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Curso de Pós-Graduação Lato Sensu a Distância

Saúde Mental
Saúde Mental nas
Diferentes Fases da Vida

Autor: Eduardo Cavalheiro Pelliccioli

EAD – Educação a Distância


Parceria Universidade Católica Dom Bosco e Portal Educação
SUMÁRIO

UNIDADE 1 – O CONCEITO DE CULTURA COMO INTERCESSOR DAS


PRÁTICAS EM SAÚDE MENTAL .......................................................................... 05

UNIDADE 2 - SAÚDE COLETIVA X SAÚDE PÚBLICA: DIFERENCIAÇÃO


TERMINOLÓGICA .................................................................................................. 08

UNIDADE 3 – INTEGRALIDADE E PRÁTICAS EM SAÚDE ................................. 13


3.1 Integralidade e o biopsicossocial....................................................................... 14
3.2 Integralidade e potência de vida ........................................................................ 16
3.3 Potência de vida e produção de saúde ............................................................. 18

UNIDADE 4 - SAÚDE PÚBLICA: DO INDIVÍDUO À POPULAÇÃO ..................... 21

UNIDADE 5 – A EXPERIÊNCIA GRECO-ROMANA: PÚBLICO, SAÚDE E


POLÍTICA CUIDADOS DE SI E SAÚDE ............................................................... 24

UNIDADE 6 – ESFERA PÚBLICA E POLÍTICA.................................................... 27

UNIDADE 7 – URBANIZAÇÃO E EPIDEMIAS ..................................................... 30

UNIDADE 8 - SAÚDE MENTAL NA PERSPECTIVA PSICANALÍTICA ............... 33


8.1 A Infância .......................................................................................................... 33
8.2 A Psicanálise ..................................................................................................... 34
8.3 Os desdobramentos de caráter psicopatológico ............................................... 42
8.4 A Fase Anal ....................................................................................................... 43
8.5 A Fase Fálica/ Fase genital ............................................................................... 48

UNIDADE 9 – CONSIDERAÇÕES SOBRE SAÚDE MENTAL A PARTIR DA


SAÚDE COLETIVA ................................................................................................ 51

REFERÊNCIAS ...................................................................................................... 58

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INTRODUÇÃO

Este material tem como objetivo discutir, de forma ampla e também


especifica, o conceito – e a abrangência deste – de saúde mental nas diferentes
fases da vida. É necessário compreendermos que tomamos o conceito de saúde
desde uma perspectiva ampliada; ampliada em relação ao denominado modelo
biomédico (que podemos afirmar que se caracteriza como um modelo filosófico para
pensar a questão da saúde). Esta ampliação passa pela discussão e pela
contraposição histórica entre os termos Saúde Pública x Saúde Coletiva. Ao
compreendermos a diferença que os marca distintivamente, poderemos fazer as
inferências – livres, contudo – necessárias sobre os seus possíveis desdobramentos
para pensarmos as diferentes fases da vida.

Nosso texto não se situa desde uma perspectiva desenvolvimentista


tradicional (leia-se aqui, biomédica). Ao contrário, nossa posição consegue contornar
a forma biomédica de pensar a saúde, precisamente através do universo conceitual
da Saúde Coletiva (nos termos em que ela será exposta mais tarde) e pela
Psicologia da Saúde. Para isso, nos faremos acompanhar de autores como Michel
Foucault, Joel Birmam, Hanna Arendt e Enrique Dussel, dentre outros. A ideia básica
é poder nos aproximar, ao longo de nossos estudos, do conceito de produção de
saúde no campo da Saúde Coletiva e como, então, nas diferentes fases da vida
humana, ele se dá. Adiante retomaremos a fundamentação básica da Psicanálise
para pensarmos as possibilidades, a partir de seus termos, de elementos e eventos
que podem – ou não – ser produtores de saúde ou de sofrimento mental.

Fazer uma discussão sobre o que é, afinal, saúde – para que possamos
avançar para o terreno de uma suposta saúde da mente – nos coloca em uma seara
em que as práticas em saúde se encontram com aquilo que não é da ordem das
taxionomias, e sim da produção de vida.

Devemos pensar este campo de práticas como se ele fosse uma espécie de
nó. Sim, um nó, desses que fazemos com um pedaço de corda ou barbante. Notem
que um nó não é apenas, aqui neste contexto, um entrelaçamento de um ou dois

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fios, linhas, cordões. Claro, esta é a sua definição conceitual, formal. Mas vejam que
um nó, de maneira geral, pode ser justamente aquele elemento que retira a simetria,
a ordem topográfica da corda, fio ou barbante. Queremos dizer o seguinte: um nó,
sim, pode servir para firmar algo que prendemos (portanto ele é tomado como um
objeto benfazejo); mas ele também pode ficar apertado demais e agarrar-se ao
mesmo objeto de forma que este fique fora de nosso alcance. Um nó também pode
prender algo, não é? Pois bem, neste caso, vamos trabalhar com as qualidades dos
“nós” (boas e ruins) que podemos verificar no campo da produção da saúde e como
esta costura a noção de sujeito com a prática dos cuidados (no território da saúde
mesmo) como uma experiência de estranhamento.

É absolutamente necessário compreendermos – do ponto de vista da


atualidade científica – conceitos Saúde Coletiva, integralidade, sujeito para, só
então, produzirmos, nós mesmos, as questões de base para pensarmos uma
determinada saúde da mente. Sem esta base, torna-se inócua nossa tarefa. Para tal,
utilizaremos, por exemplo, como uma das ferramentas conceituais a proposição de
Michel Foucault sobre aquilo que ele chama de “uma ontologia do presente”, ou
seja, neste caso: subjetividade, poder e verdade.

Boa leitura.

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UNIDADE 1 – O CONCEITO DE CULTURA COMO INTERCESSOR
DAS PRÁTICAS EM SAÚDE MENTAL

Tomamos o termo cultura como um campo de luta entre diferentes grupos


sociais em busca da significação (SILVA, 1995). É neste território, que está calcado
na discursividade e na predominância de operadores simbólicos, que são travadas
batalhas e lutas de sentidos. É preciso conceber a possibilidade de articulação
destas práticas discursivas que se opõem em seus sistemas e ideias sem que
resultem no fracasso da diplomacia e, por conseguinte, na queda do simbólico. Ao
encontro disto, Homi Bhabha (1998), comparece instituindo uma particular
inteligibilidade à expressão “negociação” em contraposição à “negação” quando
sugere uma dialética sem a emergência de uma história teleológica ou
transcendente em que o evento ou, advento da teoria, funcione como um dispositivo
“negociador” entre instâncias contraditórias entre si, abrindo territórios e objetivos
híbridos de luta onde são elididas as polarizações negativas entre o saber e seus
pretensos objetos (Idem, p.51).
Seria neste espaço de embates, oposições, debates e relativizações que se
fundamentaria o local da cultura, para parafrasear o autor em questão. Estaria,
portanto, no reconhecimento da radicalidade histórica - entre outras coisas - como
elemento constitutivo do humano que poderíamos antever a queda da oposição
simplista que ainda se insiste dizer que há entre
sujeito e objeto.
Se os lugares que ocupamos e de onde
enunciamos nossas proposições não são fixos, não
podemos mais situar estes mesmos posicionamentos
senão em uma perspectiva relacional e de
transferência e disputa por sentido e, portanto, não há
porque negá-los radicalmente, mas, sim, trabalhá-los
através de negociações.

Fonte: http://migre.me/eOvf4

Não faria sentido, por exemplo, cambiarmos um idealismo radical por um


realismo transcendental. Se os sistemas de significados culturais, conforme é

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aplicado o termo por Bhabha (1998), não possuem autonomia completa, será na
condição das diferenças que se expõem e se produzem na linguagem que ficará
perceptível o fato de que estes mesmos sentidos nunca serão fixos ou
intransponíveis.

Com efeito, estará na diferença, na alteridade, a possibilidade de uma


enunciação cultural que toma forma na própria diversidade de signos e práticas, não
mais tomando como ameaçador o elemento estrangeiro. Novamente, encontramos
espaço para compreendermos a importância do termo “negociação” postulado pelo
autor acima: negociar significaria, entre outras coisas, retirarmo-nos dos territórios
das dicotomias e dos essencialismos que, não obstante, enxergam seus pares
antônimos como inimigos a serem combatidos ou negados.

Veiga-Neto (2000, p. 09), nos indica, em consonância com Bhabha, que a


cultura não mais é compreendida somente em relação aos bens materiais
resultantes de uma produção coletiva ou social simplesmente. É pelo ato de outorgar
sentidos às práticas e objetos com os quais nos defrontamos que nos tornaríamos
humanos e uma espécie cultural por excelência. Por esta linha de raciocínio é que o
trabalhar se reconfigura constantemente como campo propício para a produção
contínua de sentidos e de sujeitos pautados pelo domínio simbólico ou, dito isto em
outras palavras, pela linguagem.

Será neste lugar que a Psicologia - através de sua intersecção com o campo
dos Estudos Culturais - romperá com mais esta dicotomia, no caso, a do
público/privado, saúde/doença, interior/exterior (da mente). Mesmo estando em um
espaço dito público, através de sua prática profissional e mediado por políticas de
saúde públicas, o homem poderá alterar não só as formas de pensar e praticar suas
ações, mas, através delas, ter condições de reconfigurar experiências que faz de si
mesmo e imprimir novas possibilidades de compreender-se enquanto sujeito nesta
mesma esfera dita privada, de seus sentimentos, de seus afetos, de suas relações
íntimas.

O dia a dia de qualquer um de nós passa a ser entendido aqui como uma
prática social legítima e constitutiva dela mesma e de outras práticas até, quer dizer,
existe aí uma dimensão cultural que não deve ser negada já que ela (re)constrói
maneiras de ser e de estar no mundo. Portanto, não há sentido na busca de uma

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identidade pré-estabelecida ou naturalmente dada, seja ela em que campo for: no
trabalho, na escola e em qualquer outra instância coletiva. Trata-se de pensar em
relação a processos produtores de identidades contingentes às condições
discursivas nas quais se encontram tais ou quais sujeitos, sempre atentando para os
arranjos linguísticos e discursivos que daí emergem.

Exercício 1

De acordo com Silva (2000), a cultura é um campo de luta entre ________ em


busca de ___________.
a) Significados; Grupos Sociais.
b) Grupos; Significação Social.
c) Grupos Sociais; Significação.
d) Grupos Sociais; Socialização.

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UNIDADE 2 - SAÚDE COLETIVA X SAÚDE PÚBLICA:
DIFERENCIAÇÃO TERMINOLÓGICA

Ao pensarmos em novas alternativas em Saúde Coletiva, surge um


problema conceitual: que terminologia usar, Saúde Pública ou Saúde Coletiva?
Campos (2000), indica que esta última nasceu de uma crítica aos modelos positivista
e biomédico sob os quais operava a Saúde Pública tradicional no final dos anos 70.
A ideia central era a de que a Saúde Coletiva pudesse ampliar suas fronteiras no
que concernia às disciplinas que acolhia no seu seio teórico-prático, marcando uma
diferença substancial em relação às práticas tributárias de um campo de gestão
política e intervenções inflexíveis diante das fronteiras disciplinares. Uma das
alternativas possíveis seria a de "combinar política, gestão e epidemiologia
(disciplinas que fazem parte da tradição da Saúde Coletiva) com clínica, psicanálise,
pedagogia e análise institucional" (CAMPOS, 2000, p.06).
Assim, a Saúde Coletiva, através do apoio aos sistemas de saúde e da
elaboração e execução de políticas, trabalharia com a tríade saúde-doença-
intervenção de forma que levasse em conta a possibilidade de atuar, sim, com
disciplinas e planos sanitários específicos e programáticos, mas sem perder de vista
a capacidade de absorver novas práticas
e incorporar novos saberes. Esta
discussão perpassa uma esfera
importante que é a político-legislativa. Na
Constituição Federal de 1988 reconhece-
se a saúde como direito de todos e dever
do Estado (BRASIL, 1988).
Fonte: http://migre.me/eOvrO
Segundo o texto constitucional, é obrigação do Estado garantir a saúde da
população através de políticas sociais e econômicas voltadas tanto para a "redução
do risco de doenças e de outros agravos", quanto ao "acesso universal e igualitário
às ações e serviços para a promoção, proteção e recuperação". É a partir deste viés
que se organiza um sistema de saúde integrado pelas intervenções e pelos serviços
públicos, no caso, o conhecido Sistema Único de Saúde - SUS. São três os eixos

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que o organizam: a descentralização, a atenção integral e a participação da
comunidade.
A Lei 8.080 que institui o SUS no Brasil diz que "a saúde tem como fatores
determinantes e condicionantes, entre outros, a alimentação, a moradia, o
saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, o transporte,
o lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais". Ora, um espectro que comporta
variáveis diversas como as acima relacionadas por certo que encontraria
dificuldades em operar dentro de um sistema rígido de disciplinas, conforme fez a
crítica anteriormente (CAMPOS, 2000). Uma abordagem diferenciada em relação a
este sistema seria da ordem de uma necessidade e é aí que entra a Saúde Coletiva.
Mas para isso é preciso atualizar e problematizar o(s) conceito(s) de saúde.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem como parâmetro uma definição
de saúde que a coloca em uma posição diferencial e excludente à doença, ou seja,
saúde seria - entre outras coisas – ausência de doença, além de uma situação de
perfeito bem-estar físico, mental e social (OMS, 2001). Ora, a busca de um "perfeito
bem-estar" não só nos lança em uma condição programática irreal (ou seja, de que é
impossível alcançarmos tal condição), como também indica uma referência de
qualidade pré-determinada em que, necessariamente, o sujeito-cidadão não é
consultado ou que possa haver uma certa naturalização deste conceito em nível
global.
Segre e Ferraz (1997), explicam que é, no mínimo, complicado falarmos em
"perfeito bem-estar" e que até "entende-se que, para fins de estatística da saúde, as
formas de 'avaliação externas' sejam necessárias; não seria exequível 'qualitativar-
se' esse tipo de mensuração" (p. 33).
Existe ainda outro problema que a definição de saúde da OMS encerra.
Segundo Segre e Ferraz (1997), ela "ainda faz destaque entre o físico, o mental e o
social. Mesmo a expressão 'medicina psicossomática' encontra-se superada, eis
que, graças à vivência psicanalítica, percebe-se a inexistência de uma clivagem
entre mente e soma, sendo o social também interagente, de forma nem sempre
muito clara...".
Nesta perspectiva, faz-se necessário ampliar a visão de saúde e, então, de
Saúde Coletiva: uma abordagem que privilegie o ser humano, não enquanto um
objeto de cura, mas dotado de afetos, sentimentos e desejos.

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Este é o posicionamento que me interessa e em relação ao qual procuro
balizar minhas ações enquanto pesquisador no campo da Saúde Coletiva. Mesmo
sendo a saúde um dever do Estado, quando se trata de operacionalizar e efetivar os
princípios do SUS, tendo em vista esta multiplicidade de fatores, existe a
necessidade de um olhar diferenciado, mais abrangente, ou seja, uma visão
multidimensional para conceber a complexidade da Saúde Coletiva que, a partir do
SUS e com SUS, se produz no país. Trata-se do desejo de uma Saúde Coletiva que
seja construída na articulação entre diferentes campos disciplinares - epidemiologia,
Administração e planejamento, ciências sociais, biomédicas, psicológicas, entre
outras - e que considere as distintas dimensões do ser humano, como o trabalho, a
habitação, a educação, o lazer, bem como seu contexto social-histórico.
Uma vez que se passa a conceber que Saúde Coletiva é também um campo
de saber a ser explorado e estudado na sua articulação intrínseca com o corpus
social, atravessado por variáveis econômicas, ambientais, políticas, educacionais,
não mais se pode efetuar uma prática que negue estes valores e suas
consequências.
A natureza multidisciplinar que compõe o campo da saúde nos leva a
repensar antigas práticas dicotomizadas e compartimentadas em disciplinas
estanques. Busca-se, desta forma, a efetiva produção de um novo modelo, onde as
ações e os serviços possam ser operacionalizados coletivamente e
transdisciplinarmente. Somente nesta articulação é que se poderá reconhecer a
amplitude dos territórios de atuação possíveis em Saúde Coletiva.
É por esta razão que se sublinha a importância da produção de sentidos - e
de subjetividades - nos serviços públicos de saúde, onde as palavras do trabalhador
e do usuário ocupem espaços de reconhecimento no campo simbólico nos quais se
incluem, proporcionando assim, a valorização de suas ações e a abertura de um
campo de diálogo e debate sobre seus fazeres. Portanto, a Saúde Coletiva da qual
se fala aqui, configura-se nas interações entre os profissionais que compõem as
equipes de trabalho, os usuários dos serviços e a comunidade onde se encontra a
rede básica de saúde.
O conjunto de interações produzidas entre os trabalhadores de um serviço
cria organizações e uma rede de trabalho e de relações que tem seus efeitos
diretamente ligados à atenção à saúde dispensada aos usuários. Neste sentido,

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produz-se um conceito de saúde que deixa de ter um caráter mercantil e passa a ser
considerado como um direito de todos: uma saúde que inclui a interação entre o
saber técnico, os diferentes interesses e necessidades sociais da população para a
construção de uma consciência sanitária dos usuários e trabalhadores.
É nesta direção que cabe pensar em um processo possível de humanização
da saúde. Esta humanização diz respeito à compreensão integral da dimensão
humana, não se restringindo apenas à presença ou à ausência de alguma
enfermidade, como acentua Campos (1995):

[...] toda a política de saúde [...] encontra sua razão de ser no


HOMEM, considerado como sujeito e beneficiário, e não como
simples objeto e receptáculo dos cuidados que lhe são prestados [...]
é no atendimento da Pessoa Humana, no seu todo, que se
encontram as ações de saúde, ética e moralmente corretas. (p.60).

Importante agora é fazer diferença entre cuidado e tratamento, uma vez que
o primeiro - em contraposição ao segundo - não objetiva necessariamente uma
hierarquização entre trabalhador e usuário, mas sim, um confronto na
complementaridade, a partir do momento em que a saúde se sustenta na
"hipervalorização das relações humanas, numa proposição ético-profissional que
redefine a qualificação, ao mesmo tempo, como técnica e relacional" (LOPES, 1998,
p. 48).
A necessidade acima afirmada justifica-se na medida em que
compreendemos que a tarefa de cuidador nos serviços de saúde deve se estender a
todos os profissionais que a integram - trabalhadores de nível médio e técnico.
Nessa compreensão, ressaltar a importância das interações e reafirmá-las enquanto
fundamentais para a produção de vínculo e de responsabilização no cuidado ao
usuário torna-se um modo de contraposição ao cuidado como um ato que não
respeite as necessidades emergentes nos serviços públicos.
Diante disto, utilizaremos neste texto o termo Saúde Coletiva por
compreendê-lo mais abrangente e capaz de abarcar as múltiplas diferenças que
comportam e constituem os sujeitos usuários dos serviços públicos.

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Exercício 2

A Saúde Coletiva trabalha com:


a) O binômio: Saúde-Doença.
b) A tríade: Saúde-Doença-Intervenção.
c) A tríade: Saúde–Administração-Intervenção.
d) A tríade: Saúde-Doença-Interação.

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UNIDADE 3 – INTEGRALIDADE E PRÁTICAS EM SAÚDE

A noção de produção de saúde torna-se mais compreensível quando a


pensamos em relação ao conceito de integralidade na saúde. A integralidade
permite-nos compreender que aquilo que é efetivo em termos de qualidade da
atenção, necessariamente, envolve o humano não como organismo dividido em
especialidade e técnicas, mas como sujeito, história de muitas vidas. Dito de outro
modo, pensar em integralidade é situar o humano na sua condição humana, como
ser que vive, que fala, que trabalha, e não exclusivamente em sua condição
orgânica.
Essa condição humana apenas pode ser pensada quando integramos o
sujeito na história, ou seja, as formas de viver, mediante as quais nos objetivamos
como humanos, são forjadas por condições de possibilidades sócio-históricas nas
quais esse sujeito se encontra.
Essas condições, na contemporaneidade, dizem respeito ao
desenvolvimento integral do humano, isto é, não se trata de tomar a doença, mas o
sujeito enfermo inserido em redes sociais: o território, a família, as instituições
(SECRETARIA MUNICIPAL DE SAÚDE, 2007). Pensar esse outro da saúde como
sujeito é construir um campo de cuidados que tem como base a dimensão imaterial
da qual falávamos anteriormente: o trabalho afetivo.
A relação entre trabalho afetivo e integralidade é possível pela racionalidade
de que, mais do que procedimentos e técnicas utilizados na saúde, deve configurar-
se uma dimensão de cuidado com o outro, de modo a se enfatizar justamente essa
possibilidade relacional, e não apenas técnica (PINHEIRO & GUIZARDI, 2006). É
uma forma de colocar em análise a relação do Estado com os serviços de saúde no
que tange ao deslocamento de uma racionalidade de prestação de serviços e
mercado para o cuidado em saúde como vínculo e suporte social.
O conceito de integralidade transforma a própria experiência de Estado: de
soberania da Nação para suporte social de possibilidades de vida. Aqui, a biopolítica
de Estado encontra-se com a potência de vida da população. É dessa provocação
de potências de vida, de distintas formas de viver, que se articulam práticas de
integralidade.

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A integralidade é considerada um conceito-problema polissêmico. A
polissemia, nesse caso, não se refere a um objeto que contemplaria múltiplos
sentidos, mas a um campo de articulações e proposições que conforma diferentes
figuras: relações entre equipe e usuários, organização dos processos de trabalho,
respostas governamentais às demandas espontâneas, entre outras (MATTOS,
2001).
A integralidade tanto conforma objetos como interdisciplinaridade e
intersetorialidade, quanto às próprias formas de subjetivação na saúde: usuários,
gestores, trabalhadores. O que acontece é que esse princípio de integralidade
apresenta um plano de bifurcação: por um lado, o integral refere-se ao que se
nomeia de figura "biopsicossocial"; por outro lado, articula-se a uma figura de
potência, sem um axioma que o pré-defina, a uma alteridade absoluta.
A primeira forma de subjetivação configura-se naquilo que é engendrado por
um poder sobre a vida. Na segunda forma, encontramos a resposta política ao poder
sobre a vida: "a potência política da vida, na medida em que faz variar suas formas e
reinventa suas coordenadas de enunciação" (PELBART, 2003, p. 13). Isso não quer
dizer que existam apenas duas formas, mas que essas formas, ao se bifurcarem,
multiplicam-se, ao mesmo tempo em que não são excludentes uma da outra.

3.1 Integralidade e o biopsicossocial

Quando operamos com essa figura existencial "biopsicossocial", temos


como formas de intervenção, na saúde, o
tratamento, a reabilitação e a prevenção - quer
dizer, a integralidade não diz respeito apenas à
constituição de um sujeito, mas também às
ações sobre esse sujeito.
Essas ações devem estar integradas,
bem como articuladas com outras políticas
públicas. Essas instâncias de cuidado com a
saúde criam a necessidade de um sujeito pré-
definido.
Fonte: http://migre.me/eOvS2

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O "biopsicossocial" é ele próprio um marcador de instâncias distintas
constitutivas do sujeito. Ou seja, estratifica o humano em três dimensões que se
tornam o "fundamento" das práticas em saúde.
Ao se planificar o humano, dessa forma, considera-se que existe uma
dimensão material, que é o corpo, e uma imaterial, que é o psiquismo; a forma de
relacionar essas duas instâncias estaria no social, ou seja, no plano das relações
humanas.
Esse modelo de estratificação humana ampara-se em uma racionalidade
herdeira do pensamento moderno, em que o visível, o apreensível é a dimensão
considerada material, enquanto que o imaterial seria objetivado como a da ordem do
afetivo e relacional. Não se trata mais de um dualismo mente/corpo, mas de um
dualismo material/imaterial que, em um certo sentido, força uma disjunção daquilo
que o próprio trabalho na saúde tenta amalgamar. Corpo, psiquismo e relações
humanas são, já de um bom tempo, objetos de governo.
Agora, a saúde torna-os correlatos, de modo a um implicar o outro. Isso
significa um modelo ideal de humano circunscrito a três dimensões. Aquele humano
do Iluminismo, objetivado como um sujeito da razão, agora se torna um humano
iluminado pela integralidade do biopsicossocial. Isso implica consumirmos um modo
existencial, uma forma de vida que por si só é herdeira de um território existencial
biomédico, ou seja, é uma forma de resposta política do poder sobre a vida na
medida em que ela multiplicou suas formas. Aquele corpo organismo, ao se
multiplicar em razão de uma potência política da vida, provocou novas estratégias de
um poder sobre a vida: o biopsicossocial.
Desse modo, o trabalho na saúde constitui-se como uma forma de governo,
como uma biopolítica que investe na produção desse sujeito biopsicossocial a partir
de tecnologias como a cura, a reabilitação e a prevenção. Essas três dimensões da
atenção à saúde são o que poderíamos nomear de território seguro das ações em
saúde.
Tal segurança reside em taxionomias da subjetividade, dos
comportamentos, das relações humanas. Essas taxionomias operacionalizam e
articulam as enfermidades aos riscos de agravos mediante "recomendações
normativas de mudanças de hábitos" (CZERESNIA, 2003, p. 45). O biopsicossocial
encerra a subjetividade em um campo em que o outro é submissível a si mesmo.

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Isso quer dizer que a relação entre o eu e o outro, na saúde, considera esse outro
como um eu estratificado por um plano de reconhecimento.
Esse reconhecimento refere-se a uma elaboração do outro anterior ao que
esse outro provocaria em qualquer forma de circunscrição de sentidos, ou seja, esse
outro como uma alteridade absoluta. Entretanto, essa noção de alteridade absoluta
torna-se impraticável quando o objeto da saúde é um sujeito enfermo. Essa forma de
subjetivação - sujeito enfermo - implica, por si só, uma captura do outro e um plano
de codificação. Poderíamos, então, interrogar: de que modo seria possível uma
prática de cuidados se não operássemos tanto com a noção de um eu quanto com
uma racionalidade constituída por explicações e justificativas para a saúde e seus
agravos? Como seria possível a cura, o tratamento e a prevenção se não estivesse
disponível, em termos de racionalidade técnica baseada em um conhecimento da
história natural, um campo de visibilidade e dizibilidade da saúde e seus agravos?
Mas esse campo de visibilidade e dizibilidade na saúde produz uma forma
de subjetivação, produz um eu que torna possível as ações em saúde segundo um
modelo de reconhecimento do outro não em termos de alteridade, mas de
taxionomia. Esse eu é uma figura pré-existente no campo da saúde. A relação de
intersubjetividade, nesse caso, pressupõe lugares, posições, status de submissão. A
racionalidade técnica implica um assujeitamento ao olhar do técnico em saúde. Esse
assujeitamento dá-se em relação à figura biopsicossocial, a uma ontologia de quem
somos na saúde.

3.2 Integralidade e potência de vida

A bifurcação do princípio de integralidade para um plano de potência de


vida, por outro lado, encaminhamos para um campo de experiência em que o outro
não é passível de submissão a si mesmo (ORTEGA, 1999). Ou seja, o outro é
experimentado em sua alteridade, e não como um eu. O outro se apresenta em uma
absoluta inacessibilidade. Isso significa, para uma racionalidade técnica, a abertura
para um vazio.
Abertura para um vazio na medida em que, ao tentarmos apreender a
alteridade, ela escapa, apresenta-se como potência, e não como forma. O que se
quer pensar com isso é como articular o princípio de integralidade com o de

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produção de saúde, que deveria figurar como parte da própria integralidade em
saúde. É onde encontramos um nó, pois, ao tratar-se de um princípio, a
integralidade conforma certa subjetividade.
Ao conformar uma subjetividade, opera com um plano de prevenção, e não
com um plano de produção. Isto é, quando a integralidade se torna um
agenciamento na saúde, produzem-se unidades de sentidos. Essas unidades de
sentidos são possíveis em um plano de ações de prevenção, tratamento e
reabilitação, mas, no que tange à produção de saúde, essas unidades se esvaem,
pois, como já foi escrito, a produção abre para a potência, e a potência é força, e
não forma, ou seja, é transição e perdição, é uma zona fronteiriça.
Isso significa pensar que a produção de saúde interroga a própria
integralidade em saúde. A produção em saúde não é o avesso da integralidade, mas
o acaso de seu desenrolar, de modo a tornar-se uma potência política da vida, ou
uma biopotência em relação à biopolítica. A produção em saúde não é uma grande
recusa (FOUCAULT, 2004), e sim um conjunto de práticas de liberdade em que o
que produz esse movimento é a alteridade, e não uma identidade.
A produção em saúde, quando articulada à biopotência, desterritorializa o
"biopsicossocial", na medida em que agencia novos laços, desejos, crenças,
associações e formas de cooperação. Isso significa, no campo da saúde, a abertura
ao risco. Risco de uma potência que escapa à capacidade preditiva da ciência. Risco
de produção de novas formas de vida. Risco da alteridade. E isso é um risco para o
campo da saúde.
O que acontece é que a pobreza, a periculosidade, na sua precariedade de
subsistência, toma a vida como potência, isto é, como insistência. Insistência em
criar novas formas. Insistência no risco de permanecer vivendo. Essa insistência
joga as ações em saúde para o campo da produção em saúde, pois é essa
insistência que escapa à prevenção. É essa insistência ao risco de potência que não
encontra explicações no campo da saúde. Essa insistência é a alteridade em saúde.
O que reporta, novamente, ao nó. Como operar com a produção em saúde quando
ela traz consigo o risco? E o risco, no campo da saúde, é transformado em um
provável, em um real? Como trabalhar em saúde sem ter um sujeito da saúde, e sim
uma potência de vida?

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3.3 Potência de vida e produção de saúde

“A Inocência é a criança, e o esquecimento, um novo começo, um jogo, uma


roda que gira sozinha, um movimento inicial, um sagrado dizer sim”. Sim, meus
irmãos, para o jogo da criação é preciso dizer um sagrado sim: o espírito, agora,
quer sua vontade, aquele que está perdido para o mundo conquista o seu mundo
(NIETZSCHE, 1998, p. 44).
A produção de saúde, entre outros conceitos, é aquilo que modifica
necessariamente a forma como trabalhamos na saúde. É uma das linhas que nos
permite ampliar e modificar o trabalho na saúde, na medida em que não se trata
apenas de tratamento, reabilitação e prevenção, mas de produção de possibilidades
de vida. A produção em saúde é a figura da criança, da inocência, do esquecimento,
como escreve Nietzsche, figura de potência pelo sagrado dizer sim. É a insistência
da potência de vida que se afirma na produção de saúde.
Essa produção de possibilidades de vida é o nó na rede de saúde. Nó
porque é justamente no âmbito da produção em saúde que o trabalho em saúde se
encontra com aquilo que difere. Ou seja, é na produção de saúde que, como
trabalhadores, nos deparamos com a diferença. Diferença de histórias de vida,
diferença de possibilidades de vida. E a condição para pensar a diferença está na
dimensão imaterial do trabalho em saúde. É essa dimensão que justifica a existência
do SUS e que nos possibilita pensar no conceito que envolve o trabalho na saúde:
potência de vida.
A potência de vida é um termo forjado pela filosofia, mas fundamental para
pensar o trabalho na saúde a partir dos conceitos de trabalho afetivo, integralidade e
produção de saúde. Potência de vida refere-se à ideia de que a vida é um
permanente reinventar-se. Ou seja, existe algo em nós capaz de sempre criar novas
formas de se agregar, de criar sentidos, de inventar dispositivos de valorização e
autovalorização. Nas discussões de Arendt (1989, p. 28), "a tarefa e a grandeza
potencial dos mortais têm a ver com sua capacidade de produzir coisas - obras e
feitos e palavras"; nisso reside a ideia de que os humanos não nascem para morrer,
mas para recomeçar.
Operar com a produção de saúde não diz respeito a olhar para o querer-
viver, mas para a afirmação da vida (DELEUZE, 2006). E a afirmação da vida

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encontra-se não nas essências, como na forma biopsicossocial, mas nas
circunstâncias, na variação das formas de existir. Essa variação das formas de
existir relaciona-se à potência de agir. Essa potência de agir é provocada por aquilo
que faz variar as formas de existir: o afeto.
O afeto, segundo a discussão que Deleuze faz a partir de Spinoza, diz
respeito ao estado de um corpo considerado como sofrendo a ação de um outro
corpo ... a afecção [affectio] é uma mistura de dois corpos, um corpo que se diz agir
sobre outro, e um corpo que recolhe o traço do primeiro. Toda mistura de corpos é
chamada de afecção (DELEUZE, 2006, p. 5).
Nesse sentido, potência de vida e produção de saúde implicam uma relação
entre afeto/afecção, potência de agir, variação das formas de existir. Isso é o que
justamente escapa no campo da saúde, é aquilo que poderíamos chamar de um
plano de produção de si mesmo não fora do campo da saúde, mas como uma
variação estrangeira no próprio campo. É o território da invenção e da criação, o
território da inocência. São práticas que Foucault (2004), chama de liberdade.
Essas práticas de liberdade são formas de negociação dentro das próprias
biopolíticas, dentro das estratégias de governamentalidade. Essas práticas de
liberdade não se apresentam como uma grande recusa à governamentalidade.
Essas práticas de liberdade são forjadas pela condição mesma de afecção das
biopolíticas sobre os corpos. São as variações das misturas produzidas pelas
práticas em saúde. É um sagrado dizer sim. O risco, então, não se refere ao
provável, mas à afirmação do improvável: da potência de vida. O risco é um risco
para o trabalho na saúde, na medida em que o provoca/afeta a variar suas formas. O
risco é da invenção/criação de novas possibilidades de vida.
Isso é percebido de maneira mais intensa quando olhamos para vidas
completamente precarizadas. A potência de vida dá-se não no âmbito individual,
mas no âmbito coletivo, e aqui voltamos ao trabalho afetivo que envolve a relação
com o outro, a capacidade de produzir laços e redes sociais, de invenção de novos
desejos e crenças, novas associações e formas de cooperação. Isso requer do
trabalhador da saúde sua inteligência, sensibilidade, imaginação, criatividade,
conectividade e afetividade - é a existência que é posta a trabalhar, e não apenas o
corpo. Aqui o trabalho na saúde aproxima-se da dimensão de cidadania. Cidadania

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na medida em que saúde é uma questão de direito, direito à vida. A produção em
saúde opera com a cidadania como possibilidade de vida, como potência de vida.

Exercício 3

Qual o termo que é ele próprio um marcador de instâncias distintas


constitutivas do sujeito?
a) Biopsicossocial.
b) Biomédico.
c) Biológico.
d) Biosociológico.

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UNIDADE 4 – SAÚDE PÚBLICA: DO INDIVÍDUO À POPULAÇÃO

A eleição da experiência grega e industrial como caminho de análise, diz


respeito a percorrer as heranças que essas duas formas oferecem como condições
de possibilidade para a forma de objetivação da saúde pública. As linhas que serão
descritas circunscrevem modos de existência em determinados espaços-tempo, tais
como a experiência grega e a experiência europeia na medida em que se
apresentam como caminhos, movimentos e transformações para implementar certas
estratégias que aproximam o público da saúde: público, saúde e política; público,
população e epidemias. Esse percurso diz respeito a situar certas formas de
subjetivação por meio de um dispositivo de publicização.
Operar com linhas histórico-teóricas engendra-se na forma como se
levantam questões sobre uma determinada formação histórica. É um modo de
interrogar o objeto e perscrutá-lo como problemática teórico-política. Teórica e
política na medida em que se formula em uma racionalidade e em uma mecânica do
poder. São estratégias que apresentam o objeto como um acontecimento e não
como uma evidência. As três formas de objetivação - público, saúde e política;
público, população e epidemias - formam um território para pensar o público como
um dispositivo.
O dispositivo de publicização é uma forma de considerar uma ontologia do
presente que coloca a existência em relação ao público. Desse modo, a questão
sobre o que somos e no que estamos em vias de nos tornarmos é considerada a
partir da relação que estabelecemos com as noções de público e privado. Não se
trata de operar com uma relação binária: público e privado, mas de considerar a
configuração de um dispositivo que forja essa oposição, ou seja, anexamos o
público a um campo de racionalidade.
Neste caso, não se parte do público como esfera, ou como atributo do
Estado e sim como um território de experiência (FOUCAULT, 1999). O conceito de
dispositivo (FOUCAULT, 1995), é operacionalizado de acordo com condições para
demarcá-lo como tal: a) é uma rede que se estabelece entre um conjunto
heterogêneo; b) trata-se de um tipo de jogo; c) é um tipo de formação em um
momento histórico que responde a uma urgência.

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Dessa forma, as duas linhas analisadas - a experiência greco-romana e a
experiência industrial - supõem-se como suportes para o dispositivo de publicização
da vida e dos modos de viver no espaço urbano. São linhas que compõem esse
dispositivo tanto em termos de verdades quanto de jogos de força que forjam certos
modos de subjetivação no contemporâneo.
Essas linhas histórico-teóricas são consideradas um campo de práticas,
uma dimensão ético-política que formula uma urgência a ser respondida em termos
de governo de si e do outro. Não se trata de uma história do público, mas de
perscrutar o surgimento de um determinado dispositivo, cujo domínio alicerça uma
forma de articular público e saúde. Isso permite analisar a saúde pública não como
uma evidência e sim como um problema que produz certas formas de subjetivação
relativas às massas, ao pauperismo, ao trabalho, às epidemias.
Assim, neste material, em um primeiro momento discutiremos a linha
histórico-teórica, nomeada de experiência greco-romana, que articula três instâncias:
público, saúde e política. Essa linha situa a objetivação do público mediante a
relação com o mercado, com a política e consigo mesma, tecida por uma dimensão
de cuidados de si com a saúde, a propriedade privada e a figura do cidadão. Para
tanto, utilizamos os conceitos de cuidados de si e a saúde a partir das ideias de
Foucault e os conceitos de esfera pública e política de Arendt.
Em um segundo momento discutiremos a segunda linha histórico-teórica,
nomeada de experiência industrial, em que se articulam três dimensões: público,
população e epidemias. Essa linha trabalha com a emergência da questão social
mediante as ideias de Castel bem como a Razão de Estado e biopoder quando
analisados por Foucault e que encaminham para a relação entre urbanização e
epidemias.
Finalmente, apresentaremos como o dispositivo de publicização torna a
saúde uma problemática de governo relativa aos meios de produção e não à
produção de vida. Neste sentido, parte-se da saúde mediante o conceito de cuidado
de si, como experiência ético-política, que anexa os cuidados à saúde a uma
pragmática de si, de modo a tornar a saúde uma estratégia de governo de si para
melhor governar o outro. Ou seja, os cuidados de si implicam uma relação com o
outro em uma experiência de polis e cidadania grega em que “leva o sujeito a se
transformar, estilizando sua existência na presença do outro” (ORTEGA, 1999, p.

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11). A partir desse ponto, percorrem-se as estratégias que modificam essa
experiência grega e que tornam a saúde um território de Estado ligado às massas,
ao pauperismo, ao trabalho, às epidemias.

Exercício 4

A experiência Greco-Romana articula 3 instâncias, que são:


a) Público, privado e saúde.
b) Público, saúde e crítica.
c) Público, saúde e doença.
d) Público, saúde e política.

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UNIDADE 5 – A EXPERIÊNCIA GRECO-ROMANA: PÚBLICO, SAÚDE
E POLÍTICA CUIDADOS DE SI E SAÚDE

A problemática sobre os cuidados de si, discutida na História da Sexualidade


I, II e III por Foucault (1985, 1998, 1999), serve a este texto como uma história-teoria
para tecer um campo de articulação entre público, saúde e política. A experiência
grega analisada pelo autor objetivava a relação entre cuidados de si como uma
prática de governo de si voltada para a saúde do corpo e da alma e que, por conta
disso, instrumentaliza o sujeito a participar da vida política.
Entretanto, a vida política significava uma experiência de liberdade das
necessidades, uma possibilidade de vida na polis enquanto cidadão, o qual não
tinha como prática o governo dos outros, mas a participação nas decisões da
sociedade. A relação entre saúde e política na vida grega volta-se para um grupo
específico de homens-livres. Estes não podiam ser escravos, mulheres, nem
trabalhadores de ofício e estrangeiros, pois estas categorias encontravam-se em
condições de dependência de vencer a necessidade.
A saúde, enquanto uma cultura de si abrangia tanto aspectos médicos
quanto filosóficos: “um saber de grande importância já que ele diz respeito à
salvação e à saúde” (FOUCAULT, 1985, p. 105). As práticas voltadas para a saúde
definiam uma maneira de viver que enfocava a relação que o indivíduo estabelecia
consigo mesmo em termos de reflexão, cuidados com o corpo, com os alimentos,
com atividades e com o meio. É um saber do qual o próprio sujeito deve equipar-se,
não se trata de uma política para toda a comunidade, mas de uma prática que
homens-livres devem imprimir em seu cotidiano.
Os cuidados de si não estavam vinculados a uma obrigação moral, nem às
tecnologias jurídicas, de modo a serem considerados como “um luxo em relação à
moralidade comumente aceita” (DUSSEL, 2004, p. 58).
A estilização pessoal e social de si mesmo era um princípio apenas para os
homens-livres, categoria esta capaz de governar a si mesmo. Desse modo, a saúde
não era uma questão a ser colocada para a política e, sim, uma condição para
participar da vida política, uma condição em termos de condutas e comportamentos
ligados ao próprio status que homens-livres tinham. Uma atitude médico-filosófica

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sobre si mesmo possibilitava ao sujeito uma escolha livre e voluntária em relação à
vida política, pois, mais do que um espaço de negociações jurídicas, filosóficas e
programáticas, a atividade política era considerada uma forma de vida que implicava
um engajamento pessoal, um ato pessoal.
Segundo Foucault (1985, p. 95), “a racionalidade do governo dos outros é a
mesma que a racionalidade do governo de si próprio”. O interessante dessa
compreensão histórico-teórica é operar com dois pontos de objetivação: um deles
relativo aos cuidados de si enquanto práticas de homens-livres/cidadãos; o outro
relativo a formas de governo greco-romana sustentadas não em ações
individualizantes, mas “sobre toda a cidade ou sobre grupos, territórios, categorias
de indivíduos” (FOUCAULT, 2004b, p. 53).
Desse modo, encontram-se dois campos de ação: um voltado para a saúde
especificamente de uma categoria de indivíduos - os cidadãos - constituída
enquanto uma ética da existência e uma vida política; e outro voltado para aqueles
que deveriam ser governados - mulheres, escravos, crianças e trabalhadores de
ofício - como estratégia política de proteção de territórios que não incluíam ações
sanitárias, e, sim, práticas de tributos, de obrigações morais, de desenvolvimento de
exércitos.
A saúde, desse modo, não interrogava a política enquanto uma estratégia de
governo de grupos ou categorias de indivíduos. A saúde interrogava o cidadão como
uma prática para a vida política. Na medida em que se tratava de um exercício de
homens-livres não tinha relação com doenças e epidemias, mas com uma arte da
existência.
A saúde, nessa perspectiva, estava inscrita como um procedimento possível
do poder; não era o poder, embora fosse uma forma de entrar nos jogos de poder,
exercício este entre homens-livres. O poder residia tanto nas ações em relação à
constituição de um si mesmo médico/filosófico, quanto em relação à condução da
vida dos outros.
Esses outros tomariam essas condutas austeras dos governantes como
modelos de vida a serem seguidos. Desse modo, a saúde não era objetivada como
uma política pública, na medida em que o espaço da saúde era o território do eu.
Nessa lógica, as referências sobre o público não se articulavam à saúde, nem à
política de modo direto.

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O público, nessas considerações, referia-se a cargos públicos, a aqueles
que poderiam decidir/discutir/determinar os rumos das cidades-Estado, dos homens
saudáveis e livres. O público constituía-se como o lugar da política, de domínio da
estrutura de governo das cidades-Estado.
A população - mulheres, escravos, crianças, trabalhadores de ofício e
estrangeiros - não era o foco e nem constituía esse público. O público era um
domínio privado de homens livres, e sua experiência ético-política sustentava-se na
relação do homem-livre com a sua própria existência, engendrando uma relação
consigo mesmo.

Exercício 5

Complete:
Na sociedade Greco-romana uma atitude __sobre si mesmo possibilitava ao sujeito
uma escolha__ e __em relação à vida política.
a) Livre e voluntária, médico-filosófica.
b) Médico-filosófica, livre e voluntária.
c) Livre, voluntária.
d) Médica, filosófica.

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UNIDADE 6 – ESFERA PÚBLICA E POLÍTICA

Arendt (1989), faz uma discussão em outra direção quanto à esfera pública.
A autora traz o conceito especificamente, mas também o problematiza na
experiência greco-romana. Mesmo sendo dois pensadores – Foucault e Arendt –
que apresentam discussões sobre poder e dominação de modos distintos, ambos
ocupam-se da construção de histórias-teoria sobre os modos de viver greco-romano
para compreender os modos de viver moderno, ou seja, oferecem subsídios para
algumas formas de objetivação da política em relação à saúde, no caso de Foucault,
e para a política em relação ao público, no caso de Arendt.
Arendt (1989, p. 59), estabelece duas definições para o termo esfera pública:
a primeira “significa que tudo o que vem a público pode ser visto e ouvido por
todos”; a segunda “significa o próprio mundo, na medida em que é comum a todos
nós e diferente do lugar que nos cabe dentro dele [...] tem a ver com o artefato
humano, com o produto de mãos humanas, com os negócios realizados” (ARENDT,
1989, p. 62).
Nessas enunciações de Arendt (1989), em que se define o conceito de
público objetivado enquanto um conceito experiência, engendram-se linhas de
articulações entre o público e o trabalho. O trabalho de ofício e o artefato humano,
ao mesmo tempo em que possibilitavam uma vida pública, tornavam a existência
visível para o outro.
Essa visibilidade, contudo, não se definia enquanto necessidade, mas
enquanto espaço de trocas: as necessidades da população não eram visíveis na
esfera pública, assim como não se faziam como questões de política, questões de
governo, mesmo que esse espaço de trocas fosse referente à economia.
A discussão de Arendt (1989), introduz a figura do homo faber na
experiência da esfera pública. Ao nomear de esfera pública a autora objetiva o
público enquanto um lugar, mas, diferentemente de Foucault, lugar composto pelos
trabalhadores de ofício, espaço de trocas, ou seja, o mercado de trocas e de
reconhecimento de uma forma distinta da experiência privada. O homo faber era
aquele que apresentava um domínio privado - o lar - e que tinha um ofício para
sobreviver.

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Se estabelecermos uma linha que ligue essa perspectiva às considerações
anteriores, o homo faber não era uma categoria de homens livres, pois estava preso
às necessidades de sobrevivência, e essas necessidades tanto o impossibilitavam
de uma prática de cuidados de si, quanto de uma vida política na medida em que
deveria ocupar-se em trabalhar. O mundo comum grego não se referia à sociedade
de massas que emerge na modernidade, fundamentalmente com a Revolução
Industrial.
O mundo comum grego referia-se a mais uma das categorias de indivíduos,
o homo faber e os cidadãos, isso porque as trocas e o se dar a conhecer não
incorporavam mulheres, crianças, escravos, pois estes tinham como espaço a esfera
privada do lar.
Considera-se uma questão de desfiliação/filiação nesta relação grega, pois
se referia a uma experiência de privação em relação ao público, na medida em que
mulheres, crianças e escravos não tinham a possibilidade de ascensão ao público.
Entretanto, essas categorias existenciais filiavam-se à família.
Desse modo, mesmo que inexistentes no mundo comum de trocas,
mulheres, crianças e escravos inscreviam-se no território familiar, o que implicava
uma integração e uma proteção por parte dos laços familiares e de responsabilidade
do homo faber ou dos cidadãos no papel de chefes de família.
Essa privação, que residia no reconhecimento do outro no mercado de
trocas e na política, fazia com que estas figuras – mulheres, crianças, escravos –
não existissem. A filiação não era uma questão a ser pensada, não era um problema
de governo, das cidades-Estado, pois, como havia um acoplamento do privado à
figura da mulher, da criança, do escravo, não teria necessidade de uma política
sobre essas categorias, na medida em que elas não se davam a conhecer naquilo
que se considerou como experiência do público: cargos políticos e mercado de
trocas.
As necessidades não eram colocadas como um problema de Estado, como
uma questão pública. Responsabilizar-se por suprir as necessidades de
sobrevivência era um atributo do homo faber para com os seus familiares, de modo
a ser esta figura que garantia um suporte em termos de filiação e sobrevivência: o
homo faber apenas era considerado enquanto tal na medida em que era dono de um
lar, pertencia e geria uma família.

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Essa condição de suporte para a experiência do privado de crianças,
mulheres e escravos garantia ao homo faber uma experiência do público. A questão,
então, volta-se para uma analítica das condições que modificam os mecanismos
micropolíticos da relação do homem-livre/cidadão grego com a saúde, a política e o
público em termos de cuidados de si e mercado de trocas, para os mecanismos que,
na modernidade, passam a investir em termos de biopolíticas voltadas para a
população e enquanto um suporte oferecido pelo Estado moderno, como escreve
Dussel (2004, p. 51, grifo nosso): “como essas formas (saúde, público e política)
foram colonizadas, invertidas, transformadas, sujeitadas por mecanismos mais
gerais e formas de dominação mais globais”.
O território público não se caracterizava, nessa experiência grega,
propriamente como do indivíduo, pois não se tratava de um sujeito psicológico, nem
de um sujeito sociológico caracterizado em relação a uma população, como
emergirá na modernidade, mas de uma experiência de cuidados voltados para a
constituição de um si que afirmava um determinado status, um outro que habitava o
si, “a consciência dos antigos sobre o eu não era, como o ego psicológico atual, um
eu, mas um Ele que nos habitava” (DUSSEL, 2004, p. 61).

Exercício 6

De acordo com o texto, o que caracterizava o homo faber era o fato de ele
apresentar:
a) Um domínio privado - o lar - e que tinha um ofício para sobreviver.
b) Somente tinha um ofício para sobreviver.
c) Um domínio sobre o público.
d) Um lar para sobreviver.

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UNIDADE 7 – URBANIZAÇÃO E EPIDEMIAS

As pesquisas que se desenvolvem no campo científico tornam possível


objetivar e forjar tanto a noção de um corpo-organismo quanto biológico-natural.
Pasteur (LATOUR, 2001), faz parte desta esteira de produções ao objetivar os
micro-organismos criando uma outra possibilidade de pensar a transformação da
matéria e a produção de organismos vivos.
A geração espontânea tinha como crença que uma matéria sofria
modificações por meio de um processo químico, em que uma série de atributos
químicos produz uma substância. Pasteur, segundo Latour (2001, p. 179), faz com
que a noção de atributos seja desconsiderada e pensada em termos de substância:
“a totalidade da bacterologia emergente, da agroindústria e da medicina, fiada nesse
novo conjunto de práticas, erradicou a geração espontânea”.
Dois domínios de conhecimento desses acontecimentos são relevantes no
que tange à problematização deste estudo: a bacteriologia e os micro-organismos
enquanto substância e a experiência do público por meio da assepsia.
As descobertas de Pasteur (LATOUR, 2001), lançam a possibilidade de se
pensar não mais em termos de atributos, mas em termos de substâncias, bactérias e
micro-organismos, além de não se constituírem por meio de geração espontânea,
embora transportados pelo ar. A cultura de germes passa a ser vista como um
fenômeno de contaminação, abrindo um campo fora dos muros laboratoriais em que
a assepsia se torna uma disciplina rigorosa. Os modos de viver tornam-se, então,
disciplinados como forma de controle da transmissão e contaminação
microbiológica.
Segundo Foucault (1995), a urbanização, recrudescida com a revolução
industrial, desenvolve o campo de intervenção da medicina social. A teia de relações
entre o nascimento da medicina social, da microbiologia, a urbanização e o
desenvolvimento do Estado são condições de emergência do público enquanto
população que deve ser disciplinada por meio de biopolíticas. As relações de força e
forma recaem e dão visibilidade aos corpos da população, aos hábitos da
população, esquadrinhando e organizando o espaço social de modo a evitar os
contatos que contaminam.

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O desenvolvimento de centros urbanos alavanca, concomitantemente, a
produção. Ocorre uma transformação do público, antes tido como lugar de trocas e
mercado, agora como espaço de produção: industrial, populacional, epidemiológica,
urbanizacional.
Essas aglomerações geram,
não espontaneamente, o medo, como
já foi escrito, uma “inquietude político-
sanitária que se forma à medida que
se desenvolve o tecido urbano”
(FOUCAULT, 1995, p. 87). Emergem,
então, tecnologias de controle dos
nascimentos, dos óbitos, das
habitações, enfim, dos modos de viver.
Fonte: http://migre.me/eOwit
A medicina social incorpora-se ao tecido urbano e passa a fazer parte dos
modos de organização social, inscrevendo e demarcando, por meio de estratégias
de controle, a divisão entre ricos e pobres. Esse esquadrinhamento é tanto no que
diz respeito ao modelo de assistência médica quanto à localização no espaço.
Essas duas características - assistência médica e localização no espaço -,
quando relacionadas à saúde na formação dos espaços urbanos e da
industrialização, engendram uma sobreposição de uma política disciplinar e de uma
política sobre a vida. A discussão que Foucault (1999), faz sobre o biopoder conflui
essas duas formas de se exercer o poder: anátomo-política e biopolítica. Ao controle
do corpo espacializado agrega-se o controle da vida.
O corpo individual acomoda-se no corpo da população, “se desde
Aristóteles, diz ainda Foucault, numa frase retomada com insistência por seus
intérpretes, e revirada por Agamben, o homem era um animal vivente capaz de uma
existência política, agora é o animal em cuja política o que está em jogo é seu
caráter de ser vivente” (PELBART, 2003, p. 58).
O biológico justapõe-se ao político e torna-se um instrumento, uma técnica
política. Quando a medicina social passa a regular o espaço urbano, os modos de
viver da população pobre e o controle sobre as epidemias tornam-se possíveis. Esse

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controle sobre as epidemias e os modos de viver faz da vida um objeto de saber e
de intervenção.
As estratégias de biopoder, formuladas pela agregação entre Estado
moderno, medicina social, industrialização e pauperização, territorializam a
população e a vida como objeto por meio da assistência à saúde. As políticas
engendradas nessa articulação compõem um território sociológico quando situam a
população e a vida como foco de investimentos do Estado.
Esse processo torna possível conformar uma experiência de público que
correlaciona campos de saber como a razão de Estado, a população, a vida, a
pauperização e a industrialização com tipos de normatividade como a disciplina e a
biopolítica, além de formas de subjetivação, tais como o pobre epidêmico e
revoltado, o trabalhador/operário.
Essa experiência de público, constituída nessa racionalidade moderna, tem
suas condições de possibilidade na periculosidade que a pauperização apresenta
para o progresso e desenvolvimento social. Torna-se uma questão que deve ser
capturada pelo Estado e investida.
A política que aparece como estratégia é o controle das populações por
meio da saúde, da salubridade e insalubridade do corpo social, uma política
médico/policial. Desse modo, nesta discussão, a emergência do público é possível
justamente pela emergência da vida e da saúde como objetos de saber e
intervenção. Mas são esses regimes de verdade em relação à saúde,
especificamente à saúde da população, que conformam o público como uma
experiência relativa à pobreza, à epidemia, aos conflitos sociais.

Exercício 7

De acordo com Focault, a urbanização e a revolução industrial


desenvolveram:
a) O caos urbano.
b) A insatisfação com a renda proveniente do trabalho.
c) O marxismo na Europa.
d) O campo de intervenção da medicina social.

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UNIDADE 8 – SAÚDE MENTAL NA PERSPECTIVA PSICANALÍTICA

8.1 A infância

A questão da infância é discutida pela Psicologia (como ciência bem como


na sua condição de profissão, mais recentemente) desde a sua fundação. Autores
de base para a delimitação da Psicologia como ciência, como Freud, Piaget,
Winnicott e Vigotski, por exemplo, vão se debruçar sobre este tema desde o início de
seus estudos. Veremos como a partir de seus conceitos psicanalíticos ser pensada a
partir da ideia de saúde.
Não podemos deixar de lembrar, sempre, da história do próprio conceito de
saúde, sua trajetória ao longo do conjunto de conhecimentos relativos ao passado
da humanidade e sua evolução, em especial, da evolução da própria teoria. Uma
criança recém-nascida, diz o Freud, ainda
não distingue o seu eu do mundo externo
como fonte de sensações que fluem sobre
ela. Aprende gradativamente a fazê-lo
reagindo a diversos estímulos. Estímulos
dos quais ela vai se proteger depois,
porque a maioria deles lhes será
desagradável, inapropriado e
inconveniente.
Fonte: http://migre.me/eOg3p
Para o bebê recém-nascido não há pensamento, não há conjecturas, não há
raciocínio, não há a ética, não há moral, não há nada senão um mundo profuso e
caótico de sensações que são absolutamente corporais.
A partir da relação do bebê com o mundo, em especial com a figura
materna, Winnicott afirmará que daí se constitui uma espécie de qualidade desejável
de um tipo de relação como esta. Ele chama este bom termo entre a figura materna
e o bebê de “mãe suficientemente boa”.
Uma mãe que é boa o suficiente, não precisa ser muito boa, basta ser o
suficiente, faz com que o bebê abra uma fresta diante de seu próprio universo
caótico e, de lá de dentro deste mundo, ele passe a tocar, sensivelmente (claro,

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estes são termos metafóricos) este “mundo externo” e comece a criar um primeiro
vínculo que é basicamente sensorial.

8.2 A Psicanálise

Freud, de maneira geral, vai nos fazer compreender que o ser humano,
segundo suas próprias palavras, “não é senhor em sua própria casa”. Esta frase
significa que, ao contrário do que imaginamos e pensamos, desde o senso comum
(mas também a partir de uma longa tradição da filosofia e da psiquiatria), a
consciência não tem toda a força que os autores contemporâneos (a Freud)
propunham.
Freud afirmará que em nosso aparelho psíquico há um elemento fundante e
fundamental: o inconsciente. É ele que (pré)determinará boa parte de nossas ações
cotidianas e é ele que será o polo organizador dos nossos afetos e desejos. Por isso
mesmo é a ele que devemos dispensar nossas atenções.
A ideia de uma instância que sobrepõe à consciência – em força e energia –
não era originalmente do fundador da psicanálise. Filósofos antes dele já haviam
tomado esta perspectiva como mote de suas teorizações. Contudo, é Freud quem
formaliza a função do inconsciente, em especial para pensarmos alguns termos
importantes de nossa vida cotidiana, como por exemplo, a educação – escolar e
familiar - e a ideia de saúde mesma.
Podemos listar, abaixo, as principais características do Inconsciente (que
Freud postulou):
 Ações humanas são motivadas por processos de base inconsciente.

 As experiências na infância são a base da futura vida adulta.

 O inconsciente é um organizador das experiências e escolhas da


nossa vida.

 Os traços inconscientes podem chegar até a nossa consciência, mas


sempre sob forma de representação: “travestidos” sob a forma de
sonhos, atos falhos, sintomas...

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Outro ponto importante aqui para chegarmos até a ideia de saúde mental
nas diferentes fases da vida é a de sexualidade. O conceito de sexualidade com
que Sigmund Freud trabalhou era – e é – bem diferente daquele com o qual estamos
habituados: a sexualidade não é mais simplesmente o ato sexual em si mesmo, ela
é ampliada e radicalmente diferente da percepção naturalista que dominava os
textos do final do século XIX; a ideia de uma normalidade sexual passa a ser
compreendida, a partir dele, não mais pelo sexo e suas práticas adultas para fins de
reprodução da espécie: ela é tomada como elemento fundamental que remete aos
primórdios da constituição do próprio psiquismo e que passa a distinguir-se
radicalmente da vigente noção de instinto. Freud introduz um novo termo aqui para a
compreensão geral deste: a Pulsão.
Qual seria, então, a diferença entre pulsão e instinto. Em alemão, a primeira
é grafada TRIEB e a segunda é grafa INSTINKT. Ora, para Freud todos nós
(humanos e animais) temos instintos. Eles são naturais, já nascemos com eles. Eles
são carregados de uma energia que nos move, que nos organiza as ações da vida
diária.
O entendimento costumeiro – em ciência – para se pensar o instinto, era
aquele que o tomava como um modelo de comportamento que sempre tem seu
objetivo e seu objeto já definidos, pré-determinados. Por exemplo: o animal, quando
se sente ameaçado, foge diante do objeto que lhe ameaça ou ele revida, atacando-
o. Não há mediação entre ele – sujeito da agressão - e o sujeito do ataque.
O animal, nestas circunstâncias, não produz nenhum tipo de reflexão.
Poderíamos afirmar, então, que entre o sujeito e o objeto da ação (no caso que
trouxemos acima) não existe mediação reflexiva. O animal acuado, simplesmente
foge ou simplesmente ataca.
O mais interessante aqui é compreender o seguinte: depois desta ação,
mesmo animal atacado não faz nenhuma reflexão sobre o que aconteceu, ele não
fica pensando no evento, refletindo sobre ele, ele simplesmente não pensa. Não há
orgulho, não há culpa em relação ao ato realizado. Não há nada. Há, simplesmente,
uma ação gerada por uma força instintual. Animal não produz reflexões sobre os
objetos sobre os quais investe ou dos quais recebe algum tipo de investida.
E não esqueçamos que aqui, neste caso (enquanto falamos de Psicologia)
objeto não é somente uma coisa material que pode ser percebida pelos sentidos,

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mas é, sobretudo, uma realidade, uma forma de ver a realidade a partir de uma
investigação cognitiva (do pensamento, do campo do conhecer) averiguada num ato
da própria cognição. Este ato pode ser apreendido pelo nosso pensamento e será,
certamente, para Freud, atravessado pelas variáveis de nossos afetos.
Para Freud, então, a sexualidade humana não está pautada pelo instinto,
porque o homem vai ao encontro de seus prazeres e satisfações não só pela
via do sexo, não só para nutrir-se e para sobreviver simplesmente. Os prazeres
(a que Freud cola ao conceito de sexualidade) para os humanos podem ser
inumeráveis, infinitos: podemos ter prazer em uma boa conversa com um amigo, em
um almoço em família, ao dormir, ao ingerir determinada substância (psicoativa ou
não), nos toques sobre o corpo, em viajar, em ler e sim, também, no próprio sexo. É
por esta razão que ele afirma que toda a criança é provida de sexualidade. A energia
que nos move (e ele a chamará de libido) está investida – em termos de
possibilidade – em toda e qualquer ação de nossa vida cotidiana.
Vamos recapitular o que vimos até aqui: para Freud há uma diferença básica
entre instinto e pulsão. Abaixo, uma tabela que vai nos auxiliar a compreender
melhor a definição, mas, sobretudo, a diferença entre os conceitos de pulsão e de
instinto:

Quadro 1 – Diferenças entre instinto e pulsão

Instinto Pulsão
 Ligado às questões da  Ligado às questões do desejo (da
autoconservação (natureza da espécie); condição humana)
 Possui, sempre, um objeto pré-  O objeto das pulsões pode ser (e
definido; quase sempre o é) variável, incerto, não
 Nas “ações” instintuais, a satisfação determinado por antecipação;
ou descarga do tensionamento gerado  Nas “ações” pulsionais, a satisfação
por determinada excitação pode ser ou descarga do tensionamento gerado
total, completa; por determinada excitação é sempre
 Está ligado aos comportamentos parcial, incompleta.
herdados, de caráter hereditário.

Fonte: Elaboração própria

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Antes de seguirmos adiante, outro esquema que nos poderá ser útil mais
tarde e que organiza, segundo Freud, as quatro condições fundamentais da pulsão:
fonte, objeto, alvo e pressão.

Quadro 2 – As 4 condições pulsionais

FONTE (Quelle) FINALIDADE (Ziel)

Este é o processo somático, localizado A meta (ou finalidade) aqui é sempre a


numa parte do corpo ou num órgão, cuja satisfação, que pressupõe a eliminação
excitação é representada no psiquismo da excitação que se encontra na origem
pela pulsão. da pulsão.

PRESSÃO (Drang) OBJETO (Objekt)

A pressão constitui a própria essência O objeto da pulsão é o meio dela atingir


como o motor da atividade psíquica. É a seu alvo e nem sempre lhe estará
quantidade de força ou a medida de originalmente ligado. Um mesmo objeto
exigência de trabalho que a pulsão pode servir para a satisfação de várias
representa. pulsões.

Fonte: Elaboração própria

Assim sendo, Freud afirma que todo o ser humano, do ponto de vista de um
desenvolvimento normal e esperado, deve passar por determinadas fases no
decorrer de seu desenvolvimento infantil. Ele as divide (falaremos aqui das primeiras
e que nos interessam diretamente) em basicamente três:
- A Fase Oral (do nascimento até, por volta, dos dois ou três anos de idade);
- A Fase Anal (dos dois ou três anos de idade até, por volta, dos quatro ou
cinco anos);
- A Fase Genital/Fálica (dos quatro ou cinco anos de idade até a
puberdade)

Vamos começar com uma breve definição e delimitação de campo aqui.


Freud denomina de pré-genitais toda aquela organização da vida sexual em que as
zonas genitais (o pênis e sua região, para o menino, e a vagina e sua região, para a

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menina) ainda não assumiram seu papel definitivo e que será organizador da vida
adulta. Observem atentamente o esquema abaixo:

Organização pré-genital
 A libido sofre progressivas organizações durante o desenvolvimento, em
torno de zonas erógenas corporais.
 Esta fase do desenvolvimento caracteriza-se pela organização da libido em
torno daquilo que Freud chamará de zona erógena, proporcionando à criança
uma fantasia básica e um tipo de relação de objeto.
Fonte: Elaboração própria

Ou seja, há uma série de organizações que precedem a denominada “vida


adulta” e que tem a ver como as pulsões vão operar. Freud dirá que as pulsões são
o caminho que a libido percorre. É assim: há um destino final que a libido irá buscar,
e este destino é percorrido por uma trilha (reparem aqui: Trieb, em alemão, significa,
justamente, “trilha”).
Esta energia de vida – a libido – é direcionada para vários objetos ao longo
de nossas vidas. Vamos dar um exemplo bem simples para que a compreensão do
conceito se torne mais fácil e mais clara.
Quando estamos na faculdade, em época de exames e provas, temos nossa
“energia” voltada para os estudos destes exames, não é mesmo? Quando estamos
de luto pela perda de um ente querido, muitas vezes temos a sensação de que
estamos “sem energia” para lidarmos com outras coisas de nossa vida cotidiana;
quando – achamos – que estamos deprimidos, ficamos sem energia (e esta é a a
palavra adequada!) para sair com nossos amigos para as atividades mais simples,
como um cinema ou jantar.
Pois bem, é disso mesmo que o Freud nos fala! É dessa energia! E ela, nos
diz ele, se chama libido.
Pois há, portanto, uma “organização” desta libido, e há também uma época
desta organização que ele denomina – como apontamos antes – de pré-genital.
Vamos a elas então.
A primeira é denominada de FASE ORAL. Por quê? Precisamente porque
Freud afirmará que o trato oral (aquela cavidade situada na cabeça, delimitada

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externamente pelos lábios e internamente pela faringe, composta pela mucosa
labial, língua, palato, enfim, como nós popularmente denominamos, a “boca”) é uma
espécie de “abertura” para o mundo. É por ela que bebê – e aqui é importante
compreendermos desde já: de forma saudável! –
irá interagir com o mundo que o cerca.
É através da boca, das suas funções orais
que ele irá fazer as suas primeiras trocas e
aproximações com o universo que se situa para
além do seu próprio corpo. Sim, porque até os (por
volta de) três ou quatro meses de vida, o bebê
ainda está situado em uma dimensão bastante
primitiva em termos sensoriais. Ele apenas
percebe o seu próprio corpo – ainda assim de
forma frágil - e a mãe que lhe dá sustento.
Observem o esquema abaixo:
Fonte: http://migre.me/eOhYA

Quadro 3 - Oralidade

Quanto à oralidade, durante os primeiros dezoito meses


de vida, a pulsão caracteriza-se por:

FONTE = ZONA ORAL

ALVO = INCORPORAÇÃO

OBJETO = AQUELE DA INGESTÃO DO


ALIMENTO.

Fonte: Elaboração própria

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Notem que a fonte das pulsões (que são os caminhos que a libido, a energia
vital, percorre ou, no caso, que irá percorrer) é a boca. O seu alvo é a incorporação.
Incorporação real aqui do alimento, mas de forma metafórica, porém, também real
para o uso da vida ulterior, uma incorporação dos “objetos externos” ao corpo e à
mente do bebê. Ou seja, o exercício de colocar objetos (inclusive partes do próprio
corpo na boca, como os dedos, por exemplo) é, de fato, uma ação saudável, uma
espécie de prática regular e reguladora do seu ingresso em um mundo simbólico.
Explicamos.
Agora, não mais o bebê se interessa apenas em alimentar-se tão somente,
mas em incorporar, introjetar o mundo à sua volta. E ele o faz com uma verdadeira
voracidade: tudo que está ao seu alcance poderá parar em sua boca. A vivência, a
experiência de vivenciar uma satisfação é fundamental para a criança.
Em relação à amamentação ela se dá em duas frentes. A primeira é a
satisfação imediata que se dá na instância corporal mesma, ou seja, a tensão e o
desconforto provocados pela fome são diminuídos ou extinguidos pela sugar o seio
materno e pela ingesta do leite, nutrindo, paulatinamente, o organismo e a sua
necessidade básica. Mas há,
também, uma outra satisfação –
e é desta que Freud falará – que
possui uma importância igual ou
até mesmo maior do que a
primeira: é a satisfação “mental’
provocada pela diminuição da
tensão da fome, provocada pela
desnutrição.
Fonte: http://migre.me/eHQGj

Funciona assim: ao mesmo tempo em que o bebê, sacia sua fome (corporal)
ele sente uma satisfação (mental, psíquica) enorme. E é em busca dessa satisfação
que ele irá empreender seus esforços para o resto de sua vida. É esta busca que
organiza – parcialmente – a construção daquilo que chamamos
contemporaneamente de sujeito.

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Então, podemos afirmar, a partir da experiência psicanalítica, o seguinte:

O ATO DE COLOCAR OBJETOS NA BOCA E


EXPERIMENTÁ-LOS PELO TRATO ORAL É, DO
PONTO DE VISTA DA PSICANÁLISE, UMA AÇÃO
SAUDÁVEL.

É por esta razão que não devemos repreender de forma severa os bebês
diante deste ato. Devemos, claro, instruí-los, cuidá-los diante desta ação que traz em
si, obviamente, o risco de um dano físico ou de uma intercorrência indesejada e
mesmo prejudicial à integridade física do infante. Agora ficará de fácil assimilação os
quadros seguintes:

Organização (ou fase) oral

Quando nascemos, há uma das estruturas corporais já em estado


avançado de desenvolvimento: a boca. É por ela que a criança começará
a conhecer o mundo, é por ela que a criança irá realizar as suas
descobertas afetivas mais significativas: será o seio materno, afirma
Freud, o primeiro objeto que servirá de instrumento de ligação entre a
criança e o restante de sua vida ulterior.
Freud vai denominar de “incorporação” justamente o fenômeno
análogo à incorporação do leite no ato de sugar o seio materno. É aí que
se dará o mecanismo –metafórico- de “introjeção”. Será pela alimentação
(pelo sugar e pela ingestão do leite materno) que o bebê passará a
incorporar o “mundo externo”, o mundo que o rodeia.

Contudo, é possível que estas intercorrências das quais falamos acima se


deem de forma inesperada ou indesejável. Determinadas características de
personalidade na vida adulta têm sua origem aqui mesmo, nesta que é denominada
de Fase Oral.
Muitas vezes, ainda na infância, certos comportamentos que podem se
mostrar perniciosos diante do – esperado – bom desenvolvimento da vida humana,
como por exemplo: inibições e disfunções na fala e na aquisição da língua materna.

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Na vida adulta, alguns são os sinais distintivos que remetem à Fase Oral, como por
exemplo, a ganância, a agitação psicomotora (mas aqui, caracterizada
especialmente por uma “agitação” na fala e na sua falta de controle).
Uma criança que tem as suas necessidades atendidas pela mãe ou pela
figura cuidadora (pode ser o próprio pai, uma avó, uma babá) será, por certo, uma
criança saudável.
Não nos esqueçamos do fato que uma criança saudável é aquela que,
basicamente, recebe amor. Esta frase pode soar um tanto “clichê”, mas, de fato, ela
não é. Explicaremos por que. Amor, neste caso, significa precisamente dar a
atenção que a criança necessita: é uma atenção em relação aos cuidados do corpo,
sim, sem dúvidas. Mas também é uma atenção às suas necessidades psicológicas,
suas demandas como humana.
Não nos esqueçamos: o humano, agora para nosso fim de compreensão da
teoria freudiana, não age mais somente de forma direta sobre o objeto (mais uma
vez, este objeto não é apenas algo matéria; ele pode ser, por exemplo, o amor, o
cuidado, o carinho, a mãe, o aprendizado, as relações afetivas). Assim sendo,
então, o brincar adquire na infância um status elevado. Falaremos dele mais tarde.

8.3 Os desdobramentos de caráter psicopatológico

É possível que ocorra, ao longo da infância, eventos que serão, pela criança,
considerados traumáticos. Será no ato destes eventos que poderão acontecer o que
Freud chama de FIXAÇÃO. Vamos explicar. Fixação do que e no quê? É
precisamente a fixação da libido (através do caminho que ela percorre, portanto,
pela pulsão) em um evento que fica registrado mentalmente, e este evento possui,
pois, aquele caráter do qual nós já falamos: um caráter traumático.
As fantasias básicas que povoam a mente do bebê, aqui, estão relacionadas
à destruição e à trituração destrutiva de objetos reais ou imaginários. Determinadas
características de personalidade, portanto, podem estar vinculadas direta ou
indiretamente a esta fase. Vejamos algumas: fumar, beber ou comer
demasiadamente, disfunções na fala... Mas, atenção:

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Nem todas as características relacionadas à Fase Oral
possuem um caráter psicopatológico ou negativo!

Ora, a habilidade de um bom orador, adulto, por exemplo, pode estar ligada
a eventos benfazejos e gratificantes no que se refere à denominada Fase Oral. Um
chef (aquele sujeito que tem como profissão elaborar e preparar pratos mais ou
menos sofisticados em alguns restaurantes) deve saber diferenciar sabores
específicos uns dos outros, deve saber escolher quais ingredientes devem ser
misturados e quais não devem sê-lo. Para tanto, é necessária uma habilidade
degustativa sofisticada. Está um belo exemplo de como as características da fase
oral podem ser, como citamos acima, benfazejas.
Existem algumas curiosidades relacionadas a esta fase e que, por certo, nos
interessam também. Alguns hábitos, que frequentemente podem ser observados já
na vida adulta, também têm sua origem na Fase Oral. Por exemplo: pessoas que
mordiscam ou roem as unhas, que estão constantemente ocupando o trato oral
(fumando, ingerindo líquidos, chupando balas...).
Mas, mais uma vez alertamos, estes hábitos devem ser tomados em seu
contexto, ou seja, eles podem, dependendo da pessoa e das circunstâncias que a
envolvem, ser ou não ser, hábitos com traços psicopatológicos.

8.4 A Fase Anal

Ela é caracterizada pelo direcionamento das pulsões (e da libido, a energia


vital) para o trato anal e esfincteriano. É nesta fase, por volta dos dois aos três anos
de idade, pois há uma variação na literatura sobre quando ela se dá
especificamente, que a criança aprende, de forma prática, a começar a controlar a
musculatura esfincteriana. Significa que aqui que ela começa a controlar as ações
de urinar e de defecar.
Freud afirma que o orifício anal constitui-se, nesta fase, como a zona
erógena predominante. As fezes e mesmo a urina passam a ser tomadas pela
criança como um “objeto especialmente por ela produzido”. Sim, por mais estranho

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que isso possa parecer, é assim mesmo, de fato, segundo Freud, a criança constrói
não só a sua relação com isso que – nós, adultos – chamamos de excrementos.
Atenção! Para as crianças, os excrementos não são tomados como tal. No segundo
e terceiro anos de vida, dá-se a maturação do controle muscular (em especial o
esfincteriano) na criança. As fantasias básicas aqui estão ligadas ao valor simbólico
que as fezes – e os excrementos em geral – possuem para ela. A qualidade das
relações que a criança passará a estabelecer serão organizadas em termos de
controle sobre os objetos (reais ou imaginários).
Devemos reparar que é exatamente nesta época da vida que a criança
incorpora no seu repertório comum uma série de novas habilidades que farão uma
diferença funcional – e saudável - em sua vida, como por exemplo: o andar, falar, e
controlar a musculatura esfincteriana. Vamos ver, separadamente, a importância de
cada uma delas.
a) O andar.
Imaginem a diferença de perspectiva – não só do ponto de vista da criança,
mas de qualquer outro ser – que se dá quando passamos a observar o mundo que
nos rodeia não mais sentados e fixos ao chão (ou, ao menos, fortemente restritos a
uma área determinada qualquer), mas, agora, eretos. Não é só o campo visual que
se expande; é a perspectiva mesma das possibilidades de ação e interação que se
multiplicam exponencialmente.

Fonte: http://migre.me/eOicq

O alcance de nossos movimentos potencializa-se e os objetos materiais à


nossa volta (os até então mais distantes) passam a fazer parte, pois, desta nova
conformação das condições de possibilidades que temos de explorar o mundo. O
sentimento presente na criança de que ela pode controlar (muita atenção aqui, pois

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controle é a palavra chave para compreendermos a Fase Anal) o mundo,
intensifica-se.

b) O falar.

Assim como andar amplia consideravelmente os horizontes (reais e


metafóricos) da criança, o falar também o faz. A aquisição da língua é um dos
pontos mais importantes para que possamos, de forma definitiva, firmar a nossa
condição de sujeito diante do campo da cultura. É por ela e com ela que, agora,
diferentemente da fase anterior, que absorvemos o mundo à nossa volta.
Precisamos dela. Somos o que somos pela linguagem.
Mesmo um bebê mudo possui uma linguagem. E para que ele possa ser
saudável psicologicamente, ainda que com uma deficiência na função do falar, ele
precisa estar dentro de um campo de
linguagem e, mais ainda, talvez até, o
mais importante: ele precisa compartilhar
esta linguagem não só com seus
cuidadores (pai, mãe, irmãos, babá),
mas com aquilo que chamamos de
cultura. Ele precisa ingressar na cultura,
poder dividir com ela seus anseios, suas
dúvidas, suas alegrias e seus triunfos.
Fonte: http://migre.me/eOijb
Simultaneamente, de forma dinâmica e processual, ele precisa também
absorver da cultura os seus anseios, suas dúvidas, suas alegrias e seus triunfos.
Devemos tomar o termo cultura como um campo de luta entre diferentes grupos
sociais em busca da significação (SILVA, 1995). É neste território, que está calcado
na discursividade e na predominância de operadores simbólicos, que são travadas
batalhas e lutas de sentidos.
É preciso concebermos a possibilidade de articulação destas práticas
discursivas que se opõem em seus sistemas e ideias sem que resultem no fracasso
da diplomacia e, por conseguinte, na queda do simbólico.
Ao encontro disto, Homi Bhabha (1998), comparece instituindo uma
particular inteligibilidade à expressão “negociação” em contraposição à “negação”

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quando sugere uma dialética sem a emergência de uma história teleológica ou
transcendente em que o evento ou, advento da teoria, funcione como um dispositivo
“negociador” entre instâncias contraditórias entre si, abrindo territórios e objetivos
híbridos de luta onde são elididas as polarizações negativas entre o saber e seus
pretensos objetos (Idem, p.51).
Seria neste espaço de embates, oposições, debates e relativizações que se
fundamentaria o local da cultura, para parafrasear o autor em questão. Estaria,
portanto, no reconhecimento da radicalidade histórica - entre outras coisas - como
elemento constitutivo do humano que poderíamos antever a queda da oposição
simplista que ainda se insiste dizer que há entre sujeito e objeto.
Vejam como é importante – e acima de tudo SAUDÁVEL – a nossa
inserção, de uma certa forma, no campo da cultura. A língua, incluída no terreno
maior da linguagem, passa a ser vista agora como principal ferramenta que
sancionará a condição humanizada e humanizadora da criança da qual falamos.

c) O controle da musculatura esfincteriana.


A aquisição do controle fisiológico começa a ser percebida pela criança
como uma real e nova fonte de prazeres. Ao controle esfincteriano real (as fezes,
mas a urina também) estarão associadas ações de caráter positivo ou negativo: a
criança – por volta do quarto ano de vida, por exemplo – poderá receber elogios e
assertivas positivas de seus pais e cuidadores quando demonstrar que consegue
controlar as suas fezes, que sabe fazer uso desse controle
e cumprir estas funções fisiológicas de forma adequada
dentro da sua contingência cultural.
Contudo, o oposto também procede: uma criança
que não consegue cumprir estas funções pode ser
repreendida (e isto não deve acontecer, em especial
quando pais estão irritados ou sem paciência para o trato
com a criança) de maneira severa e dura. Uma criança
saudável irá, invariavelmente, “jogar” com esse controle.
Fonte: http://migre.me/eOixg
É por isso que, muitas vezes, notamos a estranha satisfação de bebês que
imediatamente depois que têm suas fraldas trocadas, defecam ao mesmo tempo em

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que sorriem. Este sorriso é a satisfação da possibilidade de controle sobre as fezes
(não se enganem, ela defecou justamente porque conseguiu retê-las e soltá-las
exatamente ali, naquela hora), mas também sobre a mãe: a criança “obriga’ a mãe a
repetir a ação da mesma troca de fraldas que há pouco operou.
Uma criança amada, e portanto, uma criança saudável, recebe todas estas
ações como um conjunto de sinais positivos, o que a faz ter o sentimento de
pertença e de aceitação junto à sua família (e, portanto, no campo da cultura).
As características clássicas da Fase Anal que estão associadas à vida
adulta são: ordem, parcimônia e obstinação (traços estes que o próprio Freud
apontou que costumam aparecer interligados operacionalmente na vida adulta).
Outra característica importante que delimitam traços de personalidade na vida adulta
são a avareza, o interesse em colecionar objetos e o detalhismo.
É na Fase Anal que se dá a internalização das normas macrossociais (da
cultura na qual a criança está inserida) e microssociais (da família, por exemplo). O
esquema abaixo deve ser lido, sim, de forma literal, mas compreendido também na
sua acepção metafórica.

Quadro 4 – Fase anal

•Segurar, Ter, Guardar,


Retenção Reter, Controlar.

•Doação, Separação,
Expulsão Eliminação, Exclusão

Fonte: Elaboração própria

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8.5 A Fase Fálica /Fase genital

A chamada Fase Fálica vem antes da Fase Genital. Contudo, ambas são
próximas, do ponto de vista do desenvolvimento cronológico. É na Fase Fálica que a
criança – do sexo masculino – por
exemplo, se dá conta da existência do
pênis em seu corpo, ao passo que a
menina se dá conta que não possui um.
Mas esta descoberta, aparentemente
simples, possui um desdobramento, nos
explica Freud, mais complexo.
Fonte: http://migre.me/eOiGs
Acontece, no caso do menino, não só a verificação de que ELE possui um
pênis, mas também de que as meninas (ou seja, alguém que não ele mesmo) NÃO
POSSUEM. Um movimento curioso acontece com elas também: se o menino possui
um pênis e eu, que sou menina não possuo, então eu o perdi ou ele me foi retirado.
Esta é a base da fantasia inconsciente que povoa o imaginário das crianças nesta
fase, segundo Freud. A partir daí, a extrema curiosidade nas crianças sobre seus
corpos e sobre os corpos em geral. É comum – e é absolutamente saudável – que
elas direcionem sua libido (ou seja, que suas pulsões se direcionem para lá) para
seus corpos.
A “descoberta” de um novo corpo se dá agora: é um corpo próprio, seu, que
lhe pertence, e que, além disso, é um corpo incluído em uma categoria muito
importante: “ou eu sou homem ou eu sou mulher”, conclui a criança. E vejam como
esta descoberta é importante, pois a função psicológica de um homem e de uma
mulher é fundamental na constituição dos papéis sociais na vida coletiva. A criança
começa a descobrir um corpo referendado por uma categoria social, um corpo que
pode lhe dar um prazer (lembrem, as pulsões agora dirigem-se para a área genital)
que é tomado socialmente de uma forma muito específica. A criança começa a
crescer e está próxima, dependendo do caso, daquilo que denominamos de
puberdade.
A fase genital, portanto, em termos de desenvolvimento humano se dá (do
ponto de vista biológico e fisiológico) no início da puberdade. Será nesta época que

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as crianças (de ambos sexos) terão uma primeira compreensão das suas
identidades sexuais. É importante lembrar que a noção de Fase Fálica só veio a
surgir no texto “A Organização Genital Infantil”, escrito em 1923.
Ainda assim, o tema do falicismo (tomado por Freud como uma
representação de um determinado elemento de poder) já era discutida por Freud em
um de seus textos mais importantes, intitulado Três Ensaios sobre a Teoria da
Sexualidade, escrito em 1905. Retomando, então: ele dividirá as fases das pulsões,
de maneira geral (pois de forma específica ele o fará a partir da divisão entre fases
oral, anal, fálica e genital) da seguinte forma: as pré-genitais e as genitais.
Será neste período que a criança, segundo a Psicanálise, irá se dar conta de
que tem – ou não tem – um pênis. Aqui emerge uma importantíssima questão e que
irá ordenar boa parte da vida futura de todos nós: a percepção inequívoca de que
existem diferenças sexuais. E por que isso é relevante? Ora, justamente porque a
criança, agora, verifica que existe pelo menos uma diferença básica na
categorização daqueles que a cercam (que até então, bem poderia se restringir à
mãe e os outros; aqueles que lhe satisfazem as vontades e os que não lhe
satisfazem; etc.) a partir, não só da diferença sexual (homens x mulheres), mas, em
especial, das suas funções sociais.
É nesta hora que a criança, por exemplo, começa a questionar uma série de
eventos à sua volta, mas em especial, questionar a si mesma. Ora, por quê?
Primeiro, porque ela se dá conta que existe um “si mesmo” que se diferencia dos
outros, e isto, de forma definitiva; segundo, porque ela obriga-se, logicamente
falando, a se inserir em determinadas categorias: sou homem ou mulher? (por
exemplo...); terceiro, porque o próprio mundo que a cerca passa a ser visto como um
vasto universo de categorias.
Não esqueçam que agora ela pratica incessantemente esta função:
categorizar. Cores, animais, pessoas, plantas, amigos, coisas boas e ruins... nada
deve lhe escapar. Tudo deve ser categorizado no campo da linguagem para que
possa ater-se ao seu domínio explicativo. Mas com isso tudo vem um problema. Ao
passo que categoriza, que elenca, que elege e enumera afetos, fatos e vivências,
ela também dá-se conta, como dissemos antes, de um si mesmo. Junto a esta
constatação vem a questão primeira e final na vida de todos nós: de onde vim? Esta
é a popularmente conhecida “fase das perguntas”.

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A criança desconfia com muita seriedade e diligencia que o adulto, ao
contar-lhe que ela – a criança – veio trazida ao mundo pela cegonha, que este está
mentindo. E ela procederá uma séria investigação para chegar à verdade.
Esta curiosidade é altamente saudável e desejável. O que, muitas vezes não
é desejável, tampouco salutar, é a forma como os adultos enfrentam estas
situações. Crianças nesta idade precisam de respostas. Vejam: não a resposta toda,
nem inteira e em detalhes. Mas de uma resposta. Não é por acaso que é
exatamente nesta idade que elas aprendem a mentir. Descobrem, na mentira, um
valioso recurso na linguagem para poder dar conta das suas próprias questões
inacabadas. Nesta fase, a zona de erotização da criança passa ser, de maneira
geral, para o menino, o pênis e, para a menina, a vagina.

Exercício 8

Winnicott chama o bom termo entre a figura materna e o bebê de:


a) Mãe suficientemente má.
b) Mãe suficiente.
c) Mãe suficientemente boa.
d) Boa mãe.

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UNIDADE 9 – CONSIDERAÇÕES SOBRE SAÚDE MENTAL A PARTIR
DA SAÚDE COLETIVA

Vamos tentar esclarecer alguns pontos aqui. Antes de tudo, não podemos
esquecer da ideia de que saúde não é ausência de doença. Estes termos podem,
ambos, coexistir de forma saudável. É necessário que compreendamos isto. Outro
dado relevante aqui: sofrimento psíquico não significa doença psíquica, ou como
denominamos comumente, psicopatologia. Eu posso estar em sofrimento psíquico (o
que, em muitos casos, como em uma situação de luto, por exemplo, é
absolutamente saudável) e não estar doente psiquicamente. Vejamos algumas
referências para pensar, primeiro, a questão mesma da saúde.
Organização Mundial da Saúde (OMS) tem como parâmetro uma definição
de saúde que a coloca em uma posição diferencial e excludente à doença, ou seja,
saúde seria - entre outras coisas - ausência de doença, além de uma situação de
perfeito bem-estar físico, mental e social (OMS, 2001). Ora, a busca de um “perfeito
bem-estar” não só nos lança em uma condição programática irreal (ou seja, de que é
impossível alcançarmos tal condição), como também indica uma referência de
qualidade pré-determinada em que, necessariamente, o sujeito-cidadão não é
consultado ou que possa haver certa naturalização deste conceito em nível global.

Fonte: http://migre.me/eOjgE

Segre e Ferraz (1997), explicam que é, no mínimo, complicado falarmos em


“perfeito bem-estar” e que até “entende-se que, para fins de estatística da saúde, as
formas de ‘avaliação externas’ sejam necessárias; não seria exequível ‘qualitativar-
se’ esse tipo de mensuração” (p. 33).

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Existe ainda outro problema que a definição de saúde da OMS encerra.
Segundo Segre e Ferraz (1997), ela “ainda faz destaque entre o físico, o mental e o
social. Mesmo a expressão ‘medicina psicossomática’ encontra-se superada, eis
que, graças à vivência psicanalítica, percebe-se a inexistência de uma clivagem
entre mente e soma, sendo o social também interagente, de forma nem sempre
muito clara...”.
Nesta perspectiva, faz-se necessário ampliar a visão de saúde e, então, de
Saúde Coletiva: uma abordagem que privilegie o ser humano, não enquanto um
objeto de cura, mas dotado de afetos, sentimentos e desejos. Este é o
posicionamento que me interessa e em relação ao qual procuro balizar minhas
ações enquanto pesquisador no campo da Saúde Coletiva.
Assim sendo, conceber o ser humano - na sua complexidade e
multiplicidade psicológica, social, orgânica, cultural, identitária - como alvo principal
das ações oriundas de agentes e órgãos públicos faz com que a saúde seja tomada
não como o objeto primeiro de nossa – minha, da equipe do CAIS-Mental –
intervenção (que seria o sujeito em sofrimento), mas como um resultado possível e
desejado no campo destas ações.
Segundo Minayo (1991), ela estaria muito mais na condição de um devir, de
um vir-a-ser a ser conquistado. É importante situarmos a saúde não como um objeto
natural de uma ciência em particular, mas como um evento de cunho sócio-histórico
que a torna tanto legível quanto real no que tange às práticas de cuidado e às
políticas públicas.
Isso significa contornar sua evidência histórica e analisar contextos teóricos
e práticos ao qual se associa, ou seja, percorrer um solo de instauração de um
conjunto de regras/normas que se apoiam em instituições religiosas, jurídicas,
pedagógicas, psicológicas, médicas e que, portanto, traçam possibilidades de
hierarquização de campos disciplinares e práticas de cuidado. Isso significa
considerar a correlação em uma cultura entre campos de saber, tipos de
normatividade e formas de subjetividade.
Dessa forma, parte-se da saúde como uma experiência ético-política, na
Antiguidade Clássica e migra-se para a Modernidade que a objetiva como foco de
investimentos biopolíticos, para se chegar à contemporaneidade em que

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encontramos os enfrentamentos entre políticas públicas e formas de trabalho na
saúde.
A Antiguidade Clássica nos apresenta a saúde como um conjunto de
práticas de si, de cuidados de si que objetivavam a tentativa de afirmação da própria
liberdade do sujeito e desse sujeito dar à própria vida uma forma tal em que poderia
reconhecer a si mesmo e ser reconhecido em uma determinada comunidade. Isso
significava para o mundo grego uma forma de relação consigo baseada tanto em
princípios éticos, ou seja, a interrogação permanente sobre o que se faz e como se
faz no que tange às formas como isso incide sobre outras ações possíveis; bem
como um espaço de reconhecimento de si e do outro, como prática política.
Com isso, as práticas de saúde não se encontravam propriamente em ações
que outro imprimia sobre o corpo do próprio sujeito, mas em ações que o sujeito
estabelecia na relação consigo mesmo, para melhor relacionar-se com o outro.
Essas ações não tinham como campo de justificativas um domínio biológico e sim se
tratavam muito mais da ordem de uma filosofia da existência, ao correlacionarem
práticas de cuidados alimentares, exercícios físicos com práticas de reflexão
(FOUCAULT, 1998).
A ausência de doenças para a Medicina Clássica torna-se a possibilidade da
ciência médica ocupar o lugar que antes a figura de Deus ocupava. A Medicina
Clássica começa a engendrar a possibilidade e necessidade de afastamento da
morte. O registro da existência passa a ser o corpo biológico em uma esfera privada
e não mais um corpo simbólico em uma esfera pública.
As tecnologias médicas aqui se referem não a uma dimensão do cuidado de
si, mas a intervenções técnicas sobre um corpo físico. O corpo perde sua dimensão
simbólica, que permitia a constituição do sujeito em uma relação consigo e com o
outro, e passa a ser uma materialidade exclusivamente biológica para a qual o “eu”
só existe para cuidar do corpo (ORTEGA, 2008). O biológico na medida em que se
conforma como espaço do visível, do empírico, do controlável passa a ser a matéria
de investimentos de governo. Essa materialidade permite ao discurso biomédico
ascender a um status de verdade.
Os procedimentos biomédicos tanto criam um conjunto de estratégias
voltadas para o indivíduo-corpo, ampliando aptidões, melhorando suas condições de
utilidade, quanto forjam tecnologias voltadas para a população-espécie, controlando

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taxas de natalidade, mortalidade e morbidade, níveis de saúde, longevidade, ou
seja, estratégias epidemiológicas e sanitárias.
A questão que desponta aqui é que nenhuma dessas formas tem como
princípio uma relação ético/política, na medida em que na primeira é forjada a
experiência de uma existência privada – o indivíduo na relação com o seu corpo-
máquina; e na segunda a experiência é de uma existência da massa anônima, pois
a população perde seu potencial de coletivo, de pluralidade e singularidades e
adquire a forma estatística, taxionômica (FOUCAULT, 1999).
A discussão sobre o caráter universal e universalizante traz consigo uma
série de questões que, a partir dos operadores com os quais trabalharemos,
configura-se problemática. Delinear o humano como um ser predominantemente pré-
condicionado genética e/ou biologicamente,
abriu espaço para que a Psicologia
desfiasse um extenso rol de programas
teóricos classificatórios que enquadravam –
e ainda o fazem – o Ser de forma
determinística e fechada. Situar a esfera na
qual compreendemos o sujeito remete a
postulação deste mesmo conceito,
juntamente com o de “social”, quando
ambos emergem a partir de uma operação
que envolve as variantes históricas,
discursivas, éticas e psíquicas.
Fonte: http://migre.me/eOuWC
A crítica ao caráter universalizante e pré-linguístico tem como um dos
referendos a concepção psicanalítica de sujeito no tocante a sua abertura e sua
constituição frente ao mundo no qual se inscreve através da linguagem. Para Lacan
(1998), “o registro do significante institui-se a partir do fato de que um significante
representa o sujeito para outro significante [...]”, o efeito de linguagem é a causa
introduzida no sujeito.
Por este efeito, ele não é causa dele mesmo, ele traz dentro de si o germe
da causa que o cinde. Pois sua causa é o significante, sem o qual não haveria
nenhum sujeito no real (LACAN, 1998, p.849–854). Pois a ideia é precisamente

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invocar uma qualidade construcionista, no sentido amplo da palavra, da qual está
investido o humano: se há uma relevância da linguagem e do discurso, como profere
a Psicanálise, não quer dizer que esteja alienado a este par a condição do sujeito;
se o sujeito advém pela linguagem e se no ato da articulação significante ele se
constrói, não significa que ele não invoque neste jogo elementos políticos, históricos,
estéticos, etc. que, de uma forma ou de outra, subsistem também na inscrição
linguística.
Com efeito, isto resulta em uma certa estilística da existência em que,
mesmo sendo efeito de uma cisão originária (a spaltung freudiana) e não sendo
senhor em sua própria casa, o ser humano é dotado de responsabilidade por seus
atos e capaz de formar e conformar a linha da vida. Através deste raciocínio é
possível dar suporte para uma crítica às Psicologias de fundamento naturalista e que
compreendem o humano através de propriedades essenciais e imutáveis.
A Psicologia, em uma de suas junções desastradas, faz par com
determinadas linhas geneticistas que procuram no gene, no corpo, na própria
matéria, a causa de alguns comportamentos, como por exemplo, a esquizofrenia ou,
em um exemplo mais aberrante, o alcoolismo. Nestes casos, o sujeito é recalcado
em detrimento de uma realidade que se apresenta no órgão, invisível aos seus olhos
mas perceptível pela parafernália tecnológica que o identifica: os exames genéticos,
sanguíneos, hormonais, glandulares, psicométricos e outros. No ato desta
identificação, reforma-se e reorganiza-se – para o bem ou para o mal – o sujeito e,
eu acrescentaria, o sujeito-cidadão.
Este tipo de atitude abre espaço para ações clínicas que podem ser bastante
interessantes, mas também abre espaço para projetos de ordem racista e eugenista.
A verdade do Ser só poderá ser dita por ele mesmo no contexto de suas palavras,
de sua linguagem, de sua vida, e não por um mecanismo totalmente alheio a este.
No território amplo da Psicologia – e mesmo das Práticas Psicológicas - a
quase indiferença como os aspectos sociais, culturais, econômicos, sexuais,
geográficos, etc. foram tratados, gerou um conjunto de sistemas classificatórios
calcados no princípio da essencialidade e de uma natureza irrestrita. Ora, se é
através destes sistemas - também - que as sociedades e os grupos se organizam e
dão sentido às suas práticas e formas de existência e, se é através da diferença
mediada pelos signos linguísticos que conseguimos distinguir uma identidade de

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outra, então, no momento em que as Práticas Psicológicas naturalizam o Ser e o seu
estar-no-mundo, elas suprimem suas diferenças e recalcam as possibilidades de
diferenciação. Estas, por sua vez, muitas vezes são compreendidas como
desviantes e até mesmo patológicas.
O problema da individualização gera alguns fenômenos importantes:
recrudesce a dicotomização entre o que seria da ordem de uma esfera pública da de
uma privada. Em termos de políticas de Estado e gestão de recursos materiais e
humanos, podemos vislumbrar alguns de seus efeitos imediatos nos movimentos
que adotam uma lógica privatista: tudo aquilo que se origina no cidadão teria, a
princípio, base no seu interior, naquilo que lhe é mais íntimo e pessoal. Diz-nos
Coimbra (2002), que estas políticas:

(...) voltam-se para o interior do sujeito, onde só interessa o que


diz respeito ao seu autoconhecimento. Isso traz efeitos
políticos sérios, porque desqualifica os espaços públicos e
salienta que as questões políticas não têm nada a ver com o
psiquismo e o chamado interior do sujeito. A Psicologia volta-se
para dentro do indivíduo, reificando seu psiquismo como se
fosse uma coisa em si, como se possuísse uma essência e não
fosse atravessado e constituído por condições materiais, pela
realidade na qual o sujeito se insere. (COIMBRA, 2002, p. 07).

Desta forma, pensar as políticas públicas enquanto não subalternas a


determinadas Práticas Psicológicas naturalizantes, do ponto de vista ontológico, não
fragmentadoras do ser humano e que o colocam em subdivisões especialísticas,
implica em pensar estas mesmas políticas de forma especial. Especial no sentido de
que ela assuma uma implicação objetiva na produção de estratégias de construção
de novas formas de pensar a clínica, por exemplo (ao pensá-la como uma clínica
política e social), de novas estratégias de gestão de recursos humanos e materiais e,
mais especificamente, novas maneiras de atendimento aos usuários portadores de
sofrimento psíquico.

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Exercício 9

Segundo a Organização Mundial de Saúde, o conceito de saúde deve basear-


se:
a) Na ausência de doença, além de uma situação de perfeito bem-estar físico,
mental e social.
b) Apenas em uma situação de perfeito bem-estar social.
c) Apenas em uma situação de perfeito bem-estar físico.
d) Numa situação de bem-estar físico, mental.

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