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Traças, Ácaros & Cia

PREFÁCIO de
O HOMEM ESTÚPIDO

L’homme stupide, Ernest Flammarion Éditeur, Paris, 1919.


Charles Richet1
Tradução : Maristela Bleggi Tomasini2

Prefácio

Lineu, tentando colocar em boa ordem as diversas formas


vivas que povoam nosso planeta, chamou o homem, — o qual
constitui, evidentemente, uma espécie animal distinta de todas as
outras, — Homo sapiens, o homem sábio.

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Mas tal elogio é manifestamente injustificado, porque o


homem acumula em si abundantes exemplos de extraordinária
estupidez, tantos, que deveria, — para conformar-se à realidade das
coisas, — denominar-se de outro modo, e dizer: homo stultus, o
homem estúpido.
Quando concordarmos em empregar uma classificação
zoológica séria, será necessário adotar esse termo.
Nesse breve ensaio, estabelecemos — ou, ao menos, tentamos
estabelecer — que o homem é inferior à maior parte das espécies
animais, seja pelo bom senso, seja pela sabedoria. Parece-me mesmo
que teríamos o direito de classificá-lo como homo stultissimus, o
homem estupidíssimo.
Todavia, para ser moderado, contentar-nos-emos em dar-lhe
— sem superlativo — o apelido que lhe convém: homo stultus,
homem estúpido. E daremos as provas de sua imensa e irremediável
estupidez.
O autor não faz qualquer alusão à sorte reservada a esse
exame de consciência que machucará, que ofenderá os intelectuais,
tanto quanto a populaça, e que deixará em todos uma dolorosa
impressão.
Sim. Nós o sabemos!
Assim, ó leitor, quem quer que sejas, intelectual ou artista,
este livro vai perturbar — ainda que por um instante — a boa opinião
que tu tens de ti mesmo. Ele espantará essa convicção íntima de que tu
és sábio, prudente, racional. É pouco agradável ouvir-se dizer que se é
estúpido, e é muito mais desagradável ainda receber a demonstração.

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Mas não se trata de apresentar, à maneira de Watteau ou de


Florian, pastores de ópera. Os camponeses de La Bruyère não têm
cajados enfeitados com fitas, e estimo, com o velho mestre, que toda
verdade é boa de se dizer, por amarga e decepcionante que seja.

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1
Charles Robert Richet era filho de um cirurgião. Ele nasceu em Paris, em 26 de agosto de 1850 e ali morreu em 04 de
dezembro de 1935, sem assistir integralmente ao espetáculo da II Grande Guerra, detalhe providencial talvez. Ainda
enquanto estudante, assistiu aos cirurgiões Léon Clément le Fort (1829-1893) e Aristide Auguste Stanislas Verneuil (1823–
1895). Porém, servindo como interno em hospitais em 1872, iniciou experimentos relacionados ao hipnotismo. Durante os
dois anos seguintes, produziu numerosos transes em pacientes. Foi ele quem cunhou o termo metapsíquica para a pesquisa
parapsicológica. Esta experiência provavelmente o influenciou a abandonar a cirurgia e devotar-se à fisiologia.
Foi no campo desta estranha metapsíquica e do estudo dos fenômenos paranormais que Richet tornou-se mais conhecido
entre nós como entre seus contemporâneos. Sua obra veio a coroar as investigações mais ou menos convergentes recolhidas
ao longo de setenta anos. Seu Traité de Métapsychique, editado em Paris, 1923 por Felix Alcan, obra esta que infelizmente
eu ainda não tenho, embora já a tenha manueseado, resume o conhecimento da época nesse campo. Richet, ao longo de toda
sua vida, interessou-se vivamente pelos fenômenos ditos paranormais, tornando-se presidente do Instituto Metapsíquico
Internacional de Paris e mantendo estreitas relações com metapsiquistas de todo o mundo. Firme adversário da hipótese
espiritista, aportou a estas investigações — de caráter tão especial — toda a sua lealdade, vigor, clareza mental, tudo quanto
distinguiu sempre, de modo marcante, o seu trabalho. Sua obra comprometeu indiretamente a própria metapsíquica,
desferindo-lhe um golpe do qual não se recuperou jamais.
Chamado muitas vezes a investigar fenômenos curiosos, como o aparecimento de fantasmas, nada escapava ao sábio. Pode-
se imaginar sua atuação frente ao famoso caso da Villa Carmen, de Argel, onde a médium, uma tal Marthe Béraud, jovem
de excelente sociedade, produzia, no ano de 1904, a aparição de um fantasma chamado Bien Boa, fantasma de bigodes que
circulava em torno dos assistentes envolto num manto branco e que se desmaterializava sobre o piso. O caso provocou a
edição de mais um livro do Dr. Richet: Les Phénomènes Dits de Matèrisation de la Villa Carmen (Os Fenômenos Ditos de
Materialização da Villa Carmen), Bureau dos Anais de Ciências Psíquicas, Paris, 1906, onde teceu sérias objeções a respeito
do fenômeno.
Em 1878 Richet foi nomeado professor agregado da Faculdade de Medicina. Foi professor da Universidade de Paris,
Sorbonne, de 1887 a 1927.
Foi um homem de muitos talentos e interesses. Pesquisador da fisiologia, escritor, atraído pela aviação. Participou, inclusive
do desenho e da construção de um dos primeiros aviões. Dedicado pacifista, procurou demonstrar os malévolos efeitos da
guerra, publicando trabalhos sob o pseudônimo de Charles Epheyer. Escreveu também sobre filosofia, poesia e drama.
Durante a I Guerra, no fronte, investigou problemas relacionados à transfusão de plasma sangüíneo. Em 1926, recebeu a
Cruz da Legião de Honra.
2
Maristela Bleggi Tomasini é advogada e tradutora da língua francesa, com versões para o português, de três obras
publicadas: O Homem Delinqüente, de César Lombroso, Porto Alegre, 2001, Ed. Lenz, em conjunto com o Dr. Oscar
Antonio Corbo Garcia; As Transformações do Direito, Estudo Sociológico, de Gabriel Tarde, 2002, Ed. Supervirtual e A
Criminalidade Comparada, também de Gabriel Tarde, 2004, pela E-Books Brasil. mtomasini@cpovo.net

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