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Traças, Ácaros & Cia

DA ESTUPIDEZ
Da obra O Homem Estúpido ― L’homme stupide, Ernest Flammarion
Éditeur, Paris, 1919.
Charles Richet1
Tradução : Maristela Bleggi Tomasini2

Nos bons velhos tempos, um rei, com seu poder sem limites,
tinha o direito de vida e de morte sobre milhões de súditos que lhe
pertenciam desde o berço. E como estava cercado por uma tropa de
servidores solidamente armados, robustos e sem escrúpulos, ele podia
fazer enforcar e dar tratos de polé, segundo seu prazer. Podia mesmo
forçar milhões de indivíduos a trabalhar para seu palácio ou para seu
túmulo durante anos e anos. As pirâmides não são apenas um
magnífico edifício. Elas são ainda um esplêndido testemunho da
loucura humana, pois que todo um povo deslocou e empilhou enormes
pedras durante trinta anos, com o único fim de construir, para o Rei
Quéops, uma sepultura que desenhasse seu prodigioso perfil a alguns
quilômetros de distância. Que dez milhões de escravos tenham assim,
sem se revoltar, suado, penado, sofrido para a satisfação de um único
personagem, por Quéops que ele fosse, eis uma inépcia que se ergue
bem acima do vértice da alta pirâmide.
Mas Quéops não foi o único a escravizar um grande povo a
tarefas absurdas. A história do mundo é, sobretudo, aquela dos
diversos Quéops, obscuros ou famosos, que foram servidos por

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milhões de escravos. Houve Sesóstris, Xerxes, Dario, Nero, Julio


César, Carlos Magno, Carlos V, Luís XIV, Napoleão, Guilherme II e
ainda muitos outros potentados que esmagaram, sob suas fantasias,
imensas populações dóceis e estúpidas.
Que certos semideuses, — Carlos Magno ou Luís XIV,
Carlos V ou Napoleão, — tenham dado testemunho de uma
inteligência superior àquela dos homens vulgares, é quase indiscutível.
Ainda assim, que desproporção entre a enormidade de seu poder e o
vigor de seu espírito! Assim como seus mais humildes súditos, eles
eram homens. Seu sangue era da mesma cor e suas excreções da
mesma espécie. Eles respiraram pela primeira vez e deram seu último
suspiro à maneira dos mais humildes mamíferos.

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1
Charles Robert Richet era filho de um cirurgião. Ele nasceu em Paris, em 26 de agosto de 1850 e ali morreu em 04 de
dezembro de 1935, sem assistir integralmente ao espetáculo da II Grande Guerra, detalhe providencial talvez. Ainda
enquanto estudante, assistiu aos cirurgiões Léon Clément le Fort (1829-1893) e Aristide Auguste Stanislas Verneuil (1823–
1895). Porém, servindo como interno em hospitais em 1872, iniciou experimentos relacionados ao hipnotismo. Durante os
dois anos seguintes, produziu numerosos transes em pacientes. Foi ele quem cunhou o termo metapsíquica para a pesquisa
parapsicológica. Esta experiência provavelmente o influenciou a abandonar a cirurgia e devotar-se à fisiologia.
Foi no campo desta estranha metapsíquica e do estudo dos fenômenos paranormais que Richet tornou-se mais conhecido
entre nós como entre seus contemporâneos. Sua obra veio a coroar as investigações mais ou menos convergentes recolhidas
ao longo de setenta anos. Seu Traité de Métapsychique, editado em Paris, 1923 por Felix Alcan, obra esta que infelizmente
eu ainda não tenho, embora já a tenha manueseado, resume o conhecimento da época nesse campo. Richet, ao longo de toda
sua vida, interessou-se vivamente pelos fenômenos ditos paranormais, tornando-se presidente do Instituto Metapsíquico
Internacional de Paris e mantendo estreitas relações com metapsiquistas de todo o mundo. Firme adversário da hipótese
espiritista, aportou a estas investigações — de caráter tão especial — toda a sua lealdade, vigor, clareza mental, tudo quanto
distinguiu sempre, de modo marcante, o seu trabalho. Sua obra comprometeu indiretamente a própria metapsíquica,
desferindo-lhe um golpe do qual não se recuperou jamais.
Chamado muitas vezes a investigar fenômenos curiosos, como o aparecimento de fantasmas, nada escapava ao sábio. Pode-
se imaginar sua atuação frente ao famoso caso da Villa Carmen, de Argel, onde a médium, uma tal Marthe Béraud, jovem
de excelente sociedade, produzia, no ano de 1904, a aparição de um fantasma chamado Bien Boa, fantasma de bigodes que
circulava em torno dos assistentes envolto num manto branco e que se desmaterializava sobre o piso. O caso provocou a
edição de mais um livro do Dr. Richet: Les Phénomènes Dits de Matèrisation de la Villa Carmen (Os Fenômenos Ditos de
Materialização da Villa Carmen), Bureau dos Anais de Ciências Psíquicas, Paris, 1906, onde teceu sérias objeções a respeito
do fenômeno.
Em 1878 Richet foi nomeado professor agregado da Faculdade de Medicina. Foi professor da Universidade de Paris,
Sorbonne, de 1887 a 1927.
Foi um homem de muitos talentos e interesses. Pesquisador da fisiologia, escritor, atraído pela aviação. Participou, inclusive
do desenho e da construção de um dos primeiros aviões. Dedicado pacifista, procurou demonstrar os malévolos efeitos da
guerra, publicando trabalhos sob o pseudônimo de Charles Epheyer. Escreveu também sobre filosofia, poesia e drama.
Durante a I Guerra, no fronte, investigou problemas relacionados à transfusão de plasma sangüíneo. Em 1926, recebeu a
Cruz da Legião de Honra.
2
Maristela Bleggi Tomasini é advogada e tradutora da língua francesa, com versões para o português, de três obras
publicadas: O Homem Delinqüente, de César Lombroso, Porto Alegre, 2001, Ed. Lenz, em conjunto com o Dr. Oscar
Antonio Corbo Garcia; As Transformações do Direito, Estudo Sociológico, de Gabriel Tarde, 2002, Ed. Supervirtual e A
Criminalidade Comparada, também de Gabriel Tarde, 2004, pela E-Books Brasil. mtomasini@cpovo.net

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