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Álvaro Vieira Pinto


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"------ SUBDESENVOLVIDOS
Introdução metodológica ou prática
eTC metodicamente desenvolvida da ocultação dos
fundamentos sociais ç10 "vale de lágrimas"
ANO. i9 FLS .I~

ORGANIZAÇAO

José Ernesto de oFáveri

(OnTRHPonTO
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A SOCIOLOGIA DOS PAlsES SUBDESENVOLVIDOS·

Introdução metodológica ou prática


metodicamente desenvolvida da ocultação dos
fundamentos sociais do "vale de lágrimas"

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• Comecei" escrever eSle caderno em 13 de agosto de 1974.IN.A.]


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,. Razões de' nosso interesse por este assunto. fl


,:
Por que usamos a imagem do "vale de lágrimas"

As religiões milenares, orientais e ocidenl<lis, e as ideologias pessimistas es-


forçam-se em retratar o mundo no que õ1 humanidade se -tem desenvolvi·
do, desde que, nos diversos grupos que a formam, se iniciou o regime da
divis~o social em' classes antagónicas. utilizando a conhecida imagem do
"vale de lágrimas'~ Compreende-se q~e assim procedam. As primeiras por
necessidade, pois, se não convencerem os homens de que, por uma tristís-
sima fatalidade, têm de passar a existência no mais doloroso sofrimento.
submetidos a toda espécie de privações, provações e por fim fi. morte, deixa
de ter sentido seu pape]. íom, que se juslificam, o de ser o único veiculo di!
"d,llvação" para n6s, desgrfçados vivt'ntes. As seg~ndas, porque, se nfio pres-
sagiarem a impossibilidade absoluta de um de,stino melhor para as ger<lções
humanas, SU<l função intelectual p<lralisanle d~ mensagem provinda de um
poder central explorador do trabalho das massas não só se tornará inútil,
mas, ainda pior, daria oportunidad'e a estils ultimas de conceberem a idéia
de serem capazes por si mesmas de vencer tão calamitos~ situação e cons-
truir um regime de convivência isentO dos males e penúrias que atualmen-
te as oprimem. Num caso ou noulro, lanto a alienaçãO religiosa quanto a
ingenuidade essencial da consciência pessimista perderiam a razão de seI'.
Daí a arraigada concepç.ão, convertida em imagem do m"undo, de que os
homens, como conseqüência de um castigo original, habitam ~ mais tene-
broso e inóspito lugar do universo, de onde lamenti!velmente não conse-
I guirão jam<lis se eV<ldir, um vale de lágrimas, expressão que os pontífices
'; :! desta mentirosa e infame simploriedade se empenham em deixar bem.. cla-
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,
I ro não se tratar de mero traço de retórica evangélica, mas de uma autênti-
I ca, eJ;llbora cruel e lap1entabilissima, realidade.
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Mas não basta aos.beneficiários desta mistificação mantê-la na condição
, de impressionismo ~ístico. Para melhor garantir, precavendo-se contra a
eventualidade de quaisquer 'denúncias em contrário. precisavam transitar
:

, da visão apocalíptica para o terreno respeitável da ciência. Precisavam fa-


bricar, ao lado da geografia do vale, e da história de sua cortstituição, a
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,Si sociologia que estuda as relações entre os homens nel~ imperantes. con-
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ALVARO vlEIIIA PINTO A SOCIOLOGIA DOS PAISES SUBDESENVOLVIDOS

firm<lndo e explicando a ignominiosa sugestão. f: :mim que uma vulgar, epígrafe, Apenas faIta acrescentar que O "vale" a glle se refere foi talhado
i
interesseira e eSlúpida noção, prodmD de uma exigida faJsificàção perpe- por um rio formado pela torrente de 16grimus guc as massas Irab::llh::ldoras,
J trada pelas potências dominantes sobre a grande multidão da humanidildc. durante inconláveis milênios de sujeição a senhores, déspotas, S3ccrdotcs,
1 acaba por dàr.lúgar iI um <Jmontoado de teses, apresentadas com o caráter empresários e ricos proprietários, em todos os tempos, verteram dos olhos,
I de "sociologia", isto é, de digna construção cientlfica. A confusào .inten- caíram na terra, reuniram-se em um fio, avolumílram-se até constituírem
ciomilmeme propagada em nossos dias pelos doutores em cãnones da or- o curso lfquido de _impe{Uos~ corrente qUe, após séculos sem fim de so-
! dem capitalista obriga-nos a disculir o principal da infindável trama de frimentos humanos, ve.io a. configura(o perfil geográfico do vale que a
falsidades e confusões que tanto a caSta sacerdotal quanto a sua ala liter~ria oraç50 envolveme l' e~1lo·rpecedora, sem suspeitar que exprime, simbolica-
e "filosófica" inventaram e sistematizaram, para denunciarmos o engodo mente, a verdade hist,6rica, chama "de lágrimas". Aproveitamos ~ imagem
desta suposta "ciência'~ Assim. vamos contribuir para colocar em lugar dela tl'ológica para nos servir de modelo de Lima situação real, efetivamente vi-
no esp!rito dos estudiosos e d1\s massas em geral uma rigorosa compreen~ vida pela numilnidãde, desde os primórdios de sua sujeição aos poderosos
são da realidade do homem- e do mundo onde vive. Explica-se então por até os nossos dias. Valemo-no5'das sugestões que essa correspondência ima-
que devemos -meter as mâos num aSsunto que, de outra forma, não me- giniÍria nos oferece, Porque sem dúvida, qualquer estudo SOCiológico da si-
receria ser levado a sério, nem atrairia, de nossa parte, a menor atenção. tuação existencial da imensa maioria dos homens, na atualidade como nos
MilS, fazendo-se passar por uma concepção sociológica, com as aparências tempos remolos, desde que se instalou a exploração do trilbalho de qU<lse
e_ intenções de uma honesta intl'rpretação da estrutura social e de suas lodos por uma ínfima miliori<l de privilegiados, tem de pilrtir, para ser ri-
qualidades e efeitos com relação ao homem, remos de esmiuçar a trama de gorosilmente justo e fidedigno, do conceito .que misticamente, mas, de falo
sofismas que as cavilosas especulações que as basl's materiais das insinua- muito de indústria, do ponto de vista dos aproveitadores dôl alienação reli-
ções c propilganda ideológicas infiltram na' consciência de incontáveis mi- giosa das massas, se enuncia no termo "vale de lágrimas':
lhões de seres liumanos, desvalidos diante .d~ ~riminoso enfeitiçamemo Claro está que só'n,Os interessa a imagem sugerida pela denominação,
'deste absurdo conceito. ' ' , e que devem·os utilizar com o fim de submetê-lil a análise, para compreen-
der duas noçôes essenciais, que ser;'io, a bem dizer, o conteúdo dêste livro:
12, A"geologia" do vale de lágrimas e as 'questões a) por que realmente o trabalhador é wn homem que h,abita as vertentes
de um "vale de lágrimas': ou seja, qual a origem desta formação geológico-
sociológicas fundamentais que sugere
sociológica; b) que se deve fazer para dar·lhe um término, acabar com o
Entretanto, há uma dolorosa perspectiva considerada, pela qual a expressão torturante acidente geográfico, o que significa dizer parol que o trabalhador
-:J construa a sua morada e organize a sua vida na fértil paisagem de planícies
que discutimos adquire, embora metaforicamente, pungente probabilidade
i regadas apenas pela's águas naturais. Ai criará a sociedade na qUill as lá-
] de ler sentido inteliglvel, Seja-nos lfeito referirmo-nos a ela, chamando-a
1 "geologia" do vale de l,ágrimas. Vivemos numa paisagem que os espíritos grimas esponlâneas e enobrecedoras, em raras e emocionantes situações
j m!sticos, imbuídos de: visões e fecundos em locuções proféticas, denomi· humanas, jamais sejam capazes de correr, confluindo das faces de lodos os
nam "vale de lágrimas". Tal é de fato, para eles, o panorama da realidade homens, que as vertem em paga pela culpa de trabalharem, caudalosa e
social. Ora, ensina-nos a ciência geológica que os vales são cavados pela permanenlemente, como-se fosse um acontecimento normal da convivên-
erosão de uma corrente de água ou gelo que, ao arrastar as partículas sóli- cia entre seres que organizam rilcionalrT,lente sua existência. A ironia do
das do solo, deixà um sulco cada vez mais amplo, margeado por elevações conceito reside em não ter sido cunhado pelos sofredores mas pelos que
montanhosas, tendo no ~do a correr o rio que os produziu. Por estranho habitam as alturas que o (ileglvel] a triste correnteza. t. claramente um
que pareça, esta 'noção científica dá·nos a chave para entender o embu.ste instrumento de dominação ideológica dos poderosos e fartos, dos s:íbios e
ideológico agora denunciado, Tem plena razão a fórmula litúrgica que os alegres, dos que adormecem cada dia na paz de uma consciência justificada,
devotOs repetem maquinal e inconscientemente na prece por nós citada em destinados a explicar a condição dos que choram pelos sofrimentos pro-

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ÁlVARO VIEIRA PINW A SOCIOLOGIA DOS PAISES SUBDESÊIlVOlV,O"l:..
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fundos, inenarrnveis e às vezes insuportáveis que 05 acabrunham. Os olhos Dobra esta que insensivelmeme não só faz mergulhar ca.d;] vez mai~ fundo--' ,
úmidos ~ão sabedores e denominada mente reveslidos de'significado de alí- na consciência ingênua das·massas a venenosa idéia, m~s a~ leva :l acredi- ---
vio e consolo, de desabafo e refrigério para as dores de cada dia, e por mais l·arem previame!1te que só pela aceitação desla salmodja, e pelos rituais e
difícil de compreender-se não conhecéssemos os mecanismos de produção obediências quea acompanham, podem encontrar solu.ção para suas afli·
d;l alienação do espírilo das maSS;lS - aceilOs como um bem que [ileglveJ] ções; e) o exame.cientlfico da estrutura das classes antagónicas no lrabalho
a alma dos efeitos de conflitos julgados insoluveis e de pesares sem remé- produtivo realizado no ãmbito do "vale"; f) por fim, o desenvolvimento da
dio, O pobre reI ira do pranto uma alegria que lhe aparece, por força do mà- verdadeira· compreensão dãsilUação "Iacrimejante" impetrador... , oferecen-
licioso amparo dos sacerdoTes da dominação, como uma antecipação do do a certeza de que somenl·~ .da concepç:io de uma teoria revolucionária, e
bem definitivo e perfeito, com que irá ser recompensado na vida celestial. da união dos esforços dos Iiumilhados e impotentes resullarão o eSvazia-
O doloroso lamento é assim apresentado Como um cântico compensador mento da ilusão que os cega e a plena revelação de que o lugar natural de
antecipado, o que retira do sorrimel~to real, inmgido por condiçôes sociais sua vida não é o tenebroso.e martirizante desfiladeiro de dores mas a pai-
perfeitamente c:lracterizadas e suprimíveis, a nola de mald..de suprema e sage~ i.nteira do mundo, e~(jm p~s~u'ida pel~~ homens .sem. d~scrjminaçã.o
desvia os posslveis revoltados da tentação do desespero, que seria a conquis- do dueHo à posse dos bens~mateT1als necessanos e deseJáveIS, e das condl-
ta da jusliça a qualquer preço, inclusive o do sacrifício da própria vida pes- I . çues que propiciarem a realiuição subjetiva da felicidade. Sení..u,1Jl mundo
soal na balalha pela deSlruição da configu·ração social do "vale" onde· habi- regado em toda parte nãp 'pelo caudal que emana das fontes que são os
Iam em fão humilhante siTuação. olho.!l dos oprimidos e injustiçados, mas pelas águas claras que despertam
no solo sua exuberante fecundidade.
3. Condiçôes para a construção da sociologia do "vale de lágrimas"
4. As possibilidades da libertação das massas
Par:l a correta edificação da'sociologia do "vale de !ãgrimas"teremos de es-
tudar os aspeclOs subjetivos de que se reveste o conceito e as condições ob- A suposição de que o sofrimento, direta ou' indiretamente imputável à or-
jetivas, de fato a estrutura social que dá fundamento a tão indigna dom i- ganização da sociedade. é inerente a uma imaginária "natureza do homem':
naç50.lremos estender-nos por muitas p'áginas sobre estas questões que em está tão arraigad; no esplrito das massas esm.agadas, por efeito de multisse-
grande parte se confundem com a simples descrição da existência de ho- cular doutrinação religiosa e filosófica alien<ldora, que nos encontramos.
mens trabalhadores no mundo subdesenvolvido. A título de indicação pre- diante deste paradoxal comportamento, a saber, em vez de serem alvissa-
liminar, para nos permitir an1ever o estreito horiwnte em que teremos de reiramente ouvidas as conclamações dos pregadores da libertaçâo e de re-
mexer il pro·cura de nossa compreensão, in_di~aremos desde já alguns dos ceberem estes o apoio da imensa corte de lutadores pela prppri<l emandpa-
termos de que nos O"cuparemo~. A prim·eira eXigência para deline;lr o pro- ção, vêem-se cercados pela indiferença. peJo ceticismo e até pelo sarcasmo
blema consiste em reconhecei:: a) o caráter ideológico-hislórico nele conli- daqueles que não os entendem ou deles se distanciam por julgá-los instin-
do; b) a incoerência lógica do conceito. em virlude da comradição dele com tivamente profetas do absurdo ou malévolos agentes da sempre perigosa
a única legítima compreensão dos direitos conferidos às massas trabalha- subversão da ordem. A filosofia da libertação tem no pafs subdesenvolvido
doras, pelo seu natural e inegável destino; e) a origem do odioso rótulo e e submetido a extrema imobilização polltica, por efeito do sistema de.ter-
do emprego que dele é feilo para a defesa dos interesses das classes domi· ror institucionalizado, relativamente reduzida efidcia porque os que estão
nantes expressos no vocabulário litúrgico muito habilmente composto pe- capacitados a ler seus enun~ados silo geralmente os menos dispostos a se
los cônegos de todas as ideologias da "salvação" do homem, apresentado movere!TI para realizá-Ia. ainda que a aprovem, acreditando ser exeqüivel
?"c:viwncnte, sem li. Inlnim;> b'osc r:lcionw, ':OlnO "perdido"; d) o papel qos ou até mesmo fatalmente vitoriosa num nnuro longfnquo dificil de definir.
pensadores de lúcida consciência crítica na análise e indicação deste crimi- Sem contato direto com as massas, as idéias que deveriam comover alguns
noso embuste, que O.povo repete porque foi incorporado, uma prece, ma- ponderáveis grupos de intelectuais, ou consideráveis parcelas das chama-

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ALVARO VIEIRA PINTO A ~OCIOlOG1'" DOS PAfs<:s SUBDESENVOLVIOOS

das "classes médi{ls': geralmente um tanto mais "cultas" em relaçiio ~o am- tal na extensão em que reflete o mundo pobre e subjugado, e traz consigo a
biente comum, permanecem bloqueadas pela indiferença lórpida dos en- explicação deste: e:stado, ;lS leis de: sua subslituiçil.o, c se torna um siSlema
tendidos ou pelã critica emaranhadora-dos "filósofos", sociólogos e econo-
.. de pensamento social logic3mente coordenado, capaz de ser recebido com
maior ou menor clareza e adesão pela consciencia das multidões trabalha·
. da classe dirigente, sempre
mistas'de oficio, naturalmente serviçais atalaias .
bem pagos para se manterem vigilantes em:seus postos. De tudo isto resul· d.o~as, até então entorpecidas, desesperadas, ou simplesmente "revoltadas':
ta a"incongruente situaç50 de aceitação pa~siva e resignada dos castigos do Não é o excesso de sofrimento que por si só - sendo imemorial e incon-
"vale de lágrimas" por aqueles que, sendo,:Jegião, rapidamente os destrui- teslado - ilumina a consciência, uma vez que a dor da injustiça, converli-

, riam se não fossem induzidos por porleros09 inflo.xos ideológicos a faze-


rem o que é normal se esperar de quem vi~* em uJna guerra de deSespero,
da em situação social estável e onipresenle, mais facilmenle encaminha o
espírito dos deserdados ao niilismo da descrença ou ao desvario da rebe-
! isto é, chorar. As lágrimas podem caracte~'zar a climatologia do vale, mas lião insensala. Diga-se, de passagem, que as classes tirânicas esperam avi-
não a modificam. Tampouco as ações d~,sesperadas de indivíduos visioniÍ- damente por este gesto tresloucado, na certeza de que com fKilidade, dada
rios, fanáticos, audazes ou de multidões arrojadas às lUlas inconsequemes a proporção da força bruta de cjlJ.e dispõem, o esmagarão, e por isso o que
pelo des'.'ario.que sua própria dor e desesperança alimenta. Só a ação coor- supremamente lemem é o surgimento da compreensão clara, entre as mas-
denada das massas trabalhador~s no planejamel?lo e:eçlllduçiio de sua cam· Sas, das causas do s·eu infortúnio. O mais poderoso antidoto da humilha-
panha d'e libeTlação, sempre em função das circunstâ.ncias so~iais globais, ção e da injustiça consiste em canalizar todo movimento de inconformis-
subjetivas e objetivas, para ter resultados eficazes. M~5 para isso faz-se ne- mo, toda reflexão sobre o desespero dos povos espoliados para o terreno
..:ess:i.rio que a ação justa seja decorrente díl.teoria jusla. social, forçando-o a penetrar no campo do depate sodal, abandonando as
Nenhum idfjalismo existe nesta situação. Não queremos di.zer que o pen- gesliculações improfícuas de lamentação, moralmente constrangedoras e
samenlO libepador seja produto da compreensão iluminada e excepcion;ll- justíssimas. e sobretudo os apelos desorientadores a 'poténcias espi rituais, a
mente feliz de <llgum [[der escll1recido' ou de um estudioso de extraordiná- auxílios divinos. naturalmente inoperantes.
ri.] visão. A força da idéia· revolucionária não procede da cabeça masda A primeira coisa que importa ao hom.em explorado fa~.er é ingressar no
realidade que nela se reflete. Não são os apóstol~s excelsos, os pastores ca- âmbito do problema social,.passar a ver a causa de seu estado no sistema
.rismálicos, os favorecidos por iluminações .esc,to~ógicas que jamais co~se­ de relações sociais de. que faz parte, pois s6 assim se oporá ao fascínio das
guem algum resultado úlil no processo de l~bér3ç.~o dos povos. Estes, como soluções fantasiSlas e das esperanças enganosas. O reconhecimento do ca-
sabemos, têm sua lógica objetiva própria, pois gerahrtente o papel dos vi- ráter social da situação que o aflige é a epifania que configura a possibili-
sionários no balanço total dos fatos é antes ne.galivo, obstrulivo, impedin- dade de conversão da consciência ingênua do desesperado em consciência
do a regularidade da reflexão metódica, e a [ilegivel] é deliniç~o correIa, crítica do lutador arregimentado. ~ a revelação do verdadeiro significado
j operante dos fundamentos das situações esmagadoras do Irabalho e da dig- da totalidade do problema ,existencial que aprisiona e ofusca o trabalhador
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nidade do homem. A idéia é de~envolvida quando se engendra na cabeça inerme. Tal é o primeiro passo no caminho da sua - então, sim - inevi-
:':1 dos pensadores que nela reconh~cem a imagem fiel do estado de coisas real lávellibertação. Por estranho que pareça, esta angústia inicial é a mais difl·
e nela encontram a verdadeira e;.plicação dos acontecimentos que arrastam cil de alcançar-se. Pelo secular embrutecimento da inteligência das multi-
as massas. Não enunciam palavras "proféticas""sempre ilus6rias e desnor· dões analfabetas e, pior ainda, distraldas pelas teosofias o~nubiladoras, mas
teadoras, mas as leis do processo de transformação da realidade em curso, sobretudo na descrença na eliminação de um sofrimento que aparece ao
I donde o que parece o' fator mais frágil, o mais tênue, um simples conceito e lrabalhador, especialmente ao camponês, como um fato pessoal, condição
,J
':1 M um conjunto de conceitos concatenados no espirito do homem, pa~sar a ser em que o "fato" é sentido como fntum, fatalidade, "uma falta pessoal db sor-
a máxima força-de modificação de conceitos hist6ricos materiais aparente- te'~ uma vez que percebe em tomo de si tantos outros homens vivereITl sem
" • mente inabaláveis. Daí a importância da teoria revolucionária, que s6 será os mesmos lormentos, parece-lhe impossfvel entender que é vírima de um

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estado soci;]1 e nnó de lima infelicidade pessoal, que o atingiu de nascem;a o papel de seus leólogos e sociólogos de aluguel. Mesmo que, no intimo,
e da qual não pode CUlp:lT ninguém. Custa-lhe crer nesla verdade. que jul- Iht: custe "lançar ~ execração ptlblica" excelentes companheiros de diretoria
ga desmentida pela realidade circunstame, e ponanlo quando lhe chega à da empresa, de correligionários políticos, de bons põlrceiros de bridge, ou
consciencia ê sentida vagamente como "idéias': prefação de intelectuais ou mesmo de amigos'pessoais, realmente culpados apenas de pouca inteligên-
mesmo de companheiros fanatizados e possuídos por "teorias': Acreditara cia n~ condução de seus negócios ou de incontinência nõlS suas otiwdes,
de preferência que o necessârio são as conquistas imediatas, obtidas com prefere praticar essa insincera e imoral amputação a ver-se envolvida, em
os meios que as leis lhe facultam. a legislação trabalhista, e em casos espe- IOtalidade, no opr6brio e nos perigos que caem sobre os mais cruêis, e cer-

I ciais agitações abaJOldoras. como greves e mudança de profissão.

5. A compreensão do caráter social do "vale de lâgrimas"


tamente menos astutos, de seus membros.
Os Irês recursos mencionados precisam ser cuidadosílmente eswd:ldos
para a devida denúncia diante do povo. Esta é segurameme lima das mais "
imponames e decisivas tarefas da'fiéncia sociol6gica que se propõe deva,~­
Acompreensão da' natureza social do "vale de lágrimas" é a primeira e a sar os embustes e construções ideológicas que inocentam lima estrutura de
mais esplêndida revelaÇão que terá de nascer na consciênci<l d<ls massas tra- convivência humana merecedora por parte de alguns afetuosos dcfensorês .
balh<ldoras. Perceberão então que nada adiantam os meios persuasivos ou do ultrajante título que lhe dão. A criação de tal anli·sociologia, que ser~
caritalivos que buscllm "enxugllr" o prllnto e que a única solução consist~
em destruir a fonte de onde procedem. Ora, para tanto é preciso dissolver I
!
efetivamente a única legítima sociologia, inicia-se com um geslo intelectual
de imperiosa desmislificaçao que abrirá caminho pOlra radiosas e vicejames
uma infindável série de sofismas, a começar pelos mais virulentos. Entre compreensôes da realidade na consciência das massas cxploradas, julgadas
eSles destaca-se o que acusa a maldade dos homens poderosos e ridos de até então por si mesmas irrecuperavelmente infeliz!;'s neste mundo, noção
ser o motivo das agonras dos "pobres'~ Com este simples truque ideológico, cujo avesso é a cer~eza de que õl felicidade só lhes será dada no "outro".
sempre reprisado com êxito pelos pastores de almas e seus sacristãos uni- A principal dificuld~~'p~r<J a ~olocação d~ pro~lema no terreno social
versit<irios, ~ão atingidos de início Irês utilissimos resultados, que visam à provém da ocupação préVia da area pela SOCIOlogIa de encomenda, que se
segurança ,do domínio da classe exploradora, a saber, a} a questão, em tOta- resume na apologélica da classe dominante no regime existente. Teremos
lidade, é desviada do terreno social para o da moral;' b) fica consagrada ocasião de indica'r e refutar alguns dos argumentos de que se valem os sete
como imutável, de direito divino, e portanto sempiterna e imune a qual- sábios de Sião para, de inicio, jú'stificar o estado de falo,.e em seguida ino-
quer tentativa de alterõlção, a divisão dos homens em "ricos" e "pobres", centar de qualquer culpa os afortunados beneficiários Ide uma situação his·
c) a clõlsse dominadora em conjunto apresenta-se redimida, resplandecente tórica de que não foram autores e que são forçados a aproveitar, delaliran·
na envolvente auréola da mais pura bondade humana, uma vez que está pa- do, está claro, o máximo de proveitos pessoais, mas cumprindo ao mesmo
tente não lhe caber, como classe, qualquer culpa na existência das misérias tempo o sagrado dever, que lhe ordena sua bem formada consciência mo·
sociais, que são as primeiras a reconhecer e de que sinceramente se con- ral, de amenizar as ~pres do próximo, infelizmente m~l aquinho~do, pro-
doem, rudo procurando fazer para aliviá-las. A culpa cabe apenas i'lqueles curando por lodos os meios assisti-lo em suas dores e d~r-Ih.e õlcesso a me-
de seus membrÇls que se revelam "malvados",'''sem esplrilO de caridade cris-' lhorias de vida, individual e familiar, sempre amplas, medianle a instituição,
tã': "tirânicos", "insensíveis aos sofrimentos alheios", "exploradores'~ etc. por iniciativa dos gru~os dominantes, de uma legislação de trabalho e as-
Com este último ardil a classe dominante se purifica, veste a túnica dos sistência cada vez mais humana e cristã, Sendo numerosos os serventes que
bem-aventurados, porquanto é a primeira a reconhecer a presença de ele- os suseranos da ordem capitalista recrutam para trabalharem na construção
mentos malignos em seu meio, porém ao mesmo tempo reivindica a gl,6ria.. desse muro de cCJntenlfã-o, assim Como as cOnlribuições com que a fértil
\; e a benemerência de apressar-se em vituperá-los, a deles,se desso.lidarizar, imaginação dos sodólógos e economistas juramentados aba'rrota o merCil·
apontando-os à abominação, e õlté ao castigo, dos oprimidos. Não'é outro
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do, a' pródiga distribuição de fundos para o estabelecimento de faculdades

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ALVARO VIEIRA PINTO A SOCIOLOGIA aos MISES SUBDESENVOLVIOOS

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I ue direito, de sociologia, de escolas de economia, cursos "básicos", e milha- capacidade de pensamento do sociólogo e do gr<lll em que reflete o em.tio
res de OlltrOS de simples famasia, para efeito da captura e agregação do
i do seu mundo. Deve sen'tir"se aluanle n~s dois papéis, o que é uma extraor-
rn<lior número de inteligências jovens ao que chamam "ciéncias sociais", dinária façanha da liberdade individual. À falta de público. dada a circuns-
tudo isto dá origem ao ofuscamento da visão, ao enlulhamento do campo tância da tirania reinante, tem de lornar-se o seu próprio público, espe-
~a realidade que torna imperiosa a exigência da repetição de um celebre rando o dia' em que os "outros" efetivos o possam ouvir. Mas não lhe é
lrabalho de.~ércules que certamente nâo poderá ser feito por nós, m'm por permitido o silêncio, que neste caso se confundiria com a cessação do pen-
qualquer oUtro estudioso isolado, mesmo dotado da indispensável (ons- samçnto 'ou com o desânimo quanto às finalidades que cultua. Não pode
ciénci:l critica, a limpeza desta estrebaria. Tal é a rriissao a que eSlá obriga- deixar de falar, mesmo sabendo que o faz para si mesmo, e que s6 o escUta
. dá <l consciência de um conjunto de pen~adore5 exclusivamente devotados o papel que absorve as linhas que esc~eve. Porque, sob a forma idealizada
a tf::lduzir em forma ciemffica os reais interesses do povo, munida do mé- de "público': a voz que ouve não lhe pnrece a sua e sim a de quem ensina o
lodo dialético pa~a a execução de suas análises e conclusões, e de uma in- que é preciso saber e diz o q* se deve fazer. No ato do ouvir siJehcioso a
vllriável finalidllde autenticamente humanista que a oriente em sua ética. voz, os lamenlOs e imprecações.das multidões dispersas há uma critica im-
Aproveitamos o ensejo para apontar' um!'!- tese fund1lmental ,de nossas pllcita. que é dada pelo exerc1cio do pensamento indagador. Morlal seria o
reflexões. O trabalho de desbravamento, e construção epistemológica não . desisVr de pensar, a ausência de percepção, ainda que interior e ~uda, o
se dissocia em nenhum momento da co::i"espondenle sistematização dll éti- esquecimento da arma' intelectual! r
ca verdadeirame,nte humana por seus fundamentos, não a de caráter abs. No silencio da reflexão aparentememe inútil é que a visão da realidade
Ira lO, "~osófj.co·; mas a que se constitui em instrumento de comando d3 se aprimora, se desvenda em suas trágicas minúcias, e se prepara para rea-
ação revolucionária das massas trabalhadoras. porque desvenda ao pensa- lizar em plena lucidez o contato com os ....outros·; na plena.força de uma
mento de cada 'indivIduo o valor dos atos que pratica e dos que vai pro- eficácia invcncivel. Opensar nunca é inútil porque conserva a vit,alidade
gressivamen~e.conquistando. daquilo que os embrutecedores desejam acima de tudo destruir, a capa-
.,.
cidade da consciência critica dizer a verdade, que a pressão asfIxiante pro-
6. O papel do filósofo nO'~'~ale de lágrimas" cura impedir seja conhecida. Se o pensador se omite no trecho obscuro,
e sob a pressão dos pod.eres dominantes noturno do caminho. à espera do raiar do dia. não está compreendendo
que é a sua meditação solitária e sem ressonãncia que, em parte, prepara o
Quando um p~Js plenamente representaÚvo do "vale de lágrjmas~ em vir- nascer do sol. Porque o dia não é apenas a luz fisica que a rotação dos as-
tude do estado de atraso no desenvolvimento das forças econ6micas e da tros tTaz com necessidade mecânica. O dia é a proclamação do novo saber,
op~essão polHi~a de grupos dirigentes, que lhe tiram a liberdade de expres- a palavra que definirá o que se espera, a idéia que se f<lrá o ser da humani-
são do pensamento coincidente com os !riteresses das massas trabal,hadoras, ,,, dade emergente. S6 as revoluções brutais e esmagadoras, obscurantistas e
toma co~sciênc:ia de sua realidade, o fil6~ofo que acaso venha a produzir, e retr6gradas, na verdade contra-revoluções, são preparadas pelas.idéias an-
..l.,
que se queira 'manter identificado ao de$tino do povo, tem de proceder à tigas na conjura secreta pela conspiração das forças desumanas. que con-
·1
difl:~il e penosa operação de dividir-se em sua condi5ão existericial. t: obri- siste na simples difusão do pensamento dominam e, e como lal obrigato-
i
gado, às vez"s por um perlodo desoladoramente longo. a tOrnar-se ao mes- l riamente r.eacionário. A verdadeira revolução é o desabrochar das novas
o
mo tempo o sujeito criador das idéias libertadoras ~ público, que as deve -~
,id,éias, que <lS antigas fecundam pelo fato inevitável de se esgolarem. Mas é
executar. Esta duplicidade. resolutament~. certa como dolorosa 'condição e :,., preciso que· durante a calamidade o pensador que contempla antecipada-
nas angustiosas conseqüências individuais que acarreta, é caractedstica da mente a aurora esteja sem cessar entregue ao trabalho de observação, para
situação de pertencer ao "vale de lágrimas;: Serve':de pedra de toque, no pe- -:;-. depositar em algumas folhas de papel, cristalizada, a naturezá dos tempos
rlodo sombrio da travessia do desfiladeiro, para s~ aferir a autentic'idade da j futuros a construir.

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ÁlVARO IJI~IRA PIN10 A SOCIOlOGI;. DOS MI5ES SUBO,S,NVOLVIOOS .

As massas lrabalhadoras, mais espoliadas do que nunca na fase do mu- núncia e refutação das leorias sociológi.cas maliciosas, qu.ase IOdas hoje es-
tismo e da vergasta, só poderão conservar alguma esperança de liberdade lranhamente consorciadas a interpretações oriundas de um plnno diferen-
se a consciência de seus poucos membros esclarecidos estivt'r certa de que le, o da psicologia, e até da parap.~icologia.
no solilóquio da criação mental os homens de estudo e de pensamento que
as represenlam não se sentem desamparados, porque não julg<lm eSlarem 7. A recusa à consideração direta da
sozinhos, não interpretam a momentânea ausência de comunicação como ~e.ali~!3'de no país subdesenvolvido
definitivn ruplura de conlalo, mas no intimo de si mesmos faJam e ouvem,
f41am aos ausentes, e com isso forjam de cor e com verdade o seu discurso, Esta conjugação espúria, e naturalmente rendosa para os interesses dos
e ouvem as multidões nparenlemente imóveis, afônicas, distantes,.r~cebem magnmas, precisa ser agora devid<lmenle desmascarada porque ni'io ocorre
o q~e estas dizem na sua calada povoada de vozes súplices e decididas. Os por <lcaso, mas representa em verdnCle lima p05içi'io de recuo a que foram
mósofos efetivnmente representativos dos anseios dos habitantes do lamen- obrigados os doutores da purn soqiologia, até há pOtlCO predominantes,
toso vale destilam cuidndosamente as fórmulas da construção do mundo para responder ao avanço das poderosas forças ideológicas adversári<ls.
que eles, juntnmente com os milhões de operários interiormente livres, A recusa ~ consideração frontal da realizaçi'io social no' pnís subdesenvolvi·
num amlfnhã talvez próximo porão em prática. A condição porém para que.. do é a atitude universal dos <Ip'ólogetas da dominaçãO. MilS não podendo
o pensador do pais subdesenvolvido e sem soberania desempenhe este q~e descer ao nível de esrultice de apenas descrever os raJ:Qs e (ilegível) aspec-
"é o seu único justificável papel, consiste em se preparar pela pníticll per- tos ~anifestados pelo modo de vida da redmidn camada pecuni;uiamenle
manente, pela ascese de dllpla disciplina existencial, para a missão a que se forte e esbilnjadora, são obrigados a incluir no p<lnorpma !ilegível] a ima-
dedica e ex.ecuta n<l longa noite ánica da inteligência. gem da miséria das massas, Sllas deficiências, atraso c j'gnorância, mas ni'io
Primeiramente o acurado estudo da ciência pretérita, especialmente o o podem fazer de modo veraz e sincero, sendo le.vado~ a envolver em uma
quanto disseram os filÓsofos que se devotaram à compreensão da realidade concepção sociológic<l poucas vezes expllcita e mais freqüentemente difusa
do homem e ao descobrimento das leis que regem o processo de sucessão nmhos os lados da medalha, para chegarem assim a teorias ou :m:\lises que
das formações sociais. Este acúmulo de ensinamentos não visa a construir julgam científicas. em que o lado sombrio, sem ser negndo, primeiramente
uma erudição ornamental e insensível, exceto para os recilais universitários, não ofusca a 'importância primordial e definidora do conjunto, atribulda
mas a discernir a verdadeira doutrina da realidade social, que veremos ser ao esplendor do estamento rico, especialmente em seus refúgios urbanos; e
a concepção não idealista da história. ao mesmo tempo que mune o pensa- em seguida, simultaneamente com os c~nticos de hosana aos ricos, vai sen-
dor do universo de conceitos lógicos legítimos e verdadeiros, que lhe per- do ,desenvolvid~ convinçentemente a "teoria" que explica ~ presença dos
mitirâo refutnr as insidiosas explicações contemporâneas, que os arquitetos contingentes populacionais miseráveis. Deste modo, o endeusamento dos
da alienação da inteligência, a soldo das podt::rosas organizaçõ~s ecoflómi- poderosos e p'~ósperos se,:,,/: não só de encobrimento pan n penúria dos
cas e cuhurais, erigem e difundem para efeito ·de desnortear a consciência infelizes faveladqs de todos os níveis, mas ainda de explicaçao da sÚuaçilo,
pobre de conhecimentos ou menos hábil em reconhecer a indignidade in- reconhecida como Inmenúr..elmente verdadeirn, destes últimos.
teresseira das liçôes estrangeiras caril que a azucrinam. Em segundo lugar, Por fim, desta acomodã.ç~o ideológica maligna brota mais um resultado
fora do campo teórico, cabe ao fLlósofo uma larefa contínua e çle funda- aproveitável para a apolog.ia dos dominadores, a saber, a lição que incumbe
menral necessidade, a manul~nção do Contato direto com as massas ópri- ensinar às massas para se- ~esignarem ao atual infortúnio, agUentar como
midas, residentes, como ele, n<l mesma vala, não apenas para ouvir-lhe:; as lransitório, conforme dE:i:!'0nstra a existência das classes ricas. Estas têm,
lamentaçôes, que sobejnmeme já conhece, mas para divisar as força$" pro- acima de todos os excelsqs m.éritos que a eXoneram, a função pedagógica
pulsoras nelas existentes, ter II cada momemo n noção exata do grau de de- de refutar 3.5 criticas acerqas dos defensores dos humildes. ap~ntando, pela
senvolvimento destas, e fazer de tal compreensão o fundamento de sua de- sua simples presença. a viiência de um sistema de liberdàde econômIca que

"
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• ALVARO VIEIRA PINTO A SOCIOLOGIA DOS PAfSH SUBDHENVOLVIDOS

permite a todos livrarem-se de urna condição penosa, insuficiente, ou mes· mente no terreno mais ~rduo, aparentemente pouco importanle, mas na
!TIO desumana, e ilscenderem a graus superiores de confono e bem-estar. verdade ólquele onde se joga O desti~o do processo social, o da contenda
,
A classe rka .\Cumula, porlanto. além de outras vantagens, a de ser o Pil- ideológica. Para conseguir a automatização da consciência alheia, a roboti-
radigma vjvo da liberdade de progresso' e·(I lição perene dos modos de zação dos vigilantes, sua identificação com as armils de fogo que manejam,
alcançar níveis superiores de vida"qu~ os pobres 56 não aproveitam ou por não há oulro processo eficaz senão a inoculacação de uma convicção, islO
excessiva intrcia e falta de espírito de iniciativa. preguiça e açomodação, ou é, a incorporação pela consciênci<l de uma doutrina alienada da 'realidade
por serem constitutivamente incapazes de aprendê-la. Em qualquer' caso, social e humana, que leve o indivíduo moral e mentalmente a praticar atos
a riqueza dos milionários não :lproveita a~enas a eles, mas também aos que-iepudiaria com horror se conseguisse chegar a comprt'ender o que sig-
deserdados que nela encontram o alvo a atü~gir. I nificam, e sobretudo por que foi levado a comete-1m.
Se por este aspecto já a disponjbjlid~de d~' fortuna individual fica ate- Ora, este enfeiliçamento do espírito de ponderáveis massas de cidad50s
nuada, perdendo grande parte da odiosa significação que, à primeira vist<l, Irespeiláveis, não só os de pr~fissão beligerante milS os de vidil civil que
qualquer individuo de bom' senso seria induzido 11 atribuir-lhe, a situaçi'io igualmente se manifest<lm concordar com as ações de sustentilçào das con-
mor;llmente criminosa, e grandemente constrangedora para os ricos, vê-se dições definidoras do "vale de lágrimas", tem de ser obra dos pensadores e
definitivamente purificada e santificada com a decisiva vantagem da nota estudiOSOS que destilam os venenosos elixires id~016gicos que seus pillrÕeS
de indefinida permanência, a salvo de qualquer risco de desmoronamento recebem com o máximo contentamento, e logo se apressam em divulgar
ou de contestação pelo esvazi::!mento de que se incumbem seus escribas so- mediante as engrenagens da publicidade e de "comunicação de massa" de
ciólogos, economistas, politicos, juristas, e vigilantes da segurança pública, que s50 os proprietários. Daí 11 canalizaç50:dos.recursos pecuniários não
ao fabricilrem as doutrinas sociais que, embora variem em detalhes, coin- para <l compra de consciências, recurso esqJpido e inviável, em forma dire-
cidem em traçar as barreiras ideológicas que simultaneamente convencem ta e cinica mas exeqüível em caráter disfarçado' e enobrecido quando se
os dominadores de sua fó'rç<J e os dominados de sua fraqueza. Este envol- manifesta como' estipêndio de grupos de intelectu<lis alojados em imenso
vimento cultural é mais precioso que qualquer arregimentação e sístem<l- número de universidades, cátedras sem titulas. revistas, órgãos de pesqui-
tização de c~ntingentes armados de todos os instrumentos de repressão do sa, etc. dos mais variados gétleros, todos porém uniformizados pel::! publi-
desagrado popular com a forma de vida que as massas percebem se eter- cidade a que servem, a ·de, por alguma maneira, contribuir para edificar a
nizar, não vendo como dela se livrar. O papel preponderante do endoutri- ideologia da dominação dos magnatas sobre os trabalhadores. São natural-
namento ideológico, atualmente praticamente centrado sobre um único mente de dois tipos os cupins encarregados destils construções informes e
conceito mágico e logicamente confuso, o da chamada "segur~nça nacio- de simples barro, mas nem por isso menos resistentes e difíceis de erradio
nai", mostra que é por meio da irresistIvel inocul!1ção de idéias na cabeçil caro Uns são os capatazes de evidente maior talento, aptos <l ólrquitetar com·
dos agentes dos poderosos que se cria a verdadeíra segurança destes. Se os pletas doutrinas sociológicas, filosóficas, económic;as e polllicas, com o que
ricos lomassem a errônea iniciativa de somente subornar a prova de di- se paramentilm da função de. chefes de teorias de pensamenlO, instalando-
nheiro em espécie ou e,,"cepcionais proventos mate.riais. os seus homens de se muito naturalmente em cáú:dras universitárias e cercados de ampla pro-
armas, cometeriàm tr~mendo desatino, pois, em primeiro lugar,.a maioria paganda, que espalha -ao·s qu·at~~ ".".entos suas idéias e se incumbe d~ venda
dos cariátides das instituições vigentes é constitulda de elementos' moral- dos produtos de tricô que fabricam. Ao lado destes mestres pulula' a mul-
mente honestos e incapazes de aceitarem propostas indecorosas, e além do tidão de fama menor, que vai de alguns mam!feros mais evoluÚios até a
mais a submissão a uma idéia objetivamente falsa mas. firmemente arrai- infinita vérmina microbiana, dos escavadores de "revistas cientlfi,*s", dos
gada na consciência ingênua representa uma, garantia de fidelidade e de vas- empregados em infindáveis e inúteis "pesquisas de campo': geralmente des-
'j salagem infinitamente mais sólida que (prestação de serviço a- solde aos tinadas adescobrir oóbvio, ede mil outros comensais de convidadok apar-
I que julgam dispor de suficiente dinheir9·para comprar a vontade e a ação ticipar do. opíparo banquete ideológico da apoteose da riqueza de ridícula
alheia. Tal é o motivo pelo qual a luta ~ocial tem de ser travada original- minoria soci<ll, em recompens<l il sua subserviente atitude de serviçais me-

I
"
ÁLVAROVIEIR,l, PINTO
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<líoeres mas operosos nas tarefas insignificantes ou incõmodas que lhes são de~em constilUir malfriil. de indefinidos e solenes debiltcs d<: artigos em
altihuíd<ls. Forma~se assim a legião dos con~crutores da ideologia da domi- re"'iSlas estipen:diildas ou de declõ:lraçôes pesso:lis ele ciel1lislils e empres:,rios
nação. S50 eStes que irão prepar;lT 35 dOutrinas convenientes. a jornais ami$os. Nfio conseguem entret<lnto evitilr o grave inconveniente
de niío estarem à aht1T<I de serem entendidos pelos próprios operários,
aqueles a quem:é imperioso catequizar, para que, mesmo em forma nebu-
8. As categorias de doutrinas explicativas do "vale de lágrimas"
losa, acreditem no que lh~s ensinam os domores da lei, e sobretudo Slnlam-
Em lermos simples, é possível distinguir as últimas em três calegorias prin- se lOcados por um mínim9 de esperança, que lhes acalm.e as tenàências,
cipais. Mencionaremos primeiramente as doutrinas referentes à ordem so- sempre iminentes, de reb.eidia e inconformismo. O excesso de argúcia, ou
cial. São fnhricadas com a finalidade específica de não 56 a(astar. ou ocultar. de cavilação cllhural, ra~:~ssas teorias correrem o risco de se torn:lrem im-
a única concepção legitim<J, mas sobretudo de distribufre"m em um certo prestáveis, acabando por.só convencer seus <lutores e os respectivos acóli-
número de direções confusas. inverldicas e ineficientes a atenção dos estu- tos, :llém dos capitães da'jndústria e da alla finanç<l. Se tal é o único resul·
diosos, levando-os a se dividirem em "correntes" divergentes, opostas, até tOldo que se obtém,.terão:.de ser cOJlbderadas malograd<lS, pois há o perigo
inimigas, com o que os mant.em ocupado; n~s i'ncessantcs e estéreis discus- de se cair nestil situação.~nedótica de em vez de <lneslesiilrem-o paciente,
sões que travam na copiosa enxurrada'de publiCações em que se esfalfam, anestesiarelT! o cirurgião;
lomando-lhes praticamente a existéncia inteira em uma ginástica intelec- Daí a llrgénciil de urrl'terceiro tipo de doutrinas, capazes de efetivamen-
tual absurd3 e sem proveito, com a exclusiva finalidade de fingirem viva ati- te penetrar n<l massa operária, as que se referem ao progresso das classes
vidade cultural, quando na verdade n50 passam de pobres especu];mtes so- trabalhadoras e da humanidade em geral, sob o vigente regime. Com este
bn' cois:ls, sociais, t... teando em vfio um rumo sólido à procura de um fuso recurso ideológico tentam não s6 afastar de vez o risco do fascínio das <lU-
inexistente. Permanecem assim de costas para a realidade e de C:lra voltada têntiCas doutrinas revolUCionárias, mas esper:lm infundir na mentalidade
para a paisagem imaginária que os astutos dirigentes das escolas ou das do lrabalhador. a certeza de que suas angústias atuais estão fi [ilegível) de
"pesquisas" lhes impuseram COmo tarefa descrever, esmiuçar e "explicar': serem suprimidas pelo progresso que s6 o intensivo desenvolvimento capi-
logo a seguir, OUlTO grupo de doutrinas desnorteadoras é o das que to- taliSla pode oferecer. Trata-se de manter o operariado e as populações cam·
mam por projeto o esclarecimento da natureza do Irab:llho compreenden- ponesas em constante expectativa de um destino mais humano, pel:! cene-
do, mesmo sem confessar, que o "vale de lágrimas" OUlra coisa não é seniio
a oficina do trabalho explorado, e que, se aos aproveitadores deste estado
interessa cuhiv<lr aquela deriomin<lção, os "sociólogos" que se dedic<lffi por
I
,
.za de que a cúpula dirigente do processo econômico e polItico pensa mais
nelas do que em si própria e dispõe de meios para criar os instrumentos
legais e os órgãos administrativos adequados; a fim de atender com a má-
"
.J esta via a adular a vaidade dos riéaços e a confonar-Ihes a consciência mo~ J xima brevidade às aspirações do povo e redimi-lo da miséri:l presente. A

ral, insensibilizando-a ou aplacando qualquer escrúpulo que acaso a aco- lerceira via ideológica distingue-se das anteriores pelo emprego freqüente
-i
i meia, preferem volt<lr-se inteiramente a elabor<lr uma teoria do trabalho,
de fato disuibulda em múltiplas variedades, que no final das contas, pela
I do conceito abstrato e carregado de más intenções de "destino do homem':
o que lhe dá grandiosidade e dignidade aparentes m:liores, e por outro lado
argumentação lógica a que recorre, justifica os desnlveis sociais, a espolia-
çã.o dos operários, o trabalho não pago, mostrando que esta é uma condi-
Çã~ natural, inevitável no regime atual. Apesar disto, existem mecanismos
I desloca o problema, realizando assim a verdadeira esséncia do truque dos
sociôlogos assalariados. do campo do processo social, fundamentalmente
da luta de. classes, para o terreno da ética. Se o que está em jogo é o destino
ecC)nômicos e políticos, manejados pela inerente bondade do coração dos do homem, a qu~slão será 'primordi:llmeme de natureza moral, os aspectós
empresários, que se acham continuamente em ação para minorar a sorte le fato~es sociais recuãinlHata plano secundário de fundo, e terão de Sl:r es:
do~ obreiros, elevar Sempre seu padrão de vida. As explicações teóricaS do" c\arecldos os graves temas que configuram a noção de destino. Não é pre·
trabalho no sistemoÍ capitalista, para atingir o grau de inverdnde que lhes ciso dizer-se que o segredo da prestidigitação neste terceiro rito de desnor-
dé uma coloração rósea, têm de ser necessariamente demasiado abstratas e teamento da consciência popular consiste na consideração simplesmente

" " ,
ÁLVARO VIEIRA PINTO A SOCIOLOGIA DOS PAlsrs SUBOESENVOLVIOOS

abstraIa do conceito de "destino': Em:'5~a realida'de existenci~l o homem J '''sociologIa'' julgada válida pela classe dornillanle, e por isso o'ficialmemf
sempre um ser em shu~Ção social COnCrela. O operário que ganha salário emronizada em suas escolas e difundida mediante a lOtalidade dos media
míniplo, insufidellte sequer pilra malar-Jhe a fome. ganhil concre[amentc propagalldísticos de que dispõe, por deles ser propriet~ri:J. Não podemos
esse salário, que não pode ser negado como fato, mas precisa converter-se ignorar o milenar desenvolvimento das concepções sociais, que para nós
em aspecto isolado de um conjunto imensilmente m<Jis amplo, para ser vis- está assinalado desde os antiqUlssimos códigos de legislação dos impérios
to sob uma luz diferente, o da conveniência da forma vigente do processo orientais ~Ié o surgimenlo da compreensão da necessidade de compendiar
prodlllivn. t. il cap<J abstrata, que não só o afoga e desbota, mas o subsrilUi em corpo d~ filosofia ~ ideologia das cl<lsses dominantes em cada época,
por um<1 compreensão do salário totalmente diversa, porque já não mais para a defesa de seus interesses v<Jriáveis com a substituição das formações
concreta, com seus devaneios e esperanças. Temos assim indicado Ir,es das históricas dos bens de consumo coletivo. A necessid~dc de acomp<Jnh~r o
'possfveis modalidades de obscurecimento da consciência do trabalhador, desenvolver histórico é o melhor recurso para traçarmos a geografia do
[ileglvel] C9'n5tiluJdas em forma de produtos da "ciência soçial", diferentes "vale de lágrimas", que não se restringe a uma única época mas se aprofun-
elltre si, mas visando ao mesmo fim, que, como dissemos. têm de apresen- da e prossegue em seu tort~oso e tumulluado perfil ao longo dos tempo.s,
t:lr-se sob dupla face, a de explicar a existência do "vale de lágrimas" e a de, no pass~do como agora, enquanto houver sociedades com estruturas defi-
sob o cínico· pretexto de estarem sendo tomadas medidas para acabar com nidas por classes antagônicas em inevitável desafio reciproco e luta de fina-
tão trisle situação, na verdade consolidá·la e assegurar aos beneficiários d~ lidades. Contudo, quanto mais nos avizinhamos da nossa época, mais sen-
miséria do p'ovo qlle jamais a sociedade chegará a um estado em que desa- sível se lOma <I presença das chamadas ciências sociilis, o que não p<Jssa de
pareçam 05. seus privilégios. Acham-se delineadas, e queremos dizer efeti- simples rellexo di] crescente complexidade que a form;1 da produção capi-
vamente denunciadas, 35 duas exigências fundamentais e imprescindíveis talista introduz entre os homens, aprova~do continuamente as dispilridades
de tod~ e qU<1lqller "sociologia" que pretenda merecer o aplauso. o encora- e as desarmonias que levam a classe de uns il se opor 11 de oulros.
jamento e, claro está, a devida remuneração dos suser<1OOS da ordem pre- A constituição da sociologia em ciência. sob múltiplas fórmul:ls, de
sente. Vamos encontrá-I~s nas tentativas, especialmente as mais recemes, Comle, pas;ando por Veblen, Schumpeter, Keynes, até, baixando mais, che-
que o aguçamento do problema social torna urgentes, da constituição de gar a um Lévi-Str<lUSs e à nébula de "pesquisadores de campo" norte-ame-
alguma doutrinil social que justifique a rêàlidâ1~ do "vale de lágrimas': ab· ricanos, só pode ser enlendida na sua cOnlinuidade histórica. Por isso en-
solva os poderosos de alguma culpa em tão lamentável situação da imensn contramo-nos em face dest~ primeira conclusão ilbsolutamente capital:
maioria da humanidade, e ainda por cima, para acúmulo de benefícios ~os o conceito de "vale de lágrimas" só pode ser entendido por quem possua a
exploradores, os faça :lparecer dianle dos explorados como os seus naturais complela e verdadeira doutrina da história em tOlalidade. Uma primeira
,', protetores, aqueles de quem unicamente podem esperar a modificação do
destino que antevêem. II verificação, talvez julgada de imediato paradoxal, aparecerá a quem proce-
der à meditação sobre o problema aqui discutido segundo os ditames d~
atitude filosófic'a por nós preconizada. Compreender-se-á que o "vale de lá-
9. As premissas de toda "sociología" alienada grimas" não é mais que uma fase, JonginqüJssima mas em essência episódi-
ca, do curso da existência coleliva da humanidade. Surge com o desdobra-
Jamais poderá ser feita com proveito e veracidade a crítica das teorias so- mento da sociedade em classes antagônicas e desaparecerá com a destruição
ciológicas à1ienadoras da consciência das massas se .não forem devidamenle dessa desumana estrutura de convivência, que nada tem de necessária e in·
compreendidas e permanentemente utilizadas como categorias primordiais substitui"e!. Se, portanto, a colocação do tema s6 adquire veracidade e ra·
de julgamento as duas premissa~'q/:ie acabamos de. mencionar. :t. preciso, zão de ser na perspectiva da história llniversal, compete ao estudioso da si-
em todo sistema expÍkativo,'por amplo que seja, e nos mínimos dt;t.alnes tuação atual, qualificada com exatidão no termo que a liturgia de,uma seita
sobre fatos e aspectos às vezes de aparente importância menor, q~e' não religiosa nos presenteia, buscar indispensável apoio, para os'estudos c <Jná-
nos descuidemos de indicar a presença daqueles dois parâmetros Ide toda lises a que proceder. relativamente a qualquer perfodo do passado em que
, ..11 .. .
ÁlVA~O VIEIRA PINTO
!
,
se defronlnrnm classes hOSlis, nas vigas mestras das duas espêcies de pre- compatriotas e demais contemporâneos dispersos pOI' lOda pane do mun-
missas ideológicas. na verdade de motivos profundos e in confessados, que do subdesenvolvido, convencido de que esta supoSla pobreza e inferiori-
SU5lenlam as concepções doutrinárias surgidas no decorrer do tempo. Mas dade de visão, a de quem se recusa a escalar os píncaros circunstantes na
nâo devemos confundir o papel dessas premissas com a presença \:ias [rês suposição de que assim enxergaria melhor e mais longe a paisagem, é na
lipos de calegorias de explicações sociológicas a que aludimos páginas atrás. verdade a" sua principal, e de fato a única, superioridade, a que lhe é dada
Os"dois ilspeclOs confluem para nos dilT a única compreensão correia dJ I pela equiparação co~ ~s a'nseios das massas oprimid~s, o resuhado neces-

realidade atu;]l, neSte particular em essênCia equivalente à antiga. sário de.tal salutar atitude será uma consciência que, discutidas;'\s imper-
Se somos obrigados <l proceder a .distinções. por vezes delicadas, não feiç,ões e limitações individuais, re!1ete fidedign<l~ente as condições objeti-
significa isso <l menor confusão ou perda de atenção para o papel respec- vas do mundo miserável, tem possibilidade de melhor desconinar soluções,
tivo de cada fator. Uma coisa são os determinantes até agora invariáveis e adquire o direito, que não prete'nde ser o dos profetas trjb<lis antigos, mas
da constituição das doutrinas sociológicas alienadas, oulra a corporificação, o dos esclarecidos cientistas moder~os, de proceder a genúncias que se,re-
du seja, a sistematização 'em razão de que adquirem o caráter de teorias ou vestirão de caráler filosófico defini:lio, e irão constituir a sociologia dos es-
doutrinas sociais, desses determinantes em formulações que se apresentam poliados em oposição à dos expoliadores.
'a~ respeitável público com pretensões cienrífici'ls. Não dispomos da possi·
qilidade de passar em revista as numerosas criações ideológicas que, desde 10. A translaçã~ da sociologia para outros campos do saber,
a,lutopia plalõnica até as mais grosseiras concepções imperialistas, r<lCiSlaS com o propôsíto de encobrir as finalidades de Su.aS doutrinas
el"fUlllTológicas". grass3m no ensino universitário e na f3bricação literária
dos "sociólogos" diplomados, oficialmente reconhecidos tais, em nossos A primeira tarefa que se nos depara é a de desensinar as tentiltivas de redu-
dias, Somos forçados, com pesar, a nos abstermos de analisar mesmo as ção da sociologia a alguma coisa que nfio é ela mesma, para efeito de, por
principais dentre estas fa!:mlações. porque movem·nos OUlfOS inleresses que essa manobra de translação, constituir-se segundo os ditames dils linhas
não 3 crítica histórica; de doutrinas .por demais conhecidas e já desmas- idçológicas gerais;; que anteriormente aludimos. Segundo cremos, são dois
caradas com propósitos' benévolos, e até hediondos, que alimentam. por os principais caminhos· 'Pelos quais é possfve\ arrastar a sociologia, para
obra dos filósofos e sociólogos de genulna finalidade, os que se fazem ex- conseguir que se to~ne afin~1 completamente desfigurada. O primeiro con-
poentes do pensamento das classes exploradas e, aparentemente, sem espe- siste no intencional estabelecimento da confusão entre sociologia e psico-
r~nçaj munidos da autêntica concepção da história crítica. De nossa parte logia. Não vamos aqui discutir a natureza da psicologia, nem os inúmeros
temos aspiração a proceder à denúncia da situação ignominiosa em que suh-reptlcios ou escancarados desvirtuamentos nela contidos, pela manei-
vive a maioria da população da Terra, do ponto de vista das mistificações ra que é habitual e oficialmente entendida. São just~mente' estás in~om­
filosóficas utilizadas pelos sociólogos de plantãO. Por isso, colocamo· nos preensões e ingenuidades internas que a constituem no matagal ideal para
numa posição que nos pa,rece. se não inteiramente original, pelo menos onde os malfeitores da ciênCia preferem càrregar os se~s problemas-"na cer-
pouco valorizada e explorada até agora, a do pensador identillc~do com a teza da impunidade que o lugar agreste e despoliciado oferece para a práti-

I realidade do país subdesenvolvido, submisso ao comando externo de po-


tências econõmica, militar e politicamente dominantes, que lhe ditam a.
ca das inconfessáveis operações. Nada como tomar uma questão real mas
difícil identificada com um suposto "fato" psicológico para assegurar a li-
condUla na direção dos seus negócios interiores, na utilização dos recurso.s vre manifestação da consciência ingênua. às vezes, e mais freqilentemente a
materiais e no tratamento a dispensar às massas miseráveis que em maio- proposital perpetração das mais grosseiras mistificações, as infiltrações de
ria o constituem. Deste modo nosso d~sejo é apflrecermos não como um "motivações", "complexos'; "puIsões" e mil outras simplicidades, deglutidas
filósofo apenas conhecedor das vicissitudes do "vale de lágrimas" qu~ ob- como produtos cientificas' por um público estUdantil indefeso, ou pela amo
serva ao seu redor, mas como legitimo habitante dele, identificado até o pla massa de leitores. servilmente ávidos de novidades sensacionais, insi·
I,, mais profundo d,e sua essência humana e individual com os milhões de nuantes e, claro está, completamente imposslveis de precisar ou confirmar

.
AlW'HU V"'H" ~'''',v

obj~tivamellte. A psicologia, pela própria fraqueza constituriva e indefini- atuação ideológica desses ~'soci610gos", a de afastar para o plano de fundo,
ção de seus poucos elememos internos seguros, respeitáveis e dignos de fi· na verdade o de adiar indefinidamente, o exame pronto e autêntico dos
,gurar no corpo de uma disciplina cientlfica, torna-se a selva escura onde se falOS sociais, sob o pretexto de que, sendo o'social um produto do psicoló-
refugiam tanto os simplcs casais amorosc:s em busca de ambiente propicio gico, é a este aspecto ou conteúdo que se d~ve dar prioridade, a fim de pro-
quanto os piores faclnoras que :lí'enconti'am a tran.qüilidade para per pc- ceder "cientific:lmente': f, ademais, obscurecer e 'na prática renegar o signi-
lnu suas sombrias e criminosils maquinações inlelectuais. Não é. precisl1 fic3do das c1ilsses sociais, seu permanente connilo e contradições, questão
di'zer-se que, por isso, :lproveitando o caráter ideológico que já a maléria. destituída de interesse, se é que algum tinha, em vista d:l importância pri-
em 'si mesm:l, n;] maior pane, oferece, fácil será recolher a essc cilmpo m",io meir?o e capital dos connitos enlre o espírito dos homens individualme\Hc.
incógnito e :lmplamente lOrnado clandestino, (, material de conhecimento Tanto uma como outra dessas manobpas escusas alingem o mesmo propó-
que um astuto ou estipendiado construtor de "teorias" deseja arrum;lr de SilO, o de esvaziar a sociologia Q.~ conteúdo próprio e inalienável, substitui-
modo a receber uma aparência que permita apresentá-lo como "cientifico': do pelo falar psicológico. Com~, em virlude da organização efe!iva da so-
S"rn maiores divagações, basta-nos apontar o assunto de que nos ocupa- ciedade no regime vigente, as relações entre os homens assumem aspecto
mos. Se alguma ciência possui indiscutivelmente caráter objetivo é a sacio· de constante choquc, pela ex#ioração do trabalho de quase todos por Ullla
logia, que, ,estudando o objeto constituído pela sociedade humana', está na ínfima mas governante minoria, o dever líquido excepcional que esta tram-
verdade procurando descrever e sistematizar fatos, enunciar Icis do mundo polinagem ideológica deixa aos felizardos sociólogos consiste em afastar de-
real,pois' trata da forma mais elevada e complexa do movimento da mat~­ .' finitivamente o incômodo e perseguidor problema da luta de classes no
. ri2. Ninguém poderá subestim.u, muito menos negar, a importância cien- campo social, uma'yez que basta um simples truque de intcrprclação p:lra
tItica desta disciplina. Mas, justamente pQrque trata de expor os fatos, con- convcrtê-la em uma, luta .de almas. O~ fenômenos sociológicos reais de-
figurações e movimentos resultantes e1a.convivência entre os homens, com saparecem, com toda sua carga de diHceis e desagradáveis situações quc
a.evidente e natural predominância do~ que se rderem ao trabalho, alI re- compctiria aos verdadeiros sociólogos examin:lr e explicar, uma ve2i, que, em
gime e, formas de produção de bens, a~' relações entre os componentes d~ rigor, não_ há falos sociais mas apenas comportamentos individuais, de ori-
sociedade representam o principal tema. do estudo do especialista. A socio- gem psíquica, exercendo-se num terreno comum, a sociedade.
logia é a ciê:ncia do asp~cto soc'ial, isto ê;.i::oletivo, interpessoal, da atividade
humana. ESta verdade evidente e quase:acaciana, que não {oram os moti- , 1. A propósito da confusão entre sociologia e psicologia
vos a seguir expostOS, nos envergonh~iamos de escrever, exige, ao contd·
rio, ser proc!am"da com veemência e' i~tencionalmente ressaltadoa, porque São inúmeras as vantagens desta "interpretaçâo'~ que define para os espc-
.·1 é aproveitando os allseos favoráveis por:ela soprados que navegam os viga- cialistas deste quilate, e são a quase totalidade dos "teóricos" e "pesquisado-
T ristas de todas as espécies e quadrantes para atirigj~em o posto de destino res" na área capitalista, como bem era de esperar, o campo "cientJfico" ofi·
ideológico que têm por meta. A razão é-simples. N~'da mais fácil que redu- cialmente reepnhecido como "sociologia". Não é possiveJ passá-las todas em
J
:., zÚ o componamento real dos homens a puras de[erminaçõe~ do psiquis- .revista, mas uma, ao menos, não pode deixar de ser'mencionada, d:loa a
mo individual de cada um. VaJendo-se ~a·condiçãi)·inegável e element<!r de. . p~rftdia de suas intenções e a maligni dade das conseqüências. Referimo-nos
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que os homens, e'm seu comportamento' razoável, não patológico, rias rela- à mágica que se reduz a apresentar os conflitos entre os homens, no curso
ções.d9uns"c~m os ,outros s~o movidos p~lo pensamento que .lê~ a res~ei­ i de uma vida em que a grande tn'<lioria é naturalmente ofendida e explora-
to 'de sua reahdade e do conjunto dos congêneres com os quals sao obTlgôl- da, suscitando justãs reações de defesa individual e coletiva, como um fe-
dos a tratar, ~s inescrupulosos exploradores das CiênCi,a.s sociais estabelecem nômeno patológico que, como tal, se desloca do campo da sociologia pro-
como dogma primor,dial a reduçãO dos processos de correlacionamento priamente dita para o da vsiquiatria. Tão rica de conseqUências'pr.a/-!,Citosas,
entre os homens ao enconúo entre :lS diversas psi'ql;les correspondentes ôl
cada qual individualmente. Ficam assim alcançadas duas finalidades para a

"
I na aquisição de prestigio e de lucros pecuniários, se revela e'sta tratantice,
que merece nos detenhamos por algum:ls linhas em dissecá-la. Entre as

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