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Nicolau,​ ​Jairo.

​ ​O​ ​sistema​ ​eleitoral​ ​de​ ​lista​ ​aberta​ ​no


Brasil.​ ​(2007)
No que se pode chamar de parte introdutória do texto, Nicolau enfatiza a ​falta de
estudos e dados acerca do impacto do sistema eleitoral sobre o sistema partidário, bem como
sobre​ ​o​ ​comportamento​ ​dos​ ​eleitores.
O ​foco no Brasil​, segundo o autor, se dá pela peculiaridade da utilização do sistema de
lista​ ​aberta​ ​no​ ​país:
1. Longevidade:​ ​não​ ​durou​ ​tanto​ ​em​ ​nenhum​ ​outro​ ​país;
2. Magnitude do eleitorado brasileiro, em contraste com os demais países que utilizam o
sistema​ ​de​ ​lista​ ​aberta;
3. Combinação do sistema de lista aberta com outros atributos do sistema eleitoral
[LEI​ ​DE​ ​DUVERGER]
O ​objetivo ​do autor é ​“fazer uma análise sistemática do funcionamento do sistema de
lista​​aberta​​no​​Brasil,​​particularmente​ ​nas​ ​eleições​ ​para​ ​a​ ​Câmara​ ​dos​ ​Deputados”.

Primeiramente, Nicolau empenha-se em descrever a história e o funcionamento do


sistema​ ​de​ ​lista​ ​aberta​ ​brasileiro.

Origem​ ​e​ ​funcionamento​ ​da​ ​lista​ ​aberta​ ​no​ ​Brasil​ ​(Câmara​ ​dos​ ​Deputados)
1. 1932 - Representação proporcional, voto preferencial [o eleitor classifica uma
lista de candidatos em ordem de preferência]. O eleitor podia escolher
candidatos de diferentes partidos ou desvinculados de qualquer partido.
Entretanto, o processo de apuração privilegiava o nome que encabeçava a lista
dos​ ​candidatos
2. 1935 - O eleitor passa a votar em um único nome. (só entrou em vigor em 1945
devido​ ​ao​ ​governo​ ​Vargas)
3. No sistema em vigor, é possível votar em um nome ou em um partido
(legenda). Dessa maneira, as cadeiras obtidas pelos partidos ou por suas
coligações são destinadas aos candidatos mais votados de cada lista. Em outras
palavras, ​o total de cadeiras que o partido recebe no estado é o resultado
agregado​ ​da​ ​votação​ ​que​ ​cada​ ​candidato​ ​conquista​ ​individualmente.

Nicolau​ ​atenta​ ​para​ ​dois​ ​aspectos​ ​do​ ​sistema​ ​eleitoral​ ​na​ ​Câmara​ ​dos​ ​Deputados:
1. Forma como os nomes dos candidatos foram apresentados aos eleitores: a cédula não
apresenta uma lista completa dos candidatos. O eleitor escreve ou digita o nome ou
número do candidato sem menção aos outros componentes da lista. Resultado: reforça
a​ ​falsa​ ​ideia​ ​de​ ​tratar-se​ ​de​ ​eleições​ ​conforme​ ​a​ ​regra​ ​majoritária.
2. Institucionalização do voto partidário: de cédulas partidárias (impressas pelo próprio
partido e distribuídas para o eleitor colocar na cabine no dia da votação. Os votos de
legenda serviam para quando houvesse imprecisões de preenchimento), passando pela
cédula oficial a partir de 1962 (eleitor passou a ter que escrever o nome do candidato ou
sigla do partido. Introduziu de maneira mais formal o voto de legenda) e chegando a
votação​ ​via​ ​urna​ ​eletrônica​ ​a​ ​partir​ ​de​ ​1998.
Seleção​ ​de​ ​candidatos
Na disputa para a Câmara dos Deputados, os partidos apresentam uma lista de
candidatos, com uma série de exigências: quantidade de candidatos em relação ao número de
cadeiras; em relação ao gênero; um ano de vínculo com o partido; vínculo territorial;
alfabetização; idade mínima de 21 anos. Um candidato não pode concorrer em listas de outros
estados​ ​nem​ ​disputar​ ​simultaneamente​ ​outros​ ​cargos​ ​na​ ​mesma​ ​eleição.
Segundo a legislação partidária, a norma para escolha dos candidatos deve ser
definida​ ​pelo​ ​regimento​ ​interno​ ​de​ ​cada​ ​partido.
Os partidos podem coligar-se, desde que as coligações em eleições presidenciais sejam
diferentes das coligações em âmbito estadual. Um partido que não apresentou candidato a
Presidência​ ​pode​ ​se​ ​coligar​ ​com​ ​qualquer​ ​partido​ ​nos​ ​estados.
Quanto às escolhas internas, Nicolau afirma que há pouco conhecimento sobre o tema.
Sabe-se​ ​que:
1. Nenhum​ ​partido​ ​usa​ ​prévias​ ​internas​ ​com​ ​filiados;
2. Os​ ​candidatos​ ​são​ ​escolhidos​ ​antes​ ​das​ ​convenções​ ​oficiais.
Nicolau levanta a hipótese de fatores que são fundamentais: dimensão territorial e
diversidade social (critérios geográficos para atrair nomes de diversas regiões do estado, e
buscando diferentes setores do eleitorado). Os partidos buscam apresentar muitos nomes, uma
vez que o total de cadeiras conquistado por ele é, na verdade, a soma da conquista individual
de​ ​cada​ ​candidato.

As​ ​estratégias​ ​de​ ​campanha​ ​eleitoral


Um candidato a deputado federal tem grande autonomia para organizar sua campanha.
Isso depende de seu financiamento. Os candidatos prestam contas à Justiça Eleitoral, não ao
partido. As campanhas variam conforme o perfil do candidato e seus recursos. Entretanto,
buscam, em geral: contato direto dos eleitores; distribui panfletos e oferece brindes; oferecem
vantagens pessoais em troca do voto; realizam propagandas na residência; buscam apoio de
outros agentes políticos em bairros e municípios. Os candidatos têm direito a ​aparecer no
Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral (HGPE)​, no rádio e na televisão, sendo reservados
três dias da semana durante 45 dias nos quais a propaganda é exibida duas vezes por 50 min
(totalizando cerca de 900 min). ​O tempo é distribuído proporcionalmente à representação
dos partidos na Câmara dos Deputados, o que significa que maiores partidos têm mais
tempo para expor seus candidatos do que os pequenos. O tempo de aparição parece
relacionado​ ​à​ ​votação​ ​nesses​ ​candidatos.

Efeitos.
A. Efeitos​ ​sobre​ ​os​ ​partidos
Efeito​ ​do​ ​sistema​ ​eleitoral​ ​sobre​ ​a​ ​estratégia​ ​eleitoral​ ​dos​ ​candidatos.

Questão: os sistemas eleitorais oferecem incentivos para que os candidatos ao


Legislativo cultivem a reputação personalizada (pessoal, conhecido e apreciado pelo eleitor) ou
a partidária (informação que o rótulo partidário transmite ao eleitor em um dado distrito
eleitoral)?
Para​ ​analisar​ ​essa​ ​questão,​ ​Carey​ ​e​ ​Shugart​ ​montaram​ ​uma​ ​classificação​ ​com​ ​base:
1. No​ ​controle​ ​partidário​ ​para​ ​seleção​ ​dos​ ​candidatos;
2. Se os candidatos são eleitos individualmente, independentemente dos colegas do
partido;
3. Se o voto é único, intrapartidário, múltiplo ou partidário; sistemas uninominais (elegem
um representante por distrito) ou plurinominais (elegem mais de um representante por
distrito)
Concluíram que ​o sistema de lista aberta tende a estimular as campanhas
centradas no candidato. “Como os candidatos têm que obter votos individuais, é natural
que reforcem seus atributos (reputação pessoal) para se distinguir dos colegas de
partido, ou dos atributos que são comuns a todos os membros do partido (reputação
partidária)”​ ​[pág.105]
Conforme estudo de Carvalho, os deputados no Brasil reforçam a autonomia que
possuem​ ​para​ ​realizar​ ​sua​ ​campanha​ ​e​ ​a​ ​reduzida​ ​intervenção​ ​do​ ​partido​ ​no​ ​processo​ ​eleitoral.

Questão: até que ponto o efeito do sistema eleitoral tem impacto na configuração
organizacional​ ​de​ ​um​ ​partido?
A lista aberta estimula a competição entre os membros de uma mesma legenda,
novamente afetando o partido. ​A alocação intralista é feita pelo sistema majoritário, de forma
que os candidatos têm como principais adversários os membros do mesmo partido. A
competição é agravada pela incerteza que se dá nas eleições para deputado federal: número
de candidatos em cada lista superior ao potencial eleitoral do partido; e a reduzida informação
que​ ​os​ ​candidatos​ ​têm​ ​sobre​ ​esse​ ​potencial​ ​eleitoral.
Estudo de Katz acerca da disputa intrapartidária: os candidatos à reeleição podem
perder o mandato ou por falha do partido (“quando não há nome novo na lista final dos eleitos
por aquele partido (...) ou quando o partido pelo qual ele concorreu não elegeu ninguém” -
p.106) ou por falha do candidato (partido elege algum nome novo e ele fica de fora). Na
Câmara dos Deputados (1994, 1998, 2002), 10% foram derrotados por falha do partido e 22%
por falha do candidato - ou seja, não se reelegeram por terem sido derrotados por outros
membros​ ​da​ ​lista,​ ​o​ ​que​ ​mostra​ ​a​ ​alta​ ​competição​ ​intrapartidária.

B.​ ​Efeito​ ​sobre​ ​os​ ​eleitores


Questão:​ ​Qual​ ​a​ ​influência​ ​do​ ​voto​ ​personalizado​ ​na​ ​decisão​ ​do​ ​eleitor?
1. Voto​ ​personalizado​ ​-​ ​qualidades​ ​pessoais,​ ​qualificações,​ ​atividades​ ​e​ ​desempenho
2. Voto partidário - apoio ao candidato baseado em sua filiação partidária e características
do​ ​eleitor​ ​(classe,​ ​religião,​ ​etc)
Como no Brasil o eleitor pode votar tanto no partido quanto no candidato, seu voto pode
ser​ ​analisado​ ​como​ ​expressão​ ​personalizada​ ​ou​ ​partidária.
No Brasil, o voto de legenda apresenta intensa variação entre os partidos e os
anos​ ​das​ ​eleições.​ ​A​ ​explicação​ ​de​ ​Nicolau​ ​reside​ ​em​ ​alguns​ ​pontos:
1. Mudança no formato da cédula, que deixou de trazer a lista de legendas, dificultando o
eleitor;
2. Diferentes​ ​estratégias​ ​de​ ​campanha.
3. Identificação partidária (vínculos de longo prazo) que os eleitores tem com o partido,
que​ ​variam​ ​no​ ​tempo.
A explicação para a variação deve residir, entretanto, em pesquisas de opinião,
uma vez que existem eleitores com vínculo partidário que preferem votar em nome
específico; e, da mesma forma, existem eleitores que votam na legenda não por uma
identificação partidária, mas por uma escolha de curto prazo no momento eleitoral.
Conforme a Pesquisa IUPERJ-2002 sobre o que determinou a escolha do eleitor, ​92% dos
eleitores refletiram que o candidato foi mais importante​; 4% disseram ser o partido; e o 4%
restante respondeu que ambos são importantes. Além disso, os eleitores esquecem o partido
no​ ​qual​ ​votaram​ ​depois​ ​da​ ​eleição.
Com isso, conclui-se a reduzida importância partidária no comportamento
eleitoral. “Regras institucionais que estimulam as campanhas centradas em candidatos
(e não nos partidos) têm como resposta o alto peso da reputação pessoal (e baixo peso
da​ ​reputação​ ​partidária)​ ​na​ ​escolha​ ​do​ ​eleitor”​ ​(p.110)

C.​ ​Efeitos​ ​sobre​ ​ ​a​ ​relação​ ​dos​ ​deputados​ ​com​ ​as​ ​bases​ ​eleitorais
A relação dos deputados com os eleitores está estritamente vinculada com os fatores
de diferentes sistemas eleitorais. Nos estudos de Gallaguer, nos sistemas proporcionais
centrados no candidato, o deputado busca realizar atividades que o diferenciem do colega. Isso
se dá, segundo o autor, por meio de projetos clientelísticos. Nicolau discorda desse ponto,
argumentando que, para diferenciar-se, um deputado pode investir esforços na vida legislativa
ou​ ​reforçar​ ​seu​ ​partido.
No Brasil, os deputados federais desenvolvem diferentes padrões de prestação de
contas. Um parlamentar da elite pode mobilizar recursos que dispensem o uso de ações
particularistas. Já parlamentares que não fazem parte da elite tendem a beneficiar diretamente
seu​ ​reduto​ ​eleitoral.
Na pesquisa de Carvalho, ​os deputados declararam a ação junto aos
municípios-eleitores como sendo o aspecto mais significativo para seu sucesso eleitoral​.
Isto é, a visita frequente aos municípios onde o deputado foi bem votado; liberação de
emendas do orçamento e a intermediação do pleito dos prefeitos e lideranças locais. Em
compensação, a patronagem e a conexão com o governador são valores pouco importantes
para o sucesso eleitoral segundo os deputados. Em ordem decrescente, temos: ação junto aos
municípios-eleitores; atividade na Câmara dos Deputados; presença na mídia; patronagem;
outros.
Como se dá essa predominância geográfica? A decisão de onde concentrar a
campanha está associada ao perfil político e à disponibilidade de recursos. ​Uma liderança
com trajetória política mais abrangente dispersa seus recursos. Uma liderança com fortes
vínculos​ ​com​ ​determinado​ ​município​ ​direciona​ ​sua​ ​campanha​ ​a​ ​uma​ ​área​ ​específica​ ​do​ ​estado.
“Os municípios precisam ser visitados frequentemente; o deputado deve se
empenhar em obter recursos do orçamento para determinadas áreas e encaminhar o
pleito​ ​dos​ ​prefeitos​ ​e​ ​lideranças​ ​locais”​ ​(p.114)

Punir​ ​e​ ​recompensar​ ​os​ ​deputados​ ​no​ ​Brasil


Questão:​ ​como​ ​os​ ​eleitores​ ​controlam​ ​por​ ​voto​ ​seus​ ​representantes?
Na versão tradicional, as eleições funcionam de forma punitiva ou recompensatória.
Após o desempenho do candidato ou partido em determinado cargo, o eleitor decide por sua
reeleição; ou escolhe outro candidato/partido ou não expressa preferência por nenhum
candidato.
Para​ ​que​ ​seja​ ​possível​ ​esse​ ​controle​ ​eleitoral​ ​dos​ ​representantes,​ ​é​ ​necessário:
1. Que​ ​o​ ​eleitor​ ​se​ ​lembre​ ​em​ ​quem​ ​votou;
2. Que​ ​o​ ​candidato​ ​seja​ ​eleito;
3. Que​ ​o​ ​eleitor​ ​acompanhe​ ​a​ ​atividade​ ​de​ ​seu​ ​representante.
Segundo Nicolau, é possível analisar os dois primeiros aspectos. Conforme o Esed de
2002, ​67% afirmaram não se lembrar​; apenas 15% deram o nome correto ​de quem votaram
em 1998​. Entretanto, é possível analisar o voto retrospectivo sem considerar a memória do
voto na eleição antecedente (votar em alguém que se destacou positivamente durante a
legislatura e descartar os que se destacaram negativamente, sendo necessário acompanhar a
atividade do deputado). No Eseb, ​perguntou-se se conheciam algum deputado federal do
estado:​ ​59%​ ​não​ ​se​ ​lembravam​ ​ou​ ​não​ ​sabiam​ ​responder​.
Assim, ​os dados do Eseb demonstram a baixa capacidade de fazer uma avaliação
retrospectiva.
Cruzando as informações entre voto personalizado e tipo de controle eleitoral, Nicolau
elabora padrões de escolha. Afirma que, no Brasil, o ​voto é fruto da própria campanha
eleitoral,​ ​exclusive​ ​os​ ​apelos​ ​do​ ​candidato​ ​com​ ​mandato.​ ​[Quadro​ ​na​ ​pág.116]
Conclusão
Nicolau conclui, com seu estudo, algumas semelhanças e especificidades do sistema de
lista​ ​aberta​ ​brasileiro​ ​com​ ​outras​ ​democracias​ ​que​ ​utilizam​ ​esse​ ​sistema.​ S
​ emelhanças:
1. Campanha​ ​centralizada​ ​no​ ​candidato;
2. Voto​ ​personalizado;
3. Estímulo​ ​à​ ​conexão​ ​eleitoral​ ​fora​ ​da​ ​estrutura​ ​partidária.
Diferenças:
1. Possibilidade​ ​do​ ​voto​ ​de​ ​legenda;
2. Alta​ ​competição​ ​intrapartidária;
3. Conexão​ ​com​ ​as​ ​redes​ ​municipais;
4. Reduzida​ ​capacidade​ ​de​ ​controle​ ​eleitoral​ ​dos​ ​representantes.