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ore? ‘oa lita -ustrada- Foha de § Paulo Guo ssn FOLHA DE SPAULO ino de! y Literatura brasileira completa 30 anos sem um de seus maiores poetas e cronistas Hyco [2 |Para melhor experiéncia, use fone de ouvido. Clique nos textos > destacados para ouvir os poemas wrropucAo Boa leitura! Hyv Go Nos 30 anos da morte de Carlos Drummond de Andrade, a Folha publica especial com textos, andlise e curiosidades sobre a vida ea obra do poeta de Itabira (MG), morto em 17 de agosto de 1987. Deslize abaixo para descobrir imagens e acompanhar poesias narradas em, fudio, Nao deixe de fazer 0 quiz. “Quem é vocé no poema ‘Quadrilha’” e de ver as fotos enviadas pelos leitores. itp arte flak. com. orlstrada2017i¢rummondierodueaa! an ore? ‘oa litural-utrada- Foha de § Paulo De circo a aves esquisitas, papéis revelam interesses de Drummond iy Go Sua cor nao se percebe, Suas pétalasnéo se abrem, Seu nome ndo esta nos livros. feia, mas realmente ¢ uma flor: Esté ali, amassada entre paginas de uma edigdo antiga, coberta em um Papel amarelecido, com uma anotagao: “Flor colhida na sepultura de mamae em 28/09/195 Nesta quinta (17) completam-se 30 anos que o dono da letra, Carlos Drummond de Andrade, também morreu. Ficaram a obra ¢ 0s rastros - entre eles sua biblioteca, de 4.000 volumes, hoje guardada na sede carioca do Instituto Moreira Salles 1/8 carlos Drummond de Andrade itp arte flak. com. orlstrada2017i¢rummondierodueaa! 29 ore? ‘oa litural-ustrada- Foha de § Paulo Mineiro de tai, o poeta Carlos Drummond de Andrade nasceu no dia 31 de outubro de 1902, Era omona ha de Carls de Paula Andrade, fazendet,e Julieta Augusta rummond de Andrade (Reprodugio) A biblioteca em si ja diz muito sobre um autor, mas ela tem ainda um mundo subterraneo: tudo aquilo que o poeta guardava dentro dos livros, um conjunto de centenas de documentos. A flor, desafiando as tracas, esté entre eles. Arreportagem passou dois dias revirando os papéis, para ver 0 que revelam do imagindrio do poeta mineiro. ‘mpressiona a multiplicidade de interesses dele. £ um leque de assuntos muito especial nao s6 como cronista mas como poeta também’, diz 0 jornalista Humberto Werneck, que trabalha em uma biografia do autor para a Companhia das Letras, a ser concluida em 2018. 0 interesse pelos bichos, por exemplo, esta li a0 lado da amiga Lya Cavalcanti, o poeta era defensor dos animais. Com ela, chegou a editar um jornalzinho mimeografado, “A Voz dos que Ndo Falam’, em defes 4a causa (veja $6, a0 lado, a entrevista que o poeta deu a um cachorro, em uma das edigdes) Quando, em 1961, o astronauta russo German Titov viajou para 0 espaco sideral, Drummond guardou uma crénica sobre sua esperanca de que a facanha do soviético despertasse na humanidade o amor pelos beija-flores. “0 beija-flor, velha amizade nossa, ndo é comuna nem capitalista [.], nao quer conquistar o ignoto -e como voat”, escreveu. circo, que tanto encantou os modernistas ~a geraco de 1922 tinha fascinio pelo palhaco Piolim-, € um dos assuntos que Drummond compilava em maior quantidade. Em 1985, por exemplo, 0 poeta mineiro guardou uma reportagem do como funcionava a “Jornal do Brasil” em que um ando palhaco expli divisio de alojamentos no Circo Orlando Orfei: ‘A carreta onde moram as bailarinas € a favela do circo [..],a dos empregados e motoristas é 0 bairro operério |..], 0 trailer de Orlando Orfei é 0 palicio do governo. E a bilheteria é a casa da moeda,” itp arte flak. com. orlstrada2017i¢rummondierodueaa! ang ore? ‘Boa letra -lustrada- Falha de $ Paulo Outro, de um caderno de economia, registra Dona Carlota, matriarca de um circo, lamentando que o picadeiro seja um péssimo negécio. Como garantia de suas dividas ~custavam caro 0s 80 quilos de carne didrios para 19 tigres-, ela empenhara seu elefante indiano, que custava, USS 60 mil. E Carlota amava a bicharada. “[Meus chimpanzés] nao apanham para aprender os ntimeros e, por isso, nao tém raiva das pessoas. Eu os amo e eles sabem disso”, dizia O tivro “Geringonga Carioca’ de Raul Pederneiras,traz uma isa de girias de 1946, como “é de chua” (facil de fazer); “estar teso” (sem grana);e “enfeza, mas néo maltrata” (zanga, mas nio ofend) Essas girias depois foram parar em “Rio de Janeiro em Prosa e Verso”, antologia sobre a cidade que o poeta organizou com Manuel Bandeira. (Os temas desdobram-se aos montes -a caricatura e 0 desejo esto ali (Drummond fazia desenhos de sua silhueta careca e magricela), também os obituérios de grandes autores e como gostava de “descansar a cuca” lendo a revista “Careta’, Todos sob grande organizacao, o sonho de qualquer pesquisador. “Ele tinha cacoetes de burocrata para o bem e para o mal. Esse convivio com 0 papel, ele ganhou a vida nisso”, diz Humberto Werneck. Manolo, genro de Drummond, analisou em mais de 500 paginas a obra poética do autor vW 86,34% ¥ 13,66% dos verses ff 38 Wi) > stoversos sio livres ll versos publicados '! rimados Ha predominancia de geralmente compostos de versos heptassilabos, octassilabos ou decassflabos 432 neologismos 845 rnomes préprios, 908 meng6es 8 poesia itp arte flak. com. orlstrada2017i¢rummondierodueaa! ane ore? a leitural- lustrada- Folha de S Paulo ‘AFLOR E A NAUSEA (TRECHO) > Uma flor nasceu na rual assem de long bondes, énibus, rio de aco do trafego. Uma flor ainda desbotada rompe 0 asfalto Facam completo siléncio, paralisem os negocios, garanto que uma flor nasceu, Sua cor nio se percebe, Suas pétalas nao se abrem. vkuse Consciéncia lirica de Drummond segue aberta para o mundo Gy co ‘cioes vaca itp arte flak. com. orlstrada2017i¢rummondierodueaa! ore? ‘oa lita -ustrada- Foha de § Paulo Que 0 “espirito de Minas” nos visite para repensarmos, neste outro século, o legado da poesia de Drummond -essa vibragao de consciéncia lirica, entre mineira e césmica, socializ4vel na medida mesma em que é ho pessoal. 0 poeta alta do livro “Claro Enigma” (1951): “Que lembranga darei ao pafs que ntecipou-se e perguntou, em meio a sua trajetéria, na onda me deu / tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?”, [Nos versos desse soneto “Legado, ao tempo em que preterit o ‘moderno pelo “eterno’, aludia cerimoniosamente & famosa pedra inaugural de “No meio do caminho’, poema que nos primeiros anos fio nascente de modernistas marcava uma nova gramitica e a dispos uma obsessiva sensibilidade critica, de lirismo confessional e de lucidez irdnica, ‘No “poema da pedra” estava a matriz poética drummondiana, apta a desdobrar-se: sucessivos e variados enigmas vao provocando a sensibilidade do sujeito e a reagio reflexiva das “retinas tio fatigadas’, instando-o a compor perplexidades e lucidez, caréncias projetadas na luz desnorteante NO MEIO DO CAMINHO TINHA UMA PEDRA > No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra, Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tao fatigadas Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra tinka uma pedra no meio do caminho no meio do caminho tinha uma pedra. Variadas sio as pedras do caminho, as atribulagdes intimas desse caminhante do século 20. 0 poeta gauche, desajeitado sujeito, tira partido da insuficiéncia e molda suas livres perplexidades em registro critico, Drummond habilita seus leitores a ocuparem esse lugar inquieto da incerteza e da relativizagdo modernas, moduladas por recursos poéticos téo altos como culposos em sua fome de ideais. ‘Se o mundo se recusa a caber na intimidade de um sujeito tio declaradamente restrito, este sabe espelhé-lo em negativo como aspiracao utdpica: “onde nao ha jardim, as flores nascem de um secreto investimento em formas improvaveis”, Mas se 0 sujeito amarga seu. itp arte flak. com. orlstrada2017i¢rummondierodueaa! e19 ore? ‘oa lita -ustrada- Foha de § Paulo deslocamento na ordem maior dos poderes violentos do mundo, particulariza sua biografia e sua classe no desejo de estar entre os homens -e a necessidade bruta da flor social rompe no asfalto como ‘uma espera. ‘Uma dialética desse tipo impoe-nos considerar 0 que seja nosso estar ‘no mundo, ao mesmo tempo em que nos prové da riqueza de ritmos ¢ imagens em que se faz postica. Ao longo de sessenta anos de producao, Drummond amarrou com lagos constantes e variados 0 que numa crénica identificou como a “rotina” e a “quimera’, isto 6, as marcas do cotidiano de quem habita a “praca dos convites” ¢ 0 desejo de projeté-los até onde alcanga a consciéncia idealizante. A busca instiga e o desencontro tem beleza -talvez seja este 0 movimento essencial que o poeta imprime em nossa cumplicidade de leitura. Como a busca ¢ 0 desencontro vio referindo objetos muito variados a0 longo do século, identificados na formagao do sujeito e no tempo social, variadissimo ¢ o painel de temas ¢ formas que se aglutinam na ampla poética drummondiana. LA estdo a timidez investigativa, a escavacio das palavras, 0 telurismo da provincia, a atragéo do moderno, a culpa da lucidez.irénica, a sedugéo socialista, 0 retorno critico aos mitos, a meméria escavadora, ‘oadeus desencantado -que se vao expressando na oralidade, no epigrama, no verso solene, na narrativa, na especulacdo linguistica, no discurso solto ou seco, na interrogagio e na negativa. Em cada um desses t6picos espelha-se algo que esté em nds mesmos, como sabe conseguir a faganha de um grande litico. Num tempo em que o Brasil se aflige, na busca ou na esquiva de si Jembremos que 0 poeta nunca se ajustou a algum nacionalismo: ndo chancelow a sintese de interesses tao dispersos a que pudesse chamar de patria, ¢ em seu “Hino Nacional’, num longinquo 1934, deu voz a ‘uma corajosa perplexidade: “Nenhum Brasil existe. / E acaso existirdo os brasileiros?” Apergunta continua em aberto, para quem nao se contenta com a resposta pronta de alguma ideologia, Aberta segue também a poesia de Drummond, como expressdo de uma consciéncia as voltas com seus limites e seu desejo de mundo, ALCIDES VILLACA ¢ professor de Literatura Brasileira da USP itp arte flak. com. orlstrada2017i¢rummondierodueaa! mo ore? ‘oa litural-lustrada- Foha de § Paulo Work sabia? Carlos Drummond enviou ao jornalista Edmitson Caminha um carto com a foto de Elke Maravilha atrds, de quem era fa ue Quem € vocé no poema ‘A Quadrilha’? iy Go Dantonaca skaaato Fulano, que amava sicrano, que amava beltrano... Quem nunca ouviu ou viveu uma hist6ria assim? Em 1930, Carlos Drummond eternizou essa situagdo em “Quadritha’, poema que integrava sua primeira publicagao, “Alguma Poesia’, 0 texto trata dos amores e dos desamores de sete personagens. Lela abaixo. QUADRILHA > Jo80 amava Teresa que amava Raimundo {que amava Maria que amava Joaquim que amava _que ndo amava ninguém. 4080 foi para o Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia Joaquim” suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes {que nao tinha entrado na historia, Agora que vocé ja identificou cada um dos personagens, saiba com qual vocé mais se identifica, Joaquim" ndo participa da brincadeira. Comece o jogo! itp arte flak. com. orlstrada2017i¢rummondierodueaa! ang ore? ‘oa lita -ustrada- Foha de § Paulo wr © ‘crush’ te chama para passar um feriado de Carnaval romantico a dois, Vocé: QUEM'E VOCE'NA YQUADRILHA'?: coma BUSABEEIRRSKPR ARR 18 1 SHEARATER WalRores co i eee cont teal esr 4 Diz que nie pedera if; mas resolve fazer uma surpresa para ela) no Jeqar Estétua de Drummond crianga est na Fazenda do Pontal, que pertenceu 3 familia do poeta, em Itabira (Alexandre Rezende/Folhapress) Itabira tenta se reaproximar de Drummond fv Gc ENVIADA ESPECIAL ATABIRA (MG) itp arte flak. com. orlstrada2017i¢rummondierodueaa! 919 ore? ‘oa lita -ustrada- Foha de § Paulo Ha quem diga que, para Carlos Drummond de Andrade, sua natal Itabira é “apenas uma fotografia na parede”. Mas para os quase 120 mil moradores da cidade mineira, a imagem do poeta seriam seis estatuas, Aleitura errdnea vem se dissipando. Aos 30 anos da morte do autor, a cidade parece estar préxima de fazer as pazes com o itabirano, que passou a maior parte da vida longe dali Marcos Caldeira Mendonca, editor do jornal “O TREM Itabirano’, um periddico de cultura, diz que ha muito o que avanar nessa questao € faz. campanha contra as estétuas. “to pior jeito de homenagear um poeta discreto, nada personalista, preciso ler Drummond, e nao petrficd-lo’,afirma a Folha. ‘O que ele chama de “estresse imagético” torna-se claro diante da sede da Fundagao Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA), onde ‘uma estétua enxerga outra, em frente a Camara Municipal, do outro lado da avenida. “interessante a estétua porque faz as pessoas perguntarem: quem €2", defende Solange Alvarenga, coordenadora do Memorial Carlos Drummond de Andrade. ‘No Rio, onde Drummond passou a maior parte da vida (desde 1934) ~ uma das causas do ressentimento dos itabiranos com o filho ilustre- ha ‘s6 uma estatua do poeta, em Copacabana, onde ele vivia. (© prefeito Ronaldo Magalhaes (PTB) diz niio ver excesso de estituas, ‘mas concorda “com a critica de fazer o lado cultural avancar”. Ele pretende aproveitar o nome do poeta para incentivar 0 turismo. Para Mendonca, a cultura precisa ser entendida como desenvolvimento. Ele préprio planeja transformar o acervo do “TREM’, com 25 mil livros, além de jornais ¢ revistas antigos, em biblioteca e arquivo abertos ao publico. Wok sabia? O nome de Itabira, cidade natal do poeta, tem origem tupie significa “pedra que brilha” RESGATE, O resgate de Drummond em Itabira (a 113 km de Belo Horizonte) é crucial também para amansar a migoa dos moradores, que s6 comecou aarrefecer na década de 1990 e em 2002, com o centenirio. itp arte flak. com. orlstrada2017i¢rummondierodueaa! s019 ore? ‘oa lita -ustrada- Foha de § Paulo ‘O marco da melhora foi a inauguragao do memorial e a instalagao dos Caminhos Drummondianos ~44 placas com poemas sobre determinados lugares da cidade. 'é preciso mostrar a obra, porque voce sé gosta do que conhece. Ha um respirar de Drummond cada vez maior”, diz Martha Mousinho, superintendente da FCCDA. A origem do desgosto com o poeta, segundo Mendonga, est na ignorancia sobre seus livros, no “bairrismo provinciano que no 0 perdoou por ter se mudado para o Rio” ena distoreao dos versos de “Confidéncia do Itabirano”: “Itabira é apenas uma fotografia na parede/Mas como dei!” Eo contrério, diz o jornalista: “Voce pendura na parede algo de que nio gosta?", Em 1972, a0 “Jornal do Brasil", Drummond disse ter sido mal interpretado e que o poema é “um soluco nostalgico” Mendonga afirma ainda que a forte presenga da Vale do Rio Doce, companhia de mineragao fundada na cidade em 1942, ajudou a demonizar Drummond. © poeta criticava os efeitos da mineragio, como a poluigio e a migragio desordenada -Itabira pulou de 1.000 para 6,000 habitantes. Os itabiranos viam naquilo pressio pelo fim de seu ganha-pao. (bjetos em exsosigao no Memorial Carlos Drummond de Andrade, proetado por Oscar Neiereyer em tabira (Alexandre Rezende/Fohapres TUDO MUDOU itp arte flak. com. orlstrada2017i¢rummondierodueaa! ng ore? ‘oa lita -ustrada- Foha de § Paulo “Drummond nunca voltou a cidade porque sua Itabira era bucdlica. Fle indo queria vé-la carcomida pela mineracao”, diz Mendonca. Hoje, a atividade ainda representa 70% da arrecadacao do municipio, ¢ a Vale patrocina projetos envolvendo o poeta. Ex-trabalhador da érea de mineragao e morador de Itabira, José Zamenhoff, 58, afirma que Drummond nao gostava de Ia “Itabira virou ‘uma pedra no caminho’,ironiza, “Ble sait para ser reconheci¢o, mas temos orgulho”, diz a comerciante Ana Leticia, 20, 0s estudiosos itabiranos consultados pela Folha nao tém diivida: ele amava a cidade. “Era uma paixio do fundo do coragio, era a medula dele’, afirma Dada Lacerda, pesquisadora responsavel pelos Caminhos Drummondianos. (0 jornalista Mendonca encontrou, em periédicos antigos, relatos de que o poeta interferiu junto a governantes para garantir verbas para duuas escolas ¢ um hospital da cidade, nas décadas de 1930 e 1940. “Nem precisava, jé bastava colocar Itabira no mapa da cultura universal” “tle enalteceu a cidade e permanece na meméria de todos”, diz pomingn sive coments ajoasoeeonaer au poems uc Drosinond vote tscstarna hanes anvaeonncinent fon Weed sahia? Pagina dedicada ao poeta no Facebook tem mais de 197 mil seguidores; 0 escritor é considerado, a0 lado de Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu, um dos campedes de popularidade juipamentos culturais dedicados ao poeta apresentam mau estado de conservacio. ‘Acasa onde ele passou a infancia e uma das fazendas de seu pai s4o abertas & visitacao, mas pouco acrescentam ao turista, Nos Caminhos Drummondianos, falta iluminagdo e sobra pichaga Mais encanto hé no memorial projetado por Oscar Niemeyer que abriga cerca de 800 livros doados a cidade por Drummond (muitos autografados por autores célebres), alguns de seus pertences, cartas e ‘uma biblioteca. (© chamado Museu de Itabira, que conta a histéria da cidade e da mineragao, esté fechado & espera de reforma, A prefeitura planeja reabri-lo até o meio do ano que vern. itp arte flak. com. orlstrada2017i¢rummondierodueaa! vane ore? a leitural- lustrada- Folha de S Paulo Parte das sugestées de 0 “TREM” para resgatar a cultura de Drummond esta sendo adotada. Em outubro, més do nascimento do poeta, a administracio municipal deve realizar a primeira edigao de uma festa literaria e um concurso nacional de poesia. 0 prefeito diz ter intengao de recuperar os Caminhos Drummondianos e de transformar a casa do poeta em museu. No memorial, a ideia é captar verba para um sistema que permita acessar € ler o acervo sem manuseé-lo Martha Mousinho menciona ainda as semanas dedicadas a Drummd com palestras, exibigio de filmes, lancamento de livros e pecas de teatro. Para as criangas, hé o projeto Drummonzinhos, que faz intervengées recitando poemas, as escolas realizam parcerias com 0 © estudante Joao Augusto Barbosa, 18, relata que trabalhou com a obra Je Drummond no seu colégio em Itabira, mas reclama: “ainda falta hitparteflna.uc. com .orikstrdi2017h ummandierodueaa! ran ore? ‘oa lita -ustrada- Foha de § Paulo A poesia por ‘tesao’ e a crénica de jornais ‘por dinheiro’ Hiv G Carlos Drummond de Andrade formou-se em farmacia em 1925, mas suas férmulas sempre foram da ordem da sintaxe. Da cadeira de professor da érea de humanas, 0 escritor pulou para os assentos das redagdes. Foram mais de 6,000 crénicas ao longo da carreira, iniciada no “Dirio de Minas’ Em 1929, levou sua mistura de palavras para 0 “Minas oficial do governo do Estado. Em 1934, passou a atuar como redator também no “Estado de Minas” e no “Diario da Tarde” ‘Chegou a Folha em 8 de outubro de 1942, com o texto “Vinte Livros na Iha Deserta”. Antes disso, porém, em 7 de junho de 1930, a seco “Aperitivos” publicou “Alguma Poesia’, mesmo nome da primeira obra poética do autor, langada no mesmo ano. A cronica eu faco profissionalmente, porque preciso ganhar dinheiro, (..) O meu tesdo, mesmo, é a poesia poeta ecronista Ao todo, foram 411 textos para a Folha. Em média, Drummond publicou dez artigos por ano entre 1948 ¢ 195 |; em 195 , produziu apenas um contetido para o jornal. Depois disso, passou 18 anos sem, escrever para o diario. Em 1978, 0 autor tornou-se cronista da “Tlustrada’, com publicacdes as tercas, as quintas e aos sabados, durante pouco mais de dois anos, até maio de 1980. Esse é o periodo de maior producéo para o jornal (345 textos), (0 tltimo trabalho na Folha ocorreu exatamente um ano antes de sua ‘morte, em 17 de agosto de 1986. Trata-se de uma traducio de um poema do espanhol Federico Gareia Lorca, veiculada no extinto “Folhetim’, itp arte flak. com. orlstrada2017i¢rummondierodueaa! sang ae sont! Fase Pads Weck sabia? Quando Maria Julieta, filha de Drummond, adoeceu endo péde mandar suas crénicas semanais a0 “0 Globo’, o pai as escreveu. Ela fez o mesmo em outras ocasibes. Ninguém percebeu, segundo ela POEMA DO JORNAL 0 fato ainda nao acabou de acontecer ej. a mio nervosa do repérter co transforma em noticia, © marido est matando a mulher. ‘A mulher ensangUentada grita Ladrdes arrombam o cofre. ‘A policia dissolve o meeting. ‘A pena escreve. Em 1984, respondendo a uma pergunta do jornalista Fdmilson Caminha sobre o que o realizava como escritor, Drummond afirmou que fazia crdnica profissionalmente, para ganhar dinheiro, “0 jornal me paga, entao eu debulho aquilo como uma coisa até meio ‘mecanica. Uma vez ou outra é que me sinto assim com mais prazer, fora isso, faco aquilo por obrigacao. Nao € uma obrigacao tediosa porque procuro fazer corretamente, para nao chatear demais o leitor, ‘mas sinto que as vezes chateia, porque aparecem as reacdes. (..) Meu tesio, mesmo, &a poesia’, confessou. Nao pense o leitor que os poemas nao tratavam de temas comuns as manchetes de jornais e até de dentincias. f 0 caso de “O Pico do Itabirito’, em que Drummond aborda pressdo das mineradoras em Minas Gerais. Wok sabia? Poema “O Pico do Itabirito”, em que Drummond denuncia a pressao de mineradoras, saiu em 1967, ano em que foi editado 0 Cédigo de Minas, marco regulatério do setor itp arte flak. com. orlstrada2017i¢rummondierodueaa! 119 nore? ‘oa litural-lutrada- Foha de § Paulo Escritor Carlos Drummond de Andrade sorr para a cimera de Fernando Sabino em cena do documentério “O Fazendeiro do Ar”, de 1972 De tao amigo dos animais, poeta foi entrevistado por uma... cadela HYG oF sA0 pauLo ‘Como mostram os papéis que guardava entre os livros, Drummond era defensor dos animais. Ele teve um cachorro chamado Puck e um gato chamado Inicio, Em 4 de outubro de 1970 ~dia de Sao Francisco de Assis, padroeiro dos animais-, com a amiga Lya Cavalcanti, também adepta da causa, criou um veiculo em defesa da bicharada, batizado de “A Voz. dos que Nao Falam’, Na capa da primeira edigdo, guardada no IMS, Cavalcanti deixava uma oragao: “Sr. $20 Francisco, abengoe o irmao poeta entre seus bichos mais queridos’. Logo abaixo, Drummond publicava um poema, “Conversa com o Santo”, no qual fala das “[..] infinitas colegdes de animais que sofrem em todos os lugares da terra/ e nao podem dizer que sofrem, e por isto sofrem duas veres..” itp arte flak. com. orlstrada2017i¢rummondierodueaa! se9 ore? ‘oa lita -ustrada- Foha de § Paulo (© poeta concluia o poema assim: “Por isto, santinho nosso,/ voce providencie urgente sua volta ao mundo/ para ver se dé jeito nestes seus alunos repetentes” Uma das curiosidades de Voz” é uma “entrevista” dada por Drummond ao jornalzinho, em 1973. J4 era uma época em que ele nfo estava disponivel para ser entrevistado, e “A Voz” a anunciava com pompa ‘com 0 autor que nao dé entrevista nem para o ‘Pasquim”, Entrevista exclusiva Quer dizer, ndo eram bem uma entrevista de verdade, porque a entrevistadora era uma cadelinha chamada Suzy. Leia abaixo, Wace sabia? O poeta criava um cao chamado Puck e assinou umn poema no boletim de uma sociedade protetora dos animais usando 0 nome dele Que acha da campanha que andam movendo contra nés? primeiro lugar, acho uma campanha com certa dose de covardia: 0 homem ¢ infinitamente mais poderoso do que voces. Fm segundo lugar, acho injusta, porque voces nao podem ser culpados do mal que eventualmente fagam ao homem, uma vez que este hes nega a racionalidade, Em terceiro lugar chega, né? Acha que o homem tem direito A exclusividade neste planeta? Nao. Do seu direito a coexisténcia com as outras espécies animais 0 que Ihe advém é antes da responsabilidade pela sorte dos mais fracos e ‘menos evolufdos. Que entende vocé por mundo cao? Entendo um ‘mundo tornado cruel pelo homem e nao pelos outros seres vivos. Se vocé nao fosse homem, que bicho gostaria de ser? Eu nao gostaria de ser bicho ¢ ter de defender-me da agressividade dos ndo-bichos ‘Acha que o homem merece o amor que Ihe dedicamos? ‘Muitos merecem, justiga seja feita. Porém um ntimero ainda maior é indiferente ou hostil a vocés Em caso negativo, que iriamos amar se no amassemos o homem (e amuther, é claro)? Quando o homem nao merece amor, o melhor é ficar & maior distancia possivel deles, e cada bicho consolar-se com o seu semelhante. itp arte flak. com. orlstrada2017i¢rummondierodueaa! amg ore? ‘oa lita -ustrada- Foha de § Paulo Em caso afirmativo, que poderemos fazer para que ele retribua melhor 0 nosso amor? Acho que nao ha receitas para a retribuigdo de amor. Quem é capaz de ‘amar, quem nasceu para amar, nao espera ser amado para comegar a ‘amar: dd logo uma de amoroso. A iniciativa nao pode partir de voces Gostamos muito da sua poesia, achamos vocé um sujeito muito bacana e muito compreensivo, e por isso gostariamos de nomes nosso filésofo oficial. Vocé aceita? Obrigado. Mas 0 melhor é voces dispensarem a filosofia e continuarem simplesmente integrados na natureza -coisas que nés, supostamente superiores, raramente sabemos fazer: Denina, com cachoro, servaatentamente 3 escultura de Carlos Drummond de Andrade, no Rio (Ana Carolina Ferandes/Falhapress) Entre as crdnicas publicadas na Folha, compilamos outros textos em que o escritor aborda a temeética dos animais, Para homenagear 0 autor, os blogs Bom Para Cachorro e Gatices publicam obras sobre cachorros e gatos, respectivamente. Abaixo, leia texto de 21 de outubro de 1978 em que o cronista defende 05 direitos dos animais: CONHECA E DIVULGUE 0S DIREITOS DO ANIMAL itp arte flak. com. orlstrada2017i¢rummondierodueaa! ran ore? ‘oa lita -ustrada- Foha de § Paulo Algum dia vocé jé parou para pensar que os animais também tém direitos? E que cabe ao homem reconhecer esses direitos, num universo cada dia mais controlado pelo ser humano? ois entao fique sabendo que 30 anos depois de votada pela ONU, em Paris, a Dectaragao Universal dos Direitos do Homem, a UNESCO, também ‘em Paris, acaba de aprovar a declaragéo Universal dos Direitos do ‘Animal, na mesma tritha filos6fica que inspirou o primeiro documento. E 1ndo foi por iniciativa direta das associagdes de protecao aos animais, tantas vezes acusadas (injustamente) de passionalismo, Quem propos a Declaragdio foi um cientista ilustre, o Dr. Georges Heuse, secretdrio-geral do Centro Internacional de Experimentagéo de Biologia Humana, ‘organizacao da qual participam luminares da ciéncia mundial, 0s direitos do homem foram definidos, em 1948, num corpo de 31 artigos 0s do animal cabem em 14. A Declaracao de 1978 é precedida de uma breve “Declaracio dos Pequenos Amigos dos Animais’. Compreende-se. £ necessdrio introduzir no processo educativo a consciéncia da vida como um todo natural, pois s6 assim o homem feito saberd honrar seu compromisso ético para com o meio em que se desenrola o seu destino. Mas 05 comenttirios ficam para depois. No momento, o importante & divulgar o mais possivel os textos de Paris, ¢ da minha parte comego a fazé-lo agora, Na ocasiéo, o autor publicou os 14 artigos do documento no espaco da coluna, Para ler outros textos do escritor publicados na Folha, acesse 0 Acervo, ‘extos: Dani Srage, Marco AurlioCandnico, Mauricio Mireles, Sarah Mota Resende. /Infografia: Fabiana Martins / Edigdo de texto: Matheus ‘Magenta / Edge iealizarao: Dani Braga / Pesquisa: Banco de Dados / Narrago: Eo SanAnna / Design edesenvalvimento: Angelo Dis, Fabiana Marin, ker, Rubens Alencar Thiago Almeida ston Fou Hvyoo Cop aba es lets eens rena spe oeneio cat spe tue mes deeemunt tens ano em aut dfohapee ‘Genuunienspe itp arte flak. com. orlstrada2017i¢rummondierodueaa! s9n9