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A Internet como fator de mudança no jornalismo

Nelia R. Del Bianco∗

Índice em estudá-las como se fossem de caráter me-


ramente operacional. Ressaltam-se como um
1 As tecnologias de hoje são diferentes dos seus efeitos, a readaptação legitimadora
de outras do passado 2 das rotinas produtivas e de linguagens às exi-
2 A Internet como ambiente do jorna- gências da instantaneidade e da visualidade
lismo 4 do jornalismo online.
3 Valores em mutação 7 Entre pesquisadores como Michael Kunc-
4 Bibliografia 9 zik (2001), Bill Kovack e Tom Rosentiel
(2003), Ignácio Ramonet (1999) e Domini-
que Wolton (1999) há um certo consenso
Muito se discute sobre a reconfiguração da quanto à influência das tecnologias da infor-
produção do jornalismo condicionada pela mação na reestruturação da organização jor-
adoção de tecnologias digitais da informa- nalística e de suas rotinas de trabalho. A
ção e comunicação. Sem dúvida, as novas informática, especialmente, trouxe agilidade
ferramentas digitais colaboram para reestru- e qualidade no processamento da informa-
turar o exercício da profissão, a produção in- ção, ao facilitar o trabalho de rever, corri-
dustrial da notícia, as relações entre as em- gir, alterar e atualizar textos. No entanto, os
presas de comunicação com as fontes, a au- pesquisadores mencionados duvidam que as
diência, os concorrentes, o governo e a so- tecnologias digitais tenham provocado mu-
ciedade. Trazem, portanto, implicações de danças profundas na concepção de jorna-
ordem técnica, ética, jurídica e profissional lismo a ponto de alterar valores consagrados.
para o jornalismo. Embora as mudanças se- Na avaliação de Wolton (1999: 268-9), por
jam abrangentes há uma tendência corrente exemplo, a imprensa continua a mesma, ou

Professora da Faculdade de Comunicação da seja, a mudança foi apenas de forma, de lin-
Universidade de Brasília, Doutora em Comunicação guagem, que em nada abalou os princípios
pela ECA-USP. O presente texto é parte da tese de basilares do jornalismo. Por mais forte que
doutorado “Radiojornalismo em mutação – A influên-
seja, uma inovação tecnológica não leva con-
cia cultural e tecnológica da Internet na transformação
da noticiabilidade no rádio”, defendida em maio de sigo mecanicamente uma transformação pro-
2004, no programa de pós-graduação da ECA-USP. funda do conteúdo das atividades.
Endereço eletrônico: nbianco@uol.com.br. Foi pu- Esse argumento pode ser considerado par-
blicado na Revista Brasileira de Ciências da Comuni- cialmente válido. No entanto, é necessário
cação, São Paulo, vl. XXVII, no 1, janeiro/junho de
2004.
considerar para melhor compreensão que a
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essência da natureza das tecnologias da in- formulam. Uma inovação tecnológica pro-
formação de hoje, especialmente a Internet, grama, sem dúvida, certos usos, mas estes
difere radicalmente de outras do passado, e por sua vez desviam, modificam ou adaptam
sua influência pode carregar transformações a ferramenta aos mundos próprios dos utili-
de valores e conceitos. Para o jornalismo, zadores. O processo de mutação é, antes de
a adoção dessas tecnologias da informação tudo, histórico-social e pertence a um con-
sinaliza mudanças que não ficam apenas no texto (Bougnoux, 1999: 109 e 121).
nível da troca de roupagem, sendo bem mais Essa perspectiva sugere observar a revolu-
profundas do que muitos costumam analisar, ção tecnológica contemporânea no contexto
podendo até mesmo solapar valores funda- histórico-social de evolução do capitalismo
dores dessa práxis social. como uma força motriz importante na cons-
trução de valores culturais e na dinâmica das
relações sociais que dão forma ao novo pa-
1 As tecnologias de hoje são
radigma tecnológico e comunicacional. É
diferentes de outras do passado vista, portanto, nas suas articulações sistê-
A tecnologia é uma criação do homem. micas, como técnicas sociais de organização,
Produzida num determinado contexto so- funcionamento, mudança, controle e admi-
cial, cultural e carrega em si, segundo Lévy nistração de novas formas de produção de
(1999:25), projetos, valores, esquemas ima- bens simbólicos, como os produtos da comu-
ginários e implicações variadas. Sendo por- nicação, a exemplo do jornalismo.
tadora de cultura e valores, a tecnologia não A revolução tecnológica de hoje muda a
determina uma práxis social, até porque não experiência de mundo, assim como acon-
é entidade que age sobre o homem de forma teceu na Revolução Industrial, quando sur-
autônoma. Uma vez inserida na processuali- giram novas relações técnicas de produ-
dade da vida condiciona e potencializa mu- ção, relações socais e de poder baseadas
danças, de acordo com Lévy (1999:13 e 25): na propriedade privada dos meios de pro-
dução e no tipo de superestruturas caracte-
“Sua presença e uso em lugar e épocas deter- rísticas do capitalismo. “A mudança é tão
minados cristalizam relações de força sempre cultural e imaginativa quanto tecnológica e
diferentes entre os seres humanos. (...) Uma econômica”,segundo Johnson (2001: 35).
técnica é produzida dentro de uma cultura, e A essência das mutações tem relação com
uma sociedade encontra-se condicionada por a natureza diferenciada das tecnologias con-
suas técnicas. E digo condicionada, não de- temporâneas. Em comparação a outras do
terminada”. passado, as tecnologias digitais distinguem-
se por ampliar a capacidade intelectual do
De fato, a tecnologia não tem caráter má- homem. Não apenas elas possibilitam cen-
gico ou sobrenatural, nem a sociedade é uma tralizar conhecimentos e informação numa
extensão da tecnologia. Há uma relação di- rede técnica informatizada, como permitem
alética entre tecnologia e civilização (Cas- aplicar esses conhecimentos na geração de
tells, 1999). O sentido da tecnologia reside novos conhecimentos e mecanismos de pro-
nas intenções dos usuários que as trocam e cessamento da informação. O que mudou,

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segundo Castells (1999:78), não foi o tipo Como epicentro do sistema sócio-técnico
de atividade em que a humanidade está en- emergente, a Internet é um ambiente e sis-
volvida desde a era industrial, mas sua ca- tema de informação e comunicação (Palá-
pacidade tecnológica de utilizar, como força cios, 2000 e Lemos, 2002). Por natureza
produtiva direta, aquilo que caracteriza a sin- é multifacetada, podendo ser um ambiente
gularidade do homem: a capacidade superior onde convivem e combinam entre si várias
de processar símbolos. formas. Pode funcionar num ambiente com-
A revolução tecnológica possibilitou o partilhado simultaneamente como suporte,
surgimento de um ambiente cultural singular meio de comunicação que se presta à ex-
e universal constituído por técnicas, práticas, pressão; muitas vezes como sistema tecno-
modos de pensamento e valores que inclui o lógico ou ambiente de informação e de co-
conhecimento, as crenças, a ética, os costu- municação. A definição de função depende
mes, os saberes cotidianos e os hábitos cons- em muito do uso que dela se faz em determi-
truídos nas relações entre pessoas, grupos, nado contexto, circunstâncias, objetivos, fi-
instituições ou organizações sociais infor- nalidade e aplicação social seja por interesse,
mais com o aparato técnico da infra-estrutura atividade específica ou mesmo por fruição.
material da comunicação digital. Progres- Sendo uma criação do homem, entidade
sivamente essa revolução implementa no- real e material da existência, essa tecnologia
vas modalidades organizacionais, sociais e integra-se a conjuntos culturais existentes.
cognitivas, como as comunidades virtuais e Por tal condição, Castells (2001:51) acredita
a construção de uma inteligência coletiva que a Internet carrega em si os valores e a
(Lévy: 1999). cultura de seus criadores. Criada sob con-
Nesse contexto, a Internet adquiriu im- dições específicas de uma história diferen-
portância estratégica no modelo social for- ciada, a Internet surgiu num dado contexto
jado pela revolução tecnológica. Mais do histórico, no qual um grupo de participantes
que um protocolo informativo, a Internet partilhou uma experiência comum que aca-
transformou-se num espaço social e cultural bou por delimitar a criação de valores e prá-
que permite estabelecer a comunicação entre ticas culturais, posteriormente socializados e
distintos tipos de rede. Constituí a base ma- vivenciados por todos os usuários da rede.
terial da vida e das formas de relação com a A cultura da Internet, segundo Castells
produção, o trabalho, a educação, a política, (2001-51), é caracterizada por uma estru-
a ciência, a informação e a comunicação. É tura formada por quatro estratos superpostos:
o coração do novo paradigma sócio-técnico, a cultura tecnomeritocrática, a cultura hac-
como define Castells (2001: 15): ker, a cultura comunitária virtual e a cultura
“‘Se a tecnologia da informação é o equiva- empreendedora. Juntos esses estratos contri-
lente histórico do que foi a eletricidade na era buíram para que a construção e sustentação
industrial, em nossa era poderíamos compa- da Internet se desse com base em valores tais
rar a Internet com a rede elétrica e o motor como o de liberdade individual, de pensa-
elétrico, dado sua capacidade para distribuir mento independente, da idéia de cooperação
o poder da informação por todos os âmbitos entre usuários, de comunicação horizontal,
da atividade humana.”

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conexão interativa, informal e aberta entre os Esse argumento contribui para refletir so-
usuários. bre a função da Internet na atual configura-
ção do processo de produção da notícia. No
cotidiano da redação de meios de comunica-
2 A Internet como ambiente do
ção tradicionais, como rádio, televisão e jor-
jornalismo nal impresso, a Internet serve como canal de
Ao analisar a passagem do modelo de co- acesso e contato com múltiplas fontes, agên-
municação linear da era tipográfica, fundada cias de notícias e jornais online. É verdade
com a invenção de Gutenberg, para a era ele- que a rede é uma ferramenta que cria a possi-
trônica dominada pelo rádio e a televisão, bilidade para que, virtualmente, se possa fa-
McLuhan (2000) defendia a tese que a tec- zer o trabalho de vigilância e examinar docu-
nologia criava a ambiência por onde o ho- mentos oficiais, realizar investigações e tra-
mem transitava. Na sua visão, os meios de balhar assuntos que, em boa parte, são esno-
comunicação eletrônicos eram “extensões do bados pela imprensa tradicional. No entanto,
homem”, porque formavam o próprio ambi- ao se observar rotinas produtivas da notícia,
ente onde o homem se movia e atuava sob a especialmente do radiojornalismo, fica evi-
tecnologia. Esse ambiente era uma espécie dente que o seu uso está aquém de seu poten-
de segunda natureza que forma o próprio ho- cial de alterar a profundidade do jornalismo,
mem e molda seus padrões e modos de per- contribuindo para que a reportagem possa ir
ceber o mundo. A partir desse argumento, além do jornalismo declaratório para reunir e
McLuhan entendia que a era eletrônica aba- sintetizar uma grande quantidade de provas
lou os fundamentos enraizados na experiên- documentais. De fato, a rede tem sido um
cia de mundo do homem tipográfico, porque instrumento para coletar informação pronta
o colocava imerso num mundo visual, áudio- de segunda ou terceira mão a qualquer mo-
táctil, simultâneo e “tribalizado”, muito dife- mento. Essa modalidade tornou a Internet
rente do mundo linear e destribibalizado. Ao parte constitutiva do próprio método de che-
situar as mudanças nesses termos, sinalizava cagem e apuração de informação em emisso-
para a possibilidade dos meios de comunica- ras de rádio especializadas em jornalismo.
ção de transformarem o mundo num grande Ao constituir-se num ambiente onde os
vilarejo, numa aldeia global. jornalistas se movem em busca de informa-
Com essa posição, McLuhan (1977: 15) ção, onde exercem a tarefa de escolher en-
não considerava os ambientes tecnológicos tre centenas de acontecimentos aqueles que
como recipientes puramente passivos de pes- merecem o status de notícia, a Internet pode
soas, mas ativos processos que remodelam debilitar o processo da checagem, enfraque-
pessoas e igualmente outras tecnologias. O cendo do jornalismo de verificação, a medida
que há de interessante no seu pensamento é que permite fácil acesso às matérias e as de-
a reflexão sobre o fato de as tecnologias alte- clarações sem que faça o trabalho de investi-
rarem os índices de sensibilidade ou modos gação. A tendência foi identificada pelos jor-
de percepção do homem que transita nesse nalistas americanos Bill Kovach e Tom Ro-
ambiente moldado por elas. senstiel (2003:119):

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“‘Nesta era de notícias 24 horas, os jornalis- Desse ponto de vista, a Internet molda
tas agora passam mais tempo procurando al- crescentemente as experiências nas múlti-
guma coisa para acrescentar as suas matérias, plas formas do ser e de estar do homem no
geralmente interpretação, em lugar de tentar mundo. É o mesmo homem que vê, ouve
descobrir e checar, de forma independente, e sente o mundo, sem a mediação de meios
novos fatos. A partir do momento em que instrumentais, é o mesmo que sente através
a matéria se forma na cabeça, é como se o de meios técnicos digitais. O que mudou fo-
comportamento do rebanho fosse verdadeiro.
ram os horizontes desse mundo e os paradig-
A matéria é determinada por uma mídia – o
mas da sua experiência, segundo Antonio Fi-
relato de um jornal ou emissora de televisão”.
dalgo (2002).
O fácil acesso à informação obtida pela In- Para os jornalistas que usam a Internet na
ternet pode ainda dar a falsa impressão de produção de notícias, a realidade virtual es-
não ser preciso ir além das fronteiras do cibe- taria se convertendo em um novo modo de
respaço para saber o que acontece. É como conhecimento do mundo exterior e das pes-
se na rede “coubesse” o mundo e de tal forma soas. Essa realidade é produto de virtualiza-
não fosse necessário sair dela para se obter a ções e atualizações sucessivas que pode ser
informação necessária à construção da notí- percebida num tempo, espaço e condições
cia. históricas específicas e de modo diferente em
Inserida na práxis produtiva, a Internet relação a ambientes tecnológicos anteriores.
está contribuindo para acrescentar novos ele- Isso não implica em dizer que essa realidade,
mentos à percepção dos jornalistas a respeito pelo seu enorme caudal informativo, acaba-
dos tradicionais critérios que presidem a es- ria por substituir a necessidade de conheci-
colha das notícias. A percepção, como en- mento de uma realidade material e objetiva.
sina Antonio Fidalgo, depende da sensação, A questão é outra. A realidade virtual acres-
não havendo sensação não há percepção. A centa uma perspectiva nova na percepção do
percepção mediada pelo computador está li- jornalista no seu trabalho de conhecimento
mitada, por hora, às percepções do tipo vi- do real que é de outra natureza. Contém a
sual e auditivo. De certo modo são idênti- realidade em si, mas disposta de modo a ser
cas às percepções diretas, a diferença está no percebida em tempo e espaços diferentes.
fato de serem mediadas digitalmente e vei- A percepção do real construída a partir da
culadas em rede, segundo Fidalgo (2002): Internet passa por um processo de introje-
ção que leva ao habitus (Bourdieu, 1983), ou
“‘O objeto das experiências mediadas pela seja, leva a um conhecimento adquirido e in-
rede podem ser objeto de novas percepções, corporado por meio de um processo de so-
repetidamente e em outros espaços, por nós cialização, no qual é formado um corpo co-
ou por outros. A percepção é um ato único, mum de categorias de pensamento e conduta
feito num determinado momento e lugar, mas que possibilita a comunicação entre os indi-
o que é dado na percepção é guardado digital- víduos e a estes o exercício de práticas adap-
mente, podendo vir a ser reproduzido vezes tadas às estruturas.
sem conta”. Entre os jornalistas, consolida-se o habi-
tus de adotar práticas mediatizadas de conhe-

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cimento do real. No cotidiano da redação ampla, os jornalistas colhem informações


do radiojornalismo, por exemplo, investe-se num ambiente em que o conhecimento sobre
cada vez mais na melhoria dos instrumen- a realidade aparece fragmentado, disperso,
tos técnicos de apuração, consulta, checa- hiper-especializado, sem hierarquias e sobre-
gem da informação via sistema de escuta- informado. Há sempre que se recorrer a fer-
telefone, Internet e monitoramento de canais ramentas de busca para se obter algo coe-
de televisão aberta e a cabo. Por essa ra- rente, selecionado, filtrado e organizado.
zão há sempre mais pessoas na redação apu- Ao criar ambiência própria para o trans-
rando informação do que nas ruas, em busca porte da informação, a Internet funciona
de fatos novos. Esse comportamento sugere como moldura, porque contribui para cap-
pensar se o real, objeto da notícia, caberia turar, no espaço digital, a cena, um frag-
agora na tela do computador e tal forma para mento do tempo dentro da pluralidade de
captá-lo não seria mais necessário ver com acontecimentos disponibilizados. A moldura
os próprios olhos e sim pela mediação da no jornalismo opera ao mesmo tempo como
tecnologia. Indica que não é mais necessá- um corte e focalização, segundo Mouillaud
rio entrar em contato direto com o espaço (1997: 61-62):
ou com as pessoas para conhecê-lo, podendo
percebê-lo através das imagens que ele pró- “‘... um corte porque separa um campo
prio fabrica ou que outros produzem (Senra, e aquilo que o envolve; uma focalização,
1993:165). porque interditando a hemorragia do sentido
É um exemplo típico de aliança entre ho- para além da moldura, intensifica as relações
entre os objetos e os indivíduos que estão
mem e máquina. Não mais a máquina como
compreendidos dentro do campo e os rever-
dispositivo de controle e domínio, prótese
bera para um centro. O produto do corte e
que arma o corpo para a vontade de po- da focalização institui o que se chamará de
der sobre e contra o mundo, mas como cena. A cena é o local nativo do aconteci-
ferramenta de percepção, princípio gerador mento. (...) A moldura, isolando um frag-
de novas realidades. O conhecimento do mento da experiência, separa-o do seu con-
real pela Internet amplia o olhar da redação texto e permite sua conservação e seu trans-
sobre os acontecimentos, numa espécie de porte. Enquanto que a ação, no campo, perde
pan-óptico, como define Stella Senra (1993: sua identidade e metamorfoseia-se em efei-
166): tos que a tornam irreconhecível, a informa-
ção conserva sua identidade ao longo de seus
“‘A tecnologia coloca nas mãos da mídia uma deslocamentos, eis aí uma propriedade fun-
espécie de pan-óptico superpotente que, em damental do enquadramento”.
vez de instaurar uma visibilidade total sobre
a sociedade – como no pan-óptico de Jeremy Ao contribuir para o corte e focalização
Benthan analisado por Foucault – cria em seu dos acontecimentos que serão transforma-
lugar uma visibilidade pontual, milimétrica, dos em notícia, a Internet coloca nas mãos
que elimina as zonas de interesse deixando dos jornalistas a possibilidade de obter rapi-
na sombra o que não lhe interessa”.
damente a informação necessária para com-
Embora pareça proporcionar uma visão plementar suas matérias, contribuindo para

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contextualização e aprofundamento dos te- concreta daqueles que realizam as técnicas ao


mas abordados. Mas por outro lado, esse mesmo tempo em que ela constitui o ideal de
procedimento traz implícito também a pa- um mundo luminoso, sem manchas, sem en-
dronização do conteúdo porque é comum o tropia. Nesta nova mística, a transparência é
uso freqüente das mesmas fontes. Todos be- um estado que se procura alcançar. A trans-
bem da mesma fonte na hora de compor seu parência é associada a um ideal de luz, har-
noticiário, reproduzindo o mesmo discurso. monia e êxtase. Ela dá a impressão de passar
do outro lado do espelho.”
Muito da tendência à homogeneização deve-
se ao comportamento dos jornalistas de atri-
buírem maior grau de credibilidade às agên- 3 Valores em mutação
cias de noticias oriundas da mídia tradicio-
A Internet contribui para moldar crescente-
nal. A concentração da informação nas mãos
mente as formas como se vive e experimenta
de poucos persiste até mesmo num campo de
a produção da notícia. O que mudou foram
informação e comunicação por natureza livre
os horizontes desse mundo e os paradigmas
e plural.
da sua experiência perceptiva.
O ambiente da Internet acrescenta à per-
Em todo conhecimento um sujeito e um
cepção dos jornalistas também a noção de li-
objeto encontram-se face a face. A relação
berdade de ação sobre a informação. Quando
que existe entre os dois é o próprio conheci-
os despachos das agências aparecem na rede
mento. A oposição dos dois termos não pode
é como se fosse produto de livre circulação,
ser suprimida. Mas um não está separado
qualquer um pode ter acesso. E quem os uti-
do outro. O sujeito só é sujeito em relação
liza, apropria-se desses textos como sendo
ao objeto, e o objeto em relação ao sujeito.
seu e não de outro. Segue assim um dos
A função do sujeito consiste em apreender o
valores culturais da Internet: o que está na
objeto; a do objeto em poder ser apreendido
rede não é de ninguém. Esse sentimento está
pelo sujeito. O sujeito não pode captar o ob-
presente no processo de produção da noticia,
jeto sem sair de si (sem se transcender); mas
especialmente no radiojornalismo onde a in-
não pode ter consciência do que é apreen-
formação que jorra na tela do computador é
dido, sem entrar em si, sem se reencontrar na
a base para a composição de boa parte dos
sua própria esfera. O conhecimento realiza-
noticiários.
se, por assim dizer, em três tempos: o sujeito
A liberdade de ação na busca e apropria-
sai de si, está fora de si e regressa finalmente
ção da informação traz para o campo da pro-
a si.
dução da notícia a percepção da total trans-
Segundo Kant (citado por Savater, 1999),
parência da realidade. Na raiz dessa percep-
conhecimento é uma combinação do que a
ção está a crença de que a verdade é a infor-
realidade traz ao sujeito com as formas da
mação, segundo Philippe Breton (2000):
sensibilidade e o entendimento desse sujeito.
“‘Esta noção de transparência é consubstan- Esse conhecimento sobre o real é verdadeiro,
cial ao culto da informação. Ela é sua tra- porém não chega senão até onde permitem
dução imediata. Ela tem implicações práti- as faculdades humanas. Significa dizer que
cas e espirituais: ela condiciona a atividade o que se conhece não é a realidade pura, mas

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apenas como é o real para o sujeito que o segunda ou terceira mão. Diante desse fenô-
conhece. Portanto, se existem condições a meno, a visão de mundo natural confronta
priori, isto implica que o sujeito desempe- com a intencionalidade. As notícias não apa-
nha um papel ativo no processo do conhe- recem de forma natural, mas se fazem como
cimento, traz algo para esse conhecimento e conseqüência da vontade humana, da histó-
não se limita a receber passivamente o que ria, das circunstâncias sociais das institui-
percebe. ções e das convenções da profissão, e agora
É na relação diária com a Internet que também sob influência dessa tecnologia da
os jornalistas aprendem sobre dessa natu- informação. A Internet, com seus valores
reza tecnológica, a manusear seus recursos e lógica comunicativa, notabiliza-se por se
para obter informação. Os jornalistas não só transformar numa das formas de conheci-
aprendem, mas são afetados por ela. Esse mento da realidade para o jornalismo.
conhecimento transcende ao nível operaci- Ao conviver com outras formas de co-
onal de entrar e extrair da rede. Envolve a nhecimento da realidade, os jornalistas per-
forma de construção do conhecimento a par- cebem os valores que guiam a seleção dos
tir dessa experiência diária. Nesse aprendi- acontecimentos a partir de uma nova referen-
zado acaba por constituir novas formas de cialidade. Van Dijik (1990: 173-5) aponta
percepção do mundo e do processo comu- correspondência entre os valores jornalísti-
nicativo. Na sociedade da informação não cos e a cognição social. Quer dizer os va-
se imagina mais o aprendizado em cima de lores que guiam os jornalistas são reconhe-
saberes estáveis, herdados pela tradição. A cidos pelo público como legítimos, porque
forma é do saber-fluxo, por natureza caótico fazem parte do conjunto dos processos men-
e sujeito a flutuações. São mutações cogniti- tais, de pensamento e da percepção social so-
vas igualmente velozes, às vezes pouco per- bre o que é notícia. Quer dizer, os valores
ceptíveis, que ocorrem no ambiente da reda- jornalísticos refletem os valores econômicos,
ção jornalística, cujos sinais podem ser evi- sociais e ideológicos na reprodução do dis-
denciados no modo como os jornalistas inte- curso sobre a sociedade através dos meios de
ragem com a rede. comunicação.
A questão a saber é até que ponto as trans- Diante das mutações em curso é legítimo
formações em curso contribuem para minar afirmar que os aspectos centrais do para-
os fundamentos do jornalismo defendidos na digma jornalístico estão conquistando nova
cultura profissional. O fundamento histórico referencialidade, baseada em valores cultu-
do jornalismo está no conhecimento da rea- rais da sociedade informação, para a qual
lidade, na apuração dos fatos e na apresenta- a matéria prima e força motriz do sistema
ção de narrativa correta, crível, isenta de opi- produtivo é a informação; onde as redes in-
nião e de parcialidades. Cabe aos jornalistas formatizadas são instrumentos de comunica-
a verificação dos fatos por meio de levanta- ção e ferramentas organizativas fundamen-
mento de dados junto às fontes. No entanto, tais, cujos efeitos atravessam e moldam to-
cada vez mais adquire importância no cotidi- das as esferas da atividade humana; onde
ano da redação dispositivo técnico de acesso predomina a lógica da flexibilidade nos sis-
à informação em estado bruto e a dados de temas técnicos e organizacionais de modo a

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contribuir para sua integração e convergência objetos, ao sabor do passado mais recente.
mundial numa estrutura de comunicação em Olhamos o presente através de um espelho
rede digital, interativa capaz de disponibili- retrovisor. Caminhamos de costas em dire-
zar informação em grande escala e alta velo- ção ao futuro. Os subúrbios vivem imagina-
cidade. riamente na terra de Bonanza”.
É bem verdade que as mutações de valo-
res baseados nessa referencialidade em cons- 4 Bibliografia
trução ainda são pouco perceptíveis no pre-
sente. Na mutação, tem-se a impressão que BOURDIEU, Pierre. Esboço de teoria da
a mínima flutuação de nossa percepção vi- prática. In ORTIZ, Renato (org.). Pi-
sual, provoca rupturas na simetria do que se erre Bourdieu. São Paulo: Ática, 1983,
vê. Ao lançar o olhar sob esses fenôme- p. 46-81.
nos, tem-se a sensação que faltam elemen-
BRETON, Philippe. Le culte de l’Internet -
tos teóricos e conceituais suficientes para
Une menace pour le lien social, cap. 4 -
compreendê-los. As análises parecem precá-
Un univers de croyance. Tradução livre
rias, parciais. É uma situação típica da tran-
por Samy Leal Adghirni e Hicham Cha-
sição, como identificou Boaventura de Sousa
ouni. Paris: Éditions La Découverte,
Santos (1997:58):
2000.
“‘Duvidamos suficientemente do passado CASTELLS, Manuel. A era da informação:
para imaginarmos o futuro, mas vivemos de-
economia, sociedade e cultural - A soci-
masiadamente o presente para podermos rea-
edade em rede. São Paulo: Paz e Terra,
lizar nele o futuro. Estamos divididos, frag-
mentados. Sabemo-nos o caminho, mas não
1999.
exatamente onde estamos na jornada”. CASTELLS, Manuel. La Galáxia Internet
– reflexiones sobre Internet, empresa y
Para compreender as mudanças impul-
sociedad. Barcelona: Areté, 2001.
sionadas pelas tecnologias da informação,
um dos caminhos é não olhar o presente HARTMANN, N. Les Principes d’une Mé-
pelo retrovisor. O conselho é de McLuhan taphysique de la Connaissance. Paris:
(1969:54), um dos mais populares teóricos Ed. Montaigne, 1945, t. l, pp. 87-88.
da comunicação que teve o mérito de colocar
a tecnologia no centro das mudanças para de- HESSEN, Johannes. Teoria do Conhe-
monstrar como a nossa memória, percepção cimento.Coimbra: Arménio Amado,
e prioridades podem ser afetadas por ela. Ao 1973.
contrário de aprisionar, a ambiência tecno-
JOHNSON, Steven. Cultura da interface –
lógica fornece ao homem uma “janela” para
Como o computador transforma nossa
perceber o mundo:
maneira de criar e comunicar. Rio de
“‘O passado foi embora naquela direção. Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.
Quando confrontados com uma situação in-
teiramente nova, tendemos a ligar-nos aos

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KOVACH, Bill e ROSENSTIEL, Tom. Os SANTOS, Boaventura de Sousa. Um dis-


elementos do jornalismo – o que os jor- curso sobre as ciências. Porto: Edições
nalistas devem saber e o público exigir. Afrontamento, 1997, 9a ed.
São Paulo: Geração Editorial, 2003.
SAVATER, Fernando. As Perguntas da
KUNCZIK, Michael. Conceitos de jorna- Vida. Lisboa: Publicações Dom Qui-
lismo – Norte e sul. São Paulo: Edusp, xote, 1999.
2001.
SENRA, Stella. Max Headroom e o último
LEMOS, André. Cibercultura – tecnologia e jornalista. In PARENTE, André (org.)
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