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Traças, Ácaros & Cia

VOTOS DE CASTIDADE
Da obra O Homem Estúpido ― L’homme stupide, Ernest Flammarion Éditeur,
Paris, 1919.
Charles Richet1
Tradução : Maristela Bleggi Tomasini2

Alhures, em todos os tempos e em todos os países, as funções da


geração têm sido sabiamente pervertidas por nefastas invenções.
Que absurda anomalia aqueles votos de virgindade, sejam do
homem, sejam da mulher! Uma das funções mais nobres, — eu ousaria
mesmo dizer das mais santas, — do ser humano é a de dar nascimento a
outros seres humanos. Se existe qualquer objetivo em nossa existência, —
o que é, a rigor, admissível, — é o de prolongar no tempo, por novas
gerações, a nossa espécie. É, pois, violar a lei primordial imposta a todo ser
vivente condená-lo a uma virgindade perpétua. E, todavia, não era isso que
faziam as vestais? Não existem faquires? Não vemos, nas igrejas e
mosteiros, religiosos e religiosas que acreditam conquistar a santidade
pela virgindade? Santidade bem singular que consiste em não obedecer às
leis divinas.
Se essas vestais, esses capuchinhos, essas carmelitas, esses
dominicanos, esses jesuítas, esses faquires fossem acessíveis a um
raciocínio, eu lhes diria que, por seus votos de virgindade, eles vão
diretamente contra a manifesta vontade do deus no qual eles crêem. Em se
revoltando contra seu destino, eles praticam ação de rebeldes. É ofender o
Criador pretender fazer melhor que Ele, desobedecendo de modo
impudente à lei suprema que Ele ordenou a todo ser vivente.
Não se pretenderá que se trata aqui, como para os eunucos, de
uma raríssima exceção. De fato, os celibatos voluntários estendem-se,
como a religião cristã, sobre toda a superfície terrestre. Mesmo o vulgo

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cerca de uma lastimosa veneração os infelizes e as infelizes que se colocam


fora — ou mesmo acima — das leis humanas. Mas que importa a opinião
do vulgo? Que me importa a cegueira de meus contemporâneos? Eu não
tenho o direito de constatar que o homem, enganado pelos erros de sua
reles inteligência, coloca-se em dissensão com a unanimidade dos seres?
Único, na imensa Natureza, ele se impõe a virgindade. Ele é, pois, o único
a ser absurdo!
Em dizendo que é preciso respeitar a obra de Deus, eu estou
mais perto da religião que os próprios religiosos.
Como fisiologista, estudando as molas da máquina vivente, fui
lenta e seguramente levado a uma conclusão geral, simples e formal, de
que nosso corpo e nossa alma estão num estado normal tão excelente, que
toda modificação, em lugar de melhorá-los, os torna piores; em lugar de
aperfeiçoá-los, degrada-os. O ideal de uma vida feliz, sã e forte é a vida
natural. Acreditar que se progride, suprimindo as funções geradoras, é tão
insensato quanto acreditar chegar a uma moralidade superior por açoites e
jejuns. O exercício regular e moderado de nossas funções normais: eis a
verdadeira santidade. A sábia e fecunda Natureza nos tem indicado
claramente sua vontade, quando ela nos mune de tais ou quais órgãos. Nós
a insultamos acreditando fazer melhor que ela.
Não apenas nós a insultamos, o que a deixa bem indiferente;
mas ainda, perante nós mesmos, somos estúpidos.
Parece, diz-se algumas vezes, que essas virgindades sacerdotais
dirigidas por teorias de freiras e frades são protestos contra as perversões
do século. Mas fala-se seriamente? Em que cinqüenta mulheres santas que
se prosternam sobre uma laje vão extinguir as obscenidades de todo um
mundo de cortesãs? As damas romanas da decadência levavam falos
pendurados no pescoço. Essa grosseria era por acaso diminuída, porque no
Templo de Vesta suspiravam as virgens que alimentavam o fogo sagrado?
Eis duas aberrações em lugar de uma. Eles somam-se em lugar de se
anularem.

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O que faz a superioridade do animal sobre o homem é que


jamais um animal procura modificar o curso normal de sua vida
fisiológica. E assim ele encontra, de pronto, o nível ótimo do qual um ser
vivo não pode senão afastar-se com suas invenções, sua imaginação, seus
preconceitos.
A inteligência a acoplar-se com a estupidez: eis assim em que se
pode resumir a evolução humana! Servir-se da razão para corrigir os
instintos animais é muito irracional. Empregar sua inteligência em fazer
desaparecer esses instintos é dar prova, não de inteligência, mas de
inépcia. Se, aperfeiçoando todas as capacidades de dedução ou de indução
que fermentam em nosso cérebro, nós as aplicássemos em complicar e
aumentar nossos instintos, de maneira a nos conformarmos, cada vez
mais, às leis naturais, nós nos tornaríamos talvez, superiores aos animais.
Nada disso. Parece que todo nosso esforço tende a se opor às leis que a
Natureza deu a nosso ser.
É-se bastante louco para acreditar que se vai imaginar melhor
que o Amor para desenvolver nossa energia moral?

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1
Charles Robert Richet era filho de um cirurgião. Ele nasceu em Paris, em 26 de agosto de 1850 e ali morreu em 04 de
dezembro de 1935, sem assistir integralmente ao espetáculo da II Grande Guerra, detalhe providencial talvez. Ainda
enquanto estudante, assistiu aos cirurgiões Léon Clément le Fort (1829-1893) e Aristide Auguste Stanislas Verneuil (1823–
1895). Porém, servindo como interno em hospitais em 1872, iniciou experimentos relacionados ao hipnotismo. Durante os
dois anos seguintes, produziu numerosos transes em pacientes. Foi ele quem cunhou o termo metapsíquica para a pesquisa
parapsicológica. Esta experiência provavelmente o influenciou a abandonar a cirurgia e devotar-se à fisiologia.
Foi no campo desta estranha metapsíquica e do estudo dos fenômenos paranormais que Richet tornou-se mais conhecido
entre nós como entre seus contemporâneos. Sua obra veio a coroar as investigações mais ou menos convergentes recolhidas
ao longo de setenta anos. Seu Traité de Métapsychique, editado em Paris, 1923 por Felix Alcan, obra esta que infelizmente
eu ainda não tenho, embora já a tenha manueseado, resume o conhecimento da época nesse campo. Richet, ao longo de toda
sua vida, interessou-se vivamente pelos fenômenos ditos paranormais, tornando-se presidente do Instituto Metapsíquico
Internacional de Paris e mantendo estreitas relações com metapsiquistas de todo o mundo. Firme adversário da hipótese
espiritista, aportou a estas investigações — de caráter tão especial — toda a sua lealdade, vigor, clareza mental, tudo quanto
distinguiu sempre, de modo marcante, o seu trabalho. Sua obra comprometeu indiretamente a própria metapsíquica,
desferindo-lhe um golpe do qual não se recuperou jamais.
Chamado muitas vezes a investigar fenômenos curiosos, como o aparecimento de fantasmas, nada escapava ao sábio. Pode-
se imaginar sua atuação frente ao famoso caso da Villa Carmen, de Argel, onde a médium, uma tal Marthe Béraud, jovem
de excelente sociedade, produzia, no ano de 1904, a aparição de um fantasma chamado Bien Boa, fantasma de bigodes que
circulava em torno dos assistentes envolto num manto branco e que se desmaterializava sobre o piso. O caso provocou a
edição de mais um livro do Dr. Richet: Les Phénomènes Dits de Matèrisation de la Villa Carmen (Os Fenômenos Ditos de
Materialização da Villa Carmen), Bureau dos Anais de Ciências Psíquicas, Paris, 1906, onde teceu sérias objeções a respeito
do fenômeno.
Em 1878 Richet foi nomeado professor agregado da Faculdade de Medicina. Foi professor da Universidade de Paris,
Sorbonne, de 1887 a 1927.
Foi um homem de muitos talentos e interesses. Pesquisador da fisiologia, escritor, atraído pela aviação. Participou, inclusive
do desenho e da construção de um dos primeiros aviões. Dedicado pacifista, procurou demonstrar os malévolos efeitos da
guerra, publicando trabalhos sob o pseudônimo de Charles Epheyer. Escreveu também sobre filosofia, poesia e drama.
Durante a I Guerra, no fronte, investigou problemas relacionados à transfusão de plasma sangüíneo. Em 1926, recebeu a
Cruz da Legião de Honra.
2
Maristela Bleggi Tomasini é advogada e tradutora da língua francesa, com versões para o português, de três obras
publicadas: O Homem Delinqüente, de César Lombroso, Porto Alegre, 2001, Ed. Lenz, em conjunto com o Dr. Oscar
Antonio Corbo Garcia; As Transformações do Direito, Estudo Sociológico, de Gabriel Tarde, 2002, Ed. Supervirtual e A
Criminalidade Comparada, também de Gabriel Tarde, 2004, pela E-Books Brasil. mtomasini@cpovo.net

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