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CONSELHO FEDERAL DA ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL

EXCELENTÍSSIMA SENHORA MINISTRA PRESIDENTE DO SUPREMO


TRIBUNAL FEDERAL

[Ação direta de inconstitucionalidade. Lei nº. 13.467. Lei nº


13.429. Arts. 59, 59-A, 223-A, 223-B, 223-C, 223-D, 223-G, §§ 1º
e 2º, 452-A, 578, 579, 582, 583, 587, 602, 790, § 3º, 790-B, 791-
A, § 4º, art. 844, §§ 2º e 3º da Consolidação das Leis do Trabalho
(Decreto-Lei nº. 5.452/43), na redação da Lei 13.467/2017. Arts.
4º-A, 5º-A, da Lei 6.019/1974, na redação da Lei 13.467/2017.
Alteração da jornada de trabalho mediante acordo individual.
Tabelamento das reparações extrapatrimoniais. Facultatividade da
contribuição sindical. Pagamentos de custas e despesas por
beneficiários da gratuidade judiciária. Autorização de jornada
intermitente sem limite remuneratório mínimo mensal.
Possibilidade de terceirização de atividades finalísticas. Arts. 4º-A
e 5º-A, da Lei nº. 6.019/1974, na redação dada pela Lei
13.467/2017. Ampliação do regime de locação de obra temporária
para atividades permanentes de empresas tomadoras. Terceirização
de atividades finalísticas de empresas públicas e privadas.]

O Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, com fundamento nos artigos 102,
I, alíneas a e p, e 103, VII, da Constituição da República Federativa Brasileira, e na Lei nº.
9.868, de 10 de novembro de 1999, propõe

AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE com medida cautelar,

contra a Lei nº. 13.467, de 13 de julho de 2017, que altera dispositivos da Consolidação das
Leis do Trabalho (CLT - Decreto-Lei nº. 5.452/43) sobre alteração da jornada de trabalho
mediante acordo individual; tabelamento das reparações extrapatrimoniais; facultatividade da
contribuição sindical; pagamentos de custas e despesas por beneficiários da gratuidade
judiciária; autorização de jornada intermitente sem limite remuneratório mínimo mensal;
interpretação quanto à permissão da terceirização de atividades finalísticas, e da Lei nº
6.019/74, sobre Ampliação do regime de locação de obra temporária para atividades
permanentes de empresas tomadoras. Terceirização de atividades finalísticas de empresas
públicas e privadas.

Acompanha esta petição cópia do ato impugnado (art. 3º, parágrafo único, da Lei nº.
9.868/99).
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ÍNDICE

1. OBJETO DA AÇÃO

2. FUNDAMENTAÇÃO
2.1 Inconstitucionalidades materiais da alteração de jornada mediante acordo
individual
2.2 Inconstitucionalidades materiais do tabelamento dos danos extrapatrimoniais
2.3 Inconstitucionalidades materiais da facultatividade da contribuição sindical
2.4 Inconstitucionalidades materiais do pagamento de custas pelo beneficiário da
gratuidade judiciária
2.5 Inconstitucionalidade material da previsão de contratação por jornada intermitente
2.6 Inconstitucionalidades materiais da terceirização de atividades finalísticas

3. MEDIDA CAUTELAR

4. PEDIDOS E REQUERIMENTOS
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1. OBJETO DA AÇÃO

A lei federal impugnada tem o seguinte teor:

LEI Nº 13.467, DE 13 DE JULHO DE 2017.


Altera a Consolidação das Leis do
Trabalho (CLT), aprovada pelo Decreto-
Lei no 5.452, de 1o de maio de 1943, e as
Leis nos 6.019, de 3 de janeiro de 1974,
8.036, de 11 de maio de 1990, e 8.212,
de 24 de julho de 1991, a fim de adequar
a legislação às novas relações de
trabalho.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o


Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1o A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), aprovada


pelo Decreto-Lei no 5.452, de 1o de maio de 1943, passa a
vigorar com as seguintes alterações:

......................................................................................
“TÍTULO II-A
DO DANO EXTRAPATRIMONIAL

“Art. 59. A duração diária do trabalho poderá ser acrescida


de horas extras, em número não excedente de duas, por
acordo individual, convenção coletiva ou acordo coletivo de
trabalho.

§ 1o A remuneração da hora extra será, pelo menos, 50%


(cinquenta por cento) superior à da hora normal.

......................................................................................

§ 3o Na hipótese de rescisão do contrato de trabalho sem


que tenha havido a compensação integral da jornada
extraordinária, na forma dos §§ 2o e 5o deste artigo, o
trabalhador terá direito ao pagamento das horas extras não
compensadas, calculadas sobre o valor da remuneração na
data da rescisão.

§ 4o (Revogado).

§ 5o O banco de horas de que trata o § 2o deste artigo


poderá ser pactuado por acordo individual escrito, desde que
a compensação ocorra no período máximo de seis meses.
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§ 6o É lícito o regime de compensação de jornada


estabelecido por acordo individual, tácito ou escrito, para a
compensação no mesmo mês.” (NR)

“Art. 59-A. Em exceção ao disposto no art. 59 desta


Consolidação, é facultado às partes, mediante acordo
individual escrito, convenção coletiva ou acordo coletivo de
trabalho, estabelecer horário de trabalho de doze horas
seguidas por trinta e seis horas ininterruptas de descanso,
observados ou indenizados os intervalos para repouso e
alimentação.

Parágrafo único. A remuneração mensal pactuada pelo


horário previsto no caput deste artigo abrange os
pagamentos devidos pelo descanso semanal remunerado e
pelo descanso em feriados, e serão considerados
compensados os feriados e as prorrogações de trabalho
noturno, quando houver, de que tratam o art. 70 e o § 5º do
art. 73 desta Consolidação.”

..........................................................................

„Art. 223-A. Aplicam-se à reparação de danos de natureza


extrapatrimonial decorrentes da relação de trabalho apenas
os dispositivos deste Título.‟

„Art. 223-B. Causa dano de natureza extrapatrimonial a


ação ou omissão que ofenda a esfera moral ou existencial da
pessoa física ou jurídica, as quais são as titulares exclusivas
do direito à reparação.‟

„Art. 223-C. A honra, a imagem, a intimidade, a liberdade


de ação, a autoestima, a sexualidade, a saúde, o lazer e a
integridade física são os bens juridicamente tutelados
inerentes à pessoa física.‟

„Art. 223-D. A imagem, a marca, o nome, o segredo


empresarial e o sigilo da correspondência são bens
juridicamente tutelados inerentes à pessoa jurídica.‟

„Art. 223-G. Ao apreciar o pedido, o juízo considerará:

§ 1o Se julgar procedente o pedido, o juízo fixará a


indenização a ser paga, a cada um dos ofendidos, em um dos
seguintes parâmetros, vedada a acumulação:

I - ofensa de natureza leve, até três vezes o último salário


contratual do ofendido;
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II - ofensa de natureza média, até cinco vezes o último


salário contratual do ofendido;

III - ofensa de natureza grave, até vinte vezes o último


salário contratual do ofendido;

IV - ofensa de natureza gravíssima, até cinquenta vezes o


último salário contratual do ofendido.

§ 2o Se o ofendido for pessoa jurídica, a indenização será


fixada com observância dos mesmos parâmetros
estabelecidos no § 1o deste artigo, mas em relação ao salário
contratual do ofensor.

“Art. 452-A. O contrato de trabalho intermitente deve ser


celebrado por escrito e deve conter especificamente o valor
da hora de trabalho, que não pode ser inferior ao valor
horário do salário mínimo ou àquele devido aos demais
empregados do estabelecimento que exerçam a mesma
função em contrato intermitente ou não.”

“Art. 578. As contribuições devidas aos sindicatos pelos


participantes das categorias econômicas ou profissionais ou
das profissões liberais representadas pelas referidas
entidades serão, sob a denominação de contribuição
sindical, pagas, recolhidas e aplicadas na forma estabelecida
neste Capítulo, desde que prévia e expressamente
autorizadas.” (NR)

“Art. 579. O desconto da contribuição sindical está


condicionado à autorização prévia e expressa dos que
participarem de uma determinada categoria econômica ou
profissional, ou de uma profissão liberal, em favor do
sindicato representativo da mesma categoria ou profissão
ou, inexistindo este, na conformidade do disposto no art.
591 desta Consolidação.” (NR)

“Art. 582. Os empregadores são obrigados a descontar da


folha de pagamento de seus empregados relativa ao mês de
março de cada ano a contribuição sindical dos empregados
que autorizaram prévia e expressamente o seu recolhimento
aos respectivos sindicatos.

..........................................................................” (NR)

“Art. 583. O recolhimento da contribuição sindical


referente aos empregados e trabalhadores avulsos será
efetuado no mês de abril de cada ano, e o relativo aos
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agentes ou trabalhadores autônomos e profissionais liberais


realizar-se-á no mês de fevereiro, observada a exigência de
autorização prévia e expressa prevista no art. 579 desta
Consolidação.

..........................................................................” (NR)

“Art. 587. Os empregadores que optarem pelo recolhimento


da contribuição sindical deverão fazê-lo no mês de janeiro
de cada ano, ou, para os que venham a se estabelecer após o
referido mês, na ocasião em que requererem às repartições o
registro ou a licença para o exercício da respectiva
atividade.” (NR)

“Art. 602. Os empregados que não estiverem trabalhando


no mês destinado ao desconto da contribuição sindical e que
venham a autorizar prévia e expressamente o recolhimento
serão descontados no primeiro mês subsequente ao do
reinício do trabalho.

.....................................................................................

“Art. 790. .............................................................

.....................................................................................
§ 3o É facultado aos juízes, órgãos julgadores e presidentes
dos tribunais do trabalho de qualquer instância conceder, a
requerimento ou de ofício, o benefício da justiça gratuita,
inclusive quanto a traslados e instrumentos, àqueles que
perceberem salário igual ou inferior a 40% (quarenta por
cento) do limite máximo dos benefícios do Regime Geral de
Previdência Social.

......................................................................................

“Art. 790-B. A responsabilidade pelo pagamento dos


honorários periciais é da parte sucumbente na pretensão
objeto da perícia, ainda que beneficiária da justiça gratuita.

§ 1o Ao fixar o valor dos honorários periciais, o juízo


deverá respeitar o limite máximo estabelecido pelo
Conselho Superior da Justiça do Trabalho.

§ 2o O juízo poderá deferir parcelamento dos honorários


periciais.

§ 3o O juízo não poderá exigir adiantamento de valores para


realização de perícias.
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§ 4o Somente no caso em que o beneficiário da justiça


gratuita não tenha obtido em juízo créditos capazes de
suportar a despesa referida no caput, ainda que em outro
processo, a União responderá pelo encargo.” (NR)

“Art. 791-A. Ao advogado, ainda que atue em causa


própria, serão devidos honorários de sucumbência, fixados
entre o mínimo de 5% (cinco por cento) e o máximo de 15%
(quinze por cento) sobre o valor que resultar da liquidação
da sentença, do proveito econômico obtido ou, não sendo
possível mensurá-lo, sobre o valor atualizado da causa.

......................................................................................

§ 4o Vencido o beneficiário da justiça gratuita, desde que


não tenha obtido em juízo, ainda que em outro processo,
créditos capazes de suportar a despesa, as obrigações
decorrentes de sua sucumbência ficarão sob condição
suspensiva de exigibilidade e somente poderão ser
executadas se, nos dois anos subsequentes ao trânsito em
julgado da decisão que as certificou, o credor demonstrar
que deixou de existir a situação de insuficiência de recursos
que justificou a concessão de gratuidade, extinguindo-se,
passado esse prazo, tais obrigações do beneficiário.

“Art. 844. ..............................................................

§ 2o Na hipótese de ausência do reclamante, este será


condenado ao pagamento das custas calculadas na forma do
art. 789 desta Consolidação, ainda que beneficiário da
justiça gratuita, salvo se comprovar, no prazo de quinze
dias, que a ausência ocorreu por motivo legalmente
justificável.

§ 3o O pagamento das custas a que se refere o § 2o é


condição para a propositura de nova demanda.

§ 5o Ainda que ausente o reclamado, presente o advogado


na audiência, serão aceitos a contestação e os documentos
eventualmente apresentados.”(NR)

Art. 2o A Lei no 6.019, de 3 de janeiro de 1974, passa a vigorar


com as seguintes alterações:

“Art. 4o-A. Considera-se prestação de serviços a terceiros a


transferência feita pela contratante da execução de quaisquer
de suas atividades, inclusive sua atividade principal, à
pessoa jurídica de direito privado prestadora de serviços que
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possua capacidade econômica compatível com a sua


execução.

“Art. 5o-A. Contratante é a pessoa física ou jurídica que


celebra contrato com empresa de prestação de serviços
relacionados a quaisquer de suas atividades, inclusive sua
atividade principal.”

A norma impugnada é materialmente inconstitucional por vício nos arts. 59, 59-A, 223-A,
223-B, 223-C, 223-D, §§ 1º e 2º do art. 223-G, arts. 452-A, 578, 579, 582, 583, 587, 602, 790,
§ 3º, 790-B, 791-A, § 4º, e §§ 2º e 3º do art. 844, da Consolidação das Leis do Trabalho
(Decreto-Lei nº. 5.452/43), na redação inserida pela Lei 13.467/2017. Arts. 4º-A e 5º-A, da
Lei 6.019/1974, na redação da Lei 13.467/2017, na medida em que a pretensa reforma
trabalhista cria limitações às indenizações decorrentes de danos morais advindos de relações
trabalhistas, violando o art. 1º, III, art. 5º, caput, incisos V e X e § 2º.

Padece de inconstitucionalidade, ainda, ao tornar facultativa a contribuição sindical devida


por todos os trabalhadores de determinada classe (arts. 578, 579, 582, 583, 587 e 602), em
clara contradição com a parte final do inciso IV, do art. 8º, da CF, e com o art. 149, também
da Carta Magna.

Ademais, a Reforma Trabalhista é inconstitucional ao alterar o § 2º do art. 844 da CLT,


inserindo previsão de condenação do beneficiário de justiça gratuita a pagamento das custas
processuais, quando este ensejar o arquivamento do processo por ausência à audiência
inaugural, o que se agrava ante a previsão inserida no § 3º, que condiciona o ajuizamento de
nova demanda ao pagamento das custas devidas no processo anterior. A aludida reforma vai
também de encontro à Constituição ao alterar os arts. 790-B, caput e § 4o, e 791-A, § 4o, da
CLT, e autorizar uso de créditos trabalhistas auferidos em qualquer processo, pelo
demandante beneficiário de justiça gratuita, para pagar honorários periciais e advocatícios de
sucumbência.

Também se revela inconstitucional os textos dos arts. 4º-A e 5º-A, da Lei 6.019, de 3 de
janeiro de 1974, que autorizam contratação irrestrita de serviços interempresariais
(terceirização) nas atividades finalísticas das empresas, por violação do regime constitucional
de emprego (CR, art. 7º , I), da função social constitucional das empresas, do princípio
isonômico (CR, art. 5º , caput e inciso I) e da regra do concurso público nas empresas estatais
exploradoras de atividade econômica (CR, art. 37, II).
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A Reforma supracitada é inconstitucional ao alterar o artigo 59 da CLT para permitir a


alteração da jornada de trabalho mediante acordo individual, permitindo a alteração para
jornadas maiores, o que é vedado pela Constituição no artigo 7º, XIII que permite apenas a
redução da jornada e a compensação de horários, mas sempre mediante acordo ou convenção
coletiva de trabalho e em benefício do trabalhador.

2. FUNDAMENTAÇÃO

2.1 Inconstitucionalidades materiais da alteração de jornada mediante acordo individual

O art. 59, §§ 2º e 5º, e art. 59-A, caput e parágrafo único, da CLT, feitas as
modificações da Reforma Trabalhista, preceituam que:

Art. 59. A duração diária do trabalho poderá ser acrescida de horas extras, em
número não excedente de duas, por acordo individual, convenção coletiva ou acordo
coletivo de trabalho.
[...]
§2º. Poderá ser dispensado o acréscimo de salário se, por força de acordo ou
convenção coletiva de trabalho, o excesso de horas em um dia for compensado pela
correspondente diminuição em outro dia, de maneira que não exceda, no período
máximo de um ano, à soma das jornadas semanais de trabalho previstas, nem seja
ultrapassado o limite máximo de dez horas diárias.
[...]
§5º. O banco de horas de que trata o §2º deste artigo poderá ser pactuado por acordo
individual escrito, desde que a compensação ocorra no período máximo de seis
meses.
§6º. É lícito o regime de compensação de jornada estabelecido por acordo
individual, tácito ou escrito, para a compensação no mesmo mês.

“Art. 59-A. Em exceção ao disposto no art. 59 desta Consolidação, é facultado às


partes, mediante acordo individual escrito, convenção coletiva ou acordo coletivo de
trabalho, estabelecer horário de trabalho de doze horas seguidas por trinta e seis
horas ininterruptas de descanso, observados ou indenizados os intervalos para
repouso e alimentação.

Parágrafo único. A remuneração mensal pactuada pelo horário previsto


no caput deste artigo abrange os pagamentos devidos pelo descanso semanal
remunerado e pelo descanso em feriados, e serão considerados compensados os
feriados e as prorrogações de trabalho noturno, quando houver, de que tratam o art.
70 e o § 5º do art. 73 desta Consolidação.”

Entretanto, tais normas violam frontalmente a Constituição Federal, na medida em que esta,
em seu art. 7º, inciso XIII, permite alterações na jornada de trabalho somente mediante
acordo ou convenção coletiva – desde que seja benéfico ao trabalhador – não comportando
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em seu texto a possibilidade de modificação mediante acordo individual em prestígio à


vulnerabilidade do empregado frente ao empregador:

Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à
melhoria de sua condição social:

XIII - duração do trabalho normal não superior a oito horas diárias e quarenta e
quatro semanais, facultada a compensação de horários e a redução da jornada,
mediante acordo ou convenção coletiva de trabalho.

Ocorre, todavia, que a norma impugnada institui a possibilidade de estipulação de jornada de 12


horas seguidas por 36 de descanso por meio de acordo individual entre empregador e
empregado, sendo que tal regime, em decorrência de todos os prejuízos que pode trazer ao
trabalhador, somente existia sob duas condições, quais sejam: 1) prova da necessidade prática
desse regime – como, por exemplo, no caso de médicos em sistema de plantão; e 2) existência
de negociação coletiva da categoria.

Nesse passo, ao inserir a possibilidade de acordo individual sem a intervenção e fiscalização


do sindicato, os dispositivos impugnados trazem consigo a possibilidade de imposição do
empregador ao empregado do dito regime de trabalho ainda que não se encontre presente o
pré-requisito “necessidade”.

Há de se ressaltar que, dentro dessa jornada de 12 horas há a possibilidade de que o intervalo


de uma hora para refeição não seja usufruído pelo trabalhador e seja indenizado, o que
representa um grave risco à saúde do empregado, posto que o descanso intrajornada é
fundamental para sua incolumidade física e mental.

Neste sentido, é de se observar que a norma impugnada contraria os Tratados Internacionais


ratificados pelo Brasil, notadamente a Convenção nº. 155 da OIT, inserida no Ordenamento
Jurídico Pátrio por meio do Decreto nº. 1.254/94, relativa à matéria da saúde e segurança no
trabalho:
Artigo 3

Para os fins da presente Convenção:

a) a expressão "áreas de atividade econômica" abrange todas as áreas em que


existam trabalhadores empregados, inclusive a administração pública;

b) o termo "trabalhadores" abrange todas as pessoas empregadas, incluindo os


funcionários públicos;

c) a expressão "local de trabalho" abrange todos os lugares onde os


trabalhadores devem permanecer ou onde têm que comparecer, e que esteja sob o
controle, direto ou indireto, do empregador;
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d) o termo "regulamentos" abrange todas as disposições às quais a autoridade


ou as autoridades competentes tiverem dado força de lei;

e) o termo "saúde", com relação ao trabalho, abrange não só a ausência


de afecções ou de doenças, mas também os elementos físicos e mentais que
afetam a saúde e estão diretamente relacionados com a segurança e a higiene no
trabalho.

Artigo 4

1. Todo Membro deverá, em consulta às organizações mais representativas de


empregadores e de trabalhadores, e levando em conta as condições e a prática
nacionais, formular, por em prática e reexaminar periodicamente uma política
nacional coerente em matéria de segurança e saúde dos trabalhadores e o meio
ambiente de trabalho.

2. Essa política terá como objetivo prevenir os acidentes e os danos à saúde


que forem conseqüência do trabalho, tenham relação com a atividade de trabalho, ou
se apresentarem durante o trabalho, reduzindo ao mínimo, na medida que for
razoável e possível, as causas dos riscos inerentes ao meio ambiente de trabalho.

Dessa forma, a pretensão legislativa que possibilita o término do descanso intrajornada em


situação extremamente extenuante para o trabalhador, como é o caso da jornada de 12 horas
contínuas, contraria garantias decorrentes da referida convenção internacional, em total
contrassenso ao disposto no § 2º, do art. 5º, da Constituição:

§ 2º Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros


decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados
internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte.

Concomitantemente, os arts. 59, 59-A, da CLT, na redação dada pela Lei nº. 13.467/2017
violam o art. 7º, incisos XIII e XXII da Constituição da República, na medida em que
possibilitam a redução de direitos dos trabalhadores por meio de um instrumento cujo abuso
por parte do empregador pode se tornar uma realidade inegável, vez que inexistirá controle
fiscalizador do órgão sindical:

Art. 7º. São direitos dos trabalhadores [...]:


[...]
XIII - duração do trabalho normal não superior a oito horas diárias e quarenta e
quatro semanais, facultada a compensação de horários e a redução da jornada,
mediante acordo ou convenção coletiva de trabalho;
[...]
XXII - redução dos riscos inerentes ao trabalho, por meio de normas de saúde,
higiene e segurança;

Além disso, a possibilidade de supressão do horário para refeição e descanso afronta a


vedação ao retrocesso social desarrazoado, retraindo em larga marcha o padrão civilizatório
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de utilização do trabalho livre, conquistado à custa de intensas lutas sociais, determinantes


para a constitucionalização dos direitos sociais dos trabalhadores.

Portanto, são materialmente inconstitucionais os dispositivos constantes do art. 59, §§ 2º e 5º,


e art. 59-A, caput e parágrafo único, por ofensa aos arts. 5º, § 2º, 7º, XIII e XXII, e por afastar
garantias trazidas para o Ordenamento Pátrio por meio da Convenção nº. 155 da OIT.

2.2 Inconstitucionalidades materiais do tabelamento dos danos extrapatrimoniais

As normas legais impugnadas estão também eivadas de inconstitucionalidades materiais em


dispositivos que disciplinam a indenização por danos morais.

São inconstitucionais os arts. 223-A, 223-B, 223-C, 223-D, 223-G, §§ 1º e 2º, todos da
Consolidação das Leis do Trabalho, com a redação inserida pela Lei nº. 13.467/2017, nos
pontos em que excluem a aplicação de outros diplomas normativos; retiram dos sucessores a
legitimidade ativa para pleitear reparação moral; restringem os bens jurídicos tutelados
ensejadores de indenizações morais; estipulam parâmetros taxativos para a fixação da
indenização extrapatrimonial (sem destaques no original):

„Art. 223-A. Aplicam-se à reparação de danos de natureza


extrapatrimonial decorrentes da relação de trabalho apenas os
dispositivos deste Título.‟
„Art. 223-B. Causa dano de natureza extrapatrimonial a ação ou
omissão que ofenda a esfera moral ou existencial da pessoa física ou
jurídica, as quais são as titulares exclusivas do direito à reparação.‟
‘Art. 223-C. A honra, a imagem, a intimidade, a liberdade de ação,
a autoestima, a sexualidade, a saúde, o lazer e a integridade física
são os bens juridicamente tutelados inerentes à pessoa física.’
‘Art. 223-D. A imagem, a marca, o nome, o segredo empresarial e o
sigilo da correspondência são bens juridicamente tutelados
inerentes à pessoa jurídica.’
„Art. 223-G. Ao apreciar o pedido, o juízo considerará:
§ 1o Se julgar procedente o pedido, o juízo fixará a indenização a ser
paga, a cada um dos ofendidos, em um dos seguintes parâmetros,
vedada a acumulação:
I - ofensa de natureza leve, até três vezes o último salário contratual do
ofendido;
II - ofensa de natureza média, até cinco vezes o último salário
contratual do ofendido;
III - ofensa de natureza grave, até vinte vezes o último salário contratual
do ofendido;
IV - ofensa de natureza gravíssima, até cinquenta vezes o último salário
contratual do ofendido.
§ 2o Se o ofendido for pessoa jurídica, a indenização será fixada com
observância dos mesmos parâmetros estabelecidos no § 1 o deste artigo,
mas em relação ao salário contratual do ofensor.
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Os referidos dispositivos inexistiam no corpo original da CLT, tratando-se de inovações


trazidas pela norma impugnada, cuja matéria regulava-se conforme disposições constantes do
Código Civil (Lei nº. 10.406/02).

Com a inserção destas normas tornam-se inaplicáveis às indenizações extrapatrimoniais


trabalhistas quaisquer regulamentações oriundas de outros diplomas legais, ainda que mais
benéficas ao trabalhador (art. 223-A).

Essa vedação rompe com a ideia de um Ordenamento Jurídico em que as normas vigentes
comunicam-se entre si, completando lacunas umas das outras e criando um todo harmonioso
em decorrência da aplicação subsidiária e da ideia do diálogo das fontes do direito.

Além desse impedimento, o texto do art. 223-B exclui a possibilidade de herdeiros e


sucessores pleitearem a reparação pelos danos morais oriundos de relações trabalhistas ao
dispor ser a pessoa física ou jurídica a titular exclusiva do direito de ação. Com essa alteração,
ocorrendo o falecimento da pessoa física, ou a alteração da pessoa jurídica, o direito de ação
não passaria aos seus herdeiros.

A nova norma cria, ainda, rol taxativo dos bens juridicamente tutelados pelos danos morais
decorrentes de relação trabalhista, restringindo-os àqueles constantes do texto legal (arts. 223-
C e 223-D), o que excluiria do dever de reparação lesões subjetivas ou objetivas que não
atinjam quaisquer daqueles elencados.

Por fim, o dispositivo impugnado estipula parâmetros específicos para fixação dos valores das
reparações extrapatrimoniais, criando verdadeiro “tabelamento” indenizatório sobre o salário
contratual do ofendido/ofensor, sem dúvida, monetizando instituto cujo conceito deveria ser
desvinculado de uma noção mercantilista. Sob outro aspecto, o regramento esvaziaria o
caráter punitivo-pedagógico do dano moral, pois o limite da indenização poderia não ser
suficiente para refrear o ofensor de cometer novo ato ilícito.

Ocorre, todavia, que a disciplina para os danos extrapatrimoniais na seara trabalhistas trazida
pelo Título II-A, da CLT, na redação inserida pela Lei nº. 13.467/2017 rompe drasticamente
com o tratamento dado pela Constituição Federal de 1988 à matéria dos danos morais,
insculpida em seu art. 5º, incisos V e X, nisso residindo a fundamental inconstitucionalidade
da norma:
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,
garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade
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do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos


seguintes:

V - é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização


por dano material, moral ou à imagem;

X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas,


assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua
violação;

A radical retração da proteção social às esferas mais íntimas do trabalhador viola as normas
constitucionais asseguradoras da dignidade da pessoa (art. 1º, inciso III), da igualdade (art. 5º,
caput) e da tutela reparatória (art. 5º, incisos V e X), notadamente pela imposição de
restrições à amplitude da tutela moral reparatória e da vinculação da indenização ao
vencimento do ofendido.

Do mesmo modo, no que pertine à questão do tratamento desigual entre empregados,


decorrente do § 1º, do art. 223-G, foi também violado o § 2º, do art. 5º, da CF, na medida em
que foram infringidas disposições referentes à discriminação em matéria trabalhista trazidas
pela Convenção nº. 111, da Organização Internacional do Trabalho, promulgada no Brasil
pelo Decreto nº. 62.150, de janeiro de 1968.

Em primeiro lugar, há de se observar que o “tabelamento” da reparação extrapatrimonial


criado pelo citado § 1º, do art. 223-G, da CLT, inserido pela Lei nº. 13.467/2017, fere o
disposto na Convenção nº. 111, da OIT, a qual dispõe que todo e qualquer tratamento
discriminatório ou diferenciativo entre trabalhadores, inclusive legislativo, deve ser evitado e
afastado pelos Estados-Membros (sem grifos no original):

ARTIGO 1º

1. Para fins da presente convenção, o têrmo "discriminação" compreende:

a) Tôda distinção, exclusão ou preferência fundada na raça, côr, sexo,


religião, opinião política, ascendência nacional ou origem social, que tenha por
efeito destruir ou alterar a igualdade de oportunidades ou de tratamento em matéria
de emprêgo ou profissão;

b) Qualquer outra distinção, exclusão ou preferência que tenha por


efeito destruir ou alterar a igualdade de oportunidades ou tratamento em
matéria de emprêgo ou profissão, que poderá ser especificada pelo Membro
Interessado depois de consultadas as organizações representativas de empregadores
e trabalhadores, quando estas existam, e outros organismos adequados.

ARTIGO 3º

Qualquer Membro para o qual a presente convenção se encontre em vigor


deve, por métodos adequados às circunstâncias e os usos nacionais:
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a) Esforçar-se por obter a colaboração das organização de empregadores e


Trabalhadores e de outros organismos apropriados, com o fim de favorecer a
aceitação e aplicação desta política;

b) Promulgar leis e encorajar os programas de educação próprios a


assegurar esta aceitação e esta aplicação;

c) Revogar tôdas as disposições legislativas e modificar tôdas as


disposições ou práticas, administrativas que sejam incompatíveis com a
referida política.

A partir do momento em que a lei estabelece parâmetros para fixação da indenização


extrapatrimonial sobre o salário do ofendido, cria, também, intransponível situação na qual se
pressupõe que o bem jurídico-moral daquele cujo cargo/salário é hierarquicamente superior
dentro da mesma empresa merece uma repressão e tutela maiores por parte do Estado-Juiz. A
discriminação decorrente desse tipo de presunção é inegável, posto que vincula diretamente o
sofrimento moral e a dor imaterial de alguém aos vencimentos que percebe pela alienação da
sua força laboral.

Em segundo lugar, e de forma mais ampla, os dispositivos do Título II-A ora impugnados
(arts. 223-A, 223-B, 223-C, 223-D, e 223-G, §§ 1º e 2º) violam o intuito constitucional de
garantir à reparação pelos danos morais tratamento especial extenso, notadamente pelo fato de
inexistir em todo o texto da Carta Magna menção à limitações a serem impostas sobre as
indenizações aos danos extrapatrimoniais por meio de lei infraconstitucional.

A forma de escrita dos incisos V e X do art. 5º, inclusive, não deixa quaisquer dúvidas de que
o constituinte jamais pretendeu que a legislação ordinária ou complementar limitasse o valor
indenizatório (sem destaques no original):

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se
aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à
liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

V - é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização


por dano material, moral ou à imagem;

X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas,


assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua
violação;

Ora, o direito à indenização pelo dano moral sofrido é decorrência da proteção à dignidade da
pessoa humana, um dos fundamentos básicos do Estado Democrático de Direito, não podendo
sofrer uma diminuição do seu caráter protetivo em decorrência de interesses puramente
econômicos inseridos no processo legislativo. Nesse mesmo sentido, a lei infraconstitucional
não pode limitar os bens jurídicos que ensejam a reparação moral se violados, posto que
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engessa a livre interpretação do juiz quanto aos fatores que se relacionam e decorrem da ideia
de dignidade da pessoa.

Esses elementos denotam que o legislador ordinário sobrelevou desproporcionalmente a


promoção de interesses econômicos à custa de excessiva desproteção social da dignidade
humana, com profundo prejuízo aos princípios e regras constitucionais que asseguram a
importância social da reparação civil pelo dano moral e garantem efetividade aos direitos
fundamentais.

Estabelecer limitações desarrazoadas às reparações extrapatrimoniais constitui negligência


estatal do dever de proteção à dignidade humana.

Na esteira do exposto, o seguinte precedente desta Corte Superior (Recurso Extraordinário nº.
396.386-SP) demonstra a inconstitucionalidade do “tabelamento” das reparações por danos
morais e a inconteste amplitude constitucional à ela garantida:

EMENTA: CONSTITUCIONAL. CIVIL. DANO MORAL: OFENSA PRATICADA


PELA IMPRENSA. INDENIZAÇÃO: TARIFAÇÃO. Lei 5.250/67 - Lei de Imprensa,
art. 52: NÃO-RECEPÇÃO PELA CF/88, artigo 5º, incisos V e X. RE INTERPOSTO
COM FUNDAMENTO NAS ALÍNEAS a e b. I. - O acórdão recorrido decidiu que o art.
52 da Lei 5.250, de 1967 - Lei de Imprensa - não foi recebido pela CF/88. RE interposto
com base nas alíneas a e b (CF, art. 102, III, a e b). Não-conhecimento do RE com base
na alínea b, por isso que o acórdão não declarou a inconstitucionalidade do art. 52 da Lei
5.250/67. É que não há falar em inconstitucionalidade superveniente. Tem-se, em tal
caso, a aplicação da conhecida doutrina de Kelsen: as normas infraconstitucionais
anteriores à Constituição, com esta incompatíveis, não são por ela recebidas.
Noutras palavras, ocorre derrogação, pela Constituição nova, de normas
infraconstitucionais com esta incompatíveis. II. - A Constituição de 1988 emprestou
à reparação decorrente do dano moral tratamento especial - C.F., art. 5º, V e X -
desejando que a indenização decorrente desse dano fosse a mais ampla. Posta a
questão nesses termos, não seria possível sujeitá-la aos limites estreitos da lei de
imprensa. Se o fizéssemos, estaríamos interpretando a Constituição no rumo da lei
ordinária, quando é de sabença comum que as leis devem ser interpretadas no
rumo da Constituição. III. - Não-recepção, pela CF/88, do art. 52 da Lei 5.250/67 -
Lei de Imprensa. IV. - Precedentes do STF relativamente ao art. 56 da Lei 5.250/67: RE
348.827/RJ e 420.784/SP, Velloso, 2ª Turma, 1º.6.2004. V. - RE conhecido - alínea a -,
mas improvido. RE - alínea b - não conhecido. (RE 396386, Relator(a): Min. CARLOS
VELLOSO, Segunda Turma, julgado em 29/06/2004, DJ 13-08-2004 PP-00285 EMENT
VOL-02159-02 PP-00295 RTJ VOL-00191-01 PP-00329 RMP n. 22, 2005, p. 462-469)

Em face do exposto, a inconstitucionalidade dos arts. 223-A, 223-B, 223-C, 223-D, e dos §§
1º e 2º do art. 223-G, da Consolidação das Leis do Trabalho, inseridos pela Lei nº.
13.467/2017, é medida que se impõe por violação à proteção à dignidade da pessoa humana
(art. 1º, III); por gravame desproporcional à isonomia nas relações trabalhistas (art. 5º, caput e
§ 2º c/c artigos 1º e 3º da Convenção nº. 111 da OIT); e por intencionar reduzir e limitar a
proteção constitucional conferida à indenização extrapatrimonial (art. 5º, incisos V e X).
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Uma vez reconhecida a inconstitucionalidade destes dispositivos, há de se modular seus


efeitos ex tunc, afastando-os do Ordenamento Jurídico Pátrio e permitindo a aplicação das
regras gerais constantes do Código Civil para os danos morais decorrentes das relações
trabalhistas.

2.3 Inconstitucionalidades materiais da facultatividade da contribuição sindical

A importância das organizações sindicais para efetivação e garantia dos direitos dos
trabalhadores frente aos patrões foi ressaltada pela Constituição de 1988, a qual trouxe em seu
art. 8º as diretrizes fundamentais para sua organização e funções. Isto se verifica nos incisos
III e VI, do citado artigo:

Art. 8º É livre a associação profissional ou sindical, observado o seguinte:

III - ao sindicato cabe a defesa dos direitos e interesses coletivos ou individuais da


categoria, inclusive em questões judiciais ou administrativas;

VI - é obrigatória a participação dos sindicatos nas negociações coletivas de


trabalho;

De forma a permitir à estrutura sindical seu devido funcionamento, o constituinte originário


determinou que os sindicatos, federações e confederações seriam mantidos por meio de
contribuições, dividindo-as em duas hipóteses completamente independentes, conforme se vê
do inciso IV, do art. 8º:
IV - a assembléia geral fixará a contribuição que, em se tratando de categoria
profissional, será descontada em folha, para custeio do sistema confederativo da
representação sindical respectiva, independentemente da contribuição prevista em
lei;

A divisão existente está na forma de estipulação da contribuição: uma a ser fixada pela
assembleia geral do Sindicato (“a assembléia geral fixará a contribuição que, em se tratando de categoria
profissional, será descontada em folha, para custeio do sistema confederativo da representação sindical
respectiva”), e outra decorrente da lei (“independentemente da contribuição prevista em lei” ).

Nesta linha de raciocínio, ao passo que a primeira somente pode ser exigida daqueles que
efetivamente se filiaram ao Sindicato da sua categoria - conhecida como contribuição
confederativa -, a segunda tem caráter de imposto, sendo devida por todos os trabalhadores
da categoria, independente de prévia filiação ao sindicato. Esta modalidade é denominada
contribuição ou imposto sindical.
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Complementando o disposto na parte final do inciso IV do art. 8º, o art. 149 da CF reforça o
caráter de tributo da contribuição sindical ao dispor que:

Art. 149. Compete exclusivamente à União instituir contribuições sociais, de


intervenção no domínio econômico e de interesse das categorias profissionais ou
econômicas, como instrumento de sua atuação nas respectivas áreas, observado
o disposto nos arts. 146, III, e 150, I e III, e sem prejuízo do previsto no art. 195, §
6º, relativamente às contribuições a que alude o dispositivo.

Há de se destacar, inclusive, que a Primeira Turma desta Suprema Corte, em decisão proferida
no Recurso Extraordinário nº. 496.4562 - RS (inteiro teor anexo), filiou-se ao entendimento
de que a contribuição sindical tem natureza tributária e, portanto, é obrigatória a todos
os profissionais da categoria, ainda que não sindicalizados:

À vista disso, a partir do momento em que as normas impugnadas (arts. 578, 579, 582, 583,
587, e 802 da CLT, na redação inserida pela Lei nº. 13.467/2017) permitem, à interpretação
de que a contribuição sindical passa a ser facultativa, conquanto tenha caráter tributário, há
violação das disposições constitucionais constantes do art. 8º, IV, e art. 149, na medida em
que retira de um dever fundamental, o pagamento de tributos, sua própria força obrigatória e
exigível, sem o fazer pelos meios permitidos e possíveis.

Ressalte-se que, embora a Organização Internacional do Trabalho (OIT) apresente


entendimento diverso do aqui esposado, defendendo a não obrigatoriedade da contribuição
sindical e a não estipulação estatal de uma forma sindical específica, as tratativas nesse
sentido não possuem qualquer força normativa em nosso Ordenamento Jurídico. Isto porque a
Ordem Constitucional inaugurada com a Constituição da República Federativa do Brasil de
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1988 não assimilou as ideias daquele organismo internacional (tanto que a Convenção nº. 87
da OIT sequer foi ratificada pelo país), não se podendo afirmar a constitucionalidade dos
dispositivos impugnados com bases nas normas expedidas pelo citado Órgão.

Ademais, e sem embargo, é de se notar que as normas impugnadas têm o condão de


enfraquecer as estruturas sindicais, vez que retiram delas sua maior fonte de rendimentos,
pondo em cheque a sua capacidade de tutelar os direitos coletivos e difusos dos trabalhadores
frente aos sindicatos patronais, trazendo incontáveis prejuízos à estrutura social e de proteção
ao trabalho.

É inconciliável com o princípio democrático o enfraquecimento dos meios de defesa dos


trabalhadores, enquanto hipossuficientes nas relações trabalhistas, frente aos empregadores,
vez que se configuram como instrumentos para garantia dos direitos fundamentais dos
trabalhadores elencados no art. 7º, bem como a efetivação do art. 193 (sem grifos no original):

Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à
melhoria de sua condição social:

Art. 193. A ordem social tem como base o primado do trabalho, e como objetivo o
bem-estar e a justiça sociais.

Sob esta ótica, a redução da força das entidades sindicais por meio da diminuição da sua
capacidade econômica mostra-se como mais uma forma de alijar os direitos sociais e garantias
emanadas do texto constitucional para os trabalhadores em prol de interesses econômicos de
grupos privados restritos.

Isto posto, por clara e direta ofensa aos arts. 8º, IV, e 149, da Constituição Federal, mister seja
declarada a inconstitucionalidade sem redução do texto dos arts. 578, 579, 582, 583, 587 e
602, da CLT, com a redação dada pela Lei nº. 13.467/2017, de modo a afastar interpretação
que permita entender como facultativa a contribuição sindical, retomando-se seu caráter
tributário e obrigatório.

2.4 Inconstitucionalidades materiais do pagamento de custas pelo beneficiário da


gratuidade judiciária

Ao inserir no § 2º do art. 844 da CLT previsão de condenação do beneficiário de justiça


gratuita a pagamento de custas, quando der causa a arquivamento do processo por ausência à
audiência inaugural, a Reforma trabalhista vai de encontro ao artigo 5º, LXXIV, da
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Constituição. Imposição de pagamento de custas por reclamante beneficiário de justiça


gratuita em razão de arquivamento decorrente de ausência à audiência inicial (§ 2º), até como
condição a propositura de nova demanda (§ 3º), ignora a condição de insuficiência de recursos
que justificou o benefício. Ademais, além de contrariar a Constituição, a Reforma trabalhista,
neste aspecto, contraria também tratados de direitos humanos firmados pelo Brasil – artigo 14
(item 1) do PISDCP e artigo 8 (item 1) do Pacto de São José da Costa Rica.

A norma impugnada teria por finalidade “desestimular a litigância descompromissada”. A


condenação em custas, até como condição para ajuizar nova demanda trabalhista, assumiria
aspecto de sanção processual de natureza punitiva ao comportamento negligente do
demandante. O possível caráter punitivo da medida em nada altera a carência de recursos que
determinou o direito de acesso gratuito à jurisdição.

Exigência de pagamento de custas de processo em que ensejou o arquivamento por ausência


em audiência como condição para aforar nova demanda trabalhista por trabalhador carecedor
de recursos constituirá obstáculo definitivo a novo acesso desse cidadão à Justiça do
Trabalho. Sem dispor de recursos para pagar as custas do processo anterior, ficaria
impossibilitado de novo acesso à jurisdição trabalhista. Desta forma, a reforma trabalhista
acaba por limitar o acesso de uma parte da população à justiça (lesando a garantia de
inafastabilidade da jurisdição, inscrita no art. 5o, XXXV, da Constituição), com repercussão
restritiva também sobre o princípio da isonomia (art. 5o, caput): ausência de demandante
pobre à audiência ensejaria consequência muito mais gravosa do que aos demais
trabalhadores que, podendo pagar as custas do processo anterior, teriam novamente
franqueado acesso à jurisdição trabalhista, sujeitando-se apenas à sanção temporária prevista
no art. 732 da CLT, na hipótese de dois arquivamentos seguidos. A norma, portanto, onera
mais gravosa e odiosamente os cidadãos mais vulneráveis, que recebem proteção especial da
Constituição.

A reforma traz outra alteração também à responsabilidade pelo pagamento dos honorários
periciais e advocatícios de sucumbência. Alteração esta que é inconstitucional, vez que
contraria o que consta no inciso LXXIV do art. 5o da Constituição (o Estado prestará
assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos).
Honorários periciais no processo do trabalho já eram devidos pela parte sucumbente na
pretensão objeto de perícia, “salvo se beneficiária da justiça gratuita”, conforme texto anterior
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do art. 790-B, caput, da CLT, inserido pela Lei 10.537/2002. A redação da legislação
impugnada passou a exigir pagamento de honorários periciais de sucumbência também dos
beneficiários de justiça gratuita (caput). Nesse aspecto reside inconstitucionalidade, que se
espraia sobre o § 4o do dispositivo, por atribuir ao beneficiário de justiça gratuita o
pagamento de honorários periciais de sucumbência sempre que obtiver “créditos capazes de
suportar a despesa referida no caput, ainda que em outro processo”.

As normas impugnadas confrontam e anulam essas condições conformadoras da insuficiência


de recursos, pois permitem empenho de créditos trabalhistas para custear despesas
processuais, sem condicioná-los a perda da condição de insuficiência econômica.
Contrapondo as normas ordinárias delineadoras do direito fundamental (CR, art. 5º, LXXIV),
os dispositivos impugnados esvaziam seu conteúdo e inviabilizam ao demandante pobre a
assunção dos riscos da demanda. Padecem, por isso, de inconstitucionalidade material.

2.5 Inconstitucionalidade material da previsão de contratação por jornada intermitente

O substitutivo cria, ainda, modalidades de contratação nas quais há violação material expressa
ao Art. 7º, IV, da CF/88, que prevê o pagamento de salário mínimo mensal digno ao
trabalhador, capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família. Trata-se
da infame jornada intermitente e da possibilidade de contratação de profissionais como
autônomos em regime característico de emprego, contudo sem as comezinhas garantias.

A modalidade de contratação em jornada intermitente está prevista no Art. 452-A da CLT e se


limita a estabelecer a remuneração mínima por hora de trabalho requisitada, sem que seja
assegurado ao trabalhador um número mínimo de horas mensais.

Há, portanto, na instituição da contratação por jornada intermitente, a possibilidade evidente


de o trabalhador terminar o mês sem receber o necessário para o seu sustento, cujo custo não
cai junto às horas de trabalho requisitadas pelo empregador. Veja-se, nesse sentido, o texto do
dispositivo constitucional violado:

Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à
melhoria de sua condição social:

IV - salário mínimo , fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a


suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação,
educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com
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reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua
vinculação para qualquer fim;

Como se pode ver, a norma constitucional é bastante clara ao estabelecer que o salário
mínimo deve ser capaz de atender as necessidades básicas do empregado e assegurar um
padrão mínimo de dignidade. Não pode, portanto, seguir vigente o art. 452-A da CLT, em
razão da sua absoluta e direta inconstitucionalidade.

Ao atrelar a jornada de trabalho dos seus empregados e, por consequência, a sua remuneração
à necessidade momentânea da empresa, o artigo ora atacado equipara o trabalhador a um mero
insumo da produção, que poderá ser utilizado na medida em que seja interessante ao
empregador, mesmo estando continuamente à sua disposição. Retira-se, nesse processo, a sua
condição de titular de direitos, como o direito à remuneração mínima mensal.

Não bastasse, caso o trabalhador aceite a convocação e não compareça, terá de pagar multa
equivalente a 50% da remuneração que seria devida, de modo que poderá chegar ao final do
mês sem nada receber ou ainda, pasme, com dívida junto ao empregador, situação
absolutamente incompatível com o art. 7º, IV, da nossa Constituição Federal.

Ante o exposto, deve ser declarada a inconstitucionalidade material do art. 452-A da CLT,
inserido pela Lei nº 13.467/2017, por ferir os princípios básicos relativos à remuneração e
dignidade do trabalhador.

2.6 Inconstitucionalidades materiais da terceirização de atividades finalísticas

A chamada “reforma trabalhista” trouxe consigo outra veemente inconstitucionalidade


material: a possibilidade da terceirização irrestrita, inclusive para o exercício de atividades
finalísticas das empresas contratantes, sem a formação de vínculo de emprego. Revela-se,
nesse sentido, ser inconstitucional a interpretação dos caputs dos arts. 4º-A e 5º-A da Lei
6.019/1974, na redação da Lei 13.467/2017.

Art. 4o-A. Considera-se prestação de serviços a terceiros a transferência feita pela


contratante da execução de quaisquer de suas atividades, inclusive sua atividade
principal, à pessoa jurídica de direito privado prestadora de serviços que possua
capacidade econômica compatível com a sua execução.

“Art. 5o-A. Contratante é a pessoa física ou jurídica que celebra contrato com
empresa de prestação de serviços relacionados a quaisquer de suas atividades,
inclusive sua atividade principal.
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Contratar serviços interempresariais implica formar vínculos intermediados (triangulados) de


trabalho. Apesar de desenvolver atividades inseridas na dinâmica empresarial da empresa
tomadora, o trabalhador terceirizado vincula-se formalmente à empresa prestadora, submetido
às injunções do contrato comercial de prestação de serviços, que debilitam profundamente a
eficácia de seus direitos e impõem a essa relação de emprego terceirizado profunda
fragilidade jurídica e social.

Não obstante a roupagem formal de relação de emprego com a empresa prestadora e a


aparente igualdade de direitos trabalhistas em relação ao empregado da tomadora, o emprego
terceirizado padece de grave déficit de efetividade normativa, por intensidade e qualidade
protetiva muito inferiores ao padrão constitucionalmente assegurado à relação de emprego,
concebido sob projeção relacional entre o obreiro e o beneficiário final de sua mão de obra.

Essa redução protetiva decorre da ausência, no emprego terceirizado, de elementos que


integram o sentido histórico conferido pela Constituição de 1988 à relação de emprego e que
têm por função conferir-lhe alta densidade de proteção social: integração do trabalhador na
organização da empresa, pretensão de continuidade do vínculo de trabalho e pessoalidade na
prestação do labor.

O art. 7º, I, da Constituição reconhece o direito à relação de emprego protegida contra


despedida arbitrária ou sem justa causa. Nesse sentido, a relação de emprego figura como
fonte dos demais direitos trabalhistas previstos nos arts. 7º a 11, além dos direitos previstos na
legislação infraconstitucional e nas negociações coletivas.

Nesse sentido, é necessário destacar a norma prevista o item 4.b da Recomendação nº 198 da
OIT, de 31 de maio de 2006:

4. Políticas nacionais devem ao menos incluir medidas para:

b) combater as relações de trabalho disfarçadas no contexto de, por exemplo, outras


relações que possam incluir o uso de outras formas de acordos contratuais que
escondam o verdadeiro status legal, notando que uma relação de trabalho disfarçado
ocorre quando o empregador trata um indivíduo diferentemente de como trataria um
empregado de maneira a esconder o verdadeiro status legal dele ou dela como um
empregado, e estas situações podem surgir onde acordos contratuais possuem o
efeito de privar trabalhadores de sua devida proteção;

Como se pode ver, a recomendação traz a necessidade de que os Estados-membros


desenvolvam políticas no sentido de prevenir justamente práticas como a terceirização,
principalmente se ligada à atividade-fim, pela qual, se levado adiante o disposto na reforma,
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os trabalhadores não terão as proteções constitucionais necessárias para ver efetivada a sua
real relação empregatícia.

Este Supremo Tribunal já estabeleceu, quando do julgamento da ADI 1.721/DF, que versava
sobre a inconstitucionalidade do art. 453, § 2º, da CLT, inserido pela Medida Provisória nº
1.596-14, de 10 de novembro de 1997, a premissa de que o art. 7º, I, da Constituição deve ser
interpretado no sentido de extrair do enunciado a vontade constitucional de promover
desestímulo patronal ao ato de dispensa mediante indenização compensatória.

A efetividade do vínculo de emprego concretiza-se, na Constituição, não apenas por


desestímulo ao ato de dispensa, mas também pelo direito a depósitos do Fundo de Garantia do
Tempo de Serviço, previsto em seu art. 7º, III, voltado a conferir estabilidade econômica ao
trabalhador e à sua família, cuja eficácia depende, ao mesmo tempo, de boa remuneração
aliada a continuidade do emprego.

O mecanismo de terceirização, ao promover alta rotatividade de mão de obra, frustra


radicalmente a pretensão constitucional de continuidade do vínculo de emprego e esvazia a
eficácia dos direitos que dela dependem.

Em pesquisa encomendada pelo Sindicato dos Empregados em Empresas de Prestação de


Serviços a Terceiros do Estado de São Paulo (SINDEEPRES), avaliaram-se os
desdobramentos do movimento de terceirização, de 1985 a 2005, a partir de dados relativos ao
Estado de São Paulo. Concluiu-se que os trabalhadores terceirizados, quando comparados aos
empregados diretamente contratados por empresas tomadoras de serviços, se submetem a alta
rotatividade: oito em cada dez empregados terceirizados seriam substituídos ao final de cada
ano de trabalho.1

Do mesmo modo, o direito a férias anuais remuneradas, previsto no art. 7º, XVII, da CF como
garantia de higiene mental e de convivência familiar e social, depende fundamentalmente de
certa estabilidade temporal do vínculo de emprego, de forma a permitir formação de
sucessivos períodos aquisitivos e concessivos de férias, o que não se costuma verificar da
mesma forma entre empregados diretos e terceirizados, em razão da alta rotatividade destes.
Traz, portanto, como efeito esvaziamento da eficácia do direito fundamental voltado à
regeneração física e mental e ao convívio social e familiar do trabalhador.

1
POCHMANN, Márcio. A superterceirização dos contratos de trabalho. Pesquisa publicada no site do
Sindicato dos Empregados em Empresas de Prestação de Serviços a Terceiros (SINDEEPRES).
Disponível em: < http://www.sindeepres.org.br > Acesso em: 04 de setembro 2017.
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A alta rotatividade dos empregos terceirizados também prejudica obtenção de depósitos do


Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (Constituição, art. 7º, III), reduz drasticamente a
possibilidade de gozo de aviso prévio proporcional ao tempo de serviço (art, 7º, XXI, da CR)
e Diminui o tempo de contribuição previdenciária, necessária a aposentadoria (art. 7º, XXIV,
da CR).

Ante o exposto, é flagrante a inconstitucionalidade material da interpretação dos arts. 4º-A,


caput, e 5º-A da Lei 6.019/1974, na redação da Lei 13.467/2017, pelos quais se permite a
terceirização irrestrita de atividades finalísticas.

3. MEDIDA CAUTELAR

Os requisitos para concessão de medida cautelar estão presentes.

A probabilidade do direito consubstancia-se tanto na inquestionável legitimação do Conselho


Federal da Ordem dos Advogados do Brasil para apresentar a presente Ação Direta de
Inconstitucionalidade quanto no fato de que as pretensões aqui deduzidas visam à garantir o
cumprimento e efetividade dos direitos e garantias fundamentais sociais e individuais
plasmados em todo o texto da Carta Magna .

É evidente o perigo de dano ou risco ao resultado útil do processo, tendo em vista que,
enquanto não for suspensa a eficácia das normas impugnadas, cujas disposições podem
ocasionar lesões irreparáveis aos trabalhadores em todos os níveis, seja à procura de emprego,
empregados ou em desligamento de vínculo por promoverem alterações nas relações
trabalhistas e tolherem direitos cuja importância social é inafastável.

Sem deferimento de medida cautelar pelo Supremo Tribunal, novos postos de trabalho que
venham a ser criados poderão ter jornada em limite muito acima daquele autorizado pela
Constituição; atividades permanentemente necessárias à empresa, ainda que de forma
intermitente, periódica ou sazonal, poderão ser submetidas a regime de locação de mão de
obra temporária, em prejuízo do regime de emprego constitucional e, por conseguinte, da
proteção social constitucionalmente destinada aos trabalhadores; indivíduos com gratuidade
da justiça deferida poderão ter de pagar custas processuais independentemente da proteção
constitucional do inciso LXXIV, do art. 5º, bem como ter crédito de natureza alimentar
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sequestrados para pagamento de despesas processuais; dentre inúmeros outros prejuízos cuja
lesão a longo prazo é incalculável.

É necessário, portanto, que a disciplina inconstitucional imposta pela norma impugnada seja o
mais rapidamente possível suspensa em sua eficácia e, ao final, invalidada por decisão
definitiva do Supremo Tribunal Federal.

Por conseguinte, além de probabilidade do direito alegado, há premência em que essa corte
conceda medida cautelar para esse efeito.

4. PEDIDOS E REQUERIMENTOS

À vista do exposto, requer à essa Suprema Corte:

1. A concessão em decisão monocrática ad referendum e sem intimação dos


interessados, nos termos do art. 10, § 3º, da Lei nº. 9.868/99, da medida cautelar,
conforme fundamentação supra, para:

a. Suspender a eficácia dos arts. 59, caput, e §§ 2º e 5º; 59-A; 223-A; 223-B; 223-C;
223-D; §§ 1º e 2º do art. 223-G; 452-A; 578; 579; 582; 583; 587; 602; 790, § 3º; 790-
B; 791-A, § 4º; art. 844, §§ 2º e 3º, todos da Consolidação das Leis do Trabalho, nas
redações inseridas pela Lei nº. 13.467/2017;

b. Suspender a eficácia dos arts. 4º-A e 5º-A, da Lei nº. 6.019/1974, na redação dada
pela Lei nº. 13.467/2017;

2. Que se colham informações junto à Presidência da República e do Congresso


Nacional, nos moldes do art. 6º, da Lei nº. 9.868/99, e que se ouça, sucessivamente, a
Advocacia-Geral da União e a Procuradoria-Geral da República;

3. Ao final, que seja julgado procedente o pedido para declarar a


inconstitucionalidade:

a. Material:
i. Dos arts. 59, caput e §§ 2º e 5º, e art. 59-A, caput e parágrafo único, por
ofensa aos arts. 5º, § 2º, 7º, XIII e XXII, e por afastar garantias trazidas para o
Ordenamento Pátrio por meio da Convenção nº. 155 da OIT;
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ii. Dos arts. 223-A, 223-B, 223-C, 223-D, e dos §§ 1º e 2º do art. 223-G, da
Consolidação das Leis do Trabalho, inseridos pela Lei nº. 13.467/2017, por
violação à proteção à dignidade da pessoa humana (art. 1º, III); por gravame
desproporcional à isonomia nas relações trabalhistas (art. 5º, caput e § 2º c/c
artigos 1º e 3º da Convenção nº. 111 da OIT); e por intencionar reduzir e
limitar a proteção constitucional conferida à indenização extrapatrimonial (art.
5º, incisos V e X);

iii. Sem redução do texto dos arts. 578, 579, 582, 583, 587 e 602, da CLT, com a
redação dada pela Lei nº. 13.467/2017, de modo a afastar interpretação que
permita entender como facultativa a contribuição sindical, retomando-se
seu caráter tributário e obrigatório;

iv. Do § 3º, do art. 790; do art. 790-B, parte final do caput e § 4º; do § 4º, do art.
791-A, dos §§ 2º e 3º do art. 844 da CLT, nas interpretações que transfiram
ao beneficiário da gratuidade judiciária o dever de arcar com custas e
despesas processuais, por violar a garantia constitucional do acesso à justiça
e da garantia à assistência judiciária gratuita (art. 5º, incisos XXXI e LXXIV);

v. Sem redução de texto do art. 452-A da CLT, para afastar interpretação que
permita ao não percebimento do salário mínimo nas jornadas intermitentes;

vi. Sem redução de texto dos arts. 4º-A e 5º-A da Lei 6.019/1974, na redação da
Lei 13.467/2017, de modo a afastar interpretação que permita a terceirização
de atividades finalísticas de empresas privadas e da administração pública,
direta e indireta;

Salvador (BA), 05 de Setembro de 2017.

Thaís Lorenzo de Carvalho


Conselheira Federal da Ordem dos Advogados do Brasil

Silvio Dayube Carigé


Conselheiro Federal da Ordem dos Advogados do Brasil

Victor Sampaio Daltro Costa


Conselheiro Federal da Ordem dos Advogados do Brasil