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A Produção do Pensamento Ocidental em Nós

Décimo Primeiro Encontro

Texto extraído de gravação de palestra proferida por Luiz Fuganti, em 17/06//99, na Role Playing
Pesquisa e Aplicação - São Paulo. Texto não revisado e reprodução não autorizada pelo
palestrante.

A gente viu na última exposição o ressentimento e a má consciência, duas figuras


conscientíssimas do niilismo, que o Nietzsche chama de niilismo ocidental.
Nós vimos que o ressentimento, ele tem um aspecto material e outro aspecto formal ou em outros
termos, um aspecto que é topológico e outro que seria tipológico e a má consciência da mesma
forma. Então ressentimento e má consciência ambos tem um aspecto topológico e tipológico e eles
se atualizam ou eles alcançam triunfo ou a vitória, digamos assim, através de uma formalização
que é produzida por uma ficção cujo agente é sempre um sacerdote. No caso do ressentimento um
sacerdote judeu, no caso da má consciência o sacerdote cristão.
Esse paralelismo do ressentimento e da má consciência levou a gente a introduzir a segunda
ficção que seria a ficção que interpretaria o sentido interno da dor, que a gente chegou a
mencionar apenas que é o caso da dívida e é exatamente a questão da dívida que vai nos levar a
cultura, a uma atividade pré-histórica e um objetivo pós-histórico, digamos assim, dessa atividade e
ao mesmo tempo a sua introdução com a história... nós vamos ver uma análise que o Nietzsche
faz essencialmente numa obra que se chama Genealogia da Moral que é talvez a obra mais
sistemática do Nietzsche e... o título diz tudo... e genealogia naquele sentido que a gente já falou
aqui... genealogia em Nietzsche é exatamente ver o valor de um valor, o valor de um sentido, o
sentido de uma força, então genealogia é interpretação e pesagem, interpretação e avaliação, uma
avaliação crítica fundamental implica sempre em ver um valor de um valor, então o que vale a
moral, o que vale a dor, a acusação, o sentido interno da dor... quem é o agente disso? é a
pergunta fundamental em Nietzsche, ... quem? em que quer e o que quer? e isso é genealógico,
ou seja, você leva o saber não para o campo de uma estrutura, não para o campo de um princípio
epistemológico ou lógico neutro mas para um campo de forças, para um campo de potência...
quem em Nietzsche é sempre uma potência, é sempre uma vontade de potência e o que quer esse
quem, o que quer essa potência?... isso revela a motivação encoberta de uma ação ou de uma
reação ou de um acontecimento.
Então voltando a questão das figuras do niilismo, o ressentimento sob o seu aspecto topológico
revelava o seguinte, nós temos um sistema de forças reativas que investem as excitações
exteriores. Essas forças reativas elas são agidas no sentido que elas investem excitação enquanto
excitação ou seja investem o devir ou o movimento enquanto devir ou enquanto movimento. E há
um outro sistema que tem a função que é de registrar o que investe a marca que a agitação produz
mas ao mesmo tempo num corpo saudável ou num ser saudável a relação dessas forças reativas
que investem a marca ou que fazem o registro da marca mantém na medida que elas são agidas,
mantém as marcas insensíveis e inconscientes... então há um inconsciente reativo nesse caso em
Nietzsche também... em Nietzsche há uma pluralidade de inconscientes, um deles é esse
inconsciente reativo das marcas, que a gente viu também que há uma capacidade, uma faculdade
que ele chama de capacidade do esquecimento que de modo algum é interpretado como a
psicologia tradicional interpreta como algo negativo ou seja seria uma incapacidade de lembrar,
mas ao contrário é uma capacidade de esquecer... e é essa capacidade de esquecer que mantém
a pureza da consciência e a consciência investe os devires de modo livre sem congelar os
momentos, os instantes, as durações... aliás o instante já é uma ilusão de consciência marcada...
como diz o Bergsom o instante é uma ilusão, é sempre algo que dura, é sempre um processo, é
sempre um devir, é necessário se perceber o tempo no instante... o instante é sempre... o Bachelar
que era muito ligado a questão do instante na realidade não entende a duração... a duração é algo
real que se produz com um tempo real e essas forças reativas que investem excitação elas são
dominadas pelo processo de tempo, pela duração, elas não se deixam congelar, ou a consciência
não se congela, não se endurece... e dessa forma nós podemos experimentar coisas novas, só
desse modo que a experiência é possível, ou seja a experiência só é possível se você não recortá-
la, não codificá-la, não vê-la através de uma marca, através de uma lente já codificada, é assim em
que o novo aparece e é por isso que o mundo é tão entedioso quando você é uma pessoa
marcada, tudo parece igual, tudo parece o mesmo e nada se cria, nada se inova, nada de novo
emerge na face da terra.
Esse aspecto topológico do ressentimento era exatamente o que? o momento em que o
esquecimento deixa de funcionar, deixa de agir a força reativa, as marcas se tornam consciência,
se tornam sensíveis, então você desloca as marcas de um plano inconsciente para um plano
consciente e elas passam a esquadrinhar a sua experiência, a codificar, a aprisionar, a endurecer
o sentido existencial que inicialmente é servido pela própria consciência, então no momento em
que há um deslocamento de forças, as forças reativas que investem as marcas se tornam
sensíveis ou sensuais e as forças reativas deixam de investir a excitação, há uma confusão entre
excitação e a marca e nesse instante tudo de endurece, tudo se congela e o mundo e os
acontecimentos ficam cristalizados, há uma cristalização dos acontecimentos... aí o acontecimento
vira fato... um fato de mídia, digamos assim... ...-...-...
...-... a excitação é o estímulo recebido de fora,... você tem um afeto, uma afecção, uma relação
com o exterior e essa relação é algo que vem de fora mas te modifica também e esse modificar,
digamos assim, se você analisar o verbo no infinitivo, o modificar é a excitação, mas é uma linha
aberta do tempo, é um infinitivo, é um modificar, na medida que é modificado e se congela vira
marca... -... o instante, se você capta isso como um instante, ou seja, algo que tem um início e um
fim, aquele instante tem um limite certo?... aquele instante se ele não é captado no seu tempo de
produção ele é uma marca, ... há um tempo interno, uma duração do instante, então é uma
questão de velocidade como disse Epicuro e Lucrécio, depende do modo como você capta a
sensação, se você está com uma certa lentidão de percepção você vai ver muito mais o instante
do que uma duração que envolve... se você é veloz você capta o tempo, capta o processo, capta o
devir... então é uma condição de experiência e na medida em que a força reativa que investe a
excitação deixa de investir a excitação e ao mesmo tempo que a marca se torna consciente e que
a minha força ativa fica separada do que ela pode, ou seja, eu perco a condição da experiência e
eu passo a receber o que o mundo me diz para fazer, ... eu preciso de algo que me oriente, de
uma estrutura, de uma organização, de um plano transcendente de organização para a minha vida,
para os meus afetos, para as minhas idéias...
...-...-...-... na pré-história, nas sociedades primitivas elas tem o cuidado de esconjurar sempre esse
tipo de ameaça, ou seja, fazer com que a dor tenha um outro sentido... daqui a pouco a gente
evolui para esse sentido da dor...-...-...-... é sem memória de marcas, é uma outra memória que é
inscrita no corpo inclusive da forma mais cruel... aqui a gente está saltando... eu vou voltar... ... só
que esse aspecto material do ressentimento é como se o ressentimento estivesse impotente, tudo
bem... há uma certa atualização, mas você não leva o seu ódio para um espírito de vingança... há
uma certa posição já que, digamos... faz com que você não reaja mais, mas que você apenas
ressinta as coisas... o ressentimento é uma incapacidade de reagir, não é uma reação, é uma
incapacidade de reação e ele é uma incapacidade de se furtar a marca, de liberar o seu devir, o
seu futuro das marcas que algum corpo ou alguns corpos estão imprimindo em você. Então na
medida mesma da sua impotência há também uma projeção em cima da causa dessa impotência,
há uma imaginação em cima dessa causa e é aí que vai entrar a primeira ficção, é uma projeção
de uma imagem invertida... a projeção do que? na medida que eu não ajo, que eu não reajo mas
que eu apenas ressinto, eu ao mesmo tempo acredito que aquele que agiu sobre mim e me
paralisou, ele poderia deixar de agir, ele poderia fazer outra coisa... não importa a ação que ele
tenha, na medida em que me afeta ela sempre vai ter um sentido finalista, ou seja, havia intenção
dele me ferir, e é nesse sentido que o ódio acaba sendo necessário, imperativo, por que você não
consegue se desvincular do objeto e você projeta uma imagem invertida, você nega o objeto ao
manter o sentido de conservação do seu corpo... então para se conservar nós precisamos negar,...
aí está toda a gênese genética ou genealogia da dialética... a dialética é exatamente esse
movimento, você nega para depois afirmar... então a dialética necessariamente é sempre uma
dialética do ressentimento, não há uma boa dialética.
A questão da formalização vem depois com os sacerdotes judaicos, há uma matéria de
ressentimento, ou seja, há um campo de seres impotentes ou paralisados, e isso vai disseminando
de modo tal que o sacerdote começa dar formas. Essa condição é uma passagem num certo
momento histórico... a forma como isso se dá agora não vem ao caso... a gente está analisando só
a topologia e a tipologia dessa figura do niilismo...
Então a tipologia... quer dizer, você se torna um ser ressentido na medida que você atualiza a
formalização da culpa, ou seja, você dirige a acusação, você responsabiliza e você pune ou você
faz com que alguém puna aquele que seria ou que é causa de dor para você, aquele que é causa
da sua infelicidade, da sua miséria, da sua impotência... então há um procedimento, um processo
dirigido contra aquele que o tipo ressentido acredita ser a causa da dor... mas o sacerdote é que
vai dirigir depois e vai dizer... olha é esse o culpado... há uma direção... aqueles que se dizem
bons, aqueles que se dizem ativos, aqueles que são os poderosos, esses são a causa da sua
dor... por que o sacerdote precisa se aliar com os fracos para expandir o seu poder, o sacerdote
tem vontade de potência, ele está se aliando com o tipo reativo para exatamente expandir a sua
potência, ele quer o poder também, ele não precisa do poder espiritual e para isso ele não suporta
a atividade por que a atividade derruba o poder dele... então a atividade é exatamente o inimigo do
sacerdote e ele conduz as forças reativas a esse inimigo, diz... é esse que você tem que acusar...
há uma direção contra a atividade, até a atividade ficar separada do que ela pode, por que a
atividade ela tem uma função de agir as suas reações, há uma relação sempre entre força ativa e
força reativa e a força reativa ela tem a função e a nobreza de ser agida, na medida em que ela se
subtrai, que ela se furta a ação da atividade, a atividade é como se você puxasse o tapete da
atividade, a atividade fica sem condição de efetuação,... isso num certo sentido... por exemplo na
questão do ressentimento a atividade é ou a faculdade do esquecimento deixa de adir a reação
que investe a excitação... a experiência deixa de ser real e você não mais experimenta, você
apenas ressente as coisas e se adequar a um plano externo que determina o que é útil, o que é
inútil, o que é bom, o que é mal de acordo com uma instância intermediária que vai acabar
extraindo uma mais valia de código, uma mais valia moral, uma mais valia de dívida... uma
instância que vai se arvorar o direito da extração e da redistribuição disto de acordo com as
vantagens ou desvantagens para essa instância mesmo enquanto instituição de poder. ...-...-...-...
...-...-... o Nietzsche chega a dizer que o tipo reativo é a essência do homem, mas o homem é
apenas um estado do nosso ser... nós não nos reduzimos ao homem, nós somos mais do que
homem... o homem foi apenas uma produção histórica... e é nesse sentido que o Focauld e o
próprio Nietzsche vem dizer que é necessário superar o homem... destruir o homem em nós...
...-... o ego já é essa forma homem, é algo que tem que ser destruído... o ego é apenas uma
máscara... o ego é sempre uma força que domina em você...
..." a forma mulher ainda não foi formulada por isso não capturada"... ( Marisa...)
...-... o devir sempre subverte a forma... então não é uma forma mulher, é um fluxo...
"vamos construir um colar de pérolas pegando cada pérola ditas na aula..." (Lu...)
Na medida que você apreende o que quer o homem do ressentimento você vai perceber que ele
quer triunfar... ele quer fazer com que as forças ativas e a afirmação triunfe e as que as forças
ativas se separem do que elas podem e que se tornem forças reativas, ele quer espalhar o
contágio por que ele não suporta a atividade, é uma condição de sobrevivência... o homem do
ressentimento, mesmo a atividade mais bela, mesmo a beleza, mesmo o amor, mesmo até aquilo
que faz bem para ele, na medida mesma em que ele recebe esse benefício, esse benefício traz
também uma marca e ele se prende na marca... e na medida que ele se prende na marca ele se
congela e não consegue nem agir nem reagir, por mais belo que seja o encontro, é por isso que o
homem do ressentimento não consegue amar, não consegue admirar e não consegue respeitar
ninguém... e por mais que ele se refine depois com a questão de um amor disfarçado de ódio que
é exatamente o amor cristão, que é exatamente a sequência disso e a conseqüência do que quer o
homem do ressentimento... e na medida que ele espalha seu contágio, aliado com essa vontade
de negar do sacerdote e na medida que vai triunfar, só vai triunfar quando as forças ativas ficarem
absolutamente separadas do que elas podem e introjetarem a culpa, ... quando você diz a culpa é
tua... e no momento que a força ativa diz, ... é de fato a culpa é minha... é o nascimento da má
consciência... a má consciência é exatamente a culpa é minha, é o momento em que você aceita a
falta como uma falta interior, você introjeta a acusação, introjeta o estado, introjeta o negativo, o
pai, a mãe, o marido... tudo que é exterior você introjeta...-...-... a igreja com certeza... a igreja a
essência dela é isso...
Então o aspecto topológico da má consciência é exatamente o elemento material do que separa a
força ativa do que ela pode, só que essa força não se evapora... ela volta-se contra si própria... e
nessa medida ele multiplica a dor, ela começa a ser fabricante de dor... mas esse é o aspecto
material da má consciência, ... isso pode te acontecer muito bem... pode acontecer que em um
momento você se torne ressentido mas apenas no plano material ou potencial não significa que
você vai entrar de fato num devir reativo... você pode reverter o processo... agora a mesma coisa a
má consciência, na medida simplesmente que a força ativa está separada do que ela pode, ela
volta-se contra si própria, ela multiplica a dor, isso é uma coisa, e outra coisa é você formalizar e
dar o sentido interno da dor... aí já é o tipo da má consciência, já é tipo reativo que tem a má
consciência. Então aí vem o sacerdote cristão e formaliza essa questão... ele diz você sofre, é
miserável, você está dolorido, impotente, não por culpa do outro mas por sua culpa... tu que
fabricaste a tua dor e tu que vai se curar pela fabricação da tua própria dor, ou seja, você detecta a
causa da internalização da dor que é um pecado, uma culpa, e você detecta o meio de cura que é
exatamente a fabricação de mais dor... você expia a sua culpa por que você sofre, mas você sofre
por que você tem culpa, é o culpado. Então a memória das marcas nesse instante já invadiu
completamente a consciência e há uma falta no passado que a a marra mantém presente, mantém
atualizada e que faz com que você assuma absolutamente essa culpa.
Então você tem esse paralelismo e a mesmo tempo essa sequência entre ressentimento e má
consciência.
Agora, o que leva a captura plena, digamos assim, do nosso desejo e do nosso inconsciente é
exatamente a apreensão disso ou a interpretação da dor como sendo o signo de uma culpa e ao
mesmo tempo o meio de uma cura, de uma expiação, só que isso não cessa nunca na medida em
que eu permaneço reativo, eu permaneço no ressentimento e na má consciência... então na
medida que isso não cessa, não se esgota, isso se multiplica e quanto mais isso se multiplica mais
impotente eu me torno e mais eu aprofundo a minha alma, mais interioridade eu tenho, mais
aumenta o pântano da minha vida, quer dizer a minha vida fica atolada no ódio, no ódio
exatamente a essa inatividade ou essa incapacidade de agir e eu interpreto isso por alguns golpes
de mágica, por algumas prestes digitações como sendo uma virtude, é por que eu me abstenho da
relação com o mundo e com o meu corpo, ou seja, com o ideal acético que eu cultivo, o ideal de
purificação, de abstenções de paixões do corpo e da matéria é que me deixam mais próximo da
salvação... eu me salvo na mesma medida em que eu nego meu corpo e nego o corpo dos outros
e a existência e esse mundo... nego a estética fundamentalmente, nego a sensualidade, a
sensação, nego tudo que é desse mundo...
...-...-...-... ele não consegue suportar a atividade, ele não agüenta nem o que faz bem a ele...-...o
retrato do homem da má consciência é o auto flagelação...-... eu estava vendo outro dia uma
reportagem de algumas seita que tem em Juazeiro do Norte, acho, lá onde tem o movimento do
padre Cícero e há uma comunidade em expansão... não fazem a barba, não tomam banho, não
tem nome, as mulheres chamam Maria e os homens Zé e ultimamente tem lá os seus apelidos...
na cama... se é que fazem alguma coisa na cama... é inacreditável mas você chega a esse
extremo... só que nós modernos estamos mais refinados, agora a gente deita no divã...
antigamente a gente ia aos confessionários das igrejas...-...-...-... olha,... no momento em que eu
falo da psicanálise eu falo sempre no sentido ortodoxo...
O sado-mazoquista é o seguinte, o Sade ele faz ao contrário, em vez de ser um homem de bem
ele vai ser um homem de mal, ele faz uma inversão do platonismo digamos assim, e do
cristianismo, a reversão irônica, ele combate a hipocrisia humana fazendo uma opção pelo mal,
mas ele é extremamente interessante, como diz o Klossowsky... Sade meu próximo... ele é
próximo as nossas idéias... Agora o Masok ele faz algo ainda mais interessante ele instaura a lei,
submete a lei até as suas últimas conseqüências e faz uma reversão humorística da lei...
então a submissão masoquista nada mais é do que uma reversão do platonismo com muito humor,
um humor muito sutil, muito fino, mas não há um sistema sadomasoquista, isso é outra
interpretação equivocada da psicanálise... é mais ou menos o que fizeram com a bíblia, juntaram o
velho testamento com o novo testamento... uma estupidez... -...-...-... até tem uma função
sadosoquista que não passa por Sade ou por Masok, que já é uma interpretação vulgar de Sade e
Masok, eles podem até formar um sistema sadomasoquista, mas é uma vulgarização, por que
Sade foi muito mais longe do que isso e Masok também...-... mas é aquela coisa né... dependendo
da força que se apropria de um acontecimento ela vai dar o sentido que interessa a ela e vai ter a
resposta que ela merece de acordo com o sentido que ela deu...-...-...-...
...-... há uma sutileza do capitalismo aí, há uma privatização dos nossos órgãos digamos assim, há
uma constituição de uma unidade fictícia e há uma colagem da nossa vontade com a questão
privada do indivíduo e do eu que faz com que a gente busque a energia no sentido egoísta, no
sentido privado, nesse momento mesmo você já está impotente, quanto mais impotente mais você
busca algo fora de você nesse sentido, mais você quer o poder fora de você, mais você quer o
objeto do seu desejo, mais algo falta ao seu desejo, mais separados dos agenciamentos você
está... então, essa questão é própria a privatização do indivíduo e a unificação fictícia do eu, é o
estado introjetado dentro de nós... então a questão toda é liberar a multiplicidade que há em nós e
fazer do eu apenas uma máscara... uma e outras... ou você pode até dizer eu para melhor se
esconder atras da sua pluralidade... quer dizer o eu é apenas uma maneira de você se transformar,
de você se tornar ainda mais imperceptível... então fazer do eu essa máscara, você reverte
exatamente o processo... não precisa deixar de falar eu, só que você reverte o sentido, você
começa a se esconder atrás do eu, ou a fugir, se tornar imperceptível para não ser capturado, para
fazer com que o seu inconsciente seja um produtor de realidade e não de fantasma...-...-... é uma
potência plural atrás do eu ou depois... aquém ou além do eu, nunca no eu, o eu é apenas uma
máscara... esse eu é sempre alterado, é sempre mascarado... a máscara é sempre uma relação,
essa relação pode ser com a sociedade, com o sol, com a lua, com o que você quiser... com
animal, com planta... sempre no momento em que há uma relação tem uma máscara... a máscara
é a forma de expressão do ser...-... em Nietzsche isso é explícito, mas isso tem nos estóicos, em
Espinoza... só que Nietzsche usa o termo exatamente máscara... é o personagem, a persona
latino-romana...-...-...
...-...-... a máscara não é o princípio de produção de realidade, a máscara é a condição, não é ela
que produz realidade, é por onde a realidade se produz...-...-...
Seria interessante agora a gente entrar naquilo que faz com que o ser caia de fato num buraco
negro e o buraco negro é exatamente a perda da superfície, da luz, da expressão, da máscara.
Então vamos ver exatamente o que faz com que a máscara se paralise e vire um eu, uma forma
rígida, congelada, que é exatamente a queda no buraco negro e como isso se dá? isso se dá com
a transformação da dor, com a projeção da dor numa equação que os primitivos sabiam funcionar
muito bem era questão da dívida... então fazer com que a dor seja um signo de uma dívida e na
medida mesmo que você multiplica a dor internalizada, essa dor se torna infinita ou ela multiplica
infinitamente, a dívida também se torna infinita e impagável, essa é a nossa questão... essa é a
questão central, a dívida impagável, a dívida infinita, a dívida espiritualizada, é aí que todo ser cai,
é aí que você sucumbe.
Então para a gente entender isso seria bom entender um pouquinho o que o Nietzsche entende
como atividade de cultura. Ele diz que há uma atividade pré-histórica não no sentido aqui de que
está fora da história no sentido amplo da coisa, mas esse pré-histórico é uma atividade genérica
que não está determinada por um local ou um momento ou por uma coisa assim, é como que se a
natureza através do modo homem, a natureza produz o homem e através do modo homem ela ao
se ultrapassar enquanto homem, a natureza enquanto homem, a natureza naturante ao modo
espinosista, ao se ultrapassar enquanto homem ela se dobra em si mesma, se trabalha e se
lapida... então há o trabalho de lapidação, há um trabalho escultural do ser humano nesse caso ou
do modo humano e o Nietzsche diz que exatamente essa atividade ela é genérica por que ela é
inconsciente e ela é anterior ou posterior à história, ela não se encaixa no sentido de época, ela
ultrapassa o sentido de época, por isso ela é pré-histórica, não é que falta história a ela... que essa
idéia é acnocentrista é uma idéia equivocada, ... dizer assim, os primitivos não tem história, como
não tem estado não tem isso ou aquilo, eles são contra isso, contra esse tipo de história contra
esse tipo de estado, contra esse tipo de capital... mas tem uma outra história, uma história
universal dizendo no sentido pleno da coisa...
Então essa atividade genérica é, diz Nietzsche, é exatamente o que faz a cultura, a cultura ela
adestra e seleciona, o sentido da cultura é um sentido seletivo... há um culto a certas linhas a
certas atividades a certos devires, exatamente atividades de adestramento de forças que possam
fazer com que a vida sucumba, com que uma sociedade sucumba... então essa dobra sobre si
mesmo, esse adestramento é exatamente o adestramento das forças ativas sobre a s forças
reativas, é fazer com que as forças reativas sejam sempre agidas..., é fazer com que as forças
reativas que tem funções nobres de regulação, de conservação, de organização... que essas
funções se mantenham no seu sentido secundário para que exatamente funções mais nobres do
ser serem viáveis, ou seja, você precisa viabilizar algo que vai muito além da função da força
reativa que é exatamente a capacidade de criar, de inventar, de se liberar, de se diferenciar. Então
o Nietzsche vislumbra um sentido para essa cultura. A cultura tem uma atividade, tem um objetivo
que se serve de um meio, o meio é o adestramento das forças reativas..., essa atividade de
adestrar as forças reativas e de selecionar os encontros e o que retorna, digamos assim, para essa
mesma sociedade ou para um corpo qualquer, essa capacidade de adestramento e de seleção tem
o objetivo segundo Nietzsche de atingir um produto ou de produzir algo e essa produção, esse
produto é exatamente um indivíduo livre e soberano. Então o objetivo da atividade pré-histórica é
atingir o pós-histórico, digamos assim, que seria o indivíduo livre e soberano. O pré-histórico
precisa da lei, da obediência, da responsabilidade, da dívida e do crédito. O pós-histórico se libera
disso, ele não precisa de lei, obediência, responsabilidade, de nenhuma moralidade, de nenhum
costume, de nenhum hábito... como diz o Nietzsche é o leve, o irresponsável, o dançarino...
Então como se dá o adestramento das forças reativas?... Se a gente analisar a natureza das
relações das sociedades selvagens ou ditas primitivas, nós vamos observar que de nenhum modo
a natureza dessas relações é a própria como muitos antropólogos e etinólogos interpretam, ou
como diz Deleuse e Guatarri , mais do que antropólogos e etinólogos são os ideólogos que fazem
esse tipo de coisa, que introjetam a troca para interpretar a natureza da relação nas sociedades
tribais.
É sempre dito, isso é quase de um consenso, que a natureza das relações dessas sociedades é
uma natureza de relação de parentesco. E parentesco se dá através de dois modos, filiação e
aliança. A filiação é exatamente a sua herança, a relação entre ascendentes e descendentes, e é
essa relação que leva a uma centralização dependendo do modo como você se relaciona com a
filiação, leva a centralização de um pai primordial e um objetivo final, digamos que é uma dimensão
do bom censo. E há uma tendência de muitos antropólogos e etinólogos em interpretar a relação
de filiação como sendo determinante e dominante nesse sistema tribal e a aliança, os casamentos
ou as maquinações de casamentos apenas como um elemento secundário submetido a relação de
filiação.
Acontece que até Levistrau que interpreta como sendo duas dimensões da mesma estrutura essa
relação de parentesco, dá uma prioridade efetiva e prática a relação de filiação e não a de aliança
ainda que interprete de forma neutra como sendo equivalente, efetivamente ele prioriza a relação
de filiação. Bom , isso é só uma parte, digamos assim, na nossa questão, por que nós estamos se
expondo de modo sumário como é que funcionaria as relações nas sociedades tribais exatamente
para chegar na natureza da dívida, o nosso objetivo é esse.
Agora se você analisar e tem vários antropólogos que vão nesse sentido, o Pierre Clastres,
Edmundo Licht que tem um livro chamado Crítica a Antropologia, Evan que escreveu um livro
chamado Os Nuer, são africanos de uma região próximo ao Sudão, algo assim,... existem alguns
outros antropólogos que sentem que a questão fundamental não está centralizada na relação de
filiação mas sim na relação de aliança. E a relação de aliança é exatamente o que possibilita as
estratégias, as composições, as expansões, as fusões e as chisões, digamos assim, há sempre
relações de conexões, de disjunções e de conjunções nessas sociedades que se dão de modo
filiativo e através da aliança. Na medida em que você faz circular por exemplo uma mulher na tribo,
como diz ... a questão não é fazer circular a mulher, por que a mulher anda por si própria... a
questão é estabelecer um direito de progenitura... então você extrai uma mais valia de código... eu
estou dando um salto imenso aqui, já estou usando uma linguagem um tanto complexa, mas isso é
só para a gente se introduzir no Anti Édipo... você extrai um segmento, uma mais valia de código e
redireciona os fluxos. Então há uma estância imanente a essa sociedade que a gente vai chamar
agora aqui corpo da terra ou corpo pleno sem órgãos da terra, que seria a unidade própria dessa
sociedade, o sócius para nos referirmos a essa superfície metafísica, adjacente a todas as
relações, ações e paixões dos corpos, há então um rebatimento de todas as ações e paixões
nessa superfície e uma extração de energia e uma redistribuição de energia segundo as relações
que interessam a tribo, mas... resumindo a nossa questão sem entrar em detalhes por que isso é
objeto de uma outra exposição... o que interessa aqui é que as relações que diferenciam os
indivíduos e os processos nessas sociedades se dão prioritariamente ou predominantemente
através da aliança. E a aliança é sempre um bloco de dívida-crédito, há uma relação de credor e
devedor, eu dou a minha filha para a sua linhagem ou o seu clã e você me deve algo que nunca é
equivalente, que não há o equivalente abstrato, não há quantidade abstrata aqui, é impossível
surgir a moeda... não é que eles não tem moeda, eles esconjuram a moeda mesmo que seja
inconsciente, assim como eles esconjuram o édipo, o estado, como diz a Anti Édipo ... o
capitalismo é digamos, a verdade universal dessa sociedade mas no sentido negativo, é o que elas
não querem, é o pesadelo, o horror dela... a sociedade de mercado, a moeda, as quantidades
abstratas, a privatização dos órgãos, o estado, o eu... isso tudo é o horror, há um medo, uma
angústia que é exatamente esse tipo de coisa, o inominável surja no meio deles, então eles
esconjuram dentro de si próprios, dentro dessas sociedades eles tem mecanismos de
esconjuração desse tipo de coisa... então como disse Pierre Clastres, não é uma sociedade sem
estado, é uma sociedade contra o estado. A função do chefe é falar e falar muito para ninguém
ouvir e dá muito presente, é só com essa condição que ele é chefe, e ele é chefe numa condição
muito particular, a função da guerra. ...-...-...a condição de falar muito é que a percepção dele de
organização e de comando que ele tem numa função específica de guerra, num momento
específico não seja generalizada para a vida, para o centro da tribo e se construa um trono que ele
tome posse e diga o que todo mundo tem que fazer ou não tem que fazer...ele só tem essa função
de coordenar a guerra no campo de batalha, só que ele exercita isso, mas ele vai exercitar sem
nenhuma eficácia, ninguém vai ouvir e se ouvirem aquilo não tem nenhum sentido de poder,
nenhum eco, e mais ele tem que dar muito presente ser muito generoso, e tem que ser forte, ele
tem que ter prestígio que é diferente de poder. ...-...-... há uma crueldade no humor...-...-...-... a
troca de mulheres das tribos não gera ressentimentos... tudo bem, mais há ainda algo mais forte...
isso vai no sentido da pluralização, da diversificação e da heterogeneidade da natureza, a natureza
funciona assim mesmo, se diversifica, se multiplica e diferencia... mas há um sentido político muito
forte nisso, há um sentido de aliança, o fazer circular as mulheres, trocar as mulheres no caso,
produz aliança, mas isso gera um crédito e uma dívida, a relação de aliança é sempre uma relação
que tem essas duas partes, a de crédito e dívida.
Agora, existem situações onde há simplesmente rapto, roubo de mulheres, cavalos e outros bens...
a questão inclusive é de saber separar bens de consumo, bens imensuráveis, bens que você não
tem como avaliar a quantidade de energia ou o valor embutido nele... o valor nunca é um valor
abstrato, nunca é um valor monetário, é impossível você estabelecer uma quantidade abstrata e
dizer que algo pode ser trocado por algo, há sempre uma relação desequilibrada aí, pelo
desequilíbrio que a sociedade se mantém aberta, o desequilíbrio é uma função sadia da
sociedade, então a sociedade funciona desfuncionando, desiquilibradamente, a manutenção da
abertura e da diversificação e da diferenciação é exatamente dada por esse bloco móvel de dívida
que nunca tem uma compensação que feche o circuito, a compensação é sempre parcial e
relativa, sempre há uma descompensação que faz com que o movimento se repita em outro
sentido, então há uma tecelagem, digamos assim, de relações segundo os blocos móveis de
dívida. Agora, essas dívidas tem uma questão essencial, a natureza delas é sempre finita, ou seja,
elas se dissolvem na medida mesma em que outra relação se agencia e compõe a sua contraface
ou o seu crédito, digamos assim. Só que o crédito nunca é equivalente, ele cria um novo
desequilíbrio e o movimento é perpétuo exatamente nesse sentido.
...-...-... a mulher é um elemento, as crianças são outro elemento, os espermas são outros
elementos, os pênis, as vaginas, os olhos, os ouvidos, não tem uma centralização individual, você
não tem um indivíduo constituído, você tem órgãos investidos coletivamente.
Aliás, a gente pode até avançar um pouco mais... ... nas sociedades primitivas os seus órgãos são
sempre um investimento coletivo... aquelas cenas, aquele teatro... teatro de crueldade, aqueles
rituais de crueldade, o que o Nietzsche diz, atividade pré-histórica inseparável dos atos de
crueldade mais terríveis, holocaustos, dores assim incríveis que são produzidas nesse tipo de
rituais, mas isso é exatamente o sentido do investimento coletivo dos órgãos do adestramento das
forças reativas que devem ser agidas, devem obedecer a atividade, ou seja, essa atividade
genérica ela leva aquilo que tem uma função secundária no conjunto a obedecer e a estar pronta
para obedecer, então há um adestramento e esse adestramento se faz com cortes na carne, enfia
agulha no nariz, na boca, nos ouvidos, você tem atos de extrema crueldade mas no sentido
exatamente de fortalecer os corpos exatamente através dos rituais de passagem... então você tem
uma função de ultrapassamento de si e de submissão daquilo que tem que ser submetido em
você, o seu estômago ele não pode dizer assim, eu estou com fome agora e eu preciso comer
agora... por que ele te domina... quer dizer ele até pode, só que isso reduz muito a sua vida, sua
vida chega próxima do grau zero da existência, é uma baixa intensidade, você fica reduzido a um
órgão...-...-...flagelação nunca no sentido de interiorização da dor... a dor aqui tem sempre um
sentido externo... bom, é melhor a gente fluir mais senão a coisa fica muito truncada...
fragmentada...
Então voltando, você tem um investimento coletivo de órgãos que se inscrevem, que se registram
num plano imanente de composição que seria nesse caso o corpo da terra... não é um estado, não
é um corpo de um déspota, não é um Deus, mas é uma superfície metafísica onde os mitos se
rebatem, onde as narrativas míticas se rebatem, onde a memória é reproduzida, onde há um
registro de superfície mas esse registro e essa memória não são mais a memória das marcas mas
uma memória de vontade, uma lembrança do futuro digamos assim, uma memória do futuro, não é
mais função do passado mas função do futuro, é uma memória que não é de imagens ou de
marcas mas uma memória de palavras, não é uma memória de uma falha mas é memória de uma
promessa, de uma apreensão do futuro e de uma condensação do futuro, ou seja, você intensifica
de modo tal que tudo está aqui, o que Nietzsche diz que é essencial nessa atividade genérica de
cultura é exatamente você produzir um homem capaz de prometer... você produzir um homem
capaz de conquistar o futuro e de não esquecer isso... então aqui a função negativa do
esquecimento agora se dá em relação a memória da vontade, é uma memória ontológica, é uma
memória de ser, é uma memória do campo imanente, seria a quase causa de todas as relações, de
todas as composições que dão esse tipo de sociedade.
Então esse adestramento das forças reativas é exatamente a condição para que as marcas fiquem
recalcadas no inconsciente, as marcas dessa memória ou desse inconsciente reativo permaneçam
inconscientes e o homem seja capaz de apreender algo que ele pode assegurar, que ele pode
alcançar, que ele pode tornar presente, que ele pode atualizar, ou seja, atualizar o virtual do futuro,
fazer do futuro uma potência em ato, fazer do homem um ser capaz de prometer, capaz de
conquistar o futuro. Isso é a que se propõe a atividade genérica de adestramento e de seleção das
forças reativas. Então esse adestramento e essa seleção são os meios de produção de um
indivíduo livre e soberano, mas você produz um indivíduo livre e soberano através de uma
responsabilização dele ou da sua atividade pelas próprias forças reativas que o compõe. Ele é
responsável não pelo seu desejo que deve ir até onde vai o desejo do outro, pela sua liberdade
que vai até onde começa a do outro, ele é responsável pelas suas forças reativas, é essa a
responsabilidade e é essa a dívida que ele tem para com a suas forças reativas, o credor é credor
de si mesmo e o devedor é devedor de si mesmo, mas esse si mesmo nunca é um eu, nunca é o
estado, nunca é uma igreja, nunca é um Deus, nunca é uma entidade transcendente, esse credor
de si mesmo é o próprio sócius enquanto atividade genérica na medida em que eu enquanto
indivíduo não existo aí, eu invisto coletivamente os meus órgãos, eu invisto nos fluxos e nas
codificações de fluxos, ou seja, eu encontro a forma adequada para que esses fluxos retornem em
forma de energia... então a função de codificar os fluxos é exatamente a função de fortalecer ou
aumentar a energia, é um estoque de energia, não é estoque de capital, é estoque de energia...-...-
...-...-... eu devo a mim mesmo, mas esse eu, esse mim é uma pluralidade, um conjunto plural
aberto...-...-...
O que ocorre aqui... a circunstância aqui é a seguinte... você precisa codificar os fluxos... vamos
supor que você seja um caçador, o caçador observa, ele fixa a sua presa viva, ele se conecta a ela
e ele se desloca, o espaço em que ele ocupa e o espaço de deslocamento vira uma coisa só, ele
se torna um caçador nômade em movimento até fazer a captura da presa,... ele captura o ser vivo,
no momento em que ele mata, que ele obtém ou que ele adquire a caça, essa caça já não remete
mais a ele, ele não pode comer a caça, ou seja, a sociedade cria regras para si mesma, ela faz
com que essa caça vá para um estoque no sócius e certas funções ou certos seres que estão
exercendo essa função de distribuição vão redistribuir essa caça... então você deixa de conectar a
sua atividade imediata e consumir essa atividade que você mesmo produz para haver um consumo
depois que é distribuído pelo próprio sócius, ou seja, há uma mediação mas é uma mediação ainda
imanente, há uma redistribuição no sentido de fazer com que o estoque, o estoque criativo,
estoque de alianças, de dívidas, de créditos, estoque de produção se convertam em energias e
retornem em forma de atividade, há um retorno da energia produtiva, isso que é fundamental
nesse instante... então a atividade de codificação é uma atividade que adestra as forças reativas,
que age a reação no interior do sócius e seleciona o que interessa como retorno de energia, mas
nunca você tem um estômago que pertença a mim por exemplo, ou o anus que me pertença, ou
uma boca que me pertença... a boca, o anus é coletivo, o faro é coletivo... aliás não há nem o
sentido simbólico do faro... as vaginas são coletivas... as vaginas estão pregadas no corpo sem
órgãos do sócius,... os pênis, os anus, as bocas, as orelhas, os olhos... é Dionísio despedaçado
para falar a linguagem do Nietzsche... ou seja, um plano de imanência com intensidades se
conectando, se agenciando, se unindo, se diferenciando de modo conectivo, disjuntivo ou
conjuntivo segundo exatamente essa atividade de codificação, de adestramento e de seleção.
Então o investimento coletivo de órgãos, a codificação de fluxos e a separação de cadeias de uma
série para outra série, de uma linhagem para outra linhagem, ou o deslocamento de uma atividade
de caça para um registro e desse registro para uma distribuição... nunca geram uma entidade
estranha no interior do sócius que faria com que esses seres fossem sobrecodificados ou
capturados ou se sentissem extraídos, ou a sua energia fosse extraída em benefício de uma
entidade que não reverteria plenamente nessa energia necessária a atividade genérica da cultura
com o seu objetivo de produzir um homem livre e soberano. ...-...-... não é nem bom nem mal, é
assim... não é uma questão moral... militar??? é justamente ao contrário disso... a máquina de
guerra aqui nunca é uma máquina estatal... militar sempre é uma máquina de guerra aprisionada
pelo estado... aqui você não tem isso... você tem uma diferenciação... aqui no momento que você
produz os rituais de crueldade coletivos, os rituais de passagem ou o adestramento dos órgãos, é
sempre no sentido de fortalecer o ser próprio dessa comunidade, é sempre no sentido de expandir
a potência e de aumentar a diferença... você diferencia e expande, e na medida que você
diferencia e expande não há uma centralização que diz... de uma unidade para outra unidade, o
que uma unidade deve fazer sobre o julgo de outra unidade... isso não existe... isso é uma
pluralidade inconsciente que se projeta e se rebate nesse sócius... o sócius é o próprio corpo da
terra... então se chame a terra de tirana... a terra seria tirana... você não tem indivíduos que
repartem a terra, que repartam cargos e funções... é, os indivíduos que se repartem na terra... não
há um solo repartido, não há uma propriedade privada... o órgão não é privatizado... o eu surge... a
primeira propriedade privada do homem é o seu cú... no momento que ele privatiza o anus ele se
torna um eu... o eu começa a falar... diz Arathau, esse cú de rato morto pendurado no teto do céu...
o eu é exatamente anal, enquanto a gente dizer eu a gente não sai da merda... é o anal privatizado
e sublimado, mas é o próprio anus que sobe, não é que você faz da matéria anal um elemento de
sublimação, é o próprio anus que sobe, por isso que Arathau diz, esse cú de rato morto pendurado
no teto do céu... e a altura do anus é exatamente a altura representativa de um eu privado... a
altura do estado, a altura de Deus, a altura de uma transcendência, a altura de um outro mundo, a
altura do eu é a mesma, é a altura que se separa do devir, é a altura que cria a sua falsa
profundidade, é a altura da má consciência. Então a privatização do anus é a primeira
desterritorialização, para usar um termo que a gente vai explicitar mais tarde... dos órgãos
investidos de modo territorial... territorialmente investidos por que o corpo da terra, nesse sentido
que a quase causa é a terra, é a superfície onde se rebatem os órgãos. Esse corpo da terra é o
extra ser de todas as coisas, onde tudo se rebate... é uma memória que não é uma memória de
marcas, é a memória do acontecimento, não é a memória de fato, é memória de acontecimento, é
a memória do devir, é a memória do ser. Então há uma produção de memória e essa memória é
função de futuro... é o direito e o poder do futuro ao mesmo tempo... você tem direito ao futuro na
medida que você é capaz de prometer e não esquecer essa promessa... e essa promessa vira uma
responsabilidade dívida, você tem uma dívida em você que não é um eu, essa dívida não é para
um estado, para uma igreja, não é para uma entidade, não é para um exercito, não é para
ninguém... essa dívida é relação de forças plurais que te atravessam e atravessam a sociedade,
elas são de forças com a própria força, a força reativa deve para a força ativa...é isso. Então a
força ativa vai adestrar, lapidar a força reativa para que a força reativa invista o que interessa para
a força ativa... então há uma seleção nesse adestramento e uma produção de responsabilidade e
dívida... locus e dívidas finitas... e aí que a fala constitui a memória da vontade ou a memória da
vontade se expressa na capacidade de prometer.
O que ocorre no momento em que você privatiza os órgãos? No momento em que você faz das
relações e dos fluxos relações de equivalência abstrata, no momento em que você faz da dor ou
da inscrição do sócius na carne de seus elementos uma dor que te leva a impotência, uma dor
interiorizada, uma dor sentida e ressentida... o que ocorre nesse instante? Nesse instante ocorre
uma projeção da dívida... então agora só para dar um salto... eu não vou prosseguir na análise das
sociedades primitivas... eu só introduzi esta questão para narrar a natureza da dívida nessas
sociedades...-...-...-... o homem é nômade, mas nunca há um nômade absoluto, sempre já há um
estoque de energia... a aldeia já é um estoque de energia mesmo que essa aldeia seja nômade...
ela se desloca... mas há sempre um local onde há um estoque de energia... esse estoque pode ser
de filhos, um estoque filiativo, um estoque de alianças que é de dívidas e de créditos, saber é uma
memória mítica... são os mitos que entram na narrativa dos rituais, as funções... e sempre há aí
essas rupturas mas são sociedades segmentárias que nunca deixam a unidade fictícia surgir
dentro delas... a morte delas vem de fora, nunca dentro delas, o estado não nasce dentro da
sociedade primitiva, essa unidade, a segmentação...-... e ao mesmo tempo por que ela é aberta, é
uma sociedade aberta... valoriza a diversidade...-...-...-...
...-...-... eu já expus isso, em relação aquela questão de opção pêlos pobres, o engajamento social,
a luta para liberá-los e ... isso que eu falava sobre a questão do ressentimento que não era
produzido por uma quantidade de força exterior, ou seja, que a posição do ressentimento
independia da quantidade de energia que afetava esse corpo, ou seja, não é por que uma potência
é infinitamente maior do que a minha me paralisa e me congela que eu me torno ressentido, nunca
é por esse motivo, é sempre por uma posição entre as minhas próprias forças, são as forças
reativas minhas que não são agidas pelas minhas forças ativas ou que se subtraem a ação das
minhas forças ativas, é a faculdade do esquecimento que não funciona em mim, é o dispéptico, é o
que não consegue acabar nada, é o que deixa as marcas invadirem, é o homem com muita
memória, muita memória de marcas... nas culturas primitivas isso é esconjurado, a memória de
marcas é sempre recalcada... há um recalcamento primário...
"aqueles que mataram índios, o que foi que aconteceu?"(Bete)... aí é outra coisa que nós não
vamos entrar agora...aí já é o déspota, já é o paranóico que vem de fora, que vem do deserto e
captura os povos das florestas...-...-...-...-... agora a questão que ronda... que há um perigo,
digamos assim, é exatamente a tentativa de unificar os movimentos ou de formar comunidades
com alguma identidade ou com alguma centralização...-...-...
Então eu vou seguir aqui resumindo por que senão a gente não atinge pelo menos o objetivo
imediato nosso que é revelar a natureza da dívida na má consciência...
Então... esses blocos de dívidas enquanto a sociedade é saudável, os corpos são saudáveis e não
há o ressentimento, nesse caso, você sempre paga a sua dívida na medida em que você sustenta
a sua promessa, você lembra a sua promessa e cumpre a sua promessa. Então essas sociedades
inventaram uma equação que é a equação dor castigo... dor igual a castigo ou dano causado dor
sofrida... dor sofrida é o castigo recebido por um dano causado e o dano causado é sempre o
descumprimento, o esquecimento da promessa... causam danos, mas esse dano ele não é
responsabilizado de modo moral, ele é responsabilizado de modo funcional... há uma
funcionalidade da responsabilidade e dívida que faz exatamente que a aliança se produza e faça a
energia passar e retornar por ali. Então a questão da equação dano causado e dor sofrida ela é
sempre uma equação finita, ela se dissolve nela mesma e a dor tem um sentido exterior a aquela
relação, a dor ela é sempre o prazer de alguém, ela é sempre o prazer de um campo de atividade,
ela é o prazer do sócius, ela é o prazer do corpo pleno da terra, ela é o prazer da encenação do
ritual, ela é o prazer do deuses, ela é sempre o prazer de uma atividade que consegue, que é
capaz de adestrar e de agir às suas reações... esse é o sentido da dor e é por isso que os rituais
de crueldades, os piores que se possa imaginar são inseparáveis de festas, de gozos... há muito
gozo e muita festa em cima do ritual de crueldade e você pode inclusive resgatar um sentido mais
próprio, digamos assim, sem a gente vulgarizar com as nossas projeções preconceituosas de
seres melindrosos incapazes de suportar qualquer tipo de dor, seres anestesiados como somos...
em fim... o ritual de crueldade ou essa codificação, esse adestramento das forças reativas é
inseparável de um prazer, de um gozo e de uma festa... é sempre festivo isso, é sempre uma coisa
de alegria por que está fortalecendo aquela tribo, aquele conjunto, aquelas forças... é uma
celebração de um fortalecimento. O caçador da floresta diz Pierre Clastres a um índio guaraqui, diz
infinitas palavras quando ele faz a sua atividade de caça,... eu eu eu um caçador, um ser forte,
poderoso, agressivo, uma natureza irritada... então há uma celebração... só que esse eu
evidentemente é uma máscara que surge nele que é até uma máscara filiativa que tem todos os
antepassados e todos os deuses que encarnam nele naquele momento, ou seja, então aquela
filiação ascendente, aquela relação de filiação ascendente que ele tem não é uma relação
extensiva mas há uma intensificação e uma coexistência imediata de todos os antepassados dele
e os deuses que estão atuando naquela atividade... então aquela atividade é divinizada em si, há
uma intensidade naquilo que é feito, naquela função e isso sempre é um ato de celebração de
gozo de sequência ou de conseqüência de efetuação de potência... então nunca você está dando
satisfação para uma instituição militar, nunca é uma atividade que leve a alguma repressão ou a
alguma submissão a uma instituição que viria diminuir ou oprimir ou humilhar a vida... é ao
contrário, é uma celebração da vida e por isso a crueldade é o que Nietzsche vai dizer, exatamente
o oposto da vingança e da piedade, essa é a justiça... se há um sentido de justiça é exatamente a
atividade da cultura que produz o sistema de responsabilidade e dívida em função do
adestramento das forças reativas para produzir um homem capaz de prometer e depois um homem
liberto dessa responsabilidade da obediência, da lei ou seja do que for... um homem livre.
...-...-... ato de crueldade por que a força só entende por força... a força ela não espera que você se
apiede dela, a força ela quer ação e reação, a força é uma relação de ação e reação... se o seu
corpo apreende aquilo como ritual de crueldade na superfície ou a sua consciência apreende
aquilo como uma crueldade, isso não é o mais profundo, o mais profundo é exatamente o que você
faz com a força, o sentido que você dá a ela, é aí que te interessa... então a crueldade se opõe a
piedade por que a piedade diz assim, Ah! você está com fome? vem aqui e come, supre
imediatamente a sua dor de estômago... quando você pode até fazer isso mas sempre
submetendo isso a algo mais nobre, a uma atividade que não se reduz a regulação, a
conservação, a preservação, a funções menos nobres do ser. Existe sempre esses dois planos de
realidade do ser, o que você dobra no tempo, exatamente o seu interior, o seu passado e a
conservação disso e a regulação disso, a funcionalidade disso que é função de forças reativas e
aquilo que incorpora mais que se apropria que engloba que captura mais energia e aumenta a
potência e a consistência do ser, produz um plano de consistência cada vez mais poderoso, é uma
vontade de potência imanente aí... então esse tipo de atividade tem diferença de natureza da força
reativa... a força reativa ela conserva, a força ativa conquista... então se você reduzir a vida a
conservação você está reduzindo a vida a sobrevivência.
Já pintaram nos muros de Paris em maio de 68 o seguinte enunciado: "viver não é sobreviver"... e
não é mesmo... você não pode reduzir a vida às suas funções menos nobres... a vida ela tem
intensidades... essa distinção entre força ativa e força reativa é fundamental... é fundamental isso
por que a ousadia, a conquista, a criação, o desvio, o clinamem de Epicuro e Lucrécio, a afirmação
de uma diferença e a experimentação e a afirmação do acaso que é desconhecido e misterioso é
essencial para que a vida siga no seu sentido de superação... se há um sentido para a existência é
exatamente esse sentido de crescimento e superação... é o eterno superar, o eterno retorno de
uma potência que aumenta, sempre diferente, retorna, aumenta, investe novamente diferente...-...-
...
...-...-... sobre a solidariedade com os oprimidos...-... eu quero chegar lá... por que tem dois
sentidos isso... um sentido extremamente reativo e tem um sentido de uma solidariedade a ser
resgatada que é exatamente uma solidariedade que está excluída da nossa sociedade... o que é
necessário fazer é uma distinção entre má consciência e ressentimento dos oprimidos para liberar
o autêntico sentido de solidariedade... que solidariedade pode estar mascarada de piedade, de
uma fraternidade humanista... piegas mesmo... de passar a mão na cabeça da fraqueza e da
miséria... então esse cuidado que é necessário ter... as forças reativas triunfam por subtração e
elas depois formam comunidades, elas se subtraem a ação das forças ativas, elas não agem mais
a sua reação mas ao mesmo tempo que elas são adestradas, que elas já tem uma virtude de
adestramento, elas já tiveram uma qualificação, digamos assim, num certo momento elas passam
a obedecer, e essa é a função delas, só que não mais às forças ativas mas a outras forças
reativas... essa é a questão toda... e daí a projeção da dívida onde se transforma a sua natureza
que vira dívida infinita... mas só voltando um pouquinho a questão anterior... eu já vou desenvolver
esse ponto na sequência...
O homem que é capaz de prometer ele é responsável pelas suas forças reativas... transformar o
homem pelo adestramento de suas forças reativas é o mecanismo, é o meio que a atividade
genérica da cultura lança mão para produzir algo que ultrapassa a essa atividade e a essa
crueldade... que é exatamente o homem livre e soberano... o homem irresponsável, o homem
supra moral.
E o que faz o ressentimento? o seu triunfo é exatamente espalhar o contágio da acusação, da
responsabilização e a punição. O sucesso último dele é o momento em que as forças ativas ficam
separadas do que elas podem... momento material da má consciência, momento topológico da má
consciência... há uma introjeção da força ativa, há uma multiplicação da dor e em seguida uma
formalização ou uma atualização formal no sentido interno da dor e é exatamente signo de uma
culpa, de uma dívida, agora sim a projeção da culpa se confunde com a dívida que a força reativa
tem, só que essa força reativa com a sua capacidade de adestramento vai servir a outra força
reativa ou a outro conjunto de forças reativas e é exatamente nesse instante que você forma uma
distância infinita entre existência e essência, entre ser e devir, entre uma dívida que se torna
infinita em relação ao que esse conjunto de forças reativas vai produzir enquanto um ser
transcendente ao qual se deve obedecer.
Então forças reativas que obedecem a outras forças reativas dirigidas por uma vontade de nada,
por uma vontade de negar exercida na função do sacerdote vão ser rebatidas ou projetadas num
plano transcendente de organização que vai exatamente ser o credor da sua dívida. Então o credor
se descola da imanência do ser, ele passa a ser transcendente e o devedor ele nunca consegue
pagar na medida em que a existência é sinônimo de sofrimento, de dor... quanto mais você sofre,
mais culpado você é e quanto mais você fabrica a sua dor mais você expia a sua culpa e paga a
sua dívida, entre aspas por que você não cessa de aumentar a sua dívida na medida em que você
fabrica a dor então no máximo você paga juros da dívida, ela é impagável ao ponto tal que a vida é
levada a uma condição de beco sem saída que o próprio credor se oferece para pagar a dívida do
devedor, o momento exatamente que um Deus maluco se prega na cruz... Cristo paga todos os
nossos pecados na medida mesma do seu ato ou da sua atividade absoluta...-...-...-... aqui o
sentido é mais grave...-... aí só é uma fala superior do cristianismo e era exatamente a fonte, a
genealogia, o elemento genético da igreja...-...-... o que fez o apóstolo Paulo, ele diz : Cristo
morreu pêlos nossos pecados, mas nós o matamos, nós matamos Deus... aliás isso é um sentido
da morte de Deus... o sentido das várias narrativas da morte de Deus em Nietzsche, um deles é
exatamente essa morte de Deus na cruz e outra é que nós o matamos... então São Paulo cria
novamente o sentido interno do pecado ligado ao assassinato de Cristo... nós herdamos esse
pecado... e ele expiou mas ao mesmo tempo aumentou a nossa dívida, sutilmente, ainda que
aparentemente eles digam não, Cristo é amor... o amor liberta... aumentou a dívida...aumentou e
tornou impagável... já era impagável, só deslocou... diz o Nietzsche, golpe de mestre do Deus
judaico que era um Deus do povo e virou um Deus universal, o Deus do amor... então o ódio que
se esconde atrás desse amor é exatamente a vingança que se exerce em cima de tudo que é
atividade e afirmação que é sempre o elemento gerador de culpa, de dor, de sofrimento, de
miséria, é a mesma questão só que agora eu digo, eu sou minha culpa, minha máxima culpa, mas
atrás dessa acusação a mim mesmo existe uma acusação generalizada á vida, a existência, ou
seja, eu descolo essencialmente o ser do devir e o ser vai para o além, vai para um outro mundo e
esse devir necessariamente é um devir sofredor onde existe culpado, é um devir que deve ser
justificado e expiado, é um devir que deve ser salvo, mas nunca eu atinjo plenamente esses seres,
esse ser se descolou de mim, eu virei aquilo que o Platão diz, uma imagem do modelo no melhor
dos casos, com marcas de semelhança a esse modelo, mas nunca eu sou o modelo... eu sou a
imagem e semelhança do modelo... então essa questão da dívida infinita atravessa o ocidente e
hoje faz que ela nunca permaneça presente sempre de modo muito sutil evidentemente e o
capitalismo tem nessa questão o seu motor imóvel... o motor imóvel do capitalismo é a dívida
infinita... é mecanismo de aproveitamento ou de produção de subjetividade própria ou necessária
ao funcionamento da máquina do capitalismo... "quanto mais eu consumo mais consome a minha
existência" (Marisa)...-...
...-...-... absolutamente falando todos são vítimas, por que essa questão que a Marisa falou é
essencial, por que na medida mesma em que você é um tipo do ressentimento, um tipo da má
consciência você não age e e nem reage, você só ressente... então a sua atividade é uma falsa
atividade, é uma atividade submetida a essa malha, a esse conjunto esquadrinhador do desejo e
do inconsciente. Então toda vez que você vai experimentar um processo você não experimenta
realmente o processo, você está antes ou depois, ... existe o acontecimento que você espera que
aconteça, só que daqui a pouco a coisa se passa e você não percebe e já foi e aí você diz, poxa...
aquilo era o sentido daquele momento, aquele acontecimento... a oportunidade foi e era esperado,
só que o ser da falta ele vive o tempo inteiro assim, ele vive o instante que é futuro, que é passado
na marca mas que nunca é o devir presente, ele não consegue habitar o devir por que ele é todo
marcado e a marca impede a experimentação real, impede que você goze... é por isso... aí tem
uma origem da histeria, da repressão, da paranóia... tudo que é doença... é exatamente o
congelamento de signos semióticos que aprisionam o inconsciente e o desejo... isso se dá de
forma muito sutil...-...-... você reduz a vida a isso, a um mínimo de intensidade por que as outras
ameaçam...-...-...-...
...-...-... é impossível você experimentar de fato ou gozar de fato se você não estiver em devir...
isso é ontológico, é necessário que você cavalgue fluxos, você cavalgue devir para que você
goze... não tem outra saída... ou seja, você é habitar o tempo próprio que existe em você e isso é o
seu espírito... se há algum centro em você é esse tempo próprio que te habita e esse tempo
próprio é plural... cada processo, ato de percepção, de audição, disso ou daquilo que você faça é
um tempo próprio e singular... no momento que você habita esse tempo próprio realmente você
está em devir, em atividade, está afirmando o acaso... você é um ser pleno.
Agora eu te pergunto... é possível você produzir máscaras, ser um ser plástico, ser um ser em
metamorfose e atravessar esses devires reativos, esses planos transcendentes de organização
que esquadrinham o seu inconsciente, capturam o seu desejo... é possível sem você estar
cavalgando fluxos e devires? é possível sem você viver o seu tempo próprio você usar
máscaras?... a questão é essa... se você realmente cavalga esses fluxos, você habita o seu devir...
aí você produz as máscaras que te interessa no momento que é oportuno, então é uma
capacidade plástica, uma capacidade estética, aliás a definição de nobre nisso é exatamente isso,
é a capacidade de mudar... o elemento nobre nisso é o elemento químico que muda... é a
capacidade plástica e o escravo, o vil, o baixo é o endurecido, é o que não consegue mudar, é o
que não consegue se subtrai à máscara que o congela e o paralisa. Então essa distinção entre
nobreza e vilania, entre liberdade e escravidão em Nietzsche é sempre ligada a um inconsciente,
há um centro acentrado, digamos assim, há um elemento diferencial que te habita que nunca se
fixa num centro e nunca busca uma finalidade ou um centro fora de si, ele é acentrado já no seu
investimento, no seu princípio e na sua finalidade... é por isso que ele não tem finalidade nem
princípio ele é sempre no meio, ele é um elemento acentrado... e se ele é acentrado ele não é
capturado por uma forma média que diz a função dele o lugar dele e a natureza do elemento que
vai interagir com a natureza do fluxo dele... ninguém vai dizer a sua verdade, o teu lugar e o teu
momento, você vai estar sempre atingindo o seu lugar extremo, o teu momento extremo e o teu
elemento extremo que é a tua plena afirmação, é o seu querer inteiro e não pela metade, e o
querer inteiro ocupa o lugar e um tempo que não é mais o lugar da repartição em lotes, da
repartição privada dos meus órgãos ou da abstração ou do soloquicismo de um eu isolado no
mundo incapaz de entrar em conexão com ele e que chega a produzir um enunciado tal como o
real é impossível... o real se torna impossível no momento mesmo que a marca congela a
excitação. ...-...-... e para o neurótico o real é realmente impossível...-...-...
...-...-...esse algo comum é um plano de imanência comum a todas as intensidades... não há uma
intensidade se quer que não se componha ou decomponha nesse plano de imanência que é um
meio de composição... as intensidades não estão soltas num espaço, elas estão aferradas ou
atraídas e repelidas por uma superfície metafísica, digamos assim, mas é uma superfície
metafísica imanente a vida, ela não está fora da vida...-... é muito mais que o inconsciente coletivo
de Jung... é muito mais do que isso, isso seria reduzir...
Então a questão dos códigos nas sociedades primitivas, há que se ver essa questão não como leis
e formas médias de disciplinarização do corpo e da alma, mas como formas de expressão comum
as relações, ou aquilo que Espinoza chama de segundo gênero de conhecimento que são as
noções comuns, mas são sempre noções que tem natureza própria, nunca são abstratas ou
universais ou genéricas, elas são comuns a aquela relação entre as intensidades... então é essa
percepção que faz com que você entenda ou que você se torne legislador... o legislador é
exatamente aquele que cria as formas da relação... as regras de passagem da intensidade...
sempre regras que passam junto com a intensidade e nunca regras que vem dizer eu sou a tua
natureza... por que o homem do ressentimento e da má consciência ele tem uma imagem invertida
que ele projeta em todas as coisas... ele começa a ver na lei a imagem primeira das coisas... ele
projeta essa imagem ou essa lei no fundo das coisas... ele diz a tua natureza é incestuosa ...
quando isso no fundo é apenas uma regra de passagem e uma certa condição... mesmo o incesto
para os primitivos não tem proibição absoluta, aliás ele se dissolve no momento mesmo da
intensificação de uma relação, por que a intensidade dissolve a máscara, a intensidade dissolve a
forma, ela é informal. Então o incesto só funciona na superfície, a partir do momento que ele tem
uma função de expansão... aí sim roubar mulheres ou roubá-las na relação de casamento, produzir
alianças, com sentido de expansão e não com sentido moral de não ter o incesto e que haveria
uma estrutura de parentesco no interior da filiação que revelaria a minha natureza... esse não pode
se casar com a irmã ou com a mãe, ou vó, tia seja lá o que for... ou seja o incesto é uma invenção
ou uma regra de passagem, é uma condição que a sociedade inventa para si própria como uma
condição de expansão. No momento em que isso vira uma imagem invertida e que os homens
passam a acreditar que é fundo de natureza, eles caem na falta, na obediência a uma lei, pega
como se essas formas de regras de passagem fizessem parte do fundo de natureza de todos os
seres... toda questão é essa... reverter isso... reverter o platonismo... reverter o cristianismo...
reverter o que os tipos reativos fizeram com a atividade com a afirmação... esse é que é o sentido
da obra do Nietzsche e da nossa atividade aqui... esse mistério...
O que era fundamental de entender aqui era a questão da dívida... que a dívida infinita é
exatamente o que faz com que a gente acredite na nossa culpa e na nossa impotência... que a
gente acredite nas paixões tristes, ... que a gente acredite que a existência e que a natureza não
se bastam por si própria... toda questão e a nossa briga com as religiões é essa... dizer minha
senhora a vida e a natureza se bastam a si mesma... o pensamento se basta a si mesmo... não
precisamos de nenhuma entidade transcendente que nos governe e diga-nos o que devemos ou
não fazer... a atividade reativa é fazer com que você se envergonhe da sua alegria... se você é
alegre e afirmativo vem lá o reativo e diz... mas não seria uma vergonha, não seria uma
desonestidade eu estar alegre no meio de tanta miséria e infelicidade???