho.

Ninguém estava aqui no momento em que ele morreu, disse o perito ao

delegado. Não há dúvida quanto a isso. Por que o senhor simplesmente não

aceita? O legista determinou: simples síncope. Nada indica o contrário.

Substância suspeita alguma ingerida. A dor no rosto dele infelizmente não há

método que explique. Que razão para continuarmos? — perguntou o jovem,

condescendente. Todos concordam que é apenas uma coincidência ambos

terem abusado da moça. Se pensarmos bem, foi feita justiça. Justiça divina.
Vamos tomar um café e depois eu levo o senhor em casa. Têm sido dias

difíceis.

Estava deitado sobre os lençóis trocados. Recusara o chamado da

mulher para jantar. Abdul, abdul — ela insiste sem que ele ouça. É possível

que não esteja morta. Que tenha forjado a documentação e subornado os

envolvidos. Cinzas não deixam rastros. Levantou-se de um salto. É claro!

Tudo de que precisa: um pretexto para seguir adiante. Descobrirá a intrincada

verdade. Sua investigação terá sucesso. Será um marco. Abdul, Abdul. Você é

um gênio.
A luz permeia a água do mar em que ele na parte rasa descansa

flutuando no marulho rompido de quando em quando por um motor distante.

Transportado para o primeiro dia na sala de aula. A chuva em bátegas na

vidraça. Lágrimas por não ter se aproximado mais da moça. Não irá

reencontrá-la exceto se a esperar quando ela estiver saindo do trabalho.

Todos estavam convocados para a reunião. O pessoal da Instituto de

Perícias não podia acreditar. Menos ainda os investigadores subordinados. A

irritação se misturou à maledicência. Portas batem pesadamente e cadeiras são

jogadas contra as mesas. O delegado na sala nada ouve. As pessoas ainda

entram. Abdul está em outro mundo.

Um devoto da sorte permaneceu durante todo o dia perante os alunos. O

diretor está satisfeito e disposto a mantê-lo na vaga aberta pela viagem de

intercâmbio do outro professor. Carros chiam na chuva. A lembrança do dia

anterior se confunde com a tensão de falar em público.


O professor mais charmoso segundo as duas moças na primeira fileira

de carteiras. Uma irá ao hospital. Menina bonita e jovial disposta a sacrificar

alguns anos para estar ali quando ele acordasse. Ele sonha. Ali está ela

extasiada. Ele veio. Quem é? — perguntam as colegas. Silenciosa em sua

direção. Num pensamento que não se deixou registrar, boiando nas marolas,

cogitou ter apenas feito uma troca – a repulsa à vida por uma idolatria. Parece

uma deusa vindo em sua direção. Esse sal não é do mar. Está chorando de

felicidade.

Entra em casa que adquire novos contornos e cores. Lancharam juntos

no caminho de volta. Deixou-a em casa. Sorriu encabulado quando ela deu a

correntinha. Tons sombrios de azul transformam-se no branco no teto e no

creme das paredes. Entra e senta na sala. O sofá não parece o mesmo. Repara

o pó na estante. Chaves na mesa de centro. Gisele havia sorrido quando

chegavam os hambúrgueres. Quando for, dissera, me convida. Colocou o

calção de banho e a camiseta. Era muito cedo e a quietude tornava possível a

voz dos pombos. Quando se reencontrassem no sábado, a chamaria.


Fim da aula de música. Os cabelos de Gisele cresceram desde o verão.

Está atrasada para o médico e não teve tempo de encontrar a mãe para irem

juntas. Mordisca os lábios. Se não mais a encontram na noite como reclamam

os amigos é por isso, responde. Porque vive sem tempo. Na verdade prefere

estudar. Logo terá um bom emprego e eles o que ganham com tanta

madrugada insone jogando conversa e libido fora? Quem dera quando lembrar

desse dia tivesse ido a um barzinho ou uma festa ridícula ou qualquer coisa

que a fizesse perder a hora.

Então? O que você está sentindo? – perguntou o doutor muito sério

pensando que a mãe está na sala ao lado acertando detalhes com a secretária.

A mãe estava doente, disse Gisele numa confidência de que se arrependerá

para sempre. Ao chegar em casa depois de atravessar as ruas perigosamente

entre imprecações, ela ainda está desalinhada e seus olhos marejados e o ar lhe

falta.

Evitou a cozinha e o beijo. Não contou à mãe, conforme prometeu que

faria, sobre a audição com o mestre italiano. E quanto à consulta, o que vai
dizer? Que foi tudo bem, naturalmente. Precisará ser convincente. A senhora

Drabska é esperta apesar dos vácuos.

Gisele vai direto para o quarto e tira o violoncelo da caixa. O som se

propaga melancólico pela casa e todos sabem que ela não gosta de ser

interrompida quando treina.

Que música tão triste. Melhor deixar a menina em paz. Amanhã a gente

pergunta. Você pergunta, eu não estarei aqui.

Vozes através da porta do consultório. A secretária sai levando alguns

prontuários. Uma menina também espera o elevador. Sorri e diz que vai

chover. Naquele dia no quarto de Gisele os quadros deslocavam luzes. O

médico se prepara para sair. Não se sente bem. Apóia o queixo com a mão

esquerda e desvia o olhar antes perdido para o quadro na parede. Se pergunta

o que está vendo mas prefere que a resposta não se manifeste.

Quando a polícia chegou o doutor estava caído de um jeito como se por

horas houvesse se contorcido. Meu Deus, murmura o delegado; e escuta

lágrimas abafadas por um violoncelo.


Ao saber, Eduard foi até a sala de Gisele. Ali ele a viu pela primeira

vez, quando se apaixonou. Olharam-se e sentiram algum conforto. Ele disse

que lamentava de coração o que aconteceu com David. Ela acreditou. Ele

disse que imagina o que ela está sentindo. Ela se pergunta se é possível mas

não duvidou. Saíram. Ele a acompanhou até o shopping onde ela precisava

fazer uma compra para o seu setor. Cai a noite.

Em silêncio sobem a escada rolante e antes de entrarem na loja param

numa lanchonete. Dão depois umas voltas até encontrarem o lugar que vendia

a peça mais barata. Em dado momento ela sorriu. Ele não chega a tanto para

corresponder. Apressam o passo ao atravessarem a rua para apanhar o metrô

pois começava a chover.

Veja: a avenida não parece mais serena depois da chuva? As luzes

molhadas são mais bonitas. Pode ser a umidade do ar. Os níveis andam baixos,

tudo se ressente. As luzem úmidas refletem o alívio. Ela aceitou a companhia

e não evitou a idéia de consolo. Seu comportamento contradiz o que pensava

quanto a natureza dos homens, do que apenas David deveria ser a exceção.

Está tão cansada que apenas aceita. Nada além disso.


Na saída do elevador uma sala-de-estar. Um sofá verde acompanha a

curvatura da mesa de centro onde se destacam flores naturais. Depois da lei

anti-fumo, o cinzeiro ficou não se sabe bem a razão. Ela demorou a encontrar

o prédio. Parece ideal para as necessidades da mãe. Eduard é discreto ao

observar. O corredor amplo e longo. Os passos ecoam e só então percebe que

ela está de salto. Foi uma noite muito agradável no meio de tantas em que ela

não sabia como seguir vivendo. Sua voz ressoa grave e nítida, doce e sinuosa.

Então pararam. Eduard sente inveja do rapaz feioso preso em uma cama de

hospital. A felicidade não é feita dessas coisas. E ela sente inveja da moça

com quem um dia Eduard casará. Passa a mão no rosto dele quando termina

de abrir a porta. Eduard sorriu e tomou a mão que o acarinhava. Fechou os

olhos. Um momento desses bem podia durar eternamente.

Os odores que envolvem esse tipo de ocasião. De homem e mulher. De

tapete e paredes. Do mogno da porta. Evocam origem ou recomeço e decisões,

compreensão. As chaves não param de tilintar nas mãos dela. No morno

elevador há uma luz ancestral. Eduard não viverá outro momento assim.

Gisele se manterá encostada do lado de dentro após o suspiro. Eduard a

tempos não tocava num cigarro. Procurou pelas gavetas. Pegou-o e acendeu na

cozinha. As luzes da cidade além da varanda lembravam algum tipo de


brinquedo iluminado.
Um violino se faz escutar por toda a rua. Corta a alma. Ela podia ter

dito. Estudei música aqui. Por que a vergonha? Como se tivesse culpa. No

carro que engole a avenida, a voz de David é um murmúrio. Como se

soubesse. Do perfume, do cheiro de álcool e cigarro. Do bater do coração

adolescente mais e mais forte à medida que os cheiros se misturavam. O

motorista do táxi ri de uma piada no rádio. A risada do tio durante a noite na

festa conversando com o pai dela. Todavia o silêncio é absoluto, sentença dum

quarto eterno.

Hoje ele se atreverá, pensou a senhora Drabska.

O ronco do marido é pesado, também bebeu demais. Haverá uma

tragédia. A dor de mãe dada à luz. Da qual a mulher chegou a achar que estava

livre. Uma nota longa e bela desafina no final. Estudei música aqui. Quase

diz. Mas teria sido apenas para trazer outras nuances da dor. Então se cala e

David respeita seu silêncio. Teria preferido que ela lhe confiasse a dor. Podia

ser até num aperto mais forte das mãos dadas sobre o banco do táxi.

Não um prazer em carregar a dor sozinha. A vergonha tem um quê de

auto-piedade. O que sente é uma vergonha pura, pujante, um sentimento de


vingança por ter nascido. Estão no parque. Os pássaros cantam. Pombos

rodeiam a árvore. Não há sinal de gente por ali. O sol de inverno concede

tonalidades inesperadas ao vermelho das flores. Não, ela não tem culpa sequer

de continuar mantendo o tio entre eles num lugar desses em plena paz com

David, a cada dia mais companheiro. Não tem culpa da dor no estômago ou

das sombras no espelho do quarto — algumas vindas do vulto contra a lua e

outras de lugar algum: sombras simplesmente, quase pétreas apesar dos

movimentos. Ou da pele muito lisa. Ou da exuberante juventude .

Anoitece e começam o caminho de volta. O esforço de David é tanto e

tão autêntico que ela praticamente riu junto à floração do ipê. Primavera!

Dedos afundam em seus cabelos lavados. Um beijo e a fuga para o presente

restaurado. Um abraço acolhe tudo e então seguem. Meu Deus. Há tão pouco

tempo. E agora estou aqui, feliz. Uma gota desce em sua testa.

Que caminho é esse? Ouvia a música como uma cega. Discretamente

ergueu a mão direita regendo. O rapaz atendia uma senhora. Ela tinha ido

comprar um violão para o neto.– Queria um com braço de cedro, ele diz que
vibra menos – disse. Os cabelos de Gisele esvoaçam. Os dois estão refletidos

na vitrine da loja. Ela parou para ver o violino. Não conseguia se decidir.

– Por que não entramos e você vê de perto e perguntamos o preço?

O aniversário dela será na semana seguinte mas ele não sabe que ela

detesta aniversário e presentes. A vendedora se aproxima e ela diz que só

estão olhando e ele pergunta onde ficam os equalizadores. Se pergunta o que

seria sem a música? O que seria da música sem David.


Puxou a saia e interpôs a bolsa ao sentir o contato. Parecia que estivera

treinando. Afastou-se o que deu no vagão cheio. Não há como ensaiar para tal

eventualidade porque a gente não sabe emocionalmente como reagirá. Era

como tivesse entrado numa desconhecida região de sombras. Pediu a Deus em

oração e quase acreditou que ele atendia sempre o rogo dos justos seja por

serem justos ou impertinentes. Mas ao contrário. A persistência do mal

prevalecia. O homem a cada movimento perde algum pudor ou receio que

porventura tivesse. Ela o empurrou com força insuficiente e em torno estavam

prontos não a socorrer mas acusar. Por que essa roupa provocante? Por que

essa cara de santa? Por que esses quadris perfeitos?

Outro brado e som algum.

O trem está gritando. Ruge. Geme e se contorce na lenta agonia. Dir-

se-ia sim que ela estava para morrer e o homem também e aquele era o último

desejo de um condenado. Quis lembrar se sua mãe algum dia lhe advertira a

respeito porque era também belíssima na juventude. Os pensamentos não

terminam nem se expressam no rosto exangue. Não conseguiria fazer nada. De

tanto resistir acabou cedendo pela catatonia que nasce de um transtorno

factício. Custou até mesmo o passo para a plataforma, como se a voz mind the

gap alertasse para a largura dum abismo.


Não sentirei pena de mim mesma, pensou. Me vingarei. Mas era apenas

uma espécie de consolo, uma promessa que não pretendia cumprir. E como

encontrar o rosto visto num relance se tudo o que quer é jamais revê-lo?

Azáfama na plataforma. A multidão se derrama. O gargalo da escada

rolante em fila indiana a detém. Ninguém a verá chorar. Ainda que seus

sonhos de mundo estejam desabando, ninguém a verá chorar.

Havia criado um mundo para si mesmo mas é a mulher real a seu lado

quem soa como um fio de sonho. Namoram há tanto tempo e ela não o

conhece. – Por que você está assim? —insistiu. – Aconteceu alguma coisa?

Encontraram-se na lanchonete há minutos. Ela mexe o milk-shake que

brande com dedos nervosos. Iluminação baixa em lâmpadas discretas. Pessoas

que entram e saem. Vozes, tantas. Serão humanas? – Preciso ir ao banheiro.

Poucos antes do fim do expediente, decidira ir ao encontro de metrô,

obediente não sabia a que.

É um vício. – O que devo fazer, doutor?

– Tome cuidado, rapaz - diz o psiquiatra ao puxar a receita. -Se cuide.


Não pode acreditar que esse seja seu mundo. Não pode acreditar que

seja um criminoso. Elas parecem aceitar. Parecem gostar até. Sobe no vagão.

Se aproxima. A janela mostra o letreiro do mais longo intervalo entre estações.

Por que esta e não aquela nunca fica claro. Quem sabe um dia ao se

achegar entabule uma conversa. Que chuva! Ou: É um absurdo esses trens

apertados. Ao olhar o livro nas mãos da estranha a certa altura perguntará se

gosta também do anterior. Ela responderá que não e ele dirá que é muito bom.

Não chegou a ser adaptado para o cinema. Dirá: Os filmes costumam ser

inferiores. Nesse caso - responderá ela- a qualidade corresponde. Então terão

um assunto . Tão mais natural. Por que prefere essa aproximação fortuita e

sem depois?

O banheiro da lanchonete amplo e iluminado. A luz de árida espessura.

Uma solidez altiva semelhante à da noite passada em casa lá pelas nove. Uma

atmosfera da qual sentiu um medo que pensara ser coisa do passado. Luz com

personalidade iluminando a solidão de seu quartinho de pensão. Tanta cultura.

Tanto estudo. Não deveria a essa altura da vida morar num lugar decente e não

neste pardieiro? Contemplou a luz implacável. Olhou o passado nas paredes

sujas, mas não era passado. As sombras aquietadas ao desligar a tv mas

continuava assistindo algum outro programa sem apresentadores ou atores ou

reporteres algum outro programa em uma faixa de frequencia que só ele


captava. outro programa continuava. Doía. Doía terrivelmente. Súbita porem

como veio sua culpa se dissipou. Agora de novo. Por que no banheiro de um

bar? Seu vício o repugna mas não tem tempo de se arrepender e pensar em

mudar.

Um rapaz que passa vê a moça pelo vidro da lanchonete. Ela ainda

mexia o canudinho em meio às vozes e luzes e só agora sente o peso do copo

de papel, agora, quando o rapaz se aproximava. O reflexo dos dois está no

vidro quando ele a cumprimenta efusivo e sem perder tempo fala que ela está

sumida e que sentiu saudades, parece enfim decidido e tão direto que ela pede.

- Evandre, por favor, vá agora. Meu namorado está no banheiro e é muito

ciumento.

No banheiro se contorce e o horror ilumina tudo e pelos amplos

espelhos se espalha.

Pensando bem, ele está demorando e a namorada pede a Evandre que

vá ao banheiro e o chame. Estão atrasados para o cinema. - Seu pedido é uma

ordem - diz o sorridente rapaz à namorada do outro. - Trarei então seu amado.

Mas quando vocês terminarem lembre-se de que sempre te amarei.


Como ele é bobo. Como é bobo. Será que ela não precisaria exatamente

de um bobo? Rir assim em vez de um relacionamento atribulado.

Ela ainda treme. A polícia chegou e ninguém pode sair. Então depõe.

Conta sobre o encontro marcado e o cinema. Ele chegou em seguida, não se

atrasou tanto como de costume. Meu Deus... O que é isso? se perguntarão

mais tarde quando Evandre postar aquele vídeo. Era uma gente acostumada

com coisas bizarras mas se aterrorizaram. A namorada assistiu da casa do

amigo. - Não tem vergonha de publicar isso?

Mais calma pergunta depois o que Evandre acha que aconteceu. O

tremor está passando.

- Sei lá. As pessoas passam mal e morrem. Não tinham bebido demais

ou fumado alguma coisa?

- Você está parecendo o policial.

- Mas o policial não te ama.

Mesmo em meio a tudo ele sorri. Estavam tão juntos e unidos pelo

acontecimento que logo se acariciavam e ali mesmo diante da tela negra que

ocultava o horror do namorado ao morrer ela se entrega. Afinal todo mundo

passa mal e todos morreremos.


Atravessa a ponte lentamente. Apareceu na paisagem levado pelo

desejo igual a qualquer um. Se sair desse quadro deixará que atrás de si ao

piscar do semáforo dois carros em sentido contrário se encontrem num

cruzamento. O ar gelado em sua face. As cores da cidade e o sol no horizonte

dentro dele. Diluído em seu olhar o amanhecer foge da terra. O calçamento

avança conforme seus pensamentos. Os passos ecoarão até o alto da escada.

Sente-se sereno como um fantasma que caminha. O inquilino do andar de

baixo perguntou se ele tem um pouco de açúcar. "Acho que sim". A mão abriu

a porta que rangeu em seus gonzos.

Eis aqui, diz para si mesmo. O pote de açúcar. Um dia como qualquer

dia. Lá e acolá é sempre aqui. No fundo da sala enquanto o vizinho saia a

janela estava se abrindo e os duendes que geraram esse David Choi voam por

sobre os telhados. A manhã respira nas cortinas. Um zíper. A descarga. Ela

disse que me ama. Estamos juntos há quase um ano e só hoje ela disse que me

ama. Essa franqueza, se pode chamar assim, fez brotar um sentimento de

dever. Quase de missão.


Quando se despediram no dia anterior Gisele olhou para David entre

apaziguada e temerosa. A que horas nos encontraremos amanhã? Não fazia

sentido ser fulminada assim como se tivesse recebido uma má notícia justo

agora que conseguira. Conseguiram. Na sala azul abrigada dos demônios

ininterruptos os espasmos são os últimos suspiros.

– Você me ama?

– Você sabe.

– Eu sei. Mas tenho medo.

- Eu também.

Era um dia frio e os pardais inquietos pousavam na janela e voavam de

novo. Havia no ar um cheiro de crisântemo misturado ao do bolo que ela

fizera. As crianças da creche corriam no pátio e as tias procuravam alguma

réstia de sol para sentarem na mureta em torno dos brinquedos.

- Você quer ter filhos?

- Não é um pouco cedo para falar sobre isso?

- Eu não.

- Não quer ter filhos?


- Não.

A luz da tarde que iluminava os enfeites na mesa de centro é a mesma

no quarto. De manhãzinha como se fosse de tarde. Ele seca a boca com a

manga da camisa. Algo está errado. Sentem no mesmo átimo. O gozo sobre

eles. Há tanto esperado. Eu devia ter dormido lá. Por que mesmo não dormiu?

Seus olhos estariam olhando para ela. Se o passado às vezes volta, o futuro

jamais chega. O que poderia ter sido não foi e agora é tarde. Na sirene da

ambulância o grito da última queixa.


Alô? Escuta. O vizinho fala. Vi quando você saiu. Vamos terminar em

algum lugar mais discreto o que começamos na trilha?

O que começaram? O tom de voz não deixava a dúvida em que a mãe

prefere ficar. Quem era? Silêncio. A senhora Drabska sempre dizia para que

Gisele levasse o telefone quando fosse correr no parque. Descansaria seu

coração quando a filha demorasse, como agora.

Alô? Desligou. Agora os temores são certeza. Mas ela sempre pede que

a mãe não se preocupe assim. É sofrer por antecipação. Esperará a

confirmação para sofrer.

Sente que a filha está ali agora e portanto não está em qualquer outro

lugar. Ela estava bem. Sua vida se tornara um sofrimento insuportável mas

agora estava bem. Menina cheia de fibra terá levado isso consigo para o lugar

onde esteja.

– Eu até entendo, Gisele. Está ouvindo? Eu até entendo. Mas não sei se

é certo. Seu espírito não terá sossego, minha filha – gostaria de dizer e talvez

esteja dizendo agora quando o delegado está saindo. – Filha, deixe-os. Entre

na sua paz.
O senhor Drabska deixou para a mulher o belo apartamento na região da

estação central do metrô. Agora que também Gisele partiu, para que precisa

tanto espaço e de que servirá essa linda vista?

– Você não pode consolar nossa menina? Não estão no mesmo hades?

Um dia você disse que não valia a pena colocar uma criança neste mundo; mas

assim eu não teria o consolo da saudade.

A sala é escura e fria mesmo de dia. Noite eterna como Gisele chamava.

Um sintoma misericordioso esquecer. A senhora Drabska põe o celular

sobre a mesa de passar ao entrar no quartinho de empregada. Talvez seja hora

de chamar Eduviges de volta. de volta. Estão com a mesma idade. Como se

fosse a coisa mais certa do mundo que ela estivesse morta. A notícia chegará a
qualquer momento. A mulher está preparada. Sentirá saudades. - Muitas

saudades, filhinha querida.


Havia flores exuberantes. Coloridas e tenras, viçosas. Entraram com

Gisele no cemitério e a acompanham até o túmulo do pai. Acolheram a luz ao

dia enquanto pássaros esvoaçavam do prédio principal onde está a capela e a

sala onde o corpo foi velado. Branco funéreo em que ela continua a vê-lo. Em

cada rachadura da fachada um segredo a respeito do homem ou de sua filha

como se a estivesse mais na morte e nos mortos.

As poucas pessoas ao redor guardavam entre si essa afinidade de

estarem vivas. Ela subiu dos joelhos e se apoiou e levantou e retornou às

passagens estreitas. Escutou os pássaros e os murmúrios.

- Oh minha linda, eu sinto tanto.

- Sabemos o quanto voce o amava.

- Agora voce eh que. vai ter de cuidar da casa, de sua mae.

- Como a senhora disse que se chama?

- De onde o comhece?

- E o tio, como vai? Ainda corre riscos?


Quando se aproximou de sua rua cerca de meia hora depois, a luz

dourava seu perfil. Parecerá uma orla em seu vestido quando entrar no prédio

numa linha reta até o elevador. Falta o ar. Encosta no metal sob a câmera de

segurança. As vozes dos moradores se cruzam rascantes em seu cerebro. Toda

essa gente.

Calma. Você não vai conseguir viver sob tanta tensão. Ela sentou-se na

cama e a envolveu o cheiro de lencois limpos que é um dos cheiros da

felicidade. Tirou os sapatos e suspirou e tornou a levantar. Chegou à janela.

Você me deixava ansiosa. Eu queria que logo chegasse o dia. As manhãs

quando nos encontrávamos. O cheiro de café passando e o som dos sabias.

Mas como estavam cantando mais cedo por causa do insone caos urbano,

quando me acordavam eu ainda ficava um tempo cismando com minha dor e

quase sempre esquecia as bênçãos de ter te conhecido, alias me esquecia tudo

do dia anterior , os projetos motivadores, e comecar o seguinte a partir de

esquecimentos era extenuante. Estava pior que mamãe. Calma. Vai dar tudo

certo. So precisa confiar. Nao devia depender sequer do afeto de David.


David levantou suando cerca de meia-noite e teve certeza. - Amor -

disse. Sua boca tinha ainda o gosto azedo do longo e morbido sono. Lembrava

de muitas nuvens correndo baixas como anjos caidos expulsos do ceu mas nao

de todo; como um rebanho de cordeiros elevado a alturas nem tao sublimes

assim. De minuto em minuto mais retornado ao mundo dos vivos sem

emocoes esperadas constatava os movimentos dos pes como dedos nervosos e

um alongamento involuntario das panturrilhas. A expressao insondavel, as

regioes dos sentidos exauridos. A pesada obrigacao de retirar de sua mente a

pedra enorme do desencanto.


Deixa que a aragem traga a preciosa lembrança. Gisele e ele na

adolescência. Brincando. O primo Joaquim junto. Procuram-na. A irmã, a

prima Maria, contou que preferia os lugares escuros. A mãe os olha pela

janela. A tia. Pensativa. Crianças tão doces... Hadrien imaginou onde ela

poderia estar. Ninguém a conhece melhor do que ele. Um lugar escuro e

descalça sonhando. Atrás da casa. Dentro do pequeno túnel abandonado. Ai a

encontrará. Sua luminosa irmã.

- Gisele! Não adianta! sei que você está aí.

Ela não saiu e Hadrien avançou ao seu encontro.

-Alguém está chamando.

- Hadrien!

A mulher aparece requebrando. Não é mulher para ele. Belíssima. Aas

vezes mostra sensibilidade e alguma inteligência mas jamais será como

Gisele; é só uma potranca de voz esganiçada.

Por quanto tempo estiveram ali no túnel não sabe dizer e tanto tempo

depois, depois do assalto, a lembrança perderá a doçura. Ele terá de fugir, o

que mais lhe restava? Se não pode olhar nos olhos da irmã, melhor jamais

tornar a vê-la.
A própria mulher, Vanda, inutilmente insistiu para que fossem visita-la,

preocupada. Deveria ir vê-la. Irmãos são para sempre.

- Eu a amava tanto - chorava Hadrien no quarto. Jamais tornará a amar

assim.

Ele passava as fotos na sala após o jantar. Uma de Joaquim e outra de

Maria e uma outra de todos juntos, os quatro. Seus primos também nunca mais

os viu. Olhou Vanda como se visse um fantasma cujas palavras são

ininteligíveis e pensou como sobreviverá o resto da vida sob aquele segredo.

imaginou o que estará expressando seu olhar. que não expresse mais do que

ele pode permitir. Não pôde renunciar ao prazer da primeira noite e agora não

quer abandonar as comodidades que juntos construíram.

- Maria foi fazer intercâmbio na Europa e nunca mais voltou. Joaquim

da última vez tentava um concurso público convicto de que uma vida estável

possibilita outros sonhos ao acabar com a preocupação da subsistência.

- E a tia?

Ficou por lá mesmo cuidando da comida e das roupas do senhor Pertiert

mesmo quando o câncer a consumia. Passou a maior parte da vida varrendo e

encerando e lavando pratos naquela casa que a janela se debruçava sobre a


sina que lhe coube, sem reclamar, antes glorificando a Deus, e nunca lhe

ocorreu que era infeliz porque nunca pensou a respeito.

- Ela é que era feliz - disse Hadrien.

Porque o que Gisele tinha de forte em seu caráter, tinha de fraco no

físico. Sequer gritou, pensando na mãe no quarto. Calou nos dias seguintes.

Mas o olhar depois era implacável. O que poderia ele fazer senão fugir desses

olhos?
Alguns dias depois de ter ido à casa de Gisele e falado com a senhora

Drabska, o delegado Abdul encontrou um antigo colega a quem muito

respeitava e perguntou o que ele achava de tudo aquilo. Tem suas opiniões e

algumas intuições porém vão de encontro umas às outras.

- Você sabe, Artur, não sou um homem místico; mas estou começando a

crer que existe alguma conotação sobrenatural. O outro quis então saber

detalhes e o delegado contou.

- Gisele é — ou era (quase admite) — uma moça muito bonita,

realmente atraente. Olhe - ao mostrar a foto disse a si mesmo que não fazia

justiça. Lembrou-se de repente que o colega teve um caso extraconjugal com

uma moça dessa idade. Enfim. Havia começado e paciência continuou.


Tudo indicava que ela se vingou do vizinho que a havia assediado no

parque da praia na manhã de 29 de setembro de 2010. Aa noite ele foi

assassinado em seu apartamento. Mas isso não pode ser porque ela morreu

antes, nesse mesmo dia.

Abdul chegou a pensar que ela simulara sua própria morte para se livrar

pois o porteiro de seu prédio disse que ela saíra à hora de sempre para

trabalhar. Mas no escritório constatou que ela faltara — o que aliás

testemunharam jamais tinha acontecido antes.

Artur a essa altura começa a se interessar e dar uma atenção cuidadosa

à narrativa do delegado. É um homem de sessenta e dois anos e poucos

amigos e hábitos rigorosos. Aposentou-se tão logo pôde. Não suportava como

as leis terminavam por livrar sempre os culpados. A literatura deveria servir

para que de algum modo fizesse a justiça. Se tivesse talento teria se dedicado

completamente.

Abdul continuou. O que chamou a atenção dos policias e do pessoal da

perícia e de todos o que chegaram a ter contato visual com o cadáver foi a

aparência aterrorizada e atterrorizante. Fantasmas acorrentados ao inferno.

Testemunho unânime. Gaguejar e tremor e olhos esbagaçados. Artur abre mais

os olhos sem ousar o esboço de uma tese. Quem sabe o enredo de seu
romance. Algo pelo que valha a pena viver os últimos anos de uma vida

inócua. O que virá agora?

- Não um só cadáver.

- Como assim?

- Soubemos, meu amigo, de um caso semelhante - Artur tentava

imaginar. Um homem rogando aos montes. Isso em vez de clemência. Não

parece coisa humana.

Esse outro morto, imagine, era tio da suspeita.

Não acabou. - Falta falar de um rapaz que enfrentou a suspeita do

delegado, um tal Eduard . Ele garantiu com consistecia a inocência da moça

chamada Gisele. Ah, e a mãe dela, cuja doença não a impediu de desafiar a

autoridade em sua casa. E falta falar de outras vítimas. Não sei — diz — o

quanto é válido usar esse termo. O médico que ela consultava. E um outro

homem encontrado no banheiro de uma lanchonete. Tinha também algo em

comum com a rotina dessa moça. Costumavam pegar o mesmo metrô no

mesmo horário.

Assim aqui estão os delegados, um aposentado e outro quase em meio a

uma tal sorte de fatos e espectros enquanto o garçom lhes traz mais duas

xícaras de café.
Como se não bastasse tudo isso, há uma história trágica que não envolve

diretamente a moça, mas seu namorado, o que quase a envolve, tal a ligação

dos dois, conforme Abdul pôde apurar.

- O que aconteceu com ele?

- Sofreu uma queda numa circunstância corriqueira. Parece que ia trocar

a lâmpada de seu quarto e teve uma tontura. Não morreu mas é quase como se

tivesse morrido. Está ligado a aparelhos, inconsciente. Os médicos acreditam

que é remotíssima a possibilidade de um dia acordar.

E tinha mais, se Abdul quisesse se ater a detalhes. Do acidente que

matou o pai, o tio se salvou para sofrer a morte macabra.

Artur intuíra saídas para o labirinto. A literatura poderia suprir o que

faltasse. Não pode dizer isso ao amigo. Não é o que ele espera ou pediu.

Beberam juntos um gole de café e Abdul apanhou o cigarro a que voltara após

o caso. Olham-se. Suspiram.

- Ao contrário de você, Abdul, sou um homem místico.

Um calendário na parede. Faz um mês que o vizinho da moça morreu.

Desde então toda segunda-feira


- O quê? Alguém morre assim.

Artur emergiu de seu mundo imaginado . Então, o que ele achava?

- Pode ser que existam mais pontos em comum entre esses mortos e a

partir deles tenhamos um caso, mesmo que, como tudo indica, a moça

realmente esteja morta.


A sala envolta em uma névoa de umidificador. Tem de viver dentro

dessa saudade sombria para sempre do mesmo modo como se acostumou a

duas ou tres horas de sono por noite. Deu outro passo e tocou o sofá com os

dedos, de leve, quase uma carícia. Os quadros da parede e os livros na estante

e as flores naturais serenamente se apresentam e comunicam eternidade. No

vidro da janela feito espelho a bela jovem severa a questiona.

Acompanhou o Sr. Pierce até o fim. Ouviu o diagnóstico sobre a

senhora Ewe dos mesmos doutores que primeiro apresentaram as

condolências. Depois de tanto sofrimento poderá esperar algum descanso para

a mãe? O médico reconizou sua esperança. As agulhas de tricô e o agasalho

inacabado produzem fragmentos de uma infância que talvez nem tenha

existido. Enfim. Já não faz diferença. A vida e a imaginação tão próximas não

raro se misturam.

Esse caderno agora aberto ela usou para seu primeiro diário; nessa mesa

de estudos, quantas lições o irmão lhe ensinou


. As cortinas que com o passar do tempo amarelaram remexem dentro

dela meandros do tempo e do destino. Em alguma outra época teve semelhante

medo? Pode escutar aqui a voz de Joaquim; ali Maria por causa de uma piada

boba gargalhou. Venham jantar, diz tia Francisca. Cheiros fortes açodam a

fome limpa e nítida de adolescência nas cores do verão que passava depressa

na inconsciência do futuro para o qual ela supostamente deveria estar

preparada com alguns anos de lar e escola mas não é assim, ela lembra e

pensa, não é assim. Todos felizes e ela chora. Compreende que não pode ficar

ali por muito tempo. Desvia. Entra no quarto. Você precisa dormir, minha

filha.

O suor esfria todo o corpo. Olha ao redor e assustada percebe de fato ter

dormido. Não foi um sonho. A morte do pai no acidente, a doença da mãe, a

sala percorrida e no quarto dela o beijo de boa-noite. Está bem. Então

descanse também, mamãezinha. Há tanto respeito e admiração em sua voz que


ninguém imaginaria uma dificuldade perene entre elas. Ninguém notaria uma

mudança quase de raça em Gisele com o passar dos anos.

Sem dar por si está de novo na sala junto ao aquário onde antes ficava a

escrivaninha do pai e aqui a poltrona em que a senhora Ewe costurava. Não

pode ficar fugindo todo o tempo do passado. Ou talvez possa caso venda o

apartamento e compre outro. É isso. Amanhã mesmo irá procurar o corretor.

Há de fato alguma coisa que a incomoda nessas lembranças, embora nada do

que tenha realmente acontecido. Uma intuição. À mesa, Hadrien diz que há

verbos que admitem várias regências. Hoje eu sei, pensa Gisele. E como sei.

Talvez um dia venha a compreender. Gostaria de saber também onde está o

irmão e reencontrá-lo. Olhar de novo dentro dos seus olhos.

A senhora Ewe Drabska ainda dorme. Gisele lembra vagamente do que

sonhou. Me procuraram hoje cedo? — pergunta pelo interfone. O elevador

passa pelo andar, levando seu coração. O sino está tocando como se

espalhasse um segredo guardado durante séculos, durante vidas — de crianças

inocentes que, forjadas pelas sombras, crescem e se transformam, se tornam


duras, obstinadas e acalentam o desejo de vingança onde antes havia apenas

tristeza conformada.
Por volta do meio-dia, com o cunhado adormecido no banco do carona,

o senhor Pierce abriu o porta-luvas e apanhou alguma coisa na mão direita.

Chega a esbarrar e Pertiert resmunga alguma coisa que o pai de Gisele não

teria gostado nem um pouco de ouvir. Ele pensa no quanto um homem precisa

se adaptar à família da esposa e no que pode acontecer caso não o faça e não

lhe pareceu que isso fosse ou sequer aparentasse uma virtude. Um baque

seguido de pequenas batidas. Preciso consertar esse porta-luvas. Dirige com a

displicência de quem conhece bem a estrada e também por isso mal a olha,

optando pela contemplação do objeto entre os dedos. Um céu limpo de

inverno. Grandes pastos passam ao lado. No instante assim fugidio não parece

caber a grandeza de uma tragédia.

Valeu a pena, é claro. Ele nem acreditou a princípio que Ewe pudesse

mesmo gostar dele. Mas é verdade, ela sente saudades, como disse na primeira

vez que se separaram por mais tempo. Como era linda. Não parece irmã desse

traste. O tempo não retirou dela a beleza nobre que Gisele herdou. Como a

amava, o que será que ela tem, essas dores, esses esquecimentos. Apenas senil

ou será mais? Precisa faze-la aceitar se consultar com um médico, ele até
compreende a ojeriza que ela tem de médico, mas simplesmente precisa.

Pierce lembra com detalhes da primeira vez que ela usou esse broche. Essa

voz maviosa vem do corredor do prédio em que ela morava, quando saíram

pela vez. Quando a beijou naquele dia, a testa dela estava úmida.

Logo cedo tivera um dissabor na universidade e ao longo do dia as

coisas apenas contribuíram para piorar o seu humor, porém assim que ela

abriu a porta soube que jamais na vida seria de novo sozinho e para sempre

teria com quem partilhar alegrias e tristezas. Entrou mas não se demorou. Em

seguida estavam se despedindo dos pais dela. Prometeu trazê-la antes da meia-

noite como convinha a uma moça de família e por muito pouco não quebra a

palavra porque quinze minutos antes disso estavam ainda se vestindo no hotel.

Gisele se parece muito com ela. Olhou no espelho como a perguntar se

também com ele se parecia. Como a amava! Não seria capaz de colocar esse

sentimento em palavras. Flui dentro dele como um rio. O sol ilumina mais que

aquece e o cavalo está calmo agora embora já não seja possível discerni-lo na

paisagem que voa. O carro devora a estrada mas seu condutor está realmente

longe dali — como pode pensar esse tipo de coisas após a confissão da filha na
noite anterior? — e só retorna quando do estrondo. Pertiert acorda assustado

em meio às ferragens enfumaçadas.


Quando em seu caminhar as luzes encontram o espelho da parede,

surgem a mesinha, a xícara, o abajur e uma ponta do sofá. Há agora o barulho

de um chuveiro e um choro convulso. Os ladrilhos estão suando. Aconteceu de

novo e dessa vez ultrapassou em violência todas as vezes anteriores. Houve

uma violência real, na verdade. As batidas na porta do banheiro são da mãe,

que não pode desconfiar, mas Gisele agora acha que não suportará o silêncio e

terminará por se lançar a seus braços.

Tem o rosto inclinado e as mãos sobre os olhos como a tentar impedir

as imagens. Não passou por ruas ermas em horário perigoso. Simplesmente

cortou caminho por um beco de poucos metros na hora do almoço. Ainda

assim, talvez não tenha sido prudente. Uma colega comentou alguma coisa

sobre um homem chegando com atitude suspeita, mas Gisele não costumava

se deter na conversa das colegas. Agora, fragmentado e inútil, sobe da

memória o que ela então contava.

Sente a aproximação pelas costas e pelos lados. Acima, céus sombrios e

prédio em prédios recortado. Um frio cortante na garganta, uma voz trêmula.


Passe o dinheiro e o celular. Cores fortes se formam em sua face, mas não

teme a faca ou a morte. Misericórdia não espera nem quer. Hienas em torno de

um cadáver. Os dedos machucam, as mãos sufocam. Como resistir? Como

vomitar? Como não envelhecer mais mil vidas em outros poucos minutos? A

lâmina teria sido menos dolorosa.

O tempo que passou não saberá. Caminha resfolegando. Precisa chegar

em casa, é tudo que precisa. Que caminho a deixou nessa relva não saberá. Se

esses jardins um dia a excitaram em deslumbramentos de infância, distorcidos,

agora e em qualquer tempo futuro serão sempre flores da ignomínia.

Juventude sentenciada. Ruína. A porta que se abre a introduz num outro

mundo em meio aos móveis escolhidos para aconchego.

O quarto de Hadrien, seu melhor, único amigo, cresce em conformidade

com o próprio desespero. O que foi, Gisele? Um feixe luminoso descansava

no tapete com motivos egípcios, Nut sobressaindo no baixo-relevo. Meu Deus,

o que houve, minha irmã? Olham-se e ressurgem um para o outro em novos

papéis. Como poderia ela imaginar? Não poderia. A mãe internada há dois
dias. Correntes estranhas e portas que seguidamente batem sem que haja

vento.

Quase meia-noite de segunda-feira. Gisele faz grande esforço para

levantar o fardo da cama, pois era isso que seu corpo se havia tornado.

Acabara de desabafar com o irmão e convulsa adormeceu. Ele está ao lado e a

contempla calado. Parece meditar sobre os horrores que ela contou: assim ela

o vê ao despertar. Mas aqui mudam algumas coisas. Hadrien a olha de um

jeito estranho, olhar típico de quem bebeu. O que vê? É esse o seu irmão? Ele

diz algo. Sim, é ele. Mudaram algumas coisas. O declínio da nobreza de um

amor fraterno. Uma realidade inesperada. O que você está fazendo, Hadrien?

Ele apenas a velava.

Não assim.

Eu te amo, ele diz, como se fosse algo normal de se dizer.

Ela fecha de novo os olhos e afunda na espuma.


A cabeça do gatinho se vira pra lá e pra cá como se alguém passeasse

pela sala, alguém cujos passos uma pessoa não teria ouvido, e todavia

aumentam mais e mais. Muito frio. Que tipo de primavera é essa? As bolinhas

de vidro pelo chão caem e correm pelas frestas do assoalho, como quando

Gisele brincava com ele. Ninguém irá arrolar um gato como testemunha. Ali

está ela, sua dona e amiga, debruçada na janela. Por que tão triste? E por que

solidão? ele não estava com ela, como sempre?

Não se trata de solidão. Só lembrou do poema que começa assim. Mas

terá de habitar noutra parte dali para frente. Nem mesmo o gato escuta o mar:

até para uma audição privilegiada como a dele, estava longe demais. Quando o

cérebro deixa de funcionar, o que exatamente deixa de existir? Não o

significado do tempo e as relações entre as pessoas. O anjo e a jumenta de

Balaão. Saul angustiado faz com que Samuel se inquiete e apareça. O que

exatamente sou nesse sonho? O que sabia ainda sei, pensa ela, e nem todas as
pessoas haviam desaparecido, não ainda, não antes que se permitisse

adormecer até o Juízo.

Que não seja um imenso obscuro caos. Que os assuntos pendentes se

resolvam. Então ela mergulhou na fulgência terrível que se abria. Sweet, o

gato, tornou a olhar e ela não estava mais ali. Um túnel. Um longo túnel e uma

queda lenta. Ou é uma subida? O filme da vida de Gisele não estava passando.

Não consegue ver nada ou porque está muito escuro ou porque a demasiada

luz a tudo ofuscou? Esse olhar infantil não se impressiona com a própria

perplexidade. Vê que algo está soando, como um sino, no lugar que acabara de

deixar. Não precisará mais levantar da cama de manhã.

Está sonhando, dormindo ainda portanto? O relógio. O espelho. Quem é

essa que saiu para trabalhar? Sweet mia. Se espreguiça e desloca. A senhora

Drabska entra e atende o celular. Passa-lhe pela mente, com detalhes, toda a

vida de sua filha.


Sentam-se no sofá da pequena sala. É um ambiente abafado, insalubre.

Falam sem parar. O mais velho pergunta ao menor se apanhou a encomenda

conforme sua ordem. O menor diz que sim, entre risos, contando que tivera de

bater na mulher porque não queria colaborar. O terceiro, um moreno, confirma

a história enquanto acende o baseado. Diz que, olha, acho que a gente deve

agora se concentrar nas joalherias, mas aí, responde um quarto, o gordinho, a

possibilidade de tirar uma casquinha das funcionárias é quase nula. O mais

velho concorda mas considera que moças como aquela Gisele é como um

bônus, para compensar o lucro menor dos assaltos a transeuntes. “ Aquela

Gisela” ? Como ele sabia o nome dela? O mais velho meneia a cabeça. Gisele,

idiota; Gisele, não Gisela. Como senão pelos documentos na bolsa?

Não se passou muito tempo antes que o espelho do corredor começasse

a refletir aquilo. Aphonsus, mais velho e chefe da quadrilha, demorou para

acusar o impacto da visão. Lidava assim com tudo. Esperava até que pudesse

ter reação adequada, que não comprometesse sua fama. Mas quando Kitaro, o

mais novo, perguntou baixinho quem era aquela mulher, já não era possível

fingir que não havia ali nada estranho. Começaram então a falar uns com os

outros. A princípio sobre a estranha na casa; depois sobre sua estranheza; e


finalmente sobre a semelhança com Gisela. Dessa vez Aphonsus não corrige o

assecla.

Há meses Aphonsus deixou de ter os sintomas da abstinência, então é

bom que os outros também estejam vendo o rosto pálido de fulgurante beleza,

as feições vívidas e livres, leves como as de um algoz. Discernem um eternal

brilho nos olhos vazios acima dos vermelhíssimos e carnudos indecifráveis

mundos que sorriam. Há um cheiro enjoativo na sala qual incenso de flores

apodrecidas. Todos podem sentir. Todos — malvados, estavam preparados

para a consciência do mal?

Que bom todos ali juntos na perversidade e no arrependimento. Não é

uma benção essa sensação? Ela quer que degustem isso até a última gota. Não

irá privar-lhes de nenhum desses prazeres do remorso. Ter-lhes-ia dito quando

do assalto que no fundo eram bons rapazes. Que os perdoava do pequeno

deslize. Coisa da carne por que todos os homens uma vez ou outra passam.

Todos olham paralisados. Hipóteses as mais loucas se desenham. Em Kitaro

hipótese alguma. Apenas a contempla, como a uma flor. Como a uma deusa.
Talvez revele o verdadeiro motivo de estar ali. Quem sabe seja ele. Ele que

demorou a participar; que chegou a dizer que não deveriam.

O que essa visão enfim pretende, se uma visão possa algo pretender,

está em que parte do processo? em seu final ou no começo? passará ou se

cristalizará pela eternidade? Firme e lentamente, a brancura se move.

Derrama-se e se transforma. Está nas paredes, nos móveis, no céu acinzentado

na fresta entre os prédios na janela. Está em tudo, é tudo, fora e dentro deles —

dentro principalmente — dor de um parto inimaginável: dor que tudo resume

e nada permite além dela mesma. Dentro de cada um, por quê? Por isso e por

aquilo e também por essa outra razão. Agora podem morrer em paz. A paz

possível aos abomináveis, fornicadores e idólatras.

Eduard pára ante a porta branca enquanto passam pensamentos

desconexos. Se David é mesmo o homem de sorte a quem inveja, está na hora

de saber — se faz algum sentido invejar alguém que esteve morto por tanto

tempo mas enfim, contra toda expectativa, reviveu. Todavia, Gisele está

morta. A encantadora namorada não existe quando ele acorda. Sabe que um

ano foi o tempo durante o qual dormiu. Não tem mais vinte e cinco anos e fez

aniversário numa cama inclinada em que um depósito de urina está acoplado.


Então, no espaço limpo das reflexões, ao som do sino falso da capela, Eduard

percebe seu engano.

Insistente sinal atmosfera o quarto quando entra. Desconhecidos

descobrem afinidades e se respeitam. É hora. De escutarem um ao outro.

Então David fala com a espreita da lágrima anexada ao sinal. As noites são

longas. De recolher um fragmento de sonho que a manhã dirá falso; de reviver

a conquista que o despertar reverterá em fracasso. Eduard agora pode

entender. Como se conheceram? Foi num ônibus, diz David. Eu ia para o

primeiro dia de trabalho. Saltamos juntos. Ápice de sua vida.

Nunca soube de nada das coisas que ela passara?

David imagina o que se passa dentro da amada certas noites. Aquele

suspiro junto à cabeceira. A mão que subitamente o afastou. O braço se

movimenta e toma de novo consciência dos tubos e mangueiras ou seja lá o

que seja ligando-o ainda à morte. Tosse. Respira com dificuldade. O sinal leva

tudo à tela que tudo devolve em gráficos móveis junto a estatísticas azuis. Não

há por que segurar essa lágrima, David.

Um instante volátil percebe quão enganoso é o coração, conhecimento

trazido pela dor e pela ausência diluído. Com isso, Eduard quer dizer o quanto

está arrependido e o que pudesse faria pelo novo amigo. Obrigado, diz David.
Mas o que ele poderia? Talvez estivesse viva se ele soubesse. Tomariam

alguns cuidados.

Está certo de que foi isso? que foi assim?

Sim, David. Ah, permita-me que apresente a você o delegado Artur.

David leva o ar pelo dedo aprisionado e aspira uma nova esperança em

meio à repetição agora calmante do sinal. Seu coração está mais calmo ao que

parece. Nesse outro ser vê a jovem mulher pálida não mais como um

fantasma. Quase palpável embora ainda inexplicável. Gisele, violenta e súbita

alegria próxima da loucura —e o que não seria loucura num despertar após um

ano do mais negro e absoluto silêncio?


Quando a luz aflita entrou pela janela e banhou o assoalho, ela estava

deitada. Os olhos abertos. Agora porém o espelho diante da cama já não

guarda sua imagem. Levantara, abrira as cortinas. O amanhecer envolve o

quarto. Espáduas nuas, floridas, tocam o tecido. Visão completa do jardim.

Diga-me em que está pensando, dissera uma vez David. Pensa nele. Sua

esperança de que desperte algum dia, desgastada, está morrendo. O vidro

devolve o olhar que questiona os cruéis caprichos do destino.

Gelada na alma. Senta-se e na penteadeira passa a se maquiar. De que

adianta chorar? saberem que chorou? O rosto enquadrado chora ainda. As

lágrimas se multiplicam quanto mais são reprimidas. Está correndo agora pela

rua vazia. Os olhos borrados. Relembra. Amor, fica tranqüila. Você tem o

direito de guardar o segredo que quiser. Intimidade permite vida própria. Ela

olhou David com ternura agradecida mas sabia que não poderia mais guardar

para si aquelas coisas. Isso foi no dia anterior ao acidente. Agora não tem mais

com quem falar. A manhã brilhante concede a seu corpo um frescor que ela

não sente. Não quer mais viver embora não seja capaz de tentar contra a vida.

Continua correndo e o mar aparece diáfano como se tivesse luz própria. Os


pombos na areia ainda podem ser ouvidos. Chega a pensar quem sabe as

coisas se ajeitem. Parou defronte à praia. Um dia assim não pode conviver

com o mal, pensa. O céu e o mar garantem isso. Passa a recordar.

Ela tenta adivinhar as horas pela posição da lua. Os olhos de David,

fundos, a contemplam. O pior horário do trânsito já passou. Ela pede a ele que

se sente. Pede que ele se sente. O movimento das folhas das árvores à janela é

suave, quase inexiste. Quadro magnífico, ele pensa. Sombras no rosto e no

vestido, luz que se derrama pelo quarto. Um leve tremor nas mãos dele.

Tremor que as frustradas tentativas anteriores só aumentaram. Subitamente ele

levanta e se aproxima.

Um dia tinha de acontecer. Foi como se algo se rompesse. Por uma

desconhecida natureza que nele dormia entre biliosa e irascível sem contudo

ter nada de uma coisa ou de outra (a virtude desconhece extremos), David

abraçou-a de modo inequívoco. Sua ternura não deveria ser confundida com

pusilanimidade. Se ela quisesse, podia lhe contar o que se passava nos

momentos íntimos. Por que se tornava tão arredia no melhor momento. Como

não contava, deu-se o direito de se impor.


Nada falaram enquanto durou. Dedos tomam o partido de Gisele. Pétreo

e passivo. Uma réstia brilhante e ela soube que era outono porque embora

fizesse frio sentia-se aconchegada e havia muita umidade. Sinuoso silêncio.

Então, se devia estar decepcionada com David, que se impusera como todos,

seu sorriso todavia denuncia que está feliz e que não, ele não era como todos.

Era único, murmurou ao pisar o mar. A ramaria próxima dança verde e

suavemente.
Uma sombra na parede. A luz amarela em torno se agitou como a aura

de alguém à beira de um ataque. Quando a esposa entrou, ele estava deitado

mas agora, zurzido, parece que vai se levantar. Quem sabe precise sofrer

assim. Escuta a irmã em meio aos sons no assoalho do apartamento acima, no

teto. Sente-se desgraçado. Gisele! Acorda em desespero. Sua mulher pergunta

O que foi? Hadrien não consegue falar. Olham um ao outro enquanto a sombra

desliza para os lados da janela.

Os rins estão matando. Pontadas dolorosas. Por que tem medo? Precisa

encontrar explicações. Devia ter aceitado a sugestão e ido ao médico. Não

continuar a comer morango. Mas é tão gostoso. E crianças comem. A dor

desce pelo corpo. Ela o está tocando. Está me tocando e dizendo que me ama.

Quer mais. Mas por Deus, Hadrien, do que você está falando? Ela quem? Uma

mulher tocando assim, como se fosse um homem? A esposa pensava que ele

tinha se curado. Qual o quê. De novo aqueles sonhos. Você está me

assustando. Pare com isso. E pensar que era o homem mais bonito que ela

jamais vira. Hoje acabado. Ou algo pior.


Que música é essa? É dolorosa demais. Mundo de horrores em cada

acorde. Eu sei que não fui o que você esperava num tempo em que esperava

tanto e tanto precisava. Tão gostoso? Hadrien nada tem em comum com as

crianças senão a maldade intrínseca. Sem vara de correção. Poderá sobreviver

a isso? Não quer, na verdade. Sua sentença. O caminho de seus pecados. A

perversidade é o castigo do perverso.

Sombras da noite sem pressa. Mulheres à janela do trem para o inferno.

Trovões. Uivos. Inconfundível palidez da raça degenerada. Esse rosto

verdoengo tem a ver com insônias, depressão ou outra mulher? Quando

Hadrien chegou perto dela, tremia toda sobre um majestoso calafrio e quase

via o que, acorrentado pelo medo, ele via. Ele não tem medo de morrer. Seria

banal, um castigo desejado. Diante da esposa, vê a irmã. Quem dera

constatassem que foi mesmo outro sonho, outro pesadelo e apenas isso. Tudo

bem. Sei da minha maldade. Diga agora. O que posso fazer?

Deve haver alguma coisa, uma salvação, e ele a reconheceria de

imediato. Seu coração contrito suplica. Saber o sortilégio com que afastará as

dores. Tomam um e outro lado e o alto da cabeça. Ele a ama, Gisele. Jura que

sim. Nas trevas que o envolveram e tudo ao redor. Mil vezes repetirá que a

ama. Não o fizesse sofrer assim. Não se nivele comigo. Você sempre foi um
anjo. Então pensou que deveria procurá-la e pedir-lhe perdão. Pessoalmente.

Embora não tenha certeza de ser capaz de olhar nos olhos da irmã outra vez.

Vanda percebe que ele está nu. Pensando bem, nem tão acabado assim.

Passaram momentos inesquecíveis. Então ela tem certeza de que ele precisa

mesmo entrar em contato com a irmã e acabar com isso. Acontece nas

melhores famílias. Quem não tem um esqueleto no armário? Amor, por favor,

volte pra mim. Ele quer. Palavra de honra. Então pede que ela o ajude. A

quem está pedindo? Esse não é o olhar de Vanda. Você pode ler meus

pensamentos. Vanda meneia a cabeça e pensa que não, ele está louco. Nada

mais há a fazer.
Um homem renascido. No rosto perplexo de infância a customização

das últimas luzes do dia. Ahn? Customização, repete ele para a enfermeira. A

forma como algo passa a existir segundo determinada forma de cada pessoa.

Quando ela se afasta, pergunta a si mesmo se sua idéia não é loucura e não, é

antes a afirmação do bom-senso e da vida, conclui. Seus passos soam no

silêncio do hospital. O corredor vazio termina no balcão de atendimento. A

mocinha, com os olhos marejados, sorri para ele. Adeus, David, venha nos

visitar de vez em quando. Pensa que ele bem poderia pedir o endereço e ela

passaria a criar essa expectativa, de que um dia ele apareça lá em casa. Seu

rosto pálido lembra o de Gisele, mas —imagina David —a partir de hoje todos

os rostos de mulher lembrarão o rosto dela.

O mundo... A neblina submerge as construções. O sol renovado dá às

ruas desconhecidas um quê alegre de descoberta. Antes que se permitisse

habituar, estaria longe, junto dela nesses lugares além. O coração bate pesado.

Desculpe-me, senhor, diz ao esbarrar no idoso. Me desculpe. Meio que rindo,


diz para si que está distraído demais. Talvez isso não seja bom. Meu Deus, me

guia, preciso ir. Está bem, talvez não precise, talvez seja mesmo loucura, mas

vou enlouquecer se não tentar.

Quando ele se vira, pensando que caminho seguir, os raios de um sol

inclinado criam o efeito de um flash onisciente. As portas abertas de um

galpão. Um suspiro. Um amigo. Boa pessoa. Tem uma agência de viagem.

Ainda que não entenda para que David quer saber aonde o cunhado foi e uma

passagem para esse lugar, há de lhe conceder esse favor. Todos estão

espantados e comovidos com o despertar de um coma longo assim, é

inacreditável. Antes conversam sobre os diversos negócios de Sebastian, é

preciso hoje em dia, sabe-se lá quando a moeda sobe ou desce e as viagens se

tornam privilégio. Farei isso apenas por você mesmo, lembre-se, porque

definitivamente não acredito nessa tua loucura, meu amigo.

Discernindo a auréola de um outro rosto de Gisele na secretária do

amigo, David espera que não seja loucura. Quem pode afirmar que os mortos

caminhem por aí? Ninguém tampouco afirmaria que não. Ah Gisele. Se pode

me ver e escutar, também pode me guiar. Não foi quando acordou: agora sim

está prestes a realmente renascer.


Um lugar inesperado, maravilhoso. Antes do sol surge a casinha envolta

na névoa. David sente na umidade do ar a inelutável verdade. E agora? Agora

os vizinhos absortos em suas lidas matinais, nas plantações e nas casas,

subitamente arrastados pelo som do sino. Para Hadrien, o som é uma outra

concepção de sua irmã. Ela está aqui, pensa. Sei que está. Sim. Ela está ali.

David pode sentir.

O que significa? Deve se deixar entregue à sensação que transcende o

corpo? Estará preparado? O desejo mais terrível se realiza. Seja como for, é

tarde para recuar. É tarde também para Hadrien. Nem arrependimento é mais

possível. Então os dois homens, num mesmo instante, no interior da casa e no

alto da encosta, sentiram a presença, a perfeição de cada um.

Outra badalada. Hadrien abre a porta e sai na neblina. David, ereto e

inspirando pelo nariz. Vê de longe a figura de ombros largos a quem uma vez

Gisele se referiu como único amigo “ antes de você” . Com essa mesma voz.

Com essas mesmas feições agora etéreas. Como conhaque que flamba a carne

em uma frigideira. Lembrança cuja vida não passará. Como um trem se


aproxima do final do túnel. Ali está. Luz. Dia. O que se repetirá até o final dos

tempos. Certeza do que se não vê. Gisele? Hadrien está gritando. Gisele!

Então David entende e sussurra.

Gisele... Não...

Ao se aproximar ela aproxima mundos. Destruirá o equilíbrio que é o

próprio tempo e os espaços? Em algum lugar o futuro existe. Ele está em pé e

respira fundo mas não é daí que a vê. Em que difere esse arrabalde da

realidade cujo formato se dissolve no desejo? Ainda uma mulher? Ele o

homem. Queixo firme, narinas pulsantes. Conhecimento da vida primária.

Está num sonho esse corpo que acaricia? Por que precisaria da morte ou da

vida entre terras? Ela é em demasia. É em demasia para conjecturar. Êxtase

que dissolve a dor. E passa. E passa. Voltando. Ele é o arrepio que o percorre.

As veias que se dilatam. Um relâmpago corta o céu.

Peremptório ensinamento da intuição, o sol surge e atravessa a névoa.

Chega ao rosto e ao peito de David e a profundeza trêmula e quente de Gisele


se alastra em seu peito. Hadrien não sente mais, como se a vida tivesse se

retirado, justamente por isso, porque a vida que vivera nos últimos meses era

morte, era Gisele, lembra-se de Vanda e volta para dentro de casa. Abre a

porta do quarto e mergulha na cama, aconchegando-se no regaço da mulher.

Treva primordial. Vazio desejável, silencioso, musical. Noturno e

diurno. Transformação de tudo. O nada. Exausto. Jamais tal solidão e todavia

ela está ali. Na grama a seus pés. No raio em seu peito. No silêncio de

vibrações do sino que se calou. Todas as coisas enfim se acalmaram após o

êxtase. Ela está ali, ainda está ali, solícita. Ele ouve a história da jovem morta

que se recusava a partir. Lampejos do ano passado, do período em que dormia.

Ela promete partir mas habitará ali para sempre — não na morte, na solidão ou

na vingança. Habitarei para sempre, diz ela, em sua vida.

Agora entende. Silêncios que na madrugada fazem o papel de um

relógio. Ali está estava, absorta, junto à mãe sozinha e preocupada. Não a

pode consolar? Pode tudo nessa repentina dimensão. Como esse infame tem

coragem de ligar e sugerir que ela aquiesceu? deixar a senhora Drabska ainda
mais atormentada? Se pode se ver refletida nos olhos de David agora depois

de tanto tempo, se nesse olhar sua eternidade se manifesta enfim, não há lugar

para a mágoa que deteriora a fonte cristalina.

David, tão próximo e tão distante. Que respiração irregular, pobre

querido. Procura um lugar para deslocar dali o terror. O medo é por causa

dela, não por si mesmo. Acreditou-os integrados pela morte mas o leito desse

rio serve apenas àqueles a quem é inexorável. Afluentes incertos ali não

desembocam. Não saberão do hades. Caos medonho imerso em construções

assombradas. Não quer mais isso. Se tem de habitar aqui por todo o sempre,

que seja descanso. Visão com o fim único de apaziguar, depois o sono. Depois

a paz. Faculdades aperfeiçoadas pela redenção. Um canto agora. Você. O

vínculo que me liga à terra.

Termina assim. Numa galeria na cidadezinha próxima do campo onde

Hadrien vivia. O rosto translúcido, o olhar transcendente. Nalguma loja

próxima da barbearia. Burburinhos sempre encheram David de inquietude. O

pequeno anel na correntinha. Passando pela trilha do parque escuta os pássaros

e o mar. O caminho. Em certo momento uma curva aguda seguida de íngreme


subida. É plano agora. Infinitamente sereno. O homem que vem em sentido

contrário, curioso ou compassivo, recebe dela a certeza de que está tudo bem,

não se preocupe, obrigado. Tem certeza? É que o homem também sabia tudo

sobre aparências. Ela confirmou. Tudo bem. E seguiu. Debruçada vê a senhora

Drabska atender o celular. Pobre mãe. Mas acredite, ela está bem, diz David

na cabine telefônica. Desejaria decerto que a senhora também estivesse.

Algumas pessoas, quanto pior o mundo que as rodeia, melhores se tornam.

Ainda mais, murmura a senhora Drabska ao desligar o telefone, depois de

experimentar um renascimento como esse rapaz. Ainda mais quando, morto,

torna a viver. Ela imagina que esse é o segredo de David. E o convida. Se meu

filho não vai mesmo voltar. Seria maravilhoso, uma honra. Decerto uma forma

de se confortarem da perda de Gisele. Combinado, diz ele. Repete mais alto,

pois a mulher está perdendo a audição.

O avião está descendo. David fecha o livro e olha pela janela. O alto da

cabeça dele. Respira fundo. Há um casaco marrom na guarda da cadeira ao

lado da cama. Não se lembra desse casaco e todavia estremece à lembrança.

Mais além, do outro lado do quarto, após ricochetearem no teto, estendem-se

sombras velozes sobre os móveis. Ele praticamente as vê nas páginas do livro

cuja leitura abandonou. Senhores passageiros. O trem de aterrissagem toca a


pista. Resvala, desliza agora. David reconhecerá cheiros de mar, o rosto

amado no espelho e objetos pessoais. Alguns que Gisele guardara no dia

anterior à sua morte. O gatinho se encosta em todos, ronronando.

Irei pelo aterro. Carros velozes irrelevantes ante as sombras e reflexos.

Por contraste será feliz. Verei o sol sobre as águas da baía. Mede o futuro em

eternidades. Distingue à margem da pista o ritmo do outono e as avencas no

parapeito. Será o bastante, essa memória. Amanhã visitará o prédio do antigo

trabalho. Se der tempo na noite de quarta o senhor Abdul. Talvez no final de

semana reencontre Eduard. Este mundo.

Aproxima-se da escada do avião. Sorri para a aeromoça. De noite

sonhará com esse momento na cama de Gisele. A escada, o sonho. Olá,

senhora, como vai? Olá, meu filho. Entre.

A casa é sua.

O corpo na cama deitou ao quarto a paz do alivio de uma dor intensa. O

sorriso é de novo o Deus de sua infantil consagração.

FIM

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