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ANO XXIII - Setembro 2016 - Nº 93

Coordenação Editorial:
Escudo de Torá Vicky Safra
Varsóvia, Polônia,
meados do séc. 18 Assistentes de Coordenação:
Répoussé em prata, fundido e Clairy Dayan
perfurado, parcialmente dourado Fortuna
Fortuna Djmal
Djmal
Colaboração:
Colaboração:
Adina
Adina Sakkal
Sakkal
Heddy
Heddy Dayan
Dayan
Josette
Josette Lisbona
Lisbona
Muriel Sutt Seligson
Muriel Sutt Seligson
Natalie Kachani
Natalie Kachani
Sarine Dayan
Sarine Dayan
Supervisão Religiosa:
Supervisão Religiosa:
Rabino Y. David Weitman
Rabino
Rabino Y. DavidLaniado
Efraim Weitman
Rabino Avraham
Rabino Efraim Laniado
Cohen
Rabino Avraham Cohen
Jornalista Responsável:
Jornalista Responsável:
Desirée Nacson Suslick
Desirée
MTb Nacson Suslick
13603
MTb 13603
Colaboradores especiais:
Colaboradores
Deborah Dayanespeciais:
Jaime Spitzcovsky
Tev Djmal
Zevi Ghivelder
Revisão ee tradução
Revisão tradução de
de texto:
texto:
Lilia Wachsmann
Lilia Wachsmann
Coordenação
Coordenação de
de Marketing:
Marketing:
Ernesto Chayo
Ernesto Chayo
Produção
Produção Gráfica:
Gráfica:
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Joel Rechtman
Rechtman
JR Graphiks - Tel: 3873 0300
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C&D Editora e Gráfica - Tel: 3862 7635
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Tiragem: 25.700 exemplares
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sendo sua Espiritual;
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Herança com o contém
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Paulo SP
Carta ao leitor

O período que se inicia em Rosh Hashaná e se encerra no quebra todas as barreiras e limitações e pode até gerar
término de Yom Kipur é chamado de Yamim Noraim – os milagres, pois quando uma pessoa está verdadeiramente
Dias Temíveis – pois essa é a época do ano em que D’us feliz, atrai grandes bênçãos dos Céus.
julga o destino de todo indivíduo para o ano que se
inicia. Isso vale especialmente para os Yamim Noraim.
É inegável que são dias de extrema importância, em
Estas duas festividades máximas do ano judaico são os que todos os seres são julgados e todos nossos atos são
dias em que o D’us julga todas as pessoas e é natural escrutinizados pelo Tribunal Celestial. Portanto, são dias
temer o veredicto. Contudo, o Talmud ensina que, em que exigem que cada um de nós faça uma contabilidade
Rosh Hashaná, o Povo Judeu se comporta de maneira espiritual e um autojulgamento. Mas são também uma
atípica. Quando uma pessoa é levada a julgamento, ela época de imensa alegria e luz espiritual. Os Cabalistas
sente ansiedade e medo e, assim, dá pouca atenção à ensinam que se nos comportarmos com júbilo e confiança
aparência física. Mas em Rosh Hashaná nós, judeus, nos em Rosh Hashaná e Yom Kipur – se depositarmos nossa
vestimos bem, comemos e bebemos e nos alegramos. confiança em D’us, tendo certeza de que Ele nos
O motivo disso, explica o Talmud, é termos confiança perdoará e nos abençoará com um ano maravilhoso, Ele
de que D’us nos beneficiará com Seu perdão e despejará honrará nossa confiança. Se emanarmos alegria, paz
sobre nós bênçãos extraordinárias. Rosh Hashaná é, interior e confiança em D’us, Ele certamente nos
portanto, um dia de celebração. retribuirá em igual medida. Esse deve ser nosso estado de
espírito em Rosh Hashaná e em Yom Kipur, mesmo que o
Por um lado, os Yamim Noraim são os dias mais temíveis ano que se encerrou tenha sido de desafios e tribulações.
do ano, por outro, é a época em que a Shechiná, a Presença
de D’us, se manifesta com mais intensidade no mundo. Em julho deste ano faleceu Elie Wiesel, sobrevivente do
Assim, constituem as datas mais auspiciosas para o Holocausto, vencedor do Prêmio Nobel e grande escritor.
crescimento espiritual. São também os dias em que nossas Minha família perdeu um amigo muito querido, Israel
orações e súplicas são mais bem recebidas nos Céus. perdeu um devotado defensor e a humanidade perdeu um
Como ensinou o profeta Isaías, deve-se procurar D’us grande homem que lutou contra a indiferença e as
quando Ele pode ser encontrado e invocá-lo quando está perseguições ao redor do globo. Elie Wiesel escreveu
próximo. Evidentemente, D’us se encontra sempre em sobre a esperança: “O mais extraordinário nas vítimas do
todo lugar, mas nestas datas torna-se mais fácil encontrá- Holocausto foi a sua capacidade de manter a esperança
Lo. Assim, em Rosh Hashaná e Yom Kipur, nós, judeus, naquelas horas tão amargas. O otimismo e a esperança de
rezamos para sermos inscritos e selados no livro da Vida. um final feliz, sem dúvida, foi o que manteve a vontade
de sobreviver nos judeus, e eles demonstravam essa
Yom Kipur – o ápice dos Dias Temíveis – aparenta ser esperança através de seu culto, sua confiança na família e
uma data triste. É um dia de orações e confissão de em seu desejo de vencer…”. 
pecados. No entanto, ensinam nossos Sábios que Yom
Kipur é a data mais feliz do calendário judaico, pois Neste Rosh Hashaná e Yom Kipur, que possamos atrair,
é o dia do perdão e expiação para o Povo Judeu. Podemos por meio de sentimentos positivos, para nós mesmos e
nos arrepender de nossos erros, de nossas transgressões e para nossa família, para os judeus da Diáspora, de Israel,
obter o perdão Divino, a qualquer hora, em qualquer dia. e para o povo do Brasil, um Shaná Tová Umetuká
Mas Yom Kipur é o dia mais auspicioso para que isso – um ano bom e doce.
ocorra. É a data para perdoar e ser perdoado, tanto por
pecados cometidos contra D’us como por falhas
cometidas contra outras pessoas.
A Cabalá enfatiza a grande importância de o homem
estar sempre alegre. Os místicos ensinam que a alegria
ÍNDICE

21 28

31 42

54 61

03 carta ao leitor 21

israel
Meu irmão Jonathan
por zevi ghivelder
06 NOSSAS grandes festas
Tefilá, Tzedacá e Teshuvá
28 ATUALIDADE
Relações entre Israel e Egito,
14 Algumas Leis relacionadas
do tatame à diplomacia
com Yom Kipur
por JAIME SPITZCOVSKY

15 nossas leis 31 brasil



Uma introdução Vamos continuar escrevendo

às leis da Cashrut a nossa história...

4
REVISTA MORASHÁ i 93

06

34
34 PERSONALIDADE 51 arte
Elie Wiesel,
Romance gráfico em quadrinhos

a consciência da humanidade
54 A arte de Issachar Ber Ryback
42 educação
Viagens acadêmicas da
61 shoá
Escola Beit Yaacov fortalecem a O Julgamento de Nuremberg

identidade judaica
68 Os réus
46 ISRAEL

Explosão de cores em Israel
74 cartas

5 setembro 2016
nossas grandes festas

Tefilá, Tzedacá e Teshuvá

Rabi Lazar dizia: “Três coisas anulam um decreto severo:


Tefilá (Oração), Tzedacá (Caridade) e Teshuvá (Arrependimento)”
(Talmud Yerushalmi, Taanit 9b).

U
m dos temas principais dos Asseret Yemei de elementos desse versículo. Quando o versículo diz “e
Teshuvá, os Dez Dias de Arrependimento, orar”, obviamente se refere à oração. Quando diz “buscar
que se iniciam em Rosh Hashaná e a Minha face”, refere-se à caridade, pois está escrito no
terminam na conclusão do Yom Kipur Livro de Salmos (em 17:15): “Quanto a mim, por minha
– são as três coisas que têm o poder justiça, contemplarei Tua face…”, que é interpretado
de anular um decreto Celestial severo. E elas são: como: “pelo mérito de minha justiça (Tzedek) – por meio
a Tefilá, oração, a Tzedacá, caridade, e a Teshuvá, da caridade (Tzedacá) que eu realizo – terei o mérito de
arrependimento. O Talmud Yerushalmi (Taanit contemplar a Tua face”. E quando o versículo diz: “eles se
9b), ensina que a origem desse ensinamento é uma arrependerem de seus maus caminhos”, isso claramente
passagem do Livro de Crônicas (2 Crônicas, 7:14), que se refere ao arrependimento. E conclui o Talmud
reconta a resposta de D’us às orações do Rei Salomão Yerushalmi: “O que lá está escrito, na continuação
quando ele inaugurou o Tempo Sagrado de Jerusalém. daquele versículo: ‘Eu os atenderei dos Céus, e perdoarei
O rei pedira a D’us que fossem aceitas as súplicas em seus pecados e curarei sua terra’”.
prol do Templo Sagrado. D’us respondeu que se Ele
viesse a decretar uma escassez de alimentos, uma peste Essa passagem do Talmud de Jerusalém – que ensina que
ou uma praga contra a Terra, Ele atenderia as súplicas a oração, a caridade e o arrependimento podem anular
do povo e aliviaria o decreto, com a estipulação um decreto Celestial hostil – suscita muitas perguntas
mencionada no versículo: “E (se) Meu povo, sobre o que constituem o cerne do Judaísmo. Por exemplo, como
qual Meu Nome é proclamado, humilhar-se, e orar, e pode a oração influenciar as decisões Divinas? Ou, qual
buscar a Minha face, e se eles se arrependerem de seus o significado do conceito de que por meio da caridade,
maus caminhos, Eu os atenderei dos Céus, e perdoarei da Tzedacá, pode-se “contemplar a Face de D’us” –
seus pecados e curarei sua terra”. obviamente um conceito antropomórfico, uma vez que
os conceitos físicos não se aplicam ao Todo Poderoso? E
O Talmud Yerushalmi demonstra de que forma a ainda outra questão fundamental: Qual o significado da
oração, a caridade e o arrependimento se originam Teshuvá?

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REVISTA MORASHÁ i 93

O propósito da oração a verdade e a justiça, por que a aflições. Nada do que sabemos e
oração levaria D’us a mudar de sentimos é desconhecido por D’us.
Tefilá, oração, é um elemento opinião? Outra pergunta: se uma Conhece-nos melhor do que nós
essencial em todas as religiões. A pessoa é um ser humano íntegro nos conhecemos.
oração e a religião são interligadas. e merecedor, por que D’us não
Não existe relacionamento se não haveria de favorecê-la mesmo se O conceito de que por meio
há comunicação e a oração é nossa ela não orasse? Por outro lado, se a da oração podemos mudar a
forma de nos comunicarmos com pessoa não faz jus àquilo que pede mente de D’us é especialmente
D’us. Qualquer um pode orar, em em suas orações, por que a oração desconcertante. Quando oramos
qualquer idioma, e da forma que deveria ajudá-la? Uma pergunta e pedimos que D’us aja de
melhor lhe aprouver. Mesmo as ainda mais fundamental: Por que determinada maneira, estamos
crianças pequenas oram. É bem devemos orar, afinal? D’us Infinito, indicando saber melhor do que
possível que a oração seja instintiva que é Onisciente, certamente Ele como deveria agir? Se Lhe
e não apenas algo que tenhamos que está ciente de nossos desejos e pedimos que anule um decreto,
aprender. necessidades mesmo que nós não estaríamos dizendo que Ele tomou
os pronunciemos. Não há nada que uma decisão errada e deveria
Como a oração é um fenômeno tão possamos dizer-Lhe que Ele ainda reconsiderá-la?
comum, muitas pessoas a aceitam não saiba. D’us sabe, melhor ainda
como coisa natural, mas na verdade do que nós, aquilo que desejamos, Ao que tudo indica, o conceito
não é tão simples assim. O próprio aquilo que nos falta e de que de oração parece ser um ato que
conceito da oração levanta muitas carecemos. Ele certamente está contradiz a noção de que D’us é
questões teológicas e filosóficas. Por ciente do que está em nosso coração onisciente e perfeito. E, mesmo
exemplo, se as decisões Divinas são e do que se passa em nossa mente. assim, além de termos permissão
decretadas por Sua Divina Sabedoria Conhece nossas ambições e anseios, de orar, somos mesmo instruídos
e, assim, simbolizam a bondade, nossas preocupações, problemas e a fazê-lo. Segundo vários

7 SETEMBRO 2016
nossas grandes festas

que a pessoa sinta ter tudo o que


precisa e deseja, sempre deve orar a
D’us pedindo pelo futuro.
É claro que quando oramos,
estamos rogando a D’us para
que realize nossas necessidades e
desejos e geralmente Lhe pedimos
que mude Seu decreto. Por que
D’us não apenas permite, mas nos
ordena fazer algo que parece ser
pretensioso e mesmo um pouco
ofensivo a Ele? Por que Ele espera
que nós Lhe digamos aquilo que
Ele já sabe e Lhe peçamos para
que reverta ou anule Suas próprias
decisões? Há várias respostas a
essas perguntas. Uma discussão
rica e profunda sobre a oração
está muita além do escopo deste
artigo. Mas tentaremos discutir
brevemente algumas respostas que
o Judaísmo dá ao tema.

Nossos Sábios ensinam que D’us


geralmente deposita bênçãos
sobre uma pessoa na medida em
que essa pessoa seja um digno
receptáculo das mesmas. Se a
pessoa não o é, pode “perder” uma
legisladores da Torá, a oração bênção que lhe estava destinada,
é um mandamento bíblico. Na simplesmente porque deixou de
verdade, temos o mandamento se alinhar com aquela bênção ao
de servir a D’us diariamente, não se tornar digno da mesma.
como determina a Torá: “... E Isso pode ser comparado a um
servireis ao Eterno, vosso D’us, e agricultor que estava destinado
Ele abençoará o teu pão e a tua a ter um ano próspero em suas
água...” (Êxodo, 23:25). Apesar terras, mas que deixou de semeá-
de podermos servir a D’us de las e, portanto, não colheu nada.
várias formas, a principal delas Assim, os problemas ou carências
é por meio da oração, quando de uma pessoa podem refletir um
podemos comungar com D’us estado espiritual inadequado, e não
quando a pessoa com nossos pensamentos, necessariamente o plano Divino
emoções e pronunciamentos. A para ela. Da mesma forma, quando
reza, especialmente oração pode ter várias formas, a pessoa muda sua realidade
quando o faz desde que forneça uma forte espiritual, ela pode mudar as
comunhão entre a pessoa e D’us. circunstâncias de sua vida. Essa
com intensidade e Pode consistir de uma louvação mudança não ocorre porque ela
sinceridade, está a D’us, de um pedido a Ele para mudou a ideia de D’us, mas porque,
que realize nossas necessidades e ao elevar seu estado espiritual, ela
intensificando sua fé
desejos ou de um agradecimento se tornou digna do bem que D’us
e confiança em D’us por benesses recebidas. Mesmo lhe havia reservado, a priori.

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REVISTA MORASHÁ i 93

Uma das maneiras mais potentes e Yaacov – bem como todos os mais poderosos de se alcançar um
e eficazes de se elevar o estado grandes homens e mulheres de Israel favorecimento Divino.
de espírito é por meio da oração. se ligavam a D’us. De fato, vemos
De fato, esse é um dos principais na Torá que Moshé, o maior dos Como o propósito da oração
propósitos da oração. Quando profetas, regularmente orava a D’us. é rogar a D’us que introduza
a pessoa reza, especialmente mudanças no mundo físico, a
quando o faz com intensidade e É importante observarmos que oração serve para aperfeiçoar Seu
sinceridade, está intensificando a oração tem o poder de efetuar relacionamento com o mundo e,
sua fé e confiança em D’us, pois, uma mudança porque ela revela a assim, unificar os planos espiritual
ao orar, está reconhecendo a dedicação da pessoa a D’us também e material. Esse é o significado do
Infinita capacidade Divina, nossa de outras maneiras. Por exemplo, ensinamento cabalístico de que a
dependência d’Ele e Seu controle quando alguém se empenha em ir oração deve se elevar e penetrar
sobre tudo. O ato de orar aumenta à sinagoga e se une aos demais, ela todos os mundos espirituais, de
a conscientização que essa pessoa está santificando o Nome de D’us de modo a fazer com que a bondade
tem de D’us e de Sua Providência, forma pública e disseminando sua fé Divina flua para baixo, unificando-
tornando-a, assim, digna da em D’us. os e nutrindo-os. Por essa razão,
bondade que D’us lhe quer dedicar. a oração é tão importante perante
Assim sendo, a oração não é uma D’us. O Talmud Bavli ensina que
A oração também deve levar a questão de “informar” D’us acerca a oração é uma daquelas coisas que
pessoa a se curvar perante D’us. A de nossas solicitações. É uma forma se colocam nos reinos espirituais
humildade e o sentimento de que muitíssimo poderosa de dedicação, mais elevados, no entanto muitas
estamos totalmente dependentes de crescimento espiritual e de união pessoas a consideram de forma
de D’us nos leva mais perto d’Ele com D’us. Isso é o que a torna uma leviana. Se elas soubessem quão
– tornando aquele que ora mais das funções mais fundamentais do poderosa pode ser a oração,
apto a receber as bênçãos Divinas. homem na vida, e um meio dos certamente orariam com
Isso explica melhor o porquê de mais frequência e muito mais
D’us “desejar” as orações dos justos: concentração.
um justo pode ser digno de uma
bênção, de qualquer modo, mas, Resumindo o que vimos acima,
ainda assim, D’us deseja elevá-lo, a oração anula os decretos
ainda mais, motivando-o a orar e, Celestiais hostis porque orando
assim, crescer espiritualmente. A nos aproximamos de D’us e, assim,
oração tem a capacidade de levar removemos todas as barreiras
a pessoa aos mais altos níveis de que podem nos ter impedido de
perfeição espiritual. receber as benesses que emanam
d’Ele. A oração não muda a Sua
Isso também explica por que opinião. Mas muda nosso estado
devemos orar ainda que D’us espiritual, tornando-nos, assim,
conheça nossos desejos e pedidos mais aptos a receber as bênçãos
mais do que nós mesmos. Na Divinas. Voltando à analogia
oração, devemos nos concentrar mencionada acima, D’us pode
e nos entregar por completo, decretar que um determinado
chegando, assim, muito mais perto agricultor tenha uma boa
de D’us, pois voltamos toda a safra, mas é necessário semear
nossa atenção a Ele, conectando- adequadamente para que a colheita
nos com Ele ao expressar nossas seja boa. Da mesma forma, o
necessidades. Isso nos torna esforço que uma pessoa despende
merecedores da benesse que na oração é, em geral, um pré-
D’us reservou para nós. Por essa requisito para a concretização
razão, a oração era a forma como de todas as benesses que D’us
os patriarcas - Avraham, Itzhak decretou para ela.

9 SETEMBRO 2016
nossas grandes festas

O poder da caridade (Bava Batra 10a) ensina que Rabi Fora isso, a caridade, assim como
Eliezer, baseando-se nesse versículo, a oração, eleva o estado de espírito
“E (se) Meu povo, sobre o qual Meu tinha o costume de dar Tzedacá da pessoa a alturas incríveis. E,
Nome é proclamado, humilhar-se, antes de rezar. Como ao orar nos portanto, aquele que regularmente
e orar, e buscar a Minha face, e se aproximamos de D’us e buscamos pratica a caridade se torna
eles se arrependerem de seus maus Sua “face”, a forma de realizá-lo se merecedor de maravilhosas bênçãos
caminhos, Eu os atenderei dos Céus, dá mediante atos de caridade. Divinas. Nossos livros sagrados
e perdoarei seus pecados e curarei estão repletos de ensinamentos
sua terra” (2 Crônicas, 7:14). Por que a caridade é tão poderosa? acerca do poder imenso e das
Por que invoca o Atributo Divino da recompensas, materiais e espirituais,
O Talmud Yerushalmi cita esse Misericórdia? Porque para os Céus, da prática da Tzedacá.
versículo e ensina que ao realizarmos a recompensa é dada de acordo com
atos de Tzedacá, “contemplamos os nossos atos. Em outras palavras, O Talmud Bavli (Bava Batra 9a)
a face” de D’us, e que essa é uma D’us nos trata da mesma maneira afirma que “A Tzedacá é igual
das formas de anular um decreto como tratamos os demais. Se alguém a todos os demais mandamentos
Celestial hostil. D’us obviamente é generoso com os outros, D’us é juntos”, e que “é maior do que todos
não tem face; trata-se puramente generoso com esse alguém. Se a os sacrifícios”. O Talmud Yerushalmi
de uma expressão antropomórfica, pessoa cuida das necessidades dos (Peah 1:1) o corrobora: “Tzedacá e
na qual os atributos humanos são demais, D’us cuidará das suas. Se a atos de bondade são o equivalente a
atribuídos a D’us para que o homem pessoa é misericordiosa e dá parte todos os mandamentos da Torá”.
possa ter alguma compreensão do do que ganha para salvar os demais
Divino. Nossos Sábios ensinam dos muitos sofrimentos decorrentes O Midrash (Midrash Zuta, Cântico
que a “face” de D’us se refere ao da pobreza, D’us será misericordioso dos Cânticos 1) ensina que “Se
Seu Atributo de Misericórdia, com ele e o protegerá contra o apenas as pessoas que viveram na
pois denota estima e bondade sofrimento e a infelicidade. geração do Dilúvio (de Noach)
demonstradas à pessoa sobre a qual
D’us irradia Seu Semblante, como
caixas de caridade de metal. séc 19 e início do século 20
vemos nos versículos da Bênção
Sacerdotal (Números, 6:25), “Faça
o Eterno resplandecer o Seu rosto
sobre ti e te agracie”.

No livro de Salmos, 17:15, há um


versículo que diz: “Quanto a mim,
por minha justiça, contemplarei Tua
face; e ao despertar serei saciado por
Tua visão”, expressando o anseio e
a antecipação do Rei David pelo
Mundo Vindouro. Segundo ele,
por meio de seus atos de caridade,
ele mereceria “contemplar a face de
D’us”, ou seja, deleitar-se na radiante
Presença Divina. Vemos, portanto,
que a “face de D’us” pode “ser vista”
por meio de atos de caridade.
Assim, quando o versículo diz
– “E (se) o Meu povo, que é
chamado pelo Meu Nome...
buscar a Minha face” – a expressão
“buscar a Minha face” refere-se a
atos de caridade. O Talmud Bavli

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REVISTA MORASHÁ i 93

e as pessoas de Sodoma tivessem O Judaísmo, por outro lado,


feito Tzedacá, elas não teriam reconhece D’us como a autoridade
perecido”. O Midrash também ensina suprema de toda a moralidade.
que a existência do mundo é baseada O bem e o mal são definidos
na prática da caridade: “Grande é a e determinados por D’us. Ao
Tzedacá, pois desde o dia em que o mesmo tempo, D’us, em Sua
mundo foi criado até o dia de hoje, Onipotência, pode perdoar o
o mundo se equilibra sobre Tzedacá” pecado e erradicar qualquer
(Midrash Tana d´Vei Eliyahu Zuta 1). transgressão cometida pela
pessoa, pois a mesma Autoridade
O Talmud Bavli vai além e diz que que declara o pecado de algo
a caridade é tão poderosa que pode pode perdoá-lo. Se o pecado
reverter o decreto Celestial da morte é uma enfermidade espiritual,
– ou seja, pode prolongar a vida de o arrependimento é sua cura.
uma pessoa. Pois está escrito: Portanto, um dos ensinamentos
“Rabi Yehudá costumava dizer: fundamentais do Judaísmo é que
‘Dez coisas fortes foram criadas no quando uma pessoa se arrepende,
mundo. A pedra é dura, mas o ferro seus pecados são perdoados.
a corta. O ferro é duro, mas o fogo o A Torá assim o declara: “...E
amolece. O fogo é duro, mas a água o voltares... para o Eterno e ouvires
dia do perdão. jacob kramer (1892-1962).
apaga. A água é forte, mas as nuvens óleo sobre tela a Sua voz,... teu D’us aceitará teu
a carregam. As nuvens são fortes, arrependimento e Se compadecerá
mas o vento as dispersa. O vento pecados, não sobre os próprios de ti...” (Deuteronômio, 30:2-3).
é forte, mas o corpo o suporta. pecados.
O corpo é forte, mas o medo o O arrependimento é eficaz mesmo
esmaga. O medo é forte, mas o vinho Se alguém deseja obter expiação quando se trata de pecados
o expulsa. O vinho é forte, mas o por seus pecados, o primeiro graves. Como ensinam nossos
sono o dissipa. A morte é a mais passo necessário é admiti-los. Sábios: “Nada pode se antepor ao
forte de todos, e a caridade salva da Aquele que nega ou justifica seus arrependimento”. Ele é eficaz não
morte, pois está escrito: ‘A Tzedacá delitos não pode arrepender-se e, importa quantas vezes a pessoa
livra da morte’” (Provérbios, 10:2). portanto, torna-se muito difícil tenha pecado. Mesmo se a pessoa
ser perdoado pelos mesmos. Para tenha vivido toda a vida negando
Podemos concluir, com base nessa curar uma enfermidade, é preciso e blasfemando contra D’us, ela
passagem talmúdica, que a coisa identificá-la e depois diagnosticá- pode ser perdoada.
mais poderosa na Terra, mais la corretamente. Infelizmente, há
poderosa mesmo que a morte, é a muitos que se recusam a agir assim. O arrependimento é relevante
Tzedacá. Se a caridade é mais forte Acreditam que podem estabelecer para todos os seres humanos –
do que a morte, ela é certamente seus próprios padrões de moralidade. até para os mais perversos e os
forte o bastante para anular os Tentam viver segundo suas próprias mais justos. Como D’us criou
decretos Celestiais negativos. definições de bem e mal, sem o homem como uma criatura
recorrer à Revelação Divina. O que falível, com livre-escolha e livre-
O significado do essas pessoas estão fazendo é seguir arbítrio, é inevitável que ele
arrependimento um curso mal sucedido, percorrido peque. Como está escrito: “Não
por geração após geração de há homem na face da Terra que
Há uma passagem no Livro de filósofos. Após milhares de anos de seja tão justo que só faça o bem
Jeremias (2:35), na qual o profeta experimentações, a própria Filosofia e não peque” (Eclesiastes, 7:20).
cita D’us como tendo dito: “Eis chegou à conclusão de que, a menos Mas, para obter o perdão Divino,
porém que te julgarei, porquanto que seja revelado por algum Poder o arrependimento tem que ser
afirmas: ‘Não pequei’”. Isso implica Superior, não existe nenhum padrão genuíno; não apenas dizer algo
que o julgamento desfavorável dos verdadeiramente objetivo do bem e que não se sente, nem fingir
Céus cairá sobre a negação dos do mal. piedade. Arrependimento significa

11 SETEMBRO 2016
nossas grandes festas

admitir as próprias fraquezas e erros pessoa melhore – passo a passo, um Celestial negativo – oração,
e fazer tudo o que for necessário dia de cada vez. caridade e arrependimento – são
para repará-los. Em seu sentido mais interligadas: uma parte essencial
correto, o arrependimento consiste No entanto, há uma segunda do arrependimento mais elevado
de quatro elementos: mudar a forma categoria de pecados, geralmente é a oração, a caridade e os atos
de agir, arrepender-se sinceramente, muito mais sérios – aqueles que de bondade com os demais, bem
confessar-se a D’us e tomar a decisão são cometidos contra outros seres como o estudo da Torá. Como está
de não repetir o pecado. humanos. D’us não perdoa uma escrito: “Pela bondade (caridade)
pessoa por esse tipo de pecado até e pela verdade (Torá) é expiada a
Nossos Sábios ensinam que há dois que aquele contra quem o pecado iniquidade” (Provérbios, 16:6).
tipos de pecados que a pessoa pode foi feito verdadeiramente perdoe
cometer. O primeiro é contra D’us. o pecador. Quando alguém peca O arrependimento é tão poderoso
Quem desobedece às leis Divinas, contra outro ser humano, nenhuma que é uma das coisas principais
por omissão ou comissão, comete um oração, nenhum jejum, nem mesmo que pode romper as barreiras que
pecado – porque de alguma forma em Yom Kipur, pode servir de impedem a Redenção Messiânica. O
danificou a infraestrutura espiritual expiação. O que é necessário fazer profeta nos diz: “E virá um redentor
do universo (pecados de comissão) é desculpar-se com a pessoa que a Tsión, a todos que se arrependerem
ou deixou de contribuir para foi prejudicada ou injuriada e fazer das transgressões de Yaacov – diz
aperfeiçoá-lo (pecados de omissão). todas as reparações necessárias. o Eterno” (Isaías, 59:20). Há uma
O verdadeiro arrependimento é o Somente depois de tê-lo feito, tradição que conta que se cada judeu
remédio para quem não seguiu as pode-se pedir perdão a D’us por ter se arrependesse e se voltasse a D’us
leis de D’us. Mas, como ensinou o pecado contra um de Seus filhos. por apenas um dia, a Redenção
profeta Jeremias, para se achegar a Messiânica ocorreria imediatamente.
D’us em arrependimento, é preciso Apesar dos passos iniciais do A Torá assim diz: “E se voltares – tu
primeiro admitir que se errou. arrependimento consistirem em se e teus filhos – para o Eterno, teu
Depois a pessoa tem que tentar afastar do pecado, aproximando- D’us, e ouvires a sua voz, seguindo
melhorar – caminhar na direção se do remorso e da confissão, tudo o que eu te ordeno hoje..., D’us
certa. Não se espera que a pessoa se uma forma mais elevada de se compadecerá de ti e te fará voltar,
torne um Tzadik – um ser humano arrependimento envolve praticar juntando-te dentre todas as nações
verdadeiramente justo – da noite boas ações. Na verdade, as três para onde o Eterno, teu D’us, te
para o dia. Mas se espera que a coisas que anulam um decreto espalhou (Deuteronômio, 30:2-3).

Os Dez Dias de
Arrependimento

Tefilá, Tzedacá e Teshuvá são três


pilares do Judaísmo que cada
judeu deve se empenhar em
praticar durante todo o ano. Somos
instruídos a orar diariamente,
preferivelmente três vezes ao dia
- Shacharit (a oração da manhã),
Minchá (a oração da tarde) e Arvit
(a oração da noite). A prática de
caridade é um mandamento que
deve ser realizado diariamente,
exceto nos dias em que não podemos
manusear dinheiro - Shabat e Yom
Tov. Quanto ao arrependimento
– a retificação das transgressões
e o esforço em melhorar a nossa

12
REVISTA MORASHÁ i 93

“Tocando o Shofar”, Marc Chagall

espiritualidade –, deveria ser uma e ser mais rígidos em nosso decretado sobre um indivíduo ou
preocupação diária de todo judeu. cumprimento da ética e da religião. uma comunidade. Como a oração e
Rabi Eliezer, um dos maiores Sábios Os Dez Dias de Arrependimento a caridade, o arrependimento tem o
do Talmud, que, como mencionamos se iniciam em Rosh Hashaná, cujo poder de interceder por uma pessoa,
acima, fazia caridade antes de rezar, principal mandamento é ouvir o protegendo-a do mal e mesmo
costumava dizer: “Arrependa-se na som do Shofar. Um dos simbolismos prolongando sua vida. Assim sendo,
véspera de morrer”. Quando seus do Shofar é servir para despertar os durante os Asseret Yemei Teshuvá,
alunos lhe perguntaram como era corações das pessoas para D’us. Pois cabe a cada um de nós fortalecer-
possível saber o dia de nossa morte assim falou o profeta: “Será ouvido se no cumprimento das três coisas
com antecedência, ele respondeu em uma cidade o som do Shofar sem que anulam os decretos Celestiais
que era por isso que devíamos nos que estremeçam seus moradores?” negativos. Fazendo-o, poderemos
arrepender diariamente. (Amós 3:6). Do mesmo modo, Yom melhor atrair as bênçãos Divinas
Kipur, que conclui os Dez Dias para o ano vindouro – para nós e
Apesar de podermos e devermos de Arrependimento, é o dia mais nossas famílias, para o Povo Judeu e
sempre nos arrepender de nossos auspicioso do ano para um judeu se para toda a humanidade.
erros, D’us determinou que os dez arrepender.
dias entre Rosh Hashaná e Yom Kipur
fossem os Asseret Yemei Teshuvá – O chamado ao arrependimento
os Dez Dias de Arrependimento. foi uma das missões mais Bibliografia
Talmud Yerushalmi - Artscroll Mesorah
Portanto, é costume dizer preces importantes de todos os profetas.
Rabenu Shmuel Yafeh, Sefer Yafeh Mareh
de arrependimento durante esse Junto com a oração e a caridade, o
Rabi Aryeh Kaplan, Handbook of
período, ser ainda mais generosos na arrependimento pode banir qualquer Jewish Thought - Moznaim Publishing
caridade que fazemos habitualmente decreto maligno que possa ter sido Corporation

13 SETEMBRO 2016
NOSSAS GRANDES FESTAS

Algumas leis relacionadas


com Yom Kipur
Neste ano, Yom Kipur se inicia no dia 11 DE outubro,
TERÇA-feira, às 17:50h, e termina na noite do
dia 12 DE outubro, ÀS 18:44H.
.

C
ostuma-se fazer caparot recebendo Yom Kipur com o ato de pele (perfumes, cremes etc.), não
– abate de um galo, acendimento das velas. calçar couro, não ter relações
para um homem, e de É, porém, necessário antecipar o conjugais”.
uma galinha, para uma recebimento de Yom Kipur para antes
mulher, no dia 9 de do pôr-do-sol. O jejum diz respeito tanto aos
Tishrei de madrugada, 11 de outubro, homens quanto às mulheres,
por um shochet qualificado. É costume os pais abençoarem mesmo grávidas ou amamentando.
Também é possível cumprir este os filhos, pedindo que estes Só em caso de doença ou onde
costume com dinheiro, doando-o sejam selados no Livro da Vida haja algum perigo à vida, o jejum
para tzedacá. e que, em seus corações, permaneça pode ser suspenso (consulte seu
sempre o amor a D’us. Convém rabino). As crianças de 9 a 10
É proibido jejuar no dia que precede também ir à sinagoga antes do pôr- anos podem jejuar algumas horas,
Yom Kipur, mesmo se este jejum for do-sol, para poder participar do Kol e, a partir dos 11 anos, conforme
por Taanit Halom. É, ao contrário, Nidrei, a “anulação dos votos”. avaliação dos pais, podem jejuar
uma mitzvá fazer uma refeição o dia todo. Mas o jejum torna-
adicional. A refeição que antecede o Restrições durante se obrigatório aos 12 anos, para
jejum deve ter pão e pratos de fácil Yom Kipur meninas, e aos 13, para meninos.
digestão e ser concluída 20 minutos
antes do pôr-do-sol. Bebidas Yom Kipur é o Shabat dos Shabatot O uso de sapato, sandálias ou
alcoólicas são proibidas. e, portanto, todo trabalho profano tênis de couro é proibido tanto
deve cessar e todas as leis do Shabat para homens como para mulheres.
As mulheres devem acender as devem ser respeitadas. Assim como As crianças também devem ser
velas antes de ir à sinagoga, dizendo no Shabat, é proibido carregar sobre orientadas neste sentido.
a bênção “Lehadlik Ner Shel si qualquer objeto durante Yom Kipur.
Shabat Veshel Yom HaKipurim”. Se Além de observar as leis do Shabat, Ao término de Yom Kipur,
a mulher quiser locomover-se de em Yom Kipur outras cinco restrições a Havdalá deve ser feita sem
automóvel ou usar o elevador antes são acrescidas: bessamim, e a Bênção da Luz deve
do início de Yom Kipur, deverá, ser feita sobre uma vela que
antes de acender as velas, fazer “Não comer, não beber, não trabalhar, permaneceu acesa desde o dia
uma ressalva dizendo que não está não se lavar e nem massagear a anterior.

14
nossas leis

Uma introdução
às Leis da Cashrut
Através da história do Povo Judeu, o cumprimento das leis da
Cashrut tem sido um atributo inconfundível da identidade
judaica. Quando um judeu volta ao Judaísmo – quando inicia
sua jornada espiritual e abraça a Torá – o mandamento que
ele mais provavelmente adota é a obediência às leis alimentares
judaicas. Talvez, mais do que qualquer outra mitzvá da Torá,
as leis da Cashrut enfatizam que o Judaísmo é muito mais do
que uma “religião”, no sentido convencional.

E
ssas leis nos ensinam que a Santidade Cashrut, é importante consultar uma autoridade rabínica
não está confinada à sinagoga e a alguns competente e versada no assunto.
momentos especiais fora da vida cotidiana. Este artigo não pretende ser um tratado sobre essas leis,
Elas nos ensinam que a vida, em sua mas sim, uma introdução básica ao assunto.
totalidade, é um empenho sagrado e que até
mesmo uma atividade aparentemente mundana como o Leis básicas da Cashrut
comer é governada por leis Divinas.
Segundo a Lei Judaica, carne, leite e ovos de certas
A palavra hebraica “casher” significa “apta”. As leis espécies de animais são permitidos para consumo,
da Cashrut definem que alimentos são aptos para o enquanto outros são estritamente proibidos. Um animal
consumo por um judeu. D’us as ordenou aos Filhos de terrestre é casher se ele rumina e tem o casco fendido.
Israel no deserto do Sinai. Os fundamentos dessas leis Essas duas características são imprescindíveis. São
podem ser encontrados em Levítico e Deuteronômio, na exemplo de animais terrestres casher a vaca, o carneiro,
Torá Escrita. D’us ensinou os detalhes e particularidades o cabrito e o veado. E de animais que não são casher o
a Moshé. Esses ensinamentos foram transmitidos porco, o cachorro, o gato, o camelo, o cavalo e o coelho.
oralmente de uma geração a outra, até que finalmente Quanto às aves, a Torá relaciona 24 espécies não casher –
foram escritos na Mishná e no Talmud. basicamente todos os pássaros predatórios e necrófagos.
São exemplo de pássaros casher a galinha, o peru, o pato
As leis da Cashrut são muitas e envolvem muitos e o pombo.
detalhes. Algumas são alvo de muita discussão entre as
autoridades em Halachá (a Lei Judaica). Alguns rabinos, Uma criatura marítima é casher somente se tem
inclusive alguns antigos Rabinos Chefes de Israel, são barbatanas e escamas. Exemplos de peixes casher são o
um pouco mais lenientes acerca de algumas dessas leis, salmão, a truta, a carpa e o arenque. Já os não casher são a
enquanto outros são extremamente rígidos. Quando lagosta, o camarão, o caranguejo, o tubarão, os crustáceos
surgem perguntas ou dúvidas sobre as questões da e todos os mamíferos aquáticos. Todos os répteis, anfíbios,

15 SETEMBRO 2016
nossas leis

vermes e insetos não são casher. Há queijo. Portanto, para ser considerado ele ainda vive. Essa lei também se
quatro tipos de gafanhotos que são casher, o queijo precisa ser produzido aplica a não judeus. É uma das Sete
casher, mas como há uma incerteza sob os auspícios de uma agência Leis Universais de Noé, que D’us
em sua identificação, quase todas certificadora de Cashrut. espera que todos os seres humanos
as comunidades judaicas proíbem cumpram. É importante observar
o consumo de qualquer tipo de Conhecer os animais que são casher e que os peixes casher não necessitam
gafanhoto. os que não o são é apenas o primeiro de Shechitá. Contudo, antes de
passo no cumprimento das leis comê-los, é preciso ter certeza
As frutas, os legumes e os grãos são, de Cashrut. Há inúmeras leis que absoluta de que estão mortos.
em geral, sempre casher. Contudo, é determinam como o animal deve ser
imprescindível saber se não contêm abatido e que partes do Um aspecto muito importante das
Leis de Cashrut diz respeito ao
sangue do animal abatido. A Torá
proíbe, terminantemente, o consumo
do sangue de animais e aves. Dentro
de 72 horas após o abate, todo o
sangue extraído é drenado da carne
por meio de um processo especial
de imersão e salgamento. Apesar
de ser permitido comer os ovos
das espécies casher, estes devem ser
cuidadosamente examinados para
garantir que não têm mancha de
sangue.

Outra importante e bem conhecida


lei de Cashrut é a proibição de
se combinar carne e leite. Não
podemos cozinhar, comer ou
aproveitar, de nenhuma maneira, a
combinação carne e leite ou qualquer
produto derivado de leite. Segundo a
Torá, um produto lácteo é qualquer
alimento que contenha leite de um
insetos. O vinho e o suco de uva ou mesmo podem ser consumidas. animal casher. (O leite de um animal
qualquer coisa que seja feita com os Os mamíferos e pássaros casher são não casher, como o camelo ou o
mesmos – como vinagre de vinho e abatidos mediante um processo porco, não é casher e não pode ser
conhaque – precisam da certificação especial, a Shechitá, pelo qual a consumido, de qualquer maneira).
casher. garganta do animal é cortada, O leite de soja, de amêndoa e de
rápida e com precisão, e de arroz não são produtos lácteos e,
O Talmud (Avodá Zará 29b, forma relativamente indolor, com portanto, podem ser consumidos
35a-35b) proíbe o judeu de comer uma faca especial, muito afiada juntamente com a carne.
queijo que não foi produzido e perfeitamente lisa, chamada
sob supervisão rabínica. Apesar chalaf. Se o animal não é abatido Muitos pensam, erroneamente, que
de haver muitas razões para essa propriamente segundo a Lei Judaica, as leis de Cashrut, particularmente
proibição, a maioria das autoridades sua carne se torna não casher. E mais, a proibição de misturar leite com
argumentam que a proibição foi a carne de um animal que morre ou carne, não se aplica às aves, como
feita em virtude do uso de coalho é abatido por outro meio que não a galinha. Errado. É terminantemente
– que é tradicionalmente derivado Shechitá tampouco é casher. Também proibido misturar carne de aves
do revestimento do estômago do é estritamente proibido comer carne com leite ou outro produto lácteo.
bezerro -, usado na produção de removida de um animal enquanto Deve-se guardar um intervalo entre

16
REVISTA MORASHÁ i 93

a ingestão de qualquer tipo de carne comidos com carne ou com leite. cumpridor da Torá deve presenciar
ou ave e um produto lácteo – em As frutas, ovos, peixes, legumes o processo da ordenha do início ao
geral, seis horas. Por outro lado, e grãos são Parve. Os peixes são fim para assegurar que somente foi
após consumir qualquer tipo de considerados Parve, pois a Torá não usado leite de animais casher. Por
laticínio – por exemplo, tomar leite considera significativa a pequena essa definição, somente o leite que
ou sorvete – basta comer ou beber quantidade de sangue que possuem. é produzido sob inspeção rabínica é
qualquer outra coisa para “limpar a Por isso eles não requerem a prática casher. No entanto, em certos países
boca” de qualquer resíduo de comida, da Shechitá. Os ovos também são ocidentais, é ilegal a comercialização
antes de comer carne. No entanto, Parve, ainda que se originem de um de leite de animais não casher. Por
segundo o Zohar, após consumir animal. É interessante observar que isso, algumas autoridades Haláchicas
um produto lácteo, deve-se esperar o mel, apesar de ser produzido pela permitem que se use leite comum
uma hora inteira antes de comer abelha, que não é um animal casher, e produtos lácteos casher que usam
carne. Algumas comunidades têm é considerado um alimento casher leite comum (como o sorvete Häagen
o costume de esperar meia hora, e Parve. Isto porque a Torá não Dazs), pois confiam na inspeção do
apenas. Esse breve intervalo antes de considera o mel um produto animal. governo como garantia suficiente.
ingerir carne se aplica à maioria dos Isso é especialmente válido nos
produtos lácteos, como leite, sorvetes Leis adicionais Estados Unidos. Essa questão é
e queijos macios. Se o queijo for do da Cashrut muito controversa e vai muito além
tipo duro ou de sabor muito forte, do escopo deste artigo. Muitas
tipo suíço ou parmesão, o costume O Talmud ensina esta regra prática: comunidades judaicas da Diáspora
é esperar pelas seis horas completas o que vem de um animal casher é aceitam essa concessão, enquanto
antes de comer carne. casher, e o que vem de um animal não outras se opõem radicalmente.
casher não é casher. Portanto, apenas
Há muitos alimentos que a Torá não o leite e os ovos de um animal casher Outra questão da Cashrut
considera nem carne nem laticínio. são casher. E o leite que se compra relaciona-se ao pão e produtos
Estes caem em uma categoria no supermercado, é casher? As leis de panificação. Segundo as leis
chamada de Parve, e podem ser de Cashrut estipulam que um judeu da Torá, é permitido comer pão

17 SETEMBRO 2016
nossas leis

comprado em uma padaria. No dissuadir os judeus de comerem


entanto, é preciso certificar-se que carne de porco. No entanto, se essa
nenhum ingrediente não casher foi fosse a razão para a proibição, em
utilizado em sua fabricação. Muitas vez de proibir, a Torá poderia dar um
comunidades judaicas são rigorosas conselho melhor: cozer a carne por
a esse respeito e só consumem pão várias horas antes de comê-la.
e produtos de panificação feitos
em padaria que cumpra as leis da Outros alegam que a Torá proíbe o
Cashrut. É importante observar que consumo do porco porque o animal
essa preocupação também se aplica era usado para fins de idolatria.
a outros produtos industrializados; Já outros alegam o contrário: que o
sempre é possível que um alimento porco nem se prestava à idolatria,
comprado no supermercado portanto também não serve para
contenha ingredientes não casher. o consumo. Esses argumentos não
Por isso, muitos judeus somente têm muita base, porque muitos
compram produtos cuja produção foi animais, inclusive os que são casher,
supervisionada por uma organização também foram usados para idolatria
certificadora de Cashrut. e também há animais casher que não
fendido e rumina; o outro tem casco prestam para a idolatria.
Concluímos aqui nossa breve fendido, mas não rumina. Mas, e daí?
introdução às leis da Cashrut. Por que é pecado consumir a carne Como vimos acima, há sinais que
Queremos enfatizar que há de um animal que não rumina? Da determinam se um animal é casher
muitas outras leis que não foram mesma forma, por que o golfinho – casco fendido e que ruminam,
contempladas neste artigo. Para não é casher e o salmão é? O salmão barbatanas e escamas – mas não
estudá-las, particularmente as que tem escamas e o golfinho, não. parece haver explicação clara para
tratam dos pratos e dos utensílios Repetindo: e daí? Qual o pecado de que o consumo de certos animais
da cozinha, recomendamos que se comer uma espécie de peixe que não seja permitido e o de outros, não.
consulte um rabino competente ou possui escamas? E tentar justificar as razões para os
uma autoridade em Cashrut. mandamentos da Torá como sendo
Perguntas semelhantes podem próprios para o benefício físico
Razão para as ser feitas acerca de qualquer outra parece leviandade. Isso não significa,
leis de Cashrut lei da Torá. Mas a questão dos no entanto, que tais justificativas
alimentos casher e não casher chama sejam necessariamente infundadas e
No terceiro livro da Torá, Levítico, especialmente a atenção em virtude pode-se argumentar que, de modo
na porção de Shemini, lemos sobre da importância dessas leis em nossa geral, comer carne de vaca é mais
as leis dietéticas do Judaísmo. vida diária. O que podemos ou não saudável e seguro do que de porco.
A Torá nos ordena “... separar entre comer ocupa muito de nosso tempo, Também é verdade que a Torá
o impuro e o puro, e entre o animal interesse e atenção. nunca nos ordenaria fazer algo que
que é para comer e o animal que não claramente fosse nocivo ao nosso
se deve comer” (Levítico, 11:47). Comentaristas da Torá, rabinos e organismo. Como nos ensina o
pensadores têm tentado resolver Midrash: “Nada maligno provém
Como vimos acima, há certos os enigmas levantados pelas leis da das Alturas” (Genesis Rabá 51:3).
animais que temos permissão Cashrut. Alguns alegam que comer Em outras palavras, D’us jamais
de comer e outros cujo consumo animais não casher faz mal à saúde. nos ordenaria fazer algo que nos
nos é terminantemente proibido. O porco é um exemplo disso. causasse dano físico. Contudo, é um
As diferenças entre os animais A carne de porco vem infestada exagero deixar tudo por conta disso
casher e não casher levantam dúvidas de vermes, às vezes, e se não for bem e buscar apenas o benefício físico
que desafiam até os maiores cozida pode causar uma terrível de cada mandamento. O Maharal
comentaristas da Torá. Por exemplo, doença, a triquinose, causada por de Praga, Sábio e Cabalista famoso
por que a vaca é um animal casher parasitas. Esse argumento vem por ter concebido o Golem, criticava
e o porco não? Bem, um tem casco sendo usado repetidamente para duramente as explicações médicas

18
REVISTA MORASHÁ i 93

para os Mandamentos, perguntando se preocupa com o sofrimento dos


se seria concebível que a Torá se animais somente deveria comer carne
resumisse a artigos de uma revista casher. O problema é que alguém
médica (Tiferet Israel 8). que realmente se preocupa com os
Quando discutimos as leis da Cashrut animais não come carne animal.
ou, até mesmo, qualquer outra lei do A lei da Torá não vai contra essa
judaísmo, devemos lembrar-nos que opção, tendo havido, mesmo, grandes
a Torá é uma obra de autoria Divina. rabinos que se abstinham de comer
Na maioria dos casos, o conteúdo de carne.
um livro é mais importante do que
quem o escreveu. Um livro brilhante Outro argumento para que se guarde
escrito por um autor desconhecido a Cashrut é que, como dissemos
tem mais valor do que um trabalho acima, comer porco e mariscos pode
inexpressivo escrito por um autor fazer mal à saúde. Mas o mesmo
de renome. Mas quando o autor é se pode aplicar a comer açúcar e
D’us, Todo Poderoso, Ser Perfeito, é gorduras em demasia – e a Torá não
evidente que Seu trabalho também os proíbe.
é perfeito. Foi Ele quem escolheu
o que incluir e o que não incluir categoria de mandamentos são os Quem estuda a Cabalá sabe que
na Torá. Ele não apenas é o Rei do Edut (Testemunhos), que celebram há razões místicas em prol da
Universo e o Juiz Final, mas também as obras e maravilhas Divinas. Entre alimentação casher. Por exemplo,
o Legislador Supremo. O conteúdo estes estão a guarda do Shabat (que uma das razões para não se comer
da Torá não foi escolha de um ser testemunha o fato de que D’us criou carne e leite juntos é o fato de que
humano caprichoso, mas de um Ser o Universo) e Pessach (que celebra o a carne significa a morte de um
Onisciente, Onipotente e Eterno. Êxodo do Egito). Por fim, a terceira animal, que é simbolizada pela Sefirá
Nossos Sábios ensinam, pois, que classe de mandamentos são os de Guevurá (severidade), ao passo
a Torá é a Vontade e Sabedoria Chukim (Decretos), popularmente que o leite, que é um símbolo de vida
Divinas, que D’us compartilhou com conhecidos como os mandamentos e crescimento, representa a Sefirá de
o homem quando Se revelou ao Povo não racionais – aqueles cujos motivos Chessed (bondade), e não devemos
Judeu no Monte Sinai. não são tão óbvios. O mandamento misturar as duas. Mas, por quê? Não
que simboliza os Chukim é o ritual faria sentido temperar a severidade
Como a Torá é produto da Vontade da Pará Adumá – a vaca vermelha. com alguma bondade, como muitos
e Sabedoria Divinas, é eterna e fazem durante o Kidush da noite
infinita, assim como seu Autor. É A que classe de de 6a feira, quando colocam um
incrível que nós, seres humanos mandamentos pouco de água (que, como o leite,
limitados, possamos compreender pertencem as leis da representa Chessed) no copo de vinho
parte da mesma. E a razão para Cashrut? (que também representa Guevurá)?
isso ser possível é porque D’us
“revestiu” a Torá com “vestimentas Algumas pessoas bem-intencionadas, Outro argumento místico oferecido
racionais” – ou seja, Ele permitiu que na tentativa de influenciar outros para promover as leis da Cashrut é
os mandamentos da Torá fossem, judeus a seguirem as leis da Cashrut, que quando comemos a carne de um
até certo ponto, compreensíveis ao classificam-nas de Mishpatim – leis animal, nossa alma é influenciada
homem. racionais. De fato, podemos encontrar por sua natureza. Nachmânides,
uma infinidade de razões para que a grande Sábio e Cabalista do século
Os 613 mandamentos da Torá se pessoa coma apenas comida casher. 12, assinala que “os pássaros e
dividem em três categorias gerais. No entanto, o problema com esses muitos dos mamíferos proibidos
Os primeiros são os Mishpatim argumentos é que todos podem pela Torá são predadores, ao passo
( Julgamentos) – os chamados ser refutados. Por exemplo, como que os permitidos não o são: somos
mandamentos racionais. Entre os vimos acima, a Shechitá é uma forma instruídos a não comê-los, para não
Mishpatim estão as proibições contra relativamente indolor e menos cruel absorver essas qualidades malignas”.
assassinato e roubo. A segunda de abater um animal. Por isso, quem Segundo esse ponto de vista, a

19 SETEMBRO 2016
nossas leis

Cashrut é “nutrição espiritual”: assim como há preferiram a fogueira porque para eles comer
alimentos que são bons para o corpo e outros porco não era diferente do que se curvar
que são nocivos, há alimentos que afetam nossa perante ídolos. Era o mesmo que renegar a sua
alma positivamente e outros, negativamente. identidade judaica.
Na verdade, os animais casher são, em geral,
menos agressivos que os não casher. Seria esta Devemos, então, fazer a seguinte pergunta:
a razão para a vaca e o carneiro serem casher Quais as razões para que os judeus sacrifiquem
enquanto o leão e a cobra não? Talvez. Mas, seu conforto e até sua vida guardando as
cabe a pergunta: não ser agressivo é sempre uma leis da Cashrut? Seriam razões de saúde?
virtude? Seriam razões espirituais? Seriam questões
relacionadas às Sefirot? Essa mesma pergunta
Está claro que para cada argumento pode ser feita acerca de praticamente
promovendo as leis da Cashrut há um contra- todos os mandamentos da Torá: mesmo se
argumento. A tentativa de defender as leis argumentarmos que quem guarda a Torá e os
da Cashrut apenas por meio de motivos mandamentos terá sucesso nos negócios, na
racionais prova ser futilidade. Interessante, no vida conjugal, nos relacionamentos pessoais –
entanto, é o fato de que as leis da Cashrut com ainda assim, esse sucesso merece que se dê a
frequência são o fator decisivo da identidade vida por ele? A resposta é ‘não’. Quando nos
judaica de uma pessoa. Através da História, e aproximamos da Torá, não podemos considerar
particularmente durante a Inquisição, muitos vantagens pessoais.
judeus tinham que escolher entre comer
porco ou arder na fogueira. Muitos optaram Por que, então, guardamos as leis da Cashrut?
pela fogueira. Preferiram morrer a comer Pela mesma razão que guardamos todos os
Bibliografia porco, porque para eles isso era um teste demais mandamentos da Torá: porque D’us
What is Kosher para seu Judaísmo. Ao forçar os judeus a nos disse que assim o fizéssemos. Ao cumprir
www.chabad.org violar um mandamento da Cashrut, os a Vontade Divina, conectamo-nos com D’us.
Rabi Adin (Even Inquisidores não apenas tentavam fazer com Essa é a razão para sermos casher. Todas as
Israel Steinsaltz) –
Talks on the Parsha que eles violassem um decreto da Torá – demais razões, sejam físicas ou espirituais,
- The Toby Press queriam forçá-los a renunciar à sua fé. Muitos são secundárias.

20
ISRAEL

MEU IRMÃO JONATHAN


POR ZEVI GHIVELDER

Quem hoje tem 40 anos de idade, ou está chegando aos 50,


decerto não vivenciou aqueles dias tensos de junho e julho
de 1976, portanto há quatro décadas, quando um avião da Air
France, partindo de Tel Aviv, foi sequestrado por terroristas
e levado para o aeroporto de Entebe, em Uganda. A aeronave
conduzia 246 passageiros, dos quais 77 eram cidadãos de
Israel. No dia 4 de julho, uma espetacular ação de comandos
israelenses pôs fim ao cativeiro dos reféns.

N
a operação disparada pelo exército a memória de Jonathan do que seria uma estátua
de Israel para libertá-los só houve em praça pública ou quaisquer outras homenagens
uma vítima fatal, o coronel Jonathan rotineiras.
Nethanyahu, então com 30 anos de idade,
justamente o comandante da tropa de Iddo é formado em medicina pela Universidade
elite que executou o extraordinário resgate. Hebraica de Jerusalém e fez doutorado em radiologia
A vida e a carreira de Yoni, como era chamado por no Georgetown University Hospital, em Washington.
seus familiares e amigos, estão registradas num Atualmente dedica a maior parte de seu tempo à
livro escrito com ternura e admiração por seu irmão literatura. É autor de cinco livros e de peças de teatro
Iddo, seis anos mais moço do que Yoni, e três anos encenadas na Europa e na Rússia. A rigor, tudo aquilo
mais jovem do que seu outro irmão, Benjamin, atual que ele narra sobre Entebe assume a dimensão de
primeiro-ministro de Israel. O relato de Iddo é mais palavra definitiva.
focado nas qualidades de líder militar de Jonathan
do que em recordações do convívio íntimo com Jonathan Nethanyahu nasceu no dia 13 de março de
os pais e irmãos. Neste sentido, ele se dedicou a 1946, em Nova York, onde seus pais, Benzion e Cela,
uma exaustiva pesquisa sobre o resgate em Entebe, atuavam na Organização Sionista. Benzion, renomado
colhendo entrevistas com mais de 70 pessoas, entre estudioso da história judaica, ali se encontrava na
civis e militares envolvidos na operação no aeroporto qualidade de secretário de Jabotinsky, formulador e
em Uganda, além de ter consultado centenas de líder do sionismo revisionista. Benzion assumira a
documentos. De qualquer maneira, sua narrativa chefia do movimento após a morte de Jabotinsky, em
compõe um atraente perfil da personalidade e do 1940. Logo após a proclamação da independência de
caráter de Yoni, além de transcrever trechos de cartas Israel os Nethanyahu se fixaram em Jerusalém, onde
por ele escritas e de acrescentar diversos pormenores nasceram Benjamin e Iddo. Anos mais tarde, a família
que contribuem para enriquecer a biografia de seu retornou aos Estados Unidos onde Benzion intensificou
irmão. Na verdade, o livro é mais eloquente para suas pesquisas acadêmicas sobre os judeus na época

21 setembro 2016
ISRAEL

Primeiro Ministro Netanyahu sentado ao lado do túmulo de seu irmão, Yoni

da Inquisição, assunto a respeito subcomando da unidade Sayeret do sequestro de oficiais sírios de


do qual escreveu um livro que até Matkal, consagrado grupo de alto escalão, dentro do próprio
hoje é tido como referência. Em comandos a cujos integrantes território sírio, que posteriormente
1964, depois de concluir o ensino chegam a ser atribuídas façanhas foram trocados por pilotos
médio em Filadélfia, Yoni voltou fantásticas que nem têm como israelenses prisioneiros em
para Israel. Ao ter que prestar o ser confirmadas por motivos de Damasco.
serviço militar obrigatório, optou segurança. Iddo não revela as
pelo corpo de paraquedistas. Três ações das quais Yoni participou, Em 1973, novamente resolveu
anos mais tarde, já aceito pela mas sabe-se que esteve à frente estudar em Harvard. Divorciou-
Universidade de Harvard, adiou se de Tuti e, mais uma vez, teve
a ida para os Estados Unidos e que adiar seus planos em função
combateu na Guerra dos Seis Dias, da irrupção da Guerra do Yom
tendo participado de batalhas no Kipur. Neste conflito, Yoni foi
Sinai e no Golã. Em seguida, condecorado após comandar uma
antes de embarcar, casou-se operação que resgatou com vida o
com Tuti, sua namorada desde a tenente-coronel Yossi Ben Hanan,
adolescência. Os dois regressaram que jazia ferido atrás das linhas
a Israel no ano seguinte e se inimigas. Dois anos depois foi
matricularam na Universidade nomeado comandante do Sayeret
Hebraica onde Jonathan optou Matkal, posto que já fora ocupado
pelos cursos de matemática e por Ehud Barak, mais tarde
filosofia. No entanto, antes de primeiro-ministro de Israel. Esta
terminar esses cursos, decidiu era a função de Jonathan quando
reingressar no exército. Por suas ocorreu o sequestro do avião da
qualidades, acabou assumindo o Yoni Netanyahu Air France. Conforme assinalei,

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REVISTA MORASHÁ i 93

para quem não acompanhou ao Nenhum dos oficiais presentes fez


vivo os acontecimentos daquele fim qualquer pergunta. Pelo contrário.
de junho e começo de julho 1976, Falaram entre cochichos que fariam
impõe-se fazer um resumo. treinamentos, que ajustariam seus
equipamentos e que tudo daria
Era domingo, 27 de junho, dia em nada porque o gabinete jamais
da habitual reunião semanal aprovaria um plano tão sem base
do gabinete israelense. Assim, como aquele. Além disso, ficaram
tanto o primeiro-ministro Rabin sabendo que o ditador de Uganda,
como os demais ministros foram Idi Amin, estava em conluio com
informados ao mesmo tempo sobre os sequestradores, o que tornava
o que acontecera com o Airbus da qualquer iniciativa para o uso da
Air France. Os presentes à reunião força praticamente inviável. Às 11
foram incumbidos de diferentes horas da manhã de quarta-feira, dia
tarefas como a do responsável pelas 30, Peres, Gur e Peled decidiram O serviço de
relações exteriores, Igal Allon, que convocar, para trocar ideias, dois inteligência de
entrou em contato com o ministro militares nos quais depositavam total
do mesmo nível em Paris. confiança: o general Dan Shomron Israel fez construir
e o coronel Jonathan Netanyahu. uma maquete, em
O Airbus pousou no aeroporto de Ambos acabariam desempenhando
Entebe às 3h15m da manhã de funções cruciais em todas as etapas
tamanho real,
segunda-feira. Em Jerusalém, o da operação de resgate. Mas, naquele das edificações
ministro da defesa, Shimon Peres, momento, as opções ainda eram no aeroporto de
ponderava com seus auxiliares, sem muito nebulosas.
se dar conta de que estava sendo Uganda, que serviria
profético, que talvez fosse possível No dia do prazo fatal, quinta-feira, para o treinamento
enviar até Uganda aviões do tipo soube-se que as renovações no
Hércules, enormes, destinados ao aeroporto de Entebe, incluindo o dos homens do
transporte de carga e de tropas. velho terminal onde se encontravam Sayeret Matkal
Na terça-feira, Peres recebeu uma
lista com os nomes de terroristas
presos em Israel, Alemanha,
França e Suíça, com a proposta
dos sequestradores de que todos,
num total de 53, fossem trocados
pelos reféns. O prazo para a
aceitação da proposta era o dia
1 de julho, às 14 horas. À noite,
o chefe do Estado-Maior, Motta
Gur, e o comandante da Força
Aérea, Benny Peled, se reuniram
com Peres. Sim, insistiu Peled, era
possível fazer os Hércules voarem
até Uganda sem escalas. Enquanto
isso, no quartel do Sayeret Matkal,
Jonathan falava a seus comandados:
“Nossa missão será chegar de
alguma forma até Entebe e libertar
os reféns. Pode parecer exagero,
mas sei que isto é possível”.

23 setembro 2016
ISRAEL

de Yoni à frente do Sayeret Matkal.


Os militares sob seu comando
treinavam até a exaustão: como
agiriam depois de atingir o terminal
antigo do aeroporto e como usariam
suas armas de modo a atingir
somente os terroristas e a evitar
ferimentos ou mortes entre os reféns.

A principal motivação de Jonathan


era reduzir o tempo de duração de
cada investida. Entre um exercício
e outro a diminuição de apenas um
minuto ou pouco mais era motivo
de celebração. Pouco depois da
meia-noite, Yoni deu o treinamento
por encerrado e foi para casa a fim
de dormir algumas poucas horas
antes de voar rumo a Uganda. Sua
nova mulher, Bruria, lembra-se de
os reféns, haviam sido feitas por uma relutou, mas Shomron lhe disse que o viu no chuveiro, com a água
companhia construtora israelense que o mais importante de tudo era escorrendo sobre o corpo, encostado
que logo forneceu às autoridades as a manutenção do fator surpresa, na parede e com os olhos fechados.
plantas dos prédios do aeroporto. As tal como havia sido concebido, a Estava dormindo em pé. Ao escrever
coisas começavam a se clarear. Às partir de uma eficiente colaboração sobre este momento na vida de seu
dez horas daquela manhã o gabinete prestada por Yoni Nethaniahu, irmão, Iddo diz que, no começo
se reuniu para decidir, em princípio, especialista em ações de comandos, do treinamento, Yoni estava um
se Israel empreenderia, ou não, uma sempre rápidas, contundentes tanto desgostoso por causa de uma
ação militar. Enquanto o gabinete e inesperadas. O general Gur supervisão informal de seu trabalho
discutia, Dan Shomron elaborou objetou, arguindo que os Hércules feita por Ehud Barak que, àquela
um plano de ação de comandos estariam impossibilitados de aterrar altura, já se havia aposentado do
que entregou a Peres às três da em Entebe, nas pistas sem luzes Sayeret Matkal.
tarde. Este logo determinou que os do aeroporto. Foi a vez de Peled
comandantes do Exército e da Força intervir: “Há muitos voos comerciais Assim, Jonathan respirou aliviado,
Aérea traçassem um detalhado plano chegando e saindo de Entebe. e até se desdobrou, quando Barak
de entrosamento com vistas a uma Duvido que a torre de controle foi enviado para o Quênia, com a
incursão em Entebe, a chamada ugandense se preocupe em apagar missão de obter a permissão das
Operação Trovão. as luzes das pistas”. Em seguida, autoridades para que os Hércules
um dos principais formuladores do vindos de Uganda, depois do resgate,
O serviço de inteligência de Israel plano de ação, o general Kuti Adam, pudessem ser reabastecidos no
fez construir uma maquete, em teve uma excelente ideia: um dos aeroporto de Nairóbi. Se Barak não
tamanho real, das edificações no Hércules deveria levar uma limusine fosse bem sucedido, todo o plano da
aeroporto de Uganda, que serviria preta, da marca Mercedes Benz, pois Operação Trovão seria jogado no lixo.
para o treinamento dos homens do este era o tipo de veículo usado por Foi com enorme alívio que Rabin
Sayeret Matkal. Na tarde daquele dia Idi Amin em suas eventuais idas ao e Peres receberam seu comunicado
2 de julho foram dados os retoques aeroporto. Se a Mercedes chegasse de que estava tudo acertado com o
finais do plano de ação de resgate, a rodar na pista de Entebe, a torre governo do Quênia.
que consistia em mandar três de controle acreditaria tratar-se do
aviões Hércules até Entebe e mais ditador ali chegando após participar À uma hora da manhã de sábado,
um, do mesmo tipo, transformado de uma conferência fora do país. 3 de julho, Gur informou a Peres
em hospital voador. Motta Gur Enquanto isso, era febril a atividade que tudo estava pronto para a

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REVISTA MORASHÁ i 93

operação salvo um pequeno ajuste, o número de mortos e feridos numa Em seguida, Yoni e Muki sentaram
o hospital voador seria um Boeing operação dessa natureza”. Depois de no banco da frente da Mercedes
acompanhando quatro Hércules muita discussão, Rabin advertiu aos e o primeiro começou a ler um
designados para a missão. Em presentes: “Fiquem cientes de que se livro. (Iddo jamais conseguiu saber
seguida, o primeiro-ministro Rabin o resgate fracassar, nós todos teremos que livro era). Eles viram o oficial
indagou a Gur a que horas os que renunciar aos nossos postos no Amitzur colocar na antena da
aviões deveriam decolar. Resposta governo”. Foi chamada uma votação Mercedes uma pequena bandeira
precisa: sairiam de Sharm El Sheik, na qual os ministros aprovaram em de Uganda. Amitzur se lembra de
ao sul de Israel, à uma hora da caráter unânime a Operação Trovão. ter conversado com Yoni naquele
tarde. Rabin convocou uma reunião Aquela tinha sido a mais angustiante momento: “Ele não me falou
do gabinete para as 14 horas no decisão tomada por um governo de sobre o que faríamos no aeroporto
sentido de obter a necessária Israel desde a independência do país. de Entebe. Enfatizou, isto sim,
aprovação para o ousado plano de como era importante tudo o que
resgate. Alguns ministros ficaram No Hércules 1 os militares estavam estávamos a ponto de fazer”.
perplexos, mas, mesmo assim, imprensados entre armamentos,
aprovaram. Outros preferiam um equipamentos e dois veículos do tipo Durante o voo, mais ou menos a
acordo com os sequestradores Land-Rover, que acompanhariam cada vinte minutos, Dan Shomron e
mesmo que não fosse apenas a Mercedes, tal como fazia Idi Netanyahu indagavam ao navegador
para ganhar tempo. O gabinete Amin. Os rapazes falavam pouco sobre a exata posição do Hércules
ignorava que os Hércules já haviam entre si e em voz baixa. A certa e o acompanhamento do plano
acionado seus motores para partir altura do voo puderam avistar o de voo. Por enquanto tudo estava
rumo a Uganda, tomando o maior deserto saudita que se estendia até o perfeito. Shomron lembra que a
cuidado para não serem detectados Oceano Índico. A bordo, Jonathan certa altura um oficial chamado
pelos radares egípcios ou da Arábia e o oficial Muki se empenhavam Einstein começou a distribuir
Saudita já que estariam voando em dar instruções detalhadas ao pedaços de bolo para os soldados.
perto da Península Arábica e sobre oficial Amos Goren que embarcara Yoni pegou o seu e mais um.
grande parte do Mar Vermelho, no último momento, substituindo Ofereceu-o ao copiloto, que lhe
costeando o continente africano. um militar que adoecera. Anos respondeu: “Não, obrigado, eu quero
Um dos ministros perguntou a Gur depois, Goren recordou: “Foi no um pedaço do meio e não da ponta”.
quantas baixas ele calculava para meio da explanação que Jonathan Shomron disse a Jonathan o que
aquela ação. Gur respondeu que me dava que nos chegou a notícia lhe passara pela cabeça naquele
antecipava poucas baixas para os de que o gabinete tinha aprovado a instante: “Se alguém ainda consegue
militares israelenses, mas admitia operação. Jonathan continuou a falar ser arrogante numa hora como
que cerca de vinte reféns pudessem na maior calma como se fossemos essa, é sinal de que estamos no
ser atingidos: “É impossível prever fazer apenas mais um treinamento”. bom caminho”. A bordo, Jonathan
encontrou-se com o tenente-coronel
Chaim Oren, a quem conhecia
MERCEDES USADA PELOS ISRAELENSES, COMO PARTE DO PLANO DA MISSÃO EM ENTEBE, 1976
desde o tempo em que servira no
corpo de paraquedistas. Conforme
Iddo apurou, foi seu irmão quem
disse, a certa altura da conversa: “Se
ele estiver lá, eu vou acabar com ele”.
- “Ele quem?” - “Ora, Idi Amin”.
- “Você precisaria de autorização
oficial para fazer isso”. - “Não vou
pedir autorização a ninguém. Acabo
com ele”. Essa atitude, segundo
Iddo, era um traço marcante da
personalidade do irmão: “Yoni
achava que os fatos se justificavam
por eles mesmos. Não era necessário

25 setembro 2016
ISRAEL

RETORNO A ISRAEL DOS REFÉNS DE ENTEBE, 1976

procurar maiores explanações”. embaixo da Mercedes. Um dos A enorme porta traseira do Hércules
Manobrando na direção oeste, os comandos, Shlomo, também tinha começou a ser aberta antes ainda que
Hércules atingiram o continente uma preocupação: queria saber o avião tocasse o solo. Eram 23h1m
africano sobre a Etiópia. Por causa que roupa usar, se estava frio ou de sábado, 3 de julho. O piloto
da turbulência os aviões teriam quente em Entebe. O copiloto não teve dificuldade para aterrar
que se aproximar da fronteira do informou-lhe: mais para o quente. porque as luzes da pista estavam
Sudão, mas era pouco provável O soldado Alik passou a maior acesas. Os primeiros comandos que
que os radares em terra viessem a parte do voo dormindo no banco desceram do Hércules acenderam
constatar que se tratava de aviões traseiro de uma das camionetes. lanternas ao longo da pista para
israelenses. Nas proximidades do Quando foi acordado por Yoni, facilitar a chegada dos demais
lago Vitória a tempestade era tão disse que estava morrendo de aparelhos caso as luzes viessem a ser
forte que os Hércules tiveram que fome porque não comia desde apagadas. Yoni mandou que Amitzur
subir até 40 mil pés. O Hércules- a decolagem em Sharm El pusesse para funcionar a Mercedes
guia enfrentou a adversidade Sheik. Iddo não informa em que, rapidamente, acompanhada
enquanto os três outros ficaram seu minucioso relato se o rapaz pelas Land-Rovers, posicionou-
voando em círculos, esperando encontrou algo para comer se para seguir em frente na pista
a tempestade amainar. Foi nessa naquelas circunstâncias. do aeroporto, na direção ao velho
quadra dos acontecimentos que terminal onde se encontravam 105
Yoni começou a despertar seus reféns, mais a tripulação do Airbus.
homens que dormiam. Instruiu-
lhes que rechecassem suas armas No entanto, antes da limusine poder
e munições, pois em poucos seguir o rumo traçado, Yoni percebeu
minutos estariam pousando em a aproximação de duas sentinelas
Entebe. E acrescentou para cada ugandenses, um pela direita e outro
pequeno grupo de soldados: pela esquerda da Mercedes. Não
“Nada de ter medo. Nós somos hesitou em mandar que os dois
o que há de melhor em matéria fossem eliminados com silenciadores.
de ação militar”. De súbito, uma Amitzur recordou: “O que mais me
preocupação: onde estava Amitzur, impressionou naquele momento foi
que ninguém conseguia achar Yitzhak Rabin com os REFÉNS DE
a calma de Yoni”. À medida que os
dentro do avião? Estava dormindo ENTEBE, 1976 comandos começaram a avançar,

26
REVISTA MORASHÁ i 93

tiveram que se proteger de rajadas


vindas da torre de controle e de
outras janelas do terminal novo.
Com disparos precisos, Kuti Adam
tirou dois soldados ugandenses para
fora do combate.

Um dos sequestradores chegou até


a porta do terminal e percebendo
o que ocorria, engatilhou sua
metralhadora, voltou para dentro e
passou a atirar sobre os reféns. Foi
atingido por dois tiros disparados
por Adam. Isso permitiu que os
comandos entrassem no terminal,
eliminassem os terroristas, e
gritassem para os reféns: “Todos
deitados no chão! Somos nós! REENCONTRO DOS REFÉNS DE ENTEBE COM FAMILIARES, 1976
O exército de Israel! Vocês vão
para casa!” No entanto, alguns
reféns sequer se mexeram porque do Sayeret e ordenou que os reféns perda de sangue era irreparável. Um
realmente não entendiam o que fossem levados para o primeiro avião médico disse para o outro: “Não
estava acontecendo. Enquanto isso, que deveria decolar logo em seguida. adianta”. Ao que este respondeu:
outro Hércules descia em Entebe, Ele temia que chegassem reforços “Tem que adiantar. É o Yoni...”
trazendo a segunda unidade de de Kampala, a capital de Uganda,
assalto, comandada por Shaul situada a poucos quilômetros do Há dez anos escrevi aqui para a
Mofaz, que viria a ser chefe do aeroporto. O Hércules levantou revista um texto a propósito do
Estado-Maior e ministro da defesa voo às 23h52m, ou seja, 51 minutos 30o aniversário do resgate em
de Israel. Competia-lhe a missão depois de sua chegada a Entebe, Entebe. Acho importante reproduzir
de eliminar quem estivesse na torre conduzindo os reféns, dentre os parte do último parágrafo, dado
de controle, a rigor o único lugar quais havia sete feridos, e o corpo sua atualidade. Em setembro de
de forte resistência no aeroporto. inanimado de Yoni. Não tinha sido 1976, dois meses depois da Operação
Mofaz e seus homens foram bem possível qualquer procedimento de Trovão, tive o privilégio de ser
sucedidos. Antes, porém, em seus fato eficaz para salvá-lo. Segundo recebido para jantar com Itzhak e
estertores, um soldado de Idi Amin o relato de Iddo, dois médicos Leah Rabin em seu apartamento em
postado na torre de controle, fez um militares tentaram de tudo para Tel Aviv. Ao longo das conversas,
disparo de fuzil na direção do pátio ressuscitar o comandante, porém a Rabin insistiu em dois pontos:
de manobras do aeroporto. Um só “Jamais, em qualquer circunstância,
tiro que atingiu o coração do coronel um estado soberano deve negociar
Jonathan Netanyahu. com terroristas. E a principal
lição de Entebe é nossos inimigos
Por instinto, Kuti Adam correu saberem que o braço de Israel pode
até o pátio e ali encontrou um ser muito longo”.
médico debruçado sobre Yoni. Pediu
uma avaliação. O médico apenas
murmurou: “É grave, é muito grave”.
Bibliografia
Desde a aterragem do primeiro
Netanyahu, Iddo, Entebbe -
Hércules até aquele trágico desfecho, A Defining Moment in the War on Terrorism,
pouco mais de três minutos haviam editora
Balfour Books, EUA, 2004.
transcorrido. Na falta de Yoni, seu
amigo Adam assumiu o comando ZEVI GHIVELDER é escritor E JORNALISTA

27 setembro 2016
atualidade

Relações entre Israel e Egito,


do tatame à diplomacia
jaime spitzcovsky

Diplomacia e esporte, nos últimos meses, evidenciaram diferentes


momentos das relações entre Israel e Egito. No tatame
olímpico do Rio de Janeiro, o judoca egípcio Islam El Shehaby
protagonizou cena lamentável, ao se recusar a cumprimentar,
no final da luta, o atleta israelense Or Sasson. A hostilidade
desportiva, no entanto, contrastou com o reaquecimento
do diálogo entre Jerusalém e Cairo, colocando os vínculos
bilaterais em nova fase, marcada pela intensificação.

A
pós derrota para um lutador israelense Apesar da preocupação das autoridades olímpicas, há
que depois conquistaria a medalha de uma lista extensa de manifestações antidesportivas em
bronze (uma das duas obtidas por Israel relação a atletas israelenses. Ainda no Rio de Janeiro,
nas Olimpíadas, ambas no judô), Islam El eles foram impedidos de entrar em um ônibus por
Shehaby quebrou uma tradição do tatame integrantes da delegação libanesa. Em 2004, nos Jogos
ao dar as costas a Or Sasson. O público irrompeu em de Atenas, o judoca iraniano Arash Mirasmaeili, então
vaias. A própria delegação egípcia despachou o seu campeão mundial, se recusou a enfrentar Ehud Vaks.
atleta de volta ao Cairo, que carregou na bagagem uma
dura reprimenda do Comitê Olímpico Internacional Mirasmaeili foi recebido com honras em Teerã. Já o
(COI) por sua atitude antidesportiva. caso de Islam El Shehaby foi diferente. Sua atitude
foi elogiada por grupos fundamentalistas, enquanto as
“O presidente do Comitê Olímpico Nacional emitiu autoridades no Cairo insistiram nas críticas. O episódio
uma declaração afirmando respeitar todos os atletas e demonstra ainda o fosso existente entre a política oficial
todas nações presentes ao Jogos Olímpicos”, afirmou do Egito, com quem Israel assinou um acordo de paz
o COI, em nota oficial. “O Comitê Disciplinar (DC) em 1979, e o sentimento anti-israelense disseminado na
considerou que o comportamento (do atleta) ao final opinião pública egípcia.
da competição foi contrário à regras do fair play e
contrário ao espírito de amizade integrante dos Com apoio dos EUA, o presidente Anuar El Sadat e o
valores olímpicos”. premiê Menachem Begin costuraram o acordo de Camp
David, o primeiro a trazer a paz entre Israel e um país
O COI anunciou ainda medidas de prevenção: “Assim árabe. Dois anos antes, em 1977, Sadat havia feito uma
como a severa repreensão, o DC solicitou ao Comitê visita histórica a Jerusalém, incluindo um discurso na
Olímpico Egípcio que garanta no futuro que todos os Knesset (Parlamento). Em 1981, foi assassinado em
seus atletas recebam educação adequada em relação ataque terrorista no Cairo, arquitetado como resposta à
aos valores olímpicos antes de virem às Olimpíadas”. sua aproximação com o Estado judeu.

28
REVISTA MORASHÁ i 93

Presidente Anwar Sadat, do Egito (à esq.), com o Presidente Jimmy Carter, dos EUA, e o Primeiro Ministro Menachem Begin,
de Israel, dão um aperto de mãos “a três” após a assinatura do Tratado de Paz entre Israel e o Egito, em 16 de março de 1979

O sucessor de Sadat, Hosni Em 2011, a chamada Primavera liderados pelo general Abdel Al-
Mubarak, manteve o entendimento Árabe levou à queda de Mubarak. Sisi afastaram o presidente. No
com Israel, mas promoveu uma “paz Em seguida, após um período de ano seguinte, Al-Sisi foi eleito para
fria”. No plano bélico, a guerra estava governo interino, chegou ao poder, presidir o país por um mandato
descartada e, em vários momentos, por meio de eleição, Mohamed de sete anos. Enquanto o Egito
registrava-se cooperação entre Morsi, da Irmandade Muçulmana, mergulhava na queda de braço entre
serviços de inteligência, por exemplo, grupo fundamentalista fundado militares e Irmandade Muçulmana,
no combate ao terrorismo. Mas o no Egito na década de 1920. a Síria testemunhava o início de
governo egípcio de então evitava o O Cairo passava a testemunhar a sua trágica guerra civil, que teve
aprofundamento de laços políticos e implementação paulatina de um como uma de suas consequências
culturais, permitindo ainda na mídia regime religioso. o surgimento do Estado Islâmico.
estatal a sobrevivência de discursos O grupo fundamentalista, ao se
fortemente anti-israelense e até A Irmandade Muçulmana egípcia se fortalecer, passou a contar com a
mesmo antissemitas. transformou, ao longo do século 20, adesão de organização de outros
numa organização com tentáculos países. Foi o caso de terroristas
O regime de Mubarak mantinha a em outros países. Sua ideologia baseados na península do Sinai.
linha implementada há décadas pela influenciou, por exemplo, o Hamas,
liderança do mundo árabe de usar que atualmente controla a Faixa de A presença do Estado Islâmico e
a questão palestina como elemento Gaza. O saudita Osama Bin Laden aliados em solo egípcio e perto da
diversionista, a fim de desviar a construiu visão de mundo a partir da fronteira com Israel levou o Cairo
atenção das suas sociedades dos leitura, entre outros documentos, de e Jerusalém a registar um ponto
problemas domésticos. O sucessor textos da Irmandade Muçulmana. na construção de uma agenda de
de Sadat visitou Israel apenas uma reaproximação. Outros dois fatores
vez, no funeral de Yitzhak Rabin, Em 2013, depois de uma onda de para intensificar o diálogo: Hamas
em 1995. protestos contra Morsi, os militares e Irã.

29 SETEMBRO 2016
atualidade

1 3

1. Ministro Rel. Exteriores do Egito Sameh Shoukry e Primeiro Ministro de Israel Binyamin Netanyahu 2. Os judocas Or Sasson
(Israel) e Islam El Shehaby (Egito) 3. Novo Embaixador do Egito em Israel Hazem Khairat, com o Presidente Reuven Rivlin,
em Jerusalém

Em função dos laços históricos procurado investir nos laços com Importante ressaltar que após o
e ideológicos entre Hamas Jerusalém depois que o governo encontro formal, o chanceler foi
e Irmandade Muçulmana, o israelense, em junho, protagonizou ainda recebido na residência do
governo egípcio percebe o grupo uma reaproximação com a Turquia, primeiro-ministro.
terrorista palestino como ameaça pois autoridades egípcias temem a
estratégica. Portanto, autoridades concorrência de Ancara em projetos No final de julho, foi a vez do premiê
israelenses e egípcias compartilham políticos e, sobretudo, econômicos. israelense evidenciar os novos ares
a preocupação de lidar com um das relações bilaterais. Acompanhado
inimigo comum baseado na Faixa de O chanceler egípcio, Sameh de sua mulher, compareceu à
Gaza. Shoukry, no começo de julho celebração, na embaixada egípcia
realizou a primeira visita de um em Israel, do Dia da Revolução, que
O cenário ampliado do Oriente chefe da diplomacia egípcia a marca a derrubada, em 1952, do rei
Médio demonstra, nos últimos anos, Israel, em nove anos. Mais uma Farouk por uma revolta militar. Em
um agravamento da disputa entre sinalização dos novos tempos: o discurso, Netanyahu agradeceu as
o Irã, país de maioria xiita, e as visitante se reuniu com o premiê iniciativas do presidente Al-Sisi, de
nações sunitas, como Egito e Arábia Binyamin Netanyahu em Jerusalém, buscar intermediar um diálogo com
Saudita, num embate por áreas de contrariando orientação anterior de lideranças palestinas. O presidente
influência. Conflitos como da Síria e evitar reuniões na capital israelense, Reuven Rivlin também compareceu
do Iêmen são alimentados também para realizá-las em Tel Aviv. à recepção. Iniciou seu discurso em
pelos interesses de potências árabe, em mais um sinal diplomático
regionais, que apoiam diferentes A agenda de Shoukry foi noticiada de reaproximação, e em contraste
lados nessas guerras civis. pela página no Facebook, em com a hostilidade demonstrada por
árabe, do Ministério das Relações um judoca egípcio em tatames do
A percepção da ameaça iraniana Exteriores do Egito, numa Rio de Janeiro.
contribui fortemente, nos últimos demonstração de transparência,
anos, para uma aproximação entre para a sociedade egípcia, da nova
Israel e os países sunitas, como atmosfera nas relações entre os jaime spitzcovsky foi editor
internacional e correspondente da
Egito. O Cairo também tem dois países do Oriente Médio. folha de s. paulo em moscou e em pequim.

30
personalidade

Elie Wiesel,
a consciência da humanidade
No dia 2 de julho deste ano de 2016, aos 87 anos de idade,
Elie Wiesel deixou este mundo. Talvez quem melhor o tenha
definido foi o comitê do Prêmio Nobel da Paz de 1986:
“Um dos mais importantes líderes espirituais em uma época
em que a violência, a repressão e o racismo continuam a
caracterizar o mundo... Um mensageiro para a humanidade;
sua mensagem é de paz, reconciliação e dignidade humana”.

A
pesar de ter sobrevivido ao Holocausto Washington e ganhador de inúmeras condecorações
e vivenciado os horrores que a mente além do Nobel da Paz – a lista de seus feitos e
humana não consegue verdadeiramente de suas contribuições é imensa, mas sua vida foi
assimilar, ele não se tornou amargo, definida não tanto pelo trabalho que realizou
tampouco indiferente, pois, como dizia, como pelo amor que dedicou a seu povo e pelo
“a indiferença é a personificação do mal”. Pelo contrário, silêncio que preencheu. Sua vida foi um combate
lutou contra as injustiças, a favor dos oprimidos, dos permanente contra o esquecimento – para ele, a
perseguidos, dos injustiçados, dos famintos. E, acima de “segunda morte” dos milhões de judeus que foram
tudo, lutou a favor de seu povo, de todos os judeus e do assassinados durante a Shoá. Durante anos,
Estado de Israel. após a 2ª Guerra, a Shoá ficou escondida sob um
manto de silêncio. Ninguém queria relembrar ou
Muito tem-se escrito sobre Elie Wiesel e muito falar sobre os tenebrosos anos de domínio nazista,
ainda está para ser escrito; líderes do mundo todo se nem os sobreviventes traumatizados, tampouco os
manifestaram por ocasião de seu falecimento. Para judeus americanos – talvez se sentindo culpados por
o primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, não terem feito mais para resgatar seus irmãos.
ele representava “a vitória do espírito humano sobre Os israelenses, sabras, olhavam para os sobreviventes
a crueldade e o mal”. Para Barack Obama, presidente como sendo alguém que jamais queriam ser, as
dos Estados Unidos, ele era “a consciência do mundo, “vítimas indefesas”. Até surgir Elie Wiesel. Ele queria
alguém que conseguiu mudar o mundo como cidadão que os acontecimentos que destruíram os judeus
mais do que ocupando cargos ou as tradicionais da Europa ficassem marcados a ferro e fogo
posições de poder”. na consciência do mundo. A simples força de sua
personalidade e sua incrível habilidade de transmitir
Escritor, palestrante, filósofo, professor de ciências o que acontecera com frases inesquecíveis, duras e
humanas, ativista dos direitos humanos, presidente cortantes, desenterraram o Holocausto dos livros de
fundador do Memorial do Holocausto dos EUA em História. “Lembremo-nos”, dizia, “lembremo-nos

34
REVISTA MORASHÁ i 93

prêmio nobel da paz de 1986, wiesel diante de uma foto em que ele próprio aparece junto outros internos, no campo de
concentração de Buchenwald, em 1945. museu Yad Vashem, dezembro de 1986

dos heróis de Varsóvia, dos a vencer a morte (...). Devo minha A vida antes
mártires de Treblinka, das crianças memória aos mortos. Tenho o de Auschwitz
de Auschwitz. Eles lutaram dever de servir como seu emissário,
sozinhos, sofreram sozinhos, transmitindo a história de seu Elie Wiesel era o único homem dos
viveram sozinhos, mas não desaparecimento, mesmo se for quatro filhos de Shlomo e Sarah
morreram sozinhos, pois algo em perturbadora, mesmo se trouxer dor”. Wiesel. Ele nasceu em 1928 em
nós morreu com eles”. Sighet, um típico shtetl judaico,
nas montanhas dos Cárpatos, na
Wiesel viveu atormentado por ter Romênia, uma área que fez parte da
sobrevivido. “Se sobrevivi deve ter Hungria de 1941 a 1945. Seu pai
sido por alguma razão”, dizia. Ao era dono de um armazém e a
receber o Prêmio Nobel da Paz, família vivia confortavelmente.
declarou que decidira dedicar sua O mundo do jovem Elie girava em
vida “a manter viva a memória” torno de D’us, de sua família, sua
e a lutar contra todos aqueles comunidade, do estudo da Torá, do
que tentam negar o Holocausto Talmud e dos ensinamentos místicos
– todos os que dizem que não do Chassidismo. Fascinado pelos
aconteceu, ou que não aconteceu contos e lendas chassídicas, sua
da maneira ou nas proporções que ambição era um dia estudar Cabalá.
são historicamente comprovadas.
“Porque”, afirmou Wiesel “se nos Elie não sabia que no fatídico
esquecermos, seremos culpados, 19 março de 1944 a vida dos judeus
seremos cúmplices”. Sua vontade húngaros iria mudar tragicamente
era “arrebatar aquelas vítimas do e que o mundo onde ele vivia
wiesel no verão de 1945, na frança,
esquecimento, ajudar os mortos aos 16 anos de idade seria irremediavelmente destruído.

35 SETEMBRO 2016
personalidade

Naquele dia a Alemanha ocupou Em sua obra, Elie condena os de esquecer dessas coisas, ainda
a Hungria e Adolf Eichmann deu líderes ocidentais que, desde 1942, que eu seja condenado a viver
início à mais rápida das grandes possuíam provas da intenção de tantos anos quanto o próprio D’us.
operações de assassinato do Hitler de aniquilar o Povo Judeu. Nunca”.
Holocausto. O mundo sabia e manteve silêncio.
Por que, se pergunta Wiesel, por O famigerado Dr. Mengele
Já em abril os cerca de 500 mil que ninguém alertou os judeus “julgara” Elie e o seu pai, Shlomo,
judeus do leste da Hungria são húngaros, os de Sighet? Se alguém capazes de realizar trabalhos
confinados em guetos e, em 15 de os tivesse alertado, acusa Wiesel, forçados e, por isso, não foram
maio, têm início as deportações. eles poderiam ter fugido, se enviadas às câmaras de gás, tendo-
Todos os dias, 3 mil judeus eram escondido, milhares teriam sido se tornado escravos obrigados a
amontoados em vagões de gados e salvos... trabalhar até morrer. Os nazistas
levados para Auschwitz – 95% deles tatuaram no braço de Elie sua
morreram ao chegar. Sua primeira noite em Auschwitz, nova identidade, o número que
que ele reconta em seu primeiro o marcava como escravo e não
Os judeus de Sighet estavam livro sobre o Holocausto, ser humano. Depois de algumas
entre os deportados. Em seu livro “Noite”, é uma das passagens semanas, pai e filho foram enviados
“Memoirs, all rivers run to the sea” mais pungentes do livro: “Nunca para trabalhar em Auschwitz III,
(Memórias, todos os rios correm hei de esquecer aquela noite, a um dos subcampos de trabalho,
para o mar) publicado em 1995, primeira noite no campo, que fez também conhecido como Buna.
Elie recorda que tinha 15 anos da minha vida uma longa noite, De todas as terríveis experiências,
quando brutalmente descobriu “o sete vezes amaldiçoada e sete vezes a mais horrorosa foi ter que assistir
Mal absoluto”, quando foi “atirado selada. Nunca hei de esquecer o enforcamento de uma criança
em um universo assombrado onde aquela fumaça. Nunca hei de pequena perante todo o campo de
a história da aventura humana esquecer os rostinhos das crianças, morte. “Atrás de mim”, escreveu,
parecia oscilar irrevogavelmente cujos corpos vi se tornarem “ouvi um homem perguntando:
entre o horror e a maldição”. Ele anéis de fumaça sob um céu azul ‘Onde está D’us agora?’. E eu ouvi
recorda a rapidez da ação nazista: silencioso. Nunca hei de esquecer uma voz dentro de mim responder:
o gueto; a deportação; os vagões de aquelas chamas que consumiram ‘...Aqui, Ele... está bem aqui,
gado vedados. Recorda a chegada a minha fé para sempre. Nunca hei pendurado nesta forca’ ”.
Auschwitz, sua mãe e Tzipora, sua de esquecer o silêncio noturno que
doce irmã caçula, enviadas para as me privou, para toda a eternidade, Durante toda a sua vida, as crianças
câmaras de gás… do desejo de viver.(...). Nunca hei judias capturadas pela loucura
nazista o assombraram. “Eu os
vejo, repetidamente... perseguidos,
acossados, humilhados, curvados
como os velhinhos que os
encobriam, tentando em vão
protegê-los... As pessoas pensam
que um assassino se enfraquece
diante de uma criança; que
a criança pode despertar a
humanidade perdida do assassino.
Não dessa vez. Conosco, foi
diferente. Nossas crianças judias
não causaram nenhum efeito nos
assassinos. Nem no mundo”...

A guerra estava no final e a


Alemanha sabia que estava
elie wiesel e a esposa com seu filho shlomo elisha, em n.y., 1973 derrotada, mas apesar disso a caça

36
REVISTA MORASHÁ i 93

e extermínio dos judeus continuava.


Hitler não desistira de sua guerra
contra os judeus, de sua promessa de
aniquilá-los. No final de 1944, com
as forças soviéticas se aproximando,
os nazistas iniciaram a remoção
dos prisioneiros de Auschwitz para
campos localizados na Alemanha.
Nos últimos dias de janeiro de 1945,
em pleno inverno, as SS evacuaram
os 60 mil prisioneiros, entre eles
Elie e o pai. Os poucos que ficaram
foram libertados no dia 27 de
janeiro pelos soviéticos. Expostos
ao frio extremo sem praticamente
nenhum agasalho, comida ou Presidente Jimmy Carter e elie wiesel, presidente da comissão presidencial sobre o
água, os prisioneiros evacuados holocausto, na celebração do holocausto em 25/4/79, no capitólio, Washington

foram obrigados a caminhar por


longas distâncias, antes de serem A vida depois de que isso significa que parei de ter fé?
despachados para Buchenwald Auschwitz Não. Tenho fé, mas questiono”. Ele
em vagões descobertos. Poucos se tornou mais devoto à medida que
chegaram com vida. Elie viu seu Elie estava entre os 400 órfãos os anos se passavam, indo à sinagoga
pai morrer um pouco, a cada dia. que foram enviados para a França perto de sua casa ou às sinagogas
Quando ele finalmente morreu, para se recuperar, tentando voltar chassídicas de Brooklyn. “Se tenho
em 29 de janeiro de 1945, Elie a ter “uma vida normal”. O jovem problemas com D’us, por que
não derramou uma lágrima sequer, ficou na Normandia numa casa deveria culpar o Shabat?”, perguntou
pois “já não tinha mais lágrimas”, da organização humanitária certa vez.
conforme escreveu no livro “Noite”. judaica OSE (Oeuvre de Secours
aux Enfants). Foi nesse período Como milhares de outros
No dia 11 de abril, Wiesel que soube que suas duas irmãs sobreviventes, Wiesel queria ir para a
estava entre 20 mil prisioneiros mais velhas, Hilda e Bera, haviam então Palestina, mas não estava entre
libertados pelo 3° Exército sobrevivido. os que obtiveram os certificados de
estadunidense. Horas antes da entrada – entre eles, Israel Meir Lau,
entrada dos americanos no campo Elie voltou a estudar os textos o futuro rabino chefe de Israel, e seu
de Buchenwald, prisioneiros judaicos sagrados, em suas palavras: irmão. Quarenta anos depois, ao se
pertencentes a uma organização de “Resgatei meu fervor religioso, encontrar com Elie, o Rabino Lau
resistência conseguiram tomar o talvez como uma maneira de fechar o fez lembrar que fora ele quem lhe
controle, evitando a liquidação dos um parêntese em meu passado ensinara a recitar o Kadish de cor.
judeus. Nos dias que se seguiram, recente... para voltar a encontrar
por causa de uma intoxicação meu caminho”. Continuou sendo Wiesel passou a participar de
alimentar, Elie ficou entre a vida e a judeu praticante pelo resto de sua reuniões de movimentos sionistas
morte. Na última passagem do livro vida, apesar de ter “suas questões e seguia com apreensão a luta dos
“Noite”, Wiesel descreve o momento com D’us”, como costumava dizer, judeus na então Palestina contra
em que conseguiu emergir – ainda pois tinha dificuldade de “conciliar os britânicos. Acompanhava
no hospital para onde fora levado o conceito de um D’us benevolente com interesse o Julgamento em
– do estado de fraqueza absoluta com o mal absoluto do Holocausto”. Nuremberg e os problemas e
em que se encontrava e se olhou no Quando lhe perguntaram se era sofrimentos dos judeus que haviam
espelho pela primeira vez desde a religioso, Wiesel respondeu que sobrevivido e estavam nos campos
deportação. Aquela imagem de si quando jovem “eu era muito, de pessoas deslocadas. Entre eles, sua
próprio, de um cadáver que o olhava muito religioso, mas em Auschwitz irmã Bera. A verdade, aponta Wiesel
e interpelava, nunca o abandonou. questionei o silêncio de D’us... Será em Memoirs, é que “o sofrimento

37 SETEMBRO 2016
personalidade

dos sobreviventes não terminara A alegria, no entanto, veio junto isso simboliza – e também negar
com a guerra; o mundo não queria com um profundo temor, pois Israel a si próprio”... E Wiesel jamais
saber deles, nem antes nem depois... já lutava por sua sobrevivência, esqueceu... Seu primeiro testemunho
Aqueles que foram idiotas e “apesar dos contingentes inferiores sobre seu sofrimento e de todo o seu
retornaram a seus países de origem e do armamento inferior, eles já povo durante a Shoá foi uma obra
quase sempre depararam-se com estavam lutando como nos dias dos de 862 páginas, em iídiche, com o
grande hostilidade...”. Macabeus. Perder seria o fim de um título Un die Welt Hot Geshvign
sonho, o fim de Eretz Israel”. Mas, (E o Mundo Ficou em Silêncio).
Em 1948, mudou-se para Paris e se Israel ganhou, apesar de ter perdido
matriculou na Sorbonne onde cursou parte de Jerusalém. “Gritei, de raiva Um dos que sempre encorajaram
literatura e filosofia. Já dominava e tristeza, quando soube da rendição Wiesel a “prestar testemunho”
o francês, idioma no qual escreveu da Cidade Velha”... em nome dos milhões de pessoas
praticamente todos os seus livros. que tinham sido silenciadas foi
Garantia o sustento dando aulas O reino da memória François Mauriac, prêmio Nobel
de hebraico e escrevendo artigos de Literatura em 1952. Durante a
para várias publicações francesas e “Se há um tema único que domine entrevista que Mauriac concedeu a
judaicas. todos os meus escritos, todas Wiesel, em 1955, o escritor francês
as minhas obsessões, esse tema lhe disse que não conseguia deixar
No dia da Declaração de é a memória, porque temo o de pensar nos milhares de crianças
Independência de Israel, 14 de maio esquecimento tanto quanto o ódio e judias que os nazistas haviam
de 1948, “dia tão esperado, aurora a morte”, afirmava. “Não esqueçam deportado. “Eu fui uma delas”,
de nossos sonhos”, Wiesel escreveu que são judeus, os pais costumavam revelou-lhe Wiesel.
em Memoirs que não conseguira dizer a seus filhos e filhas quando
conter a emoção. “Quando foi que deixavam seus lares... Nenhum Wiesel escreveu uma nova versão
chorei, por último? Foi com o mais outro mandamento bíblico é tão reduzida, de umas 127 páginas,
doloroso sentido de reverência que persistente como o da lembrança... em francês, de suas memórias de
eu recebi o Shabat, o Shabat mais Os judeus vivem e crescem sob o Auschwitz, com o titulo de Nuit
bonito e luminoso da minha vida. signo da memória”. (Noite). Mauriac, a primeira
Aquele Shabat não foi uma oferenda pessoa que a leu, escreveu o prefácio.
a Israel, aquele dia Israel foi uma “Esquecer, para um judeu, é O estilo da obra é tenso, controlado,
oferenda ao Shabat”. negar seu povo – e tudo o que com frases curtas, pois ele queria
que os eventos falassem por si só.
Ao lhe perguntarem o que ele
tinha feito com a versão original,
respondeu: “É uma memória, um
testemunho, por isso julguei que
deveria guardá-lo e um dia talvez o
publique”. O livro foi publicado em
inglês pela editora Wang & Hill,
que lhe ofereceu um adiantamento
de apenas US$100. Embora tendo
recebido boas críticas, o livro vendeu
apenas 1.046 cópias. “Na época,
o Holocausto não interessava”,
Wiesel disse em 1985 à revista
Time. O interesse aumentou
após Adolf Eichmann ter sido
capturado na Argentina e levado
a Israel para ser julgado. Wiesel,
então correspondente de um jornal
recebendo o prêmio nobel da paz, em 1986 judaico americano, estava presente

38
REVISTA MORASHÁ i 93

no julgamento. Em virtude do mas raramente oferecia as respostas.


julgamento, o mundo começou a A verdade, ele escreveu: “Nosso
compreender e reviver a enormidade inimigo pode nos matar, mas ele é
dos crimes alemães. Wiesel foi um impotente perante
dos primeiros sobreviventes do o que nós personificamos”.
Holocausto a expor seus verdadeiros
horrores. Sua fala carismática e Sempre afirmava que não queria
sua escrita prolífica, elegante e, escrever livros acerca do Holocausto;
sobretudo, pungente, trouxeram-lhe nenhum dos sobreviventes o queria.
inúmeros seguidores. Ele passou Mas ele tinha que escrevê-los ao
a personificar o sobrevivente do perceber que se os sobreviventes não
Holocausto. Nos anos que se se expressassem, todo aquele período
seguiram, seu livro “Noite” vendeu seria esquecido. Pior ainda, ajudaria
mais de 10 milhões de cópias. seus detratores a dizer que aquele
Mensageiro horror não tinha ocorrido. “Não
Vivendo desde 1955 em Nova York, transmitir uma experiência é traí-la;
tornou-se cidadão americano em Elie Wiesel escreveu 50 livros de é isso o que a tradição judaica nos
1963 e, em 1969, casou-se com ficção, ensaios e reportagens, duas ensina”.
uma judia austríaca, Marion Ester peças de teatro e até mesmo duas
Rose, também sobrevivente do cantatas. Escreveu sobre os mestres Contar a história era o último
Holocausto. Escritora e editora, chassídicos, profetas bíblicos ou dos desejos dos mortos. “O temor
Marion editou e traduziu muitas judeus soviéticos, sua angústia, do esquecimento era a principal
das obras do marido. Em 1972, o seu despertar, sua coragem. Mas obsessão de todos os que haviam
casal teve um filho, Shlomo Elisha. todos os seus escritos lidavam com passado pelo universo dos
A partir de 1972, Wiesel passou profundas questões que ressoavam condenados. O inimigo contava
a ocupar a Cadeira de Estudos a partir do Holocausto: qual o com o fato de que ninguém iria
Judaicos na Universidade da Cidade sentido de viver em um mundo que acreditar que aquele universo
de Nova York até 1976, quando tolerava a crueldade inimaginável? maldito realmente existira; contava
se tornou Professor de Ciências Como pôde o mundo manter-se com o esquecimento das pessoas.
Humanas na Universidade de mudo? Como continuar crendo em Lembre-se, disse o pai a seu filho,
Boston. D’us? Wiesel lançava as perguntas, e o filho a seu amigo: reúnam os
nomes, os rostos, as lágrimas. Se, por
um milagre, alguém sair daqui vivo,
tentem revelar tudo, não omitindo
nada, não esquecendo nada. Esse foi
o juramento que todos fizemos: ‘Se,
por algum milagre, eu sobreviver,
dedicarei minha vida a testemunhar
em nome de todos aqueles cuja
sombras ficarão coladas à minha
para todo o sempre’”.

Mas, como ele poderia escrever


sobre algo tão terrível? “Eu não
queria usar as palavras erradas”. Ele
via-se assombrado com o que ele
chamava de seu “conflito dialético”:
a necessidade de contar o que tinha
visto e a futilidade de explicar um
evento que desafiava a razão e a
com a esposa, marion imaginação.

39 SETEMBRO 2016
personalidade

Buchenwald com Elie Wiesel em


2009, chamou Wiesel de “memorial
vivo”. Em uma declaração, disse:
“Ele ergueu a voz não apenas contra
o antissemitismo, mas contra o ódio,
o preconceito e a intolerância de
todas as formas. Implorou a cada um
de nós, como nações e como seres
humanos, a fazer o mesmo, a nos
vermos no outro e a tornar realidade
a promessa do ‘Nunca mais’”.

Wiesel sempre falou a favor dos


oprimidos. Condenou os massacres
na Bósnia, Camboja, Ruanda e
a região de Darfur, no Sudão.
Condenou, também, o incêndio
das igrejas dos negros, nos Estados
Unidos, e defendeu os negros da
África do Sul e os prisioneiros
Elie Wiesel, com o presidente Barack Obama e a chanceler alemã Angela Merkel,
em Buchenwald. julho 2009
políticos torturados da América
Latina.
“Nós, sobreviventes, nós todos nem mesmo ter a esperança de
sabíamos que nunca poderíamos entender. E eu pensei que nunca Mas, o sofrimento dos judeus era a
dizer o que tinha que ser dito, que teria condições de falar deles. Todas maior de suas preocupações. Em seu
nunca poderíamos exprimir em as palavras pareciam inadequadas, livro de 1966, “The Jews of Silence:
palavras – coerentes, inteligíveis gastas, tolas, sem vida, e eu queria A Personal Report on Soviet Jewry”,
– nossa experiência de loucura que elas queimassem o coração, (Os judeus do silêncio: Um relato
em escala absoluta. Nossas a alma. O que nós sofremos não pessoal sobre o Judaísmo Soviético),
palavras apenas poderiam evocar encontra palavras na linguagem: ele expôs o drama dos judeus na
o incompreensível. Esta é a maior situa-se em algum lugar além da União Soviética que estavam sendo
tragédia das vítimas. O gueto e vida e da história. Fome, sede, perseguidos por sua religião e, no
os vagões vedados, as crianças humilhação, espera, morte; para entanto, eram impedidos de deixar
arremessadas vivas às chamas, os aqueles que passaram pelo inferno, o país. “O que mais me atormenta,
idosos com a garganta cortada, essas palavras revestem-se de não são os “judeus do silêncio” que
as mães com o olhar desvairado, diferentes realidades. A linguagem conheci na Rússia, mas o silêncio
os filhos impotentes para aliviar do campo de concentração negou dos judeus entre os quais vivo, hoje”,
a agonia dos pais: uma pessoa todas as demais línguas e tomou o disse. Seus esforços ajudaram a
“normal” não consegue absorver lugar das mesmas. Ao invés de unir atenuar as restrições emigratórias.
tanto horror... Um bruto golpeia, um as pessoas, tornou-se um muro entre
corpo cai; um oficial ergue o braço elas. Poder-se-ia escalar esse muro? Wiesel teve um papel primordial
e toda uma comunidade caminha Poderia o leitor ser levado ao outro na criação do Museu Memorial do
em direção a uma vala comum… A lado? Eu sabia que a resposta era Holocausto dos Estados Unidos, em
marcha durante noites flamejantes, ‘não’, mas eu também sabia que o Washington, servindo de presidente
o silêncio antes e após a seleção, a ‘não’ tinha que se tornar um ‘sim’...” da comissão que reuniu grupos de
oração silenciosa dos condenados, o sobreviventes na arrecadação de
Kadish dos que agonizavam, o medo Denunciando a fundos para a construção de uma
e a fome, a vergonha e o sofrimento, perseguição estrutura permanente.
os olhos assombrados – uma pessoa
normal não consegue absorver O presidente Obama, que visitou o Quando o museu foi criado, Wiesel
tanta escuridão, nem pode entender, local do campo de concentração de escreveu que a razão para a sua

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1 2 3

4 5 6

1. Acendendo a “Chama Eterna”, junto com o Presidente Clinton, no Museu do Holocausto,EUA,1993 2. Com o Presidente
Fernando Henrique Cardoso, 2001 3. Com Shimon Peres, 2008 4. No Parlamento húngaro, Budapeste, 2009 5. Com Nathan
Sharansky, 2012 6. Com o veterano da 2a Guerra Scottie OOton, que ajudou a liberar um campo de concentração, em 2013

criação foi homenagear o último Amor por Israel desmantelamento da infraestrutura


desejo das vítimas de contar e nuclear do Irã”.
negar aos nazistas uma vitória Wiesel amava o Povo Judeu, Israel,
póstuma, protegendo o futuro da Jerusalém. Em 2010, publicou Nenhuma citação resume melhor o
Humanidade de que uma tamanha um anúncio no The New York apoio de Elie Wiesel ao Povo Judeu
maldade voltasse a acontecer. Times, “Para mim, o judeu que sou, do que esta: “Existe Israel, ao menos
Sempre manteve a crença de Jerusalém está acima da política. para nós. O que nenhuma outra
que “apesar de que nem todas as Está mencionado mais de 600 vezes geração teve, nós temos. Nós temos
vítimas do Holocausto eram judeus, nas Sagradas Escrituras – e nem Israel apesar de todos os perigos,
todos os judeus foram vítimas do uma única vez no Corão... a primeira as ameaças e as guerras, nós temos
Holocausto”. canção que ouvi dos lábios de minha Israel. Podemos ir a Jerusalém.
mãe foi uma canção de ninar sobre e Gerações e gerações não podiam, e
Wiesel acreditava que o Museu para Jerusalém”. nós podemos”. “É claro para mim
do Memorial precisava manter que não se pode ser judeu sem
viva a lembrança do assassinato Wiesel também se manifestou Israel. Religiosos ou não religiosos,
dos demais grupos: comunistas, contra o acordo do Presidente sionistas e não-sionistas, asquenazis
ciganos, homossexuais, mas a maior Barack Obama com o Irã, ou sefardis – todos eles não existirão
ênfase devia ser dada à aniquilação publicando outro anúncio no sem Israel”.
dos judeus. Falando da singular The New York Times: “Será que
natureza da tragédia judia, disse: não devemos mostrar nosso apoio
“Não quero ser condescendente pelo que pode ser o último aviso Bibliografia
nem minimizar o sofrimento antes de fecharem um terrível Wiesel, Elie, Night. Kindle edition
dos outros. Quero ter a mesma acordo? Como alguém que viu os Wiesel, Elie, All Rivers Run to the Sea:
compaixão por todas as vítimas. Memoirs. Kindle edition
inimigos do Povo Judeu cumprirem
Mas, o Holocausto foi um caso à Wiesel, Elie, And the Sea Is Never Full:
a promessa de suas ameaças de Memoirs. Kindle edition
parte. Pela primeira vez, foi posta exterminar-nos, como poderia me Wiesel, Elie, From the Kingdom of Memory:
em ação uma operação para matar calar?” Wiesel alertou acerca do Reminiscences. Kindle edition
todos os judeus do mundo, onde “objetivo genocida do Irã contra Wiesel, Elie, After the Darkness: Reflections
quer que estivessem”. Israel” e conclamou ao “total on the Holocaust, Ed. Schocken

41 SETEMBRO 2016
israel

Explosão de cores
em Israel

Seja no verão, no inverno, na primavera ou no outono,


é sempre tempo de se admirar as flores em Israel.
Aliando tecnologias avançadas às condições naturais
do país, os produtores israelenses estão conquistando
o mercado europeu com a singularidade das várias
espécies cultivadas no país, assim como aquelas que
crescem como dádivas da natureza.

e
m 1948, o então primeiro-ministro recentes indicam que 90% das peônias, anêmonas, íris
David Ben-Gurion prometeu que o recém- e ciclamens, entre outras espécies, chegam anualmente
criado Estado de Israel faria o deserto ao mercado internacional.
florescer. Quem viaja pelo país atualmente
percebe rapidamente que a promessa Atualmente, a exportação israelense de flores
foi cumprida. De norte a sul do território israelense – in natura ou em sementes e bulbos, plantas e
crescem as mais variadas espécies de flores colorindo materiais de propagação – soma cerca de
a paisagem. Em campos abertos ou em estufas US$ 200 milhões anuais; em 2000, este número
equipadas com avançadas tecnologias são produzidas chegava a US$ 50 milhões. Israel é considerado líder
toneladas de flores que transformaram o Estado mundial na produção de plantas e flores cultivadas em
Judeu no segundo maior exportador para a União clima quente e seco e um dos principais exportadores
Europeia, ficando atrás apenas da Holanda, há décadas de produtos e equipamentos agrícolas de alta
o maior produtor mundial e sede dos maiores e mais tecnologia para a União Europeia. As vendas externas
importantes leilões do setor. No final da década de israelenses em agricultura respondem por mais de
1970, Israel foi o primeiro país estrangeiro a participar 2% do Produto Interno Bruto e, deste total,
dos leilões e feiras da Holanda, dos quais, até então, 30% são principalmente de produtos in natura.
tomavam parte apenas produtores holandeses.
Nem a queda do índice anual de chuva, a aridez
A média anual de 300 dias ensolarados e temperaturas do solo ou as constantes reduções no volume de
relativamente quentes no inverno, principalmente no água destinado à agricultura têm sido capazes de
Deserto do Neguev, são condições ideais para o cultivo enfraquecer a cada vez mais forte indústria das flores
de flores no verão e, também, para o seu crescimento de Israel. Aliás, a maior parte da produção de flores
natural ao longo do ano. Este quadro favorável aliado está concentrada no sul do país, ou seja, na região mais
à tecnologia de ponta tem garantido o crescimento árida, que registra apenas 25 mm de chuva por ano.
da indústria de flores cortadas de Israel. Pesquisas Em sua jornada para se consolidar como um dos

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REVISTA MORASHÁ i 93

SOLDADO ISRAELENSE EM UM CAMPO DE RANÚNCULOS, PERTO DO KIBUTZ NIR YITZHAK, AO SUL DE ISRAEL. (FOTO Amir Cohen/Reuters)

grandes produtores de flores para soluções para esse desafio. hoje distribuídas no país e enviadas
a Europa, o país tem investido Ela viaja o mundo em busca de ao exterior com o selo “Made in
continuamente na pesquisa para o plantas ornamentais que consigam Israel”.
desenvolvimento de novas espécies se aclimatar às duras condições
capazes de se adaptar às condições do meio ambiente israelense, Anêmonas (em hebraico, kalanit),
ambientais da região, ou seja, sobrevivendo ao verão e à seca. ciclamens (rakefet), narcisos
plantas que necessitem cada vez Um dos resultados do esforço (narkis), tremoço (tourmus) e outras
menos água para sobreviver e aptas concentrado dos cientistas é a flores silvestres nativas, como a
a crescer em meio às pedras, ao variedade das plantas ornamentais íris, enfeitam jardins e parques da
asfalto (consequência da urbanização maioria das cidades israelenses.
crescente) e aos espinhos. Mas nem sempre foi assim e muitas
O Centro Volcani para Pesquisa espécies estiveram ameaçadas de
Agrícola e o Centro para extinção. No entanto, a legislação
Floricultura em Regiões Áridas, clara e programas educacionais
órgãos do Ministério da Agricultura, implantados nos últimos 50 anos
são os dois principais institutos que garantem que a primavera se
atuam nessa área, com diferentes transforme em uma explosão de
departamentos. Paralelamente a esse cores mesmo nas regiões mais áridas
trabalho, as universidades israelenses do território nacional.
também mantêm unidades de
pesquisa. Amir Cohen faz parte da terceira
geração de produtores de flores do
A botânica Sima Kagan, do Centro país. Suas gérberas coloridas são
Volcani, tem dedicado seus últimos vendidas por toda a Europa, tendo
20 anos de carreira a encontrar iris sisrynchium conquistado fama por seu padrão

47 SETEMBRO 2016
israel

que os pedidos chegam em dois dias


ao seu destino no exterior.

Um arco-íris de flores

Seja no verão, no inverno, na


primavera ou no outono, é sempre
tempo de se admirar as flores em
Israel, seja em estufas ou em campos
abertos. A melhor época,
no entanto, é entre meados de
fevereiro e final de março, quando
as flores silvestres surgem em
todo o seu esplendor. Nesta época
costuma ser realizado o Scarlet
South Festival, na região nordeste
do Deserto do Neguev, quando
Estufa para flores no Mar da Galileia (Kineret) são organizados passeios gratuitos
em meio a tapetes vermelhos de
anêmonas na Área de Recreação
de alta qualidade e beleza. Em suas Micha, milhares de rosas púrpura Reím e na Floresta Ruhama.
estufas, na cidade de Kfar Yedidia, e amarelo e anêmonas vermelhas Em março, também, é possível
crescem dezenas de milhares de são cultivadas em fileiras mantidas se apreciar o auge da florada das
flores por ano destinadas tanto ao constantemente limpas e úmidas anêmonas e dos botões de ouro no
mercado interno quanto ao externo. pelo proprietário do campo, Beni chamado Campo das Anêmonas em
Segundo Amir, as cores das flores Sharoni. Diariamente, centenas Kfar Yarok. Estas também florescem
variam muito de acordo com a de embalagens cartonadas são ao norte e ao sul da estrada que
época do ano. Enquanto que nos transportadas do local refrigerado leva a Beit Shmesh, mas estão
feriados cristãos a procura maior é de empacotamento para o aeroporto, concentradas principalmente na
por plantas brancas e vermelhas, no rumo à Europa. Uma das vantagens região de Givat Haturmasim, ao
inverno a demanda é por flores de do cultivo das anêmonas é o fato lado de tremoços vermelhos.
cor laranja. No verão, rosa e amarelo de não precisarem de controle de
estão na liderança. temperatura no inverno, permitindo Amendoeiras e ciclamens também
a colheita diária. O sistema de são abundantes de fevereiro a
A apenas 15 minutos de Beit produção, colheita, embalagem e março na reserva de Sataf, uma área
Shemesh, no pequeno moshav Sdot distribuição é tão eficiente e exato preservada a leste do Monte Eitan,
nas proximidades da área ocidental
iris ioessicola
de Jerusalém. Os ciclamens, cujas
cores variam do branco ao rosa
escuro, são também chamados de
Fogo de Salomão, pois parecem
chamas que saltam das pedras e
das sombras. Ao norte de Tel Aviv
está o Vale dos Narcisos, ou Emek
HaNarkisim, no cruzamento de
Glilot. Ali, também, há muitos
campos de margaridas silvestres.

Na Reserva Natural Carmel, nas


proximidades da Universidade
de Haifa, os tremoços e as íris

48
REVISTA MORASHÁ i 93

1 2 3

1. iris haynei 2. iris vartani 3. iris ioessicola

formam verdadeiros tapetes que vez menos recursos hídricos sem referentes aos rituais realizados no
se estendem por toda a região. Ali, diminuir o padrão de seus produtos. Templo; outras em situações do
também, pode-se presenciar mais Ainda assim, apesar das dificuldades, cotidiano e outras, ainda, pelo seu
um pequeno milagre da natureza: as flores ainda representam um dos uso medicinal.
o crescimento de uma variedade maiores itens na pauta de exportação
singular de grandes tulipas cujas de Israel e um ótimo negócio para o As chamadas sete espécies bíblicas -
pétalas lembram as listras amarelas e setor agrícola. trigo, cevada, uva, figo, olivas, romãs
marrons dos tigres. No Vale de Beit e tâmaras - são mencionadas em
Shean, no alto do Monte Gilboa, Fortes conexões Deuteronômio 8:8 e ainda crescem
está o habitat natural da espécie de em amplas áreas da paisagem
íris que leva o nome da montanha. Diversas plantas nativas encontradas israelense e desempenham um papel
É, ainda, a flor escolhida para ser o no moderno Estado de Israel estão especial na tradição judaica. “Uma
símbolo da Sociedade de Proteção mencionadas em vários textos terra de trigo e cevada, e vinhas, e
da Natureza de Israel. bíblicos, comprovando a estreita figueiras e romã; uma terra de azeite
ligação entre o Povo Judeu e a terra de oliva, e mel ”, assim é definida
A melhor época para vê-las em todo de seus ancestrais, há milênios de a Terra Prometida aos judeus. Na
o seu apogeu são os meses de março anos. Há aproximadamente cem Antiguidade, estes alimentos eram
e abril. Há mais de 260 espécies plantas mencionadas na Torá e cerca elementos básicos da dieta da
de íris em todo o mundo sendo de 400 na Mishná e no Talmud, população e apenas as primícias das
que muitas crescem naturalmente citadas em diferentes contextos. sete espécies podiam ser utilizadas
em território israelense e algumas Algumas fazem parte de narrativas como oferenda ao Templo.
apenas ali. A íris é considerada uma
das flores silvestres mais bonitas de
Israel e cresce nas montanhas da
Judeia e também nas Colinas do
Golã. A exótica íris marrom escura
do Neguev floresce em uma área do
KKL próxima a Beersheva.

Os produtores israelenses enfrentam


atualmente um duplo desafio:
encontrar novas variedades e
produtos que atendam à demanda
do mercado, estando sempre um
passo à frente de seus concorrentes,
e, ao mesmo tempo, usar cada

49 SETEMBRO 2016
israel

acrescentando-se suco de figo.


Segundo citação em Isaías 38:21, o
figo possui qualidades medicinais
sendo, no passado, usado como
cataplasma.

A romã também foi trazida pelos


espiões para mostrar a fertilidade
da Terra de Israel. A romã possui
613 grãos, número que corresponde
às 613 mitzvot mencionadas na
Torá. As romãs são, também, um
elemento muito presente nas obras
de artistas judeus e seu suco é usado
na produção de corantes vermelhos.
jardim das oliveiras
A oliveira é uma das mais antigas
e mais valiosas árvores do Oriente
O trigo hoje semeado em todo dois homens para carregá-lo. O Médio, tanto pela sua fruta
o mundo tem origem no trigo vinho é um elemento importante quanto pelo óleo e madeira. O
silvestre da Terra de Israel ou dos dos rituais judaicos no Shabat e nas azeite de oliva era utilizado para
países próximos. Atualmente, no festas. o acendimento da Menorá no
moderno Estado Judeu, é plantado Templo, além de ser um componente
principalmente na região norte do O figo aparece pela primeira vez importante da dieta alimentar dos
Deserto do Neguev e colhido em na Torá nos primeiros capítulos do antigos israelitas, que já conheciam
Shavuot. No passado, a farinha de Gênese, quando Adão e Eva cobrem suas qualidades cosméticas. O
trigo era consumida principalmente sua nudez com folhas de figueira. ramo de oliveira é, até os dias de
pelos ricos. Na Antiguidade, eram plantadas hoje, símbolo da paz inspirado no
em jardins ao longo do país e seus episódio do dilúvio, quando a pomba
Nos tempos bíblicos, segundo o frutos eram considerados nutrientes levou a Noah uma folha de oliveira
Livro de Reis 2, 7:1, a cevada era baratos. O queijo poderia ser talhado para mostrar que havia terra nas
usada como forragem e custava a proximidades da arca (Gênese 8:11).
metade do preço do trigo. Os mais Alguns estudiosos acreditam que as
pobres a consumiam como mingau e oliveiras podem viver por mais de
para fazer bolos. Menos popular que mil anos e, ainda, produzir frutos.
o trigo, não crescia com facilidade Em Israel, é proibido cortá-las.
nos campos, era áspera e mais difícil
de mastigar e digerir. Em Ruth As tâmaras, mais especificamente
1, conta-se que a forragem teria o mel feito a partir delas, são
chegado a Belém (Bethlehem) no mencionadas em fontes antigas.
início da colheita da cevada. Nos tempos bíblicos e ainda hoje,
Jericó é conhecida como Cidade das
“O vinho alegra o coração do Palmeiras, pelas grandes tamareiras
homem”, diz o Salmo 104: 14. que ali crescem.
As videiras são a primeira planta
mencionada na Torá na história
de Noah (Gênese 9:20). Já o texto
em Números 13: 23 descreve como Bibliografia
os espiões enviados por Moshé http://www.wildflowers.co.il
Keeping the desert blooming, artigo
retornaram com um cacho de uvas publicado no site www.new-ag.info
tão grande que foram necessários Revista Eretz

50
ARTE

romance gráfico
em quadrinhos

Na Holanda sob ocupação nazista, escondido num sótão


por mais de dois anos, Emmanuel, um jovem judeu, criou as
aventuras do detetive Dompie Stompie, uma graphic novel,
romance gráfico em quadrinhos, para se comunicar com
sua futura esposa, Hetty, que estava num esconderijo a
poucos quilômetros de distância.

M
ais de 70 anos depois, Emmanuel Joels viu Um policial holandês alertara Emanuel e Hetty
publicadas as aventuras do detetive feito com algumas horas de antecedência de que as SS
de arame e, em abril deste ano de 2016, iriam invadir e deportar todos os funcionários
expostas no Museu Histórico Judaico de e pacientes do hospital psiquiátrico judaico de
Amsterdã, uma instituição que anualmente Apeldomn, cidade localizada a 90 quilômetros a leste
recebe mais de 250 mil visitantes. Apenas Emanuel, de Amsterdã, onde Hetty trabalhava como enfermeira.
hoje com 97 anos, auditor financeiro aposentado, dono O hospital era um dos poucos lugares onde os judeus
de uma memória fotográfica, pôde ver sua criação ser ainda podiam trabalhar durante a ocupação nazista da
exposta. Hetty infelizmente faleceu no ano passado. Holanda.
Por pouco também teria essa alegria.
Membros da Resistência esconderam os dois jovens
É bem provável que a mostra não tivesse chamado na casa de duas famílias de cristãos holandeses que
tamanha atenção da mídia e do público não fosse o viviam a alguns quilômetros de distância e que, apesar
romântico pano de fundo que levou à sua criação, dos poucos recursos, já abrigavam outros judeus.
pois durante todo o tempo em que Emanuel e Hetty Era praxe da Resistencia esconder membros de uma
ficaram escondidos dos nazistas, as aventuras de mesma família em separado, assim caso um dos
Dompie Stompie foram o único meio de comunicação esconderijos fosse descoberto, nem todos seriam presos
entre o jovem par de namorados. – como aconteceu com a família de Anne Frank.

Os jovens judeus conseguiram escapar à deportação para Precisa ser lembrado que era grande a coragem desses
Auschwitz por um triz e sobreviveram escondido ao indivíduos que escondiam judeus, pois estavam
Holocausto. Estavam entre os poucos judeus holandeses colocando suas próprias vidas e a de seus familiares
que tiveram “sorte”, pois 75% dos que viviam na em risco, já que a punição para esse “crime hediondo”
Holanda acabaram sendo dizimados pelos nazistas e seus era a morte. Os que acolheram Hetty foram além.
cúmplices, inclusive muitos dos familiares do casal. Cuidaram da jovem que havia contraído tuberculose

51 SETEMBRO 2016
arte

ou E., como era chamado, então


encontrou uma forma criativa
e discreta de ficar em contato e
apoiar-se mutuamente: criando
as histórias em quadrinhos do
Dompie Stompie. Ele queria distrair
a noiva com desenhos que não
traíssem nem o autor nem os
leitores caso fossem, porventura,
interceptados.

Cada romance gráfico era composto


de cerca de 30 páginas de texto
e desenhos coloridos, e não
fazia menção à Guerra nem aos
crimes cometidos pelos nazistas.
Emmanuel e Hetty Joels em Amsterdã, em 2012 (cortesia de Jet Naftaniel)
Eram histórias das viagens que
Dompie Stompie fazia para países
imaginários onde era chamado para
Cada romance trabalhando no hospital, apesar do solucionar crimes.
grande risco de contágio, e mesmo
gráfico era tendo poucos recursos financeiros Hetty recebia semanalmente um
composto de cerca conseguiram os medicamentos e novo capítulo das aventuras.
os alimentos necessários para seu A filha de sete anos do casal que
de 30 páginas de tratamento. abrigava E., Geeske Schurink,
texto e desenhos incumbia-se de levar as histórias
Apesar de estarem a salvo e em quadrinhos para a jovem.
coloridos, e não
em local relativamente próximo A menina nunca disse uma palavra
fazia menção à um do outro, o casal não podia sequer sobre os “visitantes”, que
Guerra nem aos se encontrar – seu local de se encolhiam no sótão quando
esconderijo era separado por uma os Schurinks recebiam visitas
crimes cometidos importante artéria de tráfego das – inclusive alguns parentes pro-
pelos nazistas tropas nazistas que eles não podiam nazistas. Ao falar sobre os dois anos
se arriscar a atravessar. Emmanuel, e meio em que esteve escondido,
Emanuel disse ser “inacreditável
que nenhuma das quatro crianças
que viviam na casa, mesmo as
menores, jamais tivessem dito,
a quem quer que fosse, uma só
palavra do que ali acontecia“.

Após o término da Guerra,


Emanuel e Hetty se casaram e
tiveram duas filhas, Jet e Marian.
O casal raramente falava às filhas
sobre a Shoá e seus traumas.
“Nossos pais só nos contavam
coisas ‘positivas’ do Holocausto,
os poucos pontos de luz daquele
período obscuro, mas mesmo sendo
Personagens da novela gráfica “Dompie Stompie” (cortesia de Jet Naftaniel) crianças aquilo não nos convencia”,

52
REVISTA MORASHÁ i 93

revela Jet. “Nós sabíamos que


a maioria de nossos familiares
morreram durante a Shoá e
percebíamos a tensão na voz de
nossos pais. Eles nos transmitiam
suas ansiedades sem precisar
mencioná-las”.

Emanuel costumava contar


às filhas desde a infância as
aventuras de Dompie Stompie,
durante as refeições em família.
Há alguns anos, ao mudar seus
pais para uma instituição para
idosos, Jet e Marian encontraram
os manuscritos das aventuras
guardados em uma caixa de “Dompie Stompie se encontra com os canibais” (cortesia de Jet Naftaniel)
papelão, no fundo de um armário.
Decidiram que algo precisava ser
feito com os manuscritos. Quando que, ao contrário do que se tem Mas, para a curadora da mostra,
foram finalmente publicadas, a especulado, ele jamais teve a a graphic novel é algo mais de que
primeiríssima cópia foi enviada a intenção de fazer qualquer alusão uma história em quadrinhos entre
Geeske Schurink, que funcionara à situação que viviam, criando a um casal de namorados.
como pombo-correio entre série apenas para transmitir seu É “mais uma prova da bravura
Emmanuel e Hetty tantos anos amor a Hetty e como uma forma dos judeus durante o Holocausto”.
atrás. de cumprir a promessa feita de
sempre manter vivo em suas vidas E, para sua filha Jet - apesar das
Emanuel, com hoje 97 anos, um ponto de luz, algo positivo, não afirmações do pai - há algo mais na
raramente fala de suas emoções. importando as dificuldades que escolha de um personagem feito de
Em uma entrevista, ele revelou viessem a enfrentar. arame. Ela acredita que “simboliza
que optou por desenhar porque a simplicidade e a força” e, talvez,
era o hobby preferido na casa dos “as cercas de arame farpado
Schurinks, onde estava escondido. que circundavam os guetos
Ele se recorda que afastado do e os campos de concentração”.
mundo exterior e sem ter o que Ela ainda acredita que “o pássaro
fazer, decidiu desenhar para passar que captura o detetive no terceiro
o tempo. Sua primeira tentativa e último volume da série lembra
artística foi desenhar de memória a águia imperial que aparece
uma tábua do jogo de Monopólio com força no regime nazista, e
para as quatro crianças da família um bunker camuflado no qual
Schurink. Elas nunca tinham o pássaro o deixa cair evoca os
ouvido falar no jogo. anos em que seus pais viveram
escondidos“.
Durante a entrevista, E. afirmou
que considera os desenhos de “Trata-se de uma linda história
Dompie Stompie um tanto “bobos”, de família, mas, também, de uma
e conta que escolheu uma figura incrível força de vontade de meus
feita de um fio de arame para ser pais e de toda a sua geração de
o protagonista de sua história não sucumbir à escuridão, mesmo
em quadrinhos porque não sabia quando resistir parecia sem
desenhar rostos. Revela ainda O detetive Dompie Stompie significado”, concluiu Jet.

53 SETEMBRO 2016
arte

A arte de
Issachar Ber Ryback
Pintor, artista gráfico e escultor, Ryback, nascido na Ucrânia
no final do século 19, foi um dos nomes mais importantes da
arte judaica da avant-garde russa. Nas palavras do poeta
francês Edouard Roditi, “Ryback pode ser reconhecido como
um artista cuja genialidade pode ser comparada apenas com a
de Marc Chagall”. O pintor jamais esqueceu suas origens - os
temas judaicos, os personagens e as cenas do cotidiano do
shtetl eram uma constante em suas obras.

A
crítica e o público reconheceram seu Na época já demostrava o talento com o qual
talento e sua criatividade desde sua estreia construiria uma carreira de sucesso.
no universo das artes plásticas, em 1815. Ele se matriculou nos cursos para pintores de cenários
Durante sua curta vida, participou de e, ao completar o programa, começou a trabalhar n
mostras coletivas e inúmeras individuais artel1, cooperativa com fins econômicos. O dinheiro
na Rússia, França, Alemanha, Inglaterra, Holanda e que ganhava permitiu que continuasse seus estudos
Bélgica. O artista morreu ainda jovem, em 1935, artísticos, apesar das objeções do pai. Em 1911 entrou
aos 38 anos, às vésperas de sua primeira grande na Academia de Arte de Kiev, onde se formou em
retrospectiva, na Wildenstein Galleries, em Paris. 1916.

Primeiros anos Nesse período, Ryback fazia parte de um grupo


artístico informal de pintores judeus unidos por um
Issachar Ber Ryback nasceu em 2 de fevereiro profundo sentimento de auto-identidade nacionalista
de 1897, em Elisavetgrad (atual Kirovograd), na e um grande interesse pelas várias tendências da
Ucrânia Central. Apesar de seu pai descender de uma arte moderna. Além dele, o grupo contava com
proeminente família chassídica, era um seguidor da artistas como Boris Aronson, Alexander Tyshler,
Haskalá e admirador da cultura russa, e conseguira Salomon Nikritin, Mark Epstein e Isaac Rabinovich.
inculcar nos filhos o amor por essa cultura. Issachar Todos viriam a se tornar famosos. Os jovens foram
era uma criança de uma saúde muito frágil; até os influenciados por duas correntes de pensamento. De
nove anos mal falava. Ele tinha dez anos quando seu um lado, pela ideologia do chamado Grupo de Kiev,
pai o enviou para estudar no cheder do povoado, mas escritores iídiches (Grupo de Kiev de Homens das
lá ficou pouco mais de um ano. Passava a maior parte Letras em iídiche) considerados os teóricos e criadores
do tempo desenhando. Começou a frequentar, às da moderna cultura e literatura judaica. Foi um período
escondidas, as aulas noturnas de desenho ministradas de crescimento e desenvolvimento sem precedentes em
aos trabalhadores das fábricas da região. termos da literatura e cultura iídiche. Esse Grupo de

54
REVISTA MORASHÁ i 93

“minha aldeia”. portifólio de litografias sobre papel. o álbum, com 15 trabalhos, foi publicado na década de 1960 ou início
de 1970. galeria jean tiroche, israel

Kiev incluía David Bergelson – que Durante os verões europeus de


se destacou como um dos melhores 1915 e 1916, ele acompanhou El
estilistas da prosa em iídiche –, Lissitzky, figura importante da
Nachman Mayzil, Yehezkiel avant-garde, em viagens organizadas
Dobrushin e David Hofstein. pela Sociedade Judaica Histórica
e Etnográfica. Os dois artistas
Por outro lado, os jovens artistas percorreram toda a Ucrânia,
criaram estreitos vínculos com visitando os shtetls da Bielorrússia,
pintores da avant-garde2 russa, copiaram as pinturas que cobriam
1
Uma pequena sociedade voluntária entre eles, Alexander Bogomazov e as sinagogas de madeira, na
integrada por pessoas cujo objetivo Alexandra Exter, que viviam então Podólia e na Volínia, os túmulos
comum era desempenhar uma atividade
econômica. Os membros de uma artel em Kiev. Ryback estudou no atelier dos cemitérios judaicos e objetos
doavam seu trabalho, ferramentas e da pintora Alexandra Exter. Foi cerimoniais em prata. Essa viagem
eventualmente dinheiro, dividindo ela que o apresentou ao cubismo3, despertou o interesse de Ryback
os lucros de acordo com o valor e a
qualidade do trabalho com o qual ao desenho para teatro e a Boris na arte folclórica judaica e, a partir
contribuíam. Aronson, que posteriormente de então, ele inicia um acervo de
2
Historicamente, o termo “avant-garde conquistaria Hollywood com seus objetos e das reproduções da vida
russa” se refere à arte de todos os países cenários. judaica que fizera durante suas
que eram parte da URSS/Rússia no viagens.
início do século 20.
Ryback apresentou seus trabalhos
3
Um dos principais fundadores foi ao público pela primeira vez na Após a Revolução
Pablo Picasso. O pintor cubista
tenta representar os objetos em três Exposição da Primavera, em Kiev, Bolchevique
dimensões, numa superfície plana, em em 1915. A maioria de suas telas,
formas geométricas, com o predomínio pintadas em estilo modernista,
de linhas retas. Não representa, mas Durante a 1ª Guerra, a Ucrânia
sugere a estrutura dos corpos ou objetos. eram inspiradas em temas judaicos. foi palco de sangrentas batalhas.

55 setembro 2016
arte

Judeus em Moscou, sendo então


aclamado pelos críticos como um
dos mais brilhantes artistas de
sua época. No ano seguinte, ele
retrata, numa série de pinturas, a
carnificina que foi a guerra civil
russa.

Suas atividades artísticas se


multiplicaram. Ele passou a
ensinar desenho e pintura no
Estúdio Infantil Judaico de Kiev
e participou no lançamento da
filial de Kiev da Sociedade Judaica
de Estímulo às Belas Artes.
Na primavera russa de 1918,
juntamente com El Lissitzky e
Iosif Chaikov, funda formalmente
o Departamento de Arte da Kultur
“a velha sinagoga”, 1917, óleo sobre tela. museu de arte de tel aviv
Liege, instituição que tinha como
objetivo o desenvolvimento da
moderna cultura judaica em iídishe
A entrada da Rússia na Guerra na Ucrânia.
acelerou o colapso do Império
Tzarista. Em fevereiro de 1917, a Criou vários selos para editoras de
miséria e as derrotas sofridas nos livros judaicos e produziu, também,
A maioria de suas campos de batalha pelo exército esboços de cenários e modelos em
telas, pintadas em do Tzar levaram o povo russo a se escala para as produções pioneiras
revoltar. Em 15 de março, o tzar da Liga Cultural do Estúdio
estilo modernista, Nicolau II foi deposto dando início Teatral que se antecipariam ao
eram inspiradas em à Revolução Russa e, em novembro design construtivista de cenários.
daquele mesmo ano, o Partido Ele foi o responsável pelas
temas judaicos Bolchevique derrubou o governo maquetes para os cenários do
provisório então no poder e impôs primeiro espetáculo montado na
o governo socialista soviético. Kultur Liege.

Após a Revolução de 1917, o Em meados de1919, publicou,


Comitê Central da Kultur Liege na revista em iídiche de Kiev, em
de Kiev convidou Ryback para dar colaboração com Boris Aronson,
aulas de desenho e, nesta função, um importante artigo sobre a
ele teve a oportunidade de visitar arte judaica, intitulado
comunidades judaicas agrícolas. “Di vegn fun der yidisher maleray”
As experiências vivenciadas (“Caminhos da Arte Judaica”),
durante as viagens inspiraram seus publicado in 1919. O ensaio
últimos trabalhos, entre os quais, o serviu como um manifesto da arte
álbum de litografia “On the Jewish de vanguarda judaica.
Fields of Ukraine” (Nos Campos O tema central eram as
Judaicos da Ucrânia), de 1926. dificuldades enfrentadas para a
definição e o estabelecimento
Ainda em 1917 participou de de um “estilo nacional judaico”.
issachar ber ryback Exposição de Pintores e Escultores De acordo com os autores, a arte

56
REVISTA MORASHÁ i 93

judaica deveria representar uma


síntese da tradição judaica artística
com o movimento modernista.
Eles acreditavam ser necessário
o estabelecimento de uma
iconografia judaica baseada na arte
popular judaica, principalmente a
partir da representação das letras
hebraicas e da cópia dos artefatos
folclóricos judaicos. As estilizações
utilizadas por artistas judeus
como colunas, veados, leões e
candelabros, tornaram-se o padrão
para a moderna arte judaica.
O próprio Ryback pintou uma
série de obras em que os símbolos
judaicos e os motivos de arte
folclórica apareciam interligados
com técnicas de imagem da avant-
garde. “uma rua no vilarejo”, 1917. museu ryback, bat-yam, israel

Ainda em 1919 o artista passou um


ano em Moscou, onde foi muito foram brutalmente assassinados.
ativo no Círculo de Escritores e O assassinato do pai o perturbou
Pintores Judeus, além de assíduo profundamente, e ele criou uma
colaborador da Câmara de Teatro série de trabalhos dedicados aos
Judaico da cidade. No ano seguinte pogroms judaicos na Ucrânia.
ele retorna a Kiev, onde preside o
comitê encarregado de organizar Após a morte do pai, Ryback
a primeira grande exposição em deixa a Rússia e, durante vários
grupo de artistas judeus. Foi meses, enquanto aguardava seu
também um dos organizadores visto de entrada para Berlim,
e participantes da exposição reside em Kovno (hoje, Kaunas).
organização pela Divisão Artística Lá ele desenhou alguns livros
da Liga Cultural, em Kiev. Logo em iídiche e trabalhou em
após o encerramento da exposição, instituições da Liga de Cultura
em abril, Ryback volta para Lituana. Em outubro, chegou
Moscou. a Berlim onde participou
ativamente na vida cultural
Na primavera de 1921, seu pai internacional e judaica. Tornou-
foi morto durante um pogrom se membro do chamado
em Elisavetgrad. Os pogroms Novembergruppe (Grupo de
antissemitas haviam-se iniciado Novembro), formado por artistas
em outubro de 1917 e se alemães logo após a 1ª Guerra
alastravam por toda a Ucrânia Mundial, que tinha como objetivo
e em outras partes da União revitalizar a arte do país. Com
Soviética, e só terminaram em eles, Ryback participou de várias
maio de 1921. Nesse período, exposições importantes, além de
foram atacadas 530 comunidades mostrar sua arte nas exposições
judaicas, e após a realização de 887 realizadas na Berlin Sezession e
pogroms mais de 156 mil judeus na Juryfreie Kunstshau. alef-bet, 1918

57 setembro 2016
arte

“violinista cego”, óleo sobre tela “o casamenteiro”,, óleo sobre tela

Ryback acreditava ser necessário o estabelecimento de


uma iconografia judaica baseada na arte popular judaica,
principalmente a partir da representação das letras
hebraicas e da cópia dos artefatos folclóricos judaicos

Em 1922, juntamente com a editora judaico-alemã Shvelln,


Yankel Adler e Henryck Berlevi, de Berlim, publicou seu álbum
Ryback (como representante gráfico intitulado Stetl. Um ano
dos pintores judaicos da Europa mais tarde, seu álbum litográfico
Oriental) participou da preparação “Tipos Judaicos da Ucrânia”
e condução do congresso da também foi publicado. Essas
União de Artistas Progressistas duas séries gráficas baseavam-se
Internacionais realizado em nas impressões e lembranças de
Dusseldorf. Influenciado por Ivan Ryback de sua viagem de 1916
Bilibin, ícone do nacionalismo pelos shtetls da Ucrânia e da
russo estilizado, criou elementos Bielorrússia. De dezembro de
próprios a partir do alfabeto 1923 até janeiro de 1924 teve uma
hebraico, como cercas e casas exposição individual em Berlim.
em relevo de madeira. Também
cooperou com as editoras judaico- De volta a Moscou, em 1924, foi
alemãs e aceitou trabalhos artísticos convidado pelo Estúdio Judaico
de certas organizações judaicas, do Teatro da Bielorrússia a criar
“buquê de flores”, óleo sobre tela especificamente a ORT. Em 1923, o cenário de um espetáculo

58
REVISTA MORASHÁ i 93

em iídiche e, no início do ano


seguinte, criou cenários para
outra peça teatral, também em
iídiche, do Teatro Judaico de
Kharkov. Logo depois, ele iniciou
uma longa viagem pelo kolkhozes
judeus (fazendas cooperativas) da
Ucrânia e Criméia.

Foi em Moscou que ele pintou


mais um quadro famoso, “Still
Life with Jewish Objects”,
(“Natureza morta com objetos
judaicos’), no qual utiliza a divisão
cubista no centro da obra como
uma abordagem modernista ao
retratar a festividade de Sucot.

Ainda hoje, a coletânea de


litografias “Shtetl, Mayn Chorever
Heym, a Gedekniss” (“Shtetl, meu
lar destruído, um Memorial”) de
1923, segundo muitos críticos,
é considerada sua obra mais
representativa. Evoca o shtetl em
tons escuros, mesclando o estilo
cubista com o expressionista,
linhas assimétricas e exagerando
as expressões do rosto e planos
que penetram uns nos outros.
O estilo desta obra, que “natureza-morta com objetos judaicos” 1924, óleo e colagem sobre tela
imortalizou sua cidade natal
totalmente destruída pelos
pogroms, sobrepõe imagens de Ryback em Paris
vários momentos da vida judaica
na sinagoga, na escola, nas festas Em 1926 decidiu partir para
e nas cerimônias e rituais, como recomeçar a vida em Paris. A
casamentos e funerais. Nas cidade das luzes, centro mundial
imagens é possível identificar as das artes, recebeu Ryback de braços
profissões dos moradores pela abertos. Sua vinda, precedida pela
simbologia introduzida, como por fama que conquistara nos últimos
exemplo, sapateiros, afiadores de anos, garantiu-lhe um espaço
facas, açougueiros e o rabino. especial na vida artística da capital
francesa. Lá realizou duas mostras
Ryback produziu mais dois individuais – uma na Galerie aux
álbuns que relembram as pessoas, Quatre Chemins, em 1928, e outra
a vida e os lugares onde nasceu e um ano depois, na Galerie L’Art
cresceu e que foram totalmente Contemporain. Em sua constante
destruídos: “Nos Campos Judeus busca pela inovação, seu estilo de
da Ucrânia”, de 1926, e “Sombras pintura mudou. Abandonou o
do Passado”, de 1932. cubismo e adotou o expressionismo “a noiva”

59 setembro 2016
arte

fantasia e o romantismo total que


Ryback trilha seu caminho. Na
inquietação de seu povo, no seu
humor melancólico, ele sobrepõe
uma riqueza de cores e temas, que
não é sem excessos. O todo está
totalmente harmônico com uma luz
obscura, porém, dramática”.

Artista completo, Ryback incluiu a


escultura em sua arte, principalmente
em seus últimos anos. No início
de 1935, o Musée National de
Céramique de Sèvres organizou
uma mostra de seus trabalhos,
adquirindo, posteriormente, algumas
de suas obras. No mesmo ano foi
à Inglaterra para a inauguração
de uma exposição a convite da
Sociedade Artística da Universidade
de Cambridge.

Retornou a Paris cheio de ideias


para novos projetos, que acabou
não realizando, pois foi internado
devido a uma drástica piora de sua
doença crônica. No hospital passou
os últimos meses de sua vida.
Os amigos do pintor tiveram tempo
“a velha em la rochelle”, óleo sobre tela suficiente de realizar a exposição de
suas obras em uma galeria parisiense.
Ryback participou dos preparativos
da Escola de Paris, conquistando, narrativas de acontecimentos mesmo estando internado, mas não
também, o reconhecimento dos históricos, literaturas ou contos pôde ir à abertura. Faleceu logo
críticos franceses. As exibições religiosos. após o encerramento da mostra,
individuais passaram a fazer parte em 22 de dezembro de 1935.
de sua agenda e, em 1930, montou A obra “La Fiancée” (A Noiva) foi
uma mostra em Haia, em 1931 em produzida depois de sua mudança Em 1962, sua viúva doou toda a
Roterdã e, em 1932 em Bruxelas e para Paris. Este trabalho retrata o sua coleção de arte pessoal,
Antuérpia. amor do artista pelo mundo que ele incluindo as pequenas esculturas
deixou para trás, suas lembranças de de personagens do shtetl feitas em
Nessas criações seu estilo sem igual infância, da alegria e do otimismo argila, para o Ryback Museum em
incorporara os conceitos do cubismo da vida espiritual judaica que deixara Bat-Yam, Israel.
com arte popular, em particular as em busca de seu sonho artístico,
características dos luboks, um forma um mundo que fora destruído para BIBLIOGRAFIA
de impressão muito comum na sempre pelos pogroms. Nessa obra Voolen, van Edward, 50 Jewish Artists
Rússia criada a partir de gravuras, está presente de forma muito clara You Should Know, Prestel
xilogravuras e, mais tarde, litografia. seu estilo romântico e nostálgico. Regenbogen, Lucien, Dictionary of
Jewish Painters, Editura Tehnica
O lubok ganhou popularidade na Segundo uma citação sobre a obra,
Frankel, Ellen, The Jewish Spirit
Rússia a partir do final do século publicada no Journal de Débats, – A Celebration in Stories
17, sendo geralmente usado em “é justamente entre a mais leve and Art Russian Jewish Artists, Prestel

60
shoá

o julgamento de nuremberg

Nuremberg, dia 16 de outubro de 1946. Dez homens


fortes do 3º Reich condenados à morte pelo Tribunal
Militar Internacional são enforcados. Era Hoshaná Rabá
– o dia em que D’us sela os veredictos de Rosh Hashaná
para o ano seguinte.

A
cidade de Nuremberg, capital simbólica Um marco na História da Civilização
do III Reich, sediou, entre 20 de
novembro de 1945 e 1 de outubro de Em maio de 1945 a Alemanha se rendera. O preço do
1946, o que a imprensa mundial chamou conflito foi alto em vidas humanas, entre 50 a 70 milhões
de o “Julgamento do século”. Os líderes de mortos entre civis e militares, e milhões de feridos.
aliados levaram perante o recém-estabelecido Tribunal Em muitos países arrasados pela guerra, a destruição,
Militar Internacional proeminentes membros da fome e miséria tinham-se tornado parte do cotidiano.
liderança política, militar e econômica da Alemanha
Nazista. O Julgamento de Nuremberg mostrou Para os judeus, a guerra que Hitler empreendera contra
ao mundo a verdadeira natureza das atrocidades nosso povo foi uma catástrofe sem igual na História.
cometidas pelos alemães antes e durante a 2ª Guerra De acordo com as recentes estimativas, entre os mortos,
Mundial, mostrando as entranhas da conspiração 7 milhões eram judeus, sendo que mais de um milhão
criminosa que pretendia subjugar e escravizar os povos deles eram crianças. Os nazistas e seus colaboradores
da Europa e exterminar todo e qualquer judeu. haviam assassinado dois de cada três judeus que viviam
na Europa, mas é de extrema importância apontar que
Para o Povo Judeu, o julgamento foi de suma essa estatística é enganadora, pois a maioria dos que
importância. Apesar das limitações, das críticas e do sobreviveram vivia em áreas da Europa que não foram
fato de a “Solução Final da Questão Judaica” não ter ocupadas pela Alemanha, como o Leste da União
sido o ponto central do julgamento, como os judeus Soviética, a Grã-Bretanha, a Bulgária, e estados neutros
queriam, pela primeira vez os representantes oficiais como Espanha, Portugal, Suíça e Suécia.
das forças aliadas apresentaram uma documentação
abrangente, a um público não judeu, sobre a O sangue dos mortos e os sobreviventes clamavam
perseguição e massacre do Judaísmo Europeu durante por justiça. Hitler, Himmler e Goebbels haviam-se
a 2ª Guerra Mundial – o que viríamos a chamar de suicidado; Adolf Eichmann, Heinrich Mueller e Josef
Holocausto, em hebraico, Shoá. Mengele, entre outros, haviam conseguido fugir, mas

61 SETEMBRO 2016
shoá

palácio de justiça de Nuremberg, na Bavaria, alemanha

alguns dos principais orquestradores “a culpa das lideranças nazistas americanas os obrigarem a ver in loco
do regime nacional-socialista haviam mais do que ultrapassava o âmbito os cadáveres e os fornos crematórios,
sido capturados. Era imprescindível de qualquer processo judicial”. a maioria dos alemães acreditava que
que os arquitetos da Solução Final Membros do governo americano as acusações eram “mentiras forjadas
respondessem por suas ações, e concordavam com os britânicos e pelos vencedores”. Stimson temia,
que a nação alemã assumisse sua persuadiram o presidente Franklin ainda, que uma execução sumária
responsabilidade coletiva, pois dera a D. Roosevelt de que os nazistas transformaria criminosos de guerra
Hitler o poder e anuência para levar “não mereciam mais do que uma em mártires. Em outubro de 1944,
adiante seus atos criminosos. audiência sumária e um pelotão de ele convenceu o presidente Roosevelt
fuzilamento”. da necessidade de um julgamento
No decorrer da Guerra, os aliados, ao público. “A punição desses homens
tomarem conhecimento dos crimes Uma voz, porém, levantou- de maneira digna terá o maior efeito
cometidos pelos III Reich, haviam se contra essa corrente: a do para a posteridade”, argumentara.
advertido o povo alemão de que secretário de Guerra americano
teriam que responder pelos crimes Henry Stimson, que encontrou Após a morte súbita de Roosevelt,
cometidos em nome da Alemanha. um aliado em Joseph Stalin. em abril de 1945, e a posse de
A decisão de julgar os líderes do O ditador soviético alertara que, Harry S. Truman na presidência
Reich fora expressa na Declaração caso os líderes nazistas fossem dos Estados Unidos, os preparativos
de Moscou de 1943 e reiterada, sumariamente executados, as para levar os criminosos à justiça
em 1945, pelos Acordos de Ialta e gerações futuras poderiam ser se aceleraram. Em maio, Truman
a Conferência de Potsdam. Mas, levadas a crer que os aliados os pediu ao Juiz da Corte Suprema
já em 1942, o Gabinete britânico haviam silenciado por temerem Robert Jackson1 que organizasse o
debatia o que devia ser feito com um julgamento. Para Stimson, julgamento.
os criminosos de guerra nazistas. o mundo precisava tomar pleno
Winston Churchill era a favor da conhecimento das barbáries Jackson estava determinado a fazer
execução sumária, para evitar os cometidas pelo nazistas. Os do Julgamento de Nuremberg “um
“emaranhados dos procedimentos próprios alemães precisavam marco na história da civilização”.
legais”. Anthony Eden, futuro se conscientizar da culpa da Estava determinado a dar aos réus
primeiro-ministro, acreditava que Alemanha. Apesar das forças a possibilidade de defesa, como

62
REVISTA MORASHÁ i 93

afirmou em suas considerações vez que uma organização fosse convenções de Haia e Genebra.
finais: “Uma das coisas de que declarada criminosa pelo Tribunal, A segunda se traduz na noção
podemos ter certeza: o futuro a prova de pertencer àquela de “guerras de agressão”, ou seja,
jamais terá que perguntar o que organização criminosa pudesse ser na deflagração de conflitos que
os nazistas teriam dito a seu favor. uma evidência-chave que levasse à não tenham como motivação a
A História saberá que o que poderia condenação. legítima defesa. Crimes contra a
ter sido dito, foi-lhes permitido humanidade, conceito até então
dizer. Foi-lhes concedido o tipo de A acusação partia do pressuposto não existente, são basicamente atos
julgamento que eles, em seus dias de de que quem tivesse apoiado a que atentam contra a dignidade e
poder, jamais deram a qualquer ser política da organização ou grupo os direitos humanos. Na abertura
humano”... à qual pertencia era responsável do julgamento, o promotor-
por seus atos e devia responder por chefe dos Estados Unidos,
O Tribunal Militar crimes cometidos em seu nome. Robert Jackson, definiu-os como
Internacional A obediência hierárquica não “delitos que feririam o limite do
poderia ser considerada excludente. tolerável pela civilização, sendo
Em agosto de 1945 Grã-Bretanha, Com essa determinação, o Tribunal independentes das circunstâncias
Estados Unidos, França e URSS invalidava a “defesa” utilizada de guerra”. São considerados crimes
assinaram em Londres o acordo pelos nazistas – de que eles contra a humanidade assassinatos,
que criou o Tribunal Militar estavam “apenas seguindo ordens extermínio, escravidão, deportação
Internacional ao qual aderiram outras superiores”. e outros atos desumanos cometidos
18 nações. O acordo estabeleceu as contra a população civil antes
bases do funcionamento do Tribunal, Esse conceito de responsabilidade ou durante a guerra, além de
e determinou que 24 proeminentes individual foi submetido a juízo perseguições baseadas em motivos
membros da liderança política, em relação à participação em um políticos, raciais ou religiosos,
militar e econômica da Alemanha “plano comum de conspiração” mesmo quando validadas pelas
Nazista estariam no banco dos réus. para cometer três tipos de crimes leis dos países nos quais foram
Caberia aos promotores da Grã- de guerra, crimes contra a paz e perpetrados.
Bretanha, Estados Unidos, França crimes contra a humanidade. A
e URSS expor a participação dos primeira acusação diz respeito à Ao se preparar para o julgamento,
réus na conspiração engendrada violação de acordos definidos pelas a promotoria americana considerou
para dominar a Europa e nos crimes
cometidos contra a humanidade.
Definiu também que seriam julgados
sete “grupos ou organizações
nazistas”: o Gabinete do Reich,
o Órgão Executivo do Partido
Nazista, a SS, a SA, a Gestapo,
a SD e o Estado Maior e Alto
Comando das Forças Armadas
Alemãs. A estratégia legal de não
julgar apenas indivíduos pelos
atos criminosos, mas também as
organizações, tinha por objetivo que,
no futuro, durante os julgamentos
de réus menos conhecidos, uma

Jackson ocupara o cargo de Advogado Geral


1

dos EUA, Procurador Geral de Justiça dos


EUA e Juiz da Suprema Corte dos EUA. Ele
foi a única pessoa na história do país a ocupar o procurador geral dos eua, ROBERT H. JACKSON e o procurador geral-
todos esses três cargos. assistente da união soviética, URI POKROVSKY na conclusão do julgamento

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bancada de juízes do tribunal militar internacional, 1945/46. no centro, o juíz presidente, Geoffrey Lawrence

seriamente destacar as políticas O Julgamento Nos meses que antecederam o


nazistas contra os judeus e uma julgamento chegaram a Nuremberg
participação direta judaica durante Quando, em 20 de novembro, o caminhões carregando documentos
o processo judicial. Alguns Tribunal composto por juízes dos que revelavam em detalhe as
grupos judeus haviam solicitado Estados Unidos, Grã-Bretanha, barbáries cometidas durante os
tal envolvimento ainda antes da França e União Soviética iniciou 12 anos que os nazistas ficaram
Conferência de Londres. seus trabalhos, 21 dos 24 indiciados no poder. Os registros devidamente
estavam no banco dos réus. Esse catalogados e traduzidos estão,
Jackson, que, a princípio, era número foi reduzido quando se desde então, à disposição do
contrário à ideia, parece ter comprovou que o idoso industrial público. A promotoria apresentou
mudado de opinião durante Barão Gustav Krupp era incapaz; ao Tribunal, como provas da
o verão europeu de 1945, Robert Ley, líder da Frente acusação, mais de 3 mil documentos,
provavelmente devido às conversas Trabalhista cometera suicídio e além de filmes, fotografias e
que manteve com Hersch Bormann fora julgado in absentia. depoimentos.
Lauterpacht, professor de Direito
Internacional em Cambridge, que Durante o julgamento, o amplo Apesar de não faltarem testemunhas
insistira fortemente pela realização alcance das atrocidades cometidas oculares para evitar futuras
de um julgamento por crimes de por nazistas e seus colaboradores acusações de tendenciosidade,
guerra, em 1943, e que estava foi apresentado detalhadamente ao Jackson, que se tornara promotor
ávido para ver o Tribunal público. Para atingir os objetivos do chefe, construiu o caso quase
considerar as atrocidades julgamento e ser, ao mesmo tempo, totalmente baseado nos registros e
cometidas contra o judaísmo “justo” e “diligente”, era necessário ser depoimentos dos próprios nazistas.
europeu. Ainda que a ideia muito rápido e preciso na tradução Em suas palavras, “A paixão
tivesse sido abandonada, Jackson das perguntas, respostas e das teutônica por fazer de qualquer
introduziu o título “Crimes contra evidências. Para possibilitar todos mínimo detalhezinho uma questão
a Humanidade” em um dos os participantes do julgamento de digna de registro, fornece-nos
rascunhos finais do Acordo de entenderem o que estava sendo dito, nossa maior arma no julgamento.
Londres. Assim sendo, o tópico de forma simultânea, em sua língua A partir de suas próprias ordens
encontrou seu lugar no Artigo 6 da nativa, foram utilizados equipamentos escritas, diretrizes, diários, jornais
Carta de Nuremberg (ou Acordo especialmente desenvolvido pela e correspondência, as provas
de Londres) e o veredicto da IBM. Nascia a “interpretação avassaladoras da culpa dos réus
acusação foi proferido. simultânea” como hoje se conhece. nazistas se tornaram irrefutáveis”.

64
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O momento decisivo do Julgamento promotoria, que assumiu vários


ocorreu em seu nono dia. Thomas julgamentos de Nuremberg, pessoa
Dodd, um dos promotores de inquestionável simpatia pelos
americanos, incluiu como prova judeus, testemunhou que, enquanto
um filme compilado por fotógrafos era preparado o julgamento, ele
militares no decorrer da libertação pouco sabia sobre o que nós
dos campos de concentração chamamos de “o Holocausto”:
nazistas. Até então, o sofrimento “Como tantos outros, eu era um
humano havia sido obscurecido por completo ignorante sobre os
números e páginas e mais páginas de campos de extermínio em massa
detalhes, que, por mais horripilantes na Polônia, e o escopo completo
que fossem, eram algo frio e passível do Holocausto só desabou sobre
de esquecimento. Stalin dizia que mim vários meses mais tarde, em
a morte de um homem é uma donald e. spencer, diretor da divisão Nuremberg”.
tragédia, a de milhões se torna uma de documentação

estatística. Era necessário mostrar Em sua fala, o Juiz Jackson, do


a face do nazismo, dar um rosto à promotor chefe Robert H. Jackson Supremo, revelou o peso esmagador
devastação humana. Ao se apagarem assim definiu a estratégia traçada da evidência contra os nazistas: o
as luzes, o filme mostrava um mapa pela promotoria em relação à política número de vítimas judias – cerca
da extensa rede de campos nazistas, antissemita do Terceiro Reich: “Os de 5.700.000, de acordo com suas
em seguida, imagens horripilantes: crimes mais selvagens e em maior estimativas. Ele indicou o amplo
as condições desumanas dos número planejados e cometidos envolvimento dos réus e de outros
campos, os fornos crematórios, as pelos nazistas foram aqueles contra alemães – parte do plano nazista,
covas abertas em Mauthausen, os os judeus. Tenho o propósito de “segundo o qual cada réu era um
sobreviventes, esqueletos humanos demonstrar um plano e objetivo partido”; os ilimitados objetivos dos
famintos, cercados por pilhas de aos quais todos os nazistas estavam nazistas – seu plano de extermínio
corpos, algumas tão altas quanto fanaticamente comprometidos: que visava eliminar os judeus da
os barracos dos prisioneiros. As aniquilar todo o Povo Judeu. Europa e também do mundo;
imagens desafiavam a compreensão. Esses crimes foram organizados a selvageria fora do normal na
Ao término do filme, quando as e promovidos pela liderança do Europa Oriental – “o judeu oriental
luzes foram ligadas, um silêncio Partido, executados e protegidos sofreu como nenhum outro povo”; e
mortal. Os juízes simplesmente se pelos oficiais nazistas, e nós os os detalhes do assassinato em massa
levantaram e saíram. convenceremos disto mediante – os guetos, os Einsatzgruppen, as
ordens por escrito da própria Polícia camionetes com gás, o gueto de
Nas semanas seguintes foram Secreta Estatal”. Varsóvia...
apresentadas à Corte outros
curta-metragens, fotografias de Ao longo do conflito, os não judeus Estava tudo lá, e Jackson terminou
assassinados, da execução de e os próprios judeus não perceberam sua apresentação destacando o lugar
prisioneiros do Leste europeu, inteiramente o escopo nem o caráter das perseguições antijudaicas no
algumas das quais tiradas pelos da catástrofe. Importantes aspectos caso americano: “A determinação
próprios alemães. E, perante um da catástrofe haviam vazado para de destruir os judeus era uma força
público horrorizado, uma cabeça os canais de notícias dos Aliados vinculante que constantemente
embalsamada de um judeu utilizada do Ocidente e mesmo através da serviu de alicerce para os elementos
como peso para papel. propagando soviética durante o dessa conspiração. Em muitas
curso da guerra. Contudo – como políticas internas havia diferenças
Crimes contra os historiadores há muito deixaram entre os réus. Mas não houve sequer
o Povo Judeu claro – informação não significa um deles que não tenha repetido
conhecimento. o grito de guerra do nazismo:
No segundo dia do Julgamento, “Deutschland erwache, Juda verrecke!”
dedicando uma parte importante Telford Taylor, um coronel do (Alemanha, desperta; judaísmo,
de seu discurso de abertura a isso, o exército americano e parte da perece!).

65 SETEMBRO 2016
shoá

Apesar do importante muitos como o fundador do Direito


pronunciamento de abertura Internacional Moderno uniu-se,
de Jackson, as acusações contra em 1944, ao Executivo Britânico de
esses homens não se referiam Crimes de Guerra, envolvendo-se,
especificamente a crimes contra profundamente, na preparação do
os judeus. Ainda que também Tribunal Internacional. Defendia
intimamente associados à última os direitos humanos e estimulava as
alegação no indiciamento, o autoridades britânicas a perseguirem
assassinato dos judeus europeus não criminosos de guerra nazistas,
foi dissociado dos demais crimes. mostrando a necessidade de julgar
crimes de guerra e estabelecer a
As questões judaicas foram responsabilidade criminal individual
apresentadas em vários pontos do quando a guerra terminasse. Como
caso da promotoria. Os crimes contra o procurador geral dos eua vimos acima, ele tentou, sem sucesso,
os judeus estavam entrelaçados ROBERT H. JACKSON persuadir a Comissão das Nações
nas evidências presentes em todas Unidas contra Crimes de Guerra,
as alegações, em especial nos três advogados judeus que, embora sediada em Londres, a criar uma
crimes de guerra e crimes contra a não tendo participado formalmente, unidade especial para analisar
humanidade. Mesmo os promotores atuaram ativamente antes e durante crimes contra os judeus. Ajudou a
soviéticos, relutantes em distinguir do Julgamento para que a destruição formular a noção de uma definição
o sofrimento de judeus do de outros dos judeus da Europa se tornasse tripartite da criminalidade nazista
cidadãos soviéticos, apresentaram parte integrante do processo. Todos (crimes contra a paz/ crimes de
um relato completo e apavorante da eles tinham emigrado do Leste guerra/ crimes contra a humanidade)
campanha nazista contra os judeus. europeu, vinham de famílias da e, em particular, a ideia desta
Mas, como observou um jurista, o Europa Oriental que falavam iídiche, última definição, crimes contra a
assassinato dos judeus europeus foi e haviam perdido muitos de seus humanidade – claramente uma das
visto “em termos da lógica pervertida familiares no Holocausto. principais inovações jurídicas do
do controle político e da conquista Julgamento”.
militar”, e não como parte de um Professor de Direito Internacional da
projeto genocida inspirado pela Universidade de Cambridge, como Raphael Lemkin conquistou
ideologia antissemita. vimos acima, Lauterpacht nasceu reconhecimento público significativo
em uma família judaica ortodoxa na com sua apresentação do termo
Sir Hersch Lauterpacht, Raphael Galícia Oriental e se mudou para a genocídio, que ele popularizou em
Lemkin e Jacob Robinson foram Inglaterra em 1923. Considerado por seu livro “Axis Rule in Occupied
Europe” (O domínio do Eixo na
Europa Ocupada), publicado no
final de 1944. Ele tinha um cargo
no Escritório de Crimes de Guerra
do Gabinete do Juiz Advogado-
Geral, no Pentágono, e participou
da equipe de Nuremberg do Juiz
Robert Jackson. Lemkin ficou,
obviamente, gratificado quando
o indiciamento dos acusados, em
Nuremberg, se referiu a “genocídio”
em sua especificação de seus
crimes.

Quem mais atuou foi Jacob


Robinson. Sionista polonês, chegou
promotores americanos a Nova York em 1941 após fugir

66
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da Europa. Fundou o Instituto de


Assuntos Judaicos (IJA), braço de
pesquisa do Congresso Judaico
Americano e Congresso Judaico
Mundial. O IJA mantinha registro
dos crimes cometidos contra judeus
nos territórios ocupados pelos
nazistas, na Europa, e estudava
as bases legais para processar
criminosos nazistas. Mais do que
tudo, no coração de Robinson e
na defesa do Congresso Judaico
Mundial estava a noção de uma
coletividade judaica cruelmente wilhelm frick (de pé), em sua exposição final ao tribunal
vitimada – uma nova ideia para
muitos, em 1945-46. Robinson
queria o reconhecimento dos crimes que Nuremberg tivesse falhado em evidências. Refiro-me ao extermínio
alemães contra o Povo Judeu e o considerar esse crime grandioso dos judeus. Se não houvesse
fato de que o massacre do judaísmo “como uma unidade, de facto e de juri” nenhum outro crime contra esses
europeu era um crime único e – ou, em outras palavras, que “o caso homens, este único, no qual todos
independente – “O objetivo final das judaico não tenha sido destacado foram implicados, já bastaria. Não
políticas alemãs nazistas no tocante como um crime específico, mas há paralelo na História para esses
ao Povo Judeu era nada menos que ‘afogado’ nas abstrações dos Artigos horrores”.
sua completa aniquilação física”, 6 (b) e 6 (c) da Carta de
ele observou em um relatório – um Nuremberg”. Certamente, muito ficou sem
entendimento que é comumente explicação, e os principais livros
aceito hoje, mas que era pouco Reconhecimento da sobre o assunto somente foram
compreendido ou apreciado à época. singularidade do publicados décadas mais tarde.
ataque contra os Mas o Julgamento de Nuremberg
Robinson estava intensamente judeus disponibilizou de maneira
preocupado em documentar essa plenamente fidedigna, pela primeira
perspectiva e sentiu considerável Diferentemente dos líderes políticos vez, os elementos dessa história.
satisfação com a forma na qual em tempos de guerra, os promotores Desde então, as toneladas de provas,
esse material foi, afinal, usado no reconheceram o caráter único do documentos e testemunhos coletados
Julgamento. Como ele disse, muito ataque contra os judeus da Europa. tem constituído o principal ponto
mais tarde: “As provas submetidas Houve um claro reconhecimento da de referência para o estudo do
ao Tribunal Militar Internacional importância histórica da catástrofe. Holocausto.
no caso judaico foram avassaladoras: Jackson, em sua conclusão, disse:
mais de oitocentos documentos “O movimento nazista será uma
nazistas autoacusadores... foram lembrança maligna na História BIBLIOGRAFIA
apresentados e trinta e três devido à sua perseguição aos judeus, Roland, Paul, The Nuremberg Trials: The
testemunhas foram ouvidas, além de a mais ampla e terrível perseguição Nazis and Their Crimes Against Humanity.
todos os réus presentes”. Uma análise racial de todos os tempos”. Kindle edition
cuidadosa dessa documentação Gilbert, G. M., Nuremberg Diary, Ed. Da
Capo Press
leva, inexoravelmente, à conclusão De modo semelhante, um dia
Carruthers, Bob, The Nuremberg Trials
da existência de uma conspiração depois, o promotor chefe britânico, - The Complete Proceedings Vol 1: The
para destruir o Povo Judeu. Sir Hartley Shawcross, declarou: Indictment and Opening Statements.
Robinson ficou compreensivelmente “Houve um grupo ao qual o método Kindle edition
gratificado com a apresentação das de aniquilação foi aplicado em Ehrenfreund, Norbert, The Nuremberg
Legacy: How the Nazi War Crimes Trials
evidências sobre a destruição do uma escala tão imensa que é meu Changed the Course of History. Kindle
judaísmo europeu, mas lamentou dever referir-me separadamente às Edition

67 SETEMBRO 2016
shoá

os réus
Cada um dos 22 homens fortes do Terceiro Reich,
que o Tribunal Militar Internacional levou a julgamento
entre novembro de 1945 e outubro de 1946, teve uma
participação integral e necessária na criação do III Reich.
Cada um, à sua maneira, colocou suas “expertises” a serviço
de Hitler para que fossem atingidos os objetivos do
Führer de dominar a Europa e primordialmente exterminar
todo e qualquer judeu.

A
os que se perguntam por que é necessário a chegar ao poder. Implementou a Gestapo – polícia
sempre relembrar os crimes cometidos secreta do Estado – e os campos de concentração.
há mais de sete décadas, fazemos nossas Em 1933 chegou a alertar: “Qualquer um que erguer
as palavras do promotor britânico: a mão contra um representante do Movimento
“A memória humana é muito curta. (...) Nacional Socialista ou do Estado deve saber que
os fatos verdadeiros, nunca relembrados assertivamente, rapidamente perderá sua vida”. Seu Plano Quadrienal
tornam-se obscuros e esquecidos...”. do Partido Nazista ajudou a reerguer a Alemanha,
Como vimos no artigo Nuremberg, à página 61 desta sendo responsável por uma grande parte do
edição, os réus foram acusados de conspiração para funcionamento da economia alemã na preparação para
cometer crimes: contra a paz; crimes de guerra e crimes a 2a Guerra Mundial.
contra a Humanidade. As barbaridades cometidas pelos
nazistas foram tantas e de tamanha magnitude que, como Desrespeitando o Tratado de Versalhes, reestruturou
afirmava Elie Wiesel, a mente humana tem dificuldade a força aérea, a Luftwaffe, que passou a comandar
de assimilar. Nas páginas seguintes só nos resta dar uma em 1935, e que teve um papel fundamental na
pincelada nas “contribuições” de cada um dos acusados, criação da Blitzkrieg, a “guerra-relâmpago”. Göring
sem as quais o sucesso da empreitada nazista teria sido perseguiu ativamente os judeus e foi um dos que mais
comprometido. se empenhou em bani-los da Alemanha, em 1939.
Ordenou a Reinhard Heydrich, Obergruppenführer
Hermann Wilhelm Göring: Homem de das SS, e um dos principais “arquitetos” do Holocausto,
confiança de Hitler, chegou ao mais alto nível da “que resolvesse a ‘questão judaica’ por emigração ou
hierarquia civil: Reichsmarschall. Era o segundo homem evacuação”. Ele também incentivou a realização de
mais poderoso do 3º Reich. Nas palavras do Juiz Jackson, manifestações contra os judeus e foi um dos que
promotor chefe, Göring foi “meio militar, meio gângster”. orquestrou a “Noite dos Cristais”, em 9 de novembro
Ele usou as SA, as “camisas pardas”, tropas de choque de 1938, obrigando-os ainda a pagarem pelos
compostas por violentos brutamontes, para ajudar Hitler prejuízos. Em 1941 proibiu a emigração de todos os

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Julgamento de Nuremberg

judeus dos territórios ocupados em Rudolf Hess: Vice-líder preso com Hess após o fracassado
vista da eminência da “Solução Final do Partido Nazista e secretário- Putsch da Cervejaria, ditou-lhe o livro
da Questão Judaica”. Em meados particular do Führer nas décadas Mein Kampf, seu “manifesto político”,
de 1942, centrou seus “esforços” no de 1930 e 1940, ele era o terceiro imbuído de selvagem antissemitismo.
saque de milhares de obras de arte e homem mais poderoso da Alemanha Também foi Hess quem apresentou
no confisco de propriedades judaicas. Nazista. Em 1923, Hitler, que ficara a Hitler o conceito de Lebensraum
(um território adicional considerado
Durante o Julgamento, manteve necessário para a sobrevivência
uma postura arrogante, tornando- nacional) – uma importante
se um porta-voz não oficial dos plataforma política para a ideologia
réus, sempre afirmando que “os do Partido Nazista.Já em 1933, Hess
vitoriosos sempre serão os juízes e os queria ver a Alemanha com um
derrotados, os acusados”. completo domínio mundial. Ele era
O Tribunal o condenou à morte, mas o “engenheiro” da máquina partidária
ele covardemente suicidou-se três e, por seu intermédio, os nazistas
horas antes da execução. O Exército estabeleceram o controle do Partido
Aliado, querendo evitar a criação de acima do Estado. Ele dava a palavra
qualquer lenda no sentido de que final em todos os planos internos e
Göring havia conseguido escapar, em todas as questões consideradas
determinou que ele ocuparia seu vitais. Hess, que afirmava que “o
lugar como um homem morto, aos nazismo era biologia aplicada”, foi
pés da plataforma da forca, para que responsável por propagar a doutrina
as testemunhas e os correspondentes da “superioridade da raça alemã”
Aliados pudessem ver que ele com a qual os nazistas buscavam
realmente estava morto. prisão de nuremberg justificar as perseguições contra os

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judeus e outras “raças inferiores”. incondicional da Alemanha perante


Ele participou da criação das Leis os Exércitos Aliados.
de Nuremberg contra os judeus e Foi condenado à morte por
dos centros de eutanásia onde eram enforcamento. O Tribunal recusou
assassinadas pessoas consideradas seu pedido para ser executado por
“incuravelmente doentes”. Em um pelotão de fuzilamento.
maio de 1941, voou sozinho para a
Escócia. Os ingleses o mantiveram Ernst Kaltenbrunner:
detido até o final da guerra, quando Comandante Supremo das SS,
foi levado de volta à Alemanha para RSHA, SD e Gestapo. Jackson o
ser julgado. Durante o Julgamento, acusou de ter assumido, em 1943, o
alegou sofrer de amnésia, mas, manto sangrento de Heydrich “de
mais tarde, admitiu tratar-se de um reprimir a oposição e aterrorizar
rudolf hess (à frente, no centro),
estratagema. “Não me arrependo vice de hitler no partido nazista a submissão”. Incontáveis crimes
de coisa alguma”, afirmou durante de guerra e crimes contra a
o Julgamento. Condenado à prisão de suas mais impiedosas políticas, Humanidade foram planejados
perpétua, morreu no presídio, em entre elas o uso de mão-de-obra e ordenados por ele: tortura e
1987. escrava. Ordenou o maus-tratos aos assassinato de opositores ao
Prisioneiros de Guerra, em especial nazismo, de judeus, de comunistas
Joachim von aos soviéticos. Em relação aos judeus, e de prisioneiros de guerra. Foi
Ribbentrop: Ministro das defendeu sua eliminação de todo responsável pela deportação de
Relações Exteriores. Quando os território sob controle do III Reich milhões de civis-homens, mulheres,
temores, no exterior, colocaram e deu à Gestapo absoluta jurisdição velhos e crianças, de nações ocupadas
em risco o sucesso das conquistas sobre eles. Não era suficiente, para campos nazistas. A lista de
nazistas, Ribbentrop, “o vendedor afirmava, deportá-los. Havia que seus crimes contra o Povo Judeu é
das ilusões”, como o Juiz Jackson utilizar contra eles força e violência infindável e assustadora. As RHA
o denominou, “foi encarregado de implacáveis. Testemunhas afirmaram tiveram um papel crucial na Solução
jogar água fria nas suspeitas, com durante o julgamento que era Final sendo que uma unidade
sua ladainha de intenções limitadas Bormann quem transmitia as ordens especial foi criada para supervisionar
e pacíficas”. Esteve ativamente de Hitler de extermínio dos judeus. o extermínio dos judeus. Dos 6
envolvido no planejamento Foi condenado à morte à revelia. milhões assassinados durante a Shoá,
da anexação da Áustria, da Posteriormente descobriu-se que 4 milhões foram mortos quando
Checoslováquia e na ocupação de Bormann não fugira, mas falecera em Kaltenbrunner estava à frente das
todos os países que a Alemanha 1945. RSHA. Foi condenado à morte por
invadiu. Sua participação na enforcamento.
“Solução Final” foi crucial, Wilhelm Keitel: Marechal de
pois, já em 1942, ordenara aos Campo, chefe do Alto Comando das Alfred Rosenberg:
diplomatas alemães sediados Forças Armadas, após 1938 tornou- Principal “filósofo” do nacional-
em vários estados satélites sob se conselheiro militar de Hitler. A socialismo, em 1941se tornou Reich
controle nazista que acelerassem a promotoria o acusou de ter entregue Minister dos Territórios da Europa
deportação dos judeus para o Leste as Forças Armadas ao Partido Oriental. Antissemita convicto
europeu. O Tribunal o condenou à Nazista, usando-as para executar desde a juventude, elaborou “uma
morte por enforcamento. os criminosos planos partidários. escala racial humana” que justificasse
Durante a Guerra, incentivou a as políticas de Hitler e a longa
Martin Bormann selvageria nas fileiras do exército, lista de atrocidades nazistas. Para
(julgado à revelia): ordenando o uso dos meios mais Rosenberg, os judeus eram um
Principal secretário-particular de brutais possíveis, mesmo em relação inimigo prioritário, um “vírus” que
Hitler, depois da fuga de Hess para a mulheres e crianças. Ele afirmara devia ser exterminado. Nas palavras
a Grã-Bretanha, tornou-se seu que “a vida humana no Leste valia de Jackson, Rosenberg foi “o sumo
Vice-Führer. Era a força que guiava menos que nada”. Em 8 de maio sacerdote intelectual da pretensa ‘raça
o Partido nazista na execução de 1945, Keitel assinou a rendição superior’, o arquiteto da doutrina

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de ódio que daria o ímpeto para a ministro do Interior, Frick era incluindo um chamado Der Giftpilz
aniquilação dos judeus europeus... a autoridade final em questões (O cogumelo venenoso). Após os
e quem colocou suas teorias infiéis constitucionais, de raça e cidadania, nazistas assumirem o poder, sua
em prática contra os Territórios além de ter jurisdição sobre postura antissemita tornou-se ainda
Ocupados do Leste”. Rosenberg administração governamental e a mais violenta. Ele teve um papel
criou a mais exitosa organização defesa civil. Esteve profundamente de liderança nas manifestações
nazista engajada na pilhagem de envolvido na promulgação das leis contra os judeus na Noite dos
objetos de arte da Europa. Quase raciais e da legislação antissemita. Cristais, em novembro de 1938.
1,5 milhão de unidades de carga Frick implantou, ainda, o projeto de Ordenou a destruição da Grande
ferroviária de objetos de arte foram esterilização forçada e da eutanásia. Sinagoga de Nuremberg, sua cidade
despachados para a Alemanha. Como outros nazistas, apropriou-se natal, alegando “sua insatisfação
Foi condenado à morte por de bens dos judeus. com a arquitetura do edifício”.
enforcamento. Foi condenado à morte por Foi condenado à morte por
enforcamento. enforcamento. Pouco instantes antes
Hans Frank: Governador de ser enforcado, gritou: “Festa de
geral da Polônia Ocupada. Assessor Julius Streicher: Purim, 1946”, lembrando a frustrada
jurídico pessoal de Hitler, em 1933 Sádico, com uma mente lasciva e tentativa de extermínio dos judeus
foi nomeado comissário do Reich pervertida, ele liderava a ala anti- por Haman.
para a submissão da Justiça nos judaica mais violenta do partido
Estados e a renovação do Estado nazista e orgulhosamente se Hjalmar Schact: Ministro
de Direito. Frank fortaleceu o autodenominando “Antissemita da Economia e presidente do
controle nazista sobre a Alemanha No 1”. Fundou o jornal semanal Reichsbank, Banco Central da
e estabeleceu uma nova ordem que “Der Stürmer”, que acabou se Alemanha, de 1933 a 1939. A
fez dos ditames do partido nazista tornando instrumento central de ajuda de Schact foi indispensável
o único parâmetro de legalidade. propaganda do Partido Nazista. para que os nazistas chegassem ao
Como governador da Polônia O antissemitismo de Streicher poder, pois utilizou seu prestígio
Ocupada era o responsável pela era obsessivo e durante 25 anos no mundo de negócios para a causa
exploração e assassinato de centenas ele educou o povo alemão para o nazista e atuou intensamente para
de milhares de civis e a virtual ódio contra os judeus e clamou que os empresários financiassem
aniquilação dos judeus poloneses. por seu extermínio em discursos o colossal e secreto programa
Anunciou o planejado extermínio e publicações. Chegou mesmo a de rearmamento do.Führer. Foi
dos judeus da Polônia em uma publicar livros infantis antissemitas, Schacht, “verdadeira fachada de
reunião com seus superiores em 16 imaculada respeitabilidade, quem,
de dezembro de 1941. Durante o nos primórdios da Guerra, forneceu
Julgamento a promotoria revelou a aparência enganosa, a isca para os
que quatro dos seis campos de que ainda hesitavam”. Absolvido
extermínio estavam localizados na posteriormente, um tribunal de
Polônia. Convertido ao catolicismo, Desnazificação alemão o condenou a
alegou remorso diante das evidências oito anos de prisão. Foi libertado em
apresentadas. Foi condenado à morte 1948, vindo a falecer em 1970.
por enforcamento.
Walter Funk: Chefe
Wilhelm Frick: Ministro plenipotenciário para a Economia
do Interior do Reich de 1933 de 1938 até 1945. Em 1939 se
a 1943, quando foi nomeado tornou presidente do Reichsbank.
Protetor da Boêmia e Morávia. Um momento de grande tensão
Jackson o intitulou de “organizador durante o julgamento ocorreu
impiedoso”. Ele ajudou o Partido a quando a Procuradoria apresentou
conquistar o poder, supervisionando evidências documentais que
as forças policiais para garantir demonstravam que quando Funk
que continuasse no poder. Como wilhelm frick presidia o Reichsbank, o banco

71 SETEMBRO 2016
shoá

recebia e mantinha sob custódia ‘prontos’ ao Partido como executores


vultosos depósitos das SS. Esse fanáticos e incondicionais de suas
depósito consistia de joias e outros determinações. Em 1938, ele fechou
valores, inclusive ouro de dentes um acordo com Himmler para que
dos milhões de vítimas assassinados membros da Juventude Hitlerista
pelos nazistas nos campos de fossem considerados com a fonte
morte. Assessor econômico pessoal primária de substituição para as
de Hitler na década de 1930, foi SS.Em 1940, Hitler denominou-o
responsável por ter impulsionado “Gauleiter de Viena” (como um
o rearmamento da Alemanha. Prefeito), sendo responsável pela
Funk atuava como elemento de transferência dos judeus que ainda
ligação entre o Partido Nazista e estavam na cidade para a Polônia.
os donos das grandes indústrias, Em setembro de 1942, von Schirach
conseguindo seu apoio para o Hermann Göring, Rudolf Hess, J. von
fez um discurso em que defendia
Führer. Em janeiro de 1933, quando Ribbentrop e Wilhelm Keitel sua ação de ter deportado “dezenas
Hitler se tornou chanceler do Reich, de milhares de judeus para viver
Funk assumiu o Departamento mar com ferocidade ilegal” de modo nos Guetos do Leste como uma
de Imprensa. Com controle total a incapacitar a marinha mercante dos contribuição à cultura europeia”.
sobre os meios de comunicação, Aliados dizimando suas tripulações. Juntamente com Albert Speer,
foi, até o final de 1937, uma figura- Foi condenado a dez anos de prisão, ele denunciou as ações de Hitler
chave na área de propaganda. Teve pena que cumpriu integralmente. no Tribunal. Condenado à pena
ampla participação nas políticas Faleceu em 1980. de 20 anos de prisão, cumpriu-a
e na legislação antissemita e na integralmente. Faleceu em 1974.
eliminação de judeus e dissidentes Erich Raeder: Comandante
políticos no campo da literatura, supremo da Marinha de 1928 Fritz Sauckel: Ministro
música, teatro, jornalismo e artes, em a 1943. Jackon afirmou que ele, Plenipotenciário Geral para o
geral. Em 1938, assinou um decreto “o almirante político”, construíra Emprego de Trabalhadores do III
de medidas econômicas drásticas furtivamente a Marinha alemã, Reich (1942), foi apontado por
em relação aos judeus, sujeitando desrespeitando o Tratado de Jackson como sendo “o maior e
seus bens ao confisco, vangloriando- Versalhes, pondo-a uso em uma série mais cruel escravagista desde os
se de que, em 1938, o III Reich se de agressões em cujo planejamento Faraós do Egito”. Foi o responsável
apropriaria de cerca de dois milhões ele tivera parte ativa. Foi o principal pela organização de um método
de marcos. Funk também participou responsável por transferir a lealdade sistemático para subjugar milhões
do planejamento do ataque à Rússia da Marinha ao Partido Nazista, de civis, conseguindo levar para a
e da apropriação das reservas de ouro garantindo sua inquestionável Alemanha a tão desesperadamente
dos bancos da então Checoslováquia. aliança. Certos crimes de guerra necessária mão-de-obra. Mais de
Condenado à prisão perpétua, foi foram ordenados através da cadeia cinco milhões de trabalhadores dos
libertado em 1957. Faleceu em 1960. naval de comando pelo próprio países ocupados foram levados como
Raeder – “qualquer meio de guerra escravos à força para a Alemanha.
Karl Dönitz: Comandante que é eficaz em quebrar a resistência As ordens de Sauckel eram que
supremo da Marinha em 1943, do inimigo deve ser usado”. “todo homem deve ser alimentado,
assumiu o posto de chanceler depois Condenado à prisão perpétua, foi abrigado e tratado de forma a
do suicídio de Hitler. Famoso pela solto em 1955, falecendo em 1960. ser explorado ao máximo com o
atuação à frente da Kriegsmarine mínimo custo”. Foi responsável pela
(Marinha de Guerra), instou os Baldur von Shirach: morte de centenas de milhares de
tripulantes dos submarinos a não Führer da Juventude Hitlerista. O trabalhadores judeus na Polônia.
resgatarem os sobreviventes dos “envenenador” de uma geração, Foi condenado à morte por
navios inimigos. Ele “promoveu introduziu a juventude alemã à enforcamento
o sucesso das agressões nazistas doutrina nazista, treinando-os
instruindo sua frota de submarinos para se tornarem membros das SS Alfred Jodl: Chefe do Staff
assassinos a conduzir a guerra no e da Wehrmacht, e os “entregando de Operações do Alto Comando

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REVISTA MORASHÁ i 93

das Forças Armadas, atuou também Escola, que “atirava as pérolas” de


como vice do Marechal de Campo sua experiência perante os nazistas,
Wilhelm Keitels. No planejamento guiou a diplomacia nazista nos anos
e condução de assuntos militares iniciais, amenizando o temor pelas
ele era mais influente do que os potenciais vítimas”. Enquanto era
demais departamentos militares. governador da Boêmia e da Morávia,
Jodl dirigiu a Wehrmacht na Von Neurath dissolveu o Parlamento
violação de seu próprio código de checo e instituiu as Leis Racistas
honra militar de modo a cumprir de Nuremberg. Foi condenado a 15
a política militar nazista. Foram anos de prisão, mas solto em 1954.
suas as ordens para a campanha Faleceu em 1956.
alemã contra a Holanda, Bélgica,
Noruega e Polônia. Ele também Hans Fritzsche:Diretor da
planejou ataques contra a Grécia e franz von papen
Divisão de Rádio do Ministério
Iugoslávia. Jodl foi o responsável por de Propaganda. Nessa função,
assassinatos, deportações, trabalho teve participação importante “na
escravo, maus-tratos e assassinatos Países Baixos sendo responsável pela manipulação da verdade dos fatos,
em massa das populações civis nos deportação de 120 mil dos 140 mil levando a opinião pública alemã
territórios ocupados e em alto-mar. judeus holandeses para Auschwitz. a apoiar totalmente o regime
Ele assinou a rendição da Alemanha. Foi condenado à morte por nazista e anestesiando a capacidade
Foi condenado à morte por enforcamento. de julgamento independente da
enforcamento. população”. Fritzsche incitou a
Albert Speer: Ministro de atrocidades e encorajou o uso de
Franz von Papen: Chanceler Armamentos e Produção para a força bruta nos países ocupados
em 1932, apoiou a anexação da Guerra. Fazia parte do círculo mais pelos nazistas. A frieza e o zelo
Áustria e devotou todo o seu talento próximo de Hitler. Em 1939, seu das pessoas que cometeram as
diplomático aos objetivos nazistas. escritório assumiu o controle da atrocidades foram, em grande
Ajudou a consolidar o controle distribuição dos apartamentos que parte, devidas à propaganda
nazista em 1933 e fortaleceu a pertenciam aos judeus de Berlim constante e corrosiva de Fritzsche e
posição do Partido na Áustria, e, depois de 1941, foi eficiente seus associados. Absolvido, foi, no
criando as condições para a ocupação. organizador da economia de guerra entanto, condenado em 1947
Absolvido, um tribunal alemão, no alemã. A Procuradoria o acusou de a 17 anos a trabalho por um
entanto, condenou-o em 1949 a oito usar trabalho forçado dos prisioneiros tribunal de Desnazificação alemão
anos em um campo de trabalhos. dos campos de concentração na em um campo de trabalhos, sendo
Mas a pena foi considerada indústria de armamentos alemã libertado três anos depois. Morreu
cumprida. Morreu em 1969. em condições sub-humanas. em 1953.
Contrariando a orientação de seu
Arthur Seyss-Inquart: advogado de defesa, foi o único réu a
Ministro do Interior e governador do aceitar a responsabilidade pelos atos
Reich na Áustria, além de Comissário do regime nazista. Porém, ele não BIBLIOGRAFIA
do Reich na Holanda. Assumiu o admitiu sua culpa individualmente, Roland, Paul, The Nuremberg Trials: The
governo de seu próprio país apenas afirmando que foi coletiva e que ele Nazis and Their Crimes Against Humanity.
era apenas parte do todo. Condenado Kindle edition
para entregar a Áustria a Hitler.
a 20 anos de prisão, cumpriu a pena Gilbert, G. M., Nuremberg Diary, Ed. Da
Em outubro de 1939 tornou-se Capo Press
vice-governador da Polônia e, em integralmente. Morreu em 1981. Carruthers, Bob, The Nuremberg Trials
1940, foi indicado Comissário do - The Complete Proceedings Vol 1: The
Reich na Holanda. Colaborou com Constantin von Indictment and Opening Statements.
Kindle edition
as SS. Acreditava serem necessárias Neurath: Ministro das Relações
Ehrenfreund, Norbert, The Nuremberg
severas políticas de ocupação e foi Exteriores de 1932 a 1938 e Reich Legacy: How the Nazi War Crimes Trials
“implacável na aniquilação de seus Protector da Boêmia e na Morávia Changed the Course of History. Kindle
oponentes”. Perseguiu os judeus nos (1939 a 1941).Diplomata da Velha- Edition

73 SETEMBRO 2016
cartas

A edição de junho da Morashá está cheia de lições,


entre as quais, a do Bezerro de Ouro, de Anne Frank e
do premiê judeu na Ucrânia. A Carta ao Leitor é plena de
conhecimentos históricos, mostrando a diferença entre
Jerusalém, sempre ligada ao Povo Judeu, e outros povos
que sempre quiseram inutilmente impor sua cultura ao
Povo Judeu. Am Israel Chai, o Povo Judeu permaneceu. Esta
carta é uma magnífica lição de História.
Meer Gurfinkel
Rio de Janeiro - Rj

Gostaria de parabenizar a Morashá Da edição 91 da Morashá, abril Por meio da revista Morashá tenho ao
pelo excelente artigo sobre os judeus 2016, ressalto comentários sobre o longo destes anos me aproximado da
na Colômbia durante a 2ª Guerra filme “O Filho de Saul”, uma viagem cultura, religião e tradições judaicas.
Mundial. Ele descreve os fatos ao inferno. Oscar de melhor filme Agradeço à equipe editorial por tornar
históricos com precisão. Foi uma estrangeiro (húngaro), exibido em acessível este conhecimento. Sou
linda surpresa me deparar com a foto poucos cinemas no Brasil. Para mim, professor de agronomia da UFSC,
do irmão do meu avô com a Golda uma obra-prima. No ensejo dos Jogos em Santa Catarina, e como tal,
Meir, e com a foto da muito querida Olímpicos no Rio de Janeiro, dou gostaria de parabenizar os editores
família Eidelman. Um dos meninos destaques ao técnico de futebol Bela pela reportagem publicada na edição
nessa última foto é o Natan, que foi Gutman, judeu húngaro que veio 92 de Junho sobre “O sucesso dos
o melhor médico geral de Bogotá para o Brasil em meados da década vinhos de Israel”. Em um texto
durante décadas, e pai de duas queridas de 1950. Foi contratado pelo time sucinto e ilustrado, o leitor tem uma
amigas. Muito especial! Parabéns! do São Paulo F.C. e introduziu no visão geral sobre o desenvolvimento
Compartilhei a matéria com vários futebol brasileiro as modernas técnicas da vitivinicultura de Israel. Apreciar
amigos e parentes. Foi muito elogiada adotadas pelo futebol húngaro, um vinho produzido com uvas dos
por todos! sensação mundial; e registro a terroirs israelenses transcende os
carreira do técnico de voleibol, judeu sentidos do olfato e paladar! Tem
Diana Moreinis Nasser
Por e-mail brasileiro Sami Melnisky, que formou uma dimensão histórica e religiosa
muitas gerações de jogadores e deu incomensurável, que aliada a sua
A leitura da Morashá é enriquecedora, títulos internacionais para o voleibol qualidade, irá certamente conquistar
elucida aspectos da tradição judaica, do Brasil. Bela Gutman tornou-se um os mercados mais longínquos.
difundindo através de artigos bastante ídolo para o São Paulo F.C. e ganhou Lechaim!
originais conhecimento a respeito uma lembrança na entrada do Estádio
Prof. Marciel J. Stadnik
dos mais variados aspectos do povo do Pacaembu, em São Paulo. Florianópolis - SC

judeu e de personagens interessantes Leopoldo Goldenberg


de sua história. Todo esse acervo de Por e-mail Sou professor de História e a revista
informações é entremeado a uma Morashá tem me ajudado muito a me
impressionante e bela documentação Agradeço o envio da Morashá. aprofundar em temas mais variados,
fotográfica. A revista realmente encanta. Considero a revista um primor! desde religiosos até puramente
Vejo-a como uma preciosidade, pois Após a leitura levo-a para o meu históricos. É uma fonte de
cada exemplar é uma obra de arte. consultório, onde os pacientes podem conhecimentos e de diálogo de valor
Guardo os números que já recebi com desfrutar de matérias com o conteúdo inestimável, tanto para os leitores
muito carinho e os exponho quando a histórico e muito interessante desta quanto para os alunos que recebem
possibilidade de mostrar as belezas da linda revista. Não é raro alguém pedir parte deste legado. Que D’us continue
tradição judaica se apresenta. emprestado. abençoando seus editores.
Horácio Friedman Bela Rosa Lichand David Barbosa Miranda
Brasília - DF São Paulo - SP Osasco - SP

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REVISTA MORASHÁ i 93

Conheci a Morashá por meio da Recebi a edição 92, de junho, Leio cada artigo, a cada ansiosamente
minha primeira professora de hebraico, na véspera de embarcar e passei aguardada edição da revista Morashá.
Iara Feldman, que me presenteou com a viagem toda aproveitando este Acompanho também as cartas dos
algumas publicações. Acho a qualidade maravilhoso material. Parabéns seus leitores que, como eu, adquirem
da publicação excelente! De imediato, pela edição, que agora, será repassada conhecimento ímpar pelo conteúdo
gostei muito do conteúdo editorial, para meus familiares em Jerusalém. apresentado e pela seleção de imagens
muito rico e de grande relevância Desejo muitas alegrias e, sobretudo, que enriquecem ainda mais seu teor.
para as famílias judias, por enfocar os gratidão pelo fantástico trabalho A edição de junho impactou mais
valores judaicos e a história de nosso da revista ao longo destes anos. uma vez por todos estes motivos, mas
povo. Continuem com Morashá, força é preciso ressaltar sua beleza a partir
total! de sua deslumbrante capa. Vocês
Caroline Rossi Tardin
São Paulo - SP foram mestres ao ressaltar detalhes da
Sylvia Lakeland
Jerusalém - Israel Sinagoga Scuola Grande Spagnola de
Morashá, como sempre exemplar... Veneza.
a capa e a seleção dos artigos. Como É com grande satisfação que Frederik Simon
educadora, destaco a entrevista com venho recebendo essa importante Curitiba - PR

o ministro da Educação de Israel, revista, que não só se destaca


Naftali Bennet. Tenho socializado pelo seu original e esclarecedor Contente? Não existem
a leitura do artigo, que envolve uma conteúdo, sempre fiel ao resgate agradecimentos suficientes ao receber
postura comprometida em diminuir da memória judaica no nosso com tanto carinho esta coleção de
a diferença de oportunidades mundo, como, também, pelo seu edições da Morashá! Já li a última
entre os vários segmentos da nossa artístico projeto gráfico. Receber edição de capa a capa. Meu primeiro
sociedade. “Um dever de casa” para essa publicação é como receber um conhecimento foram três edições
nosso Sistema Público Educacional irmão-judeu em casa. trazidas há alguns anos por uma
Brasileiro... simples e profundo... Denise Weinreb
amiga. Me trouxeram tal alegria
apenas quatro objetivos que trariam Porto Alegre - RS que ainda as tenho e já as reli. Eu já
mudanças significativas: a importância “frequentei” o website da Morashá,
dos valores familiares e sociais, a Toda a revista está maravilhosa, a mas leitura na mão é mais valiosa
preocupação com estratégias para capa muito bonita e todos os artigos para mim. No Rio, frequentei escola
criar uma geração mais articulada, são muito interessantes. Aprende- primária e secundária com uma
criativa e produtiva, inclusão social se muito sobre o judaísmo ao ler menina; éramos muito amigas e as
e, principalmente, o investimento a revista e espero cada edição com únicas Israelitas na nossa classe.
no Ensino Básico. É um imenso ansiedade. Queria destacar, nessa Com a idade de 20 anos vim viver
orgulho o resultado, uma taxa de 98% edição nº 92 de Junho 2016, um em Nova York e perdemos contato.
de alfabetizados em Israel. Deu-se artigo que me tocou muito: do Há trinta anos atrás visitamos o
relevância ao ensino de qualidade gladiador que virou sábio! Fantástica, Rio e nos reencontramos. Minha
que contemplasse desde a pré-escola também, a matéria sobre Veneza. amiga querida Ana Carla Safadi
até a universidade. Outro destaque, Que D’us vos dê forças para trouxe sua filha para estudar aqui
a iniciativa do COI em homenagear continuar esse trabalho. neste verão. Como ia voltar e
os 11 atletas israelenses mortos em David Kohen mencionou se eu queria algo do
Munique – Esse momento deve ser Rio de Janeiro, - RJ Brasil, eu imediatamente disse que o
sempre lembrado numa busca da paz e melhor presente seria uma edição da
união entre os povos. Esse é o espírito Dolorosa, mas importante leitura, Morashá! “Little did I know” que ela
das Olimpíadas... principalmente para os mais se comunicou com Morashá, e vocês
Baruch Habá. jovens, o artigo sobre o Pogrom de me mandaram este tesouro adorado!
Kielce. Nos dias de hoje, quando a E quantas pessoas carregam quase
Janete Haber Fajntuch
Rio de Janeiro - RJ intolerância e radicalismo crescem 5 quilos preciosos de bagagem de
é preciso ter consciência das São Paulo ao Rio e depois para cá?
Morashá tem artigos maravilhosos! consequências que podem acarretar. Somente uma grande amiga.
Rachel S. Pereira
Silvia e Oscar Glusman Gladys udewitz
Porto Alegre - RS Por e-mail Nova York - EUA

75 setembro 2016

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