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Silvia Bleichmar

Silvia Bleichmar
NAS ORIGENS NAS ORIGENS
DO SUJEITO PSÍQUICO DO SUJEITO PSÍQUICO
DO MITO À HISTÓRIA
DO MITO À HISTÓRIA
Silvia Bleichmar é psicanalista, Doutora em Psicanálise
pela Universidade Paris VII- Sorbonne, e fundadora do
Colégio de Altos Estudos de Buenos Aires.
A partir da hipótese freudiana que o recalcamento
originário funda as barrerras entre os sistemas psíquicos, e
reconhecendo que o inconsciente não está desde as
origens, Silvia Bleichmar dá à função materna um lugar
na estruturação da sexualidade da criança. Ao afirmar que
"os tempos míticos não são construções, senão
movimentos reais de estruturação do sujeito psíquico",
define novos parâmetros para a prática psicanalítica desde
uma perspectiva que propõe terminar de constituir um
aparelho psíquico em estruturação.
O rigor científico com que busca a relação
entre a teoria e a técnica em cada uma
das observações clínicas que apresenta,
situa este livro no centro
do questionamento
psicanalítico atual,
testemunhando um verdadeiro
tr

· qualidade
de vida
AS ORIGEN� DO SUJEIT
AATES O PSIQUICQ DO M -

M:DK"AS ll9/0.LHI iD6611B000 9?/8512081


BIBLIOTECA ARTES MÉDICAS
Psicanálise, Psicologia,
l')sicopedagogla. Psiquiatria
TÍTULOS EDITADOS
• Aberastury, A: Adolescéncla
• Aberastury, A.: Psicanálise da Crlanç<�- Teor/.1 e Técnlc.t




*


Aberastury, A.: A Percepç.io da Morte n.1 Crlanç.t e Outros Escr/(os
Aberastury, A: A Crldnça e Seus jogos
Aberastury &.. Knobel: Adolescência Normal
Aberastury a.. Salas: A Pdtemldade - Um Enfoque Ps/canaHc/w
Ackerman, N.: Dl.1gnóstko e Tratamento dru Re/.lções Familiares
Almard, Paule: A Linguagem da Criança
NASO s








Ajur!<�guerra 8... Marcelll: Manual de Ps/copatolog/a lnf,mtll
Ajuriaguerra, J.: A Dlslexla em Questão
A]uriaguerra, J.: A Escrita Infantil- Evolução e Dlflcu/d,lde
Albuquerque, T. Uns: Psicologia lt Educação
Afencar, Eunh.:e: Psicologia dd Crlddvldade
Alexa.nder, Franz.Med/clna Pslcossom.itica
Al!lende !'... Condemarin: A Leltt.Jr.:l
Andolfl, Maur!zlo: Por Trás da MJsc.:�ra Fi1IT1Hiar
DO SUJEITO SÍQUICO
Andolfl 1!... Angelo: Tempo e Mito em Psicoterapia Familiar
DO MITO À HISTÓRIA

• Aruleu, Dldler: A Auto-Andl/se de Freud e a De.scobem da Pslc.l-
nJ//.se
• Aucouturler e colaboradores: A Pr<it/c.l Ps/comotora
• Aucouturler 1!.. Llplerre: Bruno- Pslcomotrlcldade e Terapia
• Balaban, Nancy: O Inicio da VIda Escolar
• Baranger, W.: Poslç.áo e Objeto na Obra de Mel.lnle Klein
• Batblzet !!.. Dulzabo: Neuropsicologla
• Bellall &.. Smalh Psicoterapia de Eroergênc./.1 8.. Psicoterapli! Breve
� Bergeret: Personalidade Normal e P.1to/óg/Cd.
• Bergeret 8.. Leblanc: Toxicomanias
• Berges !!.. Lézlne: Teste de /mltaç.áo de Gestos
• Bettelhelm 1!... Zelan: Pski1I1állse da A/fabetfzaç.io
" Benelhelm, Bruno:Sobrev/véncl.l
• Blanck, G. 1!... R.: Psk:ologla do Ego- Teoria e Prática
• Bleger, José: Psicologia da Conduta
lc r lo
: ��:����:.t�,':: ·fjlf!';t:tl�r:;� t's��<tJ�!� �� ff i��r/a
• Blelchmar, Hugo: Depre.ss.Jo: Um Estudo Pslcanalftlco
• Blelchmar, Hugo: lntroduçJ.o Estudo das Perver5ões
.:10
• Blelchmar, Hugo: Narcisismo
r u fanra sma
:• :� Ps�c ��� �Pe�i�1!
���H�Gérard:
Bossuet, O Compurador na Escola - O Sistema Logo
• Bowlby, john: Uma Base Segura
• Brazelton: A Dln.ímh:a do Bebe
n d
: ������. LJ�1�,0;;:;��r=;��o �������co da 1: Infância
• Bryant 1!... Bradley: Problemas de Leitura na Crli!nÇ.:l
• Cabral, Lan:ta 8.. Tejera- fducar VIvendo- O Corpo e o Grupo
na Escola
• Calklns, lucy: A Arte de Ensinar a Escrever
• Cllasseguet-Smlrgel, J. 8.. Cols: Sejtual/dade Feminina
• Chasseguet-Sm!rgel, L.: As Duas Arvores do jardim
• Chasseguet Smlrgel: êtlca e Estética da Petvers.io
• Castorlna e Cals.: Psicologia Genér/c.J.
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• Chlland, Collete: A Crli111ça, a Faml1/a, a f.scol.1
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• Condemar!n, Mabel: A Escrita Criativa e formal
• Condemarln, Chadwlck 8.. Mlllc!c: Maturidade Escolar
• Costa 1!... K.atz: Dlnãmlca das Relações Conjugais
R /
:• ����� ��� t'R���n��7�c��ff�2;t ��
Curtlss, Sandra: A Alegria do Movimento na Pré-Escola
• Debray, Ros!ne: B�.siMãe.s em Revolta
• Decherf, Gérard: fdlpo em Grupo
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a em Dlnãmlca
:• g�U� �;t�����j���Id�� De�:O���!! m
Dolto, françolse: A Dificuldade de VIver
• Duarte, Bornhaldt !l.. Castro: A Pr.ftlc.l da Psicoterapia Infantil
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" Elkaim, Mony 8.. Cals.: Formações e Práticas em Terapli! Familiar
• Enderle, Carmen: P$lcologl.l da Adolescência
• Enderle, Carmen: Ps/cologld do Desenvolvimento R
" E.tchegoyen, Horácio: fundamentos da Técnica Psicanalítica
• fendrlck, Silvia: A Ficção das Origens
• Fernandes, Alicia: A /nteJJgéncla Aprisionada 0
• ferreiro !l.. Palaclo: Novas Perspectivas Sobre os Processos de
Leitura e Escrita
• ferreiro &.. Teberosk!: Ps/cogênese da Lingua Escrita "f
• Fogel 1!... Cals.: Pslcologl.l Masculina
Gambatoff, Matlna: Utopia da Fidelidade
articu\ar J7

• Garma, Angel: A Psicanálise- Teoria, Clínica e Técnica
• Gibello, Bemard: A Crianç:.:t com Distúrbios de Inteligência
• Glovacch!nl, P.: Roteiro à Leitura de Freud w Bib\io
teca P
• Golbett, Clarlssa: A Evolução Pslcollngüístlca e Suas Implicações
na AlfabetLzaç.áo
• Goldberg: Descomplicando .1 Psiquiatria
" Goodrlch et ai.: Terapia Feminista da Fa.m!11.1 '
• Goodwln, Guz.e: Diagnóstico da Doença Ment.1/
• Hararl, Roberto: Discorrer a Ps/Cd.nállse
-� Herren &.. Herren: A Esrimulaç.áo Pslcomotora Precoce
• Hlnshelwood: Dicionário do Pen.s.unento Klein/ano
: Hornste!n, L: Cura Pslc.lnalft/c.:l e Sublimação R
•: Horowltz, M.: Introdução à Pslcod/námlca
-•· ·Jerusallnsky, A.: Ps/Cd.nál/se da Autismo
• -J.eruSdllnsky. A.: PSICd.nJI/se e Desenvolvimento Infantil
Silvia Bleichmar

NASORIGE
DO UJEITO PSÍQUICO
DO MITO À HISTÓRIA

2ª Edição
Revista e aumentada
B646n Bleichmar, Silvia
Nas origens do Sujeito Psíquico: Do Mito à História f Silvia
Bleichmar; Trad. Kenia M. Ballvé Behr - Porto Alegre: Artes
Médicas, 1993

l. Psicanálise. I. Título

CDU 159.964.2

Bibliotecária Responsável: Mônica Ballejo Canto- CRB 10/1023 Tradução e apresentação à edição brasileira:
KENIA M. BALLVÉ BEHR
Psicanalista. Diretora do Núcleo de Estudos Sigmund Freud, PoA.

PORTO ALEGRE/ 1993


Obra originalmente publicada em espanhol sob o título
En los Orígenes del Sujeto Psíquico: Del Mito a la História
por Amorrortu Editores
Copyrighl Silvia Bleichmar, 1984

Capa:
Joaquim da Fonseca

Supervisão editorial:
Delmar Paülsen

Composição e arte final:


GRAFLINE -Assessoria Gráfica e Editorial Ltda.
Fone: (051) 341-1100

Para Carlos,
vigia da noite e da esperança

Reservados todos os direitos de publicação em língua portuguesa à


EDITORA ARTES MÉDICAS SUL LTDA.
Av. Jerônimo de Omelas, 670 - Fones (051) 330-3444 e 331-8244
Fax: (051) 330-2378 - 90040-340 Porto Alegre, RS, Brasil

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Rua General Vitorino, 277 - Fone: (051) 225-8143
90020-171 Porto Alegre, RS, Brasil

IMPRESSO NO BRASIL
PRINTED IN BRAZIL
Apresentação à edição brasileira
Kenia M. BaUvé Behr

Há, evidentemente, no movimento psicanalítico atual, divergências


teóricas e clínicas importantes entre diferentes escolas, e a tentativa de
alguns em insistir que se trata apenas de diferenças semânticas significa a
impossibilidade de identificar discursos que são não apenas divergentes
como contraditórios dentro da psicanálise. Diferenças não apenas entre
escolas, como também de muitas delas em relação aos' conceitos básicos que
sustentam a obra freudiana. A busca de uma unidade no pensamento
psicanalítico é já totalmente inútil em razão dos deslizamentos teóricos e
suas conseqüências clínicas que não mais permitem a concretização deste
ideal.
Esta realidade pode determinar às vezes uma tendência a um encerra­
menta em um modelo teórico que "dê conta" de todas as respostas, como um
modo de proteção a todos os questionamentos que inevitavelmente surgem
para aqueles que estão comprometidos com a tarefa analítica. Essa atitude
determina uma renúncia a um espaço do pensar que a prática constante­
mente nos impõe e que tem uma relação estreita com o vínculo que se
estabelece entre o saber e nossa capacidade de desejar. É o desejo, que surge
nas origens da vida, que nos remete a uma interrogação constante sobre a
psicanálise como um método que tem acesso ao saber. Desejo e saber que
nos movem na busca de respostas para os enigmas que a teoria e a clínica
psicanalítica nos laçam quotidianamente. Criatividade e possibilidade de
pensar a partir de um espaço que se abre além do próprio mundo interior.
Lugar desde onde pode surgir a liberdade de falar e de escrever, assim como

vii
viii I Apresentação à Edição Brasileira Apresentação à Edição Brasileira I ix
de ouvir e ler. Não só é necessário que se criem espaços internos para que Poder-se-ia identificar este livro, então, como um livro que está
ocorra o pensar, como também há determinadas condições que permitem destinado apenas a psicanalistas que se ocupam com a infãncia? Podemos
poder ouvir e ler a transmissão dos outros. afirmar que, evidentemente, não. E por várias razões:
A leitura muda quando podemos ler o que está escrito. Leva a um Quem sabe, a primeira delas, fica contundentemente esclarecida nas
confronto entre o conhecido e o desconhecido. Essa outra perspectiva que palavras de Bachelard: "Por alguns de seus traços, a infância dura a vida
surge daí certamente inquieta, pode abalar convicções vigentes até esse inteira. É ela que vem animar amplos setores da vida adulta. Primeiro, a
momento. Pode parecer arriscado e doloroso quando tememos que nossa infância nunca abandona as suas moradas noturnas. Muitas vezes uma
angústia fuja ao dominio de nossa liberdade. No entanto, ou nos expomos criança vem velar o nosso sono. Mas também na vida desperta, quando o
a essa experiência ou ficaremos encerrados em um mundo narcisista, devaneio trabalha sobre a nossa história, a infância vive em nós e traz o seu
defendendo-nos da angústia que o desconhecido nos traz, impedidos de beneficio. É preciso viver, por vezes é muito bom viver com a criança que
pensar, aderidos a certezas ilusórias diante de uma nova realidade proposta fomos. Isso nos dá uma consciência de raíz. Toda a árvore do ser que
neste fmal de século. Um livro, como diz Bachelard, possibilita uma técnica reconforta. (...) ... dramas da infância... esses dramas não se apagam, podem
de redução da angústia: "Um livro angustiante oferece aos angustiados uma renascer, querem renascer. (...) ...esse tempo de el�gia intima, esse tempo
homeopatia da angústia. Mas essa homeopatia age sobretudo numa leitura do pesar que perdura é uma realidade psicológica. E ele que é o tempo que
meditada, na leitura valorizada pelo interesse... e quando (o leitor) se toma dura... uma metáfora do inolvidável.(2)
bastante consciente da estética da angústia, está bem perto de descobrir-lhe E o que é o trabalho do psicanalista senão tentar ressimbolizar a
a facticidade. Porque a angústia é factícia: somos feitos para respirar infãncia maltratada que oprime o mundo interno do adulto e que ressurge
livremente ". (1) em um outro espaço e em um tempo diferente do tempo em que foi vivida?
Este livro, "Nas origens do sujeito psíquico", que tenho o prazer de A fala do filósofo refere o tema das raízes. O título do livro ressalta a
apresentar á Edição Brasileira, é um livro angustiante? Certamente que é. questão das "origens", origens do sujeito psíquico. O primeiro que me ocorre
Diria também, enfatizando Jean Laplanche, que é um livro importante, não ao pensar nas origens são as diversas concepções que existem sobre o início
apenas pelas idéias que condensa, como pelo modo que se insere na do mundo. Por exemplo, na mitologia grega, no princípio havia o Caos,
psicanálise atual. "personificação do vazio primordial, anterior à criação, quando a ordem
Na esteira das intensas contradições que se estabeleceram entre os alndanão havia sido imposta aos elementos do mundo''. Na tradição chinesa
postulados kleinianos para o atendimento de crianças e a proposta surgida "o caos é o espaçamento homogêneo, anterior à divisão em quatro horizon­
nos idos dos anos 70 que fazia do campo analítico exclusivamente o âmbito tes, que equivale à criação do mundo. Esta divisão marca a passagem a o
da linguagem, surgia a necessidade de um novo posicionamento técnico a diferenciado e a possibilidade de orientação, constituindo-se n a base de toda
partir de uma reavaliação das diferentes propostas teoricamente. Nesse a organização do cosmo".(3) E assim teríamos uma série de concepções
contexto se insere o resultado do processo de investigação realizado por diferentes sobre os "inícios", embora a maioria delas assinale uma situação
Silvia Bleichmar e que é apresentado neste livro. Inspirada pela realidade de caos inicial, um vazio primordial e a passagem do indiferenciado a um
existente e movida pelos questionamentos constantes que sua prática lhe diferenciado. As palavras poderiam ser quase as mesmas que a psicanálise
apresentava, a autora partiu da hipótese freudiana de que o recalcamento toma para falar das origens de um sujeito.
originário funda as barreiras entre os sistemas inconsciente e pré-incons­ No entanto, apesar disso e embora o mito nos conte a história do mundo
ciente/ consciente para definir seu posicionamento. Ressituou o recalcamento e dos homens, entre tomar uma verdade universal e entender a constituição
originário na constituição do aparelho psíquico, podendo, desta forma, do sujeito psíquico existe uma grande distância, pois para se reduzir o
propor a concepção de um "sujeito em estruturação" e redefinir o conceito universal no singular há que se fazer alterações profundas. Posso dizer,
de neurose na infância. então, neste sentido, que esse livro inicia onde termina o mito, porque a
Ao reconhecer que o inconsciente não está desde as origens, Silvia história, ao invés do mito, vai assumir uma importância fundamental nas
Bleichmar abre a possibilidade de pensar a prática psicanalítica com origens do aparelho psíquico, desde a singularidade de cada um. Posso
crianças desde uma perspectiva que propõe terminar de constituir um afirmar que o trabalho de Silvia Bleichmar, a partir de uma vertente da obra
aparelho psíquico em estruturação. Desta forma, voltando a Freud e freudiana, se dirige no sentido de filtrar o mito para desvendar a história,
retrabalhando suas idéias, define novos parâmetros para a psicanálise marcando um encontro com a figura materna, dando-lhe um lugar na
infantil. estruturação da sexualidade da criança - não apenas na instalação da
x I Apresentação à Edição Brasileira
Apresentação à Edição Brasileira I xi
desordem pulsíonal inicial, como em um trabalho de organização desse caos
cada manifestação de angústia, cada fato novo que surge a cada instante no
que constituí o primeiro tempo da sexualidade no ser humano.
espaço que compartilha com aqueles a quem analisa. Ao deixar-se falar
Quando aborda a questão das origens do aparelho psíquico, no
livremente, transmite em uma linguagem sonora e precisa aquilo que pensa
Capítulo 4, afirma que na psicanálise de crianças o psicanalista se verá
e observa. E se observa e compreende seus "pequenos" pacientes, é porque
confrontado com tempos avant-clivage que poderão ser considerados em um
ao lado da objetividade de uma arqueóloga da alma, surge uma psicanalista
verdadeiro processo histórico de constituição do sujeito psíquico. Propõe a
que é capaz de reconhecer e de amar o núcleo de infância sempre vivo dentro
hístorícídade do recalcamento originário e seu caráter estruturante, consi­
de cada um de nós.
derando, no entanto, a realidade historicamente constituída como diferente
Como um modo de apresentar brevemente o conteúdo deste livro, diria
dos constituíntes que a determinam.
que o primeiro capítulo, um dos últimos a serem escritos, é o es ��ço onde
Embora n a clínica (;üm pacientes neuróticos adultos o analista não
Silvia Bleíchmar aborda mais especificamente o tema da pratica com
será testemunho destes momentos iniciais estruturantes do sujeito psíquico
crianças. Denuncia a crise da clínica psicanalítica, onde o que observa são
-na medida em que neste paciente existe um aparelho psíquico clívado, um
ações cujos princípios não se justificam nos desenvolvimentos teóricos que
inconsciente e um ego já constituídos-, o fato de acreditar em um processo
parecem dar-lhes suporte. Propõe repensar os postulados teóricos que
histórico defme um posicionamento técnico diferente daquele que seria
regem a clínica, para de fin� , desta maneira, novos modos de o�e: ar na
adotado desde uma perspectiva fitogenética. O modo de compreender a
constituição do aparelho psíquico deve determinar os fundamentos que
psicanálise de crianças. A esteira principal de onde parte: a reVIsao os �
movimentos fundantes do aparelho psíquico, na busca de novas soluçoes
regem a prática de todo psicanalista. Segunda razão pela qual afirmo que
para os transtornos graves precoces. Desde modelos freudianos, trabalha os
este livro não dirige-se apenas a psicanalistas de crianças. E mais, o
indícios de falhas estruturais que podem ser observadas no trabalho com
processo de investigação de Silvia Bleichmar abre a possibilidade de serem
crianças que apresentam severos transtornos da linguagem, dos processos
repensados aspectos da metapsicología que determinam novas perspectivas
lógicos e das determinações espaço-temporais. Conclui pela necessidade de
na prática psicanalítica de adultos, em que o que predomina não são os
um novo ordenamento, recuperando descobertas efetuadas pelo próprio
determinantes neuróticos da vida psíquica.
Freud, "buscando, por baixo das linhas manifestadas abertas, aquelas
Na verdade, o rigor com que Sílvia Bleíchmar busca a relação entre a outras que se enlaçam dando conta de um entramado que não fora
metapsicología e a clínica, definindo a importância fundamental da vinculação oficialmente proposto, e que, ínclusive, entra em contradição com outras
·
entre a teoria e a técnica é o que se observa na leitura de cada um dos asseverações do próprio texto", conforme diz.
capítulos deste livro. Priorizando fundamentalmente os conceitos que No Capítulo 2, a partir do estudo do núcleo patógeno e da formação d e
alicerçam o pensamento de Freud, propõe uma coerência entre o conheci­ sintomas na infância, questiona o conceito de "neurose infantil", propondo
mento e a transformação do objeto, que seja o reflexo da posição adotada pelo que seria mais adequado falar em conflitos neuróticos infantis, na medi a
_

psicanalista em relação a esses conceitos básicos, porque acredita que esta em que a primeira infância pressupõe um sujeito em estruturaçao, CUJO
postura terá conseqüências fundamentais ao agir clínico e, conseqüente­ núcleo patógeno deve ser precisado desde a defmíção do mome �to em q_ue
mente, em seu posicionamento ético em relação àquele a quem analisa. se encontra o processo de constituição do aparelho psíquico. Propoe tambem
Condição ética e científica que, para ela, só existe a partir de um não neste capítulo, tema que retoma sempre, mas mais exaustivamente nos
dogmatismo, em que os paradigmas teóricos adotados devem ser constan­ Capítulos 8 e 9 - onde se discute a questão da simbiose, do narcisi�mo �
temente repensados e submetidos à prova clínica. da dupla função materna: a mãe que sexualiza o filho mas que tambem da
Este livro- "Nas origens do sujeito psíquico"- reflete, neste sentido, a ele uma imagem de si constitutiva do ego -, o caráter estruturante da
seu modo de pensar e de agir como psicanalista. Sua afeição pelos conceitos relação da criança com o outro, situando a estruturação da tópica psíquica
bem nomeados determina um interesse renovado diante de qualquer no marco de uma tópica intersubjetiva, ressaltando, no entanto, que a
sutileza que questione verdades aparentemente bem estruturadas. Assim, intersubjetividade não é suficiente para explicar o conflito psíquico.
evidencia uma exigência constante de pensar e de precisar a ação frente aos No capítulo que dedica à constituição da ínteligência, questiona
enigmas aos quais se vê enfrentada no seu agir clinico. Diria que é uma criticamente o fato de ser atribuído ao inconsciente a mesma realidade que
exigência que, muitas vezes, torna-se leve, na medida em que se enlaça com é atribuída à linguagem. Defende a idéia de que "o inconsciente é uma
um pensamento naturalmente inquieto, curioso e sempre interrogante, que estrutura radicalmente diferente do pré-consciente/ consciente, cuja carac­
dá passagem a um entusiasmo por desvendar cada sintoma, cada silêncio, terística é a possibilidade de ser signíficada na medida em que as representa-
xii I Apresentação à Edição Brasileira Apresentação à Edição Brasileira I xiii

ções-coisa se conectam com as representações-palavra." Em relação aos A apresentação deste livro implica, para mim, um comprometimento
chamados transtornos da linguagem ou transtornos de aprendizagem na que está além da ação formal de um leitor atento de um livro, que tem como
infãncia diz que, na maioria das vezes, são conseqüência das falhas da objetivo falar do valor da obra. Minhas palavras refletem o que tenho podido
constituição do recalcamento originário e que o estudo da divisão entre os aprender com Silvia Bleichmar ao longo destes últimos anos, não apenas no
sistemas psíquicos permite compreender a constituição da lógica e do juízo. que diz respeito à precisão que me ensinou amar no teórico, como em um
Atribui também ao déficit na constituição do recalcamento originário posicionamento ético diante da psicanálise, desde uma postura de rigor
algumas dificuldades que têm relação com alterações da memória. critico e de respeito em relação as diferenças do pensar. No entanto, além
No capítulo em que analisa as frases das crianças, propõe que o vazio mesmo de meu agradecimento, busquei com cuidado cada palavra que
do pronome deve ser ocupado pelo sujeito imaginariamente investido de pudesse dar ao leitor a dimensão da importãncia do conteúdo deste livro
atributos, única forma du discurso se constituir como enunciado. Segundo para a psicanálise atual. A obra está aí para justificar meus comentários.
pensa, as falhas na discriminação do discurso são uma conseqüência do Pois bem... entrego a Bachelard o encerramento desta apresentação:
"Mas não basta receber, é preciso acolher. É preciso ... "assimilar". Dividam
déficit na constituição do sujeito, na diferenciação entre os dois sistemas
cada uma das dificuldades em tantas parcelas quantas forem necessárias
psíquicos e no funcionamento do processo secundário. Desta forma,
para melhor resolvê-las. Sim, mastiguem bem, bebam em pequenos goles,
também estabelece uma relação entre os movimentos estruturantes do
saboreiem verso por verso os poemas. Todos esses preceitos são belos e
aparelho psíquico e a constituição da linguagem na criança.
bons. Mas um princípio os comanda: Antes de mais nada, é necessário um
Quando revisa as questões relacionadas com o campo das chamadas
desejo de comer, de beber e de ler. É preciso desejar muito ler, ler maís, ler
psicoses infantis, diz Silvia Bleichmar: "Construir um mapa sobre a
sempre."(4)
geografia existente não implica o mesmo esforço nem a mesma desesperação
a que o analista de autistas se vê submetido quando se encontra com o
deserto carente de acidentes geográficos. Meu paciente era um terreno
Notas de referência
selvagem, no qual Deus havia deixado cair ao azar uma montanha, um rio,
um vulcão, às vezes inclusive negligentemente no mesmo lugar, mas onde l. Gaston Bachelard. ·A prática do devaneio". Martins Fontes, São Paulo, 1988, p. 1 5.
os objetos habitavam e a presença de esboços de angústia indicavam a 2. lbid., p. 20, 2 1 .
vigência de precipícios antecipatórios de um psiquismo normal." A partir de 3 . Junito de Souza Brandão. Mitologia grega, Voi. I . Editora Vozes Ltda. Petrópolis. Rio
um material clínico, mostra a possibilidade de constituição de urn psiquismo de Janeiro, 1 986, p. 184
4. Gaston Bachelard, op. cit., p. 26.
no processo analitico, assinalando os momentos iniciais do tratamento em
que se observa o desconhecimento total do analista por parte da criança,
mostrando os primeiros episódios de transferência negativa e a importãncia
do "não" do analista como estruturante do psiquismo, assim como o início
dos primeiros sintomas em sentido psicanalitico propriamente dito-enfim,
o recorrido para uma criança chegar a ser um sujeito humano.
No último capítulo de seu livro, Silvia Bleichmar aborda a questão da
constituição sexual masculina, discutindo o tipo de identificação que o
menino deve realizar antes do sepultamento do Édipo e o movimento que vai
desde a captura no mundo materno até o movimento em que o menino se
apropria dos traços sexuados do pai. Parte do princípio que o menino se
apropria dos traços sexuados do pai. Parte do princípio que, paradoxalmen­
te, a homossexualidade - fantasiada ou atuada - é constitutiva da
passividade dos primeiros anos em relação à mãe, o menino deve enfrentar
a contradição de incorporar o atributo da atividade genital masculina ao
mesmo tempo que recusar-se a si mesmo o desejo homossexual que seria
então reativado.
Sumário

Apresentação à edição brasileira


Kenía M. Ballué Behr ...................................................... vii

Prólogo
Jean Laptanche . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . .. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. 1

Palavras preliminares . . . . .. . . .. . . .. . . . . . . .. .. . . .. . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . 7

Impasses e aberturas -No tratamento dos


1 transtornos graves precoces ................................. .. 9

O conceito de neurose na infância a partir do


2 recalcamento originário . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . ..... . . 20

Notas para a abordagem da constituição da


3 inteligência em psicanálise .................................... . 41

4 Mito o u história nas origens d o aparelho psíquico .......... . 58


76
5 Notas sobre a memória e a curiosidade intelectual · · · ·
· · · · · · ·

93
6 Frases das crianças, estrutura do aparelho psíquico ........

os na constituição
Transtornos da linguagem: transtorn
7 do sujeito psíquico . . .. .
.. . . . . . ......
........ .. . . . .... . . . . . ......
.. · 1 15

Relações entre o recalcamento originário


8 e o princípio de realidade ....................
.................. .. 141
Prólogo
Do !ádo da mãe 165
9 .............. .............................................. ·
Jean Laplanche

ulina 185
1Q Paradoxos da constituição sexual masc
.................. ·

Conclusões .................. . ........ · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · ·


196 Eis aqui um livro importante; entendamos essas palavras injetando, no
termo "importância", a dupla dimensão presente no alemão Bedeutw1g e n o
inglês significance: o que constitui seu valor não ê apenas o peso das idêias
e da argumentação interna; tambêm a forma em que se inscreve, em que
"toma sentido" em um contexto geográfico e histórico: o da psicanálise
mundial, hoje. O lugar ê o Mêxico, aberto por sualocaliz'ação e pelos destinos
de uma conjuntura histórica, aos ventos do Norte, do Sul e do Leste. O tempo:
o do inventário por fazer e da herança por receber de três grandes
dogmatismos em vias de desaparecimento: Ego-psychology, kleinianismo e
lacanismo. Não pelo prazer de destruir revelando as debilidades e aportas
dos sistemas, mas tambêm não no afã de refazer um edifício eclêtico, nem
na pretensão de acampar tiritando sobre as ruínas de toda a teoria,
envolvidos na delgada tela remendada e cheia ele buracos da "clínica". Vir
depois de outros não ê nem uma: fonte de riqueza nem uma maldição, mas
pode ser um privilêgio se se sabe como situar-se em relação a eles, na posição
precisa, sígnificatiua, que o habilite a fazer trabalhar suas propostas, e ainda
mais parajazê-1as trabalhar novan1ente.
Trabajo de1 psicoaná1isis ê o título da revista fundada por Silvia
Bleichmar, e ê a máxima do presente volume; trazer de volta as grandes
interrogações que nos foram legadas por Freud, já que os conceitos que ele
f01jou são, na realidade, transmitidos no movimento psicanalítico como um
conjunto de interrogações, de enigmas ou, segundo o termo que define a
própria puisão, como "exigências de trabalho".

1
2 I Prólogo Prólogo I 3
Que o vento do Leste, aquele que sopra principalmente da França, seja cientes, não modifica em nada o caráter concreto, datável dos acontecimen­
dominante nesta impulsão a questionar, a problematizar e a elaborar é, sem tos (exteriores ou psíquicos) que o método propõe-se a exumar. Pois bem, o
dúvida, uma das razões que levou Silvia Bleichmar a pedir-me para lacanismo, remetendo a história contingente do individuo (o imaginário) a
acompanhá-la e por á prova da discussão um itinerário já firmemente uma intemporalidade ao mesmo tempo transindividual e constituinte (o
assegurado. Que este texto tenha podido - em sua forma de série de simbólico), entrega toda a teoria a uma revisão dilacerante, aonde as noções
capítulos, certamente complementários, mas mais envolvidos em espiral de cronologia, de evolução e mesmo de trauma são consideradas outros
que cimentados em uma demonstração - encontrar sua consagração em tantos veículos de falsas questões. Na prática, para dizer a verdade, essa
um doutorado em psicanálise, mostra que a Universidade segue sendo um comoção é menos sensível, ao menos quando se trata da cura de adultos.
lugar privilegiado para um questionamento autêntico, sem conclusões pré­ Porque, de ct;rto modo, não traz grandes conseqüências o fato que o
concebidas, que une o rigor sem concessões de seu itinerário à prudência complexo de Edipo ou o de castração, revelado ou reconstruído em sua
frente a toda clausura apressada. universalidade, seja um apriori reitor de toda humanização ou deva ser
O lugar importante reservado às observações de casos, mas com situado efetivamente no passado histórico de cada individuo. O "em outro
participação não menos ampla da discussão meta psicológica, defmem esta tempo e ontem não mais" da infãncia e o intemporal do simbólico têm que
obra. Não como exterioridade recíproca da"teoria" e da "clinica", senão como ser reconstruídos, um e outro, pelo método interpretativo, e o juízo de
um permanente voltar da prática sobre sua própria experiência: uma realidade histórica cede passo, na cura, à restituição da realidade psíquica
experiência particularmente fecunda em Silvia Bleichmar, pela riqueza e em seus plenos direitos. Dir-se-á, também, queFreud estendeu mais de uma
pela variedade de seu exercício de psicanalista, mas sobretudo pelo aspecto vez a mão, frente às aporias da reconstrução genética, a sua posterioridade
pessoal, reflexivo, e como o expressa um termo que merece melhor sorte do estruturalista, com conceitos como "fantasma originário" ou ainda "mito
que às vezes lhe é dado, "comprometido". Porque não encontramos aqui as cientillco".
confissões de "contratransferência", tais como "o que meu paciente me disse Para a psicanálise de crianças, em troca, a alternativa entre geneticismo
produziu-me algo em algum lugar", que estão em vias de converter-se no e estruturalismo é decisiva na prática. QueFreud, em um momento de genial
cartão de visitas (ou cartão de crédito?) melhor recebido em certos círculos. temeridade, proclame ao pequeno Hans que, desde toda a eternidade, ele
Simplesmente, uma presença atenta, vigilante, ao que, no "fazer" e no"dizer" sabia "que amaria de tal maneira sua mãe que estaria forçado a ter medo de
cotidianos do psicanalista, sobrepassa, transborda suas intenções ajusta­ seu pai", deixa-nos, depois de um momento de suspensão, com mais
das. "Quem sou eu para ter dito ou ter feito isto, para ter-me proposto perguntas que respostas: que faz Freud frente a uma situação edípica tão
imprimir tal ou qual direção ás coisas? E qual é a teoria latente (acaso manifestamente trivial, senão injetar, como por força, a "Lei"? E para que
inconsciente) que está na base de certa intervenção que me surpreende e que perguntar-se como se constrói a estrutura psíquica da criança, seafirmamos
me destina aos efeitos do apres-coup?" Em suma, é sob a égide da práxis, do que a estrutura fundamental transcende, rege, predeterrnina toda peripécia
ato analítico, que se realiza a tão desejada aliança teorético- clínica. Mas com individual e circunstancial? Na década de 1970, quando se desenvolve a
a condição de não esquecer que a prática psicanalítica, por sua vez, não é interrogação de Silvia Bleichmar, a tese estruturalista dava lugar inclusive
um "fazer" manipulador, senão um dizer simbolizante, o que a assemelha, a excessos teoréticos-práticos desconcertantes: a criança ficava como
embora em nível diferente, á própria teorização. desapossada de sua neurose ou de sua psicose em beneficio da rede
Esta ubiqüidade da teoria nos explica que questões aparentemente relaciona! preexistente a seu vir-a-ser e à sua própria existência. Mas e m
abstratas, mesmo filosóficas, se tomem urgent�s. torturantes, quando se virtude d e u m curioso arrependimento, a estrutura patógena não emigrava
trata de orientar-se em uma cura psicanalítica. E o caso de duas interroga­ ao céu das idéias: recaía, concretamente, na configuração psíquica dos pais
ções, uma ligada à outra, que recorrem este livro: a relação entre gênese e e, singularmente, da mãe, convertida em responsável por todos os males.
estrutura e o estatuto do recalcamento originário. Periodo talvez superado, em que a criança ou o psicótico eram considerados
Avalia-se mal a comoção- outros diriam: a subversão- introduzida puro sintoma doEdipo parenta!. Pois bem, precisamente, um trabalho como
no freudismo pelo estruturalismo lacaniano. Porque a psicanálise, em sua o deSilviaBleichmar, contribui de modo decisivo para esta superação, sem
origem freudiana, quer ser antes de tudo descoberta e reconstrução de uma abandonar nem a preocupação pela gênese, nem a referência indispensável
gênese histórica: a do ser humano, de seus conflitos e de sua neurose. Que a estruturas preexistentes ao individuo particular. O leitor verá com que
a história psicanalítica se desenvolva em uma temporalidade muito particu­ atenção, em cada um dos casos clínicos apresentados, é mantida a
lar, destinada ao apres-coup e referida à perenidade dos fantasmas incons- discriminação entre "o que se encontra na estrutura no momento em que o
4 I Prólogo Prólogo I 5
sujeito se insere nela e as condições de apreensão dos elementos desta por apres-coup, que não apenas põe em jogo a instância do ego senão a do
parte do sujeito". Ingresso na estrutura, portanto; ou também, como superego, em uma constelação edípica consumada.
preferimos dizer, no universo de significância dos adultos, mas com essa Cada uma das observações apresentadas propõe uma figura singular
cláusula suplem entária (no que Silvia Bleichmar quis seguir nosso pensa­ com referência a este eixo principal; convida o leitor, analista, a acompanhar
mento): que entre a estrutura preexistente (dos adultos) e a estrutura Silvia Bleichmar, a dialogar- até a controvérsia- mentalmente com ela,
terminal (do psiquismo da criança) se intercala um processo complexo de para verificar as hipóteses que propõe e as opções terapêuticas (dispositivo
"metábola", que não permite em absoluto descobrir uma homotetia entre as da cura, intervenções, interpretações) que delas derivam. O leitor se sentirá
duas escrituras; um processo cujo resto, o não-metabolizado, é precisamen­ sacudido pela aliança de entusiasmo, de não prevenção mas, ao mesmo
te o inconsciente. tempo, de sagacidade que anima esta prática teorético-clínica . Uma prática
Com o nascim ento do inconsciente, estamos no tema central do livro: que se situa no próprio centro do questionamento psicanalítico contempo­
o "recalcamento originário". Um termo, um conceito freudiano que ficou à râneo e que testemunha que este não está destinado, apesar de certas
espera, como hipótese indispensável para compreender todo recalcamento: aparências, nem à cacofonia, nem à desenvoltura "poética", nem à repetição
"... temos razões para supor um recalcamento originário, uma primeira fase dogmática ... Trabqjo de psicoanálisis.
do recalcamento...". O recalcamento originário só pode serpostuladoa partir
de seus resultados; isto deixava aberto o caminho para interpretá-lo como
um "tempo mítico", com toda contradição da própria expressão: um tempo
fora do tempo mas que admitiria ser descrito como uma sucessão temporal.
A fascinação pela noção de mito em psicanálise não é fortuita, nem é
fácil dissipá-la. Obedece, cremos, a razões profundas e, em particular, a essa
estranha temporali dade do ser humano, destinada ao apres-coup. Se são
necessários sempre dois traumas para fazer um trauma, dois tempos
diferentes parafazer umrecalcamento- equivale a dizer que o recalcamento
originário, o traum a-. não podem jamais ser assinalados com o dedo em
uma observação direta (mesmo sendo analítica), condenada a situar-se
sempre muito cedo ou muito tarde. Mas não é menos certo que a opção
"mítica" abandona esta singularidade da descoberta psicanalítica; e é com
toda razão que Silvia Bleichmar questiona definitivamente sua facilidade:
"Os tempos míticos não são construções, são movimentos reais, de estruturação
do sujeito psíquico que, mesmo quando não possamos capturar em sua
subjetividade, podemos cercar como se cerca um elemento na tábua
periódica de Mendeleiev... Talvez não podemos tocá-lo, mas sim podemos
conhecer seu peso específico, sua densidade, seu efeito, sua combinatória".
Cercar os momentos do recalcamento originário, mas também suas
vicissitudes, suas insuficiências, suas desigualdades ou seus fracassos, é
então estabelecer os marcos de referência dos tempos constitutivos do
inconsciente e de seus conteúdos fantasmáticos. Demarcação que, na
criança, é de importância decisiva para a prática (diferente do que ocorre na
cura do adulto) porque na escolha do dispositivo terapêutico é determinante
saber se nos situa mos antes ou depois da constituição do inconsciente e, em
que medida, dentro de qual configuração. E isto sem contar que esta
constituição mesm a, se é que se quer acompanhar Silvia Bleichmar neste
ponto, não ficadefmitivamente seladaantes da intervenção do recalcamento
"Se Aristóteles tivesse cozinhado, muito mais teria escrito".

Sor Juana Inês de la Cruz.


Palavras preliminares

Ser psicanalista implica situar-se na série das gerações. No consultório,


quando a prática cotidiana nos impõe um trabalho pem1anente d e
historização, aprendemos o quanto é difícil o processo pelo qual se discrimi­
na o que é -existente no inconsciente - do que poderia ser. ou do que foi
-temporalização que introduz o índice de realidade. É assim também como
se produz o trabalho teórico: romper amarras imaginárias, discriminar
aquilo que se pensou daquilo que o processo de elaboração mostra como
resultado, submetendo-nos a um trabalho permanente.
A neutralidade teórica é tão complexa como a neutralidade analítica.
Para que a acolhida benevolente de um texto se produza é necessário estar
disposto a esperar o inesperado. a não deixar-se submeter pelas paixões
mas. ao mesmo tempo. a conseguir uma boa dose de sublimação daquilo que
se nos representa. Tentei aproximar-me aos textos que abordo com o mesmo
espírito que me anima em relação aos pacientes que apresento. No entanto.
como ocorre também com eles. em certas ocasiões o amor e o ódio se ativam
no baquet psicanalítico e a neutralidade é um ideal ao qual se tende, sem
jamais consegui-la totalmente. Tratei de impedir - apesar disso - que,
igual que na escuta analítica, as emoções cegassem meu processo d e
conhecimento. Não creio que o tenha conseguido sempre. D e todos modos,
espero não ter dito mais do que me corresponde na tentativa de dar a
entender aquilo que começo a compreender.
Se as circunstâncias propiciam a benevolência de meus leitores, devo
dizer -como atenuante -que não são tempos fáceis os que nos tocam viver

7
8 I Palavras Prelirninares

1
e que o compromisso abarca todos os nossos sentidos. Permiti-me, em
muitas ocasiões, que a emoção do compromisso atentasse contra o rigor.
Isso de modo algum me desculpa, mas sabê-lo pern1itirá a quem se encontre
_
com esse fen omeno. abordar com menor dificuldade aqueles momentos em
que minha escrita está embargada por minhas paL'>:ões de sujeito.
Durante sete anos, longe dos lugares que constituem o centro de meu
universo pessoal, tanto a investigação psicanalítica como minha convicção
profunda na capacidade transfom1adora da psicanálise me ofereceram a
possibilidade ele reparar as lesões que a História infringira, em um mesmo
movimento, tanto a meus pacientes como a mim mesma. Muitas das
Impasses e aberturas
crianças das quais falo nos tell.ios que fom1am esta tese, retornaram a seus
países ele origem, outras estão para fazê-lo. Mesmo para aqueles que não No tratamento dos transtornos
�ofre :am p �rclas tão massivas (exílios, migrações, lutos precoces) . o futuro
1med�ato nao se apresenta sem dificuldades. Espero ter aj udado todos eles graves precoces
a aumentar sua capacidade critica e sua independência ele pensamento,
tanto no que diz respeito a si mesmos como frente ao mundo que os rodeia.
Este clescentramento ele si mesmos e a recuperação ele sua história lhes
permitirá ampliar sua margem ele liberdade dando-lhes ferramentas para
compreender com maior profundidade o difícil tempo novo. Quase inevitavelmente, depois ele Freud, na história da psicanálise, prática
Não creio que isto implique em uma proposta educativa no sentido e teoria vão cada uma por seu lado. Se um teoricismo dogmático parecia
tradicional. Sim, creio que a prática psicanalítica não é alheia a uma ética, reger grande parte elos trabalhos realizados na década ele oitenta, os anos
que diz respeito á ampliação elas margens da liberdade de dizer, ela liberdade noventa p arecem estar atravessados por um retorno ao empírio-clinicismo
de pensar. Há que ter-se atravessado o doloroso caminho de um processo no qual apenas o trabalho com o paciente torna-se soberano. E, no entanto,
�alítico para reconhecer o quanto é difícil o movimento de conquista desta este retorno circular,que retoma os postulados empiristas da psicanálise
hberdacle de p ensamento, movimento realizado sempre em uma luta intensa
anglo-saxã dos anos 50, apresenta-se tão inovador como enganoso.
contra as ataduras imaginárias com que as paixões amarram o pensamento.
A prática analítica está em crise, e isso não é apenas efeito elas
De Jean Laplanche, quem orientou minha busca, interrogando, ques-
. condições tanto econômicas como sociais na qual se desenvolve. A prática
twnanclo, permanentemente oferecendo pontos ele partida, aprendi a abrir­
analítica está em crise a nível ele seus fundamentos, onde se expressam as
me com maior liberdade e soltura ao pensan1ento psicanalítico que me
mais variadas fónnulas quejustificam o fracasso ou a imobilidade, mediante
precede, assim como ao de meus contemporãneos. Carlos Schenquerman
arepetição, até o cansaço, dejustificativas de uma ação cujos princípios nem
ensinou-me, tanto na viela como na psicanálise, a diferenciar cuidadosa­
sempre - mais ainda, na maioria elos casos - se derivam das formulações
mente a exigência rigorosa, elo dogmatismo e da intolerãncia. Rafael Paz
teóricas que p arecem regê-la.
guiou com precisão e respeito minhas primeiras leituras psicanalíticas; seu
Esta crise arrasta consigo as potencialidades produtivas de um campo
�ensamen�o critico sempre aberto à escuta produtiva permitiu uma de conhecimento que sabemos que é válido, e cujos efeitos foram provados
mterlocuçao que se estendeu ao longo dos anos, além mesmo da clistãncia,
em um vinculo marcado por minha gratidão e meu afeto. Situada na série ao longo de um século. Não se trata, portanto, de passar da esperança
das ger�ções elevo dizer que tive o privilégio de que tanto meus pais como enlouquecida à desesperança absoluta, senão ele saber, minimamente, onde
meus filhos sempre ajudaram a criar um espaço - além mesmo das estamos estacionados.
circunstância� difíceis que nos tocaram viver - onde foi possível pensar. É com pacientes graves que a crise teórico-clínica que arrastamos s e
Todos eles habitaram meu mundo interno e me acompanharam no processo nos propõe, d e modo mais imperativo, como um problema ético: "As
destas reflexões. necessidades materiais de meu semelhante são obrigações morais para
mim"1• Anos de infãncia perdidos, irrecuperáveis para a recomposição

9
10 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 1 1

psíquica, dão conta, ao longo do tempo, da necessidade de estabelecer esvaziada de conteúdos que esteriliza o ãmbito da produção como um
paradigmas claros para nossa ação. discurso que se desliza sobre o fenômeno não só sem penetrá-lo senão, e m
Quantas crianças com problemas de aprendizagem, com diagnóstico certos casos, sem nem sequer roçá-lo.
de transtornos do desenvolvimento, déficits funcionais básicos ou, simples­ Sabemos, por outro lado, que nossa psicopatologia é insuficiente. Que
mente, "personalidades difíceis", nos chegam à consulta nos tempos se caracteriza, em primeiro lugar, por uma transposição das categorias da
cronológicos de saída da infância, evidenciando urna verdadeira psicose psicopatologia adulta à criança e, em segundo lugar, por uma série de
clínica com produtividade alucinatória ou delirante. Quantas crianças descobrimentos anárquicos e pontuais que apenas permitem algumas
manifestam, entre os dez e os quatorze anos, processos francos de irrupção detecções grosseiras sem que seja possível um ordenamento (as psicoses
psicótica, ante o olhar desconcertado de um terapeuta que não previu, às simbióticas de Mahler, os desenvolvimentos a respeito do autismo psicogênico
vezes durante um longo tempo transcorrido de análise, que aquilo com o que de Tustin). A isso se soma a ignorância que ernbarga o meio psicanalítico nos
se enfrentava não era simplesmente um conflito interfamiliar ou um últimos anos tanto no que diz respeito aos descobrimentos obtidos por
conglomerado fantasmático e sintoma! de origem inconsciente que, supu­ outros campos do conhecimento como em relação ao já adquirido e m
nha, cederia ao longo da análise. psicanálise.
Quantas crianças, enfim, são encaminhadas por professores, neurolo­ _ . . . .
A questão não se mostra simples; nao se reduz a arnphar as posstbüt-
gistas, pediatras ou mesmo psicanalistas, a tratamentos funcionais de dades transforn1adoras de nossa clínica com pacientes graves a partir das
reeducação fonoaudiológica, psicopedagógica e psicornotora, sem que nem conceitualizações vigentes - as voltas em círculo que vemos ocorrer desde
sequer se suspeite que aquilo que dá origem ao déficit que motiva a consulta alguns anos dão conta de que uma perspec�va desta or d�U: n?s leva a u m
. _ .
não é a insuficiência de uma função específica senão um fracasso, parcial novo impasse. Para poder ampliar novos honzontes de e �tcacta e � eces �a?-o ,
ou geral, de suas possibilidades de estruturação psíquica. como sempre ocorreu em psicanálise, conceber novos parametros mtrateoncos
Isso ocorre em função de um desajuste de nossa teoria e nossa clínica? de ordenamento metapsicológico dos transtornos severos, transtornos que
Trata-se, simplesmente, de afinar nossas ferramentas para evitaras impasses abrem linhas irreversíveis de fracasso nos movimentos de constituição
com os quais nos enfrentamos diariamente? Trata-se de incorporar novas psíquica do sujeito.
técnicas ou, inclusive, como começa a surgir cada vez mais no meio, de Destinarei as páginas que se seguem, de modo resumido e tendo e m
retornar a esperança biológica e depositar nos novos descobrimentos vista u m objetivo preciso, a realçar quais são os elementos que, a partir dos
genéticos a possibilidade de transformação que parece subtrair-se a nossa modelos freudianos, possibilitam abordar os indícios de falhas estruturais
prática? Ou a solução viria no sentido de recorrer a urna suposta que escapam aos olhos dos analistas e que, considero, devem ser retomados
interdisciplinariedade na qual as disciplinas convocadas obturassem suas para nossa prática.
. _ .
próprias falências a partir de uma suposta ilusão de totalização que Em primeiro lugar, aqueles que se manifestam como tmposstvets de
permitiria o encobrimento das misérias vigentes? serem detectados sem uma revisão de conjunto dos paradigmas dominantes
Faz já muitos anos que não é esta a direção que escolhemos. Se nossa até há poucos anos, os quais impedem sua localização no processo de
prática está em crise, o mais lógico é submeter os postulados teóricos que abordagem da consulta e levam à escolha de estratégias que, desde nossa
a regem à revisão, visando uma reformulação que abra novas perspectivas perspectiva, implicam diminuição de possibilida? e� transformadoras: se�e­
e inaugure novos modos de operar. .
ros transtornos da linguagem, dos processos logtcos, das determmaçoes
É necessário trocar, totalmente, a perspectiva desde a qualfocalizamos a espaço-temporais (com suas conseqüências fenomenológicas: hipercinesias,
questão dos tempos de infância e, a partir disso, revisar os movimentos torpezas motoras ou, inclusive, dislexias e dispraxias).
jundantes do aparelho psíquico para que os transtornos graves com os quais nos As posições adotadas ante consultas deste tipo estão definidas, e m
vemos confrontados na clínica possam encontrar uma via de resolução. �
geral, pela espontaneidade mais absolu a: conside�rn: estes tr��tomos
_

_ tao facll como


Entre o geneticismo evolucionista que se manifesta no fato de conceber corno de ordem não psicanalítica - a partir de uma dtstinçao
as falhas da constituição psíquica como déficits funcionais, por um lado, e errônea entre "o afetivo" e "o cognitivo" que, transpassando a psicologia,
o estruturalismo que remete a psicopatologia infantil a suas determinações invade a psicanálise- e remetê-los então aos mais variados tratamentos de
edípicas sem diferenciar entre estas detern1inações e os modos específicos reeducação específica; empreender o processo da cura exercendo satura­
de operacionalizar nos tempos de infãncia, por outro, o campo da clínica fica ções de sentido através da atribuição fantasmático-sintomal a formações
entregue à improvisação e à ineficácia reiterada, ou, mais ainda, à repetição que dão conta mais de um transtorno estrutural do que da operacionalidade
1 2 I Silvia Blciclzmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 1 3

pontual do inconsciente; acompanhar o tratamento individual da criança e de operacionalização do princípio de não contradição, podem ter algo que
com entrevistas familiares , de binômio ou de casal de pais como um "tenteio" ver com os movimentos fundantes do psiquismo e com os tempos nos quais
que mantém múltiplos enfoques simultâneos sem que esteja claro desde o aparelho p síquico se constitui.
qual perspectiva específica opera cada indicação; propor, pura e simples­ Que ocorre. por outro lado, com o exercício clínico daqueles que s e
mente, o tratamento do casal parenta! situando o tipo de determinação do alienaram na corrente impulsionada pela psicanálise francesa contemporâ­
transtorno a partir deste, em uma confusão generalizada e freqüente entre nea que segue Lacan? A maior virtude que este posicionamento revolucio­
condições e �ípi �as, de início, e estrutura psíquica, de chegada, quer dizer, nário inaugurado na metade de nosso século teve foi marcar o caráter
estmtura pstqmca com um funcionamento específico na criança; propor, em exôgeno e de cultura da fundação do inconsciente. Realçar, mediante uma
outros casos, que estas duas últimas opções se combinem com variados inversão da perspectiva freudiana, o movimento que, desde a estmtura do
trat�mentos colaterais ele acordo com a dominância do transtorno presente: Édipo, faz o sujeito inicialmente submergir-se em um mundo sexttado e
ele lmguagem, de aprendizagem, psicomotor, etc. simbólico que constitui a premissa de base da constituição do inconsciente.
As conseqüências são ele ordem diversa: um menino com transtomo No entanto, o movimento estruturalista não permite, de nenhum modo,
das relações temporo-espaciais é tratado por um analista "que deixa ele lado enfrentar duas questões centrais: por um lado, que os tempos desta
seu funcionamento cognitivo" e se dedica a resolver os conflitos interfamiliares fundação do inconsciente não são tempos míticos senão tempos reais, e que
ou suas angústias orais, anais ou ele castração, sem que estas tenham um seu cercamento deve ser explorado nâo apenas a partir das condições d e
estatuto metapsicolôgico preciso jã que o que interessa é "interpretar o estmturaçâo nas quais o sujeito se constitui senão das vicissitudes histó­
incons �ient :" (t� é a dominância ela Ego-psycho logy, que segue manifestan­ ricas que a precipitam em diversas direções. Por outro lado, que o estatuto
elo sua mfluenc1a, mesmo para analistas que não embarcam nesta corrente, da linguagem deve ser situado desde uma dupla perspectiva: desde aquela
ao sustentar um ego função que seguiria um caminho independente em elas condições ele estrutura eclípica, por um lado - enquanto universal
relação ao fur:cioname n�o psíqui�o mais geral) . Em outra linha de pensa­ estruturante -, e, por outro lado, enquanto aquisição que é efeito de um
mento, tambem analthca, _ supoe-se que todo transtomo é efeito ela posicionamento metapsicológico nâo estabelecido inicialmente no sujeito
opera�ionalização de um fantasma inconsciente, e a p artir disso o que se em constituição: caráter segundo ela linguagem em relação à barreira do
tenta e atrib !lir um sentido - seja intrapsíquico, seja intersubjetivo -, aos recalcamento originaria. O terceiro elemento que obstaculizou uma perspec­
.
transtomos, fac1lmente concebidos como sintoma, que a criança manifesta (o tiva mais fecunda para os desenvolvimentos lacanianos provém ela perspec­
kleinianismo seguiu esta variável, produzindo saturacôes ele sentido ' em tiva invertida com a qual a criança é concebida: enquanto significante fálico
alguns casos não sem resultados, a partir de certa ant�opomorfização dos da mãe, que vem obturar a castração, seu posicionamento está definido
processos estmturai s , concebendo sua falha, em geral, como defesa) . enquanto objeto e não como sujeito. O sintoma, enquanto tal é, então,
O que constitui o substrato comum de ambas as situações, de ambas sintoma do outro; sua posição de mónada unificada, marcada pelo desej o do
perspectivas clínicas falidas, em nossa opinião, é o fato de que algo se outro, não abre a possibilidade de conceber o próprio sintoma, na infância,
desloca sob uma lente conceitual aparentemente diversa: a impossibilidade como efeito do conflito intrapsíquico. Em tal sentido , a perspectiva que
de situar � estatuto metapsicológico do inconsciente, seus tempos de enfatiza o ponto ele vista interacional, que já era realçado em certos textos
estmturaçao, e o fato de que este não se sustenta senão a partir ele suas de Maud Mannoni, que aproximam a psicanálise empírico-lacaniana a certa
relações com outro sistema psíquico: o pré-consciente-consciente. "familiologia", não é um desvio secundãrio a ser corrigido, senão o efeito d e
Em ambos os casos o inconsciente "é o dado": determinado u m posicionamento intersubjetivo d e origem, que fecha toda possibilidade
endogenamente, existente desde as origens da vida, o método analítico não de compreensão da produtividade p síquica da criança. A "referência a o
se afasta do modo clássico tal como foi concebido, de início, para a desejo matemo" deve ser retomada e m termos metapsicológicos para abrir
abordagem das neuroses: método e>..irativo. técnica da interpretação, a exploração dos processos metabólicos com os quais o sujeito incipiente s e
levantamento do recalcamento . . . o sujeito, centrado no inconsciente, encon­ apropria d o objeto enquanto fonte de sexualidade e sirnbolizaçâo, e arran­
trará seus próprios movimentos inteligentes a partir do momento em que 0 cada da linealiclade diluente na qual desembocou.
analista precipite este movimento que o catapulta desde a recusa pulsional Como recuperar, então, os descobrimentos efetuados - em primeiro
ao reconhecimento de suas próprias moções inconscientes. lugar pelo próprio Freud - e propiciar um ordenamento que nos permita
Sob nenhuma perspectiva, então, se propõe que os mecanismos da inaugurar novos avanços na clínica? Como efetuar urna virada ele nosso
inteligência, quer dizer da lôgica, com suas categorias temporais, espaciais olhar sobre este campo tão complexo dos transtomos graves e elas psicoses
1 4 I Silvia Bleic/wwr Nas Origens do Sujeito Psíquico I 15

infantis para começar a encontrar linhas terapêuticas capazes de enfrentar, João sente intensos terrores à noite. Sua alimentàção também é
de modo responsável, as condições de nossa prática e abrir novas possibi­ complicada: não come carne nem, em geral, alimentos que tenha que
lidades de eficácia transformadora? destruir com os dentes ou mastigar. Papinhas, arroz, hambúrguer, revelam
uma severa inibição para a mastigação. Conserva uma enurese ocasional,
e, eventualmente, de dia, e em situações muito variadas, incontinência anal.
uma inversão da persp ectiva do campo Quando fala, em certos momentos, é difícil compreendê-lo, já que, como fez
na entrevista, brinca com sua língua como se esta fosse um bico na boca.
João, de cinco anos, entra no consultório arrastado pela mão de sua Os problemas de dicção parecem estar associados a este fato: a boca não é
mãe. O olhar concentrado , o passo desarmônico, brinca com a língua no uma cavidade virtual, é um buraco, real, que deve ser preenchido e, por isso,
interior da boca, de onde escorre um fio de baba. Foi enviado pelo Jardim de a língua vem a ser um objeto estranho que pode ser utilizado com estes fins .
Infância, onde não parece poder enfrentar as tarefas da pré-escolaridade que Situemos rapidamente, a partir destes poucos elementos que tomamos
sua idade impõe. Parece abúlico durante a entrevista, na qual, no entanto, para a descrição, as linhas abertas em relação à situação proposta. O motivo
se negou a entrar só. Sentado ao lado de sua mãe, enquanto ela fala, passa
de consulta nos confronta, em uma primeira aproximação, com um conjunto
sua mão livre por seu colo, acaricia-lhe as pernas, sem que ela pareça
de fenômenos não sintomais. Trata-se de um transtorno geral do funciona­
manifestar nenhuma incomodação por essa mãozinha que desliza, inclusi­
mento psíquico, e não de uma constelação neurótica particular em u m
ve, às vezes, pela entrepema, produzindo, em mim mesma, certa sensação
menino que, cronologicamente, s e supõe que teria quej á estar e m condições
de pudica incomodidade.
de estabelecer seus primeiros sintomas- enquanto produtos transacionaís,
Na vida cotidiana João não parece disposto a aprender nada: não
efeito de uma solução de compromisso entre os sistemas psíquicos em
consegue nenhum tipo de representação gráfica, não se interessa pelas
conflito. João não apresenta fobias, também não está afetado pelas primei­
instruções que a professora propõe e, no entanto, diferente de qualquer
ras formas de representações obsessivas que poderiam aparecer nestes
autista, não está ausente dos vínculos com o semelhante: em certas
momentos fundantes em relação à estruturação do Édipo complexo.
ocasiões, como um cachorro torpe e excitado , tenta abraçar um coleguinha
As dificuldades para a simbolização gráfica não deixam de estar e m
com um. movimento asfixiante como se seu corpo pudesse fundir-se com o
outro. "E muito carinhoso", diz a mãe; "me beija, me abraça forte, às vezes relação com a torpeza motora e o transtorno da lógica que se manifesta na
me cansa com seus excessos . . . " Uma certa torpeza motora caracteriza os linguagem: falha na constituição das relações espaço-temporais que dão
atos deste menino: não pode medir sua própria força: empurra outro menino conta de que o ego representação não logrou instalar suas coordenada s
e não mede as conseqüências, atira objetos e não se dá conta que pode definitivamente e m relação a uma tópica demarcatória tanto d o interno­
machucar alguém. externo do inconsciente como do externo-exterior da realidade circundante.
Há transtornos da linguagem: desde o ponto de vista da fonação um A mão que desliza pela entreperna materna, a encoprese ocasional, que
balbucio que toma difícil distinguir os vocábulos; em relação à estrutura, se dá conta de uma não recusa dos modos primários de resolução auto­
bem pode articular logicamente no que diz respeito a expressar um desejo: eróticos, marcando, em conseqüência, a não instalação definitiva d o
"mami, vamos" - diz em certo momento da entrevista -, se expressa certa recalcamento originário. Quando s e joga compulsivamente sobre o seme­
desorganização no manejo do tempo e do espaço: "que há na frente?" me lhante, quando a "pulsão de se apoderar" mostra seu profundo enraizamento
pergunta, se referindo a uma porta que separa meu consultório de outro sádico operando em uma apropriação fagocitante do outro, evidencia que o
ambiente; "ontem, fomos ontem" intervém, quando a mãe me conta que faz que está em j ogo não é a agressividade estrutural da primeira infância a
algum tempo, fizeram uma consulta psicopedagógica porque no colégio já partir dos equilibramentos narcisistas, senão u m movimento pontual de u m
começavam a preocupar-se por suas futuras dificuldades. sujeito pontual no qual ainda falham o s objetos d e intercâmbio que
Depois o relato se estende pelas dificuldades conjugais dos pais. O pai, metonimizam simbolicamente o corpo alheio a ser apropriado. Não se trata
que tem dois filhos mais velhos de um casamento anterior, não parece muito da intenção d e se lançar sobre o carrinho que outro menino tem em suas
comprometido na relação com esse filho que chegou um pouco tarde em sua mãos, se bem pode arrebatá- lo sem que isso implique ódio a seu possuidor:
vida. "Creio que o agarrei cansado", diz a mãe. Ela mesma, que se casou mais o sujeito e o objeto se fundem em uma alternância que dá conta ele que, em
velha, não sabe muito bem o que fazer com esse menino a quem se dedicou princípio, o que não se metonimizou através dos dons é o próprio corpo
devotadamente e ante quem se sente desconcertada. matemo.
1 6 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 17

Não se havendo estabelecido o intercâmbio que dá origem ao objeto metaboliza11te, dos alimentos. O processo simbólico terá que ser afetado, a
enquanto dom do semelhante, não é estranho então que João não tenha partir disso, de dois modos: por um lado, sob o efeito de uma inibição que
usado bico, não tenha tido objeto transicional, e que o corpo da mãe se dá conta da presença de fantasmas sádico-incorporativos-canibalísticos,
ofereça como um contínuo auto-erótico de sua mão que se desliza sem para apelar a urna terminologia clássica-; por outro lado, das irrupções d e
transições da própria boca à entrepema cedida sem estremecimento. Acaso processo ptimàrio que u m recalcamen to que não termina d e se instalar deixa
uma mulher pode receber uma mão alheia sobre suas zonas erógenas sem aberto nas próprias fronteiras do ego afetando os modos de operacionalização
se �terar? Trata-se de um traço geral de frigidez o que presenciamos, ou dos processos secundários.
ma1s bem, de uma aceitação prazerosa que não chega a se tomar excitação Que tipo de estratégia é então necessária para abordar os transtornos
recusada na me ?ida em que a :não de seu filho é ainda parte de seu próprio de estruturação que se evidenciam nestas primeiras consultas? É indubitável
�orpo_? .�or�ar o mgresso de Joao nas categorias que possuímos dá conta da que estamos ante um primeiro momento que não pode se desenvolver senão
msuflCJencm de uma psicopatologia que vem operando como emprestada: na direção de uma exploração mais exaustiva. A indagação posterior até
este menino não é, indubitavelmente, um autista; também nào é uma definir a direção da cura deve estabelecer mais claramente se as hipóteses
patologia sirnbiótica clássica: ingressou na escolaridade sem dificuldades, propostas são corroboradas em uma direção mais certeira, ou se novos
procura entrar em contato com outras crianças, e aproveita sua presença. elementos podem por em tela dejuízo o que foi proposto até aqui. No entanto,
. já sabemos, pelos determinantes estruturais intrapsíquicos encontrados,
No Jard1m, quando brinca no pátio, não se mantém isolado nem aderido à
profess? ra, senão que se lança ao espaço compartilhado com o comporta­ que não se trata de começar uma análise clássica na qual o recalcarnento
.
mento av:d� e �orpe q�e d �s �reve� os. Também não é uma psicose precoce - secundário - seja levantado p ara fazer circular os fantasmas inconsci­
com dommancm esqmzofremca: nao apresenta logorréianem fuga de idéias, entes que determinam o complexo sintoma! e lograr sua perlaboração no
comportan1entos bizarros nem impossibilidade de ser controlado. · pré-consciente.
Jo�o é um protótipo. urr;a das inumeráveis crianças que circulam pelos Forçar precocemente a inserção do pai real como suporte da função
.
�onsu!t�no .
s e para os quais se decide uma estratégia terapêutica como simbólica não p arece, ao menos até agora, possível. Pode-se pedir a alguém,
. tentew , d:ante da falha de categorias intrateóricas para precisar o movi­ a nível de sua vontade e consciência, que seja diferente a como é e que opere
mer:to e �tnto de estruturação no qual se encontra, apelando para isso a de modo diferente a como o faz? Grande parte dos tratamentos de família ou
noçoes tao vagas como ineficazes. de casal parecem destinados ao fracasso f!. partir disso: busca- se, desde uma
degradação do conceito de estrutura do Edipo ao de estrutura familiar, que
_Trata-se de uma captura no interior da mãe fálico- narcisista? É as figuras reais sejam as que assumam tarefas para as quais, em muitos
poss1vel. Que ê o que o diferencia então de uma psicose sirnbiótica? Trata­
se d� um � desorganização pulsional de base, de uma dificuldade para a casos, estão estruturalmente impossibilitadas.
subhmaçao? E em função de que, intrapsiquicamente, se constituiu desse Inaugurar uma referência materna em relação a u m terceiro implica,
?
m� do Não é suficiente al?enas marcar o movimento que, desde a própria j á, abrir um campo de circulação obturado desde as origens. Que a mãe se
mae, Joga nesta direção. E indubitável que esta mãe, que "encontrou seu posicione transferencialmente em relação ao analista - recolhendo uma
marid � cansado", não alude com isso apenas à dificuldade que suspeita111os transferência que, indubitavelmente, permitiu que esta mãe escute a
que ex1sta para o exercício da função paterna. recomendação da escola e, como surge de relatos posteriores, do pediatra-,
Se os componentes primálios pulsionais seguem operando, é indubitável abre um pólo que situaJoão em um referente edípico diferente. A partir disso
. é que se inaugura a possibilidade de aj udar a mãe para que ela "empreste
que 1sto se constituiu intrapsiquicamente, efeito de uma estrutura edípica
que o �etermina, mas que não pode vir a ser causa exlJlicativa da a força de contrainvestimento ao recalcamento originário" que a falta de uma
metabohzaçao endopsíquica que João exerceu a respeito. Uma vez posto em referência terciária obstaculizou.
andamento, o apar�lho psíquico do menino seguiu um movimento que O pai real poderá, a partir disto, se inserir na medida em que se abram
enlaça �s��s determmaçoe _ s sob um modo singular,
jogando com uma gama os espaços que possibilitem um movimento menos trabalhoso para este
de posstbthdades abertas em leque e que dão conta da complexidade que homem "cansado", mais preocupado neste momento pela proximidade de
deve ser abordada: ao mesmo tempo em que parece não poder terminar de sua própria velhice, mais dedicado à rememoração de seus próprios
sepultar em seu inconsciente os representantes pulsionais de base, que se fracassos históricos, que no enfrentamento edípico necessário com este filho
recu �a a um abandono dos modos primários de resolução auto-erótica, este ao qual já cedeu na batalha, na medida em que não sente que haj a tempo
menmo manifesta urna inibição para a incorporação trituradora, suficiente para aproveitar o triunfo.
1 8 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 1 9
Terminar de fundar o recalcamento originário, em um movimento que freudiana e , neste próprio processo, dar conta das contradições e impasses
separe o interno-externo do inconsciente do e>-.iemo-exterior do semelhante que, desde o campo teórico, metapsicológico, devem ser depurados, revisa­
matemo é a única via para que o exercício pulsional direto inaugure um dos e postos em dia para gerar fundamentos válidos para permitir novos
caminho sublimatório. O espaço e o tempo então terminaram de se avanços.
constituir como categorias que regem os intercâmbios libidinais: distância Para isso, é necessário exercer certos ordenamentos de leitura que
que "me" separa do objeto, posicionamento do mesmo "adiante" ou "atrás", considero válido transmitir: em primeiro lugar, mais que remeter-se aos
"antes" e "depois" marcando os intervalos reguladores que assinalam a textos genético-evolucionistas que o próprio Freud propõe como modelo para
presença e a ausência . . . "A mim", "ante isto", "cabe em", "con-migo" , as abordar a constituição das "funções" no sujeito - textos, por outra parte,
preposições adquirem seu valor funcional, diferencial, no interior de uma marcados por uma imprompta psicológica que são resp�nsáveis, ei? g:ande
linguagem que se constitui, então, como representação-palavra, em seu medida, pelos impasses antes assinalados na perspectiva mms class1ca da
estatuto segundo, situada no sistema pré-consciente-consciente. psicanálise de crianças: Formulações sobre os dois princípi�s dojUnc}onamen­
Apenas quando a boca seja uma cavidade virtual, e os buracos do corpo to menta[, o segundo capítulo de O ego e o id, textos nos qums a funçao_ parece
marquem seu caráter de borda em relação a um todo egóico no qual João ser definida por diferenciações sucessivas e corticais .-. recorrer a�ue es �
possa representar a si mesmo, a metaforização graficada poderá tomar, outros nos quais é oferecido um modelo de funcwr,mme�to . ps;qmco
ludicamente , um sentido de figura. Com isso, também, o zero e o um serão fundante do próprio inconsciente: o Projeto para uma pstcotogta ctentífica, o
possíveis, a partir da seriação que abre um contínuo organizante na capítulo VII de A interpretação de sonlws, os trabalhos metapsicológicos de
descontinuidade pontual que constitui o mundo regido por indícios sobre o _
1 9 1 4 e 1 9 1 5, Atém do plincípio de prazer, ou inclusive algumas observaçoes
qual João ainda não pode exercer nenhum tipo de poder que não seja como do terceiro capítulo de O ego e o id, Inibições, sintomas e ansiedade, etc.
o de um corpo a corpo. Trata-se, sobretudo, de uma leitura " a contrapelo" , no sentido estrito
Nesta etapa, a intervenção no corte da relação mãe-filho,enquanto do termoz, buscando, por baixo das linhas marlifestas abertas, aquelas
"castração simbolizante" não pode senão ser exercida no interior do espaço outras que se enlaçam dando conta de um entramad? que não fora
analítico. A estratégia escolhida será então a de um período de tratamento _
oficialmente proposto, e que, inclusive, entra em contradiÇao com outras
no interior da díade, acompanhada por entrevistas de pn b que permitam , se asseverações do próprio texto.
for possível, ampliar o lugar do pai real em relação à função simbólica Definir, a p artir disso, a operacionalização do método, sabendo que.este
instaurada. não é universal senão efeito das delimitações precisas impostas pelo obj eto,
Um segundo tempo de tratan1ento individual com João pem1itirá a é a tarefa que deve ser proposta como preliminar a toda intervenção clínica
recomposição das constelações fantasmáticas e tem1inará de ordenar as nos tempos de infância.
passagens de constituição das instâncias ideais, a partir da polarização .
Nessa perspectiva, nossa clínica será mais racional, pode-se diZer
transferencial das vicissitudes do Édipo complexo e seu sepultamento. Só necessária, a intuição submetida à prova da metapsicologia, e o prazer do
então, talvez, os déficits intelectuais, efeito de tempos não organizados que descobrimento permitiráobter um plus no marco das responsabilidades que
marcam toda sua evolução p sicossexual, serão plausíveis de serem nos mobilizam.
retrabalhados em um tratamento psicopedagógico que harmonize o novo
processo inaugurado com as exigências que a vida cotidiana impõe.
Esperar "curar" aos pais para que sua mudança incida na estruturação Notas d e referência
da criança é perder os tempos de infância, irreversíveis , nos quais as
instâncias segundas devem ser instaladas e, a partir disso, fundar o 1. E. Levinas, Du sacre au saint.
inconsciente como inconsciente recalcado. 2. Em algumas espécies de cavalos, a cor do pêlo tem uma variação na tonalidade que
A intervenção precisa, por outro lado, não pode ser efeito senão de uma vai desde a raiz até a ponta, e o manto unificado se evidencia, ante um olhar atento,
como se fosse de origem diferente. A cor do pêlo pode ser observad a, por ?utra � an:_e,
leiturametapsicológica do momento de constituição do aparelho psíquico da
em lugares onde falta o pêlo ou este seja muito curto. Isto pe �. te a d1ferenc:aç�o
criança e das condições estruturais que o fundam. categórica das pelagens jã que não apresenta atenuantes, senao que constitUI a
Desde uma perspectiva que nos parece cada vez mais fecunda, faz já própria essência do animal.
muitos anos que tentamos encontrar uma via de rigorização da prática
clínica com crianças através de sua correl;1.ção com a metapsicologia
Nas Origens do Sujeito Psíquico I 21

pequeno artigo que escrevi em 1976 mostrava a imagem grotesca de um


analista aterrorizado, agarrado firmemente à poltrona, preocupado em
evitar qualquer deslizamento "pré-científic o", "ideológico", na interpretação,
mais do que interessado no processo da própria cura em que se encontrava
comprometido.
Interpretação da transferência em relação à história, interpretação da
história em função da transferência, interpretação Iacunar ou transcrição
simultânea, interpretação da defesa ou interpretação do conteúdo, interpre­
tação, enfim, ou não interpretação, eram algumas das opções nas quais nos
debatíamos.
Suponho que este mesmo processo, com apenas alguns anos d e
o conceito de neurose na infância diferença, deve ter sido vivido em diferentes âmbitos nos quais a psicanálise
se desenvolve.
a partir do recalcamento originário Mas no campo da psicanálise de crianças a situação tornou-se mais
complexa. Um certo purismo que fazia do campo analítico exclusivamente
o âmbito da linguagem, e isso através do movimento discursivo do paciente,
põs em crise a própria técnica na qual nos tínhamos baseado até este
momento, a técnica dojogo, proposta e desenvolvida por Melanie Klein entre
1920 e 1940. Como trabalhar, se se abandonava a técnica do jogo com
Há dez anos, quando comecei a interessar-me pela problemática que hoje se crianças pequenas, em um momento de sua evolução em que a linguagem
converte em tema deste texto, estava nesse momento da formação analítica ainda não podia ser a ferramenta de trabalho possível?
pelo qual todo praticante que começa deve ter passado e que se caracteriza Este tipo de conflito levou, em alguns anos, a uma saída fácil, mas não
pelo manejo timido e ao mesmo tempo temeroso de lidar com os precários por isso frutífera: o abandono do campo da clínica de crianças por uma
conhecimentos teóricos que possui no campo da clínica. .
quantidade de psicanalistas, que não puderam enfrentar-se com o conJunto
Em meu país, a Argentina, desde a década de 1970, produziu-se um de contradições que esta mesma prática lhes propur;tha. Outros, entre o s
movimento teórico complexo e revulsivo que pôs em crise os modelos teórico­ quais me incluo, nos propusemos revisar o s princípios fundamentais d e
clínicos sustentados até esse momento. Efetivamente, a Escola Inglesa, da nossa própria técnica, a partir das novas propostas que o processo teórico
corrente de Melanie Klein, tinha sido a guia que direcionava nosso trabalho. abria.
Mas no início de 1970 se introduziram conjuntamente os princípios da Em meu caso particular, pareceu-me mais produtiva alinha que punha
epistemologia althusseriana e os trabalhos da escola psicanalítica francesa; em jogo a redefinição de neurose na infância, partindo da concepção de um
começamos a ler Freud de outra maneira, guiados pelo Vocabulário da sujeito em estruturação. Foi ficando cada vez mais claro para mim que não
psicanátisede Jean Laplanche e Pontalis, o CotóquiodeBonneva� Vidae nwrte se podia defmir a p riori nenhum tipo de técnica se o conceito reitor de
em psicanálise ou o s Escritos de Lacan. A situação era tal que alguém que se recalcamento originário não fosse ressituado assim como o lugar deste na
propusesse a abordar a tarefa clínica tinha a impressão de que começava a constituição do aparelho psíquico. O "mito" do recalcamento originário devia
ter mais claro o que não podia fazer, e não tanto o que podia, no campo ser retomado como conceito e posto em j ogo no próprio campo clínico.
específico, tomando como eixo as novas problemáticas que se abriam a partir Parti, então, da hipótese desenvolvida por Freud na Metapsicotogia
do chamado "retorno a Freud". ( 19 15) , que postulaque o recalcamento* 1 fundaa diferença entreos sistemas
Essa busca submetia aqueles que se iniciavam na tarefa analítica a inconsciente e pré-consciente- consciente, e que antes disto são os outros
uma situação muito estressante, já que não contávamos com princípios
diretivos claros nem com guias técnicas que nos permitissem saber com que
parâmetros nos devíamos manejar quando nos encontrávamos frente áo *1 [N.T. Optamos por traduzir o termo Verdrãngung como recalcamento � · não, �?� o
repressão, que é a tradução adequada do alemao _ para o espanhol ( repres1on ) .
paciente. Chegou-se a tal grau de maniqueísmo ciência-ideologia, que um
?,
Seguimos Laplanche e Pontalis n o Vocabulário a Psicanálise (págs. 552 e 594), o
_ ou supressao
que nos permite diferenciar recalcamento (Verdrangung) de repressao _
20 (Unterdrückung). Será assim a tradução deste termo daqui em diante.]
22 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 23
destinos pulsionais - o retomo sobre a própria pessoa e a transformação não se pode compreender em si mesmo, senão no conjunto das representa­
no contrário - que podem atuar como defesa. ções que o originam.
O recalcamento originário era, por outra parte, nesta formulação Primeira conclusão trivial que podemos extrair: se todo sintoma s e
freudiana, a condição de transformação do prazer em desprazer, em relação manifesta como um sinal, nem todo sinal é um sintoma. N o entanto, esta
com a pulsão, porque a possibilidade de exercício do prazer em um sistema aparente trivialidade permite-nos orientar-nos no emaranhado de conclu­
se convertia em desprazer em outro sistema. sões com que, às vezes nos aparece, a clínica de crianças. Manifestações de
Em continuação: quem sofre? e por quê? se transformaram nas conduta das crianças não podem ser entendidas em si mesmas como
perguntas chave para propor-me qualquer tipo de começo de intervenção sintomas no sentido psicanalítico, enquanto não nos manejemos com uma
terapêutica possível. defmição deste último que permita caracterizá-lo com maior precisão.
Vou desenvolver agora essas idéias relacionadas com o conceito de Substitutivo, em segundo lugar, remete ao caráter simbólico do
núcleo patógeno e de formação de sintomas na infância, com vistas a sintoma, enquanto representação indireta e figurada de uma idéia, de um
apresentar o modelo do que, eu entendo, será meu processo de investigação. conflito, de um desejo inconsciente. E se é simbólico, se é substitutivo, se
Em primeiro lugar, assinalarei que se a teoria do recalcamento é a marca o aparecimento deformado de um desejo, estamos falando de
pedra angular sobre a qual repousa a teoria das neuroses na psicanálise, o deslocamento como mecanismo de funcionamento do inconsciente?
é a partir de marcar sua correlação com o conceito de inconsciente e, por isso, A extensão do conceito de neurose variou; atualmente o termo tende a
de sujeito cindido, quer dizer, de sujeito em conflito. ser reservado para as formas clínicas que podem ser relacionadas com a
Quero, por outra parte, deixar assentado que no momento falarei de neurose obsessiva, com a histeria e com a neurose fóbica. A tendência,
sujeito no sentido amplo, no sentido geral do termo, equivalente a psiquismo. então, é o abandono da classificação das denominadas "neuroses atuais" e
Não o farei por agora remetendo-me às categorias propostas por Lacan para as "neuroses de caráter" a partir da consideração de que, seja qual for o valor
a definição deste termo: sujeito do imaginário, sujeito do enunciado, etc. desencadeante que os fatores atuais possuam, é sempre nos sintomas aonde
Em tomo destes eixos que marquei me introduzirei no problema do encontra-se a expressão simbólica de conflitos estruturais.
sintoma para ver como se desenvolve a proposta. Pois bem, qual é, neste marco, o sentido de manter o conceito de
Em Inibições, sintomas e ansiedade1, Freud começa pela observação de "neurose infantil"?Tomandoessaidéiareitoradeumsujeitoemestruturação,
que as circunstâncias de um caso real de doença neurótica são muito mais não deveriamos mais adequadamente falar de conflitos neuróticos infantis,
complicadas do que supomos enquanto trabalhamos com abstrações . Em na medida em que toda a primeira infância é um processo altamente
princípio resulta dificil averiguar qual é o impulso recalcado, qual é o complexo que submete o sujeito psíquico em constituição a movimentos
sintoma substitutivo e qual o motivo do recalcamento. O pequeno Hans suficientemente lábeis e massivos para que não tenhamos que propor os
nega-se a sair à rua porque tem medo dos cavalos. Esta é a matéria prima elementos como definitivos?
que se oferece à nossa investigação. O sintoma pode ser considerado o Se pretendemos situar mais precisamente este problema da neurose
desenvolvimento de angústia?. Ou talvez a escolha do objeto desta? A infantil (que pode seguir tendo valor descritivo), será necessário repensar a
renúncia ao movimento livre? Talvez vários destes elementos conjuntamen­ noção de conflito na criança, além mesmo das classificações evolucionistas
te? Onde està a satisfação pulsional que o pequeno Hans se proíbe e por que e de uma cronologia empírica na qual as noções psicológicas de "desenvol­
esta proibição? vimento", maturação, crescimento, seguem atuando dentro do campo
Freud propõe, neste caso, um modelo de análise da neurose. Primeiro, psicanalítico sem que se ponha em tela de juízo sua função.
definição do sintoma. Logo, busca da satisfação proibida. Por último, motivo Para isso, nos situaremos de início em uma concepção do sujeito
da proibição. De qualquer maneira, e em uma primeira aproximação, psíquico cuja tópica se apresenta intersubjetiva desde o início. No marco
podemos dizer que tudo transcorre "dentro do psiquismo do pequeno Hans" , desta tópica intersubjetiva ocorrerá um processo de constituição do apare­
que o conflito possui um caráter intrapsíquico mesmo quando possa ter lho psíquico que no momento de abordar o diagnóstico do núcleo patógeno
conseqüências no mundo externo e receber influências deste. deveremos levar em conta para precisar, em um corte, em que momento
Na parte II do mesmo texto defme o sintoma nos seguintes termos: "O desta constituição se encontra.
sintoma seria, pois, um sinal e um substituto de uma satisfação pulsional Se a idéia de onde partimos é que a tópica psíquica se constitui em um
que permaneceu em estado latente; é uma conseqüência do processo de marco da tópica intersubjetiva que o Édipo defme com sua estrutura, é
recalcamento". Aqui o sinal remete a uma manifestação, um observável qu_. necessário assinalar que me propus, como primeiro movimento de indaga-
24 I Silvia Bleic/unar Nas Origens do Sujeito Psíq uico I 25

ção, a revisão do conceito de inconsciente que se encontra na base das sobreposição entre o que a mãe supre e o que a criança poderia conceber.
concepções clínico- técnicas que se desenvolveram até o momento na Para o observador, a criança percebe aquilo que a mãe realmente apresenta,
psicanálise de crianças. mas essa não é toda a verdade . . . Não há intercâmbio entre a mãe e o bebê.
Revisei atentamente os textos kleinianos e fiz outro tanto com os Em termos psicológicos o bebê recebe de um seio que faz parte dele e a mãe
trabalhos de Maud Mannoni e Anna Freud. Não acredito que seja necessário dá leite a um bebê que é parte dela mesma. Em psicologia, a idéia de
insistir nos méritos dos aportes de Melanie Klein à psicanálise de crianças; intercâmbio se baseia em uma ilusão do psicólogo"2• Entre a tópica do
hoje em dia é impossível dedicar-se à prática clínica com crianças sem ter vinculo ou a tópica edípica e a tópica do sujeito, em geral as correntes
sua obra presente. A abordagem kleiniana da neurose e do conflito como clássicas oscilam.
problemática intrapsíquica não deixa lugar a dúvidas em relação a seu Por exemplo, tomemos um tex'i:o que realça justamente o oposto que
caráter altamente freudiano, como também, por exemplo, sua tentativa de Melanie Klein. Refiro-me à A Primeira en.treuista em psicanálise, de Maud
por em jogo a problemática da pulsão de morte no domínio da clínica, que MannonP. O trabalho de Maud Mannoni, apoiado na teorização lacaniana,
até então tinha sido proposta em um terreno puramente especulativo. é deslumbrante, marcou uma revolução em nossa fommçâo ao oferecer uma
No entanto é necessário, em minha opinião, diferenciar os elementos nova ferran1enta técnica: a entrevista mãe-filho. Permitiu correlacionar o
que dão início à constituição do aparelho psíquico, que levam à estruturação desejo matemo com a patologia infantil e, desta maneira, abriram-se novas
do aparelho, do funcionamento destes mesmos elementos uma vez este sej a possibilidades de compreensão para esta mesma patologia. Não creio
constituído. necessário estender-me sobre isso. Mas há um ponto que diz respeito ao
Para ser mais precisos: o fato que o sujeito psíquico que se oferece ao tema que venho expondo, e cujo aprofundamento me preocupa: o problema
conhecimento psicanalítico seja um sujeito em coni1ito, marcado pela cisão , da especificidade sintomática.
não implica que isso seja assim desde as origens , ou ao menos com as O primeiro caso que Maud Mannoni nos apresenta é de um menino d e
mesmas caracteristicas ao longo de seu processamento. Melanie Klein dá­ onze anos incapaz de seguir o nível d e uma classe de quarta série; as
se conta disso, dai que inaugure uma indagação em relação às defesas dificuldades surgem especificamente em matemática. O menino foi objeto de
precoces, defesas que devem ser consideradas como elementos constitutivos consultas médicas desde os quatro anos (não se diz porque) . A partir da frase
do psiquismo e anteriores ao recalcamento originário. Situo-as no momento inicial: "Repare, tenho um irmão engenheiro e um filho como este" , Maud
da constituição dos destinos pulsionais que o próprio Freud dá como Mannoni dedica-se a trabalhar os detalhes da história da mãe, sua
anteriores ao recalcamento. No entanto, desde a perspectiva que propomos orfandade de pai desde a idade de quatorze anos, a debilidade e submissão
e diferente do kleinianismo, estes movimentos pulsionais, estas defesas pre­ a uma mãe fálica, a sombra desta avó sobre o casal que ela constitui com
coces, sofrem uma reestruturação não apenas quantitativa, senão integradora, um homem débil e tímido. O menino teve transtornos de linguagem desde
no momento em que o aparelho atinge sua constituição definitiva. que começou a falar; tem uma relação simbiótica com sua mãe, toda a
Por suposto que esta diferença de Melanie Klein,que assinalo, não agressividade lhe está proibida, o ideal paterno proposto ao filho pela mãe
opera simplesmente em relação às defesas, senão que marca a abertura de é o tio materno. A imagem do pai aparece em segundo plano, não conta. D e
duas grandes problemáticas: por um lado, a diferença entre inconsciente que se trata n a realidade? - diz a autora -, "de uma insatisfação d a mãe
originário e inconsciente desde as origens e, por outro lado, o papel do outro como filha? ( . . . ) A esta mãe depressiva a quem nunca consegue satisfazer,
humano na constituição do sujeito e o problema da constituição da tópica tenta ocupá-la, pelo menos mediante seus fracassos e sua conduta fóbica,
psíquicano marco de uma tópica intersubjetiva. Não fazemos comisso senão que aparece aqui mais como a expressão do desej o materno do que como
retomar uma linha que vem desde o próprio Freud. O modelo de "Luto e uma doença própria do menino".
melancolia", vigente na segunda tópica (por exemplo, no terceiro capítulo de Assim François aparece como menino joguete, entregue às mulheres
O Ego e o Id}, mostrou o caráter estruturante que a relação com o outro tem da casa "para ficar tranqüilo" (palavras do pai)4•
para o sujeito humano. O texio que estamos vendo gira em torno da posição do menino e m
Encontramos a mesma preocupação nos desenvolvimentos de Winnicott. relação ao desejo matemo. Não conhecemos e m que consistiram os trans­
Dizem OBru:cc:r e a realidade:"Um bebê . . . ê capaz de conceber a idéia de algo tornos da linguagem mencionados, que características teve a escolaridade
que a�endena a crescente necessidade . . . Não se pode dizer que o bebê saiba . até o momento da consulta, como são suas relações com as outras crianças,
de saida, o que deve ser criado. Nesse ponto do tempo a mãe se apresenta. como se coloca neste momento de sua vida frente ao desenvolvimento
Comumente ela dá o seio e seu impulso potencial de alimentar. . . Há um; puberal.
26 I Silvia Bleichnzar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 27
Se, evidentemente, há um salto entre o motivo de consulta e o material "De imediato, fica pelo menos a possibilidade de verbalizar ao menino

c ico e�osto, pensamos que isto é legítimo quando se busca uma respos
_ ta (diante dos pais) sua situação e o significado de seus fracassos escolares".
psicanalitJca e nao uma resposta estritamente sintomática. E em uma nota de rodapé relata: "Explico ao menino que seus fracassos
No entanto, algo nos deixa em dúvida: de que se trata na realidade?, escolares não se devem a uma deficiência intelectual. Adquirem sentido em
diz
Maud Mannoni. relação à forma como cresceu, protegido contra tudo o que foi vivido por uma
"De uma insatisfação da mãe como filha". mãe órfã de pai desde pequena. ·se mamãe tivesse tido um papai teria tido
Na realidade (o sublinhamos), de quê? menos medo que seu marido se convertesse em um papai muito brabo. A
Porque ur_na insatisfação da mãe como filha pode produ cólera de papai teria te ajudado a que te convertesses em homem, ao invés
zir em outro
caso �n:a fobia grave, uma sintomatologia obsessiva, de seguir sendo o bebê que sente os medos de mamãe"'.
um quadro de
agressivrdade, etc. E aindã. mais: desde os trabalhos sobre O psicanalista tem o direito, em uma primeira entrevista, de dar a um
a sexualidade
� ?
emi�in� que abriram essa pro lemática em Freud, qual é a mãe
quenão está paciente uma explicação totalizadora que funcione como uma racionaliza­
msatisfeita como filha? Podenamos pensar, levando isto ção? Pode-se propor a um menino de onze anos com uma sintomatologia
até suas últimas
conseqüências, que uma mulher que estivesse satisfe especifica que seu conflito é efeito da falta de um pai à sua mãe? Se
ita como filha talvez
não se propusesse ser mãe. entendemos mecanicamente que "o Inconsciente é o discurso do Outro",
Por suposto que há tipos e graus de insatisfação, mas esse quando um menino apresenta um sintoma, não importa qual, nem que idade
não é tema
:p ara abo 7d�r aqui. O que, sim, podemos assinalar é um interrogante: qual tenha, nem qual seja a estrutura psíquica, isto se deverá a um conflito em
e a especificidade do conflito que põe em movimento o sintom relação ao desejo matemo. Mas se o sintoma tem como único sentido ou,
a? Quer dizer:
por onde devemos explorar para encontrar o rumo que nos para ser menos taxativos, como sentido principal, satisfazer uma mãe
permita entender
o motivo de consulta? depressiva, mantê-la ocupada mediante fracassos e fobias, não se considera
Por sup osto q:re não somos tão ingênuos para pensa desta maneira uma intencionalidade sintomática que se constituiria cen­
r que o motivo de
consulta seJa o motivo de consulta da primeira entrevista. tralmente como beneficio secundário, e não como resolução no marco da
Mas também não
nos sentimos obrigados a dar uma resposta imediata. A economia libidinal intrapsíquica?
matriz teórica de
o?de P a:te Maud Mannoni para formular o problema nos No entanto, a teorização que Maud Mannoni nos p�opõe como "atitude"
termos antes
Citados e sua compreensão da patologia infantil tal como frente à consulta é absolutamente válida: "Na psicanálise de crianças, na
é apresentada em

seu exto A criança, sua "doença" e os outros5, aonde coloca
a criança no primeira consulta, estamos submetidos à demanda dos pais, que pode ser
movrmento que se constitui desde o desejo da mãe. Se "o urgente e grave. Existe então, frente aos pais, uma tendência a tomar uma
Inconsciente é o
discu�so d? Outr " , q ando a mãe fala encontramos em seu posição de psiquiatra ou de psicopedagogo, e corre-se o risco de deixar
� .� próprio discurso
a exphcaçao do signifi cado sintomático. Isto, tanto desde o que diz, como escapar a dimensão essencial, que é, justamente, a apreensão psicanalítica
desde o que não diz. do caso. Mantendo-se no papel de analista, o profissional pode evitar as
• E poderíamos acrescentar: estamos parcialmente de acord orientações apressadas, colocar precipitadamente a criança em um Lar ou
o. Sua
� a: �
proposta tem mérito de situ o sujei o em uma linha de
_ inters ubjetiv idade em um Instituto, pode ser a tentativa que uma verdade substitua uma
que defme as lli_:rhas pelas q�ars se abmao, em grandes traços mentira. Nem todas as consultas levam à indicação de uma psicanálise, mas
, os movimen­
tos que ha�er o de permitir-nos entender a constituição em todas, sem dúvida, é possível salvaguardar a dimensão psicanalítica e,
� de seu próprio
aparelho psiqmco. inclusive, ajudar com ela ao pediatra ou ao médico de cabeceira da família".
No entanto, no caso que estamos vendo , não se anula E estamos de acordo. Nem todas as consultas levam à indicação de uma
. o conceito de
mconsciente como sistema intrapsíquico? Não se acaba psicanálise. Em quais, então, é adequado fazer essa indicação? E mais
remetendo o conflito
a u�a tópica intersubjetiva que, se pode ser geradora ainda, se não acontecer uma análise individual, qual é a estratégia terapêu­
de patologia, não é
suficiente para explicar as peculiaridades do confli ticaadequadaapropor? Em que momento podemos dizer que estamos frente
to psíquico?
E Maud Mannoni propõe: "Que mais pode fazer o analis a um sintoma infantil? Em E[ psicoanálisis precoz, Diatkine y Simon6
ta além de
.
_f
espera:? Se se orça, neste caso, uma psicanálise,
que causa probl emas tão formulam o conceito de neurose infantil nos seguintes termos: "O conceito
essenciaiS a mvel do casal, corre-se o risco de que de neurose e ao mesmo tempo o conceito de cura psicanalítica supõem a
SUIJ'am dificuldades de
outro tipo." intemalização do conflito, quer dizer, uma contradição entre o ego, o id e o
28 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 29

superego. A partir de que fase ou de que processo pode-se falar de localização d o conflito n a infância na tópica intersubjetiva; 2) localização do
intemalização?" Compartilhamos a pergunta que se fazem; o conceito de conflito em estrito sentido sintomático, na tópicaintra-subjetiva do aparelho
neurose só pode defmir-se como intrapsíquico. No entanto, há um matiz que psíquico.
nos interessa deixar assinalado: falardeinternalização do conflito implicaria No entanto , o sujeito não se "cria do nada" a partir do recalcamento
partir de duas unidades diferenciais; em determinado momento, sobre a originário. A simbolização primordial não é equi�alente �o recalcamento
base da interação que se gera entre elas, uma intemaliza o que primeiro �
primordial. "Nesta região obscura das origens e da genese, ha ugarp�a u�a
ocorreu "fora", quer dizer, na outra. Nesse sentido, a tópica paradoxal que espécie de constituição de um primeiro fantasma que amda nao sena
Winnicott propõe parece-nos mais adequada porque, como assinalamos exatamente recalcado, também não seria exatamente inconsciente, e que
antes, borra o interno e o externo como a priorL Deixamos de lado, então, a estaria destinado, em um segundo tempo, ao recalcamento"8•
utilização das noções de!!tro-fora (salvo como categorias descritivas) . e Pois bem, levando em consideração todos estes elementos, na infância:
situamos o problema como um campo de diferenciação progressiva que se abordagem do inconsciente para o diagnóstico e a escolha da estratégia
produz em relação a uma tópica que se constitui no marco do Édipo e cujo terapêutica? Ou abordagem do aparelho em constituição?
momento privilegiado de diferenciação é, para o sujeito, o recalcamento Se 1) o aparelho implica dois sistemas, dois modos de funcionamen�o
originário. e dois conteúdos, e está assinalado por relações de conflito; e se 2) o pre­
O conceito de metábola que Laplanche propõe parece- nos, em tal consciente não se funda a partir do inconsciente senão que cada sistema está
sentido, altamente operativo. Propõe-nos que o inconsciente é afetante em correlação com o outro, não há análise do inconsciente, não há formação
{aifectant). O ego, afetado (ajfecté). Na clínica de crianças, no momento da de sintomas no sentido psicanalítico, antes da constituição deste aparelho .
consulta, onde está o afetante, onde está o afetado? Mas, que h á então? Porque esta conclusão pareceria levar-nos à paralisia.
Em Melanie Klein não há dúvidas; o obj eto inicial (como objeto fonte) Ou ainda, quais são os requisitos de constituição e funcionamento deste
aparece afetando ao sujeito que se defende desde o ego. E o inconsciente, já
aparelh o? . .
que funciona desde as origens, pode ser precocemente analisado. Para
Falar de requisitos de formação do aparelho parecena derxar-nos,sem
Melanie Klein, na medida em que há angústia, há inconsciente. Em minha
possibilidade de escape, em uma postura normativizante . Normal,
opinião, isto não é tão claro, ou ao menos tem que ser desenvolvido dentro
normativizar, tudo nos remete às normas. E nesse sentido abrem-se duas
dos marcos da conceitualização com que nos manejamos aqui.
grandes direções: o conceito de normalidade, que s� aferia à norma, social
Esboçamos algumas idéias em relação à proposta de Maud Mannoni.
ou como modelo de desenvolvimento (segundo propoe Anna Freud). ou algo
Retomemos o conceito de metábola que Laplanche propõe: "O inconsciente
da criança não é diretamente o discurso do Outro, nem mesmo o desejo do que eu ainda não poderia denominar, mas que leva aos pré-requisitos
Outro. Entre o comportamento significante, totalmente carregado de sexua­ básicos do funcionamento do psiquismo. Algumas perguntas podem orde­
lidade (o que sempre se pretende, novamente, esquecer) . entre este compor­ nar nossa busca:
tamento-discurso-desejo da mãe e a representação inconsciente do sujeito
não há continuidade, nem também pura e simples interiorização; a criança 1) Há relação entre o Édipo e a fundação do aparelho?
não interioriza o desejo da mãe". "Entre esses dois 'fenõmenos de sentido' 2) Há relação entre a constituição das estruturas cognitivas e o
(. .. que são por uma parte o comportamento significativo do adulto e ordenamento do sujeito sexuado na infância?
especialmente da mãe, e o inconsciente, emvias de constituição, da criança) 3) Se a constituição do superego introduz uma legalidade no psiquismo,
está o momento essencial que se deve denominar 'desqualificação'. O de que ordem é a ausência dessa legalidade ou sua não instaura­
inconsciente ( . . . ) é o resultado de um metabolismo estranho que, como todo ção, em relação com todos os transtornos de simbolização que
metabolismo, implica decomposição e recomposição; por algo falamos aqui encontramos nas crianças?
freqüentemente de incorporação, porque a incorporação se parece mais a 4) Há alguma correlação entre a lógica da castração e a lógica do
seu modelo metabólico do que habitualmente se acredita"7• pensamento?
Esta substituição da fórmula do ColóquiodeBonneval, aonde Laplanche
considera a "contigüidade e similitude como recortes da vida antes de ser No caso de que estas perguntas propostas sejam respondidas aruu: a­
duas direções de linguagem", relaciona este conceito de metabolização com tivamente, teremos que demonstrar clinica e teoricamente de que manerra
a fundação do inconsciente. Trata-se então de retomar duas direções: 1) isto se produz.
30 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 31

No e�tanto, voltarei sobre o problema da constituição do sujeito no persecutórias (assim seria possível fazê-lo desde uma perspectiva kleiniana) ;
marco do Edipo ou do que chamaremos a tópica intersubjetiva para ver como no entanto, desde a perspectiva que estou propondo, o objeto funciona na
se jogam essas questões. medida em que é parte do sujeito, e não funciona, converte-se em estranho,
Em primeiro lugar assinalarei que, em termos gerais, parece-me a partir da separação. Desde este ponto de vista a diferença radica em
fecundo retomar a proposta de Lacan a respeito dos três tempos do Édipo conceber no início o objeto como externo ao sujeito ou não, como enfrentado
para marcar os movimentos de constituição do sujeito, assim como a ou não a este, ou concebê-lo como diferenciando-se no seio de uma matriz
proposta de classificação da patologia em três grandes ãreas: psicose, que os engloba e que adquire formas simbólicas (deslocadas) do corpo real.
perversão e neurose. Narcisismo e identificação narcisista nas origens da vida, constituição
Em minha opinião, esses três tempos marcam privilegiadamente os da representação do ego, ligação à mãe, são pré-requisitos necessãrios para
grandes movimentos pelos quais o sujeito psíquico em estruturação deve a constituição do sujeito. E embora não haja uma cronologia, há uma etapa
passar a partir da tarefa fundamental que deve enfrentar nos primeiros anos necessãria para que isto se produza.
da vida: o desprendimento da mãe e a constituição de uma estrutura Separação da mãe, castração do segundo tempo do Édipo, como Lacan
singular que lhe permita situar-se no mundo enquanto sujeito. propõe, são movimentos defmitórios na organização das identificações
Neste sentido a identificação primãria e secundãria, e o recalcamento secundãrias, da escolha de objeto e da instauração do superego como forma
originãrio, são parâmetros desta constituição. definitória da constituição do aparelho psíquico.
Pois bem, isto não deixa de ser uma formulação geral, salvo que o Há possibilidade de explorar clinicamente esses elementos na infân­
possamos compreender na exploração clínica. As pré- psicoses infantis são cia? E se é assim, quais são as vias adequadas para fazê-lo?
um campo privilegiado para fazê-lo. Por que utilizo o termo pré-psicoses? Aparece na literatura psicanalítica contemporânea preocupações em
Porque se para as psicoses o mecanismo que aparece como o que defme a: relação ao próprio conceito de infância. Um texto recente, o número dedicado
estrutura psicótica é a forclusão, que dá lugar à alucinação e ao delírio, as a "L'enfant" da NouveUe Revue de Psychanalyse, exemplifica a variada gama
psicoses infantis (as grandes psicoses infantis como o autismo de Kanner e que esta problemática pode implicar. Desde a localização da criança em
a psicose simbiótica de Mahler) são como movimentos falidos, não termina­ relação aos lugares que lhe foram sendo dados na história (Entretien avec
dos. na constituição do sujeito. Mas. ao mesmo tempo, se pensamos que o Philippe Aries, no qual participam J . B. Pontalis e F. Gantheret) . até um texto
sujeito está em um momento de sua constituição, a intervenção terapêutica de Renê Diatkine, cujo titulo não deixa de ser sugestivo,, Le psychanalyste et
ainda pode modificar o curso dos acontecimentos e ser produtora de saúde. l'enjant avant l'apres- coup, ou le vertige des origines [O psicanalista e a
Neste sentido poderia dizer, através da experiência, que no autismo criança antes do apres-coup, ou a vertigem das origensf. Antes do apres-coup.
precoce, o a�tismo primãrio, o que se produz é uma não-constituição do ego­ Diatkine refere-se claramente ao fato que a preocupação da psicanálise pela
representaçao, enquanto que nas psicoses simbióticas o sujeito não pode criança começou a partir da descoberta freudiana segundo a qual a neurose
separar-se do objeto matemo com o qual a representação se soldou. É como do adulto atualizava, de alguma maneira, uma neurose infantil. Mas, desde
se a membrana representacional egóica englobasse ambos objetos, criança­ a perspectiva que nós estamos propondo, quando e onde começa o apres­
mãe, e a efração desta membrana produzisse uma dor insuportável que poria coup da infância? E quando falamos de apres-coup, o fazemos em relação ao
em risco de desintegração essa estrutura simbiótica. próprio inconsciente, estamos falando em alguns casos do pré-consciente ou
Um exemplo clinico: em geral todas as crianças choram nos primeiros teríamos que referir-nos às relações entre ambos os sistemas? E , se é assim,
dias quando são deixadas no jardim de infância. As crianças fóbicas em que caso?
agarram-se desesperadamente à mãe na porta da escola e tratam de não se Vou relatar uma experiência: uma menina é trazida à consulta em
separarem dela. A criança simbiótica faz o mesmo. Como diferenciá-las, função de uma série de transtornos (que não chamarei de sintomas por
então? A experiência me demonstrou que enquanto a criança fóbica espera agora) produzidos pelo nascimento de uma irmãzinha. A menina tem três
atentamente o momento da saída e busca a mãe com os olhos entre as anos e meio e nos últimos meses manifestou alguns rituais obsessivos
pessoas que esperam, a criança simbiótica faz uma desconexão durante o precoces, choro constante, marcadamente agarrada à mãe, de quem não
dia de trabalho (poderiam os dizer uma regressão autista), não busca com o pode separar-se.
olhar a saida, não se apressa, nem tenta reencontrar a mãe. Por quê? Porque Por razões que me parece desnecessãrio relatar aqui, escolho como
não tem a representação diferenciada do objeto de amor. Poderíamos dizer estratégia terapêutica sessões de binômio mãe-fllha (duas semanais) acom­
que a separação gerou hostilidade; e esta hostilidade, intensas ans iedades panhadas de entrevistas mensais com os pais. Em poucas semanas de
32 I Silvia Bleiclmwr Nas Origens do Sujeito Psíquico I 3 3

tratamento começam a produzir-se mudanças: a menina começa a manifes­ sistema, se nos é permitida a expressão, presente desde as origens da vida,
tar condutas agressivas em relação à irmã, aparecem movimentos de não propõe questões desta ordem. No entanto, eu já conhecia as idéias
separação da mãe e um esboço de rivalidade edípica em relação a esta. desenvolvidas por Lacan e as contribuições em relação ao caráter do
Mas o ponto ao qual quero chegar é o seguinte: um dia, quatro meses recalcamento originário propostas por Laplanche e Leclaire no Colóquio de
depois de iniciara tratamento, no final de uma sessão na qual a menina tinha BonnevaL . Tinha lido A primeiraentrevistaempsicanálise, de Maud Mannoni;
.

manifestado uma série de fantasmas relacionados com sua posição a enfim, como o leitor compreenderá, tinha mais p erguntas do que uma
respeito do pai e com o desejo de ter um filho deste, tal como a mãe havia técnica aonde apoiar-me.
feito , disse esta frase: "Mamãe, lembras quando eu era pequena?". Eviden­ O motivo da consulta de Sebastião não foi um sintoma determinado ,
temente, discurso absurdo para quem escutasse, emitido por uma menina senão a sensação geral dos pais el e que "algo andava mal", de que "não
que ainda não começou sua escolaridade. No entanto, algo havia ocorrido em sabiam o que fazer com o menino". Estava decididamente agressivo e
relação ao tempo: uma historização que marcava um corte que possibilitava ciumento em relação ao irmão menor, ele oito meses: batia nele, só se
ordenar um antes e um depois, um passado e um presente; que anancava alimentava com a mesma comida com que alimentavam o bebê. Teve uma
a menina da posição cristalizada na qual havia chegado ao tratan1ento. A série de transtornos somáticos: clianéias repetidas, otites , ir:J.fecções na
observação dos pequenos movimentos de constituição do psiquismo infantil garganta, ante os quais o pediatra recomendou uma consulta pSicológica.
passa quase pelo imperceptível. Queixava -se, chorava constantemente, estava "chato" , anelava permanente­
Lacan propõe em O estágio do espelho que "nesse ponto ele articulação mente atrás da mãe; "não me deixa viver", esta dizia. Negava-se a dorn1ir em
ela natureza com a cultura ( . . . ) só a psicanàlise reconhece esse núcleo d e sua própria cama e se o fazian1 dormir no quarto dos pais, despertava-se
servidão imaginária que o amor sempre eleve voltar a desfazer o u cortar de quando o levavam p ara seu próprio quarto.
uma vez"10• Núcleo de servidão imaginária que liga a criança à mãe nas Alguns elementos da história: o menino é filho de um casal jovem,
origens e que se conserva como uma estrutura intra-subjetiva no narcisis- uruguaio, que no momento em que a mãe ficou grávida encontrava-se
mo. transitoriamente em Israel. A mãe relata o parto de Sebastião como uma
Eu falava antes ele um campo , de uma tópica na qual a criança encontra experiência terrivel, quando põde ser ajudada por uma parteira argentina
os movimentos para sua constituição. As "funções" propostas por Lacan com a qual, afortunadamente, conseguiu comunicar-se, porque era a única
(função materna, função paterna, filho, falo) na estrutura do Edipo são pessoa que falava espanhol na maternidade, e diz que lhe "cortaram a
modelos a serem explorados em relação a esta tópica por onde a criança se lactação quando o menino nasceu para dar-lhe alimentação artificial". Como
desloca. No entanto, é um erro, em minha opinião, tomá-los como elementos ela não era judia não circuncizaram o menino, o que lhes trouxe sérios
"puros", no sentido elos a priori kantianos. A criança não "realiza" o desejo problemas de vinculação no hotel de imigrantes onde se alojavam, situação
materno como a História não encarna a Idéia absoluta. A idéia de "referência que os levou a deixar o país quando Sebastião tinha menos de dois anos.
ao desejo materno" deve ser retrabalhada e repensada no campo desta Em abril de 1973 a mãe fica grávida de um segundo filho e em setembro
tópica, aonde os movimentos da história não estão pré-determinados, senão do mesmo ano, quando Sebastião tem quinze meses, a casa na qual vivem
apenas esboçados como rotas possíveis. é bombardeada em razão de um ataque aéreo. Dois dias depois o menino
Vou tratar de expor brevemente o caso de um menino, que pode situar começa a chorar e a vomitar e três semanas mais tarde se mudam para a
mals concretamente algumas das linhas que proponho desenvolver neste Argentina.
trabalho. Em um mês começam os p rimeiros sintomas preocupantes: Sebastião
Em outubro de 1974 uma das perguntas que me surgiu a partir da reiteradamente abre a boca, grita e logo fica tenso, fazendo um gesto d e
consulta dos pals de Sebastião, quando o menino tinha apenas 28 meses, horror que dura alguns minutos. Dois meses mais tarde Sebastião começa
foi: desde quais parãmetros podemos dellnir o momento adequado em que com suas primeiras dianéias repetidas. A aquisição da linguagem se detém
um sujeito pode ser passível de um tratamento psicanalítico que tenha a partir do nascimento do irmão (aos 20 meses de idade do menino) .
características como tal, garantindo a mínima racionalidade que nosso A primeira pergunta que me fiz quando me enfrentei com esse material
trabalho demanda? foi a seguinte: os sintomas de Sebastião podiam ser considerados como
Vocês sabem que esse não ê um problema que se questione quando se verdadeiros sintomas em sentido psicanalítico? Eram, em tal caso, um
trabalha com uma concepção kleiniana da psicanálise de crianças. A produto transacional, uma formação do inconsciente? Expressavam um
concepção manejada por Melanie Klein sobre o inconsciente. como um conflito intersistêmico?
34 I Silvia Bleiclwwr Nas Origens do Sujeito Psíquico I 35

Isto, que à primeira vista é um problema de ordem teórica, tinha para Estes conceitos tém seu complemento n a hipótese de que antes desta
mim uma profunda conotação clínica; o tipo de indicação terapêutica ia fase serão os demais destinos da pulsão - transformação no contrário e
depender de sua elucidação. TrataJ" o menino individualmente, tratar aos volta sobre si mesmo - os que vão reger a defesa frente às moções
pais, fazer um grupo familiar, uma terapia mãe-filho, todas as possibilidades pulsionais. As conseqüências do processo do recalcamento serão a criação
eram igualmente válidas desde diferentes perspectivas de aproximação de substitutivos e o fato de deixar sintomas atrás ele si.
teórico- clínica ao paciente.
Mas, quem era meu paciente? Este menino que não tinha saído nunca Voltemos agora a Sebastião e seus "sintomas".
do meio familiar, nem para ir a umjardim de infância, que ainda não possuía A agressão e os ciúmes em relação ao irmão podem ser considerados
linguagem, senão dois ou três ruídos, e se expressava somente pelo choro, dentro do que Freud postula como condutas não neuróticas. "Não podemos ,
que ainda parecia estar sumido no universo matemo? Ou essa mãe débil, portanto , descrever o medo que faz parte desta fobia como um sintoma. S e
carente. que engordou 1 8 quilos durante a gravidez e que viveu o parto como o pequeno Hans, estando apaixonado pela mãe, mostrava medo do pai, não
se lhe tivessem querido roubar o filho; que sentia falta de sua própria mãe devemos ter direito algum de dizer que ele tinha uma neurose ou fobia. Sua
radicada no Uruguai, e que a partir do nascimento do segundo filho entrou reação emocional teria sido inteiramente compreensível. O que a transfor­
em um estado de frigidez que lhe impedia gozar suas relações sexuais? Ou mou em _uma neurose foi apenas uma coisa: a substituição do pai por u m
o pai, debilitado, ausente, que se identificava com Sebastião naagressividade cavalo. E esse deslocamento que tem o direito d e ser denominado d e
ao irmão menor- sendo ele próprio irmão maior-, incapaz de por qualquer sintoma, e que, incidentalmente, constitui o mecanismo alternativo que
limite ao menino porque qualquer situação repressora o situava na posição permite um conflito devido à ambivalência ser solucionada sem o auxilio da
de carrasco? Pai que não sabia o que fazer com esse filho pequeno a respeito formação reativa."12
de quem perguntava-se se não era hora de ensiná-lo a ler quando o menino A agressão e os ciúmes de Sebastião em relação ao seu irmão são um
ainda não falava, porque não podia comunicar-se com seu filho, cachorro emergente direto da hostilidade que lhe produz o aparecimento de um rival
ainda. Ou o vínculo de ambos os pais, desconcertados frente ao mundo, no amor matemo e, em tal sentido, podem ser compreendidos. O que não
dependentes, em que cada um deles esperava encontrar no outro a imagem pode ser tão claramente compreendido é o horror que a mãe sente frente a
da mãe e elo pai ausentes e que se enchiam de hostilidade quando cada um isso, que coloca o menino e m uma posição quase de "criminal", e a
não respondia à demanda do outro? cumplicidade antes assinalada do pai com o filho.
Comecemos por definir "o" paciente, motivo manifesto da consulta, Por outra parte, por razões que logo assinalarei, o irmão rival aparece
situado na linha do duplo transitivo no campo especular, marcando u m
tratando de determinar se os. sintomas antes mencionados são realmente
corte que se pode situar nos termos definidos por Lacan em O Estágio do
assim. Freud define em Inibições, sintomas e ansiedade ( 1 926) o sintoma
espelho: "Este momento em que termina o estágio do espelho inaugura, pela
como símbolo substitutivo de uma não lograda satisfação pulsional, propon­
identificação à imago do semelhante e o drama dos ciúmes primordiais (tão
do que isto é o resultado do processo do recalcamento. Diz: " .. . a maioria dos
acertadamente valorizado pela escola de Charlotte Bühler nos fatos d e
recalcamentos com os quais temos de lidar em nosso trabalho terapêutico
transitívismo infantil), a dialética que desde então liga o e u [je] com situações
são casos de pressão posterior {Nachdrdngenj. Pressupõem a atuação de
socialmente elaboradas". (Escritos I, pág. 16.)
recalcamentos primordiais {Urverdrdngungen} mais antigos que exercem
E as diarréias repetidas não parecem corresponder a esse mecanismo
atração sobre a situação mais recente. Muitíssimo pouco se sabe até agora
arcaico , marcado pelo ego-prazer que Freud descreve em Pulsões e destinos
sobre os antecedentes e as fases preliminares do recalcamento"1 1 • E
das pulsões*Z, mediante o qual o sujeito separa e joga no mundo externo, em
acrescenta que o recalcamento surge quando: a) uma percepção externa
um movimento que será um precursor daprojeção, os aspectos desprazerosos?
desperta uma moção pulsional indesejável e b) quando tal impulso emerge
no interior sem nenhum estímulo externo. Desta maneira, o sintoma surge
da moção pulsional obstruída pelo recalcamento. *' [N.T. Optamos pela tradução do título deste artigo (Jríebe und triebschicksale)
Na Metapsicologia postula que o recalcamento não é um mecanismo de conforme o Vocabulário da Psicanálise de Laplanche e Pontalis [pág. 508), tomando
o tenno "pulsão'' como equivalente do alemão Trieb, para evitar as implicações do
defesa originariamente dado, senão que, pelo contrário, não pode surgir até
tenno instinct [instinto). Segundo o Vocabulário Trieb "conserva sempre a tonalidade
que tenha se estabelecido uma precisa separação entre a atividade anímica de impulsão (treiben = impelir) . . . sublinha o caráter irreprimível da pressão mais do
consciente e a inconsciente. Sua essência consiste exclusivamente em que a fixidez do alvo e do objeto" [pág. 506). Trieb será assim traduzido daqui em
manter determinados elementos distantes da consciência. diante.]
36 I Silvia Bleic!zmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 37
Mas, como se pode entender o pânico noturno? A mãe relata que recalcamento , esta fique presa em certas redes que limitem sua oscilação
quando colocam o ursinho de Sebastião na cama, onde este nega-se a indefinida.
dormir, chora angustiado e trata de recuperá-lo. Hâ algo que ocorre nesta Talvez poderíamos dizer que,nesta aproxihmçâo ao sujeito em consti­
cama, espaço onde ativa-se o que produz pânico. tuição que estamos fazendo, os tempos míticos não são construções, são
Na segunda entrevista a mãe me conta que, depois do bombardeio movimentos reais ele estruturação do sujeito psíquico que, mesmo quando
sofrido pela casa em Israel, nessa mesma noite, retiraram -se a uma peça nos não possamos capturar em sua subjetividade, podemos cercar como se
fundos da casa, jâ que o quarto estava na frente e era perigoso permanecer cerca um elemento na tábua periódica de Mencleleiev antes que o próprio
nele, e Sebastião dormiu em um berço colocado ao lado da cama dos pais. elemento seja descoberto. Talvez não possamos tocá-lo, nem vê-lo, mas
Essa noite� estes tiveram uma relação sexual que foi interrompida pelo choro podemos conhecer seu peso especí11co, sua densidade, seu efeito, sua
de Sebastião, que acreditavam estar dormindo, e ao qual não conseguiram combinatória. São os momentos que poderíamos chamar constitutivos do
acalmar durante longo tempo. inconsciente.
Freud põe em discussão, no Homem dos lobos, a teoria que tenta Voltando a "La référence à l'inconscient", Laplanche assinala que o
explicar os fantasmas primordiais das neuroses em sua relação com as inconsciente aparece como composto por elementos separados, discretos ,
cenas originârias de épocas arcaicas. Inclina-se ali pela construção da uma espécie el e átomos. E diz que poderíamos desconfiar desta nossa
neurose em dois tempos, e na realidade o tempo do desejo e a escolha da apreciação porque esta apresentação atômica elo inconsciente poderia ser o
neurose é o segundo. Os momentos prévios aparecem como marcos simples resultado de nossa abordagem metodológica. Conclui: "Admitamos,
significativos, mas não é um contínuo que se incrementa até desembocar no no entanto, esse caráter separado das unidades do inconsciente, sem chegar
sintoma, senão a reorganização e a ressignificação dos conteúdos prévios ­ a considerar a origem destas unidades: o que elas devem a unidades
complexa rede de marcas mnêmicas - o que determinará a escolha da perceptivas, a fenômenos de gestalt, de forma (o seio, o objeto parcial. . . ) e o
neurose. que conservam do recorte da estrutura da linguagem, das unidades
Mas é claro que, até o sintoma se desencadear, um longo recorrido vai significantes?" . 14
ser transitado pelo sujeito: constituição dos fantasmas originârios - Entre o momento do bombardeio e a presentificação da cena primária,
sedução, castração, cena primária -, instauração do recalcamento, cons­ por um lado, e o nascimento do innão, por outro, algo ocorreu com Sebastião.
tituição da linguagem, aparecimento dos processos de condensação e Os sintomas se desencadeiam entre estes dois episódios, sintomas que têm
deslocamento nas formações do inconsciente. um duplo caráter: por um lado, durante a primeira etapa, aparecimento de
angústia- denominemos esta de liberada: choro imotivado- e dos quadros
Em "O inconsciente, um estudo psicanalítico", Laplanche propõe: "A
origem do inconsciente deve ser buscada no processo que introduz o sujeito somáticos repetidos. Durante o segundo período, fobia noturna (mais
especificamente fobia a suaprópria cama), detenção da linguagem, agudização
no universo simbólico. Poderiam ser descritas, em abstrato, duas etapas
da simbiose com a mãe.
deste processo. Em um primeiro nível de sirnbolização, a rede das oposições
Podemos propor-nos uma relação entre os "episódios traumáticos", o
significantes é lançada sobre o universo subjetivo, mas nenhum significado
aparecimento de modificações no menino (chamemos estas de sintomas) e
particular fica capturado em urna malha particular. O que se introduz,
a constituição destas representações básicas do inconsciente? Neste sentido
simplesmente, com esse sistema coextensivo em relação ao vivido, é a pura
o trauma tomaria um caráter altamente específico, devido a sua inserção no
diferença, a escansâo, a barra: no gesto dojo rt da a borda da cama. Trata­
- ,
complexo conjunto de relações que assinalamos.
se ai, deve ser repetido, de uma etapa puramente mítica, mas os fenômenos
Sebastião encontra-se, no momento ela consulta, como vimos anterior­
da linguagem psicótica mostram que pode ressurgir apres-coup na "regres­ mente, submerso na especularidade e no transitivismo. Quando eu lhe digo
são", sob a fonna do sh!ft indómito de um par de elementos diferenciais" . 13
"mostra-me teu cabelinho", leva a mão à cabeça. Quando a mãe diz "mostra­
O segundo nível ele simbolização, acrescenta, é o que descrevemos, seguindo me teu cabelinho", leva a mão à cabeça materna.
a Freucl, como recalcamento originário, seguindo Lacan, como metáfora. Chora quando seu ursinho é posto na cama que o assusta; ele e o
O que me interessa assinalar, no que diz respeito aestafommlação, que semelhante estão postos na mesma posição, e sujeitos às mesmas vicissi­
teve variações nos últimos seminários de "La référence à l'inconscient", é a tudes.
precisão de um tempo, primeiro nível de simbolização, que só encontrará seu Poderíamos dizer que se encontra nesses momentos prévios ã instau­
destino definitivo quando, mediante a fixação da pulsão através do ração definitiva do recalcamento originário, momento dos grandes movi-
38 I Silvia Bleiclzmar Nas Orige11s do Sujeito Psíquico I 3 9

mentos pulsionais. em que a pulsão pode orientar-se contra o próprio a. Em relação ao modelo elo aparelho psíquico. a constituição elos
sujeito. transformar-se no contrário. processos primários e secundários como cliferenciaclos. com a
A borda da cama. de sua cama, marca um ponto limite que o deixa conseqüente constituição das fom1ações elo inconsciente: em
inem1e frente aos impulsos destrutivos que voltam sobre si mesmo. primeiro lugar. sintoma. no sentido freudiano mais estrito; em
O caráter terrorífico dos fantasmas se corporiza nessa cama (símbolo segundo lugar, sonhos. atos falhos e a função ela transferência.
da exclusão) não apenas pelo significado sádico que a cena primária sempre b. No que é específico elo processo secundário. a instauração da
possui. senão pqrque em seu caso singular essa cena encontra -se enquadra­ (cle)negação, com a conseqüente constituição do juízo.
da no pânico dos pais frente ao bombardeio, a cara de horror da mãe. o Alguns índices precursores podem ser trabalhados, tais como
a constituição do não e do sim, e sua localização precisa em relação
brusco translado à peça dos fundos.
ã estruturação elo sujeito.
Como definir uma estratégia terapêutica em relação a Sebastião? Ou
c. O problema ela linguagem, os transtornos no uso elos pronomes e
melhor dito, em um primeiro movimento, como definir, e desde onde, a
a concordância verbal são elementos que possibilitam conhecer as
necessidade de uma intervenção terapêutica?
perturbações na constituição do aparelho e. ao mesmo tempo. a
Em primeiro lugar assinalemos que se há angústia transbordante. esta
localização elo mesmo na tópica intersubjetiva.
está localizada tanto na mãe como no menino. O menino sofre diariamente
c!. Definido o momento ele corte na constituição do aparelho psíquico.
quando vai dormir. quando se levanta, quando na primeira consulta teme
o estudo elo caráter dominante ela defesa desde as três ordens que
ser separado da mãe e aferra-se a seu colo com desespero, quando dão de a escola lacaniana propõe: recusa. recalcamento e forclusão. E m
comer a seu irmão e quandolhe dão banho. quando tem suas otites e anginas minha opinião. nas pré-psicoses infantis não encontramos a
repetidas. Por outra parte (o que compromete toda sua evolução) . sua forclusão como mecanismo tal como aparece nas psicoses adultas.
linguagem se deteve. o que anula toda possibilidade de ingressar em um senão outros índices ele organização psicótica que podem ser
jardim de infância. utilizados para o diagnóstico.
Estabeleceu uma membrana protetora no interior do vínculo matemo e. A localização elo sujeito na tópica intersubjetiva pode ser explorada
e qualquer elemento que venha efracionar essa membrana produz intensos em relação a uma genealogia da castração aonde aparecem os
transbordamentos de angústia. fantasmas de separação ela mãe como momentos constitutivos ela
A mãe. por sua parte. sente-se aprisionada neste vínculo que "não a castração fálica.
deixa víver" , no qual se sufoca, e frente a um filho que a marca em uma
posição de fracasso como mãe. gerando um montante de angústia que a faz É deste modo que o reconhecimento da linguagem pulsional predomi­
odiá-lo porque sua demanda a situa na posição de quem deve dar e não ele nante e as possibilidades elo sujeito de estabelecer novos complexos
quem recebe. E o pai, com seu desconcerto e sua impotência, enfrenta a representacionais que permitam a sublimação. e também o processo desta
função paterna mais como cúmplice elo que como pai. última. elevem igualmente ser tomados em consideração para estabelecer o
A partír elos elementos que expus gostaria de assinalar brevemente as diagnóstico.
linhas de trabalho que vão permitira definição de uma estratégia terapêutica Proponho-me expor nas páginas que se seguem um modelo provisório
e que me proponho desenvolver ao longo dos capítulos seguintes. da constituição desta tópica. As dificuldades não são poucas; trata-se de um
Para encarar a situação diagnóstica desde esta perspectiva. tomarei modelo que deve incluir, no mesmo movímento, o corte da estrutura
três elementos que serão os parâmetros ele definição do núcleo patógeno: sincrónica, dando razão, por sua vez. à história, quer dizer, ãs determinações
passadas. reais, significantes, que a determinam.
l) O modelo elo aparelho psíquico e sua constituição. Um modelo com estas características e o fato de que sejam postas à
2) A localização do paciente na tópica intersubj etiva. prova na clínica permitirá superar os obstáculos que tanto o estruturalismo
3) As determinações da história (em seu caráter significante e,além formalista como o geneticismo propõem à psicanálise ele crianças.
disso. estabelecendo as correlações entre movímento sintomático
e trauma) . Notas d e refe rência
Neste sentido. explicitarei alguns dos processos que podem servir como I. Cf. S. Freud. Inibições, sintomas e ansiedade, em Obras completas, Rio de Janeiro:
índices para o diagnóstico. !mago Editora Ltda, (nas próximas notas OC), vol. XX, 1 976.
40 I Silvia Bleichmar

2 . Veja-se D. \V. Winnicott, O brincar e a realidade, Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda. ,
1975.
3. M. Manno ni, A primeira entrevista em psicanálise, Rio de Janeiro: Ed. Campos,

3
1 98 1 .
4. Ibid.
5. M. Mannoni, A criança. sua "doença" e os outros, RiodeJaneiro: Editora Guanabara,
1987.
6. México: Sigla XXI, 1975.
7. J. Laplanche, "La référence à l'inconscient", em L'inconscient et le ça, Problématiques
IV, Paris: Presses Universitaires de France, 1 9 8 1 . (O inconsciente e o id, São Paulo:
Martins Fontes, em produção.)
8. Ibid.
9. "L'enfant", Nouvelle Revue de Psychanalyse, Paris, n' 19, 1979.
10. J . lacan, "El estádio de! espejo como formador de la funciôn de] yo Uel tal como se nos Notas para a abordagem da constituição
revela em la experiencia psicoanalít_ica", em Escritos I, México: Sigla XXI, 1972.
1 1 . Cf. S. Freud, Inibições, sintomas e ansiedade, op. cit., pàg. 1 1 5 .
1 2 . flJid., pág. 1 25.
da inteligência em psicanálise
13. J. Laplanche e S. Leclaire, "El inconsciente,un estudio psicoanalítico", em El
inconsciente (Colóquio de' Bonneval), México: Sigla XXI, 1970.
14. J. Laplanche. "La référence à L'inconscient", em L'inconscient et le ça, op. cit.

Acreditei durante muito tempo - efeito da similcadência dos discursos ­


que o texto apresentado por Laplanche e Leclaire no Colóquio de Bonneval
era um desenvolvimento da teoria lacaniana, uma contribuição mais (lúcida,
certamente) à teorização que centralizara, a partir de uma reformulação do
conceito de inconsciente, a discussão estabelecida com a escola inglesa em
relação a um inconsciente entendido como puro conteúdo - phantasies
inconscientes -, do qual se derivava uma técnica ' correspondente, que
consistia na tradução simultânea.
Desta maneira, o fato que o texto começasse com uma critica à teoria
politzeriana do inconsciente, que reduz o inconsciente a um puro efeito
fenomenológico que depende das variações do campo da consciência;
entendi esse fato, pois, como um enfrentamento interno no marco da cultura
francesa, uma discussão que tinha como pretexto um autor sobre o qual
girava , estando na realidade destinada a outro. Assim, em minha ingênua
e principiante leitura, a polêmica tinha como objetivo marcar a ilusão da
técnica de interpretação simultânea (e por isso centrava a concordância com
Lacan em relação ao caráter lacunar da consciência); a necessidade de
ressituar as formações do inconsciente como eixo do processo analítico e,
por certo, reconsiderar o caráter do recalcamento fundante do aparelho
psíquico, o recalcamento originário, a partir da metáfora paterna e seu lugar
em relação ao Édipo estrutural tal como começávamos a compreendê-lo.
Conhecia vagamente, e sobretudo por comentários passageiros, que
havia uma discrepância proposta entre o posicionamento adotado no

41
42 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 43
Colóquio por tais autores e a concepção do inconsciente em Lacan, bibliografia a respeito.1 Ficaríamos, sem dúvida, limit�dos ã o�ção �e
discrepãncia que se resumia, desde meu ponto de vista, no seguinte: para oferecer simplesmente um modelo do decurso do conhecnnento pslcanali­
Lacan a linguagem é a condição do inconsciente; para Laplanche - tico nos últimos vinte anos, se o único sentido do que hoje exponho fosse
fundamentalmente -, o inconsciente é a condição da linguagem. O conflito mostrar o erro metodológico de uma leitura preconceituosa do texto. Não é
de lealdades que isto precipitava em mim, junto ã dificuldade para embrenhar­ essa mirlha intenção, senão dedicar-me ao problema das opções propostas
me em textos que me pareciam de dificil abordagem, levava-me a uma frente ã questão do inconsciente e, em relação a isso, do caráter fundante
resolução fácil: o inconsciente, tal como propõe Lacan, é um efeito das do recalcamento originário para sua constituição.
determinações da ordem significante, da ordem simbólica e, em tal sentido, Desde meu ponto de vista, são três os problemas centrais propostos no

1
é um efeito da linguagem. Por outra parte, desde minha experiência clinica
\j
texto do citado Colóquio, e qu.YIJaQ:em de uma primeira questão: que
com crianças pequenas nas quais o recalcamento originário não tinha
terminado de constituir-se e com crianças psicóticas nas quais se eviden­
a:
mutações implicaria, para a\teori(l_ psic� ítica, o fat� de atribuir ao
inconsciente uma realidade da mesma espeCle que a realldade da letra? , ,
ciavam as falhas desta estruturação, pensava que era absolutamente Deste primeiro problema deriva-se a seguinte proposição: tentar-se-á
coerente propor que o inconsciente é a condição da linguagem, na medida esclarecer a realidade do inconsciente pela realidade da linguagem, objeto
que sua não constituição como sistema alterava todas as possibilidades de da lingüística?
instauração do discurso e explicava muitos dos problemas descritos pela Em segundo lugar devemos perguntar-nos: o campo do inconsciente é
psiquiatria clássica em relação aos transtornos da linguagem que encontra­ assimilável ao campo do sentido, tal como Politzer teria formulado explici­
mos nestes casos. tamente, ou seu realismo deve ser situado - quer dizer, seu caráter de
Deste modo facilmente conciliava duas posturas diferentes, na fórmula realidade própria cindida radicalmente do campo da consciência - n�s
simples de que a linguagem é a condição do inconsciente enquanto termos da tópica freudiana: o sistema inconsciente e o sistema pre­
estrutura, enquanto ordem significante, mas o inconsciente é, por sua vez, consciente- consciente, como sistemas contrapostos e em oposição, defmi­
a condição da linguagem enquanto fala; esta tentativa conciliatória não dos pela constituição do recalcamento?
estava distante das necessidades sistêmicas do método que a teoria
(.
Em terceiro lugar, a noção de inconsciente é assimilável à noção de
lacaniana me proporcionava, sobre o qual depois voltarei. Assim, simples­
I
desconhecimento do sujeito? O inconsciente pode ser então efeito da posição
mente, a proposta de Saussure de diferenciar entre língua e fala permitia­ .
do sujeito, mais que uma estrutura defm1da pelo recalcamento?
me situar dois pólos de uma discussão antitética em uma conciliação
absurda e, por certo, obturar as perguntas não formuláveis em uma
explicação totalizante. Por outra parte, a possibilidade de separar linguagem Alguns e le mentos de aproxi mação aos problemas propostos
em sentido sistêmico e linguagem em sentido cotidiano, assimilável ã "fala" ,
abria a possibilidade de incluir o discurso como o elemento da Assinalemos, em primeiro lugar, que a diferença estabelecida por
intersubjetividade que se define entre o sujeito e o outro no caso da clínica; Freud entre inconsciente em sentido descritivo, utilizado como adjetivo para
e nos momentos incipientes de constituição do sujeito, entre este e a mãe. mostrar em relação a um elemento a qualidade de estar fora do campo da
Acreditava resolver desse modo outro problema teórico-clínico: a linguagem consciência, e que é contraposto a um Ice enquanto sistema, toma nova
enquanto estrutura precede o suj eito; o discurso matemo constitui seu vigência na discussão interna da psicanálise, a partir da proposta que o
inconsciente, e a linguagem (entendida como noção) constitui-se como um estruturalismo fez às, assim chamadas, ciências do homem.
efeito do processo secundário. O texto de Freud "O inconsciente", da Metapsico[ogia2, no qual ele define
Em um jogo de reduplicações especulares, o que Laplanche propunha as características do sistema Ice, esclarece: "O atributo de ser inconsciente
era, então, para mim, apenas um agregado ao que fõra proposto por Lacan;
e o que eu interpretava, um agregado ao agregado, que permitia eludir as
é apenas um dos aspectos do elemento psíquico, de modo algum bastan o �
para caracterizá-lo. O inconsciente abrange, por um lado, atos que sao
dificuldades da confrontação teórica. meramente latentes, temporariamente inconscientes, mas que em nenhum
Neste processo, poderiam talvez ser reencontradas semelhanças com outro aspecto diferem dos atos conscientes; e, por outro lado, abrange
o movimento de circulação fálica no Édipo no momento de formação do processos tais como os recalcados que, caso se tomassem conscientes,
analista, defmido pela transferência aos mestres e ao caráter de apêndice em estariam propensos a sobressair num contraste mais grosseiro com o
que o principiante se coloca. Nos últimos tempos publicou-se suficiente restante dos processos conscientes". 3
44 I Silvia Bleiclwwr Nas Origens do Sujeito Psíquico I 45

E logo acrescenta, em uma tentativa de pensara inconsciente enquanto A partir disso são duas as opções: ou admitimos em seguida que o
sistema: "Empregamos as palavras 'consciente' e 'inconsciente' algumas inconsciente não é a sede dos instinto s, e ao não ser a sede dos instintos não
vezes em um sentido descritivo , algumas vezes em um sentido sistemático, fica outra possibilidade que adotar a hipótese de que é a linguagem o que
sendo que, neste último, elas significam a inclusão em sistemas particulares constitui sua materialidade (e a linguagem entendida como estrutura ela
e a posse de certas características".4 linguagem, quer dizer enquanto sistema da lingual , ou nos vemos embretados
Definido o inconsciente enquanto sistema, não se trataria apenas de com aqueles que possuem uma concepção instintivista elo inconsciente,
situá-lo em uma posição, senão de reconhecer- lhe determinadas proprie­ poderíamos dizer "naturalista", e ficamos totalmente fora da psicanálise
dades, assim como determinados conteúdos específicos. contemporânea.
O incémsciente, enquanto sistema, pode ser resumido do seguinte Em minha opinião são duas falsas opções. Dizer que o inconsciente não

modo: é a sede elos instintos marca a divergência fundamental com aqueles que
assimilaram o inconsciente à biologia ou à psicologia, e que inclusive hoje
a. Seus conteúdos são representantes elas pulsões. encontram na etologia um campo ele e».1Jerimentação - paradoxalmente ­
humano. Mas, não foi justamente a psicanálise francesa contemporânea
b. Estes conteúdos especiftcos são regidos pela legalidade especiftca
que assinalou a diferença fundamental entre instinto e pulsão na obra
do proceso primário.
freudiana, salientando o caráter cultural de toda se».'Ualidade, inclusive a
c. A fixação destes conteúdos no inconsciente encontra- se determi­
mais primitiva? Distinção absolutan1ente adequada e que marca, por sua
nada pelo recalcamento, o que não permite seu acesso ã consciên­
vez, o caráter estritamente cultural elo inconsciente como sede desta
cia.
sexualidade recalcada.
O fato de que o inconsciente não sej a a sede elos instintos, no sentido
Conhecidos por todos os psicanalistas, estes conceitos não têm nada


biológico do tem1o, não implica que a estrutura ela linguagem seja o que
de novidade e são o esqueleto e a carne do inconsciente, tal como o
constitui integralmente seu campo. Por sua vez, se definimos o campo da
concebemos aqueles que temos feito uma leitura mais ou .menos exaustiva
experiência analítica como o campo ela cura, é evidente que ela só é possível
da metapsicologia. No entanto, como assinalei antes, a proposta do estru­
através ela linguagem e pela linguagem. Mas Freud separou claramente a
turalismo ele certo modo tomou esses conceitos mais complexos. A assimi­
possibilidade ele conhecer o inconsciente e sua existência como tal, de ·�
lação do inconsciente a tudo aquilo que não faz parte do manifesto adquiriu
maneira que uma não se reduza à outra. Nem o inconsciente se reduz ao que .,
alcances tão amplos que se desliza elo campo ela antropologia ao campo da ·

conhecemos no processo da cura nem, correlativamente, existe apenas por


psicanãlise, e também ao campo da pedagogia. Desde tal perspectiva, toda
seu conhecimento. 7
estrutura funclante, determinante do manifesto, é assimilada a "inconscien­ O problema de uma legalidade esp ecífica com u m conteúdo também
te" e pode- se falar de estruturas inconscientes da cultura, da linguagem , da específico não é só uma questão geral , exclusivamente teórica, senão u m
aprendizagem. 5 problema concreto que leva à constituição de u m a teoria da técnica. S e o
O conceito ele inconsciente utilizado por extensão na própria psicaná­ inconsciente apenas fosse um valor posicional de sentido, como questionam
lise perde a especificidade definida na tópica freudiana. E por um paradoxo Laplanche e Leclaire à Politzer, com isso desapareceriam dois conceitos
teórico, o inconsciente descritivo, ao qual Freud aludia, e o inconsciente chaves ela psicanálise: o ele recalcamento e o de resistência. Sejamos mais
sistémico do estruturalismo têm raízes em uma mesma perspectiva : o que claros: na teoria lacaniana elo significante, o significado só é um valor
definirá seu caráter é apenas seu valor posicional. posicional definido por sua localização em relação à barra, quer dizer, u m
Nesta direção, do valor pos icional do inconsciente, é onde se situa, significante em posição de significado; não h á então nenhuma qualidade
desde meu ponto de vista, a formulação lacaniana de "cadeia significante específica no elemento que está abaixo da barra, s alvo sua posição.
inconsciente" . A hipótese - central - de Lacan, teorizada em "A Instância Admitidos o paralelismo absoluto entre ambas as cadeias e a proposta de que
da letra", e».1Jressa: "Nosso titulo dá a entender que além mesmo desta é a "propriedade do significante ele compor-se segundo as Íeis de uma ordem
palavra, o que a experiência psicanalítica descobre no inconsciente é toda fechada [a que] afirma um substrato topológico do qual o termo cadeia
a estrutura ela linguagem. Alertando desde o início para o espírito advertido significante dá uma aproximação8, surge uma necessidade lógica de definir
sobre o fato ele que pode ver-se obrigado a revisar a idéia de que o a particular posição do inconsciente não como um efeito do recalcamento,
inconsciente não é senão a sede dos instintos". 6 senão como um efeito da combinatória pura e simples elo significante. Desta
46 1 Silvia Bleichnza r Nas Origens do Sujeito Psíquico I 47

maneira, substituído o recalcamento pela "resistência d a barra à significa­ intersistêmicos e ficando assim resolvido o aparente paradoxo de que o
ção" , também desaparece o conceito de resistência com todas suas conse­ irlconsciente - em sentido sistêmico - pudesse ser a sede do conflito.
qüências clínicas e a técnica sofre uma variação definitiva. Em minha opinião, só se pode pensar o conflito referindo-o a instân­
Na psicanálise, propor o recalcamento novamente como centro leva, cias; e neste sentido, também, só pode ser definido através da posição que
por sua vez, a salientar o caráter do conflito no aparelho psíquico. O conflito o recalcan1ento ocupe na teorização que se proponha para o aparelho
é impensável à margem da tópica psíquica. Os três aspectos dametapsicologia psíquico10.0 recalcamento é um processo que ocorre sobre as representa­
(tópico, dinâmico e econômico) se enraizam no problema do conflito psíquico ções na fronteira dos sistemas Ice e Prcc-Cc, segundo o que foi proposto por
e, se bem Freud optou em diversos momentos de sua obra por soluções Freud em "O inconsciente" . 1 1 Esta afirmação dá origem a dois problemas: o
aparentemente contraditórias, essas soluções não são tão diversas como problema da significação, por um lado, e o problema da intrínseca relação
pareceria em uma primeira aproximação. As duas propostas freudianas têm existente entre inconsciente e recalcamento, pelo outro.
como centro a definição do conflito no nível tópico e no nível pulsional. No Em relação com o primeiro , assinalemos a ligação estreita que existe
entanto, o antagonismo pulsional não se produz em geral, senão inscrito no entre a significação e o desenvolvimento proposto por Freud sobre o tema dos
marco das duas teorias das pulsões. Quer dizer: como as pulsões sexuais sentimentos inconscientes: "Faz parte da natureza de uma emoção que
coexistem entre si e apenas estão em oposição às pulsões de autoconservação estejamos cônscios dela, isto é, que ela se torne conhecida pela consciência.
ou pulsões do ego; como as pulsões de vida são opostas às de morte, e como Assim, a possibilidade do atributo da inconsciência seria completamente
a libido do ego é oposta à libido objetai, o conflito pulsional aparece sempre excluída no tocante às emoções, sentimentos e afetos ( . . . ) "12• "No recalcamento
como dualismo pulsional. No entanto , o dualismo pulsional não reduz as se produz um divórcio entre o afeto e a representação, a partir do que amb o s
pulsões a duas, senão que as ordena em dois tipos desde a diversidade que vão ao encontro d e seus destinos separados (. . . ) " . Deste modo, Freud nos
as constitui. propõe, e m função da separação entre o afeto e a representação: "Se
Estes dois dualismos pulsionais básicos a que nos referimos, pulsões restaurarmos a verdadeira conexão, chamaremos o impulso afetivo origirlal
sex"Uais e de autoconservação (ou do ego: o destacan1os porque imbrica o de 'inconsciente'. Contudo, seu afeto nunca foi inconsciente". 13
problema pulsional co:n ? problema tópico). e pulsões d : vida e de morte, Interessa-nos destacar o seguinte ponto: assim como o sentimento
foram revisados nos ulümos anos por Laplanche9 ma1s ou menos nos chamado inconsciente é um efeito da qualificação da consciência a propósito
seguintes termos: enquanto Freud estabeleceu o primeiro dualismo pulsional da carga, a significação não pode ser entendida senão c omo a reorganização
como um conflito entre as pulsões de autoconservação e as pulsões sexuais, das representações inconscientes a partir de um sujeito que signifique.
na Metapsico1ogia propôs o caráter da autoconservação como da ordem do Sujeito posto do lado do consciente, mas efeito do encontro entre os dois
não recalcável e, por sua vez, estabeleceu a pulsão sexual como o protótipo sistemas. Sendo o processo analítico, por seu caráter, um processo d e
de toda pulsão. Este dualismo, portanto, ficava contraditoriamente anulado ressignificação e d e re-historização, é uma contradição teórica pensar que
pela definição da sexualidade como única pulsão no sentido estrito do termo, este processo ocorre do lado do inconsciente. Está suj eito às relações entre
e se deslocava em direção ao de um conflito entre a libido do ego e a libido ambos os sistemas e aos enlaces simbolizantes que se produzam entre
objetai, a partir da inclusão da problemática do narcisismo. O órgão ambos.
participante do conflito parece então o terreno onde ocorre o conflito O processo de constituição do recalcamento origirlário, separação e
puls ional, mais que um dos pólos deste conflito. fundação dos sistemas inconsciente e pré-consciente- consciente, implica a
o segu ndo dualismo pulsional trataria de resgatar o caráter indomável instalação d e uma contracarga que se encarregue da produção e d a
da sexualidade originária, ligada à busca enlouquecida de satisfação, quer permanência do sistema inconsciente. Uma inscrição originária, um repre­
dizer anárquica, não ligada, conceitualizada desta vez como pulsão de morte. sentante pulsional que nunca esteve recalcado , encontra uma localização
A libido ligada (ao ego ou ao obj eto) ficaria contraposta deste modo à defirlitiva n o sistema psíquico a partir da constituição deste recalcamento
sexualidade do id, de um inconsciente entendido em sua profunda anarquia originário. Mas, em que consiste esta contracarga e qual ê sua origem? A
pulsional, mas que não estaria por sua vez presente desde as origens: seu partir da laboriosa diferenciação que tenta realizar entre as representações
caráter originário estaria dado por sua separação do sistema do ego. Os correspondentes a cada um dos sistemas, Freud propõe o seguinte: "Agora
dualismos pulsionais, e o conflito proposto, ficariam imbricados com o parece que sabemos de imediato qual a diferença entre uma representação
problema tópico, recolocando-se o problema do conflito pulsionalem termos consciente e uma inconsciente. As duas não são, como supúnhamos,
48 I Silvia Bleichmar Nas Origens do St!jeito Psíquico I 49

registros diferentes do mesmo conteúdo em diferentes localidades psíqui­ do inconsciente, senão que é fundante deste sistema. A idéia de uma
cas, nem tampouco diferentes estados funcionais de catexias na mesma metáfora fundadora do inconsciente abre-se, então, na direção de assinalar
localidade: mas a representação consciente abrange a representação-coisa a criação, no inconsciente , de um espaço aonde os significantes se tomam
mais a representação-palavra que pertence a ela, ao passo que a represen­ enigmáticos porque são apartados de forma absolutamente enigmática à
tação inconsciente é a representação-coisa apenas."14 criança, de forma traumatizante, isolada. A partir disso, o recalcamento
A conclusão à qual se chega é a seguinte: a constituição de um sistema originário não pode ser concebido senão como uma profunda mutação dos
significante definido pela linguagem, que opera desde o sistema pré­ significantes ou como uma diferenciação desde duas tópicas, dois sistemas
consciente, sistema capaz de qualificar, definido por unidades diferenciais de cargas, dois tipos de conteúdos; em termos freudianos: da separação
no sentido proposto por Saussure, e retornado por Lacan para a constituição entre repres entações-coisa e representações-palavra. E serão premissas da
do sistema da lingua, atua corno urna verdadeira contracarga no processo possibilidade de inaugurar a significação, a instauração do pré-consciente
que separa em um mesmo movimento o sistema inconsciente do pré­ e a constituição do processo secundário contraposto ao processo primário.
consciente, ao mesmo ü;rnpo que cria as condições de dissociação entre o Não se trataria, então, de contrapor à estrutura significante de Lacan
afeto e a representação. E este caráter da representação-palavra que cria as a estrutura do significado no inconsciente, senão de ressituar a problemá­
condições de instauração, no pré-consciente, da lógica e da ternporalidade. tica que, desde nosso ponto de vista, se resume nos seguintes termos: o
Mas o caráter mais social, menos singular, do pré-consciente assinala a inconsciente é uma estrutura radicalmente diferente do pré-consciente/consci­
radicalidade antitética de um inconsciente que se defme pela aternporalidade, ente, clfia caracteristica é a possibítidade de ser signifu::ada na medida em que
pela ausência de lógica, pelo caráter profundamente singular que o defme. as representações-coisa se conectam com as representações-palavra.

A linguagem é então, paradoxalmente, a rnaterialidade_cla_(;<LI!tracarga do I A contracarga, modelo de funcionamento do pré- consciente e do ego,
sistema pré-c?nsciente, assi� c�m ? a pulsão o é do si �te rna inconsciente
_
j é a condição de existência de ambos os sistemas, mas sua existência não é
Mas, ass1rn corno a pulsao na o e um ser abstrato, bwlogico, defmido em autônoma nem independente; ela é efeito de uma transmutação da carga
si mesmo, senão que é o efeito da intrusão sexualizante do outro humano, inconsciente, tal como é proposto por Freud. Neste sentido, deveremos
desprendida da biologia comum a todos os homens e enraizada em uma considerá-la corno partícipe do processo de constituição do recalcamento
história singular da sexualidade do sujeito psíquico, a linguagem do Prccnão originário; não será então um simples derivado deste, senão que será
é também a estrutura do código a que se referem os lingüistas , senão que instaurada em uma verdadeira contraposição de eleme.ntos dialeticamente
é o resíduo dos discursos particulares nos quais o sujeito se constitui. entrelaçados.
O próprio adulto, esse outro, que sexualiza a criança, instaura o
sistema de proibições, dá respostas e impõe silêncios e proporciona as
representações com as quais contrainveste o inconsciente. Nesta defasagem A (de)negação. Constituição d o recalcamento originário e d o ju ízo.
entre a palavra e o ato, entre o inconsciente e o pré-consciente, entre a
representação-coisa e a representação-palavra, instaura -se a relação entre Em 1925, Freud publica um texto breve e surpreendente onde oferece,
os dois sistemas, que dá origem à fantasia, à teoria sexual infantil, à a partir de uma série de observações realizadas no interior do processo
recordação encobridora. analítico, alguns elementos para a abordagem da constituição da inteligên­
A linguagem da qual nós, os psicanalistas, falamos é, em minha cia em psicanálise; referimo-nos a "A negativa"15, trabalhado como um texto
opinião, diferente da linguagem dos lingüistas, assim como a sexualidade técnico, que justifica um mecanismo de defesa para a "psicologia do ego".
da qual falamos é diferente da anatomia. A partir disso, a pergunta com que Jean Hyppolite retoma o texto em um seminário de Jacques Lacan16,
começamos este capítulo fica respondida da seguinte maneira: nem a tentando em sua exposição assinalar os alcances mais vastos de uma
linguagem é a condição do inconsciente , nem o inconsciente é a condição da proposta que revelaria a constituição da posição do sujeito: o que logo
linguagem. Trata-se de pôr em relação ambos os sistemas em sua constitui­ conheceriamos amplamente como "sujeito da (de)negação", em sua relação
ção originária e de recolocar a metáfora constitutiva do inconsciente , o com um postulado central da teoria lacaniana: o sujeito de desconhecimento.
recalcarnento originário, no movimento fundador de ambos os sistemas. Freud tinha partido do seguinte paradoxo: não é suficiente que algo
Concluiremos estas observações com as seguintes propostas: sendo a esteja no plano do manifesto para que faça parte do consciente, para que s e
metáfora fundante do Ice algo que ocorre entre ambos os sistemas , possa considerar que eludiu o recalcamento: " (. . . ) O conteúdo de uma
consideramos, diferente do que proporia Lacan, que a metáfora não faz parte imagem ou idéia recalcada pode abrir caminho até a consciência, com a
50 I Silvia Bleiclz ma r Nas Origens do Sujeito Psíquico I 51
condição de que sej a negado. A negativa const!tui um modo ele �om� não sou; cuidado, é exatamente o que sou". Hyppolite pensa que esta
conhecimento elo que está recalcado ( . . . ) embora nao. e_ claro, uma aceJtaçao opacidade do ser, que se apresentaria no modo de não o ser, constitui
elo que está recalcado". 1 7 exatamente a ftmção ela (cle)negação.
• •

Se não é suficiente que algo esteja no plano elo mantfesto para que se A palavra alemã Aujhebung, a partir ela qual Freucl assinala o movimen­
considere que o recalcamento tenha sido levantado, se ainda não é suficiente to ela (cle)negação ("a (cle)negaçào é uma Aujhebung elo recalcamento, mas
que esteja no plano ela consciência para que isto ocorra, como redefinir a nem por isso é uma aceitação elo recalcado") é o conceito que permite a
proposta ele que analisar é tomar consciente o inconsciente? Hyppolite chegar à seguinte conclusão: "Apresentar o próprio ser no modo
Mas Freucl volta, no parágrafo seguinte, a um postulado fundamental cle nào o ser, disto se trata verclacleiramentenessaAt!fhebungclorecalcamento
ela psicanálise, um princípio que regeu sua proposta meta p sicológica desde que não é uma aceitaçào elo recalcado. Aquele que fala diz: 'Isto é o que não
as origens Qá desde os Estudos sobre a histeria), a separaçao entre a carga e sou'. Se recalcamento significa inconsciência, aqui já não haveria
a representação: "Vê-se como a função intelectual aqui se separa elo processo recalcamento, já que é consciente. Mas o recalcamento subsiste, no
afetivo. Com a ajuda ela negação apenas uma conseqüência elo processo elo essencial, na forma ela nào aceitaçào" (pág. 395) .19
recalcamento é desfeita, ou seja, o fato de que seu conteúdo ele representação Da releitura filosófica elo texto freudiano queJean Hyppolite nos propõe
não atinja à consciência. O resultado disso é uma espécie ele aceitação retomaremos três elementos: em primeiro lugar, a estruturaçào da inteligên­
intelectual do recalcado, com a persistência do que é essencial ao cia é inseparável ela constituição ele uma posição ele sujeito. Em segundo
recalcamento''. Poderíamos acrescentar: porque o essencial elo processo lugar. esta constituição inaugura a abertura ele dois espaços, radicalmente
recalcante consiste em que a representação não se ligue ao afeto concomitante diferentes, e cuja característica é estar em oposição dialética. Terceiro, a
para produzir o clesprazer esperado. constituição desta posição ele sujeito é inseparável ela contracarga que
_ _

No entanto, essa relação entre o afeto e arepresentaçao, essaseparaçao impede a emergência elo recalcado desde o sistema pré-consciente, ao
entre a função intelectual e o processo afetivo, se manifesta no processo mesmo tempo que inaugura a possibilidade da constituição ela inteligência
analítico, por uma não aceitação ele um sujeito que considera um determi­ sobre a base ele separar o afeto ela representação.
nado conteúdo representacional como alheio. A partir disso, posição ele No entanto , esta abertura ao problema elo desconhecimento do suj eito,
sujeito e (cle)negação são inseparáveis. Mas sempre qu e se consicl :re, como o fato ele que o sujeito desconheça suas determinações, pode encontrar duas
base deste processo, a existência elo recalcamento tal e como esta no texto vertentes diferentes ele acordo com o modo como nos situemos em relação
freudiano, quer dizer, como o elemento pivô e o motor fundamental em torno ao problema do recalcamento e segundo a significação que outorguemos a
elo qual toda problemática haverá ele girar. este. "A psicologia concreta, precisamente porque não considera que a
_ . _ . .

Assim, a significação fica ligada inseparavelmente a postçao ele sujetto ignorância elo sujeito a respeito do seu próprio ser sej a um fato particular­
e é impensável antes ela separação precisa entre inconsciente e pré­ mente notável, não tem nenhuma necessidade ela noção ele inconsciente",
consciente/consciente. Na mesma direção, o juizo é considerado por Freucl dizem LaplancheeLeclaireno Colóquio. E respondem à proposta politzeriana:
como um atributo elo processo secunclátio (embora esteja ligado aos mais "Não dissimulamos aquilo que destes textos encontra um eco na experiência
primitivos movimentos elas moções pulsionais e, em tal sentido. relacionado e na doutrina freudiana, assim como em certa tradição filosótlca: cegueira
com o ego prazer originário). que. pelo próprio fato ele sua posição, surpreende o sujeito quanto à
Jean Hyppolite propôs, desde o ângulo ela filosofia, uma nova visão signillcação de seus atos, opacidade radical do cogito, esta tesemalebranchiana
sobre este teÀ'tO. A partir elos exemplos propostos por Freucl eÀtrai uma tem seu correspondente na teoria ele Freucl". 20
primeira conclusão: " ( . . . ) Esta observação leva Freucl a ur:1a generalização A posição ele sujeito é um efeito de desconhecimento ou é um efeito do
cheia de audácia, aonde vai propor o problema da (cle)negaçao como podendo recalcamento? Quer dizer: a posição de sujeito está determinada pelo lugar
ser a própria origem ela inteligência. É assim como compreendo o artigo em que ocupa na tópica psíquica em relação ao inconsciente ou o inconsciente
toda sua densidade jilosójica".18 A visão filosófica nos ofereceria o seguinte está definido pelo movimento discursivo do paciente em relação a seu
ponto ele vista: a partir elos procedimentos técnicos concretos elo analista, próprio desconhecimento?
_
que consistem em pedir ao paciente que diga o que lhe pareça mais Podemos dizer que todo movimento de análise que se define em relaç �o
inverossímil para, deste modo, aproximar-se ao material recalcado, chega à à perda das certezas elo st0 eito é parcialmente correto, sempre que s eJ a
conclusão ele que se trataria ele um modo ele apresentar o que se é no modo pensado e m relação ao seguinte: se as certezas do sujeito são abandonadas
ele não o ser. Pois é exatamente isso o que o constitui: "Vou dizer-lhe o que para produzir um impulso que leve (sem juizo crítico prévio) à livre
52 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 53

sociação é apenas porque subsiste a ilusão de encontrar alguma outra para mostrar como este mecanismo opera entre inconsciente e pré-consci­
�:demde s�ntido. Quancons do AI�_Millerdize msuas Conjerências Caraque fiaS-I
_ ente, entre processo primário e secundário, já que o inconsciente freudiano
que 0 simbólico está �1tmdo por d�as vertentes, uma que te�de a e a linguagem dos lirlgüistas opõem-se radicalmente e as tentativas de
significação e outra que esta antes de mms nada do lado do sem-senhdo, e transpor termo a termo suas propriedades apareceriam como uma tentativa
que se pode afirmar que a ênfase de Lacan pass?u ;ndubitavelmente da paradoxal. O cotejo entre psicanálise e lirlgüística apenas é possível ao preço
primeira vertente para a s�gu�?a. A que alude .com :st� . . O rr:esmoescl�ece : de um desdobramento de ambos os campos: no campo psicanalítico, um ·

é desde 0 sem- sentido do s1gmflcante que se cna a s1gmflcaçao. E estanamos campo pré-consciente regido pelo processo secundário e um campo irlcons­
parcialmente de acordo se comisso se aludisse a que se criauma significação ciente regido pelo processo primário. No campo lingüístico, o da linguagem
no movimento da ]ivre associação, na medida em que um discurso aparen­ com a qual nos comunicamos e a ficção de uma lirlguagem em estado
temente sem sentido toma um sentido diferente daquele que parecia ser-lhe reduzido". (Colóquio de Bonneval).
proposto inicialmente . No entanto , nossa interpretação desta hipótese não Tratar-se-ia não de um desdobramento do campo da lingüística, senão
parece ajustar-se totalmente à proposta de Alain Miller quando este de marcar o efeito radicalmente diferente da lirlguagem no inconsciente.
assinala· "De modo geral diria que para Lacan não há teoria do irlconsciente Lirlguagem que-se conservamos tal denominação - é apenas um produto
enquant� tal. Há fun damentalmente uma teoria da prática analítica e, em origirlal defirlido por leis do processo primário, e não pelas leis do processo
­
defirlitivo, é sempre a estrutura rec?nhecid.a da pr�p.ria experiência cu;.�líti secundário. Desqualificada a lirlguagem comunicacional, ao produzir-se o
ca, que se supõe ser a estrutura do mconse1ente. D�� qu.e todos os teoncos movimento de constituição do irlconsciente, não teria outro caráter, como
sérios da psican álise sempre reconheceram esta eXIgenc1a e sempre deram Freud assinalou, que aquele de constituir-se em representações-coisa.
ao analista um lug::rr na es�rut��� do inconsciente. O analístafo1TTl(lP9:rte do
-próprio conceito de mcocien�ctente · . .. . . J Neste sentido é tão inadequado falar de umalógica da cadeia significante no
inconsciente, como de uma lógica da significação. Hoje se deve sair da
Definido 0 inco ns te pelo sem - sentido, no entanto sua eXIstenc m so captura lirlgüística, assim como Lacan mesmo propôs em seu momento sair
tem estatuto na _ pro post a de Alain Miller - a partir do sentido que toma da captura biologista. As opções ligadas às duas posições que hoje prevale­
na prática analítica. O objeto ?esapareceu como tal e ficará defmido em cem na psicanálise oscilam entre um irlconsciente defmido como pura
.
função de sentido ou sem-sentido legalidade, como a combirlatória pura e simples do significante e um
, Dizer que 0 anali sta está i� plicado na �strutura do inconsciente, dizer irlconscientedefirlido como puro conteúdo, como phantasy (correlato pulsional
na .
\ que 0 inconsciente apen as eXIste med1da em que pode ser hdo pelo direto). O inconsciente freudiano, como já assirlalamos, defme-se por
J analista, ou dizer que o mconscien
quanto
t� é o que vem a? encont:o do analista,
diZer que a graVIdade eXIste desde que
conteúdos específicos - sexualidade infantil recalcada -, e por uma
nde

I
é um absurdo tão gra legalidade própria, a legalidade dos processos primários. Nesta dimensão,
Newton descobriu a lei da queda dos corpos. A realidade desapareceu e sua posição não está isolada da relação que mantém com outra irlstãncia:
apenas é um existente definido pela posição do científico e pelo fenômeno ao o pré-consciente/consciente, sem o que perde toda razão de existir.
1 qual este acede. _
. _ . _ O problema da busca de um princípio explicativo único não é patrimônio
\
Ao voltar à significaçao em ps1eanál1se nao apenas se aborda um dos psicanalistas. No início da filosofia grega existia o dilema do uno e do
problemateórico que de�e , �m mirlha opirl�ão, se� cuid ��osamente ?eslindado múltiplo.23 A busca de um princípio fundamental que permitisse entender
dos problemas da Hngürstl.c� conten:po.r�e�: e o S UJeito qu: esta no.c�ntro a diversidade dos fenômenos levou os filósofos a buscarem uma "causa
da problemática psicanahtica da s1gmücaçao e, em relaçao ao SUJ eito, a material" de todas as coisas. E isto nos levou ao ponto de partida de que o
posição que este ocupa no que diz respeito a seu próprio irlconsciente mundo estava constituído de matéria. Mas, por sua vez, se lhes propôs o
definido nos marcos da tópica freudiana. O que está em j ogo também é a problema de averiguar se a causa material deveria ser identificada com
questão da cura analítica, a situação das . re�is.tências e o pr?blema da alguma das formas existentes de matéria (água, na filosofia de Tales, fogo,
irlterpretação , defirlido no� T?arcos de um pnnc1p10 geral � o funcwn.amento na de Heráclito) ou com alguma substância fundamental da qual a matéria
psíquico marcad o pelas senes pr�erldesprazer, quer . diZer, defi�udo pel� real apresentaria apenas as formas transitórias (como na proposta de
dor que captura 0 sujeito entre o smtoma e o reconhecimento do mconscl- matematização de Platão).
ente. A intenção da hipótese atômica foi mostrar o camirlho do múltiplo ao
Ao utilizar 0 modelo lirlgüístico da metáfora para ilustrar o mecanismo uno, estabelecer o princípio fundamental, encontrar a causa material a
do recalcamento , Laplanche e Leclaire esclarecem: "Este modelo é tomado partir de onde pudessem ser entendidos os fenômenos : mas encontrou-se
54 I Silvia Bleichma r
------ Nas Origens do Sujeito Psíquico I 55

com dois enunciados contraditórios: a matéria é divisível infinitamente e, transmita em um movimento eterno e perpétuo ao inconsciente da criança.
por outra parte, existem as unidades menores da matéria. Assim, um Não há uma homogeneidade desejante que instaure uma causa única, u m
problema filosófico que está na origem da religião e da ciência, a busca do elemento único e m torno d o qual s e constituiria o SL� eito. O que marca,
uno como fonte última de compreensão, formou parte dos paradoxos iniciais justamente, a ruptura da ilusão de um sujeito unificado na teoria freudiana
de nossa cultura. é o contraditório conjunto de representações desejantes que habitam o
Só a ciência moderna mostrou que o paradoxo teórico poderia ser inconsciente, sua incoerência, sua compatibilidade a-lógica e, por isso
resolvido, mas á custa de abandonar as soluções iniciais: o produto de um mesmo, sua contraposição ao sistema pré-consciente/ consciente.
fenômeno de choque de partículas de grande energia não ê a "cisão" Os elementos assinalados são propostas introdutórias para a aborda­
daquelas, senão a criação de partículas a partir da energia; a equação
relativista que une energia e massa permite compreender a constituição da
partícula elementar.
gem da constituição do processo secundário em psicanálise. Os chamados
transtornos da linguagem ou transtornos ele aprendizagem na infância são,
na maioria dos casos, efeito das falhas na constituição elo recalcamento

O problema do uno e do múltiplo encontra-se proposto na psicanálise originário e, e m conseqüência, fracassos na estrutu:açã� elo sujeito psíqui­
. .
em diversas perspectivas: desde o problema do caráter produtivo elo co. Neste sentido e_ que, ao abordar o processo de constitmçao do recalcamento
inconsciente, e em conseqüência de sua estrutura, até as formas ele originário, da divisão entre os sistemas psíquicos, estudamos o problema da
passagem e constituição elo sujeito psíquico em relação á estrutura fundante constituição ela lógica e do juízo, cujas condições de estruturação são
do Édipo. também as condições de uma lógica ela linguagem marcada por oposições
O inconsciente em constituição do sujeito ê homotêtico com os objetos que definem significações diversas.
parentais eclípicos dos quais é fruto? A criança é simplesmente um O juízo, o discurso gramaticalmente estruturado , são um produto do
desprendimento elo objeto materno, uma subdivisão desprendida elo recalcamento e, portanto, sua singularidade só será estabelecida pela
psiquismo matemo marcada pelos mesmos conteúdos representacionais, correspondência que os entrelaça a um inconsciente, este sim, absoluta­
pelas mesmas estruturas clesejantes, expressão idêntica do único, eterna mente singular.
estn1tura que se repete a si mesma?
Propor que a metáfora é fundante elo aparelho psíquico, que aquilo que
constitui a origem elo inconsciente é o recalcamento originário, pode dar
algumas respostas. Em primeiro lugar, se falamos de metáfora, falamos da Notas d e referên cia
criação ele um novo sentido. Aquilo que estava, aquilo que era um existente,
transfom1a-se em um significado novo através ele uma operação combinatória. l. À respeito, confronte-se S. Leclaire, Un encantamiento que se rompe, Buenos Aires:
Mas esta operação combinatória, ao estabelecer a metáfora, o corte entre Gedisa, 1983. G. Rosolalo. "La psychanalyse idéaloducte", em Nouvelle Revue de
Psychanalyse, Paris, nº 27, 1983. F. Rouslang, Un destin sijí.meste, Paris: Ed. de

.
ambos os sistemas psíquicos, é o que possibilita uma nova significação .
Minuit, 1976.

.
Significação que não está dada em si mesma no inconsciente, senão que é 2. S. Freud, OC. vai. XN, 1974.
justamente efeito ela cisão através da qual o que é perturbador para o sujeito 3. Ibiel . pág. 198 (os bastardos são nossos) .
fica recalcado .
A desqualificação elas marcas mnêmicas acústicas do _<:!!scurso mater-
.!lQque se instalam no inconsc!efüe como parre-dasrepresen�õ_es:::.çgts. a fica
( 4.
5.
Ibiel., pág. 198 (os bastardos são nossos).
Em sua Antropología estructural, Lévi-Strauss deu o modelo pertinente a isso, ao
tomar deTru betzkoy os passos do método fonológico: "Em primeiro lugar- assinala
contraposta ao discurso ela proibição que se instaurã·no 15ré-consciente. A Lévi -Strauss -, a fonologia passa do estudo dos fenômenos lingüísticos 'conscientes'
ao estudo de sua estrutura 'inconsciente"' . Antropología estructural. Buenos Aires:
metáfora paterna, o recalcamento primário, não é senão a fundação de duas
Eudeba, 1 968. E uma autora como Sara Pain, em um livro recente, Estructuras
instâncias radicalmente diferentes, a partir ela constituição ele um sentido inconscientes del pensamiento. Lafunción ele la ignorancia, (Buenos Aires: Nueva
que coloca o sujeito como contraposto a seu próprio inconsciente (constitu­ Visión, 1979, vol. 1), tenta uma assimilação entre as chamadas "estruturas cognitivas
ído como instância alheia a um si-mesmo) , tópica que se situa no ego. inconscientes" e as estruturas do inconsciente em sentido psicanalítico, apoiando­
A proposta de Lacan, então, pode ser parcialmente compartilhada: a se para isso na teorização ele Piaget, por um lado, e na psicanálise estruturalista, pelo
origem do inconsciente não eleve ser buscada na biologia, nos instintos, deve outro. '1ratarnos de adotar aqui a noção mais geral ele inconsciente para que
abarque tanto o inconsciente cognitivo como o inconsciente simbólico, e o entende­
ser buscada nas ordens que possibilitam a constituição do sujeito psíquico
remos então como uma categoria concreta, positiva e estruturante, que tem por
na cultura. Mas não há uma a-historicidade do discurso matemo que se objeto a instauração simultânea de um mundo compreensível e ele um sujeito que
56 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico / 57
nele se reconheça e torne seu desejo reconhecível . O inconsciente é então o lugar do de adaptação biológica, em primeiro plano, e social, em segundo termo, por
processamento do pensamento, de onde a consciência recolherá imagens atribuíveis derivação, ao tornar equivalentes a sociedade com o meio no qual o organismo se
à realidade ou ao ego . . . ". (Os bastardos são nossos.) Ao esvaziar a estrutura de seus desenvolve.
conteúdos específicos, esta assinúlação assume uma coerência notável apenas 11. S. Freud, op. cit., pág. 207.
compreensível a partir do efeito enganoso com o qual o formalismo estruturalista 12. Ibid., pág. 203 (Os bastardos são nossos).
impregnou as ciências. 13. Ibid., pág. 204.
6. J. Lacan, "Lainstancia de la letraen elinconsciente", em Escritos I, México: Siglo XXI ,
14. Ibid., págs. 229-230.
1972, pág. 180. 15. S. Freud, "A negativa" , em OC, op. cit., vol. XIX, 1976.
7. Referindo-se ao exemplo famoso de "Poordjeli", dado por Leclaireno texto do Colóquio 16 Intervenção de Jean Hyppolite no seminário deJacques Lacan "Les écrits techniques
de Bonneval, em seu senúnãrio La situation psychanalytique ("Le psychanalyste et de Freud" (1953-54), publicado posteriormente em Escritos II com o titulo de
son baquet"), Laplanche propõe: '"Poordjeli', em sua pureza fonatória, é apesar de "Comentaria hablado sobre lá Vemeinung de Freud", México: Sigla XXI 1975, pág.
,

tudo algo único, um apaxno próprio Leclaire. Entre um certo número de analisandos 393.
a respeito dos quais Leclaire nos informa, não encontra em todos os casos uma 17. Cf. S. Freud, vol.XIX, op. cit. , pág. 295-296.
continuidade desta índole; o mesmo vale para os outros analistas: se às vezes um 18. J . Hyppolite, op. cit. , pãg. 394 (os bastardos são nossos) .
vocábulo deste gênero pode parecer concentrar sobre si uma série de cadeias 19. Aujhebung do recalcamento, quer dizer negação determinada, ao mesmo tempo que
associativas, não se poderia fazer disso o modelo da análise, nem uma etapa comum nega, determina uma certa posição: "O resultado de uma experiência da consciência
de toda análise. não é, com efeito, absolutamente negativo senão para ela mesma; de fato a negação
é sempre negação determinada. Se é verdade que toda posição determinada é uma
"Em segundo lugar: este 'Poordjeli' não é nem uma palavra da linguagem
negação (omnis a.ffirmatio est negatio), não é menos verdadeiro que toda negação
comum, nem uma frase, nem nada que possa ser entendido em relação ao sistema
determinada é uma certa posição". J. Hyppolite, Génesis y estructura de la
ordenado da linguagem; nada que se refira diretamente à linguagem como código e
como sintaxe . E um neologismo, que condensa fonemas, dos quais cada um é o
fenomenologia del espíritu de Hegel, Paris: Aubier-Montaigne, 1946, pág. 19.
elemento de partida de uma pista em direção a um desejo. De certa forma, se poderia
20. J. Laplanche e S. Leclaire, "E! inconsciente, un estudio psicoanalitico", em El
mconsciente (Colóquio de Bonneval), México: Siglo XXI , 1970, pág. 99.
dizer que 'Poordjeli' é outra versão daquilo que Freud descobriu na recordação
21. J . Alain Miller, Cinco conferencias caraqueftas sobre Lacan, Caracas: E! Ateneo,
encobridora.
1980.
"Em terceiro lugar: esta 'fórmula imprudente', para retomar o mesmo termo de
22. Ibid. , pág. 1 2 (os bastardos são nossos).
Leclaire, não encontra, segundo ele, sua subsistência mais que naquilo do qual ela
23. W. Heisenberg, "La ley natural y estructura de la materia",' em El humanismo en la
é a representação, e que é explicitamente concebido como extralingüistico. Quero
Júosofia de la ciencia, México: UNAM, 1967.
dizer que jamais o 'Poordjeli' está dado como o conteúdo último do inconsciente,
senão como uma anteúltima (poder-se-ia dizer) 'representação' do que é chamado
'representante inconsciente'. " Psychanalyse à l'Université, vol. 5, nº 20, setembro de
1980. (Os bastardos são nossos.)
8. J. Lacan, Escritos I, op. cit., pãg. 187
9. J . Laplanche, L'inconscient et le ça, Problémattques N, Paris: Presses Universitaires
de France, 1981. (O inconsciente e o id, São Paulo: Martins Fontes, em produção).
10. Nesta mesma direção é como, hoje, deveria ser recolocada a polêmica com a
"psicologia do ego". O fato de que esta escola tenha enfatizado a função sintetizadora
do ego não é senão um resultado da subsunção do campo da sexualidade no campo
da autoconservação. Na medida que se considera o sujeito como submerso em um
conflito cujos pólos parecem ser, por um lado, a autoconservação e pelo outro a
realidade, a sexualidade tende a desaparecer do campo do conflito; nem sequer se
transforma em um desses pólos (como poderia parecer em Freud desde a primeira
teoria da pulsões, aonde este conflito se daria entre a sexualidade, por um lado, e as
pulsões do ego, pelo outro), senão que desaparece pura e simplesmente.
Desta maneira, a postura da psicologia do ego, em relação à forma pela qual
concebe esta instância como lugar de conhecimento, não é senão um efeito do
deslocamento e o posicionamento, na teoria freudiana, por uma teoria do conflito.
No momento que a autoconservação é defmida por suas relações com o real, é
inevitável que o ego passe a tomar o lugar que ocupa em suas teorizações e que se
defina por suas caracteristicas de organismo presente desde as origens; organismo
Nas Origens do Sujeito Psíquico I 59

apenas comprovar as hipóteses teóricas senão a determinação, no momento


da consulta, de um campo de trabalho sobre o qual operar com um índice
de maior cientificidade?
Como aquilo que guia nosso trabalho é a preocupação por fazer
trabalhar o recalcamento originârio, para dar um fundamento metapsicoló­
gico à análise de crianças, vemo-nos tendo a necessidade ele salientar a
seguinte observação: toda aMetaps ico log ia tende amostrar umacomplexização
crescente das estruturas psíquicas em função da organização defensiva do
�uj �ito em r� lação àquilo ele que ele não pode fugir, quer dizer, em relação
a ;11c!a pulswnal. Paradoxalmente, na meclicla em que essa estrutura

M ito o u h i stória
ps1quica se complexiza, assistirían10s no manifesto a um ordenamento
empobrececlor desse mundo pulsional. A riqueza fantasmática atribuída por
Melanie Klein ao sujeito das origens tenderia aparentemente a um
nas origens do aparelho psíqu ico obscurecimento, a um apaziguamento, na medida em que o aparelho
consegue formas superiores ele organização, como se este caos inicial só
encontrasse uma estrutura possibilitadora de prazer á custa de uma
regulação menos angustiante.
O problema radicaria, possivelmente, não em considerar uma totalida­
Salientamos, nos capítulos precedentes, como a preocupação da qual somos de assinalada pelo caos ou pela ordem, senão por urna complexização na
objeto quando nos dedicamos à constituição de uma teoria da clínica de qual esses fantasmas precoces devem encontrar uma localização definitiva
crianças nos leva à busca de respostas em relação ao auant-clíuage, aos no interior da tópica psíquica.
tempos míticos das origens. Freud não deixou ele assinalar, na própria Metapsicologia, que a agência
Ao partirmos da opção teórica que o aparelho psíquico implica dois representante ela pulsão se desenvolve com maior riqueza e menores
modos de funcionamento e dois conteúdos marcados por relações de conflito interferências quando é subtraída do influxo elo consciente pelo recalcamento
e que o pré-consciente não se funda a partir do inconsciente, senão que cada �"O Recalcamento"). Concebido o recalcamento originârio como a clivagem
sistema está em correlação com o outro, afirmaremos que não se pode falar maugural elo aparelho, aquela que tem a virtualidade ele constituir urna
de inconsciente, não se pode falar de formação de sintomas na infància em tópica definitiva, é justamente pelo fato de que na análise de adultos (e na
sentido psicanalítico, antes que o recalcamento originàrio se instaure, sendo análise ele crianças, cuj a tópica já se encontra organizada) encontramos
a partir disso que se constitui o aparelho psíquico. Mas, o que hà então no através do recalcamento secundàrio a marca desse verdadeiro acontecimen­
psiquismo antes desta instauração? E, por outra parte, desde que perspec­ to fundador, que sua existência real pem1aneceu na ordem do mito, reduziu­
tiva devem ser considerados os estados anteriores a tal recalcamento? São se a ser simplesmente uma necessidade lógica no cmpus ela teoria psicana­
momentos genéticos, momentos do "desenvolvimento" determinados inter­ lítica. No entanto, na psicanálise de crianças, nos momentos em que nos
namente por um movimento evolutivo que depende da maturação do vemos obrigados a enfrentar-nos com o auant- clíuage, a relocalização destes
psiquismo infantil entendido como um organismo? São apenas tempos tempos permitirá considerá-los no interior de um verdadeiro processo
míticos, quer dizer, supostos das origens cujo efeito de conceitualização tem histórico de constituição do sujeito psíquico, confrontando-nos com os
interesse em função de u m preenchimento conceitual da teoria psicanalíti­ movimentos estruturantes que não são só anteriores ao recalcamento
ca, compreendida como uma verdadeira antropologia no estudo do homem originário senão que preparam sua instalação definitiva.
em geral? Ou são - tal e como pretendemos demonstrar desde uma Vemos em "Pulsões e destinos das pulsões" que a meta (Ziel] da pulsão
_

perspectiva histórico-estrutural-verdadeiros momentos de organização do e. em todos os casos, a satisfação que só pode ser alcançada cancelando o
psiquismo que vão pem1itir a localização dos elementos constitutivos em estado de estimulação na fonte. As primeiras diferenças entre o estimulo
função de determinantes constituintes, cuja correlação possibilitará não interno e o estimulo e"iemo são dadas pela possibilidade de fuga ou não do
organismo frente a eles. A diferença entre estímulo (Reiz) e excitação
(Erregung)1 permite a mesma diferenciação: a pulsão é aquele estím�_llo
58
60 I Silvia B!cichnwr Nas Origens do Sujeito Psíquico I 61

endógeno frente ao qual a fuga está impedida, levando, a partir disso, a entre s i até o ponto em que é impossível descrevê- los separadamente; ambos
movimentos psíquicos defensivos cuj a complexidade desembocará na cons­ se estruturam em uma gramaticaliclacle (mesmo quando seu caráter seja
tituição de uma tópica no sujeito psíquico. O caráter altamente paradoxal anterior à linguagem como tal) na qual o reflel\.ivo é o caminho para a
do objeto no momento do apaziguamento da necessidade, o fato de que o permuta entre o sujeito e o objeto (olhar/olhar-se/ser olhado), cujas
suporte do agente que satisfaz essa necessidade seja o mesmo que o do altemãncias pennitem ao próprio sujeito ser tomado como objeto.
agente de excitação se:-a1al, toma mais complexo esse movimento diferenciador Em "Pulsões e destinos elas pulsões" encontramos a exposição mais
gerando um el\.'temo-intemo, objeto fonte. derivado da estimulação sexual el\.'i:ensa a respeito destes mecanismos. Dos três tempos propostos para a
precoce à qual a criança está exposta pelo fato de estar sujeita aos cuidados constituição do exibicionismo: olhar, como atividade dirigida sobre u m
da prática materna antinatural. E nesse sentido devemos assinalar que, objeto estranho; abandono do objeto e retomo ela Schau1ustsobre uma parte
quando incluímos os cuidados maternos entre as práticas antinaturais, não do próprio corpo (olhar-se), e introdução ele um novo sujeito para ser olhado
o fazemos só no sentido proposto por Lacan (ortopedianarcisizante obturadora por ele, o primeiro tempo não corresponcleria à tendência pulsional ativa
da incompletude fetalizada das origens) , senão que o fazemos no sentido de propriamente dita, nem à perversão como tal: Freud designa com isso a
considerá-las entre todas aquelas práticas capazes de mudar a natureza do função visual enquanto função autoconservaclora. A origem da pulsão
objeto, de subverter sua harmonia natural - a do instinto , nesse caso -, corresponclerá ao segundo estágio, o estágio elo registro sel\.L.Jal do fantasma. 3
através de uma ação modificadora. Ao tomar um objeto natural (a criatura No terceiro tempo, a introdução de um novo sujeito p ara ser olhado por ele,
humana) e transfom1á-lo em um produto de cultura, um produto sexualizado, propõe uma dimensão diferente ela questão, a qual comentaremos mais
subvertido em seu instinto, guiado a partir dessa inclusão sedutora e adiante.
traumática em um mundo regido pelo prazer-desprazer, pelo an1or e pelo Detenhamo-nos no segundo tempo, momento do "retomo sobre a
ódio, o agente matemo abre as vias dessa humanização em virtude da qual, própria pessoa", deixando o primeiro tempo que, como dissemos, correspon­
mesmo em suas falhas, nos produtos oligofrenizados da psicose infantil, já de ao sujeito da autoconservação (não há pulsão de ver, o olhar não está a
se vê uma produção cultural e artificial e não um ser natural constituído. serviço ela sexualidade). Dizer que o sujeito olha-se a si mesmo n ão é
Como conceber então, sem aludir à própria constituição do sujeito suficiente. Isto seria puramente descritivo. Para o observador o sujeito olha­
psíquico, as transformações da defesa às quais a pulsão é constringida, se a si mesmo. mas quem olha quem e desde onde? Conservando a linha que
verdadeira mutação de seu destino; se conservamos a hipótese do apoio e adotamos, de um primeiro tempo da sel\.L.Jalidade ligada ao auto- erotismo,
a situamos desprendida da ordem vital no movimento que a consUtui como objeto parcial da pulsão parcial (segundo tempo elos tempos propostos p or
objeto externo- interno p erturbador excitante? Freud, já que deixaremos ele lado esse primeiro tempo da autoconservação,
Se bem assinalávamos antes nossa preocupação em fazer trabalhar o tempo míUco elo sujeito não sexuado), ê esta pulsão p arcial a que está e m
recalcamento originário , dizendo que este não aparece nos tel\.'i:os freudianos jogo e apenas fenomenologicamente existe u m olhar-se que implique u m
senão como uma necessidade teórica, a necessidade ele oferecer um Sl�jeito imaginariamente unificado possuidor d e uma imagem completa d e
fundamento lógico ao recalcan1ento secundário - sendo uma necessidade si mesmo, quer dizer, um ego que tome a seu encargo a representação elo
do sistema que aquilo que é secundariamente recalcado eleve ser ao mesmo sujeito psíquico. Esta primeira cisão entre olhar (elo primeiro tempo) e olhar­
tempo expulso ela consciência e atraído pelo inconsciente, inconsciente se, elo segundo, não se realiza pela linha que marcará o recalcamento
originário que permitirá esta atração -, há noções presentes no conjunto da posteriormente, cisão determinada pelo conflito intersistêmico, senão por
obra que permitem cercá-lo: afiXação. a contmcarga e o traumatismo são as uma primeira clivagem entre o sujeito ela autoconservação e o sujeito
que escolhemos para tal. sel\.'Llado, abarcando múltiplas linhas que só põem ele manifesto a fragmen­
Nas páginas seguintes desenvolveremos estas idéias com o objetivo de tação libidinal deste último.
fazer jogar essa preocupação sem dúvida compartilhada, mesmo que não Ser olhado pelo outro - do terceiro tempo, se nos referimos à proposta
resolvida por Freucl, quando dizia que se o recalcamento não é u m ele Freucl; elo segundo tempo, se falan1os no campo exclusivo ela sexualidade
mecanismo de defesa presente desde as origens, poder-se-ia adiantar a - em nossa opinião, eleve ser considerado como um efeito da estruturação
hipótese ele que " . . . antes de a organização mental alcançar essa fase, a tarefa do ego narcisista, qualitativamente diferente ela anterior na constituição do
ele rechaçar as moções pulsionais cabia às outras vicissitudes ( . . . ) por aparelho psíquico.
exemplo, a transformação no contrário e a uolta contra a própria pessoa'',2 O Já que a satisfação é a meta necessária e obrigatória ela pulsão, que
primeiro destes processos afeta a meta, o segundo, ao objeto, e estão ligados significaria falar de umapulsão de fim passivo? Ou teremos que incluir nesse
62 I Silvia Bleic/wwr Nas Origens do Sujeito Psíquico I 63

caso o sujeito considerado em sua condição de contracarga, quer dizer, intenso sofrimento, deveria ser levado em conta, não ex-plicava ele nenhum
incluir a constituição do ego para tomar inteligível esse processo que marca modo nem a estrutura psíquica ã qual me enfrentava no momento ela
os movimentos primários de cisão do psiquismo incipi :nte? consulta, nem a especificidade sintomática que se enraizava nela.
. . . _

Tentaremospor à prova nossa hipótese de trabalho, teoncae de conseque�­


cias dmicas, de que a transformação no contrário e a volta sobre a propna_
A história de A n dré
pessoa, como mecanismos de defesa, são mecanismos estruturantes do apare­
lho psíquico, cujo aparecimento marca o primeiro teml?o do re�alcamento
. Os pais casaram muito jovens, depois de um namoro de três anos, e um
originário, recalcamentojundante deste aparelho, e da diferenctaçao entre os
ano e meio mais tarde nasceu André, quando a mãe tinha dezenove anos e
sistemas inconsciente e pré-consciente/consciente.
o pai vinte e cinco anos. Na metade do namoro morreu o pai da mãe, ele quem
Proporei para discussão, mediante um caso clínico, as hip?teses antes
. tomaram o nome para o menino. O parto, previsto p ara meados de julho,
assinaladas, para posteriom1ente retomar alguns problemas teoncos que se
aconteceu 20 dias antes, coincidindo com o terceiro aniversário ela morte do
derivan1 daí.
avô . A família festejou o nascimento de André dizendo que "meu pai voltou
a nascer" (palavras ela mãe) .
Durante os primeiros tempos o desenvolvimento elo menino foi normal,
André: vicissitudes da a ngústia, v i cissitudes do suj e ito
sem dados significativos, salvo algumas dificuldades na lactação em função
de que era incômodo para sua mãe dar-lhe o seio, passando rapidamente ã
O motivo de consulta de André, quando contava seis anos de idade, foi
alimentação artificial. Apesar disso, o menino se adaptou em seguida à
detem1inado por uma fobia de origem antiga. Essa fobia, estereotipada e sem
mamadeira, comendo com entusiasmo e aumentando ele peso rapidamente.
variações, aparecia desde que ele tinha trê � cu:os aderida a urna mesma
. Aos nove meses, quando surgiu o primeiro dente, começaram os
representação, Drácula, o que lhe produzm mtenso� sofnrnent?s . Nos
. . . transtornos: teve diarréias e vômitos repetidos, choro contínuo e alguns
últimos tempos (e esta foi a razão para que os pa1s dec1d1ssem ped1r aJuda
transtornos elo sono: despertava três ou quatro vezes por noite pedindo
profissional) , a crise de angústia se havia intensif�cado d� t� :n odo �ue e :n
: "suco" e, simultaneamente, rechaçou o leite abandonando completamente
seu desespero, André se arrancava os cabelos e tu:ha ep1sodw s de msoma
.
que duravam até altas horas da madrugada. Tal smtomatolog1a era acom­ sua ingestão. Estes transtornos mantiveram-se até os dois anos, quando
completou a dentição. Apesar disso, durante todo esse período, foi excelente
panhada de uma conduta supersegura durante o dia, oposicionisrno e
. . tanto seu desenvolvimento intelectual, corno motor. Aos nove meses come­
atitudes incontroláveis, birras freqüentes e uma d1flculdade acentuada para
tolerar o não do adulto. Havia em relação a isso certa complacência çou a ficar de pé e aos onze meses já caminhava. Com um ano e meio falava
narcisista por parte do pai, que descrevia a situação combinando ge �tos ele perfeitamente e conhecia as cores. Antes elos dois anos e meio sabia as letras
_ e os números. Em função desses conhecimentos precoces, o pai, entre
horror e risos, dizendo: "Observe as coisas que ele e capaz ele fazer! . .
A atitude onipotente diurna era a contraparte �e um� �1ar�acla complacente e incomodado, dizia para a mãe que o exibia: "Este menino é
dependência noturna, que chegava ao pof.lto ele que �ao pod1a 1r so ao teu circo".
barilleiro e que seu pai devia acompanha-lo. Sua mae, extremamente As coisas se desenvolviam a tal ponto em torno ele André que a mãe
exigente, referindo-se aAndré dizia: "Sernpre falasobre o que lhe falta, nunca relata que lhe perguntaram se ele queria ter um irmãozinho e apenas
sobre o que tem" e o pai acrescentava: "Embor� o ameacen:o �, nu�ca tomaram a decisão de ter um outro filho quando ele aceitou. "Eu estava tão
_ feliz com o menino que não tinha necessidade de outro filho", diz a mãe. "Na
cumprimos as ameaças. Creio que ele sabe que nao podemos hrn1ta-lo .
Bom aluno, fisicamente muito bonito, o menino podia ser descrito como realidade nos decidimos porque pensamos que ele necessitava companhia",
um filho mimado ele uma família de bons recursos econômicos, como o acrescenta o pai. Desta maneira, aos dois anos e onze meses ele idade ele
depositário do narcisismo parenta]. Mas nos últimos tempos t�to s�a André a mãe ficou grávida, e teve uma menina que nasceu quando seu irmão
conduta diurna como sua fobia noturna tinham transformado a s1tuaçao tinha três anos e oito meses.
familiar em um verdadeiro inferno, que os país não tinham condições de Nesta época novamente iniciaram os transtornos. No terceiro mês da
melhorar. A vida ele todos girava em tomo desta situação e, em minha gravidez materna, o menino levantou-se angustiado uma noite, queria
opinião, teria sido ele uma simplicidade extrema interpretar isto corno o quid assegurar-se ele que os pais o viam enquanto dormia. A pariir dai começou
ela questão. Se bem o beneficio secundário que obtinha, ã custa ele um a exigir que os pais demonstrassem que o viam, em função do que o pai
64 1 Silvia Bleiclwzar Nas Origens do Sujeito Psíqllico I 65
. . ue ia a seu quarto , punha-lhe um
levantava-se relteradamen e e , cada vez

carrinho sobre o travesseiro: na n1anh
1
segu inte 0 menino contava os
vivido, campo comum compartilhado por ambos: o fato que a irmã de
não foi amamentada. Por outro lado, a forma como este fato se enlaça
André
dez carn'nhos . Simultaneamente , nos
carrinhos, chego� a c�.ntar � ove ou fantasmas matemos (seu próprio nojo aos seios de onde vazava
o leite) . E ,
. desaparecido aos dois anos.
reapareceu o ped1do de suco que h avia . em um terceiro plano, a fom1a como a recordação "se fixa" no menino,
ligada
.
. d o nasc1men
Logo d epms to de su a Irma - , quando André tinha trés anos às suas próprias vicissitudes pulsionais (há uma inversão sujeito-o
1
. h 0 1a!ou-lh e pe a primeira vez sobre Drácula. Foi
bjeto e m
.
e nove meses, um an1lgum relação à mãe, é ele quem adoeceu do peito - inversão possivelmente
. ,
cuj· a existência levaria poste1ior- ligada
nesse mome� to qu� � e cns tal'!ZOu a fo b'Ia, ao momen to constitutivo da subjetividade no qual o fato foi inscrito -,
e uma
. sica nalítica.
mente os pa1s a sohc1tar uma cons ulta P modificação relacionada com a elaboração secundá ria: não são
os seios
doentes da mãe , senão o peito do menino que fica posto em
posição
significante em relação à oralidade) . Podemos dizer que quando a irmãzinh
evist as a
o utros dado s reco l h idos nas p rime ira s e n tr nasce, André está em um momento de sua constituição ele passage
m ela
e sessões de trata m e n to tópica intersubjetiva ligada à especularidade, a uma triangulação que
abriu
as possibilidades ele instauração do recalcamento originário. O sujeito
. . . . . e o
chamou-m e a atenção o fato
Desde a pnme1ra entreV1sta que real izei, obj eto intercambiáveis na tópica intersubjetiva passaram sob a fom1a
de
_ g u stiav a fazia u m movimento com
de que nos momentos em que And re se an1 - .
. fantasmas a o inconsciente e o recalcamento efetuou um sepultam
ento
a bios vári as vezes com a lmgua
a língua e com os lábios (umed ecia os destas inscrições relacionadas com as frustrações orais arcaicas, permitin
­
fora) Nesta primeira entrevista ,
embora sem tirá-la manifestamente para do o aparecimento no pré-consciente, no sujeito cla contracarga, da assunçã
o
quando o menino falou longamente de seu
med �
esse movimento apareceu do papel ativo em relação com o que foi vivido passivamente. Podemo
. que le �
se encontra de repente s
repetidamente . Re1 atou- I?e um sonho em
���
também assinalar como essa recordação encobridora realiza, em um
duplo
_
rodeado de Dra�ulas; est� em um . ug :
tranho,
aginas?-
depois todos vão para sua
diz-, são meus pais!".
movimento, o desej o de, por um lado, privar de leite a irmã rival e, pelo
outro,
casa e, quando üram a �ascara. . . o q de identificar o sujeito com o objeto, incorporando-o em si mesmo.
No
_ tras épocas, embora não pudesse
O sonho repetiu-se vanas vezes em ou entanto, a ambivalência desta identificação não deixa sem castigo o sujeito
precis� quando. usurpador, tal como Freucl o assinalou para alguns modelos ela identificação
. . ,. ão deram leite para minha irmã porque histérica.
D1z na segunda entreV1sta. N
. hamãe (na maternidade), meu
eu fique1' d oent·e d o pe1· to" · " Q uando fU!ve rmm
·
Poderíamos fazer um gráfico para representar esta significação do real
burgu er e depois não me levou".
pai se ofereceu P ara I e_var-me a come h arn
.
''Tomei mamade1ra ate os quatro (an . s) '

dep ois , ao lixo" (faz o gesto e ri) . "E
vivido da seguinte maneira:

. . " (nostálgico) "Ainda às vezes


depois atirei fora o bico . . . Gostava mUito dele . . Explicação raciona1izante
chupo o dedo . . . ". Mãe --
--

Digo -lhe: "Sab es por q� e Dra. cu 1a tem


dentes dos lados? Porque se os
1
Fantasmas relacionados com
_ dedo" (faço 0 gesto). Fica vermelho stta própria oralidade
tivesse no centro nao podena chup ar 0
baunilha". "Estes dedos eu os comi" Fato
e ri. Diz: "O dedo tem gosto de sorvete de
(dobra três dedos: o mínimo, o anul ar e 0 �
.
I?
o polegar que trod uz
.
- na boc a e o m d !Ca
aior)
dor ,
"ficaram
com 0
os outros": assinala
qual
-
cobre o nariz.4 l __
Reco rdação encob rido ra
Cri nça _____ _________________ _ _______
______
___

. menino, a mae .
postenormente Fantasmas relacionados com
Em relaça? aos dados tra::Id os elo
fn

orque , guiando-se pela lactação sua própria oralidade


corrobora que na o amamentou amnãZ hap
a ela_ decidiu não amamentar
de André que foi bastante desprazero sa pa
. .
a memna. Assm al a tamb em . que am a me n t � �
u -o ap nas 15 dias ' porque não
Isto
. . Ih e causa va: "O leite que esconia me Constitu ição dos tem p os da fobia e m A ndré
podia suportar a incomodidade que .
. . s seio s ' não ele", acrescenta .
dava nOJO " , d'lZ. " Era eu que adoecia do
·
· te obs ervar como os dados, tanto os
Em pnme�ro lugar e· 1'nteres san
• Assinalei em outros trabalhos que no momento ele aproximação a uma
elo meni no, podem ser situados em um
trazidos pelamae como os r_: latadosp problemática clínica na infãncia nos enfrentamos nã ape as co
1 rentes: por um lado o fato , o real ? � � a
duplo corte que abarca tres planos d'fe abordagem dos fantasmas inconscientes (como Melame Klem propoe),
66 I Sílvia Bleic/nnar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 67

senão, fundamentalmente, com a localização precisa do estatuto metapsi­ Diferenciamos entre transtorno e sintoma para marcar o caráter abso­
cológico destes fantasmas. assim como com sua constituição histórica, lutamente novo deste último, que já apresenta as caracteristicas, como
considerando tanto os elementos intra-subjetivos como o momento de dissemos antes. ele uma forn1ação elo inconsciente. Por sua vez, incluímos
estruturação deste aparelho no marco da tópica intersubjetiva, quer dizer, nos acontecimentos precipitantes do sintoma tanto o nascimento da irmã como
no seio da estrutura edípica. as caracteristicas particulares da lactação desta, levando em conta o
Tomando os parâmetros assinalados no segundo capítulo: 1) o modelo material recolhido nas entrevistas e e:x1Josto anteriormente. Por suposto,
do aparelho psíquico e sua constituição; 2) a localização elo paciente na essa escolha nos levará a por em discussão o conceito de traumatismo que
estrutura eclípica e o tempo (no sentido proposto por Lacan) desta inserção estamos utilizando.
e 3) as cletern1inações da história singular (em seu caráter significante e
propondo as correlações entre o movimento sintomático e o traumatismo) ,
quais são os movimentos constitutivos, os diferentes pontos de referência Interp retação dos movim e n tos e s tr utura n tes do sujeito
que podem ser analisados nos tempos estruturantes do psiquismo de
André? a. Como considerar, no primeiro tempo, o rechaço do leite? Assinale­
Evidentemente, no momento em que o paciente consultou encontrava­ mos, em primeiro lugar, que o leite que André rechaça j á está
me frente a um menino que já tinha sofrido os efeitos do recalcamento: a desprendido do leite originário. Ele foi privado do seio quinze dias
estruturação deumafobia, com os conseguintes mecanismos de condensação depois de seu nascimento; o leite que recebeu a partir desse
e deslocamento, a constituição de recordações encobridoras e o manejo momento é um deslocamento do leite originário: não apenas há
tanto ela linguagem como da lógica do processo secundário não deixavam uma metonimização na qual o seio - objeto da pulsáo se:x'Ual -
dúvidas sobre este ponto. metaforiza o leite - objeto da necessidade, da autoconservação -,
No entanto, a intenção de trabalhar não apenas o diagnóstico do núcleo senão que há também um deslocamento a partir do real que requer
patógeno, senão a interpretação com intenção simbolizante já no plano do reatualizações estruturais no menino.
próprio tratamento, requer uma exploração dos movimentos constitutivos No momento em queAndré rechaça a alimentação primordial,
do quadro atual que permitirá intervir logo no processo terapêutico ligando algo o "ataca" a partir ele seu próprio corpo. Os dentes, irrompendo
a fantasmatização à história. No caso de André, entre os nove meses, como objetos cortantes na gengiva, tomam a seu cargo a constitui­
momento aonde aparece a angústia difusa que produz o sono intranqüilo e ção de um primeiro fantasma (ainda não recalcado) que conclensa,
a primeira sintomatologia a nível corporal (diarréia, vômitos) , assim como
em um movimento originário, o objeto atacante como objeto-fonte
o rechaço elo leite, e os três anos e sete meses, momento de constituição da
pulsional externo-interno. Dai que André se recuse a ingerir (no
fobia (momento máximo de simbolização, ele ligação a um conteúdo
real) o leite que o ataca reativando suas próprias frustrações orais.
angustiante representacional), quais são esses tempos de estruturação? E,
Algo que dói dilacerantemente na zona oral e do que só pode
por outra parte, por que o incremento da angústia poucos meses antes ele
defender-se mediante uma clivagem em um objeto apaziguante: "o
iniciar o tratamento?5
suco". O abandono da ingestão marca o primeiro tempo deste
movimento onde o objeto e o sujeito estão fusionaclos, mas não no
Tempos de constituição dafobia sentido elo narcisismo, não enquanto ego-não ego simbióticos,
a. Nove meses: dentição e começo da cleambulação. senão no sentido ela ordem da pulsão parcial que torna sincrética
Transtornos: sono intranqüilo, rechaço do leite e abandono ele sua uma parte do corpo elo sujeito com o objeto de tal pulsão, em um
ingestão, diarréia e vômitos repetidos. Pedido noturno elo "suco". fantasma constitutivo.
b. Três anos e dois meses: gravidez materna. Primeiro tempo traumático da se:x'Ualidade: algo se instala no
Transtornos: pedido aos pais que o vej am enquanto dorme, próprio sujeito; algo é "atacante", mesmo que as defesas ainda
reaparecimento elo pedido de "suco" que havia desaparecido aos requeiram um movimento de fuga "no real". Há derivações corpo­
dois anos. rais nesse primeiro movimento: diarréias, vômitos, a expulsão
c. Três anos e nove meses: nascimento ela irmã, lactação artificial ela daquilo que perturba se realiza por orificios corporais. Ainda não hà
mesma. movimentos defensivos que possibilitem a utilização de defesas
Sintoma: constituição da fobia ao Drácula psíquicas mais elaboradas.
68 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 69

b. O segundo movimento que encontramos marca um salto qualita­ o ego passou por sua estruturação narcisista e, em seu desprendi­
tivo na constituição do psiquismo de André. O menino busca

{
mento da tópica intersubjetiva, abre o caminho em direção ao
alguém que o olhe à noite, que dé sinal de sua presença para que terceiro movimento, o movimento da instalação da fobia. Dai que
ele se sinta em condições de conter a angústia que o invade: esse ainda necessite do outro adulto real para defender-se do que é
segundo tempo é concomitante à gravidez materna. Apareceu um atacante. Só quando - d,f';§Qre�c;l!99" .c!�finitiyamente do outrq, d o
esboço de triangulação, o irmãozinho está presente no ventre da lD""'" 1-ü\
_ semelhante - possa funcionar como instância intrapsíquica,
mãe. O menino requer de um adulto que o ajude a controlar - jo'?;cv '-' b poderá estruturar-se a defesa que dá origem à constituição do
durante o sono , justamente durante a emergência do incontrolável -I c , f'f' /ouh<l sintoma neurótico, da verdadeira "fobia", mediante a projeção.
v
- aquilo que se converte em ameaçador. c. O terceiro tempo já varreu decididamente os remanescentes
Mudou o motivo da angústia e o tipo da defesa. Já não é algo anteriores. É o tempo da simbolização maior, da constituição de u m
que s e produz apenas apoiado no corpo, ligado às séries prazer­ significante referencial externo que pem1ite a passagem ao medo.
desprazer da zona erógena, senão algo da ordem da simbolização Estamos em plena relação da angústia com seu objeto. Já não
amorosa. André foi e.x"Pulso do universo materno, sua mãe está há indeterminação do perigo.já estamos na ordem do recalcamento
dedicada a cuidar e esperar um terceiro, um rival que o tira de sua e da racionalidade do processo secundário . André não está "louco" ,
posição de privilégio. Que é o traumático neste caso? Ele foi teme algo que é compreensível no mundo de significações de
informado que vai ter um irmão. Im1ào que, segundo dizem os pais, qualquer ser humano. Encontrou, finalmente, uma representação
nasce para satisfazê-lo. Frente à situação de e.x"Pulsão de que foi privilegiada em torno da qual pode organizar sua angústia. Há
objeto, a simbolização que aqueles oferecem aparece como um "angústia sinal", no sentido freudiano, embora esta angústia não
movimento inacabado, insuficiente e, poderíamos dizer, com ca­ remeta diretamente à castração senão à devoração, devido a que o
racteristicas negativas. Há em André uma demanda de simbolização impromptu, a linguagem pulsional privilegiada neste menino, faz
não satisfeita que o deixa entregue a seus fantasmas mais arcaicos. que todo o perigo "genital" , toda angústia de castração fálica, seja
Se sua onipotência é tão grande - e logo voltaremos sobre isto remetida a angústias orais. A castração não está ausente no
- que pode decidir sobre a vida, também pode decidir sobre a momento em que André começa seu tratamento: no entanto, é
morte. As fantasias mortíferas são possíveis da mesma forma como significada como devoração. ·

o são seus próprios fantasmas pulsionais desenfreados e entregues A lactação artificial da im1à converte-se em um significante
a seu próprio movimento. Por isso necessita o olhar do outro, não que pode reatualizar suas próprias frustrações orais .6 A importân­
só como uma prova de amor, senão também como algo que controle cia deste acontecimento em seu caráter significante, deste real
e supervisione o que sua própria estrutura defensiva não consegue visto (vivido em tanto se engrama em seu inconsciente) , é assina­
fazer por si mesma. Os carrinhos, metonimia do pai, da função lada por André mesmo quando relata, um em continuidade ao
protetora paterna, devem ser deixados sobre o travesseiro, próxi­ outro, os dois elementos pregnantes do nascimento de sua irmã: o
mos de sua cabeça, para que indiquem que não ficou entregue a si fato de que ela não recebeu o seio matemo, por um lado, e o fato de
mesmo. Um si mesmo que lhe é estranho e que o submete às que o pai mentiu-lhe, prometeu levá-lo a comer hamburguer, o que
angústias mais intensas. Um si mesmo que é já um outro, um id. No nunca cumpriu. Por suposto que a mentira do pai é algo mais
entanto, isto não basta, e André retoma à ingestão do suco - abarcativo, no marco do Édipo, que o hamburguer ao qual o
metonímia do primeiro objeto da pulsão oral - reatualizando os discurso fica fixado. No entanto, mesmo quando evidentemente s e
movimentos defensivos arcaicos - de clivagem - que lhe pern1i­ abre por aí uma vertente para pensar o engano no marco da queda
tiram enfrentar os primeiros momentos traumáticos. narcisista por ter-se sentido até esse momento único objeto d e
Estamos, neste segundo tempo, no momento da ruptura do amor, a via proposta pelo paciente mesmo não pode ser descuida­
narcisismo, entendido como zona de constituição do ego em relação da, quer dizer, a fantasmatização oral do desengano amoroso, se o
com a identificação primária. Entre o primeiro tempo, o tempo da que queremos, adotando uma postura verdadeiramente psicanalí­
dentição e a constituição dos primeiros índices de angústia, e este tica, é ser conseqüentes com a linha que a livre associação nos
segundo tempo, de separação da mãe e de instauração do terceiro, propõe.
70 I Silvia Bleichnzar Nas Origens do Sujeito PsíqL?ico I 71

Permutações ativo-passivo nas clivagens d o a pa re l h o incip i e nte Definimos como primeiro tempo el a sexualidade o "retomo sobre a
própria pessoa"; momento no qual a pulsão se instaura no sujeito psíquico
Assinalamos o primeiro tempo de constituição desta fobia como um e a partire! o qual se produz a Schau lus tque toma esta objeto interno-externo
tempo traumático que desemboca em fantasmas pulsionais que ainda não atacante. Que é ativo e que é passivo neste movimento? O fato que a pulsão
possuem um estatuto metapsicológico preciso. Neste primeiro tempo não se se inscreva enquanto obj eto estranho atacante é efeito ela sexualização
pode falar de clivagem no sentido tópico do termo. Ainda não há sistemas em precoce à qual a criança é submetida. Se o primeiro elos tempos descritos por
conflito enfrentados; o que constitui este primeiro tempo é o "retomo sobre Freucl é olhar, esta atividade ligada à ordem vital, à autoconservação, se
a própria pessoa" por parte da pulsão, o fato de que esta se instaure como engrama na passividade sex'Ualizante que submete a criatura humana aos
interno-externo atacante para o sujeito. Desde esta perspectiva, estamos cuidados sedutores da mãe. É desta forma como nas origens da vida, neste
primeiro tempo que não é sexual no sujeito , pode-se descrever a movimento
frente ao "retomo sobre a própria pessoa", ao qual Freud se refere como
nos seguintes tem1os:
mecanismo anterior ao recalcamento originário.
Mas, como situar a "transformação no contrário" que Freud apresenta
tanto como uma. transmutação do conteúdo (do amor em ódio), quanto do Mete ________.,. Criança
(Sexualmente ativa) Ativa na busca
fim (ele ativo em passivo)?
da autoconservação
No capítulo li ele Além do princípio do prazer encontramos, nas origens
(Sexualmente passivo).
do jogo (com o fan10so exemplo do carretel) , a tentativa ela criança de resolver
pela repetição de uma mesma ação (aparecimento e desaparecimento do
Quer dizer, mãe: suj eito da sexualidade; filho: submetido à sexualidade
carretel no j ogo jort-da) a transformação ele uma situação passiva, pela qual
materna.
foi afetado, em uma situação ativa, não obstante o clesprazer que esta ação
Neste primeiro tempo que Freud define como primeiro (olhar), mas que
deveria produzir. A pergunta que Freud formula é a seguinte: "Assim ficamos podemos considerar ÇQ.mo e4f;�Q:J,_Q_à se�t.aligª,de no suJ�ifE, a criançéltQJ?.L�tCI .
em dúvida quanto a saber se o impulso para elaborar na mente alguma da sedução materna, já que quando vai ativamente na busca da satisfação
experiência ele dominação, de modo a tomar-se senhor dela, pode encontrar âã necess1âwe encontra-se com a intromissão da sexualidade por p arte d o
expressão como um evento primário e independentemente elo princípio do semelhante.
prazer. Isso porque, no caso que acabamos de estudar, a criança, afinal de No segundo tempo, o tempo da constituição da pulsao, o externo sexual
contas, só foi capaz ele repetir sua experiência desagradável na brincadeira matemo inscreve-se como interno-externo excitante, e a pulsao é ativa frente
porque a repetição trazia consigo uma produção de prazer de outro tip o, uma a um sujeito que é objeto passivo de um primeiro núcleo ativo sexual
produção mais direta.''7 No capítulo III acrescenta: "Isso, no entanto , excitante. A volta sobre a própria pessoa transforma-se então em uma
constitui desprazer cle uma espécie que já consideramos e que não contradiz primeira clivagem entre o sujeito da autoconservação e o sujeito da pulsão
o princípio ele prazer: desprazer para um dos sistemas e , simultaneamente, sexual, ao mesmo tempo que o objeto fica clivado em excitante- apaziguante
satisfação para outro. Contudo, chegamos agora a um fato novo e digno ele (recordemos a dicotomia leite-suco que André apresenta); clivagem entre o
nota, a saber, que a compulsão à repetição também rememora elo passado objeto bom e o objeto mau, na linguagem de Melanie Klein; é a mãe excitante­
experiências que não incluem possibilidade alguma de prazer e que nunca, má quem aparece em múltiplos fragmentos parciais de objetos internos
mesmo há longo tempo, trouxeram satisfação, mesmo para moções pulsio­ atacantes . Este é verdadeiramente o tempo da constituição da pulsão sexual
nais que desde então foram recalcaclas".8 de morte.
O exemplo elo carretel é um paradigma da transformação de passivo em Como vemos, tudo ocorre no "interior do psiquismo" indiferenciado
ativo. No entanto, não é o primeiro tempo de constituição elo suj eito psíquico, desde o ponto de vista tópico, cujo primeiro núcleo se cindiu na direção da
e menos ainda o primeiro tempo da sexualidade. ordem da sexualidade, da pulsão.
A polarid ade passivo-ativo é um dos princípios fundamentais da vida Podemos ilustrar esse movimento da seguinte maneira:
psíquica e, tomada em seu conjunto, poderia ser anterior às oposições
posteriores às quais se integrará: fálico-castraclo e masculino-feminino. Sujeito passivo _____ .,.. Objeto clivado
Como situar, então, com relação à tópica psíquica e a sua constituição, estes (atacado pelo iniemo-extemo (excitante e apaziguante)
momentos de ativo-passivo que encontramos nas oposições anteriores? da seYttalidade)
72 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 73

No terceiro tempo, passivo e ativo aparecem situados em relação à este ativo-excitante na ordem que contém os elementos discretos constitutivos
tópica psíquica. A constituição do ego propõe um equilíbrio intersistêmico do inconsciente.
entre o passivo e o ativo. O recalcamento originário se constitui separando No caso de André, no momento que rechaça o leite - leite rechaçado
defmitivamente o ego do id (de acordo com a segunda tópica) , e separando pela própria mãe nas origens da vida - evidentemente, não é de um objeto
o inconsciente do pré-consciente-consciente (de acordo com a primeira exterior atacante que o menino se defende, senão de algo externo-interno
tópica) . Em virtude do que precede, o ativo e o passivo ficarão ao encargo da excitante que se converteu no primeiro tempo de um fantasma pulsional cujo
tópica psíquica, e o que é passivo em um sistema será ativo no outro. Os destino será mais tarde recalcado. A inversão, a passagem à atividade, não
fantasmas entrarão em jogo neste movimento, dando lugar à projeção a é um correlato direto, no nível metapsicológico, da agressão vivida passiva­
partir do recalcamento: um representante externo (Drácula) se oferece a mente.9 Se a agressão é inscrita em forma fantasmática, assim o é enquanto
André e nele fica depositada a atividade da pulsão oral de sucção, enquanto sexualizada, quer dizer, enquanto efeito da sedução traumática. Há uma
que ele (sujeito do ego) se constitui como vítima passiva do ataque. Neste verdadeira transmutação aonde o objeto atacante - sendo interno - é um
terceiro tempo, o conflito entre o id e o ego entra em jogo pela linha da cisão verdadeiro cotlage do real vivido com o objeto libidinal (como demonstra o
que marca o recalcamento originário, ao mesmo tempo que o desejo se gráfico que mostra a relação entre os fantasmas matemos e os fantasmas
projeta em direção ao outro atacante. infantis) .
Podemos imaginar esse primeiro fantasma boca-mamilo- leite-dentes
Podemos ilustrá-lo da seguinte maneira: cortantes, dolorosos, atacantes, frente ao qual André permanece inerme,
mordido e desgarrado por uma p arte de si mesmo que se voltou sobre a
Ego (da defesa} própria pessoa. Apenas desde o ponto de vista fenomenológico pode-se falar
ativo na defesa, de uma identificação com o agressor, a partir do fato que André inverte o que
viveu passivamente (o rechaço da mãe de dar-lhe leite, ao rechaço de ingerir
passivo na sexualidade Representação este leite) . Mas o leite que André rechaça não é o leite da autoconservação,
simbólica (ativa}
é o leite fantasmático da pulsão oral excitante, já que o leite do qual sua mãe
Id (pttlsão de s ucção} projetada
ativo-atacante o privou não foi o leite da alimentação, senão o seu próprio objeto seio. Leite
que, como diria Melanie Klein, conserva os restos do seio despedaçado, dos
O conflito éintersistêmico: o ego, ativo na defesa, entra emjogo no lugar dentes cortantes (do objeto e do sujeito), leite que deve ser cuidadosamente
do desconhecimento (na linguagem de Lacan) . O id atacante, ligado à diferenciado - clivado - do suco apaziguante que o protege.
sexualidade recalcada, impõe ao sujeito movimentos defensivos que o Definimos dois tempos anteriores à constituição do sintoma em André
enfrentam (por uma inversão dentro-fora) às representações angustiantes e o fizemos entendendo que se manifestaram em transtornos pré-sintomais.
projetadas. Estas representações que aparecem a partir dg r��sà�JtQ"da O primeiro tempo, traumático, desemboca em -f���lB�=g�s que -1
condensação e do deslocamento da transmutação do[çl'[se}adó-elTiteiTil�� ainda não têm estatuto metapsicológico preciso; (Q:-;ség�ndo temJ:!!\ltestá
Neste terceiro tempo, definido pela constituição-aà recãlcãmentó ligado à constituição do ego e à instauração do recaicãinenio:Nêsfádireção
originário, o ativo e o passivo já não são qualidades diferenciais do sujeito abrem-se, por sua vez, dois movimentos estruturantes da defesa: um
e do objeto, senão que estão definidas pela cisão do próprio sL*ito. Por isso, primeiro tempo, de "volta sobreaprópriâ pessoa", de instalação do objeto­
justamente, assinalamos o caráter ativo do inconsciente - cuja legalidade fonte atacante contra o qual atuam os mecanismos arcaicos: clivagem,
tende à emergência do recalcado, ao avanço permanente em direção ao pré­ expulsão no nível corporal, choros, rechaço a incorporar o obj eto
consciente, ao mesmo tempo que à captura das representações provenientes fantasmatizado. Um segundo tempo, de busca do outro amado que proteja
deste último - em relação ao ego atacado (passivizado pelo desejo), contra a angústia a que fica submetido o sujeito quando permanece só frente
defensivo. ao ataque pulsional. A constituição do ego marca o sentido da frase: "pode
O problema da transformação do ativo em passivo e do passivo em ativo ocorrer-me algo". E estes dois tempos culminam em um terceiro, verdadeiro
deve ser, hoje, repensado no que diz respeito às relações entre a estrut rra movimento estruturante do recalcamento, que dá lugar à projeção e à
edípica e o sujeito inserido nela. Como assinalamos anteriormente. r organização do sintoma: encontro com uma representação privilegiada
criança, objeto passivo da sedução materna, só pode chegar a incorpor·· · capaz de tomar a seu encargo a angústia em forma simbolizante; sintoma
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74 I Silvia Bleichnwr Nas Origens do Sujeito Psíquico I 75

que já poderíamos considerar, em sentido psicanalítico estrito, como 9. O mecanismo de "identificação com o agressor" proposto por Anna Freud em seu
formação do inconsciente . texto O ego e os mecanismos de defesa é uma conseqüência lógica da concepção que
Se fazemos entrar em jogo a historicidade do recalcamento originário, esta autora tem da constituição do psiquismo infantil. Sendo o ego um organismo
que deve defender-se do perigo extemo e sendo definido no nível da adap tação, a
o caráter estruturante que este possui em relação com o aparelho psíquico
identificação com o agressor é o efeito de um processo do psiquismo que se propõe
porque funda a distinção entre os sistemas inconsciente e pré-consciente­ obter defesas mais adequadas e mais eficazes frente à indefensão natural da criança.
consciente, situamo-nos em uma perspectiva teórica que considera esta Se a mãe é considerada como agente que satisfaz a necessidade, é evidente que,
realidade historicamente constituída como diferente dos constituintes que em seu papel ele ego auxiliar, é a única couraça protetora ele que o bebê dispõe frente
a detem1inam, com os quais está em correlação metabólica, embora não ao dano que os traumas que afetam seu ego lhe podem infringir. Evidentemente, na
sendo um simples "reflexo" dela. concepção ele Anna Freucl, não é a seJ<:ualiclacle materna o que é traumático; a falha
ela função materna se situa no caráter insatisfatório no nível de apaziguamento ela
necessidade. Separada elo campo ela sexualiclacle, a agressiviclade funciona como um
conceito que atua simultaneamente em diversos campos: agressão física, critica dos
Notas de referên cia adultos, frustração reCLl elo objeto, gerando a partir disso um medo real na infância,
que requer este mecanismo de identificação com o agressor para "transformar a
l . Tomamos a proposta .de tradução de Jean Laplanche que assinala que o alemão angústia em uma segurança agraclàvel", quer dizer, conforto no mundo definido por
dispõe de dois termos bastante próximos, mas que possibilitam a distinção entre o suas caracleristicas hostis que ameaçam a segurança do organismo. (Veja-se, a
intemo e o externo : Reiz aludindo ao estímulo extemo, e Erregung, ao in temo, cuja respeito desta autora, Neurosis y sintomatologia en la infanciCL, Buenos Aires:
tradução adequada, jã no próprio campo pulsional, como excitação, pennite-nos Paiclós, 1 977).
situar a ordem pulsional em décalage com a ordem vital.
2. Cf. S. Freud, Metapsicologia, em OC, voi XIV, 197 4, págs, 1 70- 1 7 1 (os bastardos são
.

nossos).
3. Para um desenvolvimento deste tema, veja-se J . Laplanche, Vida e Morte em
Psicanálise, Porto Alegre: Ed. Artes Médicas, 1 985, e Gerard Bonnet, Voir-être vu,
Paris: PUF, 1 98 1 .
4. Esta fom1a das crianças de chupar o dedo é totalmente diferente de uma simples
sucção, já que reproduz no mesmo movimento o mamilo que se introduz na boca e
o seio que cobre o nariz na lactação, ao mesmo tempo que é acompanhada de uma
respiração fatigante. Este tipo de sugar auto-erótico - que em geral apresenta-se
tardiamente - deve ser explorado com atenção porque apresenta aderências
simbiólicas ao objeto matemo, diferente do sugar corno prazer de órgão aderido ao
seio fantasmático.
5. Na realidade, esta última pergunta, como ocorre sempre com as incógnitas em um
diagnóstico, só póde ser respondida ao longo do tratamento. Um dia de tormenta,
estimulado pelo ruído da chuva, que produzia no interior do consultório uma
sensação de intimidade e segurança, André "me confessou" que poucos meses antes
de iniciar suas consultas - isto é, no momento em que as crises de angústia
tomaram-se intoleráveis - tinha tido uma série de jogos sexuals com dois amigos
(irmãos entre si, menino e menina). Ele tinha sido o expectador passivo desses jogos
- enquanto voyeur. não menos ativo -, e sentia-se hon·orizado e complacente pelo
espetáculo que relatava, invertendo seu papel na sessão ao transfonnar a mim,
mediante uma reduplicação especular, em uma expectadora passiva de seus relatos
eróticos.
6. Utilizamos frustração no sentido proposto por Lacan: dano imaginário sofrido em
relação ã falta de um objeto real, sendo que tal sentido pertence ao domínio da
reivindicação, das exigências desenfreadas, sem possibilidade de satisfação. Recor­
demos o caráter peremptório que a demanda adquire em André quando a mãe diz
"sempre fa la do que lhe falta, nunca daquilo que tem".
7. Cf. S. Freud, Além do principio do prazer, em OC, op. cit., vai. XVIII, 1 979, pág. 28.
8. Ibid., págs. 33 e 34.
Nas Origens do Sujeito Psíquico I 77

condições d o esquecimento alteradas: "Locke, no século XVII , postulou ( e


reprovou) uma língua impossível na qual cada coisa indivíclual, cada pedra,
cada pássaro e cada ramo tivesse um nome próprio; Funes projetou alguma

5
vez uma língua análoga, mas a desprezou por parecer-lhe demasiadamente
geral, demasiadamente ambígua. Efetivamente, Funes não recordava ape­
nas cada folha d e cada ánrore de cada monte, senão cada uma das vezes que
a havía percebido ou imaginado. Resolveu reduzir cada uma ele suas
jornadas pretéritas a umas setenta mil recordações, que logo definirta por
cifras. Dissuadiram-no duas considerações: a consciência de que a tarefa
era interminável, a consciência ele que era inútil. Pensou que na hora da
morte não teria acabado ainda ele classificar todas as recordações da
Notas so bre a memória infãncia".
O personagem idealizou também um sistema original de numeração.
e a curiosidade intelectual Transforma cada cifra em uma palavra completa, referencial: "Seu primeiro
estímulo, acredito, foi o desagrado de que os trinta e três orientais
requisessem dois signos e três palavras, em lugar de apenas uma palavra e
apenas um signo. Logo aplicou esse disparatado princípio aos outros
números. Em lugar de sete mil e treze, dizia (por exemplo) Máximo Pérez; e m
Fu nes ou o d esgarrame nto da memó ria lugar d e sete mil e quatorze, O Trem; outros números eram Luis Melíán
Lafinur, Olimar ( . . . ) Em lugar de quinhentos, dizia noue. Cada palavra tinha
Borges criou um personagem vítima d e sua própria memória. Sua percepção um signo particular, uma espécie de marca (. . . ). Eu tratei de explicar-lhe que
agudizou-se a tal ponto que é assim descrito: "Nós, de um só lance, essa rapsódia de vozes inconexas era precisamente o contrário ele u m
percebemos três cálices em uma mesa; Funes, todos os rebentos, racimos sistema d e numeração. Disse-lhe que dizer 365 era dizer três centenas, seis
e frutos que uma parreira compreende. Sabia as formas das nuvens austrais dezenas, cinco unidades; análise que não existe nos 'números' El Negro
do amanhecer desde o trinta de abril de mil oitocentos e oitenta e dois e podia Timoteo, ou manta de carne. Funes não me entendeu ou não quis me
compará-Ias, na recordação, com as riscas de um livro de pasta espanhola entender.
que havía olhado apenas uma única vez, e com as linhas da espuma que um "Os dois projetos que indiquei (um vocabulário infinito para a série
remo levantou no rio Negro nas vésperas da ação do Quebracho. Essas natural dos números, um catálogo mental inútil de todas as imagens da
recordações não eram simples; cada imagem vísual estava ligada a sensa­ recordação) são insensatos, mas revelam certa grandeza balbuciante.
ções musculares , térmicas, etc. ( . . . ) Duas ou três vezes reconstruiu um dia Deixam-nos víslumbrar ou inferir o vertiginoso mundo de Funes. Este, não
inteiro; nunca havía duvídado, mas cada reconstrução requereu um dia o esqueçamos, era quase incapaz de idéias gerais, platônicas. Não apenas
inteiro. Disse-me: Mais recordações tenho eu sozinlw do que as que terão tido lhe custava compreender que o símbolo genérico cachorro abarcasse tantos
todos os homens desde que o mundo é mundo. E também: Meus sonhos são indivíduos díspares de diversos tamanhos e forma diversa; incomodava-o
como a uigília de uocês. E também, na primeira luz do dia: Minha memória, que o cachorro das três e quatorze (vísto de perfil) tivesse o mesmo nome que
senhor, é como depósito de lixo". Paralisado na cama, Funes nunca sai elo o cachorro das três e quinze (visto de frente) . Sua própria cara no espelho,
quarto aonde ficou enclausurado. Não sai do catre, olhos postos na figueira suas próprias mãos, surpreendiam-no cada vez ( . . . ) Era o espectador
ao fundo ou em uma teia de aranha. Nos entarcleceres permite que o levem solitário e lúcido de um mundo multiforme, instantâneo e quase intoleravel­
até ajanela. Pode passar horas com os olhos entrecerraclos ou contemplando mente impreciso".
um galho de santonina. E conclui: "Havía aprendido sem esforço inglês, francês, português,
A narração se transfomm, paulatinamente, em um episódio de horror,
latim. Suspeito, no entanto, que não era muito capaz de pensar. Pensar é
há algo monstruoso, repulsivo, no encontro com esse homem que tem as
esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No abarrotado mundo de Funes
não havía senão detalhes, quase imediatos" .
76
78 I Silvia Bleic/mwr Nns Origens do Sujeito Psíquico I 79

A memória não se apresenta como uma condição do pensamento no Repetidor "empedernido", fez duas vezes a primeira série, duas a
personagem id ealizado por Borges, quer dizer, como uma condição do segunda e , no momento da consulta, estava a ponto de fracassar novamente.
simbolismo organizado . U m mundo pontual não requer o sistemaordenador Sua história também é rotineira. Não houve problemas no parto, não
da numeração. Não há prazer em Funes, vítima de sua própria percepção chorava nem demandava atenção nos primeiros meses ele vida, e se isto nos
que, sem seleção, transforma-o no "solitário e lúcido espectador de um fez pensar inicialmente na existência de certos componentes autistas , foi
mundo multiforme, instantáneo e quase intoleravelmente impreciso". Sua preciso desconsiderá-los, porque o menino não oferecia a conhecida face
memória é um depósito de lixo, os dejetos de objetos penetram nela e se fixam indiferente, nem o isolamento , nem a falta de contato afetivo patognomõnico
sem que o personagem possa selecionar aquilo que realmente quer incorpo­ do autismo. Equánime e pouco hostil em seus primeiros anos, não parecia
rar. A riqueza da qualidade sensorial não deflne em nenhum momento uma perturbar-se profundamente com as repreensões, e teve um desenvolvimen­
"qualidade significante", as palavras se intercambiam com os objetos, e estes to normal (sentou-se aos seis meses, engatinhou aos oito, caminhou aos
com os números. O conceito não consegue uma fixação no sistema e o dez) . Mostrava-se independente ao ponto de fazer-nos suspeitar daquilo que
pensamento circula ligado à qualidade sensorial e referencial. Margaret Mal1ler chama um "fracasso elo companheiro simbiótico matemo".
O texto é uma metáfora sobre a insônia, diz Borges no prólogo que No entanto , aos três anos e meio quis ir ao jardim de infáncia, onde teve um
escreveu para Ficciones. O dormitar propício a todos os delírios, a circulação contato tranqüilo e agradável com seus companheiros e professores (o que
vertiginosa de imagens e significantes marca em Funes esse estar na metade nos levou, também, a descartar a possibilidade de uma psicose simbiótica
do caminho entre a imagem e a linguagem. no sentido clássico, com detenções do desenvolvimento em função d a
A longa introdução a respeito de um homem que não pode esquecer nos separação do companheiro matemo) . U m elemento chamativo era seu medo
permitirá, talvez, introduzir-nos nos labirintos do psiquismo ele um menino aos ruídos fortes nos primeiros anos , que lhe produziam crises de pánico,
que, aparentemente, não pode recordar. Memória e esquecimento vão a partir do que e baseando-se em um preconceito psicologista, alguém
juntos. Se se esquece em excesso, se s e recorda sem discriminação, as "autorizado" recomendou que frequentasse aulas de caratê parareassegurá­
condições do pensamento se perturbam. O objeto deste trabalho é voltar a lo, apesar da opinião dos pais de que era um menino muito independente e
investigar o problema ela memória na estruturação do aparelho psíquico. que não apresentava transtornos de conduta.
Problemas mais severos começaram com seu ingresso na escolaridade
primária: manifestou uma dislexia ao começar a escrever, evidenciando-se
Antônio, u m menino "desmemoriado" transtomos do pensamento lógico e m dificuldades para as matemáticas e a
já mencionada perturbação da memória. Este último dado pareceu
Diferente ele Funes, cuj o afastamento solitário nunca propõs um chamativamente contraditório no momento de tomar sua história.
problema de escolaridade - pelo menos Borges não o relata - Antõnio, Não posso deixar de fazer uma digressão neste momento. Quando
como tantas crianças que não aprendem , chegou à consulta aos dez anos de realizo uma entrevista para organizar a história ele uma criança, sempre a
idade, depois de longas passagens por tratamentos de reeducação faço com a mãe (ou com o substituto matemo) e na presença da própria
psicopedagõgica, extensas baterias de testes e múltiplas mudanças de criança. Assim abre-se um espaço de simbolização, deverdadeirahistorização,
colégio. que proporciona um ordenamento desde o início, ao mesmo tempo que a
Se bem desde que era pequeno na escola acreditaram que suas i abertura de uma série de interrogantes, tanto para a mãe como para o filho .
dificuldades se deviam a "problemas emocionais" (excluindo- se transtornos 'j Elementos que sempre estiveram dissociados s e conectam e episódios
I
neurológicos), a única indicação que os pais receberam durante longo tempo vividos são ressignificados, proporcionando ã criança um contexto frente ao
foi fazê-lo ter aulas particulares e, desde dois anos atrás , um tratan1ento qual suas próprias vivências se reestruturam.
psicopedagõgico três vezes por semana. Não acredito, como alguns autores da Ego psychology propõem, que a
A caracteristica predominante que seus professores assinalavam era mãe possua o critério de realidade frente a uma criança submetida a u m
que o menino "não retinha". Desmemori::tdo, esquecidiço, um caso a mais mundo fantasmático; que aquilo que está em jogo seja um discurso
desses pacientes enfadonhos frente aos quais os psicanalistas de crianças verdadeiro em oposição a uma atitude fantasiosa. Mas também não
se propõem u m tratamento de rotina a partir da individualização dos compartilho a proposta de Maucl Mannoni, para quem o discurso matemo
elementos "inibitórios" que aparecem como responsáveis pelo fracasso é o que justifica, de um modo lineal, o inconsciente da criança, e é o que
intelectual. oferece uma resposta para a compreensão sintomática. Entendo que o nível
80 I Silvia Bleidzmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 8 1

de simplicidade que sua teorização oferece funcionou mais como organizador senticlo " . 1 Tinha tendência a substituir a realidade pela fantasia, e a
si stêmico obturante do que como um movimento de abertura, que é o que preencher aquilo que não havia entendido por uma explicação arbitrária.
toda entrevista diagnóstica deve proporcionar. Assinalei, no capítulo ante­ Esta dificuldade para a metaforização, para a substituição simbólica, já se
rior. que se trata de correlacionar os elementos da história (traumaticamente havia apresentado na primeira infãncia; a mãe relatou: "Nunca demandou
significante) com o discurso matemo - e. conseqüentemente, com os cuidados, sempre pediu coisas concretas, e tomou mamadeira até os cinco
próprios fantasmas da mãe - em relação ao discurso do filho e sua própria anos".
fantasmática. Em tal sentido, há momentos desse relato matemo que se Na entrevista mãe-filho ocorreram alguns fatos surpreendentes, que
fraturam em função de informações que esta sente como absolutamente me levaram a propor-me a uma investigação teórica mais exaustiva para
íntimas, atinentes à sua própria sen1alidade, e que merecem a abertura de encontrar respostas a interrogantes que não podia responder. A mãe contou
um espaço. uma entrevista a sós sem a criança, para que possam ser alguns episódios muito precoces da infãncia de Antônio: "Com um ano e
desabafadas . Informo , então, à criança que assim como ela tem coisas que meio (o menino) pegou um pau acreditando que era um bico. Tinha a ponta
considera íntimas, que não quer que sejam conhecidas em outro lugar, verde; era veneno para as plantas". Antônio acrescenta: "Havia um jardim,
ocorre o mesmo com sua mãe; e que ela e eu teremos uma entrevista a sós me puseram em uma cama e me deram uma água vermelha. Vomitei .
para que possa me expor essas coisas. Garanto- lhe também que tudo que Disseram-me que retivesse a água vermelha na boca e joguei-a fora". (Esta
tenha que ver com ele lhe contarei posteriormente, mas que tudo que tenha recordação, vinculada ã e;..rpulsão-retenção, vermelho da água que logo
que ver com sua mãe exclusivamente merece o respeito de meu silêncio. aparece em outro contexto, não é, apesar de sua antiguidade, o mais
Tento inaugurar, deste modo, dois espaços, ambos atinentes à intimidade arcaico .)
e ao segredo privado , que permitam em um ato simbólico separar dois O relato continua: "Quando Antônio tinha menos de um ano fiquei
diferentes sujeitos da sexualidade e o fantasma. Como se verá, não é meu grávida. Estávamos com problemas no casamento . Aos três meses d e
gravidez abortei naturalmente, fiquei muito triste". Antônio acrescenta: "Ah
critério que aquilo que cura seja património da franqueza absoluta, senão
da ordem da demanda de simbolização da criança. Vi crianças que,
sim, no banho. Puseram o bebê em um frasco. Eu estava na sala e de repente
bombardeadas por um excesso ele infom1ação que não lhes diz respeito, o
havia muito sangue (vermelho) , mamãe foi ao banheiro, trouxeram u m
que sentem como perturbante e alheio, manifestam seu desacordo em
frasco. Vi o frasco, mas não vi nada".
recebê-la, saindo do consultório, assobiando, ou isolando-se e deixando ele
"Fiquei grávida novamente - diz a mãe - . Foram seis meses de uma
alguma maneira explicitada sua necessidade de um espaço diferente do
boa gravidez. D epois . . . lembras?". "Sim, havia muito sangue no chão outra
espaço matemo , tentando frear o desborclamento do qual sua mãe é objeto.
vez; tive medo que morresses. Não queria ficar em casa, íamos ao hospital.
Nem a informação em si mesma, nem a falta dela, são razões suficientes para
Havia um murinho e um vidro, aproximei-me e vi um tubo que tinha u m
a doença ou para a saúde de uma criança; pode dizer-se "tudo" sem que se
aquário , e m baixo havia algodão, o menino estava agarrado ao tubo dando
proporcionem os significantes chaves para que se inaugure a simbolização .
voltas, voando". A mãe acrescenta: "Tinhas dois anos e três meses".
A partir desses elementos surgidos na entrevista definiu-se o primeiro
No caso deste menino, minha preocupação era encontrar as relações
interrogante: O que ocorria com esse menino, cujas recordações arcaicas
entre os determinantes edípicos e a forma singular (específica) na qual o
mantinham tal grau de vigência que impediam o acesso d e toda infommção
déficit simbólico havia se instaurado. Intuía que o fracasso ela simbolização
nova a seu aparelho psíquico, ao mesmo tempo que p arecia não haver
podia corresponder a uma ordem diversa daquela relacionada com a inibição
sucumbido à amnésia infantil, quer dizer, ao recalcamento que se encontra
(sobre o que voltarei logo). Era-me difícil determinar onde estavam as falhas
que o produziam, mas alguns elementos me faziam pensar em um fracasso na base de toda neurose, mas que é por sua vez a condição do lastro do
na estruturação do recalcamento originário, nas relações entre o processo inconsciente, lastro possibilitador das operações do processo secundário e,
primário e o secundário : quando via televisão não compreendia a trama e em conseqüência, de todo processo sublimatório?
pedia a quem estivesse perto "conta-me o que ocorre" , angustiando-se Talvez um elemento podia ser a chave da situação: ao final desta
quando isto ocorria; possuía certa ingenuidade (frente ao duplo sentido) , entrevista, quando propus para a mãe outra entrevista a sós com ela (tal
como se houvesse uma dificuldade para a metaforização, para a compreen­ como assinalei anteriormente que faço em muitas ocasiões) , respondeu- m e :
são do discurso; ao mesmo tempo em que também não entendia o duplo "Não sei se é necessário, Antônio sabe tudo acerca d o que lhe posso dizer,
sentido elos chistes nem elo que vulgarmente se chama "palavra com duplo eu não tenho segredos para com meu filho".
82 I Silvia Bleichma r Nas Origens do Sujeito Psíquico I 83

Como ex'}Jlicar, então, esta situação de um menino que chega à Estas duas possibilidades - porum lado a de saturação, por outro lado
consulta porque não retém, porque não tem memória e, repentinamente, a ele borrar o que já está inscrito - podem ser comparadas a dois tipos ele
aparecem recordações tão arcaicas, tão precoces e, ao mesmo tempo, com escrita diferente: aquela que fazemos sobre uma folha de papel com tinta
um caráter tão traumático, tão diretamente ligadas à sexualidade materna? indelével, ou a que fazemos sobre um quadro-negro, com giz, e cujos
Nas provas que fez durante o processo diagnóstico para a terapia de caracteres podem ser destruídos assim que deixam ele interessar-nos (a
aprendizagem, aparece um dado significativo: Antônio não tem memória desvantagem deste último procedimento é que não se pode obter nenhuma
imediata. Quando em uma delas (o WISC) lhe é pedido a repetição de dígitos, marca duradoura) .
sua pontuação aparece como a mais baixa de sua perjom1cmce - este item Diferente destes sistemas ele inscrições, o aparelho psíquico, tal como
está, segundo os texios de análise de testes, diretamente associado à foi descrito em diferentes momentos da obra, seria ilimitadan1ente receptivo
recepção e à memória passiva -, como se a membrana anti-estímulos, ao para percepções sempre novas, ao mesmo tempo que tentaria marcas
soldar-se, tivesse se convertido e m algo verdadeiramente impern1eável à nmêmicas duradouras. "Já em 1 900, em A Interpretação dos sonhos, dei
recepção (recordemos o pânico aos ruídos já mencionados) , como se tudo expressão a uma suspeita ele que essa capacidade fora do comum deveria
que viesse de fora fosse altamente perturbador e não pudesse ser qualificado ser dividida entre dois sistemas diferentes ( . . . ) Temos um sistema Pcpt. -Cs . ,
e, em tal sentido , se convertesse em ameaçador. Mas, por outra p arte, não que recebe percepções mas não retém traço permanente delas, podendo
é chamativa esta falta de separação dos sistemas, o que pareceria ser uma assim reagir como uma fo lha em branco a toda nova percepção". 3 O modelo,
característica de uma falha do recalcamento, condição do esquecimento e então, não é o modelo da folha escrita nem o modelo elo quadro-negro, senão
da memória, em relação a esta mãe que parece "não ter segredos para com o de uma nova invenção que acaba ele aparecer no comércio com o nome ele
seu illho"? "bloco mágico". A característica fundamental elo bloco mágico é que consta
ele dois estratos que podem ser separados entre si, salvo em ambas as
margens transversais. O ele cima é uma lâmina transparente ele celulóide e
o problema d a memória o de baixo , um fino papel encerado, também transparente. A ação de escrever
sobre ela não consiste em fazer surgir um material à superfície receptora,
O tema d o esquecimento - e suas relações com o recordar - foi mas a superfície é roçada, pressionada por um estilete, o que faz com que
proposto pela psicanálise desde suas origens, convertendo- se inclusive no a face inferior elo papel encerado oprima a face de cera, e que estes sulcos
eixo fundamental da teoria do recalcamento. O trabalho com histéricas põs tomem-se visíveis , como traços ele tom escuro. "Estando algo escrito sobre
de manifesto que, além mesmo do caráter sintomático da conversão, algo se o bloco mágico, se levantarmos cuidadosamente o celulóide do papel
definia estruturalmente no esquecimento, permitindo relacionar a memória encerado podemos ver a escrita ele modo também claro sobre a superfície elo
com a sexualidade. Posteriormente, Freud pôde retomar estas questões último, e a questão de saber p orque haveria necessidade ela parte de
quando, ao universalizar o recalcamento e transfom1ar o fenômeno histérico celulóide ela cobertura poderá surgir. O experimento mostrará então que o
ele dupla consciência em algo atinente ao funcionamento psíquico em geral fino papel se amassaria ou rasgaria com muita facilidade se se escrevesse
(através do conceito ele inconsciente), justificou o fenômeno ela amnésia diretamente sobre ele com o estilete. A camada de celulóide atua, pois, como
infantil como momento funclante ela passagem elo polimorfismo perverso à wn escudo protetor para o papel encerado, afim de manter afastados efeitos
sexualidade regrada. prejudiciais oriundos defora. O celulóide constitui um 'escudo protetor contra
Os trabalhos inaugurais da metapsicologia ele Freucl puseram em jogo estímulos'; a camada que realmente recebe os estímulos é o papel".(ibid. , pág.
o fato de que se o recalcamento traz como efeito o esquecimento, ele é 288, os bastardos são nossos.)
também a condição da memória. No capítulo VII ele A interpretação dos "Sobre o Bloco Mágico, a escrita se desvanece sempre que se rompe o
sonhos distingue o pólo perceptivo (que sempre deve estar aberto ao ingresso íntimo contato entre o papel que recebe o estímulo e a prancha ele cera que
ele estímulos) dos engramas mnémicos , capazes ele conservar marcas preserva a impressão". (pág. 289); e Freucl segue: "não penso, porém, que
permanentes, e em "Uma nota sobre o 'bloco mágico"' se pergunta como o seja demasiado exagerado comparar a cobertura ele celulóide e papel
aparelho conserva as marcas mnêmicas sem saturar sua capacidade ele encerado ao sistema Pcpt-Cs e seu escudo protetor; a prancha ele cera com
recepção. E se questiona: A capacidade ilimitada ele recepção e a conserva­ o inconsciente por trás daqueles, e o aparecimento e desaparecimento ela
ção ele marcas duradouras se excluem mutuamente? É preciso renovar a escrita com o bruxuleio e a extinção da consciência no processo ela
superfície receptora ou devem-se aniquilar os signos registraclos?2 percepção. (ibid., pág. 289)
84 I Silvia Bleiclzmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 85

Podemos concluir: nenhum dos sistemas em si mesmo justifica a recalcamento , o u para a defesa em geral , que a angústia? (pág. 133) Mas
memória como fenômeno que pode ser alcançado pela consciência, senão Laplanche marca a contradição em relação à qual o próprio Freud já se havia
que ê necessária a conjugação de ambos para que esta sej a possível. Duas questionado : se pensávamos que a angústiaera conseqüência do recalcamento
capas, então, cuja característica principal ê a de não estarem totalmente -já que é precisamente na medida em que uma pulsão está recalcada que
aderidas, senão pelas bordas; dois sistemas em contato, diferenciados e ao o afeto correspondente se transforma em angústia - a angústia não pode
mesmo tempo comunicáveis. Se não há contato entre ambos, se a folha não ser conseqüência elo recalcamento e , ao mesmo temp o , ser invocada como
pode estar em contato com a folha de celulóide, em minha opinião, estamos causa. Há que se fazer uma escolha, ou pode-se encontrar uma saída no
ante o modelo do es quecimento neurótico. Algo força a separação entre os interior da própria contradição?
campos, ele modo que aquilo que se inscreve não pode aparecer na superfície. São duas as questões que se abrem neste momento em relação com o
Se se soldaram - ou melhor ainda, pensando em um modelo constitutivo tema que é nosso objeto de trabalho. Se a angústia é conseqüência elo
elo recalcamento originário -, se não se produziu a separação necessária recalcamento, o é na medida em que existem dois sistemas em conflito U á
que permite a constituição das duas capas, a lãmina ele celulóide ilcará desenvolvemos a hipótese d o icl atacante , d o ego atacado, em capítulo s
colada à folha escrita, impedindo deste modo toda nova inscrição e, ao anteriores) ; mas uma vez que h á u m ego que emite sinais el e alar_rne frente
mesmo tempo, fazendo ressaltar os caracteres já inscritos, em outros ao ataque do id, o recalcamento tem como objeto evitar a angústia. E evidente
tempos, para sempre. que estamos falando de dois tipos de recalcamento diferentes: o recalcamento
originário, organizador da diferença entre os sistemas e, portanto, capaz d e
permitir a produção deste afeto chamado angústia, e o recalcamento
Ini bição e recalcamento secundário, que tem por objeto evitar seu aparecimento.
O outro aspecto que nos díz resp eito é o fato de que podemos considerar
Sempre me chamou a atenção que no Vocabulário da psicanálise, de a angústia em geral como um efeito do recalcamento . originário, mas a
Laplanche e Pontalis, não apareça o tem1o inibição, sendo um dos compo­ emergência de angústia não é senão o produto da inscrição singular do
nentes do título de um trabalho freudiano tão importante como Inibições, sistema de representações que o sujeito possui em seu aparelho psíquico.
sintomas e ansiedade, além do fato de que tanto o sintoma como a angústia Voltamos assim ao interrogante que deixamos em aberto com a intenção de
são dois conceitos chaves para a compreensão da psicopatologia psicanalí­ encontrar uma resposta: a inibição, como empobrecimento funcional que é
tica. Parece-me importante situar a inibição no marco da segunda tópica, efeito da contracargado ego, não é um processo originário, senão secundário
cuja constituição definitiva é alcançada em 1 923 em O ego e o id, sendo - neurótico - ao recalcamento originário, e produto do recalcamento
InilJiçóes, sintomas e ansiedade um trabalho de 1 926, portanto , escrito no secundário.
marco desta teorização. A partir disso, para falar ele uma "curiosidade intelectual inibida", h á
A inibição, díz Freucl, liga-se conceitualmente de modo íntimo à função que s e definir, primeiro , s e o processo de curiosidade intelectual s e
e, em tal sentido, expressa uma limitw;ãofuncional do ego que, por sua vez, constituiu verdadeiramente, e s e seu não aparecimento é, e m conseqüência,
pode ter diversas causas (nem todas elas patológicas) . Mas esta inibição, um efeito da inibição derivada do recalcamento; ou se, pelo contrário, essa
esta limitação funcional do ego, é efeito elo interjogo entre angústia, ego e curiosiclacle não se constituiu, isto é , não se estruturouapulsão epistemofilica.
recalcamento: a inibição é o produto da contracarga do ego em relação ao icl Não posso deixar ele assinalar, a esta altura de meu trabalho, que tenho
ou ao Ice para evitar um conflito no exercício elo recalcamento . Deste modo, dúvidas em relação ao fato de situar a aptidão para o conhecimento e m
a inibição não é senão um resultado, o produto observável, fenomenológico, termos d e pulsão epistemofílica. Nesta não aparece nenhum elos componen­
ela forma peculiar em que se organiza a transação entre os sistemas para que tes que tomamos como ponto de partida para a definição de pulsão: não s e
não apareça a angústia. apoia nem, portanto, s e desprende da necessidade; não parece remeter-se
Em seu seminário sobre a angústia\ Laplanche propõe alguns eixos ao prazer de órgão e , quando o faz, é por deslocamento e apoiada em outra
introdutórios para ler Jniliições, sintomas e ansiedade. "Em primeiro lugar é pulsão: conhecimento masturbatórío, retenção anal, impossibilidade el e
necessário, para Freud, ressituar a angústia em relação ao processo reter como vômito ligado à oralidade, incorporação canibalística també m
defensivo". E, no processo defensivo - acrescenta, em relação a uma relacionada com esta, etc. Pareceria que faz parte d e u m processo psíquico
questão que já está presente no texto "O recalcamento", de 1 9 1 5 -, é mais amplo, que se encontra vinculado, por um lado, com a sublimação e ,
necessário um motivo para o recalcamento. E que melhor motivo para o por outro, com o domínio el a alteridade, efeito da castração, no sentido dado
86 I Silvia Blcichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 87

a esta por Lacan: corte do objeto primordial, separação que implica o de temporalidade de ontem, hoj e e amanhã. Em coisas práticas. diz Melanie
aparecimento do terceiro e da falta em relação à posição fálica iniciaL E, em Klein, estava mais atrasado que outras crianças de sua idade, sendo
tal sentido, chama a atenção que tenha sido Melanie Klein - como chamativo que, apesar de ser levado freqüentemente a fazer compras, não
e:ll:poremos nas páginas que se seguem - quem propôs este processo e suas entendia que as pessoas não presenteassem seus pertences, e não entendia
conseqüências no plano da clínica de crianças, enquanto que os psicanalis­ que se devesse pagar por eles e com diferentes preços de acordo com seu
tas lacanianos se aferraram à formulação de "conhecimento paranóico", que valor.
remete à especularidade e à constituição do narcisismo, sem verna proposta Sem dúvida, é difícil para aqueles entre nós que lemos hoje o texto ,
de Lacan a respeito da arte e da ciência, como tentativas de domínio do real, avaliar os critérios mediante os quais se julgava, em 1 9 1 9 e na Europa
a margem teórica que se abria para urna teorização mais produtiva em Central, um retardo intelectual . Há, em cada cultura, elementos d e
relação ã constituição da alteridade como pré-requisito da constituição da ordenamento que apenas podem ser compreendidos em relação a essa
inteligência. mesma cultura (problema da estandardização cultural ou étnica, ao qual se
dirige a aplicação ele testes), mas dois elementos chaman1 nossa atenção: a
pobreza de simbolização da criança a quem a autora faz referência, e sua
A p ro p osta d e M e l a n i e Klein dificuldade para a compreensão do código social, o fato de que não entenda
uma norma social predominante em sua cultura: a do dinheiro.
As primeiras observações detalhadas a respeito do desenvolvimento Esta constituição psíquica parece ser abordada desde os quatro anos
intelectual de urna criança, desde o ponto de vista da psicanálise, são as e meio por Melanie Klein, que registra minuciosamente o aparecimento da
apresentadas por Melanie Klein ante à Sociedade Psicanalítica Húngara, em curios idade sexual supostamente "inibida" . Parte para isso de uma hipótese
julho de 1 9 1 9 . 5 Nelas se postula a hipótese de que a origem da inibição que guia todo seu trabalho: a curiosidade (sexLial-intelectual) é "natural" ;
intelectual deve ser buscada na ordem do recalcamento, recalcamento seu não aparecimento, em conseqüência, não pode ser senão efeito de urna
sextlal que leva à anulação de toda curiosidade científica. Seu maior mérito coartada, de um recalcamento que aparece manifestamente como inibição.
foi por à prova, no campo da observação da criança, que a dissociação entre A partir da constatação do problema, e de sua conseqüente proposta d e
o "afetivo" e o "cognitivo", com a qual a velha psicologia se manejava até resolução - responder sempre á criança com a verdade absoluta e , quando
então, era facilmente questionável sob a condição de ressituar os conceitos seja necessário. com uma explicação científica adaptada à sua compreen­
de afetivo e cognitivo em uma ordem de cientificidade que os incluísse. Freud são, tão breve quanto possível; nunca fazer referência às perguntas que já
já havia mostrado em sucessivas ocasiões (em 1 900, com o capítulo VII de foram respondidas. nem incluir um novo tema a menos que ela mesma o
A interpretQfão dos sonhos; em 1 9 1 5, com a Metapsicologia; ou mesmo antes , traga ou faça espontaneamente uma nova pergunta -, a curiosidade
desde os trabalhos sobre a histeria e no Projeto) que o famoso "afeto" da intelectual de Fritz se desenvolve em múltiplas direções que Melanie Klein
psicologia tinha que ser compreendido em termos de quantum de afeto, de ordena em alguns itens: perguntas sobre o nascimento, sobre a existência
carga, e que havia algo que correspondia ao sistema da simbolização que era de Deus, sobre a existência em geral e afirmações sobre o ser, às quais refere
da ordem da representação . Sistema de cargas e sistema de representações como perguntas e certezas óbvias: "Perguntou-me corno se chamava isso que
aparecian1 então intimamente ligados (ou patologicamente dissociados) no se usava para cozinhar e que estava na cozinha (se lhe havia escapado a
interior de um sistema cuja regulação tornava possível um funcionamento palavra) . Quando eu o disse, manifestou: Se chama fogão porque é um fogão.
mais os menos organizado de amb os: o aparelho psíquico. Eu me chamo Fritz porque sou Fritz. A ti te chamam tia porque és tia".
O que chamou a atenção de Melanie Klein no pequeno Fritz (cujo Produziu-se no menino, afirma, um desenvolvimento do princípio d e
desenvolvimento explora no citado trabalho), foi que sendo um menino forte, realidade - que não podemos deixar d e relacionar com o desenvolvimento
sadio e mentalmente normal, tivesse tido tamanho nível de lentidão em sua do juízo de existência - e uma diminuição de seus sentimentos onipotentes.
evolução, a ponto de tornar-se preocupante para o observador: não falou até Três são os elementos que devem ser realçados do trabalho de Melanie
os dois anos e só pôde expressar-se com fluidez aos três anos e meio, com Klein, segundo nosso entendimento: em primeiro lugar, a fina observação
certa pobreza expressiva e simbólica; apenas adquiriu umas poucas idéias (desde uma perspectiva profundamente analítica) , que correlaciona o
próprias lentamente e tinha mais de quatro anos quando aprendeu a aparecimento da curiosidade a respeito da existência do sujeito, com a
distinguir as cores e quatro anos e meio quando pôde diferenciar as noções curiosidade intelectual em geral; segundo, a constatação intuitiva das
88 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 89

relações entre a constituição do princípio de realidade e a instauração do como motor deste deslo camento. É clip� e angústia, então, nas origens do
juízo de existência; por último, a relação existente entre a saída de uma simbolismo: é o sadismo como efeito do Edipo precoce que predomina nesta
posição onipotente infantil e a constituição do juízo de realidade ligado à fase que instaura as primitivas phantasies propulsoras de angústia e
instauração do superego e à pergunta a respeito do lugar do pai (existência­ deslocamento; ê o fantasma de um corpo matemo repleto ele objetos valiosos
inexistência de Deus). (fezes, crianças , pênis) , o que levaa criança a tentar apropriar-se sadicamen­
A conclusão a que chega em seu trabalho ê a seguinte: "Falei dos te deste; é a angústia frente a seu próprio sadismo, o que a detém. Um mito
conhecidos e danosos efeitos do recalcamento sobre o intelecto, devido ao de mãe fálica é constitutivo do Eclipo precoce. O interesse pelo segredo
fato de que a força pulsional recalcada fica 'amarrada' e não disponível para matemo , aquilo da ordem da sexualidade da mãe que a criança desconhece,
a sublimação, e porque, juntamente com os complexos. as associações de põe-se emjogo impulsionando sua curiosidade deslocada para os objetos do
pensamento ficam também submersas no inconsciente" .6 Um pressuposto mundo.
teórico que guia todo trabalho kleiniano é o que impõe o fato de que o Invertamos os termos que Melanie Klein propõe e encontraremos uma
inconsciente não ê um efeito do recalcamento que produz a separação entre nova perspectiva: o aparecimento ela triangulação do É dipo proporciona o s
os sistemas IcciPrcc-Cc, senão um existente originário; então, só se pode elementos que permitem a emergência de angústia massiva, assim como a
concluir que tudo aquilo que dé origem a perturbações no processo inquietude intelectual a partir da tentativa de domínio do sujeito sobre o
secundário não é s enão um efeito do recalcamento ou das defesas elo objeto familiar que se tomou estranho, o Unheimlichfreucliano, a inquietante
psiquismo frente a este inconsciente. Não podemos compartilhar esta estranheza, de que a criança quer apropriar-se, entendê-la, ê o que dá origem
conclusão, efetivamente, entendemos que o sistema pré-consciente, e em a todas as curiosidades. E em nossa experiência clínica, hoje repensável
conseqüência o pensamento, são efeito dos mesmos movimentos que desde os elementos teóricos que estamos em via de desenvolver, tanto o
fundam o inconsciente, quer dizer, do recalcamento originário . E se bem nos sadismo como a curiosidade (que encontramos transferencialmente presen­
parece adequado respeitar esta conclusão (assim como a de Freud em te em tratamentos psicanalíticos de adultos aonde o processo de discrimi­
Inibições, sintomas e ansiedade) para as inibições neuróticas, como efeito do nação-separação começa a operar) são um efeito ela diferença que a inclusão
recalcamento secundário, pensamos que o que ocorre nas chamadas elo terceiro imprime ao psiquismo, dando origem deste modo tanto à
"inibições primárias" - aquelas que afetam a constituição do simbolismo apreensão do outro enquanto outro, como à inquietude por aprender,
desde as origens -é da ordem da falha do recalcamento originário, um efeito deslocada para o mundo.
das dificuldades para sua instauração.
Não é pequeno o mérito de Melanie Klein ter detectado tão precocemen­
te, na história da psicanálise, as relações entre inibição intelectual e Bipartição do espaço no vínculo:
contracarga do pré- consciente no que diz respeito aos fantasmas ela p rem issa da constituição de u m a tópica
sexualidade; mas o recalcamento não ataca uma curiosidade natural e um
impulso à indagação sobre o desconhecido desde as origens no sujeito Desde esta perspectiva voltaremos a Antônio e a seu problema d e
psíquico. Esta mesma curiosidade é um produto do movimento que institui, aprendizagem. A frase da mãe "não tenho segredos para com meu filho" deixa
em um mesmo processo, tanto o inconsciente como o objeto libidinal em sua Antônio em uma posição que assinala precisamente a não constituição ele
condição de objeto externo , separado do ego. Neste marco, justamente, nos um espaço diferencial, já que desde a própria indiscriminação materna não
parece necessário trazer novamente à discussão, na teoria e na clinica se organizou nunca a possibilidade de um segredo, que permita, por sua vez,
infantil, as condições de surgimento da curiosidade intelectual, em sua organizar a ordem elo recalcado. A mãe foi partícipe elo prej uízo atual de uma
relação com a constituição elo inconsciente e a alteridade elo objeto libidinal criação sem segredos, mas ao tentar escapar à mentira tradicional : "cego­
primário. nha", "repolho", "semente", passou elo plano do recalcamento ao plano da
A própria Melanie Klein, em "A importância da formação de símbolos promiscuidade. Deste modo a ideologia serviu como uma coartada, sem que
no desenvolvimento do ego"7, propôs elementos para cercar esta problemá­ por isso se deixe ele cair na mentira (mentira que tem que ver com seu gozo
tica, sem que extraísse deles derivações pertinentes para a teorização do como segredo, que se mantém oculto, e que aparece obturado pelo que foi
déficit intelectual. Este texto está destinado a mostrar dois fatores princeps traumaticamente evidente em seus abortos e no seu desnudar-se). Na
nas origens d o simbolismo: a constituição de equações simbólicas por realidade, se Antônio foi algo para sua mãe, esse algo não foi constituir-se
deslocamento do desej o fantasiado de ataque ao corpo matemo e a angústia em um filho informado dos segredos da vida, elos mistérios do sexo, que é
90 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíq uico I 9 1

para onde se dirige a pergunta quando a criança a formula deslocadamente Retomando esta feliz idéia d e Rosolato d e diferenciar entre desconhe­
(como Melanie Klein o percebe no pequeno Fritz) , senão que foi efeito de um cimento (efeito do recalcamento que tenta desconhecer aquilo que é
engano: o de anular toda possibilidade de curiosidade mediante uma inconsciente: o desejo, função princeps do ego tal como o assinalou Lacan)
informação que, se é verdadeira, não o é para o menino, senão desde o real e "inconhecimento", assinalemos que desde a perspectiva que estamos
da mãe. fornmlando, o "inconhecido" faz parte desta primeira alteridade que é efeito
Para que a criança estruture uma pergunta tem que haver um resquício da separação do filho em relação à mãe, enquanto que o desconhecido são
por onde a tntimidade materna se transforme em alteridade, e assim como os significantes chaves pulsionais que ficam inscritos no Ice a partir do
a obturação de toda curiosidade uma vez despertada - a insatisfação desta recalcamento, como resíduos do vinculo sexualizante das origens.
curiosidade, desta demanda de satisfação - pode levar à inibição intelec­ Em tal sentido, sendo a tnibição um efeito secundário do recalcamento ,
tual , como propõe Freud, o não aparecimento desta abertura impede o faz parte da cristalização por contracarga da função de desconhecimento do
aparecimento de toda curiosidade. Já não estamos, então, na ordem do ego e se abrem todas as possibilidades para que, uma vez levantado este
recalcado, porque não há nada para recalcar, nada que o sujeito tenha que recalcamento, possa ser resolvida a formação sintomática que a sustenta,
expulsar do pré-consciente, do ego, porque seu aparecimento seria gerador como ocorre no caso de toda neurose.
de angústia. Isso se faz evidente quand o Antônio não pode rir dos chistes Mas se o espaço não é repartido em dois, se fica fundido no interior do
nem das palavras com duplo-sentido. Para ele, o sexo é da ordem do real, e laço que une o filho inseparável da mãe, não se geram as condições para o
se é da ordem do real, não tem porque sentir prazer no momento em que, para surgimento da curiosidade intelectual e, por sua vez, as condições que
um sujeito neurótico, se produziria o levantamento do recalcamento com o pudessem possibilitar a constituição ele um espaço tntemo - cisão radical
efeito conseqüente: riso, rubor. do psiquismo -; então as representações se fixam como marcas mnêmicas
Não há sintoma, não há prazer no chiste, encontramo- nos com o fato não recalcadas no interior do aparelho indiferenciado e a conseqüência é a
de que duas formações do inconsciente não operam. Desde a perspectiva que impossibilidade do esquecimento e da memória.
proponho, vai-se definindo uma estrutura psicótica. Não há psicose franca, No caso de nosso paciente Antônio (corno no caso de tantas outras
não há extravagâncias, nem autismo, nem neologismos . No entanto, há um crianças que consultam aparentemente por um simples retardo do desen­
fracasso na simbolização expressa pela dificuldade, já assinalada, para volvimento) vemos como as dificuldades de aprendizagem são efeito de u m
metaforizar. déficit na constituição do recalcarnento originário que põe em jogo as
Guy Rosolato, em seu artigo "O não dito"8, faz referência ao lugar do condições da memória, ao não permitir a diferenciação dos sistemas
segredo na clínica psicanalítica, ligando o "dizer tudo" à constituição do inconsciente/pré- consciente-consciente em estratos. O movimento perma­
núcleo paranóide e seu enfoque no processo analítico. O não dito faz sentido, nentemente regressivo no interior elo aparelho (regressão formal e d e
assevera, segundo o valor que se dé ao segredo. A questão é importante: o conseqüências temporais) em direção ao pólo perceptivo, que mantém
não dito comanda o recalcamento, j á que este é tributário de um sistema recarregadas as marcas mnêmicas origtnárias irnpedtndo seu ocultamento
ético que está em conflito com as exigências pulsionais . E acrescenta: "Nas por marcas p osteriores, deixa aberta a possibilidade ele que em um futuro
psicoses o não dito tem um valor enigmático porque existe uma ignorância se possam produzir - se esta evolução não muda de signo mediante u m
real (no real) que se refere a um tema fundamental, mais que a um tratamento analítico - formas d e evolução francamente psicóticas com
desconhecimento, e sempre surpreende aquele que a percebe; é a base da sintomatologia alucinatória.
atividade delirante, quando esta se manifesta. Sem dúvida, diz respeito a um Quando a mãe de Antônio reduz o mundo simbólico às necessidades
dos pólos existenciais maiores que a psicanálise explora: a diferença dos da criança: "Nunca demandou cuidados , sempre quis coisas concretas", o
sexos, a diferença de gerações e o problema das origens, os jogos de poder que pode serre-invertido em "nunca entendi que pudesse querer outra coisa
e os jogos da pulsão de vida e de morte; eles são o eixo da dupla articulação que não fosse ela ordem da necessidade, ou daquilo que eu mesma necessito"
narcisista. Clinicamente, vai desde uma simplesfalta de curiosidade quefaz - oferecendo alimento ao menor sinal de desprazer -, acompanha sua
com que o sujeito pareça nunca ter tido que se propor questionamentos sobre um degradação simbólica com o oferecimento da realidade de seu sexo desnudo,
determmado ponto, até um verdadeiro "branco" no discurso... ". Diferença entre carente de todo recobrimento cultural . Deste modo, diremos que o s
desconhecimento (méconnu) e "inconhecimento" (mconnu); aquilo que não é significantes chaves, enigmas do desejo que a mãe deve outorgar para que
desconhecido, senão não conhecido, quer dizer, da ordem do real não apareça a curiosidade intelectual, estão ausentes, produzindo esta falta de
significado) . memória e de inquietude em relação ao conhecimento, que estão no interior
92 I Silvia Bleichmar

de algo como "real-pleno", que não provocam no menino o desejo de espiar


nem a possibilidade de que esqueça aquilo mesmo que descobre.

6
Voltamos, deste modo, ao começo de nosso trabalho. Se Funes, o
memorião, deve fechar os olhos constantemente , pois os estímulos são
incômodos à sua capacidade ilimitada de recepção , não lhe permitindo o
respiro do esquecimento nem do relevamento perceptivo que permite a
organização si gnificante do mundo, e apenas a morte ou a cegueira, como
ocon·eu com Edipo, podem proporcionar-lhe alívio, Antônio, a quem a
Esfinge não propôs nenhum enigma, não tem ante o que fechar os olhos, na
medida em que é apenas o des erto o que se oferece a seu olhar impávido. Um
deserto que, por mais real que seja, não chega a constituir-se por si mesmo
mais que em um plano sem fissuras e sem intenogantes.
Frases das crianças, estrutura do
aparelho psíquico
N otas de referência

1 . É curioso que a linguagem cotidiana caracterize como d upia intenção d e uma palavra
aquilo que corresponde ao sexual recalcado, prototípico no Witz, dando assim uma
especificidade à polissemia da linguagem em relação à sexualidade. Ao longo destes anos, na medida em que minha investigação sobre o
2. S. Freud, "Uma nota sobre o 'bloco mágico"', em OC, vol. XIX, 1976. recalcamento originário foi se desenvolvendo, dei-me conta que o problema
3. Ibid. pág. 286.
,
que tento cercar é aquele que se relaciona com a constituição do sujeito
4. J. Laplanche, A angústia, Problemáticas I, São Paulo: Martins Fontes, 1987.
psíquico e, especialmente, com a conelação entre os sistemas inconsciente/
5. M. Klein, "O desenvolvimento de uma criança", em Contribuições à Psicanálise, São
Paulo: Editora Mestre Jou, 1 970. pré-consciente-consciente.
6. Ibid. Algumas observações a esse respeito poderiam ser resumidas d a
7. M. Klein, "A importância ela formação de símbolos no desenvolvimento do ego", em seguinte maneira: e m primeiro lugar, pensar nas determinações inconscien­
Contribuições à psicanálise, op. cit. tes é estabelecer um modelo que permita compreendé-las em suas relações
8. G. Rosolato, La relationd'inconnu, Paris: Gallimard, 1978. I-lá tradução ao espanhol: com o pré-consciente e com o que se denominou genericamente processo
La relaciõn de desconocido, Barcelona: Petrel, 198 1 . Lamentamos que a tradução
secundário.
tenha escolhido "desconhecido" para o que Rosolato chama inconnu, já que dois
vocábulos franceses, méconnu e inconnu, marcam a diferença entre desconhecer O fato de que se tenha limitado a investigação psicanalítica a partir do
(como forma do ego ele não reconhecer o desejo inconsciente), e o que nós preferimos pressuposto que tudo aquilo que aparece no manifesto do sujeito psíquico
traduzir como inconhecido (aquilo que é da ordem do real não conhecido, e não da é efeito do inconsciente, entendo que seja fruto de um reducionismo
ordem da defesa). peculiar. Isto,sem deixar de ser verdadeiro, é parcial: aquilo que aparece no
sujeito como manifesto é efeito do esforço que o aparelho psíquico realiza,
uma vez instaurado o recalcamento, para manter separados os sistemas Ice
e Prcc-Cc. O inconsciente é efeito do recalcamento e, portanto , ambos os
sistemas se determinam mutuamente. Assim situado o problema, as formas
particulares de relação entre ambos são reconsideradas, abrindo-se a
possibilidade de apagar todo resto teórico construtivista mas, ao mesmo
tempo, marcando o caminho às hipóteses históricas.
A primazia de um processo primário anterior ao secundário, do qual
este iria se desprendendo paulatinamente através do sistema percepção-

93
94 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 95

consciência em construção (hipótese vigente em alguns textos freudianos ação singular que o situaria no tempo e n o espaço: "(Tu) (agora] estás
corno "Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental" , ou pintando". Que nós poderíamos refommlar como 'Tu (não eu}, agora (que
inclusive a vertente geneticista de O ego e o id) gerou, parece-me, os freios implica um antes e um depois, uma historizaçào), estás pintando?" (que
teóricos aos quais o kleinianismo se viu submetido (inconsciente operante marca a pergunta que reconhece o outro corno estranho e realizando uma
desde as origens. organização de um objeto parcial integrado com o obj eto ação que desconhecemos) .
total, em um deslizamento que vai desde uma compreensão profunda do Desta maneira, o "vamos pintar" ela mãe, embora venha do outro, não
inconsciente como inconsciente fantasmático, até um cognitivismo no qual constitui senão uma proposta que liga o possível sujeito em uma dupla que
entendeu-se o objeto total corno cognição da totalidade) . o dilui.
Por outro lado, a Ego psychology, ao tentar resgatar o processo Quando Alberto diz "pintar", não institui um discurso próprio, no qual
secundário, ficou capturada na psicologia sem conseguir utilizar os conhe­ ele, por sua vez, se institua corno sujeito. Mas também não é o discurso da
cimentos desta para propor uma teoria psicanalítica dos processos do mãe aquilo que se apresenta atravessand o-o. É uma partícula desse
conhecimento. discurso, no qual tanto o infinitivo como a ausência de sujeito marcam a
Por último, e como rápida introdução a este tema que me proponho carência de uma constituição dis cursiva que permita assumir uma
des envolver, não posso deixar de assinalar que a proposta de Lacan, cujo estruturação singular.
eixo se desenvolve em tomo do algoritmo que funda a constituição do Em Problemas de linguística general, Benveniste propõe: "É Ego quem
significante na letra, ao instaurar uma diferença entre duas cadeias diz Ego. Desde o manifesto não há porque buscar o eu em outro lugar. Qual
significantes, cuj o valor posicional é separado pela barra, mas que qualita­ é, pois, a 'realidade' a que se refere eu ou tu? Apenas uma 'realiclacle de
tivamente não implicam senão um mero jogo fom1al de diferenças , não gera discurso', que é coisa muito singular". Esta afirmação está baseada em um
condições para conservar uma especificidade d o inconsciente, nem tampouco incontrovertível fato lingüístico: "Cada instância de emprego ele um nome s e
para compreender o aparelho psíquico que se põe em jogo na constituição refere a uma noção constante e 'obj etiva' , apta para pem1anecer virtual o u
da linguagem infantil. para s e atualizar e m um objeto singular, e que s e mantém sempre idêntica
Um exemplo pem1itir-me-á introduzir-me no terna. Alberto, de cinco
na representação que desperta. Mas as instâncias de emprego elo eu não
anos, diagnosticado por seu pediatra como apresentando uma psicose
constituem uma classe de referência, já que não há ' objeto' definível como
simbiótica, tenta desenhar uma casa, deitado sobre a almofada. Pergunto­
eu ao qual se pudessem remeter de modo idêntico estas instâncias. Quando
lhe: "Que estás fazendo, Alberto?"; "Pintar", responde.
eu tem sua própria referência, e corresponde cada vez a um ser único, proposto
A ação que efetua, evidentemente, fica fora de um sujeito que a exerça,
como tal". 1
de modo que o verbo não pode ser conjugado na primeira pessoa. Poderiamos
Assim se inaugura uma dupla vertente: desde a realiclacle puramente
dizer que está dissociada, mas, nesse caso, teríamos que pensar que o suj eito
linguística, o eu não é senão um lugar vazio - parte do conjunto de signos
está em outro lugar, e o infinitivo alude claramente á ausência de sujeito.
não referenciais da linguagem, sempre disponíveis , e que se tomam "plenos"
Também poderíamos dizer, um pouco rapidamente: está na mãe. Mas isso
quando um locutor os assume em cada instância de seu discurso -; mas
também não seria correto. Se a mãe enunciasse, como s ujeito, e atravessas­
desde a posição de sujeito, implica umareferência subj etiva, correspondente
se Alberto com seu discurso, diria "pinto", sem saber - como ocorre com
à singularidade do suj eito que enuncia.
qualquer sujeito neurótico - quem o faz, acreditando ser "ego" . Poderíamos
Que podemos dizer desde a psicanálise? Em primeiro lugar, que apenas
atrib uí-lo ao código como tal, e pensar que esse menino usa o verbo no
diz eu quem se sente eu. Quer dizer, que se tomamos a diferença introduzida
infinitivo justamente porque possui o código sem fazer uso dele na fala, mas
por Lacan entre moi eje, o je "restituirá ao moi em sua função universal d e
isso seria apenas uma abstração que implicaria uma fantasia - do
observador - a respeito de um sujeito transcendental: não possui o aqui e sujeito" , quando s e articule simultaneamente no dis curso e n a tópica
agora, nem o quem de sujeito, porque o código o atravessa e o transcende. psíquica uma instância capaz de enunciar um discurso elo qual se sinta amo,
Por último, poderíamos pensar urna hipótese mais simples. Suponha­ desconhecendo as determinações que o constituem, quer dizer, tendo sido
mos que a mãe não pode falar senão em um impessoal que os engloba: objeto do recalcamento e ela instauração sistêmica.
"Vamos pintar?", dirá a Alberto, no qual o nós de vamos se liga ao Em segundo lugar, que se isto ocorreu, se o ego se instaurou no sujeito
complemento que fixa a ação , diluindo-o no infinitivo. Se essa mãe pudesse psíquico, só pode dizer eu quem teme ser outra coisa do que eu (função
dizer "estás pintando?" , o situaria em uma ação própria definida por uma denegatória do enunciado e produto da contracarga elo pré-consciente) .
96 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 97

Terceiro : que possa estar o ego separado, daquilo que eu diz a respeito tical que pem1ita o manejo da língua, senão que assinala, com o uso do
de eu. Quer dizer, que no enunciado o sujeito toma-se a si mesmo como infinitivo . a não existência da concordância em que s e pudesse vislumbrar
referente, obj etivando-se fora de si mesmo, ao afirmar-se em uma ação ou o pronome que marca a posição de sujeito.
em um atributo, momento a partir do qual eu poderá falar de id. Isto tambêm se eh."}Jressa quando, em outra sessão, pergunto a Alberto
E por último, que se eu (partícula de discurso, pronome) não remete a o que procura em sua cesta: "Lápis", responde, mostrando novamente n a
ego como instância, como permanência, pode desaparecer no enunciado, ou ausência de partículas da língua, que pudessem permitir o uso do demons­
nunca constituir- se como uma instância do discurso. trativo , do possessivo, do qualificativo , a ausência de qualidade relativa ao
Retomando a formulação de Benveniste, proporíamos . desde a psica­ objeto que sustenta sua ação ou a constitui. Se ele fosse um menino que pede
nálise, que ê necessário que o vazio do pronome seja ocupado pelo suj eito 0 lápis (azul, vermelho , novo, este, aquele que usei ontem), cada elemento
imaginariamente investido de atributos (quer dizer, constituído em sua ficaria discriminado em sua qualidade e em sua especificidade espaço­
existência e em sua atribuição) , para que o discurso se constitua como temporal, ao mesmo tempo que Alberto poderia assumír, atravês do "eu" que
enunciado. Isto foi descritivamente e.:\.'])Osto nos manuais de psiquiatria se joga no "meu", sua "função universal de suj eito" correlativa a u n: e o �
infantil , quando se inclui entre os traços patognomónicos da psicose da tópico organizador da diferença entre ele e o outro , entre ele e seu propno
primeira infância a inversão pronominal que não possibilita o aparecimento inconsciente.
do sujeito como tal no enunciado . Desta maneira, a criança começará a Volto , por meio do exemplo, ao que foi exposto anteriormente: Alberto
chamar-se ele ante a pergunta com a qual ê interpelado por seu interlocutor não pode instaurar uma discriminação em seu próprio discurso que o
("Quem ê o amor de mamãe?" ; "O nenê", responderá o pequeno) denominan­ habilite para a vida de relação da qual se encontra excluído, não por u m
do-se a si mesmo como ê denominado, não pelo outro, senão pelos outros problema de linguagem - o motivo de consulta, como em tantas crianças,
quando o incluam como obj eto de intercâmbio na comunicação discursiva , foram as dificuldades de aprendizagem que surgiam em seu ingresso na
excluindo-o como sujeito ao qual se dirige a palavra; "o nenê está dormindo", escolaridad e - ; ê um dêficit na constituição do sujeito, na discriminação
dirá a mãe ao pai, deixando pulsar na frase todo o horizonte semântico possibilitadora da tópica do ego que inaugura a difen�..r:cia.çâo entre. dois
evocativo da exclusão da qual aquele ê objeto . sistemas instaurados pelo recalcamento e, em consequenCia, o funcwna­
Benveniste assinala em relação à pessoa verbal: "Uma teoria linguística mento do processo secundário .
da pessoa verbal só pode se constituir sobre o fundamento das oposições que Um ano mais tarde, quando a terapia estabeleceu os movimento s
diferenciam as pessoas; e se resumirá inteiramente na es trutura de tais ?
necessários para a discriminação entre o sujeito e o o jeto, e Albe o rJ;
oposições. Para tirá- la a limpo, poder-se-á partir das definições que os encontrou no exercício da fala possibilidades de comunicaçao para arranca­
gramáticos árabes empregam . Para eles a primeira pessoa ê al-mutalcallimu, lo de seu mundo solipsista,d ir-me-á: "Sabes? Compramo s uma êgua"; e ante
'o que fala'; a segunda, al-muhatabu, 'a quem nos dirigimos'; mas a terceira a pergunta: " Que ê uma êgua, Alberto?", responderá com petulância: "Uma
ê al-ya'ibu, 'aquele que está ausente"' (ibid. , pág. 1 63). O que os gramáticos êgua ê um cavalo que se chama êgua". E voltará a situar-me, em meu
árabes demonstram com justeza, diz o autor, ao contrário do que nossa desconcerto , ante as dificuldades dessa lógica em constituição na qual ainda
terminologia faria crer, ê a disparidade entre a terceira pessoa e as duas não pode precisar a exclusão dos contrários , mas onde já não está presente
primeiras; elas não são homogêneas, e isto ê a primeira questão que se deve a indiferenciaçâo das origens.
enfatizar. A terceira pessoa traz consigo uma indicação do enunciado sobre
alguêm ou algo, mas não referida a uma "pessoa" específica. Trata-se do
"ausente" dos gramáticos árabes. Para que a criança se chame a si mesma caliarda, a n ulação do gênero e d o número
ela, deverá ser objeto de intercâmbio discursivo, quer dizer, considerada
como pessoa gramatical, anulada em seu ser pelo pronome, nas origens do Em 197 1, Elias Petropoulos fez surgir em Atenas uma obra intitulada
intercâmbio entre os pais. Logo, quando se produza a triangulação e ela seja Caliarda, que ê um dicionário da língua especial dos homossexuais gregos .
capaz de estruturar uma ausência, entender que alguêm fala a alguêm de No prefácio, Petropoulos acusa aos folcloristas, aos neo-helenistas e a� s
algo ou d e alguêm ausente, poderá assumir um eu que se dirija a um tu, historiadores gregos de moralistas, interpretando como uma condenaçao
sendo capaz de colocar-se ela mesmacomo sujeito no intercâmbio discursivo. moral seu rechaço a reconhecer e a fazer conhecer esta realidade social que
Deste modo, Alberto, nosso paciente, não apenas marca atravês da ê a homossexualidade. Petropoulos pagou três vezes com a prisão suas obras
conjugação impossível sua incapacidade para organizar uma ordem grama- que desnudam aspectos secretos da sociedade grega. Não ê minha intenção
98 I Silvia Bleiclzmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 99
deter-me nisso, senão simplesmente assinalar as dillculdades de uma
d o (por exemplo, como regra d e concordância) entre os signifi c:antes e o sexo,
investigação científica quando esta põe em j ogo as ansiedades mais
como uma espécie de "lógica" do lado dos significados. Nao obstante -
profundas de um grupo humano. esclarece -, isto só é assim em uma linguística rigorosa. Se pedíssemos a
O próprio nome desta língua, caliarda, leva a uma reflexão . Pode ser
uma criança das primeiras séries que analisasse "rã macho" ou "ratão
traduzida, talvez, como "língua verde", e gramaticalmente é um plural
fêmea" e indicasse o gênero do adjetivo, poderia sentir-se perturbado porque
neutro. Quais são suas caracteristícas principais? É quase uma regra em
na consciência "ingênua" do sujeito existe certa relação, difícil de definir, entre
caliarda a omissão dos artigos (excepcionalmente encontramos um); os
adjetivos não são empregados senão no feminino (pelo que, todo sujeito se
:
0 gênero e o sexo (por exemplo, "macho · deve � �
ser ��scul n� l .
.
A conclusão a que Octave Mannom chega e a segumte: Dma que s e o
deixa entender como pertencente a esse sexo-gênero); a derivação de verbos gênero estrutura certas línguas, o sexo é, em troca, uma �strutura d :
a partir de substantivos ê muito mais freqüente que a derivação destes a linguagem . . . Se introduzo deste modo o sexo na linguagem, e porque a e �
partir de verbos (diferente da derivação do grego comum) . Hêlêne Ioannidi2 agora nunca nos referimos ao sexo senão como significado, e como tal nao
propõe uma interpretação: a ininteligibilidade desta língua serve para fins sai dos limites da elipse. E, por suposto, o conhecimento desse sexo
utilitários, mas também ambíguos . Os locutores de caliarda oferecem o significado nada tem que ver com o saber sobre a se;..."Ualidade, o que talvez
espetáculo de sua inteligência às testemunhas heterossexuais, para quem
pareça uma verdade banal". 5
o sentido de seu intercâmbio é ininteligível. No entanto, apoia-se em _

E em nota de rodapé acrescenta: "Esses universais que toda lmgua deve


Triandaphillidis e sua busca da origem da linguagem através da psicanálise, poder expressar (o número, o sexo, o passado, a restrição, etc.) pertencem
o qual propõe: "Nenhumalinguasecreta é uma língua. Porque os interlocutores
a algo mais geral que a uma língua ou a outra; pode-se dizer que pertencem
de nenhuma língua secreta têm a força para romper com a sociedade da qual
à própria linguagem" .
são adversários, nem com a língua materna. A língua materna ê o fundamen­ .
A proposta toma duas dimensões. Por um l <:do, assm �la que o sexo ,
to inquebrantável sobre o qual se constrói toda língua secreta" .3 .
enquanto tal, enquanto estrutura de linguagem, poe a questao da diferen?a
A esta altura seria trivial dizer que o sexo não está constituído pelo
como ponto central. Por outra parte, e como ele mesmo e.scl::rece dep �1s,
gênero . No entanto, o exemplo do caliarda põe em evidência a existência de pergunta por esse saber do qual a psicanálise se ocupa, quats sao as relaço � s
uma possível relação. Mesmo que partíssemos provisoriamente da hipótese que mantém com o saber objetivo e com o sujeito. Em tomo deste ponto, d1Z
de que o gênero, no sujeito, é anterior ao sexo, é evidente que na língua Octave Mannoni, giram os problemas mais importantes. E termi�a por
secreta dos homossexuais gregos o gênero se pôs a serviço do sexo ou, para .
assinalar: "Não deveríamos assimilar o gênero gramatical a uma especte de
falar com maior precisão, o não-gênero se pôs a serviço da anulação da
retomado recalcado (pelo demais contingente, censurado e transtornado) , de
diferença de sexos. A anulação dos artigos, a anulação dos gêneros, a modo que, diferente do saber significado, manifestasse de alguma maneira
feminização d os adjetivos (o atributo é o feminino, paradoxo que se asseme­
o caráter significante das marcas da anatomia sexual para � homem? A
lha a uma denegação massiva na língua da impossibilidade de reconheci­ .
palavra, que dá o sexo significado, mascara ou recalca seu carater propna­
mento do feminino como não- posse do atributo masculino), a derivação do .
mente significante. O sexo como significante reside na camada mats oculta.
verbo a partir d o sub stantivo , que coloca no centro o sujeito e não a ação, Mas pode reaparecer, disfarçado , na camada mais superficial, a das fonnas
evidenciam a reversão de um processo constitutivo da linguagem na
significantes língüísticas" .6
infância, na qual se o gênero é anterior ao sexo, em algum momento terão •

Que o sexo se marca enquanto significante de uma dtferença nao e


_ _

�rn
que ocorrer pontos de encontro que liguem significantes genéricos a _

ponto que nos proponhan1os discutir; "as marcas" da ifere�ça anatomtca
significados sexuais. não podem ser j ogadas senão como significantes e e asstm que Freud
Octave Mannoni, em um texto que deixa entrever a intenção de marcar assinalou. O impasse se produz, em minha opinião, quando o problema d a
as diferenças entre psicanálise e linguística, "La elipse y la barra"4 assinalou diferença fica capturado e m u m encerramento linguístico que impede
os problemas que se abriam na busca das conexões e discordâncias entre aproximar-se ao caráter significante peculiar que, para o homem, essas
o gênero e o sexo, partindo de que, se bem nem todas as línguas possuem marcas da anatomia sexual possuem. E é significante na medida em que no
marcas particulares para dar um gênero, pode-se perceber que todas são
capazes de significar o sexo. A definição de gênero - diz - é gramatical, uma
processo discursivo interrompido pelo lapso, ou pelo Witz, o fantasma a �
diversidade se toma possível "marcando" o sujeito em uma desestruturaçc:o
palavra feminina remete a outra palavra feminina, esteja o sexo implicado sexuada que irrompe desde os fantasmas erógenos elo conjunto do corpo pre­
ou não. Se o gênero correspond esse exatan1ente ao sexo, seguiria funcionan- genital.
100 I Silvia Bleiclzmar Nas Orige11s do Sujeito Psíquico I 1 0 1

Apelando ao conhecido chiste das duas crianças, menino e menina, entanto , isso não justificará, de nenhum modo, o reconhecimento ela função
frente a um quadro que representa Adão e Eva e que os desconcerta em sua sexual, na medida em que imediatamente acrescentará - e depois de u m
pos sibilidade da diferenciação sexual na medida em que os personagens trabalhoso processo terapêutico n o qual terá que descobrir primeiro o que
_ é, para logo se reconhecer em sua atribuição - , "não brinco com bonecas".
estao nus, Octave Mannoni modifica a historieta inglesa e leva a menina a
dizer: "Escutemos o que dizem; dirão him e her e então saberemos" (porque Como o Witz inglês relatado por Mannoni, freqüentemente as frases elas
tais pronomes designam fielmente o sexo significado) . O efeito de Witz crianças marcan1 o retorno desta "diferença" genérica que se estabelece
depende da ignorância de algo que não é o sexo como significado. Quando antes da fase fálica e que assinala como os elementos da cultura são tomados
uma criança sabe que não há apenas palavras masculinas e femininas, para seremjogados em uma diversidade na qual, apesar elo clesconhecimen­
senão que além desses gêneros há um significado, sua curiosidade é to elo caráter do sexo enquanto significado, o sujeito se enfrenta já com o
despertada e se pergunta "que que� dizer isso?". Tenta saber algo mais, que problema de sua identidade como ser sexuado. Um menino de quatro anos,
não figura na elipse saussureana. "E, rigorosamente, e devemos a expressão a cuj o pai são proibidos alguns alimentos e excessos orais em função ele um
a Lacan, o sexo como significante (um significante que não depende da transtorno gástrico crônico, responde para a mãe que lhe pergunta se quer
linguística, apesar de Lacan ter dito algo diferente no texto citado como um pouquinho de café que os adultos vão ingerir: "Acreditas que sou uma
epígrafe) " . E o te.xio citado como epígrafe diz: "Nosso tema é, por suposto, o mulher para tomar café e fumar?". Profundamente humilhado ante o riso
homem e a mulher (. . . ) . Aqui há, sem duvida, um significante oculto que não daqueles que presenciam a cena, se retira. As perguntas são várias: A
é absolutamente encarnável em parte alguma mas que, não obstante, se humilhaçao é efeito elo fato de que o oferecimento materno o desconhece em
encarna na forma mais aproximada na existência das palavras 'homem' e sua posiçao viril, marcada pela identificação ao pai ainda não definida pela
'mulher"' (Jacques Lacan, Seminário de 1 8 de abril de 1 956) . E nós lógica fálica da diferença? Ou, talvez, ante o riso que sua resposta provoca,
acrescentamos: partindo da preocupação de Lacan pelo caráter significante sente que os adultos que o rodeiam negam sua posição masculina defendida
do sexo, Octave Mannoni chega a uma conclusão que não é apenas um com orgulho através da resposta irritada e altiva? Haverá uma suspeita, em
desenvolvimento, senão que é diferente daquela do mestre. Voltaremos vias de constituir-se, a respeito de que o masculino não passa pela ingestão
sobre isso, mas não podemos deixar de assinalar o cuidado e a fina ironia de café, senão que é de outra ordem secreta que começa a aparecer como
com os quais Octave Mannoni maneja a diferença, já não de sexos, senão de interrogante, e sente o riso como um desmascaramento de sua ignorância
propostas teóricas, que deixou submersos, durante muito tempo, aos não a respeito desse algo que já começa a reconhecer, sem que possa ainda se
iniciados, na confusão de propostas, sem permitir aceder aos movimentos instaurar como um saber possível?
produtivos da discrepância. São tantas as respostas como o são as perguntas a formular. No
Quando o autor dá os exemplos de him e her, mostra que o significante entanto, dois elementos podem ser ressaltados d a situação. Em primeiro
pode atuar, desde o gênero, como traço secundário sem que isto o ligue ao lugar , o fato de que na mesma mesa ela qual se levanta há outros homens,
sexo como significado. Him e her, como os brincos das meninas, como os menos seu pai, que tomam café sem que isso ponha em dúvida sua
soldadinhos com os quais brincam os meninos, entram de fato no gênero, masculinidade. Em segundo lugar, que a ferida narcisista que se evidencia
mas não apenas desde o gênero gramatical , senão desde aquele que prepara se instalou em nosso menino sem que isso signifique que este narcisismo s e
o acesso ao sexo, e que, embora estej a constituído pela linguagem, joga-se tenha ligado ainda a nenhum significante fálico d a diferença anatômica,
em todas as ordens da cultura e através destas, sendo a linguagem a via para mesmo quando se encontrejá organizado em relação à diferença de gêneros.
a explicitação dos fantasmas parentais a respeito do futuro sexo simbólico Talvez, quando termine de se instalar o movimento que o há de
do filho real que deve aceder a ele para possuí-lo. constituir ele sujeito atravessado pelo gênero masculino em suj eito sexuaclo,
As crianças da história de Octave Mannoni, da mesma forma que a haverá de responder com a mesma indignaçao quando sej a considerado
petulância de Alberto quando me responde "uma égua é um cavalo que se capaz de um atributo feminino, mas neste caso, porque a situação o
chama égua", assinalam a diversidade pos sível antes que se instale a interpelará em sua condição masculina, agitando os fantasmas de castração
difer:nça dos sexos. No entanto, cada um destes meninos pode responder e passivização que se viu obrigado a recalcar no processo.
nommalmente a respeito de seu sexo atribuído. Nem Alberto , nem as Laplanche recupera, em seu seminário sobre A castração7, dois termos
crianças dahistorieta, terão um momento de duvida quando lhes perguntem alemães que parecem assinalar duas problemáticas freudianas no texto a
a respeito do caráter de sua situação na diferença ele sexos. Alberto respeito de A organização genital infantiL Trata-se de Unterschied, diferença,
responderá com segurança "menino", quando eu lhe pergunte o que é. No e Verschiedenheit, diversidade. A diferença (Unterschied) implica urna pola-
102 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 103
ridade, uma dualidade. Pelo contrário, a diversidade (Verschiedenheit) pode definida e m relação a uma pautação que vem por fora do sujeito, que
existir entre dois elementos, mas também entre n elementos. organiza o princípio do terceiro excluído e abre as possibilidades ao processo
Se tomamos a diversidade das cores - diz -, nenhuma se define por secundário. Se no inconsciente os contrários coexistem, é apenas no suj eito
uma qualidade própria, nenhuma se define pela negação da outra - nem que se constituiu onde estes são sentidos, sofridos , como contradição: a
sequer o branco ou o preto -. Em um sistema de duas cores, o branco se diversidade transformada em diferença no interior do aparelho psíquico e
define pelo não-preto, mas no sistema das cores naturais, sistema de n instituída como conflito.
possibilidades, o não-branco pode ser preto, mas também vermelho, verde, No menino que se nega a tomar café e fumar, a masculinidade não s e
etc. define pela existência do atributo masculino pênis, senão por todos os
Estamos em uma lógica do conceito que define dois tipos de oposições: elementos secundários ligados à constituição da posição masculina. Mas,
a dos contraditórios, por uma parte, e a dos contrários, pela outra. No a diferença de gêneros funcionou como prévia à diferença de sexos ,
exemplo do menino que recusa tomar café, há uma diferença de gêneros , marcando desde a cultura as alternativas possíveis que logo serão inscritas
uma diferença entre o s homens e as mulheres, percebida mas não ligada a e ressignificadas no psiquismo.
uma diferença anatõmica dos sexos. Na diferença social, cultural, falta um Para que nosso sujeito alcance a diferença de sexos deverá passar
fundamento lógico, e o menino busca nesta bipartição um fundamento em previamente pela oposição fálico-castrado que constitua o pênis como
teoria, precisamente esse fundamento lógico. Deve buscar-se este funda­ insígnia da masculinidade, o falo como símbolo da diferença, como insígnia
mento lógico na anatomia - pergunta Laplanche -, quando o problema do que abrirá a lógica da contradição. Lógica da contradição que no sujeito
sujeito é reencontrar a natureza em continuidade ao longo processo no qual ficará marcada como lógica da castração.
a perdeu, quer dizer, quando as excitações sexuais no sujeito psíquico são Poderíamos pensar, seguindo esta mesma linha, que a lógica da
o efeito de uma verdadeira perversão do instinto por sua inclusão no mundo contradição é inaugurada através da insígnia. A insígnia como algo susten­
da sexualidade adulta que o constituiu parcelando seu corpo em múltiplas tado no real, mas significado simbolicamente. Mas, por sua vez, a insígnia
zonas erógenas que tomaram o rumo inicial do auto-erotismo? poderá ser recuperada em um novo movimento quando o processo lógico
O problema da lógica da exclusão, do terceiro excluído, não é algo da seja arrancado da lógica binária, ã qual ficou submetido pela angústia d e
ordem do real, da anatomia. O pênis, a vagina, o seio, o ânus, não começam castração, e substituído em um reconhecimento d a contradição que não
a circular até que se organiza uma nova repartição, efeito da lógica da implique a anulação do contraditório. ·

sexualidade genital. Mas esta lógica é impensável fora do processo secun­ Por que situar, então, como o faz Octave Mannoni, a diferença de
dário, já que no inconsciente subsistem todos os elementos que só são gêneros do lado do significante, a diferença de sexos do lado do significado?
contraditórios para o pré-consciente. O contrário ou o contraditório apenas Não seria, de alguma maneira, tentar colocar o significado do lado do
é algo que afeta o sujeito, a um portador dos atributos. inconsciente? O sexo como recalcado não é o da lógica fálica; nele coexistem
Mas ter um atributo, diz Laplanche, pode ser entendido em duas o fantasma de castração com a mãe fálica.
dimensões diferentes. Um atributo pode ser só isso, ou pode transformar­ Para o sujeito em constituição, tudo o que leve a um ordenamento dos
se em uma insígnia; o atributo pode ser uma qualidade ou uma insígnia. enigmas do sexo (nascimento, morte, castração) funciona do lado da
Como atributo apenas entra em uma lógica dos contrários, como insígnia, significação, quer dizer, do ordenamento significante em uma lógica que
em uma lógica da contradição: se não se é homem, necessariamente se é permita a simbolização. Tanto a diferença de gêneros como a diferença de
mulher. A insígnia, como tal, não existe na natureza, só na lógica do sujeito. sexos é algo que ocorre do lado do pré-consciente; ordenamentos diverso s
Desde o real, algo pode ser vermelho, azul ou branco. Mas desde a lógica, se dos enigmas nos quais o sujeito s e constitui e pelos quais é interpelado. Do
está assinalado por verde/ não-verde, aquilo que é vermelho entra na lógica lado do inconsciente, as representações coexistem e apenas se transformam
da negação (não-verde). em contraditórias quando atacam o pré-consciente, o ego, guiado pelo
A conclusão provisória que Laplanche tira a respeito dos termos de processo de organização da lógica do processo secundário.
Unterschiede Verschiedenheité que a diferença absoluta remete a uma marca .
Em tal sentido, o sexo pode ser defmido, como propõe Octave Mannom,
da presença ou ausência de apenas um atributo. A diferença relativa dos do lado da linguagem, esta entendida como sistema que organiza as
gêneros está fundada sobre a escolha de dois ou mais atributos. A diferença diferenças. Mas, na medida em que o sistema da língua não se instaura
de gêneros remete, então, à diversidade e não à diferença, não aos senão como organizador dos sistemas inconsciente e pré-consciente-cons­
contraditórios , senão aos contrários. A lógica da contradição, portanto, esL ciente através da constituição do recalcamento originário - tal como
104 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 105

desenvolvemos no Capítulo 3 -, a linguagem, ao se constituir no sujeito, é nada contraposto ao traço. Lógica da instauração do zero que implica a
um efeito do recalcamento originárto e funciona dando origem à significação, possibilidade de abertura em direção às matemáticas e à numeração.
quer dizer, possibilitando a emergência ou não do recalcado. Na constituição Se a lógica do zero precede o sujeito na cultura, se a constituição da
do gênero na criança j á está presente a marca do sexo que o adulto imprime. diferença, na ordem da linguagem, surge desde um antecedente que, sendo
Igual que na linguagem caliarda, o gênero se correlaciona com o sexo, transubjetivo, é condição necessárta para a constituição do próprio sujeito,
não "na consciência ingênua do sujeito" senãojustamente na suspicácia das os índices que permitem cercá- lo na criança possibilitam ao analista
vicissitudes do fantasma sexual recalcado. O sexo retoma no gênero, encontrar as pistas de organização do aparelho e situar as linhas com as
denegado ou ligado ao fantasma recalcado, mais aquém da intenção de quais deve orientar a direção da cura.
constituir uma língua neutra. Uma história relacionada com o problema do Momentos do tratamento de um menino, que el\.1Jorei em continuação,
racismo o exemplifica: em um ônibus vão negros e brancos brigando. O podem ser úteis para explorar a hipótese que acabo de apresentar.
condutor, irritado, detém o veículo e ordena: " Chega, desde hoje todos são
verdes!". Nesse momento um negro sobe no ônibus e pergunta: "Onde me
coloco?". O chofer responde: "Você, atrás, com os verde escuro". Mariano. o zero e o nada.
Além da tentativa de mostrar, com este exemplo, como reaparece,
através de novas dicotomias no interior da linguagem, aquilo que se pretende Mariano, quatro anos e meio. O olhar atento , inteligente. O corpo na
expulsar, é necessário que assinale que este problema se expressa brutal­ metade do caminho entre a primeira infância e a infância. Uma linguagem
mente por meio das formações reativas no racismo contemporâneo. Assim, rica e desalinhavada. Jogos explosivos e altamente simbolizados - guerras
a hipocrisia racista que se esconde na expressão "gente de cor", como se o
interplanei:árias, mega-aranhas e mega-escorpiões - acompanhando preo­
branco fosse a "não-cor", encobre o caráter depreciativo com que se marca
cupações "cotidianas": a bomba de nêutrons, os conflitos mundiais.
(ou se desmarca) o preto, eludindo na linguagem a marca da segregação que
Motivo de consulta: intolerância excessiva e enurese noturna; Mariano
retoma através do encobrimento. Ou a modalidade de chamar o índio
converteu-se em um menino "não manejável".
"indiozinho", em uma proposta paternalista que oculta o caráter altamente
O reverso de sua atitude querelante: a depressão. Teve uma migração
hostil a partir do qual um traço étnico se converte em um significante da
recente e um dia, quando cede a brusquidão do jogo e o discurso deixa de
menos-valia. Ninguém diria, para referir-se aos norte-americanos, "os norte­
ser verborréico - uma micção que se derrama pelo consultório - deita-se no
americaninhos" , a não ser em um sentido irônico.
chão e, com tristeza profunda, diz: "Sabes o que ê o mais triste, mas o mais,
Diversidade prévia, então, à diferença dos sexos, que já constitui os
mais triste?: quando já não te lembras da cara dos teus amigos". As sessões
elementos significantes que a cultura estabelece para a assunção social do
transcorrem em um ritmo lento, trabalhoso, que tenta reconstruir as caras,
próprio sexo: a organização parenta! do Édipo, a atribuição do sexo através
os lugares, os jogos perdidos.
do nome, da cor da roupa, e dos signos distintivos que a cultura imprime no
Pouco tempo depois entra na sessão com sede. Diz: "quero água de
sujeito , antes que a angústia de castração o coloque na alternativa de ser
sel\.'Uado.
nada". No México existe a água de laranja, de tamarindo, de orchata.
A precocidade da educação sexual não resolve nada disto, se não Mariano pede "água de nada".
acompanha o processo de simbolização que os movimentos de constituição Em uma primeira visão, facilmente acessível ao pensamento psicana­
do sujeito propõem na estrutura edípica e aos concomitantes intra-subjeti­ lítico, interpreto: água de nada, preencher-se com a ausência que s e
vos, fantasmáticos, deste processo. Uma situação que se produziu em um substancializou. Em seu caráter de presença, a ausência, o que não está, é
jardim de infância onde se dá educação sexual exemplifica isto: as meninas nada, mas nada é algo que pode conseguir uma incorporação benigna. Até
formulam "Lupita tem vagina, Mariana tem vagina, Paty tem vagina, Paula este momento, enquanto durou o quadro querelante, a ausência operou,
tem 'checheca"'. Assim irrompem na lição monótona de uma diferença não desde o inconsciente, como um ataque- objeto mau, propõe Melanie Klein.
apreendida com u m ex-abrupto que j oga por terra as inquietudes No inconsciente o objeto ausente é sempre objeto mau. A ausência não
programáticas da professora. é representável senão como presença atacante. Laplanche8 faz trabalhar
A diversidade ou diferença, no manifesto, marca o movimento c'e esta idéia e chega a uma lei geral do psiquismo: a pulsão de morte ê a
constituição de um aparelho psíquico infantil incipiente, onde a instauraç2 n sel\.'Ualidade não ligada que ataca o sujeito com a desintegração da pulsão
da castração abrirá a possibilidade d e comprender o surgimento do zero, ci' , parcial, frente à libido ligada no ego ou no objeto de amor.
1 06 I Silvia Bleiclunar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 107

Cabe uma pergunta: não é o inconsciente, porsua própria constituição, desde a própria experiência da língua, que propõe composições e recompo­
o lugar de inscrição da ausência do obj eto? Este é o modelo de toda a sições do real que a criança deverá rearmar quando se instale a lógica do
constituição do aparelho psíquico em Freud, j á que o que se inscreve é uma terceiro excluído. Só ali haverá possibilidade de análise e síntese posteriores
marca do objeto perdido. O nadanão tem representação, atua por presença, aos movimentos de constituição dos objetos totais.
morde e desgarra o sujeito. Não é outra a função atacante do inconsciente Pierre Fédida, em seu livro L'absence,9 vai marcando os diferentes
em seu conjunto. Se o inconsciente é o lugar do desejo, da inscrição da espaços nos quais a ausência constitui o objeto; sua preocupação é
pulsão em sua impos sibilidade de satisfação - e neste sentido haveria que encontrar a ausência da qual o objeto é portador. O objeto fetiche (portador
pensar o conceito kleiniano de voracidade: uma discordância fundamental da castração), o obj eto relíquia (portador do luto) , o objeto transicional,
entre a alimentação da qual o bebê é objeto em relação ao seu desejo oral de sustentação da presença-ausência da mãe. Na apresentação deste teÀio
acumulação ilimitada - , o :oujeito se defende. (Thomas Mann, emAs Tábuas propõe: "A ausência dá conteúdo ao objeto e assegura um pensamento à
da Lei, referindo- se à lenda que atribui a Moisés um crime em sua precoce separação ". Tomando um neologismo de F. Ponge, objeu, para intitular um
juventude, diz: "Soube que, se matar era bonito, ter matado era terrível, e por texto destinado a elaborar, com uma escrita que está entre a psicanálise e
isso matar devia estar proibido". Apenas a possibilidade de desejar o terrível a poesia, as relações entre jogo e objeto, Fédida diz: "Tratar-se-ia de fazer do
com a convicção de que não se realizará é o que garante a tolerância ao objeto o acontecimento depressivo da perda. É um acontecimento porque há
sinistro .) uma descob erta do objeto pelo jogo: consiste em abrir a mão, em se soltar.
No desgarramento que Mariano se encontra quando chega no trata­ O objeto se constituiria como significante da separação, o abandono ou a
mento, em sua atitude tipicamente paranóide, irritável , nada o satisfaz, perda . . . Institui-se no lugar de uma falta" . 10 O pensamento, às vezes, tem
porque diante de cada reclamação, quando o objeto demandado lhe foi como espaço a dor. O ausente é então o objeto de ódio do amor.
oferecido, é em sua presença que o objeto ausente aparece marcando a No caso de Mariano, quando os pais são obrigados a me consultar pela
impossibilidade de sua recuperação. Por isso a metonimização permanente atitude querelante que o menino manifesta- sempre hostil, mal-humorad o ,
(no manifesto) de sua demanda não consegue recobrir aquilo que ficou não reivindicativo -, é a ausência do objeto desejado que coloca os pais como
só como perdido, senão como não verbalizável, e que o tratamento permitirá obj eto odiado, ou ao menos, como sustentação deste, como objeto de ódio
recuperar. do amor? A situação clínica volta a atualizar, uma e outra vez, a velha
Quando água de nada se faz presente em seu discurso, o nada aparece, discussão entre Melanie Klein e Anna Freud no "Simpósio sobre análise
no marco da cura, remetendo ao objeto primordial da ingestão; mas é no pré­ infantil", de 1 926, a respeito da possibilidade da criança de estabelecer
consciente onde isto pode se manifestar e assim adquirir uma qualidade transferência. Qual é o objeto desejado, se os pais estão presentes, se o s
diferente: de presença atacante transformar-se-á em ausência desejada, em objetos primordiais são aparentemente conservad os?
possibilidade de representação da lógica da ausência (lógica, por outra parte,
que é apenas atributo do sistema pré-consciente-consciente) . Água de nada,
no entanto , não ê ainda o nada como conceito. É a substantivação na língua Do objeto parcial (p leno) ao objeto total (da fa lta)
do que havia sido inominável. Também não é uma soma, não é água com
nada, senão a combinação discursiva que estruturalmente liga água com Uma situação com uma paciente adulta pode servir para esclarecer este
laranja e a transforma em água de laranja, em uma anulação das proprieda­ ponto. Teve um breve encontro com o homem que ama e do qual está
des particulares de cada um dos elementos combinados, em uma fusão do separada. Lembra que ela era "tudo para ele" e agora ele fez amor com ela
objeto e do atributo. O atributo é o objeto, ao mesmo tempo que o objeto é apenas porque gosta dela, mas já não a ama. Minha paciente relata: "Quando
seu atributo; a água e a laranja se diluíram no de que as constitui como terminamos de fazer amor dormi, e sonhei que dormia a seu lado. Não
unidade. entendo porque, estávamos dormindo juntos e, no entanto, eu sonhava que

\
Se a análise e a síntese dos passos do conhecimento cientifico são dormia com ele". Na verdade, ela dormia "com outro" . A isto se referia Melanie
possíveis, isto não tem existência no psiquismo infantil antes que os Klein quando naquela velha polêmica dizia a Anna Freud que a transferência
sincréticos originários se descomponham em suas unidades constitutivas, não requer a perda dos pais "reais" infantis. Na realidade, nunca foran1 reais ,
e isso é assim tanto desde a instauração pulsional (representação da
primeira experiência de satisfação, na qual a boca e o seio constituem um I e na cura s e transferem aspectos fantasmáticos, resíduos das relações d e
objeto ocorridas com eles. Quando Mariano acusa os pais presentes ,
todo que permite pensar que a boca é uma cavidade que falta no seio) como
i'
'
'
reclama deles querelantemente serem portadores d a ausência das relações

I'
f,
108 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 1 0 9
primordiais perdidas. Um "resto de pais" ficou no lugar de origem, do qual como a passagem à posição depressiva, do abandono d o objeto pleno, mas
foi transladado. Quando se perde algo, o objeto presente marca a falta do parcial, ao objeto total?
ausente (não foram poucas às vezes em que assisti ao desconcerto de um pai
O objeto pleno, das origens, apenas pode sobreviver à custa de uma
ou de uma mãe, viúvos ou separados, enfrentados com a hostilidade do filho cisão em outro objeto que seja portador de todos os atributos negativos

que idealiza ao ausente. Não há porque se apressar na compreens o de� te positivizados. Neste sentido, os objetos parciais são objetos plenos, cada um
fenômeno, mas se inscreve, em linhas gerais, na ordem de determmaçoes portadordeum único atributo maniqueisticamente dissociado. De tal modo,
que estamos expondo). se existe um objeto da completude nas origens, não é senão parcial, relativo
Spitz, ao descobrir a angústia do oitavo mês como um momento do à pontualidade de um momento e coexistente com outro objeto da
desenvolvtinento infantil evidenciado pela reação da criança que, ao se I
i incompletude absoluta, objeto mau. O objeto total, caracterizado por sua
enfrentar com a gestalt facial de um desconhecido, chora pela presença
estranha, não se limitou a descrevê-la como um fenômeno normal na
I incompletude, quer dizer, pela integração do positivo e do negativo
(significantes no inconsciente de objetos parciais não representáveis como

I
constituição da criança, senão que arriscou uma hipótese cujo valor deve ser ausência), deve-se repensar, desde este ponto de vista, como constitutivo de
relevado: se a criança chora frente ao estranho é porque sua presença remete uma lógica que implica o reconhecimento da ausência no sistema pré­
à ausência do objeto esperado, a gestalt materna. O objeto presente consciente. No texto antes assinalado, Fédida diz: " O objeto coincide, em sua
ameaçador é o estranho que marca a ausência do objeto conhecido. Uma constituição objetiva e objetai, com o juízo de atribuição e o juízo de
característica geral do psiquismo está em jogo: o real só angustia se é existência, que marcam a localização da exterioridade a titulo de uma
transfundido pelo objeto psíquico. instauração superegóica" . n
Jogo enganoso . O desconhecido só assume tal caráter diante do Neste recorrido que estamos fazendo com Mariano, quais são os pré­
conhecido (quer dizer, do re-conhecido, no sentido de que o representado requisitos que se impõem para a conclusão lógica à qual o sujeito se dirige,
coincida ou não com o que é percebido); por outra parte, o que é percebido e como isto se vincula com a instauração dos juízos de existência e de
como real, e que coincidiu com o que foi outrora representado, deixa de sê­ atribuição?
lo na medida em que, apesar da percepção do idêntico, inaugura-se a não Talvez devamos deter-nos mais cuidadosamente na afirmação de
coincidência com a representação interior. Neste duplo movimento deve­ Fédida, no sentido das relações entre o objetivo e o objetai.
riam, talvez, ser pensadas as duas variáveis freudianas relativas à "prova de A parte relativa ao conceito de objeto, no Vocabulário de Laplanche e
realidade": uma, que consistirá em diferenciar o representado daquilo que Pontalis, fmaliza asseverando o seguinte: "Por fim, a teoria psicanalítica se
é percebido e que assim marcaria a diferença entre o interior e o exterío : (caso refere também à noção de objeto no seu sentido filosófico tradicional, isto é,
.
do bebê de Spitz); outra, que consistiria em comparar o percebido objetiva­ emparelhada com a de um sujeito percepcionante e cognoscente. Evidente­
mente com o representado, para retificar as eventuais deformações deste mente que o problema da articulação entre o objeto assim concebido e o
último. No entanto, o que vemos no caso de Mariano (e coincidindo com a objeto sexual não pode deixar de pôr-se. Se concebemos uma evolução do
preocupação expressa por Laplanche e Pontalis no Vocabulário da psicaná­
objeto pulsional e, ajortiorí, se vemos esta desembocar na constituição de um
lise, de que esta última variante do conceito de prova de realidade leve a objeto de amor genital, definindo-se pela sua riqueza, pela sua autonomia,
considerar esta eÀ'])ressão como se a realidade fosse aquilo que põe à prova, pelo seu caráter de totalidade, relaciona-mo-lo necessariamente com a
mede e atesta o grau de "realismo" dos desejos e das fantasias do sujeito e
edificação progressiva do objeto da percepção: a 'objetalidade' e a objetivi­
lhes serve de padrão) é que a cura analítica não pode passar em nenhum
_ dade não deixam de estar relacionadas" . 12
momento - e sinto o absurdo de ter que repetir isto a esta altura da historía
Podemos demarcar esta proposta em dois aspectos: por um lado, a
da psicanálise - por fazer coincidir os pais reais com os fantasmas que
preocupação a respeito das relações entre objeto cognitivo e objeto de amor
agitam o sujeito na produção do sintoma, senão que passa por reconhecer,
genital; por outro lado, se este objeto de amor genital, como é posto em
junto a meu paciente - e compartilhando para isso, dolorosamente, o
evidência, é efeito de um construtivismo que passa pela integração progres­
processo da cura - que os pais perdidos das origens são os restos de
siva dos objetos parciais, ou responde a outra ordem, na qual o narcisismo
ausência atacante que hoje precipitam sua raiva desmedida.
e a constituição do ego não deixariam de ocupar um lugar importante.
Passar do ódio à tristeza não é tarefa pequena para o aparelho
A teoria da integração dos objetos parciais (ou das pulsões parciais) em
incipiente. Tratar-se-ia, talvez, no movimento descrito por Melanie Klein,
· uma genitalidade totalizante se evidencia em Freud fundamentalmente a
110 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 1 1 1

partir de Três ensaios. Um construtivismo pulsional que desemboca na Se o inconsciente é o fracasso do amor (como Lacan propõe, coincidindo
totalidade unificadora genital. A proposta de Três ensaios, se bem permite os com Freud, que faz passar o amor pela constituição do ego ou do narcisismo) ,
grandes desenvolvimentos posteriores a respeito da sexualidade, não a posição depressiva não pode ter outra localização metapsicológica que o
possibilita entender as relações entre esta sexualidade e a constituição pré-consciente.
tópica, tal como apareceriam defmidas em textos como "Introdução do No entanto, poderia ser-nos dito, e com razão, que a posição depressiva
Narcisismo" e O ego e o id. "Introdução do Narcisismo" pareceria, neste não goza das caracteristicas totalizantes que fixam a constituição do ego ao
sentido, a primeira tentativa para conseguir correlacionar estes movimentos narcisismo (ou à especularidade, como o define Lacan em uma proposta que
constitutivos da tópica psíquica com aqueles da sexualidade, na medida em abriu novas vias para a compreensão deste conceito). A posição depressiva
que o conceito de "libido do ego" ressitua pela primeira vez os vinculas não se caracteriza pela instalação do traço unitário senão, justamente, pela
internos entre sexualidade e formação de uma instância (a estruturação do abertura da possibilidade de reconhecimento da diversidade existente no
ego como efeito do movimento que inaugura, mediante o narcisismo, uma objeto.
primeira bipartição no sujeito psíquico, efeito de duas formas diferentes de Nosso desenvolvimento tende a mostrar que o objeto total - descrito por
organização da libido). A partir de "Introdução do Narcisismo", então, duas Melaníe Klein- não é correlativo ao objeto da completude-teorizadoporLacan
formas de ftmcionamento da libido: uma ligada - no ego ou no objeto - e -, senão que é justamente seu reverso. Deveríamos, melhor, considerar o
uma não ligada - no inconsciente -, já que até 1 923 não aparecerá o id objeto total como o resultado do reconhecimento da falta, defmido pela lógica
como a instãncia capaz de abrigar essa sexualidade parcial. Por sua vez, um da ausência- como assinalamos antes-, e seria necessário ainda levar em
ir e vir desta libido ligada: ora depositada no ego, ora no objeto. consideração as vicissitudes da castração em sua constituição e instauração
O objeto parcial, como um dos pólos da pulsão parcial, deixa de entrar defmitivas.
na série parcial-genital para entrar na série parcial-total, ou parcial-amor, Talvez a exploração dos movimentos de Mariano no tratamento nos
não correspondendo necessariamente ao genital, senão como um movimen­ ajude a encontrar novas respostas. Um dia, quando a atitude querelante
to prévio à constituição do amor de objeto. O narcisismo, como oposição ao havia cedido e o menino encontrava-se com ótima disposição para o trabalho
parcial, não inclui necessariamente o amor genital, defmido pelo amor de em comum, um novo elemento veio acrescentar-se à situação e me
objeto. Neste sentido o narcisismo aparece como um momento mítico prévio desconcertou pela segunda vez. No meio de uma sessão, e com certa malícia,
ao amor de objeto que, no entanto,já implica uma totalização do objeto (neste como se fizesse um chiste, Mariano disse: "Sabes o que é zero? Zero é nada,
·

caso o ego ou seu equivalente) . e depois,jàz um". Observação que ligou o nada às origens, mas que marcou,
Que ocorre com o objeto total, no sentido proposto por Melanie Klein? ao mesmo tempo, o começo da numeração.
Embora haja oscilações em sua obra, é evidente que a característica Depois desta formulação Mariano ri, o prazer é intenso. Terá, em algum
predominante do objeto total não se deve a uma integração cognitiva (embora lugar, a percepção de que realizou o primeiro Witz de sua vida, ou é o
possa ser o pré-requisito desta), senão à integração dos aspectos positivos descobrimento em si mesmo, de uma posição ontológica que liga as origens
e negativos do objeto, gratificadores e frustrantes, "bons" e "maus", para à ausência, o que produziu o intenso prazer do investigador que há nele, essa
utilizar a terminologia intrinseca a esta teoria. A posição depressiva é então, excitação que acompanha o descobrimento científico?
desde meu ponto de vista, a possibilidade de reconhecimento, em um mesmo É suficiente assinalar, neste caso, a conexão que marca o surgimento
objeto, de sua incompletude (a incompletude do objeto, antes desta posição, da instauração do zero e do objeto "tanto no sentido objetivo como objetai"?
marcada como presença do objeto mau}, e em tal sentido só localizável Detenhamo-nos um momento nesta relação que é inaugurada no psiquismo
topicamente no pré-consciente. infantil, na constituição desta "cifra que indica uma quantidade nula", cuj a
Seguindo este desenvolvimento, e levando em consideração a idéia origem remonta ao árabe - sifer, vazi? -, e a instauração de um lugar
princeps de Melanie Klein de que as posições não são simples momentos do diferencial no interior da estrutura do Edipo.
desenvolvimento, senão fases de recaída constante, a posição esquizo­ Vamos à teoria dos conjuntos; duas propriedades podem ser utilizadas
paranóide seria um modo específico de funcionamento do id, defmido este para a compreensão do tema ao qual estamos assinalando: a soma e a
pela pulsão de morte, pela não ligação, pela voracidade (discordãncia multiplicação. Na matemática moderna, o somatório está dado, no caso de
fundamental entre a possibilidade de satisfação e a impossibilidade de dois conjuntos, pela soma de todos os elementos pertencentes a ambos. A
satisfação). intersecção, só por aqueles elementos comuns aos dois. Se supomos o
1 1 2 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 1 1 3
conjunto A, cujos elementos são l , 2, 3, 4, 5, e o conjunto B, cujos elementos Em Mariano, os diversos movimentos d o nada sustentado no objeto
são 4, 5, 6, 7, 8, a soma de ambos será igual a 1 , 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 , enquanto irão se desprendendo até que da plenitude da água de nada encontre a água
que sua intersecção será igual a 4, 5. No caso de que ambos os conjuntos sem nada, e logo a água pura, que o marcará em sua posição de identidade
não tivessem nenhum elemento comum, o resultado da intersecção seria diferente do objeto das origens , através de situá-lo em uma posição frente
equivalente a um conjunto vazio, cuja notação é, na matemática moderna, à castração.
o símbolo zero. A soma ou união, neste caso, implica uma incorporação Em pouco tempo isto aparece em seus jogos: a mega- aranha pretende
anulatória dos elementos diferenciadores de cada um deles. A intersecção, tirar o rabo do mega-escorpião. Me diz: "Eu entendo que a aranha quer
pelo contrário, realça apenas os elementos comuns, permitindo a existência capturar as moscas, o que não entendo é porque a mosca vai ao lugar das
independente das divergências dos elementos existentes em cada um dos aranhas" . Rompida a simetria na qual devoraçãoimplica tanto o temor de ser
conjuntos participantes da operação. devorado como o desejo de devorar, ambos os pólos do desejo aparecem
Outros dois princípios matemáticos podem ampliar nossa perspectiva: desprendidos, inscritos em duas instâncias diferentes. Mariano - sujeito ­
o zero implica a noção de identidade; é aquele número que somado a outro enfrentou-se dissimetricamente com o objeto. Um devora, o outro teme ser
dá como resultado este último. Por sua vez, implica a existência de inversos devorado. Há um fora e um dentro constituídos, ao mesmo tempo que há
aditivos, quer dizer, que a soma de um número positivo mais o seu negativo portadores de atributos desejáveis e sujeitos carenciados deste atributo. A
dá zero como resultado.
pergunta pelo desejo aparece assinalando, por sua vez, a posição do sujeito
Se bem não é minha intenção atual introduzir-me profundamente nas
decentrado já do inconsciente. A angústia de castração desenvolve-se em
relações entre a lógica e o pensamento - tema, por outra parte, amplamente
todas as direções. Em uma ocasião em que interpreto seu temor às meninas­
discutido pela filosofia-, pretendo, isto sim, mostrar que a constituição das
mulheres, Mariano responde: "Isso não é certo, além disso eu não me junto
premissas lógicas na criança não está desligada dos movimentos específicos
com mulheres , nas meninas faço assim (gesto de dar um encontrão)". Como
da constituição do aparelho psíquico e, neste sentido, dos movimentos pelos
no conto da caldeira que Freud relata, coexistem, no entanto, as três
quais este se desliza no interior da estrutura edípica.
possibilidades; isto indica que ainda não se instaurou a lógica da contradi­
Com "zero é nada e depois faz um", Mariano fez um descobrimento
ção que assinale a constituição definitiva do recalcamento. Mais adiante,
fundamental, ao mesmo tempo em que abordou um enigma aceitando seu
caráter de postulado, abandonando a tentativa de resolução que todo dirá: "André é um convencido". "Que é um convencido, Mariano?" "Conven­
cido é quem tem namorada . . . ", deixandojogar, naam�igüidade da resposta,
enigma existencial propõe. Em minha experiência, a pergunta a respeito da
morte por parte da criança vai precedida pela pergunta a respeito das o movimento que assinala a posição masculina na possibilidade de conjun­
origens. As origens são o limite que marcam a não existência. A criança que ção com a feminina e esquivando o temor à diferença para marcar o
chora porque ao ver a foto de casamento de seus pais não encontra uma acoplamento possível.
resposta a "onde estava eu?", ou a "por que não me convidaram?", resiste a Nesse momento se desenvolve a numeração e se instaura o zero.
reconhecer uma anterioridade à sua existência, uma fratura da permanên­ Mariano conta, aprende a escrever, organiza o tempo: "Sabes o que é ter
cia "desde sempre". Por isso a primeira pergunta é "como nascem as quase cinco (anos)? Dormir na casa de amigos, desde que peças licença". "Os
crianças?", antes de que se possa perguntar a respeito da morte. Que de cinco podem passar o fim-de-semana em casa de amigos, mas não podem
significa aceitar a morte senão aceitar a possibilidade de incompreensão do voltar sós". "Quando tens quatro e meio podes ver televisão até às 9, mas não
fato vazio de significação? O nascimento, a origem, é da mesma ordem. podes ficar acordado com papai e mamãe até as 12". Ao mesmo tempo,
Marca uma anterioridade ao sujeito, assim como a morte assinala a Mariano encontra uma maneira de se apropriar libidinalmente da realidade
continuidade sem este. que o rodeia e à qual rechaçou porque os objetos não podiam ser substitu­
Zero é, então, o reconhecimento do conjunto vazio enquanto diferença ídos: põe nome em todos os gatos da vizinhança, assim tem a possibilidade
produzida no interior dos elementos de um conjunto indiferenciado. Zero é de ser o amo de todos os seres carenciados que o rodeiam e dar-lhes seu amor
a abertura de dois sistemas de pertencer diversos, e neste sentido não pode vicariado. Se ele, em seu anonimato, não podia ser amado pelos seres
estar isento da marca que a diferença com o semelhante deixa no sujeito. O desconhecidos que o rodeiam a partir da migração e não podia amar esse
atributo fálico, pertencente a um dos dois universos, inaugura a abertura conjunto estranho em que o mundo se havia transformado, pode modificar
pela qual se instala o conjunto vazio. Já há intersecção e possibilidade de esta situação em sua fantasia e construir para si um mundo menos hostil
existência independente dos participantes da operação. que inverte, no ato designativo, seu desejo de ser reconhecido. A auséncia,
1 1 4 I Sílvia Bleichmar

7
a castração e a constituição do zero, fazem parte, no processo de cura de
Mariano, dos movimentos centrais que determinam o tratamento.
Esses pedaços de discurso, fragmentados de processos da cura de
crianças, têm por objeto realçar um aspecto que está sempre em jogo nos
tratamentos infantis: refiro-me à surpresa com a qual o psicanalista se vê
confrontado cada vez que uma frase, uma proposta enigmática, o descon­
certam no movimento da cura, submetendo-o à busca de uma resposta
possível que traz igualados momentos de revisão não apenas do conjunto do
processo clínico, senão também dos elementos teóricos com que conta para
cercá-lo.
Transtornos da linguagem:
Frases das crianças que justificam espaços escuros de desconheci­
mento aos quais nos vemos enfrentados; frases que, além mesmo do transtornos na constituição
fantasma que revelam, e talvez possivelmente em conjunção com este,
deixam aberta a possibilidade de pensar em mudanças estruturais no do suj eito psíquico
conjunto do aparelho psíquico. Em relação a isso, minha investigação abre­
se na direção de pór duas questões em conjunção: por um lado, a relação
entre a constituição da linguagem como tal na criança, enquanto fala (para
retomar a tem1inologia de Saussure), em sua correlação com os movimentos
estruturantes do aparelho psíquico; em segundo lugar, o fato de que as Explorei, ao longo dos capítulos anteriores, os desflladeiros nos quais os
formas gramaticais mediante as quais esse discurso se organiza relacionam­ mecanismos,que vão abrindo a possibilidade de acesso ao pleno funciona­
se com movimentos de constituição do sujeito psíquico que incluem tanto mento do aparelho psíquico, fecham-se em pontos a respeito dos quais
a logicização do pensamento em suas diversas variantes: organização obtemos evidências, através de diferentes formas, do fracasso do recalcamento
temporo-espacial, constituição do zero e acesso à matemática, como originário.
também o ordenamento das relações entre os sistemas inconsciente/pré­
O reconhecimento de que o inconsciente não está presente desde as
consciente-consciente, derivados do recalcamento originário. origens do sujeito, senão que é produto de um extenso movimento que abre
tanto suas possibilidades de existência como as possibilidades do processo
secundário, põe emjogo uma forma de aproximação ao fenômeno clínico na
Notas de referência
infãncia que propõe múltiplos interrogantes aos que nos vemos comprome­
1. E. Benveniste, Problemas de lingüística general, México: Sigla XXI , 1976, pág. 173
tidos na prática psicanalítica com sujeitos cujo aparelho psíquico não
(Os bastardos são nossos.) terminou de se constituir.
2. H. Ioannidi, "Caliarda, la Iangue secréte des homosexuels grecs, em Topique, Paris, A partir disso, este processo de indagação e de exposição de algumas
nº 20, outubro de 1 977. idéias centrais, que dizem respeito à minha concepção da contribuição
3 . Ibid., pág. 129. clínica a alguns problemas metapsicológicos, não se pode fechar sem tentar
4. La otra escena. Claves de lo imaginaria, Buenos Aires: Amorrortu editores, 1973.
5. Ibid., pág. 47.
cercar os problemas relacionados com esse campo escorregadio e sempre em
6. Ibid., pág. 49. tela de juizo das chamadas psicoses infantis.
7. J. Laplanche, Castração. Simbolizações, Problemáticas II, São Paulo: Martins Tento, para isso, ordenar o material da curadeum menino de três anos.
Fontes, 1 988. A questão não é simples, tudo parece estar aí: a desorganização pulsional e
8. J. Laplanche, L'inconsciente et le ça. Problématiques N, Paris: PUF, 1981. (O os déficits de constituição do aparelho psíquico; a_fragmentação do corpo e
inconsciente e o id, São Paulo: Martins Fontes, em produção).
do mundo circundante; a estrutura peculiar do Edipo e os traumatismos
9. P. Fédida, L'absence, Paris: Gallimard, 1978.
10. Ibid. , pág. 1 0 5 . vividos; a história contada e sua repetição circular nas sessões; os proble­
1 1 . Ibid. , pág. 1 06. mas de simbolização e a instauração do simbólico (no sentido de ordenamento
12. J. Laplanche e J . - B . Pontalis, "Objeto", Vocabulário daPsicanálise, Lisboa: Moraes
Editores, 1 9 76, pág. 4 1 1 . 115
1 1 6 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 1 1 7
estrutural , de registro, como propõe Lacan) . Tudo isso desemboca em um meios que servem para aproximar-se daquilo mediante o qual garante sua
transtorno severo da linguagem: Martin, de três anos recém feitos , é trazido sobrevivência. Nesse mundo de obj etos em que este menino habita, as coisas
à consulta porque não fala. O pai não pode deixar de pensar - apesar das não se constituem como objetivas na medida em que não podem ser
garantias dadas pelo pediatra em sentido contrário - que um problema
libidinizadas; a condição de obj etividade, tal como a viemos desenvolvendo,
orgânico afeta seu filho. Depois da realização dos exames médicos é não é independente do recalcamento, senão um efeito da constituição do
descartada qualquer possibilidade de algo "mal formado" no organismo. inconsciente.
Como tantos outros progenitores de crianças com transtornos seme­
Em sua primeira entrevista a s ó s comig o , M artin reite ra,
lhantes, estes pais - cultos e preocupados por seu filho - chegam a meu ritualizadamente, um processo evacuativo . Torna-me a mão e indica, com
consultório desconcertados pela situação. Sua confiança em mim alcança um gesto, que abra a porta do consultório, depois a elo banheiro; de o �
os limites de sua própria crença na psicanálise. Nenhum deles submeteu­ _
acender a luz, senta-se no vaso enquanto repete em forma monocordm
se a um tratamento analítico; não o questionam mas nunca se questionaram n;t
"popó, popó, popó" 1 , levanta -se e olha o que ficou depositado. Com movi en­
sobre sua necessidade; não negam que sofram nem que tenham problemas, tos e ruídos imperativos me obriga a abrir a torneira, depois a levanta-lo,
mas dizem que "podem dar conta sozinhos". lava-se as mãos, devo deixá-lo no chão, seca-se as mãos, assinala-me que
Esta frase, "podem dar conta sozinhos", parece ser o traço dominante apague a luz e volta ao consultório com um sorriso ausente enquanto vai
de Martin; ele se caracteriza por sua absoluta independência; busca sua indicando que devo fechar a porta. Isto se repete seis ou sete vezes durante
comida no refrigerador quando tem fome e conhece todos os passos para a primeira entrevista. A partir da segunda vez o ritual do banheiro fica
preparar uma mamadeira, tendo transformado essa operação em um ritual. estabelecido em todos seus termos e muitos elos atos casuais que eu havia
Com indicações balbuciantes e gestuais controla a preparação de seu realizado na primeira vez são reengolfados na ordem elo ritual. Se, por
alimento: pega a garrafa, desenrosca a tampa, diz ao adulto em que momento casualidade, havia fechado uma porta ao dirigir-me ao consultório acompa­
deve derramar o leite e logo a fecha, pondo-lhe a tampa de proteção; logo nhada pelo menino, este ato eleve ser repetido cerirnonialmente em cada
assinala que o acompanhem até o lugar aonde decide bebê-la- geralmente ocasião que nos dirijamos ao banheiro. A seqüência converte-se em uma
deitado sobre almofadas -, recosta-se, tira a tampa protetora, entrega a recuperação de ações pontuais a reiterar, não definidas por uma meta; elas
mamadeira ao adulto, que deve sustentá-la enquanto ele se acomoda e
não se encadeiam como condutas significantes organizadas pela consecu-
depois devolvê-la para que a tome. ·
ção ele urna finalidade que se quer alcançar.
Há em Martin , evidentemente, urna subversão na relação com o
No entanto, o cuidado que põe nesta tentativa de ordenamento do
semelhante. Poderíamos pensar, talvez mais corretamente, que o problema
mundo caótico em que se desenvolve mostra que há algo neste menino que
deste menino é que o objeto não foi subvertido. Essa subversão- necessária não o reduz exclusivamente à ordem da autoconservação. Em tal sentido, as
para a constituição do humano - de passagem do objeto da autoconservação idas reiteradas ao banheiro mostram que o que se constitui na passagem
ao objeto libidinal, essa verdadeira perversão da alimentação que produz no pela micção não é da ordem ela simples evacuação urin � m:
a. "Quando do e
lactante a intromissão da sexualidade adulta no mundo infantil e que o - diz a mãe - e me aproximo para dar-lhe sua mamaderra, devo desperta­
obriga a um trabalho psíquico de organização da descarga de excitação a que lo para que ele mesmo tire o bico , porque do contrário pode ter um ataque
se vê submetido por esta intromissão - sedução originária do agente de raiva" . Estes fato s, incluído o uso do bico, mostram que Martin se move
matemo - pareceria não ter tido lugar. em um mundo marcado pela existência de movimentos pulsionais despren­
Em Martin, o outro humano, o semelhante, é um suporte para o objeto didos ela função libidinizante que culmina no amor objeta!. Movimentos
que quer obter. Ele não utiliza a mamadeira noturna para conseguir a pulsionais que indicam que é um mundo marcado pelo humano, mesmo
presença dos pais em seu quarto , não pede água como qualquer criança que, quando ele mesmo não esteja constituído ainda como sujeito.
na escuridão da noite, põe a sede a serviço da busca de amor; pelo contrário ,
Lacan introduziu a hipótese do fracasso da função simbólica para
utiliza o outro humano como suporte que permite a satisfação de necessi­ explicar os transtornos psicóticos. Sem a inclusão do sujeito na ordem
dades vitais elementares .
simbólica- sustenta-, "o homemjá não pode nem sequer se sustentar em
O p ai de meu paciente é um economista; explico-lhe: Martin vive em um posição ele Narciso", quer dizer, o ego não encontra uma possibilidade de
mundo de objetos, mas obj etos que se caracterizam por seu valor de uso. Não
estruturação na medida em que fracassa a relação com o semelhante
há para ele um obj eto que funcione como pretexio para o intercâmbio inter­
sustentada por esta ordem, mantendo-se a partir disso uma relação mais
humano ; pelo contrário, o que nós denominamos homens, não são senão
estreita com o real do que aquela que um neurótico pode estabelecer. Martin
1 1 8 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 1 1 9

parece confirmar essa hipótese; no entanto, a postura de Lacan leva a uma cama, sem poder localizar em seu próprio corpo o lugar da dor que é
segunda afirmação em relação a esta função simbólica, que fica desmentida registrado pela parte lesionada.
no caso de nosso paciente e que pareceria ser discutível na formulação
teórica da psicose em geral. Esta segunda afirmação consiste no seguinte:
se a função simbólica fracassa, diz Lacan, o ânúna, como por efeito de um Uma h istória em dois tempos
elástico, volta a colar-se ao animus e o animus ao animal,2
Na primeira parte da formulação há uma busca teórica da especificidade Martin é o segundo de dois irmãos: Aníbal de cinco anos, e ele de dois
da constituição da psicose como fracasso da função da simbolização no anos e dez meses no momento em que se realiza a primeira entrevista.
sujeito (e, por conseqüência, da constituição do Mo i} , desde sua não inclusão Sua história pode ser dividida em duas partes . Da primeira, temos
no registro simbólico. Na segunda, a erradicação do especificamente dados muito precários, em função das circunstàncias nas quais ocorreu sua
humano - equivalente ao simbólico - arrasta inevitavelmente o psicótico criação. Quinze dias antes de seu nascimento, a avó materna, residente no
a ficar desprovido de "essência humana". Como mostra nosso paciente, a estrangeiro, chegou ao México e cuidou do menino desde o nascimento até
criança psicótica não é alguém que não passou por um processo de os dezesseis meses, momento em que regressou a seu país de origem. Nesta
humanização, senão alguém em quem este processo adquire um movimento época - quando tinha menos de um ano e meio - Martin já caminhava,
peculiar. Reduzir o humano ao registro simbólico, assim como reduzi-lo à corria, dizia algumas palavras. A partir disso o desenvolvimento da lingua­
alma ou à razão, como fizeram em algum momento a filosofia ou a religião, gem se deteve e algumas das palavras adquiridas desapareceram; quando
não é patrimônio do corpus teórico da psicanálise. Se o humano só pode devir isto ocorreu, o menino já havia deixado a mamadeira e o bico e, posterior­
do humano, talvez o que a fenomenologia veio mostrar é que a essência de mente, os retomou. Relata a mãe - o que não deixa de produzir certo
uma coisa não está na própria coisa e, mesmo quando seus alcances não assombro, levando em consideração que era seu segundo filho - que não
permitiram definir porque, uma teoria da contradição e do conflito mostraria sabia muito bem como cuidar do menino quando sua mãe se foi; a sensação
que a essência não pode estar na própria coisa porque esta coisa não pode que o racconto da história produz é como se tudo tivesse começado de novo,
ser senão produto do conflito. como se este filho tivesse sido dela a partir do momento em que sua própria
Neste menino, aquilo com o qual nos encontramos e que nos leva a falar mãe se distanciou. Recém aí Martin teve existência para os país, que
de modo de constituição a predominância autista, é o produto dos despren­ puderam fazer frente a seus cuidados, descobrindo,,não sem surpresa, que
dimentos libidinais de um vinculo que, se bem permite a constituição o menino nunca havia tido um verdadeiro lugar na família; todos os espaços
precária de objetos pulsionais, não é suficiente para a instauração do haviam sido inteiramente ocupados pelo irmão maior, temerosos de fazê-lo
narcisismo capaz de produzirumainstància egóica e obriga, eventualmente, sentir a exclusão que a criação do irmão podia provocar-lhe.
a uma degradação destes objetos que regridem ao plano da necessidade. Um elemento tomado da história materna pode abrir algumas vias de
compreensão para esta situação: quando tinha oito anos, seu irmão, de
No momento da consulta, Martin não possui, evidentemente , um ego dezoito meses - segundo filho homem de sua mãe - morreu subitamente
que implique "um universo de um pertencer" . Esta é a razão pela qual não de uma doença incurável. Para esta menina, que havia tomado aseu encargo
pode, também, discriminar a partir das próprias sensações que se produzem o irmãozinho como próprio filho, a morte do irmão foi um episódio que a
em seu corpo. 3 Quando se levanta do vaso para olhar o que ficou depositado afundou em uma desesperação profunda. Combinava-se nelaaambivalência
nele, é porque nem sua urina nem suas fezes são pedaços desprendidos de de ter amado este irmão-filho, com a hostilidade que lhe despertava nos
seu próprio corpo, elementos integrados em um todo que permita a discrimi­ momentos em que queria voltar a seus jogos infantis e era obrigada a cuidá­
nação. Seus buracos são zonas de expulsão e de incorporação indiferenciadas lo. No momento de nascer seu segundo filho homem restituiu aquele menino
ãs quais não se liga um objeto específico. O prazer por apertar o botão fica perdido à mãe, ocupando-se com ele na época em que o outro havia morrido ;
mais associado ao ruído que a água produz do que a uma verdadeira sua mãe foi embora antes da data que marcava o prazo daquela perda e ela
despedida dos desprendimentos de si mesmo que um menino neurótico pôde exercer a reparação da história em seu próprio filho.
sente flutuar na água, o que nos indica que não há ansiedade de despren­ Esta história pode permitir entender, talvez, o caráter contraditório dos
dimento, nem obj etalidade significante. Do mesmo modo, quando se bate e transtornos que o menino apresentava quando foi trazido à consulta . A
chora, ante as perguntas da mãe "onde te dói, Martin? onde te bateste?", detenção da linguagem, a partir da época que Margaret Mahler chama de
responde mostrando o objeto com o qual se bateu: porta, parede, borda da separação-individuação, podia fazer-nos pensar em um autismo secundá-
120 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 1 2 1

tia indicavam a vigência de precipícios


rio, produto de uma regressão a partir de uma psicose simbiótica. No presença d e esboços d� �gús
o normal.
entanto, não possuiamos dados suficientes sobre os primeiros tempos do antecipatórios de um pslqmsm
menino para que esta hipótese se corroborasse. Se nos ativermos ao fato já
mencionado de que a avó se fora antes de que se cumprisse o prazo da morte
de seu �róprio filho, é provável que o menino tenha sido visto sempre por ela constit uiçã o da tóp ica:
e do externo -ex teri or
como nao sendo outro que aquele que substituía e que constituísse com ele os l u gare s do externo-interno
uma psicose simbiótica. O fato de que houvesse elementos de ecolalia em
ar a pergunta a res?eito ?o �ue
relação ao irmão e aos pais pode levar-nos a pensar na direção desta Em A angústia, Laplanche propõe abord
simbiose falida: quando o irmão parava em frente ao estúdio fechado onde s i tuar o que se passa no confl1to ps1qmco ,
é uma tópicas, "a fim de podermo �
.

.
o pai trabalhava, gritando "abre, papai" , Martin se posicionava a seu lado e tal como a psicanálise o descreve lise, - . - na top1. ca sao
d1z
-
repetia os últimos sons. Quando nos aniversários se cantava"Las maiJ.anitas"4 "Em primeiro lugar, e em prim eira aná _:u
' idade de u� em :elaçao a outro. Isso
Martin repetia "itas" e o final de alguma palavra de uma frase. lugares, comportando uma exterior . dade a qual F eud se ateve
e, espac1al1
Para Margaret Mahler, o que caracteriza o funcionamento simbiótico é implica uma verdadeira espacialidad is co n o seu Prq;
:
eto para uma
a constituição de uma unidade dual com o objeto matemo, mas que ana tõm icos , depo : .
desde os primeiros estudos
necessita a presença externa da mãe para se manter. Diatkine entende esta psicolog ia científica de 1 895, e que .
n �o abandona ate o fim, chegando mesmo
a
condição da necessidade de presença da mãe como aquilo que vai permitir a sublinhá-la no fmal de sua obr
·

1938 a resp e1to de qu� .�


. ,.

a criaçã� das ?�I?eiras representações mentais estáveis - assim o propõe Retomando a formulação freudian de
a
em El ps!coanállSlS precoz. No entanto, em minha opinião, e tal comojá expus espacialidade é talvez a projeção da_
� ensã o d � �parelho ps1qmco ,
.
espac1alidade fundamental,
em outro capítulo, a criança afetada por uma patologia simbiótica caracte­ Laplanche propõ e: " . . .haveria uma espec1e de
coisas mas a d �s partes do �p�relho
riza-se pela impossibilidade de estabelecer representações do objeto mater­ transcendental, que não seria a das
apenas um denvado secundaria, sua
no em ausência deste; é como se o limite englobante fosse da ordem real do psíquico . A espacialidade externa seria
corpo fusionado e por isso não admitisse representações separadas nem do 'projeção'". .
lho este carater de partes
semelhante nem, em conseqüência, do próprio ego. Em segundo lugar, esta extensão do apare � ten� c da parte um
Os poucos elementos com que contava para recriar a história de meu extrapartes, serviria em princípio a um<: espa
cializaça o, � �
ente , e nao pode ndo , por defrm çao, nenhuma
paciente, .devido ao fato de que a mãe não estava em condições de dá-los, já
.
_ estivera modo de funcionamento difer
que Martm nao ao seu encargo, faziam com que eu me inclinasse função coabitar com outra. .
por situar o quadro como seqüela de uma simbiose patológica originária, em terc eiro luga r, esta tópi ca i;npli ca uma ordem de r�comdos. Ou,
Em
ordem de recomdos sem certa
mais exatamente, não se pode defimr uma
a, justamente, voltar a traçar e��a
processo de desintegração no momento da perda de um objeto originário,
mais do que por um autismo primário tal como o descrito por Karmer. referência espacial sobre a qual se poss .
isso émais importante , � 1de1a
Isto dava, supostamente, melhores perspectivas ao prognóstico e ordem. "Mas -concluiLaplanche - creio que
o a de uma ordenaçao das
oferecia, por sua vez, possibilidades futuras de restituição muito mais de uma ordem de percurso implica sobretud
promissoras do que aquelas com as quais me houvera enfrentado no caso sucessões a qual só é figurável, precis�
�nte no espaço e que evoca a parte
de um autismo. Tratava-se de construir, em tomo de um tecido desparelho da matemática que se chama topologia ·
. . _
parta do ego, 1sto e, que nao
e impreciso, um bastidor que reordenasse e desse forma á figuras que, Se é imp ensável uma tópica que não
qual o sujeito se situe e que
alinhavadas ao azar, tinham impresso, e não apenas organizado, toda a constitua um interno-externo a partir do
rior (extem?-exterior)_ co:no d o
implique que tudo 0 que provenha do exte
rlhos a S I mesmo, e eV!den�e
trama na qual se pode dominar o fio que, no autista, caiu da lançadeira.
inconsciente (interno- externo) lhe sejam estra
egóica devem pro�uz�
Construir um mapa sobre uma geografia existente não implica 0
mesmo esforço nem a mesma desesperação a que o analista de autistas se que os fracassos na constitui�ão dest nstâ a i ncia
emb ram�nto no �r�p�o
vê submetido quando se encontra com o deserto carente de acidentes perturb ações que impliquem nao apenas um desm
ndo a cnança PSlCotica
geográficos. Meu paciente era um terreno selvagem no qual Deus havia sujeito senão no mundo no qual está imerso. Qua _ podem
que dois corpos nao
deixado cair ao azar uma montanha, um rio, um vulcão, às vezes inclusive sente -se colada ao outro , como se a lei que indica intuitiva nem
negligentemente no mesmo lugar, mas onde os objetos habitavam e a ocupar 0 mesmo lugar no espaço não tivesse vigência
122 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 1 2 3
exp�rienc�al, isso ocorre por efeit� d� impossibilidade de que uma repre Recapitulemos: a teorização da constituição sexual da criança não
sen­
taçao de srmesmo (o ego como proj eçao de uma superfície) exerça sua pode ficar nos limites nem de um geneticismo abstrato que prop?nha uma
função
organizadora. evolução libidinal reduzida a fases que se desenvolvem desde sr mesmas,
Mas, por sua vez, o ego como limite englobante e nem também nos de um estruturalismo que assimile a constituição do
diferenciador
estabe!ece esse �niverso de ur:r pertencer que permite a organ sujeito, linealmente, às condições da estrutura na qual este estã imerso.
. ização de
equaçoes srmbohzantes da realrdade : o que está no interior desse No momento do nascimento do filho, a mãe, como sujeito cindido ,
limite me
pertence, � parte de mim, e as fezes se c? r:stituem como linguagem da possui tanto a capacidade de amor narcisista (que permitirá a unificação do
pulsão
na equaçao reter- exp ulsar- no exercrcw da pulsão de dominio e no amor libidinal na criança na constituição da tópica egóica) , como um
controle
do objeto - na medida em que o controle de esfmcteres ressig conjunto de desejos recalcados que tem como sede o próprio inconsciente
nifica a
analidade no momento em que o ego se instaurou. matemo. Como sujeito de desejo e contracarga, aquilo que exerça no corpo
Façamos urna �recis�o. O c�áte: objetai ou anobjetal da criança não será verbalizado senão como proibição. Deste modo, a mãe
. . do auto­
erotismo esteve em drscussao na psrcanálise,co rn oscilações, embora não introduzirá sua sexualidade brutal através da limpeza do ãnus, formulando
por �sso cor:r menos persistência' Melanie Kl�in assinalou corretame posteriormente a frase - quando a criança faça uso do auto-erotismo para
nte que
er� m�possrvelfal� de anobj. etahd . ade nos pnrne
iros temp os da const recriar os cuidados excitantes que o constituiram - : "As crianças não se
ituição
psrqmca: �a rne?rda em q:re o obj. et? do auto-erotismo, enqu tocam a bunda", gerando mediante a palavra a contracarga pulsional que vai
anto objeto
f�tasrnati�o, n �o era ;:; e:rao um resrduo dos Vinculas estabelecid operar como motor do recalcamento no aparelho psíquico infantil. A palavra
os pela
cnança :ro mt_enor do Edrpo. Deste modo, os objetos parciais, cairá degradada a coisa, e as condições da dupla inscrição estarão prontas
_ seio, pênis,
fezes, mae (ma-boa) estavam no centro da pratica auto-erótica, a para o retomo do recalcado.
qual não
se produzia no vazio do corpo senão no interior de um corpo-objeto libidin A possibilidade da mãe de narcisizar o filho vendo-o como um todo,
fragmentado na multiplicidade das zonas erógenas. No entan al
to, sua concep­ como significante fálico da completude- para utilizar a expressão de Lacan
çã? do desenvolviment9 libidinal � partir de uma gênese do própr
na qual o ou�o na9 opera senao com? suporte de projeções, imped
. io - é efeito, certamente, do reconhecimento de sua castração; mas para que
SUJerto,
. iu a carência se constitua como oposta à completude é necessário que uma
estabelecer uma drstinçao entre estes ObJeto s (da pulsão) lógica do total-parcial se tenha instaurado; somente a partir desta lógica o
e os objetos
libidinais (do ego), ficando as diferenças de passagem reduz filho (como totalidade) ingressará como objeto-pênis na mãe (tal como Freud
idas a um
constructivisrno onde desde o objeto parcial ao total não havia 0 definia em "Sobre as Transposições da Pulsão, em particular do erotismo
senão um
movimento integrativo definido pelas vicissitudes das relaçõ anal"). Ao ressituar o auto-erotismo como primeiro tempo da constituição do
es entre o
instinto de morte e o de vida. psiquismo, abrem-se as possibilidades também para repensar as di_:rersas
O estruturalismo lacaniano não ofereceu uma altern
ativa que resolves­ modalidades das psicoses infantis. O estruturalismo deixou duas opçoes: ou
se a questão. Ao colocar o narcisismo como primeiro tempo da constituiçã 0 filho entra como significante fálico e fica pregado nesta posição (caso das
o
psíquica, o auto-erotismo desapareceu do interior do camp ficand
o, o psicoses sirnbióticas infantis e da paranóia adulta) , ou o filho não encontra
subsumido em ui? n�cisismo estruturante a partir da mãe. A image
m dada um lugar no desejo matemo e ao escapar à cadeia simbióticanão se constitui
por La�� no Coloquw de Bonneval, de uma esfera de Magdeburgo partid como sujeito (em tal sentido haveria que situar o autismo e suas derivações).
a
pelos cmmes de Zeus, da qual escorre, corno de um ovo quebrado, interi
o or Apesar da tentação ordenadora que isto propõe, entendo, desde a
que se derrama como libido e onde em cada ponto de ruptura-su
tura se própria experiência clinica, que não é assim. Poder-se-ia resolver facilmente
escapa um fantasma, alude claramente a uma origem unificada que se
a questão dizendo que nunca a realidadepode ser totalmente capturada pelo
fratura a posteriori. Do interior da díade mãe-filho à constituiçã libidin modelo; no entanto, o modelo -ou o esquema teórico com o qual se trabalha
o al
marcada pelo terceiro que irrompe, produz-se esta imagem na
qual 0 auto­ -deve ser, além de umaforma de ordenamento do real, uma via para operar
erotismo não pode ser senão nostalgia de urna completude
perdida. A sobre este real a modificar. Se o modelo trava este procedimento é porque
proposta freudiana da instauração das séries prazer- desprazer partir
a da algo deve ser revisado e, assim, produzir- se uma nova espiral teórica.
experiência de satisfação se substitui então pela de completude- incorn
pletude, No caso da explicação da psicose por parte do estruturalismo, as
e se chega, mediante um rápido deslizamento, á equiparação de completude dificuldades são de duas ordens: em primeiro lugar, se produz o mesmo
com totalização narcisística.
fenômeno que Rosolato assinala quando em "El análisis de las resistencias"7
124 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 1 25

propunha a falácia de remeter a resistência ao analista: um jogo de caixas b. A mãe pode ter organizado o recalcamento e a instauração
no qual o analista (se, por acaso, resistia) remetia a uma falha em sua própria superegóica e ter desejado o filho como objeto de completude e m
análise, mas como nesta análise havia sido paciente, a resistência era relação com sua própria angústia d e castração. Mas as vicissitudes
remetida ao analista, e logo ao analista do analista, ad mfmítum. A vantagem da história podem ter produzido uma desintegração parcial destas
do problema que esta concepção das resistências, que Rosolato questiona, estruturas no momento do filho nascer ou depois. Neste sentido , se
apresenta é que a cadeia se corta ao chegar a Freud (ou ao menos a Fliess) . bem não são os acontecimentos em si mesmos os que definem a
� enquanto que r:o ca� o d a criança psicótica, a b�!!lD técia estruturalista pode posição do filho na estrutura do Édipo, a forma em que estes s e
se remontar ate Adao e Eva. No entanto, mesmo quando se chegasse aí, e encadeiam com as estruturas significantes dos pais define o s
mesmo quando se aceitasse que Deus forcluiu a metáfora paterna (porque movimentos que precipitam a história n a constituição libidinal d a
em sua função genitora era mãe fálica) , ficaria a dúvida de por que não foram criança.
psicóticos todos os filhos do casal, e, aínda, por que Eva desejou Adão. c. A mãe pode ser efetivamente uma estrutura narcisista. Mas o que
Se todas as psicoses são explicadas por uma única causa: forclusão da temos tentado demonstrar em outros textos é que o narcisismo,
metáfora paterna na mãe do sujeito, não se pode deixar de pensar que a paradoxalmente, não se sustenta senão por sua inclusão n o
forclusão enquanto movimento deterrnip.ante (e não enquanto mecanismo, interior d o aparelho, jogado em relações d e sistemas entre o i d (ou
Verwerfung, em Freud) é imodificável. E isto talvez o que levou à paralisia o inconsciente) e o superego. O paradoxo consiste em que um
clínica muitos lacanianos gue viram abertas suas possibilidades de compre­ narcisismo que não está atravessado pelo superego, que não se
ensão graças à teoria do Edipo que Lacan propôs, mas que se encontram constitui como narcisismo secundário, é um narcisismo do qual
maniatados para revisar ao Maitre naquilo que obstaculiza a transformação. sobrevém um ego frágil, mesmo quando sua aparência seja onipo­
Eis aqui a primeira ordem de dificuldade com a qual nos enfrentamos: tente. Daí que o inteijogo que todos os clínicos reconheceram ao
caráter a-histórico de um estruturalismo formalista no qual não há permu­ narcisismo psicótico é o de constituir um ego duro e frágil ao mesmo
taçôes possíveis, na medida em que a função da estrutura é sua própria tempo; de gesso, mais que de fortaleza cercada. Mesmo aqueles
L
reprodução, a partir de que esta estrutura responde a uma ordem fechada que, como Bettelheim, analisaram o autismo infantil como uma
que se desliza sobre o real recobrindo-o, mas sem relações com este. O defesa extrema pela vida, apelando à imagem de "fortaleza vazia",
acontecimento, a história como ordenamento significante deste aconteci­ não deixaram de reconhecer o risco extremo em que estes pacientes
mento, não pode então ter nenhum lugar possível. A história vem a ser, psicóticos se encontravam, risco de desestruturação constante. E
assim, a história das reverberações estruturais, a ação da estrutura, do o narcisismo da mãe pode, neste caso, impedir que o filho "se
discurso no qual esta se constitui. sustente em sua posição de Narciso" ante a falha da função
Em segundo lugar, o modelo da mãe de psicótico como entidade simbólica na estrutura.
defmida desde uma posição de "não atravessada pela castração", assume
um grau de generalidade em que os ínterrogantes se escamoteiam. Vejamos Não se esgotam com isso todas as possibilidades combinatórias que
alguns deles: podem justificar tanto a instauração de uma psicose infantil como a
especificidade que esta tome. Minha intenção é, simplesmente, assinalar
a. A mãe pode não estar atravessada pela castração e, nesse sentido, que as fórmulas podem, em teoria psicanalítica, ser ponto de partida para
o fllho não entra como significante da completude (totalizadamente) a compreensão de um campo d e fenômenos, e apenas isso. Quando não
porque ela mesma não constituiu uma tópica que possibilite a ocorre assim, quando as fórmulas se transformam em recursos de autori­
integração libidínal em uma instância defmida pelo narcisismo e, dade que impedem a ampliação de conhecimentos e a transformação da
como conseqüência, pelo amor de OQjeto. Neste caso não se deveria realidade, devem ser "postas a trabalhar", revisadas em seu próprio
a um fracasso da castração, da constituição da instância superegóica fundamento para encontrar novas vias explicativas.
(instância parental) , senão do movimento prévio a ela, que implica Voltemos ao ponto do qual partimos: localização do auto-erotismo nas
a constituição do ego . Isto é visto em mães de psicóticos para as origens do psiquismo infantil e , a partir disso, sua objetalidade ou
quais o filho foi sempre um objeto parcial (boca, ânus) e, a partir anobjetalidade.
disso, não deram a esse filho uma unificação de sujeito organizadora Deixando o sentido proposto pela filosofia, na qual o objeto é concebido
da tópica egóica. como objeto de conhecimento (caráter que também tem na psicologia
126 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 127

clássica), o objeto em sentido psicanalítico pode ser entendido em duas outro mediante uma integração progressiva de suas pulsões parciais dentro
perspectivas diferentes: como correlato da pulsão - aquilo mediante o qual da organização genital. Concepção construtivista cuj a origem estaria mais
a pulsão busca alcançar seu fim - ou como correlato de amor (ou de ódio), do lado do cognoscitivismo do que da psicanálise: consideração crescente do
tratando-se, neste caso, da relação do ego com o objeto ao qual aponta como objeto em sua diversidade e riqueza de qualidades, em sua independência.
totalidade (pessoa, ideal, etc.).B O que a experiência psicanalítica demonstra é que não é a cognição a
Nas origens a pulsão encontra-se totalmente orientada para a satisfa­ condição da integração dos objetos de conhecimento.
ção, isto é, para a resolução da tensão pelas vias mais curtas, de acordo com Se consideramos a constituição do objeto parcial em suas relações de
as modalidades apropriadas à atividade da zona erógena correspondente. início com o objeto total, possivelmente encontremos outra via para a
Neste sentido, a contingência do objeto implica que responda a determina­ resolução deste problema. Pensando desde a criança, desde a constituição
das características dos traços parciais que possibilitam essa descarga- ser libidinal nas origens do aparelho psíquico, o objeto parcial é evidentemente
incorporável, no caso da pulsão oral -; estes traços são os que permitirão anterior ao objeto total. Como Martin mostra, o objeto da pulsão parcial pode
a constituição de equações posteriores: podem-se incorporar idéias, por constituir-se enquanto o sujeito não constituiu objetos totais, de amor,
exemplo, porque o conhecer fica ligado à atividade incorporativa que se correlativos ao ego. Quando Martin ritualiza a preparação de uma mamadei­
constitui na oralidade. 9 ra estamos frente a uma situação na qual se pode dizer que a sexualidade
Pensando nesta direção (objeto da pulsão como correlato do sujeito (como significação estruturante desgarrada da autoconservação) se insta­
pulsional, parcial) , é evidente que a satisfação pulsional não se orienta pelo lou. Se não fosse assim, este menino não poria tanto cuidado no ritual de
amor ao objeto (objeto total de amor) , senão, justamente, por seu desconhe­ preparação, nem faria esforços tão marcados para conservar certas condi­
cimento. O par antitético (ao mesmo tempo complementário) proposto por ções prazerosas na posição (deitado entre almofadas macias) que escolhe
Freud em "Introdução do narcisismo" e em "Pulsões e destinos das pulsões" para a ingestão da mamadeira. D a mesma forma, quando vai reiteradamente
organiza-se no interior de uma oposição do sujeito (do ego) ao objeto (de ao banheiro na sessão, a micção não é um simples ato evacuativo, porque
amor). Deste modo, a libido de objeto, tal como é definida na Metapsicología nesse caso não se converteria no signo predominante mediante o qual se
(em 1 9 1 5), só pode ser contraposta à libido do ego e efeito da ligação de cargas inaugura o contato com a nova situação (não me atrevo a dizer colnigo) . De
no interior do aparelho que permite sua relação com o objeto; processo outro modo, Martin se limitaria a urinar quando, ao encher a bexiga, a
impensável sem a constituição do narcisismo como amor a si mesmo, e pressão do líquido determinasse o reflexo evacuativo e este ato teria, então ,
sendo este si-mesmo uma imagem representação do sujeito. as mesmas características mais ou menos automáticas que adquire em
Objeto de amor e objeto da pulsão não só não são equiparáveis, então, qualquer outro "cachorro" não necessariamente humano.
senão que, em certa medida, são opostos. O amor pelo objeto implica sua A pergunta que podemos fazer-nos é por que Martin não consegue
preservação, está contraposto ao ódio e ambos, em seu conjunto, à estruturar esses objetos de amor que, como assinalamos anteriormente,
indiferença. A pulsão se satisfaz com o objeto parcial (ou se descarrega, o que aparecem nas crianças quando os objetos auto-eróticos vão cedendo
em seu caso é o mesmo) sem se importar com o destino do objeto, que é (recalcando) em função do reconhecimento do amor matemo, quando a
sempre pontual e definido-comojá assinalamos- pela predominância de comida se transforma em um dom que se recebejunto com o reconhecimento
um traço que o constitui como tal. Por isso preferimos reservar o termo da mãe.
objetal, em sentido estrito, para a relação do ego com o objeto, tentando Se partimos da teoria do apoio na constituição pulsional, o elemento
buscar aquelas conexões que se põem emjogo para que esse objeto de amor, Pre:cip,itante desta possibilidade de derivação do objeto da alimentação em
que é a criança para a mãe, constitua por derivação e por apoio os objetos objeto sexual (derivação metáforo-metonílnica do leite ao seio e do organis­
das pulsões parciais. à boca constituída enquanto zonalibidinal) é a existência da sexualidade
A pergunta que fica proposta é: quais são os vínculos que se estabele­ outro humano que gera as condições para que se produza, retomando a
cem entre ambos os obj etos (o do amor e do da pulsão) e desde quais vias expressão já assinalada, a sedução originária. Esta sedução originária abre
se deve considerar as possibilidades de passagem de um ao outro, levando possibilidade de compreensão para aquilo que Melanie Klein reconhe­
em consideração que ambos coexistem na estrutura psíquica materna no intuitivamente: o fato de que as fases da libido não se instituem senão
momento do nascimento do filho? predominâncias do desenvolvimento infantil; o fato, por sua vez, de
Deixemos de lado a concepção que, desde um enfoque genético do n o momento da predominância oral, o anal e o genital já têm uma

desenvolvimento psicossexual, considera que o sujeito passaria de um a embora caótica, desde as origens.
128 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 129

Mas esta imersão brusca elo "cachorro humano" nesse mundo signo preocupante para todo analista ante o qual o quadro se apresente. A
sexualizaclo elo adulto, implica algo mais. Os cuidados maternos são obsessiviclacle precoce não pode ser considerada na maioria dos casos como
produtos da libido ele obj eto da mãe. Deixemos em suspenso, como um sintoma neurótico: e se bem o diagnóstico não pode jamais ser efetuado
secundária, a oposição libido narcisista/libido objeta!, e centralizemos a a partir ele um só traço, este sintoma só aparece em dois casos bem definidos:
oposição obj eto ela pulsão/ objeto libidinal. A mãe, suj eito atravessado por em crianças com uma predominância de constituição psicótica (ou que
seus próprios embates pulsionais, não pode deixar de jogar em seu arrastam resíduos autistas reencapsulados na estnltura posterior) , ou em
movimento libidinal as contradições entre o obj eta! (amoroso) e as pulsões crianças neuróticas que passaram por situações ele perdas massivas (morte
parciais (objeto da pulsão) , projetando sua própria realização de desejos no de progenitores , migrações bruscas) , nas quais a ritualização tem por objeto
filho - desejos orais , anais -. Deste modo, ao sexualizar o filho com os manipular certa pem1anência de elementos básicos da viela cotidiana frente
cuidados que lhe proporciona, desprende em sua boca, junto com o leite que à desorganização libidinal que as perdas precoces produzem.
o alimenta, o seio com o qual se constituirá - por derivação e por apoio - Nos últimos anos, e em função ele circunstâncias especiais em que meu
o objeto da pulsão. Um derivado do outro, a mãe oferecerá essa parte de si trabalho se desenvolve, tive a opo rtunidade de analisar, em múltiplas
mesma que é o seio a essa boca "pulsionada" que se fusionará com seu ocasiões, crianças neuróticas que apresentavam estes rituais como produto
próprio seio e que retornará alucinatoriamente no auto-erotismo (possuidor de lutos massivos aos quais a história os havia enfrentado. Lembro
ele um obj eto derivado da objetalidade, mas anobjetal se se entende o objeta! especialmente uma menina de quatro anos (cujo pai havia sido brutalmente
como capacidade de amar uma imagem derivada do ego e do semelhante assassinado, em conseqüência do que foi obrigada a emigrar) que tinha uma
como um todo) . série ele rituais alimentares que, em caso de falhar por alguma circunstân­
De tal modo, o objeto p arcial - da pulsão - se constituirá por derivação cia, submetiam-na a episódios de ira angustiada com acusações em relação
e por complementariedade do objeto amoroso. Poderá ser-nos assinalado, a à mãe. Um destes cerimoniais consistia em que, durante o cafê da manhã,
esta altura, que aquilo que propomos não se afasta do que foi assinalado por sempre devia ter sobre a mesaas mesmas bolachas, que d eviam ser untadas
Lacan quando considera o auto-erotismo como u m desprendimento do com a mesma geléia e depositadas em um prato - ao mesmo tempo - no
narcisismo: da objetalidade n arcisista da mãe à imprompta da pulsão momento em que se sentava à mesa. Se por casualidade tinham sido
parcial, por derivação, no filho. No entanto, não nos parece que seja assim; previamente preparadas, ou não era o tipo de bolachas esperadas, ou a mãe
o ponto central de discrepância é a concepção da mãe como sujeito cindido. se oferecia para prepará-las na medida em que bebia. o leite, se submergia
Nesta medida, a sexualização ela criança não é produto do narcisismo em uma birra desesperada que não admitia mudanças de nenhum tipo.
materno , senão elo fato de que este narcisismo (que implica a constituição Esta menina, que nas p rimeiras entrevistas desenhava globos com
do ego na mãe e a partir disso sua possibilidade de amor obj eta!) está em caras ele boca ameaçadora, a partir ela terceira sessão começou a desenhar
contraposição com o inconsciente, no qual a boca que recebe no filho não a figura humana, quando pude elaborar com ela o sinis tro ele uma figura
remete apenas ã castração-completude, senão à imbricaçào fantasmática paterna que " estava no céu" - como um globo-, frágil e a ponto de estourar
pela qual a série prazer-clesprazer jogada na oralidade recebeu formas a qualquer momento, e que ela deveria sustentar com grande esforço,
lógicas de organização pré-consciente na série fálico- castrado. � que impedindo que se escapasse: figura que representava ao mesmo tempo o
garante o equilíbrio constitutivo do ho[ding (para usar a e.x1Jressao de horror das experiências vividas ou relatadas pela mãe.
Winnicott) é que a mãe estej a constantemente jogando com a intersecção de A partir da verbalização destes fantasmas começou a desenhar a figura
dois sistemas com conteúdos e formas de funcionamento diferentes. Se não humana e a estabelecer diálogos com sua mãe -que sempre esteve presente
ocorre deste modo, nos enfrentamos com os fracassos na constituição do no consultório, já que foi necessário trabalhar com técnica ele binômio mãe­
aparelho psíquico da criança, às psicoses. filha-, mediante os quais pretendia ordenar a caos no qual se havia sentido
submersa depois ela situação traumática vivida. Um dia, em uma sessão n a
qual tentava "inflar" a mãe depressiva, a quem sustentava como um globo
o ritual do banho: problema d o d u a l ismo me nte/corpo com suas palavras ele consolo, e se oferecendo como obj eto substitutivo do
marido perdido, diz: "Verdade, mamãe, que eu sou parecida com papai? Não
A partir da descrição d e Kanner, em 1 952, d o autismo precoce, a é verdade que tenho o mesmo pescoço que ele?". No pescoço, lugar por onde
ritualização que aparece nas crianças, prévia à laténcia,converte-se em u m o alimento devia passar depois de sua ingestão, havia-se estabelecido a
130 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 1 3 1
ponte que ligava seu corpo ao sinistro, ao mesmo tempo que se havia trabalhando em urna direção teórico-clínica da qual esperava resultados
constituído o símbolo de obstáculo para o que havia ficado em sua vida como positivos para o menino e realimentação de interrogantes par� mim r_nesrna,
não digerivel. aparecia em minha cabeça, corno um flash, a pergunta: E se e surdo
Neste caso, o caráter altamente simbólico do ritual alimentar mediante realmente, e se tem algo mal formado, corno o pai suspeita?" A responsabi­
o qual se controlava o que entrava proporcionando-lhe caracteristicas lidade com cada um destes pacientes produz urna mistura de entusiasmo
reasseguradoras, marcava, junto ao restringido da área de conduta que e angústia, similar àquela que uma mãe primípara experimenta frente à
abarcava, o caráter transitório e facilmente desmantelável de um sintoma criação de seu filho.
que se ligava na organização simbólica do Édipo. Bem, o que eu tentava com a interpretação? Para este tratamento eu
Na criança neurótica, como mostra este exemplo, o ritual possui a havia partido da idéia central de que em Martin as linhas que organizam o
caracteristica de estar associado a uma área restringida de conduta, ego, e por conseqüência oferecem urna tópica para a constituição do sujeito,
relacionada especialmente com momentos-chave da organização alimentar não se haviam instaurado. Nesta medida não podia haver nem ego nem
ou do sono; e possui um conteúdo altamente objetal: se o objeto deve receber outro, nem totalidade englobante nem externo organizado estranho e
um tratamento ritualizado pelo semelhante, não é o semelhante um pretexto ameaçador, nem organização espacial nem temporal, só um caos de
para o tratamento do objeto. Na criança autista, pelo contrário, o ritual momentos pontuais e espaços fusionais parciais. Martin me trazia um novo
abarca as áreas mais amplas da conduta, situando-se no nível do objeto problema: o da separação mente-corpo.
externo: umarnesrnaorganização espacial dos brinquedos, intercambialidade Dualismo que, corno Laplanche assinalou em "Problérnatique du ça",
do semelhante no exercício do ritual, aparecimento permanente e extensão não está no centro da psicanálise, senão que é da ordem dos problemas
dos movimentos repetidos ordenadores a todas as áreas da vida da criança. fll.osóficos. E isto é assim não porque Freud tenha deixado de lado o dualismo
Anteriormente assinalei como Martin era capaz de transformar toda (a tentativa de abolição das diferenças mente-corpo apartada por Groddeck
situação nova em um cerimonial ou, dizendo melhor, em urna situação não foi nunca aceita por ele) , senão porque esta problemática, que teve tido
atravessada por cerimoniais; no entanto, me interessa deter-me especial­ tanta insistência na filosofia, encontra-se deslocada - sem que por isso
mente na seqüência de ir ao banheiro que marcou nossos primeiros estej a resolvida- transposta a outra mais abordável em psicanálise, que se
encontros. situa na relação da sexualidade e da autoconservação.
Disse anteriormente que não se podia considerar esta conduta reitera­ "Dualismo da sexualidade e da autoconservação, inclusive se este
da como puramente rnecãnica, corno uma micção definida exclusivamente ·
dualismo é instável, ameaçado pelo fato de que a autoconservação no
no plano da autoconservação. No entanto, o que me preocupa agora é homem (sua capacidade autõnorna de perseverar no ser, o que se pode
entender o que representa metapsicologicamente e que aspecto do sujeito chamar seus potenciais instintuais) é de tal modo precária, que é a
estava comprometido neste ato. sexualidade, sem cessar, que vem supri-la". 10
Considerei a reiteração (seis ou sete vezes por sessão) do ritual de ir ao No entanto, se este dualismo alma/corpo aparece na filosofia constan­
banheiro corno um fato promissor. Algo ocorria no menino que o impulsio­ temente, é porque se mantém nas formas imaginárias com as quais o suj eito
nava a essa necessidade evacuativa. Interpretei: "Martin sente coisas que o organiza suas relações consigo mesmo e com o r:eal, separando um lugar
incomodam dentro, que não aguenta, e que vai deixá-las no vaso" (unia as desde onde ao mesmo tempo que pensa, sepensa. E desde minhacabeça que
minhas palavras ao recorrido que efetuávamos). "Estas coisas que lhe me imagino , creio, sofro; na cabeça o ego encontra uma representação
incomodam, no entanto, estão em sua cabecinha" (punha minha mão sobre espacial desde a qual, se o próprio corpo é sentido como esse universo de
sua cabeça). pertenceres, estes pertencem a um sujeito que se encontra instalado
O que eu tentava com a interpretação? Cada analista que se enfrenta representativamente na cabeça. Desde esta perspectiva, o sujeito, mais d o
com urna criança psicótica se aferra (com convicção delirante) a urna que estar colocado na fortaleza d e um feudo cujos confins se estendem a
proposta teórica que lhe permita ter forças para seguir pensando em meio limites imprecisos, assemelha-se a um burgo onde a muralha cerca o limite
ao caos. O ataque à razão, ao sentido comum, é tão poderoso que se do corpo, mas na qual,por sua vez, urna construção interior delimita as
estabelece, de urna maneira nunca experimentada no processo analitico, funções e os espaços de governo.
uma espécie de dissociação entre aquilo no qual se acredita cientificamente Em Martin, a energia libidinal, que se ativava corno movimento
e mediante o qual se opera e o sistema de crenças cotidianas. Em muitos inespecífico no momento da consulta, buscava vias de salda através dos
momentos das primeiras sessões com Martin, apesar da certeza de estar orificios uretrais e anais. Este modelo era similar ao da projeção; um
1 32 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 133

precursor, evidentemente, tal como Freud o registra na Metapsicologia entrevista propõe: o alheio é simbólico, mesmo quando Martin não possa
quando alude aos movimentos que o ego-prazer realiza para se desfazer do simbolizar plenamente o alheio.
que é perturbador. Este ego-prazer que Freud situa entre dois momentos No paciente neurótico, o ego, como instância organizadora e defensiva,
constituídos do aparelho psíquico: por um lado é posterior ao ego-realidade impede o descobrimento das conexões pelas quais se produzem as passa­
(ego da autoconservação, que só distingue o perceptwn da sobrevivência gens mente-corpo. Se um paciente neurótico tem um sintoma de incontinên­
biológica a partir de uma marca objetiva), e pelo outro, anterior ao cia, ou vai urinar antes ou depois da sessão, a separação está estabelecida
\ narcisismo, no qual a antítese será jogada no par amor-ódio. no pré-consciente, tanto como as vias de conexão por condensação e
deslocamento o estão no inconsciente. O analista só deve refazer as conexões
Dos três movimentos propostos para a constituição das relações entre
o ego e o objeto, salvo o primeiro, momento do ego-realidade que distingue recalcadas (e não sem um trabalho árduo), conseguindo que o sujeito
o dentro e o fora de acordo com uma marca objetiva, tanto o ego-prazer, como reconheça no movimento discursivo que realiza as diferentes formas nas
o ego do narcisismo, não deixam de ter o traço comum de que as relações quais esta equação evacuativa se produz. Mas para um neurótico o xixi é xixi
que separam o sujeito do mundo e ao mesmo tempo o vinculam a este, estão e os pensamentos são pensamentos, já que o processo secundârio deu um
defmidas pelas séries prazer-desprazer (em primeira instância), logo pelo lugar a cada coisa e um sentido a cada palavra. A análise alterará estas
amor e o ódio (em segunda instância). relações, m ostrando que se pode emitir umjorro de palavras, depositru- uma
Nestecaso é evidente queFreud deixade lado o problema dedefiniruma idéia no vaso, evacuar uma interpretação perturbadora. Tratar-se-á, justa­
tópica que espacialize estes movimentos no próprio interior do aparelho, mente, do "reconhecimento do inconsciente", em um sujeito convencido de
para subordinar a espacialidade às relações de um sujeito constituído que seu corpo e sua alma são diferentes.
enquanto ego a partir do prazer-desprazer em suas relações com o objeto: Em Martin, como já assinalei, tratava-se de estabelecer estas delimi­
"Para o ego do prazer o mundo externo está dividido em uma parte que é tações e relações ausentes. A partir da terceira sessão o menino tomou um
agradável, que ele incorporou a si mesmo, e em um remanescente que lhe boneco e começou a depositar pedacinhos de massa de modelar na cabeça
é estranho. Isolou uma parte do seu próprio eu, que projeta no mundo dele. Colava cada pedacinho com cuidado enquanto repetia "popó, popó,
externo e sente como hostil. Após esse novo arranjo, as duas polaridades popó", igual ao que fazia no momento de ir ao banheiro. Eu interpretava:
coincidem mais uma vez: "Martin quer que Silvia o ajude a limpar sua cabecinhp. de coisas que sente
como popó, coisas que o machucam dentro dele". Martin, em continuidade,
Ego-sujeito (coincide) com prazer retirava com cuidado os pedacinhos e, em alguns casos, metia-os na boca.
Mundo externo (coincide) com desprazer (com o que anteriormen­ Duas semanas depois (na décima sessão) caiu uma tormenta. Martin
te era indiferente). assustou-se com um trovão, pegou um avião, elevou-o e deslocou-o no
espaço: "Avião" , disse, estabelecendo desta maneira uma relação entre seu
"Quando, durante a fase do narcisismo primário, o objeto faz sua medo e sua dor, e as perdas sofridas em seus primeiros tempos.
aparição, o segundo oposto ao amar, a saber, o odiar, atinge seu desenvol­ Pude ligar, então, o ruído dos aviões à ida de sua avó, ao sofrimento que
vimento".11 isto lhe produzia e à sensação de solidão com que havia ficado desde então. 12
Primeiro movimento diferenciador, então, que não implica a constitui­ Começou a partir disso, no tratamento, uma seqüência caracterizada pelo
ção de um limite, mas simjá um esboço de espacialização, uma tentativa de tema encontro-separação. O espaço e o tempo começavam a se organizar.
discriminação precária. (Isto é o que faz Martin quando a mãe lhe pergunta Quando Martin chegava fechava a porta da sala de espera e a abria no
onde te bateste: assinala o objeto hostil que produziu a dor, objeto alheio ­ momento em que eu ia buscá-lo; logo ia fechando as portas por onde passava
tão alheio - como sua dor.) Do mesmo modo, ao não ter acedido ao até chegar ao consultório, passando trancas, chaveando.
narcisismo, ao não ter constituído o ego representação com o qual o sujeito _ Perguntava-me, então, por q1;1e fechava tudo no momento de chegar e
encontra uma organização definitiva do dentro e do fora, no caos de nao no momento de ir embora. E freqüente que as crianças neuróticas
fragmentos de sensações desprazerosas e de objetos que o rodeiam, Martin fechem tudo ao sair, como se quisessem garantir a permanência dos objetos
apela para a evacuação corporal daquilo que o perturba, e o traço que marca no interior do espaço analítico até que voltem. Martin operava de um modo
sua humanidade é o fato de que o perturbante não está no plano da exatamente oposto: descobri, através de outros exemplos, que a seqüência
autoconservação, senão de algo que se produz na nova situação que a estava invertida. Tal como ocorre no modelo do sonho - ou do ataque
1 34 I Silvia Bleíchmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 135

histérico, segundo Freud -, o menino queria encerrar-me em um espaço que t e incomode dá as costas; não deixa ele aproveitar". Martin voltou para a
evitasse perdas, mas em lugar de fazê-lo quando nos despedíamos, encer­ água, mas no momento em que o outro menino se descuidou atirou -lhe água
rava-me no momento de chegar. Seu aparelho psíquico parecia funcionar e riu com prazer. Na segunda sessão em que reproduziu a cena vivida
como uma câmera de cinema que passasse o filme invertido: o último acrescentou um novo elemento de significação: manifestou sua cólera
convertia-se na primeira seqüência, o tempo invertia-se, regredia em lugar repreendendo o inimigo imaginário. O fato de atirar água havia sido
de progredir. No entanto, um espaço e um tempo começavam a se ordenar, compreendido em sua própria significação agressiva, e Martin, no consul­
mesmo que fosse em sentido inverso. tório, mostrava-me sua raiva ao reproduzir a cena mudando o ato por aquele
Os movimentos de constituição de uma tópica abriram em sua vida a que realmente simbolizava.
possibilidade de uma regressão temporal. Um dia - relatou-me a mãe ­ O processo começou a se desenvolver em um ritmo veloz. Começou a
procurou uma almofada pequena do tempo em que era bebê, meteu-se em brincar de ser "pesero" em sua casa; subia em sua bicicleta, pedia que lhe
uma caixa grande que havia ficado na despensa, das latas de leite vazias, e atassem ao cano uma caixa com moedas, punha um gorrinho e convidava
mostrou para sua mãe que pegara dois brinquedos que simbolizavam uma a mãe para subir atrás enquanto ele dirigia. (O "pesero" é um táxi coletivo
mamadeira e um bico. Indicou com gestos-como fazia sempre- seu desejo que realiza sempre o mesmo recorrido. Tem uma característica: o continente
de que estes objetos fossem utilizados com o objetivo de cuidá-lo. Durante permanece sempre idêntico, enquanto os passageiros sobem e descem. Por
um longo momento desfrutou o jogo com sua mãe: alternativamente pedia outro lado, este tipo de veículo era utilizado pelos pais exclusivamente para
que lhe desse a mamadeira simbólica, em outro momento que lhe introdu­
trazê-lo à sessão.) Martin põe um gorrinho para dirigir, os chapéus conver­
zisse o bico na boca e o deixasse aí, depois que o tirasse; desfrutava o jogo
teram-se para ele em uma verdadeira paixão: coloca uma armação protetora
com uma cara sorridente e feliz. Depois saiu da caixa, levantou a blusa de
da cabeça, algo que ofereça um limite a esta?
sua mãe e tentou que ela o amamentasse.
Começou a usar seu corpo para antecipar o que ia fazer: mexia a cabeça
antes de movimentar um trenzinho; abria a boca quando lhe atiravam algo
A constituição do não
antes de tentar segurá-lo com as mãos. Procurava, ao mesmo tempo,
continentes onde poderia passar longo tempo: metia-se na cesta de brinque­
Quando Martin começou o tratamento, do mesmo modo que não u s ava
dos e desde seu interior brincava de ser um bebê com sua mãe.
o pronom e , não usava o "não"; confundia o "não" e o "sim", utilizando-os
Uma das características que sua criação havia tido, como já assinalei
indiscriminadamente. Podia dizer "não" quando queria algo, ou "sim" no
antes, foi a impossibilidade dos pais de oferecer-lhe um lugar na família.
momentoderechaçar algo.Nãopareciahavernisso umaformade negativismo,
Martin havia passado longo tempo olhando seu pai brincar com seu irmão;
senão uma dificuldade para compreender a relação entre a palavra e seu
nesta etapa que agora se inaugurava punha o pai sentado em sua cadeirinha
conteúdo, ou, como diriamos ele acordo com a lingüística atual, entre
e ele brincava com seu irmão, o pai devia olhar a brincadeira mas o menino
significante e significado. Do mesmo modo, quando ficava brabo com um dos
não lhe permitia intervir. Começava a se constituir a primeira passagem de
passivo a ativo na relação intersubjetiva; de ver, Martin passava a ser visto, pais podia repetir indiscriminadamente, enquanto chorava, mamãe, ma­
em um exercício de sadismo precoce onde o semelhante era submetido à mãe, papai, papai, ou apelar à condensação "mapá".
mesma passivização que ele havia sofrido. Assinalei no Capítulo 3 o lugar estruturante que o recalcamento joga
Um dia o menino chega à sessão, fica no parapeito da janela e brinca na constituição do juizo, e como a (de)negação (Vemeinung}, tal como Freud
ele se atirar como se mergulhasse, repreendendo depois alguém imaginaria­ a trabalha em seu texto de 1925, é um mecanismo constitutivo do juizo, mas
mente colocado a seu lado; o jogo se reproduz várias vezes. Alguns dias ligado por sua vez à instauração do ego. A (de)negação determinada, q u e
depois fico sabendo que se trata de uma cena realmente vivida, transladada marca uma posição d e sujeito e m oposição a o semelhante, é o fator
em forma idêntica ao interior do espaço analítico. Martin tinha ido à praia determinante na instauração ela oposição eu-não eu. Spitz, que possivel­
com sua mãe e na piscina havia encontrado um menino que lhe atirou água mente é o psicanalista que mais se dedicou a estudar esta questão da
nos olhos; ofendido, saiu e deu as costas a seu inimigo, na beira ela água. constituição do "não" assinala, em seu livro Não e sim, 13 a relação que existe
A mãe, já percebendo o mecanismo de desconhecimento e desconexão que entre a aquisição elo "não" e a constituição das estruturas cognitivas, a
todo sofrimento lhe produz, disse: "Martin, deste modo o único que se sente frustração libidinal em relação com o semelhante e a passagem da passivi­
mal és tu, volta para a água e não dá importância a esse menino, quando ele dade à atividade.
136 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 137

Detenhamo-nos um momento em sua análise. Spitz faz um descobri­ conduta cefalogira senão como um movimento de descarga de tensão no
mento fundamental em relação ãs condutas de movimento cefalogiro que se vazio, movimento que retrotrai o sujeito à ordem da biologia, quando, na
encontram nas crianças despossuídas por hospitalismo. Recordemos a realidade, o bebê tenta desesperadamente conservar o objeto parcial das
experiência: as crianças hospitalizadas, separadas de suas mães por um origens da alucinação primitiva mesmo à custa de sua própria vida, da qual
período que ia de seis meses a um ano, rodavam a cabeça em tomo do eixo não tem, por outra parte, nenhuma consciência existencial.
sagital da colunavertebral quando alguém se aproximava. Esta conduta, diz No momento em que Martin chega à consulta, como os bebês descritos
Spitz, que se parece muito à pauta universalmente familiar dos adultos de por Spitz, expressa seu desconhecimento do outro com um giro de cabeça.
sacudir a cabeça, que significa "não", continuava enquanto o estranho os Isto é comum nas crianças nas quais há uma predominância autista: o
enfrentava . Diferente das crianças sadias, que não rodam a cabeça mas que episódio da piscina apresenta resíduos desta conduta. Deverá estabelecer­
se cobrem os olhos, bcilxam a cabeça ou a distanciam, escondem o rosto se uma relação libidinal com permanência do objeto total para que a negaçao _
atrás de sua roupa ou dos lençóis, estas crianças que padecem de se instaure.
hospitalismo expressam seu rechaço de contato rodando sua cabeça como Aos três meses de análise, quando estamos pela 44ª sessão, produz-se
um adulto farta para expressar uma negação. a primeira raiva de Martin, e a primeira situação de transferência negativa
No entanto, com uma aguda observação, Spitz marca a diferença entre - mas, de todo modo, transferência ativa -. Eu proibi o menino de meter
a negação semântica, que representa um rechaço, e a conduta defocinhar, os dedos nas tomadas, nas quais também tentou introduzir uma vara de
a dos porcos ou de outros animais que buscam sua comida na terra com o metal, enquanto me olha com um sorriso ausente. Em continuação, dirigiu­
focinho, movimento instintivo de busca do estimulo que tem valor de se, reiteradamente, à máquina de escrever que está em um canto do
sobrevivência, relacionando esta última aos movimentos cefalogiros nega­ consultório e bateu nela. Repeti várias vezes "não, Martin", até que nesta
tivos dos bebês hospitalizados. Aconduta defocinharimplica um movimento ocasião me aproximo, tomo-o do braço suavemente, mas com firmeza, e o
de rotação da cabeça guiado pelo instinto de autoconservação, conduta que afasto da máquina.
é inata e não aprendida. A rotação de cabeça, então, no bebê recém-nascido , Martin fica brabo pela primeira vez: parado no meio do consultório grita
tem por função a aproximação a um estímulo alimentar definido no plano e ameaça a almofada; por meio de um arremedo de discurso rabujento e
da autoconservação. Pelo contrário, a negação é um ato semântico, com prepotente faz todos os gestos e emite todos os sons que já viu alguém furioso
caráter de identificação libidinal, definido por um traço de cultura presente realizar. Assinalo-lhe que a raiva é comigo, que está irritado porque não o
em um código (lingüístico-gestual) e, por outro lado, relacionado com as deixo fazer tudo que quer. A partir disso deixa de me cumprimentar quando
frustrações às quais a criança se vê submetida em relação ao semelhante vai embora Uá havia começado a me dizer "tchau" no momento da partida) ,
no momento em que se instaura a proibição. resiste a entrar em minha casa quando chega, não quer que seu pai toque
Spitz descobre algo importante nestas crianças hospitalizadas. O que a campainha ou fica recostado em uma poltrona da sala de espera negando­
é vivido pelo observador como uma conduta de rechaço, de negação, não tem se a buscar sua cesta.
tal caráter, não está dirigido a um objeto (não é objetai, no sentido que já Ao mesmo tempo se produz um fato surpreendente. Até o momento em
demos a este termo) , representa uma regressão . Mas neste ponto é onde sua que surgiu sua raiva chamava tanto os cachorros como os gatos de "gato".
concepção das relações objetais faz com que Spitz caia em uma armadilha, A partir do episódio descrito começa a dizer, quando ouve ou vê um cachorro,
impedindo-o de chegar até às últimas conseqüências de seu descobrimento. "não gato". Isto faz especialmente ao chegar à minha casa, onde meu
Ele propõe: "É importante recordar que esta conduta não está dirigida a um cachorro cotidianamente o recebe e o acompanha até a sala de espera.
objeto, senão que representa uma regressão a uma etapa sem objetos. Não Produziu-se, a partir disso, um acontecimento decisivo para sua constitui­
é um sinal a um objeto, senão uma conduta dirigida para aliviara tensão que ção: quando lhe digo "não, Martin", proibindo-o que se aproxime à tomada
tem sua origem em um período muito anterior àquele no qual existem ou à máquina de escrever, assinalo-lhe ao mesmo tempo que uma proibição
verdadeiras relações objetais". 14 Prisioneiro de uma concepção onde o é um limite que marca o que ele não é. O não, Martinimplica tanto a proibição
anobjetal do auto-erotismo culminará em relações de objetos libidinais, como a discriminação entre ele e o outro, é tanto não, Martin, como não­
Spitz não pode incluir uma hipótese teórica que permita entender por que Martin. No mesmo momento começa a dizer eu. Não é na realidade eu como
o hospitalismo não faz o sujeito regredir até o plano da autoconservação Uá pronome pessoal, acompanhado de um verbo ou como se responde a uma
que põe em risco sua vida) . senão até uma etapa na qual o objeto libidinal, interpelação de sujeito ("quem é o bebê querido de mamãe?"; "eu", responde
suporte sex'Ual do objeto parcial, se perdeu. Por isso não pode entender a a criança exercendo sua função de sujeito atravessada por sua posição d e
138 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 1 3 9

objeto libidinal) . Martin utilizava o eu como um significante , correspondendo conservar-me, deslocadas para este obj eto frágil e mrelação ao qual pede que
mais ao ego ideal que à própria instância egóica. Viu um programa de eu o ajude a cuidar. Ao mesmo tempo , uma caixinha pequena, com sacarina,
televisão onde um personagem megalomaníaco repete enquanto realiza uma que esparramou em várias ocasiões em que sua mãe lhe dissera para não
proeza: "Yoooo!", fazendo um gesto abarcativo com os braços como se tocar, toma-a em suas mãos e se aproxima de onde eu estou, deslizando-a
contivesse neles todo o universo. Quando se sente incomodado por mim na atê o fundo de meu bolso. É como se nesse ato representasse graficamente
sessão (seja porque não me presto a ser utilizada como um banquinho no o movimento psíquico mediante o qual se opera o recalcamento: aquilo
qual ele sobe para alcançar o botão da luz, sej a porque chega a hora de ir desejado, mas proibido, deve encontrar um lugar oculto que evite a tentação
embora) . demonstra- me sua força onipotente abrindo seus braços para os e o sofrimento constante. O fundo de meu bolso será, simbolicamente, o
lados como o personagem da televisão, atirando o peito para frente enquanto fundo de um aparelho que se converterá em receptáculo daqueles desej o s
diz "yoooo!", como uma demonstração máxima de sua negativa a aceitar aos quais o sujeito não poderá nunca aceder nem ter frente à sua visão .
passivamente que eu mesma possa defender meu direito como sujeito ativo. Neste marco que agora descrevo , Martin pronuncia sua primeira frase.
Para Martin, todavia, não há mais que uma dupla ativo-passivo jogada na A mãe conta-me emocionada: "Ele e seu irmão haviam saldo da aula d e
intersubjetividade do vinculo, no qual, se ele não me controla ativamente eu natação e e u disse ao maior 'Eu te vi boiar, como nadas bem'. Martin olhou­
posso submetê-lo passivizando-o nos esboços de sujeito que começa a me e disse: 'Viste-me, mamãe?"', primeira frase que alude ao reconhecimen­
constituir. to buscado do semelhante, ao mesmo tempo em que assinala seu próprio
Na mesma direção começam a aparecer os primeiros sintomas em reconhecimento em relação ao amor matemo.
sentido analítico: nega-se a comer sólidos, especialmente carne, e quando A partir disto Martin começa a converter-se, definitivamente, em um
se vê obrigado a fazê-lo, mastiga e logo cospe às escondidas o alimento suj eito humano, marcado pelo amor e pelo ódio, reconhecido no olhar
rechaçado; urina-se quando embrabece (inclusive, em algumas ocasiões, matemo e no movimento gestáltico que o separa do mundo infmitamente
em sessão, parado no meio do consultório, desafiante, e logo cospe pontual d e obj etos em que se havia movimentado. As condições da função
reiteradamente na direção em que me encontro) ; desperta-se de noite e vai simbólica e, portanto, da linguagem, já se instalaram.
deitar ao lado da mãe. Tudo isto acompanhado de momentos que não podem
ser descritos mais do que como momentos de intensa ternura: ele, que se
sentara em minha cadeira de balanço para se embalar impedindo que eu Notas d e referência
pusesse minhas mãos nas travessas para embalá-lo, auto-suficiente e
mecãnico, começa a se sentar ao meu lado, aproveitando o balançar-se junto l. "Papá" é a forma familiar com que as crianças mexicanas denominam as fezes .
comigo e aceitando que eu, sentada no chão, o embale enquanto se enrosca 2. "Para voltar à fórmula de que Freud tanto gostou n a boca d e Charcot, 'isto não impede
em posição fetal no assento. Eu construo mitos , mitos da vida, humanizantes; existir' o outro em seu lugar O. Pois tira-o daí, e o homem não pode já nem sequer
se sustentar na posição de Narciso. O anima, como por efeito de um elástico, volta
por momentos lhe falo longamente a respeito do que lhe ocorre, ou canto para
a colar-se ao animus e o animus ao animaL .. " J. Lacan, Escritos, México: Siglo XXI,
ele suavemente aquilo que me parece interpretável; escuta olhando-me com
vol. 2, 1 9 75, pág. 236.
gravidade, realizando às vezes um movimento como que incorporativo com 3. A totalidade englobante que simboliza tanto a mente como as paries do corpo é
os lábios, como se as palavras penetrassem pela boca, não pelos ouvidos. representada muito claramente por algumas culturas indígenas, nas quais deve ser
Nas sessões compartilhadas com a mãe (duas de cada quatro na semana) constantemente preservada a manutenção dos pedaços do indivíduo(indiviso). Entre
os tzotziles, povo que habita no estado de Chiapas, México, uma série de rituais
restituo, neste espaço transicional em que se constituiu o consultório, os
preservam o sujeito do possível desprendimento de suas partes. Por exemplo: a mãe
pedaços fragmentados da história. Em um movimento simbolizante, com­
corta as unhas dos pés e das mãos de seu filho com os dentes e engole o que roeu
partilhando com a mãe o prazer do descobrimento do filho, tecemos depois de reduzi-las a fragmentos quase invisíveis, até que a criança engatinha ou
perlaborativamente os rasgões produzidos no processo que a reinstaura começa a caminhar. A partir desse momento, o que foi roído das unhas é guardado
como mãe deste menino. em um pedacinho de fazenda limpa, como proteção contra a fuga da alma. Este
Martin começa a ter movimentos que me parecem imagens precursoras costume de conservá-las continua durante toda a vida de uma pessoa. O mesmo se
faz em relação ao cabelo que se desprende ao pentear- se, ou que se corta. Estas
do conflito . Quando por alguma razão (e sempre há alguma, como as já
precauções são tomadas em favor da alma que, de outro modo, se fatigaria depois
relatadas) fica comraiva, toma com cuidado um candelabro de cerãmica que da morte buscando essas paries do corpo até ficar exausta; é o todo o que deve ir p ara
está no parapeito da janela e entrega a mim para que eu o coloque sobre a o Mais Além. C f. C. Guiteras Holmes, Los pelígros del alma, México: Fondode Cultura
mesa. Aparecem, transpostas, sua vontade de bater-me e o desej o de Econômica, 1965.
140 I Silvia Bleichmar
4. Canção tradicional que se canta nos aniversários mexicanos, equivalente ao
"Parabéns a vocé" cantado na Argentina. [N.T. Também cantado no Brasil.]
5. J. Laplanche, A angústia, Problemáticas I, São Paulo: Martins Fontes, 1987, pág.
162.
6. Ibid., pág. 1 63.
7. G. Rosolato, "El análisis de las resistencias", em Trabajo del Psicoanálisis, México,
número 2, 1982.
8. J. Laplanche eJ. - B. Pontalis, Vocabulário da Psicanálise, Morais editores, Lisboa,
1976, parte "Objeto".
9. Deparei-me freqüentemente com casos de inibições para a aprendizagem em
crianças, nas quais, ao indagar acerca de outros sintomas, encontro inibições
severas para a alimentação. O processo de aprendizagem, que implica incorporar
algo estranho - alheio ao ego -, triturá-lo para decompõ-lo em elementos
assimiláveis e logo metabolizá-lo retendo o valioso e expulsando o desprezável, Relações entre o recalcamento
implica elaborações fantasmáticas que se apoiam em um processo de discriminação
tanto interno como eJderno, suficientemente complexo como para que seu fracasso
seja mals freqüente do que pensamos.
originário e o princípio de realidade
10. J. Laplanche, El inconciente y el ello, Problematicas N, Buenos Aires: Amorrortu
editores, 1987. (0 inconsciente e o id, São Paulo: Marttns Fontes, em produção).
1 1 . S. Freud, Metapsicologia, em OC, vol. XIV, 1974, págs. 1 57- 1 58.
12. É necessário que eu asstnale que o ruído deste avião não era somente algo ouvido na
partida da avó, senão reiteradamente sofrido pelo menino em idas freqüentes ào
aeroporto. Para as crianças migrantes, o aeroporto é o espaço de significação de todos
Nos últimos tempos minha curiosidade foi despertada por um fenômeno
os encontros e de todas as perdas, um lugar que se freqüenta constantemente e que observado na infância. Consiste em que os primeiros sonhos da criança são
faz parte de seu cotidiano. vividos por esta sem que ela possa diferenciar entre o campo da realidade e
13. R. A. Spitz, Não e sim, São Paulo: Martins Fontes, 1980. o novo fato psíquico ao qual se enfrenta. Isto tomou-se evidente no caso de
14. Ibid. uma menina que, ao chegar no quarto de seus pais ãnoite, meteu-se na cama
e ante ã pergunta "o que ocorre?" respondeu, meio dormindo "mas se tu me
chamaste e disseste que mamãe fôsse para minha carnal"; ou no caso de
outra menina que, por estar sua mãe grávida, todas as noites tinha que sair
da cama onde dormia porque "vinha uma galinha e bicava seus pés".
A partir de muitos exemplos corno estes me perguntei como se pode
explicar este fenômeno que indica, por um lado, que o recalcamento já se
estabeleceu, na medida em que uma formação do inconsciente aparece
constituindo um processo aonde se expressa a realização onirica do desejo
e, por outro lado, o fato de que ainda não se tenha instaurado o princípio de
realidade que estabeleça que este desejo só érealizável no espaço alucinatório
que o sonhar constitui.
Sendo o recalcamento originário o movimento constitutivo de dois
campos a partir dos quais se tomaram possíveis as formações do inconsci­
ente, e sendo a função do sonho a realização alucinatória de desejos,
precisamente possível pela inibição da motricidade, de que maneira o
aparelho psíquico incipiente opera para que ambos, realização alucinatória
e passagem à motricidade, não sejam contrapostos, senão complementares

141
142 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 143

entre dois campos, ambos alheios ao sujeito, e que este deve aprender a
e, ao mesmo tempo , como explicar a disparidade existente entre a emergên­
discernir, um interno-externo e o outro eÀierno-exterior.
ciade uma formação do inconsciente e o caráter falido do juízo de existência?
Desta maneira, não é suficiente a distinção na qual viemos trabalhan­
Os capítulos precedentes dão conta de que optamos, no processo de
do, quando, em função de marcar os limites internos ao aparelho, que são
nossa investigação, por aquelas hipóteses freudianas que - desde os textos
instaurados pelo recalcamento originário, abordamos as diferenciações dos
metapsicológicos - abrem a possibilidade de pensar a constituição da
primeiros internos- externos que marcam a inscrição dos representantes
inteligência no interior da instauração da tópica psíquica, quer dizer, em pulsionais das origens (cf. o Cap. 4) . Diversos fatos clinicas nos enfrentam
função da diferenciação entre dois sistemas que se caracterízam por diversos com o problema de que a existência das formações do inconsciente não
modos de funcionamento. implica, nas origens, a anulação da passagem à rnotricidade, senão que são
Desde esta perspectiva é que nos vimos obrigados a revisar os freqüentemente acompanhadas por esta passagem. Isso parece reafirmar
momentos que instalam o recalcamento originário, passando de sua nossa hipótese a respeito de que o recalcamento não inaugura o acesso ao
localização como movimentos míticos para a sua verificação no processo funcionamento psíquico normal em um só movimento, senão que parecem
histórico de organização do aparelho psíquico e deixando de lado, ao mesmo ser necessários vários tempos para sua constituição.
tempo, um geneticismo lineal no qual este tivesse se constituído desde si Tentarei seguir desenvolvendo neste capítulo estes movimentos - que
mesmo. já comecei a cercar em outros textos - a partir da análise do material clinico
Esta definíção de opções teóricas nos leva a considerar também, no de um rnenirlo de doze anos cujo processo analítico tive a oportunidade d e
caso do tema que abordamos neste capítulo, que a vertente que o próprio conduzir. Quando Isaac tinha seis anos sua mãe deixou-o s ó durante alguns
Freud denominou "psicologia genética em formulação" não é amais frutífera momentos, acompanhando seu irmão menor que, nesta época, tinha um
quando se trata de pora trabalhar o princípio de realidad: e sua concomitante ano e três meses. O pequeno começou a chorar e Isaac, intuindo que poderia
prova de realidade. O princípio de realidade, considerado desde un_m ter fome, decidiu encarregar-se da tarefa materna e dar-lhe o alimento

perspectiva geneticista, é inseparável das pulsõ:s de au oconse;va5�o requerido. No entanto surgiu-lhe um problema: corno oferecer-lhe comida
(entendendo que o princípio do prazer rege as pulsoes sexuars e o pnncipiO sem transgredir a proibição que lhe havia sido feita, isto é, sem acender o fogo
de realidade, as pulsões do ego) tal como é definido por ele mesmo no texto necessário para aquecê-la? A resolução foi fácil. Põs leite em uma caçarola,
citado. Não insistiremos nisso, porque já no Capítulo 3 desenvolvemos nossa colocou-a sobre a chama do fogão apagada, deixou-a durante alguns
posição sobre este tema. Mas temos que s�blinhar, para a coe:ência de mirlutos sobre o fogo imaginário, derramou depois o leite na mamadeira e
!1'
nossa proposta, e baseados em A ínterpretaçan dos sonhos : o oJeto, que o deu-a a seu irmão, que bebeu com prazer; quando sua mãe voltou relatou­
que decide sobre a realidade daquilo que se representa nao e uma prova, lhe o ocorrido . Em nenhum momento Isaac sentiu que houvesse enganado
senão um modo de funcionamento do aparelho psíquico: o que corresponde seu irmão, ele havia participado do campo de ilusão que incluía ambos.
à possibilidade do processo secundário (ou dos proce�so s de lig�ção)
de Esta situação me foi contada na entrevista mãe-filho que realizei para
a consbtm _ de sistemas
_ çao
inibir a tendência à descarga imediata mediante tomar a história de Isaac quando este tinha doze anos, depois de sérias
de demora que possibilitam os movimentos pertinentes para que o aparelho dificuldades para que ele aceitasse a consulta psicanalítica. O motivo dessa
passe da identidade de percepção à identidade de per:_samento. consulta era o aparecimento de urna série de condutas absolutamente
A questão proposta no Projeto de 1 895, em relaçao ao fato de que em desconcertantes para aqueles que o rodeavam, a partirdamigração efetuada

sua origem o aparelho psíquico não dispõe de um cri ério p�a di ��guir um ano antes, momento em que havia chegado transitoriamente ao México,
entre uma representação fortemente investida do obJeto satisfatono e a acompanhado de sua família. Estava apático, hipocondríaco, não havia feito
percepção deste, é retomada no "Suplemento metapsicológico à teoria dos nenhum amigo ("ele, que sempre havia sido aparentemente tão sociável") .
sonhos", quando Freud observa que a prova de realidade se define co:no �m isolado no colégio e sem interesse pelo estudo, e estava quase perdendo o
dispositivo que permite efetuar uma discriminação entre as exc :taç� es ano. A isso se s omavam as dificuldades da língua pois, mesmo que falasse
externas (que podem ser controladas pela ação motríz) e as excitaçoes o espanhol desde sua primeira irlfãncia (língua materna de seus pais) . não
internas que não podem ser suprimidas por esta prova de realidade. Se se expressava nesta língua com a fluidez com que o fazia em hebraico, língua
voltássemos à diferenciação estabelecida em "Pulsões e destinos das em que havia realizado toda sua socialização.
pulsões", diríamos que, em última instãncia, seguir nesta lin�a de p �ns�­ O quadro que se apresentava não era muito diferente do que eu havia
visto em outros meninos transladados bruscamente d e seus países d e
mento leva a assinalar que o princípio de realidade deriva da diferencmçao
144 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 145

origem, mas as caracteristicas estavam extremamente agudizaclas, e mais o menino sentia como angustiante, em um interior que não aparecia ainda
. claramente delimitado. Em segundo lugar, o horror aos tetos altos, tetos
ainda, se se levasse em conta que - diferente daqueles outros memnos ­
sua residência no México implicava o encontro com uma extensa família de coloniais que poderiam propiciar, em sua nudez branca, o sentimento de
avôs, tios e primos, da qual seus pais se haviam separado no momento de pequenez humana que toda uma época impõe desde a própria arquitetura.
emigrar para Israel. Perguntava-me, ao mesmo tempo, a respeito ele mim mesma. Por que
Aceitei fazer um diagnóstico situacional, isto é, um estudo das havia dito à mãe que isto deveria ser tratado como um traumatismo, sendo
condições nas quais a estrutura psíquica do menino, imersa em um muitas as metáforas pediátricas que já me vi obrigada a utilizar em
desencadeamento sintoma!, pudesse ser explorada no contexto das condi­ conversação com os pais para explicar uma situação particular em uma
ções históricas determinantes. Em um corte sincrõnico do funcionamento criança? Uma fratura em um membro, a idéia de uma ortopedia terapêutica
psíquico atual queria encontrar os determinantes históricos que produziam (tão questionada desde minhas próprias convicções psicanalíticas) movi­
os constituintes sintomáticos que meu paciente enfrentava. mentando meu pensamento pelo campo onde começava a se instalar a
Isaac entrou só na primeira entrevista; sua angústia era tão intensa que situação analítica.
quinze minutos depois de iniciar levantou-se da cadeira e depois de deter­ Depois de uma semana recebi uma ligação pedindo uma nova entrevis­
se uns instantes no centro do consultório tratou de conseguir meu consen­ ta. Havia preparado algum material gráfico: um caderno de desenho, lápis
timento para ir-se, praticamente fugindo, sem dar-me a possibilidade de u:n pretos e de cores, massa de modelar. lsaac entrou e permaneceu uns
assinalamento ou interpretação que pudesse aliviar o estado de desesperaçao minutos em silêncio, temeroso; fiz- lhe um assinalamento alusivo à minha
que se encontrava. Durante o breve lapso que permaneceu comigo fez compreensão a respeito do quanto podia resultar-lhe difícil a situação de
algumas tentativas de reconhecer o ambiente olhando de soslaio, apenas entrevista, logo lhe disse que havia ficado pensando sobre o que me havia
movimentando a cabeça para ambos os lados e manifestando que nada do falado: os tetos altos e o horror ao antigo ; acrescentei que talvez esses tetos
que via lhe agradava; tudo era antigo, os tetos altos lhe eram insuportáveis fiZessem-no sentir-se muito pequeno, e que possivelmente esse não fosse
e negava-se a buscar alguma explicação do porquê. Resp ondia simplesmen­ um sentimento novo, que talvez o que ocorria hoj e estivesse relacionado com
te, "eu não gosto". coisas muito antigas de sua vida.
No dia seguinte recebi a chamada telefônica da mãe, desconcertada, A partir disto Isaac abriu o caderno e perguntou se podia desenhar. O
contando-me que o menino havia saído da frustrada entrevista sem dizer desenho tinha em um primeiro plano um enorme rnonstro cuja cabeça,
uma palavra e negando-se a falar, posteriormente, da situação. Queria que constituída de pontas salientes, lançava raios em direção a uma cidade
eu lhe dissesse como conduzir-se, dadas as circunstãncias, e duvidava se distante , situada em segundo plano, que representava - presumivelmente
devia insistir com seu filho sobre a possibilidade de realizar outra consulta. -Nova York com sua Estátua da Liberdade. O corpo do monstro estava meio
Respondi que apesar da brevidade do encontro interrompido bruscamente submerso na água, o tronco e os braços riscados por nervos ou feridas
por Isaac, me havia dado conta de que seu filho passava por um sofrimento
vermelhas. Os raios partiam da cabeça - unida ao tronco sem linha d e
muito intenso, que o montante de angústia desenvolvido nos indicava que
separação -, e dirigiam-se tanto aos edifícios d a cidade como a uma nave
a situação deveria ser considerada com toda seriedade, e que mesmo que
que, segundo disse, "tentava atacá-lo". Havia um pássaro antediluviano
fosse apressado de minha parte dar-lhe uma opinião sem outros dados que
sobrevoando a cidade e, em cima, no céu pontuado de estrelas, um planeta
aqueles que eu obtivera, pensava que era necessãrio oferecer uma ajuda
cujo relevo interior demonstrava os acidentes geográficos (desenho 1).
terapêutica imediata. Acrescentei que eu estava disposta a dar esta aju a � Disse que o monstro tinha sido muito machucado (mostrou-me os
mas que eles, os pais, deveriam conseguir que ele voltasse a meu cons;-üto­
nervos ou feridas) e que se sentia desesperado e por isso atacava a cidade.
rio. Disse: "Se Isaac tivesse fraturado um braço e não quisesse ir ao medico
Como vinha de outro lugar, os habitantes se defendiam dele, em função do
vocês se encarregariam de levá- lo. Bem, esta é a questão: ele necessita que
que estava disposto a destruir tudo. Assinalei-lhe o pássaro do passado e o
vocês possam ajudá- lo a enfrentar um tratamento" .
monstro , estabelecendo a relação que havia entre o desenho e seu sentimen­
Fiquei esperando uma resposta enquanto circulavam em minha
to de estranhamente, de estar ferido . . . como os tempos se misturavam .
cabeça as poucas idéias que essa situação me havia permitido pensar. Em
'Talvez - disse - isto que estás vivendo agora é como se algo muito antigo
primeiro lugar, o rechaço ao antigo, representado por alguns objetos do
houvesse despertado dentro de ti e o sentes estranho, como se fosse
consultório - espaço que se caracteriza, no entanto, pela diversidade de
monstruoso".
cores e objetos que aí estão - e nos quais parecia depositado algo velho que
146 I Sílvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 147

Ficou em silêncio uns minutos enquanto me olhava um pouco rubori­ bando a outra, justificando no inteijogo que se produzia entre ambas que o
zado, depois sorriu e disse: "Vou fazer outro desenho". Desenhou, desta vez, que aparecia como articulado em um lugar e desarticulado em outro, como
um enorme vampiro com sua capa (pôs-lhe o nome de Drácula), no interior um espelho refratário, estava presente não apenas a partir do tratamento,
do corpo do vampiro desenhou uma cabeça de um homem com óculos, senão que havia estado sempre (hipótese que podia ser corroborada
denominou-a Beguin (desenho 2) e contou a seguinte história: "Beguin vai possivelmente pelo fato de que ambas, inclusive a segunda, aquela que
de férias para a Transilvânia porque descobriu um castelo nas montanhas. poderia ter estado historicamente não sepultada nas origens, estava borde­
Ele estava ansioso para ir ao castelo, mas não podia, não sabia o que ocorria, jada por um limite englobante que marcava uma ordem no interior de outra
e viu . . . entrou no castelo e ouviu vozes e de repente viu um ataúde e vários ordem) .
sarcófagos com mortos. Abriu o ataúde e havia um homem e abriu os olhos Talvez se poderia alegar que é disto que se trata em psicanálise, tirar
rapidamente e por tê-lo despertado de seu sono, que dormiu dois mil anos, à luz o que sempre esteve vigente, dando-lhe um novo ordenamento,
mordeu-o no pescoço e Beguin converteu-se em um dos dele. E para produzindo uma ressignificação, uma ressimbolização. No entanto, os
conquistar o mundo Drácula usou Beguin para que ele dirij a; como era o elementos antes expostos: limite englobante, caráter idêntico de ambas as
Presidente podia fazer o que queria, e assim começou a converter todos em cenas (os elementos articulados em uma, desarticulados na outra) me
vampiros". impunham pensar em outra possibilidade. A saber: que ao mesmo tempo em
Sublinho nesta história a frase "e abriu os olhos rapidamente" porque que tinha que me enfrentar com o develamento do inconsciente, como pode
nelasecondensa, sob o modo do processo primário , a confusão entre o objeto ocorrer em toda análise, algo ocorria na própria estrutura do ego que se
e o sujeito. Como nos sonhos, ou nos contos maravilhosos, o primeiro movimentava no processo analítico e que estava vinculado a aspectos falidos
personagem, que não pode ver, é visto, logo, pelo outro; voltamos a encontrar na constituição da tópica psíquica.
o mecanismo de volta contra a própria pessoa tal como o descrevemos no O que me chamava especialmente a atenção era a identidade de
Capítulo 4, mantendo-se não apenas nas formações do inconsciente elementos de ambas as cenas, mesmo quando sua composição fosse
classicamente conhecidas, senão também nas formas do relato. diferente, e creio que operava nisto a escolha de uma ordem teórica na
A partir desta história, que aquém das precoces opiniões políticas de apreciação dos conteúdos do inconsciente. Assinalei em outros momentos
lsaac, evidenciava seu reconhecimento de uma profunda e insuportável que, desde a perspectiva com a qual abordo a constituição do aparelho
transformação em si mesmo, um retomo do passado sobre o presente, a psíquico, partindo do fato de que o recalcamento ao mesmo tempo que
presença do sinistro e a compulsão à repetição, meu paciente e eu selamos instaura dois sistemas, dois modos de funcionamento e conteúdos diversos,
nosso próprio pacto terapêutico. o recalcado não pode ser da mesma ordem que o manifesto, senão
·

O tratamento deslizava incessantemente sobre o problema das rela­ radicalmente diferente. Para isto parto do realismo do mconsciente, recupe"
ções entre o passado e o presente. Em uma sessão o menino manifestou seu rado por Laplanche, para recolocar, em meio a uma discussão enfrentada
desejo de ser arqueólogo. Desenhou uma caverna subterrânea; nela havia com propostas fenomenológicas, o caráter específico que sustenta o incons­
tesouros escondidos, colunas caídas, um esqueleto humano, vasilhas e ciente.
vivendas misturadas (desenho 3) . Logo depois que lhe assinalei a semelhan­ Se tomássemos, por exemplo, o seminário "A carta roubada" de Lacan
ça entre o que estávamos fazendo e a busca e reconstrução arqueológica do poderíamos formular-nos as duas cenas como duas versões diferentes de
passado, um novo desenho reacomodou todos os elementos tal como se um mesmo drama, onde a insistência significante dos mesmos elementos
encontravam nas origens. O próprio esqueleto transformou-se em um ser põe em evidência a compulsão à repetição que defme a persistência do
humano parado entre duas colunas. Cada um dos elementos dispersos do inconsciente, considerando assim cada um dos elementos deslocando-se
desenho anterior encontrou um lugar ordenadamente (desenho 4). Nestas entre ambas as cenas e sendo sua significância determinada pelo lugar que
circunstâncias perguntava-me como situar este movimento: tratava-se da vêem ocupar como significantes puros. Nesse sentido, o inconsciente não
desarticulação, em sua vida, de algo previamente armado? Devia entender seria senão aquilo que sempre esteve à vista mas, em função da cegueira
esses desenhos como Freud propunha fazê-lo com a recordação histérica: intersubj etiva com a qual lsaac enfrentou-se,jamais encontrou a localização
começar pela primeira cena como se fosse a segunda, logo a segunda no que possibilitara a formulação otimista de Lacan quando, ao terminar a
relato como a primeira no tempo? Ou talvez, neste caso, mesmo que se primeira parte de tal texto, escrevera: "Assim, o que quer .dizer 'A carta
tratasse de um reaparecimento do passado no presente, não se podia afirmar roubada', inclusive 'em sofrimento', é que uma carta chega sempre a seu
a anterioridade de nenhuma cena, senão sua simultaneidade, uma eng1· ' destino". 1
148 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 1 49
Mas, desde a perspectiva de onde desenvolvo meu trabalho, o incons­ senão de uma teoria explicativa dos fatos, isto é, a conjunção da ameaça de
ciente não é aquilo que apenas necessita um olhar diferente para tomar castração com a comprovação da diferença anatõmica dos sexos) . Freud
evidente o que sempre esteve à vista, senão que é o que em sua totalidade oscilou, em diferentes momentos de sua obra, em considerar a recusa como
é subtraído ao sistema pré- consciente/ consciente pelo recalcamento. Dizer um mecanismo patológico ou estruturante do psiquismo, chegando inclu­
que o inconsciente é subtraído do sistema pré-consciente não é uma simples sive a soluções de transição em Algwnas conseqüências psíquicas dn. diferen­
diferença de formulação, senão que marca a distância fundamental entre ça anatõmica entre os sexos: "Ou pode estabelecer-se um processo que eu
uma concepção pré-freudiana que centraria o caráter do inconsciente na gostaria de chamar de c1esmentidn.3, processo que, na vida mental das
iluminação do campo por parte da consciência, e outra que considera a crianças, não é nem raro nem muito perigoso, mas em um adulto levaria à
especificidade deste inconsciente. psicose".4
De modo que minha preocupação em relação a este paciente estava
centrada na busca da constituição tópica que me permitisse encontrar os
movimentos constituintes destas cenas graficadas no tratamento e, antes de
11 ustra çõ es
interpretar os conteúdos específicos, vislumbrar sua localização
metapsicológica.

@'
o fenômeno da ilusão

Em 1963, Octave Mannoni apresentou na Sociedade Francesa de


Psicanàlise um texto dedicado ao problema da crença.2 Nele, depois de
marcar as relações com o pensamento mágico e o teatro, enfatizava o fato de
que o termo "crença" não figura nos índices de nenhuma edição das obras
de Freud, apesar de ser um problema que a teoria psicanalítica nunca
perdeu de vista. Talvez a razão disso seja dada pelo próprio Mannoni quando,
no final de seu artigo, propõe dois axiomas: "Não há crença inconsciente",
"a crença supõe o suporte do outro". A crença e suas transformações, assim
como a Verleugnung, propõem um ponto de partida, mas não permitem
esclarecer o ponto de chegada. A intenção do autor é mostrar como um
mecanismo constitutivo do psiquismo - a crença - tem a mesma origem
que uma derivação que sustenta uma entidade patológica: a Verleugnung e
o fetichismo como entidade sustentada. O fetichista, diferente do impostor,
não necessita da credulidade do outro: este lugar encontra-se ocupado pelo
fetiche. Depois da criação de um fetiche - diz - o campo da crença perde­
se de vista, já não sabemos o que ocorreu com o problema e dir-se-ia que o
propósito do fetichista é escapar-lhe. Se com a Verleugnung todo mundo
entra no campo da crença, os que se tomam fetichistas saem deste campo
no que diz respeito à perversão.
Jogada entre o desejo e a realidade, a Verleugnung constitui uma cisão
do psiquismo diferente daquela que origina o recalcamento neurótico. Por
uma parte, não se trata de um conflito entre o ego e o id, senão de dois tipos Desenho 1 .
de defesa do ego; por outra parte, Freud tenta mostrar um mecanismo que
alude à negação de uma percepção, quer dizer, que funciona como defes"
frente à realidade (no entanto, não se trataria de uma realidade perceptiva,
·
Nas Origens do s UJezto
· Psíquico 1 1 5 1
150 / 5 1'1vza
. Bleichmar

Desenho 4.
Desenho 2.

Desenho 5.

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Desenho 3.
152 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 1 5 3

O ponto que está claro na teoria é o fato de que Verleugnung é um demarcação entre o 'recalcamento originário' [Urverdrdngung] e a 'pressão
mecanismo que se constitui no processo de reconhecimento da diferença posterior'. Seja como for, as primeiras irrupções de angústia, que são de
anatômica dos sexos, isto é, naquele que se dá no interior do par fálico­ natureza muito intensa, ocorrem antes de o superego tomar-se diferenciado.
cas�rado, inaugurando o movimento que dá origem à resolução do complexo É altamente provável que as causas precipitantes imediatas dos recalcamentos
de Edipo e à assunção do próprio sexo. Por sua vez, essa cisão do psiquismo originários sejam fatores quantitativos, tais como uma força excessiva d e
deve ser resolvida pelo reconhecimento posterior da diferença e pela excitação e o rompimento do escudo protetor contra os estimulos".5
passagem às identificações secundárias que resultam dai. E no texto antes Em O brmcar e a realidade, Winnicott propõe as características de sua
citado, Octave Mannoni propõe: é como se a Verleugnung do falo matemo descoberta a respeito do objeto transicional, marcando o paradoxo que este
traçasse o primeiro modelo de todos os repúdios da realidade e constituísse implica. Não se trata do ursinho ou do pedaço de tecido que o bebê usa, trata­
a origem de todas as crenças que sobrevêm à desmentida da experiência. se de um espaço fora-dentro, uma zona intermediária de experiência entre
Quer dizer que o fetichismo ter-nos-ia obrigado a contemplar com perplexi­ o polegar e o ursinho, entre o erotismo oral e a verdadeira relação de objeto
dade uma ordem de fatos que freqüentemente passam inadvertidos sob - entendida como reconhecimento de uma dívida, de um não-ego externo
formas cotidianas e triviais. E recupera deste modo a preocupação de Freud -. "Estou, portanto, estudando a substãncia da ilusão, aquilo que é
quando, em 1938, assinalava seu desconcerto ao encontrar-se em uma permitido ao bebê e que é inerente à arte e à religião na vida adulta, mas que
situação de não saber se o que tinha que dizer - referindo-se à cisão do ego se toma marca distintiva da loucura quando um adulto exige demais da
no processo defensivo - devia ser considerado como algo muito familiar e credulidade dos outros, forçando-os a compartilharem de uma ilusão que
evidente ou como algo absolutamente novo e assombroso. não é própria deles . . . Estou interessado na primeira possessão, e na área
Mas o que nos interessa retomar para o tema que agora desenvolvemos intermediária entre o subjetivo e aquilo que é objetivamente percebido".6
é o seguinte: em primeiro lugar, que o axioma proposto por Mannoni: "Não Winnicott situa uma zona intermediária de ilusão entre a mãe e a
há crença inconsciente", sugere a questão de que o mecanismo de recusa, criança, que logo será ocupada pelo objeto transicional; esta zona de ilusão
mesmo que possa constituir- se como um enfrentamento com a realidade é o efeito da capacidade materna de adaptar-se às necessidades do bebê.
percebida, tal como assinalamos anteriormente, não pode ser pensado Trata-se da constituição de uma zona intermediária de experiência, gerada
senão em sua relação com uma lógica da castração que implica a existência nos intercãmbios estabelecidos no vinculo intersubjetivo, que os primeiros
do processo secundário (na medida em que as oposições nao podem ser cuidados infantis opera.
abordadas como se tivessem esse caráter no inconsciente) . Em segundo A proposta é importante, tenta introduzir o espaço do vínculo
lugar, que para que o ego se cinda, e o faça em um plano de crenças, deve intersubjetivo na constituição de toda subjetividade, ao mesmo tempo que
ter-se constituido previamente e, por conseqüência, estar instaurada a tenta dar conta do recobrimento imaginário com o qual a cultura instaura
primeira linha divisória do recalcamento originário. as condições do dentro-fora no marco da relação mãe-filho. No entanto, em
Assim situado , este mecanismo proporia sua inserção tópica em um minha opinião, Winnicott fica preso em uma questão teórica não elucidada
psiquismo cujas linhas de cisão abarcariam, por um lado, o recalcamento pela escola inglesa: a redução do vínculo matemo aoplano daautoconservação,
originário e, por outro lado, o próprio ego. Deste modo, seria um movimento o não desprendimento inicial da sexualidade na constituição do psiquismo.
intermediàri� na constituição do superego (efeito do sepultamento do Como poderíamos defmir a mãe suficientemente boa? Em geral, é
complexo de Edipo e as identificações secundárias) e da separação originária somente apres coup que os psicanalistas de crianças nos formulamos uma
entre o ego e o id. resposta possível. Ao nos encontrarmos com uma criança medianamente
Por outra parte Freud assinalava, em Inibições, smtomas e ansiedade, neurótica dizemos: "Eis aqui a função materna realizada". A partir disso
o seguinte: "Como revelei em outra parte a maioria dos recalcamentos com reconstruímos as vicissitudes de um vínculo. Talvez esta seja a herança que
os quais temos de lidar em nosso trabalho terapêutico são casos de pressão a psicanálise de adultos nos legou; reaparece através de diversas formula­
posterior {Nachdrilngen} . Pressupõem a atuação de recalcamentos originá­ ções, tanto da escola inglesa como das propostas oferecidas por certo
rios* {Uruerdrdngungen} mais antigos que exercem atração sobre a situação estruturalismo lacaniano. Quando nos encontramos frente a um fracasso na
mais recente. Muitissimo pouco se sabe até agora sobre os antecedentes e constituição psíquica as hipóteses - em muitos casos - são tautológicas:
as fases preliminares do recalcamento. Há o perigo de superestimar o papel uma psicose infantil pode ser posta tanto na conta do fracasso da metáfora
desempenhado pelo superego no recalcamento. Não podemos no momento paterna e sua forclusão por parte da mãe, como da incapacidade da criança
dizer se seria o surgimento do superego que proporciona a linha de para aceder à posição depressiva devido ao montante de inveja constitucio-
154 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 155
nal que o instinto de morte originário determinou. Reconstrução do passado estrutura a possibilidade de humanização da criança. O problema das
não é equivalente, em nossa opinião, a um determinismo, nem biologizante relações entre o caráter enganoso do objeto do desejo e a satisfação de
nem estruturalista. Reconstrução do passado é análise dos movimentos necessidades abre uma dicotomia fundamental na compreensão do campo
históricos que dão conta das passagens das estruturas prévias às atuais, da ilusão. O objeto transicional funciona justamente porque aquilo que
com as quais nos defrontamos. Nesta mesma medida é que a psicanálise de recupera do vinculo com a mãe são restos de realidade - um cheiro
crianças poderá estabelecer prospectivas diagnósticas que lhe permitam compartilhado, certa textura -, mas se mantém um perigoso equilíbrio que,
previnir patologias futuras . Nela, como ponto de articulação privilegiado, por sua vez, dá conta do equilíbrio psíquico da criança entre realidade e
nos encontramos jogados no mesmo movimento que, ao mesmo tempo em fantasia. Tenho visto crianças muito doentes cujo objeto transicional - se
que ressignifica o passado, aborda a constituição da estrutura futura. A é que é correto manter esta denominação - é um fragmento direto do corpo
prospectiva é sempre parte dos interesses de uma psicanálise de crianças. matemo: a camisola da mãe , por exemplo. Em um caso de perturbação grave
Daí a necessidade de levar em conta as condições peculiares da constituição do simbolismo, um menino que atendi nunca havia utilizado outro objeto
do psiquismo infantil para poder operar nesta direção . que não fosse a mamadeira que, ao domlli, succionava no vazio , conservan­
Por isso, voltando ao início, onde introduzi a primeira consulta de Isaac, do-se abraçado nela toda noite.
devo assinalar que desde os primeiros momentos inquietou-me a situação A pergunta é formulada por Lacan no seminário "Las formaciones de!
da cena relatada, aquela aonde o menino compartilhou com seu irmão o inconsciente"8: suponhamos que o objeto apareça para s atisfazer a neces­
campo da ilusão que os abarcava, e a relação que isto tinha com um sintoma sidade, justamente no momento oportuno: o que permitiria distinguir a
surgido nos meses posteriores à chegada ao México: o fato de Isaac ter-se realidade da alucinação? Se originalmente a alucinação e o desejo satisfeito
tomado um "mentiroso", segundo aqueles que o cercavam . são indiscemíveis, quanto mais satisfatória seja a realidade, menos consti­
Recordei um artigo de Françoise Dolto: "Au jeu du désir les dés sont tui uma prova de realidade. E se isto é assim, acrescentemos, é porque a
pipés et les cartes truquées" (No jogo do desejo os dados estão viciados e as ordem da satisfação e a ordem da alucinação são duas ordens de realidades
cartas marcadas) . Que é um lactante?, pergunta Dolto: um pré-sujeito que diferentes. A satisfação de necessidades é absolutamente resolúvel, a
alucina um seio, pré-objeto ou obj eto parcial. "Falo do começo da vida, porque alucinação se estrutura a partir da marca inatingível do obj eto perdido
é aí que vemos como obrigatoriamente os dados estão viciados, como afirmo; (objeto sexual desde a origem) . É nestes termos que propus repensar o
quer dizer que para conservar uma saúde psicossomática, um tõnus conceito de "voracidade" empregado por Melanie Klein, para marcar a
psicossomático a partir do qual toma-se possível continuar vivendo fisiolo­ impossibilidade radical da satisfação plena.
gican1ente, o ser humano, por estar dotado de função simbólica, interioriza O vinculo matemo é enganoso de início porque na satisfação da
o código de sua relação com o outro, ama-se a si mesmo tal como é amado necessidade introduz a ordem do sexual, pelo qual humaniza a criança. E
pelo outro; há nele um desejo fundamental de reencontrar em suas Lacan produz uma revolução na psicanálise contemporânea quando teoriza
percepções algo que lhe recorde a última relação de prazer com ele-outro, ele­ a tripartição dos registros que, se bem não podem de modo algum substituir
sua mãe não são senão umsó, por desejos acordes. Este encontro é necessário a tópica freudiana, inauguram uma possibilidade de pensar as condições d e
ao ser humano porque no pré-sujeito se estruturam, de maneira coesa, a recobrimento d o real, quer dizer, a s origens d a humanização.
inteligência, o corpo, o coração e a linguagem, antes dos cinco anos. É nesta Voltemos agora ao ponto de partida. Se para haver crença tem que
idade precoce que se origina a articulação do desejo com a função simbólica, haver ego, enquanto que o desejo inconsciente se realiza de modo alucinatório,
assim como suas armadilhas. a crença implica o modo de pensamento do processo secundário, funciona
"Alguns seres humanos aos quais faltaram os intercãmbios simbólicos com uma lógica que inclui o semelhante e se diferencia nisso, talvez, d a
com o mundo inter-humano, embora tenham sido assistidos materialmente convicção delirante, como assinala Winnicott: mas não estamos falando d a
quanto às suas necessidades, não puderam exercer sua função simbólica no própria função d o ego? Não é o ego um sistema de crenças a respeito d o
que diz respeito ao desejo do mundo exterior, já que as pessoas nutridoras sujeito e dos vinculas desse sujeito com o mundo? Assim entendida, a crença
que se ocupavam deles não souberam iniciá-los nisto".7 seria o modo fundamental como a realidade é recoberta, realidade dispersa
Dolto recupera uma idéia princeps de Lacan: não é a satisfação da e desorganizada antes da constituição do ego, o qual, mediante os processos
necessidade em si mesma que gera o campo do intercãmbio inter-humano, descritos por Freud como de ligação e inibição de estímulos, constituiria não
senão que esta satisfação está imersa em um mundo simbólico cujo caráter só a sede da crença, senão que o próprio sistema de crenças seria o ego.
1 5 6 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 1 5 7

Talvez, diz Laplanche no seminário A angústia, não exista tópica senão Esta poderia ser uma questão absurdameflte proposta, se não fôra
com relação a um ego . . . Talvez toda tópica esteja ligada ao imaginário, isto porque se confundiu a fonte catéxica do aparelho psíquico com a fonte do
é, ao modo como um ego se figura (sefigure être}, se figura ser.9 Também se narcisismo originário. A isso me referirei agora.
poderia pensar, figura-ser, isto é, consegue um espaço representacional Assinalemos o valor da contribuição de Lacan em relação ao esclare­
figurativo como um todo, como o todo. E em nota ao pé de página acrescenta: cimento que implica a recolocação do ego em relação ao narcisismo, e a
por mais sedutora que seja, uma tópica que recorre a uma geometria abertura à qual o conceito de especularidade leva para a compreensão dos
transcendente, não-euclidiana, esbarra na objeção de legitimidade: se o fenômenos constitutivos do sujeito psíquico. No Seminário nº II dizia: 'Toda
espaço psíquico tem seu protótipo no espaço imaginário, o do corpo, poder­ dialética que lhes dei a título de exemplo sob o nome de estágio do espelho
se-á recorrer, para figurá-lo, ao inimaginável? Tal figuração, que aboliria está fundada sobre a relação entre, por um lado, um certo nível de
contradições e incoerências talvez insuperáveis, não correrá o risco de ser tendências, experimentadas-digamos por agora, em determinado momen­
um modo sutil de racionalização?10 to da vida, - desconectadas, discordantes, fragmentadas - e do qual
Alguns dos problemas que proponho abordar: relação ego- corpo e seu sempre resta algo -, e por outro lado, uma unidade com a qual se confunde
desenvolvimento no espaço, instauração deste espaço determinado pelas e se iguala. Esta unidade é aquilo aonde o sujeito se conhece pela primeira
coordenadas que se constituem entre o próprio corpo e o corpo do semelhan­ vez como unidade, mas como unidade alienada, virtual. Ela não faz parte dos
te, entre o ego e o outro. caracteres de inércia do fenômeno consciente sob sua forma primitiva, tem
A constituição do ego deve estar sustentada em um sistema de crenças pelo contrário uma relação vital, ou contravital, com o sujeito."11
que o semelhante mantém a respeito do sujeito que é a criança em Unidade alienada e virtual - relacionada com o esquema ótico, com o
constituição. Quando Isaac supõe que o irmão tem fome, não faz senão lugar do olhar no campo do sujeito - possibilitadora de uma unidade mais
reproduzir a função materna constituinte do vinculo suporte da crença. Mas constituinte que constituída, relação contravital com o sujeito.
quando -a partir do aquecimento imaginário do leite na chama apagada do Relação contravital, porque como Lacan mesmo propõe em O estágio do
fogão, ante o irmão que espera - supõe que sua ação pode anulãr a espelho: "Este momento que faz oscilar decisivamente todo saber humano
percepção da mamadeira fria no semelhante, talvez nos encontremos em na mediatização pelo desejo do outro, constitui seus objetos em uma
pleno terreno da Verleugnung. Enquanto uma parte de si mesmo realiza o equivalência abstrata pela concorrência do semelhante, e faz do eu lje] este
ritual ilusório no qual o outro acredita, outra parte de si mesmo também aparelho para o qual todo embate instintivo constituil'á um perigo, mesmo
acredita, e a mamadeira fria não funciona como prova presumida de quando responda a uma maturação natural; e a própria normalização desta
realidade que possibilite a desmentida. Igual ao que ocorre no fetichista, o maturação dependerá, desde então, no homem, de um intermediário
ritual anulou, sustentado por uma teoria, a percepção posta em jogo pela {truchement] cultural: como se vê o objeto sexual no complexo de Édipo. " 12
realidade. Ego, órgão de desconhecimento, aparelho para o qual o embate
Se Freud partiu da castração materna para analisar o mecanismo da instintivo será um perigo, oposto àquilo que, perdido para sempre, só tocará
Verleugnung e, em relação a isso, acisão do ego como movimento concomitante o futuro do sujeito assintoticamente.
no psiquismo, talvez o tema ao qual estejamos nos aproximando tenha que "A função do estágio do espelho se nos assevera então como um caso
ver com os efeitos intra-subjetivos de um movimento intersubjetivo que particular da função de únago, que é a de estabelecer uma relação do
organismo com sua realidade; ou, como se disse, do Innenwelt com o
marca o primeiro momento diferenciador entre o sujeito e o semelhante.
Deixei de lado a questão do ego como organismo vivente, para referir­ Umwelt".13
me exclusivamente ao ego em sentido psicanalítico, isto é, como uma Relação com a realidade que não é imediata, senão que é constituída
formação particular no interior do aparelho, catexizada pela energia deste. pela interposição do semelhante, da imago constituinte do sujeito. Se esta
Ao falar de catexização apresenta-se a seguinte questão: é o ego quem imagem é ao mesmo tempo o umbral do mundo visível, quer dizer,
catexiza este aparelho tomando a fonte que o constitui do narcisismo estruturante da percepção, deve-�e ao fato de que o olho urlifica um campo
originário, ou a catexização do ego é, pelo contrário, o efeito de uma despedaçado desde a cenestesia. E a gestalt pregnante, constituinte do ego,
transformação da energia pulsional em energia ligada que, uma vez a envoltura imaginária que encobre esta fragmentação.
A partir disso, Lacan vai denominar como narcisismo originário a carga
?rganiz �danesta tópica particular, começa a funcionar como contracarga do libidinal própria deste momento de constituição da imagem especular e,
mconsctente? (Tema ao qual me referi no capítulo em que abordo a
constituição da inteligência.) neste sentido, sua contribuição é decisiva. Introduzumaaberturaao que fica
158 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 159

em suspenso na teoria da constituição do ego quando Freud propõe, em é ressignificada, como Freud mesmo propunha em "Sobre as transposições
"Introdução do narcisismo", a passagem do auto-erotismo ã libido do ego e da pulsão, em particular do erotismo anal", como castração não faz senão
daí ã libido de objeto, por interposição deste ato único que instaura uma ressignificar todas as frustrações libidinais prévias às quais foi exposta) . e
instãncia catexizada representante do sujeito. que "projeta" na criança - para usar uma terminologia adequada proposta
No entanto, o problema aparece (e marcamos nossa divergência) por Melanie Klein - na instauração da oralidade e da analidade, como do
quando o estágio do espelho é situado como paradigma do primeiro tempo polimorfismo perverso infantil que é resultado do estabelecimento 'dos
do Édipo. No seminário "Las formaciones delinconsciente" diz: " ... ametáfora vinculas primitivos aos quais a criança é submetida.
paterna atua em si porque a primazia do falo é instaurada na ordem da Há outra razão teórica para propor as coisas desde esta perspectiva. Se
cultura... Neste primeiro tempo o menino trata de identificar-se com o que o ego é um sintoma, uma estrutura defensiva por excelência, é um contra­
é objeto do desej o da mãe: é o desejo do desejo da mãe e não somente de seu senso situar o narcisismo como recalcado centralmente. O ego, como
contato, de seus cuidados; mas há na mãe algo mais do que a satisfação do estrutura privilegiada da contracarga do pré-consciente, não pode senão
desejo do menino; atrás dela se perfila toda essa ordem simbólica, o falo. Por fazer parte do que recalca (mesmo que guarde sempre os rastros do
isso o menino está em uma relação de espelhismo: lê a satisfação de seus recalcado, como implica o próprio conceito de contracarga) . De modo que o
desejos no movimento esboçado do outro; não é tanto sujeito como sujeitado, narcisismo não pode ser o originário do sujeito. Há, sim, um narcisismo
o que pode gerar uma angústia cujos efeitos seguimos no pequeno Hans, originário, como Freud postulou, que podejustificar o narcisismo secundá­
tanto mais sujeitado ã sua mãe na medida em que ele encarna seu falo" 14 . rio e que hoj e possibilita, graças à contribuição de Lacan, ser entendido como
Podemos fazer algumas observações sobre isto. Em primeiro lugar, se esse momento estruturante do ego e efeito da circulação fática da criança no
o estágio do espelho instaura a matriz simbólica na qual o ego se constitui, interior da estrutura do Édipo, mas sempre posterior ao auto-erotismo.
sua função não é a função de precipitar da insuficiência à antecipação, senão Temos aqui a função libidinizante da mãe que constitui, por um lado, a
a de obturar o caráter despedaçante que o auto-erotismo tem na constituição sedução inicial que instaura a sexualidade polimorfo-perversa na criança e,
do sujeito psíquico. Este é um aspecto em relação ao qual discordamos de por outro, desde o narcisismo, a sexualidade ligada obturadora deste
Lacan. O caráter fundamental do vinculo materno nas origens não é, desde polimorfismo compartilhado (poderíamos dizer: o amor) .
nossaperspectiva, a unificação do corpo infantil, senão seu despedaçamento Recolocar o primeiro tempo do Édipo proposto por Lacan abre, assim,
libidinal. Isto quer dizer que a constituição das zonas erógenas, marcadas uma perspectiva para a compreensão do caráter benéfico da função
pelo cuidado excitante ao qual o bebê é submetido como objeto passivo do materna: irrompe brutalmente na criança a partir do momento libidinizante
sujeito ativo que o pulsiona, introduz no corpo os espaços de discordãncia sedutor ao qual a submete com seu cuidado, ao mesmo tempo que oferece
que marcam o impromptu da sexualidade. as possibilidades de ligação libidinal mediante o oferecimento de uma
A mãe, como todo sujeito psíquico, está constituída pelas confronta­ imagem identificadora, tal como o estágio do espelho nos permitiu entender.
ções intra-subjetivas de uma cisão tópica que lhe permite ver a criança como Corpo fragmentado libidinalmente e ao mesmo tempo unificação imaginá­
sujeito humano, ou seja, unificadamente, ao mesmo tempo que introduz ria, corpo do auto-erotismo infantil e, em um segundo tempo, quando o ego
brutalmente essa sexualização à qual nos referimos já em outras ocasiões se constitua, angústia de fragmentação à qual o suj eito fica submetido para
e que, seguindo Laplanche, situamos no marco da teoria traumática da sempre devido ao constante embate da pulsão sexual.
sedução originária. O narcisismo materno é, então, igual ao que será o ego Não é então o soma que marca as linhas de cisão do corpo fragmentado ,
do menino posteriormente, o obturador da vida pulsional anárquica das senão a sexualidade anárquica das origens. O ego não aparece, então,
origens. Mas aquilo que está presente na mãe no momento do nascimento contraposto em uma linha de cultura versus natureza, senão no interior da
do filho, não está no fllho no mesmo momento. Isto tem que ver com a cultura que constitui o sujeito sexuado como um dos pólos de um conflito
diferença que pretendemos estabelecer com uma teoria estruturalista, · enfrentado a outro. A pulsão é um produto de cultura (do recalcamento e d a
desde onde seria impossível diferenciar o que se encontra na estrutura, no sexualidade materna pulsante) na criança, tanto quanto o é o ego narcisista
momento no qual o sujeito se vé inserido nesta, e as condições de apreensão instaurado constituindo atópica do aparelho psíquico.
dos elementos dela por parte deste sujeito. Retomamos, então, a teoria da especularidade como constitutiva do
Recuperando, então, o auto-erotismo originário, poderíamos assinalar narcisismo originário, situando-a em um segundo tempo da constituição do
que o narcisismo que caracteriza o estágio do espelho se baseia na aparelho psíquico, relacionada com a instauração de uma tópica do ego, que
defasagem, no recobrimento encobridor tanto da carência materna (que se no movimento que impõe funda ao mesmo tempo o inconsciente e abre as
160 I Silvia Bleichmar Nas Origen s do Sujeito Psíquico I 1 6 1
possibilidades para os fantasmas do corpo despedaçado. Mas assim como Necessitas ouvir-me para entender, para não ficar encerrado, mas temes
dissemos que a transformação no contrário e a volta sobre a própria pessoa perder-te, não saber quem sou eu e quem és tu. . . como algemar-te a mim".
são precursores do recalcamento originário, poderiamos situar agora a cisão Nesse momento pedi-lhe que pusesse sua mão com o dorso para cima.
do ego como um movimento precursor da abertura às identificações Toquei-a com meu dedo. Disse: "Meu dedo está mais frio que tua mão, podes
secundárias, e do recalcamento secundário. se�ti-lo?". "Sim"-respondeu-. Acrescentei: "Sentes assim porque com tua
E por que só poderá produzir-se esta cisão,anterior à constituição do mao sentes meu dedo, sentes o que ocorre fora, estás em contato com meu
superego, em relação ao movimento da castração e do reconhecimento da dedo mas o !m:es �om tua mão, desde dentro de ti". "Queres dizer que minha
diferença anatõmica dos sexos? :
pele e meu limite? - perguntou -. Respondi: "Tua pele e tua cabeça, 'com
Propomos a seguinte alternativa: a cisão do ego no processo defensivo, a qual estás pensando que estás comigo, mas sabendo que eu toco tua mão
com a conseqüente instauração da Verleugnung, não é senão a primeira com meu dedo sem que meu dedo seja parte de tua mão". "Minha cabeça ­
derrubada do sistema universal de crenças que a criança possui na primeira disse - é como o aparelho de eletricidade que construí. Talvez por isso não
infância: posse absoluta da mãe, identidade total com o semelhante, posso conectá-lo. Tenho medo que funcione, talvez os cabos estejam
premissa universal do falo. Neste sentido, sofre o mesmo destino que os enredados como minha cabeça . . . "
mecanismos anteriormente descritos. Não desaparece pura e simplesmen­ Na representação do outro que vai encadeado a si mesmo, Isaac m e
te, senão que encontra um lugar que consolida, no suj eito psíquico, - se é apresenta a constituição d o duplo imaginário. No entanto, diferente do
resolvida favoravelmente - as possibilidades da crença e a dúvida gue o psicótico, o duplo não é alucinado, senão sentido como uma parte de si
afasta da convicção delirante. Se quiséssemos retomar os tempos do Edipo mesmo. Quando mente busca no outro a corroboração da crença que
proposto por Lacan, essa formação seria o movimento correspondente ao e�trutura, no entanto, o fazintra-subjetivamente. Porissoasduas cenas que
segundo tempo do Édipo, aquele no qual a proibição paterna ocupa a função motivaram minha pergunta inicial podem encontrar uma resposta através
de separar o filho da mãe e instaurar as condições de acesso ao terceiro desta hipótese: não se trata de duas cenas diferentes no tempo, como ocorre
tempo, onde se constituem as instâ?cias superegóicas (ideal do ego e na recordação histérica, mas de uma modalidade estrutural que indica que
consciência moral) como resíduos do Edipo. em uma mesma instância coexistem dois modos de funcionamento. Corno
Mas, que ocorre se esta passagem não se produz? Pouco tempo depois dissemos, há uma refração da imagem despedaçada, que se constitui ao
de iniciar o tratamento, um dia Isaac chegou na sessão e ficou em silêncio mesmo tempo em outro lugar, sem que a primeira esteja recalcada.
uns minutos. Tomou seu caderno e desenhou uma estrada ao lado de um Poderíamos graficar a tópica com a qual nos enfrentamos desta
campo; neste campo um enorme cartaz sustentado por estacas, como os que maneira:
se encontram às vezes com anúncios. No cartaz se via um pedaço de rosto:
olhos, nariz, boca, ocupavam todo o espaço (desenho 5). Disse: "Os
automobilistas se assustam e se acidentam. O cartaz está aí para cuidá-los, F'rnlura na rep. or;iginúrla

mas causa desastres". Olhou de novo seu desenho e acrescentou: "Acreditas


que háalgo que funciona mal em minha cabeça?Acreditas que posso tornar­
me um louco?" . Respondi: "Talvez sentes tua cabeça como este cartaz: não
sabes se serve para proteger-te e entender-te ou se ao começar a funcionar i
1
:
BGO /V
�):\ )�

Fratura no
linul e com o real
vai te enlouquecer". Respondeu: "Pode ser por isso que não posso pensar, Dcsesl.
--,--- I
tenho medo que minha cabeça pense só e vá para outro lado". "Aonde?", INC.
perguntei. Isaac: "Às vezes sinto que levo outro igual ami� algemado ao meu
lado. Não posso soltá-lo . . . algo se rompe". Acrescentei: "E como se tivesses
medo de perder-te fora de ti mesmo. Como se tivesses que transformar tua
pele em couraça para conservar um limite" . Isaac: "Me dá medo ficar dentro
de mim. Tornar-me louco é não poder escutar? Quando a professora pede
algo não a ouço. Depois, quando me pergunta porque não o fiz me dá medo,
medo porque não ouvi" . Interpretei: "Comigo talvez ocorra a mesma coisa.
Nas Origens do Sujeito Psíquico 1 1 63
162 I Silvia Bleichmar
s encontrar alguns elementos ego do men�no - diz M�su? � � --: dominou, prematura e precocemente,
A partir da história do paciente podemo os traumatrsm?s da pnmeira mfancm através da onipotência' criando esta
sagem que permitiria consolidar
para entender porque não se produziu a pas que o menino ficou submetido estrutura que e o falso selj.
po
as instãncias superegóicas, ao mesmo tem mo originário e, desta maneira,
a;:
cisis "Em minha experiência clínica- acrescenta - comprovei que nesses
c os de estrutw:ação rígida, pré-maturada de objetos primários intern�dos
ao movimento de não resoluçã o do nar
ou um lugar definitivo na tópica de
- paradoxalmente - o ego não encontr
s tempos de sua vida -desde um e an!asmas, �a uma atitude negativa em relação a toda experiência ou
seu aparelho psíquico. Durante os primeiro
pai esteve ausente por causa do relaçao de o_bJeto nova. De tal modo que durante a adolescência essas
ano até os três anos aproxímadamente - o
c permanecesse só com a mãe, a pessoas realiZam po�cas experiências que as enriqueçam, e vivem em u m
serviço militar, o que determinou que Isaa
pertenciam totalmente. Fez um m�ndo fech�do ou rrreal, d e sua própria fabricação. 0 que as toma
qual, por outro lad o, sentia que ambos se alienadas, nao so_ dos outros, senão de si mesmas."l6
- talvez pseudomaduro - com
desenvolvimento precocemente maduro
aquisições muito precoces e uma necessidad
e permanentemente estimula­
_

Desde nosso pont� de _vis a, � onipotência pela qual a criança domína
que seu pai voltou, quando a .
os traumatismos da pnmerra infancia não é, no entanto, patrimônio das
da de crescimento acelerado. Um ano depois
miu de início o papel paterno , e�u:nturas que desembocam na constituição de um pseudo-selj. É caracte­
mãe engravidou do filho menor, Isaac assu
tir do nascimento , por tarefas nstica _de u� moment� da constituição do ego narcisista, e só se desenvolve
colaborou em tudo e se responsabilizou, a par ifestou ciúmes em nenhum
a partir da mstauraçao do superego. Daí que na hipótese que estamos
que não correspondiam à sua idade. Não man
ovia profundamente aos adultos de �envolvendo prop?nhamos que após a clivagem originária que organiza
momento, e sua atitude responsável com
que o rodeavam , já que era um menino inte
ligente que "sabia ocupar seu � ms campos - o do Id e o do ego, ou o do irlconsciente e pré- consciente _
lugar que ocupou nunca foi um eva logo ocorrer a constituição das irlstàncias ideais para ue 0 e �
lugar". Talvez esta sej a a origem de tudo: o
identificações, aparentemente � ff
lugar para si mesmo, e o que poderiam ser e massiva s, sem que tivesse
secundárias, nunca deixaram de ser prim
árias
es edípicos próprios da idade.

�n�ontre uma posição intrapsíquica defmitiva. Se isto não ocorre perig é
�mu�en e, porque o embate pulsional o ataca permanentemente e as

passado pelos conflito s de rivalidades e ciúm mstancias protet�ras que deveriam estar a serviço da defesa não podem
desgarrado, encapsulado em
Assim cresceu em uma casca, um interior ex cer s�a funçao e, p�adoxalmente, esse ego narcisista onipotente fica
do, no momento de sua migra­
uma envoltura rigidizada, que eclodiu quan su mergido em sua propria fragilidade para fazer-lhe frente. No caso d e
sobre o presente e as perdas .
ção, produziu-se um retorno do passado nos� o �a�rente, o encaps�lm:nento que Masud Khan descreveria como
os aspectos de sua estrutura no
precoces foram revividas. Assim, atuou amb patrim�mo do pse�do-selfn::-o e senão uma medida protetora extrema frente
u-se emum encapsulamento
manifesto: o encapsulamento do interior converte aos pengos de des�tegraçao constante ao qual está exposto.
conexões estabelecidas com o
global em relação ao mundo, e as breves Certamente n�o compartilhamos a proposta teórica de um pseudo-se/f
losivo que em seus transborda­
exterior tomaram o caráter querelante e exp

com� ��a formaçao oposta a um seljverdadeiro, mas nos parece ue a
imediata ao ato.
mentos de angústia propiciavam a passagem

p ossibihdade de estruturação de uma irlstància definida por sua po ição
de, os tetos altos simboliza­ _ . entre o Id _ e o sup re o garante a neurose infantil; nisso radica a
Envolvid o em uma pele que lhe ficava gran t�pica �
o da loucura. Se a tópica que
vam para ele a marca de sua pequenez e o risc

diferença entre a permanencm do moi e as possibilidades de variação no
de fratura do recalcamento
desenhamos se caracteriza por uma zona

plano do iscurso, ��uilo queLacan chamouje.Asvariações dos enunciados
esteve protegido no interior de
originário e, a partir disto, com o real, Isaac a 2respe o d� sujeito so se tomam possíveis na medida em que esta
si mesmo durante anos. �nunciaçao nao exponha o ego (moi) a um risco de naufrágio. Daí que 0 eu
É pos sível que o caso clínico que descreve
mos e a partir do qual tiramos
tes possa ser pensado em fle), tal como �e apresenta na experiência psicanalítica, deve ser considerado
as conclusões teóricas que nos parecem pertinen por Masud Khan no como o que e: fragmentos de discurso que o sujeito emite a respeito de si
rita
relação a um a entidade psicopatológica desc mesmo, m�s que em seu d�smantelamento e correlação simbólica permitem
ingl esa real izad o em Londres em 1970 . 15
colóquio de psicanalistas de língua a permanencra de um nucleo estável que marca um lugar m
- ·

· trapsiqmco
o ego do menino criou uma
Nele este autor aludia a uma estrutura na qual representacwn� · 1 d a totalidade
. imaginário que o constitui.
que a neurose infantil, que é
organização intrapsíquica da mesma natureza O ego (moi}, então, imaginário, alienado, especularmente constituído
ncia, o levará a organ.zar _ _

uma falsa organização do seif, e que, em conseqüê e nao somente uma matriz simbólica, mas também a garantia de perrnanên�
defensiva dos instir; 1 ,
um modo de vida clivado e rígido e a uma organização cm. na neurose enquanto o irlconsciente se revela.
mento mental arcaico
pré-genitais, ao mesmo tempo que a um funciona
1 64 1 Silvia Blcichmar

N otas de referência

J Lacan Ecrits Paris: Seuil, pág. 4 1 . (Escritos, México: Sigla XXI, vol. �l, pág. 4 1 .)
à: O. Mann�ni, "Y� lo sé, pera aun así", em La oira escena. Claves para to tmagtnano,
Buenos Aires : Amorrortu editores, 1973.
3 . Desmentida é a forma como a nova edição das ?bras co �ple�a:' de Amorrortu
t�
9
editores traduzo conceito Verteugnung. No vcx;abutariodapszcanaltse, de La che
e Pontalis, foi escolhido renegação para a lmg':a es12.anhola, corresponc e? e ao
francês déni, se bem Rosolato, por razões de conJugaçao verbal, escolheu desaveu
para o mesmo termo.

[N.T. Laplanchee Pontalis, no Vocabulário daPsicanátise, traduzem paraoportuguês


Verteugnung como recusa.]
4. Cf S Freud, OC, vol. XIX.
: T
[N T. raduzimos a citação, neste casoc da edi?ã? das ?bras completas de Amorrortu
editores, para respeitar a interpretaçao de S!lvm BleJChmar.]
5. Ibid. vol. XX, 1976, págs. 1 1 5- 1 1 6. Do lado da mãe
:
[N .T Substituímos o termo "repressão primitiva" por "recal camento on·g·man'o" para o

respeitar a terminologia utilizada pela autora.]


. o
6. D. w. Winnicott, o brincar e a realidade, Rio de Janeiro: Irnago Editora Ltda., pag.

7. �� D �
olto, Nojogo do desejo, Rio de Janeiro : Zahar Edi ores , pág . 22 2 i
J. Lacan, Las jormaciones de! inconsciente, B uenos Aires: N ueva V!s ón 1970 Dentro deste verdadeiro baquet*- feliz imagem que Laplanche encontrou
�:
· ·
.
J. Laplanche, A angústia, Problemáticas I, São Paulo: Martms Fontes, 1987. para denominar o campo analítico - a centrifugação do discurso produz um
10. Ibid. pág. 223.
. . precipitado, aonde todos os movimentos são impregnados de amor e de ódio.
11. J. Lacan, Le séminaire, libra II: Le moi dan� ta theone de Freud et dans la techm·que
de la psychanalyse, Paris: Seuil, 1978, pag. 66.
Neste sentido, a psicanálise é sempre psicanálise da criança que o adulto
12. �
J. Lacan, Ecrits op. cit. pág. 98. Deixaraos a pala'::a francesa truc 1em: nt po :q�e r:ao
.
_
sustentano divã. A transferência não é apenas um espaço onde são recriadas
nos parece que haja em espanhol urna expressao que reil1ta a r:queza pol!sseJmca imagos infantis; é também um lugar de surgimento de novas possibilidades.
.
presente no discurso de Lacan. Truchmenté ao mesmo tempo mterprete, pessoa que Nunca um vínculo ofereceu ao sujeito a oportunidade de "dizer tudo"; nunca
fala no lugar de outra expressando s�u pensamento; representante porta-palavra foi escutado mais atentamente por alguém. Paradoxo da psicanálise: lugar
(porteoparole}, intermediário, cf. o Pettt Robert. para ocupar-se de si mesmo e lugar aonde se descobre, ao mesmo tempo ,
13. Ibid., pág. 96.
14.
o o
J. Lacan. Lasjormaciones de! mconsctente, ?P· �tt.
o que esse si mesmo é outros. Um lugar aonde o tempo está estritamente
, . . pautado e, no entanto, um lugar aonde todos os tempos são recriados. Um
15. M. Khan, "La névrose infantile fausse orgarusation du self . em La psycluatne de
l'enjant, vol. 15, 1972. verdadeiro Aleph, usando a imagem borgiana, ponto do infmito onde s e
16. Ibid, pág. 33. organizam todos o s espaços, todos o s tempos.
Nesse lugar, entrecruzamento de todos os tempos e de todos o s
espaços, as mães de nossos pacientes chegam à consulta. Apesar de sua
distância protetora ou de sua simpatia temerosa inicial. a angústia sempre
sustenta o tom de um primeiro encontro. A acolhidabenevolente permite que

* [N.T. Baquet foi traduzido para a língua espanhola corno cubeta. Optaroos pela
tradução para o português corno cuba: "vasilha grande de madeira . . . cuba de nivel
constante." (Novo dicionário da língua portuguesa de Aurélio Buarque de Holanda
Ferreira, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1975) .]

165
166 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 167

o discurso se derrame no consultório e o diálogo analítico estabeleça a ponte bloco. É corno se sempre quisesse m e unir a meus irmãos para não me sentir
que possibilite restituir os nexos perdidos. mal . . . mas não posso aprofundar. Ela foi assim comigo. . . " .
Nesse ponto, articulação da história da mãe enquanto filha e da N a sessão seguinte : "Sinto que não tenho nada para dizer . . . Como se
instauração de urna estrutura aonde se geram novas reservas libidinais, a última vez quevirn tivesse sido há anos . . . sinto-me como muito distanciada
Helena, de 27 anos, começa um tratamento psicanalítico falando-me das de você, como se você fosse qualquer pessoa". (É o mesmo que teme que
dificuldades para criar sua primeira filha. ocorra com a filha: me desconhece, me odeia, evitando sentir a dor d e s e
"Quando Margarida nasceu, meu marido trazia sua filha para casa nos separar.) "Sim, às vezes me acontece que conheço alguém e que ocorre uma
fms-de-sernana, o que eu não podia suportar. . . Já durante a gravidez senti boa relação e depois me retraio e me distancio totalmente ... Sinto como se
que meu marido ia-se convertendo em alguém hostil, sentia que queria fosse a primeira vez que a v�jo" (como outra, corno alheia a si mesma) , "vejo­
apoderar-se de meu corpo e de minha pessoa. . . Que se acreditava com direito a com muita indiferença ... E uma �aneira de adiantar-me, sempre sinto que
de decidir o momento e a situação do parto, onde e corno. Eu queria fazer os outros podem me abandonar. E como se em uma relação, ao romper-se
minha vontade, não permitir que ele participasse. Não entendo corno posso urna certa distãncia que me convém, o outro se convertesse em alguém
ser tão contraditória, sinto que a menina é exclusivamente minha e, por perigoso. E você é urna mulher mais velha, as mulheres mais velhas são
outro lado, sinto que Estevão é o único responsável por minha maternidade. perigosas . . . O que sinto com Margarida é que ela não vai me abandonar. O
É engraçado: quando em crianças nos portávamos bem, meu pai dizia 'meus problema é a aproximação demasiada . . . mas com você o medo é de que eu
filhos fizeram isto ou aquilo'; quando nos portávamos mal, dizia para minha seja abandonada ... Você é adulta e ela é menina, você é mais perigosa do que
mãe 'teus filhos fizeram isto ou aquilo . . . ' É corno se Margarida me devolvesse ela. Meu outro analista me tratava por tu. Com você não é que não sinta
urna imagem tão completa, tão perfeita de mim mesma, que não suporto vê­ confiança, sinto algo estranho aqui - aponta o próprio peito -. Sempre m e
la má. . . Minha mãe sempre esteve ausente, embora fisicamente presente; chamou atenção que meu pai sempre fala 'você' aos amigos, meu pai não
estava na casa, mas tocando piano ou lendo; sempre foi ambivalente, consegue falar 'tu'". (O tu aparece como uma forma de aproximação e d e
inclusive com minha filha. Faz-lhe casaquinhos tecidos, mas estes sempre anulação das diferenças. Só há uma mãe próxima quando esta mãe é parte
ficam grandes ou pequenos, apenas põe dois botões embora necessitem dela, quando não há separação entre ela e o outro, separação temida que
quatro, carrega-a no colo, mas tão mal que acabo por não entregar-lhe. Meu remete ao pai corno símbolo de toda separação. A distãncia entre uma sessão
pai é mais honesto, nega-se a ver a menina, mas abertamente; diz que 'sente e outra é uma forma de ruptura da simbiose imaginária na qual está
medo dos bebês porque estes podem se quebrar, porque são frágeis, instalada comigo. Eu sou perigosa quando sou alheia, diferente, adulta.)
horrorizam-no . . .' Parece-me que está bem que ele diga assim, ao menos ê Sessão seguinte: 'Tenho a sensação de ser um barril sem fundo,
sincero, mostra seus conflitos, não me faz sentir que o problema sou eu . . . impossível de ser preenchida. Estava pensando que Margarida já começa a
"Ouça, você não será destes analistas que não falam, não?" (corno se prescindir de mim e o seio já não é tão importante . . . Eu como compulsiva-
temesse que a deixe só novamente, com suas coisas, corno a mãe, e esteja mente, quisera encontrar tranqüilidade na comida . . . Como se me ocorresse
apenas acornpanhando_-a fisicamente). igual ao que ocorre com Margarida, o seio já é só um tranqüilizante para ela,
Três dias depois: "E corno se o tempo não existisse . . . quando me separo já pode viver sem o seio, e eu não posso encontrar outra forma d e
de alguém esse alguém já não existe . . . Pensava em Margarida, ela não tem gratificação . . . nada pode m e acalmar" (longo silêncio). "É como se tudo s e
noção do tempo, então não sabe se vou voltar . . . Creio que não existe alguém referisse à minha relação com minha mãe . . . não sei se quando pequena m e
quando esse alguém não está. Sexta-feira tive medo de que terminasse a sentia como me sinto agora . . . cada vez mais sinto que Margarida tem menos
sessão. Ontem voltei e a vi chorando. . . quando levantei-a não me olhava. . . a ver com tudo isto . . . Estou tonta, como se me distanciasse, sinto necessi­
estava com o olhar perdido. . . creio que quando a deixo é corno se eu dade de girar e me distanciar . . . algo me atrai para lá, para a rua. Sinto-'m e
desaparecesse . . . Beijei-ae beijei-a . . . necessitava que me sentisse ali . . . Tinha pior com o fato d e que Margarida não tenha nada a ver. Todo o problema é
medo que me odiasse. Sempre senti minha mãe ausente. D esde que tenho meu . . . Ai! já passou. As coisas passam através de mim e permaneço vazia" .
memória, porque não lembro minha mãe quando eu era pequena, não (Minhas interpretações também não lhe servem, vêm de um seio estranho,
consigo imaginá-la. Minha mãe não queria estar no México quando Marga­ de uma m�e alheia.) "Agora a comida passa através de mim, mas não m e
ridanasceu. Não queria ternenhurna obrigação de estar comigo. Para minha preenche. E como se fo sse uma silhueta, sem nada dentro . . . e agora sinto­
mãe é corno se Margarida ainda não existisse. Outro dia pensei que minha me pequena, pequena, como se o divã fosse muito grande. Minhas mãos são
mãe nunca desejou ter um filho . . . pensei que não devia pensar assim, em muito grandes, e meus braços pequenos e magros. Como se não estivesse
168 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 1 6 9

aqui. . . Mãos de minha mãe, com as mãos se agarra, mas imagino as mãos trabalhar, aceitando ser ajudada por uma babá no cuidado da menina. A
como não ativas, quase mortas, sinto náuseas. Minha mãe nunca suportou despedida é brusca; anuncia-me a decisão em uma sessão e vem na seguinte
o contato afetivo, nos proibia tocar-lhe o rosto . . . Eu quisera ter sido como para pagar- me e despedir-se.
Margarida, poder tocar. Teria querido ter uma mãe que se deixasse tocar e Um ano e meio depois liga para retomar sua análise. Teme que eu não
que me tocasse. . . É que minha mãe era como um morto. . . tão fria... nada lhe a aceite. Sente que posso ser vingativa e me cobrar de seu abandono; está
importava. Pensei que a odeio, e pensei que à noite ela tocava piano, na hora novamente grávida e Margarida, de dois anos e alguns meses, tem um
em que nos deitávamos, e eu me emocionava tanto ao ouvi-la tocar e ainda desenvolvimento harmõnico, que Helena teme se frature com o nascimento
me emociona . . . Era uma forma de deixar-me acariciar pelas notas ... As notas do novo fllho. Sabe que este é um problema dela, mas necessita minha ajuda
eram parte de suas mãos, e eu queria que me acariciassem. Mas eu preferia para poder ter e amar a nova criança. Diz: "O tratamento anterior me ajudou,
que tocasse, era uma forma de recebê-la. Senão, não havia nada. Essas sei que as dillculdades são coisas que passam pela minha cabeça. Aceitaria
notas eram como uma forma de receber suas caricias. (Soluçando.) E é tratar-me novamente?" Começa uma segunda etapa na qual Helena parece
curioso, mas minha mãe já não toca piano. Desde que seus filhos se foram, ter começado a sedimentar e a reparar, através de seus ganhos na relação
já não toca piano. Talvez já não o necessita ... nem nós também. É curioso com Margarida, o vinculo falido com a mãe.
que não tenha recordações de minha mãe, mas sim lembro-atocando piano" . Um dia, depois de umas férias que marcaram uma separação mais
(Por isso minhas interpretações não lhe servem, minhas palavras são como longa do que a habitual entre uma sessão e outra, traz um sonho. É uma
as notas do piano, são o único contato que recebe de mim, mas ao mesmo freira vestida de vermelho e preto. Não se pode saber se é freira ou prostituta.
tempo é algo que separa, um ruído, uma música que preenche o vazio "Para minha mãe - diz -, a sexualidade sempre foi pecado. Sempre disse
deixan do-a em uma solidão cada vez maior.) 'teu pai é um grosseiro', e eu sempre pensei 'eu não sou filha desejada porque
"Vejo-a muito parecida com minha mãe . . . Não sei, você não se parece minha mãe não desejou meu pai'. Ela não tolerava nada relativo ao sexo. Por
em nada . . . imagino que fuma e toma café e não toma café da manhã, que é exemplo, quando sabia que havia uma cena erótica em um filme dizia: 'Isso
uma forma de não estar presente. . . e sinto também que tenho medo que esta é uma porcaria, é como cagar em público' . . . Outro dia passei pela porta d e
distãncia se perca, porque é como se eu sentisse no fundo que ou nos sua casa enquanto você não estava. Perguntava-me o que estaria fazendo . . . "
separamos defmitivamente ou eu desapareço, então sinto a distãncia, mas (Há alguma relação entre essa porta fechada e o que me conta sobre
prefiro que exista sempre . . . ". sexualidade e sua mãe?) "Bom, quando éramos pequenos eu não aguentava
As mãos constituem o único contato corporal que Helena e eu temos. a porta do quarto fechada. . . tinha medo que meu pai lhe fizesse algo
Quando chega, quando se despede, nos dan1os a mão. As mãos da mãe, nos horrível. . . Talvez me incomodasse que depois de dizer que meu pai era um
primeiros tempos, trocaramsuas fraldas, sustentaram-na, e ela as recria em grosseiro se encerrasse com ele. . . tivesse segredos. Eu não vou ter segredos
seu próprio corpo; mãos desprendidas do outro, objetos com os quais se com Margarida. . . repare, e queria consultá-la, até pensei que esteja presente
tomou a si mesma como objeto auto-erótico. O tratamento se prolonga mais no parto . . . eu desejei ter o parto em casa e pensei que é melhor que Margarida
seis meses. Helena deixou de ouvir minhas interpretações como uma música o veja, é algo natural. . . ". Assim como fez sua mãe, Helena pretende usar uma
que preenche o espaço - ao mesmo tempo separadora e unillcante - para parte da verdade para enganar sua fllha. Ao tentar mostrar "a naturalidade
começar a usá-las como mãos aderidas aos seus próprios braços infantis. do parto", além de voltar a indiscriminar-se, confundindo a realidade de sua
Como a criança que leva a colher à boca com suas próprias mãos; para evitar fllha com sua própria realidade de mulher adulta, fazendo tábula rasa com
que chegue desde o outro, alheia, ela retoma minhas palavras como mãos as diferenças - que, por sua vez, implicam diversas realidades - oculta o
com as quais anula a existência do semelhante. Absorve-as em seu corpo, fundamental: que se um filho é um produto "natural" em seu caráter
evita o perigo e a ameaça de ficar submetida aos meus cuidados matemos. biológico é, ao mesmo tempo, produto de um desejo que está subjacente à
Nesse processo pode, também, diminuir seu vazio, começar a desprender­ gravidez. Desta maneira, ela usa uma parte da "realidade" para ocultar
se dessa fllha pela qual, se não é plenamente amada, será plenamente aquela outra realidade que é a que verdadeiramente a perturba.
odiada. Mas a captura a que fica submetida, esta verdadeira dialética do amo
Depois desses seis meses interrompe bruscamente a análise; seu e do escravo da qual se falou tanto nos últimos anos na psicanálise para
marido conseguiu trabalho em outra cidade e decidiram mudar-se para lá. referir-se à relação mãe-filho, não é da ordem do intersubjetivo. Se s e
Antes disso conseguiu desmamar sua filha, de dez meses, e começar a manifesta intersubjetivamente, se s e joga no plano d o vinculo com a filha,
170 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 1 7 1

é porque extrai sua força do caráterintra-subjetivo das imagos inconscientes o conceito d e psicose simbiótica
com as quais seus próprios obj etos libidinais originários se instauraram.
Helena não reproduz uma simbiose vivida com sua mãe em sua infância; Em 1930 -antes de ser estabelecida a classificação de autismo infantil
restitui, mediante um vinculo simbiótico, os aspectos falidos nas relações precoce, de Kanner -, Margaret Mahler começa a encontrar-se com casos
originárias com aquela mãe distante com quem se deparou em sua própria de transtornos emocionais severos em crianças cujo quadro clínico não
história. encaixa nas categorias nosológicas existentes. No entanto, diz Mahler, estas
Se exponho, em seu desgarramento, os fragmentos destas sessões crianças "não podiam ser forçadas à categoria de organicidade que tem
exiraídos do processo da cura de uma jovem que, quando me consultou servido como depósito de lixo" . 1
demandando uma análise, estava em vias de estabelecer uma simbiose "Dei-me conta gradualmente - diz - que o autismo era uma defesa ­
patológica com sua filha de quatro meses, é porque, freqüentemente, tanto uma defesa psicótica - contrária a essa necessidade vital e básica do ser
nos textos como nas informações clínicas de colegas, encontro o problema humano pequeno nos seus primeiros meses de vida: a simbiose com uma
ela simbiose patológica reduzido a uma explicação estrutural vazia de mãe ou com seu substituto materno. . . Foi assim como a teoria da origem
conteúdos específicos, na qual o conceito de mãe fálica, definido pela simbiótica da psicose infantil foi tomando forma em minha mente" . 2 Partindo
impossibilidade desta de aceder á castração, converte-se mais em um da necessária simbiose mãe-filho, dividiu a infância em dois períodos
adj etivo pejorativo e em uma coartada que encobre a impossibilidade do possíveis para a estruturação da psicose: um primeiro período, correspon­
analista de crianças de encontrar as determinações para essa estrutura, do dente ao primeiro ano de vida, e um segundo período (de localização da
que em uma verdadeira categoria explicativa. psicose simbiótica) , durante o qual a Appersoniernng da mãe (incorporação
Falou-se muito, nestes anos, da função paterna como impossível: das características de objetos externos ou pessoas através de um processo
remeteu -se - retomando a teoria freudiana da castração - o desejo da mãe de extensão do ego) , até agora narcisista, já não era suficiente para atuar
de ter um filho a seu desejo de um pênis, e a partir disso se re-situou contra a predisposição opressora de angústia nestas crianças.
corretamente o caráter antinatural do vinculo materno. A categoria de "mãe Mahler chegou, então , à seguinte conclusão: "Foi a separação emocio­
fálica" foi substituída no centro da psicanálise de crianças e dela derivam, nal da simbiose com a mãe o que atuou como gatilho para desconectar-se
- às vezes com certo grau de cientificidade, às vezes simplesmente como psicoticamente da realidade" . 3 A partir disso tentou precisar as diferenças
preconceito dos analistas, - os ganhos ou os fracassos da constituição entre o autismo infantil precoce e a síndrome de psi cose simbiótica.
infantil. A história do desenvolvimento da criança predominantemente sim­
No entanto, as fórmulas também operam nos analistas como modos de biótica mostra - diz - uma desigualdade de crescimento e uma vulne­
controle da angústia de desconhecimento: tenta-se apreender o obj eto rabilidade surpreendente do ego ante qualquer frustração menor. Em sua
através de um preenchimento de todas as aberturas que são deixadas em anamnese encontram-se evidências de reações extremas aos pequenos
aberto pela ignorância. "Simbiótica - diz-se - é a mãe que forcluiu o Nome fracassos que ocorrem normalmente no período do exercício das funções
do Pai". "A simbiose tem origem - escutamos com freqüência - na egóicas parciais; por exemplo, essas crianças abandonam a locomoção
impossibilidade da mulher de triangularizar as relações do Édipo em função durante vários meses porque caíram ou se sentaram alguma vez porque
de seu narcisismo". Desde outra perspectiva, mas não sem o mesmo vicio foram empurradas: a quebra aguda da realidade é introduzida, o que
de generalidade: "A mãe do simbiótico é uma mãe profundamente hostil; prova ser essencialmente um pânico de separação e de aniquilamento ,
tenta reativamente, mediante a superproteção, impedir que se cumpram em resposta a expressões tão comuns como serem inscritos no jardim d a
seus desejos de morte em relação ao filho". Fórmulas mais culpabilizantes infância, a hospitalização com separação fisica d a mãe ou o nascimento
do que produtoras de um conhecimento que inaugure novas possibilidades de um irmão, acontecimentos que podem servir como gatilho.
clínico-teóricas na situação simbiótica constituída. A mãe, o desejo de Na psicose infantil simbiótica, a representação mental da mãe perma­
morte, o narcisismo, são assim desgarrados de seu contexto histórico, de nece ou se funde regressivamente , não se separa do ser, participa na ilusão
suas imbricações no interior de um psiquismo conflitivo, marcado por de onipotência do paciente infantil. As crianças do grupo simbiótico
contradições, produzindo-se uma anulação das diferenças entre os diversos raramente mostram de forma evidente um transtorno de conduta durante
modos de organização simbiótica nas formas de instauração do aparelho o primeiro ano de vida, com excessão, talvez, de alterações do sono. Seu
psíquico infantil e no interior das relações específicas nas quais este se transtorno torna-se aparente em forma gradual ou subitamente nestas
constitui. intersecções do desenvolvimento da personalidade aonde a maturação d o
Nas Origens do Sujeito Psíquico I 173
172 I Silvia B leichmar
tomo de suas tentativas contínuas para alcançar a homeostase. O efeito dos
ego usualmente promoveria a separação da mãe e permitiria à criança
cuidados da mãe para reduzir os incômodos da necessidade-fome não pode
dominar um segmento sempre crescente da realidade, independentemente
serisolado, nem pode ser diferenciado pelo pequeno infante de suas próprias
dela.
tentativas de redução de tensão , tais como urinar, defecar, tossir, espirrar,
Enquanto que a criança autista nunca investiu libidinalmente a mãe
cuspir, regurgitar, vomitar e todas as formas através das quais um infante
e seus cuidados, a criança psicótica simbiótica está fixada a ela ou regride
tenta se livrar de uma tensão desagradável. O efeito destes fenômenos
a essa etapa da relação na qual a representação mental da mãe está fundida
expulsivos, assim como a gratificação alcançada pelos cuidados de sua mãe,
com a do ser.
ajudam o infante, com o tempo, a diferenciar entre uma qualidade d e
Mahler parte da formulação da Ego Psychology que considera relação
experiência 'prazerosa' e 'boa' e uma qualidade 'dolorosa' e 'má"' . 4
de obj eto o reconhecimento, por parte do suj eito, do obj eto externo como
Não insistirei neste momento a respeito das diferenças , já propostas,
diferente do ego e que implica uma superação do narcisismo primário
entre uma concepção do agente matemo como redutor de tensões e a
(equiparado ao anobjetal) . Se bem já nos detivemos nisto em capítulos
vertente em que nos colocamos ao longo de nossa investigação : mãe como
anteriores, é necessário assinalar que a fusão com a representação materna
fica colocada do lado do pré-objetal (para Margaret Mahler objetal é a relação
t!h
agente excitante, pulsante da sexualidade no f o. Mãe - q�e em um
segundo tempo da organização do psiquismo - da ao filho uma unagem d e
de amor com o objeto diferenciado do ego; se esta relação fracassa é anobjetal
si constitutiva do ego, sendo que esta imagem é defmida em função d o amor
ou pré-objetal).
a si mesmo, do narcisismo e da identificação. A redução do vínculo mãe-filho
No entanto, e apesar das diferenças teóricas que nos veremos obrigados
ao plano d a autoconservação é concordante com uma concepção do ego
a desenvolver, é de sublinhar o cuidado com que suas observações clinicas
organismo, ego percepção-consciência, regulador de necessidades: "Através
foram realizadas, permitindo o enriquecimento de nosso olhar sobre os
da faculdade perceptiva inata e autônoma do ego primitivo (Hartmann) ,
complexos fenômenos das psicoses infantis , ao mesmo tempo que nos
ocorrem traços de depósito de memória de duas qualidades primordiais dos
proporcionando uma nova ferramenta de análise ao separar esta entidade,
estímulos. Seguindo a hipótese, esses são investidos com uma energia
que descobre em sua vasta experiência, do conjunto da sintomatologia
impulsiva primordial indiferenciada ( . . . ) . Do segundo mês em diante, o
psicótica dispersa, para a qual a categoria de autismo converte-se em muitos
conhecimento confuso do objeto que satisfaz marca o, princípio da fase da
casos, de tão geral, em inoperante.
simbiose normal, na qual o infante se comporta e funciona como se ele e sua
Transtornos da linguagem tais como aqueles descritos em capítulos
mãe fossem um sistema onipotente: uma unidade dual dentro de um limite
anteriores, aonde a concordância verbal ou o manejo do pronome indicam
comum".5
que os limites do ego são confusos, englobando a um semelhante em um
Dever-se-á passar, então, segundo Mahler, porum processo maturativo,
plural inexplicável ou apelando a um infmitivo que dá conta da não
do plano da função ao plano da representação, a partir de engramas d e
constituição de um sujeito de enunciado; transtornos na instauração do
memória inatos presentes n o ego primitivo, e é neste ponto onde o
principio de realidade que nos enfrentam com uma falha no recalcamento
descobrimento desta autora ficará limitado ao que é puramente descritivo ,
originário; problemas na numeração ou no exercício das matemáticas em
na medida em que as forças que defmem os movimentos desta passagem são
geral, que indicam através da não instauração do zero a impossibilidade de
endógenas e, a partir disso, o êxito ou o fracasso estarão constitucionalmen­
organizar o um, do qual o ego é a primeira representação, são questões que
te condicionados.
Mahler aborda em sua tentativa de por em jogo a categoria de simbiose
Um processo maturativo regido por leis do desenvolvimento apenas dá
normal ou patológica, fazendo-o, no entanto, desde uma perspectiva
lugar a uma descrição do movimento natural que o constitui. Não há
diferente da nossa.
hipótese explicativa em jogo, as explicações tomam-se tautológicas. Por
O termo simbiose é tomado emprestado da biologia, onde é empregado
exemplo: "Na psicose infantil, a relação simbiótica, ou está gravemente
como referência à associação funcional de dois organismos para sua
distorcida ou está ausente; isto é o que representa, segundo meu ponto de
vantagem mútua. A partir disso, apesar do matiz que a autora tentou
vista, o transtorno central na psicose adulta, assim como na psicose infantil
introduzir, situando uma desigualdade entre os termos - para a criança a
e na psicose da adolescência. Portanto, o transtorno central na psicose
dependência é absoluta, para a mãe é relativa -, amb os ficam situados no
infantil é uma deficiência ou uma falha na utilização intrapsíquica que a
mesmo plano: o plano da autoconservação, e definidos pelas funções vitais
criança faz da companheira materna, durante a fase simbiótica e sua
que ligam a criança à sua mãe. Diz: "A vigília do recém-nascido centra-se em
174 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 175

conseqüente falta de habilidade para internalizar a representação do objeto existem muitas outras experiências que levam a essa totalização, em
materno para sua polarização (. . . ) a individuação defeituosa ou ausente particular todas as experiências de investimento do limite corporal". s
encontra-se no centro da psicose infantil".6 Atualmente, em muitos autores, esta oposição sujeito - objeto onde o
Dizíamos que a causalidade torna-se tautológica, já que é impossível ego fica submerso substitui a velha concepção da alma por aquela de
explicar, sem apelar à hipótese freudiana da castração feminina e da organismo, mas não deixa, por isso, de estar na mesma perspectiva. Tanto
constituição das equivalências fezes- pênis-presente-dinheiro-criança, que na concepção de um ego (cognitivo) enfrentado a um objeto (de conhecimen­
é o que leva a mãe a estabelecer esta "dependência", que Mahler assinala, to), como de um ego (organismo) enfrentado a um meio (que satisfaz
em relação à criança. Se nos mantivermos nos limites da autoconservação, necessidades) , o que é escamoteado é a libido, e a sexualidade fica fora do
nos limites do corpo biológico, se reduzimos a função materna a agente campo de constituição do sujeito.
matemo, para usar a terminologia proposta por ela, é impossível capturar os Na teoria em que Mahler se sustenta, o narcisismo é então uma espécie
deslocamentos simbólicos que este vinculo sustenta ao deixar fora aquilo de circuito fechado, de mônada auto-suficiente, na qual não se pode falar d e
que o determina: seu caráter sexual, especificamente humano. obj eto enquanto que o sujeito aparece circunscrito a s i mesmo, desconhe­
O segundo problema teórico com que nos enfrentamos ao ler os textos cendo o objeto que satisfaz a necessidade.
de Mahler se relaciona com sua concepção de narcisismo. Partindo de um . �ejamos um dos maiores problemas que isto nos propõe. Em psicaná-
sujeito mõnada, fechado em si mesmo, impossibilitado de conhecer o agente lise nao se pode defmir uma entidade psicopatológica senão desde o plano
que satisfaz, o narcisismo primário é considerado como uma etapa onipo­ �o conflito: c � nflito �ulsional, conflito tópico; desde qualquer outra perspec­
tente do ser, que regeria as primeiras semanas de vida. O conceito de tiva, . o confhto sera o tema central em tomo do qual se joga tanto 0
narcisismo fica, então, equiparado ao conceito de autismo normal (tentativa funcwnamento normal como o patológico do sujeito psíquico.
que, como outros autores fazem freqüentemente - Tustin, por exemplo --'-; 7 �
_A lo � ização ?os pólos ou dos termos do conflito determina a aproxi­
_
pretende recuperar a classificação psiquiátrica para marcar sua vigência maçao teonco-chrnca com a qual a situação será defmida. Em que termos
não patológica nas origens da vida) . Na medida em que o narcisismo fica Mahler propõe a compreensão da entidade que descreve?: "Nas crianças
definído pelo contato ou não contato com a realidade, é impossível situar a psicóticas a falha das funções básicas do ego - de todas ou de muitas delas
estrutura metapsicológica que o sustenta. - pode ser atribuída a qualquer das seguintes condições: 1) a inabilidade
Em seu seminário sobre A castração, Laplanche diz: "Evidentemente, d? e�� �e criar a imagem intrapsíquica relativamente complexa do obj eto
não podemos defmi-lo (o narcisismo), de um modo tão geral, como uma sunbwtico humano; 2) a perda de uma representação mental precária do
relação de si consigo mesmo. Mas, de fato, na teoria psicanalítica, encontra­ objeto simbiótico que, devido ao fato de estar excessivamente unida ã
mos duas interpretações possíveis (as quais, aliás, não são absolutamente satisfação da necessidade na constância de objeto, não pode, portanto ,
contraditórias, salvo se admitirmos uma e outra ao pé da letra, sem enfrentar-se com as demandas da fase de separação-individuação. 9
interpretações) . Por um lado, a relação narcísica é concebida como uma Ao situar a função do semelhante como agente que satisfaz a necessi­
espécie de estado anobjetal, monádico, sem mediação, um sujeito fechado dade e ao ego como organismo vital, o conflito fica, necessariamente, entre
em si mesmo e sem relação com o mundo exterior; estado evidentemente o sujeito da autoconservação e a realidade. Por isso, ao longo de toda sua
hipotético, se supusermos que a criança começou, ao nascer, por encontrar­ obra, a sexualidade fica excluída. O fato de que a Ego Psychology tenha
se nesse estado, visto que, por defmição, nada poderíamos saber. Por outro evid enciado a função sintetizadora do ego não é, desde esta perspectiva,
_
lado, na outra interpretação, mais próxima da própria origem da noção, o senao o resultado da subsunção do campo da sexualidade no campo da
narcisismo é uma relação de si mesmo consigo mesmo por intermédio de autoconservação (no que logo passou-se a chamar função adaptativa do
uma certa imagem de si: é isso precisamente que indica o mito de Narciso ego), assim como nos termos nos quais o conflito será proposto . Entre
olhando-se na água. O narcisismo, se partimos da idéia de uma relação com autoconservação e realidade, o pseudo conflito joga o sujeito cindido para
a imagem de si, implica além disso, uma noção de totalização ( . . . ). Remete fora do campo analítico.
ao que se designa como constituição do ego e que é o fruto de experiências A partir disso a psicose só pode ser explicada como um fracasso do
complexas. Lacf.I: apresentou aqui a noção de "fase do espelho", que é processo maturD:tivo normal e não como uma vicissitude particular do sujeito
exemplar na m.edida em que a relação se estabelece verdadeiramente com na rede de relaçoes que o constituem, rede cujas determinações pudessem,
a imagem do outro e na medida, também, em que acelera e propulsiona a na verdade, ser cercadas . Assim, Mahler conclui: "Minhas próprias obser­
tendência para uma unificação do individuo em sua própria imagem. Mas vações não apoiaram as teorias que implicavam exclusivamente, ou mesmo ,
176 I Silvia Bleichmar Nas Origens do S ujeito Psíquico I 177

principalmente a mãe esquizofrenizante". Creio que é mais útil enfocar este do corpo da mãe e que o temor d e roubá-la é fator importante para as
problema em termos das séries complementárias (Ergiinzungsreihe): a. se inibições da leitura". 11
durante afase autista ou simbióticamais vulnerável ocorre um traumatismo Um saber que só se adquire através da intromissão no corpo matemo
muito severo acumulado e cambaleante em um infante constitucionalmente tem como conseqüência a angústia de castração - no menino - e o temor
bastante robusto, pode se produzir a psicose e no mundo externo o objeto de ataque ao ventre fértil, como retaliação, na menina. Em ambos os casos,
humano perde sua capacidade catalizadora de sustentação e polarizante a procriação - e, por conseguinte, a diferença de sexos - se obtém
para a evolução intrapsíquica do infante e seu 'rompimento da casca'; b. por arrancando do interior da mãe esse segredo, que é sua chave - ou a do
outro lado, em infantes hipersensíveis ou vulneráveis, a atuação maternal nascimento das crianças, se usamos a linguagem infantil -.
normal não é suficiente para atuar contra o defeito inato da utilização Por isso Melanie Klein estabelece uma relação estreita entre o sadismo
polarizante de apoio e catalítica do objeto amoroso humano ou da agência -patrimônio desta etapa do desenvolvimento infantil - e a constituição da
maternal no mundo externo para uma evolução e diferenciação intrapsíqui­ curiosidade intelectual, curiosidade que se desenvolve em meio a uma luta
ca". 10 despedaçadora para apropriar-se dos conteúdos valiosos que o corpo da mãe
possui em seu interior.
Mas o paradoxo que nos é oferecido é que essa luta apenas pode
Relações entre o externo-exterior (materno) e o externo-i nterno produzir-se pela aquisição daquela posição fantasiada, em momentos em
(do inconsciente infa ntil) que se sente que esse outro já não é parte de si mesmo. A partir disso, o
sadismo que impregna esta batalha por apoderar-se dos conteúdos mater­
Em 1905, nos TI-ês ensaios, Freud estabeleceu as primeiras relações nos não pode ser, em nossa opinião, senão o produto de uma separação que
entre a vida sexual infantil e a pulsão de saber, propondo que não sãó os gera um espaço exterior que marca o limite de todas as possessões possíveis.
interesses teóricos, senão os práticos, os que desencadeiam a atividade Deste modo, a instauração do ego instância, constitutiva dos limites do
investigadora na criança. Para suas condições de existência, a ameaça que externo-exterior e do externo- interno, é um movimento simultâneo e, ao
a chegada de um irmão real ou fantasiada significa, constitui o primeiro mesmo tempo, efeito desta diferenciação do semelhante.
problema teórico que a preocupa. Apergunta: de onde vêm as crianças?, que Uma situação que tive a oportunidade de presenciar no curso da cura
remete à diferença dos sexos e, em conseqüência, à premissa universal do de uma pequena paciente pode servir de exemplo para abordar este ponto:
pênis, instala-se nesse espaço que inaugura uma distânciaem relação à mãe Regina, de quatro anos, toma um carrinho em uma sessão de análise.
e que constitui a primeira tentativa de abertura de um lugar para cada um Envolve-o em um cobertor e o embala enquanto canta. Pergunto-lhe: "É teu
dos membros da díade. bebê, Regina?". "Sim - responde - e vou mostrá-lo à minha mãe". Sai na
Esta relação entre a inquietante estranheza que remete ao corpo da mãe sala de espera e volta imediatamente, dizendo: "Desisti, minha mãe está
como desconhecido e a instalação da curiosidade científica foi desenvolvida lendo". Interpreto: "Tens medo de mostrar o bebê à tua mãe porque temes
por Melanie Klein em diversos trabalhos; os mais importantes deles - e aos que ela embrabeça contigo como tu o fazes quando pensas que ela pode ter
quais fizemos referência em outros capítulos - são "A importância da bebezinhos na barriga". Responde, com um sorriso malicioso: "Ai, Silvia, que
formação de símbolos no desenvolvimento do ego" e "Uma contribuição à boba que tu és, não te deste conta que era um carrinho?"
teoria da inibição intelectual". Neste último, referindo-se às inibições de Da mesma forma que Helena engana suafllha com a verdade, ao tentar
aprendizagem expostas através do material clinico de um menino chamado apresentar-lhe o parto como natural quando, através da situação à qual
John, dizia: "Isto parece concordar com o que se pode ver confirmado na pretende expô-la, a violência pretendidamente eludida retoma, Regina
análise de todo homem, ou seja, que seu temor ao corpo da mulher, como utiliza a realidade para encobrir outra realidade, aquela da rivalidade com
lugar cheio de destruição, pode ser uma das causas principais de perturba­ sua mãe, de seu desejo de ter um filho que, estando atravessado pelo desej o
ção da potência. Mas esta angústia também é um fator básico de inibição do de pênis d o pai - possessão imaginária da mãe - a submete a uma luta
impulso epistemológico, já que o interior do corpo da mãe é o primeiro objeto mortal pela apropriação dos conteúdos valiosos em disputa. Esta realidade
desse impulso; na fantasia, é explorado e investigado, e também atacado - verdadeira - com a qual se encobre outra verdade, corresponde a outra
com todo o armamento sádico, incluindo o pênis como uma arma perigosa ordem de realidade. Arealidade (Wirklichkeit)põe-se a serviço do ocultamento
e ofensiva"; e, em continuação, Melanie Klein acrescenta: "J. Strachey da realidade psíquica, da escamoteação do desejo inconsciente, que está
mostrou que a leitura tem o significado inconsciente de tomar conhecimento sempre presente no jogo intersubjetivo com o qual se pretende anular a
178 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 179
diferençageneracional, que implica posições no interior da estrutura edípica manifestos d e nenhum tipo. No inicio da entrevista a mãe disse: "Na
e formas de circulação dos objetos de desejo. realidade, ela diz que sou eu quem deve vir- e acrescentou rindo -, diz que
No entanto , o segredo da mãe a respeito de seu próprio corpo permite se me interessa tanto uma consulta que a faça para mim". Na verdade, esta
que Regina possua seus próprios segredos, que desdobre a realidade não é uma situação atípica em consultas de crianças; os pais, em muitas
jogando com a possibilidade que é proposta pela abertura de diversos
ocasiões, pedem entrevistas sem ter muito claro qual é o sentido delas, e se
espaços.
eu me sentisse obrigada a fazer uso da ortodoxia psicanalítica não teria
Ao enunciar sua prúneira mentira na sessão, Regina me mostra como "a
dúvidas, neste caso, de que esta mulher sentia, na realidade, em uma parte
má fé" não é senão um efeito do reconhecimento da verdade, posterior à
de si mesma, que esta frase que dizia de início era correta, e que mínha
interpretação que revela um segredo que até esse momento tinha estado
função a respeito era, como ocorre com qualquer Witz que o sujeito formule
subtraído dela mesma, tinha sido da ordem do inconsciente.
no interior do campo analítico, tender a que seja assumido em sua condição
Victor Tausk, em seu trabalho "Acerca de la génesis del aparato de
de verdade recalcada.
influir en el curso de la esquizofrenia" ( 1 9 19) 12, acentuava este papel da
No entanto, talvez no próprio pretexto da consulta estivesse, neste caso,
primeira mentira como um momento constitutivo dos limites do ego.
a resposta que me possibilitaria entender o que realmente ocorria. Permiti
Partindo do sintoma observado em pacientes psicóticos, atribuído a uma
que o discurso se ampliasse nessa direção: "Você sabe?, mínha filha e eu ­
perda dos limites do ego, pela qual esses pacientes se queixam de que todo
em função do divórcio e porque temos vivido muito sós - sempre temos sido
mundo conhece seus pensamentos, que estes pensamentos não se encon­
muito unidas. Ela sempre me contou tudo e eu contei-lhe tudo a meu
tram seguros em sua cabeça, senão difundidos sem limites no mundo, de
respeito . Não temos segredos, sempre nos dissemos a verdade, toda a
modo que se desenvolvem simultaneamente em todas as cabeças, dizia: "O
paciente perdeu a consciência de ser uma entidade psíquica, um ego que verdade. . . e nos últimos temp os sinto que há algo que me escapa, como se
possui seus próprios limites" . 13 A que etapa do desenvolvimento infantil ela tivesse se tomado mais reservada . . . não me conta tantas coisas ; às vezes,
Tausk remetiaesta regressão que observava em pacientes psicóticos adultos quando tento saber o que fez no sábado . . . me dá uma resposta geral: 'Fui ao
e cujo conhecimento permitiu-lhe proporcionar uma extensa informação a cinema com meus amigos'. 'Com quais?', pergunto. 'Com companheiras da
respeito do "aparelho de influência"? A essa etapa na qual a identificação não escola .. . ' 'O que viram?' 'Umfilme deTrinity .. .'. 'Gostaste?' 'Ai, mãe, tuqueres
se diferencia da escolha de objeto, etapa do narcisismo que - descrita por sempre saber tudo!' Veja, doutora, tenho medo de, que nos estejamos
Freud no capítulo III de O ego e o id - corresponde à identificação primária. separando. Venho por isso . . . quero que você a veja, a faça falar e me conte
Se introduzimos a teoria da identificação especular vemos que essa identi­ o que ocorre".
ficação primária anterior à constituição dos limites do ego e na qual os Nesta mãe havia uma vontade de saber, equiparável a uma possessão
pensamentos da criança e do adulto estão fundidos - etapa que retoma na imaginária, a uma captura do outro que não deixasse aberto nenhum espaço
paranóia tanto através do roubo de pensamento , como do delírio de de intimidade possível. Diante de sua filha adolescente, hermética e em u m
influência -, esta primeira etapa narcisista, é anterior à instauração da momento de iniciação, sentia que algo lhe escapava e vinha- submersa n a
Spaltung que separa o sujeito, tanto do objeto, como de seus próprios desejos angústia - buscar mais uma cúmplice do que uma analista, alguém que
inconscientes . Neste estágio, diz Tausk, "os pais sabem tudo, até o mais pudesse extrair, nestas circunstãncias, "todos os segredos", para restituir­
secreto que possa existir, e sabem até que a criança consegue dar sua lhe seu poder sobre esta filha em vias de independizar-se. Colocando-me na
primeira mentira". "A luta pelo direito de possuir segredos sem que os pais posição das antigas alcoviteiras da novela ardilosa, esta mulher apelava a
o saibam é um dos mais poderosos fatores da formação do ego, da outra mulher para que lhe permitisse apoderar-se do objeto amado.
delimitação e da realização de uma vontade própria" . 14 Diferente de outros pais que demandavam "que a criança não sej a
Estes parágrafos me fizeram refletir, em diversas ocasiões, a respeito agressiva", "que deixe d e tomar-nos a vida impossível" o u que "não esteja tão
das relações entre o direito ao segredo e a constituição do inconsciente. Há enciumado em relação ao irmão" - o que, definitivamente, não representa
alguns anos fui consultada por uma senhora divorciada que veio consultar­ senão uma tentativa de estabelecer um contrato social básico em momentos
me com o obj etivo de pedir-me um diagnóstico de sua filha de treze anos. em que a estabilidade familiar está em perigo , para o qual se pede ao analista
Segundo seu relato , esta não apresentava : nenhum sintoma, era uma que retire o sintoma que trava a convivência -, esta mãe, mais ambiciosa,
menina agradável e sadia que possuía um bom desenvolvimento intelectual, demandava que eu me pusesse a serviço de um desej o insaciável de saber,
· sociável, aproveitava sua vida cotidiana e não parecia ter problemas saber que aparecia como a possessão imaginária do todo.
180 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 1 8 1
Em La pie[ de Zapa, através do monólogo do antiquário que inaugura a unidade com a qual se confunde e s e iguala. Esta unidade é aquilo no qual
obra, Balzac realiza uma apologia do saber nestes termos: "Vou revelar-lhe, o sujeito se conhece pela primeira vez como unidade, mas como unidade
em poucas palavras, um grande mistério da vida humana. O homem se alienada, virtual. Ela não participa das características de inércia do
consome através de dois atos cumpridos instintivamente que esgotam as fenõmeno consciente sob sua forma primitiva, tem, pelo contrário, uma
fontes de sua existência. Dois verbos expressam todas as formas que estas relação vital, ou contra-vital, com o sujeito" . 15 Objeto contra-vital, ou contra­
duas causas de morte tomam: quererepoder. Entre ambos os termos da ação investimento, efeito do amor totalizante da mãe quando a castração a
humana, há uma fórmula da qual os sábios se apoderam e à qual devo a constituiu enquanto tal, quer dizer, enquanto mulher na qual a sexualidade
felicidade de minha longevidade. O querer nos abrasa e o podemos destrói; feminina se constitui nas equivalências pênis-criança.
mas o sàber deixa nossa débil organização em permanente estado de Se o ego é um objeto capaz de ser amado - investido - por uma parte
calma . . . Como preferir todos os desastres de vossas vontades enganosas, à cindida do sujeito, o narcisismo - apelando à teoria desenvolvida por Freud
sublime faculdade de fazer comparecer em si mesmo o universo, ao imenso desde "InlrodU{;ão do narcisismo" até Luto e melancoLia e O ego e o id-, esse
prazer de se movimentar sem estar amarrado pelos laços do tempo nem pelas amor se dará sobre o ego, constituído por identificação primária, quer dizer,
travas do espaço, ao prazer de tudo abraçar, de tudo ver, de inclinar-se sobre por uma relação imediata com o outro, em que a carga e a identificação não
a borda do mundo para interrogar as outras esferas, para escutar a Deus!". se diferenciam.
O saber aparece como aquilo que é capaz de atenuar todos os desejos, Tomando o que já desenvolvemos em outro capítulo em relação à
de diminuir todos os anseios, de apoderar-se de todas as coisas. Não está, diferença entre amor de objeto - libido objetai - e objeto da pulsão, é
de tal modo, na medula de toda simbiose? Nela não se trata apenas de necessário introduzir uma nova diferenciação. A escolha narcisista de objeto
apropriar-se do corpo, não é apenas controle da materialidade do outro opõe-se à escolha de objeto por apoio.
através dos orificios do corpo passivizado. A simbiose tende a um absoluto: Da mesma maneira que na autoconservação a relação de sexualidade
se o corpo é controlado, em realidade o é através do fato de que os será marcada não por uma identidade com o outro, senão por uma espécie
pensamentos não se liberem. A garantia absoluta da simbiose está na de complementariedade: "Pelo contrário, na escolha de objeto narcisista, o
apropriação "da alma", em seu assassinato, como o doutor Schreber o escolhido não é de nenhum modo o complementário, senão o idêntico a si
manifestava maravilhosamente na educação de seu filho, o futuro presiden­ mesmo, ou em todo caso é escolhido por algum elemento que lhe é idêntico. 16
te. As formas de amor narcisista que Freud menciona nos permitirão
Pode-se sustentar a categoria de psicose simbiótica - e recuperar as aproximar-nos aos fragmentos de Helena, anteriormente expostos, para ver
cuidadosas observações clínicas de Margaret Mahler- se a desgarramos do de que modo ocorre a relação com sua filha.
contexto teórico no qual esta autora a constrói? Em minha opinião, não só " . . . é como se Margarida me devolvesse uma imagem tão completa, tão
é possível efetuar esta operação, senão que inclusive aquela categoria pode perfeita de mim mesma, que não suporto vê-la má". Através da imagem que
ser enriquecida e ser ampliada em novas perspectivas. O material de Helena, sua filha lhe reflete, Helena se vê completa, perfeita; de tal modo ama, em
antes exposto, mostra que o reconhecimento das condições simbióticas nas Margarida, uma imagem de si, o que ela mesma é (primeiro tipo de escolha
quais a criança se constitui em reLação com o inconsciente matemo abre o narcisista que Freud propõe). Este primeiro tipo, que implica anão busca de
caminho para a prevenção da psicose simbiótica, evitando que esta se um objeto externo a si mesmo, não impede que Margarida seja amada por
instaure a partir da detecção das condições que a geram desde a própria mãe. sua mãe. Mas a frase remete ao caráter narcisista deste amor, na medida em
Quer dizer: o reconhecimento dos traços que, desde a estrutura, podem que é através de Margarida que Helena pode amar-se a si mesma, refletida
precipitar uma entidade psicopatológica na criança permite não apenas o nela.
diagnóstico precoce, senão inclusive a prevenção. Se seguimos o curso de suas associações,encontramos: "Minha mãe
Optamos pela vertente teórica que considera o ego um objeto, como sempre esteve ausente, embora fisicamente presente. . . sempre foi
enuncia Lacan no Seminário II: 'Toda a dialética que lhes dei a titulo de ambivalente, inclusive com minha filha. Faz-lhe casaquinhos tecidos que
exemplo sob o nome de estágio do espeUw está fundada sobre a relação entre, sempre lhe ficam grandes ou pequenos , põe apenas dois botões quando são
por um lado, um certo nível de tendências, experimentadas - digamos por necessários quatro, carrega-a em seus braços, mas mal. . . ". Margarida
agora, em determinado momento da vida - como desconectadas, discor­ permite a Helena, novamente, construir uma imagem de si mesma, mas por
dantes, fragmentadas - e do qualsempre resta algo -, e por outro lado, uma contraposição. Ela é uma "boa mãe", está posta no lugar do ideal do ego; sua
1 8 2 I Silvia Bleichmar Nas Origens do S ujeito Psíquico I 1 8 3
· mãe "má", no negativo deste ideal. Deste modo garante um lugar na Por isso Helena deve estar em uma fusão simbiótica constante com sua filha:
estrutura onde apenas há duas possibilidades: o totalmente bom e o se a deixa, corre o risco de ser odiada como ela odiou sua mãe pelo abandono.
plenamente mau. Não deve permitir nenhuma fissura, nenhum recorte que possibilite a
"Ontem voltei e a vi chorando... quando levantei-a não me olhava... constituição de dois sujeitos diferentes. No momento em que isso ocorra a
estava com o olhar perdido... creio que é como se eu desaparecesse quando angústia vai adquirir características mortíferas, como o confirma o desen­
a deixo... beijei-a e beijei-a ... necessitava que me sentisse ali... Tinha medo volvimento posterior do tratamento, que faz surgir a despersonalização na
de que me odiasse. Sempre senti minha mãe ausente... ". O segundo tipo de sessão.
escolha narcisista, diz Freud, é amar o que fomos. O terceiro tipo, o que se Sua tentativa de anular toda separação, toda distância, que reaparece
gostaria de ser. de maneira simbólica quando se introduz um terceiro referente (cena
No discurso de Helena aparece, através da anulação do tempo, amar originária que marca a possibilidade permanente de satisfazer todo o ansei o ,
o que gostaria d e ter sido, para evitar o que foi. Ela foi uma menina carente, de fechar todos o s espaços, de compensar todas a s frustrações), é resultado
com uma mãe ausente, e ama em sua filha, não o que quereria ser, senão de seu desejo infantil insatisfeito e é uma defesa que impede que o ódio em
aquilo que teria querido ser. O narcisismo, neste caso, restitui o aspecto relação à sua própria mãe retome na filha, destruindo a imagem totalizante
falido de sua história através de um movimento pelo qual amando uma que trabalhosamente tenta conservar. Narcisismo que não tem por
pessoa que - apenas desde o observador - foi uma parte de si mesma contrapartida a castração genital imaginária, senão a desintegração que põe
sendo, no presente, ainda parte de si. em risco permanente a imago de corpo despedaçado, o que mostra que, para
A sessão começou com a frase: "É como se o tempo não existisse". Helena, Margarida é o articulador que a sustenta e a preenche inteiramente,
Talvez esse seja um elemento a reconsiderar nos modelos que Freud oferece deixando-a em risco de vazio e de fratura constante quando o desprendimen­
para o narcisismo. Ama-se o que se quisera ser, ama-se o que se foi, ama­ to se opere. Sustentada sua própria imagem através dessa filha-pênis, a
se o que se gostaria de ter sido, mas tudo isso se produz no presente. Ama­ separação que a priva se converte em um buraco que abarca todo o seu ser
se o que se é a partir do fato de que a imagem do outro, ao refletir-se, anula e pelo qual corre o perigo de esvaziar-se.
todos os tempos, fecha todos os espaços. No momento da escolha narcisista Nesse processo de consolidação que a análise busca, mediante o qual
de objeto os tempos se unem em um presente permanente e, como ocorre nas pode desgarrar de sua própria história os elementos que a amarram em sua
formações do inconsciente, a atemporalidade constitui a presentificação impossibilidade de sentir um corpo matemo suave e nutrido, Helena
constante do desejo. também poderá receber minhas interpretações (estranhas até pouco tempo,
Daí ã anulação dos espaços que instauram a diversidade dos sujeitos, música separadora) como articuladores que a constituem nes s e
o mov imento se desliza sem transições. O ego de Helena engloba Margarida, entrecruzamento d e fios queainda lhê impedem a instauração de um espaço
não lhe oferece resquícios através dos quais ela possa estabelecer um espaço externo não hostil que possibilita, por sua vez, a instauração do externo­
secreto, nem algo interno alheio à mãe. Para que se constitua a diferenciação interno em sua própria filha.
no interior do próprio aparelho, é necessário que, simultaneamente, se
fundem os espaços externo-exterior e interno-externo. A separação do outro
é a condição, também, da separação desse si mesmo que se toma estranho Notas d e referência
e ao qual o recalcamento secund ário consolida posteriormente. A inquietan­
te estranheza, a que Freud aludia em "O sinistro", é o familiar que se tomou 1 . M. Mahler, Simbiosis humana; las vicisitudes de la individuación, México: Joaquin
estranho, aquilo que desgarrado do sujeito volta a importuná-lo constante­ Mortiz, 1 9 72 , pág. 1 7.
mente de modo ameaçador. 2. Ibid., págs. 1 8-9.
Helena teme que Margarida a odeie se não está presente. No entanto, 3. Ibid., pág. 20.
ela me odeia quando se separa de mim. "É como se em uma relação, ao 4. Ibid., pág. 25.
5 . Ibid.
romper-se uma certa distância que me convém, o outro se convertesse em
6. Ibid., pág. 52
alguém perigoso. E você é uma mulher mais velha, as mulheres mais velhas
7. F. Tustin, Autisme et psychose de l'enfant, Paris: Seuil, 1 977.
são perigosas... ". 8. J. Laplanche, Castração. Simbolizações, Problemáticas 11, São Paulo: Martins Fontes
A hostilidade se desfaz quando o objeto se distancia. O objeto perdido Editora Ltda., 1 988, pág. 54.
sempre é um objeto mau, um objeto persecutório, odiado por sua ausência. 9. M. Mahler, op. cit., pág. 145.
184 I Silvia Bleichmar

10. Ibid., pág. 70 (os bastardos são nossos) .


1 1 . M. Klein, "Uma contribuição à teoria da inibição intelectual", em Contribuições à
psicanálise, São Paulo: Editora Mestra Jou, 1970, pág. 325.

10
12. V. Tausk, Trabajos psicoanaliticos, Barcelona: Granica, 1977.
13. Ibid., pãg. 98.
14. Ibid.
15. J. Lacan, Le séminaire, libra II: Le moi dans la théorie de Freud et dans la technique
de lapsychanalyse, Paris: Seuil, 1978, pãg. 66.
16. J. Laplanche, A angústia, Problemáticas I, São Paulo: Martins Fontes Editora Ltda. ,
1987.

Paradoxos da constituição sexual


masculina

Estamos por demais habituados, nos últimos anos, ao fato de que as


reflexões a respeito da sexualidade feminina constituam o eixo de grande
parte das investigações psicanalíticas. Os desenvolvimentos de Lacan, que
invertendo a fórmula levistraussiana propõem que no centro da sociedade
está a mulher intercambiando filhos por falos simbólicos, o acesso a novos
modos de conceber a castração a partir de seu pens amento e, junto a isto,
a recuperação dos trabalhos freudianos da década de vinte, por um lado,
fizeram balançar nossas preocupações de tal modo que grande parte das
produções a respeito da sexualidade girem em tomo da pergunta inicial,
proposta por Freud , sobre o mistério que a feminilidade encerra. Por outro
lado, nossa prática se desenvolve em um meio no qual o auge dos
movimentos feministas, propondo-se interrogantes e tentando dar respos­
tas à condição da mulher no seio da sociedade, a partir dos novos fenômenos
históricos em relação à sua inserção nos aparelhos produtivos, precipitam,
desde outra perspectiva mais sociológica e também, em grande medida,
mais ideológica, uma centrifugação no sentido de produzir um certo
embargo de nossas linhas diretrizes de pensamento.
Pareceria que se sustenta a ilusão de que a teoria sexual da masculi­
nidade não oferece grandes interrogantes nem estáabertaa grandes revisões
no seio do freudismo. No entanto, tanto nossa clínica cotidiana como
inúmeros fenômenos historicamente inovadores manifestam que se faz
necessário uma atualização, dando conta de que a riqueza das mesmas
excede, em muito, certas noções que operam como eixo de nosso pensamen-

185
186 I Silvia Bleiclzmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 1 8 7

to. É curioso comprovar que, enquanto o material recolhido em análises de por certo, a possibilidade de pensar em uma defesa extrema, no entanto, j á
mulheres é imediatamente generalizado e trabalhado em relação à tentativa faz muito tempo que comprovei que a interpretação, quando acerta em um
de constituir uma teoria da feminilidade, o mesmo não ocorre com as alvo próximo ao centro do conflito sem desembargar certeiramente o que
análises de sujeitos masculinos, e que grande parte daquilo que surge delas ficou obturado, ocasiona uma angústia intensa, produzindo a mesma dor do
em relação às vicissitudes da sexualidade ficam remetidos à singularidade manuseio de uma pústula cujo orificio não terminou de se abrir e drenar.
de uma subjetividade em processo sem que sejam postas em relevo nem Pelo contrário, aquela que consegue desentranhar o entramado fantasmático
generalizações nem revisões teóricas. que dá origem à angústia, proporciona alívio e gera, em muitos casos, o
Estaé a razão que hoje me leva a dar a conhecer alguns aspectos de uma prazer compartilhado do descobrimento.
investigação iniciada faz já alguns anos, cujos resultados ainda precários No entanto, a homossexualidade estava presente. Que faltava então
não deixam de incitar a abertura de uma certa linha de indagação que para que minha intervenção fosse eficaz? O que eu não havia percebido,
considero válida em virtude do giro que inaugura tanto para nossa teoria aquilo que não havia logrado pensar- porque estava mais além dos limites
como para nossa clínica. da teoria que manejava -, e que Manoel evidenciava, era o que pudemos
O primeiro interrogante se me propõs a partir do processo da cura entender posteriormente: o desejo emergente em seu jogo não se esgotava
empreendida faz já vários anos1 com um menino que tinha sete anos de na interpretação proposta, como ficou demonstrado no curso das sessões
idade. A consulta foi realizada a partir de um sintoma que consistia em seguintes, um ponto paradoxal de sua constituição psicosse:h.'Ual: tratava-se
11 morder a gola de sua roupa até rasgá-la, além de uma atitude geral passiva.
de vir a ser masculino, sexuado, a partir da incorporação anal do pênis
A constelação edípica na qual se constituía estava fortemente marcada pela
paterno. Eu havia interpretado o desejo homossexual, e o deixar de lado de
presença de uma mãe muito narcisista, com certa atitude desvalorizante em
seu desejo de masculinização, que abria o caminho em direção à
relação ao pai; este último assumia, por outra parte, o lugar secundário
heterossexualidade, a partir de uma nova dialética entre o ser e o ter,
outorgado, exercendo suas funções parentais de tal modo que tomavam
deixava-o inerme produzindo-lhe uma dor intensa que manifestou no modo
possível o desenvolvimento apropriatório que esta mulher operava.
descrito.
Havíamos trabalhado longamente com este meníno sua sensação
"Eu não entendia nada . . . ", e ante isto, ele me havia espetado a frase
asfixiante de estar encapsulado no interior matemo, seu temor a se
mais dolorosa que um paciente pode formular a seu analista. Ao desconhe­
desprender desta posição inicialmente atribuída, a tentativa desesperada
cer o móvel estrutural do fantasma, ao desconhecer o movimento histórico
por desgarrar, através de suas vestimentas, a membrana envolvente que o
continha ao mesmo tempo que o submetia, e o caminho em direção à no qual estava imerso, lhe havia proporcionado um saber acerca de si mesmo
atividade e à masculinização pareciam abrir-se depois de um ano de que anulava o próprio processo que a análise havia inaugurado: incorporar
tratamento. o pênis paterno e exercer ele mesmo seu sadismo genital no movimento que
Foi nesse momento que ocorreu o seguinte: estávamos em uma sessão o arrancava da presença capturante da mãe.
muito rica em jogos e simbolizações, na qual Manoel desenvolvia uma série Múltiplas observações somaram-se a posterioria esta primeira reflexão
de fantasias masculino-agressivas fazendo alguns soldados lutarem entre si enlaçando-se, por sua vez, com uma questão que parecia entrar em
estabelecendo campos de batalha e zonas de risco, em uma cena que os contradição na própria teoria. Sabemos, desde Freud, que inicialmente a
analistas que tratamos crianças estamos habituados a ver reiterar-se no mãe é, para ambos os sexos, o primeiro objeto de an1or, e podemos afirmar,
consultório. De repente, os soldados começaram a fmcar, com suas junto com ele, que o menino retém este objeto no complexo de Édipo. Por
baionetas, as nádegas do inimigo. Manoel começou a dar gritos nos quais outra parte, e através de outros elementos presentes em seu pensamento e
se conjugava o prazer e a dor. Intervi, então , fazendo uma interpretação em daquilo que observamos em nosso trabalho clínico, depreende-se que a mãe
relação ao desejo homossexual vigente; olhou-me espantado, comocionado, da pré-história do complexo de Édipo não é a mesma que aquela que se
e começou a gritar "não é isso, não é isso . . . !". Logo, enquanto chorava, dizia: constituirá no objeto de desejo a partir da instalação do reconhecimento da
"não entendes nada, não entendes nada . . . ". Saiu bruscamente do consultó- diferença sexual anatõmica: a mãe da pré- história do complexo de Édipo é
rio para procurar seu pai que esperava na sala de espera, e com sua ajuda a mãe fálica, investida de todos os atributos de completude com os quais
pude fazê-lo voltar para continuar a sessão. nossa teoria e nossa prática descreveram sua função.
Não sou daqueles analistas que pensam que uma interpretação A mãe atravessada pelo reconhecimento da castração está em uma
certeira pode produzir um desenvolvimento de angústia tão massiva. Cabia, posição diferente da mãe das origens em relação ao menino. Entre uma e
188 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 1 8 9

outra transcorreu essa "tormenta afetiva" que Freud descreve nos múltiplos mo, sempre ficam estabelecidas em relação à mãe e contribuem à auto­
textos elaborados a partir de 1919. O objeto vartou, seu estatuto mudou, não estima do ego ideal. Está claro que nestas proibições de base o superego
há continuidade direta senão uma descontinuidade marcada pela matemo joga um papel fundamental, mas o faz sob modos particulares:
ambivalência e pela intervenção de outra vartável que, tendo estado presente perder o amor da mãe não é o que está em jogo na dialética fático-castrado,
desde os inícios da vida, realmente não toma significado até esse momento senão naquela da vida e da morte. Perder o amor da mãe põe em jogo o
tanto para a menina como para o menino: o pai sexuado . aniquilamento do sujeito. A interdição do pai no filho homem, em sentido
Que relação têm a mãe d o desejo edípico - atravessada pela castração estrito, �al como a concebemos a partir do sepultamento do Édipo, recai
sobre o Edipo complexo, sobre o desejo em relação à mãe enquanto objeto
e genitalmente cobiçada - e o pai sexuado em relação . às suas inscrições
prévias? Os primeiros tempos da vida estão marcados pela passividade em do incesto.

relação ao semelhante. Obj eto das manobras sexuais do semelhante, A passagem de passivo a ativo pareceria se produzir quando o menino,
desejado e atravessado por sua sexualidade, as moções pulsionais entram ao descobrir a castração feminina, é precipitado na direção de uma queda
em correlação com o corpo do outro de um modo ainda auto-erótico. Guiado narcisista do objeto matemo, queda que arrasta consigo a angústia d e
pela pulsão de indício, submetido aos restos que são indícios dos objetos castração d o próprio menino e inaugura o movimento que o lança da

..
inscritos, o desejo infantil se revela como ativo em relação à meta pulsional, identificação à escolha amorosa de objeto: "A alta estima narcisista pelo .
mas conserva uma passividade radical em relação à mãe. Ao mesmo tempo, pênis pode se basear - diz Freud - em que a posse desse órgão tem a . . �" �
\.
não há sujeito no sentido estrito, sujeito do ego capaz de se representar a si garantia de uma reunião com a mãe (com o substituto da mãe) no ato do" �"", .t�
mesmo e capaz de enunciar-se a partir disso. Se a pulsão é acéfala2, se o coito. A privação desse membro equivale a uma nova separação da mãe; quer
'"'' :,
suj eito não se encontra ainda situado nestes primeiros tempos da vida, dizer: implica ficar de novo exposto, sem valor algum, a uma tensão
apenas a constituição do sujeito do ego, correlativa ao narcisismo, mas 6)�-
desprazerosa . . . ?

paradoxalmente sepultando os representantes pulsionais no inconsciente a No entanto, a pergunta vigente é: devido a quais fatores o menino
partir do recalcamento originário, pode dar curso a uma atividade que se desejarta esta reunião ao modo de uma dominância genital e não através da
revela em continuidade ao desejo, mas que, ao mesmo tempo, paradoxal­ totalidade de seu próprio corpo? E ainda, que tipo de identificação o menino
mente está a serviço da defesa. Atividade do inconsciente, passividade egóica deve realizar, antes do sepultamento do Édipo cuj a culminação inaugura a
em relação ao outro , a obsessão narcisista, a recusa primária como um modo possibilidade de se identificar ao pai através da incorporação das instâncias
de negativismo, realça o caráter profundamente ameaçador da alteridade do que constituem o superego? De que modo se apropria, então, o filho homem,
semelhante. dos traços sexuados do pai nesta passagem que o faz vir a ser ativo
Como ingressa o pai nestes tempos das origens,nos quais o originário atravessando seu posicionamento em relação à mãe?
sepultado no inconsciente está em vias de se constituir? Isso ocorre, tanto A perspectiva freudiana parece se reger a esse respeito pela contigüi­
na menina como no menino, de dois modos diferentes: por um lado, como li\ dade do obj eto real e por s�u caráter ativo a partir da determinação biológica:
aquele que separa o vínculo fusional inicial com a mãe - captura no W
fantasma de cena primitiva a partir do posicionamento que ocupa como
intervalo que separa do objeto primordial, assim o definiu Melanie Klein
) "Na fase do complexo de Edipo normal encontramos o menino ternamente
afeiçoado ao progenitor do sexo contrário, enquanto que na relação com o
progenitor de igual sexo prevalece a hostilidade. Não tropeçamos com
salientando sua função de corte mesmo antes de que se estabeleça seu nenhuma dificuldade para deduzir este resultado no caso do menino. A mãe
caráter de interditar -; por outro lado, e a partir dos cuidados precoces foi seu primeiro objeto de amor; logo, com o reforço de suas aspirações
compartilhados, como metonímia da mãe que inscreve, por sua vez, restos @ enamoradas, segue sendo assim, e em função da compreensão mais }
de percepção que não terminam de ser assimilados pelos movimentos de � do vínculo entre a mãe e o pai, este último só pode vir a ser um
�ro f da
pulsação3 que ela exerce. ·

Não há, nestes primeiros tempos da vida, pai no sentido psicanalítico


do termo : em suas funções constituintes do ideal do ego e da consciência
� l
nvaLY. ,,
Aparente linealidade que situa o pai no lugar do rival, quando, por outra
parte , as moções eróticas em relação ao pai definem o caminho d a
moral. (A criança, diz Freud em "Introdução do narcisismo", possui dois

identificação. Questão claramente analisada por Freud, por outra parte,
objetos sexuais originários: ela mesma e a mulher que a criou). As renúncias quando trata, em seus historiais clínicos, de marcar o caráter erótico do
pulsionais básicas, aquelas que precipitam o sepultamento do auto-erotis- desejo do filho em relação ao pai.
Nas Origens do Sujeito Psíquico I 1 9 1
190 I Silvia Bleichmar
Outra lU:� a po?� se� proposta: aquela que a via regressiva empreende, da
Paradoxo fu ndamental da identificação escolha a Identlflcaçao. Ela não nos afasta do que tentamos desenvolver. Se
esta via não pode ser concebida senão como residual ao Édipo e ainda com
Conhecemos o paradoxo da identificação masculina: ser como o pai-

1 enquanto sujeito sexuado -, e, ao mesmo tempo, não ser como o pai -


enquanto possuidor da mãe. De que modo se poderia produzir, no entanto,
uma identificação a um puro rival, a um puro obstáculo, sem enlace de amor
seus p a:adoxos: o fato de que em ambos os sexos, a identificação por
regre�sao da escolha de objeto determine a renúncia ao objeto, rompe a
.
l�eahd�de sup osta: por que o menino se identificaria ao pai senão porque
.
com ele? A identificação, nestes termos, seria impossível. ? mv�stiu eroticament� de algum modo - mesmo que seja através da
_ que propicia o desejo da mãe em relação a seu parceiro
Identificaçao
A bissexualidade constitutiva se revela como insuficiente para dar
sexuado?
conta disto. Há uma primeira explicação mecãnica, de caráter biológico:
É indubitável que o aporte libidinal, excitante, proporcionado pelo pai
segundo o predominio de tendências inatas, das "disposições" masculinas .
nos cmdados precoces, oferece substrato histórico-vivencial das aderências
ou femininas congênitas. Outra�terpretaçãopossível é que a bissexualidade
eróticas que se desenvolvem em relação ao mesmo. Que, em tal sentido
não é marcada na saída do Edipo complexo, senão em seu próprio
movimento e em suas implicações. "Uma indagaç?-o mais profunda deixa a
como metonímia da mãe, o pai inscreve marcas cujos indícios não s�
concebem na polarização que o corpo matemo exerce. Estas inscrições
f
descoberto, na maioria das vezes, o complexo de Edipo em sua forma mais
precoces, unidas ao desejo da mãe pelo pai presente desde os inícios, se nos
completa... O menino não possui apenas uma atividade ambivalente em
apresenta como uma via teoricamente mais coerente e de maior corrobora-
relação ao pai, e uma escolha tema de objeto em relação à mãe, senão que
ção clinica �o que a bissexu�idade constitucional enquanto biológica.
se comporta também, simultaneamente, como uma menina: mostra uma _ elo pm enquanto homem joga seu papel, por outra
O deseJO d � mae
atitude feminina tema em relação ao pai, e a correspondente atitude .�
parte, d? !�do daidentificaçao proposta ao menino como modelo no qual deve
ciumenta e hostil em relação à mãe. Esta inserção da bissexualidade ê o qúe
se precipitar. Jean Laplanche retomou, a partir da leitura de Freud, a
toma tão dificil penetrar com o olhar as constelações das escolhas de objeto
existência de dois significantes diferenciais para dar conta de doisfenôme­
e identificações primitivas, e ainda mais dificil descrevê-las em uma sintese.
nos de ordem diferente: Verschíedenheit (diversidade) e Unterschíed (diferen­
Também poderia ocorrer que a ambivalência comprovada na relação com os _ l distinguir entre o gênero e o sexo. Em relação ao
pais deveria referir-se inteiramente à bissexualidade, e não, como antes eu
ç�). Eles to�a� possiv �
genero, a diversidade nao se manifesta no campo dos contrários, senão no
expus, que se desenvolvesse pela atitude de rivalidade a partir da identifi­
can_rpo de n possibilid�des: diferenças culturais, sociais, bipartição da vida
cação".
soci� n� qual o mernno busca um fundamento lógico ao enigma de ter
Questão amplamente corroborada nos historiais clínicos de Freud, em
nascido filho de homem e mulher. As categorias de masculino e feminino não
Hans, no Homem dos Lobos, no Homem dos Ratos, e em Schreber, com suas
se li�am inicialmente à diferença sexual anatômica, mas são propostas a
partir �o fa�o d e que o adulto sexuado temestadiferença inscrita. Aposteriori,
diferenças, seus matizes e seus graus de presença do componente homos­
sexual.
e�ta diversidade co�eça a ocupar seu lugar, a situar-se na categoria da
Aludimos anteriormente ao caráter sedutor e pulsante dos cuidados .
diferen�a. A !lartir diss� , podemos assinalar que os traços de identificação
primários nos quais o pai ocupa, ante o corpo do filho, um lugar não apenas
n:asculma sao Pr?porc10nados pelo meio parental mesmo antes de que a
de interdição do gozo matemo senão de exercício, ele mesmo, de seu próprio _
diferença anatomica venha a ocupar seu lugar e ressignificá-los em seu
gozo auto-erótico - quer dizer, homossexual.
caráter de sexuado6•
Sobre esta determinação prévia se constitui a aspiração erótica
Esta diferenciação entre gênero e sexo deve ser levada em conta quando
primária em relação ao pai. No entanto, se a identificação ao pai tem em sua
se trata de discutir o preconceito, hoje menor, que ligava homossexualidade
composição um componente homossexual, sabemos que já não se trata da
à feminização afetada, já que os modos de superposição entre o gênero e o
passividade originária, da sedução passiva dos primeiros tempos da vida que
sexo na homossexualidade masculina se mostram, em primeira instãncia,
oferece seu substrato posterior à identificação primária. O material de
como formas de recomposição a nível da identificação primária com a mãe
Manoel, antes exposto, e outros que comentarei a seguir. manifestam isto.
dos primeiros �empos ante o fracasso da estruturação do ego representação
Nestes primeirissimos tempos, em razão de que não há sujeito, o passivo não
e suas mutaçoes a partir das circulações edípicas7•
é vivido com a ressignificação feminina que lhe será outorgada posterior­
A identificação a partir do gênero, embora aporte um substrato a nível
mente. Passivo e ativo ocorrem em tempos nos quais não adquirem de traços secundários da masculinidade, não esgota a questão identificatória
significado sexual para o sujeito que ainda está em vias de constituição.
192 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 1 93

e, mais ainda, opera, em certo momento , como contraparte do desejo erótico Que esta presença inquietante do pai se torne patológica ou estrutural
pelo pai, sem o qual a identificação sexuada é impensável. depende das vicissitudes e destinos dos movimentos constitutivos que a
Que ocorre nesse momento de passagem no qual o menino circula em encadeiam, efeito tanto das alianças edípicas originárias como dos
seu movimento edípico pelos trilhos de uma identificação com o pai genital traumatisrnos que o sujeito registra ao longo de sua constituição corno
mesmo antes de que a renúncia à mãe como obj eto incestuoso se tenha sujeito sexuado.
instalado plenamente e antes que se estabeleça a introj eção das proibições
e emblemas que constituirão o superego? De que modo se identifica o pai
sexuado, genitalmente potente, possuidor da mãe? O suposto caráter ativo Nathaniel e a identificação masculina falida
da masculinidade como originária, a partir da presença real do pênis,
obturou nossas perguntas. No entanto, enquanto nós formulamos, um novo O menino vai em busca do significante fálico paterno e sua introjeção
paradoxo se propõe como eixo de nossas preocupações: o fato de que toda simbólica abre os caminhos de uma fantasmatização que não o submete à
identificação remeta a uma introjeção, e esta a um modo de apropriação busca do real faltante . Neste caminho de sua aquisição,as determinações
simb ólica, sem dúvida, mas em última instãncia fantasmática do objeto do que o regem precipitam movimentos cujas conseqüências inauguram novos
qual o outro é portador, nos propõe o caráter altamente conflitivo da movimentos.
constituição da sexualidade masculin a- além mesmo da simplicidade com Nathaniel, cinco anos, iniciou tratamento a partir de um conjunto d e
a qual se pretende u reduzi-la à presença do pênis enquanto órgão real. transtornos estruturais que punham em risco sua evolução futura.
Ser como o pai em relação aos traços secundários . . . essa não é a Simbioticamente aderido à mãe, não se desprendia de sua mamadeira nem
questão quando, tanto desde a cultura como desde o desejo da mãe, a para ir ao colégio, ainda apresentava episódios de enurese e uma modalidade
proposta vem articulada como identificação na qual o sujeito se inscreve a queixosa que cansava suas professoras. Brincava de se disfarçar de
partir do outro. Ser como o pai enquanto sujeito sexuado, portador de um personagens femininos das histórias: Chapeuzinho Vermelho, Branca de

{
pênis capaz de proporcionar o gozo não apenas auto-erótico masturbatório Neve ... Aceitava uma fantasia de Batman oferecida por seus pais, usando­
do menino senão do obj eto, se propõe como uma questão mais complexa. a, embora deixando em baixo dela a saia da Gata Borralheira.
O caminho da introjeção-identificatória sempre propôs à psicanálise a No transcurso de dois anos, o tratamento conseguiu produzir urna
questão da zona e do objeto. O protótipo de toda identificação é o seio: verdadeira mudança e abrir o caminho identificatório masculino, liquidar os
suporte libidinal do intercãmbio apropriatório com o semelhante. Como restos de aderências primárias tanto auto- eróticas corno de fixação à mãe,
poderia o filho homem receber o pênis do pai que o torna sexualmente sepultando-as no inconsciente, assim como o abandono de traços d e

l potente senão fosse a partir de sua incorporação? Incorporação introjetiva


que deixa a masculinidade entregue para sempre ao fantasma paradoxal da
transvestisrno iniciais. A alta foi proposta sem que ficasse resolvida, d e
minha parte, uma certa preocupação: ao longo de sua análise haviam
I!P

homossexualidade. aparecido, reiteradamente, fantasias, desenhos e sonhos em que um leão


Um paciente gravemente obsessivo mostra isso: cada vez que tem subia em cima de outro ; a repetição ia ligadaa uma impossibilidade absoluta
relações sexuais com uma mulher, "outro" o atravessa com o seu pênis, de associação por parte de Nathaniel, que suspendia aí todo intercãmbio
analmente, e lhe oferece a potência necessária para o exercício genital. discursivo parecendo reduzir seu alívio à enunciação destas produções
Sujeito pontual, masculino-feminino ao mesmo tempo, nele isso se encarna compulsivas e ao meu silêncio respeitoso a respeito delas.
brutalmente em fantasmas de passivização homossexual, único modo de Minha dificuldade para compreender este material foi formulada aos
pais mais ou menos nos seguintes termos: resolvemos as principais queixas

i
exercício, até o momento, da genitalidade masculina.
Se a passividade, aquilo que é realmente recalcado no homem, é a que surgiram de início, diminuímos tanto seu sofrimento como o de vocês,
homossexualidade, é necessário explorar as duas vertentes que a constitu- e, no entanto , há algo que não entendo , que é a recorrência dessas
em enquanto estrutural e não como resíduo bissexual de alguma biologia produções. Que eu não o entenda justifica de que há algo não resolvido e,
fantas rnática: passivizado nos primeiros tempos da vida pela mãe fálico­ no entanto, sinto que não há possibilidade de ir além disso por agora.
sedutora, não pode aceder à masculinidade senão através da incorporação A constelação edípica inicial não me permitia entender o caráter
fantasmática do pênis paterno que oferece sua potência articuladora ao singular destas fantasmatizações. Um pai inicialmente ausente, a tendência
mesmo tempo que submete analmente nos intercâmbios que abrem os simbiotizante e passivizante da mãe, propunham condições estruturais nas
circuitos da rnasculinização. quais era fácil pensar em uma cena originária que se apresentava constan-
194 / Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico / 1 95
temente como uma resolução do enigma de seu engendramento e, no passivo e m ativo s e inaugura uma nova dificuldade: a identificação sexuada,
entanto . . . por que dois leões? Por que uma cena primãria homossexual? masculina, se enfrenta com a incorporação do atributo da atividade genital
Oito meses depois a mãe me telefonou profundamente angustiada: masculina, paterna, arrastando os restos libidinais d o vinculo originãrio
Nathaniel lhe havia confessado, nesses dias, que já fazia muito tempo - com o pai. Para ser homem, o menino vê-se confrontado com a profunda
r;t
tempos que correspondiam à etapa imediatame e anterior ao início do
. contradição de incorporar o objeto, outorgado pelo pai, que simboliza a
tratamento -, um primo maior, de doze anos, o havm encerrado no banherro potência, e, ao mesmo tempo, de recusar-se a si mesmo o desejo homosse­
� �
para sodomizá-lo sem que ele pudesse, durante algu tem o, nem se re�e ar � xual que é reativado pela introjeção identificatória.
nem contar o que ocorrera- o manifesto era que havra tenndo as represálras Os fantasmas homossexuais constitutivos da masculinidade devem

que o sedutorpudesse exercer- . Aanálise havia �berto o diálogo e Na aniel ser restituídos a seu lugar correspondente e analisados, portanto, no
havia podido liberar seu segredo para com a mae. Estava, agora snn, em movimento paradoxal que inaugura novas vias para a constituição
condições de assumir um novo processo onde pudesse reabrir aquilo que psicossexual.
havia ficado previamente obturado.
O menino retomou o tratamento no qual analisamos longamente sua
culpabilidade e o desejo que a sustentava. O enigma da masculinidade, a
Notas d e refe rência
falha na estruturação simbólica, o haviam levado a ceder ao outro sem que
pudesse se rebelar nem reconhecer o gozo secreto experimentado. Tratava­
l . Em 1982. C umpriram-se, com sobra, os nove anos de espera que Freud, a partir de
se de um verdadeiro ato de busca do "enigma da masculinidade", tipo de
Horácio, recomenda como reserva para confirmar uma verdade conjecturada. Ver
traumatofilia que havia constituído, desde o traumatismo real vivido, uma "Algumas conseqüências psíquicas da distinção anatômica entre os sexos". OC, Voi.
nova constelação cujos alcances só agora podiam ser abordados. Canais XIX.
intestinais de massa de modelar com bebês que deslizavam como em um 2. Como a definiuLacan em Los cuatro conceptosjundamentales delpsicoanalisis. Ver
escorregador, representando ao mesmo tempo sua fixação a uma teoria cap. XIV, "A pulsão parcial e seu circuito".
3. Empregamos pulsação para referir-nos a estes movimentos que Jean Laplanche
cloaca! da feminilidade e sua identificação fértil à mãe, resolução homosse­
desenvolveu em sua teoria da sedução generalizada, e que dão conta de um modo
xual da pas sividade originãria ante a mesma e do desejo de masculinidade
especifico e particular de constituir- se, mediante o ingresso na sexualidade humana,
falido . . . Nathaniel produziu, quase um ano depois, e na última sessão de sua da pulsão como resíduo das relações libidinais com o semelhante.
análise, uma ressignificação do valor traumático ao qual havia ficado 4. S. Freud, Inibições, sintomas e ansiedade, em OC, vol. XX, 1 976.
submetido a partir de seu déficit estrutural: "Silvia - me disse -, eu não 5 . S. Freud, Sexualidadeje minina, em OC, vol. XXI, 1976.
posso mudar o que me ocorreu, verdade?" Ante meu silêncio doído respon­ 6. Jean Laplanche, Castração. Simbolizações, Problemáticas li, São Paulo: Martins
deu: "Mas posso evitar que ocorra o mesmo a meus filhinhos . . . " mostrando Fontes, 1988.
7. O material clinico de um menino transvestista, ao qual tive acesso faz algum tempo,
em um mesmo enunciado a possibilidade futura d e reparação e sua
dava conta disso. Dormia com a camiseta de sua irmã mais velha, substituto matemo
afrrmação de uma função paterna protetora que o remetia defmitivamente que havia exercido estas funções nos primeiros tempos d a vida, como modo de evitar
a seu lugar de sujeito sexuado em relação a um objeto de amor. uma fragmentação psicótica a partir de sua envoltura em uma membrana que
A maioria dos casos que tratamos pareceriam não submeter-nos a uma garantia a proteção de uma pele, em razão de que uma falha na constituição do ego
força dramática de tamanha magnitude. No entanto, o exemplo de Manoel, narcisista não havia pennitido constituir esta a nível simbólico.
com o qual comecei esta exposição, mostra algo mais próximo à nossa 8. G. Bonnet desenvolveu a esse respeito,em seu texto "La homosexualidad - A
proposito de un caso de homosexualidad de origen traumatico", uma linha de
prática cotidiana e põe em jogo, de todos os modos, nossa capacidade de
trabalho que consideramos que abre perspectivas próximas a nossa. Em Trabqjo del
enfrentar o sofrimento humano. Algo em comum atravessa ambas as psicoanalisis, n. 9, Buenos Aires, 1988.
situações: atuada ou fantasiada, a homossexualidade é constitutiva, para­
doxalmente, da masculinidade. Definida no jogo de duas vertentes: a
passividade originãria em relação à mãe fálico-sedutora dos primeiros
tempos da vida, se ressignifica, a posteTioTi, quando o sujeito se estrutura
como tal e se produz a conversão que o transforma de passivo em ativo t;m
relação a um objeto, que, de todos os modos, já não é o mesmo na medir
em que está atravessado pela castração. Nesta impulsão que transforma o
Nas Origens do Sujeito Psíquico I 197

Por outro lado, as leituras realizadas nestes anos assinalam que esta
ê a tendência que cada vez mais a psicanálise de crianças deverá assumir,
além mesmo dos matizes teóricos com os quais os diferentes autores
enfrentam o fenômeno, e a perspectiva - predominantemente clínica ou,
também, predominantemente teórica -a partir da qual sua tarefa se instale.
Lang vai no mesmo sentido quando diz: "Sem dúvida os estudos
psicopatológicos em um ser em pleno desenvolvimento maturativo e libidi­
nal devem fazer-nos mais prudentes para evocar sob o nome de 'estruturas'
organizações ainda lábeis e não fixadas: noção de pré-estrutura ou, inclu­
sive, organização estrutural considerada em tal momento do desenvolvi­
mento, em tal criança, que apresenta tal história (. . . ) . Mas estes estudos
também nos levam a propor de outro modo o problema da especificidade d e

Conclusões tais organizações, chamadas atípicas , precisamente e m relação ao estudo


atual de nossos conhecimentos". 1
A perspectiva pela qual optei tenta tomar as entidades psicopatolôgicas
que o estado atual de conhecimentos oferece, não para definir o momento
de estruturação da criança em relação a estas, senão que utilizando-as como
apoiaturas descritivas, recortes da realidade a partir dos quais se possa
Todo processo de investigação deve ter, pelo menos, um momento parcial de teorizar metapsicologicamente o estado de constituição do aparelho psíqui­
fechamento. Este momento permite uma parada para olhar aonde se chegou co infantil no momento da consulta. Deste modo, tanto o conceito de
-a partir daquelas propostas iniciais das quais se partiu - e para onde deve neurose, como o de psicose, foram postos em relação aos movimentos que
tender o trabalho futuro , se é que a busca não constitui um processo justificam a estruturação do aparelho psíquico nas origens, fundamental­
fechado, circular, senão um conjunto de movimentos espiralados com mente, aquele que considero seu momento fundador, isto é, o recalcamento
pontos virtuais de entrecruzamento. originário. .
Três anos depois de ter iniciado um trabalho sistemático na elaboração Ao abordar a questão de que o processo secundário - a instauração da
desta "contribuição", encontro-me em situação de propor que alguns dos lógica, da temporalidade, da linguagem - testemunha a possibilidade do
elementos centrais atinentes à proposta inicial , fundamentalmente aqueles aparelho psíquico de ter constituído duas legalidades diferentes - a do
que se relacionam com a preocupação de por à prova a psicanálise de processo primário e a do processo secundário -, e dois tipos de conteúdos
crianças em sua correlação com a metapsicologia, deixaram de ser intuições diferentes marcados pelo conflito, cheguei necessariamente à conclusão de
mais ou menos sustentáveis, a partir de uma certa relação entre a que a neurose infantil ê indefmível em si mesma. Por isso, me vi obrigada a
experiência clinica e os desenvolvimentos teóricos freudianos, para conver­ diferenciar o que consideramos transtornos do funcionamento psíquico,
ter-se em uma linha d e trabalho que se consolida em meu espírito e me daquilo que podemos denominar, com pleno direito, sintomas; e defini
proporciona profundas possibilidades de transformação em meu trabalho sintoma, em sentido psicanalítico, buscando não apenas suas determina­
clinico. ções específicas, senão sua localização metapsicológica. Isto me levou a por
A idéia central de considerar um sujeito em estruturação, em relação em jogo os movimentos precursores que determinam os momentos prévios
ao qual não se pode definir, de inicio, nem a existência de sintomas - no da instauração sintomática no psiquismo e, em tal sentido, a redefmir os
sentido psicanalítico, enquanto formações do inconsciente - nem, em mecanismos prévios ao recalcamento originário: transformação no contrá­
conseqüência, a existência de uma neurose que implique a instauração rio e volta sobre a própria pessoa, não apenas como movimentos anteriores,
definitiva do recalcamento, não só mantém sua vigência inicial, senão que senão como verdadeiros precursores que preparam o caminho para sua
é confirmada, em minha opinião, ao longo do processo de investigaçã o instauração definitiva.
empreendido. Trata-se, desde esse ãngulo, de uma "historização" dos momentos
míticos constitutivos do aparelho psíquico. Isto implica um abandono do
196 conceito de estrutura? Não parece ser totalmente assim, mas cada vez mais
1 98 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Su;eito Psíquico I 1 9 9

nosso caminho nos afasta do estruturalismo como modelo, tanto em seu Oferece-nos como coincidente - além mesmo das diferenças específi­
caráter de a-historicismo radical, como no de subordinação à lingüística e cas que se abrem entre a ciência da história e a psicanálise - a tentativa de
transformação de todo fenômeno em um "sistema significante" . erradicação de todo sujeito transcendental que retoma na psicanálise
Foucault assinalou em relação a esta problemática:2 "Admite-se que o através das formulações reificantes do Outro, a Estrutura do Édipo, a
estruturalismo foi o esforço mais sistemático para desterrar o conceito de primazia significante. E, como efeito disso, o caráter outorgado ao conflito,
acontecimento não apenas da etnologia senão de toda uma série de ciências que fica deste modo localizado no centro da história (historicidade belicosa,
e, inclusive, no limite da própria história. Mas o que é importante é não fazer não "linguageira").
com o acontecimento o que se fez com a estn;tum. Não se trata de por tudo No entanto, não estamos de acordo com a proposta de Foucault em
sobre certo plano, que seria aquele do acontecimento, senão de considerar substituir totalmente o conceito de estrutura pelo de rede de acontecimen­
que existe toda uma série de categorias de acontecimentos diferentes que tos. Desde nossa perspectiva, destacamos o caráter histórico desta estrutu­
não tem o mesmo alcance, nem a mesma amplitude cronológica, nem a rae asituamos, por sua vez, em sua determinação, não como entrecruzamento
mesma capacidade de produzir efeitos. de redes de acontecimentos, senão como ligações e legalidade aonde esses
"O problema é, ao mesmo tempo, distinguir os acontecimentos, acontecimentos se inscrevem.
diferenciar as redes e níveis aos quais estes pertencem, e reconstituir os fios O recalcamento originário, tal como o abordamos , não é um simples
que os ligam e os fazem engendrar-se uns a partir dos outros . Por isso o momento de corte em um devenirfático, senão um movimento de verdadeiro
rechaço às análises que se referem ao campo simbólico ou ao domínio das reordenamento, de estabelecimento de legalidades específicas a partir das
estruturas significantes; e o recurso às análises realizadas em função de quais ahistóriaadquire sentido. Nemuma realidade "linguageira" aangagiere},
genealogia, de relação de forças, de desenvolvimentos estratégicos, de nem uma realidade factual podem dar conta da constituição do aparelho
táticas. Acredito que devemos referir-nos não ao grande modelo da língua e psíquico. São redes de relações estruturais - legais - inscritas em u m
dos signos, senão ao da guerra e da batalha. A historicidade que nos movimento que deve ser historizado - isto é, provido de sentido -; são ­
interessa e nos determina é belicosa, não 'linguageira' aangagíere}. Relação dizemos - as redes assim entendidas as que determinam o movimento de
de poder, não relação de sentido. A história não tem sentido, o que não quer constituição do sujeito psíquico, marcado pelo conflito.
dizer que seja absurda ou incoerente. Ela é , pelo contrário, inteligível e deve Em psicanálise, a partir do abandono da teoria da sedução, cujo ponto
ser analisada até em seus menores detalhes: mas de acordo com a de referência é marcado pela carta a Fliess de 21 de setembro de 1897, Freud
inteligibilidade das lutas, das estratégias e das táticas. Nem a dialética (como tende a matizar cada vez mais a teoria do traumatismo enquanto efeito do
lógica de contradição) , nem a semiótica (como estrutura da comunicação) papeljogado pelo acontecimento externo. Abre-se, então , a concepção de que
poderiam dar conta do que é ainteligibilidade intrínseca dos enfrentamentos . os acontecimentos exteriores extraem sua eficácia de fantasmas que ativam
Para esta inteligibilidade, ' a dialética'é uma maneira de esquivar a realidade e do afluxo de excitação pulsional que deles se desprende. Mas, por sua vez,
sempre azarosa e aberta, abatendo-a sobre o esqueleto hegeliano; e a Freud não se contenta, nesse momento, em descrever o traumatismo como
semiologia é um modo de esquivar o caráter violento, sangrento, mortal a ativação de uma excitação interna por um acontecimento exterior, que s ó
desta realidade, reduzindo-a à forma apaziguada e platônica da linguagem seria a causa desencadeante deste; sente a necessidade de remeter esse
e do diálogo". acontecimento, por sua vez, a um acontecimento anterior que estaria na
E logo Foucault acrescenta: "Quisera ver como podem se resolver estes origem de todo o processo.
problemas da constituição [dos objetos] no interior de uma trama histórica, O modelo proposto, então, é um primeiro acontecimento desprovido de
em lugar de remetê-los a um sujeito constituinte. Há que desembaraçar-se significação (sedução originária), ressignificado por um acontecimento
do sujeito constituinte, desembaraçar-se do próprio sujeito, isto é, chegar a posterior (constitutivo do traumatismo por apres coup}. Deste modo, o
uma análise que possa dar conta da constituição do sujeito na trama traumatismo não pode ser equiparado a um acontecimento,já que se insere
histórica. E isto é o que eu chamaria genealogia, uma forma de história que em uma cadeia na qual a significação não deixa de ocupar um lugar
dá conta da constituição de saberes, de discursos, de domínios de objeto, determinante. Mas essa significação é, narealidade, enganosa: seressignifica
etc., sem referir-se a um sujeito que seja transcendente em relação ao campo a sedúção originária o faz através da "protonpseudos " , que conserva um resto
de acontecimentos ou que transcorra em sua identidade vazia, ao longo da de realidade fatual, sem por isso revelar o acontecimento, que em si mesmo
história". segue sendo carente de significação.
200 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 2 0 1

Pierre Nora nos propõe uma elaboração a respeito do que considera as inconsciente, à captura do discurso. Trata-se, como propõe em Discurso,
relações entre "a produção do acontecimento" e os mass media que começam figura4, não de passar ao outro lado do discurso -já que unicamente desde
a capturar o monopólio da história: "Jornal, rádio, imagens, não se limitam seu interior cabe a possibilidade de passar para/ e dentro da figura -, senão
a atuar como meios em relação aos quais os acontecimentos seriam de recuperar o caráter violento que o silêncio assume. Este caráter violento
relativamente independentes, senão como a própria condição de existência está dado no aparelho psíquico pela pulsão de morte que ataca, através das
destes acontecimentos. A publicidade modela sua própria produção. Acon­ representações recalcadas , ao sujeito que não pode significá-las, não a partir
tecimentos capitais podem ocorrer sem que se fale neles (. . . ) o fato de que do desconhecimento egóico, senão porque assumiram um caráter radical­
tenham tido lugar apenas os faz históricos. Para que haja acontecimento, é mente estranho ao cair no nível de representação-coisa.
necessário que este seja conhecido. Por isso as afinidades entre um tipo O acontecimento enquanto talnão é, então, equiparávelao traumatismo.
determinado de acontecimento e um determinado meio de comunicação são O traumatismo é cercado através do acontecimento (sempre relatado, não
tão intensas que se nos parecem como inseparáveis".3 apenas ocorrido), o que implica que a história do suj eito não se limite a uma
Levando estas idéias em consideração, podemos assinalar que no rede de acontecimentos (como vimos que Foucault propõe), senão ao
campo específico em que nossa tarefa se desenvolve as relações entre encadeamento destes em uma rede estrutural que lhes outorgue significa­
traumatismo e acontecimentos podem ser pensadas desde um novo ângulo . ção através do processo perlaborativo, no momento em que se quebre a
A proton pseudos já está, como assinalamos, no discurso matemo, embora compulsão à repetição e o sujeito passe de ser sujeito passivo de umahistória
não do lado do inconsciente; está do lado da constituição do ego, mediante a sujeito historizado.
a instauração de um discurso que opera como contracarga dos elementos Dizia no início deste livro que " . . . nos situaremos de início em uma
que a própria mãe inscreveu como excitantes através dos cuidados · · ·
concepção do sujeito psíquico cuja tópica se apresenta, desde o começo,
sexualizantes das origens. intersubjetiva. No marco desta tópica intersubjetiva ocorrerá um processo
Nesse sentido podemos considerar, para o caso que nos ocupa, que os de constituição do aparelho psíquico que, no momento de abordar o
mass media organizadores do acontecimento têm seu correspondente no diagnóstico do núcleo patógeno, devemos ter em conta para precisar, em um
discurso matemo, quando organiza de um modo particular aquilo que é da corte , em que momento desta constituição se encontra".
ordem do vinculo e da história do filho, assim como o j ornal organiza o Penso, depois destes anos de elaboração, que se bem a hipótese da
acontecimento político no marco de uma racionalidade que é própria do constituição do sujeito no marco da tópica intersubjetiva segue tendo
sistema ao qual pertence. validade, não é correto propor que o sujeito se constitui de início na
Se Freud, para assinalar o caráter lacunar do discurso pré-consciente , intersubjetividade. A diferença radicaria no seguinte: em um espaço,
utilizou a metáfora da censura dojornal russo, que proibia sem pudor aquilo instituído no interior da estrutura edípica, cada um dos membros desta
que era atacante para o regime, o discurso matemo, do mesmo modo que os estrutura possui seu próprio aparelho psíquico marcado pela cisão e pelo
cabos das grandes agências de noticias atuais, tenta não deixar flancos conflito. Deste modo, a criança não entra como um elemento de um sistema
através dos quais se filtre uma informação que dê conta de outra realidade significante caracterizado pela homogeneidade dos elementos constitutivos ,
que não aquela que pretende instaurar. No entanto, esses cabos não são senão em uma rede definida pelo caráter heterogêneo de cada um dos
suficientes para recobrir uma realidade que é exudada pelos poros da elementos que constituem a estrutura. Quer dizer: cada um dos pais,
história, tal como ocorre com o recalcado na realidade psíquica do filho enquanto sujeito cindido - segundo demonstramos ao longo de nosso
através do sintoma. trabalho -, em conflito com suas próprias representações desejantes
Há então uma história fatual que não só não corresponde à história do inconscientes, o narcisismo egóico e o sistema de proibições que opera desde
traumatismo, senão que tenta, precisamente, seu preenchimento; porque o o superego. Em primeiro lugar, então , a diferença entre narcisismo primário
traumatismo é o que escapa a uma significação discursiva e não encontra e secundário na mãe permite a abordagem de um requisito estrutural para
perlaboração senão no momento em que é posto em relação aos determinan­ a futura constituição da criança; em segundo lugar, também possibilita a
tes estruturais que o constituem. diferenciação entre lei de proibição do incesto (lei paterna) e autoridade do
Para retomar a acertada formulação de Lyotard, na psicanálise de pai, deslizamento em que incorrem, freqüentemente, os lacanianos, quando
crianças trata-se de acometer a suficiência do discurso e recuperar a sombra pensam as figuras da estrutura como termos significantes homogêneos.
que se escapa quando a penumbra arremessada pela linguagem sobre o Em relação à criança, não há no inicio uma tópica intersubjetiva. Há
sensível não pode deixar de ser perfurada por aquilo que resiste, no uma estrutura prévia na qual a heterogeneidade de funções (materna-
202 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 203
paterna) implica, por sua vez, na heterogeneidade no interior do aparelho psíquico incipiente consiga aquilo que constitui o movimento definitivo de
psíquico dos sujeitos suporte dessas funções . O s requisitos de sua instauração.
intersubjetividade da estrutura estão dados por uma condição prévia: o fato A partir disso- além mesmo das divergências teóricas que logo exporei
de que cada um dos membros que a constituem se sustenta em uma intra­ - minha posição me permite retomar as produções que considero mais
subjetividade em conflito. Deste modo, a tópica psíquica da criança, se bem valiosas, tanto da escola kleiniana como de Lacan. Em relação à primeira ,
é resultante da intersubjetividade que a preexiste, só se instaura a partir do como diz E . Jacks , "Melanie Klein, explorando a primeira infância através
momento em que se produzem os movimentos diferenciadores do externo­ da análise de crianças muito pequenas, acrescentou uma nova dimensão
interno e do externo- exterior, que geram um espaço de discriminação e de fundamental à teoria analítica: a ação dos processos p sicóticos inconscien­
diversidade. tes e das angústias psicóticas nas neuroses e nos comportamentos normais
Esta última questão não podia ser vista por mim antes que tivesse ( . . . ) . Para Melanie Klein, a neurose infantil é o modo de elaboração (workíng
questionado a proposta de Lacan sobre o narcisismo primário como primeiro through) das angústias psicóticas precoces. É a expressão da elaboração d e
tempo de constituição do aparelho psíquico. Ao recolocar a especularidade angústias precoces" .6
como primeiro tempo do sujeito (do ego) , mas segundo tempo de constituição Não posso deixar de assinalar que há uma diferença fundamental na
do aparelho psíquico, se me propôs claramente que o primeiro tempo não constituição do aparelho psíquico infantil desde minha perspectiva e a d e
pode ser da ordem da constituição da tópica intersubjetiva, senão dos efeitos Melanie Klein. Esta diferença resume-se centralmente em que minha
do sujeitamento infantil ã sedução originária exercida pela mãe, mas que se investigação conduz, baseada na metapsicologia freudiana, ao fato de que
inscreve no aparelho incipiente como marca, representante pulsional que só o inconsciente não pode ser considerado como existente desde as origens,
senão efeito da fundação operada no aparelho psíquico pelo recalcamento
terá um lugar determinado quando os sistemas psíquicos obtenham sua
originário. Esta diferença teórica propõe, por sua vez, divergências clinicas,
diferenciação, encontrando, deste modo, sua qualidade defmitiva (como
na medida em que não havendo inconsciente desde as origens, minha
representação-coisa) .
preocupação central em psicanálise de crianças se focaliza em determinar
Em tal sentido, do mesmo modo como ocorre com as novas propostas
os critérios de analisabilidade e a busca de novas propostas técnicas a partir
da teoria da história social (que põem em jogo a constituição dos tempos
da localização metapsicológica precisa onde se localiza o transtorno que
míticos como tempos reais). nas origens do aparelho psíquico descrevemos
enfrentamos. No entanto, o que Melanie Klein chama elaboração de
continuidades sobre o modo do descontinuo. É uma história problema, em
ansiedades psicóticas não se diferencia, de fato, do que nós consideramos
lugar de ser uma história-relato.5 Uma história problema propõe sistemas
como eixo da problemática infantil da primeira infância, isto é, uma
de ordenamento de momentos estruturais que não se reduzem a meros
elaboração que permita a consolidação dos movimentos que operam para o
acontecimentos (tal como assinalamos antes ao diferenciar nossa proposta
estabelecimento definitivo das fronteiras , deslindes e separações no interior
da proposta de Foucault) ; é uma descontinuidade que se organiza em
do aparelho psíquico.
momentos de ordenamento legal: tempo de constituição dos grandes
Outro aspecto que nos situa em sua mesma linha de trabalho é a
movimentos pulsionais prévios ao recalcamento originário, tempo de instau­
convicção de que a problemática infantil deve ser cuidadosamente analisada
ração do recalcamento orginário, tempo de ordenamento definitivo deste em sua intrinseca constituição fantasmática, e não em relação a uma
recalcamento através da estruturação do superego e, em conseqüência, do realidade na qual o traumatismo fica reduzido a uma facticidade ingênua
recalcamento apres coup. Modelo de uma descontinuidade que se afirma, no que desloca a psicanálise de seu eixo elaborativo para situá-la na ordem da
entanto, em momentos prévios de instauração. criação pedagógica da criança.
A diversidade do material clinico exposto ao longo de meu trabalho me Em relação a isso, desejo destacar o profundo efeito que seu trabalho
levou, ao mesmo tempo, a considerar a neurose infantil (além mesmo da teve em minha compreensão da especificidade do campo analítico; sua
valorização que possa assumir em função de uma ideologia terapêutica: aguda observação do simbolismo no processo da cura (que leva a considerar
criança neurótica, criança problema) como um verdadeiro momento de que no consultório nunca um buraco na parede seja um buraco na parede,
produção do psiquismo que abre caminho em direção à saúde e à criatividade. senão algo da ordem dos orifícios de entrada e de saída, tanto do próprio
Dou-me conta de que em psicanálise de crianças bordejamos permanente­ corpo como do corpo matemo) marcou minha perspectiva clinica dando-me
mente aquilo que Lang denominou "as fronteiras da psicose infantil" , e que recursos para evitar que a rigorização de minha tarefa pudesse converter­
nossa preocupação fundamental é criar as condições para que o aparelho se em uma intelectualização.
204 I Silvia Bleichmar
Nas Origens do Sujeito Psíquico I 205

constitui na medida em que as representaçõesjá inscritas em seu psiquismo


Também retomei as propostas lacanianas em relação ao lugar que o
Édipo ocupa enquanto campo estruturante do sujeito, assim como a encontram uma localização tópica definitiva a partir do fato de que as
palavras de Melanie Klein introduzem uma simbolização maior, que funda
importância do discurso matemo em sua constituição. No entanto, além das
o recalcamento originário.
diferenças já expostas nestas conclusões em relação ao conceito de estru­
Neste movimento que realizamos para encontrar uma localização
tura e do modo em que penso que este conceito deve ser ressituado na
metapsicológica precisa para os movimentos constitutivos do psiquismo ,
psicanálise de crianças, ao longo de meu trabalho encontrei determinações
também se situa a questão da transferência em psicanálise de crianças.
que põem em correlação o sujeito psíquico com o desejo matemo, mas não
relações homotéticas entre a estrutura do Édipo e o aparelho psíquico Aquela discussão de 1927 ,entre Anna Freud e Melanie Klein, consistiu mais
infantil. Creio que a divergência fundamental - j á desenvolvida - pode em uma aproximação ao fenômeno clinico, um resumo de experiências e
resumir-se no fato de que desde a perspectiva teórica aonde nos situamos , uma visão intuitiva da perspectiva freudiana, do que em uma verdadeira
o inconsciente está em relação com o discurso d o outro, mas não é o discurso localização teórica daquele.
do Outro. Revisando os temas desenvolvidos em relação a estes diversos movi­
O exemplo de Dick, caso exposto por Melanie Klein em 1 930, pode ser mentos que inauguram a tópica psíquica e dão passagem à neurose infantil,
ilustrativo destas convergências e divergências.7 Trata-se - como é bem em meu espírito se insinua o seguinte: a diferenciação introduzida por
conhecido - do processo da cura de um menino que hoje, a partir dos Lebovici para discriminar entre uma neurose da criança (aquela produzida
conhecimentos que possuímos, podemos considerar psicótico. Melanie na infância) e a neurose infantil (reconstruída no transcurso da cura do
Klein - como assinala Lacan - nas primeiras sessões lhe "enchapa" a adulto , tal como é mostrado no exemplo do Homem dos Lobos). parece
simbolização do mito edípico, e algo ocorre, pelo que se produz uma rápida correta.10 Compartilhamos também a proposta de diferenciar entre neurose
evolução no menino, que manifesta angústia e necessidade do outro à transferência e neurose de transferência (a primeira, referida à capacidade
humano a partir do efeito das primeiras interpretações. Enquanto Melanie mais geral de estabelecer transferências, no sentido em que Freud diferen­
Klein acredita que está interpretando o inconsciente de Dick, Lacan mostra ciava as neuroses das psicoses; e a segunda, como aquela que pode se
como, na realidade, o está fundando. Havendo, desde a ótica de Melanie estabelecer no interior do campo analítico). No entanto , parece-nos neces­
Klein, um inconsciente que opera desde as origens, ela põe em palavras o que sário assinalar que a possibilidade de estabeleceruma -':1-eurose à transferên­
supõe que impede o desenvolvimento do ego travado pelo excesso de sadismo cia se produz já na infância, diferente do que é sustentado por Lebovici, j á
precoce. Lacan, analisando o efeito da interpretação, diz: "Ela lhe encaixa o que é o efeito do recalcamento dos representantes dos objetos originário s
simbolismo com a maior brutalidade. Melanie Klein ao pequeno Dickl Ela sepultados n o inconsciente , mas a o mesmo tempo - como desenvolvemos
começa imediatamente jogando-lhe as interpretações maiores. Joga-lhe em capítulos precedentes ao analisar a constituição do objeto de amor em
uma verbalização brutal do mito edípico, quase tão revulsiva para nós como relação com o obj eto parcial (da pulsão) - da constituição do ego em suas
para qualquer leitor: Tu és o pequeno trem, tu queres transar com tua mãe".8 relações com o id e com o superego , isto é, da resignação do narcisismo
E que ocorre? "O menino simboliza a realidade que o rodeia a partir desse primário.
núcleo, desta pequena célula palpitante de simbolismo que lhe dá Melanie Em tal sentido, a instauração do recalcamento originário implica, por
Klein".9 E estamos de acordo, o inconsciente de Dick se organiza, se sua vez, no funcionamento das diversas instâncias psíquicas e possibilita o
constitui, a partir do discurso de Melanie Klein, que simboliza com palavras
estabelecimento de uma passagem entre a libido de objeto e a libido do ego,
aquilo que não está organizado no sujeito. Com o que não estamos de acordo
como condição da neurose à transferência e, por conseqüência, da neurose
ê com a conclusão ã que chega Lacan: que o discurso de Melanie Klein funda
de transferência.
o inconsciente de Dick porque "o Inconsciente é o discurso do Outro". Eis
A perda definitiva dos pais infantis se produz no movimento que
aqui (diz) um caso no qual é absolutamente manifesto.
desprende definitivamente o sujeito do narcisismo originário, quer dizer, no
Se o discurso de Melanie Klein produz um efeito não é, desde nossa
momento de constituição do superego e da instauração do recalcamento
perspectiva, porque revela o inconsciente (um inconsciente que não toma tal
aprés coup. A partir disso, nossa proposta considera que na própria infância
caráter, na medida em que a tópica psíquica não terminou de constituir-se),
vão se criando já as condições no aparelho psíquico para a constituição da
senão porque ajuda a fundá-lo. Mas o conteúdo deste inconsciente - e esta
neurose de transferência,mesmo que seja no marco da neurose da criança,
é nossa divergência com Lacan - não é o discurso do Outro , não está
e não da reconstrução da neurose infantil.
constituído pelas palavras de Melanie Klein; o inconsciente de Dick se
206 I Silvia Bleichmar Nas Origens do Sujeito Psíquico I 207

Esta perda dos obj etos originários relacionados com a constituição do 3. P. Nora, "Le retour de !'événement", e m Faire de t'histoire. Nouveaux problemes,
Paris: Gallimard, 1974, pág. 2 1 2 .
ego ideal é o momento de estabelecimento das possibilidades da neurose à
4 . J . F. Lyotard, Discurso, figura, Barcelona: Gustavo Gili, 1979.
tranferência e, por conseqüência, da neurose de transferência no interior do
5 . Veja-se, a respeito, F. Furet, "Le quantitatif en histoire", em P. Nora, op. cit.
processo da cura da criança. De toda maneira, isso não implica que não haja 6. E. Jacques, "Le concept kleinien de névrose infantil e", em La psychiatrie de l'enfant,
movimentos de transferência prévios; já que o aparelho psíquico não pode Paris: PUF, vol. XY, fase. 1 , 1972.
constituir-se se não é pela perda dos obj etos originários, que deixam sua 7. M. Klein, "A importância da formação de símbolos no desenvolvimento do ego", em
marca na instauração dos representantes representativos pulsionais, po­ Contribuições à psicanálise, São Paulo, Editõra Mestre Jou, 1970.
dendo se estabelecer precocemente, a partir disso, transferências de carga, 8. J. Lacan, Le Séminaire, libraI: Les écrits techniques deFreud, Paris: Seuil, 1975, pág.
81.
existentes já nas crianças muito pequenas antes de que existam as
9 . Op. cit., pág. 1 00.
condições para a neurose à transferência. Minha intenção é tomar explicito. 1 0 . S. Lebovici, "L'expérience du psychanalyste chez l'enfant et chez l'adulte devant le
a partir destas observações, que considero que os pais reais jamais são modêle de la névrose de transfert", Revue Française de Psychanalyse, Paris, nº 5-
objetos fantasmáticos de transferência, compartilhando o que foi proposto 6, setembro-dezembro de 1980.
por Melanie Klein, que definiu esta questão indiscutível na psicanálise de
crianças.
Devo assinalar, por último, que retomei, ao longo de todo meu trabalho,
a discussão aberta por Laplanche e Leclaire no Colóquio de Bormeual, para
propor que a assimilação do inconsciente ao discurso retoma, sob uma nova
forma, uma antiga proposta fenomenológica que reduz a estrutura ao efeito
- sej a este considerado sintoma, conduta ou palavra -, anulando o caráter
maior do descobrimento freudiano. Meus desenvolvimentos recuperam a
tese de uma estrutura intrapsíquica (topos discemível inclusive em uma
graficação formalizante) produtora de efeitos, da qual o suj eito conhece
apenas uma pequena parte como conseqüência de sua posição em relação
ao recalcamento, que subtrai o inconsciente e o isola defmitivamente.
A psicanálise de crianças , por encontrar-se na dificil posição de
trabalhar nos próprios momentos de constituição desta tópica, enfrenta-se
tanto com os movimentos que a instauram, como com a busca de uma
proposta teórico-clínica que permita abordar seus fracassos. Nas fronteiras
ou no interior da psicose infantil, mas sempre bordejando-a, define-se a
tarefa do psicanalista de crianças que, através da prática cotidiana,
enfrenta-se com uma diversidade de movimentos de passagem, verdadeiros
momentos de estruturação do aparelho psíquico, cuja fenomenologia se
plasma na diversidade de entidades psicopatológicas que, no entanto , não
são suficientes para compreender a multiplicidade mutante que se lhe
oferece.
Daí o retomo à metapsicologia freudiana, que inspira todo meu
trabalho.

Notas d e referência

1 . J. L. Lang, Auxfrontiêres de la psychose infantile, PUF, 1 978, pág. 27.


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