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Revoluções morais

O fortalecimento da proteção de direitos humanos sob


as perspectivas de gênero e diversidade sexual
revela como a luta por direitos e justiça tem levado a
profundas revoluções morais

Acusações de assédio e agressão sexual levaram à surpreendente

derrota do juiz federal Roy Moore, em acirrada disputa ao Senado, no

Estado do Alabama, tradicional reduto republicano, em 12 de dezembro

último. Dias antes, três congressistas acusados de assédio ou agressão

sexual solicitaram aposentadoria ou renúncia, em resposta ao movimento

#MeToo (“eu também”), em que mulheres denunciam em redes sociais

violência sexual — movimento que ainda resultou em demissões de

famosas figuras de Hollywood (como o diretor Weinstein e o ator Kevin

Spacey) e jornalistas (como Charlie Rose e Matt Lauer). Em face do

presidente Trump ergue-se uma campanha de congressistas mulheres

clamando pela sua renúncia, em virtude de 16 denúncias de assédio sexual

desde a eleição. A capa da revista “Time” elegeu como as “personalidades

do ano” de 2017 mulheres vítimas e denunciantes de assédio sexual,

impulsionadoras da campanha #MeToo. “As ações encorajadoras destas

mulheres, assim como de centenas de outras e também de homens,

desencadearam uma das mudanças mais rápidas em nossa cultura desde a

década de 1960. (...) Por darem a voz a segredos, (...) por forçarem todos
nós a parar de aceitar o inaceitável, aquelas que romperam o silêncio são

as personalidades do ano”, justifica o editorial da “Time” .

No campo dos direitos à diversidade sexual, em 7 de dezembro, a

Austrália aprovou projeto de lei permitindo o casamento entre pessoas do

mesmo sexo — apenas 4 deputados se opuseram à medida. A votação

sucedeu a consulta popular, em que as uniões entre pessoas do mesmo sexo

receberam o apoio de 62% da população. Com a decisão, a Austrália

endossa o universo de quase 30 países que asseguraram o direito ao

casamento entre homossexuais, tendo a Holanda como país pioneiro em

2000. Em 2015, a Suprema Corte dos EUA, em histórica decisão, declarou

inconstitucionais leis que proibiam o matrimônio homossexual em vários

estados. Se há dez anos apenas um estado nos EUA reconhecia o

matrimônio entre pessoas do mesmo sexo, na última década este direito se

estendeu para 36 dos 50 estados americanos. Em 2015, a Irlanda, país em

que 84,2% da população se declara católica, por meio de referendo, por

62% dos votos, aprovou Emenda Constitucional que estabelece o

matrimônio igualitário. Em 1988, sentença da Corte Europeia de Direitos

Humanos condenava a Irlanda no caso Davis Norris, ativista homossexual

irlandês, fundador e então presidente do Irish Gay Movement, sob o

argumento de que as leis irlandesas que criminalizavam práticas

homossexuais consensuais entre adultos constituiriam violação ao direito

ao respeito à vida privada, sendo uma indevida ingerência estatal no direito

à privacidade, não justificável e tampouco necessária em uma sociedade


democrática. Em 1993, apenas um terço da população da Irlanda apoiava a

descriminalização de práticas homossexuais consensuais entre adultos.

Estes extraordinários avanços morais relativamente aos direitos

humanos das mulheres e da diversidade sexual refletem 3 fatores:

a) a capacidade de romper com o silêncio, o tabu e a indiferença ao

sofrimento de vítimas de graves violações decorrentes do fato de serem

quem são (por exemplo, a violência contra a mulher é baseada na violência

de gênero, pelo fato de ser mulher, em um contexto de discriminação e

impunidade, alimentado por relações assimétricas de poder);

b) a força da mobilização e da articulação de grupos mais vulneráveis,

que historicamente sofrem as amarras da violência sistêmica e da

discriminação estrutural (destaca-se a força dos movimentos sociais,

acentuada pelo ativismo transnacional via internet, que transcende

fronteiras de espaço e tempo); e

c) o fortalecimento da claúsula da igualdade e da proibição da

discriminação, como princípio fundante dos direitos humanos (como

idioma da alteridade e da empatia, ao ver no “outro” um ser merecedor de

igual consideração e profundo respeito)

No livro “The Honor Code: how moral revolutions happen” (“O Código

de honra: como revoluções morais ocorrem”), o professor da Universidade

de Harvard Anthony Appiah tece instigante análise acerca das revoluções


morais. Sustenta existir uma intensa relação entre “honra” e “identidade”,

que seria o cerne das revoluções morais. A psicologia da “honra” estaria

condicionada à idéia de “walking tall and looking the world in the eye”

(“andar de forma ereta e olhar o mundo nos olhos”) — isto asseguraria a

sensação de reconhecimento, de dignidade e de respeito.

Há o direito de manter e preservar culturas, como também de

transformá-las. O fortalecimento da proteção de direitos humanos sob as

perspectivas de gênero e diversidade sexual revela como a luta por direitos

e por justiça tem sido capaz de catalizar profundas revoluções morais,

inspiradas pelo mais essencial direito a sermos livres e iguais.

Flávia Piovesan é professora de Direito

da PUC/SP e membro da Comissão

Interamericana de Direitos Humanos da

OEA (2018-2021)

Leia mais: https://oglobo.globo.com/opiniao/revolucoes-morais-


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