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SÉRIE DE DOCUMENTOS DE

TRABALHO

PERSPECTIVAS
SOBRE
INCLUSÃO
SOCIAL

Reflexões éticas sobre


a Inclusão Social

Dow Marmur

Parceiro / Tradução para português:


Copyright © 2002 The Laidlaw Foundation

As opiniões expressas neste trabalho são as do autor e não reflectem necessariamente as opiniões
da Fundação Laidlaw.

Biblioteca Nacional de Catalogação do Canadá no Prelo

Marmur, Dow, 1935-


Reflexões éticas sobre a Inclusão Social / DOW Marmur.

(Série de documentos de trabalho de perspectivas sobre inclusão social)


Inclui referências bibliográficas.
ISBN 0-9730740-3-5

1. Integração social – Aspectos morais e éticos. 2. Educação Inclusiva. I. Fundação Laidlaw II.
Título. III. Série.

BJ1451.M37 2002 170 C2002-902201-0

The Laidlaw Foundation


365 Bloor Street East, Suite 2000
Toronto, Ontário, Canada M4W 3L4
Tel.: (416) 964-3614 Fax: (416) 975-1428

Presidente
Walter Ross

Director Executivo
Nathan Gilbert

Edição e Formato
São cinco Comunicações

Este trabalho faz parte de uma Série de Documentos de Trabalho da Fundação Laidlaw,
Perspectivas sobre Inclusão Social. Os trabalhos completos em Inglês e os resumos em Inglês
e Francês podem ser descarregados a partir da página de Internet da Fundação em
www.laidlawfdn.org (sob o programa Children’s Agenda). Cópias limitadas em papel encontram-
se disponíveis através do endereço workingpapers@laidlawfdn.org.
PERSPECTIVAS
SOBRE INCLUSÃO
SOCIAL

Reflexões éticas sobre a


Inclusão Social

Dow Marmur

Laidlaw
Fundação

Dow Marmur é o Rabi Jubilado do Templo Holy Blossom, Toronto, e ex-Director Executivo da União Mundial para o Judaísmo
Progressivo.
PERSPECTIVAS SOBRE INCLUSÃO SOCIAL

Índice

Sobre a Fundação Laidlaw .................................................................................. v

Prefácio............................................................................................................... vii

Reflexões éticas sobre a Inclusão Social ....................................................... 1

Pessoal: Fragmentos Autobiográficos ................................................................ 1

Párias e Arrivistas: A Experiência Judaica.......................................................... 3

Filosofia: Responsabilidade para com o Outro ................................................... 5

Teologia: Justiça com Cuidado ........................................................................... 7

Diálogo: Eu-Tu e Eu-Ele ...................................................................................... 8

Educação: Seis Sinais ....................................................................................... 10

Política: Acção Afirmativa.................................................................................. 15

Notas finais ........................................................................................................ 17

Bibliografia ......................................................................................................... 20
PERSPECTIVAS SOBRE INCLUSÃO SOCIAL

Sobre a Fundação Laidlaw

A Fundação Laidlaw é uma fundação privada de interesse público que utiliza os seus recursos
humanos e financeiros de formas inovadoras para fortalecer o envolvimento cívico e a coesão
social. A Fundação usa o seu capital para melhorar os ambientes e satisfazer as capacidades das
crianças e jovens, para melhorar as oportunidades para o desenvolvimento humano e criatividade e
para sustentar comunidades saudáveis e ecossistemas.

A Fundação suporta uma carteira diversificada de projectos inovadores e originais em três áreas de
programa: nas artes, no ambiente e na melhoria das perspectivas de vida para as crianças, jovens
e famílias.

O trabalho para a inclusão social é um tema que subjaz sob muitas das actividades da Fundação.
As palavras-chave na missão da Fundação – desenvolvimento humano, comunidades sustentáveis
e ecossistemas – implicam que esse feito dependa da melhoria de possibilidade e capacidade. Não
só a inclusão social está a ser desenvolvida como um fluxo de financiamento emergente, como
também está incorporada no valor da Fundação Laidlaw, tanto a nível estrutural como
programático.

Nathan Gilbert
Director Executivo

Para mais informações sobre a Fundação Laidlaw, agradecemos que nos contacte para:

The Laidlaw Foundation


Tel: 416 964-3614
Fax: 416 975-1428
Email: mail@laidlawfdn.org
www.laidlawfdn.org
PERSPECTIVAS SOBRE INCLUSÃO SOCIAL

Prefácio:
The Laidlaw Foundation’s
Perspectiva sobre Inclusão Social

O contexto para a inclusão social


As crianças subiram até ao topo das agendas Estas situações fornecem o contexto para
do governo várias vezes ao longo da última o interesse da Fundação Laidlaw na inclusão
década, apenas para caírem outra vez sempre social. O programa da Agenda das Crianças
que se verifica um revés económico, um da Fundação começou primeiro a explorar a
défice orçamental, uma crise nas relações inclusão social em 2000 como uma forma de
federais-provinciais ou, mais recentemente, voltar a focar a política da criança e família
receios relativamente ao terrorismo e por:
segurança nacional. Embora se tenham
 reestruturando o debate sobre a
alcançado importantes feitos na política de
pobreza, a vulnerabilidade e o bem-
interesse público nos últimos 5 a 10 anos, não
estar das crianças a fim de destacar as
houve um compromisso sustentado do
dimensões sociais da pobreza (ou seja,
governo para com as crianças nem uma
a incapacidade de participar totalmente
melhoria significativa no bem-estar das
na comunidade)
crianças e famílias. De facto, em muitas áreas,
as crianças e famílias perderam terreno e a  ligar a pobreza e a vulnerabilidade
exclusão social está a emergir como um económica com outras fontes de
grande problema no Canadá. Os exemplos exclusão tais como o racismo, a
abundam e incluem estes factos. incapacidade, a rejeição da diferença e
a opressão histórica
 a sobre-representação das famílias e
crianças de minoria racial entre aquelas  encontrar terreno comum entre os
que vivem na pobreza nas grandes interessados no bem-estar das famílias
cidades, e a negação do acesso a e crianças para ajudar a gerar maior
muitos serviços a famílias de imigrantes interesse público e vontade política
e refugiados; para actuar.

 o aumento de 43% no número de A Fundação deu início a uma série de


crianças na pobreza no Canadá desde documentos de trabalho para analisar a
1989, o aumento de 130% no número inclusão social a partir de um conjunto de
de crianças em refúgios para os sem- perspectivas. Embora os autores abordem o
abrigo em Toronto, assim como a tópico a partir de diferentes pontos de partida
persistência de uma das taxas mais e enfatizem aspectos diferentes de exclusão
elevadas de prisão juvenil entre os e inclusão, há linhas comuns e conclusões
países da Commonwealth; importantes. Os documentos de trabalho
chamam atenção para as novas realidades e
 a exclusão das crianças com novas compreensões que devem ser
incapacidades das estruturas de política alcançadas para se suportar o
de interesse público (por exemplo, a desenvolvimento da política social e da
Agenda Nacional para as Crianças), de criação de uma sociedade justa e saudável.
definições de desenvolvimento infantil
“saudável” e, muito frequentemente, da
vida da comunidade.
Prefácio: Perspectiva da Fundação Laidlaw

Estas são: A “abordagem de tamanho único” já não é


aceitável e nunca foi eficaz em fazer
 Quer a fonte de exclusão seja a progredir o bem-estar das crianças e
pobreza, racismo, medo das diferenças famílias.
ou falta de influência política, as
consequências são as mesmas: uma
 A política de interesse público tem que
falta de reconhecimento e aceitação;
falta de poder e “voz”; vulnerabilidade estar mais proximamente associada às
económica; e experiências de vida experiências vividas das crianças e
reduzidas e perspectivas de vida famílias, tanto em termos de programas
limitadas. Para a sociedade como um reais como em termos do processo para
todo, a exclusão social dos indivíduos e se chegar a essas políticas e programas.
grupos pode transformar-se numa Esta é uma das razões para o crescente
grande ameaça para a coesão social e foco em cidades e comunidades, como
prosperidade económica. lugares onde a inclusão e a exclusão
 Uma abordagem baseada nos direitos é acontecem.
inadequada para lidar com os
 Os programas e políticas universais que
problemas de exclusões pessoais e
sistemáticas sofridas por crianças e servem todas as crianças e famílias
adultos. As pessoas com incapacidades fornecem geralmente uma fundação mais
estão a liderar o caminho ao pedirem forte para melhorar o bem-estar do que
abordagens baseadas na inclusão abordagens residuais, com metas ou
social e no reconhecimento valorizado segregadas. A investigação e a prova
para conseguirem aquilo que os direitos anedótica para esta reivindicação
humanos por si só não conseguem. baseiam-se na educação, no
 A diversidade e diferença, seja com desenvolvimento de criança e nos sectores
base na raça, incapacidade, religião, de saúde da população.
cultura ou género, devem ser
reconhecidas e valorizadas.

Inclusão social compreensiva

A exclusão social surgiu como um importante É, por conseguinte, um conceito normativo


conceito político na Europa nos anos 80 em (baseado no valor) - uma maneira de subir a
resposta às crescentes divisões sociais que fasquia e de compreender onde nós queremos
resultaram das novas condições do mercado estar e como chegar lá.
laboral e da insuficiência de provisões
A inclusão social reflecte uma abordagem
existentes da assistência social em satisfazer
dinâmica do desenvolvimento humano para o
as necessidades em mudança de populações
bem-estar social que implica mais do que a
mais diversificadas. A inclusão social não é,
remoção das barreiras ou dos riscos. Requer
contudo, apenas uma resposta à exclusão.
investimentos e acções para se obter as
condições para a inclusão, tal como os
Embora muitos dos documentos de
movimentos para a saúde da população e para
trabalho usem a exclusão social como ponto de
o desenvolvimento humano internacionais nos
partida para as suas discussões, estes
ensinaram.
compartilham da opinião que a inclusão social
tem valor por si própria tanto como um
processo como um objectivo. A inclusão social
é sobre certificarmo-nos de que todas as
crianças e adultos podem participar como
membros valorizados, respeitados e membros
contribuintes da sociedade.
PERSPECTIVES ON SOCIAL INCLUSION

Reconhecer a importância da diferença e da Isto sugere fortemente que a inclusão


diversidade tornou-se central para as novas social se estende mais além, trazendo os
compreensões de identidade tanto a nível excluídos para dentro, ou noções da periferia
nacional como da comunidade. A inclusão social versus o centro. É sobre eliminar as distâncias
vai ainda mais à frente: implica uma validação e físicas, sociais e económicas que separam as
um reconhecimento da diversidade assim como pessoas, em vez de se eliminar apenas as
um reconhecimento da comunalidade de fronteiras ou barreiras entre nós e eles.
experiências vividas e das aspirações
compartilhadas entre pessoas, particularmente
evidente entre famílias com crianças.

As pedras angulares da inclusão social


O processo dos documentos de trabalho Envolvimento e participação - Tendo o apoio
revelou que a inclusão social é um conceito correcto e necessário para se tornar/estar
complexo e desafiante que não pode ser envolvido nas decisões que afectam o próprio,
reduzido a apenas uma dimensão ou a família e comunidade, e para estar envolvido
significado. Os documentos de trabalho, na vida da comunidade. Os exemplos incluem:
juntamente com outras diversas iniciativas que envolvimento dos jovens e controlo dos
a Fundação patrocinou como parte da sua serviços para a juventude; contributo parental
exploração da inclusão social, ajudaram-nos a nas decisões do programa ou colocação
identificar cinco dimensões críticas, ou pedras escolar que afectem as suas crianças;
angulares, da inclusão social: participação dos cidadãos nas decisões da
polícia municipal; e participação política.
Reconhecimento valorizado - Conferindo
reconhecimento e respeito a indivíduos e Proximidade - Partilhando espaços físicos e
grupos. Isto inclui o reconhecimento das sociais para proporcionar oportunidades para
diferenças no desenvolvimento das crianças e, interacções, se desejado, e para reduzir as
por conseguinte, não igualar a incapacidade distâncias sociais entre pessoas. Isto inclui
com patologia; apoiar escolas da comunidade espaços públicos partilhados tais como parques
que sejam sensíveis às diferenças culturais e e bibliotecas; bairros e habitações de
de género; e alargar a noção para se rendimentos mistos; e escolas e aulas
reconhecer o valor comum entre os programas integradas.
universais tais como os cuidados médicos.
Bem-estar material - Tendo os recursos
Desenvolvimento humano - Consolidando os materiais para permitir que as crianças e os
talentos, competências, capacidades e seus pais participem totalmente na vida da
escolhas das crianças e dos adultos para comunidade. Isto inclui possuir uma habitação
viverem uma vida que valorizem e para segura e ter um rendimento adequado.
fazerem uma contribuição que tanto eles como
os outros considerem valer a pena. Os
exemplos incluem: oportunidades de
aprendizagem e desenvolvimento para todas
as crianças e adultos; programas comunitários
de cuidados à criança e de recreação que
promovam o crescimento e os desafios em vez
de serem meramente carcerários.
Prefácio: Perspectiva da Fundação Laidlaw

Etapas seguintes: Construir cidades e comunidades inclusivas

Durante os próximos três anos, o programa A visão da Fundação Laidlaw para uma
da Agenda das Crianças da Fundação sociedade socialmente inclusiva baseia-se
Laidlaw centrar-se-á na Construção de num movimento internacional que procura
cidades e comunidades inclusivas. A progredir o bem-estar das pessoas
importância das cidades e comunidades está melhorando a saúde das cidades e
a tornar-se cada vez mais reconhecida comunidades. Realizar esta visão é um
porque o bem-estar das crianças e famílias projecto a longo prazo para garantir que todos
está proximamente ligado ao sítio onde os membros da sociedade participam como
vivem, à qualidade dos seus bairros e cidadãos igualmente valorizados e
cidades, e aos “pontos comuns sociais”onde respeitados. É uma agenda baseada na
as pessoas interagem e partilham premissa que, para a nossa sociedade ser
experiências. justa, saudável e segura, esta requer a
inclusão de todos.

Christa Freiler Paul Zarnke


Coordenador do Programa da Agenda de Presidente, Comité Consultor da Agenda para
Crianças as Crianças
Fundação Laidlaw Fundação Laidlaw

Reconhecimentos

Queremos agradecer aos seguintes pela sua contribuição em empenho para com a série de
documentos de trabalho sobre a inclusão social: os autores, sem os quais não haveria os
documentos de trabalho; Karen Swift, Frank Stark, Nancy Matthews, Jennifer Keck, Daniel Drache
e aos quarenta revisores externos dos trabalhos, em que todos forneceram um feedback crítico e
conselhos especialistas em várias fases durante o processo editorial; aos membros do Comité
Consultor, Programa da Agenda para as Crianças, Nathan Gilbert, Director Executivo, e ao
Conselho de Administração, à Fundação Laidlaw pelo seu apoio, interesse e comentários críticos;
e Larisa Farafontova, Eva-Marie Dolhai, e Richard Wazana, pela sua perseverança e assistência
competente nas fases críticas do processo.
Reflexões éticas sobre a
Inclusão Social
PERSPECTIVAS SOBRE INCLUSÃO SOCIAL

Reflexões éticas sobre


a Inclusão Social
Pessoal: Fragmentos Autobiográficos
Eu tinha cerca de nove anos de idade. Como a que, mesmo na Europa de 1948, era uma terra
maioria das pessoas deslocadas no de abastança. Eu já não estava com fome, mas
Uzbequistão à procura de abrigo dos Nazis era um estranho - para mim e para os outros.
durante a Segunda Guerra Mundial, eu estava
sempre com fome. A mãe do meu colega de Sem saber uma palavra de sueco fui
brincadeiras, Richard, era médica. Eles tinham enviado para a escola. Tive que ir sozinho
muitos alimentos. Comiam carne e tinham porque os meus pais estavam no trabalho.
uma empregada doméstica. Eu ainda consigo Ainda me consigo ver no recreio nesse
ver e cheirar o pedaço de carne na frigideira primeiro dia, de pé, rodeado de crianças muitos
naquele dia. O meu desejo deve ter sido óbvio anos mais novas do que eu. (Exagerando mais
para Richard, pois ele ofereceu-se para me que um pouco, os meus pais tinham dito às
ajudar a roubar a carne. Mas fomos autoridades que eu tinha dois anos de pré-
apanhados pela empregada doméstica antes escolaridade, por isso fui enviado para a
de eu conseguir consumar o acto. O terceira classe com 13 anos de idade). Devo
sentimento de vergonha está comigo até ao ter fascinado os meus futuros colegas, pois
dia de hoje. estava ali de pé quase sem me mexer, um
híbrido entre criança e adulto. Na característica
Não foi a minha primeira experiência de cantoria do sueco de Gotemburgo, eles
exclusão, nem a última. Mas, por alguma perguntavam de novo e de novo – e eu ainda
razão, nunca me esqueci do incidente, consigo ouvir - Vad heter du? Eu não percebia,
enquanto a maioria dos outros se apagaram então não respondia. Eles afastaram-se,
da minha memória. Revivo-o cada vez que desanimados, e deixaram-me ali em pé
vejo uma criança com fome. Eu não posso sozinho. Demorou alguns dias até que eu
pensar numa manifestação mais concreta de compreendesse a pergunta: Como te chamas?
se ser um excluído do que estar com fome Quando lhes disse, eles continuaram
quando outros não estão. Talvez não haja perplexos: Era um nome muito peculiar para os
maior exclusão total que não permitir a partilha Suecos.
do pão na comunidade. Portanto, há a
primazia da hospitalidade na tradição bíblica, o Enquanto a memória de estar com fome
Sabá e a refeição do Festival são para os me marcou bastante como excluído, a Suécia
Judeus uma forma de celebração e a ajudou-me a viver confortavelmente sem ter
Eucaristia é uma forma de comunhão para os que mudar o meu nome. Os Suecos estavam
Cristãos. Estas são manifestações de determinados a criar uma sociedade igualitária.
inclusão, de estar em harmonia com todos e Apesar da sua então relativa ignorância em
com Deus. relação aos estrangeiros, e da sua
desconfiança inata de estranhos, e não
Uma memória quase igualmente comportando uma tendência constante para o
poderosa de exclusão é o meu primeiro dia anti-semitismo por muitos dos seus cidadãos, a
numa escola em Gotemburgo, na Suécia, Suécia era um país conscientemente
cerca de quatro anos depois da minha igualitário.
tentativa frustrada de roubar um pedaço de
carne no Uzbequistão. Tínhamos acabado de
chegar a um país
Reflexões éticas sobre a Inclusão Social

Enquanto conseguisse responder às O rabino já sabia, pois quando os meus


perguntas, eram-me dadas oportunidades companheiros de confirmação viram o que eu
de ser incluído, mesmo quando dizia coisas tinha escolhido, distanciaram-se de mim, já
que as pessoas achavam estranhas. não subliminarmente mas abertamente. A
minha tentativa de inclusão plena – integração
Embora não tenha vivido na Suécia – teve o efeito oposto. Citar textos, não
mais do que quatro décadas, continuo importa quão verdadeiros e poderosos, não
profundamente em dívida com o país e o contribui em nada para a inclusão.
seu povo, pois ele deu-me sugestões de
inclusão sem me forçar a mudar de Mesmo assim, como Judeus, os membros
identidade. A escola cumpriu a promessa da minha classe de confirmação devem-se ter
de integração. As minhas raízes na Suécia sentido um pouco fora do foco da vida sueca,
podem ser ténues, mas o sueco é o mais como tantos outros excluídos, e criaram
próximo que eu já tive de uma língua hierarquias de exclusão, o que
materna. Tal como comer juntos, falar uns presumivelmente os fez sentir como mais
com os outros contribui para a inclusão. incluídos. Por várias razões eu estava no nível
mais baixo. Em todos os países, incluindo
Quando, pouco depois da minha Israel, os imigrantes judeus queixaram-se que
chegada à Suécia, fui exposto à história enquanto recém-chegados – "verdes" – eram
secular e aos ensinamentos do judaísmo, postos de parte por muitos dos Judeus que
percebi que a exclusão parece ser tão tinham chegado mais cedo e estavam agora
antiga quanto a civilização. Deve sempre mais estabelecidos.
ter havido nós – a reclamar sermos forte e
integrados - e eles - identificados como os Deve ter sido a prevalência da exclusão
fracos e oprimidos. Entre estes últimos que levou às reiteradas referências na
estavam sempre viúvas e órfãos, as vítimas Escritura em como a lei de Deus a proíbe.
perenes da sociedade. A Bíblia Hebraica Assim, o Livro do Deuteronómio aconselha
adicionou estranhos à categoria dos não apenas a alimentar "o estrangeiro, o
excluídos e menciona frequentemente os órfão, e a viúva " (14:29), mas também a
três juntos. De acordo com a Escritura, a incluí-los em todas as celebrações israelitas
exclusão afecta não só crianças e pais (16:11 e 14). Os direitos dos fracos não são
solteiros, mas também todos os que não para ser subvertidos (24:17) e a sua dignidade
pertencem ao clã. deve ser acolhida (24:19 e 26:12). Quando o
profeta Jeremias defende a igualdade perante
Apesar de a Suécia ter facilitado a vida a lei para todos, afirma especificamente: "Não
aos imigrantes e eu ter aprendido a língua julgues mal o estrangeiro, o órfão, e a viúva
rapidamente, nunca deixei de ser um "(22:3). [O profeta Zacarias enumera-os como
excluído social nos olhos de indivíduos e as vítimas mais prováveis quando avisa as
grupos. Tentei reflectir o meu desejo de pessoas contra a fraude (7:10). Quando o
pertencer como igual através dos versos salmista fala dos inimigos de Deus, é-nos dito
bíblicos que tínhamos de escolher para que "eles matam a viúva e o estrangeiro; eles
escrever no livro que receberíamos pela assassinam o órfão, pensando: ‘O Senhor não
ocasião da nossa confirmação na Sinagoga vê, o Deus de Jacó não presta atenção’ "(94:6
de Gotemburgo. Eu escolhi a versão sueca e 7).]
de “O homem rico e o homem pobre
encontram-se; o Senhor fez os dois” No seu comentário a Torá, W. Gunther
(Provérbios 22:2). O rabino, que me tinha Plaut (b. 1912) confirma que as frequentes
comprado do fundo que lhe era concedido o admoestações bíblicas sugerem que "os
meu primeiro fato para a ocasião, tentou estrangeiros passaram por tempos difíceis e
convencer-me a desistir da minha escolha que, em vez de encontrarem aceitação e
de referência bíblica, mas eu insisti na vã amizade (para não falar de amor) vivenciaram
esperança de que o versículo manifestasse a rejeição."1
o meu desejo de ser incluído.
PERSPECTIVAS SOBRE INCLUSÃO SOCIAL

Reflectindo ensinamentos bíblicos e rabis, fá-los perder dinheiro, é culpado de uma


Moisés Maimónides (d. 1104), o maior transgressão, e ainda mais se lhe batem ou
pensador judeu de todos os tempos, anuncia amaldiçoam.2
o que isto significa para a sua comunidade,
que na Idade Média já não estava numa A lição a ser aprendida com a escravidão
condição para receber estranhos, mas teve no Egipto é fundamental para a Bíblia
de lidar com as viúvas e órfãos: hebraica: "Não devem enganar ou oprimir um
estranho, pois vocês eram estranhos na terra
Um homem deveria ser especialmente do Egipto" (Êxodo 22:20; itálico adicionado). O
atento no seu comportamento em relação às não cumprimento tem consequências severas
viúvas e órfãos, pois as suas almas são que Maimónides refere acima: "Não deves
extremamente deprimidas e os seus afligir qualquer viúva ou órfão. Se os
espíritos baixos. Mesmo que sejam ricos, maltratares, atenderei o seu clamor assim que
mesmo que sejam a viúva e órfão de um rei, Me aclamem, e a Minha raiva disparará e pôr-
nós estamos especificamente juntos no que te-ei à espada, e as tuas próprias mulheres
lhes diz respeito, como se diz, "não se deve passarão a ser as viúvas e os seus filhos
afligir a viúva nem o órfão " (Êxodo (22:21). órfãos "(ibid., 21-23). A inclusão não deveria
Como nos devemos comportar perante ser uma questão de discrição ou caridade,
eles? Não se lhes pode falar de outra forma mas um dever sagrado, um acto religioso. A
se não com ternura. É preciso mostrar-lhes exclusão seria punida. As palavras que a
uma cortesia invariável, não os prejudicar condenam sugerem, claro, que a propensão
fisicamente com trabalho duro, nem ferir os para excluir os fracos era muito forte. Mesmo
seus sentimentos com discursos ríspidos. aqueles que defendiam a inclusão plena não
Tem de se cuidar mais da propriedade deles podiam evitar ser um pouco condescendentes,
do que da do próprio. Quem os irritar o que também se reflecte na declaração de
provoca-os para a raiva, magoa-os, tiraniza- Maimónides.
os, ou

Párias e Arrivistas: A Experiência Judaica


Mesmo se as ameaças bíblicas tivessem nos quais muitos Judeus habitavam. Eles
algum impacto sobre os antigos Israelitas, ter-se-iam conformado por serem alvos de
não pareciam assustar os Cristãos e condescendência, mas tinham de suportar
Muçulmanos em cujo meio os Judeus foram ser vítimas de desrespeito e pior.
viver. Embora as religiões filhas de Israel,
especialmente o Cristianismo, professe Usando o conceito da pária, Hannah
lealdade aos ensinamentos éticos da Bíblia Arendt (d. 1975) tentou compreender não só
Hebraica, essas religiões não pareciam Judeus e o Judaísmo, mas a sociedade em
aplicar o seu compromisso ao lidar com geral. Seguindo o escritor franco-judeu
adeptos da fé mãe. Consequentemente, a Barnard Lazare (d. 1903), Arendt defendeu a
ideia de um pária "consciente", ou seja, a
história do povo judeu é em grande parte a
história de párias. Quer tenham ou não necessidade dos Judeus se organizarem a
tentado viver de acordo com os partir de dentro e "de baixo" para lutar pelos
mandamentos bíblicos e integrado a seus direitos. Suspeitava da população
desvantagem na sua própria sociedade, os dominante e desprezava os arrivistas, os
próprios Judeus eram mantidos fora do foco judeus que se tentavam infiltrar em
dos mundos cristão e muçulmano,
Reflexões éticas sobre a Inclusão Social

estabelecimentos poderosos, através da dignidade e igualdade. Idealmente, como nos


assimilação e imitação, na vã esperança de ensinamentos bíblicos, a defesa deve estar
serem aceites como iguais. No seu livro, naqueles que detêm o poder, os incluídos. Na
Hannah Arendt e a Questão Judaica, Richard realidade, contudo, não é provável que isso
Bernstein escreve: "O pária consciente deve aconteça. Como indicado acima, os
ser claramente distinguido do judeu arrivista, automaticamente incluídos podem tolerar
que procura desesperadamente escapar ao alguns arrivistas no seu meio mas não são
seu estatuto de pária e ser aceite e susceptíveis de os considerar como iguais
assimilado numa sociedade que trata os sociais, mesmo quando lhes concedem
Judeus como excluídos." Enquanto criança, direitos civis.
de bom grado resolvi ser um arrivista na
Suécia, assim como muitos outros Judeus. A Embora a aceitação política nunca
possibilidade de ser um pária consciente não possa conduzir à integração social, desde que
me ocorreu antes de me tornar adulto e haja integração política com oportunidades
sionista. iguais para todos no emprego, educação e
dignidade pessoal, os objectivos da empresa
Os párias conscientes mantêm a sua terão sido alcançados. A minha experiência
dignidade e podem ser capazes de melhorar as na Suécia confirma isso. A integração política
suas condições, mesmo se ficarem fora do foco tornava a vida suportável, mesmo que a
principal. Em contrapartida, os arrivistas são integração social tenha iludido os meus pais
patéticos e fadados ao fracasso mesmo quando e, em menor medida, a mim mesmo.
dão uma aparência de estarem integrados, pois
a imitação não impede a exclusão. [Sander A sobrevivência e o sucesso dependem
Gilman escreveu sobre eles: inevitavelmente da unidade entre os párias,
que não é de forma alguma uma dádiva. Pelo
Quanto mais alguém se tente identificar
contrário. Parece que, no seu empenho em
com aqueles que rotulam outro como
imitar os incluídos, os excluídos criam a sua
diferente, mais se aceite os valores, as
própria hierarquia de exclusão. A minha
estruturas sociais, e as atitudes deste
experiência na classe de confirmação é uma
grupo de determinação, mais distante
manifestação disso. Na tradição judaica, parte
parece estar da aceitação verdadeira. Pois
da tendência de manter os outros fora vem de
ao se aproximar das normas estabelecidas
uma perversão da ideia de santidade. A
pelo grupo de referência, a aprovação do
palavra hebraica "kadosh, santo," significa
grupo desaparece. À vista de cada um,
literalmente "posto de parte". Todas as
identificam-se com a definição de
manifestações de sagrado parecem envolver
aceitação, mas ainda não são aceites. O
a fixação de limites que mantêm uns dentro e
estado ideal é nunca ter sido o outro, um
outros fora. Uma ferramenta ao serviço da
estado que não pode ser alcançado. 4 ]
santidade equivocada, de distinguir entre
quem é de fora ou de dentro - entre "sagrado"
Como Arendt e Lazare, [Sander] Gilman
e "profano", entre "limpo" e "sujo" - é muitas
fala sobre o seu próprio povo: "Como os Judeus
vezes a lei judaica. Como é sobreponderada
reagem ao mundo alterando o seu sentido de
em favor do sexo masculino, as mulheres são
identidade, o que desejam ser, tornam-se assim
excluídas de muitas funções religiosas, assim
naquilo que o grupo que os rotulou como Outro
como os deficientes e, mais
determinou que seriam.”5 No entanto, as
compreensivelmente, os menores que ainda
reflexões sobre a condição judaica são
não têm uma mente definida. Neste esquema,
aplicáveis a todas as formas de exclusão. A
os párias criam os seus próprios párias no
resposta à exclusão não pode nunca ser uma
desejo de serem, literalmente, “mais santo do
imitação dos incluídos, mas uma luta dos
que tu."
excluídos pela
Um dos desafios do judaísmo moderno
tem sido afirmar a sua singularidade através
da
PERSPECTIVAS SOBRE INCLUSÃO SOCIAL

prática da santidade sem proibir ninguém de têm significado que Israel tem sido entendido
participação plena. A santidade era entendida como tendo excluído Judeus que a lei judaica
como dedicação a Deus e aberta a todos, não não aceita e oprimido os estranhos, mesmo
um clube para os pouco privilegiados. O aqueles que antes tinham sido vizinhos. Daí
objectivo tem sido manter-se comprometida à este mandamento de Irving Greenberg (n.
lei judaica enquanto se removem as suas 1933), um exponente contemporâneo do
barreiras. Em consequência das tensões Judaísmo tradicional: “O exercício do poder
criadas em parte pela aplicação da lei judaica, tem de ser acompanhado por modelos fortes e
a questão da inclusão tem-se tornado central a evocação constante da memória do
no debate judaico interno contemporâneo. Em sofrimento e impotência históricos judaicos. É
vez de se focarem na exclusão da lei, muitos tão fácil esquecer as lições de escravatura
preferem sublinhar a inclusão na santidade. assim que se obtém o poder, mas tal
esquecimento leva a não sentir a dor infligida
Daí, por exemplo, a ênfase na injunção nos outros.” E conclui: “A memória é a chave
acima citada, "Não devem enganar ou oprimir da moralidade.”6 Somos levados a lembrar-
um estranho, pois vocês eram estranhos na nos do nosso passado de modo a agir
terra do Egipto." O estatuto judaico nos eticamente no presente, independentemente
últimos 50 anos e as suas consequências do que a lei possa dizer.
políticas internacionais

Filosofia: Responsabilidade para com o Outro

Quem tentou formular a moralidade através da pária morto que vivo.


memória foi Emmanuel Levinas. Ele era
produto do mundo judeu contemporâneo, o Apesar de aqui não ser lugar para uma
mundo de párias e arrivistas, mesmo quando descrição sistemática da filosofia de Levinas,
frequentou o mundo da proeminência e do a sua tese central parece ser essencial para o
poder. Ele permaneceu um dos excluídos. nosso entendimento de exclusão e inclusão
Nasceu em 1905 na Lituânia e foi para França nas suas várias ramificações e na tradução da
aos 18 anos, indo mais tarde para a experiência judaica em particular num
Alemanha, para estudar filosofia com alguns programa humano universal.
dos melhores professores da época. Enquanto
recruta do exército francês no despoletar da Apoiando-se sobretudo em fontes
Segunda Guerra Mundial, foi capturado pelos judaicas, Levinas tentou criar uma distinção
Alemães; o heróico iludiu-o. Apesar da sua fundamental entre a filosofia ocidental
enorme erudição judaica e influência fulcral tradicional (“grega”) e o pensamento judeu
em muitos intelectuais franceses da “nova (“hebraico”). De acordo com Levinas, a
escola de filosofia”, Levinas teve de esperar primeira preocupa-se principalmente com
muitos anos até lhe ser dado um posto ontologia; na segunda lidera a preocupação
académico razoável no seu país de adopção. com a ética ou a ética metafísica. Enquanto a
Morreu em 1995. Nos últimos anos da sua ontologia abstracta se centra no ser e
vida, e particularmente desde a sua morte, a especificamente no Eu, a ética concreta
sua reputação tem aumentado. centra-se no Outro. Juntamente com o seu
Frequentemente, o mundo acha muito mais professor Edmund Husserl (m. 1938), o
fácil celebrar um exponente do fantástico, Levinas descreve o
pensamento ocidental como “egologia”. O seu
objectivo era quebrar este
Reflexões éticas sobre a Inclusão Social

padrão egoísta de modo a criar espaço para o miseráveis, e aos povos perseguidos do
que, na Bíblia, se chama “teu vizinho.” Ele mundo. A minha singularidade baseia-se na
queria sair da dialéctica para o diálogo, do responsabilidade que demonstro pelo outro.
sujeito para o objecto, do abstracto para o Não posso falhar no meu dever para com
concreto. Ele escreveu: “Moisés e os profetas qualquer homem, mais do que posso ter
preocuparam-se não com a imortalidade da alguém a substituir-me na morte. Isto leva à
alma mas com os pobres, os viúvos, os órfãos concepção de uma criatura que pode ser salva
e os estranhos.”7 sem cair no egoísmo da graça.”13

Edith Wyschogrod explica: “Para A pessoa que põe o outro primeiro é uma
compreender o pensamento de Levinas é criatura sem poder; a prática da inclusão é
fundamental que se perceba que o Outro é ética sem poder. Na sua introdução a uma
sempre posicionado como pobre e estranho. É série de conversas entre Levinas e Philippe
através e no entendimento da nossa relação Nemo – um dos “novos filósofos” de França
com o Outro que a nossa relação com o divino influenciado por Levinas – Richard Cohen
começa.”8 escreve: “A ética não é forçosa por opor poder
com mais poder no mesmo plano, com um
Foi por isso que os escolhidos por Moisés maior exército, mais armas, um microscópio
foram carregados com leis – não leis que melhor, ou um maior programa espacial, mas
excluem mas que incluem os excluídos e sim porque opõe poder com o que aparenta
santificam os homens e mulheres que são ser fraqueza e vulnerabilidade, mas que é
normalmente proibidos de se aproximarem do responsabilidade e sinceridade. Para os
sagrado. “Esta eleição não é feita de privilégios cálculos de poder, a ética opõe menos do que
mas de responsabilidades.”9 E a o poder pode conquistar.”14 Tal como no
responsabilidade é sempre, em primeiro lugar Êxodo, quando foi Deus quem compensou
e principalmente, para com o outro. Não se pela fraqueza de Israel, por isso também no
trata de uma questão de benevolência ou futuro, nas palavras do Profeta, “o Senhor irá
discrição da minha parte, mas de um dever resgatar Jacob, redimi-lo de um demasiado
com nuances transcendentais. “O homem que forte para ele” (Jeremias 31:11).
tem de ser defendido,” escreveu Levinas, “é
em primeiro lugar o outro homem; não Levinas manteve que o Judaísmo sempre
inicialmente eu. A base deste humanismo não acreditou que “sobreviveu de modo a
é o conceito de ‘homem’; é o de o outro preservar os ensinamentos dos profetas na
homem.”10 Citou, com aprovação um professor sua máxima pureza.” Ele continuou: “Num
Judeu, que “as necessidades materiais do meu mundo onde, como bens materiais, os valores
vizinho são as minhas necessidades espirituais são oferecidos a quem deseja
espirituais,”11 porque “tudo começa com o enriquecer, moralidade significava que tinha
direito do outro homem e com a minha mais valor continuar a ser um judeu pobre,
obrigação infinita para com ele.”12 Numa veia mesmo quando se deixava de ser um judeu
semelhante, um conto de Hasidic cita um que era pobre.”15
mestre a dizer a um discípulo: “Preocupa-te
sempre com a tua própria alma e pelo corpo do Numa altura em que a sociedade
outro, nunca pelo teu próprio corpo e alma do enriqueceu em bens materiais e quando os
outro.” valores espirituais são oferecidos – no
verdadeiro “Grego” moda - para o
De acordo com Levinas, a base desta melhoramento do próprio, parece importante
filosofia de inclusão foi a experiência do Êxodo voltar à afirmação da fraqueza e pobreza
bíblico, o estereótipo da exclusão: “A “Hebraica” como meio de criar espaço para
experiência traumática da minha escravatura todos, não apenas para os fortes e bem
no Egipto constitui a minha humanidade, um sucedidos.
facto que me alia imediatamente aos
trabalhadores, aos
PERSPECTIVAS SOBRE INCLUSÃO SOCIAL

Não sabendo as respostas e não tendo o poder haver relação com Deus para além da
pode ser o início de dirigir o problema, mesmo relação com os homens. Levinas não pode
que não possa ser solucionado. Aqui a filosofia, enfatizar suficientemente a origem social do
move-se em teologia. Como Wyschogrod encontro humano com Deus.”16
parafraseia Levinas, o judeu observante: "Não
pode

Teologia: Justiça com Cuidado


Miroslav Volf, professor de Teologia na Escola objecto de preconceito e culpabilização.
de Divindade de Yale, é um nativo da Croácia. Como é que o Deus, que "faz justiça
Ele parece ter sido traumatizado pelos eventos pelos oprimidos” age perante viúvas e
recentes naquela que foi uma vez a Jugoslávia. estranhos? Tal como Deus age em
O seu livro, Exclusão e Abraço, é um relação a qualquer outro ser humano?
documento da teologia enraizada na Não. Deus é parcial. Deus "vigia os
autobiografia. "O livro é pessoal,” escreve, "no estranhos” e sustenta o órfão e a viúva"
sentido em que eu me esforço intelectualmente (Salmo 146:7-9) de uma maneira que
com as questões que estão próximas do Deus não vigia nem mantém os
coração da minha identidade.”17 Para poderosos.19
ele,"’segregação,’ ‘holocausto,’ e 'apartheid' são
equivalentes ocidentais de ‘limpeza étnica’ dos Para Volf “a justiça que iguala e resume é
Balcãs.”18 Tendo sido excluído e testemunhado uma justiça injusta!”20 Assim sendo, “se
a exclusão, ele procura uma fórmula teológica quiseres justiça sem injustiça, deves querer o
de inclusão. O que Levinas ensinou da sua amor.”21 O que nos leva à noção de abraço
experiência judaica, Volf visa inserir no contexto do Outro, ao contrário de uma fórmula
da sua fé cristã. resumida para Todos como a única resposta
saudável à exclusão. O abraço é a justiça
Apesar de na sua própria natureza o livro adulterada com amor. [Volf aqui está
de Volf falar sobre política, as questões que ecoando a rabínica ideia dos dois principais
levanta têm implicações muito mais amplas. nomes de Deus na Bíblia hebraica (Yahweh e
Isso é particularmente visível quando ele Elohim) denotando os dois atributos de Deus:
discute justiça e repudia, na mesma linha em o atributo da justiça (din) e o atributo do amor
que Levinas rejeitava a filosofia tradicional (Rachamim, às vezes traduzido como
ocidental, a ideia de uma noção universal e "piedade" embora o seu significado literal
abstracta chamada justiça que levará a uma esteja ligado à rechem, a palavra hebraica
solução final e “messiânica” de todos os para "útero"). Deus "o pai" responde às
problemas humanos. Tal solução, afirma Volf, questões humanas com a justiça que é
está além do reino humano porque, no contexto violada por Deus "a mãe", que actua com
da tradição judaico-cristã que é enraizada no amor. A verdadeira justiça só é possível
compromisso, a justiça completa pertence a quando os dois agirem em conjunto e ao
Deus e nós vamos sempre experimentá-la mesmo tempo.
como parcial - em ambos os sentidos da
palavra: O abraço é uma poderosa imagem
bíblica. Quando José, finalmente revela-se
Quando Deus olha para um viajante, Deus aos seus irmãos e eles diante dele em
simplesmente não vê um ser humano, mas palavras de medo de que a justiça pode os
um estranho, cortado da rede de relações, ter apanhado, ele garante-lhes que não são
as suas maquinações, mas a vontade de
Deus que determinou o curso dos
acontecimentos.
Reflexões éticas sobre a Inclusão Social

"Com isso, ele abraçou seu irmão Benjamim ao mas como um acto físico. [O termo hebraico
redor do pescoço e chorou, e Benjamim chorou "Vayikhabkehu, ele abraçou" remonta a três
em seu pescoço. Ele beijou todos os seus letras de raiz kh-b-k. Sempre que dois dos
irmãos e chorou sobre eles; só então seus três radicais em diferentes palavras
irmãos foram capazes de falar com ele " hebraicas são os mesmos, há uma forte
(Génesis 45:14-15). ligação entre as palavras. Kh-b k (abraço),
está relacionado para kh-b-b (amor) e kh-b-r,
Um abraço ainda mais dramático vem no que dá origem a palavra para "amigo",
início da história do Génesis. Depois de muitos khaver. Carinho, amor e amizade são todas
anos de ausência e exclusão mútua dos irmãos manifestações de] Reconciliação, que vai
Jacó e Esaú reuniram-se novamente. Foi um além da justiça e contribui para a inclusão.
momento muito tenso. Jacob "passou à frente e Referindo-se à afirmação de Carol Gilligan de
inclinou-se para a terra sete vezes, até estar que a "ética da justiça" deve ser
perto do seu irmão. Esaú correu para complementada com a "ética do cuidado, Volf
cumprimentá-lo. Ele abraçou e ele, caindo em escreve:
no seu pescoço, beijou-o; e chorou " (33:3-4).
[O texto Masorético considera que isto é Se as nossas identidades são formadas na
demasiado e sugere que o dizer hebreu interacção com os outros, e se somos
“vayishakehu, ele beijou-o” deveria ser chamados, em última instância juntos,
entendido como, “vayishakhehu, ele bateu-lhe.” então precisamos de uma mudança do
conceito de justiça de distância para uma
[Mas o próprio texto é inequívoco:] Esaú forma exclusiva em fazer julgamentos
beijou o irmão. Reconciliação concreta separados e para manter relacionamentos,
substituída por justiça em abstracto. E Esaú longe da imparcialidade cega.
abraçou Jacob, de novo não com abstracção

Diálogo: Eu-Tu e Eu-Ele


Está em evidência em grande parte dos seus e objecto. Quando eu conhecê-lo como uma
escritos a dependência de Levinas em pessoa, nós os dois nos afirmamos como
relação a Martin Buber (d. 1965), mesmo indivíduos através do encontro, é que eu, tu,
que ele difira de Buber de muitas maneiras. um verdadeiro diálogo. Quando eu me
Embora o livro de Volf não se refere a Buber, relaciono contigo da maneira como nos
a evidência da influência de Buber sobre ele relacionamos com as coisas, eu uso e
é igualmente evidente. Tanto o filósofo e manipulá-lo, isto é Eu-Ele. Eu-tu trabalha para
teólogo são os discípulos de um homem que inclusão, Eu-Ele para a exclusão. Eu-tu
insistia que ele não era nem um filósofo, trabalha para a ética, Eu-Ele para a
nem teólogo, mas um professor. tecnologia, talvez mesmo a filosofia.

Para Buber, ensino é encontro; a [Em face do exposto, Hannah Arendt


realidade está no meio-termo, que se poderia ter dito que o pária e arrivista são
manifesta em duas formas: subjectiva e tratados no molde Eu-Ele pela cultura da
pessoal - Eu-Tu - ou objectivo e impessoal – maioria, eles são manipulados, não
Eu-Ele. O encontro do Eu-Tu é entre dois encontrados. Sander Gilman poderia ter
sujeitos que se dirigem um ao outro na sugerido que as pessoas tratadas como
reciprocidade total que afirma cada um objectos e não sujeitos, por outros virão a ser
deles. O encontro do Eu-Tu é entre o sujeito consideradas como objectos e, assim, perder
toda a identidade.
PERSPECTIVAS SOBRE INCLUSÃO SOCIAL

A menos que eu encontre o Outro num Certamente uma presença através da qual
verdadeiro diálogo, não sei quem eu sou. nos dizem que, no entanto, há um
Emmanuel Levinas afirma a primazia do significado.23
Outro como uma variante do modelo Eu-Tu.
Ele evita o "caminho" grego de fazer filosofia, Buber era um professor que acreditava
porque tal, ostensivamente objectivo, a que a educação (eu-tu), em oposição à
filosofia reduz a uma realidade que nunca formação (eu-ele), poderia ser o grande meio
pode ser mais do que ideologia. Em de inclusão e de encontro com o Outro. Este
contrapartida, os profetas hebreus na sua seria conseguido não apenas por estar atento
e civil, mas por ser capaz de ouvir até mesmo
paixão e pathos foram expoentes de eu-tu.
Assim, o interesse de Buber na Bíblia e no o que não era dito, ao encontro do Outro,
hassidismo - o movimento popular místico no respondendo às necessidades reais do
judaísmo - como reflexos de um diálogo Outro. Para fazê-lo, tanto o professor como o
autêntico, sem ideologia. Da mesma forma, a aluno não devem estar preocupados com
rejeição de Miroslav Volf de abstracções que eles próprios, mas entrar numa relação eu-tu.
"Desde então", Buber continuou, "eu tenho
resultam em "justiça injusta" - e levar à
exclusão - em favor do tipo de justiça, que desistido do "religioso" que não é nada mais
vem com misericórdia - e contribui para a do que a excepção, a extracção, a exaltação,
aceitação - é na mesma linha.] êxtase, ou ele desistiu de mim. Nada possua
senão o dia-a-dia do qual nunca me tiram.”24
A exclusão pode ser letal, ou não é A vida é reunião no quotidiano; o
extraordinário é raramente nada mais do que
deliberada. Buber conta uma anedota
comovente sobre a exclusão intencional que uma miragem.
ele sofreu quando se colocou a si próprio e à Maurice Friedman, sem dúvida, o
sua "espiritualidade" (que ele chama de principal expoente do pensamento de Martin
"religião"), antes da necessidades dos Buber escreveu:
Outros:
O que é mais essencial na reunião do
O que aconteceu foi nada mais do que professor com o aluno é que ele faz sentir o
uma manhã, após uma manhã de outro lado ao aluno. Se esta experiência é
entusiasmo "religioso", tive a visita de bastante real e concreta, elimina o perigo de
um desconhecido jovem, sem estar lá a determinação do professor degenerar em
em espírito. Eu certamente não falhei em arbitrariedade. Esta "inclusão" é da essência
deixar que a reunião fosse amigável, eu da relação dialógica, pois o professor vê a
não o tratei de forma mais descuidada posição do outro na sua realidade concreta
do que todos os seus contemporâneos, sem perder de vista a sua própria.
que tinham o hábito de procurar-me por
volta desta hora do dia como um oráculo Friedman conclui: “A inclusão deve voltar
que está pronto a ouvir a razão. Eu novamente e novamente na situação de
conversava com atenção e abertamente ensino, pois ela não só regula como se
com ele – só que eu omiti adivinhar a constitui.”25 A criança com fome não pode
questão que ele não colocou. Mais tarde, aprender a integridade a menos que ela seja
não muito tempo depois, eu soube por alimentada tanto quanto a próxima pessoa. O
um dos seus amigos - ele próprio já não imigrante infeliz não fará parte da
estava vivo - o conteúdo essencial comunidade até que ele seja ensinado da
destas questões, eu descobri que ele mesma forma que os outros são ensinados.
tinha chegado a mim, não casualmente, Os párias estarão condenados se não forem
mas pelo destino, não para uma tratados como pessoas, mas vistos como
conversa mas para uma decisão. Ele representantes da classe de excluídos, quer
tinha vindo até mim, ele tinha vindo
naquele momento. O que esperamos
quando estamos em desespero e ainda
ir ter com um homem?
Reflexões éticas sobre a Inclusão Social

quer por condescendência como ostracismo. A acompanhada do abraço. A coexistência não é


maneira de agir com ética não é a formulação de possível se o Eu não se dirigir ao tu e não
sistemas, mas voltar-se para o Outro. A justiça manipulando um Ele.
nunca pode ser verdadeira a menos que seja

Educação: Seis Sinais

As reflexões biográficas e éticas que formam bem como os fragmentos da minha própria
a primeira parte deste artigo constituem a biografia - talvez também a biografia de outros
base para algumas considerações práticas Judeus citados neste trabalho - sugerem que
em resposta ao desafio de incluir todos os a educação em todas as suas manifestações
membros da nossa sociedade, especialmente é o veículo mais eficaz para a inclusão.
as crianças que não podem falar por si. Eu Parece até sobrepor muita da dicotomia pária-
gostaria de seguir o conselho de Volf quando arrivista e oferece verdadeiras oportunidades
ele sugere que “baixamos as nossas vistas reais para se voltar para o Outro com a justiça
em conflitos sobre as questões da justiça” e como um ponto de partida para o amor.
“em vez de procurar a vitória global, devemos Quando as instituições de ensino reconhecem
olhar para convergências e acordos o esforço, não a linhagem, tornam-se agentes
parcelares.”26 De acordo com o argumento de de inclusão.
Volf sobre uma fórmula total e abrangente
para a justiça, que, por definição, é provável 1. Comer juntos.
ser falsa, o que se segue é uma tentativa de
apontar alguns indicadores no nosso esforço É muito sugerido que o fraco desempenho e a
por transformar as preocupações de ordem indisciplina em sala de aula e no recreio tem
ética em possibilidades concretas. Em vez de muito a ver com a dieta das crianças. Como
tentar uma fórmula única e abrangente, as indicado no início deste trabalho, as memórias
mais persistentes da minha vida entre as
reflexões gerais acima referidas têm que ser
suficientes. Em vez de apresentar uma idades de seis e onze anos, passadas na
solução global para o problema da exclusão, República Soviética do Uzbequistão, são de
tudo o que é oferecido aqui são uma série de passar fome. Não me lembro se qualquer
medidas que podem contribuir para a outra coisa importava muito, mas não era
inclusão de pessoas e grupos: a partir da certamente a escola. Não apenas o episódio
que me levou ao roubo, já contado acima,
autobiografia, através da história, filosofia e
teologia para uma vida de diálogo. O stress é mas muitas outras memórias da infância
a acção positiva que contribuiria para uma sugerem que a fome chegou a pintar as
maior justiça, não numa reacção negativa que minhas perspectivas morais, bem como as
iria expor o oposto. Muito de que tenho a perspectivas dos adultos entre os quais eu
dizer aqui é enraizado na minha tradição, da vivi. Os Suecos podem ter conhecido isso
melhor do que outros. Talvez seja por isso
mesma forma como muito do que o Volf traz
para o debate está enraizado no pensamento que eles fornecem gratuitamente almoços
de Christian. nutritivos para todos os alunos em suas
escolas, independentemente do rendimento
Dado que a ênfase é sobre a inclusão dos pais. Nenhuma criança passaria fome e
de crianças e porque muitos das reflexões todas as crianças comeriam juntas, porque
comer em conjunto faz a comunidade; trazer
gerais acima referidas são baseadas no
pensamento de Martin Buber, o professor, o os nossos próprios alimentos conduziria à
meu foco é a educação. Os entendimentos separação, desigualdade, exclusão.
que decorrem da história judaica,
Assim que Jethro, o excluído, veio a
PERSPECTIVAS SOBRE INCLUSÃO SOCIAL

reunir o Moisés bíblico com a sua esposa - filha ser bem sucedido na escola e participar em
de Jetro - e seus filhos, “Aaron veio com todos toda a variedade de actividades escolares.
os anciãos de Israel para participar da refeição Mesmo quando eu me tornei no presidente do
diante de Deus com o sogro de Moisés" (Êxodo conselho escolar, ninguém me perguntou onde
18:12). A maior parte das celebrações judaicas é que eu vivia e o que é que os meus pais
incluem sentarem-se para uma refeição onde faziam. O ensino trabalhou para a inclusão que,
se espera que os estranhos sejam os numa extensão considerável, até compensou
convidados de honra; a hospitalidade de pela inescapável exclusão social.
Abraão transformou-se numa norma ética.
Conforme sugerido acima, a comunhão cristã é 3. Aprender com os outros.
equivalente. Estar à mesma mesa remove
barreiras entre as pessoas e abre-as para Muita da filosofia de Levinas foi expressa nas
Deus. suas interpretações de textos rabínicos. Na
verdadeira forma pós-moderna, ele apoiou-se
2. Aprender juntos. nas fontes escritas para orientação e começou
um diálogo com elas. É um “raciocínio textual”
A universalidade implícita no comer juntos está na sua forma mais impressionante. As ideias de
bem patente na universalidade de se aprender Buber sobre educação baseiam-se na
juntos. Uma das grandes batalhas do judaísmo suposição de uma relação mestre-discípulo,
rabínico foi entre os elitistas Saduceus e os baseada geralmente na sua leitura conjunta de
democráticos Fariseus. Embora a textos sagrados. Tanto Levinas como Buber,
aprendizagem implique inevitavelmente imersos em fontes judaicas, parecem acreditar
desigualdades entre alunos, porque nem todos que o passado só pode ser compreendido com
têm a mesma facilidade em aprender, a a ajuda da Escritura, sujeita a uma interpretação
oportunidade para estudar e o incentivo para contínua. O corpo docente é tão rico e
os alunos trabalharem no máximo das suas complexo que requer uma orientação
capacidades criam comunalidade. Foi isto que apropriada. Os professores devem estar lá para
impulsionou a afirmação nos primeiros o fornecer. Sob sua tutela, os alunos podem
ensinamentos rabínicos: “Se o filho de uma dedicar-se àquilo que os textos ensinam.
união legítima [o excluído quintessencial] fosse
um discípulo de um sábio e um alto sacerdote A palavra hebraica para “educação” -
fosse um homem ignorante, o primeiro tem khinukh - é a mesma palavra que “dedicação”
precedência.”27 (como na Festa da Dedicação, Khanukka). O
termo está no acentuado contraste entre
A igualização que advém da educação “educação” do inglês, baseado na ideia
tem sido um princípio muito forte na vida socrática que um professor “extrai” o
judaica em que quando os judeus, após a sua conhecimento que os alunos já possuem. A
emancipação, ganharam acesso à educação educação socrática é exploração interna, não a
secular, eles verificaram que se adaptavam revelação que é o conhecimento que vem do
facilmente, e superavam mesmo as exterior. A dedicação, por outro lado, é baseada
expectativas, no seu esforço para serem na revelação e o professor é visto como um
incluídos. A notável integração dos judeus em canal de revelação. O hebraico para “professor”
todos os países ocidentais é, sem dúvidas, o - moreh (masc.), morah (fem.) - é o mesmo que
resultado. A ênfase na aprendizagem noutras para o supremo documento da revelação de
comunidades imigrantes no Canadá e outros Israel, Torah. É a validade universal de Torah
locais está a ter consequências similares. que inspira o Livro de Deuteronómio para
proclamar em nome de Moisés: “Eu faço este
A minha própria inclusão na vida sueca acordo contratual, com as suas sanções, não
deveu-se inteiramente à educação. Enquanto apenas consigo, mas também com aqueles
os meus pais e eu vivemos nos bairros de lata
de Gotemburgo, eu consegui
Reflexões éticas sobre a Inclusão Social

que estão aqui connosco neste dia perante o principais da relação dialógica” é “uma
Senhor, nosso Deus, e com aqueles que não experiência abstracta mas mútua da inclusão.”
30
estão aqui connosco neste dia” (29: 14). A finalidade não é colocar o aluno numa
Colocando todos os alunos da Escritura no camisa-de-forças de dogma ou ideologia. O
sopé do Monte Sinai, como era, podemos objectivo é: “Nada mais do que a imagem de
facilitar a sua dedicação a Deus. Deus. Essa é a direcção indefinível, apenas
factual, do educador moderno responsável.”31
Em virtude do nosso medo legítimo da A educação que é dedicação procura abrir os
coerção religiosa, o supra referido está aberto a nossos olhos para a nossa interdependência
uma profunda suspeição. Isto deve-se em cada um no diálogo e na nossa
amplamente ao facto de muitos daqueles que dependência colectiva naquele que está para
hoje falam a língua da religião esperarem além de nós. O verdadeiro diálogo é tanto
uniformidade em pensamentos e acções, imanente e transcendente. A tarefa do
juntamente com uma estrutura política professor é facilitá-lo sem referência a uma
hierárquica, e estão preparados para usar religião específica e sem desafiar as tradições
medidas coercivas para alcançar ambos. Não é nas quais os alunos estão se criam. A suposta
desta forma que a educação deve ser vista. livre de valor é, na verdade, educação sem
Martin Buber, o mais persistente dos valor.
pensadores religiosos anticlericais judaicos do
século passado, escreveu sobre as duas Uma forma de transmitir valores sem
dimensões da educação: Primeiro, “o doutrinação consiste em apresentar aos alunos
entendimento que a espontaneidade jovem não e professores aquilo que o sociólogo da religião
deve ser suprimida mas permitida a dar o que Peter Berger (n.1929) chamou de “sinais de
pode.” Segundo, “esta é a abordagem quase transcendência.” Define estes como os
imperceptível, a mais delicada, o levantar de um “fenómenos que devem ser encontrados dentro
dedo, talvez, ou de um olhar inquisitivo, é a do domínio da nossa realidade “natural” mas
outra metade do que acontece na educação.” que parecem apontar para além dessa
realidade.” 32 Berger lista um número de áreas,
A educação da Torah, no seu melhor, é muitas das quais relacionadas com a
sobre isso. Buber continua: “A teoria educação, que nos trazem estes sinais: o
educacional moderna, que se caracteriza por pedido de realidade que ensina a existência
tendências para a liberdade, interpreta humana através da confiança; funciona como
erradamente o significado desta outra metade, uma forma de se provar a realidade, o que
tal como a antiga teoria, que foi caracterizada mais tarde na vida “traz uma reiteração
pelo hábito da autoridade, não compreendeu beatífica da infância; 33 a orientação para o
bem o significado da primeira metade.” 28 Se a futuro manifesta-se na esperança; o humor
educação pré-moderna errou no lado da como uma forma de ajudar os indivíduos a
autoridade e a moderna no lado da liberdade, a preencher a lacuna entre o que é e o que
educação pós-moderna tenta fundir os dois sem deveria ser; mesmo a condenação como uma
comprometer qualquer um. Isto favorecerá a forma de experienciar e lidar com o desespero.
aprendizagem através do diálogo, entre aluno e Todas estas são formas de revelação que não
professor bem como entre alunos, professores e requerem um compromisso teológico prévio,
o texto. “A relação na educação é um dos apenas uma prontidão para se ser
diálogos puros,” escreve Buber. “Confie, confie surpreendido pela vida e para transmitir essa
no mundo, porque este ser humano existe - que surpresa aos discípulos.
é a realização mais interna da relação na
educação.” 29 4. Línguas.

O primeiro na lista de Buber das “três O veículo da aprendizagem e da revelação é a


formas língua. A palavra como davar é central para a
Bíblia hebraica e, como logos, para o Novo
Testamento. George Steiner (n.1929), o crítico
literário, não é
PERSPECTIVAS SOBRE INCLUSÃO SOCIAL

religioso no sentido habitual da palavra, e não se vire para o Outro como um tu, não como
é decididamente fundamentalista. Na página um ele, um ser distorcido por informação
de abertura de um livro caracteristicamente errónea.
denominado de Presenças Reais, ele define a
sua finalidade: “Propõe que qualquer Virtualmente todos os pensadores
mencionados acima estavam familiarizados
compreensão coerente do que a língua
executa, que qualquer responsabilidade com diversas línguas. Hannah Arendt
coerente do discurso humano para comunicar escreveu em inglês bem como na sua língua
o significado e sentimento é, na análise final, nativa, o alemão. Levinas escreveu em
estejam subscritos pelo pressuposto da francês mas ensinou na língua de Talmud
presença de Deus.” 34 (hebreu e aramaico) e falava a sua língua
materna, iídiche. Miroslav Volf sabia servo-
A língua não só nos permite “estar em croata mesmo antes de aprender inglês. O
Sinai,” mas, sobretudo, torna possível que os primeiro ensaio publicado por Martin Buber, o
seres humanos comuniquem uns com os mestre da prosa alemã que durante muitos
outros. A forma da nossa língua determina a anos ensinou em hebraico, era polaco.
natureza e a qualidade do nosso pensamento. George Steiner também é fluente em inglês,
alemão e francês. Se a liberdade pessoal e o
Não saber o que dizer significa geralmente não
saber o que pensar. Nessas situações, tem-se arreigamento no mundo requerem um
tendência a recorrer a clichés e slogans que conhecimento profundo da sua própria língua,
empobrecem a alma. Referindo a Alemanha a capacidade de chegar aos outros e inclui-
Nazi, Steiner mostrou “que bestialidade e los requer a aprendizagem de outras línguas.
falsidade políticas podem fazer uso da língua “Para aprender uma língua para além do seu
idioma nativo, para penetrar na sua sintaxe,”
quando o último foi separado das raízes da
vida moral e emocional, quando se tornou Steiner escreve, “é abrir por si próprio uma
ossificada com clichés, definições não segunda janela sobre a paisagem da
examinadas, e palavras de restos.” Ele lembra- existência.” 37 Para ser incluído, o comando
nos que “o que aconteceu ao alemão está, no da língua da terra é essencial; para incluir
entanto, a acontecer de forma menos outro, o conhecimento de línguas
estrangeiras é igualmente importante.
dramática em qualquer outro lado.”35

Não deve haver uma sociedade que não Porque a língua é tão importante no
tenha procurado disfarçar a verdade através do esforço para incluir, pode, naturalmente, ter
abuso da língua. Steiner afirma de novo: igualmente o efeito oposto. Volf observa: “A
maioria das práticas exclusivas não
Além disso, a falsificação e funcionaria de todo ou funcionariam muito
desumanização planeadas da língua menos suavemente senão fosse pelo facto
levadas a cabo por regimes totalitários de estas serem suportadas por língua e
teve os seus efeitos e contrapartes para lá cognição de exclusão. Antes de excluirmos
das suas fronteiras. Estas reflectem-se, outros do nosso mundo social, nós afastamo-
embora de uma forma menos assassina, los, como era, do nosso mundo simbólico. ” 38
no idioma da publicidade, propaganda de A terminologia nazi no processo de
consumação de desejos e consenso das exterminação dos judeus é o exemplo mais
tecnocracias do consumidor. 36 expressivo. Os actos actuais de perseguição
oferecem igualmente ilustrações expressivas.
A nossa dose diária de visualização de
televisão fornece a prova. Apenas uma Contudo, o abuso da língua não deve, de
educação completa e cuidadosa na língua forma alguma, dissuadir-nos de aprender
pode proteger a liberdade do espectador e línguas. Um elemento de aprendizagem de
permitir que um indivíduo línguas tem que ser o desenvolvimento de
um ouvido crítico em cada aluno para a
língua manipulada ao serviço do
Reflexões éticas sobre a Inclusão Social

poder e ideologia. As oportunidades para 6. Identidade.


incluirmos aqueles que nós compreendemos,
mesmo que sejam desconhecidos, compensam A comunidade de aprendizagem ideal
promove o estudo e julga os seus
bastante o perigo da ofuscação.
participantes pelo esforço mais do que pelo
5. Comunidade. resultado. É formado pelos professores que,
sejam religiosos ou não, conscientemente ou
Para ter uma língua comum com o Outro é de outra forma, se tornam servos de Deus,
incluir o Outro. Se o relacionamento mútuo dá instrumentos de dedicação. A comunidade
distorcida, por outro lado, insiste no resultado
forma ao carácter do Eu e Tu, a sua educação
trabalhará para a comunidade. “A educação em vez de no esforço e promove a
genuína do carácter,” escreveu Buber, “é competição em vez da cooperação. A ênfase
educação genuína para a comunidade.” 39 A está no Eu, não no Outro. A tarefa daquele
tradição judaica é suspeita de auto-estudo. descrito como professor consiste em treinar
Promove a aprendizagem em conjunto como os alunos para conformarem e promoverem
os indivíduos que querem aprender.
um corolário para comer em conjunto, porque
ambos trabalham para a comunidade, e espera-
se que os alunos sejam professores, porque a Uma forma de prevenir as instituições
aprendizagem, tal como comer, é, no seu educativas de se tornarem em campos
melhor, uma partilha. Daí a importância das militares consiste em promover a
escolas como locais onde não só o individualidade de cada aluno. A inclusão não
é a promoção do estatuto do pária nem o feito
conhecimento é adquirido, mas onde o carácter
é formado. duvidoso de se tornar um arrivista, mas sim
valorizar uma pessoa por ser o Outro, ainda
Abraham Joshua Heschel (f. 1972), um um membro integral do Todo. Isto significa
pensador judaico que escreveu em quatro estabelecer limites que permitam aos
línguas e cujo carácter fosse formado pelo indivíduos participar na comunidade sem
serem engolidos por ela. “A ausência de
estudo das fontes judaicas, escreveu que as
instituições educativas ideais não devem ser limites,” escreve Volf, “cria a inexistência de
julgadas pelos resultados de exames mas pela ordem, e a inexistência de ordem não é o fim
atitude daqueles que lhes atendem: “Não se da exclusão mas o fim da vida.” 41 Ele indica
pergunta ao homem o quanto ele sabe, mas o que “a diferenciação consiste em `separar e
quanto ele aprende. A atitude original do judeu unir'.” 42 Ele afirma que “a identidade é um
resultado da distinção entre o outro e a
não é o amor pelo conhecimento mas o amor
pelo estudo.” O conhecimento pode ser internalização da relação com o outro.” 43
adquirido na solidão lendo livros, mas o estudo
precisa de pessoas, colegas estudantes e, até Isto é importante para todos,
mais importante, de professores: “O que nós especialmente para membros de grupos
precisamos mais do que qualquer outra coisa é minoritários de todas as idades. Pertencer
não pode significar apagar o passado de
não de livros escolares mas sim de pessoas
escolares. É a personalidade do professor que alguém mas sim trazê-lo para o presente.
é o texto que os alunos lêem; o texto que nunca Fazer parte de um grupo não pode, de forma
esquecerão.” 40 A maioria de nós não se lembra alguma, significar deixar de ser a própria
de muito do que aprendemos na escola, mas pessoa. A alternativa ao pária não é o
todos nós nos recordamos dos professores que arrivista.
nos influenciaram e que talvez até mudaram as
nossas vidas.
PERSPECTIVAS SOBRE INCLUSÃO SOCIAL

Política: Acção Afirmativa


Embora tendo em conta o acima referido, “o trabalho de justiça económica não serve
mesmo na sua aplicação prática, é como um prelúdio à existência espiritual, mas
deliberadamente não específico, eu não posso já a alcança.” 48 A sua espiritualidade
concluir estas reflexões sem salientar o ponto económica/economia espiritual leva-o à
óbvio que a posição apresentada aqui tem conclusão que “o único valor absoluto é a
implicações políticas. Dado que a política está possibilidade humana de dar ao outro
inextrincavelmente ligada ao financiamento, as prioridade sobre si próprio.” 49
observações que se seguem podem ser
relevantes para disponibilizar recursos É provável que aqueles que possam
financeiros para os projectos que procuram desejar suportar as medidas propostas neste
tornar a inclusão possível. trabalho assumam posições políticas que
frequentemente entrarão em conflito com a
“Pensar na fome do homem,” escreve vontade política prevalecente na maioria dos
Levinas, “é a primeira função da política. ” 44 estados modernos, incluindo o Canadá. Para a
Numa análise crítica da filosofia de Martin política moderna, quase independentemente de
Buber do diálogo, Levinas articula a sua qual o partido que está no poder, parece
política como uma aplicação concreta dos basear-se na máxima, “o que é meu é meu e o
princípios elevados de Buber. Ele quer passar que é seu é seu.” O resultado é de grande
das palavras de Buber para as nossas acções, disparidade no rendimento e a subsequente
do discurso ao professor para as acções dos lacuna crescente entre teres e não teres em
alunos: tudo o que importa, educação não menos do
que dinheiro.
Poderemos pensar se vestir o nu e alimentar
o que passa fome não nos aproxima mais do O Mishnah Tractate Avot (5:13), conhecido
vizinho do que a atmosfera rarificada na qual como “As Éticas dos Pais,” oferece duas
a Reunião de Buber por vezes ocorre. Dizer avaliações da pessoa que diz, “o que é meu é
“Tu” passa assim pelo meu corpo para as meu e o que é seu é seu.” Tal pessoa, lemos
mãos que dão, para além dos órgãos de nós, “é de carácter médio.” Contudo, “outros
discurso. Perante o rosto de Deus, não dizem que esta é a característica de Sodoma.”
devemos ir de mãos vazias. 45 Também é A referência aqui não é às tendências sexuais
consistente com os textos talmúdicos que dos Sodomitas bíblicos mas ao verso no livro
proclamam que “dar o alimento” é uma coisa de Ezequiel, “Este era o único pecado da sua
muito importante, e amar Deus com todo o irmã Sodoma: arrogância! A ela e às filhas não
seu coração e com toda a sua vida é lhe faltava o pão nem a tranquilidade sem
ultrapassado ainda quando se ama a Ele sobressaltos; ainda assim, ela não suportava os
com todo o seu dinheiro. Ah! Materialismo pobres e os necessitados” (16:49). O clima
judeu.” 46 ético da sociedade capitalista oscila entre duas
visões manifestadas no atestado talmudista: A
A força das últimas três palavras não nos opinião maioritária é a que a fórmula “o que é
deve escapar. A acusação que o judaísmo é meu é meu, o que é teu é teu” é normativa.
materialista, o “este-mundano,” e como tal Outros, por outro lado, vêem isso como uma
desprovido de “espiritualidade” são manifestação de arrogância que deixa para trás
considerados aqui como uma manifestação do a desvantagem e abre caminho à exclusão. As
compromisso religioso manifesto em termos crianças são, frequentemente, as principais
económicos/políticos. vítimas porque têm pouco que seja delas,
embora precisem de muito dos outros para
Ou para dizê-lo de outra forma: “para crescerem e se desenvolverem.
merecer a ajuda de Deus, é necessário querer
fazer o que tem que ser feito sem a sua ajuda.
” 47 Para Levinas,
Reflexões éticas sobre a Inclusão Social

Ao reconhecer que cada sistema político Miroslav Volf: “Por um lado, apoia tacitamente
tem as suas falhas, este documento não tenta a parte mais forte, independentemente de
defender qualquer linha de opinião. Todavia, as essa parte estar certa ou errada. Em segundo
reflexões aqui articuladas sugerem um curso lugar, a neutralidade escuda os perpetradores
de acção que procura melhorar a parte e liberta as suas mãos precisamente através
daqueles que não têm muito a que possam da falha em os nomear como perpetradores.
chamar “meu”, ao promover projectos Terceiro, a neutralidade encoraja o pior
delineados na secção anterior: comportamento de perpetrador e vítima, do
mesmo modo.” Ele prossegue: “Os profetas
1. Sustentar refeições escolares para todos judeus – e, de facto, a totalidade das
como um modo de alimentar os que têm Escrituras – têm uma inclinação para os mais
mais necessidades e promover a fracos.” Referindo-se ao filósofo canadiano
comunidade. Charles Taylor, Volf conclui que “tal opção
preferencial pelos mais fracos implica uma
2. Encorajar o desenvolvimento de audiência privilegiada para aqueles cujas
currículos que privilegiem a vozes são excluídas.”50
aprendizagem face à realização e
incentivem a qualidade do esforço face à A acção afirmativa é inerente nos
quantidade de conhecimento. ensinamentos convencionais do judaísmo e
do cristianismo. Esta é manifestada no modo
3. Proporcionar oportunidades para a como os profetas hebraicos reagem aos reis
formação imaginativa do professor e de Israel. Emmanuel Levinas resumiu a sua
promover o estatuto dos professores na posição ao ser interrogado durante um
comunidade de modo a incutir neles um entrevista sobre se “a forma do discurso,
sentimento de responsabilidade por como o discurso profético, era contrária ao
serem modelos para os jovens e, desse estado? Ele afirmou:
modo, ajudá-los a verem mais longe do
que as suas percepções permitem; Num discurso extremamente ousado e
sintonizando-os para os “sinais de audaz, uma vez que o profeta fala
transcendência” de Berger. sempre perante o rei, o profeta não se
esconde, não está a preparar uma
4. Afirmar que, mesmo nos nossos dias, a revelação subterrânea. Na Bíblia – é
linguagem vem antes da tecnologia e que extraordinário – o rei aceita esta
a promoção do ensino de línguas além da oposição directa. Ele é um estranho rei
língua materna abre caminho à inclusão. dos reis! Isaías e Jeremias submetem-se
à violência. E não esqueçamos os falsos
5. De um modo semelhante, promover profetas que adulavam constantemente
actividades que melhorem a comunidade os reis. Apenas o verdadeiro profeta se
e abram caminho à inclusão. dirige ao rei e ao povo sem servilismo e
os recorda da ética. No Antigo
6. Celebrar a individualidade, permitindo Testamento, não há certamente
que as crianças tenham orgulho na sua qualquer denúncia do estado como tal.
própria herança e tenham conhecimento Há um protesto contra a assimilação
adequado sobre a mesma. pura e simples do estado para a política
do mundo.51
O curso de acção proposto neste
documento é partidário na medida em que A ética da inclusão encontra aqui o seu
favorece os excluídos e os pobres. A modelo. O estado não deve ser denunciado,
neutralidade encoraja a inactividade e pode ser mas dado que a humanidade está sob uma
“positivamente prejudicial”, escreve obrigação maior que o poder do estado –
nomeadamente, no convénio com Deus – os
humanos que assumem a responsabilidade
pelo Outro devem enfrentar o poder,
quaisquer que sejam as consequências, e
tomar partido dos mais fracos,
independentemente das repercussões.
PERSPECTIVAS SOBRE INCLUSÃO SOCIAL

Volf sustenta que, com todos os seus


contornos religiosos, a noção de convénio é
relevante no nosso contexto: “Um convénio Este documento é uma tentativa de fazer
pode tornar-se uma útil categoria política, algumas ligações entre teologia, ética e
porque foi primeiro uma categoria moral, e política, num esforço para apontar para
tornou-se uma categoria moral, porque era algumas possibilidades para diminuir a
uma categoria teológica central.” 52 exclusão na nossa sociedade, mesmo que
nunca consigamos erradicá-la.

Notas finais
1
The Torah: A Modern Commentary (Nova Iorque: The Union of American Hebrew
Congregations, 1981), 1409.
2
Moses Maimonides, Mishneh Torah: Hilkhot De’ot 6:10. A tradução inglesa baseia-se na
Enciclopédia Judaica, 12:1478.
3
Richard J. Bernstein, Hannah Arendt and the Jewish Question (Cambridge, Mass.: The MIT
Press, 1996), 16f.
4
Sander L. Gilman, Jewish Self-Hatred (Baltimore e Londres: The Johns Hopkins University
Press, 1986), 2f.
5
Ibid., 12.
6
Irving Greenberg, The Third Great Cycle in Jewish History (Nova Iorque: National Jewish
Resource Center, 1981), 25.
7
Emmanuel Levinas, Difficult Freedom (Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 1990),
19f.
8
Edith Wyschogrod, Emanuel Levinas: The Problem of Ethical Metaphysics (Nova Iorque:
Fordham University Press, 2000), 104f.
9
Op. cit., 21.
10
Emmanuel Levinas, Nine Talmudic Readings (Bloomington & Indianapolis: Indiana University
Press, 1990), 98.
11
Ibid., 99.
12
Ibid., 100.
13
Difficult Freedom, 26.
14
Emmanuel Levinas, Ethics and Infinity, traduzido e apresentado por Richard A. Cohen
(Pittsburgh: Duquesne University Press, 1985), 13.
15
Difficult Freedom, 4.
16
Op. cit., 105.
Reflexões éticas sobre a Inclusão Social

17
Miroslav Volf, Exclusion and Embrace: A Theological Exploration of Identity, Otherness, and
Reconciliation (Nashville: Abingdon Press, 1996), 10.
18
Ibid., 60.
19
Ibid., 221.
20
Ibid., 222. Itálicos do autor.
21
Ibid., 223.
22
Ibid., 225.
23
Martin Buber, Between Man and Man (Londres: Collins Fontana Library, 1961), 31.
24
Ibid., 31f.
25
Maurice S. Friedman, Martin Buber - The Life of Dialogue (Londres: Routledge and Kegan
Paul, 1955), 177.
26
Op. cit., 207.
27
Mishnah Horayot 3:8.
28
Buber, op. cit., 114f.
29
Ibid., 125.
30
Ibid., 126.
31
Ibid., 130.
32
Peter L. Berger, A Rumour of Angels (Harmondsworth, Middlesex, Inglaterra: Penguin Books,
1971), 70.
33
Ibid., 77.
34
George Steiner, Real Presences (Londres e Boston: Faber and Faber, 1989), 3.
35
George Steiner, Language and Silence (Harmondsworth, Middlesex, Inglaterra: Penguin
Books, 1969), 47.
36
Ibid., 103.
37
George Steiner, Extraterritorial: Papers on the Literature and the Language Revolution
(Harmondsworth, Middlesex, Inglaterra: Peregrine Books, 1975), 89.
38
Volf, op. cit., 75.
39
Buber, op. cit., 146.
40
Abraham Joshua Heschel, The Insecurity of Freedom (Philadelphia: The Jewish Publication
Society of America, 1966), 237.
41
Volf, op. cit., 63.
42
Ibid., 65.
43
Ibid., 66.
PERSPECTIVAS SOBRE INCLUSÃO SOCIAL

44
Emmanuel Levinas, Beyond the Verse: Talmudic Readings and Lectures (Bloomington and
Indianapolis: Indiana University Press, 1994), 18.
45
Reference to Deuteronomy 16:16f: “Três vezes por ano – na Festa dos Pães Ázimos, no
Pentecostes e na Festa dos Tabernáculos – todos os vossos homens devem comparecer
perante o Senhor vosso Deus no local que Ele escolher. Eles não devem comparecer perante o
Senhor de mãos vazias, mas cada um deve trazer a sua própria oferenda, de acordo com a
bênção que o Senhor vosso Deus lhe concedeu.” Aquilo que, para vários intérpretes das
Escrituras, é uma regra sobre a oferta de sacrifícios ao santuário, torna-se para Levinas uma
ordem para provir às criaturas de Deus onde quer que estas se encontrem. A prática ritual é,
assim, transformada em acção política.
46
Emmanuel Levinas, Outside the Subject (Stanford, CA: Stanford University Press, 1994), 18f.
47
Emmanuel Levinas, Entre Nous: Thinking of the Other (Nova Iorque: Columbia University Press,
1994), 109.
48
Ibid., 17
49
Ibid., 109
50
Ibid., 219.
51
Emmanuel Levinas, Entre Nous: Thinking of the Other (Nova Iorque: Columbia University Press,
1998), 106.
52
Op. cit., 151.
Reflexões éticas sobre a Inclusão Social

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Ratna Omidvar e
Ted Richmond — Em direcção à inclusão social dos novos canadianos

Os documentos completos (apenas em inglês) e os resumos


em francês e inglês podem ser transferidos no
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sob Agenda Infantil

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