Вы находитесь на странице: 1из 576

hidrelétricas, conflitos

socioambientais e resistência
na bacia do Tapajós
Daniela Fernandes Alarcon, Brent Millikan e
Mauricio Torres [organizadores]
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Ocekadi : hidrelétricas, conflitos


socioambientais e resistência na Bacia do
Tapajós / Daniela Fernandes Alarcon, Brent
Millikan e Mauricio Torres, organizadores. --
Brasília, DF : International Rivers Brasil ;
Santarém, PA : Programa de Antropologia e
Arqueologia da Universidade Federal do Oeste
do Pará, 2016.

Vários autores.
Apoio: Charles Stewart Mott Foundation.
Bibliografia.
ISBN 978-85-99214-04-6 (International Rivers)

1. Hidrovias 2. Impacto ambiental


3. Infraestrutura 4. Movimentos sociais 5. Rios -
Amazônia 6. Tapajós, Rio, Bacia hidrográfica
7. Unidades de conservação - Amazônia 8. Terras
indígenas - Amazônia 9. Usinas hidrelétricas -
Projetos e construção I. Alarcon, Daniela Fernandes.
II. Millikan, Brent. III. Torres, Mauricio.

16-03195 CDD-333.7

Índices para catálogo sistemático:


1. Amazônia : Projetos de infraestrutura :
Impactos socioambientais : Economia 333.7
hidrelétricas, conflitos socioambientais
e resistência na bacia do Tapajós

Daniela Fernandes Alarcon, Brent Millikan e Mauricio Torres


Organizadores

Apoio: Parceria:
COMITÊ EDITORIAL
Brent Millikan Helena Palmquist
Claide de Paula Moraes Juan Doblas
Daniela Fernandes Alarcon Juarez Carlos Brito Pezzutti
Deborah Duprat Mauricio Torres
Felício Pontes Júnior Ricardo Scoles

EXPEDIENTE
Organização: Contato:
Daniela Fernandes Alarcon International Rivers - Brasil
Brent Millikan Endereço: CLN 214, bloco D, sala 216,
Mauricio Torres Asa Norte. Brasília-DF, CEP 70873-540
Tel. (61) 3034-3007
Revisão:
Natalia Ribas Guerrero Realização:
Daniela Fernandes Alarcon International Rivers - Brasil
www.internationalrivers.org
Revisão final:
Programa de Antropologia e
Maria Luíza Camargo
Arqueologia da Universidade Federal
Mapas: do Oeste do Pará (PAA/UFOPA)
Ricardo Abad
Apoio/Parceria:
Zachary Hurwitz 
Charles Stewart Mott Foundation
Projeto gráfico, diagramação e arte: www.mott.org
Vitor Flynn Paciornik Instituto Centro de Vida (ICV)
Foto da capa: www.icv.org.br
Indígenas do povo Munduruku, Operação Amazônia Nativa (Opan)
na aldeia Missão, Terra Indígena www.amazonianativa.org.br
Munduruku. Por Mauricio Torres, Instituto Socioambiental (ISA)
abr. 2014. www. socioambiental.org
Foto da primeira página: Fundo Socioambiental Casa
Guerreira munduruku, na aldeia www.casa.org.br
Waro Apompu, Terra Indígena
Esta publicação está disponível em
Munduruku. Por Mauricio Torres,
formato digital no endereço:
out. 2014.
www.internationalrivers.org/tapajos

Este trabalho está licenciado com uma Licença


Creative Commons - Atribuição-SemDerivações 4.0
Internacional.
SUMÁRIO

xi Agradecimentos

xiii Prefácio
João Akira Omoto

xv Apresentação
Daniela Fernandes Alarcon, Brent Millikan e Mauricio Torres

xviii Principais siglas e abreviações

xxi Resumo executivo

1 Um rio de muita gente:


a luta comum de vidas plurais no vale do alto Tapajós
Mauricio Torres

29 Caracterização ambiental da bacia do Tapajós


Ricardo Scoles

43 “Saída pelo norte”: a articulação de projetos de infraestrutura


e rotas logísticas na bacia do Tapajós
Daniela Fernandes Alarcon, Natalia Ribas Guerrero e Mauricio Torres

79 Os planos para usinas hidrelétricas e hidrovias na bacia do Tapajós:


uma combinação que implica a concretização dos piores impactos
Philip M. Fearnside

99 Tapajós: do rio à luz


Wilson Cabral de Sousa Júnior

111 Estudos de inventário: características de uma fase inicial


e decisiva do planejamento de hidrelétricas na bacia do Tapajós
Brent Millikan

143 Ritual burocrático de ocupação do território pelo setor elétrico:


o caso da avaliação ambiental integrada da bacia do Tapajós
Rodrigo Folhes
167 Condicionantes e a viabilidade ambiental no processo de licenciamento
ambiental de usinas hidrelétricas: uma análise do caso Teles Pires
Evandro Mateus Moretto, Carolina de Oliveira Jordão,
Edilene Fernandes e João Andrade

183 O BNDES e o financiamento de barragens na bacia do Tapajós


Biviany Rojas Garzón, Brent Millikan e Daniela Fernandes Alarcon

211 Imprensa e barragens na bacia do Tapajós:


apego ao discurso oficial e ocultamento das críticas
Daniela Fernandes Alarcon, Natalia Ribas Guerrero e Vinicius de Aguiar Furuie

247 Suspensão de liminar e usinas hidrelétricas:


a flexibilização do licenciamento ambiental por via judicial
Rodrigo Oliveira e Flávia do Amaral Vieira

257 A suspensão de segurança:


peixe fora d’água diante da Constituição democrática
Flávia Baracho Trindade, Gustavo Godoi Ferreira,
Heidi Amstalden Albertin, Luís Renato Vedovato, Marcelo Brandão Ceccarelli,
Maria Carolina Gervásio Angelini, Thaís Temer e Alexandre Andrade Sampaio

277 Usina hidrelétrica de São Luiz do Tapajós


e a consulta prévia aos povos indígenas e comunidades tradicionais
Felício Pontes Júnior e Rodrigo Oliveira

293 Usina hidrelétrica de São Luiz do Tapajós:


o alagamento da Terra Indígena Munduruku Daje Kapap E’Ipi e o
soterramento da Constituição Federal de 1988
Luis de Camões Lima Boaventura

309 Uma nota sobre a geometria e o sistema de


aproximação numérica dos indígenas Munduruku e sua
importância para o respeito à Convenção 169 da OIT
Pierre Pica, Sidarta Ribeiro, Jairo Saw e Mauricio Torres

323 Barragens e violações dos direitos indígenas na bacia do rio Juruena


Andreia Fanzeres e Andrea Jakubaszko
339 O governo que age como a sucuri
e a resistência dos Munduruku às barragens no Tapajós
Helena Palmquist

371 Redução na medida: a Medida Provisória nº558/2012 e a


arbitrariedade da desafetação de unidades de conservação na Amazônia
Maria Luíza Camargo e Mauricio Torres

395 Floresta virgem? O longo passado humano da bacia do Tapajós


Bruna Cigaran da Rocha e Vinicius Honorato de Oliveira

417 Sobre sítios arqueológicos e lugares significativos: impactos


socioambientais e violações dos direitos culturais dos povos indígenas e
tradicionais pelos projetos de usinas hidrelétricas na bacia do rio Tapajós
Francisco Antonio Pugliese Jr. e Raoni Bernardo Maranhão Valle

437 O garimpo hidrelétrico: impactos de Belo Monte na cidade de Altamira


e subsídios para reflexão sobre o complexo hidrelétrico do Tapajós
Eric Macedo

455 Impactos da construção de usinas hidrelétricas sobre quelônios aquáticos


amazônicos: um olhar sobre o complexo hidrelétrico do Tapajós
Juarez Carlos Brito Pezzuti, Marcelo Derzi Vidal e Daniely Félix-Silva

479 As migrações do jaraqui e do tambaqui no rio Tapajós


e suas relações com as usinas hidrelétricas
Ronaldo Barthem, Efrem Ferreira e Michael Goulding

495 Promessas de governança vs. realidade: consequências da


implantação de megaempreendimentos no sudeste amazônico
Juan Doblas

511 Crédito de carbono para usinas hidrelétricas como fonte de emissões de


gases de efeito estufa: o exemplo da usina hidrelétrica de Teles Pires
Philip M. Fearnside

531 Sobre os autores e membros do comitê editorial


Agradecimentos

A
todos os autores e membros do comitê editorial, que vêm produzin-
do informação crítica e de qualidade sobre os projetos de exploração
hidrelétrica na bacia do Tapajós e em outras regiões da Amazônia, e
que generosamente colaboraram com esta publicação.
Ao Vitor Flynn, pela ilustração e diagramação do livro.
A Ricardo Abad e Zachary Hurwitz, pela elaboração de mapas especial-
mente destinados a esta publicação. A João Andrade, Andreia Fanzeres,
Bruna Cigaran da Rocha e Vinicius Honorato de Oliveira, pela participação
na produção desses mapas.
Ao Instituto Centro de Vida (ICV), à Operação Amazônia Nativa (Opan) e
ao Instituto Socioambiental (ISA), pelo apoio à produção deste livro.
A Daniely Félix-Silva, Efrem Ferreira, Fábio Nascimento, Fernanda Li-
gabue, Flavio Souza, Lilo Clareto, Luan Mourão, Natalia Ribas Guerrero,
Opan e Ubiray Rezende, pela cessão de fotografias.
A Maria Luíza Camargo e Natalia Ribas Guerrero, pela revisão da
publicação.
À Maria Edigete do Nascimento Souza, da International Rivers, pelo
apoio na produção editorial.
À Fundação Mott e ao Fundo Socioambiental CASA, pelo apoio finan-
ceiro à publicação.
prefácio
João Akira Omoto1

A
Amazônia e seus rios são, Nesse sentido, esta publicação 1. Procurador Regional

de fato, a principal fronteira chega em excelente hora: é hora de da República, Ministério

para a expansão do setor elé- ampliar o debate público, avalian- Público Federal

trico brasileiro, segundo as atuais do com maturidade e percuciência


prioridades do governo federal. todos os elementos envolvidos, e
Com aproximadamente 43% de seu melhor refletindo sobre as nossas
potencial de geração hidráulica (247 escolhas, especialmente sobre a
gigawatts estimados) explorado em própria ampliação do espaço públi-
nível nacional, o país conta com co, os meios e formas de participa-
enorme experiência na implanta- ção democrática, e sobre as fontes
ção de usinas hidrelétricas, acu- alternativas de geração disponíveis
mulada ao longo de décadas, mas ou cuja disponibilidade no futuro
parece ter aprendido pouco com dependa do nível de investimento,
isso, principalmente sob a ótica pesquisa e planejamento atuais,
socioambiental. como também sobre as oportunida-
Se, por um lado, as deman- des para promover maior eficiência
das para a geração de energia são e conservação de energia.
crescentes, de outro, o modelo de Democracia e diversidade de
expansão com foco principal na fontes de geração são, portanto,
hidreletricidade, cujo processo dois ingredientes indispensáveis
decisório tem se mostrado her- para o planejamento da expansão,
mético e autoritário, precisa ser sendo inquestionável a necessida-
democratizado. de de incluí-los na receita, muito

xiii
mais quando constatado que o pla- bientais, as vê como entraves e não
nejamento oficial demonstra certo como interesses inerentes ao pro-
descaso com os mesmos e com a cesso: ignorando-as ou negando-as,
obrigatória compatibilidade entre perpetra sistemáticas violações de
políticas públicas, nos apresentan- direitos.
do, como resultado, um bolo bas- A falta de diálogo entre os diver-
tante indigesto, cuja cereja parece sos setores do governo tem como
ter sido subtraída antes mesmo de resultado a dissociação entre o pla-
sobre ele ter sido depositada. nejamento da expansão e o projeto
A Constituição Federal de 1988 constitucional socioambiental. Os
desenhou um projeto socioambien- enormes prejuízos são ônus que
tal que exige a abertura de diálogo acabam sendo suportados por toda
com todos os setores da sociedade, a sociedade, revelando a importân-
por meio da ampliação da partici- cia da adoção de instrumentos de
pação pública e, especialmente, da planejamento ambiental estratégi-
consulta livre, prévia e informada co. As reconhecidas falhas no licen-
aos povos indígenas e comunidades ciamento ambiental e a sistemática
tradicionais, nos moldes previstos violação de direitos humanos na
na Convenção 169 da Organização instalação dos projetos deveriam le-
Internacional do Trabalho, no Sis- var ao aperfeiçoamento dos proce-
tema Interamericano de Direitos dimentos, com vistas à garantia de
Humanos e em outros tratados in- direitos, e não à sua flexibilização.
ternacionais dos quais o Brasil é Esta publicação lança luzes sobre
signatário. essas e outras importantes questões
Os défices democráticos no pla- que precisam ser tratadas com se-
nejamento e na tomada de decisão riedade e incorporadas ao planeja-
sobre a expansão da geração hidre- mento do setor elétrico e ambien-
létrica têm levado à proliferação de tal, assim como aos processos de
conflitos socioambientais e à inegá- tomada de decisão. Ainda há tempo
vel perda de bio e de sociodiversi- para correção de rumos. A Amazô-
dade, sem falar nos prejuízos para nia é patrimônio do Brasil e da hu-
o próprio setor, que, mal preparado manidade! A cereja do bolo… conti-
para lidar com questões socioam- nua sendo nossa!

xiv Ocekadi
APRESENTAÇÃO
Daniela Fernandes Alarcon, Brent Millikan
e Mauricio Torres

O
cekadi, termo da língua ses entrelaçaram, historicamen- Imagem 1. Noite
estrelada no
munduruku, pode ser tradu- te, suas vidas. Hoje, esses grupos,
Tapajós, Projeto
zido como “o nosso rio” ou assim como outras populações de de Assentamento
“o rio do nosso lugar”. Refere-se, ocupação mais recente, veem-se Agroextrativista
Montanha e Mangabal.
aqui, ao Tapajós, situado na bacia diante de ameaças, violações de Por Fábio Nascimento,
hidrográfica homônima, que se es- direitos e impactos deletérios im- out. 2014.

tende pelos estados do Pará, Mato postos por uma quantidade sem
Grosso e Amazonas, conectando precedentes de projetos de explo-
dois grandes biomas, o Cerrado e ração energética e outros grandes
a Amazônia. Com o Tapajós e seus empreendimentos cogitados para
tributários – Jamanxim, Juruena e a bacia do Tapajós, impulsionados
Teles Pires, entre outros –, povos por órgãos governamentais e agen-
indígenas, ribeirinhos e campone- tes privados.

xv
Este livro tem o intuito de ofe- de 2014 e janeiro de 2016, o que se
recer subsídios para o aprofunda- reflete em seus respectivos conteú-
mento do debate público acerca do dos, em especial, no marco final das
conjunto de hidrelétricas na bacia sequências de eventos considera-
do Tapajós, planejadas, em constru- dos. Para que os leitores possam ter
ção ou já implementadas. Em parti- em mente esse recorte temporal,
cular, são abordadas questões rela- facilitando-se eventuais esforços de
tivas a conflitos socioambientais e atualização e seguimento dos temas
incompatibilidades entre políticas tratados, indicamos em cada artigo
públicas – decorrentes de um mo- a data de sua finalização. Cabe no-
delo de planejamento e implanta- tar, ainda, que os textos apresentam
ção de grandes empreendimentos, diferentes recortes geográficos no
conduzido pelo setor elétrico do go- interior da bacia do Tapajós . Alguns
verno federal e por empresas priva- deles reúnem também informações
das – e movimentos de resistência sobre empreendimentos hidrelétri-
engendrados por povos indígenas cos em outras bacias, a exemplo do
e outros grupos em defesa de seus complexo hidrelétrico de Belo Mon-
territórios e modos de vida. te, no rio Xingu. Com isso, é possí-
O livro reúne artigos elaborados vel analisar como um determinado
por pesquisadores vinculados a di- modelo de exploração hidrelétrica
ferentes instituições do Brasil e do da Amazônia vai se reproduzindo e
exterior, agentes do poder público, até que ponto lições têm sido apren-
de organizações não governamen- didas pelos setores pró-barragem.
tais e de movimentos sociais, que Dedicamos este livro aos povos
atuam nessa bacia ou em outros indígenas, ribeirinhos, campone-
contextos amazônicos também im- ses e outras populações que vivem
pactados por barramentos. Trata-se na bacia do Tapajós, que têm de-
de uma região pouco pesquisada, o monstrado enorme criatividade
que torna ainda mais relevantes os e capacidade de diálogo na busca
dados produzidos pelos autores. São pelo reconhecimento de seus di-
textos inéditos ou, quando indica- reitos (profundamente desrespeita-
do, adaptados para esta publicação; dos) como cidadãos brasileiros. Que
todos foram submetidos à análise sejam feito taoca (ou da’uk). Essa
de membros de um comitê editorial pequena formiga, diz o professor
composto para esse fim. munduruku Jairo Saw, derrota até
Os artigos foram concluídos em onça. Seu Chico Caititu, ribeirinho,
diferentes momentos entre abril grande conhecedor do Tapajós,

xvi Ocekadi
completa: “É um bando de formigas
que andam juntas na floresta. É coi-
sa muito reimosa. Ninguém garante
ficar na frente”.

Apresentação xvii
Principais siglas e abreviações

AAE Avaliação ambiental estratégica


AAI Avaliação ambiental integrada
ACP Ação civil pública
Adin Ação direta de inconstitucionalidade
AGU Advocacia-Geral da União
AHE Aproveitamento hidrelétrico
Aneel Agência Nacional de Energia Elétrica
APA Área de proteção ambiental
BNDES Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
CHJ Complexo hidrelétrico do Juruena
CHT Complexo hidrelétrico do Tapajós
CHTP Companhia Hidrelétrica Teles Pires
CIDH Comissão Interamericana de Direitos Humanos
CLPI Consulta livre, prévia e informada
CNPE Conselho Nacional de Política Energética
Conama Conselho Nacional do Meio Ambiente
DOU Diário Oficial da União
ECI Estudo do componente indígena
EIA/Rima Estudo de impacto ambiental e relatório de impacto
ambiental
Eletrobras Centrais Elétricas Brasileiras S.A.
Eletronorte Centrais Elétricas do Norte do Brasil S.A.
EPE Empresa de Pesquisa Energética
Estal Energy Sector Technical Assistance Loan
EVTEA Estudo de viabilidade técnica, econômica e ambiental
FAB Força Aérea Brasileira
Flona Floresta nacional
FNSP Força Nacional de Segurança Pública

xviii Ocekadi
Funai Fundação Nacional do Índio
Gesel/IE/UFRJ Grupo de Estudos do Setor Elétrico do Instituto de Econo-
mia da Universidade Federal do Rio de Janeiro
Ibama Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Natu-
rais Renováveis
IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
ICMBio Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade
ICV Instituto Centro de Vida
Imazon Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia
Incra Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária
Inesc Instituto de Estudos Socioeconômicos
Iphan Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
ISA Instituto Socioambiental
LI Licença de instalação
LP Licença prévia
MMA Ministério do Meio Ambiente
MME Ministério de Minas e Energia
MP Medida provisória
MPE/MT Ministério Público do Estado de Mato Grosso
MPF Ministério Público Federal
MPU Ministério Público da União
OIT Organização Internacional do Trabalho
Opan Operação Amazônia Nativa
PAC Programa de Aceleração do Crescimento
PAE Projeto de assentamento agroextrativista
Parna Parque nacional
PBA Plano básico ambiental
PCH Pequena central hidrelétrica
PDE Plano Decenal de Expansão de Energia
PF Polícia Federal
PIB Produto interno bruto
PNRH Política Nacional de Recursos Hídricos

Principais siglas e abreviações xix


Prodes/Inpe Programa de Cálculo do Desflorestamento da Amazônia do
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
RCID Relatório circunstanciado de identificação e delimitação
Resex Reserva extrativista
Sema/MT Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Mato Grosso
SG/PR Secretaria-Geral da Presidência da República
SGH Superintendência de Gestão e Estudos Hidroenergéticos da
Agência Nacional de Energia Elétrica
SS Suspensão de segurança
STF Supremo Tribunal Federal
STJ Superior Tribunal de Justiça
TI Terra indígena
TRF-1 Tribunal Regional Federal da Primeira Região
UC Unidade de conservação
UHE Usina hidrelétrica
Ocekadi
Hidrelétricas, conflitos socioambientais
e resistência na bacia do Tapajós1
Resumo executivo

O
presente livro tem o intuito grupos em defesa de seus territórios 1. Ocekadi, termo da
língua munduruku,
de oferecer subsídios para o e modos de vida. pode ser traduzido
aprofundamento do deba- A publicação reúne 25 artigos, como “o nosso rio” ou
“o rio do nosso lugar”.
te público acerca de um conjunto elaborados por pesquisadores vin-
sem precedentes de hidrelétricas culados a diferentes instituições
planejadas, em construção ou já im- do Brasil e do exterior, agentes do
plementadas na bacia do Tapajós, poder público, de organizações não
região de enorme socio e biodiver- governamentais e de movimentos
sidade que se estende pelos estados sociais, que atuam na bacia do Ta-
do Pará, Mato Grosso e Amazonas, pajós ou em outros contextos ama-
conectando dois grandes biomas, o zônicos também impactados por
Cerrado e a Amazônia. Mais especi- barramentos. Trata-se de textos iné-
ficamente, são abordadas questões ditos ou, quando indicado, adapta-
relativas a conflitos socioambien- dos para esta publicação.
tais e incompatibilidades entre po- Sumariamos, a seguir, os prin-
líticas públicas – decorrentes de um cipais argumentos expressos nos
modelo centralizado e autoritário textos, que delineiam, de forma
de planejamento e implantação de abrangente e detalhada, aspectos
grandes empreendimentos, condu- fundamentais do planejamento, li-
zido pelo setor elétrico do governo cenciamento ambiental e implan-
federal e por empresas privadas – e tação de hidrelétricas na bacia do
movimentos de resistência engen- Tapajós, traçando comparações, em
drados por povos indígenas e outros vários momentos, com experiências

xxi
semelhantes, a exemplo do comple- ser removido ante os interesses do
xo hidrelétrico de Belo Monte, na agronegócio, do hidronegócio e da
bacia do rio Xingu. Em particular, mineração”. Havendo vivenciado
são destacadas questões relativas diversos momentos econômicos
ao dimensionamento de impactos e distintos (incluindo a exploração da
riscos socioambientais, ao cumpri- borracha, a extração de peles de fe-
mento do arcabouço legal sobre di- linos, o garimpo de ouro e as ações
reitos humanos e proteção ambien- “desenvolvimentistas” do regime
tal, e à compatibilidade com outras militar), indígenas, ribeirinhos e
políticas públicas, setoriais e terri- camponeses veem-se agora frente
toriais. Ao mesmo tempo, os textos aos projetos de aproveitamento hi-
oferecem previsões empiricamente drelétrico da bacia. Ao menos três
embasadas sobre cenários futuros, terras indígenas (TIs) deixaram de
caso os inúmeros projetos de insta- ser declaradas e uma reserva extra-
lação de usinas hidrelétricas (UHEs) tivista (Resex) deixou de ser criada,
e pequenas centrais hidrelétricas por serem consideradas obstáculos
(PCHs) sigam adiante. à implantação de tais projetos. O
O histórico de ocupação do alto texto discute ainda o alinhamento
rio Tapajós, a diversidade social des- político contemporâneo de indíge-
sa região e os reiterados esforços, nas e ribeirinhos, em luta por re-
por parte de sucessivos governos, conhecimento identitário e territo-
de invisibilização de povos indígenas, rial, em um quadro profundamente
ribeirinhos, camponeses e outras assimétrico, marcado pela ameaça
populações que ali vivem, com o que representam os barramentos
intuito de abrir o território à explo- na bacia do Tapajós.
ração econômica indiscriminada, Ricardo Scoles, em sua “Caracte-
são abordados por Mauricio Torres rização ambiental da bacia do Tapa-
no artigo “Um rio de muita gente: a jós”, oferece informações sintéticas
luta comum de vidas plurais no vale sobre o rio Tapajós e seus afluentes,
do alto Tapajós”. Segundo o autor, como o Jamanxim, o Teles Pires e
“a região é esvaziada pelo discur- o Juruena, especificando impactos,
so, em um esforço para se ‘justifi- inclusive cumulativos, que os bar-
car’ a expropriação territorial e o ramentos previstos podem acarre-
solapamento dos modos de vida tar. Há fortes indícios de que a di-
desses grupos”. Quando negar sua versidade biológica e o endemismo
presença não é possível, são “rele- (ocorrência de espécies com distri-
gados à condição de ‘obstáculo’ a buição restrita a uma ecorregião)

xxii Ocekadi
sejam altíssimos na porção sul da de portos nos municípios de Itai-
bacia – justamente onde se concen- tuba e Santarém (Pará); a pavimen-
tra grande parte dos barramentos tação da rodovia Cuiabá-Santarém
planejados. Como nota o autor, os (BR-163); e as pressões minerárias
conhecimentos sobre a biodiversi- sobre a bacia, onde se situa uma das
dade da bacia, especialmente para a mais ricas províncias auríferas do
parte sul, ainda são escassos. Entre planeta. De acordo com os autores,
os problemas socioambientais his- tais intervenções – que respondem
tóricos relacionados à bacia, Scoles a pressões de determinados setores
destaca a contaminação das águas econômicos, notadamente do agro-
por mercúrio; o avanço da pecuária negócio, dedicado à constituição de
no estado de Mato Grosso; e, na por- um novo eixo logístico para escoa-
ção paraense, o garimpo e a intensa mento de commodities – concorrem
extração ilegal de madeira. Contu- para a “intensificação de atividades
do, salienta, a exploração hidrelé- econômicas frequentemente preda-
trica da bacia – que implica “inter- tórias e ilegais, ameaçando os mo-
ferências de alcance imprevisível dos de vida e a integridade dos ter-
no fluxo e ciclos das águas, respon- ritórios de indígenas, ribeirinhos e
sáveis pela dinâmica ecológica das camponeses, entre outros grupos”.
áreas de inundação florestal, diver- “Perpetuam-se, assim, tendências
sidade biológica, grandes migrações históricas – é fácil encontrar nes-
e ciclos reprodutivos da fauna aquá- sa opção de desenvolvimento, fre-
tica” – é, “sem dúvida, a ameaça quentemente vendida como ‘ino-
ecológica de maior envergadura”. vadora’, diversos pontos de contato
“‘Saída pelo norte’: a articulação com as intervenções levadas a cabo
de projetos de infraestrutura e rotas pela ditadura militar na Amazônia,
logísticas na bacia do Tapajós”, de cujo saldo nefasto subsiste”, con-
Daniela Fernandes Alarcon, Natalia cluem os autores.
Ribas Guerrero e Mauricio Torres, Os efeitos da conjugação de
discute as consequências negati- UHEs, PCHs e da hidrovia Teles
vas da articulação de barramentos Pires-Juruena-Tapajós são examina-
e outros projetos de infraestrutura dos por Philip M. Fearnside no texto
previstos ou em andamento na ba- “Os planos para usinas hidrelétricas
cia do Tapajós. Mais especificamen- e hidrovias na bacia do Tapajós: uma
te, debruça-se sobre os planos de combinação que implica a concreti-
implementação da hidrovia Teles zação dos piores impactos”. Como
Pires-Juruena-Tapajós; a construção indica o pesquisador, “o conjunto

Resumo executivo xxiii


de impactos das muitas barragens e econômica de projetos de aprovei-
e da hidrovia do Tapajós, incluindo tamento hidrelétrico na Amazônia.
seus ramais, é muito maior que os O autor destaca, entre outras ques-
danos que geralmente entram em tões, a grande ineficiência no uso
discussão quando se debate qual- da energia no Brasil; os impactos
quer obra específica”. A implanta- da opção de desenvolvimento ado-
ção da hidrovia do Tapajós, assinala tada no país, ancorada em produtos
o autor, incentivará o desmatamen- energointensivos e de baixo valor
to para cultivo de soja na porção agregado, como as commodities mi-
norte de Mato Grosso, assim como nerais e agrícolas; e o superdimen-
o plantio do grão em áreas hoje re- sionamento da demanda energética
cobertas por pastagens, provocando nas projeções oficiais. De acordo
desmatamento, indiretamente, em com Cabral, as análises governa-
outros lugares. As barragens asso- mentais sobre os custos e benefícios
ciadas à hidrovia, enfatiza, já vêm desses projetos têm sido enviesa-
acarretando intensos impactos em das, atendendo comumente a pode-
TIs. Apesar disso, o governo federal rosos interesses privados. A baixa
tem se furtado ao debate. “Omitir qualidade dos estudos de viabilida-
a discussão sobre os componentes de leva a investimentos ineficientes
mais controversos de planos hi- (ou mesmo ineficazes) e a elevados
drelétricos representa um padrão custos sociais. O complexo hidre-
geral, repetindo a história recente létrico do Tapajós (CHT), composto
de licenciamento das barragens de por sete UHEs nos rios Tapajós e
Santo Antônio e Jirau, no rio Ma- Jamanxim, seria inviável tanto em
deira e Belo Monte, no rio Xingu.” um cenário mais otimista, do ponto
Cumpre notar que os Planos Dece- de vista do empreendedor (gerando
nais de Expansão de Energia (PDEs) um prejuízo de cerca de US$ 1,6 bi-
têm estabelecido como prioridade lhão), quanto em um cenário mais
barragens que compõem a hidrovia. realista (prejuízo de cerca de US$ 10
Três das cinco barragens necessá- bilhões). Os custos socioambientais
rias para a construção do ramal que dos empreendimentos atingiriam,
tornaria o rio Teles Pires navegável em ambos os cenários, cerca de US$
até o norte de Mato Grosso já estão 400 milhões. Nesse quadro, defen-
em construção. de Cabral, seria fundamental levar
“Tapajós: do rio à luz”, de Wilson a cabo no país ações para tornar o
Cabral de Sousa Júnior, discute a uso da eletricidade mais sustentá-
necessidade e a viabilidade técnica vel, investindo-se no aumento da

xxiv Ocekadi
eficiência e na expansão da oferta tre as partes iniciais do diagnóstico
de energia eólica e solar. de fragilidades e conflitos socioam-
“Estudos de inventário: caracte- bientais, e os capítulos finais, sobre
rísticas de uma fase inicial e decisiva diretrizes (para o setor elétrico) e
do planejamento de usinas hidrelé- recomendações (para outros seto-
tricas na bacia do Tapajós”, de Brent res).” Têm sido registradas pressões,
Millikan, debruça-se sobre estudos por parte das Centrais Elétricas Bra-
de inventário e avaliação ambiental sileiras S.A. (Eletrobras), para que
integrada (AAI) realizados pelo se- elementos críticos sejam alterados
tor elétrico do governo em conjunto ou suprimidos. É sintomático que
com empresas privadas nas sub-ba- nenhuma AAI da bacia do Tapajós
cias do Tapajós-Jamanxim, Teles Pi- tenha apontado projetos hidrelétri-
res e Juruena. Tais estudos, assinala, cos que devessem ser descartados.
foram marcados por diversas limi- Informado por sua atuação como
tações, como o subdimensionamen- assessor da Fundação Nacional do
to de impactos socioambientais, Índio (Funai) e, posteriormente,
incompatibilidades entre os inven- como consultor da empresa Eco-
tários e outras políticas territoriais, logy Brasil, responsável pelo estu-
e a falta de espaços de participa- do de AAI da sub-bacia do Tapajós-
ção cidadã na tomada de decisões. -Jamanxim, Ricardo Folhes, em
Mais especificamente, os referidos “Ritual burocrático de ocupação do
estudos têm menosprezado a sazo- território pelo setor elétrico: o caso
nalidade dos rios e de ecossistemas da avaliação ambiental integrada
associados, as complexas relações da bacia do Tapajós”, reflete sobre
entre populações e território, e os o licenciamento ambiental, consi-
conhecimentos tradicionais sobre o derando especificamente o estudo
mesmo. Note-se que não se levou a do componente indígena (ECI). Des-
cabo, ainda, um estudo compreen- crevendo os bastidores da consul-
dendo a bacia do Tapajós como um toria ambiental, o autor revela que
todo, permitindo a identificação de a análise de conflito com os povos
impactos cumulativos e sinérgicos, indígenas por ele elaborada no âm-
conforme previsto na legislação bito da AAI foi submetida a cortes e
ambiental; em lugar disso, foram alterações de sentido, e que ele foi
realizados estudos segmentados pressionado a focalizar os “impac-
por sub-bacias e mesmo por trechos tos positivos” do projeto, elaboran-
de rio. “Nas AAIs, observa-se uma do uma análise que o “impulsionas-
precariedade de nexos lógicos en- se”. Trabalhando na Funai, ele já se

Resumo executivo xxv


deparara com pressões de órgãos se- tadamente, violações aos direitos
toriais para a obtenção de licenças indígenas. Cumpre notar que o em-
ambientais sem a devida avaliação preendimento destruiu a cachoeira
dos impactos sobre povos indíge- Sete Quedas, “área de reprodução
nas. De acordo com Folhes, a AAI de peixes migratórios que são a
do Tapajós-Jamanxim pautou-se em base da alimentação das popula-
uma marcada hierarquização de sa- ções indígenas e que, ademais, tem
beres, em que as questões ditas “na- importância cultural e religiosa,
turais” sobrepujavam as “sociais”. por ser lugar sagrado para os Mun-
“O conceito de cientista neutro, he- duruku, que consideraram que ali
rança positivista, está fortemente vive a Mãe dos Peixes”. Esse caso,
incrustado nesses estudos.” Nesse concluem os autores, indica uma
quadro, conclui, o “discurso sobre tendência do licenciamento am-
a vocação energético-econômica do biental no Brasil: a viabilidade am-
país, aliado à noção de desenvolvi- biental dos projetos tem se apoiado
mento sustentável”, legitimaria o cada vez mais nas condicionantes
avanço sobre territórios tradicional- ambientais e menos na avaliação
mente ocupados. de viabilidade ambiental, fase cru-
O licenciamento ambiental de cial do processo de tomada de de-
grandes projetos de infraestrutura cisão, em que deveriam ser consi-
tem sido objeto de numerosas crí- deradas alternativas tecnológicas e
ticas, indicam Evandro Mateus Mo- de localização, impedindo-se a im-
retto, Carolina de Oliveira Jordão, plantação de projetos pouco viáveis
Edilene Fernandes e João Andrade, ou mesmo inviáveis.
em “Condicionantes e a viabilidade No artigo “O BNDES e o financia-
ambiental no processo de licencia- mento de barragens na bacia do Ta-
mento ambiental de usinas hidre- pajós”, Biviany Rojas Garzón, Brent
létricas: uma análise do caso Teles Millikan e Daniela Fernandes Alar-
Pires”. Como observam os autores, con discutem o envolvimento do
é bastante comum que compro- Banco Nacional de Desenvolvimen-
missos assumidos para garantir a to Econômico e Social (BNDES) em
viabilidade ambiental dos projetos projetos de aproveitamento hidrelé-
não sejam devidamente implemen- trico na Amazônia brasileira, consi-
tados. No que diz respeito à UHE derando as relações entre o banco,
Teles Pires, informam os autores, organizações da sociedade civil e
o processo de licenciamento foi outros sujeitos envolvidos nos pro-
marcado por graves problemas, no- cessos, por ocasião da análise, apro-

xxvi Ocekadi
vação e contratação de emprésti- pajós, demonstrando como ela tem
mos, assim como o monitoramento contribuído para a reverberação
e a fiscalização da execução dos em- das construções discursivas oficiais
preendimentos. De janeiro de 2011 – articuladas em torno de expres-
a julho de 2014 os empréstimos do sões como “crescimento”, “desen-
BNDES para aproveitamentos hidre- volvimento”, “interesse nacional” e
létricos (AHEs) na bacia do Tapajós “técnica” – e para o apagamento do
totalizaram cerca de R$ 4,087 bi- dissenso. Foram considerados, na
lhões. De acordo com Rojas Garzón, análise, um jornal diário de circu-
Millikan e Alarcon, a atuação do lação nacional (O Estado de S. Paulo),
BNDES em relação às barragens do um veículo especializado em jorna-
Tapajós, de certa maneira, repete o lismo econômico (Valor Econômico),
que se passou com Belo Monte. “O um portal de notícias dedicado ao
caso de Belo Monte demonstra cla- setor energético (CanalEnergia) e três
ramente a impotência da Política de jornais de alcance local, baseados
Responsabilidade Socioambiental em Santarém (Gazeta de Santarém,
(PRSA) do BNDES, tanto para avaliar O Estado do Tapajós e O Impacto). Nas
riscos socioambientais, evitando o matérias analisadas, predominam
apoio a determinados empreendi- fontes oficiais, ao passo que as vo-
mentos, como para acompanhar zes críticas aos empreendimentos
eficientemente a gestão de riscos tendem a ser colocadas em suspei-
e impactos socioambientais envol- ta. As barragens são comumente
vidos naqueles que o banco decide apresentadas como incontornáveis
apoiar.” O banco, enfatizam os au- e não são consideradas à luz de
tores, tem sido leniente e omisso exemplos do passado, de UHEs que
diante do descumprimento de con- acarretaram danos socioambientais
dicionantes de licenças ambientais graves e irreversíveis. Na cobertura
e dos direitos humanos, contribuin- jornalística hegemônica, os povos
do para o agravamento de conflitos indígenas são frequentemente ca-
socioambientais. racterizados como “obstáculos” ao
Em “Imprensa e barragens na desenvolvimento, ao tempo que
bacia do Tapajós: apego ao discurso ribeirinhos e outros atingidos cos-
oficial e ocultamento das críticas”, tumam ser invisiblizados. Dessa
Daniela Fernandes Alarcon, Natalia maneira, concluem os autores, tais
Ribas Guerrero e Vinicius de Aguiar veículos oferecem poucas contribui-
Furuie analisam a cobertura jorna- ções para a qualificação e ampliação
lística das barragens na bacia do Ta- do debate público.

Resumo executivo xxvii


Em “Suspensão de liminar e usi- o desrespeito ao licenciamento am-
nas hidrelétricas: a flexibilização do biental está judicialmente autori-
licenciamento ambiental por via zado e normas jurídicas válidas se
judicial”, Rodrigo Oliveira e Flávia tornam ineficazes. É a flexibilização
do Amaral Vieira demonstram que do licenciamento ambiental por via
a suspensão de liminar e antecipa- judicial, sem necessidade de modifi-
ção de tutela (SLAT) tem sido “um cação legislativa.”
fator de desequilíbrio processual Em uma abordagem complemen-
em favor do Estado”, prejudicando tar, “A suspensão de segurança: peixe
a discussão sobre a legalidade dos fora d’água diante da Constituição
projetos de aproveitamento hidre- democrática”, Flávia Baracho Trin-
létrico e promovendo “confusão en- dade, Gustavo Godoi Ferreira, Heidi
tre interesses coletivos e interesses Amstalden Albertin, Luís Renato Ve-
do Estado”. Até a conclusão do arti- dovato, Marcelo Brandão Ceccarelli,
go (novembro de 2014), o Ministério Maria Carolina Gervásio Angelini,
Público Federal (MPF) havia apre- Thaís Temer e Alexandre Andrade
sentado 14 ações judiciais questio- Sampaio analisam o “comprome-
nando o licenciamento ambiental timento político” do Judiciário no
de UHEs planejadas para a bacia planejamento e licenciamento de
do rio Tapajós. Doze delas tiveram barragens, focalizando a utilização
decisões liminares, sendo nove fa- do instrumento jurídico conhecido
voráveis ao MPF. Nenhuma delas, como suspensão de segurança (SS).
contudo, chegou a ser aplicada, pois Como indicam os autores, licenças
todas foram suspensas. Cumpre no- ambientais de empreendimentos
tar que a SLAT vigora até o trânsito de infraestrutura têm sido aprova-
em julgado do processo principal, das descumprindo a legislação bra-
na prática, as obras questionadas sileira. Em razão disso, o Ministério
tornam-se fatos consumados. “As Público têm proposto ações, “com o
decisões partem do pressuposto de intuito de frear as violações à legis-
que o Brasil vive uma crise na ofer- lação ambiental”. Em alguns casos,
ta de energia e, consequentemen- foram proferidas decisões judiciais
te, todas as UHEs previstas para a determinando a suspensão do an-
bacia do Tapajós são consideradas damento dos projetos. Contudo, o
cruciais para ampliação do parque governo federal tem se valido da SS
energético”, observam os autores. para barrar tais decisões, “de forma
“Pelo raciocínio empregado, en- a dar continuidade a elas até o tér-
quanto perdurar a crise energética, mino do processo que busca averi-

xxviii Ocekadi
guar as violações alegadas”. “Agin- haviam sido autorizados. Logo que
do assim, procuram obstaculizar se iniciou o processo, desatou-se a
por completo a garantia do acesso Operação Tapajós, por meio da qual
à justiça.” Fica evidente, dessa ma- se buscou garantir à força a realiza-
neira, o “engajamento do Judiciário ção de levantamentos ambientais
com determinado projeto de políti- em território indígena. Além dis-
ca pública energética”. A SS, salien- so, representantes governamentais
tam os autores, é um instrumento atuaram para fragmentar o povo
inconstitucional, que se choca com Munduruku, desrespeitando sua
o ordenamento jurídico internacio- organização e deslegitimando a es-
nal e garante a preponderância dos colha de suas autoridades políticas.
“interesses estatal e econômico, em Dessa maneira, enfatizam Pontes
detrimento da proteção ambiental e Júnior e Oliveira, o governo federal
dos direitos dos indígenas”. demonstrou que a decisão de cons-
O licenciamento ambiental da truir a UHE São Luiz do Tapajós esta-
UHE São Luiz do Tapajós foi inicia- va tomada, independentemente da
do sem realização de consulta livre, consulta, sendo esta transformada
prévia e informada (CLPI), como de- em “mero ato administrativo para
termina a Convenção 169 da Orga- referendar as decisões estatais”.
nização Internacional do Trabalho A UHE São Luiz do Tapajós é um
(OIT). Apenas em 2013, pressionado caso de “inequívoco esforço para
pela mobilização indígena e por de- internalização dos lucros e socialização
cisões judiciais, o governo federal dos prejuízos”, argumenta Luis de
iniciou o processo de consulta, ana- Camões Lima Boaventura, no arti-
lisado no artigo “Usina hidrelétrica go “Usina hidrelétrica de São Luiz do
de São Luiz do Tapajós e a consulta Tapajós: o alagamento da Terra Indí-
prévia aos povos indígenas e comu- gena Munduruku Daje Kapap E’Ipi
nidades tradicionais”, de Felício e o soterramento da Constituição
Pontes Júnior e Rodrigo Oliveira. Federal de 1988”. Tal barramento,
Como demonstram os autores, a se implementado, inundaria par-
postura do governo federal na eta- te significativa da TI Sawré Muybu
pa inicial do processo impediu que (Daje Kapap E’Ipi), em clara viola-
a consulta fosse livre, prévia, infor- ção à Constituição Federal. Como
mada, culturalmente adequada e de demonstra o autor, no âmbito do
boa fé. Quando as reuniões pré-con- licenciamento ambiental da UHE,
sultivas foram realizadas, os estudos o governo federal tem atuado para
para a implementação da UHE já invisibilizar a existência da TI. O

Resumo executivo xxix


relatório circunstanciado de iden- cia do Tapajós, e pontuam marcos
tificação e delimitação (RCID) da fundamentais da mobilização indí-
mesma está pronto. “Entretanto, gena, como a elaboração, em 2014,
em clara afronta à Constituição, a de um protocolo de consulta. De
Funai, confessadamente pressiona- acordo com o artigo, é possível ob-
da por outros setores do governo fe- servar “uma profunda diferença de
deral e empreendedores vinculados arquiteturas cognitivas entre esse
ao setor elétrico e da construção ci- povo indígena e as sociedades oci-
vil, omite-se de seu dever legal e se dentais”. Ao analisar uma imagem
recusa a publicar o aludido RCID.” extraída do relatório de impacto
Nesse quadro, o MPF e os Mundu- ambiental (Rima) da UHE São Luiz
ruku tomaram algumas iniciativas, do Tapajós – documento que, supos-
também discutidas no artigo. Em tamente, apresentaria os resultados
meados de 2014, o MPF propôs uma do estudo de impacto ambiental
ação civil pública (ACP), solicitando (EIA) em termos mais acessíveis –, os
que a Funai e a União Federal cum- autores encontraram 14 conceitos
prissem sua obrigação de demarcar (como “superfície”, “metros”, “mi-
a TI. O processo recebeu decisão lhões” e “desnível”) totalmente au-
favorável, mas esta foi sustada por sentes da cultura munduruku, e ter-
uma SS. No final de 2014, seguindo mos parcialmente ausentes (como
os parâmetros do RCID não publica- “largura” e “direita”, que, entre os
do, os Munduruku iniciaram a au- Munduruku, têm outros sentidos).
todemarcação da TI Sawré Muybu, O artigo apresenta, ainda, um aler-
“uma empreitada inédita e que cer- ta: “As propriedades incrivelmente
tamente será lembrada na história ricas da organização mental e social
indigenista e fundiária do país”. dos Munduruku representam em
Em “Uma nota sobre a geome- si mesmas um sinal de advertência
tria e o sistema de aproximação nu- contra a destruição. O que está em
mérica dos indígenas Munduruku jogo é nada menos que a preserva-
e sua importância para o respeito à ção da diversidade da cognição hu-
Convenção 169 da OIT”, Pierre Pica, mana – uma diversidade que, além
Sidarta Ribeiro, Jairo Saw e Mauri- de ser um valor em si, pode muito
cio Torres discutem as relações en- bem ser indispensável para o futuro
tre as peculiaridades cognitivas dos e sobrevivência de nossa espécie”.
Munduruku e a efetivação do direi- “Barragens e violações dos direi-
to à CLPI a respeito dos empreen- tos indígenas na bacia do rio Jurue-
dimentos de infraestrutura na ba- na”, de Andreia Fanzeres e Andrea

xxx Ocekadi
Jakubaszko, oferece uma amostra das a atividades predatórias como
da sociodiversidade da bacia do Ju- exploração madeireira e mineração.
ruena, assim como das pressões am- “Nós somos a gente que vive nos
bientais e fundiárias impostas por rios em que vocês querem construir
projetos de aproveitamento hidrelé- barragens”, afirmam indígenas, ri-
trico aos povos indígenas que vivem beirinhos e pescadores em carta
na região, e dos vícios que têm mar- recuperada por Helena Palmquist
cado o licenciamento dos empreen- em “O governo que age como a su-
dimentos. No artigo, é possível co- curi e a resistência dos Munduruku
nhecer a dramática situação dos às barragens no Tapajós”. Tomando
Enawene Nawe, que, desde 2008, como marco inicial uma manifesta-
não conseguem realizar seu princi- ção realizada em 2011 pelos povos
pal ritual, o Yaokwa, caracterizado Kayabi e Munduruku para exigir a
pela pesca coletiva de barragem e paralisação do licenciamento da
por interações com as entidades UHE São Manoel, o artigo se debru-
conhecidas como yakairiti. Em de- ça sobre as estratégias engendradas
corrência do complexo hidrelétrico por povos indígenas e comunidades
do Juruena, composto por dez em- tradicionais, focalizando em espe-
preendimentos, os indígenas já não cial a mobilização munduruku. Do
têm êxito na pescaria, dependendo painel delineado pela autora, emer-
da compra de frango e peixe con- ge o largo emprego, pelo governo
gelado para a realização do ritual. federal, de práticas de repressão.
Cumpre notar que o Yaokwa é reco- Destacam-se o assassinato de Ade-
nhecido como patrimônio cultural nilson Munduruku pela Polícia
do Brasil e como patrimônio da hu- Federal (PF), durante operação na
manidade. Os demais povos indíge- aldeia Teles Pires, em 2012, e a Ope-
nas que vivem na bacia do Juruena ração Tapajós, desatada em 2013, no
(Apiaká, Bakairi, Kayabi, Myky/Iran- âmbito da qual estudos de impacto
txe, Munduruku, Nambikwara, Pa- ambiental foram realizados por pes-
resi e Rikbaktsa) também têm seus quisadores escoltados por militares.
territórios e modos de vidas amea- É evidente, ainda, o sistemático des-
çados pelos barramentos. Para citar cumprimento, pelos órgãos oficiais,
um exemplo, o território manoki, da legislação e de compromissos
sozinho, é afetado por 11 PCHs. estabelecidos com indígenas e ribei-
Como indicam as autoras, as bar- rinhos. Ao mesmo tempo, o artigo
ragens vêm agudizando pressões deixa ver a vitalidade da mobiliza-
anteriormente existentes, associa- ção munduruku, organizada princi-

Resumo executivo xxxi


palmente em torno do movimento pelo Ministério do Meio Ambiente
Ipereg Ayu. Os indígenas têm em- (MMA) como de prioridade extre-
pregado táticas de ação direta e ape- mamente alta. Após a redução, par-
los à justiça, em um contexto mar- te das áreas desafetadas foi tomada
cado por uma correlação de forças por garimpos clandestinos. Cumpre
sumamente desfavorável. notar que foi realizada por medida
A redução de unidades de conser- provisória (MP), em clara violação à
vação (UCs) com o intuito de viabili- Constituição Federal. Para os auto-
zar o complexo hidrelétrico que se res, a redução expressa a “estranha
quer implementar nos rios Tapajós harmonia coercitiva estabelecida
e Jamanxim é analisada por Maria entre as políticas ambientais e ener-
Luíza Camargo e Mauricio Torres no géticas no Brasil”.
artigo “Redução na medida: a Medi- A noção de “floresta virgem”,
da Provisória nº558/2012 e a arbitra- acionada frequentemente por de-
riedade da desafetação de unidades fensores das barragens na bacia
de conservação na Amazônia”. A do Tapajós, é um mito, indicam
desafetação de porções do Parque Bruna Cigaran da Rocha e Vinicius
Nacional (Parna) da Amazônia, das Honorato de Oliveira em “Floresta
Florestas Nacionais (Flonas) Itaitu- virgem? O longo passado humano
ba I, Itaituba II e Crepori, e da Área da bacia do Tapajós”. A Amazônia,
de Proteção Ambiental (APA) do Ta- enfatizam, é modificada pela ação
pajós ocorreu em 2012, “no marco humana há milênios. Devido às di-
de um projeto de aproveitamento ficuldades de acesso, poucas pesqui-
hidrelétrico que sequer tem seus sas arqueológicas foram realizadas
estudos de viabilidade concluídos”. no alto curso do Tapajós, em seus
A medida foi implementada sem a formadores e tributários. Trata-
realização de qualquer estudo sobre -se, contudo, de áreas-chaves para
seus possíveis impactos, sobre as es- a compreensão do passado amazô-
pécies ameaçadas de extinção e os nico, sobretudo dos primeiros mi-
sítios arqueológicos já registrados, lênios de ocupação. “As paisagens
e sem que se considerasse a dinâ- humanizadas da bacia do Tapajós
mica de degradação ambiental no representam camadas de ocupação
entorno das UCs. Conforme estudo e memória”, concluem Oliveira e
do Instituto do Homem e Meio Am- Rocha. Além de seu valor científico e
biente da Amazônia (Imazon) referi- artístico para a sociedade em geral,
do no artigo, cerca de 80% das áreas esse patrimônio possui grande rele-
excluídas das UCs são classificadas vância para os povos indígenas e co-

xxxii Ocekadi
munidades tradicionais que vivem postas pelo MPF. Porém, ainda que
na região. Tal patrimônio, contu- decisões liminares tenham suspen-
do, está ameaçado pelas barragens. dido o licenciamento e as obras em
Nesse quadro, os autores alertam diferentes ocasiões, elas foram der-
para os riscos representados pelas rubadas na justiça e Sete Quedas,
propostas de flexibilização da pro- dinamitada. O caso não é exceção:
teção ao patrimônio arqueológico diversos lugares significativos para
no licenciamento ambiental e para povos indígenas e comunidades tra-
os problemas envolvidos em opera- dicionais têm sido impactados por
ções de “resgate” ou “salvamento” obras de infraestrutura. As escava-
arqueológico. Retirando vestígios ções arqueológicas no âmbito do
de seu contexto e desconsiderando licenciamento de UHEs, frequente-
os conhecimentos das populações mente realizadas sem autorização
que vivem na região, bem como de indígenas e ribeirinhos, também
suas relações simbólicas com o pa- são comentadas no artigo. Quando
trimônio, tais operações ameaça- da conclusão do texto, a retirada de
riam as próprias pesquisas, além de urnas funerárias munduruku e ka-
configurar formas contemporâneas yabi pela empresa Documento, res-
de expropriação de povos indígenas ponsável pelos estudos arqueológi-
e comunidades tradicionais. cos relacionados à UHE Teles Pires,
“Sobre sítios arqueológicos e lu- era investigada pela Procuradoria da
gares significativos: impactos so- República em Santarém. Trata-se de
cioambientais e violações dos direi- um caso que evidencia com clareza
tos culturais dos povos indígenas e as violações cometidas pela prática
tradicionais pelos projetos de usinas da arqueologia “de contrato”.
hidrelétricas na bacia do rio Tapa- “O garimpo hidrelétrico: impac-
jós”, de Francisco Antonio Pugliese tos de Belo Monte na cidade de Al-
Jr. e Raoni Bernardo Maranhão Val- tamira e subsídios para reflexão
le, discute a destruição da cachoeira sobre o complexo hidrelétrico do
de Sete Quedas, no rio Teles Pires, Tapajós”, de Eric Macedo, apresen-
para dar lugar à UHE de mesmo ta um exemplo contundente da
nome. Como indicam os autores, magnitude dos impactos urbanos
trata-se de “lugar sagrado e pai- decorrentes de empreendimentos
sagem de imensurável relevância de infraestrutura na Amazônia.
para os povos Munduruku, Kayabi e Baseando-se em pesquisa etnográ-
Apiaká”. A destruição desse marco fica desenvolvida em Altamira, em
territorial foi objeto de ACPs pro- 2013, o autor elencou algumas das

Resumo executivo xxxiii


transformações ocorridas na cida- ti, Marcelo Derzi Vidal e Daniely
de no marco da implementação Félix-Silva discutem os potenciais
da UHE Belo Monte. Destacam-se impactos deletérios dos barra-
o aumento populacional decorren- mentos previstos nos rios Tapajós
te do afluxo de migrantes atraídos e Jamanxim sobre a tartaruga-da-
pela obra; o crescimento vertigi- -Amazônia (Podocnemis expansa) e o
noso dos aluguéis e dos preços de tracajá (Podocnemis unifilis), e criti-
alimentos, assim como de outros cam as limitações dos processos de
bens e serviços; o aumento da pre- licenciamento ambiental das barra-
cariedade dos serviços públicos; e o gens. Entre outras consequências,
crescimento significativo de ocor- os barramentos podem provocar a
rências relacionadas a tráfico de redução de estoques ou mesmo a
drogas, furtos, roubos e exploração extinção local de algumas espécies,
sexual, amplificados pela imprensa, assim como a explosão demográfica
suscitando nos moradores intensa de outras, acarretando significativa
sensação de insegurança. De acordo redução da biodiversidade. É possí-
com Macedo, seria possível iden- vel prever também que a diminui-
tificar um marcado “descompasso ção das fontes de alimentos resul-
entre o ritmo das obras na barra- tará em perda individual da massa
gem e as ações de infraestrutura ur- corpórea dos quelônios. Além disso,
bana e todo tipo de compensações ambientes de “importância crítica”
prometidas para a região”. Essas para a reprodução, como praias e
transformações conformariam um barrancos utilizados para a desova,
padrão que extrapolaria o caso es- serão modificados ou desaparece-
pecífico de Belo Monte. “O aspecto rão. Vale notar que a mais impor-
de previsibilidade dado por tal pa- tante área de desova da bacia situa-
drão é urgente num momento em -se a menos de 100 km do local onde
que proliferam projetos de grandes se prevê a construção da UHE São
UHEs por toda a Amazônia”, indica Luiz do Tapajós. Na região influen-
Macedo, apontando as propostas de ciada pelo complexo hidrelétrico,
barramento do rio Tapajós como informam os autores, ocorrem 11
emblemáticas. espécies de quelônios aquáticos.
Em “Impactos da construção de “Isso significa uma elevada riqueza
usinas hidrelétricas sobre quelônios de espécies, produto da grande dis-
aquáticos amazônicos: um olhar so- ponibilidade de ambientes distintos
bre o complexo hidrelétrico do Ta- e bem conservados.” Várias delas
pajós”, Juarez Carlos Brito Pezzu- são consideradas vulneráveis – a

xxxiv Ocekadi
tartaruga-da-Amazônia, por exem- UHEs, como as de Jatobá e Chaco-
plo, é classificada como criticamen- rão.” Como lembram os autores, a
te ameaçada. pesca é uma atividade crucial na ba-
No artigo “As migrações do jara- cia do Tapajós – servindo tanto para
qui e do tambaqui no rio Tapajós e subsistência como para obtenção de
suas relações com as usinas hidre- renda –, com importante participa-
létricas”, Ronaldo Barthem, Efrem ção de peixes migradores, o que tor-
Ferreira e Michael Goulding discu- na a UHE São Luiz do Tapajós e ou-
tem os impactos potenciais da UHE tros empreendimentos ainda mais
São Luiz do Tapajós sobre as duas preocupantes.
espécies (respectivamente, Sema- “Promessas de governança vs.
prochilodus spp. e Colossoma macropo- realidade: consequências da implan-
mum). De acordo com eles, a deriva tação de megaempreendimentos no
de ovos e o acesso dos reproduto- sudeste amazônico”, de Juan Do-
res às áreas de desova devem ser blas, analisa os impactos socioam-
afetados, podendo inclusive cau- bientais do asfaltamento da BR-163
sar o desaparecimento de espécies (Cuiabá-Santarém) e da construção
migradoras nos trechos do rio que da UHE Belo Monte, considerando
ficarão isolados. “Aparentemente, inclusive os efeitos de tais impactos
o tambaqui apresenta uma forte na eficácia dos próprios empreen-
dependência em relação à conexão dimentos, por meio de processos
entre os trechos de montante e ju- de retroalimentação climática, que
sante da cachoeira de São Luiz, ten- podem torná-los até inoperantes. As
do em vista que a área de alimenta- medidas de previsão e mitigação de
ção dos adultos está a montante da danos socioambientais decorrentes
cachoeira, o berçário está a jusante de empreendimentos de infraestru-
e a área de reprodução, exatamen- tura têm sido ineficazes, observa
te na cachoeira. Por outro lado, os Doblas, estimulando a extração ile-
jaraquis parecem poder manter os gal de recursos da floresta. De 2011 a
ciclos migratórios independentes 2013, o aumento do desmatamento
nos dois trechos. No entanto, não no entorno da BR-163 foi de 250%.
é possível avaliar se a estreita área Em 2012, o entorno de Belo Monte,
de floresta alagada a montante das ocupando 23% do Pará, concentrava
cachoeiras de São Luiz poderia ali- 56% de toda a exploração madeireira
mentar as populações que se man- ilegal do estado. Note-se que a pró-
teriam acima da barragem caso esse pria obra foi grande consumidora
trecho seja entrecortado por outras de madeira. Como o empreendedor

Resumo executivo xxxv


desperdiçou milhares de metros cú- Fearnside, em “Crédito de carbono
bicos de toras, retiradas para a insta- para usinas hidrelétricas como fonte
lação dos canteiros e reservatórios, de emissões de gases de efeito estu-
foram compradas enormes quanti- fa: o exemplo da usina hidrelétrica
dades de madeira, incentivando um de Teles Pires”. Diversos estudos
mercado majoritariamente ilegal. científicos demonstram que as bar-
“As consequências da implantação ragens na Amazônia, especialmen-
do complexo hidrelétrico do Tapa- te durante os primeiros dez anos de
jós devem ser similares ao caso do operação, produzem grandes quan-
Xingu [onde se situa Belo Monte]: tidades de gases de efeito estufa:
especulação imobiliária no meio ru- metano (CH4), dióxido de carbono
ral, que ocasiona um surto de des- (CO2) e óxido nitroso (N2O). O pro-
matamento; degradação florestal; e, jeto de Teles Pires, porém, ignora
finalmente, desmatamento massivo tais emissões. Assim, a UHE “gera
nos municípios afetados pela cons- créditos de carbono sem benefício
trução das usinas.” verdadeiro para o clima”. Além dis-
O Mecanismo de Desenvolvi- so, quando foi contemplada com o
mento Limpo (MDL) do Protoco- crédito, a barragem já estava finan-
lo de Quioto concede créditos de ciada e em construção. A análise de
carbono para UHEs, assentado nas Fearnside chama a atenção, ainda,
premissas de que a geração de ele- para a contradição entre a preocu-
tricidade por barragens apresenta- pação declarada pelo governo brasi-
ria emissões de carbono mínimas se leiro em relação às mudanças climá-
comparadas com a geração a partir ticas e a atuação de diplomatas do
de combustíveis fósseis, e que, sem país, que “tem sido fundamental na
esse financiamento, elas não seriam criação e ampliação das brechas no
construídas. Nenhuma das suposi- regulamento” relativo à concessão
ções procede, demonstra Philip M. de créditos de carbono para UHEs.

xxxvi Ocekadi
Um rio de muita gente
A luta comum de vidas plurais no vale do alto Tapajós1
Mauricio Torres

À memória de dona Santinha, índia de roupa. Leva também uma boti- 1. Um especial
agradecimento à
Munduruku casada com o beiradeiro na nova – “é para abrir a varação lá
Daniela Fernandes
Quelé e que, há 10 anos, me presenteou com os índios”. Alarcon, que
com uma das seis galinhas que tinha. O Na verdade, Caititu atravessa praticamente
reescreveu este
maior presente que recebi. mais que o rio. Ele descende de se- texto, incorporando
ringueiros que chegaram às flores- fundamentais adições
à forma e ao conteúdo,
Ah, aqui nesse rio já passou muita gente. tas do Tapajós na passagem do sécu- e à Bruna Cigaran da
Muita. Teve tempo ruim, mas nunca foi lo XIX para o XX e, na disputa pelo Rocha, pela essencial e
generosa colaboração
rio reimoso, igual tem muito por aí. Não! território, entraram em confron-
sobre a ocupação pré-
Deus defenda. Aqui, o rio não nega. to com índios Munduruku. Assim colombiana do alto
(Josué Cirino, beiradeiro do rio como os Kayapó – tradicionais ini- Tapajós.

Tapajós) migos dos Munduruku –, os serin-

E
gueiros eram pariwat, termo mun-
m outubro de 2014, o ribeirinho duruku que tanto designa “aquele
Chico Caititu atravessa o Tapa- que faz parte de um grupo que é de
jós, saindo do “seu lugar”, em fora”, como “inimigo”. A viagem de
Montanha, na margem esquerda Caititu alegoriza uma importante
do rio, e chega à Terra Indígena (TI) aliança entre beiradeiros e indíge-
Sawré Muybu. Vai se unir aos Mun- nas. A TI que vão demarcar situa-se
duruku nos trabalhos de autode- no exato local  que  o governo fede-
marcação da TI. Com 65 anos, leva ral pretende alagar com a constru-
na pequena “boroca” uma rede, ção da usina hidrelétrica (UHE) de
um terçado e umas poucas trocas São Luiz do Tapajós. Também mora-

1
Imagem 1. Ao lado
dos Munduruku,
o beiradeiro Chico
Caititu, de Montanha e
Mangabal, abre picadas
na autodemarcação da
Terra Indígena Sawré
Muybu. Por Mauricio
Torres, out. 2014.

das ribeirinhas são ameaçadas pela ritorial, em uma dinâmica em que


barragem. também se equacionam questões
Por trás do alinhamento político ambientais e grandes interesses
2. Adotamos aqui a de diferentes grupos étnicos – que, econômicos2. Na verdade, pretende-
toponímia usada pelas
ainda assim,  mantêm-se  como dis- -se discutir a ocupação de índios,
comunidades locais,
que designam como tintos –, está a presença do inimigo beiradeiros e colonos, contextua-
“alto Tapajós” toda a comum, com projetos que desterri- lizando-os em relação à ameaça
porção a montante da
cachoeira de São Luís torializariam a todos. De modo mais de expropriação anunciada pelos
do Tapajós, até a Barra ou menos análogo, camponeses que projetos das UHEs. Esse enfoque
de São Manoel.
chegaram à região na década de pauta o recorte histórico que aqui
1970, em busca de terra, e entraram se apresenta. Trata-se de um proces-
em disputa com beiradeiros, aproxi- so complexo, permeado por sutis
mam-se destes últimos na resistên- plasticidades nas tensões internas
cia às pretensões de construção de de plurais sujeitos coletivos de di-
barragens.  reitos. Grupos diversos fundidos
Neste texto, de modo bastante pelo governo federal, como massa
introdutório, espera-se apresentar amorfa, relegados à condição de
a ocupação do alto rio Tapajós, sua “obstáculo” a ser removido ante os
diversidade social e o movimento interesses do agronegócio, do hidro-
secular de invisibilização e luta por negócio e da mineração.
reconhecimento identitário e ter-

2 Torres
Da ocupação pré-colombiana aos 1981/1982: 297), de modo que não se
primeiros seringueiros pode afirmar, com base em relatos
Ao menos desde o século XVIII, a de viajantes, a configuração étnica
ocupação humana do alto Tapajós do alto Tapajós anterior a esse pe-
é documentada. Ainda assim, até ríodo. O bandeirante João de Souza
hoje, não falta quem insista – por Azevedo forneceu ao bispo do Grão-
ignorância ou má-fé – em sua ine- -Pará, João de São José, diversos et-
xistência. Altino Ventura Filho, se- nônimos para o alto Tapajós, regis-
cretário de Planejamento e Desen- trados em seu relato (São José, 1847
volvimento do Ministério de Minas [1763]). Poucos anos depois, mais al-
e Energia (MME), por exemplo, afir- guns etnônimos seriam registrados
mou recentemente, em relação ao pelo vigário-geral da província do
complexo hidrelétrico do Tapajós Rio Negro, José Monteiro Noronha
(CHT), que “será a primeira vez que (2006 [1768]).
se construirá uma hidrelétrica em É interessante notar que ambos
região não habitada” (Nassif, 2013). mencionam os Maués, citados como
Mesmo entre os burocratas envolvi- “Magués” (São José, 1847 [1763]) ou
dos na febre barrageira do governo “Maué” (Noronha, 2006 [1768]). A
federal, Ventura Filho não é o pri- primeira menção aos Maués teve
meiro. Em maio de 2012, Mauricio
Tolmasquim, presidente da Empre-
sa de Pesquisa Energética (EPE),
corporação pública ligada ao MME,
já havia aludido à inexistência de
“ocupação humana” no local, ao
falar dos projetos das barragens de
São Luiz do Tapajós e Jatobá (Abda-
la, 2012; Cunha, 2012).
O vale do Tapajós é ocupado – há
muito. Presume-se que a presença
humana no alto curso de seu rio
principal remonta ao início do Ho-
Imagem 2. Casa de
loceno, cerca de dez mil anos atrás Chico Caititu, no lugar
(Rocha, 2012: 29). A primeira nave- conhecido como Bozó,
na margem esquerda
gação completa do rio de que se tem
do rio Tapajós. Por
registro somente se deu em 1742 Daniela Alarcon, set.
(Fonseca, 1880/1881: 76; Menéndez, 2014.

Um rio de muita gente 3


lugar quando o frei Samuel Fritz si- gues (1875), elaborado em 1872, e
tuou-os no baixo Tapajós, em 1691, os de frei Pelino de Castrovalvas
sugerindo que esse povo havia se (2000), registrados de 1871 a 1883,
relocado rio acima e no interior do descrevem as margens do Tapajós
interflúvio Madeira-Tapajós. Tam- como ocupadas por diversos povos
bém vale observar que a Noronha indígenas, porém registram a pre-
é atribuída a primeira menção aos sença contínua somente dos Mun-
Munduruku (Horton, 1948), cita- duruku e dos Maués. Segundo esses
dos como “Maturucu” (Noronha, autores, as demais etnias estariam
2006 [1768]: 37). No rol de João de extintas, haveriam migrado ou,
São José, figuram Aripiuns, Magués, quando muito, estariam apenas de
Muriva, Jacareuarás, Commandiz, passagem pela região. Em meio aos
Bradocas, Sapupes, Motuaris, Suri- índios, já àquele tempo, também
nanas, Necurias, Periquitos, Semi- notavam a presença de seringuei-
curids, Urupás, Anijuariás, Apecua- ros, recobrindo-os de estigmas:
riás, Amanajus (São José 1847 [1763],
apud Robazzini, 2013: 85). Note-se, Algumas barracas seringueiras ap-
porém, que essa lista está muito parecem pela margem: de homens
longe de um inventário exaustivo. que[,] atraz de um lucro fallaz,
Relatos seguintes comumente adi- sujeitam-se a passar todo o verão
cionavam – ou retiravam – etnôni- na mata, sem um só companheiro,
mos. Com o início das expedições vivendo vida de condemnado, e de
naturalistas do século XIX, temos animal (Rodrigues, 1875: 96).
registro de povos que falavam lín-
guas dos troncos Aruak, Jê, Tupi e Na extração da borracha, que
Karib, demonstrando alto grau de ensaiava naquela segunda metade
diversidade linguística e cultural na do século XIX a grande e efême-
3. Bruna Cigaran da região3. Portanto, quando Eduardo ra explosão que logo viria, tam-
Rocha, com. pess.
Galvão (1960) definiu a região entre bém percebiam o envolvimento de
os rios Tapajós e Madeira como uma indígenas.
“área cultural Tupi”, referiu-se a um A frequência dos encontros en-
quadro do século XX. tre naturalistas e embarcações de
4. Além das referências A partir da década de 1770, os comerciantes no alto Tapajós indica
citadas, leia-se também: Munduruku iniciaram seu processo uma rede consolidada já em meados
Castelnau (1949),
Almeida (1860/1874), de expansão territorial em direção do século xix4. Frei Pelino de Cas-
Chandless (1862) e ao baixo Tapajós. Um século depois, trovalvas, em 1871, quando incum-
Langsdorff (1981).
relatos como os de Barbosa Rodri- bido de fundar uma missão capu-

4 Torres
chinha no alto Tapajós, teve grande alternativa encontrada foi um pro-
dificuldade em interpor-se entre os grama de migração nordestina para
regatões5 e os índios, pois, segundo áreas de seringais, financiado pelas 5. “Regatão” é a
denominação tanto
ele, os primeiros, “tendo outrora casas aviadoras de Belém e Manaus.
para as embarcações
enganado aquela pobre gente tro- Segundo Octávio Ianni, de comerciantes que
cando coisas de pouquíssimo valor transitam pelo rio,
quanto para os donos e
por quintais de borracha elástica, muitos foram os nordestinos leva- gerentes das mesmas.
quereriam ainda hoje continuar dos para os trabalhos da borracha.
tão injusto negócio” (Castrovalvas, Ao lado do caboclo e do índio ama-
2000: 75). E decide: “nenhum rega- zônicos, o nordestino representou um
tão poderia negociar com os índios, contingente muito importante da
a não ser em minha presença e sob mão de obra dedicada à borracha.
a minha fiscalização e vigilância” Muitos eram principalmente cea-
(Ibid.: 112s). Para garantir o cumpri- renses (1979: 46).
mento de seus arbítrios, constrói
uma “casa de punição” e monta No Pará e no Amazonas, em
um pelotão de índios sob o seu co- apenas 28 anos (1872-1900), a popu-
mando. Frei Pelino foi processado lação foi de 329 mil para 695 mil
por comerciantes e políticos locais, habitantes (Furtado, 2000: 137). No
“acusado de ter-se dedicado mais alto Tapajós, o movimento migrató-
aos negócios do que às boas obras” rio parece ainda ter se prolongado
(Coudreau, 1977 [1897]: 36; cf. tam- pelo menos até o final da primeira
bém Brasil, s.d.). Procedente ou não década do século XX. Houve ainda,
a acusação, é fato que o próprio durante a Segunda Guerra Mundial,
frei apresentou dados de uma con- outro momento de intensificação
siderável produção de borracha na migratória para a extração de bor-
missão Bacabal, com uso da mão de racha na Amazônia e, novamente, o
obra indígena (Castrovalvas, 2000: Nordeste foi a principal origem dos
passim). trabalhadores. Mas, mesmo antes do
século XX, a presença de seringuei-
Nos tempos do “carrancismo” ros já era expressiva, como testemu-
Já próximo ao final do século XIX, nhou, em 1895, o francês Henri Cou-
o mercado da borracha explodia, dreau. O naturalista registou que,
enfrentando como fator limitante a na área onde hoje se situa o Parque
escassez de mão de obra e a resis- Nacional (Parna) da Amazônia, “no
tência indígena em defesa de seus Igarapé Mambuaizinho[,] que fica na
territórios e de sua liberdade. A margem esquerda, contam-se não

Um rio de muita gente 5


menos que uns 500 maranhenses, de se limitar à assimilação. Captura-
todos também ocupados na extra- das e vendidas ou, então, tomadas
ção da borracha” (Coudreau, 1977 como esposas, foram alvo de graves
[1897]: 29). Assim, deslocaram-se violações, porém, resumi-las ao pa-
para as margens do Tapajós muitos pel de vítimas é submetê-las a nova
dos ascendentes das famílias de bei- violência (Wolff, 1998). A presença
radeiros que lá ainda vivem. dessas mulheres na constituição
Na verdade, esse enredo respon- dos grupos familiares nas zonas
de mais pela chegada dos ascenden- ribeirinhas do Tapajós e de outros
tes homens. A falta de mulheres en- rios é peça vital para o entendimen-
tre os migrantes levou à reprodução to do modo de ocupação e de repro-
do modelo de união entre homens dução naquele espaço. Também por
não indígenas e mulheres indígenas isso há que se evitar o reducionismo
(Galvão, 1966). São muito comuns operado na vitimização da índia,
relatos como o de dona Raimunda pois, assim, sua incorporação apa-
Cecília de Araújo, nascida em 1938, rece como algo
moradora de Mangabal, que lembra
bem da narrativa sobre como o avô que não oferece nada para o futuro,
cearense roubou sua avó, uma ín- pois fala somente das derrotas, de
dia. Esse padrão assimétrico de mis- subjugação e de esquecimento. […]
cigenação está gravado, ainda ago- Ao contrário, pensar essas mulheres
ra, no sangue de seus descendentes. também como sujeitos, que intera-
Quando a composição genética da gem com outros na sociedade dos
população amazônida é estudada seringais, pode nos trazer elemen-
com detalhes, nota-se que as varian- tos novos para a compreensão dessa
6. Sobre as mudanças tes dos genes transmitidos ao longo sociedade (Ibid.: 169)6.
culturais provindas
das gerações apenas por via paterna
da exogamia e
sua importância (os do cromossomo Y) são em sua A ocupação ribeirinha que se se-
fundamental no maioria similares às variantes ibéri- guiu no alto Tapajós é herdeira di-
processo de adaptação,
ver Moran, 1990. cas. As formas gênicas herdadas de reta de tecnologias indígenas, fato
mãe para filha (as do DNA das mi- que se percebe nos saberes associa-
tocôndrias), pelo contrário, são ma- dos à caça, pesca, manejo dos ro-
joritariamente idênticas às das mu- çados, coletas e em mais inúmeras
lheres indígenas (Santos et al., 1999). formas de relação com o rio e com a
Note-se que a contribuição da floresta (cf. Torres, 2008, 2011).
mulher indígena para a formação Ainda no que diz respeito à gê-
dos grupos familiares esteve longe nese da ocupação da terra na região

6 Torres
do alto Tapajós, há que se ressaltar a obra. Nesse ambiente o seringueiro
situação agrária dos seringais. Eram não podia ser um trabalhador livre,
terras comumente não reclamadas, um assalariado. Se fosse, um traba-
7. Uma vasta discussão
terras apropriadas por seringalistas lhador livre, de posse de seu salário, sobre as dinâmicas
(ou “patrões”, como eram comu- logo estaria em condições de seguir de escravização por
endividamento nos
mente chamados) com uso de vio- adiante (1979: 55).
seringais está em
lência e exploradas a partir da coer- Weinstein (1993).
ção do trabalho dos seringueiros, Não era a terra que tinha valor,
sem qualquer registro formal em eram a estrada de seringa e o con-
relação ao título fundiário. A prin- tingente de trabalhadores para
cipal forma de controle dos patrões explorá-las. “A mão de obra tudo
sobre a escassa mão de obra operava vale e a terra, quase nada” (Pimen-
via mecanismos de endividamento, ta Bueno, 1882: 61 apud Weinstein,
que derivavam em escravidão por 1993: 193)8. Com o declínio do tem- 8. Pimenta Bueno, Manuel
Antonio. 1882. A
dívida7. Para garantir a permanên- po áureo da economia da borracha,
borracha. Rio de Janeiro.
cia do trabalhador, havia que se lhe após 1912, os pilares comerciais e do
privar de liberdade, em função do sistema de escravização começaram
endividamento, e para garantir que a ruir.
ele se endividaria, a principal tática
consistia na proibição de fazer ro- Os ‘barões’ da borracha perderam
çados, o que o obrigava a comprar o poder absoluto e as fortunas que
tudo o que consumia. Isso perdurou possuíam. Escândalos internacio-
por tempos e ainda hoje, no “beira- nais atraíram a atenção do mundo
dão” do Tapajós, ainda são muito para a escravização do seringueiro
vivas as lembranças do “tempo do da Amazônia (Wagley, 1977: 107 apud
carrancismo”, como muitos se refe- Ianni, 1979: 60)9. 9. Wagley, Charles. 1977.
Uma comunidade
rem aos tempos da alta da borracha, amazônica. São Paulo,
em que, como forma de coerção, os Paralelamente a esse enfraqueci- Companhia Editora
mento, outras formas começaram a Nacional.
patrões se valiam livremente do ter-
ror e da violência. Ianni comenta: se estruturar, em especial, um seg-
mento camponês específico, nos se-
O seringueiro não passava de um pri- ringais sem patrões:
sioneiro do sistema de aviamento,
do comércio, do crédito, da violência Em muitos lugares, ou ressurgiu, ou
privada do patrão. […] na Amazônia nasceu pela primeira vez, um setor
a terra era farta e livre, ao mesmo camponês. Ao mesmo tempo em
tempo em que escasseava a mão de que ocorriam a crise, a estagnação,

Um rio de muita gente 7


o retrocesso ou a decadência do mo- tos extrativos, que eram essencial-
noextrativismo da borracha, ocorria mente comerciais e não agrícolas,
também o rearranjo das forças pro- simplesmente encerraram suas
dutivas e das relações de produção. atividades. Ficaram para trás os
[…] Ao decair o monoextrativismo trabalhadores, dedicados à própria
da borracha, voltado para o comér- subsistência e comercialização de
cio e indústria externos, ocorreu a excedentes em pequena escala. Es-
diferenciação das atividades produ- sencialmente, houve um refluxo da
tivas voltadas para o consumo e o economia, expresso diretamente no
comércio internos, principalmente retorno a uma economia baseada na
locais. Diferenciou-se o extrativismo produção direta dos meios de vida
em coleta, caça e pesca; ao mesmo por parte dos trabalhadores. Isso
tempo, formaram-se roças e cria- tinha sentido, porque os donos de
ções. Constituiu-se um setor cam- seringais e castanhais eram meros
ponês razoavelmente significativo, posseiros ou foreiros que haviam
mas disperso no espaço ecológico arrendado suas terras do Estado.
(Ianni, 1979: 63s). Portanto, a partir desse momento,
a frente de expansão ficou caracteri-
A perda de poder dos patrões vai zada como uma frente demográfica
alterando as relações de trabalho. de populações camponesas e pobres
Joseph Woodroffe, em 1915, sinteti- residualmente vinculadas ao merca-
zava: “quase todo seringueiro possui do. Em vez de estagnar, continuou
agora sua roça de mandioca, feijão, crescendo e se expandindo pela che-
milho ou banana” (1915: 121 apud gada contínua de novos camponeses
10. Woodroffe, Joseph. Weinstein, 1993: 273)10. E, de fato, os sem terra originários sobretudo do
1915. The rubber
empreendimentos estruturados em Nordeste, no caso da Amazônia, que
industry of the Amazon.
London. um momento de intenso floresci- foram ocupando as terras real ou
mento de uma economia capitalista supostamente livres da região (Mar-
acabaram por, contraditoriamente, tins, 1997: 178s).
fortalecer formas não capitalistas
de viver e de produzir, como o cam- Ainda hoje, nas comunidades
pesinato florestal que se firmava do alto Tapajós, ouvimos dos mais
nos seringais desvalorizados: velhos – descendentes dos serin-
gueiros que acabaram por ficar na
Quando a economia da borracha terra – relatos transmitidos por seus
entrou em crise e decadência aí por pais e avós sobre como muitos pa-
1910, muitos desses empreendimen- trões simplesmente desapareceram

8 Torres
de uma hora para a outra, ao passo látex deu-se, mais que em razão da
que algumas famílias de pequenos quebra do mercado internacional
seringalistas, em face da desarti- da borracha, pelo gradativo desin-
culação do mercado da borracha, teresse pelo produto por parte de
acabaram por se fundir social e comerciantes locais. Entre os anos
economicamente aos seringueiros, de 1960 e 1970, o comércio cessou
aproximando-se de uma estrutura quase que por completo no alto Ta-
calcada em nucleamentos familia- pajós, por falta de compradores de
res e na solidificação das relações seringa. Enquanto a borracha per-
vicinais. dia preço e tinha compradores cada
vez mais raros, a partir do início dos
Da “mariscagem de gato” a Nilson anos de 1950, outro produto se valo-
Pinheiro, “o descobridor do ouro rizava: as peles de felinos. Antigos
no Tapajós” seringueiros tornavam-se, então,
O processo de abandono dos serin- gateiros, caçadores de onças, jagua-
gais do alto Tapajós pelos patrões tiricas e outras espécies cujas peles
culminou por volta dos anos de eram procuradas.
1950. Os seringueiros que ficaram Os gateiros tiveram um período
continuaram com a atividade ex- de atividade relativamente curto,
trativista, associando-a à agricul- pois o comércio de peles de animais
tura. O abandono do comércio do silvestres foi proibido já em 1967,

Imagem 3. Família
ribeirinha que vive no
interior da Floresta
Nacional de Itaituba.
Por Daniela Alarcon,
set. 2014.

Um rio de muita gente 9


(afluente da margem direita do Ta-
pajós), em 1958, por Nilson Pinhei-
ro, homem que se tornaria um mito
na região. Desvelava-se, então, a
província aurífera (ou mineral) do
Tapajós, uma das mais ricas de todo
o país.
Da década de 1950 até hoje, o ga-
rimpo nunca cessou na região. Con-
tudo, desde a época de Pinheiro, os
garimpos do Tapajós conheceram
diferentes momentos, em termos de
relações sociais, técnicas de trabalho
e produção. Na década de 1980, as
balsas de mergulho, que exploram
o ouro de aluvião, predominavam
nos garimpos do Tapajós. As peque-
nas, com motores pouco potentes e
que dragam o leito do rio com man-
gueiras de quatro polegadas, são co-
nhecidas como “quatinhas” ou “re-
queiras”, sendo exploradas, sempre,
por famílias ribeirinhas. Já a partir
da década de 1990, difundiu-se o sis-
tema de desmonte hidráulico, que
utiliza dois motores. O primeiro
bombeia água para um bico, pressu-
Imagem 4. Dona pela Lei nº5.197, que dispõe sobre rizando um jato d’água, destinado a
Lausminda de erodir o barranco. O segundo draga
Jesus, beiradeira de
a proteção à fauna. Entretanto, na
Montanha e Mangabal, região do alto Tapajós, outra possi- o material que escorre misturado à
preparando bolo de água, levando-o à caixa forrada por
bilidade econômica aflorava com
massa. Por Mauricio
Torres, 2005. todo ímpeto: o garimpo. Existe um carpete. O ouro, mais denso, fica
consenso em torno dos primórdios preso ao carpete, enquanto a água
da exploração de ouro na bacia do e os demais materiais escorrem.
Tapajós: ela teria se originado com Assim como as balsas, o sistema de
a descoberta das primeiras jazidas desmonte hidráulico varia muito
do mineral na foz do rio das Tropas de potência, dependendo do par de

10 Torres
motores que opera o garimpo. Mo- Durante parte da década de 1960,
tores pequenos, com mangueiras registra-se um período de transição
de quatro polegadas, são comumen- no Tapajós, em que teriam coexisti-
te empreendimentos de famílias do as três principais atividades eco-
ribeirinhas. nômicas: borracha, peles de gato e
As dragas escariantes, por sua ouro. Os trabalhadores apresenta-
vez, perfuram o leito dos rios e vam, contudo, uma clara tendência
dragam o material mais profundo. de se envolverem crescentemente
Após o barramento do rio Madeira, com a última. Essa migração de ati-
muitas dragas migraram para o alto vidade teria implicado uma corres-
Tapajós. Mais recentemente, as es- pondente transposição do sistema
cavadeiras hidráulicas, conhecidas de aviamento que predominava em
na região como PCs, têm substituí- especial na borracha, para supri-
do o jato d’água no desmonte do mento de alimentos, instrumentos
barranco. Note-se que essa técnica de trabalho e utensílios domésti-
tem grande poder de degradação e cos por parte das firmas aviadoras,
que o preço das máquinas, comu- como se pode ilustrar com o depoi-
mente, supera um milhão de reais. mento de Tibiriçá Santa Brígida, ex-
Paralelamente a essas formas de -prefeito de Itaituba, nomeado pelo
exploração, o garimpo manual, téc- ditador Castelo Branco, em 1964:
nica milenar, ainda hoje é reprodu-
zido no vale do Tapajós. Na tabela 1, Quando descobriam os garimpos,
pode-se observar a predominância os primeiros garimpeiros foram se-
das técnicas por período. ringueiros, eles foram abandonando

Tabela 1. O ouro e as tecnologias de extração no Tapajós, por período.


De 1958 a 1978 Ênfase em grotas terciárias e secundárias, trabalho essencialmente
manual.

De 1978 a 1985 Ênfase na extração de leito ativo, por meio de balsas de mergulho.

De 1985 a 1992 Predominam a unidade produtiva conhecida como chupadeira (ou chupão)
e, muito secundariamente, dragas escariantes e escarilanças.

De 1992 a 2008 Período de baixa histórica no preço do ouro. A atividade se dá,


predominantemente, por desmonte hidráulico, balsas de mergulho,
chupadeiras e, secundariamente, por dragas escariantes e escarilanças.

De 2008 até hoje Abrupto aumento no preço do ouro. Predominância de operação de dragas
escariantes e escarilanças, e desmonte de barrancos com escavadeiras
mecânicas conhecidas como PCs.

Elaboração do autor, a partir de Lima (1994: 21) e dados próprios.

Um rio de muita gente 11


os seringais e foram se localizando, garimpo e eles continuaram avian-
ainda se descobria os garimpos. A do como garimpeiros (apud Lima,
maior parte dos seringueiros das fir- 1994: 24).
mas aviadoras foram passando pro

Imagem 5. Balsa de
mergulho. Por Simone
Albarado Rabelo, nov.
2011.

Imagem 6. Desmonte
hidráulico. Por Natalia
Guerrero, nov. 2011.

12 Torres
Imagem 7. Draga
escariante. Por Mauricio
Torres, dez. 2014.

Algumas especificidades do Ta- sua pista de pouso, ativas ou não,


pajós propiciaram o surgimento de espalhadas na floresta, os garimpei-
uma organização socioeconômica ros do Tapajós são a maior experiên-
da atividade com características so- cia mineira de cunho estritamente
cialmente mais equilibradas e, ao nacional e popular que já tivemos
mesmo tempo, tecnologicamente neste país. Desta experiência temos
inovadoras e complexas: muito que aprender (Coordenação
Nacional dos Geólogos, 1984: 88
Durante todos esses anos de evo- apud Oliveira, 2005: 143)11. 11. Coordenação Nacional
dos Geólogos. 1984.
lução criaram-se mecanismos pró-
Em busca do ouro:
prios e regras bem estabelecidas nas Retornando ao pioneiro nas garimpos e garimpeiros
relações de trabalho que acabaram explorações de ouro no Tapajós, do Brasil. Rio de Janeiro,
Marco Zero.
por gerar um sistema ético peculiar Nilson Pinheiro – nome que vem
com especificidades tapajônicas. [...] sempre acompanhado do epíteto “o
Espalhados em uma área aproxima- descobridor dos garimpos no Tapa-
da de 250.000 km2, os garimpeiros jós” –, vale registrar sua importân-
têm ponto de convergência na ci- cia na história recente da região. So-
dade de Itaituba, onde se localiza o bre ele, pairam histórias e casos que
centro operacional e financeiro do beiram a dimensão mítica. Muito se
complexo. Dispondo de mais de 150 fala dos seus talentos para “desco-
locais de atividades, cada um com brir ouro” e, mais ainda, de seus

Um rio de muita gente 13


dotes como galante conquistador. to. Ele nem falava mais, nem ficava
Tais atributos se entrelaçam, como mais em pé. Só tremia. E foi assim
no relato de seu Toti Geraldo (Anto- que ele se acabou, por causa dessa
12. Depoimento de seu nio Nascimento), antigo seringueiro coisa12.
Antonio Nascimento ao
nascido e criado às margens do Ta-
autor, 2005.
pajós, na localidade de São Tomé de A “Transa”, o mosaico de unidades
Mangabal: de conservação e os barramentos
Na década de 1970, o constructo
O Nilson Pinheiro não podia ver ideológico do “desenvolvimento”
moça nova. E foi essa a desgraça expressava uma concepção bandei-
dele. rante, que demandava um aparato
Ele descobriu o ouro aqui no Tapajós político, policialesco e jurídico para
depois que foi numa vidente, lá em se ordenar o território de modo a
Parintins, pros lados do Amazonas. viabilizar, a grandes grupos econô-
Foi ela que disse pra ele direitinho micos, o acesso à terra. Exacerbava-
como era o lugar onde ele ia achar o -se a função da produtividade, que
ouro. Daí ele veio varando. Varando implicava um domínio sistêmico do
pela mata, de lá das águas do Ama- homem sobre o meio e sobre os ou-
zonas até aqui a boca das Tropas. tros homens. Nesse contexto, busca-
Achou muito ouro e também tocava va-se subjugar os povos da floresta a
instrumento, que era muito bonito. um padrão tecnológico que se pre-
Quando as moças ouviam o avião sumia superior, baseado em uma
dele, já atiçavam. pseudomodernidade racional sem
Até que ele tirou a pureza de uma qualquer perspectiva além do lucro.
moça e engravidou ela e disse que A força dessa representação inibe
o filho não era dele. E a mãe dela se pensar a história senão pelos pro-
enfezou demais. Aí, a mãe dela dis- cessos de dominação da natureza e
se: “Ele nunca mais na vida vai fazer apropriação do trabalho – processos
isso com mulher nenhuma que seja que fundam na atividade produtiva
filha de mulher”. E a mãe da moça o postulado explicativo da essência
foi lá pro Amazonas. Foi procurar social. O processo de produção, as-
certinho a vidente que tinha dito sim, firma-se como uma sequência
pro Nilson Pinheiro onde estava o natural e lógica de etapas, na dire-
ouro do Tapajós. Foi lá e encomen- ção evidente da maior produtivida-
dou a vingança dela. E depois disso, de (cf. Bresciani, 1985/1986).
logo depois, caiu um raio no Nilson Muito antes de os tecnocratas do
Pinheiro e ele ficou pior que mor- MME negarem até a existência da

14 Torres
gente do vale do Tapajós, no início jós, porém, nada comparado ao que
dos anos de 1970, quando o regime ocorreu, por exemplo, no trecho
militar decidiu que a Amazônia Altamira-Itaituba da BR-230.
seria “ocupada” como saída para Uma das causas para isso pode
a grave crise social das regiões Sul ser atribuída ao fato de, nas pro-
e Nordeste, criando o embrião dos ximidades do alto Tapajós, não ter
atuais projetos hidrelétricos, Emílio sido programado nenhum Proje-
Garrastazu Médici teria proclama- to de Colonização Integrado (PIC),
do: “terra sem povo para um povo como aconteceu na porção da BR-
sem terra” (Torres, 2005; Cunha, 163 entre Trairão e Santarém e no
2009). Ao que parece, o ditador e referido trecho da Transamazônica,
os tecnocratas de hoje, convenien- entre Altamira e Itaituba. Pese-se,
temente, não consideram como ainda, o fato de as duas estradas
gente os indígenas, quilombolas, terem ficado interrompidas, com
ribeirinhos, varzeiros e citadinos da tráfego impossível, justamente nas
região. Como no período colonial, porções que cortavam a bacia do
a região é esvaziada pelo discurso, Tapajós na sua parte mais alta, du-
em um esforço para se “justificar” rante cerca de dez anos, entre as
a expropriação territorial e o sola- décadas de 1980 e 1990, o que cer-
pamento dos modos de vida desses tamente minimizou seu impacto no
grupos. alto Tapajós.
Nesse contexto, e ao timbre dos Porém, não se pense que os efei-
clarins da ditadura, vieram os fa- tos foram pequenos para as flores-
raônicos projetos da BR-230 (a ro- tas, povos indígenas e ribeirinhos
dovia Transamazônica, ou simples- do alto Tapajós. Um dos mais per-
mente “Transa”, como é chamada ceptíveis foi o aquecimento do
na região do Tapajós) e da BR-163 mercado de terras e, consequente-
(Cuiabá-Santarém). A primeira, em mente, da grilagem. Não foram pe-
seu trecho de Itaituba a Jacareacan- quenas as lutas pela terra travadas
ga, cortava a porção oeste da bacia por ribeirinhos, que, muitas vezes,
do Tapajós, enquanto a segunda, acabavam expropriados. A resistên-
ao aproveitar o divisor de águas do cia daquela gente, porém, conduziu
interflúvio Xingu-Tapajós, riscava o a vitórias sobre apropriações ilegais
limite leste da bacia. A abertura das de terras públicas que se estendiam
estradas e os projetos estatais de co- por centenas de milhares de hecta-
lonização que lhe vieram a reboque res ou, mesmo, que passavam da
impactaram a região do alto Tapa- casa do milhão de hectares, como a

Um rio de muita gente 15


sofisticada e megalômana grilagem limitação provisória (Alap), soman-
da empresa paranaense Indussolo do um total de 8,2 milhões de hec-
(Brasil, Ministério Público Federal, tares. As Alap resultaram, em 13 de
2006). fevereiro de 2006, na destinação de
No mesmo acento de completa 6,8 milhões de hectares sob interdi-
desconsideração pela ocupação lo- ção como UCs federais de diversos
cal, a década de 1970 trouxe também usos, sendo 4,9 milhões de hectares
as primeiras unidades de conserva- na categoria de uso sustentável e 1,9
ção ambiental (UCs) da Amazônia. milhão de hectares na categoria de
Mais precisamente, em 1974, foram proteção integral (ver tabela 2).
decretados o Parna da Amazônia e A decretação do mosaico – no dia
a Floresta Nacional (Flona) do Tapa- seguinte ao primeiro aniversário da
jós. Sem prejuízo da relevância am- morte de Dorothy Stang – aumen-
biental do Parna, as ações de imple- tava em mais de 10% a área de UCs
mentação do mesmo – entenda-se, de toda a Amazônia e vinha no bojo
expulsão da população ribeirinha de ações mitigatórias dos impactos
– deflagraram verdadeira barbárie, previstos com o asfaltamento da
que se prolongaria até meados da BR-163.
década de 1980 e da qual foram ví- A União declarava que a criação
timas as comunidades que, havia do mosaico de UCs tinha como um
gerações, habitavam a área. Comu- dos seus objetivos impedir o pro-
nidades inteiras foram removidas e cesso de ocupação desordenado e
poucas famílias foram indenizadas predatório e permitir a preservação
– em sua maioria, as indenizações da floresta concomitantemente à
tinham valores irrisórios. sua exploração em bases sustentá-
Em 2004, com a intensa expan- veis. Sem questionar a importância
são do agronegócio em Mato Gros- ambiental do mosaico, é bem claro
so e o anúncio do asfaltamento da que o governo pensou o uso de UCs
BR-163, explodem o desmatamen- como instrumento de regulariza-
to e os conflitos agrários na região ção fundiária, função para a qual
oeste do Pará. Em 12 de fevereiro de as UCs não foram concebidas. Pas-
2005, a missionária Dorothy Stang é sados nove anos, percebemos como
assassinada. Nesse contexto de forte o mosaico de reservas surtiu efeito
pressão política por respostas do go- em alguns casos, mesmo que sua
verno em favor de pautas socioam- implementação não tenha ido além
bientais, em 18 de fevereiro do mes- de ações cosméticas, com unidades
mo ano, foram instituídas áreas sob de centenas de milhares de hectares

16 Torres
Tabela 2.
Unidades de conservação decretadas no vale do Tapajós em 2006.
Unidade de conservação Área (hectares) Categoria

Floresta Nacional (Flona) do Jamanxim 1.301.120 Uso sustentável

Flona do Crepori 740.661 Uso sustentável

Flona do Amanã 540.417 Uso sustentável

Flona do Trairão 257.482 Uso sustentável

Área de Proteção Ambiental (APA) do Tapajós 2.059.496 Uso sustentável

Reserva Biológica (Rebio) Nascentes da Serra do Cachimbo 342.447 Proteção integral

Parque Nacional (Parna) do Jamanxim 859.722 Proteção integral

Parna do Rio Novo 537.575 Proteção integral

Ampliação do Parna da Amazônia 167.379 Proteção integral

Fonte: Decreto s/n, de 13 de fevereiro de 2006.

contando apenas com um ou dois cionais e também pelo povo Mun-


gestores. Porém, como era de se es- duruku (Brasil, Ministério Público
perar, a criação das UCs não logrou Federal, Segundo Ofício da Procura-
o efeito de regularização fundiária doria da República no Município de
esperado, continuando parte subs- Santarém, 2013; Torres & Guerrero,
tantiva das áreas em mãos de gri- 2012; Torres et al., 2013) exemplifica
leiros e de organizações criminosas como o discurso ambiental também
ligadas à madeira. se acomoda bem aos interesses de
Também a emissão, nas Flonas, grandes grupos econômicos.
de concessões de florestas públi- Em 2012, por impressionante
cas (Lei nº11.284/2006) vem se mos- que pareça, após o substantivo cus-
trando um grande vetor de expro- to social que representou a criação
priação de povos e comunidades do Parna da Amazônia, justamente
tradicionais, embora a lei garanta a área da qual foram expulsos os ri-
tais ocupações (cf. Brasil, Ministério beirinhos, às margens do Tapajós,
Público Federal, 2009; Torres, 2012; foi desafetada por meio da Medida
Torres & Guerrero, no prelo). Em Provisória nº558, que alterou os
especial, a pretensão do governo de limites de todas as UCs que, de al-
licitar mais de 440 mil hectares na guma forma, obstaculizariam a im-
Flona do Crepori, incluindo áreas plantação do CHT.
ocupadas por comunidades tradi-

Um rio de muita gente 17


A luta do povo Munduruku e dos Então, o procurador-geral da Repú-
beiradeiros por terra e por água e blica encaminhou à Casa Civil um
a militarização do rio Tapajós ofício inquirindo sobre o eventual
A desafetação das UCs não foi o úni- descumprimento, pelo Estado brasi-
co impacto socioambiental dos pro- leiro, da Convenção da Diversidade
jetos de barramento que já se pode Biológica e da Convenção 169 da Or-
notar. Ao menos três TIs deixaram ganização Internacional do Traba-
de ser declaradas e uma reserva ex- lho (OIT), no processo de criação da
trativista (Resex) deixou de ser cria- Resex. O ofício demandava, ainda,
da, por colidirem com os interesses que fosse
do CHT. Os beiradeiros de Monta-
nha e Mangabal, localidade situada realizada requisição à Ministra da
na margem esquerda do Tapajós, Casa Civil [então, Dilma Rousseff]
após uma luta secular pelo seu ter- com fito de obter informações sobre
ritório tradicionalmente ocupado, a tramitação dos procedimentos de
em 2004 pleitearam a criação de criação da Resex mencionada [Mon-
uma Resex, que seria nomeada com tanha e Mangabal], indicando os mo-
os bicentenários topônimos. No dia tivos que ensejaram a remessa de tal
12 de dezembro de 2006, teve lugar procedimento para o Ministério de
a consulta pública para a criação da Minas e Energia, antes da assinatu-
Resex e, pela primeira vez em um ra do respectivo decreto de criação
evento desses, houve aceitação unâ- (Brasil, Ministério Público Federal,
nime para a criação da UC. Procuradoria Geral da República,
Quando os beiradeiros acredi- 2008).
tavam em uma solução definitiva,
com a iminência do decreto que A resposta, encaminhada pela
criaria a Resex, tudo se inverteu. então ministra da Casa Civil, Dilma
O decreto foi enviado à Casa Civil, Rousseff, dimensiona a sua preocu-
mas não foi assinado. A pretensão pação e o seu interesse em relação
de uma UHE no rio Tapajós barrou aos danos causados àquelas comu-
o processo: o reconhecimento ter- nidades tradicionais:
ritorial dos ribeirinhos iria ou não
“atrapalhar o projeto”? Ainda que o Os estudos de inventário em anda-
obviamente razoável fosse o ques- mento, realizados pela Eletronorte
tionamento inverso, assim se pau- [Centrais Elétricas do Norte do Bra-
tou o governo federal. O processo sil S.A.], indicam a existência de que
de criação da Resex foi arquivado. apresentarão [sic] interferência dire-

18 Torres
ta na unidade de conservação caso Os beiradeiros de Montanha e
ela seja criada. Mangabal acabaram por ser aten-
A bacia do rio Tapajós está em fase didos, em setembro de 2013, pela
final dos estudos. Os resultados es- criação do Projeto de Assentamento
tão indicando a existência de 3 alter- Agroextrativista (PAE) Montanha e
nativas de barramento que poderão Mangabal, modalidade diferenciada
apresentar cerca de 10.000 MW de de assentamento de reforma agrá-
potência instalada. A Resex Monta- ria, que lhes garantiu o direito à ter-
nha-Mangabal causará interferência ra (Guerrero & Torres, 2013). Porém,
em qualquer uma das alternativas as aldeias munduruku instaladas
estudadas, visto que as alternativas em áreas não declaradas como TI
estão inseridas na área proposta não contaram com a mesma sorte.
para a unidade de conservação. Os indígenas que habitam as
Desta forma, conclui-se que a unidade margens do Tapajós nas proximida-
de conservação não deve ser criada (Bra- des dos projetos de barramento de
sil, Ministério de Minas e Energia, São Luís do Tapajós e de Jatobá lu-
Secretaria de Planejamento e De- tam há tempos pelo reconhecimen-
senvolvimento Energético, Departa- to oficial de suas terras e, sem qual-
mento de Planejamento Energético, quer explicação, o governo mantém
2007, grifos meus). o processo congelado. O caso da TI

Imagem 8. Meninas
munduruku, na aldeia
Waro Apompu, Terra
Indígena Munduruku.
Por Mauricio Torres, set.
2014.

Um rio de muita gente 19


Sawré Muybu é ilustrativo, já que, blicação da decisão, o Tribunal Re-
apesar de a etapa técnica dos estu- gional Federal da Primeira Região
dos para a declaração da mesma ter (TRF-1) concedeu efeito suspensivo
sido concluída e o relatório circuns- (suspensão temporária até o jul-
tanciado de identificação e delimi- gamento do recurso). Isso ensejou
tação (RCID) já ter sido finalizado nova contestação, apresentada pelo
(em 13 de setembro de 2013) e en- MPF ao TRF-1, e, embora até agora
tregue às instâncias competentes da o caso siga indefinido, novos even-
Fundação Nacional do Índio (Funai), tos seguem ocorrendo, já que os
nada foi publicado (Palmquist, Munduruku tomaram nas mãos
2014). o peso da autodemarcação de seu
Em outubro de 2014, ao deferir território.
parcialmente um pedido de liminar A Funai alegava perante a justiça
ajuizado pelo Ministério Público federal que não havia data definida
Federal (MPF), a justiça federal em para a publicação do RCID, pois o
Itaituba determinou um prazo de órgão indigenista estaria priorizan-
15 dias para que a Funai publicas- do demarcações nas regiões Nor-
se o RCID de Sawré Muybu, visto deste, Sul e Sudeste do Brasil. Em
que os argumentos do órgão para setembro de 2014, em reunião com
a demora careciam de qualquer lideranças Munduruku, a presiden-
razoabilidade: ta interina do órgão, Maria Augusta
Assirati, justificou, às lágrimas, o
Observa-se que o processo está pa- não cumprimento do compromisso
rado sem um fundamento válido, assumido com os índios de publicar
mas tão somente invocando uma o relatório. Segundo ela, a não publi-
genérica e vazia alegação de priori- cação devia-se a pressões do próprio
zação das regiões centro-sul, sudeste governo federal, que antevia que o
e nordeste e assim, os direitos dos reconhecimento da TI inviabilizaria
13. Os indígenas regis- indígenas seriam perpetuamente a UHE São Luiz do Tapajós13. Em 1
traram a reunião em postergados, uma vez que as priori- de outubro, nove dias depois dessa
vídeo, disponível em:
<https://autodemar- dades estabelecidas não abarcaram tensa reunião com os Munduruku,
cacaonotapajos.wor- o processo demarcatório da terra Assirati apresentou seu pedido de
dpress.com/2014/11/26/
funai-admite-pressao-
indígena Sawré Muybu (decisão ju- exoneração. Em sua primeira entre-
-e-condiciona-demar- dicial apud Palmquist, 2014). vista fora da Funai, revelou que “o
cacao-de-ti-a-hidrele-
estopim para o seu pedido de exo-
trica/>.
O RCID, entretanto, não foi pu- neração” havia sido
blicado. Poucos dias depois da pu-

20 Torres
uma manobra para licenciar a usi- ciamento das UHEs em seu territó-
na de São Luiz do Tapajós, que pode rio e sofreram violentos ataques por
alagar terra Munduruku. Depois de parte do governo federal, conforme
analisar o caso e se comprometer detalha Valle (2013) – de rasantes de
com os indígenas a publicar o rela- helicóptero que arrancavam a co-
tório que delimita a terra, Assirati bertura de palha das casas ao terror
diz que foi obrigada a voltar atrás. psicológico imposto pela operação
“Nós tivemos que descumprir esse de guerra comandada pelo gover-
compromisso em razão da priorida- no. E não foram só os indígenas de
de que o governo deu ao empreendi- Sawré Muybu. Na TI Munduruku,
mento. Isso é grave” (Aranha, 2015). no alto Tapajós, a reação do grupo
às iniciativas da construção das bar-
Sawré Muybu, na foz do rio Ja- ragens foi muito incisiva. Para am-
manxim, é uma TI diretamente afe- plificarem sua voz, 140 Munduruku
tada pelos projetos de barramento ocuparam o canteiro de obras da
e, sem tal publicação, para fins do UHE Belo Monte por duas vezes, em
licenciamento dos empreendimen- maio e junho de 2013, paralisando
tos, apesar da sabida existência de as obras por 17 dias no total.
indígenas no local, a área não é Pouco depois de retornarem a
sequer considerada TI, de acordo sua terra, após quase dois meses
com o que regulamenta a portaria de mobilização em Belo Monte e
interministerial nº419/2011, que em Brasília, os indígenas detiveram
estabelece: três pesquisadores que trabalhavam
para a empresa Concremat, encar-
X - Terra indígena: as áreas ocupadas regada da elaboração dos estudos
por povos indígenas, cujo relatório para o licenciamento de uma das
circunstanciado de identificação e delimi- barragens. Os pesquisadores foram
tação tenha sido aprovado por portaria mantidos presos por três dias, até
da FUNAI, publicada no Diário Oficial da que, em 23 de junho do mesmo ano,
União, ou áreas que tenham sido ob- uma equipe enviada pela Secretaria-
jeto de portaria de interdição expe- -Geral da Presidência da República
dida pela FUNAI em razão da locali- (SG/PR) negociou a libertação. Os ín-
zação de índios isolados (grifo meu). dios exigiram, em troca da soltura
dos pesquisadores, a imediata sus-
Os guerreiros de Sawré Muybu pensão dos estudos de impacto am-
resistiram à realização dos estudos biental (EIA) para a implantação de
ambientais relacionados ao licen- UHEs no rio Tapajós até que fosse

Um rio de muita gente 21


realizado o processo de consulta li- (FNSP), Polícia Federal (PF), Polícia
vre, prévia e informada (CLPI) – que, Rodoviária Federal (PRF) e Exército.
aliás, é procedimento obrigatório, Sob essa operação de guerra, os ri-
de acordo com a Convenção 169 da beirinhos e indígenas são constran-
OIT, da qual o Brasil é signatário. gidos e contidos, ao passo que as
Os termos da negociação foram pesquisas são realizadas, deixando
aceitos pelo governo e a paraliza- um preocupante precedente de uso
ção dos estudos foi anunciada na da força nas relações com as popu-
manhã do dia 24 de junho, pela lações locais.
assessoria de imprensa da SG/PR.
Porém, menos de 20 dias após o Considerações finais
pacto ter sido selado, foi emitida Em julho de 2013, à margem esquer-
a licença para a continuidade dos da do Tapajós, na região de Monta-
estudos. Em agosto, os mesmos fo- nha e Mangabal, beiradeiros e in-
ram retomados, sem que qualquer dígenas Munduruku reuniram-se
providência em relação à consulta com a finalidade de, na específica
prévia tivesse sido posta em prática. condição de beiradeiros e indíge-
Um desproporcional e intimidador nas, construírem alianças para lu-
aparato militar, desta vez, escolta os tar contra o projeto de barramento
pesquisadores. São homens da For- do Tapajós. Esses grupos – que há
ça Nacional de Segurança Pública poucas gerações guerreavam, em

Imagem 9. Vista do rio


Tapajós. Por Daniela
Alarcon, set. 2014.

22 Torres
disputa pelo território – constroem
um vínculo na floresta, ao longo do
rio Tapajós, como ocorre em tantos
outros na Amazônia. Descobrem,
assim, a possibilidade de coalizão
entre gente que vive sob as mes-
mas intimidações: beiradeiros, qui-
lombolas, seringueiros, varjeiros,
camponeses, castanheiros, ribeiri-
nhos, quebradeiras de coco e mais
um mundo de grupos que se veem
frente ao mesmo conflito, frente à continuam sendo ribeirinhos, ín- Imagem 10. Mulher
munduruku, na aldeia
mesma ameaça. dios continuam sendo índios. Sem
Waro Apompu, Terra
A ameaça é plural em nome e em prejuízo de suas respectivas perten- Indígena Munduruku.
forma, mas una em seu objetivo: ças, entretanto, tornam-se iguais ao Por Daniela Alarcon, set.
2014.
visa um território livre de seus ocu- olhar do estranho que chega com os
pantes e aberto à exploração eco- projetos que os excluem de seus ter-
nômica indiscriminada. Às vezes, ritórios. A aliança não dissimula as
apresenta-se como agronegócio; ou- diferenças entre os diversos grupos.
tras, como mineradora; ou, então, Mostra apenas que a forma como se
como fazendeiro, grileiro, madei- veem uns aos outros transforma-se
reiro, pecuarista, setor produtivo, frente à chegada do expropriador
desenvolvimento sustentável… No comum. Descobrem e constroem
alto Tapajós, chega com o nome de seus modos diferentes de se alinhar
usina hidrelétrica. em uma luta de proporção flagran-
“Nunca fomos tão próximos dos temente desigual.
nossos vizinhos Munduruku.” O iní- As gentes do alto Tapajós, apenas
cio da carta de apoio dos ribeirinhos em um passado recente, enfrenta-
de Montanha e Mangabal aos Mun- ram o escravagismo, a decadência
duruku – escrita quando estes últi- da economia da borracha e da caça
mos ocupavam o canteiro de obras de peles, os garimpos, o mercúrio,
de Belo Monte, em protesto contra os madeireiros, os grileiros, a ma-
os projetos de barramento do Ta- lária, o desmatamento, o perigo
pajós – sintetiza bem as cicatrizes constante das cachoeiras. E agora
que essa aliança encobre. Sintetiza enfrentam sua maior ameaça: a
bem quão grave é o pacto firmado atual política de desenvolvimento do
ante o inimigo comum. Ribeirinhos governo federal.

Um rio de muita gente 23


[artigo concluído em março de 2015] Comunidades de Montanha e
Mangabal. 2013. Carta de apoio
Referências bibliográficas aos Munduruku que ocupam
Abdala, Vitor. 2012 “Hidrelétricas- Belo Monte. Rio Tapajós, 28 maio.
-plataforma da Amazônia devem Disponível em: <http://www.xin-
ser licitadas até 2014”. In: Agên- guvivo.org.br/2013/05/29/ribeiri-
cia Brasil. Rio de Janeiro, 8 maio. nhos-do-tapajos-enviam-apoio-
Disponível em: <http://memo- -a-ocupacao-de-belo-monte/>
ria.ebc.com.br/agenciabrasil/ (acesso: 10 jun. 2013).
noticia/2012-05-08/hidreletricas- Brasil. Ministério de Minas e Ener-
-plataforma-da-amazonia-devem- gia. Secretaria de Planejamento
-ser-licitadas-ate-2014> (acesso: 5 e Desenvolvimento Energético.
abr. 2013). Departamento de Planejamento
Almeida, Candido Mendes de. Energético. 2007. Nota técnica.
1860/1874. Memorias para a historia Brasília, 5 dez. Anexada ao Avi-
do extincto estado do Maranhão cujo so nº260 - Casa Civil. Brasília, 16
territorio comprehende hoje as pro- abr. 2008.
vincias do Maranhão, Piauhy, Grão- Brasil. Ministério Público Fe-
-Pará e Amazonas. 2 v. Rio de Janei- deral. 2006. Ação civil pú-
ro, Typographia do Commercio blica nº2006.39.02.000512-0.
de Brito e Braga/Nova Typogra- Santarém.
phia de J. Paulo Hildebrandt. ___. 2009. Ação civil públi-
Aranha, Ana. 2015. “‘A Funai está ca nº2009.39.02.001530-0.
sendo desvalorizada e sua au- Santarém.
tonomia totalmente descon- Brasil. Presidência da República.
siderada’, diz ex-presidente” 2006. Decreto s/n, de 13 de fe-
(entrevista com Maria Augusta vereiro. Cria a Área de Proteção
Assirati). In: A Pública – Agência Ambiental - APA do Tapajós, loca-
de reportagem e jornalismo inves- lizada nos Municípios de Itaitu-
tigativo. São Paulo, 27 jan. 2015. ba, Jacareacanga, Novo Progres-
Disponível em: <http://apublica. so e Trairão, no Estado do Pará, e
org/2015/01/a-funai-esta-sendo- dá outras providências. Brasília.
-desvalorizada-e-sua-autono- Brasil. Ministério Público Federal.
mia-totalmente-desconsiderada- Segundo Ofício da Procuradoria
-diz-ex-presidente/> (acesso: 1 da República no Município de
fev. 2015). Santarém. 2013. Recomendação.
Associação de Moradores das Santarém, 1 nov.

24 Torres
Brasil. Ministério Público Federal. e do polígono desapropriado de
Procuradoria Geral da República. Altamira, no Pará”. In: Agrária,
2008. Ofício PGR/GAB/nº314. Bra- nº10/11. São Paulo, Laboratório
sília, 13 mar. de Geografia Agrária da Universi-
Brasil, Raimundo P. [s.d.]. O rio Ta- dade de São Paulo, pp. 20-56.
pajós na Exposição Nacional da Bor- ___. 2012. “Para governo e Agência
racha de 1913 no Rio de Janeiro. Itai- Brasil, moradores do Alto Tapa-
tuba, [s.n.]. jós não existem”. Língua Ferina.
Bresciani, Maria Stella M. Santarém, 9 maio. Disponível
1985/1986. “Lógica e dissonância: em: <http://candidoneto.blogs-
sociedade de trabalho: lei, ciên- pot.com.br/2012/05/para-gover-
cia, disciplina e resistência ope- no-e-agencia-brasil-moradores.
rária”. In: Revista Brasileira de His- html> (acesso: 5 abr. 2013).
tória, v.6, nº11. São Paulo, Anpuh/ Fonseca, João Severiano da.
Marco Zero, pp. 7-44. 1880/1881. Viagem ao redor do Bra-
Castelnau, Francis. 1949. Expedições sil (1875-1878). 2 v. Rio de Janeiro,
às regiões centrais da América do Sul. Typographia de Pinheiro & Cia.
São Paulo, Companhia Editora Furtado, Celso. 2000. Formação
Nacional. econômica do Brasil. São Paulo,
Castrovalvas, Frei Pelino de. 2000. Publifolha.
O rio Tapajós, os capuchinhos e os Galvão, Eduardo. 1960. “Áreas
índios mundurucus (1871-1883): a culturais indígenas do Brasil:
cura de frei Rogério Beltrami. 1900-1959”. In: Boletim do Museu
São Luís, Lithograf. Paraense Emílio Goeldi, série An-
Chandless, William. 1862. “Notes tropologia, v.8. Belém, Museu
on the River Arinos, Juruena, Paraense Emílio Goeldi, pp. 1-41.
and Tapajós”. In: The Journal of the ___. 1966. Encontros de sociedades tri-
Royal Geographic Society, nº32. Lon- bal e nacional. Manaus, Editora do
dres, Royal Geographic Society, Estado do Amazonas.
pp. 268-280. Guerrero, Natalia; Torres, Mau-
Coudreau, Henri. 1977 [1897]. Via- ricio. 2013. “Ribeirinhos têm
gem ao Tapajós. Belo Horizonte, conquista histórica em área
Itatiaia. de barragens do Tapajós”. Blog
Cunha, Cândido N. 2009. “‘Pintou do Sakamoto. São Paulo, 31 out.
uma chance legal’: o programa Disponível em: <http://blogdo-
‘Terra Legal’ no interior dos pro- sakamoto.blogosfera.uol.com.
jetos integrados de colonização br/2013/10/31/ribeirinhos-tem-

Um rio de muita gente 25


-conquista-historica-em-area-de- São Paulo, Hucitec.
-barragens-do-tapajos/> (acesso: Menéndez, Miguel A. 1981/1982.
10 dez. 2013). “Uma contribuição para a etno-
Horton, Donald. 1948. “The Mun- -história da área Tapajós-Madei-
durucú”. In: Steward, Julian H. ra”. In: Revista do Museu Paulista,
(org.). Handbook of South American v.28. São Paulo, Museu Paulista,
Indians: the tropical forest tribes, pp. 289-388.
v.3. Bulletin n. 143, Bureau of Moran, Emílio F. 1990. A ecologia hu-
American ethnology. Washing- mana das populações da Amazônia.
ton, d.c., Smithsonian Institu- Petrópolis, Vozes.
tion, pp. 271-283. Nassif, Luís. 2013. “As usinas-
Ianni, Octávio. 1979. A luta pela terra: -plataforma do rio Tapajós”. In:
história social da terra e da luta CartaCapital. São Paulo, 10 dez.
pela terra numa área da Amazô- Disponível em: <http://www.
nia. 2. ed. Petrópolis, Vozes. cartacapital.com.br/economia/
Langsdorff, Georg Heinrich von. as-usinas-plataforma-do-rio-tapa-
1981. A expedição científica de G.I. jos-2087.html> (acesso: 10 dez.
Langsdorff ao Brasil, 1821-1829: 2013).
catálogo completo do material Noronha, José M. 2006 [1768]. Rotei-
existente nos arquivos da União ro da viagem da cidade do Pará até
Soviética. Brasília, Ministério as últimas colônias do sertão da pro-
da Educação e Cultura, Secre- víncia. São Paulo, Edusp.
taria do Patrimônio Histórico e Oliveira, Ariovaldo U. 2005. “BR-
Artístico Nacional, Fundação Na- 163 Cuiabá-Santarém: geopolí-
cional Pró-Memória. tica, grilagem, violência e mun-
Lima, Ireno J.S. 1994. Cantinas garim- dialização”. In: Torres, Mauricio
peiras: um estudo das relações (org.). Amazônia revelada: os des-
sociais nos garimpos de ouro caminhos ao longo da BR-163.
no Tapajós. Belém, Governo do Brasília, Conselho Nacional de
Estado do Pará, Secretaria de Desenvolvimento Científico e
Estado de Indústria, Comércio e Tecnolóigico, pp. 67-183.
Mineração. Palmquist, Helena. 2014. “Justiça
Martins, José de Souza. 1993. A Federal dá prazo de 15 dias para
chegada do estranho. São Paulo, Funai continuar demarcação da
Hucitec. Terra Sawré Muybu”. Sítio da
___. 1997. Fronteira: a degradação do Procuradoria da República no
Outro nos confins do humano. Pará. Belém, 29 out. Disponí-

26 Torres
vel em: <http://www.prpa.mpf. rico e Geográfico Brasileiro, v.9. Rio
mp.br/news/2014/justica-federal- de Janeiro, Imprensa Nacional,
da-prazo-de-15-dias-para-funai- pp. 43-107.
continuar-demarcacao-da-terra- Torres, Mauricio. 2005. “Frontei-
sawre-muybu> (acesso: 1 fev. ra, um eco sem fim”. In: Torres,
2015). Mauricio (org.). Amazônia revela-
Robazzini, Alexandre T. 2013. Dinâ- da: os descaminhos ao longo da
mica da ocupação territorial indíge- BR-163. Brasília, Conselho Nacio-
na no vale do rio Tapajós. Disserta- nal de Desenvolvimento Científi-
ção de mestrado (Arqueologia). co e Tecnológico, pp. 271-319.
São Paulo, Universidade de São ___. 2008. A beiradeira e o grilador:
Paulo. ocupação e conflito do oeste do
Rocha, Bruna C. 2012. What can ce- Pará. São Paulo. Dissertação de
ramic decoration tell us about the mestrado (Geografia Humana).
pre- and post- colonial past on the São Paulo, Universidade de São
Upper Tapajós River? Dissertação Paulo.
de mestrado (Arqueologia). Lon- ___. 2011. “A despensa viva: o banco
dres, University College London. de germoplasma dos roçados da
Rodrigues, João Barbosa. 1875. Rio floresta amazônica”. In: Geografia
Tapajós. Rio de Janeiro, Typogra- em questão, v.4, nº2. Cascavel, As-
phia Nacional. sociação dos Geógrafos Brasilei-
Santos, Sidney E.B.; Rodrigues, ros, Seção Local - Marechal Cân-
Jackson D.; Ribeiro dos Santos, dido Rondon, pp. 113-138.
Ândrea K.; Zago, Marco A. 1999. Torres, Mauricio (coord.). 2012. Flo-
“Differential contribution of in- resta Nacional do Crepori: atividade
digenous men and women to de complementação ao censo e
the formation of an urban popu- caracterização socioeconômica
lation in the Amazon region as de seus ocupantes. Relatório re-
revealed by mtDNA and Y-DNA”. ferente às atividades de análise,
In: American Journal of Physical An- revisão e complementação do
thropology, v.109, nº2. American plano de manejo e do censo da
Association of Physical Anthro- Flona, bem como de georrefe-
pologists, pp. 175-180. renciamento dos assentamentos
São José, Frei João de. 1847 [1763]. rurais nela existentes, visando
“Viagem e visita do sertão em o suprir lacunas relativas à carac-
bispado do Gram-Pará em 1762 e terização da ocupação humana
1763”. In: Revista do Instituto Histó- em seu interior, particularmente

Um rio de muita gente 27


na identificação de beneficiários Valle, Raoni. 2013. “Operação Ta-
da UC. Itaituba, Instituto Chi- pajós: ‘Os Munduruku não que-
co Mendes de Conservação da rem guerra’” (entrevista). Insti-
Biodiversidade. tuto Humanitas Unisinos On-line.
Torres, Mauricio; Guerrero, Na- São Leopoldo, 7 abr. Disponível
talia. No prelo. “O pior cego é em: <http://www.ihu.unisinos.
o que não vê direitos”. [Para o br/entrevistas/519047-operacao-
Projeto Nova Cartografia Social da -tapajos-os-munduruku-nao-que-
Amazônia.] rem-guerra-entrevista-especial-
Torres, Mauricio; Guerrero, Na- -com-roani-valle> (acesso: 10 dez.
talia; Doblas, Juan. 2013. A so- 2013).
breposição de áreas em licitação Weinstein, Bárbara. 1993. A borra-
para exploração madeireira e ter- cha na Amazônia: expansão e de-
ritórios ocupados por povos e co- cadência (1850-1920). São Paulo,
munidades tradicionais na Flona Hucitec/Edusp.
do Crepori. Laudo pericial com Wolff, Cristina Scheibe. 1998. Ma-
respostas de quesitos formula- rias, Franciscas e Raimundas: uma
dos acerca da concessão florestal história das mulheres da flores-
pretendida pelo Serviço Florestal ta. Alto Juruá, Acre, 1870-1945.
Brasileiro em áreas de ocupação São Paulo. Tese de doutorado
tradicional na Floresta Nacional (História social). São Paulo, Uni-
do Crepori. Peças de Informação versidade de São Paulo.
nº1.23.002.000352/2013-18, em
trâmite na Procuradoria da Re-
pública em Santarém.

28 Torres
Caracterização ambiental da bacia do Tapajós
Ricardo Scoles

L
Geomorfologia da bacia do Tapajós quilômetros; considerando-se uni-
ocalizada na parte central da camente o trecho após a união dos
bacia da Amazônia (sentido rios tributários, a extensão é de 650
oeste-leste), a bacia do Tapajós quilômetros, quase todos navegá-
percorre extensos ecossistemas veis, à exceção do trecho à montan-
aquático-florestais, desde os altos te da cachoeira do Chacorão (Goul-
relevos do cerrado mato-grossense ding et al., 2003; Latrubesse et al.,
até as baixas latitudes e altitudes 2005; Hales & Petry, 2013).
das terras alagáveis (várzeas) da re- A bacia do rio Tapajós percorre
gião de Santarém (ver mapa-encarte). três estados brasileiros (Mato Gros-
Seus principais rios são o Tapajós e so, Pará e Amazonas), conectando
seus tributários ou afluentes, tais dois grandes biomas, o cerrado e
como os rios Jamanxim, Teles Pires a floresta amazônica. Na sua parte
e Juruena – o Tapajós recebe esse montante, atravessa serras do Escu-
nome após a união destes dois úl- do Central Brasileiro, de formação
timos. Considerando-se todo o sis- geológica muito antiga (3,5 bilhões
tema amazônico, trata-se da quin- de anos) – daí o baixo teor de sedi-
ta bacia hidrográfica em extensão mentos escoados na drenagem da
(490 mil quilômetros quadrados), região, o que responde pelas águas
responsável por 6% da descarga de translúcidas do Tapajós e seus
água doce no rio Amazonas (Latru- afluentes. Apresentando elevado
besse et al., 2005). Sua extensão, desnível altimétrico, os rios Jurue-
incluindo o Teles Pires, é de 1.992 na e Teles Pires passam por platôs

29
relevos dissecados, colinas com ra-
vinas e vales encaixados (Espírito-
-Santo et al., 2005; Buckup & Santos,
2010). Os barramentos pretendidos
para a bacia, se levados a cabo, pro-
vocariam uma substantiva alteração
nos perfis dos rios, como podemos
notar nas imagens de 1 a 3.

Clima tropical úmido com


Imagem 1. Perfis dos areníticos e graníticos. Durante variações por gradiente de altitude
rios Tapajós e Teles
seu trajeto descendente, o terreno e latitude
Pires. Fonte: Camargo
Corrêa et al. (2008: 45). é bastante acidentado, e os cursos O clima da região da bacia do rio
de água desenham numerosas que- Tapajós-Juruena é quente e úmido,
Imagem 2. Perfil do
das d’água, corredeiras e cachoeiras com um período de baixas preci-
rio Jamanxim. Fonte: (Goulding et al., 2003; Hales & Petry, pitações (menos chuvoso), entre
Camargo Corrêa et al. os meses de julho-dezembro, e um
2013). Já em seu trecho mais baixo
(2008: 50).
(de Aveiro até a sua foz, em San- período de altas precipitações (mais
tarém), o rio Tapajós apresenta-se chuvoso), entre janeiro e junho (Es-
como uma planície aluvial bastante pírito-Santo et al., 2005). Na parte
larga (ria fluvial), com as margens sul da bacia, a variação sazonal da
arenosas e acompanhadas por um pluviometria não segue exatamente
planalto rebaixado com cotas alti- o padrão da parte mais setentrional.
métricas em torno de 100 metros, Além disso, nesse trecho mais me-

30 Scoles
ridional, o período seco é mais pro- uma visibilidade que pode alcan- Imagem 3. Projeção
dos perfis dos rios
longado, registrando-se mais de 60 çar cinco metros de profundidade. Tapajós e Jamanxim
dias sem chuva (Brasil, Ministério do Isso se deve à baixa concentração com os barramentos
Planejamento, Orçamento e Gestão, de materiais dissolvidos e em sus- pretendidos. Fonte:
Camargo Corrêa et al.
Instituto Brasileiro de Geografia e Es- pensão. Por esse motivo, a con- (2008: 284).
tatística, 2012). Na região do Tapajós, dutividade das águas nesse rio é a
a precipitação média anual apresen- mais baixa (2,5-7,5 microssegundos
ta grande variação inter-regional, – Wantzen, 2003) entre os rios de
de 2.100 milímetros, na região de águas claras da Amazônia (20-30
Santarém, a 1.500, na Chapada dos microssegundos), e muito inferior
Parecis, e 2.900 milímetros, na serra às altas condutividades das águas
do Cachimbo (Hales & Petry, 2013). barrentas (60-100 microssegundos)
(Junk et al., 2007). Como se comen-
As águas claras da bacia do Tapajós tou, a baixa presença de sedimentos
As águas do rio Tapajós são as mais nas águas dos rios de águas claras
claras da região do Amazonas, com explica-se por fatores geofísicos, já

Caracetrização ambiental da bacia do Tapajós 31


Imagem 4 – Perfil do
rio Jamanxim. Fonte:
Camargo Corrêa et al.
(2008: 50).

que são cursos fluviais que drenam por quilômetros, como se houvesse
substratos e terrenos muito antigos uma barreira física entre os dois ti-
geologicamente (Maciço Central do pos de águas. A explicação científica
Brasil), que já liberaram boa parte é simples: as enormes diferenças de
de suas partículas potencialmente densidade entre as águas do rio Ta-
dissolvíveis em água. pajós e do rio Amazonas impedem
A baixa carga de sedimentos e sua mistura. De fato, a diferença de
a transparência do rio contrastam cargas de sedimentos entre águas
com as águas do rio Amazonas, ca- claras e brancas é grande: na foz do
racterizadas por alta concentração rio Tapajós, a descarga anual média
de material em suspensão, baixíssi- de sedimentos varia entre 10 e 20
ma visibilidade e aspecto barrento. milhões de toneladas, bem menor
Tais diferenças justificam a espeta- que a descarga do rio Madeira (248-
cular visão do “encontro das águas” 600 milhões de toneladas), afluente
em frente à cidade de Santarém, um meridional do rio Amazonas de ori-
fenômeno físico em que as águas gem andina e de águas barrentas, ou
claras do Tapajós (tonalidade azul ou que a do próprio rio Amazonas na
esverdeada) não se misturam com as sua grande foz (600 milhões-1,3 bi-
águas do rio principal (brancas ou lhão de toneladas) (Latrubesse et al.,
barrentas, de cor amarela-marrom) 2005; Park & Latrubesse, 2014).

32 Scoles
Na bacia do Tapajós, a acidez das Ecossistemas terrestres
águas é variável (pH entre 4 e 7), A floresta tropical úmida ou floresta
dependendo do substrato e trecho ombrófila domina a paisagem ecos-
(Sioli, 1984; Junk et al., 2007; Cunha, sistêmica terrestre da região do Ta-
2008). Em geral, nos afluentes se- pajós, assim como ocorre em todo
tentrionais do rio, as águas são áci- o bioma da Amazônia. Dependendo
das ou levemente ácidas (pH entre 5 das condições geoclimáticas e estru-
e 6,8) (Godoi, 2008). Já nas proximi- turação florestal, a floresta ombró-
dades da foz, as águas são neutras fila (“amiga das chuvas”) é subdi-
ou levemente alcalinas (Miranda et vidida em floresta ombrófila densa
al., 2009). (FOD) e floresta ombrófila aberta
Como ocorre com outros grandes (FOA), sendo a primeira maior em
afluentes do rio Amazonas, o Tapajós termos de extensão territorial
tem uma dinâmica fluvial marcante, (Brasil, Ministério do Planejamen-
com uma época de enchente e outra to, Orçamento e Gestão, Instituto
de vazante, dependentes do regime Brasileiro de Geografia e Estatísti-
de precipitação estacional (perío- ca, 2012). A FOD caracteriza-se por
do chuvoso e seco). Na parte mais possuir vegetação exuberante, com
a montante, o rio começa a subir complexa estratificação florestal,
em setembro ou início de outubro, alta biodiversidade, presença maci-
alcançando os máximos níveis em ça de lianas e epífitas e alta capaci-
março ou abril (imagem 4). Na parte dade de regulação climática local.
do rio mais próxima a sua foz (Santa- Dependendo da faixa altimétrica,
rém), o período de vazante inicia-se ela pode ser distinguida em várias
mais tarde e se prolonga até o mês formações: aluvial (0-5 metros de
de novembro; os níveis máximos do altitude), terras baixas (5-100 me-
rio ocorrem nos meses de maio e/ou tros de altitude), submontana (100-
junho, recebendo mais a influência 600 metros de altitude) e montana
do rio Amazonas. A flutuação do ní- (600-2.000 metros de altitude). Nas
vel dos rios da bacia pode chegar a florestas tropicais com mais de 60
quatro ou cinco metros. Nos últimos dias secos por ano, a FOD é substi-
100 quilômetros de seu trajeto, o rio tuída por FOA, sempre que as con-
Tapajós é muito largo (entre 6,4 e dições topográficas e biogeográficas
14,5  quilômetros) e profundo, com permitam a manutenção da umida-
margens arenosas que descobrem de ambiental mesmo nos períodos
grandes praias durante o período de úmidos mais desfavoráveis (estação
vazante (Hales & Petry, 2013). seca). A FOA é um tipo de formação

Caracetrização ambiental da bacia do Tapajós 33


florestal que apresenta, em com- das árvores emergentes e diversida-
paração com a FOD, uma menor de das espécies vegetais. Em geral,
estratificação florestal, altura mais as matas de igapó caracterizam-se
baixa do dossel, maior presença de pela dominância espacial de umas
clareiras (daí o nome aberta) e sub- poucas espécies e pela presença sig-
-bosque mais adensado. nificativa de espécies raras, ou seja,
O domínio da FOA é visível na com baixa densidade de indivíduos
parte meridional da bacia do Tapa- (Wittmann et al., 2010). Segundo Fer-
jós (norte de Mato Grosso), onde as reira et al. (2013), em um inventário
condições bioclimáticas são mais fa- florestal realizado nas bacias do Ta-
voráveis para seu estabelecimento pajós, Xingu e Tocantins, tributárias
(mais de dois meses secos por ano). meridionais do rio Amazonas, so-
Tal situação pode ser verificada em mente seis das 74 espécies vegetais
algumas unidades de conservação lenhosas identificadas ocorreram
(UCs), como o Parque Estadual Serra nos três inventários, sendo a maio-
dos Parecis, o Parque Nacional (Par- ria das árvores e arbustos restritos
na) do Rio Novo e o Parna do Jaman- a um dos rios, indicando uma flora
1. Para informações xim1. Nessa região mais ao sul da ba- altamente especializada das vegeta-
sobre essas UCs,
cia, existem também ecossistemas ções inundadas (alto endemismo).
consultar: <http://
uc.socioambiental. de transição com áreas extra-ama-
org/> e <http://www. zônicas – são formações de savana A biodiversidade
icmbio.gov.br/portal/
biodiversidade/ (cerrado) e florestas estacionais. Já O conhecimento da biodiversidade
unidades-de- na região de Itaituba e Santarém, na região do rio Tapajós concentra-
conservacao/biomas-
em que não há estação seca defini- -se na parte mais setentrional da
brasileiros.html>.
da (menos de 60 dias secos ao ano), bacia, especialmente nas áreas de
a FOD é o ecossistema dominante. influência de Santarém e Itaituba.
Nas partes baixas da bacia do À guisa de exemplo, Oren e Parker
Tapajós, áreas de florestas são inun- (1997) registraram 448 espécies de
dadas durante o período chuvoso aves no Parna da Amazônia e áreas
do ano, quando o nível dos cursos vizinhas; Caldwell e Araújo (2005),
de água aumenta. Essas florestas 38 espécies de anfíbios na Floresta
de inundação com águas claras são Nacional (Flona) do Tapajós; e Pi-
denominadas matas de igapó e se menta e Souza e Silva Jr. (2005), 13
diferenciam fitofisionomicamente espécies de primatas no interflúvio
das matas de várzea (florestas inun- das bacias Tapajós-Xingu. De acor-
dadas por águas barrentas) pela me- do com o Instituto Chico Mendes
nor estratificação florestal, altura de Conservação da Biodiversidade

34 Scoles
(ICMBio), a Flona do Tapajós, UC de catalogadas na região do rio Tapa-
uso sustentável localizada na parte jós era 494 (Buckup & Santos, 2010).
mais baixa do rio Tapajós é a UC Não obstante, a diversidade da ic-
onde, atualmente, estão se desen- tiofauna ainda é insuficientemente
volvendo mais pesquisas no Brasil, conhecida na região, existindo inú-
tendo sido identificada alta diversi- meros trechos inexplorados ou pou-
dade de árvores e palmeiras (Espíri- co conhecidos, podendo-se afirmar
to-Santo et al., 2005). que o número de espécies provavel-
Por outro lado, a região sujeita mente é ainda maior. Reforçando
a empreendimentos hidrelétricos esse suposto, uma rápida pesquisa
(a montante de Itaituba) é bastante bibliográfica em revistas científicas
desconhecida em termos biológicos. que divulgam trabalhos taxonômi-
A maioria das pesquisas e levanta- cos de peixes tropicais americanos
mentos da diversidade de grupo de verificou várias “descobertas”, nos
organismos está sendo realizada, últimos anos, de novas espécies de
atualmente, no âmbito dos estudos peixes de água doce e endêmicas da
de viabilidade técnica e econômica região do Tapajós, especialmente na
(EVTE), para produção do estudo de parte mais meridional da bacia (rio
impacto ambiental (EIA)2. Entretan- Teles Pires, Juruena e Arinos) (tabela 2. Tais estudos estão
sendo elaborados
to, há indícios de que a diversidade 1). No levantamento de ictiofauna por um consórcio
biológica e as espécies endêmicas realizado pelo ICMBio em 2011, em de empresas
(espécies com distribuição restrita 27 pontos de coleta nos trechos do autodenominado Grupo
de Estudos Tapajós. O
a uma ecorregião determinada) são rio Tapajós que seriam afetados pela grupo é composto por
altíssimas na região mais meridio- construção dos empreendimentos Electricité de France
S.A., Copel Geração e
nal da bacia, por se tratar de uma hidrelétricos previstos, foram obti- Transmissão, Endesa
área de transição entre biomas e das amostras de peixes pertencen- Brasil S.A., Construções
e Comércio Camargo
por apresentar gradientes de alti- tes a nove ordens, 40 famílias e 205
Corrêa S.A., Cemig
tude e latitude. Tais indícios podem espécies, sendo 20 não descritas Geração e Transmissão
ser comprovados estudando-se o (Britzke & Senhorini, 2011). S.A., GDF Suez Energy
Latin Participações
grupo dos peixes de água doce. Ltda., Neonergia
Os conhecimentos taxonômicos Ameaças ambientais à bacia do rio Investimentos S.A.
e Centrais Elétricas
e ecológicos das comunidades de Tapajós
Brasileiras S.A.
peixes da bacia do rio Tapajós es- Uma grande preocupação ambien- (Eletrobras), sendo que
tão mais consolidados que em rela- tal e sanitária na bacia do rio Ta- esta última lidera o
consórcio.
ção a outros grupos de organismos pajós é a contaminação de suas
aquáticos. Em 2010, o número de águas (superficiais e freáticas) por
espécies de peixes identificadas e mercúrio. Durante as duas últimas

Caracetrização ambiental da bacia do Tapajós 35


Tabela 1. Espécies endêmicas catalogadas recentemente na região
meridional da bacia do Tapajós, ordenadas por família e espécie.

Espécie nova Família Referência

Leporinus moralesi Anostomidae Birindelli et al. (2013)

Cetopsis sandrae Cetopsidae Vari et al. (2005)

Astyanax utiariti Characidae Bertaco & Garutti (2007)

Hasemania nambiquara Characidae Bertaco & Malabarba (2007)

Hyphessobrycon peugeoti Characidae Ingenito et al. (2013)

Hyphessobrycon heliacus Characidae Moreira et al. (2002)

Hyphessobrycon hexastichos Characidae Bertaco & Carvalho (2005)

Hyphessobrycon Characidae Carvalho & Bertaco (2006)


melanostichos

Hyphessobrycon notidanos Characidae Carvalho & Bertaco (2006)

Hyphessobrycon scutulatus Characidae Lucena (2003)

Knodus dorsomaculatus Characidae Ferreira & Netto-Ferreira (2010)

Moenkhausia plúmbea Characidae Sousa et al. (2010)

Crenicichla chicha Cichlidae Varella et al. (2012)

Steindachnerina fasciata Curimatidae Netto-Ferreira & Vari (2011)

Hassar shewellkeimi Doradidae Sabaj Pérez & Birindelli (2013)

Hisonotus bockmanni Hypoptopomatinae Carvalho & Datovo (2012)

Ancistrus parecis Loricariidae Fisch-Muller et al. (2005)

Nota: Esta lista exemplifica novas espécies catalogadas recentemente na região meridional da bacia
do Tapajós (não pretende ser completa).

décadas do século XX, atividades de 1980), foram liberadas 120 tone-


garimpeiras informais usaram esse ladas de mercúrio por ano (Veiga et
metal pesado para separar o ouro al., 1997). Não obstante o fato de a
dos sedimentos argilosos na bacia atividade garimpeira na região ter
do Tapajós, especialmente na re- declinado bastante no início do sé-
gião de Itaituba, mas também nos culo XXI, os riscos à saúde ecossistê-
cursos fluviais do rio Teles Pires. mica e humana permanecem altos,
No auge da exploração informal de devido às próprias características
ouro na bacia do Tapajós (década do mercúrio: uma substância não

36 Scoles
biodegradável, com bioacumulação ta ripária ou mata ciliar3, fato que 3. Amanda Mortati, com.
pess.
eficiente, de fácil penetração nas gera impactos negativos na produ-
membranas biológicas, lentíssima ção primária dos igarapés e riachos
eliminação nos tecidos contamina- (altamente dependentes da matéria
dos, alta volatilidade, e toxicidade orgânica alóctone importada da ve-
neurológica e citogênica a altas do- getação circundante), colonização
ses (Berzas Nevado et al., 2010). de peixes no folhiço submerso e
A situação agrava-se em razão conservação do solo (Mortati, 2004).
dos hábitos alimentares regionais Na porção paraense da bacia, são
das populações ribeirinhas, com alarmantes o desmatamento na área
alto consumo de peixes (salutar, de influência direta da BR-163 (que,
por outra parte), especialmente de aliás, superou as mais pessimistas
espécies carnívoras, que acumulam projeções), o aumento recente do
maiores concentrações de mercúrio garimpo por conta da valorização
nos seus tecidos (Passos et al., 2007; do ouro e o descontrole da extração
Berzas Nevado et al., 2010). Indícios ilegal de madeira, vitimando prin-
de risco à saúde humana já foram cipalmente UCs e terras indígenas
detectados em monitoramentos da (TIs), as florestas onde ainda restam
concentração de mercúrio em po- madeiras comercialmente valoriza-
pulações humanas nas áreas rurais das. Enfim, um quadro em que se
da região, constatando-se altas con- evidencia a ausência quase total de
centrações de mercúrio nos cabelos governança ambiental.
da população ribeirinha do rio Tapa- Ainda assim, sem dúvida, a amea-
jós, bem acima dos níveis recomen- ça ecológica de maior envergadura
dados pela Organização Mundial da para a bacia hidrográfica do rio Ta-
Saúde (OMS), de dez microgramas pajós é a previsão de construção
por grama de fio de cabelo (Passos de diversas centrais hidrelétricas a
& Mergler, 2008; Berzas Nevado et montante da cidade de Itaituba. Tais
al., 2010). empreendimentos provocariam in-
Outra problemática ambiental terferências de alcance imprevisível
atual, de influência humana, rela- no fluxo e ciclos das águas, respon-
cionada com a bacia hidrográfica sáveis pela dinâmica ecológica das
do rio Tapajós é o avanço da pecuá- águas de inundação florestal, diver-
ria no estado de Mato Grosso e seu sidade biológica, grandes migrações
impacto negativo nas cabeceiras e ciclos reprodutivos da fauna aquá-
dos rios mais meridionais da bacia, tica (Ferreira et al., 2013).
com perdas substanciais de flores-

Caracetrização ambiental da bacia do Tapajós 37


[artigo concluído em agosto de 2014] Amazon: a review”. In: Environ-
ment International, v.36, nº6. Else-
Referências bibliográficas vier, pp. 593-608.
Bertaco, Vinicius A.; Carvalho, Birindelli, José L.O.; Britski, He-
Tiago P. 2005. “A new characid raldo A.; Lima, Flávio C.T. 2013.
fish, Hyphessobrycon hexastichos “New species of Leporinus from
(Characiformes: Characidae) the rio Tapajós basin, Brazil,
from Chapada dos Parecis, Mato and redescription of L. moralesi
Grosso, Brazil”. In: Neotropical (Characiformes: Anostomidae)”.
Ichthyology, v.3, nº3. Porto Alegre, In: Copeia, v.2013, nº2. Lawrence,
Sociedade Brasileira de Ictiolo- American Society of Ichthyolo-
gia, pp. 439-443. gists and Herpetologists, pp.
Bertaco, Vinicius A.; Garutti, Val- 238-247.
dener. 2007. “New Astyanax from Brasil. Ministério do Meio Ambien-
the upper rio Tapajós drainage, te. Instituto Chico Mendes de
Central Brazil (Characiformes: Conservação da Biodiversidade.
Characidae)”. In: Neotropical [s.d.]. Parques e Florestas Nacio-
Ichthyology, v.5, nº1. Porto Alegre, nais. Floresta Nacional do Tapa-
Sociedade Brasileira de Ictiolo- jós. Disponível em: <http://www.
gia, pp. 25-30. icmbio.gov.br/flonatapajos/guia-
Bertaco, Vinicius A.; Malabarba, -do-visitante> (acesso: 16 maio
Luiz R. 2007. “A new species of 2014).
Hasemania from the upper rio Brasil. Ministério do Planejamen-
Tapajós drainage, Brazil (Tele- to, Orçamento e Gestão. Insti-
ostei: Characiformes: Chara- tuto Brasileiro de Geografia e
cidae)”. In: Copeia, v.2007, nº2. Estatística. 2012. Manual técnico
Lawrence, American Society of da vegetação brasileira. 2. ed. rev.
Ichthyologists and Herpetolo- ampl. Manuais técnicos em geo-
gists, pp. 350-354. ciências. Rio de Janeiro, IBGE.
Berzas Nevado, Juan J.; Rodríguez Britzke, Ricardo; Senhorini, José
Martín-Doimeadios, Rosa C.; A. 2011. Inventário da ictiofau-
Guzmán Bernardo, Francisco na no rio Tapajós. Relatório in-
J.; Jiménez Moreno, María; Her- terno. Pirassununga, Centro
culano, Anderson M.; Nasci- de Pesquisa e Treinamento em
mento, José L.M.; Crespo-López, Aquicultura.
María E. 2010. “Mercury in the Buckup, Paulo A.; Santos, Geraldo
Tapajós river basin, Brazilian M. 2010. “Ictiofauna da ecorre-

38 Scoles
gião Xingu-Tapajós: fatos e pers- gia, pp. 301-308.
pectivas”. In: Boletim da Sociedade Cunha, Hillândia B. 2008. “O mun-
Brasileira de Ictiofauna, nº98. Rio do das águas”. In: Scientific Ame-
de Janeiro, Sociedade Brasileira rican Brasil, Amazônia: a floresta
de Ictiologia, pp. 3-8. e o futuro, São Paulo, v.2, Tesou-
Caldwell, Janalee C.; Araújo, Ma- ros. São Paulo, Duetto, pp. 6-13.
ria C. de. 2005. “Amphibian fau- Espírito-Santo, Fernando del B.;
nas of two eastern Amazonian Shimabukuro, Yosio E.; Ara-
rainforest sites in Pará, Brazil”. gão, Luiz E.O.C. de; Machado,
In: Occasional Papers Sam Noble Evandro L.M. 2005. “Análise da
Oklahoma Museum of Natural Histo- composição florística e fitosso-
ry, v.16. Oklahoma City, Museum ciológica da floresta nacional do
of Natural History, pp. 1-41. Tapajós com o apoio geográfico
Camargo Corrêa; Centrais Elé- de imagens de satélites”. In: Acta
tricas do Norte do Brasil S.A.; Amazonica, v.35, nº2. Manaus, Ins-
Consórcio Nacional dos Enge- tituto Nacional de Pesquisas da
nheiros Consultores. 2008. Es- Amazônia, pp. 155-173.
tudos de inventário hidrelétrico Ferreira, Katiane M.; Netto-Fer-
dos rios Tapajós e Jamanxim. Re- reira, André L. 2010. “Knodus
latório final, v.1. dorsomaculatus (Characiformes:
Carvalho, Murilo; Datovo, Aléssio. Characidae), a new species from
2012. “A new species of Cascudi- Teles Pires river, Tapajós river
nho of the genus Hisonotus (Silu- basin, Brazil”. In: Journal of Fish
riformes: Loricariidae: Hypopto- Biology, v.77, nº3. Liverpool, Fish-
pomatinae) from the upper rio eries Society of the British Isles,
Tapajós basin, Brazil”. In: Copeia, pp. 468-478.
v.2012, nº2. Lawrence, American Ferreira, Leandro V.; Cunha, Deni-
Society of Ichthyologists and se A.; Chaves, Priscilla P.; Matos,
Herpetologists, pp. 266-275. Darley C.L.; Parolin, Pia. 2013.
Carvalho, Tiago P.; Bertaco, Vini- “Impacts of hydroelectric dams
cius A. 2006. “Two new species of on alluvial riparian plant com-
Hyphessobrycon (Teleostei: Chara- munities in eastern Brazilian
cidae) from upper rio Tapajós Amazonian”. In: Anais da Acade-
basin on Chapada dos Parecis, mia Brasileira de Ciências, v.85, nº3.
Central Brazil”. In: Neotropical Rio de Janeiro, Academia Brasi-
Ichthyology, v.4, nº3. Porto Alegre, leira de Ciências, pp. 1013-1023.
Sociedade Brasileira de Ictiolo- Fisch-Muller, Sonia; Cardoso,

Caracetrização ambiental da bacia do Tapajós 39


Alexandre R.; Silva, José F.P. da; Junk, Wolfgang J.; Soares, Ma-
Bertaco, Vinicius A. 2005. “Two ria G.M.; Bayley, Peter B. 2007.
new Amazonian species of ar- “Freshwater fishes of the Ama-
mored catfishes (Siluriformes: zon River basin: their biodiver-
Loricariidae): Ancistrus verecundus sity, fisheries, and habitats”. In:
and Ancistrus parecis”. In: Neotrop- Aquatic Ecosystem Health and Man-
ical Ichthyology, v.3, nº4. Porto Ale- agement, v.10, nº2. Aquatic Eco-
gre, Sociedade Brasileira de Ictio- system Health and Management
logia, pp. 525-532. Society, pp. 153-173.
Godoi, Divina S. 2008. Diversidade e Latrubesse, Edgardo M.; Stevaux,
hábitos alimentares de peixes de dois José C.; Sinha, Rajiv. 2005. “Trop-
afluentes do rio Teles Pires, drenagem ical rivers”. In: Geomorphology,
do rio Tapajós, bacia Amazônica. v.70. Elsevier, pp. 187-206.
Tese de doutorado (Aquicultura). Lucena, Carlos A.S. 2003. “New
Jaboticabal, Universidade Esta- characid fish, Hyphessobrycon
dual Paulista. scutulatus, from the rio Teles
Goulding, Michael; Barthem, Ro- Pires drainage, upper rio Tapajós
naldo; Ferreira, Efrem J.G. 2003. system (Ostariophysi: Characi-
The Smithsonian Atlas of the Ama- formes: Characidae)”. In: Neotrop-
zon. Washington, D.C., Smithso- ical Ichthyology, v.1, nº2. Porto
nian Books. Alegre, Sociedade Brasileira de
Hales, Jennifer; Petry, Paulo. 2013. Ictiologia, pp. 93-96.
“320: Tapajos-Juruena”. Freshwa- Miranda, Rafaella G.; Pereira, Si-
ter Ecoregions of the World. Dispo- mone F.P.; Alves, Danila T.V.;
nível em: <http://www.feow.org/ Oliveira, Geiso R.F. 2009. “Qua-
ecoregions/details/tapajos_jurue- lidade dos recursos hídricos da
na> (acesso: 2 maio de 2014). Amazônia: rio Tapajós: avaliação
Ingenito, Leandro F.S.; Lima, Flá- de caso em relação aos elemen-
vio C.T.; Buckup, Paulo A. 2013. tos químicos e parâmetros físico-
“A new species of Hyphessobrycon -químicos”. In: Revista Ambiente e
Durbin (Characiformes: Characi- Água, v.4, nº2. Taubaté, Universi-
dae) from the rio Juruena basin, dade de Taubaté, pp. 75-92.
Central Brazil, with notes on H. Moreira, Cristiano R.; Landim,
loweae Costa & Géry”. In: Neotrop- Maria I.; Costa, Wilson J.E.M.
ical Ichthyology, v.11, nº1. Porto 2002. “Hyphessobrycon heliacus: a
Alegre, Sociedade Brasileira de new characid fish (Ostariophysi:
Ictiologia, pp. 33-44. Characiformes) from the upper

40 Scoles
rio Tapajós basin, Central Bra- DIS data”. In: Remote Sensing of
zil”. In: Copeia, v.2002, nº2. Law- Environment, v.147. Elsevier, pp.
rence, American Society of Ich- 232-242.
thyologists and Herpetologists, Passos, Carlos J.S.; Mergler, Don-
pp. 428-432. na.  2008. “Exposição humana
Mortati, Amanda F. 2004. Coloniza- ao mercúrio e efeitos adversos
ção por peixes no folhiço submerso: à saúde na Amazônia: uma revi-
implicações das mudanças na são”. In: Cadernos de Saúde Pública,
cobertura florestal sobre a dinâ- v.24, nº4. Rio de Janeiro, Escola
mica da ictiofauna de igarapé de Nacional de Saúde Pública Sergio
terra firme, na Amazônia Cen- Arouca, Fundação Oswaldo Cruz,
tral. Dissertação de mestrado pp. s503-s520.
(Ciências biológicas). Manaus, Passos, Carlos J.S.; Mergler, Don-
Instituto Nacional de Pesquisa da na; Lemire, Mélanie; Fillion,
Amazônia/Universidade Federal Myriam; Guimarães, Jean R.D.
do Amazonas. 2007. “Fish consumption and
Netto-Ferreira, André L.; Vari, bioindicators of inorganic mer-
Richard P. 2011. “New species of cury exposure”. In: Science of the
Steindachnerina (Characiformes: Total Environment, v.373. Elsevier,
Curimatidae) from the rio Tapa- pp. 68-76.
jós, Brazil, and review of the Pimenta, Flávio E.; Souza e Silva Ju-
genus in the rio Tapajós and rio nior, José. 2005. “An update on
Xingu basins”. In: Copeia, v. 2011, the distribution of primates of
nº4. Lawrence, American Society the Tapajós-Xingu interfluvium,
of Ichthyologists and Herpetolo- Central Amazonia”. In: Neotropi-
gists, pp. 523-529. cal Primates, v.13, nº2. Arlington,
Oren, David C.; Parker III, Theo- Conservation International, pp.
dore A. 1997. “Avifauna of the 23-28.
Tapajós National Park and vi- Sabaj Pérez, Mark H.; Birin-
cinity, Amazonian Brazil”. In: delli, José L.O. 2013. “Hassar
Ornithological Monographs, v.48. shewellkeimi, a new species of
American Ornithologists’ Union, thorny catfish (Siluriformes: Do-
pp. 493-525. radidae) from the upper Tapajós
Park, Edward; Latrubesse, Edgardo basin, Brazil”. In: Proceedings of the
M. 2014. “Modeling suspended Academy of Natural Sciences of Phila-
sediment distribution patterns delphia, v.162, nº1. Filadélfia, The
of the Amazon river using MO- Academy of Natural Sciences of

Caracetrização ambiental da bacia do Tapajós 41


Drexel University, pp. 133-156. Veiga, Marcello M.; Meech, John A.;
Sioli, Harald (org.). 1984. The Ama- Tromans, Des. 1997. “Mercury
zon: limnology and landscape emissions and stability in the
ecology of a mighty tropical riv- Amazon region”. Disponível em:
er and its basin. Monographiae <http://www.jmeech.mining.
Biologicae, v.56. Dordrecht, Dr. ubc.ca/ metsoc95.htm> (acesso:
W. Junk Publishers. 2 maio 2014).
Sousa, Leandro M.; Netto-Ferrei- Wantzen, Karl M. 2003. “Cerrado
ra, André L.; Birindelli, José streams: characteristics of a
L.O. 2010. “Two new species of threatened freshwater ecosys-
Moenkhausia Eigenmann (Chara- tem type on the Tertiary Shields
ciformes: Characidae) from Ser- of Central South America”. In:
ra do Cachimbo, Pará, Northern Amazoniana, v.17, nº3/4. Kiel, Max
Brazil”. In: Neotropical Ichthyology, Planck Institute for Limnology,
v.8, nº2. Porto Alegre, Socieda- pp. 481-502.
de Brasileira de Ictiologia, pp. Wittmann, Florian; Junk, Wolf-
255-264. gang J.; Schöngart, Jochen.
Varella, Henrique R.; Kullander, 2010. “Phytogeography, species
Sven O.; Lima, Flávio C.T. 2012. diversity, community structure
“Crenicichla chicha, a new species and dynamics of Central Ama-
of pike cichlid (Teleostei: Cichli- zonian floodplain forests”. In:
dae) from the rio Papagaio, upper Junk, Wolfgang J.; Piedade,
rio Tapajós basin, Mato Grosso, Maria T.F.; Wittmann, Florian;
Brazil”. In: Neotropical Ichthyology, Schöngart, Jochen; Parolin, Pia
v.10, nº2. Porto Alegre, Socieda- (org.). Amazonian floodplain forests:
de Brasileira de Ictiologia, pp. Ecophysiology, biodiversity and
233-244. sustainable management (Eco-
Vari, Richard P.; Ferraris Junior, logical studies). Springer Verlag,
Carl J.; Pinna, Márcio C.C. de. pp. 61-102.
2005. “The neotropical whale
catfishes (Siluriformes: Cetopsi-
dae: Cetopsinae), a revisionary
study”. In: Neotropical Ichthyology,
v.3, nº2. Porto Alegre, Socieda-
de Brasileira de Ictiologia, pp.
127-238.

42 Scoles
“Saída pelo norte”
A articulação de projetos de infraestrutura
e rotas logísticas na bacia do Tapajós
Daniela Fernandes Alarcon, Natalia Ribas Guerrero
e Mauricio Torres

O
que o projeto de exploração des econômicas frequentemente
energética da bacia hidrográ- predatórias e ilegais, ameaçando
fica do Tapajós revela sobre os modos de vida e a integridade 1. A expressão
“desmatamento
os paradigmas de “desenvolvimen- dos territórios de indígenas, ribei-
especulativo”,
to” que têm regido os planos do rinhos e camponeses, entre outros formulação do Instituto
governo federal e, mais especifica- grupos. do Homem e Meio
Ambiente da Amazônia
mente, sobre suas expressões con- Para citar um exemplo, em se- (Imazon), remete
cretas na Amazônia? As denúncias tembro de 2013, o Valor Econômico ao desmatamento
coligado com a
sobre a gravidade das violações e noticiava que o governo do Pará
grilagem de terras.
dos efeitos negativos das barragens acabara de adotar medidas para Nesse caso, o grileiro
já implementadas, em construção frear o desmatamento especulativo, desmata movido
não pela intenção
ou previstas para a bacia são nume- “resultado das obras de infraestru- de implementar
rosas. Mas, para além dos impactos tura e logística estaduais e federais qualquer atividade
produtiva na área, mas
mais diretamente conectados aos no âmbito do PAC [Plano de Ace- para tentar, por meio
projetos de aproveitamento hidre- leração do Crescimento]” (Barros, do desmatamento,
2013d)1. “Além das hidrelétricas do consolidar a detenção
létrico, há que se registrar um con-
de terras públicas,
junto de consequências negativas rio Tapajós”, prossegue a matéria, apropriar-se delas e
que advém da articulação entre os “a especulação também está sendo aferir ganhos na venda
das mesmas, após
barramentos e outros projetos de motivada pela concessão de nove terem sido ilegalmente
infraestrutura previstos ou em an- terminais fluviais em Itaituba, a desmatadas. Ver mais
em Torres & Alarcon, no
damento, como hidrovias, portos e nova promessa de escoamento dos
prelo.
rodovias. Tal conjugação concorre grãos do Centro-Oeste para exporta-
para a intensificação de ativida- ção” (Idem).

43
Essas intervenções na bacia do necta com intervenções territoriais
Tapajós e, mais amplamente, na de outra ordem, como a retirada ile-
região amazônica, quase nunca gal de madeira, o aquecimento do
são discutidas em conjunto. Docu- mercado de terras e o consequente
mentos oficiais, declarações de re- incremento da grilagem. Finalmen-
presentantes do governo federal e te, há que se destacar os interesses
do setor privado, assim como aná- minerários relacionados à geração
lises apresentadas por jornalistas e de energia na bacia do Tapajós, uma
pesquisadores engajados na defesa das mais ricas províncias auríferas
desse projeto de desenvolvimento, do planeta, onde se encontram tam-
comumente referem-se aos barra- bém jazidas de alumínio, bauxita,
mentos sem mencionar, por exem- cobre, diamante e fosfato.
plo, as altas expectativas que sobre Se tomarmos em conjunto os
eles nutrem os setores do agronegó- governos de Fernando Henrique
cio interessados na construção da Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva
hidrovia Teles Pires-Juruena-Tapajós e Dilma Rousseff, veremos que os
(que ligaria as áreas produtoras de paradigmas de desenvolvimento
soja e outros grãos no norte de Mato impulsados nessas gestões (expres-
Grosso aos terminais graneleiros de sos nos programas Brasil em Ação e
transbordo, em Itaituba e Santarém, Avança Brasil, e no PAC) pautam-se,
no Pará), para escoamento mais ágil grosso modo, pela valorização da
da soja produzida em Mato Grosso e ampliação da infraestrutura, com
de outras commodities. incentivos à exportação de commodi-
Tais expectativas, acalentadas ties agrícolas e minerais. Nesse qua-
também por empresas da constru- dro, as prioridades territoriais são
ção civil e ramos conexos, não se ditadas pelo tráfego das mercado-
limitam à hidrovia, abarcando ain- rias, e não pela garantia de direitos
da o conjunto de portos previstos socioambientais. Perpetuam-se, as-
para o efetivo deslocamento do eixo sim, tendências históricas – é fácil
logístico, hoje majoritariamente encontrar nessa opção de desenvol-
orientado aos portos de Santos (São vimento, frequentemente vendida
Paulo) e Paranaguá (Paraná). Tam- como “inovadora”, diversos pontos
pouco devemos esquecer a pavimen- de contato com as intervenções le-
tação da rodovia Cuiabá-Santarém vadas a cabo pela ditadura militar
(BR-163) até Santarém, variante de na Amazônia, cujo saldo nefasto
peso para a alteração da rota de es- subsiste. Por trás de projetos de in-
coamento de commodities, que se co- fraestrutura e logística, apresenta-

44 Alarcon, Guerrero e Torres


dos hegemonicamente como uma Para a caracterização desse cená-
justaposição de medidas exclusi- rio, baseamo-nos em fontes oficiais
vamente técnicas que convergem (principalmente, planos governa-
na direção de axiomas como “pro- mentais e sistemas de informação
gresso” e “desenvolvimento”, há de- públicos), documentos produzidos
cisões políticas que carregam uma por agentes do setor privado com
série de pressupostos, dentre os interesses econômicos na bacia e re-
quais, a necessidade de priorização portagens veiculadas pela impren-
de determinados setores da econo- sa no intervalo entre 2011 e 2015.
mia como forma de alcançar o cres- Como indicamos, trata-se de uma
cimento econômico. síntese limitada, que tem como
Com o intuito de contribuir para intuito principal chamar a aten-
a análise das barragens na bacia do ção para a necessidade de que tais
Tapajós, no presente artigo busca- iniciativas sejam submetidas a um
remos descrever, de modo panorâ- debate amplo que as tome em con-
mico, essa gama de intervenções junto, impedindo-se que os planos
na região (tanto aquelas em curso, de desenvolvimento da Amazônia
como as previstas), situando os em- sejam delineados a portas fechadas,
preendimentos energéticos em seu envolvendo apenas certos setores
contexto e desvelando aspectos da do poder público e agentes econô-
lógica de planejamento de infraes- micos interessados.
trutura e logística desenhada na úl-
tima década para a Amazônia, em Uma nova forma de ver a
especial para a área que abrange a Amazônia?
bacia e que é alvo dos barramen- Lançado em março de 2011, o pro-
tos em questão. Serão discutidas jeto Norte Competitivo2, elaborado 2. Agradecemos a Felipe
Garcia pela indicação
as principais iniciativas logísticas pela empresa de consultoria Macro-
deste material.
de transporte na bacia, voltadas ao logística, a pedido da Confederação
escoamento de commodities: os pla- Nacional da Indústria (CNI) e do Fó-
nos de implementação da hidrovia rum Ação Pró-Amazônia (que reú-
Teles Pires-Juruena-Tapajós, a cons- ne as federações da indústria dos
trução de portos nos municípios estados que compõem a Amazônia
de Itaituba e Santarém, e o asfalta- Legal), constitui, segundo seus res-
mento da BR-163. Comentaremos, ponsáveis, uma “contribuição que
ainda, as pressões minerárias sobre o Sistema Indústria disponibiliza às
a bacia, associadas a tais obras de autoridades governamentais, como
infraestrutura. instrumento de fundamental im-

Saída pelo norte 45


imagem 1. Ao fundo,
porto administrado
pela Companhia Docas
do Pará; à frente,
equipamento para
transbordo graneleiro
no porto da Cargill. Por
Mauricio Torres,
ago. 2014.

portância para a formulação de po- BR-163. “Com base nos nove eixos
líticas de desenvolvimento de cada de integração priorizados, é possí-
estado e da Amazônia Legal” (Con- vel montar uma nova forma de ver a
federação Nacional da Indústria et Amazônia Legal” (Idem, grifo nosso).
al., 2011b). É de se perguntar: nova forma?
Partindo de um diagnóstico da Falar em eixos de integração como
infraestrutura de transporte exis- novidade é descartar a evidência
tente na região (rodovias, ferrovias, histórica. Considere-se que, em
hidrovias, portos e aeroportos) e 1972, como parte das comemora-
considerando as cadeias produtivas ções dos 150 anos da independência
de itens do agronegócio (cana-de- do Brasil, o Banco Central emitiu
-açúcar, milho, soja), da pecuária uma cédula de 500 cruzeiros em
bovina, minérios (aço, alumínio, cujo verso se apresentava uma se-
cobre, ferro e manganês), madeira, quência de cinco cartas geográficas
fertilizantes, petróleo e derivados, do território brasileiro, com os títu-
entre outros, o projeto traçava um los “descobrimento”, “comércio”,
conjunto de “eixos potenciais de “colonização”, “independência” e
integração nacional” (Confederação “integração”. Esta última carta, en-
Nacional da Indústria et al., 2011a). cerrando o que soa como uma linha
Entre eles, figuravam como priori- evolutiva, representava a extensa
dade (por trazer “maior competiti- malha viária a ser construída no
vidade à Amazônia Legal”) a hidro- âmbito do Programa de Integração
via Teles Pires-Juruena-Tapajós e a Nacional (PIN), instituído pelo De-

46 Alarcon, Guerrero e Torres


creto nº1.106/1970, com ênfase na estava diante de um “apagão logís-
abertura de vias através do territó- tico”3. “Caos”, “agonia”, “confusão”, 3. A reportagem, exibida
em 3 dez. 2012, pode ser
rio amazônico. “miríade de problemas” foram al-
assistida em: <https://
Para o presidente do Conselho guns dos termos escolhidos pelo www.youtube.com/wa
Temático de Infraestrutura da CNI, jornalista André Borges, do jornal tch?v=B5wjw4nQN7Y>.

José de Freitas Mascarenhas, inicia- Valor, para narrar “o drama vivido


tivas como a construção da hidro- hoje por quem produz soja e milho
via Teles Pires-Tapajós ajudariam a no norte do Mato Grosso, o maior
“acabar com a situação injusta que celeiro de grãos do país” (Borges,
hoje penaliza o produtor” (Borges, 2013b). “Sem alternativas [logísti-
2013a). “O produtor é quem gera a cas], o produtor segue fazendo a sua
riqueza. A partir dele, todos os de- parte” (Idem). O chamado ao gover-
mais fazem apenas transferência no era claro.
de serviços. Não é possível que esse Pouco mais de seis meses após o
cidadão continue a ser o que mais lançamento do projeto Norte Com-
sofre com a limitação logística do petitivo, a Folha de S.Paulo estampava
país” (Idem). Declarações nessa dire- em sua capa: “Amazônia vira motor
ção pululam. de desenvolvimento”. Junto à man-
chete, um mapa da Amazônia Legal,
Além de salvar o Produto Interno rasgado por linhas de transmissão
Bruto (PIB) do primeiro trimestre, a de energia, hidrovias, ferrovias e
supersafra de grãos 2012/2013, puxa- rodovias. “O governo e o setor pri-
da pelo aumento surpreendente da vado inauguraram novo ciclo de de-
produção de soja e de milho, eviden- senvolvimento e ocupação da Ama-
ciou o que não dá mais para ocultar: zônia Legal, que tem 24,4 milhões
a deficiência da infraestrutura de lo- de habitantes e representa só 8% do
gística chegou ao limite do suportá- PIB” (Wiziack & Brito, 2011a). A par-
vel, e pode pôr a perder esforços de tir de um levantamento na base do
décadas para ganhar produtividade PAC e em torno dos “principais pro-
no campo (Torres, 2013). jetos privados em andamento”, três
reportagens publicadas na mesma
Para indicar a “urgência” com edição discorriam sobre os inves-
que deveriam ser tomadas medidas timentos planejados para a região
para alterar esse cenário, um produ- até 2020. “O setor elétrico é a força
tor rural entrevistado em 2012 pelo motriz dessa onda de investimento.
programa Revista do Campo, da RIT As principais hidrelétricas planeja-
TV, afirmou enfaticamente que se das pelo governo serão instaladas

Saída pelo norte 47


na região e, com elas, também se potencial de escoamento é de 40 mi-
viabilizarão as hidrovias” (Idem). “As lhões de toneladas por ano de grãos
mudanças também estimulam os do Centro-Oeste até 2020 (Batista,
produtores de minérios” (Wiziack 2014).
& Brito, 2011b).
Um levantamento publicado Note-se que o projeto Norte
pelo Instituto de Estudos Socioeco- Competitivo não é uma iniciativa
nômicos (Inesc) em 2012 indicava isolada. Distintos agentes do setor
que, de 82 obras de transporte ter- privado têm se movimentado inten-
restre e fluvial do PAC, ao menos samente para determinar os rumos
43 afetavam uma ou mais terras das políticas de desenvolvimento
indígenas (TIs) (Verdum, 2012a: 12). na Amazônia. Como indica estudo
No Pará, de dez empreendimentos, da International Rivers,
sete encontravam-se nessa situação
– por exemplo, a pavimentação da Especialmente no Mato Grosso, as
BR-163, impactando as TIs Baú (tra- elites do agronegócio controlam
dicionalmente ocupada por indíge- cada vez mais o direcionamento das
nas do povo Kayapó), Menkragnoti políticas regionais, exercendo forte
(habitada também por indígenas do influência sobre os novos projetos
povo Kayapó e isolados), Panará (ha- de infraestrutura – estradas, ferro-
bitada pelo povo homônimo) e Ca- vias, barragens e hidrovias – com o
choeira Seca (habitada por indíge- objetivo de reduzir os custos de pro-
nas do povo Arara) (Ibid.: 14, anexo dução e transporte de commodities
sem numeração de página). de baixo valor agregado, amplamen-
As perspectivas de desenvol- te direcionadas ao mercado global
vimento da bacia do Tapajós têm (2011: 4).
alimentado diversas expectativas
junto aos setores potencialmente Em 2009, entidades do agrone-
beneficiados. Uma reportagem pu- gócio de Mato Grosso criaram o
blicada em março de 2014 pelo Valor Movimento Pró-Logística, cuja lista
ostentava números grandiosos: de prioridades é encabeçada pela hi-
drovia Teles Pires-Juruena-Tapajós.
Nos próximos anos, o setor privado “O rio é chamado pela indústria de
ligado ao agronegócio deverá inves- grãos e de logística de o ‘Mississipi’
tir cerca de R$ 2,3 bilhões em termi- brasileiro, dado o seu potencial de
nais, barcaças e empurradores para navegação e transporte” (Barros,
o transporte no rio Tapajós, cujo 2013a). O movimento, como se lê

48 Alarcon, Guerrero e Torres


no sítio da Associação dos Produto- Tapajós (Atap) (Antaq, 2015). Atual-
res de Soja e Milho de Mato Grosso mente denominada Associação dos
(Aprosoja), que o preside, teria como Terminais Portuários de Uso Priva-
um de seus eixos de atuação a “arti- tivo e das Estações de Transbordo
culação diretamente em Brasília e de Carga da Hidrovia Tapajós, a
em Mato Grosso junto aos poderes Atap é formada por Bertolini, Brick
Executivo e Legislativo”, sendo a Logística, Bunge, Cargill, Chibatão
implantação de eclusas (comportas Navegações, Cianport, Hidrovias do
que regulam o nível das águas para Brasil, Odebrecht Transport (OTP),
permitir a navegação) nas usinas Reicon e Unirios (Menezes, 2014).
hidrelétricas (UHEs) em construção Cumpre notar ainda que a nomea-
ou planejadas, e a realização de ou- ção de Pagot para o DNIT deu-se por
tros investimentos necessários para indicação do senador Blairo Maggi,
a implementação da hidrovia (como ex-governador de Mato Grosso e im-
dragagem e aprofundamento de lei- portante liderança ruralista (Aliado,
to) seus principais objetos de lobby. 2007; Ida, 2007).
As imbricações entre poder pú- Ainda no que diz respeito às co-
blico e setor privado na condução nexões entre poder público e priva-
de projetos de logística como a hi- do no caso em questão, vale notar
drovia são evidentes. Veja-se o caso que a Fiagril (empresa comercializa-
de Luiz Antônio Pagot, diretor-geral dora de grãos que, junto à Agrosoja,
do Departamento Nacional de In- criou a Cianport, para “explorar as
fraestrutura e Transportes (DNIT) oportunidades do corredor logísti-
que se afastou do órgão em julho de co BR-163-Rio Tapajós”) foi a maior
2011, “arrastado pela crise de escân- doadora da campanha eleitoral de
dalos de corrupção que envolveu o Otaviano Pivetta, agropecuarista
Ministério dos Transportes”, como e prefeito de Lucas do Rio Verde
se lê em reportagem publicada pelo (Mato Grosso), que em 2012 osten-
Valor, em 2012 (Pagot, 2012). À épo- tava o título de “prefeito mais rico
ca, Pagot trabalhava “numa con- país” (Freitas Jr., 2012; Cianport,
sultoria para instalar uma hidrovia 2013). Conforme o sistema de con-
no rio Tapajós” (Idem). Em notícia sulta às operações do Banco Nacio-
veiculada no sítio da Agência Na- nal de Desenvolvimento Econômico
cional de Transportes Aquaviários e Social (BNDES), em 2012, a Cian-
(Antaq) em outubro de 2015, Pagot é port obteve empréstimos do fundo
referido como dirigente da Associa- da marinha mercante totalizando
ção dos Terminais Privados do Rio R$ 75,9 milhões para construção

Saída pelo norte 49


de empurradores fluviais e balsas jetos específicos, começando pela
4. Disponível em: graneleiras4. hidrovia do Tapajós.
<http://www.bndes.gov. Em fevereiro de 2014, a impren-
br/SiteBNDES/bndes/
bndes_pt/Institucional/ sa noticiava a chegada da presiden- “Dádiva divina”: a hidrovia do
BNDES_Transparente/ ta Dilma Rousseff a Mato Grosso, Tapajós
Consulta_as_
operacoes_do_BNDES/
para participar de “um dos maiores Em 2009, teve início o asfaltamento
planilhas_operacoes_ eventos do agronegócio: o início da da BR-163 entre Guarantã do Norte
diretas_e_indiretas_
colheita da safra de grãos em Lucas (MT) e Rurópolis (PA). Conforme as
nao_automaticas.
html> (acesso: 1 out. do Rio Verde” (Jubé & Veloso, 2014). obras avançavam, o tráfego de cami-
2015). Note-se que “O senador Blairo Maggi (PR), uma nhões carregados de soja e milho,
não constam, ali,
informações sobre
das lideranças mais expressivas da que rumavam em sua maioria do
projetos em análise. região, diz que a presidente ‘será re- norte de Mato Grosso ao Pará, au-
cebida com o carinho que merece’, mentava consideravelmente. Os veí-
pela atenção que o governo dispen- culos percorriam o que alguns con-
sou ao setor” (Idem). sideram “um dos mais importantes
corredores logísticos intermodais
Maggi cita o subsídio para a aquisi- do país”, formado pela rodovia (cujo
ção de máquinas e equipamentos, asfaltamento ainda não terminou)
que permitiu a ampliação da fro- e pela hidrovia Tapajós-Amazonas
ta agrícola, e os investimentos em (Barros, 2014b). Diversos produtores
infraestrutura como estímulos ao rurais de municípios como Nova Mu-
negócio, que responde por parce- tum, Lucas do Rio Verde, Sorriso e
la significativa do Produto Interno Sinop (todos em Mato Grosso) inver-
Bruto (PIB). Os investimentos per- tiam o fluxo de escoamento tradicio-
mitiram diversificar o escoamento, nalmente utilizado, adotando uma
com alternativas ao Porto de Santos das três rotas a seguir. A primeira
(SP). Ele cita, por exemplo, o primei- possibilidade consistia em enviar os
ro embarque de soja em março, no grãos por terra até Santarém, onde
Porto de Miritituba (PA), destino fi- seriam embarcados em graneleiros
nal da hidrovia formada pelos rios de longo curso. Alternativamente, os
Tapajós e Amazonas (Idem). grãos poderiam seguir por terra até
Itaituba (mais especificamente, ao
Nessas tramas é que se vão dese- distrito de Miritituba), onde seriam
nhando os rumos das políticas de dispostos em balsas, que seguiriam
desenvolvimento da região amazô- pelo rio Tapajós até Santarém, onde
nica. Nas próximas seções, obser- as mercadorias seriam transborda-
varemos mais de perto alguns pro- das para navios de maior calado,

50 Alarcon, Guerrero e Torres


incapazes de subir até Miritituba. A grandes intervenções” (Idem). Por
terceira possibilidade seria enviar a sua vez, os cursos médio e alto do
produção por terra até Miritituba e Tapajós, e o Teles Pires são caracte-
de lá, em balsas, até o porto de Santa- rizados como possuindo “potencial
na (Amapá), onde é possível atracar para a implantação e desenvolvi-
navios maiores que em Santarém. mento de hidrovias” (Idem).
Nos últimos anos, a “saída pelo A navegabilidade do trecho de
norte”, defendida por representan- Itaituba a Cachoeira Rasteira (esta
tes do agronegócio, ganhou novo última, situada entre os municí-
impulso, com ações governamen- pios de Jacareacanga, Pará, e Apia-
tais de estruturação logística vol- cás, Mato Grosso) seria garantida
tadas ao setor. Além de boa parte pela construção de três UHEs com
da BR-163 já ter sido asfaltada, está eclusas (São Luiz do Tapajós, Jatobá
em execução o estudo de viabilida- e Chacorão) e por “medidas adicio-
de técnica, econômica e ambiental nais” nos trechos não inundados
(EVTEA) da hidrovia Teles Pires-Ju- pelos reservatórios, como derroca-
ruena-Tapajós, e estão sendo imple- mento, dragagem, regularização do
mentados novos terminais portuá- rio e sinalização (Ibid.: 93). Ainda se-
rios em Itaituba e Santarém5. gundo o plano, para que a hidrovia 5. Em novembro de
2015, o DNIT prorrogou
No Plano Hidroviário Estratégico chegasse a Sinop, como querem os o contrato com as
(PHE) 2013, a hidrovia Teles Pires-Ju- ruralistas, seriam necessárias mais empresas R.Peotta,
Hidrotopo e Enefer para
ruena-Tapajós aparece como proje- três eclusas (em Cachoeira Rasteira, o desenvolvimento do
to prioritário do “vetor amazônico” São Manoel e Teles Pires) (Ibid.: 94). EVTEA da hidrovia Teles
Pires-Juruena-Tapajós.
(Brasil, Ministério dos Transportes A utilização do Tapajós para a ex-
& Arcadis Logos, 2013a: 199). O do- portação de grãos é um desejo an-
cumento enfatiza que esses rios tigo do agronegócio. Em 1999, o se-
possuem “uma posição geográfica nador Blairo Maggi apresentou um
estratégica, ligando os maiores cen- projeto de decreto legislativo (PDS
tros de produção agrícola do Brasil nº122/1999), com o intuito de “auto-
ao rio Amazonas e, consequente- rizar o aproveitamento dos recursos
mente, ao Oceano Atlântico” (Ibid.: hídricos dos rios Juruena, Teles Pi-
26). De acordo com o PHE, o trecho res e Tapajós, exclusivamente para
de jusante do Tapajós figura entre fins de transporte fluvial”, inclusi-
os “principais rios de planícies que ve em trechos situados no interior
apresentam extensos trechos com ou nas imediações de TIs. Segundo
características mais propensas à a justificativa do PDS, o aproveita-
navegação, sem a necessidade de mento de rios para a navegação se-

Saída pelo norte 51


ria uma “imperiosa necessidade”. Representantes de produtores agro-
Em 2004, o PDS nº233/2004, propos- pecuários do Estado de Mato Gros-
to pelo senador Jonas Pinheiro, foi so exigem que o governo construa
apensado ao primeiro. Em 2011, o eclusas em todas as hidrelétricas
PDS nº122/1999 foi arquivado. que serão erguidas nos rios Tapajós
A perspectiva de implementação (PA) e Teles Pires (MT). [...] A união
da hidrovia tem motivado aquisi- dos produtores vai agir em três fren-
ções de terrenos e construção de ar- tes. A primeira é tentar incluir as
mazéns, barcaças, estações de trans- eclusas nas duas usinas em constru-
bordo e terminais fluviais, como ção no Teles Pires (Colíder e Teles Pi-
transparece no noticiário. “A Ode- res), que estão em construção e não
brecht Transport (OTP), braço de incluíram as eclusas no projeto. O
infraestrutura do Grupo Odebrecht, movimento avalia, inclusive, entrar
finaliza a formação de uma Socie- na justiça pedindo a interrupção
dade de Propósito Específico com a temporária das obras. Em seguida
Brick Logística, empresa que desen- haverá uma mobilização no Con-
volve projetos portuários na Região gresso para tentar aprovar o projeto
Norte, para investir no transporte de lei 3009/97, do deputado Homero
fluvial de grãos, mais especifica- Pereira (PSD-MT), que obriga a cons-
mente no Pará” (Zaparolli, 2013). “A trução simultânea de hidrelétrica e
multinacional americana Bunge e a eclusa em rios navegáveis. Por fim, o
Amaggi, uma das empresas do Gru- movimento quer que todas as obras
po André Maggi, da família do sena- que ainda não publicaram suas lici-
dor e ex-governador do Mato Grosso tações incluam as eclusas nos editais
Blairo Maggi, acabam de criar uma (Veloso, 2012).
joint venture de navegação fluvial
no país […]. A Navegações Unidas Para Renato Pavan, da Macro-
Tapajós Ltda. (Unitapajós), sediada logística, consultora com serviços
em Belém, será responsável pelo prestados à CNI e ao Fórum Pró-
escoamento de grãos originados no -Amazônia, é “natural” que essas
Mato Grosso pela hidrovia Tapajós- obras sejam financiadas pelo po-
-Amazonas até Santarém, no Pará, der público, por se tratar de “um
que servirá como alternativa me- investimento alto e pouco atrativo
nos custosa às empresas” (Barros, para a iniciativa privada” (Zaparol-
2014b). Os investimentos privados li, 2013). O Plano Nacional de Lo-
vêm de mãos dadas com incisivas gística e Transportes (PNLT) 2011
exigências em face do governo: partilha desse entendimento: “Os

52 Alarcon, Guerrero e Torres


investimentos para a expansão de Estado. Só ([o] rio) Mississipi (EUA)
utilização do modal hidroviário e seus afluentes transportam mais
deverão, necessariamente, ser atri- de 600 milhões de toneladas/ano.
buídos à responsabilidade do setor O Brasil desperdiça essa vocação’,
público, uma vez que a iniciativa afirma Carlos Fávaro, presidente da
privada é capaz de suportar apenas Aprosoja” (Idem, grifo nosso).
a construção de terminais privati- A tese da “dádiva divina” é par-
vos para a movimentação de cargas tilhada também por representantes
específicas, principalmente, granéis do poder público. Em entrevista à
agrícolas e produtos siderúrgicos” NBR sobre o lançamento do Plano
(Brasil, Ministério dos Transportes, Nacional de Integração Hidroviária
Secretaria de Política Nacional de (PNHI), em 2013, Adalberto Tokars-
Transportes et al., 2012: 39). No que ki, superintendente de Navegação
diz respeito à hidrovia Teles Pires- Interior da Antaq, comparou os cus-
-Juruena-Tapajós, o PHE 2013 previu tos de implantação de hidrovias e
investimentos públicos de cerca de ferrovias: “Na hidrovia, você já está
R$ 3,4 bilhões (de 2014 a 2024) para com o rio lá, que deus nos deu para o
custear as intervenções físicas ne- Brasil, só precisa fazer uns melhora-
cessárias para a implementação da mentos” (grifo nosso)6. Referindo- 6. O programa, exibido
em 5 de março de
mesma, ao passo que os investimen- -se a um conjunto de projetos de
2013, está disponível
tos privados em terminais e frotas infraestrutura de transportes, en- em: <https://www.
seriam de R$ 840 milhões (de 2016 a tre os quais figura a hidrovia Teles youtube.com/
watch?v=R301a0VSX-Q>.
2025) (Ibid.: 60-61). Pires-Juruena-Tapajós, o PNLT 2011
Os defensores da hidrovia argu- chega a afirmar que são “obvieda-
mentam que é um despautério des- des nacionais” (“com razão, pro-
perdiçar o “potencial pouco explo- jetos reclamados pela sociedade”)
rado” dos “63 mil quilômetros de (Brasil, Ministério dos Transportes,
rios” que cortam o Brasil (Borges, Secretaria de Política Nacional de
2012a). “Quatro grandes rios com Transportes et al., 2012: 37).
potencial para a movimentação de Conforme as Diretrizes da Políti-
carga cruzam a região de influência ca Nacional de Transporte Hidroviá-
da soja mato-grossense, no senti- rio, “o desenvolvimento do trans-
do Sul-Norte: Madeira, Teles Pires- porte hidroviário no Brasil deve
-Tapajós, Araguaia e Tocantins”, lê- ser considerado como uma ques-
-se em matéria do Valor (Caminho, tão nacional, e exige um esforço
2012). “‘É uma dádiva divina ter rios da sociedade brasileira no sentido
cortando a produção de grãos do de equacionar os entraves que afli-

Saída pelo norte 53


gem o setor” (Brasil, Ministério dos além de uma redução de mais de
Transportes, Secretaria de Política 60% da emissão de CO2 pelos trans-
Nacional de Transportes, 2010: 5). portes” (Brasil, Secretaria de Portos,
O crescimento do país, subentende- Agência Nacional de Transportes
-se, depende do setor de commodities; Aquaviários, 2009). No mesmo ano,
se ele enfrenta dificuldades, o país o então diretor-geral da Antaq, Fer-
precisa ajudá-lo, para “se ajudar”. nando Fialho, deu declarações aná-
Um argumento recorrente no dis- logas, enfatizando que “a hidrovia
curso pró-hidrovia é que ela seria é um grande aliado do meio am-
mais eficiente para o transporte de biente” (Brasil, Secretaria de Portos,
mercadorias de baixo valor agrega- Agência Nacional de Transportes
do, reduzindo os custos do produ- Aquaviários, 2011).
tor (com encurtamento de rotas e Em entrevista ao Valor, Ana Cris-
menor consumo de combustível, se tina Barros, da organização The Na-
comparada a ferrovias e rodovias), ture Conservancy (TNC), louvou os
7. Ver, por exemplo, evitando desperdícios e acidentes7. benefícios socioambientais da hi-
Pavan (2013), Zaparolli
(2013) e Caetano &
Às vésperas da Conferência das drovia Teles Pires-Juruena-Tapajós:
Barros (2014). Nações Unidas sobre a Mudança “O uso de hidrovias no transporte
Climática realizada em Copenha- de produtos agrícolas contribui para
gue (Dinamarca), em 2009, notícia o desenvolvimento sustentável, afir-
de O Estado de S.Paulo anunciava que ma. ‘Aquela região corre sério risco
a Antaq se programava para fazer ambiental’, informa. Há por lá cerca
um lobby “agressivo”, com o intuito de 50 mil garimpeiros, atraídos pelo
de “transformar em realidade o uso que se considera uma das mais im-
de hidrovias no Brasil” (Veríssimo, portantes reservas de ouro do país”
2009). Colocando essa disposição (Aguiar & Rockmann, 2013). Para
em prática, em palestra proferida Clythio Buggenhout, gerente de por-
durante o encontro, o diretor da tos da Cargill, a construção da hidro-
Antaq, Tiago Lima, ressaltou a con- via Teles Pires-Juruena-Tapajós “vai
tribuição que o modal hidroviário mitigar o ‘impacto socioambiental’
poderia trazer para as metas de re- que a chegada de milhares de ca-
dução de emissão de carbono: “Com minhões carregados com soja teria
investimentos da ordem de R$ 7,65 sobre Santarém após a conclusão da
bilhões, o Brasil terá 7.530 km de BR-163 – cada comboio de barcaças
seus rios em condições de navegabi- pode transportar até 30 mil tonela-
lidade, 28,44% da sua produção agrí- das de grãos, substituindo mais de
cola transportada pelas hidrovias, 800 caminhões” (Freitas Jr., 2013).

54 Alarcon, Guerrero e Torres


As loas ao projeto atingem o pon- populações atingidas. “Um exemplo
to máximo em um panfleto publici- desse problema é a ausência de con-
tário publicado pelo Ministério dos sulta prévia junto aos povos indíge-
Transportes, pela Administração nas Mundurucu, Kayabi e Apiaká
das Hidrovias da Amazônia Oriental antes de [se] propor uma autoriza-
(Ahimor) e pela Companhia Docas ção no Congresso para a construção
do Pará (CDP): “O impacto ambien- de hidrovia nos rios Teles Pires e Ta-
tal da obra é positivo, porque per- pajós e usinas hidrelétricas que afe-
mite conciliar a natureza, a presen- tariam diretamente seus territórios,
ça de reservas indígenas e florestais em desrespeito à Constituição Bra-
com a hidrovia, chamada de ecovia” sileira (artigo 231)” (2011). “Apesar
(s.d., grifo nosso). das possíveis vantagens ambientais
Esses discursos invisibilizam os das hidrovias, os procedimentos
variados e profundos impactos ne- de planejamento e licenciamento
gativos da hidrovia sobre povos in- no país têm subestimado possíveis
dígenas, ribeirinhos e camponeses, consequências sociais e ambien-
entre outros grupos. Ao defender tais, inclusive o impacto cumulati-
como uma de suas diretrizes o “uso vo com outros grandes projetos de
múltiplo das águas”, compreenden- infraestrutura e atividades baseadas
do-o apenas como aproveitamento em recursos” (Idem). Vale enfatizar
dos rios para geração de energia e que a hidrovia atravessaria áreas
para navegação, o PNLT 2011 exclui muito relevantes do ponto de vista
os usos efetuados por essas popula- ambiental. Para citar um exemplo,
ções e elide a importância do rio em 250 quilômetros do rio Juruena cor-
seus modos de vida (Brasil, Ministé- rem no interior do Parque Nacional
rio dos Transportes, Secretaria de (Parna) Juruena (Barros, 2015c).
Política Nacional de Transportes et Em entrevista ao Valor, Jaime
al., 2012: 22). O próprio PHE admite Binsfeld, presidente da Fiagril, ob-
que a eclusa de Cachoeira Rasteira, servou que o novo eixo logístico
necessária para levar a hidrovia até “deve viabilizar a expansão da fron-
Sinop, inundaria a TI Kayabi (Brasil, teira agrícola para os municípios
Ministério dos Transportes & Arca- localizados entre o norte de Mato
dis Logos, 2013a: 94). Grosso e o sul do Pará” (Cianport,
De acordo com um estudo da 2013). Nos discursos de represen-
International Rivers, o planejamento tantes do agronegócio e do poder
de hidrovias comumente prescinde público – ambos ancorados na pers-
de participação social, inclusive das pectiva dos primeiros –, efeitos

Saída pelo norte 55


como a conversão de pastagens em óleo vazado de um total de 700 mil
áreas agrícolas (e a consequente am- litros de combustível do navio. Le-
pliação do desmatamento, para o vantamento da Prefeitura de Barca-
estabelecimento de novas áreas de rena mostrou que 80% das pessoas
pastagem) são, assim, apresentados que vivem na região do porto tive-
como positivos. ram renda e saúde afetadas pelo aci-
O naufrágio de um navio que dente” (Fernandes, 2015). Cumpre
transportava cerca de cinco mil notar que se tratou de um desastre
bois, ocorrido em Vila do Conde, anunciado. “Cinco meses antes do
distrito de Barcarena (Pará) no dia acidente, os portuários da região
6 de outubro de 2015, deixou claro haviam denunciado as condições de
que o transporte aquaviário tam- trabalho na amarração dos navios,
bém é passível de acidentes de gra- que garante o embarque em segu-
víssimas proporções, a despeito do rança das cargas do porto. A denún-
que argumentam seus entusiastas. cia foi ignorada por uma sucessão
De acordo com o Ministério Público de órgãos envolvidos nesse embar-
Federal (MPF), o Ministério Público que, da direção do porto à agência
do Estado do Pará (MPE/PA) e a De- federal que regula o transporte
fensoria Pública, o porto carecia de aquaviário no Brasil (Antaq)” (Idem).
plano de contingência para situa- Em razão dos danos provocados, o
ções como aquela, ainda que Vila frigorífico Minerva Foods, a CDP e
do Conde seja o principal ponto de a empresa Global Norte Trade, res-
embarque de bois vivos do Brasil ponsável pela operação portuária,
(Barros & Pires, 2015). Em razão do estão sendo processadas (Barros &
atraso nas medidas emergenciais, Pires, 2015).
milhares de carcaças em avançado Por fim, cumpre notar que a
estado de putrefação e centenas comparação entre modais de trans-
de milhares de litros de óleo diesel porte para identificar a alternativa
atingiram as praias de Barcarena mais “sustentável” ofusca o cerne
e de Abaetetuba, enquanto outros do debate: o que determina, em últi-
animais decompunham-se no fun- ma instância, os impactos socioam-
do do mar. bientais dos modais é a natureza
Um mês após o acontecimento, a das atividades econômicas a eles
situação continuava alarmante. “As atreladas. No caso da hidrovia Teles
máscaras distribuídas a quem traba- Pires-Juruena-Tapajós, há que se tra-
lha no porto não dão conta do fedor zer ao primeiro plano que se trata
da carne podre que se mistura ao do da expansão de atividades econômi-

56 Alarcon, Guerrero e Torres


cas predatórias, que, sabidamente, tuba é um sonho antigo, alimenta-
têm avançado sobre os territórios e do há muito tempo por ruralistas
modos de vida de indígenas, ribeiri- como o senador e ex-governador do
nhos, camponeses e outros grupos. Mato Grosso, Blairo Maggi (PR-MT).
Há 14 anos, Maggi partiu rumo ao
“Apagão portuário” Tapajós com um grupo de produto-
Situado à margem direita do Tapa- res e mais de 70 caminhões de soja.
jós, junto à BR-230 e a 30 quilôme- Foram testar o potencial do vilarejo
tros do entroncamento com a BR- como ponto de saída para os grãos.
163, o distrito de Miritituba é “um A aptidão se confirmou” (Idem). “‘De
entreposto óbvio de interligação lá podemos ir a qualquer porto
rodo-hidroviária” ou, em outras pa- grande da Região Norte. O projeto
lavras, “um curinga”, afirma o ge- abre uma matriz de alternativas
rente de portos da Cargill, Clythio logísticas’, afirma Buggenhout. ‘Es-
Buggenhout (Freitas Jr., 2013). Car- tamos falando de investimentos to-
los Fávaro, presidente da Aprosoja, tais de R$ 3 bilhões a R$ 4 bilhões
concorda: “Miritituba realmente nesse eixo’” (Freitas Jr., 2013).
passou a ser muito estratégica para Se no caso da implementação
o escoamento, porque vai dividir a da hidrovia Teles Pires-Juruena-
carga que seguiria até Santarém” -Tapajós preveem-se investimentos
(Borges, 2013a). “O porto de Miriti- maciçamente públicos, no que diz

Imagem 2. Orla de
Santarém, com o porto
da Cargill ao fundo. Por
Mauricio Torres, ago.
2014.

Saída pelo norte 57


respeito aos portos, destaca-se a ini- apagão portuário que prejudica as
ciativa privada – atrelada, é claro, a exportações do setor” (Nery, 2015,
vultosos empréstimos de dinheiro grifo nosso).
público. O PNLT 2011 defende uma Reportagens veiculadas pelo Va-
“reorganização portuária” pauta- lor dão conta da intensa movimen-
da na “abertura à participação de tação do agronegócio em torno dos
usuários privados, assim como [n]a portos de Santarém e Miritituba.
concessão da administração e ex- “Um novo terminal de granéis sóli-
ploração de alguns portos menores dos de origem vegetal será construí-
e de instalações específicas de gran- do [no porto de Santarém]. A obra
des portos, tais como terminais de já está aprovada pela Antaq e todo
contêineres, de automóveis e de o projeto tem o custo previsto em
movimentação de granéis sólidos” R$ 170 milhões, alocados no PAC. O
(Brasil, Ministério dos Transportes, Porto de Itaituba [localizado no dis-
Secretaria de Política Nacional de trito de Miritituba], às margens do
Transportes et al., 2012: 20). Ain- rio Tapajós, tem hoje 12 empresas
da segundo o plano, “no que diz interessadas em instalar terminais
respeito aos portos, as estatísticas para carregar barcaças com grãos
comprovam o ganho de eficiência do Mato Grosso” (Camargo, 2012).
das instalações concedidas ao setor “Pelo menos oito empresas já adqui-
privado em relação ao período ante- ram terrenos em Miritituba para a
rior às concessões” (Ibid.: 21). construção de estações de transbor-
Na esteira da nova Lei dos Portos do […]. Destas, ao menos quatro – as
(Lei nº12.815/2013), em dezembro de tradings americanas Bunge e Cargill
2015 foi realizado o leilão da primei- e as operadoras logísticas Hidrovias
ra etapa do programa de concessão do Brasil e Cianport – possuem pro-
de portos públicos (Pires, 2015). Uma jetos em estágio final de licencia-
próxima arrematação, informa o mento ambiental e com obras a ini-
Valor, “contará apenas com arrenda- ciar ainda em 2013” (Freitas Jr., 2013).
mentos no Pará” (Idem). Também no No primeiro semestre de 2014, a es-
que diz respeito aos portos, o mote tação de transbordo de carga (ETC)
do “apagão logístico” é repetido à da Bunge em Miritituba entrou em
exaustão. “Apesar dos avanços da operação; à época, as demais em-
política portuária brasileira, para presas aguardavam a liberação das
as principais entidades do agrone- licenças ambientais necessárias.
gócio e do comércio exterior, o país A Cianport pretendia firmar-se
levará muitos anos para pôr fim ao em Miritituba e em Santana. Se-

58 Alarcon, Guerrero e Torres


gundo representantes da operadora dessas empresas em Miritituba au-
logística, ela optou por estabelecer mentaria as “demandas sociais” na
sua ETC em Miritituba, na expec- região, sendo necessário, portanto,
tativa de que ali enfrentaria me- “garantir um processo ordenado”
nos resistência que em Santarém, (Freitas Jr., 2013). À época, o secretá-
principal município da região. “Há rio de Indústria, Comércio e Mine-
dez anos, lembra o executivo [Jai- ração do Pará, David Leal, chegou a
me Binsfeld, presidente da Fiagril, afirmar que o Estado não dispunha
uma das criadoras da Cianport], a de um plano de ação para mitigar
Cargill enfrentava pressões de am- os impactos socioambientais dos
bientalistas para se instalar em San- portos em Miritituba. “Segundo ele,
tarém (PA). ‘Percebemos que a ida o governo estadual chegou a cogitar
para o Norte seria complicado [sic], um levantamento da situação e do
então olhamos para Itaituba, uma que poderia ser feito para minimi-
área com vários terrenos já aber- zar os impactos, mas não teve di-
tos às margens do Tapajós, e resol- nheiro para pagar o trabalho” (Pará,
vemos apostar’, afirma” (Cianport, 2013).
2013). Além do ETC em Miritituba, De acordo com representantes
a Cianport planejava construir um do MPE/PA e da prefeitura de Itaitu-
terminal de uso privativo (TUP) em ba, “as empresas têm se mostrado
Santana; à época da reportagem, ela relutantes em concordar com uma
possuía um contrato de uso tem- ‘agenda mínima’ de compensações
porário desse porto, que é público para os milhares de caminhões que
(Idem). Já a OTP previa, entre ou- passarão a transitar com carrega-
tros projetos, a construção de uma mentos de milho e soja e a imigra-
ETC em Santarenzinho (distrito de ção maciça” (Barros, 2013b). Maté-
Rurópolis, Pará) (Barros, 2015a). O rias na imprensa deixam ver o lobby
“esgotamento” dos terrenos em das empresas para acelerar o pro-
Miritituba estava levando diversas cesso de licenciamento ambiental
empresas a Santarenzinho, como dos portos a despeito dos questio-
Amaggi, o grupo argelino Cevital namentos. Por exemplo, em julho
e a Transportes Bertolini (Barros, de 2014, teria lugar uma reunião
2014b). extraordinária da Atap para “discu-
Em entrevista concedida em tir uma ação conjunta que dê cele-
2013, o então secretário de Desen- ridade à liberação de licenças que
volvimento do Pará, Sydney Rosa, permitirão o escoamento de parte
admitiu que o estabelecimento dos grãos do Centro-Oeste pela cha-

Saída pelo norte 59


mada ‘saída Norte’ do país” (Barros, intensa circulação de caminhões
2014a). carregados de grãos, em Barcarena,
Moradores de Maicá, distrito de tem suscitado protestos de mora-
Santarém onde se prevê a constru- dores e tensões entre as empresas
ção de um complexo portuário, de- Bunge e ADM, e as autoridades lo-
nunciam que o projeto está violan- cais (Barros, 2015b). Referindo-se
do o direito à consulta livre, prévia e ao preço da terra no município de
informada – na área, situa-se inclu- Itaituba, o Valor informa: “sem ci-
sive uma comunidade quilombola. tar cifras, a prefeitura afirma que
De acordo com nota da organização praticamente dobrou” (Idem). Notí-
Terra de Direitos, o projeto atinge cia publicada no jornal O Impacto,
“comunidades tradicionais que se de Santarém, denuncia a ocupação
estabeleceram na área urbana após ilegal de terras em Miritituba para
uma série de deslocamentos força- a construção de portos, colocando
dos pela ausência de políticas públi- em suspeita os títulos de proprie-
cas” (Construção, 2014). dade apresentados pelas empresas
Em setembro de 2015, o MPF e o (Santos, 2015). Conforme noticiou
MPE/PA recomendaram à Secretaria o Valor, a OTP foi questionada ju-
de Meio Ambiente e Sustentabilida- dicialmente quanto à propriedade
de do Estado do Pará (Semas) que se do terreno em Santarenzinho onde
abstivesse de conceder licenças pré- pretende instalar sua ETC (“Após a
vias, de instalação e operação dos aquisição, a área foi reivindicada
terminais portuários previstos para por um morador, que dizia ser o
Miritituba, e suspendesse aquelas já dono da terra”) (Barros, 2015a).
emitidas, devido à ausência de apre- Um estudo publicado pela In-
sentação de avaliação ambiental in- ternational Rivers atenta para o des-
tegrada (AAI) e avaliação ambiental matamento e outros problemas
estratégica (AAE) dos empreendi- socioambientais acarretados pelos
mentos (Bemerguy, 2015). portos:
Diversos impactos estão asso-
ciados aos portos. Nos períodos de Com a instalação do terminal da
colheita, principalmente de soja e Cargill em Santarém, ocorreu uma
milho, boa parte da zona urbana expansão sem precedentes do culti-
de Santarém é cortada por numero- vo da soja (em conjunção com a es-
sos caminhões carregados de grãos, peculação de terras) nas proximida-
aumentando a poluição (inclusive des do chamado Planalto Santareno,
sonora) e o risco de acidentes. A com um rápido aumento de cerca

60 Alarcon, Guerrero e Torres


de 50 hectares em 2000 para 36.000 da afirmação ecoa as queixas do
hectares em 2005. A expansão da agronegócio. Iniciado na década
fronteira agrícola, principalmente de 1970, o asfaltamento do trecho
da soja e da pecuária, está relacio- paraense da BR-163 não foi concluí-
nada ao fenômeno de aumento da do e, após décadas de precária ma-
sedimentação na bacia do Tapajós, nutenção, apresentava segmentos
além de outros problemas sociais e praticamente intransitáveis. Ainda
ambientais (2011: 5). que em 1991 tenham sido licitadas
as obras de asfaltamento, elas não
No final de 2013, o Valor noticiou foram adiante (Ecoplan Engenha-
que a Atap e a prefeitura de Itaitu- ria, 2002: 18). Em 2002, o governo
ba haviam chegado a um “acordo” federal tornou a anunciar que pavi-
que reduzia para menos da metade mentaria a rodovia. O asfaltamento
o valor inicialmente estimado para seria realizado por um consórcio
as compensações relativas aos ter- de produtores de soja e outros em-
minais portuários planejados para presários, que receberia a rodovia
o município: de R$ 27 milhões, em concessão por um determinado
o montante caíra para R$ 15 mi- tempo. Contudo, essa inciativa não
lhões (Barros, 2013c). Meses antes, foi adiante e a pavimentação vol-
em uma declaração que era, a um tou para as mãos do poder público.
só tempo, um arroubo de sinceri- Hoje, embora os trechos faltantes
dade e a expressão de um entendi- sejam pequenos, o asfaltamento
mento absolutamente equivocado ainda não está concluído.
sobre o que medidas mitigatórias Em entrevista ao Valor, Elso Vi-
e compensatórias deveriam signifi- cente Pozzobon, conselheiro da
car, Kleber Menezes, presidente da Aprosoja, lamentava que o aumen-
Atap, afirmara: “Existe um abismo to da produção de soja e milho não
entre o que eles [representantes do havia sido acompanhado por avan-
poder público] demandam e o que ços na infraestrutura de escoamen-
gente quer oferecer” (Barros, 2013b, to da safra (Borges, 2013b). “‘Inves-
grifo nosso). timos em tecnologia e mais do que
dobramos nossa produção. Mas nos-
BR-163, a “rodovia da soja” sa estrada sempre foi a mesma, a si-
“BR-163, uma promessa de rodo- tuação ficou insustentável’” (Idem).
via que neste ano completa três Assim como em relação à hidrovia
décadas, e que nunca se cumpriu” Teles Pires-Juruena-Tapajós, repre-
(Borges, 2013b). O tom dramático sentantes do agronegócio, especial-

Saída pelo norte 61


são da rodovia. Ao se converter em
uma alternativa para o escoamento,
essa rota ajudaria a desafogar portos
estrangulados e impactaria direta-
mente no preço do frete que hoje é
cobrado do produtor rural. As contas
feitas pelo Movimento Pró-Logística,
que representa a indústria do Mato
Grosso, sinalizam para uma redução
de 34% nas despesas com transporte
para cada tonelada de soja e milho
que saem da roça (Idem).

De acordo com os entusiastas da


pavimentação, não apenas o agro-
negócio seria contemplado. “A dis-
tribuição de mercadorias no país
também sai ganhando. A estrada
beneficiaria o escoamento da Zona
Franca de Manaus, que hoje segue
de barco até Belém (PA), para depois
enfrentar 2,9 mil km de estrada até
São Paulo. Pela BR-163, essa viagem
seria encurtada em dois dias” (Idem).
Assim, ainda que a pavimentação
Imagem 3. mente do norte de Mato Grosso, da BR-163 não fosse “a solução de
Desmatamento na
previam que a conclusão das obras todos os males da infraestrutura na-
gleba Pacoval, próximo
a Santarém. Por de asfaltamento da BR-163 possibi- cional”, ela poderia acarretar “uma
Mauricio Torres, c. 2007. litaria drástica redução de custo na reviravolta no mapa logístico” do
exportação de commodities: país (Idem). “‘Desde o início da soja
em Mato Grosso já vislumbrávamos
Um estudo, que acaba de ser reali- uma saída pelo Norte, mas o projeto
zado pela Confederação Nacional só ganhou viabilidade com o avan-
da Indústria (CNI), calcula que po- ço das obras de pavimentação da
deriam ser economizados até R$ 1,4 BR-163’, afirma Jaime Binsfeld, pre-
bilhão por ano com o transporte de sidente da Fiagril” (Cianport, 2013).
cargas da região, a partir da conclu- Esse discurso, porém, passa à

62 Alarcon, Guerrero e Torres


margem dos graves impactos acarre- (Ecoplan Engenharia, 2002: 18, grifo
tados pela pavimentação da BR-163. nosso).
Na esteira do anúncio das obras, o A mobilização levou à elabora-
desmatamento e a especulação fun- ção do Plano BR-163 Sustentável,
diária na área de influência da ro- que veio a público em junho de
dovia cresceram substancialmente. 2006 e foi oficializado por decre-
Movimentos sociais locais e entida- to presidencial em janeiro do ano
des com atuação na região passaram seguinte. Inserido no Plano Pluria-
a discutir os efeitos negativos do nual (PPA) 2004-2007, o plano tinha
asfaltamento. Em março de 2004, o objetivo de mitigar os impactos
em um amplo encontro com repre- socioambientais da pavimentação
sentantes do entorno da BR-163, foi da rodovia. As mais de 200 ações es-
aprovada a Carta de Santarém. En- tratégicas elencadas no documento
tre outras questões, a carta denun- dão ideia do passivo da região em
ciava “a gravidade dos problemas temas como infraestrutura e servi-
estruturais, já existentes, associada ços básicos, ordenamento fundiário
ao projeto de asfaltamento da BR- e combate à violência, gestão am-
163 numa perspectiva reducionista, biental e monitoramento de áreas
como mero corredor de transporte protegidas. Contudo, como sinaliza
para commodities agrícolas” (Carta de estudo da International Rivers, “essa
Santarém, 2004). iniciativa foi logo abandonada em
Note-se que no próprio EIA do as- consequência do crescente reali-
faltamento da BR-163 as populações nhamento do governo Lula com as
que vivem na região impactada pela elites políticas e econômicas tradi-
rodovia são invisibilizadas. De acor- cionais, evidenciado pelo lançamen-
do com o documento, “a BR-163 foi to do PAC em fevereiro de 2007”
construída com a finalidade de ligar (International Rivers, 2011: 5). Um
a região Centro-Oeste ao porto de balanço sobre o plano apresentado
Santarém, que teve sua capacida- pelo Inesc em 2012 indica: “Passado
de consideravelmente aumentada; seis anos do início da sua imple-
e acelerar o desenvolvimento de mentação, apenas 43% das ações
uma parte do Cerrado, permitindo a planejadas foram efetivadas e, não
ocupação do grande vazio demográfico obstante isso, o desmatamento na
entre os Rios Tapajós e Xingu, ensejan- região aumentou” (Verdum, 2012b:
do o aproveitamento econômico de 7). Dez anos depois, o plano sequer
importantes áreas, próprias para é lembrado e, mesmo ainda restan-
agropecuária e ricas em minerais” do alguns trechos por pavimentar,

Saída pelo norte 63


impactos como o desmatamento já União, sendo passíveis, contudo, de
superaram as piores expectativas. exploração privada.
Os processos referentes à ba-
Subsolo loteado: o avanço da cia do Tapajós incidem inclusive
mineração no Tapajós em unidades de conservação (UCs)
Na porção paraense da bacia do e TIs, ainda que, nas primeiras, a
Tapajós, como se indicou, situa-se exploração mineral seja vedada (à
uma das mais ricas províncias au- exceção das áreas de proteção am-
ríferas do planeta, onde se encon- biental - APAs e florestas nacionais
tram também significativas jazidas - Flonas que tenham especificada
de bauxita, cobre, diamante e fosfa- a permissibilidade no decreto de
to. Desde o século XVIII garimpa-se criação) e, nas segundas, autoriza-
na bacia do Teles Pires (Menéndez, da pela Constituição, mas vincula-
1981/1982), mas a exploração da da a regulamentação, por meio de
parte paraense da bacia do Tapajós lei específica, o que ainda não ocor-
remonta à descoberta de jazidas de reu. Como se vê, grandes minerado-
ouro em 1958, na foz do rio das Tro- ras têm se adiantado, “loteando” o
pas, afluente da margem direita do subsolo das TIs, ao passo que pres-
Tapajós, por Nilson Pinheiro. A par- sionam pela aprovação do projeto
tir de meados da década de 2000, de lei (PL) nº1.610/1996, de autoria
o preço do minério no mercado do senador Romero Jucá (PMDB),
internacional começou a se elevar, que pretende regulamentar o ar-
chegando ao ápice em 2011, o que tigo 176 da Constituição, abrindo
8. O texto integral do intensificou a exploração mineral essas áreas à exploração mineral8.
PL e informações sobre na bacia do Tapajós. Embora a ten- Como indicam Souto Maior e Valle,
sua tramitação estão
disponíveis em: <http:// dência tenha se invertido a partir “o projeto tem sido alvo de inúme-
www.camara.gov.br/ de 2012 e o ouro tenha passado a ras críticas de diversos setores da
proposicoesWeb/ficha
perder valor, este ainda se encon- sociedade, por favorecer enorme-
detramitacao?idPropos
icao=16969> (acesso: 5 tra em um patamar muito superior mente as empresas interessadas
set. 2015). ao de dez anos atrás. Hoje, a bacia e oferecer poucas garantias aos
está recoberta de processos de auto- povos indígenas afetados” (2013:
rização de prospecção mineral e de 90). Em março de 2013, conforme
concessão para lavra de diferentes dados oficiais, os requerimentos de
minérios. Como se sabe, a Consti- pesquisa mineral em TIs no país so-
tuição Federal (artigos 20 e 176) de- mavam 4.519, sendo mais da meta-
termina que os recursos minerais, de deles voltados à exploração de
inclusive os do subsolo, são bens da ouro (Nogueira, 2013). Conforme

64 Alarcon, Guerrero e Torres


levantamento recente do Instituto
Socioambiental (ISA), as cinco UCs
federais com mais processos loca-
lizam-se todas na bacia do Tapajós
(APA do Tapajós, Flona do Crepori,
Flona do Jamanxim, Flona do Ama-
nã e Flona de Itaituba II) (Almeida
et al., 2016).
No Plano Nacional de Mineração
2030, publicado pelo Ministério de
Minas e Energia (MME) em 2011, a
Amazônia é referida como “a atual
fronteira de expansão da mineração
no Brasil, o que desperta otimismo
e, ao mesmo tempo, preocupações”
(Brasil, Ministério de Minas e Ener-
gia, Secretaria de Geologia, Minera-
ção e Transformação Mineral, 2011:
57). Por sua vez, o reconhecimento
de TIs e quilombos, e a criação de
UCs e assentamentos da reforma
agrária figuram como “fatores res-
tritivos” à expansão da atividade
mineral no país (Ibid.: 54). Entre os
objetivos estratégicos do plano, en-
contra-se o estabelecimento de “di-
retrizes para mineração em áreas
com restrições legais” (Ibid.: 126) O acesso e uso das terras indígenas Imagem 4. Extenso
foi bem definido pela Constituição garimpo no interior
e, entre as “metas e investimentos
da Área de Proteção
para ampliação do conhecimento de 1988, porém necessita de regula- Ambiental do Tapajós.
geológico”, uma das prioridades é o mentação. Considerando que a de- Por Daniela Alarcon, set.
2014.
reconhecimento geológico e avalia- manda por bens minerais e produtos de
ção das “potencialidades” das “uni- base mineral crescerá nas próximas duas
dades de conservação ambiental e décadas, as ações desse objetivo tor-
terras indígenas que cobrem gran- nam urgente a elaboração de uma
des extensões do território amazô- agenda de entendimentos, objetivan-
nico” (Ibid.: 98). do a harmonização das diferentes

Saída pelo norte 65


competências entre órgãos federais, Além da requisição da Vale, ou-
estaduais e municipais responsáveis tros processos incidem sobre a TI
pela regulação ambiental, indígena, Munduruku, na porção norte, ten-
quilombola, cultural (fósseis) e mi- do como requerentes empresas
neral, tendo como base o ordena- como Homestake do Brasil S.A. (que
mento territorial no interesse nacional também apresentou três requisi-
(Ibid.: 126, grifos nossos). ções no sul da TI e algumas em sua
área central), Matapi Exploração Mi-
Como se pode observar no mapa neral Ltda. e Mineração Silvana In-
1, os polígonos referentes aos pro- dústria e Comércio Ltda. (ver mapa
cessos de autorização mineral e 5). Conforme dados oficiais de 2013,
concessão para lavra no interior coligidos pelo ISA, a Mineração Sil-
da bacia do Tapajós são tão nume- vana somava, sozinha, 690 proces-
rosos que sua sobreposição chega a sos incidentes em TIs de diferentes
9. Note-se que o dificultar a visualização9. Algumas regiões da Amazônia brasileira, se-
Cadastro Mineiro
situações são particularmente dig- guida pela Vale, com 210 processos
permite que uma
mesma área seja alvo nas de nota, como a da TI Munduru- (Rolla & Ricardo, 2013: 47).
de várias requisições, ku, tradicionalmente ocupada pelo Além dos processos de autoriza-
o que explica a
sobreposição de
povo de mesmo nome (ver mapas 2 ção mineral e concessão para lavra
polígonos. a 5), que teve a maior parte do sub- referentes à TI Munduruku, há ain-
solo de sua porção sul requerido da concessões minerais já expedidas
para exploração mineral (ouro) pela que fazem fronteira com a TI, tanto
Vale S.A. Como se sabe, a empresa ao norte quanto ao sul, e outras que
10. A esse respeito, ver, protagonizou o que está sendo con- se situam relativamente próximas
por exemplo, a Carta de siderado o maior desastre ecológico aos limites leste e nordeste da mes-
Ouro Preto, documento
aprovado no V Encontro da história do Brasil: o rompimen- ma, inclusive no interior da Reser-
Internacional das to de uma barragem de rejeitos da va Garimpeira do Tapajós e da APA
Atingidas e Atingidos
pela Vale, realizado
mineradora Samarco (Vale/BHP) do Tapajós. É importante ressaltar
em agosto de 2015. em Mariana (Minas Gerais). Além que, na hipótese de que a altera-
Disponível em: <https:// das violações de direitos, inclusive ção legislativa impulsionada pelo
atingidospelavale.
wordpress. de povos indígenas e comunidades setor minerário se efetive e que as
com/2015/08/18/ tradicionais, cometidas em diferen- autorizações minerais e concessões
atingidas-e-atingidos-
pela-vale-lancam-
tes estados do país, a empresa tem para lavra incidentes na TI venham
documento-politico- sido reiteradamente denunciada a ser expedidas, os efeitos dessas
sobre-v-encontro-
por suas ações na Argentina, Chile, atividades por certo não se reduzi-
internacional-em-
minas-gerais/> (acesso: Peru, Moçambique e Nova Caledô- riam à área de atuação direta das
5 set. 2015). nia, entre outros10. mineradoras: antes, impactariam a

66 Alarcon, Guerrero e Torres


TI como um todo. Frise-se: uma TI a Belo Sun, mineradora canadense
que já sofre as pressões da minera- que pretende desenvolver a maior
ção em seu entorno, assim como do planta de mineração de ouro a céu
garimpo em seu interior e em áreas aberto do país, ao lado da UHE. Con-
adjacentes, e variadas violações no forme notícia veiculada pelo Valor
marco da implementação do CHT. em setembro de 2012, a Belo Sun
A situação da TI Munduruku re- participava então de 42 processos Imagem 5. Garimpo
pete-se em outras áreas indígenas de licenciamento junto ao DNPM no interior da Área de
Proteção Ambiental do
impactadas pelo CHT. Conforme (Borges, 2012b). “Além da área do Tapajós. Por Mauricio
dados oficiais de 2013 organizados Xingu, a companhia analisa explo- Torres, set. 2014.
pelo ISA, 19 processos incidiam so-
bre a TI Sai-Cinza, também habi-
tada pelos Munduruku; 70,22% da
área estava requisitada para mine-
ração de ouro e cassiterita (Rolla &
Ricardo, 2013: 11). Entre as empre-
sas titulares, figuravam a Homesta-
ke e a Matapi. Ainda de acordo com
a publicação, em 2013, a TI Praia do
Índio, também de ocupação tradi-
cional munduruku, tinha 98,91% de
sua área requerida para mineração
(Ibid.: 10). Cumpre notar que esse
cenário ocorre também em outras
porções da bacia do Tapajós que
excedem o recorte deste texto. Por
exemplo, em 2013, a TI Kayabi, ha-
bitada pelo povo homônimo, tinha
25,51% de sua área coberta por re-
quisições para exploração de ouro,
de empresas como a Vale, a Homes-
take e a Mineração Silvana (Ibid.: 27).
Como se pode observar clara-
mente no rio Xingu, grandes proje-
tos hidrelétricos na Amazônia estão
intimamente relacionados à mine-
ração – Belo Monte trouxe consigo

Saída pelo norte 67


Processos de concessão mineral sobre o mosaico de áreas protegidas da bacia do Tapajós

68 Alarcon, Guerrero e Torres


Processos de concessão mineral requeridos pela Vale na porção paraense da bacia do Tapajós

Saída pelo norte 69


Situação dos processos de concessão mineral na porção paraense da bacia do Tapajós
segundo a fase

70 Alarcon, Guerrero e Torres


Principais empresas requerentes e/ou titulares nos processos de concessão mineral na
porção paraense da bacia do Tapajós

Saída pelo norte 71


Principais minérios de que tratam os processos de concessão mineral requeridos na porção
paraense da bacia do Tapajós

72 Alarcon, Guerrero e Torres


rações nas proximidades do rio Ta- críticos” para o desenvolvimento
pajós, também no Pará, e no Tocan- da indústria mineral no Pará (Ibid.:
tins” (Idem). E não se trata da única 129). Processos como a produção de
grande mineradora com pretensões alumínio e de placas de cobre, por
sobre o Tapajós. Em nota publicada serem “reféns do alto uso da ele-
dois meses antes, o Valor comenta- tricidade”, necessitariam de “uma
va as movimentações da ALL Ore estratégia que permita a redução
Mineração, companhia controlada do custo [da energia], inclusive,
por investidores alemães (All Ore, com participação direta nos inves-
2012). Na ocasião, a empresa firma- timentos em geração de energia”
ra dois novos contratos para com- (Ibid.: 130). “Isso é de especial inte-
pra de áreas de pesquisa de ouro no resse para a indústria do alumínio,
Brasil. “Ainda pré-operacional, a ALL considerando-se os investimentos a
Ore, por meio dos dois contratos, jusante, tais como cabos para ener-
vai poder pesquisar e adquirir áreas gia e fabricação de utensílios, com
estimada[s] em 25 mil hectares na re- amplas possibilidades de expansão
gião do rio Tapajós, no Pará” (Idem). da cadeia” (Ibid.: 129).
Algumas das conexões entre mi-
neração, UHEs e portos são expli- Considerações finais
citadas no Plano de Mineração do Como assinalam Fearnside e Lau-
Estado do Pará 2013-2030. O docu- rance, “uma vez que muito da in-
mento sinaliza, por exemplo, que a fraestrutura está justificada pela ex-
previsão de construção de UHEs no portação de soja, uma cultura com
Tapajós “representa uma demanda benefícios sociais mínimos, é difícil
potencial de agregados para cons- imaginar a construção de uma rede
trução civil da ordem de 1,6 milhão de infraestrutura volumosa para
de m³ de brita e 1,5 milhão de m³ de apoiar a produção de soja sob a ru-
areia” (Brasil, Ministério de Minas e brica de ‘desenvolvimento susten-
Energia, Secretaria de Geologia, Mi- tável’” (2002: 94). Além disso, desta-
neração e Transformação Mineral et cam os autores, os mecanismos de
al., 2013: 68). Ainda de acordo com licenciamento ambiental em vigor
o plano, o setor seria beneficiado atualmente não contemplam ade-
também pela demanda gerada com quadamente os impactos ambien-
a construção dos portos em Miriti- tais negativos desses projetos:
tuba (Idem).
A “questão da energia” figura no Os principais impactos dos projetos
documento como “um dos fatores de infraestrutura, que são os danos

Saída pelo norte 73


indiretos causados pelas atividades Brasília, 14 out. Disponível em:
econômicas atraídas e facilitadas pe- <http://www.antaq.gov.br/POR-
los projetos, escapam completamen- TAL/Noticias_Det.asp?5855497E
te do EIA, do RIMA e do processo de- 54491E02011C595548041002095
cisório. Os impactos das atividades F5C43010710722631E5C0B5C18
de terceiros – fazendeiros e madei- A902178EE2A80C2AD9921B408
reiros –, que se acentuam quando 9DCC539FF22F8217A7BA64934A
as áreas se tornam de fácil acesso, 69A247E1EBB2FC8C0C654B2211
não estão incluídos nesses relatórios 0BB8E5D4F2587E055BF43598F-
(2002: 89). F6FD9579F0563D0397F1D-
5DB835B4C076DD7002391FCD-
[artigo concluído em janeiro de 2016] FCF2C7AE8B014B2F740404D9A-
29D407F6C549502BFE0D-
Referências bibliográficas 4DF5A92005AAE2D820E-
Aguiar, Isabel Dias de; Rockmann, 2F826DEC41C1>.
Roberto. 2013. “Modelo eficien- Barros, Bettina. 2015a. “Apesar de
te”. In: Valor Econômico. São Paulo, atrasos em licenças, OTP prevê
6 jun. escoar grãos pela região na safra
Aliado de Blairo Maggi deve assu- 2017/18”. In: Valor Econômico. São
mir DNIT. 2007. In: G1. São Paulo, Paulo, 23 mar.
30 mar. ___. 2013a. “Bunge e Amaggi criam
All Ore investe em ouro. 2012. In: a Unitapajós”. In: Valor Econômico.
Valor Econômico. São Paulo, 3 jul. São Paulo, 30 out.
Almeida, Alana; Futada, Silvia; ___. 2013b. “Divergências ameaçam
Klein, Tatiane. 2016. Mineração terminais no Pará”. In: Valor Eco-
em terras indígenas e unidades nômico. São Paulo, 17 out.
de conservação na Amazônia ___. 2013c. “Fechado acordo para as
(infográfico). São Paulo, Institu- obras de terminais fluviais no rio
to Socioambiental. Disponível Tapajós”. In: Valor Econômico. São
em: <https://infrogr.am/minera- Paulo, 26 nov.
cao_tis_ucs2016> (acesso: 29 jan. ___. 2015b. “Fluxo de caminhões
2016). preocupa governo do Pará”. In:
Antaq participa de audiência pú- Valor Econômico. São Paulo, 11
blica no Senado para debater co- maio.
brança de uso do espelho d’água. ___. 2014a. “Licenças custam a sair e
2015. Sítio da Agência Nacional ‘saída Norte’ trava”. In: Valor Eco-
de Transportes Aquaviários. nômico. São Paulo, 7 jul.

74 Alarcon, Guerrero e Torres


___. 2013d. “Pará reforça medidas ___. 2012b. “MME entra na discus-
para coibir desmatamento”. In: são da mina de ouro em Belo
Valor Econômico. São Paulo, 25 set. Monte”. In: Valor Econômico. São
___. 2015c. “Produtores defendem Paulo, 19 set.
hidrovia em área de parque na- Brasil. Ministério de Minas e Ener-
cional de MT”. In: Valor Econômico. gia. Secretaria de Geologia, Mi-
São Paulo, 15 jan. neração e Transformação Mine-
___. 2014b. “Tapajós inverte fluxo ral. 2011. Plano de Mineração 2030:
de exportação de grãos”. In: Valor geologia, mineração e transfor-
Econômico. São Paulo, 25 fev. mação mineral. Brasília. Dispo-
Barros, Bettina; Pires, Fernanda. nível em: <http://www.mme.gov.
2015. “Ministério Público pede br/documents/1138775/1732821/
interdição de Vila do Conde”. In: Book_PNM_2030_2.pdf/f7cc76c1-
Valor Econômico. São Paulo, 16 out. 2d3b-4490-9d45-d725801c3522>
Batista, Fabiana. 2014. “Dreyfus (acesso: 6 set. 2015).
investirá US$ 1 bilhão em logísti- Brasil. Ministério de Minas e Ener-
ca”. In: Valor Econômico. São Paulo, gia. Secretaria de Geologia, Mine-
17 mar. ração e Transformação Mineral;
Bemerguy, Lila. 2015. “MPPA e PARÁ. Governo do Estado. Se-
MPF recomendam suspensão cretaria de Estado de Indústria,
de licenciamentos para insta- Comércio e Mineração; Pará. Go-
lação de portos”. Sítio do Mi- verno do Estado. Secretaria Es-
nistério Público do Estado do pecial de Desenvolvimento Eco-
Pará. Santarém, 21 set. Dispo- nômico e Incentivo à Produção.
nível em: <http://www.mppa. 2013. Plano de Mineração do Estado
mp/br/index.php?action=Menu. do Pará 2014-2030. Brasília/Belém.
interna&id=5808&class=N>. Brasil. Ministério dos Transportes;
Borges, André. 2013a. “Gigantes da Administração das Hidrovias
logística descobrem Miritituba”. Da Amazônia Oriental; Compa-
In: Valor Econômico. São Paulo, 27 nhia Docas do Pará. [s.d.]. Hidro-
mar. via Tapajós-Teles Pires (panfleto).
___. 2012a. “Governo planeja cons- Brasília/Belém.
truir 27 eclusas”. In: Valor Econô- Brasil. Ministério dos Transportes;
mico. São Paulo, 20 abr. Arcadis Logos. 2013a. Plano Hi-
___. 2013b. “Lama da BR-163 é alter- droviário Estratégico: relatório do
nativa ao caos de Santos”. In: Va- plano. Brasília.
lor Econômico. São Paulo, 26 mar. ___. 2013b. Plano Hidroviário Estraté-

Saída pelo norte 75


gico: sumário executivo. Brasília. Camargo, Timóteo. 2012. “Integra-
Brasil. Ministério dos Transportes. ção com rios é saída para região
Secretaria de Política Nacional Norte”. In: Valor Econômico. São
de Transportes. 2010. Diretrizes da Paulo, 30 maio.
Política Nacional de Transporte Hi- Caminho das águas tem potencial
droviário. Brasília. pouco aproveitado. 2012. In: Valor
Brasil. Ministério dos Transportes. Econômico. São Paulo, 30 maio.
Secretaria de Política Nacional Carta de Santarém. 2004. San-
de Transportes; Logit; Gistran. tarém, 31 mar. Disponível em:
2012. Plano Nacional de Logística e <http://site-antigo.socioambien-
Transportes: projeto de reavalia- tal.org/nsa/detalhe?id=1778>.
ção de estimativas e metas do Cianport é aposta de tradings re-
PNLT: relatório final. Brasília. gionais. 2013. In: Valor Econômico.
Brasil. Secretaria de Portos da Presi- São Paulo, 24 jan.
dência da República. Agência Na- Confederação Nacional da In-
cional de Transportes Aquaviá- dústria; Fórum Ação Pró-Ama-
rios. 2009. “Tiago Lima profere zônia; Macrologística. 2011a.
palestra durante Conferência do Projeto Norte Competitivo: apresen-
Clima em Copenhague”. In: Nave- tação final. Brasília.
gando a notícia, nº48. Brasília, dez. ___. 2011b. Projeto Norte Competitivo:
Disponível em: <http://www.an- I Seminário de Portos no Brasil e
taq.gov.br/portal/Navegando/Na- no Maranhão. São Luiz.
vegandoDez09.htm#3> (acesso: Construção de terminal portuá-
10 jan. 2014). rio em Santarém é marcada por
___. 2011. “Diretor-geral apoia reto- violações de direitos de comu-
mada da hidrovia do São Fran- nidades da região. 2014. Sítio da
cisco em audiência pública na organização de direitos huma-
Câmara dos Deputados. In: Na- nos Terra de Direitos. Curitiba,
vegando a notícia, nº65. Brasília, 1 ago. Disponível em: <http://ter-
set. Disponível em: <http://www. radedireitos.org.br/wp-content/
antaq.gov.br/portal/Navegando/ uploads/2014/08/images-2.jpg>
NavegandoSet11.asp> (acesso: 10 (acesso: 5 mar. 2015).
jan. 2014). Ecoplan Engenharia. 2002. Rela-
Caetano, Mariana; Barros, Bettina. tório de impacto ambiental: pa-
2014. “Saída pelo Norte reduzirá vimentação da rodovia BR-163/
em 34% custo de frete”. In: Valor PA e rodovia BR-230/PA, v.1. Porto
Econômico. São Paulo, 23 jan. Alegre.

76 Alarcon, Guerrero e Torres


Fearnside, Philip M.; Laurance, tações de transbordo de cargas
William F. 2012. “Infraestrutura e terminais portuários (Amazô-
na Amazônia: as lições dos pla- nia). Belém, Associação dos Ter-
nos plurianuais”. In: Caderno CHR, minais Portuários de Uso Privati-
v.25, nº64. Salvador, Centro de vo e das Estações de Transbordo
Recursos Humanos da Universi- de Cargas da Hidrovia Tapajós/
dade Federal da Bahia, pp. 87-98. Associação dos Terminais Por-
Fernandes, Maria Cristina. 2015. tuários e Estações de Transbordo
“Acidente em Barcarena”. In: Va- de Cargas da Hidrovia Tocantins.
lor Econômico. São Paulo, 6 nov. Movimento Pró-Logística. Sítio da
Freitas Jr., Gerson. 2012. “Brizo- Associação dos Produtores de
la inspira prefeito mais rico do Soja e Milho de Mato Grosso. Dis-
país”. In: Valor Econômico. São Pau- ponível em: <http://www.aproso-
lo, 17 dez. ja.com.br/aprosoja/parceria/mo-
___. 2013. “Megainvestimento abre vimento-pro-logistica> (acesso:
nova rota para soja”. In: Valor Eco- 10 jun. 2015).
nômico. São Paulo, 24 jan. Nery, Carmen. 2015. “Maior na re-
Ida, Auro. 2007. “Maggi afirma ter gião norte, apagão portuário está
orgulho por indicar Pagot ao longe de acabar”. In: Valor Econô-
Dnit”. In: Gazeta Digital. Cuiabá, mico. São Paulo, 21 dez.
29 abr. Nogueira, Danielle. 2013. “Empre-
International Rivers. 2011. Barra- sas fazem mais de 4,5 mil pedi-
gens e hidrovias na bacia do Tapajós: dos para explorar de ouro a cobre
planejamento e riscos socioam- em terras indígenas”. In: O Globo.
bientais. Brasília. Rio de Janeiro, 2 mar. Disponível
Jubé, Andrea; Veloso, Tarso. 2014. em: <http://oglobo.globo.com/
“Dilma corteja produtores rurais economia/empresas-fazem-mais-
no MT”. In: Valor Econômico. São -de-45-mil-pedidos-para-explorar-
Paulo, 11 fev. -de-ouro-cobre-em-terras-indige-
Menéndez, Miguel A. 1981/1982. nas-7726163#ixzz3kzLqg0dw>
“Uma contribuição para a et- (acesso: 6 set. 2015).
no-história da área Tapajós- Pagot relaciona Delta à sua demis-
-Madeira”. In:  Revista do Museu são do DNIT. 2012. In: Valor Econô-
Paulista,  v.28. São Paulo, Museu mico. São Paulo, 24 abr.
Paulista, pp. 289-388. Pará não fez estudos em Itaituba.
Menezes, Kleber. 2014. Logística da 2013. In: Valor Econômico. São Pau-
região Norte para o agronegócio: es- lo, 3 dez.

Saída pelo norte 77


Pavan, Renato Casali. 2013. “Hidro- Veloso, Tarso. 2012. “Produtores do
vias da Amazônia legal pedem Mato Grosso querem eclusas nos
socorro”. In: Valor Econômico. São rios Tapajós e Teles Pires”. In: Va-
Paulo, 16 dez. lor Econômico. São Paulo, 3 maio.
Pires, Fernanda. 2015. “Leilão de Verdum, Ricardo. 2012a. As obras de
três áreas no Porto de Santos re- infraestrutura do PAC e os povos indí-
cebe cinco propostas”. In: Valor genas na Amazônia brasileira. Nota
Econômico. São Paulo, 9 dez. técnica nº9. Brasília, Instituto de
Rolla, Alicia; Ricardo, Fany. 2013. Estudos Socioeconômicos.
Mineração em terras indígenas na ___. 2012b. “Povos indígenas e comu-
Amazônia brasileira 2013. São Pau- nidades tradicionais: riscos e de-
lo, Instituto Socioambiental. safios no crescimento econômi-
Santos, Nazareno. 2015. “Terras de co”. In: Boletim Orçamento e Política
Miritituba são ocupadas ilegal- Ambiental, nº28. Brasília, Institu-
mente”. In: O Impacto. Santarém, to de Estudos Socioeconômicos.
26 mar. Veríssimo, Renata. 2009. “Antaq
Souto Maior, Ana Paula C.; Valle, fará lobby em Copenhague por
Raul S.T. 2013. “Mineração em hidrovias no Brasil”.  In: O Estado
terras indígenas: impasses e pro- de S. Paulo. São Paulo, 11 dez.  
blemas”. In: Rolla, Alicia; Ricar- Wiziack, Julio; Brito, Agnaldo.
do, Fany. Mineração em terras indí- 2011a. “Obras na Amazônia
genas na Amazônia brasileira 2013. atraem 7 ‘trens-bala’”. In: Folha de
São Paulo, Instituto Socioam- S.Paulo. São Paulo, 16 out.
biental, pp. 89-91. ___. 2011b. “Saída pelo Norte vira
Torres, Carmen Lígia. 2013. “Logís- nova opção ao porto de Santos”.
tica ameaça o desempenho”. In: In: Folha de S.Paulo. São Paulo, 16
Valor Econômico. São Paulo, 6 jun. out.
Torres, Mauricio; Alarcon, Danie- Zaparolli, Domingos. 2013. “Gover-
la Fernandes. “Dono é quem des- no quer expandir uso de hidro-
mata”: dinâmicas de grilagem e vias”. In: Folha de S.Paulo. São Pau-
desmatamento no sudoeste pa- lo, 25 nov.
raense. No prelo.

78 Alarcon, Guerrero e Torres


Os planos para USINAS hidrelétricas
e hidrovias na bacia do Tapajós
Uma combinação que implica
a concretização dos piores impactos1
Philip M. Fearnside

H
1. As pesquisas do
á planos para construção caças sobre cachoeiras nos rios. Os autor são financiadas
exclusivamente por
de 43 “grandes” barragens planos para hidrovias, assim, impli-
fontes acadêmicas:
(com potência superior a 30 cam completar a cadeia de barra- Conselho Nacional
megawatts) na bacia do Tapajós, gens, que inclui a usina hidrelétrica de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico
sendo dez consideradas prioritárias (UHE) de Chacorão, que inundaria (CNPq) (processos
pelo Ministério de Minas e Energia 18.700 hectares da TI Munduruku. nº305880/2007-1,
nº304020/2010-9,
(MME), com conclusão prevista para Nesse quadro, as proteções con- nº573810/2008-7,
até 2022 (Brasil, Ministério de Mi- tidas na Constituição Federal, na nº575853/2008-5),
nas e Energia, Empresa de Pesquisa legislação brasileira e em conven- Fundação de Amparo
à Pesquisa do Estado
Energética, 2013). Entre outros im- ções internacionais são facilmente do Amazonas (Fapeam)
pactos, várias represas inundariam neutralizadas com a aplicação de (processo nº708565) e
Instituto Nacional de
terras indígenas (TIs) e unidades suspensões de segurança (SS), como Pesquisas da Amazônia
de conservação (UCs). Além disso, já demonstrado em uma série de ca- (Inpa) (PRJ13.03).
Parte deste texto é
o rio Tapajós, no estado do Pará, e sos no licenciamento das barragens
traduzido e adaptado
seus afluentes no estado de Mato hoje em construção na bacia do Ta- de Fearnside (2014a, no
Grosso, os rios Teles Pires e Jurue- pajós. Os múltiplos impactos das prelo). Zachary Hurwitz,
da International Rivers,
na, também são foco de planos do barragens previstas para a bacia do forneceu arquivos shape
Ministério dos Transportes (MTr) Tapajós serão o foco deste capítulo. usados na elaboração
de imagens, preparadas
para convertê-los em hidrovias para
por M.A. dos Santos
transporte de soja de Mato Grosso As barragens Jr., que subsidiaram
até portos no rio Amazonas. Note- A bacia amazônica, que tem cerca a análise. Agradeço
a P.M.L.A. Graça, D.F.
-se que a construção de represas é de dois terços no Brasil, é o foco de Alarcon e I.F. Brown
necessária para a passagem de bar- uma onda maciça de construção pelos comentários.

79
Imagem 1 Locais
mencionados no texto.
Barragens: 1 - São Luiz
do Tapajós, 2 - Jatobá,
3 - Chacorão, 4 - Teles
Pires, 5 - Salto Augusto
Baixo, 6 - São Simão
Alto, 7 - Colíder, 8 - São
Manoel, 9 - Sinop, 10 -
Magessi, 11 - Cachoeira
do Caí, 12 - Cachoeira
dos Patos, 13 - Jardim
de Ouro, 14 - Jirau, 15 -
Santo Antônio, 16 - Belo
Monte. Cidades: 17 -
Santarém, 18 - Cuiabá,
19 - Juína, 20 - Sinop,
21 - Sorriso, 22 - Itaituba,
23 - Miritituba, 24 -
Barcarena, 25 - Brasília,
26 - Vilhena. Rodovias:
27 - MT-319, 28 - BR-230,
29 - BR-319, 30 - BR-364.
Rios: 31 - Amazonas, 32 -
Tapajós, 33 - Teles Pires,
34 - Juruena, 35 - Arinos,
36 - Jamanxim, 37 -
Madeira, 38 - Xingu, 39
- Solimões. Elaboração:
M.A. dos Santos Jr., 2014.

de UHEs, com planos que preveem versidade terrestre e aquática (San-


converter quase todos os afluentes tos & Hernandez, 2009; Val et al.,
do rio Amazonas em cadeias de re- 2010), a emissão de gases de efeito
servatórios (e.g. Fearnside, 2014a; estufa (Abril et al., 2005; Fearnside &
Finer & Jenkins, 2012; Kahn et al., Pueyo, 2012; Kemenes et al., 2007),
2014; Tundisi et al., 2014). a redução de estoques pesqueiros e
As barragens em áreas tropicais, de outros recursos que sustentam
como a Amazônia, implicam uma a população local (Barthem et al.,
vasta gama de impactos ambientais 1991; Fearnside, 2014b), a metilação
e sociais, incluindo a perda da biodi- do mercúrio (tornando-o venenoso

80 Fearnside
para animais, incluindo os seres hu- Polícia Federal, em novembro de
manos) (e.g. Fearnside, 1999; Leino 2012 é um emblema para os povos
& Lodenius, 1995) e o deslocamento indígenas impactados por UHEs na
forçado de população (Cernea, 1988, bacia do rio Tapajós (e.g. Aranha &
2000; McCully, 2001; Oliver-Smith, Mota, 2014).
2009, 2010; Scudder, 2006; World Os planos para construção de
Commission on Dams, 2000). barragens na bacia do Tapajós são
Além disso, projetos de constru- enormes, totalizando, como se indi-
ção de barragens nos trópicos como cou, entre planejados e em constru-
um todo têm seguido um padrão ção, 43 “grandes” aproveitamentos
sistemático de violação de direitos hidrelétricos, definidos como aque-
humanos – têm ocorrido, inclusive, les com mais de 30 megawatts de
assassinatos, vitimando especial- capacidade instalada2 (ver mapa-en- 2. Aproveitamentos
com potência de até
mente indígenas. Exemplos recen- carte). Quase todas essas barragens
30 megawatts são
tes de assassinatos de lideranças in- planejadas têm capacidade muito caracterizados como
dígenas que se opõem às barragens superior a 30 megawatts. Três delas pequenas centrais
hidrelétricas (PCHs), de
incluem Miguel Pabón, em 2012, no ficariam no rio Tapajós propriamen- acordo com a Resolução
contexto da barragem de Hidroso- te dito e quatro, no rio Jamanxim Normativa nº343/2008
da Agência Nacional de
gamoso, na Colômbia, e Onésimo (afluente do rio Tapajós no estado
Energia Elétrica (Aneel).
Rodriguez, em 2013, no contexto da do Pará). Para os afluentes no estado
barragem de Barro Blanco, no Pana- de Mato Grosso, há seis barragens
má (Ross, 2012; Yan, 2013). Em 2014, planejadas na bacia do rio Teles Pi-
no contexto da barragem de Santa res e 30 na bacia do rio Juruena (ver
Rita, na Guatemala, duas crianças mapa-encarte). Também há planos
indígenas (David e Ageo Chen) fo- para numerosas pequenas centrais
ram assassinadas; os pistoleiros não hidrelétricas (PCHs), ou seja, barra-
conseguiram localizar o líder que gens com capacidade instalada de
eles haviam sido contratados para até 30 megawatts, que são isentas
matar. O caso tornou-se emblemáti- do estudo de impacto ambiental e
co (e.g. Illescas, 2014). Ironicamente, de relatório de impacto ambiental
todas essas barragens têm projetos (EIA/Rima).
de crédito de carbono aprovados O segundo Programa de Acele-
pelo Mecanismo do Desenvolvi- ração do Crescimento (PAC 2), para
mento Limpo e, supostamente, re- 2011-2015, inclui seis barragens nos 3. Ver: <http://www.
presentam o “desenvolvimento sus- rios Tapajós e Jamanxim, e cinco pac.gov.br/energia/
geracao-de-energia-
tentável”. No Brasil, o assassinato barragens no rio Teles Pires3. As eletrica> (acesso: 25 jul.
de Adenilson Krixi Mundurku pela prioridades e os cronogramas das 2014).

Os planos para hidrelétricas e hidrovias na bacia do Tapajós 81


barragens vêm evoluindo continua- Tais barragens, como se indicou,
mente, como indicam os planos acarretam múltiplos impactos – in-
decenais de expansão de energia cluindo danos a TIs e inundação em
(PDEs) lançados todos os anos pelo UCs (ver mapa-encarte) –, que serão
MME, contendo as barragens pla- o foco deste capítulo. Há, também,
nejadas para os dez anos seguintes. muitos outros efeitos negativos,
Por exemplo, as barragens no rio tais como a inundação de flores-
Jamanxim, presentes nos PDEs até tas, a destruição de ecossistemas
o plano de 2011-2020, depois sumi- aquáticos, o bloqueio da migração
ram, ou seja, foram adiadas para de peixes, a metilação de mercúrio
além do horizonte de dez anos, sen- (tornando-o venenoso para animais,
do substituídas por outras, como as incluindo os humanos) e a emissão
megabarragens de São Simão Alto e de gases de efeito estufa (e.g. Fearn-
Salto Augusto Baixo, no rio Juruena, side, 2014a).
além de barragens menores, como A sobreposição de reservatórios
Castanheira, no rio Arinos, um com áreas protegidas está entre os
afluente do Juruena e local de um impactos ambientais das barragens
dos portos planejados para embar- planejadas na bacia do rio Tapajós.
que de soja (Brasil, Ministério de Mi- De fato, o governo tem realizado a
nas e Energia, Empresa de Pesquisa desafetação de partes de diferentes
Energética, 2013). Essas mudanças UCs mesmo antes das barragens
de prioridade favorecem barragens serem avaliadas e licenciadas. Par-
que compõem as hidrovias planeja- te do Parque Nacional (Parna) da
das para transporte de soja, e adiam Amazônia já foi desafetada, por
as barragens fora dessas rotas. O meio de uma medida provisória (MP
MME não constrói eclusas, apenas nº558/2012), posteriormente con-
reservando espaço para esse fim ao vertida em lei (nº12.678/2012), expli-
lado de cada barragem – as eclusas citamente para abrir caminho aos
ficam a cargo do MTr. Os dois minis- reservatórios de São Luiz do Tapajós
térios nem sempre concordam em e Jatobá (e.g. Instituto Humanitas
relação às prioridades, e a palavra Unisinos, 2012; WWF Brasil, 2012).
final fica com a Casa Civil. Das 43 O governo também removeu par-
barragens planejadas na bacia do te do Parna do Juruena para abrir
Tapajós, dez constam no PDE 2013- caminho para as barragens de São
2022: duas no rio Tapajós, cinco na Simão Alto e Salto Augusto Baixo,
bacia do Teles Pires e três na bacia no rio Juruena (WWF Brasil, 2014).
do Juruena (ver mapa-encarte). As barragens planejadas inundam

82 Fearnside
15.600 hectares do Parna da Ama- e Barcarena, assim dando acesso ao
zônia, 18.515 hectares do Parna do rio Amazonas e ao oceano Atlântico
Jamanxim, 7.352 hectares da Flores- (Millikan, 2011).
ta Nacional (Flona) Itaituba I, 21.094 Uma barragem adicional, que
hectares da Flona Itaituba II, 15.819 não é mencionada no “eixo ener-
hectares da Área de Proteção Am- gia” do plano, seria necessária para
biental (APA) do Tapajós, ou um to- concluir a hidrovia: a de Chacorão,
tal de 78.380 hectares de UCs. no rio Tapajós (Idem). Essa obra
No caso da bacia do Tapajós, o também não aparece entre as bar-
conjunto de impactos das muitas ragens listadas nos PDEs 2011-2020,
barragens e da hidrovia do Tapa- 2012-2021 e 2013-2022 (Brasil, Minis-
jós, incluindo seus ramais, é muito tério de Minas e Energia, Empresa
maior que os danos que geralmente de Pesquisa Energética, 2011, 2012,
entram em discussão quando se de- 2013). Por outro lado, a UHE Chaco-
bate qualquer obra específica, como rão figura no estudo de viabilidade
a primeira barragem planejada, São (Consórcio Nacional dos Engenhei-
Luiz do Tapajós. A hidrovia tem ros Consultores, 2014) e na avalia-
papel-chave para garantir a cons- ção ambiental integrada (AAI) das
trução de todas as barragens neces- barragens do Tapajós (Grupo de Tra-
sárias para tornar a rota navegável, balho Tapajós & Ecology and Envi-
incluindo a barragem mais danosa: ronment do Brasil, 2014: 60). Além
a UHE Chacorão, como veremos a disso, as eclusas dessa barragem são
seguir. indicadas como “prioritárias” no
Plano Nacional Hidroviário (PNH)
A hidrovia do Tapajós (Ibid.: 22). A UHE Chacorão permi-
Barragens inundam cachoeiras que tiria que barcaças atravessassem a
dificultam a navegação, e as eclusas cachoeira de Sete Quedas.
associadas às barragens permitem Chacorão inundaria 18.700 hec-
a passagem de barcaças para trans- tares da TI Munduruku (Millikan,
porte de commodities, principalmen- 2011); no caso das UHEs de São Luiz
te a soja. O Brasil possui extensos do Tapajós e, sobretudo, Jatobá, os
planos para a navegação (ver, por reservatórios alagariam terras do
exemplo, Fearnside, 2001) e essas povo Munduruku que não foram
barragens permitiriam a abertura ainda oficialmente declaradas como
da hidrovia do Tapajós, planeja- TI (Lourenço, 2014; Ortiz, 2013).
da para levar soja de Mato Grosso Note-se que o reconhecimento de
para portos em Santarém, Santana TIs no Brasil encontra-se essencial-

Os planos para hidrelétricas e hidrovias na bacia do Tapajós 83


mente paralisado há alguns anos, conseguiu retirar uma menção a ele
reportadamente devido a ordens do sumário para tomadores de deci-
superiores, que a Fundação Nacio- são do quinto relatório de avaliação
nal do Índio (Funai) não nega (ver (AR-5) do Painel Intergovernamen-
Conselho Indigenista Missionário, tal sobre Mudança do Clima (IPCC)
2014). Permanece uma pergunta em (Garcia, 2014). O estímulo ao desma-
aberto: se essa paralisação visa, en- tamento pela hidrovia do Tapajós
tre outros objetivos, facilitar a inun- não está incluído entre os impactos
dação de áreas habitadas por povos considerados no licenciamento am-
indígenas que ainda não foram re- biental ou de créditos de carbono de
conhecidas como TIs, como no caso projetos na bacia do Tapajós, como
dos Munduruku ao longo do rio Ta- a UHE Teles Pires (Fearnside, 2013).
pajós, mais especificamente daque- Em 25 de abril de 2014, a Bunge,
les que vivem na área das represas uma empresa multinacional de soja
planejadas de São Luiz do Tapajós e atualmente responsável por 25% da
Jatobá. produção do Brasil, abriu um porto
A implantação da hidrovia do Ta- para exportação do grão em Bar-
pajós incentivará o desmatamento carena, na foz do rio Amazonas. A
futuro para cultivo de soja na por- empresa espera que as exportações
ção norte de Mato Grosso, a ser ser- do Brasil dobrem nos próximos dez
vida pela hidrovia. Incentivará tam- anos, principalmente visando a
bém o plantio de soja nas pastagens China (Freitas, 2014). A soja para o
que atualmente recobrem áreas que primeiro navio carregado no porto
já foram desmatadas nessa parte do de Vila de Conde, em Barcarena, foi
estado. Tal conversão provoca des- transportada em carretas de Mato
matamento indiretamente em ou- Grosso até o porto de Miritituba, no
tros lugares, já que o gado e os pe- baixo rio Tapajós, e de lá seguiu até
cuaristas que vendem as suas terras Barcarena em barcaças operadas pe-
para “sojeiros” são deslocados de las Navegações Unidas Tapajós Ltda.
Mato Grosso para o Pará (Fearnside, (Unitapajós), uma joint venture entre
2001). O aumento do desmatamento as empresas Amaggi e Bunge. No
no Pará devido ao avanço da soja em futuro, espera-se que a soja a ser ex-
pastagens em Mato Grosso tem sido portada a partir de Barcarena faça
demonstrado estatisticamente (Ari- todo o caminho desde Mato Gros-
ma et al., 2011). Esse efeito, contudo, so em barcaças através da hidrovia
tem sido negado pela diplomacia do Tapajós, iniciando no ramal que
brasileira, que, em março de 2014, sobe o rio Teles Pires. Essa hidro-

84 Fearnside
via depende da construção de uma Juruena requer seis barragens até
série de barragens, cada uma com os dois portos propostos e três dos
eclusas para permitir a passagem reservatórios tocam TIs: as UHEs de
das barcaças. Escondido e Erikpatsá, nas TIs de
Em Mato Grosso, a hidrovia do mesmos nomes, e a UHE Tucumã,
Tapajós bifurcará em ramais subin- na TI Japuíra (Consórcio Nacional
do os rios Juruena e Teles Pires. O dos Engenheiros Consultores, 2014,
primeiro ramal da hidrovia a ser ilustração 3.5/1). Nos afluentes for-
construído tornaria o rio Teles Pires madores do rio Juruena, acima da
navegável até Sinop e, posterior- parte a ser tornada navegável, são
mente, até Sorriso. O ramal do Te- planejadas mais 16 UHEs (Brasil,
les Pires requer uma série de cinco Agência Nacional de Energia Elé-
barragens, três das quais já estão trica, 2011). Das 16 “grandes” bar-
em construção (Colíder, São Manoel ragens nos formadores do Juruena,
e Sinop). A barragem de São Manoel quatro atingem a TI Nambikwara
está a menos de um quilômetro da (Pocilga, Jacaré, Foz do Formiga Bai-
TI Kayabi e já tem provocado confli- xo e Nambiquara), e duas atingem
tos com o povo indígena (Instituto a TI Tirecatinga (Salto Utiariti e Foz
Socioambiental, 2013). Já a barra- do Sacre) (Consórcio Nacional dos
gem Foz do Apiacás está localizada Engenheiros Consultores, 2014).
a apenas cinco quilômetros da mes- Dentre as diversas PCHs planeja-
ma TI. Note-se que a portaria inter- das, várias atingiriam áreas indíge-
ministerial nº419/2011 considera nas (Idem, ilustração 3.5/1; Almeida,
que há interferência em qualquer 2010; Fanzeres, 2013).
TI situada a até 40 quilômetros de
uma UHE. O impedimento à proteção
No segundo ramal, que sobe o O tratamento jurídico do licencia-
rio Juruena, a soja chegaria até os mento de barragens e, sobretudo,
portos via estradas vindas do sul, in- dos impactos sobre povos indíge-
cluindo uma nova estrada (MT-319), nas ilustra com clareza as barreiras
que conecta Juína, em Mato Grosso, impedindo a aplicação das prote-
com Vilhena, em Rondônia orien- ções existentes na Constituição Fe-
tal, cortando duas áreas indígenas, deral, na legislação brasileira e em
a TI Enawenê Nawê e o Parque In- convenções internacionais, como a
dígena do Aripuanã (Macrologística Convenção 169 da Organização In-
& Federação das Indústrias da Ama- ternacional de Trabalho (OIT), que
zônia Legal, 2011). O ramal do rio garante o direito à consulta aos

Os planos para hidrelétricas e hidrovias na bacia do Tapajós 85


povos indígenas impactados. Deci- Ainda foi estabelecido que ne-
sões desfavoráveis às barragens são nhum agravo poderia ter o efeito
revertidas com a SS, que permite a de reverter temporariamente a
continuidade das obras, indepen- suspensão:
dentemente de qualquer violação
ambiental ou social, se a paralisação Quando, a requerimento de pes-
da obra implicar grave dano à “eco- soa jurídica de direito público in-
nomia pública”. Uma lei promovida teressada ou do Ministério Público
na ditadura militar autorizava: e para evitar grave lesão à ordem,
à saúde, à segurança e à economia
suspensão de execução de liminares e públicas, o presidente do tribunal
sentenças em ações movidas contra ao qual couber o conhecimento do
o poder público e seus agentes, para respectivo recurso suspender, em de-
evitar grave lesão à economia pública cisão fundamentada, a execução da
(Lei nº4.348, de 26 de junho de 1964, liminar e da sentença, dessa decisão
substituída pela Lei nº12.016, de 7 de caberá agravo, sem efeito suspensivo,
agosto de 2009, grifos meus). no prazo de 5 (cinco) dias, que será
levado a julgamento na sessão se-
A aplicabilidade da SS foi confir- guinte à sua interposição (art. 15 da
mada após a criação do Ministério Lei nº12.016, de 7 de agosto de 2009,
Público pela Constituição de 1988, grifos meus).
clarificando-se que:
Evidentemente, qualquer UHE
compete ao presidente do tribunal, tem relevância econômica, assim
ao qual couber o conhecimento do efetivamente neutralizando todas
respectivo recurso, suspender, em as proteções ao meio ambiente e
despacho fundamentado, a execução aos povos impactados (e.g. Pruden-
da liminar nas ações movidas contra te, 2013, 2014).
o Poder Público ou seus agentes, a re- No caso da UHE Teles Pires, o
querimento do Ministério Público ou uso da SS foi denunciado perante a
da pessoa jurídica de direito público Comissão Interamericana de Direi-
interessada, em caso de manifesto tos Humanos (CIDH) da Organiza-
interesse público ou de flagrante ile- ção dos Estados Americanos (OEA),
gitimidade, e para evitar grave lesão à em 28 de março de 2014 (Instituto
ordem, à saúde, à segurança e à eco- Socioambiental, 2014). A UHE Te-
nomia públicas (art. 4º da Lei nº8.437, les Pires afeta três povos indíge-
de 30 de junho de 1992, grifos meus). nas (Manifesto, 2011). Há impactos

86 Fearnside
sobre a alimentação, pelo dano às irregularidades no licenciamento
atividades pesqueiras. E também há da obra (Monteiro, 2013a, 2013b).
perda de locais sagrados associados Várias tentativas de impedir a obra
às cachoeiras a serem inundadas. judicialmente foram derrubadas.
Houve uma série de irregularidades Uma suspensão do leilão foi reverti-
no licenciamento (Millikan, 2012) da em 13 de dezembro de 2013 (Fun-
e sucessivas tentativas judiciais de dação Oswaldo Cruz & Federação
parar a obra foram revertidas, geral- dos Órgãos para Assistência Social
mente, em apenas dois ou três dias. e Educacional, [2013]). A história
A rapidez na reversão de decisões se repetiu em 28 de abril de 2014,
fundamentadas em extensa docu- quando um juiz em Cuiabá suspen-
mentação de impactos e de viola- deu a obra com base na legislação,
ções de leis provavelmente se deve garantindo os direitos dos povos
ao fato de que a aplicação de SS não indígenas (Brasil, Poder Judiciário,
leva em conta os argumentos sobre Tribunal Regional Federal da Pri-
os impactos e a legalidade da obra, meira Região, 2014). Em 21 de julho
dependendo apenas da demonstra- de 2014, a ação civil pública estava
ção de sua importância econômi- conclusa para sentença.
ca. A UHE Teles Pires foi suspensa As barragens de Sinop, Colíder e
em 14 de dezembro de 2010 (Brasil, Magessi tiveram a construção blo-
Poder Judiciário, Justiça Federal de queada em 2 de dezembro de 2011,
Primeira Instância, Seção Judiciária quando um juiz em Sinop emitiu
do Pará, 2010), em 27 de março de uma liminar, com base no descum-
2012 (Lessa, 2012; Brasil, Ministério primento de legislação sobre licen-
Público Federal no Pará, 2012), em ciamento ambiental (Brasil, Poder
9 de abril de 2012 (Brasil, Poder Ju- Judiciário, Justiça Federal de Mato
diciário, Tribunal Regional Fede- Grosso, Subseção Judiciária de Si-
ral da Primeira Região, 2012a), em nop, 2011). Entre outras irregulari-
1 de agosto de 2012 (ver Fundação dades, o licenciamento estava sendo
Oswaldo Cruz & Federação dos Ór- feito apenas pela Secretaria de Meio
gãos para Assistência Social e Edu- Ambiente de Mato Grosso (Sema/
cacional, [2013]) e em 9 de outubro MT), quando barragens como essas
de 2013 (Brasil, Poder Judiciário, Tri- precisam de licenciamento em ní-
bunal Regional Federal da Primeira vel federal, pelo Instituto Brasileiro
Região, [2013]). do Meio Ambiente e dos Recursos
Já no caso da UHE São Manoel, Naturais Renováveis (Ibama) (Brasil,
há uma cronologia espetacular de Ministério Público Federal no Pará,

Os planos para hidrelétricas e hidrovias na bacia do Tapajós 87


2011), já que as obras impactam po- bientais e sociais que prevalecerão
vos indígenas (Monteiro, 2011). Pou- no futuro. A interdependência de
co mais de um mês depois, em 16 complexos de projetos, como barra-
de janeiro de 2012, um desembarga- gens e hidrovias, é parte dessa área
dor em Brasília mandou arquivar o pouco debatida. Outra é a estrutu-
processo, valendo-se da SS (Brasil, ra jurídica subjacente, que, no caso
Poder Judiciário, Tribunal Regional do Brasil, representa uma “rede de
Federal da Primeira Região, 2012b). segurança” para os proponentes de
A existência de leis autorizando obras, fornecendo uma garantia fi-
“suspensões de segurança” não é nal contra limitações ambientais e
bem conhecida, nem pela comuni- sociais. Muitos daqueles no campo
dade acadêmica, nem pelo público ambiental que têm trabalhado ar-
em geral. A discussão sobre a neces- duamente para construir o sistema
sidade de mudar essas leis, portan- de licenciamento e avaliação de im-
to, é quase inexistente. A mesma pacto veem o ordenamento jurídico
falta de conhecimento se aplica como um fato dado – parte da pai-
aos projetos de alto impacto, como sagem institucional que deve sim-
a UHE Chacorão, que é omitida de plesmente ser aceita. Felizmente, as
praticamente toda a discussão pú- leis nacionais não são leis naturais e
blica sobre os desenvolvimentos na estão sujeitas a alterações por deci-
bacia do Tapajós, apesar de ser uma sões sociais.
parte fundamental do plano global.
Omitir a discussão sobre os compo- Considerações finais
nentes mais controversos de planos Os planos para barragens e hidro-
hidrelétricos representa um padrão vias na bacia do Tapajós implicam
geral, repetindo a história recente grandes impactos, individualmente
de licenciamento das barragens de e em conjunto, incluindo danos a
Santo Antônio e Jirau, no rio Madei- TIs e UCs. A combinação de propos-
ra (Fearnside, no prelo) e Belo Mon- tas para barragens e hidrovias cria
te, no rio Xingu (Fearnside, 2006, ou potencializa impactos que pode-
2012). riam, de outra forma, não se con-
Embora as discussões invariavel- cretizar. Um exemplo de destaque é
mente se concentrem sobre os prós a prioridade conferida à construção
e contras de cada projeto proposto, da UHE Chacorão, que inundará par-
a maneira pela qual as decisões são te da TI Munduruku, algo que talvez
tomadas determina de modo muito não ocorresse caso a barragem não
mais fundamental as condições am- fizesse parte da rota da hidrovia do

88 Fearnside
Tapajós. O sistema de licenciamen- pdf&nome=Juliana%20de%20
to ambiental tem sido incapaz de Almeida_Alta%20Tens%E3o%20
evitar a aprovação de projetos com na%20Floresta%20Os%20Enawe-
grandes impactos e o sistema jurídi- ne%20Nawe%20e%20o%20Com-
co tem sido incapaz de fazer valer plexo%20Hidrel%E9trico%20Ju-
as proteções legais, devido à exis- ruena.pdf> (acesso: 25 jul. 2014).
tência de leis autorizando a SS para Aranha, Ana; Mota, Jessica. 2014.
permitir a continuação de qualquer “A batalha pela fronteira Mun-
obra com importância econômica. duruku”. In: A Pública – Agência de
reportagem e jornalismo investigati-
[artigo concluído em outubro de 2014] vo. São Paulo, 11 dez. Disponível
em: <http://apublica.org/2014/12/
Referências bibliográficas batalha-pela-fronteira-munduru-
Abril, Gwenaël; Guérin, Frédéric; ku/> (acesso: 10 jan. 2015).
Richard, Sandrine; Delmas, Arima, Eugenio Y.; Richards, Peter;
Robert; Galy-Lacaux, Corin- Walker, Robert; Caldas, Marcel-
ne; Gosse, Philippe; Tremblay, lus M. 2011. “Statistical confirma-
Alain; Varfalvy, Louis; Santos, tion of indirect land use change
Marco Aurelio dos; Matvienko, in the Brazilian Amazon”. In:
Bohdan. 2005. “Carbon dioxide Environmental Research Letters, v.6,
and methane emissions and the nº2.
carbon budget of a 10-years old Barthem, Ronaldo; Ribeiro, Mau-
tropical reservoir (Petit-Saut, ro César L.B.; Petrere Junior,
French Guiana)”. In: Global Bio- Miguel. 1991. “Life strategies of
geochemical Cycles, v.19, nº4. Wa- some long-distance migratory
shington, D.C., American Geo- catfish in relation to hydroelec-
physical Union. tric dams in the Amazon Basin”
Almeida, Juliana de. 2010. Alta ten- In: Biological Conservation, v. 55,
são na floresta: os Enawene e o nº3. Washington, D.C., Society
Complexo Hidrelétrico Juruena. for Conservation Biology, pp.
Trabalho de conclusão curso (Es- 339-345.
pecialização lato sensu em indi- Brasil. Agência Nacional de Ener-
genismo). Cuiabá, Universidade gia Elétrica. 2011. Processo
Positivo/Operação Amazônia Na- nº48500.001701/2006-11. Assunto:
tiva. Disponível em: <http://ama- Análise dos estudos de inventá-
zonianativa.org.br/download. rio hidrelétrico da bacia do rio
php?name=arqs/biblioteca/13_a. Juruena, localizado na sub-bacia

Os planos para hidrelétricas e hidrovias na bacia do Tapajós 89


17, nos estados de Mato Gros- gessi-no-teles-pires> (acesso: 25
so e Amazonas. Nota técnica jul. 2014).
nº297/2011-SGH/ANEEL. Brasília, ___. 2012. “MP pede suspensão do
5 ago. licenciamento e obras da usina
Brasil. Ministério de Minas e Ener- de Teles Pires por falta de con-
gia. Empresa de Pesquisa Energé- sulta a indígenas”. Sítio da Pro-
tica. 2011. Plano Decenal de Expan- curadoria da República no Pará.
são de Energia 2020. 2 v. Brasília. Belém, 19 mar. Disponível em:
Disponível em: <http://www.epe. <http://www.prpa.mpf.gov.br/
gov.br/PDEE/20111229_1.pdf> news/2012/mp-pede-suspensao-
(acesso: 25 jul. 2014). -do-licenciamento-e-obras-da-
___. 2012. Plano Decenal de Expansão -usina-de-teles-pires-por-falta-de-
de Energia 2021. Brasília. Disponí- -consulta-a-indigenas> (acesso:
vel em: <http://www.epe.gov.br/ 25 jul. 2014).
PDEE/20120924_1.pdf> (acesso: Brasil. Poder Judiciário. Justiça
25 jul. 2014). Federal de Mato Grosso. Sub-
___. 2013. Plano Decenal de Expansão seção Judiciária de Sinop. De-
de Energia 2022. Brasília. Disponí- cisão. 2011. Ação civil pública
vel em: <http://www.epe.gov.br/ nº7786.39.2010.4.01.3603. Sinop,
PDEE/20140124_1.pdf> (acesso: 25 2 dez.
jul. 2014). Brasil. Poder Judiciário. Justiça
Brasil. Ministério dos Transportes. Federal de Primeira Instância.
2010. Diretrizes da Política Na- Seção Judiciária do Pará. De-
cional de Transporte Hidroviário. cisão. 2010. Ação civil públi-
Brasília. Disponível em: <http:// ca nº33146-55.2010.4.01.3900.
www2.transportes.gov.br/Modal/ Belém, 14 dez. Disponível em:
Hidroviario/PNHidroviario.pdf> Disponível em: <http://tel-
(acesso: 25 jul. 2014). madmonteiro.blogspot.com.
Brasil. Ministério Público Federal br/2010/12/liminar-suspende-o-
no Pará. 2011. “Justiça paralisa -processo-de.html> (acesso: 25
usinas de Colíder, Sinop e Mages- jul. 2014).
si, no Teles Pires”. Sítio da Pro- Brasil. Poder Judiciário. Tribunal
curadoria da República no Pará. Regional Federal da Primeira Re-
Belém, 7 dez. Disponível em: gião. 2012a. Decisão. Suspensão
<http://www.prpa.mpf.mp.br/ de liminar ou antecipação de tu-
news/2011/noticias/justica-parali- tela nº0018625-97.2012.4.01.0000/
sa-usinas-de-colider-sinop-e-ma- MT. Brasília, 9 abr. Disponível

90 Fearnside
em: <http://www.prpa.mpf. shington, D.C., The World Bank.
mp.br/news/2014/arquivos/Sus- Disponível em: <http://elibrary.
pensao_Liminar.pdf/at_down- worldbank.org/doi/pdf/10.1596/0-
load/file> (acesso: 25 jul. 2014). 8213-1036-4> (acesso: 25 jul.
___. 2012b. Decisão. Suspensão de 2014).
liminar ou antecipação de tute- ___. 2000. “Risks, safeguards, and
la nº0075621-52.2011.4.01.0000/ reconstruction: a model for po-
MT. Brasília, 16 jan. Disponí- pulation displacement and reset-
vel em: <http://www.prpa.mpf. tlement. In: Cernea, Michael M.;
mp.br/news/2014/arquivos/Sus- McDowell, Christopher (org.).
pensao%20de%20Seguranca.doc/ Risks and reconstruction: experien-
at_download/file> (acesso: 25 jul. ces of resettlers and refugees.
2014). Washington, D.C., The World
___. [2013]. “TRF determina a sus- Bank, pp. 11-55.
pensão das obras da UHE Teles Conselho Indigenista Missio-
Pires até a realização do Estu- nário. 2014. “Enquanto Funai
do do Componente Indígena”. admite orientação para para-
Sítio do Tribunal Regional Fe- lisar demarcações, relatório
deral da Primeira Região. Dis- demonstra efeitos da política
ponível em: <http://trf-1.jusbra- governista”. In: Cimi Notícias.
sil.com.br/noticias/112010609/ Brasília, 19 jul. Disponível em:
trf-determina-a-suspensao-das- <http://www.cimi.org.br/site/
-obras-da-uhe-teles-pires-ate-a- pt-br/?system=news&conteudo_
-realizacao-do-estudo-do-compo- id=7628&action=read> (acesso:
nente-indigena> (acesso: 25 jul. 25 jul. 2014).
2014). Consórcio Nacional Dos Enge-
Brasil. Poder Judiciário. Tribunal nheiros Consultores. 2014.
Regional Federal da Primei- Estudo de Viabilidade do AHE São
ra Região. Seção Judiciária do Luiz do Tapajós. 11 v. e anexos. São
Estado de Mato Grosso. 2014. Paulo.
Decisão. Processo n°0017643- Fanzeres, Andreia. 2013. “Povos
16.2013.4.01.3600. Cuiabá, 28 abr. indígenas da bacia do rio Jurue-
Cernea, Michael M. 1988. Involun- na são preteridos de consulta
tary resettlement in development pro- prévia à emissão de licença em
jects: policy guidelines in World mais uma usina no rio do San-
Bank-financed projects. World gue”. In: Revista Sina. Cuiabá,
Bank Technical Paper, nº80. Wa- 18 jun. Disponível em: <http://

Os planos para hidrelétricas e hidrovias na bacia do Tapajós 91


www.revistasina.com.br/portal/ -for-Brazils-dam-building-attack-
questao-indigena/item/9637-po- -on-Amazonia_-GWF-1210.pdf>
vos-ind%C3%ADgenas-da-bacia- (acesso: 25 jul. 2014).
-do-rio-juruena-s%C3%A3o-prete- ___. 2013. “Carbon credit for hy-
ridos-de-consulta-pr%C3%A9via- droelectric dams as a source of
-%C3%A0-emiss%C3%A3o- greenhouse-gas emissions: the
-de-licen%C3%A7a-em-mais-uma- example of Brazil’s Teles Pires
-usina-no-rio-do-sangue> (acesso: dam”. In: Mitigation and adapta-
25 jul. 2014). tion strategies for global change,
Fearnside, Philip M. 1999. “Social v.18, nº5. Springer, pp. 691-699.
impacts of Brazil’s Tucuruí Dam”. [Versão adaptada em português
In: Environmental Management, v. neste volume.]
24, nº4. Nova York, Springer, pp. ___. 2014a. “Análisis de los princi-
483-495. pales proyectos hidro-energé-
___. 2001. “Soybean cultivation as a ticos en la región amazónica”.
threat to the environment in Bra- In: Gamboa, César; Gudynas,
zil”. In: Environmental Conservation, Eduardo (org.). El futuro de la Ama-
v.28, nº1. Cambridge, Cambridge zonía. Lima/Montevidéu, Dere-
University Press, pp. 23-38. [Ver- cho, Ambiente y Recursos Natu-
são em português disponível em: rales/Centro Latinoamericano de
<http://philip.inpa.gov.br/publ_ Ecología Social. No prelo. [Versão
livres/2006/Soja-Amazonia%20 em português disponível em:
500%20anos.pdf>.] <http://philip.inpa.gov.br/publ_
___. 2006. “Dams in the Amazon: livres/2013/Barragens%20na%20
Belo Monte and Brazil’s hydro- Amazônia_Série_Amazônia%20
electric development of the Xin- Real.pdf>.]
gu river basin”. In: Environmental ___. 2014b. “Impacts of Brazil’s
Management, v.38, nº1. Nova York, Madeira River dams: unlearned
Springer, pp. 16-27. lessons for hydroelectric devel-
___. 2012. “Belo Monte Dam: a spear- opment in Amazonia”. In: Envi-
head for Brazil’s dam building ronmental Science & Policy, v.38.
attack on Amazonia?”. GWF Dis- Elsevier, pp. 164-172.
cussion Paper 1210. Global Water ___. No prelo. “Hidrelétricas na
Forum. Canberra. Disponível em: Amazônia brasileira: questões
<http://www.globalwaterforum. ambientais e sociais”. In: San-
org/wp-content/uploads/2012/04/ chez, Gladys R.S.; Floriani, Di-
Belo-Monte-Dam-A-spearhead- mas; Floriani, Nicolas; Britto,

92 Fearnside
Christian Maciel de (org.). Améri- clima prevê maior impacto,
ca Latina sociedade e meio ambiente: com mais incerteza”. In: Folha de
teorias, retóricas e conflitos em S.Paulo. São Paulo, 31 mar., p. C-5.
desenvolvimento. Curitiba, Edi- Grupo de Trabalho Tapajós; Eco-
tora da Universidade Federal do logy and Environment do
Paraná. Brasil. 2014. Sumário execu-
Fearnside, Philip M.; Pueyo, Sal- tivo. Avaliação ambiental in-
vador. 2012. “Underestimating tegrada da bacia do Tapajós.
greenhouse-gas emissions from 2580-00-AAI-RL-0001-01. Rio de Ja-
tropical dams”. In: Nature Climate neiro, abr. 2014. Disponível em:
Change, v. 2, nº6. Londres, Nature <http://www.grupodeestudos-
Publishing Group, pp. 382-384. tapajos.com.br/site/wp-content/
Finer, Matt; Jenkins, Clinton N. uploads/2014/04/Sumario_AAI.
2012. “Proliferation of hydroelec- pdf> (acesso: 25 jul. 2014).
tric dams in the Andean Amazon Illescas, Gustavo. 2014. “¿Veci-
and implications for Andes-Ama- nos de Hidro Santa Rita firman
zon connectivity”. In: PLoS ONE, acuerdo con la empresa y el go-
v.7, nº4. PLOS. bierno?”. In: Centro de Medios In-
Freitas, Tatiana. 2014. “Exportação dependientes de Guatemala. 4 ago.
de grãos vai dobrar, diz Bunge”. Disponível em: <http://cmiguate.
In: Folha de S.Paulo. São Paulo, 26 org/vecinos-de-hidro-santa-rita-
abr., p. B-2. -firman-acuerdo-con-la-empresa-
Fundação Oswaldo Cruz; Fede- -y-el-gobierno/> (acesso: 10 set.
ração dos Órgãos para Assis- 2014).
tência Social e Educacional. Instituto Humanitas Unisinos.
[2013]. MT: Povos indígenas, pes- 2012. “Movimentos sociais re-
cadores artesanais, ribeirinhos pudiam Medida Provisória que
e agricultores familiares lutam diminui áreas protegidas na
contra Complexo Hidrelétrico Amazônia”. In: IHU Notícias. São
do Teles Pires (tabela). In: Mapa Leopoldo, 31 maio. Disponível
de conflitos envolvendo injustiça am- em: <http://www.ihu.unisinos.
biente e saúde no Brasil. Disponível br/noticias/510033-movimentos-
em: <http://www.conflitoam- -sociais-e-organizacoes-da-socie-
biental.icict.fiocruz.br/index. dade-civil-lancam-carta-de-repu-
php?pag=ficha&cod=426> (aces- dio-a-medida-provisoria-que-di-
so: 25 jul. 2014). minui-areas-protegidas-na-ama-
Garcia, Rafael. 2014. “Painel do zonia> (acesso: 25 jul. 2014).

Os planos para hidrelétricas e hidrovias na bacia do Tapajós 93


Instituto Socioambiental. 2013. Pará, Brazil”. In: Science of the Total
“Dilma homologa terra indí- Environment, v.175, nº2. Elsevier,
gena Kayabi (MT/PA) em meio pp. 119-125.
a atritos por causa de hidrelé- Lessa, Fátima. 2012. “Justiça man-
tricas”. In: Notícias direto do ISA, da parar obras de Teles Pires”.
26 abr. Disponível em: <http:// In: O Estado de S. Paulo. São Paulo,
www.socioambiental.org/pt-br/ 28 mar. Disponível em: <http://
noticias-socioambientais/dilma- www.estadao.com.br/noticias/
-homologa-terra-indigena-kaya- impresso,justica-manda-parar-
bi-mtpa-em-meio-a-atritos-por- -obras-de-teles-pires-,854290,0.
-causa-de> (acesso: 25 jul. 2014). htm> (acesso: 25 jul. 2014).
___. 2014. “Estado brasileiro é Lourenço, Luana. 2014. “MPF pro-
denunciado na OEA por ain- cessa União e Funai por demora
da usar lei da ditadura mili- na demarcação de terra indígena
tar”. In: Notícias direto do ISA, 28 no Pará”. In: Agência Brasil. Bra-
mar. Disponível em: <http:// sília, 26 maio. Disponível em:
www.socioambiental.org/pt-br/ <http://www.ebc.com.br/noti-
noticias-socioambientais/estado- cias/brasil/2014/05/mpf-processa-
-brasileiro-e-denunciado-na-oea- -uniao-e-funai-por-demora-na-de-
-por-ainda-usar-lei-da-ditadura- marcacao-de-terra-indigena-no>
-militar> (acesso: 25 jul. 2014). (acesso: 25 jul. 2014).
Kahn, James R.; Freitas, Carlos E.; Macrologística; Federação das
Petrere, Miguel. 2014. “False Indústrias da Amazônia Legal.
shades of green: the case of Bra- 2011. Sumário executivo. Projeto
zilian Amazonian hydropower”. Norte Competitivo. Brasília. Dis-
In: Energies, v.7. Basileia, MDPI, ponível em: <http://www.macro-
pp. 6063-6082. logistica.com.br/images/stories/
Kemenes, Alexandre; Forsberg, palestras/Projeto%20Norte%20
Bruce R.; Melack, John M. 2007. Competitivo%20-%20Apresen-
“Methane release below a tro- tação%20Executiva%20no%20
pical hydroelectric dam”. In: Ministério%20do%20Planejamen-
Geophysical Research Letters, v.34. to%20-%20Agosto%202011.pdf>
Washington, D.C., American (acesso: 25 jul. 2014).
Geophysical Union. Manifesto Kayabi, Apiaká e Mun-
Leino, Tuija; Lodenius, Martin. duruku contra os aproveita-
1995. “Human hair mercury le- mentos hidrelétricos no Rio
vels in Tucuruí area, state of Teles Pires. Terra Indígena Ka-

94 Fearnside
yabi, 1 dez. 2011. Disponível em: ___. 2013a. “Hidrelétrica São Manoel:
<http://www.cimi.org.br/site/pt- cronologia de mais um desastre”
-br/?system=news&action=read& (parte I). In: Correio da Cidadania.
id=6008> (acesso: 25 jul. 2014). São Paulo, 15 ago. Disponível em:
McCully, Patrick. 2001. Silenced riv- <http://www.correiocidadania.
ers: the ecology and politics of com.br/index.php?option=com_
large dams. Ed. rev. ampl. Nova content&view=article&id=8728:s
York, Zed Books. ubmanchete150813&catid=32:m
Millikan, Brent. 2011. Dams and eio-ambiente&Itemid=68> (aces-
hidrovias in the Tapajos basin of so: 25 jul. 2014).
Brazilian Amazonia: dilemmas ___. 2013b. “Hidrelétrica São Ma-
and challenges for Nether- noel: cronologia de mais um
lands-Brazil relations. Interna- desastre” (parte II). In: Correio
tional Rivers Technical Report. da Cidadania. São Paulo, 19 ago.
Berkeley, International Rivers. Disponível em: <http://www.
Disponível em: <http://www. correiocidadania.com.br/index.
bothends.org/uploaded_files/in- php?option=com_content&view
lineitem/41110615_Int_Rivers_re- =article&id=8746:submanchete
port_Tapajos.pdf> (acesso: 25 jul. 190813&catid=75:telma-montei
2014). ro&Itemid=192> (acesso: 25 jul.
___. 2012. Comments to PJRCES 2014).
on the Teles Pires Hydropower Oliver-Smith, Anthony (org.). 2009.
Project (Brazil). Submission by Development and dispossession: the
International Rivers to the Perry crisis of development forced
Johnson Registrars Carbon Emis- displacement and resettlement.
sions Services on the Teles Pires Londres, SAR Press.
Hydropower Project. Brasília, ___. 2010. Defying displacement: grass-
22 fev. Disponível em: <http:// roots resistance and the critique
www.internationalrivers.org/ of development. Austin, Univer-
node/7188> (acesso: 25 jul. 2014). sity of Texas Press.
Monteiro, Telma. 2011. “Três hidre- Ortiz, Fabíola. 2013. “Índios Mun-
létricas ameaçam indígenas no duruku vão à Brasília contra usi-
rio Teles Pires”. 22 ago. Disponí- nas no Tapajós”. In: O Eco. 12 dez.
vel em: <http://telmadmonteiro. Disponível em: <http://www.
blogspot.com.br/2011/08/tres-hi- oeco.org.br/noticias/27850-in-
dreletricas-ameacam-indigenas- dios-munduruku-vao-a-brasilia-
-no.html> (acesso: 25 jul. 2014). -contra-usinas-no-tapajos> (aces-

Os planos para hidrelétricas e hidrovias na bacia do Tapajós 95


so: 25 jul. 2014). se crítica do estudo de impacto
Prudente, Antônio Souza. 2013. “O ambiental do aproveitamento hi-
terror jurídico-ditatorial da sus- drelétrico de Belo Monte. Belém.
pensão de segurança e a proibi- Scudder, Thayer. 2006. The future of
ção do retrocesso no Estado de- large dams: dealing with social,
mocrático de direito”. In: Revista environmental, institutional and
Magister de Direito Civil e Processual political costs. Londres/Sterling,
Civil, v.10, nº55. São Paulo, Lex Earthscan.
Magister, pp. 108-120. Disponível Tundisi, José Galizia; Goldemberg,
em: <http://www.icjp.pt/sites/de- José; Matsumura-Tundisi, Taka-
fault/files/papers/o_terror_juridi- ko; Saraiva, Augusto C.F. 2014.
co_completo.pdf> (acesso: 25 jul. “How many more dams in the
2014). Amazon?” In: Energy Policy, v.74.
___. 2014. “A suspensão de seguran- Elsevier, pp. 703-708.
ça como instrumento agressor Val, Adalberto L.; Almeida-Val, Vera
dos tratados internacionais”. In: M.F.; Fernside, Philip M.; San-
Revista Justiça e Cidadania, nº165. tos, Geraldo M.; Piedade, Maria
Rio de Janeiro, Instituto Justi- Teresa F.; Junk, Wolfgang; No-
ça e Cidadania. Disponível em: zawa, Sergio R.; Silva, Solange
<http://www.editorajc.com. T.; Dantas, Fernando A.C. 2010.
br/2014/05/suspensao-seguranca- “Amazônia: recursos hídricos e
-instrumento-agressor-tratados- sustentabilidade”. In: Bicudo,
-internacionais/> (acesso: 25 jul. Carlos E.M; Tundisi, José Gali-
2014). zia; Scheuenstuhl, Marcos C.B.
Ross, Kate. 2012. “Community lea- (org.). Águas do Brasil: análises es-
der and defender of the Soga- tratégicas. São Paulo, Academia
moso river disappears”. Sítio da Brasileira de Ciências/Instituto
International Rivers. Berkeley, de Botânica, pp. 95-109.
12 nov. 2012. Disponível em: World Commission on Dams. 2000.
<http://www.internationalrivers. Dams and development: a new fra-
org/blogs/259/community-leader- mework for decision-making:
-and-defender-of-the-sogamoso- the report of World Commis-
-river-disappears> (acesso: 26 jul. sion on Dams. Londres/Sterling,
2014). Earthscan.
Santos, Sônia M.S.B.M.; Hernan- Wwf Brasil. 2012. “Construção de
dez, Francisco del Moral (org.). hidrelétricas ameaça rio Tapa-
2009. Painel de especialistas: análi- jós”. In: WWF Notícias, 11 fev. Dis-

96 Fearnside
ponível em: <http://www.wwf. Yan, Katy. 2013. “World water day
org.br/informacoes/sala_de_im- marked by death of Indigenous
prensa/?30562/construo-de- anti-dam protester”. Sítio da In-
-hidreltricas-ameaa-rio-tapajs> ternational Rivers. Berkeley, 4
(acesso: 25 jul. 2014). abr. 2013. Disponível em: <http://
___. 2014. “Hidrelétricas podem www.internationalrivers.org/
alagar parque nacional na Ama- blogs/246/world-water-day-mar-
zônia”. 5 jun. Disponível em: ked-by-death-of-indigenous-anti-
<http://amazonia.org.br/2014/06/ -dam-protester> (acesso: 26 jul.
hidrel%c3%a9tricas-podem- 2014).
-alagar-parque-nacional-na-
-amaz%c3%b4nia/> (acesso: 25
jul. 2014).

Os planos para hidrelétricas e hidrovias na bacia do Tapajós 97


Tapajós
Do rio à luz
Wilson Cabral de Sousa Júnior

A
bacia do Tapajós é, no que diz A ocupação humana na bacia
respeito a paisagens, ecossis- tem duas vertentes: os índios, de et-
temas e ocupação, uma re- nias diversas, com predominância
gião singular. Sobre embasamento dos Munduruku, ao longo de toda
cristalino, que confere transparên- a calha do rio; e os portugueses,
cia às águas, a bacia é uma das mais os quais, desde meados do século
conservadas da região amazônica, XVII, estabeleceram ali suas posses,
ainda que sofra pressões antrópicas tendo adentrado pela foz do Tapa-
de sul a norte, em boa parte orien- jós, no rio Amazonas. No entanto, a
tadas para exploração de madeira e densidade da floresta e a dinâmica
extração mineral. A ocorrência de do rio – que dificulta a navegação
ambientes transicionais, bem como para embarcações maiores – foram
o próprio curso e dinâmica do rio, fatores que contribuíram para uma
estabelecem uma extensa varieda- baixa ocupação na bacia, situação
de de hábitats, os quais suscitam, que perdurou até a descoberta de
promovem e amparam uma grande ouro em maiores concentrações e
diversidade biológica. A escolha de de outros minerais de interesse, já
áreas extensas na bacia para fins de no início do século XX. A explora-
conservação da biodiversidade, seja ção mineral marcou a região do bai-
em unidades de proteção integral, xo Tapajós e, sobreposta a um pas-
seja em áreas para modelos explo- sado de exploração da borracha e às
ratórios sustentáveis, é, portanto, pressões mais recentes da explora-
fartamente justificada. ção de madeira e agropecuária, dão

99
conformação à atual organização infraestrutura. Em outras palavras,
sociopolítica regional. um determinado empreendimento
Nesse contexto, caracterizado – como uma UHE – não é ambien-
ainda por uma baixa capacidade talmente sustentável se a justifica-
regulatória do Estado, projeta-se a tiva para sua implantação não se
implantação de um complexo hi- ampara em uma base crível de sus-
drelétrico de grandes proporções, tentabilidade. No caso brasileiro,
composto de um arranjo de cin- embora em termos médios nosso
co usinas hidrelétricas (UHEs) de consumo de eletricidade per capita
médio e grande porte, o comple- seja baixo, quando comparado a ou-
xo hidrelétrico do Tapajós (CHT). tros países mais desenvolvidos, ain-
Anunciado como uma solução am- da há grande ineficiência no uso da
bientalmente sustentável, anco- energia. Nesse sentido, cabe ques-
rada em um conceito abstrato de tionar: quanto poderíamos avançar
“usinas-plataforma”, o projeto pode na eficiência energética? Quanto o
suscitar – e consolidar – um deter- aumento da eficiência refletiria no
minado modelo de exploração da provimento da demanda, de forma a
região, que incorpora outras frentes permitir uma amortização do inves-
de infraestrutura (estradas, hidro- timento em novas fontes? E mais:
via, portos, mineração) e está longe assumindo alcançarmos um pata-
da sustentabilidade. mar razoável de eficiência energé-
Este texto discute a atual neces- tica e havendo ainda demanda por
sidade de projetos de geração hidre- novas fontes, quais outras fontes
létrica na Amazônia, em especial poderiam ser consideradas? Quais
aqueles associados à bacia do Tapa- estariam envolvidas em um contex-
jós, e apresenta elementos de análi- to de maior sustentabilidade?
se do CHT e seu contexto, com vis- De maneira geral, é lícito estabe-
tas a subsidiar uma ampliação das lecer que o crescimento econômi-
discussões em torno do projeto e da co de um país provoque também o
política energética nacional. crescimento da demanda por ener-
gia, como ocorre no Brasil. Diante
Demanda de energia: a âncora da dessa assertiva, a projeção da de-
sustentabilidade manda energética anual é baseada
Um modelo de exploração que se in- no crescimento do Produto Interno
titula “sustentável” não pode desco- Bruto (PIB) nacional. Essa relação
nhecer a origem das demandas por tem sido utilizada para direcionar
novas fontes de energia e frentes de as políticas públicas de instalação

100 Sousa Júnior


e ampliação da capacidade gera- para valores menores que 1, como
dora de energia elétrica no país e apontado no Plano Decenal de Ex-
justificar os projetos de instalação pansão de Energia (PDE) 2020 (Bra-
de grandes UHEs e/ou complexos sil, Ministério de Minas e Energia,
hidrelétricos na região amazônica, Empresa de Pesquisa Energética,
alvo da fronteira energética atual. 2011), acabam menosprezadas nas
No caso brasileiro, o aumento da projeções de expansão do consumo.
renda e da disponibilidade de ener- Sousa Júnior et al. (2014) apresentam
gia para novos consumidores, como uma compilação de estudos de pro-
resultados de políticas públicas in- jeção de demanda de energia elétri-
clusivas, são as variáveis mais utili- ca, cuja análise aponta para um su-
zadas para explicar essa ampliação perdimensionamento da demanda
da demanda de energia elétrica. nos casos avaliados, com destaque
No entanto, conforme indicam para a projeção utilizada no plane-
Sousa Júnior et al. (2014), essa rela- jamento oficial. Os números apon-
ção entre crescimento econômico e taram diferença entre o consumo
ampliação do consumo de energia estimado e o real da ordem de 10%
elétrica é questionável sob vários para o setor industrial, 20% para o
aspectos. De antemão, embora não setor comercial e até 30% para o se-
haja grande dissenso em relação tor residencial.
à associação entre uma variável e Por outro lado, do ponto de vis-
outra, há que se compreender me- ta tecnológico, Totten et al. (2010)
lhor a relação numérica assumida. apontam que, à medida que um
Por outro lado, questiona-se a op- país alcança melhores indicadores
ção estratégica de desenvolvimento de desenvolvimento, tende-se a
econômico, lastreada em um pacote reduzir a elasticidade-renda da de-
de produtos energo-intensivos e de manda de energia elétrica, e o in-
baixo valor agregado (é o caso das vestimento em usos mais eficientes
commodities minerais e agrícolas), o amplia as possibilidades de redução
que faz com que essa relação atinja do consumo de energia elétrica por
proporções próximas à unidade, ou unidade de PIB. Estudos da organi-
seja, um crescimento de 1% no PIB zação World Wildlife Fund (2006)
gera uma demanda de expansão de já apontavam a possibilidade de re-
1% na oferta de eletricidade. No pla- dução de cerca de 38% no consumo
nejamento do setor elétrico brasi- de energia elétrica no país, a partir
leiro, previsões de redução da razão de investimentos em uso eficiente.
de elasticidade-renda da demanda Os trabalhos de Sousa Júnior et al.

Tapajós: do rio à luz 101


(2014) estendem-se na direção da benefícios e dos fatores distributi-
proposição de uma matriz elétrica vos – quem paga a conta e quem se
mais sustentável. Como postulado beneficia –, podendo subsidiar a to-
pelos autores, o investimento em mada de decisão em uma base mais
energia solar fotovoltaica e eólica, a justa para a sociedade.
partir de sistemas distribuídos, po- No entanto, essas análises, quan-
deria ser o lastro de uma mudança do realizadas pelo poder público
significativa para uma matriz elétri- no Brasil, têm sido enviesadas por
ca de menor impacto geral, o que diversos interesses, muitos deles
exigiria também redução do consu- associados a grupos privados que
mo agregado de energia elétrica. apoiam partidos e políticos de
Tais considerações indicam que acordo com conveniências pouco
uma revisão sistemática da metodo- transparentes. No caso específico
logia utilizada para projetar o com- de obras na região amazônica, as
portamento da demanda por ener- dificuldades em se realizar estima-
gia elétrica poderia apontar para tivas orçamentárias – dada a carên-
uma redução na necessidade de cia de mão de obra e infraestrutura
expansão da oferta de eletricidade de apoio – tornam o exercício ain-
e, consequentemente, poder-se-ia da mais complicado. Estudos que
reavaliar os investimentos em gran- avaliaram a viabilidade de arranjos
des projetos de geração de energia construtivos, seus riscos e externali-
na Amazônia. dades para o complexo hidrelétrico
de Belo Monte (Sousa Júnior et al.,
Analisando o projeto do CHT 2006; Sousa Júnior & Reid, 2010)
A viabilidade técnica e econômica apontaram erros de previsão orça-
de grandes projetos de infraestru- mentária e projeção de cenários,
tura é um dos elementos que po- que conduziram a resultados de
deriam contribuir para um melhor viabilidade completamente equivo-
planejamento da expansão do setor. cados. A implantação do complexo,
Uma boa análise de viabilidade, em a partir de uma decisão governa-
bases críveis e com a incorporação mental baseada em um estudo de
das chamadas externalidades, da- viabilidade falho, demonstrou essas
ria ao gestor público, especialmen- incorreções à medida que as obras
te quando se discute a geração de avançaram: as estimativas iniciais
eletricidade, uma referência quali- de custos de implantação foram su-
ficada acerca do melhor arranjo de peradas em cerca de 300%. E atual-
investimentos à luz de custos reais, mente se discute a dilatação do pra-

102 Sousa Júnior


zo de construção, um dos fatores de Ainda avaliando custos e benefí-
risco analisados pelos autores, que cios do CHT, porém sob a perspecti-
poderia conduzir à inviabilidade do va da ecologia de sistemas, Sinisgalli
empreendimento. e Jericó-Daminello (2014) desenvol-
Em estudo mais recente, sobre o veram uma avaliação de custos e be-
CHT, Sousa Júnior et al. (2014), em nefícios “emergéticos”, para a qual
análise semelhante, constataram foram utilizadas funções de “eMer-
problemas da mesma ordem. Se- gia”. Em síntese, esse método busca
gundo os autores, o empreendimen- avaliar a história energética dos ele-
to seria inviável sob os dois cenários mentos que compõem o empreen-
analisados (ver tabela 1). dimento, uniformizando as unida-
A partir das premissas analisa- des de matéria e energia sob uma
das, no cenário mais otimista para a mesma racionalidade, de forma a
ótica do empreendedor (cenário 1), o possibilitar sua comparação e inte-
prejuízo seria da ordem de US$ 1,6 gração. Os autores também aponta-
bilhão. Em um cenário mais realista ram a inviabilidade (custos em ter-
(cenário 2), em razão da subestimativa mos “emergéticos” superiores aos
de custos de implantação e de prazos benefícios da geração de energia
de construção, o prejuízo chegaria a elétrica) de todas as cinco UHEs pre-
1. Conforme ressalva
cerca de US$ 10 bilhões. Os autores vistas, analisadas caso a caso. dos próprios autores,
também trouxeram à tona alguns Do ponto de vista da gestão dos muitos serviços
ecossistêmicos e
custos socioambientais, que seriam recursos públicos, a baixa qualidade valores sociais foram
externalidades do projeto, os quais dos estudos de viabilidade pode ser desconsiderados na
análise, em função da
atingiriam, em ambos os cenários, desastrosa, conquanto possibilita
ausência de dados e/
cerca de US$ 400 milhões, com pre- investimentos ineficientes, quando ou metodologias de
domínio dos valores associados às não ineficazes, além de se incorrer valoração consolidadas,
o que torna o custo
emissões de carbono e aos custos de em uma série de externalidades socioambiental
oportunidade do uso da terra1. (custos sociais) que pressionarão subestimado.

Tabela 1. Resultados da análise de viabilidade do complexo hidrelétrico


do Tapajós

Parâmetros Cenário 1 Cenário 2


Valor presente líquido - VPL (US$ milhões) -1.586 -9.882
Taxa interna de retorno - TIR (%) 9,17% 5,15%
Custos socioambientais (US$ milhões) 391

Fonte: Sousa Júnior & Ribeiro (2014: 112).

Tapajós: do rio à luz 103


os recursos públicos em outra pon- sustentáveis”, conforme o colorido
ta, transferindo para a sociedade o encarte amplamente divulgado na
ônus agregado desses impactos. região da bacia do rio Tapajós sob
o título “Hidrelétricas do Bem”. No
UHEs e outras frentes de entanto, pouco se conhece em seus
infraestrutura: efeitos cumulativos detalhes, o que se pretende concei-
e sinérgicos tuar como Usina-Plataforma. [...] A
O CHT compõe-se de um arranjo ausência de maiores detalhes com
inicial com cinco UHEs de médio respeito às informações sobre custos
e grande porte distribuídas no alto e logística acaba por transformar o
Tapajós. Por se tratar de uma área conceito das usinas-plataforma em
propensa à conservação da biodiver- mera peça de propaganda, acarre-
sidade e que, justamente por essa tando completo descrédito em rela-
razão, foi objeto da implantação de ção às suas intenções.
unidades de conservação (UCs) com
finalidades complementares entre A região do baixo Tapajós é tam-
si, a construção de UHEs nessa re- bém objeto de outros investimentos
gião é potencialmente impactante. em infraestrutura: a pavimentação
Nessa perspectiva, o contexto no da rodovia BR-163 (Cuiabá-Santa-
qual se inseririam cinco UHEs en- rém), a construção de portos e es-
volve uma enorme expectativa em truturas de transbordo em Itaituba,
torno dos impactos socioambien- e a expansão das atividades de ex-
tais. A possibilidade de minimiza- ploração mineral. Tal fato exigiria
ção desse potencial impacto a par- uma análise conjunta dos fatores de
tir da racionalidade das chamadas pressão antrópica para fins de ava-
usinas-plataforma é questionável. liação ambiental e decisão sobre os
Como indicam Ribeiro et al. (2014: investimentos. No entanto, o licen-
97-98), ciamento ambiental tem sido uti-
lizado como ferramenta estanque,
Anunciadas como a grande revolu- de avaliação projeto a projeto, com
ção na construção de usinas hidre- pouca ou nenhuma consideração
létricas na Amazônia, as “usinas- pelo contexto regional e de múlti-
-plataforma” foram apresentadas plos empreendimentos. Tendo em
como um novo conceito de constru- vista essa lacuna, Inouye et al. (2014)
ção e operação de hidrelétricas a ser apresentaram resultados de uma
adotado pela Eletrobras para tornar análise de dinâmica espacial com-
esses empreendimentos “ainda mais preensiva, envolvendo as frentes

104 Sousa Júnior


de infraestrutura para a região. O
estudo considerou cenário no qual
se projeta sobre a região a mesma
pressão de desmatamento verifica-
da nos arredores do sítio de obras
do complexo hidrelétrico de Belo
Monte. O resultado visual é apre-
sentado na imagem 1.
Segundo os autores, essas pres-
sões poderiam dobrar a área des-
matada na região até o ano de 2030,
considerando a projeção da cena de
Belo Monte. No mesmo trabalho, os
autores apresentam informações
sobre possíveis pressões por desma-
tamento nas UCs e terras indígenas
(TIs) localizadas na região (tabela 2).
Análise semelhante foi desenvol-
vida por Barreto et al. (2014), consi-
derando também a porção mais ao
sul da bacia do Tapajós. O estudo
projetou o impacto de desmata-
mento sobre a região a partir da
construção de 12 UHEs, ampliando
a área considerada nos estudos de
Inouye et al. (2014). Os resultados
apresentados pela equipe indicam UCs, além de gerar pressões sobre Imagem 1. Projeção
de desmatamento
um poder de atração de cerca de TIs e povos indígenas, afetando seus para 2030 na região
63 mil imigrantes permanentes até modos de vida, crenças, instituições de implantação do
complexo hidrelétrico
2032, gerando uma pressão por des- e cosmologia. Tal pressão pode ain-
do Tapajós. Fonte:
matamento da ordem de 950.900 da colocar em risco um importan- Inouye et al. (2014: 139).
hectares no decorrer dos próximos tíssimo patrimônio cultural, histó-
20 anos. rico e arqueológico, cujos valores
A construção de projetos hidre- deveriam ser considerados no âmbi-
létricos e outras obras de infraes- to da tomada de decisão sobre tais
trutura na região do Tapajós pode empreendimentos.
trazer impactos significativos sobre

Tapajós: do rio à luz 105


Tabela 2. Impacto potencial sobre unidades de conservação (UCs) e terras
indígenas - TIs (projeção de desmatamento em 2030)

Área afetada
Classificação da Área afetada
Área (quilômetros
área (% da UC ou TI)
quadrados)

Área de Proteção Ambiental (APA)


Desafetada 92,85 0,46
do Tapajós

Floresta Nacional (Flona) Itaituba I Desafetada 0,46 0,02

Flona de Itaituba II Desafetada 49,64 1,25

Flona do Crepori Desafetada 4,80 0,06

Parque Nacional (Parna) da Amazônia Desafetada 54,72 0,51

Flona Altamira Não desafetada 84,92 1,17

Flona do Amanã Não desafetada 15,55 0,29

Flona do Jamaxim Não desafetada 3.145,29 24,17

Flona do Tapajós Não desafetada 865,89 15,76

Flona do Trairão Não desafetada 107,30 4,17

Parna do Jamanxim Não desafetada 901,99 10,49

Parna do Juruena Não desafetada 15,22 0,08

Parna do Rio Novo Não desafetada 384,92 7,16

Reserva Extrativista (Resex)


Não desafetada 0,94 0,01
Riozinho do Anfrisio

Resex Tapajós-Arapiuns Não desafetada 1.070,80 15,88

Kayabi TI 11,87 0,10

Munduruku TI 3.796,10 15,92

Sai-Cinza TI 194,69 15,59

Total 6.807,17

Fonte: adaptado de Inouye et al. (2014: 145).

Considerações finais tos tanto no aumento da eficiência


Como demonstrado no decorrer da demanda, quanto na expansão
do texto, há um amplo espectro de da oferta sobre modais como a ener-
ações que poderiam tornar mais gia eólica e solar. Essas duas moda-
sustentável nosso uso de eletricida- lidades, associadas às possibilidades
de, com a realização de investimen- de redes inteligentes de energia, po-

106 Sousa Júnior


deriam contribuir para um avanço setor público, na bacia do Tapajós.
da matriz elétrica do país rumo à Esse debate deveria incorporar a
sustentabilidade. busca por eficiência energética, a
Tais ações e investimentos pode- geração de energia com menores
riam contribuir para uma reflexão impactos socioambientais e o con-
sobre os grandes empreendimen- sumo sustentável, como critério
tos hidrelétricos projetados para a para decisões de uma sociedade que
região amazônica e, em especial, a valoriza a sustentabilidade em seu
cena da bacia do Tapajós. As infor- modus vivendi.
mações e a discussão apresentadas
neste texto lançam um questiona- [artigo concluído em julho de 2014]
mento sobre esses projetos e seu
contexto, sob diversos pontos de Referências bibliográficas
vista. Barreto, Paulo; Brandão Júnior,
Em resumo, o CHT, assim como Amintas; Silva, Sara B.; Souza
os outros grandes empreendimen- Júnior, Carlos. 2014. “O risco de
tos hidrelétricos na Amazônia, ten- desmatamento associado a doze
de a aumentar as pressões sobre os hidrelétricas na Amazônia”. In:
ambientes conservados da região. Sousa Júnior, Wilson C. (org.).
Se somados os efeitos sinérgicos Tapajós: hidrelétricas, infraestru-
com outros empreendimentos pro- tura e caos: elementos para a go-
jetados para a região (mineração, vernança da sustentabilidade em
estradas, portos, dentre outros), as uma região singular. São José dos
perdas são multiplicadas e podem Campos: ITA/CTA, pp. 147-173.
vir a se transformar em passivos Brasil. Ministério de Minas e Ener-
cujos ônus recairiam sobre a socie- gia. Empresa de Pesquisa Energé-
dade de modo geral. Há inclusive tica. 2011. Plano Decenal de Expan-
o risco de dupla penalidade: a do são de Energia 2020. 2 v. Brasília.
investimento ineficiente, quando Disponível em: <http://www.epe.
não ineficaz, e as externalidades gov.br/PDEE/20111229_1.pdf>
que se transformam em passivos (acesso: 21 maio 2014).
socioambientais. Inouye, Carlos E.N.; Sousa Júnior,
É oportuno ressaltar, portanto, Wilson C.; Pavani, Bruna F. 2014.
a importância de se estabelecer um “Energia, estradas, mineração:
debate aberto e informado sobre a efeitos sinérgicos de projetos de
conveniência dos investimentos, infraestrutura na região do mé-
principalmente os de origem do dio e baixo Tapajós”. In: Souza

Tapajós: do rio à luz 107


Júnior, Wilson C. (org). Tapajós: Amazon hydropower develop-
hidrelétricas, infraestrutura e ment: risk scenarios and envi-
caos: elementos para a gover- ronmental issues around the
nança da sustentabilidade em Belo Monte dam”. In: Water Alter-
uma região singular. São José dos natives, v.3, nº2, pp. 249-268.
Campos, ITA/CTA, pp. 133-146. Sousa Júnior, Wilson C.; Reid,
Ribeiro, Thiago C.L.; Bermann, John; Leitão, Neidja C.S. 2006.
Célio; Sousa Júnior, Wilson C. Custos e benefícios do Complexo Hi-
2014. “Complexo Hidrelétrico do drelétrico de Belo Monte: uma abor-
Tapajós: dados, contexto e aná- dagem econômico-ambiental.
lise”. In: Sousa Júnior, Wilson Série técnica, nº4. Brasília, Con-
C. (org). Tapajós: hidrelétricas, servation Strategy Fund.
infraestrutura e caos: elementos Sousa Júnior, Wilson C.; Ribeiro,
para a governança da sustentabi- Thiago C. 2014. “Análise econô-
lidade em uma região singular. mico-ambiental do Complexo
São José dos Campos, ITA/CTA, Hidrelétrico do Tapajós”. In: Sou-
pp. 87-98. sa Júnior, Wilson C. (org). Tapa-
Sinisgalli, Paulo A.A.; Jericó-Dami- jós: hidrelétricas, infraestrutura
nello, Camila. 2014. “Análise de e caos: elementos para a gover-
custos e benefícios do Comple- nança da sustentabilidade em
xo Hidrelétrico do Tapajós sob uma região singular. São José dos
a ótica ecológica e econômica Campos, ITA/CTA, pp. 101-117.
da eMergia”. In: Sousa Júnior, Sousa Júnior, Wilson C.; Zanetti,
Wilson C. (org). Tapajós: hidre- Vitor B.; Vieira, Bruna C.; San-
létricas, infraestrutura e caos: tos, Lídya B.; Tschöke, Gabriele
elementos para a governança da V.; Pacher, Gabriel V.; Ramos,
sustentabilidade em uma região Carolina L.O.; Pimentel, Marcio
singular. São José dos Campos, A.S. 2014. “Desafios e proposi-
ITA/CTA, pp. 119-130. ções para a sustentabilidade da
Sousa Júnior, Wilson C. (org.). 2014. matriz elétrica brasileira”. In:
Tapajós: hidrelétricas, infraestru- Sousa Júnior, Wilson C. (org).
tura e caos: elementos para a go- Tapajós: hidrelétricas, infraes-
vernança da sustentabilidade em trutura e caos: elementos para
uma região singular. São José dos a governança da sustentabilida-
Campos, ITA/CTA. de em uma região singular. São
Sousa Júnior, Wilson C.; Reid, José dos Campos, ITA/CTA, pp.
John. 2010. “Uncertainties in 63-85.

108 Sousa Júnior


Totten, Michael P.; Killeen, Timo- World Wildlife Fund. 2006. Agen-
thy J.; Farrell, Tracy A. 2010. da elétrica sustentável 2020: estudo
“Non-dam alternatives for de- de cenários para um setor elétri-
livering water services at least co brasileiro eficiente, seguro e
cost and risk”. In: Water Alternati- competitivo. Série técnica, v.12.
ves, v.3, nº2, pp. 207-230. Brasília, WWF Brasil.

Tapajós: do rio à luz 109


Estudos de inventário:
Características de uma fase inicial e decisiva do
planejamento de hidrelétricas na bacia do Tapajós
Brent Millikan

A
s decisões políticas sobre questões de transparência e parti-
quais barragens serão cons- cipação da sociedade civil, compa-
truídas no Brasil – tanto usi- tibilidade com a legislação sobre o
nas hidrelétricas (UHEs) de maior meio ambiente e direitos humanos,
porte como pequenas centrais hi- e articulação com outras políticas
drelétricas (PCHs) – têm se basea- territoriais.
do, em grande medida, em estudos
de inventário de bacia hidrográfica Estudos de inventário: arcabouço
realizados pelo setor elétrico do legal e normativo
governo federal em conjunto com Os fundamentos legais para a rea-
empresas privadas. Assim, com- lização de estudos de inventário de
preender como esses estudos são bacia hidrográfica têm como base,
realizados e aprovados é fundamen- atualmente, a Lei nº9.074, de 7 de
tal para entender como tem ocorri- julho de 1995, que estabelece “nor-
do o planejamento de barragens na mas para outorga e prorrogações
bacia do Tapajós. das concessões e permissões de
Este artigo analisa algumas ca- serviços públicos e dá outras provi-
racterísticas-chave da realização de dências”. O parágrafo 2º do artigo 5º
estudos de inventário e avaliação dessa lei determina que “nenhum
ambiental integrada (AAI) na bacia aproveitamento hidrelétrico pode-
hidrográfica do Tapajós, com en- rá ser licitado sem a definição do
foque na identificação de critérios ‘aproveitamento ótimo’ pelo poder
adotados para a tomada de decisões, concedente”, ao passo que o pará-

111
grafo 3º considera “aproveitamen- Ao longo das últimas décadas, a
1. Segundo a Eletrobras, to ótimo” como “todo potencial maioria dos estudos de inventário
o manual de 1997 foi
o resultado de uma
definido em sua concepção global de bacia hidrográfica foi elaborada
“criteriosa revisão pelo melhor eixo do barramento, pela Eletrobras e suas filiadas, em
apoiada no Manual de arranjo físico geral, níveis d’água conjunto com grandes empreiteiras,
Inventário Hidrelétrico
de Bacias Hidrográficas, operativos, reservatório e potência, a exemplo da Camargo Corrêa S.A.,
de 1984[,] e no Plano integrante da alternativa escolhida e empresas de consultoria, como
Diretor de Meio
Ambiente do Setor
para divisão de quedas de uma ba- a CNEC2. A Resolução nº393/1998,
Elétrico Brasileiro, cia hidrográfica”. em seu artigo 3º, determinou que
de 1991”. Ver <http://
Em novembro de 1997, as Cen- “os estudos de inventário hidrelé-
www.eletrobras.
com/elb/data/Pages/ trais Elétricas do Brasil S.A. (Ele- trico serão realizados diretamente
LUMIS4AB3DA57PTBRIE. trobras) publicaram o Manual de pela Aneel, ou por terceiros, após
htm> (acesso: 5 jun.
2015).
inventário hidroelétrico de bacias hi- o necessário registro, segundo os
drográficas, com orientações téc- procedimentos estabelecidos nes-
2. Criada em 1959 nicas para a realização de estudos ta Resolução”3. A partir da criação
por professores da
voltados para o “aproveitamento da Empresa de Pesquisa Energética
Escola Politécnica
da Universidade de ótimo” dos rios, ou seja, para ma- (EPE), em 2004, vinculada ao Mi-
São Paulo (USP), a ximizar o potencial de geração de nistério de Minas e Energia (MME),
empresa de consultoria
denominada energia elétrica1. No ano seguinte, essa também passou a participar da
Consórcio Nacional a recém-criada Agência Nacional elaboração de estudos de inventário
de Engenheiros
Consultores (CNEC) foi
de Energia Elétrica (Aneel) aprovou hidrelétrico4.
incorporada, dez anos a Resolução nº393, de 4 de dezem- Apesar dos avanços significati-
depois, pelo grupo bro de 1998, que estabeleceu “pro- vos na legislação ambiental ocor-
Camargo Corrêa. Em
2010, foi adquirida cedimentos gerais para registro e ridos durante as décadas de 1980 e
pelo grupo australiano aprovação dos estudos de inventá- 1990 – como a Lei nº6.938/1981 (Po-
WorleyParsons;
atualmente, chama-se
rio hidrelétrico de bacias hidrográ- lítica Nacional de Meio Ambiente),
CNEC WorleyParsons ficas”. No artigo 1º dessa resolução, a Resolução nº01/1986 do Conselho
Engenharia S.A.
a Aneel conceituou como inventá- Nacional do Meio Ambiente (Co-
3. A Resolução rio hidrelétrico “a etapa de estudos nama), os artigos 23, 24 e 225 da
nº393/1998 determinou
de engenharia em que se define o Constituição Federal de 1988, e a
ainda que, “caso os
aproveitamentos potencial hidrelétrico de uma ba- Lei nº9.433/1997 (Política Nacional
identificados nesses cia hidrográfica, mediante o estudo de Recursos Hídricos) –, isso parece
estudos vierem a
integrar programa de de divisão de quedas e a definição ter repercutido pouco nas políticas
licitações de concessões, prévia do aproveitamento ótimo de do setor elétrico. Uma exceção foi a
será assegurado ao
que tratam os parágrafos 2º e 3º do Resolução nº393/1998 da Aneel, que
autor dos estudos o
ressarcimento dos art. 5º da Lei nº9.074, de 7 de julho determinou, em seu artigo 13, que
respectivos de 1995”.

112 Millikan
os titulares de registro de estudos governo federal e a proposta não custos incorridos e
reconhecidos pela
de inventário deverão formalizar avançou. No caso da política energé-
Aneel, pelo vencedor da
consulta aos órgãos ambientais para tica, o MME optou por desenvolver licitação, nas condições
definição dos estudos relativos aos unilateralmente um instrumento estabelecidas no edital”
(artigo 3º § 1º). Além
aspectos ambientais e aos órgãos de planejamento vinculado aos es- disso, a resolução
responsáveis pela gestão dos recur- tudos de inventário hidrelétrico de definiu condições de
preferência para os
sos hídricos, nos níveis Estadual e bacia hidrográfica. Com assessoria
responsáveis pela
Federal, com vistas à melhor defini- técnica do Banco Mundial, por meio elaboração dos estudos
ção do aproveitamento ótimo e da do Projeto Energy Sector Technical As- de inventário em
eventuais licitações de
garantia do uso múltiplo dos recur- sistance Loan (Estal), o MME elaborou concessões.
sos hídricos. o instrumento que viria a ser a AAI5.
4. A Lei nº10.847, de 15
Em dezembro de 2007, o MME de março de 2004, que
Em 2004, o MME iniciou um pro- lançou uma nova edição do Manual autorizou a criação da
EPE, definiu entre suas
cesso de revisão do Manual de inven- de inventário hidroelétrico de bacias hi-
atribuições “prestar
tário hidroelétrico de bacias hidrográfi- drográficas, destacando como ino- serviços na área de
cas. Nessa época, que corresponde vações a AAI e a incorporação de estudos e pesquisas
destinadas a subsidiar
ao início do primeiro mandato do “considerações sobre o uso múltiplo o planejamento do
governo Lula, havia um debate in- da água, fazendo referência à Polí- setor energético, tais
como energia elétrica,
tenso sobre a necessidade de se in- tica Nacional de Recursos Hídricos
petróleo e gás natural
corporar dimensões de sustentabi- (PNRH)”. No novo formato do ma- e seus derivados,
lidade socioambiental nas políticas nual, a AAI corresponde à última de carvão mineral, fontes
energéticas renováveis
“desenvolvimentistas” do governo, quatro etapas dos estudos de inven- e eficiência energética,
a exemplo de grandes obras de in- tário hidrelétrico de bacias hidrográ- dentre outras” (artigo
4º). Dispôs ainda que
fraestrutura e do planejamento do ficas, quais sejam: i) planejamento “os estudos e pesquisas
setor elétrico, inclusive sob a ótica do estudo; ii) estudos preliminares; desenvolvidos pela
de compatibilização com a legis- iii) estudos finais; e iv) avaliação EPE subsidiarão
a formulação e a
lação ambiental. Nesse contexto, ambiental integrada da alternativa implementação de
discutia-se o desenvolvimento do selecionada. No documento, afirma- ações do MME, no
âmbito da política
instrumento da avaliação ambien- se que a AAI deve permitir “avaliar energética nacional”
tal estratégica (AAE), a partir de ex- os efeitos cumulativos e sinérgicos (artigo 2º).
periências internacionais adaptadas (de empreendimentos hidrelétricos 5. Para mais
à realidade brasileira, como ferra- propostos) sobre os recursos natu- informações sobre
o Estal, ver <http://
menta de planejamento estratégi- rais e sobre as populações huma-
www.worldbank.org/
co, a ser aplicada nas políticas seto- nas”; “identificar áreas de fragili- projects/P076977/
riais e no planejamento territorial. dade ambiental”; “indicar conflitos energy-sector-
technical-assistance-
Entretanto, houve resistência frente aos diferentes usos do solo project?lang=en>
de pastas “desenvolvimentistas” do e dos recursos hídricos da bacia” e (acesso: 11 jun. 2015).

Estudos de inventário 113


“compatibilizar a geração de ener- final dos estudos de inventário de
gia elétrica com a conservação da bacia hidrográfica:
biodiversidade” (Brasil, Ministério
de Minas e Energia, Secretaria de Enquanto nos Estudos de Inventário
Planejamento e Desenvolvimento o foco está voltado para a compara-
Energético, 2007: 597-598). ção e seleção da melhor alternati-
O manual também afirma que va de aproveitamento do potencial
as diretrizes e recomendações da hidroelétrico da bacia, nos Estudos
AAI devem “subsidiar a concepção de Avaliação Ambiental Integrada
e implantação dos empreendimen- procura-se avaliar as condições de
tos […], visando a sustentabilidade suporte dos meios natural e antró-
socioambiental da região” e que os pico, do ponto de vista de sua capa-
procedimentos da AAI devem se cidade para receber o conjunto dos
integrar “à metodologia dos estu- aproveitamentos hidroelétricos que
dos socioambientais que subsidia compõem a alternativa de divisão de
a seleção da melhor alternativa no queda selecionada (Ibid.: 597).
Estudo de Inventário Hidroelétrico”
(Ibid.: 597). As diretrizes e recomen- Assim, existe uma diferença fun-
dações da AAI, indica o manual, damental entre a AAI e a AAE, sendo
devem “prover informações aos ór- que este último instrumento possui
gãos ambientais para o futuro licen- a finalidade de subsidiar a tomada
ciamento dos projetos”, subsidiar de decisões estratégicas sobre quais
“eventuais readequações de proje- empreendimentos devem ser adota-
tos e programas” e contribuir para a dos ou excluídos do planejamento
“implantação dos aproveitamentos governamental, em decorrência de
hidroelétricos na bacia, de modo a critérios sociais, econômicos e am-
reduzir riscos e incertezas para o bientais, inclusive em termos de in-
desenvolvimento socioambiental e vestimentos alternativos.
para o aproveitamento energético Vale observar ainda que o Manual
da bacia” (Ibid.: 597-598). de inventário hidroelétrico de bacias hi-
No entanto, o manual deixa drográficas menciona a importância
transparecer que a AAI não possui, da participação pública:
efetivamente, o papel de influen-
ciar a definição de quais empreen- Visando o envolvimento do público
dimentos hidrelétricos devem com- ao longo do desenvolvimento dos
por a “alternativa de divisão de estudos, com participação e retorno
queda selecionada” no resultado dos resultados às partes interessa-

114 Millikan
das, e com a finalidade de coletar ram realizados os estudos de inven-
subsídios e informações para o de- tário na bacia hidrográfica do Tapa-
senvolvimento dos estudos, deve- jós? Para responder a essa pergunta,
rão ser realizados seminários para cabe salientar, inicialmente, que os
a apresentação, discussão e aporte estudos na bacia do Tapajós foram
de contribuições aos resultados par- realizados de forma fragmentada,
ciais e finais da AAI. Os locais dos tanto no tempo como no espaço. De
eventos serão distribuídos espacial- fato, não se realizou nessa bacia um
mente na bacia, intercalando loca- estudo único de inventário com sua
lidades nas unidades da federação respectiva AAI, mas sim estudos se-
abrangidas pela bacia (Ibid.: 599). parados em três sub-bacias: Tapajós-
Jamanxim, Teles Pires e Juruena6. 6. De acordo com
A nova edição do manual foi Além disso, os estudos de inven- a regulamentação
adotada pela Aneel na
aprovada formalmente por meio tário das sub-bacias foram levados subdivisão de bacias
da Portaria MME nº356, de 28 de a cabo em épocas diferentes, por do território nacional, a
bacia do rio Amazonas
setembro de 2009 (posteriormen- instituições e empresas diferentes. é dividida em dez sub-
te substituída pela Portaria nº372, De forma semelhante, as AAIs das bacias, numeradas
de 1 de outubro de 2009), ou seja, sub-bacias do Teles Pires, Juruena e de 10 a 19. A bacia do
rio Tapajós, formada
quase dois anos após a sua publica- Tapajós-Jamanxim foram realizadas pelos rios Teles Pires e
ção. Cabe observar que a portaria em distintos momentos, de acordo Juruena, é identificada
como sub-bacia 17.
(em ambas as edições) afirma que com o período de produção de seus
“a escolha da melhor alternativa de respectivos estudos de inventário. A
divisão de quedas para o aproveita- seguir, são apresentadas considera-
mento do Potencial Hidráulico é de- ções sobre características específi-
terminada a partir de critérios técni- cas dos estudos de inventários e res-
cos, econômicos e socioambientais, pectivas AAIs nessas três sub-bacias
levando-se em conta um cenário de do Tapajós.
utilização múltipla da água”. Não
foram definidas na portaria normas Estudo de inventário da sub-bacia
sobre o processo de discussão públi- dos rios Tapajós e Jamanxim
ca dos inventários/AAIs. Os primeiros estudos para definir o
potencial hidrelétrico do eixo prin-
Breve perfil dos estudos de cipal do rio Tapajós foram realiza-
inventário realizados na bacia do dos pelas Centrais Elétricas do Nor-
Tapajós te do Brasil S.A. (Eletronorte) e pela
Considerando o arcabouço legal e empreiteira Camargo Corrêa entre
normativo descrito acima, como fo- 1986 e 1991, coincidindo com a con-

Estudos de inventário 115


clusão da mega-UHE de Tucuruí, no de, em uma das regiões mais con-
rio Tocantins, empreendimento em servadas da Amazônia brasileira. A
que ambas foram protagonistas. maior das barragens previstas de-
Nessa época, foi definido um pri- nominava-se Kararaô e deveria ser
meiro projeto para barrar o rio Ta- construída na chamada Volta Gran-
pajós nas proximidades de São Luiz de do rio Xingu, alagando mais de
do Tapajós, prevendo duas opções 1.200 quilômetros quadrados, inclu-
de cota, de 92 e 66 metros, respec- sive terras indígenas (TIs) dos povos
tivamente. A primeira cota impli- Juruna e Arara.
caria um reservatório gigantesco, O protesto – imortalizado pela
que alagaria um longo trecho até imagem da Tuíra, indígena Kayapó,
a confluência dos rios Teles Pires e colocando um facão no rosto do en-
Juruena, e submergiria a cidade de tão diretor de engenharia da Eletro-
Jacareacanga (Pará). Entretanto, os norte, José Lopes Muniz (ver imagem
estudos foram temporariamente 1) – obteve repercussão mundial e
paralisados, em uma etapa prelimi- conseguiu fazer com que os finan-
nar de sua elaboração. ciadores internacionais, notada-
A decisão de suspender os estu- mente o Banco Mundial, alterassem
dos da Eletronorte no Tapajós rela- a decisão de aportar recursos ao
cionava-se, em boa medida, a um projeto. Naquela época, marcada
acontecimento na vizinha bacia pela redemocratização do país, os
do rio Xingu. Em 1989, uma gran- ambiciosos projetos de barramento
de manifestação indígena, lidera- do Xingu e outros rios amazônicos
da pelo povo Kayapó, foi realizada foram engavetados, inclusive pelo
na cidade de Altamira (Pará), para fato de o governo brasileiro não
protestar contra um ambicioso pro- possuir condições de custear, sozi-
jeto de engenharia concebido pela nho, os empreendimentos.
Eletronorte e pela empreiteira Ca- Em dezembro de 2001, durante o
margo Corrêa nos anos de 1970, em governo Fernando Henrique Cardo-
pleno regime militar, que previa a so, a Eletronorte assinou um convê-
construção de seis grandes UHEs ao nio com o MME para realizar uma
longo do rio Xingu. O conjunto de série de atividades, entre as quais
barragens alagaria quase 20 mil qui- reuniões com a Aneel, Ministério
lômetros quadrados, desalojaria um do Meio Ambiente (MMA), Institu-
grande número de comunidades in- to Brasileiro do Meio Ambiente e
dígenas e ribeirinhas, e implicaria dos Recursos Naturais Renováveis
uma enorme perda de biodiversida- (Ibama), Agência Nacional de Águas

116 Millikan
Imagem 1. Tuíra,
indígena Kayapó, e José
Lopes Muniz, então
diretor das Centrais
Elétricas do Norte do
Brasil S.A. (Eletronorte),
no I Encontro dos Povos
Indígenas do Xingu,
em Altamira (Pará). Por
Paulo Jares, 1989.

(ANA) e Fundação Nacional do Índio rio do trecho do rio Tapajós entre


(Funai), objetivando a retomada dos a confluência de seus formadores,
projetos de barragens no rio Tapa- os rios Juruena e Teles Pires, e a
jós. Os resultados do convênio, en- sua foz, no rio Amazonas, com uma
tregues no início do governo Lula, área de drenagem total de 492.481
incluíram o Relatório de planeja- quilômetros quadrados, incluindo
mento dos estudos de inventário também seu afluente pela margem
(outubro de 2003) e o Relatório dos direita, rio Jamanxim, com área de
estudos de avaliação preliminar do drenagem de 58.633 quilômetros
aproveitamento hidrelétrico (AHE) quadrados.
São Luiz do Tapajós (dezembro de O estudo de inventário da sub
2003). -bacia Tapajós-Jamanxim, elabora-
Em 2006, a Eletronorte assinou do pela Eletronorte e pela Camargo
um termo de compromisso com a Corrêa em conjunto com a CNEC, foi
Camargo Corrêa, objetivando a fi- entregue à Aneel em junho de 2008.
nalização dos estudos de inventá- Ele identificou sete grandes barra-

Estudos de inventário 117


mentos, três no tronco principal do três parques nacionais - Parnas
rio Tapajós e quatro no rio Jaman- (da Amazônia, do Jamanxim e do
xim, com capacidade instalada total Juruena) e cinco florestas nacio-
de 14.245 megawatts, como sendo o nais - Flonas (Itaituba I, Itaituba
“aproveitamento ótimo” para a ge- II, Jamanxim, Crepori e Altamira).
ração elétrica. Os empreendimen- Além disso, TIs seriam afetadas di-
tos identificados foram: São Luiz do retamente, notadamente a TI Mun-
Tapajós (6.133 megawatts), Jatobá duruku, onde cerca de 18.720 hec-
(2.338 megawatts) e Chacorão (3.336 tares – nos quais se situam mais de
megawatts), todos no rio Tapajós; e vinte aldeias – seriam inundados
Cachoeira do Caí (802 megawatts), pela UHE Chacorão.
Jamanxim (881 megawatts), Ca- Nessas TIs e UCs diretamente
choeira dos Patos (528 megawatts) afetadas por reservatórios de UHEs
e Jardim do Ouro (227 megawatts), nos rios Tapajós e Jamanxim, seria
todos no rio Jamanxim (ver mapa 1). inundado um total estimado de
Para as sete UHEs identificadas 207.559 hectares. Isso sem contar
no estudo de inventário dos rios a TI Sawré Muybu, habitada pelos
Tapajós e Jamanxim, foram esti- Munduruku e situada no médio Ta-
madas as seguintes áreas de inun- pajós, em processo de demarcação
dação por reservatório: São Luiz do pela Funai desde 2001, que teria
Tapajós: 722 quilômetros quadra- parte significativa de sua área inun-
dos; Jatobá: 646 quilômetros qua- dada pela UHE São Luiz do Tapajós.
drados; Chacorão: 616 quilômetros Ademais, o Projeto de Assentamen-
quadrados; Cachoeira do Caí: 420 to Agroextrativista (PAE) Montanha
quilômetros quadrados; Jaman- e Mangabal, de secular ocupação
xim: 74 quilômetros quadrados; tradicional ribeirinha, seria direta-
Cachoeira dos Patos: 116 quilôme- mente afetado pela inundação dos
tros quadrados e Jardim do Ouro: reservatórios das UHEs São Luiz do
426 quilômetros quadrados. Tota- Tapajós e Jatobá (ver mapa 1).
lizavam-se, assim, 3.020 quilôme- Apesar desses graves conflitos,
tros quadrados (302 mil hectares). o superintendente de Gestão e Es-
Entre as características marcantes tudos Hidroenergéticos da Aneel,
dos sete empreendimentos iden- Jamil Abid, por meio do Despacho
tificados no estudo de inventário, nº1.887, de 22 de maio de 2009,
destacam-se as extensas áreas pre- aprovou os estudos de inventário
vistas para alagação em unidades da região do Tapajós-Jamanxim, ela-
de conservação (UCs), atingindo borados pela Eletronorte e pela Ca-

118 Millikan
Tabela 1. Áreas previstas para inundação em unidades de conservação
(UCs) e terras indígenas (TIs) por sete usinas hidrelétricas (UHEs)
identificadas como de “aproveitamento ótimo” no estudo de inventário
do Tapajós-Jamanxim.

Área protegida Usina hidrelétrica (UHE) Área inundada (hectares)


Parque Nacional (Parna) da São Luiz do Tapajós 15.599,39
Amazônia
Parna do Jamanxim Cachoeira do Caí 21.792,46
Jamanxim 11.506,61
Cachoeira dos Patos 18.515,49
Jardim do Ouro 29.698,96
Floresta Nacional (Flona) São Luiz do Tapajós 393,29
Itaituba I Jatobá 6.958,73
Cachoeira do Caí 11.472,38
Flona Itaituba II São Luiz do Tapajós 21.093,84
Cachoeira do Caí 25.236,79
Ligação UHEs Jatobá/Cachoeira do Caí 1.035,52
Área de Proteção Ambiental São Luiz do Tapajós 14.988,47
(APA) do Tapajós Cachoeira dos Patos 830,71
Jardim do Ouro 2.583,09
Flona Altamira Jardim do Ouro 2.588,91
Parna do Juruena Chacorão 4.543,59
Terra Indígena (TI) Chacorão 18.870,92
Munduruku
Total (hectares) 207.559,14

Fonte: Camargo Corrêa; Centrais Elétricas do Norte do Brasil S.A.; CNEC (2008).

margo Corrêa. Logo em seguida, em Em maio de 2011, o Conselho Na-


agosto de 2009, a Aneel concedeu à cional de Política Energética (CNPE),
Eletronorte e à Camargo Corrêa o presidido pelo ministro do MME,
registro ativo para a elaboração dos Edison Lobão, deu respaldo políti-
estudos de viabilidade técnico-eco- co ainda maior para a construção
nômica (EVTE) de cinco UHEs prio- de barragens identificadas como
rizadas para o chamado complexo de “aproveitamento ótimo” no in- 7. Em julho de 2008, a
Eletronorte e Camargo
hidrelétrico do Tapajós (CHT): São ventário do Tapajós-Jamanxim. Por Corrêa já tinham
Luiz do Tapajós, Jatobá, Cachoeira meio da Resolução nº3, de 3 de maio assinado um termo
de cooperação para
do Caí, Jamanxim e Cachoeira dos de 2011, o CNPE declarou as UHEs
elaborar os estudos de
Patos7. São Luiz do Tapajós, Jatobá, Jardim viabilidade do CHT.

Estudos de inventário 119


do Ouro e Chacorão como “proje- A direção do ICMBio posicionou-
tos de geração de energia elétrica -se no sentido de que, embora não
estratégicos, de interesse público, fosse admissível prosseguir com o
estruturantes e com prioridade de processo de licenciamento ambien-
licitação e implantação”. A resolu- tal de UHEs cujos reservatórios inci-
ção do CNPE, além disso, determi- dissem sobre uma UC, não haveria
nava que fossem “adotadas todas as qualquer impedimento se a área
providências, no âmbito do Poder afetada fosse desafetada. Tal posi-
Executivo Federal, a fim de concluir cionamento da direção do ICMBio,
os estudos necessários para a licita- com aval de autoridades do Ibama
ção e implantação dos mencionados e do MMA, deu respaldo para a Me-
8. Não houve Aproveitamentos Hidrelétricos”8. dida Provisória (MP) nº558, de 9 de
esclarecimento
Em maio de 2009, a Eletronor- janeiro de 2012, convertida apressa-
acerca dos motivos da
inclusão, na Resolução te solicitou ao Ibama a abertura damente pelo Congresso Nacional
do CNPE, das UHEs de processos de licenciamento na Lei nº12.678, de 25 de junho de
Jardim do Ouro e
Chacorão, que não
ambiental para as cinco UHEs do 2012, que reduziu 75.630 hectares
constam entre os cinco CHT: São Luiz do Tapajós, Jatobá, de cinco UCs federais para abrir ca-
empreendimentos
Cachoeira do Caí, Jamanxim e Ca- minho aos reservatórios das duas
prioritários do CHT.
choeira dos Patos. A sobreposição primeiras megabarragens do CHT:
dos reservatórios das cinco barra- São Luiz do Tapajós e Jatobá.
gens previstas com UCs criou um É importante observar que vá-
constrangimento para a tramitação rios trâmites administrativos e de-
dos processos de licenciamento no cisões políticas do governo federal
âmbito do Ibama e do Instituto Chi- – destacando-se a entrega, pela Ele-
co Mendes de Conservação da Bio- tronorte, do estudo de inventário
diversidade (ICMBio). Em resposta, do Tapajós-Jamanxim em junho de
o ministro Edison Lobão enviou o 2008 e sua aprovação pela Aneel
Aviso nº30/2010/GM-MME, em 9 de em maio de 2009; o início de pro-
março de 2010, ao então ministro cessos de licenciamento ambiental
do Meio Ambiente, Carlos Minc, in- junto ao Ibama para cinco UHEs do
formando-o sobre a aprovação, pela CHT, em maio de 2009; a resolução
Aneel, do estudo de inventário do do CNPE sobre projetos estratégi-
Tapajós-Jamanxim e solicitando que cos, em maio de 2011; a desafetação
fossem “iniciados os estudos perti- de UCs que seriam atingidas pelos
nentes, considerando as possíveis reservatórios das UHEs São Luiz do
interferências nas Unidades de Con- Tapajós e Jatobá, em janeiro de 2012
servação na região”. – ocorreram na ausência de AAI,

120 Millikan
embora ela fosse considerada parte rêa, Cemig Geração e Transmissão
integrante dos estudos de inventá- S.A., Copel Geração e Transmissão,
rio desde dezembro de 2007, segun- Electricité de France (EDF), Endesa
do o Manual de inventário hidroelétrico Brasil S.A., GDF Suez Energy Latin
de bacias hidrográficas da Eletrobras. America (atualmente Engie) e Neoe-
Em julho de 2008 – um mês após nergia S.A. Houve um único even-
a entrega dos estudos de inventário to público para discutir o sumário
na Aneel –, Eletronorte e Camar- executivo da AAI, convocado apres-
go Corrêa assinaram um termo de sadamente em Itaituba (Pará), em
compromisso para a elaboração de maio de 2014. O estudo completo
AAI da região do Tapajós-Jamanxim. da AAI foi divulgado pela internet
Entretanto, a elaboração da AAI só somente em setembro de 2014, sem
avançou efetivamente a partir de debate público. Não há informações
decisão do juiz federal José Airton sobre um eventual processo de re-
de Aguiar Portela, em novembro de visão e aprovação formal da AAI do
2012, em resposta a uma ação civil Tapajós-Jamanxim.
pública (ACP) movida pelo Minis- Cabe ressaltar que a AAI do Ta-
tério Público Federal (MPF), que in- pajós-Jamanxim não recomendou
cluiu Aneel, Eletrobras, Eletronorte alterações nos empreendimentos
e Ibama como réus. A decisão deter- priorizados pelo estudo de inven-
minou que a licença prévia (LP) para tário, mesmo em locais como São
a UHE São Luiz do Tapajós não fosse Luiz do Tapajós e Chacorão, com
concedida pelo Ibama antes da rea- conflitos relacionados à inundação
lização de avaliação dos impactos de TIs, o que é inconstitucional. En-
cumulativos das UHEs previstas no quanto isso, a elaboração dos estu-
CHT na região do Tapajós-Jaman- dos de impacto ambiental (EIAs) das
xim, assim como oitivas junto aos UHEs São Luiz do Tapajós e Jatobá,
povos indígenas afetados. assim como a sua tramitação no Iba-
Em abril de 2014, foi divulgado ma, têm avançado rapidamente, de
um sumário executivo da AAI da ba- forma absolutamente desarticulada
cia do Tapajós (sub-bacia do Tapajós- em relação ao processo de elabora-
Jamanxim). O estudo foi elaborado ção da AAI.
pela empresa de consultoria Ecolo- Em 6 dezembro de 2012 – ou
gy Brasil, por meio de contrato com seja, menos de um mês após a
o Grupo de Estudos Tapajós, coorde- decisão judicial sobre a obrigato-
nado pela Eletrobras/Eletronorte e riedade da avaliação de impactos
tendo como parceiros Camargo Cor- cumulativos de AHEs previstos na

Estudos de inventário 121


sub-bacia do Tapajós-Jamanxim –, retomada dos estudos de inventário
o superintendente de Gestão e Es- da sub-bacia do rio Teles Pires. Na
tudos Hidroenergéticos da Aneel, realidade, foram realizados dois es-
Odenir José dos Reis, por meio do tudos de inventário na sub-bacia: a
Despacho n°3.888, resolveu “apro- Furnas Centrais Elétricas S.A. (sub-
var os estudos de inventário da sidiária da Eletrobras) preparou um
bacia do Rio Cupari, afluente pela estudo para o trecho do rio Teles
margem direita do Rio Tapajós”, Pires entre os quilômetros 285 e
elaborados pela empresa CIENGE 1.250, e para o rio Apiacás, de sua
Engenharia e Comércio Ltda. Trata- foz no Teles Pires até o quilômetro
-se de uma área no interior da sub- 66. Simultaneamente, a DM Cons-
-bacia Tapajós-Jamanxim. Nesse trutora de Obras Ltda. elaborou um
perímetro, o superintendente da “inventário hidrelétrico simplifica-
Aneel aprovou nada menos que 29 do” para o rio Apiacás, no trecho a
AHEs adicionais, com potencial acu- montante do quilômetro 65.
mulado de 326,15 megawatts (UHE Adotando como critérios prin-
Águas Lindas e 28 PCHs). A referida cipais a capacidade de geração
decisão da Aneel, com profundas de energia e o custo estimado das
implicações em termos de impac- obras, foram identificados cin-
tos socioambientais na região, foi co barramentos no rio Teles Pires
simplesmente desconsiderada nos (UHEs Sinop, Colíder, Teles Pires,
estudos de AAI elaborados para a São Manoel) e um barramento no
sub-bacia do Tapajós-Jamanxim. rio Apiacás (UHE Foz de Apiacás).
Entre as características do resultado
Estudo de inventário da sub-bacia do estudo de inventário, destaca-se
do Rio Teles Pires a proximidade de três empreendi-
Os primeiros estudos de inventário mentos (UHEs Teles Pires, São Ma-
do potencial hidrelétrico da sub-ba- noel e Foz de Apiacás) em relação à
cia hidrográfica do rio Teles Pires TI Kayabi. Os estudos de inventário
foram realizados pela Eletronorte foram entregues à Aneel em outu-
na década de 1980. Eles sugeriram bro de 2005 e aprovados por seu
seis barramentos do rio para serem superintendente de Gestão e Estu-
analisados na etapa seguinte dos dos Hidroenergéticos por meio do
estudos de inventário, o que não Despacho nº1.613, de 20 de julho
foi realizado na época. Em abril de de 2006. Pouco antes, a Aneel havia
2001, Eletrobras, Furnas e Eletro- emitido o Despacho nº2.152, de 20
norte firmaram um acordo para a de dezembro de 2005, aprovando os

122 Millikan
Estudos de inventário
da sub-bacia hidrográfica do Tapajós-Jamanxim
Mapa 1. Hidrelétricas selecionadas nos estudos de inventário

123
Sistema de referência geográfica: Sirgas 2000. Fontes: limites municipais: IBGE,
2010; PCHs e UHEs: Sigel, 2015; áreas protegidas: MMA, 2015; terras indígenas: Funai,
2015; hidrografia: ANA, 2015. Elaboração: Ricardo Abad, 2016.
“Estudos de Inventário Hidrelétrico cho a montante do quilômetro 65.
Simplificado do rio Apiacás” no tre- O maior barramento aprovado, Sal-
cho a montante do quilômetro 65, to Apiacás, posteriormente teve sua
contemplando cinco PCHs (Cabeça capacidade aumentada de 28,92 me-
de Boi, Salto Apiacás, Da Fazenda, gawatts para 45 megawatts (deixan-
Salto Paraíso e Ingarana), com po- do, assim, de ser considerado uma
tência total de 83,9 megawatts. PCH). O processo de licenciamento
A AAI da sub-bacia do rio Teles ambiental desse empreendimento
Pires foi coordenada pela EPE, que está sendo realizado pelo governo
contratou as empresas Leme En- estadual de Mato Grosso e ele cons-
genharia e Concremat Engenharia ta no Plano decenal de expansão de ener-
para realizá-la. Ela foi levada a cabo gia (PDE) 2024 como UHE a entrar
após a aprovação dos estudos de em operação no ano de 2016 (Brasil,
inventário, sendo que o relatório Ministério de Minas e Energia, Em-
final foi entregue à EPE somente presa de Pesquisa Energética, 2015).
em dezembro de 2009, já na época Nos processos de licenciamen-
de execução dos EVTEs dos AHEs Si- to ambiental de empreendimentos
nop, Colíder e Teles Pires. A AAI não desse complexo, têm sido propostas
apresentou sugestões de alteração diversas ACPs, pelo MPF, motivadas
na escolha dos cinco barramentos pela falta de avaliação de impactos
identificados como “aproveitamen- cumulativos na bacia e pela ausên-
to ótimo” no estudo de inventário. cia de CLPI junto aos povos indíge-
Tampouco foi realizado um proces- nas locais. Na quase totalidade dos
so de consulta livre, prévia e infor- casos, as ações do MPF receberam
mada (CLPI) junto aos povos indíge- decisões liminares favoráveis em
9. Ver tabela do MPF no nas Kayabi, Apiaká e Munduruku primeira instância, porém foram
Pará sobre processos
que vivem logo rio abaixo, na TI inviabilizadas pelo uso autoritário
judiciais relativos
às UHEs da bacia do Kayabi, cujo limite se situa a poucos do instrumento de suspensão de se-
Tapajós (rios Juruena, metros da última barragem propos- gurança (SS), pelo presidente do Tri-
Apiacás, Jamanxim,
Teles Pires e Tapajós). ta no complexo hidrelétrico do Teles bunal Regional Federal da Primeira
Disponível em: <http:// Pires (CoHTP), a UHE São Manoel. Região (TRF-1)9.
www.prpa.mpf.mp.br/
A AAI da sub-bacia do Teles Pi-
news/2014/arquivos/
Tabela%20de%20 res não considerou os impactos Estudos de inventário na sub-bacia
Acompanhamento%20 cumulativos dos cinco empreendi- do Rio Juruena
Out%202014.pdf/at_
download/file> (acesso: mentos aprovados pela Aneel nos Nos anos de 2001 e 2002, foram rea-
5 jun. 2015). estudos de inventário hidrelétrico lizados dois “estudos de inventário
simplificado do rio Apiacás no tre- simplificado” no alto rio Juruena,

124 Millikan
bacia hidrográfica do Teles Pires

Estudos de inventário
Mapa 2. Hidrelétricas selecionadas nos estudos de inventário da sub-

125
Sistema de referência geográfica: Sirgas 2000. Fontes: limites municipais: IBGE,
2010; PCHs e UHEs: Sigel, 2015; áreas protegidas: MMA, 2015; terras indígenas: Funai,
2015; hidrografia: ANA, 2015. Elaboração: Ricardo Abad, 2016.
por iniciativa do Grupo André Ma- Rondon (13 megawatts), Cachoeirão
ggi, em uma região de expansão da (64 megawatts), Parecis (15,4 me-
soja mecanizada em larga escala, gawatts), Travessão (6,5 megawatts),
dominada pelo mesmo grupo. O Ilha Comprida (18,6 megawatts),
primeiro estudo foi executado em Segredo (21 megawatts), Sapezal (16
2001 pela empresa Maggi Energia megawatts), Jesuíta (22,2 megawat-
S.A., vinculada à Agropecuária Ma- ts), Cidezal (17 megawatts), Juruena
ggi Ltda., em um trecho de 102,91 (46 megawatts) e Cristalina (sete
10. A área total dos quilômetros do rio Juruena, entre o megawatts)10.
reservatórios dos 12
empreendimentos foi
limite da TI Parecis (montante) e a Os dois estudos realizados pelo
estimada em 3.065,6 ponte da rodovia MT-235 (jusante). Grupo Maggi seguiram as diretrizes
hectares.
Esse estudo resultou na identifica- para estudos de inventários hidre-
ção de um AHE com potencial de létricos simplificados da Aneel vi-
7,6 megawatts (denominado Santa gentes à época. A justificativa dada
Lúcia II), acoplado à PCH Santa Lú- para a realização de um inventário
cia I, já instalada pelo Grupo Maggi, simplificado, em lugar de um in-
com potência de cinco megawatts. ventário pleno, foram “as caracte-
O estudo foi aprovado pela Aneel, rísticas geomorfológicas locais que
por meio do Despacho nº513, de 31 determinaram aos aproveitamentos
de julho de 2001. características semelhantes a de
O segundo estudo foi realizado PCH tais como: barragem de peque-
pelo Grupo André Maggi (Agrope- na altura, reservatório de reduzida
cuária Maggi Ltda.) e Linear Parti- dimensão (inferior a 3,0 km2) e a fio
cipações e Incorporações, em um d’água” (Grupo André Maggi et al.,
trecho de 130 quilômetros entre a 2002: 8).
ponte da rodovia MT-235 (montan- Em uma análise sobre a ade-
te) e a foz do rio Juína (jusante), quação dos estudos de inventários
abrangendo uma área de drenagem hidrelétricos simplificados à reali-
de 60.998,45 quilômetros quadra- dade do alto rio Juruena, chama a
dos. Esse estudo identificou 12 lo- atenção, inicialmente, o fato de a
cais de barramento, com potencial matriz de avaliação dos impactos
total de 276,7 megawatts. Por meio ambientais dos estudos sequer ter
do Despacho nº621, de 3 de outubro mencionado as consequências e
de 2002, a Aneel aprovou o estudo, riscos para os povos indígenas da
dando sinal verde para a implanta- região em que seria implantada
ção dos 12 empreendimentos identi- uma cascata de barragens, em que
ficados: Telegráfica (30 megawatts), o reservatório de um AHE pratica-

126 Millikan
mente se encostaria ao do próximo, e PCHs previstas (algumas em fase
rio acima (Ibid.: 244-245). Trata-se de de implantação) entre as cabecei-
uma omissão grave, considerando- ras do rio e sua confluência com o
se que no alto rio Juruena situam-se rio Juína, em uma extensão total
onze TIs (Enawene Nawe, Erikbakt- de 287,05 quilômetros. Em maio de
sa, Japuíra, Juininha, Menku, Nam- 2006, o MPF cobrou a realização de
bikwara, Paresi, Pirineus de Souza, um estudo integrado de impactos
Tirecatinga, Uirapuru e Utiariti) cumulativos das doze barragens do
ocupadas por cinco etnias (Enawe- CHJ como condição para a continui-
ne Nawe, Myky, Nambikwara, Pa- dade do licenciamento de empreen-
resi e Rikbaktsa), distribuídas em dimentos individuais.
mais de 80 aldeias, que, por sua vez, Com o aval da Sema/MT, a em-
dependem diretamente dos recur- presa JGP Consultoria entregou, em
sos e serviços ambientais oferecidos janeiro de 2007, sob encomenda dos
naturalmente pelo rio para sua so- empreendedores, um documento
brevivência física e cultural (Institu- intitulado Avaliação ambiental inte-
to Socioambiental, 2008). grada - AAI. A Sema/MT considerou
Apesar das evidências de graves os estudos insuficientes e solicitou
riscos associados à implantação de complementações. Porém, renovou
uma cascata de barragens no alto as LIs antes de avaliar as comple-
rio Juruena, especialmente para os mentações requisitadas e sem ouvir
povos indígenas e seus territórios, a área técnica da Funai sobre o com-
a Secretaria de Estado de Meio Am- ponente antropológico dos estudos
biente de Mato Grosso (Sema/MT) complementares, referentes à iden-
emitiu, entre agosto e dezembro de tificação, prevenção e mitigação de
2002, LP e licença de instalação (LI) impactos resultantes da construção
para oito empreendimentos do cha- das obras do CHJ sobre grupos indí-
mado complexo hidrelétrico do Ju- genas. Em março de 2007, a Sema/
ruena (CHJ), sem exigir a avaliação MT aprovou a chamada AAI do alto
dos impactos cumulativos e sequer Juruena, que, entre seis alternati-
a realização de EIA (Idem). vas consideradas, recomendou a
Em 2006, o MPF instaurou pro- construção de dez AHEs (8 PCHs e
cedimento administrativo (proces- 2 UHEs) com capacidade instalada
so nº1.20.000.000336/2006-28) para total de 263 megawatts (JGP Gestão
verificar as circunstâncias do licen- Ambiental, 2007).
ciamento ambiental do CHJ, consi- Em um contexto caracterizado
derando toda a sequência de UHEs por sucessivos atropelos no proces-

Estudos de inventário 127


so de planejamento e licenciamen- do irregularmente pelo governo de
to ambiental de barragens no alto Mato Grosso, apesar de o rio Jurue-
Juruena, e em face das graves con- na ser um rio federal, cercado por
sequências das primeiras barragens TIs impactadas.
do alto Juruena – por exemplo, os
efeitos desastrosos da PCH Telegrá- Em abril de 2008, o MPF em Mato
fica para o povo Enawene Nawe Grosso obteve junto ao TRF-1 uma
(Instituto Socioambiental, 2012; liminar para suspender as LIs de
Almeida 2010; Fanzeres, 2008) –, o cinco empreendimentos do CHJ. Ao
MPF em Mato Grosso ajuizou uma determinar a paralisação das obras,
ACP, em dezembro de 2007 (proces- a desembargadora Selene Maria de
so nº2008.36.00.000023-4). Dentre Almeida afirmou que a construção
as irregularidades apontadas pelo das PCHs acarretaria “uma série de
MPF, figuram: graves riscos para a sustentabilida-
de” das aldeias e levaria uma das
i) ausência de avaliação de impactos etnias da região ao que chamou
cumulativos e sinérgicos da casca- de genocídio cultural: “Parece que
ta de barragens propostas na bacia mais uma vez se cumpre o processo
do Juruena, contrariando a Resolu- histórico de ações lesivas ao meio
ção nº1/1986 do Conama; ambiente e às populações indíge-
ii) desconsideração de graves riscos nas”, concluiu a desembargadora
provocados pelo CHJ às populações (Instituto Socioambiental, 2008).
indígenas, inclusive em relação aos Em 6 de junho de 2008, entretan-
peixes, de grande importância para to, o presidente do Supremo Tribu-
a sobrevivência física e cultural de nal Federal (STF), ministro Gilmar
povos indígenas, como os Enawene Mendes, cassou a decisão do TRF-1,
Nawe; via SS, argumentando que a parali-
iii) descumprimento do artigo 231 da sação das obras do CHJ representa-
Constituição Federal de 1988 e da va “grave risco de lesão à ordem, à
Convenção 169 da Organização In- saúde, à segurança, à economia e à
ternacional do Trabalho (OIT), no saúde pública do Estado”, além de
que se refere à realização de CLPI acarretar “efeitos deletérios ao pró-
junto aos povos indígenas; prio meio ambiente pela manuten-
iv) falta de consulta efetiva à Funai du- ção de grande área desmatada e ca-
rante os processos de licenciamen- vada, podendo até mesmo assorear
to ambiental; e o próprio rio”. Sobre o argumento
v) licenciamento ambiental conduzi- do MPF de que o CHJ dependeria

128 Millikan
de CLPI junto aos povos indígenas, o risco ambiental advindo da imple-
considerando as fortes influências mentação de todos os empreendi-
do rio sobre TIs já demarcadas, o mentos supracitados no Rio Juruena
ministro opinou que “as pequenas não foi devidamente mensurado na
centrais hidrelétricas não serão ins- Avaliação Ambiental Integrada aqui
taladas em áreas indígenas, mas em avaliada. Isto tanto em relação aos
suas adjacências”. Evidentemente, a impactos na biota quanto, e tam-
decisão favoreceu principalmente o bém consequentemente, no modo
grupo empresarial da família do go- de vida tradicional das comunidades
vernador à época, Blairo Maggi. indígenas da bacia do Rio Juruena,
Em seguida, em agosto de 2008, assim como nas condições necessá-
o Instituto Socioambiental (ISA) rias para a sua sobrevivência, repro-
ajuizou junto ao STF uma petição dução física e cultural, garantidas
na condição de amicus curiae (“amigo na Constituição Federal no seu Art.
da corte”, instituto que permite que 231/88. Já foi relatado informalmen-
terceiros passem a integrar uma te à FUNAI por indígenas da etnia
demanda judicial) para que fosse Enawenê-Nawê, inclusive, que após
juntada ao processo que tenta im- o início da instalação de cinco PCHs
pedir a continuidade das obras do no Rio Juruena, a qualidade de água
CHJ. Um dos argumentos do ISA foi degradou, assim como a quantida-
justamente a necessidade de CLPI de de peixes diminuiu. Segue que
aos povos indígenas afetados, em é minha forte recomendação que
conformidade com o artigo 231 da seja suspensa a outorga do direito
Constituição Federal e com a Con- de uso dos recursos hídricos para
venção 169 da OIT. fins de aproveitamento do potencial
Na época, um parecer técnico da hidrelétrico dos empreendimentos
Funai sobre a AAI do Alto Juruena supracitados, e que sejam efetuados
constatou que o estudo apresentava estudos de impacto ambiental deta-
erros graves de metodologia e con- lhados para determinar a viabilida-
clusões contraditórias (Brasil, Minis- de ambiental dos mesmos.
tério da Justiça, Fundação Nacional
do Índio, Diretoria de Assistência, Nas considerações finais, o pa-
Coordenação-Geral de Patrimônio recer técnico da Funai remeteu ao
Indígena e Meio Ambiente, Coorde- princípio nº15 da Declaração do Rio
nação de Meio Ambiente, 2008). Em de Janeiro, firmado durante a Con-
suas conclusões, o parecer afirma ferência das Nações Unidas sobre o
que: Meio Ambiente e Desenvolvimento,

Estudos de inventário 129


11. Em 2001, a de 1992, e da qual o Brasil é signatá- lômetros quadrados11. A elaboração
Eletronorte havia
rio. O princípio estabelece: de uma AAI, como parte dos estu-
completado estudos
preliminares de dos de inventário, foi incorporada
inventário no rio do de modo a proteger o meio ambien- ao contrato entre a EPE e a CNEC
Sangue, afluente do rio
Juruena que deságua te, o princípio da precaução deve ser Engenharia, tendo em vista o novo
nas proximidades da amplamente observado pelos Esta- Manual de inventário hidroelétrico de
cidade de Castanheira
dos, de acordo com suas capacida- bacias hidrográficas, de dezembro de
(Pará). Esses estudos
concluíram por uma des. Quando houver ameaça de da- 200712.
alternativa de divisão nos sérios ou irreversíveis ausência Os referidos estudos de inven-
de queda constituída
por 14 AHEs, perfazendo de absoluta certeza científica não tário da bacia do Juruena, sem a
uma potência instalada deve ser utilizada como razão para AAI, foram concluídos pela CNEC
total de 873 megawatts
postergar medidas eficazes e econo- em setembro de 2009 e entregues
(CNEC, 2010: 34).
micamente viáveis para prevenir a formalmente à Aneel em maio de
12. Segundo o MME, em degradação ambiental (grifo meu). 2010 (Brasil, Ministério de Minas e
julho de 2008, foram Energia, Empresa de Pesquisa Ener-
suspensas as emissões
de registros para a Em abril de 2010, a ACP sobre ir- gética; CNEC, 2010). Tais estudos
elaboração de estudos regularidades no licenciamento de identificaram como alternativa de
e projetos relativos a
AHEs do CHJ foi extinta em decisão “aproveitamento ótimo” da divisão
AHEs integrantes da
bacia do rio Juruena, da primeira instância da Justiça Fe- de quedas um conjunto de 13 em-
bem como para novos deral em Mato Grosso, desconside- preendimentos hidrelétricos, sendo
inventários na referida
bacia até que a AAI rando os argumentos apresentados cinco no rio Juruena, um no rio Ari-
fosse concluída. pelo MPF, pela Funai e pelo ISA, as- nos, um no rio dos Peixes, quatro
sim como as graves consequências no rio Juína e dois no rio Papagaio,
socioambientais da construção de com um potencial estimado total de
barragens no alto Juruena, já evi- 8.467  megawatts. No estudo de in-
dentes na região. O MPF apelou da ventário elaborado pela EPE e pela
sentença, porém em julho de 2015 CNEC, a priorização de empreen-
ela ainda aguardava decisão da dimentos com graves problemas
quinta turma do TRF-1. de sobreposição com territórios
indígenas e UCs, bem como a des-
Estudos de inventário realizados consideração de impactos cumu-
no rio Juruena pela EPE e CNEC lativos entre as PCHs e UHEs do
Em setembro de 2006, a EPE contra- CHJ, demonstram sérias limitações
tou a CNEC para realizar os estudos inerentes à sua metodologia. Por
de inventário hidrelétrico da bacia meio do Despacho nº2.318, de 13 de
do rio Juruena, em uma área exten- agosto de 2010, o superintendente
sa da bacia, totalizando 190.931 qui- de Gestão e Estudos Hidroenergé-

130 Millikan
ticos da Aneel aprovou os referidos uma potência inventariada de cerca
estudos de inventário, mesmo sem de 8.830 megawatts, distribuídos
a conclusão da AAI e sem a realiza- entre 22 AHEs, incluindo as UHEs
ção de processo de CLPI junto aos previamente selecionadas e as PCHs
povos indígenas atingidos pelos incorporadas ao resultado final.
empreendimentos. Com a aprovação desses estudos,
Em setembro de 2010, a CNEC os AHEs contemplados passaram a
concluiu os estudos da AAI, sem integrar a carteira daqueles disponí-
apresentar propostas de modifica- veis para a elaboração dos EVTEs e
ção na escolha dos barramentos projetos básicos.
identificados no inventário. Em
dezembro de 2010, a AAI foi discu- Análise preliminar dos estudos de
tida em duas reuniões públicas no inventário realizados na bacia do
estado de Mato Grosso, realizadas Tapajós
nas cidades de Cuiabá e Juína. No Segundo o MME, os estudos de in-
evento realizado em Juína, houve ventário hidrelétrico, incluindo
protestos de representantes de po- AAIs como parte integrante de sua
vos indígenas em razão dos confli- metodologia de elaboração, permi-
tos envolvendo a exploração de re- tem a tomada de decisões sobre a es-
cursos naturais em seus territórios. colha de empreendimentos a serem
Uma versão final da AAI foi apre- construídos em uma bacia hidro-
sentada pela CNEC em 7 de janeiro gráfica, utilizando como critérios
de 2011, sem qualquer mudança na básicos: i) maximização do aprovei-
escolha de empreendimentos ou tamento do potencial hidrelétrico;
outra alteração substancial de con- ii) menor custo econômico para a
teúdo, como resultado dos eventos geração de energia; e iii) minimi-
realizados no mês anterior, e ainda zação de impactos socioambientais
sem um processo de CLPI junto aos negativos. Além disso, o MME tem
povos indígenas afetados. A Supe- ressaltado a importância da “parti-
rintendência de Gestão e Estudos cipação pública” na elaboração dos
Hidroenergéticos (SGH) da Aneel estudos de inventário, especialmen-
aprovou, por meio do Despacho te na fase de AAIs.
nº3.208, de 10 de agosto de 2011, a Certamente, os estudos realiza-
“revisão” dos estudos de inventário dos no âmbito de AAIs das sub-ba-
da bacia do rio Juruena, tendo em cias do Tapajós trazem informações
vista a conclusão da AAI. Os resul- úteis para que se possa conhecer
tados finais dos estudos totalizam melhor as características ambien-

Estudos de inventário 131


Sistema de referência geográfica: Sirgas 2000. Fontes: limites municipais: IBGE,
2010; PCHs e UHEs: Sigel, 2015; áreas protegidas: MMA, 2015; terras indígenas: Funai,
2015; hidrografia: ANA, 2015. Elaboração: Ricardo Abad, 2016.

132
da sub-bacia hidrográfica do Juruena

Millikan
Mapa 3. Hidrelétricas selecionadas nos estudos de inventário
tais da bacia hidrográfica do Tapa- hidrelétrico priorizado nos estudos
jós, sobretudo em termos de com- de inventário tenha sido descartado
pilação de fontes bibliográficas e marca, de forma contundente, uma
sistematização de dados secundá- diferença fundamental entre AAI e
rios. Entretanto, esta análise pre- AAE.
liminar dos estudos de inventário Na bacia do Tapajós, a compreen-
hidrelétrico realizados na bacia hi- são sobre os potenciais impactos
drográfica do Tapajós – incluindo as cumulativos e sinérgicos de em-
sub-bacias Tapajós-Jamanxim, Teles preendimentos hidrelétricos, um
Pires e Juruena – permite concluir dos objetivos de uma AAI, foi pre-
que a tomada de decisões técnicas judicada pela existência de vários
e políticas sobre o “aproveitamen- estudos de AAI, elaborados de for-
to ótimo” de bacias hidrográficas ma segmentada por sub-bacia (Teles
a partir de estudos de inventário Pires, Juruena, Tapajós-Jamanxim)
tem se baseado quase exclusiva- e até em trechos diferentes de um
mente no critério de maximização mesmo rio. Além disso, os estudos
do aproveitamento do potencial de AAI foram realizados em mo-
hidráulico e que as consequências mentos diferentes, por instituições
socioambientais negativas de em- diferentes, utilizando metodologias
preendimentos, inclusive violações diferentes, sem os devidos esforços
de direitos humanos e descumpri- de articulação entre si. Ficou preju-
mento da legislação ambiental, têm dicada, portanto, a abordagem de
sido sistematicamente menospreza- questões essenciais relacionadas à
das e até ignoradas. conectividade entre as sub-bacias,
Uma evidência dessa problemá- como os impactos cumulativos de
tica é que, tipicamente, a definição cascatas de barragens sobre peixes
de um conjunto de barramentos migratórios de altíssima importân-
como “aproveitamento ótimo” de cia para a biodiversidade, meios de
um rio, no âmbito de estudos de vida e economias locais. Ademais,
inventário, bem como a sua aprova- não houve análise de impactos
13. Isso tem ocorrido
ção pela Aneel, têm ocorrido antes sinérgicos e cumulativos entre as mesmo em casos
da conclusão dos estudos de AAI, cascatas de barragens e outros gran- recentes, em que os
inventários foram
que, por sua vez, em nada mudam des empreendimentos previstos e
finalizados após a
tais decisões, em função de crité- em curso na região (por exemplo, publicação da nova
rios como impactos cumulativos e hidrovias, rodovias, mineração). versão do Manual de
inventário hidrelétrico
sinérgicos13. O fato de que, em ne- Assim, as AAIs elaboradas para sub de bacias hidrográficas
nhuma das AAIs, qualquer projeto -bacias do Tapajós não têm atendi- (dezembro de 2007).

Estudos de inventário 133


do as determinações da Resolução Outro fator que tem dificultado
nº1/1986 do Conama referentes à a análise de impactos individuais
análise de impactos cumulativos e e cumulativos de cascatas de bar-
sinérgicos em nível de bacia hidro- ragens propostas para a bacia do
gráfica, bem como às suas alterna- Tapajós, no âmbito das AAIs, tem
tivas, inclusive a hipótese de não sido a indefinição sobre parâme-
implantação do empreendimento. tros técnicos para a implantação
No caso do Tapajós, a qualidade das chamadas “usinas-plataforma”,
dos estudos de AAI tem sido pre- em contraste com as afirmações
judicada ainda pelo fato de serem da Eletrobras, que procura caracte-
realizados geralmente de forma rizá-las como modelo consolidado
apressada, com reduzido tempo de um novo paradigma de “hidre-
para atividades de campo, o que létrica do bem”. Nota-se forte ten-
afeta negativamente a abordagem dência de subdimensionamento de
de questões como a sazonalidade impactos e riscos socioambientais,
em ecossistemas de água doce e a e a consequente externalização de
compreensão das complexas rela- custos de mitigação e compensa-
ções entre populações, território e ção dos mesmos, levando o setor
recursos naturais. De forma seme- elétrico a conclusões distorcidas
lhante, observa-se falta de clareza sobre a viabilidade econômica de
sobre metodologias participativas empreendimentos.
e sobre a valorização dos conheci- Em um contexto no qual as AAIs
mentos de populações locais sobre não têm alterado a escolha de em-
seus territórios na condução dos preendimentos definidos nos estu-
AAIs, como subsídio para o melhor dos de inventário – estes últimos,
dimensionamento de impactos e orientados pelo critério de maxi-
riscos socioambientais de empreen- mização do aproveitamento do po-
dimentos em diferentes cenários. tencial energético –, verifica-se, no
Além disso, pelo menos no caso caso do Tapajós, uma série de con-
da AAI da sub-bacia do Tapajós-Ja- flitos com o marco legal dos direitos
manxim, tais limitações nos estu- humanos e a legislação ambiental,
dos de AAI foram exacerbadas por destacando-se:
pressões da Eletrobras, no sentido
de alterar ou excluir elementos crí- i) A priorização de empreendimen-
ticos do diagnóstico de conflitos so- tos que implicam o alagamento de
cioambientais envolvendo terras e TIs e outras consequências graves
povos indígenas. para as populações indígenas nos

134 Millikan
estudos de inventário aprovados A intenção manifestada pelo
pela Aneel – e até respaldados MME no Manual de inventário hidroe-
pelo CNPE, no caso da sub-bacia létrico de bacias hidrográficas (versão
Tapajós-Jamanxim; de dezembro de 2007) de que a AAI
ii) De forma semelhante, a prioriza- pudesse “prover informações aos
ção de empreendimentos que im- órgãos ambientais para o futuro
plicam a desafetação de UCs, sem licenciamento dos projetos” tem
considerar as consequências para sido prejudicada, entre outras ra-
os atributos ambientais e meios de zões, pelo fato de não se constituir
vida de populações locais que justi- formalmente como instrumento de
ficaram a sua criação; e licenciamento ambiental no âmbito
iii) O descumprimento de legislação do Sistema Nacional do Meio Am-
sobre a obrigatoriedade de CLPI biente (Sisnama). Vale salientar que
junto a povos indígenas e outras as AAIs têm sido elaboradas, em
comunidades tradicionais, antes muitos casos, de forma concomitan-
da tomada de decisões políticas te ou mesmo posterior à elaboração
pela Aneel e CNPE. de EIAs para empreendimentos in-
dividuais, comprometendo a sua
No tocante à intenção do MME de utilidade.
incorporar nas AAIs “considerações Nas AAIs, observa-se uma pre-
sobre o uso múltiplo da água, fazen- cariedade de nexos lógicos entre
do referência à PNRH”, destaca-se, as partes iniciais do diagnóstico de
inicialmente, o déficit de implemen- fragilidades e conflitos socioam-
tação da Lei nº9.433/1997 na bacia do bientais, e os capítulos finais, sobre
Tapajós (assim como em outras ba- diretrizes (para o setor elétrico) e
cias da Amazônia), inclusive na ela- recomendações (para outros seto-
boração de planos de gestão de re- res). Em grande medida, isso reflete
cursos hídricos (PGRH). A concessão, a falta de utilização de AAIs como
pela ANA, de declarações de disponi- instrumento de triagem para ex-
bilidade de recursos hídricos (DDRH) cluir empreendimentos com graves
e sua conversão em outorgas em be- problemas socioambientais, inclu-
neficio de empreendimentos hidre- sive em termos legais (por exem-
létricos tem sido questionada pelo plo, as UHEs São Luiz do Tapajós e
MPF, em ACPs movidas em diversas Chacorão, que alagariam extensos
bacias da Amazônia (Brasil, Ministé- territórios do povo Munduruku). Na
rio Público Federal, Procuradoria da concepção da AAI, suas diretrizes e
República no Pará, 2014, 2015). recomendações são caracterizadas

Estudos de inventário 135


pelo setor elétrico como instrumen- que, além das limitações descritas
tos que criam um “mundo ideal” acima, os poucos “seminários públi-
para a implantação dos projetos cos” realizados para discutir os re-
hidrelétricos, em um cenário sem sultados preliminares de AAIs têm
mais conflitos sobre os recursos na- seguido o padrão típico de audiên-
turais, onde há governança local e cias públicas em processos de licen-
atendimento pelo Estado das prin- ciamento ambiental, sendo inócuos
cipais demandas das populações no que diz respeito à tomada de de-
locais. Além das desconsideração cisões, enquanto servem para a legi-
de impactos e riscos socioambien- timação de empreendimentos.
tais nesse cenário idealizado, falta
um sistema de governança para Considerações finais
garantir que as diretrizes e reco- Neste artigo, buscou-se identificar
mendações propostas na AAI sejam uma série de limitações e conflitos
minimamente efetivadas, de forma associados à elaboração e aprova-
vinculante para o desenvolvimento ção de estudos de inventário hi-
hidrelétrico. Trata-se de mais uma drelétrico (inclusive AAIs) na bacia
grande diferença entre os instru- hidrográfica do Tapajós, destacan-
mentos de AAI e AAE. Enquanto do-se: i) o subdimensionamento de
a AAE avalia estrategicamente op- impactos e riscos socioambientais,
ções, com base em benefícios e cus- inclusive cumulativos, em estudos
tos (oportunidades e riscos), a AAI técnicos e, consequentemente, em
pressupõe um cenário futuro em processos de tomada de decisão; ii)
que se negam impactos e riscos, e a segmentação de estudos de AAI
no qual todos os problemas regio- em sub-bacias, de modo a dificultar
nais serão resolvidos. Nesse mundo a análise de impactos cumulativos
imaginário, não há mais riscos, só em nível de bacia hidrográfica; iii) a
oportunidades, e qualquer impacto desconsideração em AAIs da totali-
é gerenciável, inclusive aqueles so- dade de empreendimentos selecio-
bre os recursos hídricos, ecossiste- nados em diferentes estudos de in-
mas aquáticos e meios de vida das ventário na mesma sub-bacia; e iv)
populações locais, que se configu- a falta de espaços para participação
ram entre os impactos (inclusive pública, especialmente das popula-
cumulativos) mais relevantes. ções mais diretamente atingidas.
Por fim, no que se refere à “parti- Claramente, essas deficiências,
cipação pública” na elaboração dos em uma fase inicial e decisiva do
estudos de inventário, verifica-se planejamento de AHEs, têm desen-

136 Millikan
cadeado uma série de outros atrope- nos, inclusive o direito à CLPI; iii)
los e conflitos em fases subsequen- a plena articulação com outras po-
tes de licenciamento e implantação líticas setoriais e territoriais. Essas
de empreendimentos. constatações sugerem a importân-
Nesse sentido, é evidente a ne- cia da retomada de discussões sobre
cessidade de um debate público instrumentos alternativos, como a
aprofundado sobre a situação atual AAE, e sua incorporação entre as
e sobre as necessidades de aprimo- ferramentas do Sisnama.
ramento de estudos de inventário
hidrelétrico de bacia hidrográfica, [artigo concluído em janeiro de 2016]
inclusive no que diz respeito às
AAIs, especialmente em termos de Referências bibliográficas
sua compatibilização com outras Almeida, Juliana de. 2010. Alta ten-
políticas públicas e com o marco le- são na floresta: os Enawene e o
gal sobre direitos humanos e meio Complexo Hidrelétrico Juruena.
ambiente. No curto prazo, merece Trabalho de conclusão curso (Es-
atenção especial o fato de as deci- pecialização lato sensu em indi-
sões políticas sobre a construção de genismo). Cuiabá, Universidade
UHEs serem tomadas pelo setor elé- Positivo/Operação Amazônia Na-
trico de forma isolada, sem envolvi- tiva. Disponível em: <http://ama-
mento de outros órgãos públicos e zonianativa.org.br/download.
sem participação da sociedade. php?name=arqs/biblioteca/13_a.
Assim, fica evidente a necessi- pdf&nome=Juliana%20de%20
dade de viabilizar instrumentos de Almeida_Alta%20Tens%E3o%20
política pública, não restritos ao na%20Floresta%20Os%20Enawe-
setor elétrico, capazes de superar ne%20Nawe%20e%20o%20Com-
os entraves identificados, de modo plexo%20Hidrel%E9trico%20Ju-
a possibilitar, dentre outros quesi- ruena.pdf> (acesso: 8 jun. 2015).
tos: i) o atendimento à Resolução Brasil. Centrais Elétricas Brasilei-
Conama nº1/1986, sobre a neces- ras S.A. Departamento Nacional
sidade de avaliação de impactos de Águas e Energia Elétrica. 1997.
cumulativos e sinérgicos dos diver- Manual de inventário hidroelétrico
sos empreendimentos (barragens, de bacias hidrográficas. Brasília.
portos, hidrovias etc.) em nível de Brasil. Ministério da Infraestru-
bacia hidrográfica; ii) a participação tura. Secretaria Nacional de
ativa de populações locais, com o Energia. Centrais Elétricas Bra-
pleno respeito aos direitos huma- sileiras. 1990. Plano Diretor de

Estudos de inventário 137


Meio Ambiente do Setor Elétrico <http://www.aneel.gov.br/cedoc/
1991/1993. Rio de Janeiro. Dispo- dsp20061613.pdf> (acesso: 10
nível em: <http://www.eletro- jun. 2015).
bras.com/elb/data/Pages/LUMIS- ___. 2009. Despacho nº1.887, de 22
867DAA0EPTBRIE.htm> (acesso: de maio. Brasília. Disponível em:
10 jun. 2015). <http://www.aneel.gov.br/cedoc/
Brasil. Ministério da Justiça. Funda- dsp20091887.pdf> (acesso: 10
ção Nacional do Índio. Diretoria jun. 2015).
de Assistência. Coordenação- ___. 2005. Despacho nº2.152, de 20
-Geral de Patrimônio Indígena de dezembro. Brasília. Dispo-
e Meio Ambiente. Coordenação nível em: <http://www.aneel.
de Meio Ambiente. 2008. Parecer gov.br/cedoc/dsp20091887.pdf>
técnico nº020/CMAM/CGPIMA/ (acesso: 12 jun. 2015).
DAS/FUNAI. Brasília. ___. 2010. Despacho nº2.318, de 13
Brasil. Ministério de Minas e Ener- de agosto. Brasília. Disponível
gia. 2009. Portaria nº372, de 1 de em: <http://www.aneel.gov.br/
outubro. Brasília. Disponível em: cedoc/dsp20102318.pdf> (acesso:
<http://www.aneel.gov.br/cedoc/ 11 jun. 2015).
prt2009372mme.pdf> (acesso: 10 ___. 2011. Despacho nº3.208, de 10
jun. 2015). de agosto. Brasília. Disponível
___. 2010. Aviso nº30/GM/MME, de 9 em: <http://www.aneel.gov.br/
de março. Encaminhado ao Minis- cedoc/dsp20113208.pdf> (acesso:
tro do Meio Ambiente. Brasília. 11 de jun. 2015).
Brasil. Ministério de Minas e Ener- ___. 2012. Despacho nº3.888, de 6 de
gia. Agência Nacional de Energia dezembro. Brasília. Disponível
Elétrica. 2001. Despacho nº513, em: <http://www.aneel.gov.br/
de 31 de julho. Brasília. Disponí- cedoc/dsp20123888.pdf> (acesso:
vel em: <http://www.aneel.gov. 11 de jun. 2015).
br/cedoc/dsp2001513.pdf> (aces- ___. 2009. Diretrizes para a elabora-
so: 11 jun. 2015). ção de serviços de cartografia e
___. 2002. Despacho nº621, de 3 de topografia, relativos a estudos e
outubro. Brasília. Disponível em: projetos de aproveitamento hi-
<http://www.aneel.gov.br/cedoc/ drelétricos. Brasília. Disponível
dsp2002621.pdf> (acesso: 11 jun. em: <http://www.aneel.gov.br/
2015). arquivos/PDF/Diretrizes_Carto-
___. 2006. Despacho nº1.613, de 20 grafia_Abr2009.pdf> (acesso: 10
de julho. Brasília. Disponível em: jun. 2015).

138 Millikan
___. 1998. Resolução nº393, de 4 de Brasil. Ministério de Minas e
dezembro. Brasília. Disponível Energia. Secretaria de Plane-
em: <http://www.aneel.gov.br/ jamento e Desenvolvimento
cedoc/res1998393.pdf> (acesso: Energético. 2007. Manual de in-
10 abr. 2015). ventário hidroelétrico de bacias hi-
Brasil. Ministério de Minas e Ener- drográficas. Rio de Janeiro, Cepel.
gia. Agência Nacional de Energia Disponível em: <http://www.
Elétrica. Superintendência de biblioteca.presidencia.gov.br/
Gestão de Potenciais Hidráulicos. publicacoes-oficiais-1/catalogo/
2000. Diretrizes para estudos de conselhos/conselho-nacional-de-
inventário hidrelétricos. Brasília. -politica-energetica/manual-de-
Brasil. Ministério de Minas e Ener- -inventario-hidroeletrico-de-ba-
gia. Conselho Nacional de Polí- cias-hidrograficas/at_download/
tica Energética. 2011. Resolução file> (acesso: 10 abr. 2015).
nº3, de 3 de maio. Brasília. Dispo- Brasil. Ministério do Meio Ambien-
nível em: <http://www.mme.gov. te. Conselho Nacional do Meio
br/documents/10584/1139159/ Ambiente. 1986. Resolução nº1,
Resoluxo_3_CNPE_Complexo_ de 23 de janeiro. Brasília. Dispo-
Tapajxs_07_06_11.pdf/b05aaa9c- nível em: <http://www.mma.gov.
99ef-4e30-9206-8413149174a4> br/port/conama/legiabre.cfm?co-
(acesso: 10 jun. 2015). dlegi=23> (acesso: 10 jun. 2015).
Brasil. Ministério de Minas e Ener- Brasil. Ministério Público Federal.
gia. Empresa de Pesquisa Energé- Procuradoria da República no
tica. 2015. Plano decenal de expan- Pará. 2015. “Justiça de Manaus
são de energia 2024. 2 v. Brasília. proíbe outorgas para empreendi-
Brasil. Ministério de Minas e Ener- mentos na bacia do Amazonas”.
gia. Empresa de Pesquisa Energé- Sítio da Procuradoria da Repúbli-
tica; Consórcio Leme Concre- ca no Pará. Belém, 13 mar. Dispo-
mat. 2009. Avaliação ambiental nível em: <http://www.prpa.mpf.
integrada da bacia hidrográfica mp.br/news/2015/justica-de-ma-
do rio Teles Pires. Relatório final. naus-proibe-outorgas-para-em-
Brasília. preendimentos-na-bacia-do-ama-
Brasil. Ministério de Minas e Ener- zonas> (acesso: 10 jun. 2015).
gia. Empresa de Pesquisa Energé- ___. 2012. “MPF pede suspensão do
tica; CNEC. 2010. Bacia hidrográ- licenciamento da usina São Luiz
fica do rio Juruena: estudos de do Tapajós”. Sítio da Procuradoria
inventário hidrelétrico. Brasília. da República no Pará. Belém, 26

Estudos de inventário 139


set. Disponível em: <http://www. Recursos Hídricos, regulamenta
prpa.mpf.mp.br/news/2012/mpf o inciso XIX do art. 21 da Cons-
-pede-suspensao-do-licenciamen- tituição Federal, e altera o art.
to-da-usina-sao-luiz-do-tapajos> 1º da Lei nº 8.001, de 13 de mar-
(acesso: 10 jun. 2015). ço de 1990, que modificou a Lei
___. 2014. “MPF vai à Justiça em 6 nº 7.990, de 28 de dezembro de
estados para obrigar o planeja- 1989. Brasília.
mento do uso de recursos hídri- ___. 2004. Lei nº10.847, de 15 de mar-
cos”. Sítio da Procuradoria da Re- ço. Autoriza a criação da Empre-
pública no Pará. Belém, 19 nov. sa de Pesquisa Energética - EPE e
Disponível em: <http://www. dá outras providências. Brasília.
prpa.mpf.mp.br/news/2014/mp- ___. 2012. Lei nº12.678, de 25 de ju-
f-vai-a-justica-em-6-estados-para nho. Dispõe sobre alterações nos
-obrigar-o-planejamento-do-uso- limites dos Parques Nacionais da
de-recursos-hidricos> (acesso: 10 Amazônia, dos Campos Amazô-
jun. 2015). nicos e Mapinguari, das Florestas
Brasil. Poder Judiciário. Seção Judi- Nacionais de Itaituba I, Itaituba
ciária do Pará. Subseção de San- II e do Crepori e da Área de Pro-
tarém. 2012. Decisão. Processo teção Ambiental do Tapajós; alte-
nº3883-98.2012.4.01.3902. Belém, ra a Lei nº12.249, de 11 de junho
19 nov. de 2010; e dá outras providên-
Brasil. Presidência da República. cias. Brasília.
1981. Lei nº6.938, de 31 de agos- ___. 2012. Medida Provisória nº558,
to. Dispõe sobre a Política Nacio- de 5 de janeiro. Dispõe sobre
nal do Meio Ambiente, seus fins alterações nos limites dos Par-
e mecanismos de formulação e ques Nacionais da Amazônia,
aplicação, e dá outras providên- dos Campos Amazônicos e Ma-
cias. Brasília. pinguari, das Florestas Nacionais
___. 1995. Lei nº9.074, de 7 de julho. de Itaituba I, Itaituba II e do Cre-
Estabelece normas para outorga pori e da Área de Proteção Am-
e prorrogações das concessões e biental do Tapajós, e dá outras
permissões de serviços públicos e providências. Convertida na Lei
dá outras providências. Brasília. nº12.678/2012. Brasília.
___. 1997. Lei nº9.433, de 8 de janei- Camargo Corrêa; Centrais Elé-
ro. Institui a Política Nacional de tricas do Norte do Brasil S.a.;
Recursos Hídricos, cria o Sistema Cnec. 2008. Estudos de inventá-
Nacional de Gerenciamento de rio hidrelétrico dos rios Tapajós

140 Millikan
e Jamanxim. Relatório final. em: <http://www.grupodees-
Cnec. 2010. Estudos de inventário tudostapajos.com.br/sumario-
hidrelétrico da bacia do rio Ju- da-avaliacao-ambiental-integra-
ruena. Relatório final. Avaliação da-e-apresentado-em-itaituba/>
ambiental integrada da alternati- (acesso: 11 jun. 2015).
va selecionada, v. 25 e 26, apên- Instituto Socioambiental. 2012.
dice E. “Risco de extinção de rituais e
___. 2011. Estudos de inventário hi- civilizações indígenas por hi-
drelétrico da bacia do rio Jurue- drelétricas: o caso dos Enawe-
na. Relatório final. Avaliação am- nê-nawê”. In: Millikan, Brent;
biental integrada da alternativa Fearnside, Philip; Bermann,
selecionada, v. 27, apêndice E. Célio; Moreira, Paula Franco
Fanzeres, Andreia. 2008. “Parem (org.). O setor elétrico brasileiro e a
as máquinas”. In: O Eco. 25 abr. sustentabilidade no século 21: opor-
Disponível em: <http://www. tunidades e desafios. Brasília, In-
oeco.org.br/reportagens/2230-oe- ternational Rivers Network, pp.
co_27193/> (acesso: 2 abr. 2015). 61-64. Disponível em: <http://
Grupo André Maggi; Pce Enge- www.internationalrivers.org/
nharia; Arapucel (Araputanga files/attached-files/o_setor_ele-
Centrais Elétricas S.A.); Linear trico_brasileiro_e_a_sustenta-
Participações e Incorporações. bilidade_no_sec_21-oportunida-
2002. Rio Juruena: estudos de in- des_e_desafios_-pdf_leve.pdf>
ventário. JUR-INV-00-01-RT. Pro- (acesso: 10 jun. 2015).
cesso no48500.002970/00-72. ___. 2008. “STF pode aprovar Com-
Grupo de Estudos Tapajós. 2014a. plexo Hidrelétrico do Jurue-
Avaliação ambiental integrada na sem consulta aos povos in-
da bacia do Tapajós (sub-bacia Ta- dígenas afetados”. In: Notícias
pajós-Jamanxim). Disponível em: Socioambientais. São Paulo, 25
<http://www.grupodeestudosta- ago. Disponível em: <http://site-
pajos.com.br/grupo-de-estudos -antigo.socioambiental.org/nsa/
-publica-avaliacao-ambiental-in- detalhe?id=2733> (acesso: 11 jun.
tegrada-da-bacia-do-tapajos/> 2015).
(acesso: 10 jun. 2015). Jgp Gestão Ambiental. 2007. “Se-
___. 2014b. “Sumário da avaliação ma-MT aprova a avaliação am-
ambiental integrada é apresenta- biental integrada de 10 aprovei-
do em Itaituba”. Sítio do Grupo tamentos hidroelétricos no alto
de Estudos Tapajós. Disponível Juruena”. Disponível em: <http://

Estudos de inventário 141


www.jgpconsultoria.com.br/no- dústria e Comércio Ltda. 2001.
ticias/juruena.php?acao3_cod0= Bacia hidrográfica do rio Juruena
9e6713f58cc19349ecc794686896c (trecho alto): estudo de inventá-
1f6> (acesso: 11 jun. 2015). rio hidrelétrico, trecho MT 235.
Maggi Energia S.a.; Nascentes; Processo nº48500.002970/00-72.
Rischbieter Engenharia In-

142 Millikan
Ritual burocrático de ocupação
do território pelo setor elétrico:
o caso da avaliação ambiental integrada da bacia do Tapajós1
Rodrigo Folhes

O
convite para participar deste que fazem parte de certa tradição 1. Gostaria de agradecer
livro se deu quando eu estava antropológica brasileira (cf. Tei- o desafio lançado por
Brent Millikan com o
começando a refletir sobre xeira & Souza Lima, 2010), minha convite para que eu
minhas experiências no universo pesquisa de doutoramento, junto escrevesse este artigo,
bem como a leitura
dos estudos de impacto ambiental ao Programa de Pós-Graduação em atenta e meticulosa
(EIA), particularmente do compo- Ciências Sociais da Universidade Fe- de Mauricio Torres e
Daniela Alarcon. Apesar
nente indígena (ECI). Nessa área de deral do Maranhão (UFMA), volta-se
dos esforços conjuntos,
atuação profissional, relacionei-me à análise de instituições e grupos de devo ressaltar que
com povos indígenas, empresas de poder, vista ainda com muito estra- qualquer insuficiência
deve ser atribuída às
consultoria ambiental, com o Es- nhamento por nossos pares. minhas limitações.
tado e, em menor grau, com mo- Encaro esse desafio tendo em
vimentos sociais. A complexidade vista dois objetivos: 1. Participar
dessas relações traz, em seu conjun- dos esforços para a amplificação
to, grandes dificuldades para uma do debate sobre o uso dos recursos
pesquisa que pretenda abordar os naturais e as formas de conquista
exercícios de poderes de Estado sub- empregadas pelo Estado, em alguns
jacentes aos processos administra- casos, violando o ordenamento ju-
tivos de licenciamento ambiental rídico brasileiro e internacional –
sobre o “componente indígena”, po- percebo que o descumprimento dos
tencializando certos desconfortos, direitos coletivos e difusos previs-
aqui em parte enunciados. Situan- tos na Constituição Federal de 1988
do-se no marco dos estudos sobre a configura-se como um continuum
vida política e as políticas públicas, de práticas que visam expropriar

143
2. O Consórcio Tapajós territorialmente povos indígenas A história das relações entre po-
é composto pelas
empresas Centrais
e tradicionais, assim como a popu- vos indígenas e Estado nacional está
Elétricas Brasileiras S.A. lação amazônida, de modo geral; invariavelmente imbricada nas es-
(Eletrobras), Centrais
2. Inserir-me nas discussões acerca truturas administrativas desenvol-
Elétricas do Norte do
Brasil S.A. (Eletronorte), das reflexões etnográficas entre bu- vidas pelo conquistador para impor
Endesa Brasil S.A, GDF rocratas, elites e corporações (Casti- aos povos conquistados suas políti-
Suez S.A., Copel Geração
e Transmissão, Cemig
lho et al., 2014), enfrentando todo o cas de colonização, integração e de-
Geração e Transmissão mal-estar provocado pela realização senvolvimento. As técnicas de gover-
S.A., Neoenergia S.A.,
de uma pesquisa antropológica a no sobre os índios no processo de
EDF e Construção e
Comércio Camargo partir de uma prática profissional integração de tais populações a uma
Corrêa S.A. (Bronz, 2014). comunidade política imaginada ne-
O que pretendo apresentar nes- cessitaram, principalmente a partir
3. Para maiores
detalhes, ver a ação te texto é uma situação etnográfica de um ideal positivista, transformar
civil pública (ACP) relacionada a minha participação a violência aberta em violência sim-
nº1.23.002.000087/2009-
91, proposta pela no estudo de avaliação ambiental bólica. O exercício do poder tutelar,
Procuradoria da integrada (AAI) da bacia do Tapa- como informa Souza Lima (1995),
República no município
de Santarém. Disponível
jós, junto à empresa de consultoria serviu para que o Estado, de pou-
em: <http://www.prpa. ambiental Ecology do Brasil e seus co em pouco, expandisse os seus
mpf.mp.br/news/2012/
clientes, a saber, o Consórcio Tapa- limites e conquistasse o território
arquivos/ACP%20
Consulta%20Previa.pdf>. jós, refletindo mais especificamen- considerado nacional. O exercício da
te sobre as condições de produção tutela, iniciado institucionalmente
desse estudo e seus embates epis- com o Serviço de Proteção ao Índio
temológicos e políticos na análise e Localização dos Trabalhadores Na-
de conflitos socioambientais in- cionais (SPILTN) – órgão criado em
dígenas2. Entendo que a AAI é um 19104 e sucedido pela Fundação Na-
exemplo bastante elucidativo das cional do Índio (Funai), estabelecida
4. Deve-se ressaltar tentativas de conquista dos povos in- em 1967 – e, teoricamente, extinto
que o poder jurídico dígenas por meio de determinados com a promulgação da Constituição
da tutela só passou
a ser exercido após procedimentos administrativos le- de 1988, pode ser lido ainda na gra-
a aprovação da lei vados a efeito pelo Estado. Note-se mática do conflito instaurado por
nº5484/1928 (cf. Souza
que, nesse caso, a AAI, apesar de ter novos procedimentos administrati-
Lima, 1995, 2009, 2012).
sido criada pelo setor elétrico para vos. Nesse quadro, o discurso sobre
atender demandas relacionadas ao a vocação energético-econômica do
“meio ambiente”, só foi elaborada país, aliado à noção de desenvolvi-
em razão de ordem judicial decor- mento sustentável, legitima a gestão
rente de ação proposta pelo Minis- de territórios e suas coletividades
tério Público Federal (MPF)3. por um corpo de especialistas, for-

144 Folhes
talecendo-se a presença do Estado, relaciona-se ao modelo de gestão da
com programas ambientais finan- questão indígena?
ciados em grande parte pelo capital A consideração detalhada dessas
privado. indagações não faz parte do escopo
Podemos dizer que, assim como deste texto, mas são importantes
a política de colonização do SPILTN questões de fundo na análise sobre
teve como um de seus objetivos li- o caso da AAI e sobre sua maneira
berar terras por meio de procedi- particular de exercer o poder de ocu-
mentos de atração e pacificação, a par e gestar o território nacional. Por
política econômica atual, por meio ora, procurarei pensar no enquadra-
de procedimentos de licenciamento mento conferido pelo setor elétrico
ambiental, procura liberar terras ao meu trabalho como consultor, de
para o crescimento econômico, cal- modo a tornar o documento final da
cado em parcerias entre os setores AAI cientificamente validado pelo
público e privado? Podemos enten- empreendedor, pelas empresas con-
der que a noção de desenvolvimento sultoras e pela administração pú-
sustentável faz a intermediação sim- blica. Entendo que o resultado final
bólica entre as distintas formas de da AAI, no que concerne à análise
execução das políticas públicas? Os de conflito com os povos indígenas,
programas ambientais poderiam se não atingiu os objetivos propostos
relacionar às estratégias dos exer- no documento por mim elaborado
cícios de poder do Estado para dar e tampouco aqueles constantes no
marcha ao “grande cerco de paz”5? contrato firmado com a empresa 5. Para fazer alusão
ao título do livro de
Estariam esses programas – mesmo consultora, que previa uma análise
Souza Lima (1995), que
em face do fortalecimento dos mo- crítica dos conflitos do setor elétri- analisa novas formas
vimentos e associações indígenas, co com os povos indígenas. Foram de controle geopolítico
do território nacional,
nos dias de hoje, para exercer as várias as interferências, cortes e assumindo um viés
suas governanças territoriais – en- alterações de significado do texto interpretativo no qual
o poder tutelar é uma
quadrados no processo pedagógico original. Não pretendo sugerir que forma reelaborada
de civilização (Souza Lima, 2002) as minhas análises sobre os con- de uma guerra, com
de matriz evolucionista? Até onde flitos com os povos indígenas não repetições modificadas
de conquista.
a promoção do multiculturalismo fossem passíveis de crítica – longe
como estratégia de implantação de disso. Creio, porém, que o debate
políticas neoliberais por parte dos travado em torno de meu trabalho
Estados nacionais e bancos multi- proporciona um caminho de refle-
laterais de desenvolvimento (Barro- xão acerca das teorias e conceitos
so Hoffmann, 2005; Barroso, 2014) que constituem o reservatório onde

Ritual burocrático de ocupação do território pelo setor elétrico 145


6. Poderia estimar as equipes técnicas desses estudos ção de conflitos com as populações
um número dez vezes
ambientais (empresariais) parecem tradicionais e indígenas, e um nú-
maior de profissionais
contratados para tra- buscar seus argumentos. É possível mero muito superior de cientistas
tar dos meios físicos e visualizar as práticas empresariais para os estudos do meio físico e bió-
bióticos e, ainda sim,
subestimar o número
e administrativas, assim como suas tico6. É a partir do peso atribuído a
de pesquisadores en- performances, como um campo certos saberes que se pode começar
volvidos com o estudo.
de lutas pela definição dos concei- a entender como se dá a participa-
Tal desproporção fica
ainda mais patente se tos mais relevantes para legitimar ção de cientistas sociais nos qua-
levarmos em conta a uma determinada forma de conhe- dros analíticos institucionais. Como
totalidade dos estudos
de inventário hidrelé- cimento voltada à delimitação de corolário, os próprios cientistas so-
trico, do qual a AAI se um dado território e à atuação no ciais que participam desses quadros
origina. Pretendo consi-
mesmo (Bourdieu, 2010: 107-132). parecem, por um lado, ser guiados
derar essa equação em
futuros trabalhos. Por outro lado, é possível apreender ao canal de forças das ciências ditas
7. Em linhas gerais, como se estabelecem e se executam hard e, por outro, ensacados pelos
disciplinas como física, as práticas empresariais voltadas à limites da geografia física e econô-
química, biologia e
participação no ritual do licencia- mica, a delimitar a fronteira em que
geologia são conside-
radas hard sciences ou mento ambiental. se dará a gestão territorial7.
“ciências duras”. Em Deve-se ressaltar, primeiramen- A oposição ontológica entre na-
oposição, antropologia,
história, psicologia e so- te, que a AAI já denuncia em seu tureza e cultura é emblemática
ciologia são chamadas sumário a importância despropor- nesses estudos. Mas, afora a ope-
de soft sciences, “ciên-
cional atribuída às questões ditas racionalidade do pensamento dua-
cias moles”. Essa divisão
apoia-se basicamente “naturais” em detrimento das “so- lista, que marca tanto as ciências
na suposição de que ciais”. Instaura-se desde cedo, por- naturais quanto as ciências sociais
as “ciências moles”, as
ciências sociais, carece- tanto, uma linha, uma fronteira, no decurso de institucionalização
riam de rigor na consti- delimitada desde a elaboração do de suas disciplinas, no âmbito dos
tuição de seus métodos
científicos. Para um
termo de referência que orienta estudos ambientais para fins de li-
debate sociológico a feitura desses estudos. Trata-se cenciamento ambiental, espera-se,
acerca do problema
de uma hierarquização de saberes principalmente de antropólogos,
da diferenciação entre
as hard sciences e as muito bem marcada, que se ex- um padrão narrativo no molde ma-
soft sciences, destacan- pressa, inclusive, na quantidade linowskiano, que prime pela máxi-
do aspectos de natu-
reza organizacional da
de profissionais das distintas áreas ma objetividade, desconfie das teo-
atividade científica, em que participam de estudos que en- rias e generalizações dos nativos,
detrimento das discus-
volvem avaliação de impactos “am- e omita as condições concretas da
sões de ordem ideológi-
ca e filosófica, isto é, em bientais”. A título de comparação, pesquisa antropológica (Oliveira,
torno dos componentes basta observar que, no caso em aná- 1999: 61). O conceito de cientista
cognitivos e prescritivos
acerca da organização lise, foram contratados apenas dois neutro, herança positivista, está for-
da atividade científica, cientistas sociais para fazer a avalia- temente incrustado nesses estudos.

146 Folhes
E o que sobra do “desencantamen- Hoffman, 2002), e abordagens que ver Beato F. (1998).
Para uma recusa à
to do mundo” é o recrudescimento se aproximam da ecologia política
dissociação entre
do valor de verdade – uma verdade (Little, 2006; Barbosa de Oliveira, método e prática
que coloque os empreendimentos 2012) –, me apoiarei no capítulo do sociológica, ver
Bourdieu et al. (2004).
como factíveis e a custos socioam- livro Multiculturalismo, de Semprini
bientais também possivelmente (1999), chamado “O nó górdio epis- 8. “O conceito de ‘desen-
cantamento do mundo’
manejáveis8. temológico”. O autor, ao apresentar
[de Max Weber] repre-
Refletindo sobre as redes e rela- a questão multicultural a partir das sentou a busca de um
cionamentos pessoais que estrutu- diferenças que marcaram a socieda- conhecimento objetivo,
liberto de sabedorias ou
ram o campo do desenvolvimento, de norte-americana, sobretudo após ideologias reveladas e/
Ribeiro caracteriza o “desenvolvi- os anos de 1960, com o movimento ou aceitas. Nas ciências
sociais ele traduziu-se
mento como a expansão econômica pelos direitos civis, faz uma interes-
na exigência de que não
adorando a si mesma” (2012: 197). sante análise sobre as tradições in- rescrevêssemos a histó-
Nesse sentido, quais são as carac- telectuais que alicerçam o que con- ria em nome das estru-
turas de poder vigentes.
terísticas do campo de poder que sidera serem uma epistemologia Tal exigência constituiu
sustenta o sistema de crença de multicultural e uma epistemologia um passo fundamental
no sentido de libertar a
uma parcela específica do campo monocultural10. No embate entre atividade intelectual de
do desenvolvimento, qual seja o ambas as tradições de pensamento, manietadoras pressões
setor elétrico? Qual a perspectiva Semprini destaca: externas e da mitologia,
e continua a manter-se
epistemológica que se faz hegemô- válida” (Wallerstein et
nica nesse campo? Tendo em vista a posição multicultural apoia-se so- al., 1996: 110).

essas inquietações mais abrangen- bre uma mudança de paradigma, 9. As teorias que acom-
panharam o tema do
tes9, tomo como principais pergun- ela invoca a estabilidade, a mistura,
desenvolvimento, dire-
tas deste texto as seguintes: 1. Que a relatividade como fundamentos de cionadas a sua descons-
ciência está a legitimar o processo seu pensamento. A análise monocul- trução (Ferguson, 1990;
Escobar, 1995), junto às
administrativo de territorialização, tural aparece assim como infinita- correntes do “pós” (pós-
limitando o enquadramento analí- mente mais simples e tranquilizado- -estruturalismo, pós-
-moderno, pós-colonial
tico dos conflitos com os povos in- ra. Ela garante que a verdade existe,
e pós-desenvolvimento)
dígenas a “espaços” controláveis? 2. que é possível conhecê-la, que existe e aos estudos subal-
Quais os saberes/fazeres que se espe- uma solução para cada problema e ternos, representados,
principalmente, pelos
ra de um “especialista em índios”? que é a ciência quem dará tal solu- trabalhos de Sachs
Partindo, assim, para essas ques- ção (1999: 89). (2000 [1992]), Mignolo
(2003 [2000]), Quijano
tões – que perpassam trabalhos
(2000), Rist (2008), Spi-
reconhecidos sobre processos de Ao colocar a dualidade nesses vak (2010 [1988]) e San-
territorialização no Brasil (como Oli- termos, o autor argumenta que a tos (2010), entre outros,
serão essencialmente
veira, 1998) e sobre novas políticas opinião pública, apoiada em uma importantes para um
indigenistas (Souza Lima & Barroso desconfiança anti-intelectual, tende debate futuro.

Ritual burocrático de ocupação do território pelo setor elétrico 147


10. Para o primeiro caso, a se posicionar pela existência do era como empreender uma micror-
Semprini (1999: 81-96)
“bom senso”, das coisas “como elas resistência, nos termos de Scott
passa em revista as
principais correntes de são”, e não do lado do multicultura- (2002), dentro da própria estrutura
pensamento pós-Au- lismo. Nesse sentido, e a partir do criada pelo setor elétrico.
guste Comte, chegando
até os pós-modernos,
rótulo criado em torno dos apoia- Na verdade, minha inquietação
esquematizando qua- dores do multiculturalismo, “para tinha origem nas tratativas ocor-
tro pilares principais
a opinião pública norte-americana ridas entre a Coordenação Geral
da epistemologia
multicultural. Seriam atual, não existe conflito entre duas de Gestão Ambiental (CGGAM)
eles: a realidade é uma epistemologias, mas entre a Améri- da Funai e a Superintendência de
construção, as interpre-
tações são subjetivas, ca autêntica e seus inimigos” (Ibid.: Gestão e Estudos Hidroenergéticos
os valores são relativos, 90). Acredito que o cenário acerca (SGH) da Agência Nacional de Ener-
o conhecimento é um
das representações políticas e cien- gia Elétrica (Aneel) acerca das si-
fato político. Para o
segundo caso, recorre a tíficas sobre os aproveitamentos hi- tuações de conflito vivenciadas nas
termos do filósofo e es- drelétricos (AHEs) no Tapajós, assim terras indígenas (TIs) da bacia do Ta-
critor norte-americano
John Searle, como uma como em outras bacias, possa ser pajós e que reverberavam em nosso
espécie de síntese sobre percebido de forma bastante pró- trabalho como técnicos da Funai.
a herança intelectual
ocidental, destacando-
xima às “aporias conceituais” que Os registros ativos fornecidos pela
-os: a realidade existe circunscrevem o espaço intelectual Aneel às diferentes empresas para a
independentemente e político descrito por Semprini. realização de estudos de inventário
das representações
humanas, a realidade hidrelétrico causavam uma série de
existe independente- Situando-me no campo do impactos aos povos indígenas, em
mente da linguagem,
a verdade é uma
desenvolvimento razão dos métodos de concorrência
questão de precisão Em dezembro de 2012, aceitei o con- estabelecidos pelas empresas já no
de representação, o
vite da empresa de consultoria am- primeiro procedimento para avaliar
conhecimento é obje-
tivo. O encadeamento biental Ecology Brasil, sediada no a potencialidade energética de um
lógico dessas premissas Rio de Janeiro, para participar do rio11. Na ocasião, os representantes
levaria a outros quatro
pontos: uma redução
estudo da AAI da bacia Tapajós-Ja- da SGH/Aneel deixaram claro que o
do sujeito às suas manxim. Pelo lado do contratante, principal objetivo do órgão é conhe-
funções intelectuais e
havia a expectativa de que a minha cer o potencial hidroenergético que
cognitivas, uma desva-
lorização dos fatores participação na avaliação de confli- os rios podem oferecer. E, basean-
culturais e simbólicos tos com os povos indígenas fosse do-se em uma prerrogativa que pre-
da vida coletiva, a
crença em uma base um fator positivo, tendo em vista za pela concorrência entre os em-
biológica do comporta- a experiência acumulada nos anos preendedores, o órgão não impõe
mento, orgulho pelas
em que trabalhei como assessor da restrições aos pedidos de registro
conquistas do pensa-
mento ocidental. Funai, acompanhando procedimen- para a realização dos inventários.
tos administrativos de licenciamen- Àquela altura, procurávamos
to ambiental. Para mim, o desafio (técnicos da CGGAM) entender a

148 Folhes
atuação e controle dessa agência dos órgãos setoriais de Estado para a 11. Isso ocorria princi-
palmente nas bacias
relativos aos estudos de inventário, obtenção da licença ambiental sem
hidrográficas situadas
para melhor responder às pressões a devida identificação e avaliação no estado de Mato
e demandas que nos chegavam no dos impactos sobre terras e povos Grosso, onde inúmeras
empresas (com a parti-
âmbito dos procedimentos de li- indígenas na fase de licenciamento, cipação de representan-
cenciamento ambiental. Tratava-se e das postergações das mesmas, por tes do agronegócio) se
lançaram no potencial
de compreender os procedimentos meio de um dos termos utilizados
mercado energético,
adotados por cada instituição, com na gramática do licenciamento: as com a expectativa de
vistas a projetar um procedimento condicionantes15. Antecipar as avalia- construção de centenas
de pequenas centrais
comum e anterior à fase de licencia- ções de impacto e a participação hidrelétricas (PCHs).
mento ambiental. Foram dessas re- das populações indígenas nos pro- Quando da aprovação
de despacho do estudo
uniões promovidas pela Funai com jetos e estudos, em minha cabeça,
de inventário do rio
a Aneel que surgiu meu incômodo ainda tomada pelo ordenamento Tapajós (em que foram
em relação à noção autoevidente e de políticas públicas, era essencial. identificados sete AHEs
com potência de 14.245
nada natural12 de “vocação energéti- Observava, também, a arena públi- megawatts de capaci-
ca”, bem como a constatação de que ca em torno dos empreendimentos dade instalada), publi-
cado no Diário Oficial
se aplicavam critérios meramente e a apropriação de algumas ideias e da União (DOU) no dia
receituários de avaliação dos impac- diretrizes, identificáveis nas formas 25 de maio de 2009,
a agência reguladora
tos ambientais13. de ação coletiva e nos argumentos
informou que de 1999
Vislumbrei assim no trabalho de empregados, buscando interferir a 2009 tinha aprovado
consultoria a possibilidade de in- no processo decisório que estabe- 430 estudos de inven-
tário hidrelétrico no
serir na AAI outros pontos de vista lece normas e regras de utilização país, entre UHEs e PCHs,
sobre o ambiente, que fossem defi- de recursos naturais, no sentido de com potencial de 62,8
mil megawatts (ver:
nidos pela análise das relações so- ampliá-lo.
<http://www.aneel.
ciais e territoriais indígenas, e que Ingenuidade, diriam alguns; pre- gov.br/aplicacoes/noti-
considerassem os indígenas como tensão, diriam outros; “pesquisador cias_boletim/?
fuseaction=boletim.de
dotados de agências próprias14. Por inimigo”, afirmariam outros tantos, talharNoticia&idNoti
esse caminho, possivelmente, me mais engajados. O fato é que a mi- cia=343>). Desse mon-
tante de estudos, uma
distanciaria de nexos passivos de nha participação nesse estudo – que
quantidade bastante
vocações econômico-energéticas. não significa aceitação do mesmo, expressiva foi realizada
Nesses termos, imaginava apontar como veremos mais à frente – possi- próximo a TIs, ou dentro
delas.
– em um documento que, em tese, bilitou-me um pouco mais de inser-
deveria anteceder os EIAs – impac- ção no campo empresarial que atua 12. O paradoxo é pro-
posital. Quando afirmo
tos e diretrizes que pudessem ser na burocracia do desenvolvimento
que a noção é autoe-
levados em consideração pelos ges- (Barroso, 2014). Pude acompanhar vidente, relaciono-a à
tores competentes. Era conhecedor um pouco das rotinas e exercícios perspectiva do setor
elétrico, a partir de um
das pressões e exercícios de poder de poder que se situam na relação

Ritual burocrático de ocupação do território pelo setor elétrico 149


determinismo vindo entre Estado, empresas privadas e quando o procedimento adminis-
de certa apropriação
povos indígenas e tradicionais. Em- trativo de licenciamento ambiental
da geográfica física
e econômica que ca- bora meu lugar como consultor te- correspondente já está em anda-
racteriza o rio como nha propiciado um contato maior mento. No entanto, muitas articu-
vocação energética. A
meu ver, não se trata de
com funcionários de cargos técnicos lações advindas de planejamentos
uma noção natural, já e gerenciais da empresa de consul- e estudos são realizadas pelo setor
que ela oculta em suas
toria, participei de reuniões com a elétrico até que se chegue aos EIA
produções cartográficas
e em outras formas de presença do alto escalão do setor elé- propriamente ditos. Grande parte
discurso as ligações trico16. E pude, de maneira mais inci- das UHEs que barraram ou estão
(inclusive simbólicas)
das populações indíge- siva, ter contato com o uso de uma em vias de barrar os principais rios
nas e ribeirinhas com o gramática própria para lidar com os da Amazônia para fins de produção
ambiente. Não se trata
conflitos na bacia do Tapajós, tanto energética é resultado de estudos
de um espaço natural
inerte e silencioso, por meio de discursos proferidos em iniciados nos anos de 1970. De lá
como informa Barbosa reuniões, quanto de comentários es- para cá, pouco ou quase nada mu-
de Oliveira (2012: 163),
recuperando reflexões critos em resposta aos documentos dou no que diz respeito às defini-
de Tim Ingold, mas de que entreguei à empresa. ções acerca da melhor alternativa
um ambiente que só
pode ser definido em
Acredito que, por ter sido um de aproveitamento de potencial hi-
função dos seres vivos observador direto do ambiente po- drelétrico das bacias hidrográficas.
que ali habitam e com lítico-administrativo dos aparelhos Não fosse a determinação normati-
o qual estabelecem
relações. estatais de poder, via Funai, e das va de se realizar a AAI, esses estu-
empresas privadas (em escala bem dos possivelmente continuariam
13. A Aneel não mais reduzida), via consultoria am- sendo analisados unicamente por
questiona a análise de
biental, em seu exercício junto aos técnicos e gestores do setor elétri-
avaliação dos impactos
levantados pelos dife- povos indígenas, posso trazer algu- co, respeitando-se os interesses nacio-
rentes estudos; parte-se mas questões para o debate sobre a nais, bem longe de ideologias políticas.
do pressuposto de que
a equipe técnica que doxa ambiental, sobre a qual Zhouri Evitar-se-ia, assim, a participação de
assina os estudos tem (2012) discorre (ver também Zhouri pessoas supostamente “sem quali-
responsabilidade sobre
et al., 2005), e sobre o poder tutelar, ficação técnica para tecer críticas
os dados apresenta-
dos. Após os estudos questão analisada por Souza Lima ao setor elétrico”, como explicitou
entregues, a agência (1995), mas, principalmente sobre a Empresa de Pesquisa Energética
apenas confere-os com
um check list, para as práticas empreendidas cotidiana- (EPE) ao antropólogo contratado
então aceitá-los, não se mente por certas elites para gestar e pela mesma – que ousou considerar
detendo na avaliação
de impactos. O que se
gerir territórios (Souza Lima, 2002)17. o AHE São Manoel inviável na pers-
faz é uma ponderação pectiva do ECI – ou de acordo com
acerca do custo x bene-
O poder de controle social da AAI as ênfases dadas pela Coordenação
fício de cada repartição
de queda. Para melhor Normalmente, tomamos conheci- Técnica de Meio Ambiente (CTMA)
visualização técnica mento da existência de um AHE à minha análise sobre os conflitos

150 Folhes
dos empreendimentos com os po- ambientais se fazem necessárias20. dessa relação, consulto-
res desenvolvem tabelas
vos indígenas. Minha observação, porém, não foi
comparativas, com
A incorporação da AAI aos es- aceita, uma vez que a CTMA consi- distintos vetores asso-
tudos de inventário é um exemplo derou-a “subjetiva”. ciados ao que seria, ou
quais seriam, o custo e
bastante emblemático do que Lei- Também foram inseridas no ma- o beneficio. A repartição
te Lopes chamou de processo de nual de 2007 orientações sobre os de queda que apresen-
tar melhor relação entre
ambientalização18. A obrigatoriedade usos múltiplos da água, em conso-
ambos será escolhida
dessa avaliação decorreu de um “es- nância com a Política Nacional de como a melhor e, pos-
forço” de revisão do conteúdo rela- Recursos Hídricos (PNRH), e sobre sivelmente, será apro-
vada pela Aneel como
tivo ao Manual de inventário hidroe- novos sujeitos de direito, a saber, aproveitamento ótimo.
létrico de bacias hidrográficas (1997), populações tradicionais. Para o primei- Como se vê, o fato de
a questão ambiental
iniciado pelo Ministério de Minas e ro caso, em observação ao manual,
ser analisada exclusi-
Energia (MME) em 2004, para aten- escrevi no documento intitulado vamente com base em
der às “mudanças ocorridas, nestes “Conflitos com povos indígenas - dados secundários pode
levar a conclusões par-
últimos dez anos [1997-2007], no parte II”21 um item na perspectiva ciais, que subestimem
setor elétrico brasileiro, particular- de ser incorporado na AAI, intitula- os potenciais impactos.
A partir do aceite de
mente nas áreas da legislação, do do “Vocação, usos múltiplos e ‘etc’: um dos estudos, são
meio ambiente, dos recursos hídri- conflitos socioculturais e cosmoló- estabelecidos prazos
cos e dos aspectos institucionais” gicos”22, que foi categoricamente para que todos que
solicitaram o registro
(Brasil, Ministério de Minas e Ener- desconsiderado no resultado final do trecho inventariado
gia, Secretaria de Planejamento e do estudo. Abaixo, reproduzo um também os entreguem.
A fixação desses crité-
Desenvolvimento Energético, 2007: pequeno trecho desse item: rios está estabelecida
3). Elaborado pelo MME e pelo Cen- nas resoluções nor-
mativas nº393/1998 e
tro de Pesquisas de Energia Elétrica Para o setor elétrico, a bacia tem
nº412/2010.
(Cepel), no âmbito do projeto Energy uma vocação. E essa vocação é a ge-
Sector Technical Assistance Loan (Proje- ração de energia, que precisa ser ve- 14. Note-se que o tra-
balho de consultoria
to de Assistência Técnica ao Setor rificada, estimada em seu potencial
apoia-se, em grande
Elétrico - Estal)19, do Banco Mundial, hidrelétrico. O estudo de inventário medida, em relações
o manual estabelece em seu capítu- é responsável por determinar esse pessoais com inte-
grantes das redes do
lo 6 as instruções para a elaboração potencial, estabelecendo a melhor licenciamento ambien-
da AAI. Em linhas gerais, como ob- divisão de queda por meio da rela- tal. Para um debate
sobre as “amizades
servei no produto entregue à Ecology ção custo x benefício, ou seja, má-
instrumentais”, ver
intitulado “Conflitos com os povos ximo de energia ao menor “custo” Wolf (2001). Já para
uma reflexão acerca
indígenas”, procurou-se adequar as e “com mínimo de impacto ao meio
do capital específico do
políticas e linhas de financiamento ambiente”. O inventário hidrelétrico campo ambiental, ver
à rubrica de desenvolvimento sustentá- dos rios Tapajós e Jamanxim é bem Zhouri (2012).

vel, no marco do qual as garantias claro a respeito da suposição acima

Ritual burocrático de ocupação do território pelo setor elétrico 151


15. Como havia nota- relatada, tomemos como exemplo o se criado as condições para que o ho-
do na elaboração das
seguinte texto: mem dela se apropriasse e pudesse
diretrizes da AAI para
a questão indígena, “a “A exemplo de seus congêneres, os gerar crescimento econômico, por
defesa de que o licen- rios Tocantins, Xingu e Madeira, a isso o termo “vocação”, expressando
ciamento ambiental
tem sido uma ferra- faixa de transição entre os sedimen- tanto ideologicamente o domínio
menta preventiva entre tos Terciários e o Embasamento Cris- do homem sobre a natureza, quanto
o desenvolvimento
talino permite a exploração de queda economicamente a incorporação de
econômico e social e
a proteção ao meio em trechos aquinhoados com vazão de um ativo.
ambiente não parece valor considerável, resultando em
se enquadrar na ga-
rantia da não violação aproveitamentos de economicidade ga- É interessante notar que esse
de direitos indígenas rantida. O mesmo ocorre no rio Tapa- item, especificamente, traçava uma
legalmente constituí-
dos, como pudemos
jós, justamente no trecho das corre- relação direta entre o caso em aná-
observar a partir dos deiras de São Luiz, onde é possível a lise e os resultados do ECI do AHE
procedimentos instituí-
implantação de um empreendimen- São Manoel, que, à época, havia
dos na região da bacia
do Tapajós que foram to com 6.133 MW [megawatts], com sido modificado pela EPE. Essa é
a licenciamento, uma um mínimo de impacto no Parque uma questão importante, uma vez
vez que todos tiveram
problemas bastante
Nacional da Amazônia” (ELN/CNEC, que todas as análises no texto que
graves, infringindo o 2008:9, grifo meu). faziam referências a outros em-
caráter da precaução,
Embora deva ser ressaltado que exis- preendimentos da bacia do Tapajós
dos direitos humanos,
da necessidade de tem leis de regulação de mercado e e que extrapolavam o recorte geo-
reprodução social e que estabelecem a necessidade de gráfico adotado nesse estudo não
cultural indígena, de
participação e controle custos econômicos reduzidos visan- foram consideradas pertinentes
social, e da proteção ao do o interesse público, os próprios para a versão final da AAI. Todas as
meio ambiente” (texto
termos e categorias utilizados são análises críticas aos procedimentos
original entregue pelo
autor à Ecology, intitu- reveladores da filosofia que opera administrativos de licenciamento
lado “Diretrizes e reco- nesses procedimentos de ocupação, ambiental, ou mesmo simples men-
mendações”).
conquista e domínio territorial, com ções aos empreendimentos de Belo
16. Não se tratava de relações pragmáticas totalmente Monte, Teles Pires, São Manoel e
uma novidade, já que
avessas aos relacionamentos que Juruena, foram retiradas do texto.
ocupei cargo de direção
e assessoramento su- os índios mantêm com os rios. Não As primeiras alegações da CTMA
perior (DAS) na Funai, importam as relações que possam partiram do pressuposto de que as
havendo encontrado
os mesmos atores que
existir entre as pessoas e o ambien- descrições dos conflitos envolvendo
pertencem a essa “elite te. São externalidades arbitrárias os povos indígenas estavam deta-
político-administrativa”
demais para conceber políticas de lhadas demais em comparação com
(Barroso, 2014) em
outras reuniões de desenvolvimento econômico. Do os outros conflitos existentes na
governo. ponto de vista da economia, grosso bacia. Ademais, entenderam que as
modo, é como se a “natureza” tives- análises que consideravam outros

152 Folhes
AHEs – em sua maioria, em estágios de, necessita de assinatura técnica. 17. Almejo, em um exer-
cício posterior, a partir
avançados do licenciamento am- Além disso, como consta no termo
dos trabalhos de Bar-
biental – estavam sendo orientadas de referência elaborado pela Eletro- roso Hoffmann (2005,
por “juízos de valor” e, portanto, bras, “quaisquer alterações meto- 2011) e Barroso (2014),
discorrer empiricamen-
não corresponderiam à “verdade” dológicas que sejam necessárias no te sobre como as mobi-
dos fatos. Chamou-me atenção o es- desenvolvimento do estudo deverão lizações dessa elite são
feitas, levando-se em
forço considerável para que não fos- ser previamente acordadas e auto- conta a especificidade
sem retomadas críticas a AHEs em rizadas pela Coordenação Técnica desses grupos domi-
nantes.
andamento. de Meio Ambiente”, sem necessa-
Por meio de um breve exercício riamente envolver a participação
comparativo acerca das interferên- do antropólogo responsável. Isso 18. O termo ambientali-
zação é um neologismo
cias das equipes técnicas do setor quer dizer que, no caso da AAI, exis-
desenvolvido por homo-
elétrico em estudos de seu inte- te um controle social muito mais logia a outros usados
resse, creio ser importante desta- explícito, com vistas a atender as nas ciências sociais, tais
como industrialização e
car também as diferenças entre as orientações do cliente, que no caso proletarização. Designa
alterações realizadas pela EPE no do ECI. São duas situações distintas o processo de consti-
tuição de uma questão
ECI do AHE São Manoel e aquelas de interferência no resultado dos
coletiva e pública, a
empreendidas pela Ecology e pelo estudos, mas com objetivos teórico- “questão ambiental”,
CTMA no meu trabalho. No primei- -metodológicos e políticos muito que emerge como fonte
de legitimação e argu-
ro caso, trata-se de um estudo vol- próximos. mentação nos conflitos
tado à avaliação de impactos junto Os limites deste artigo não me sociais, bem como de
uma interiorização
aos povos indígenas, observando permitem realizar uma “etnografia de comportamentos e
as diretrizes da Funai, cuja norma mais densa” (para usar uma das ale- práticas por meio da
administrativa legal estabelece que gações da CTMA contra o meu traba- promoção da educação
ambiental (Leite Lopes,
o mesmo seja coordenado por um lho) sobre as condições de produção 2006).
antropólogo e que a equipe técnica do documento, de forma a detalhar
deve assinar o estudo. Temos, para o campo no qual me inseri. Entre- 19. Esse mesmo projeto
financiou a contrata-
esse caso, uma desconsideração tanto, a partir do percurso do docu- ção de 84 estudos, que
tripla da norma, pois o estudo não mento original escrito por mim e serviram de base téc-
nica para a elaboração
foi coordenado pelo antropólogo, a dos embates travados na defesa dos
do Plano Nacional de
equipe técnica não assinou o estu- meus argumentos junto ao CTMA e Mineração 2030 (PNM
do e a EPE suprimiu trechos impor- à Ecology, é possível observar um 2030), pela Secretaria
de Geologia, Minera-
tantes das análises do antropólogo pouco dos bastidores do “mercado ção e Transformação
sem a sua permissão. No meu caso, de projetos” e a consequente gestão Mineral (SGM/MME).
Ver: <http://www.mme.
trata-se de um estudo do setor elé- de territórios e populações promo-
gov.br/sgm/menu/
trico que não é avaliado pela Funai vida pelos procedimentos de licen- relatorios_plano_nacio-
e tampouco, para minha infelicida- ciamento ambiental. nal_mineral.html>.

Ritual burocrático de ocupação do território pelo setor elétrico 153


Note-se que, para Primeiramente, é importante o cliente, passa em grande medida
compor o grupo de
trabalho responsável
notar que, para trabalhar como pela capacidade de gestão institu-
pela revisão e elabora- consultor, é necessário, na maioria cional, econômica e técnica desse
ção do novo manual,
das vezes, estar inscrito junto ao ca- gerente de projetos24. Tais gerentes
foram convidados vá-
rios órgãos de governo, dastro nacional de pessoa jurídica costumam se dividir em áreas de
relacionados a distintas (CNPJ), para que a empresa contra- atuação: socioeconomia, biótica e
áreas temáticas. A
Funai, contudo, não foi
tante possa pagar pelo seu serviço. física. No entanto, possuem em sua
um deles, a despeito Isso é emblemático, pois já delimi- prática experiências multidiscipli-
de o componente-sín-
ta os possíveis participantes desses nares bastante relevantes.
tese “povos indígenas”
figurar na estrutura projetos, privilegiando pessoas que Uma pergunta a se responder: o
analítica dos critérios se voltam para essa atividade, para que esses gerentes têm a ver com
socioambientais para
os estudos de inven- esse campo de atuação profissio- o poder de controle social da AAI?
tário e AAI. Tampouco nal. Ter CNPJ é um dos principais Considero importante destacar mi-
a Fundação Cultural
requisitos para fazer parte da rede nimamente o capital institucional
Palmares participou do
grupo de trabalho – os de consultores externos do mercado da dos gerentes da Ecology (que, em
quilombolas estão inse- consultoria. No meu caso, após me outras empresas de consultoria
ridos no componente-
-síntese “populações tornar uma pessoa jurídica, o proce- ambiental, podem receber outras
tradicionais”. dimento inicial consistiu em apre- classificações), para indicar que são
sentar uma proposta de trabalho atores relevantes na construção e
20. O próprio cresci- que, uma vez aprovada, gerou, por defesa de argumentos utilizados no
mento dos aparelhos de
parte da empresa, uma autorização estudo. Normalmente, possuem for-
Estado para lidar com
essa nova agenda am- de trabalho (AT). Esse era o contrato mações em grandes centros de pes-
biental, em que atuam entre as partes, que estabelecia ati- quisa nacional e internacional, com
novos e velhos atores
sociais da cena política, vidades, produtos e pagamentos. De especializações na própria área ou
faz parte do paradoxo maneira geral, cada uma dessas ATs títulos de Master of Business Adminis-
que envolve as questões
ambientais no Brasil. Se,
está relacionada a um elemento de tration (MBA)25, e estão inseridos em
por um lado, a formula- custo, que se vincula a um projeto, uma rede muito bem mapeada de
ção de políticas públicas bem como a um gerente de proje- empresas de consultoria ambiental
tem incorporado cada
vez mais os preceitos tos (project manager). Essa figura ad- e órgãos de governo. Tais gerentes
de sustentabilidade ministrativa, que está amarrada à assumem um papel de mediação
ambiental, de modo a
tornar possível o cres-
cadeia hierárquica da empresa, será bastante complexo junto a todos
cimento econômico a pessoa responsável por acompa- os outros atores técnicos e políticos
com a conservação dos
nhar “tecnicamente” o trabalho de que estão inseridos no projeto. A
recursos naturais, por
outro, percebe-se que todos os consultores contratados começar pela própria empresa con-
a adoção de uma nova para realizar o mesmo projeto23. O sultora, passando pelo cliente – que
“mentalidade ambien-
tal” nos dispositivos e
sucesso do projeto, em termos de pode se ramificar por um número
normas legais resultado e relacionamento com bastante expressivo de empresas

154 Folhes
consorciadas e seus acionistas – e dência, por sua vez, possui conta- não necessariamente
implica a garantia de
chegando aos órgãos de controle to direto com os chefes, diretores cumprimento dos direi-
do Estado e aos consultores externos e presidentes das empresas para tos constituídos (Folhes,
2013).
contratados. No caso em questão, as quais a empresa de consultoria
o cliente era o Consórcio Tapajós, oferta seu trabalho. Não raro, esses 21. Esse documento foi
escrito a partir de uma
cujas empresas possuem interesses gerentes acompanham de forma di-
base previamente ela-
diretos nos AHEs da bacia – muitas reta as reuniões entre ambos – mes- borada por cientistas
delas haviam investido somas con- mo quando não as acompanham, sociais, funcionários da
Ecology.
sideráveis de recursos para a reali- são articuladores diretos das nego-
zação de estudos de licenciamento ciações realizadas. Enquanto respon- 22. Na ocasião, observei
que, na “maioria dos
ambiental já em andamento no rio sáveis técnicos pelo estudo, receberão
casos onde se apre-
Tapajós26. Desse consórcio, que ar- críticas de seus clientes em torno das senta ou se discute
ticula diferentes grupos de poder, condições ideais em que pretendem diretrizes sobre usos
múltiplos da água,
criou-se a CTMA27. A princípio, os que o produto seja entregue à publi- observa-se que as ativi-
gerentes, junto com os coordenado- cidade. Em uma comparação com a dades que devem estar
contempladas recaem
res de núcleos (como vegetação, fauna dinâmica na academia, o gerente de
sobre feições socioeco-
e socioeconomia), bem como alguns projetos seria como um orientador, nômicas, ambientais e
consultores externos, estabelecem a opinar sobre o trabalho do consul- estratégicas, relativas à
pesca, abastecimento
contato direto com os técnicos da tor e, eventualmente, sugerindo al- urbano, saneamento
CTMA, discutindo os resultados de terações. No entanto, embora assu- básico, irrigação, aqui-
cultura, transporte,
cada produto. Em suma, era a partir ma uma posição técnica, insere-se uso industrial, turismo,
desse debate técnico que, a princí- no campo de atuação empresarial. lazer e etc. É justamen-
pio, se aprovava ou não os produtos Uma série de outros “orientado- te sobre essa expressão
de origem latina, que
de cada desembolso. res”, ligados ao cliente, dirão para significa “e os res-
Dito isso, temos a seguinte es- ele como e por onde deverá seguir tantes” ou “e outras
coisas mais”, que nos
trutura: eu, antropólogo, contrata- para o sucesso da redação final do deteremos na análise
do como consultor externo, na figura estudo, mesmo que os gerentes não deste tópico, de modo
a evidenciar outras
de uma pessoa jurídica, apresento considerem as escolhas pertinen-
concorrências ao uso de
o meu trabalho, que consiste na tes. Os gerentes, algumas vezes, re- um rio, do curso d’água,
produção de conhecimento sobre correm a estratégias opostas às dos da água, da morada”.

as populações indígenas, para ser funcionários e assessores da equipe


avaliado pelo gerente de projetos da técnica do empreendedor, mas usam 23. Na tese de douto-
rado de Bronz (2011),
empresa de consultoria ambiental. categorias e discursos semelhantes. é possível observar de
Este, por sua vez, tem o seu desem- Era no marco dessa hierarquia maneira mais detalha-
da as funções e organo-
penho avaliado pela diretoria ad- empresarial e tecnocrática bastante
gramas das empresas
ministrativa e pela presidência da complexa que eu me situava para consultoras e os em-
empresa em que trabalha. A presi- defender o meu trabalho analítico preendedores.

Ritual burocrático de ocupação do território pelo setor elétrico 155


24. No caso da AAI, três sobre conflitos com os povos indí- to ambiental dos AHEs de Teles
gerentes de projetos
genas em torno do uso dos recursos Pires e São Manoel28. E o segundo,
foram mobilizados
para elaborar o produ- naturais, especificamente do rio Ta- de forma mais autoral, a partir de
to, sendo dois da área pajós, para fins de geração energéti- dados também provenientes de mi-
das ciências naturais e
um da socioeconomia. ca. Além da equipe técnica formada nha experiência na Funai. Assim,
Em um projeto como por funcionários da empresa con- procurei
a AAI, estão em jogo
alguns milhões de
sultora Ecology, havia ainda a equi-
reais, somente para a pe técnica formada pelo empreen- indicar os processos sociais engen-
sua elaboração.
dedor, o Consórcio Tapajós. Todos drados na ‘questão ambiental’ refle-
esses sujeitos elaboravam e reelabo- tidos nos procedimentos adminis-
25. Principalmente os ravam estratégias para a condução trativos que objetivam construções
consultores formados
dos estudos que antecedem ou pro- de hidrelétricas na Amazônia e de
em ciências naturais e
físicas. Os consultores movem o licenciamento ambiental. procedimentos administrativos que
das ciências sociais É interessante notar que, embora se buscam garantir direitos à terra,
dificilmente possuem
pós-graduação em sua
empreguem esforços para diluir as como modo de identificação de ques-
área. Uma das justifi- identidades autorais envolvidas na tões que subjazem os conflitos29.
cativas pode residir na
produção de conhecimento, o docu-
pouca atratividade e/
ou receptividade de mento final deve ter o selo e a auto- Pretendi abordar a noção de
certos setores da aca- ria do setor elétrico. conflito com populações indígenas
demia a essas práticas.
As universidades não Minha estratégia de avalição de a partir do próprio processo social
se constituem, portan- conflitos com os povos indígenas se- que conforma o licenciamento am-
to, na principal base
guiu por dois caminhos. Um de or- biental e a linguagem sobre impac-
organizativa de apoio
à investigação para os dem mais simbólica, no qual tento tos ambientais, em sua pretensa
egressos das ciências minimamente apontar outras voca- objetividade no que diz respeito à
sociais que atuam em
empresas privadas, bem ções de uso do rio pelas populações mediação de relações sociais. Tra-
como em empresas indígenas, e outro de natureza emi- tava, assim, de colocar em debate
públicas.
nentemente política, embora não uma análise que provinha da mi-
os tratasse como coisas distintas. O nha experiência como formulador,
26. Esse conjunto de
agentes e grupos primeiro foi realizado com a ajuda avaliador e participante de proce-
sociais, com grande de dados levantados por cientistas dimentos de licenciamento am-
capacidade de lobby em
face das instituições sociais do quadro de funcionários biental. Parti do entendimento de
públicas, constitui o da Ecology, como já informado an- que o conflito mais abrangente, no
campo de disputas e
pressões-chave para
teriormente, acrescidos de informa- que diz respeito a povos indígenas,
dotar de legitimidade e ções de que eu já dispunha, que re- situava-se nos meandros da “agenda
viabilidade os empreen-
montavam a minha atuação, como ambiental” e na luta pela terra. Ou
dimentos, no marco da
retórica sobre o “inte- assessor da Funai, nos procedimen- seja, procurei chamar atenção para
resse nacional”. tos administrativos de licenciamen- o histórico dos procedimentos ad-

156 Folhes
ministrativos de licenciamento am- oportuna por parte do governo, em 27. Como informa Bronz,
em relação aos proce-
biental de UHEs na própria bacia do todos os âmbitos, e por parte de em- dimentos administra-
Tapajós e para os conflitos já exis- presas públicas e privadas, em rela- tivos de licenciamento
ambiental, os empreen-
tentes e potenciais, devidos à im- ção a planos de gestão e programas
dedores “contam com
posição de outro uso de um recur- ambientais. Como na maioria das equipes selecionadas de
so natural extremamente valioso, TIs não foram construídos, com a consultores, assessores,
advogados e funcioná-
em múltiplos sentidos e contextos, participação das populações locais, rios administrativos de
para as populações indígenas. Bus- planos de gestão adequados – justa- variadas funções, que
ademais de trabalha-
quei, ainda, atentar para as pressões mente o que se espera com a execu-
rem para cumprir com
existentes nos procedimentos de ção da Política Nacional de Gestão os requisitos formais
demarcação de TIs na bacia. Note-se Territorial e Ambiental de Terras do procedimento admi-
nistrativo, formulam e
que os procedimentos administrati- Indígenas (PNGATI) –, prevalecem adotam as estratégias
vos de demarcação de diversas TIs os programas ambientais. Isso, em propriamente empre-
sariais para a obtenção
situadas na bacia estão inconclusos, muitos casos, alimenta e/ou repro-
das licenças” (2011: 50).
sem que haja perspectivas de finali- duz um modelo de política compen-
zação no horizonte temporal mais satória criado antes da introdução 28. Vale destacar que
grande parte desse tex-
imediato. dos procedimentos administrativos to, intitulado original-
Os “novos” conflitos produzidos de licenciamento ambiental. Segun- mente “Conflitos com
pelo setor elétrico possuem diferen- do Zhouri, “os conflitos expressam povos indígenas - parte
II”, foi utilizada no item
tes conformações, mas têm suas raí- processos em que a luta ocorre não “Diagnóstico socioam-
zes na mesma perspectiva de con- somente pela conformação ótima biental” e uma pequena
parte, no item “Conflitos
quista territorial pelo Estado. Como de uma ‘aritmética das trocas e das com povos indígenas”,
desdobramento, tenta-se inserir os reparações’, mas, sobretudo, pela ambos integrantes do
documento final da AAI.
índios no mercado do desenvolvi- legitimidade de outras formas de
Cabe notar, em relação
mento, por meio dos procedimen- visão e divisão do ambiente e do a esse documento final,
tos de licenciamento ambiental, espaço social” (2012: 115). Por esse que o item “Análise de
conflitos” foi elaborado
particularmente a partir de medi- caminho, as disputas em torno da com a participação de
das de mitigação e compensação. definição do que seja uma gestão outro consultor externo
da área das ciências
Esse jogo duplo de ações de cunho territorial indígena passam pelos
sociais, para atender às
desenvolvimentista e de ação indi- novos instrumentos de licencia- questões relacionadas
genista já foi observado por outros mento ambiental. às populações tradicio-
nais.
autores, para outros momentos Nas primeiras avaliações sobre
históricos da política indigenista30. meu produto, não foram realizadas 29. O trecho dessa cita-
ção foi originalmente
Outrossim, com o incremento e a críticas mais substanciais e nenhu-
escrito na introdução
sistematização dos procedimentos ma grande mudança foi solicita- do documento que
de licenciamento ambiental em da. Com a consolidação maior do apresentei à Ecology,
intitulado “Análise de
TIs, percebo que há uma confusão documento e a necessidade de a

Ritual burocrático de ocupação do território pelo setor elétrico 157


conflitos com os povos Ecology faturar os produtos acorda- não tratava de impactos positivos
indígenas situados no dos em contrato, a análise de con- dos empreendimentos. Destacou-se,
‘complexo Tapajós-Ja-
manxim’”. Apesar das flitos por meio da CTMA começou de maneira bem clara, que a divul-
muitas alterações rea- a circular por todas as holdings do gação dos impactos positivos é uma
lizadas, essa passagem
Consórcio Tapajós, suas diretorias das estratégias mais eficazes para
foi mantida na versão
final do item “Conflitos e superintendências. Como bem a concretização dos AHEs. Quando
com povos indígenas” demonstrado por Ribeiro, em rela- não se adota tal perspectiva, sus-
da AAI, mas, a meu ver,
descaracterizada, fun- ção à construção de instituições de tentaram, está-se negando o ideal
cionando apenas como desenvolvimento, estas possuem de desenvolvimento para a região.
instrumento retórico,
uma vez que deslocada
em sua racionalidade burocrática Uma das técnicas deixou transpare-
de seu contexto. estruturas que possibilitam acessar cer que existe uma ala no setor elé-
“uma grande quantidade de coo- trico que luta para que se efetivem
30. Ver, por exemplo, peração técnica e monitoramento” os impactos positivos, pois, para
Corrêa (2008).
para “domesticar o ambiente im- muitos, “se não der para colocar 50
previsível em que ocorre o ‘desen- mil operários trabalhando na obra,
volvimento’” (2012: 205-206). Não à que se dane”. É interessante notar
toa, a partir do momento em que que não existe uma homogeneida-
surgiram as críticas mais incisivas, de no setor elétrico e que o mes-
politicamente falando – dirigidas, mo é composto por muitas forças.
em um primeiro momento, à Eco- Por fim, solicitaram à Ecology que
logy e, em seguida, a partir das ten- retirasse as justificativas para não
tativas de enquadramento técnico tratar de impactos positivos. Ribei-
por parte da equipe de cientistas ro, ao explicitar o processo que en-
31. Seria muito sociais do grupo Eletrobras31, aos tende por “consorciação”, esclarece
interessante se
pontos considerados críticos do que,
esses cientistas
sociais pudessem meu trabalho, no tocante à integri-
refletir sobre a sua dade do setor elétrico –, a Ecology por meio de diferentes discursos so-
realidade profissional,
pois não faltam foi bombardeada pelo alto escalão bre o potencial de um projeto para
constrangimentos, do consórcio, que não titubeou em o desenvolvimento regional e nacio-
embates, perdas e
ganhos no decurso de
se valer de seu poder de contratan- nal, parceiros mais fracos na corren-
suas atividades. te para forçar o contratado a acatar te associativa legitimam suas reivin-
as mudanças solicitadas no texto dicações de maior participação. O
da análise de conflitos, sob pena de desenvolvimento regional é, assim,
rescindir o contrato. um argumento comum entre com-
Uma das principais críticas da panhias que operam em nível local
equipe da CTMA à Ecology deveu-se ou regional competindo com corpo-
à adoção de uma metodologia que rações nacionais ou internacionais.

158 Folhes
[…] dada a característica de mão técnicas – que, para nós, consulto- 32. Reuniões técnicas
são reuniões internas
dupla da consorciação, os discursos res internos e externos da Ecology, das equipes da consul-
sobre desenvolvimento regional ou deveriam ser observadas como uma toria e/ou das equipes
nacional podem ser um argumento coisa só, ao passo que se questiona- das consultorias com o
empreendedor.
que os parceiros mais fortes, isto é, va a politização do documento por
aqueles representando concentra- questões técnicas. Há muito se dis- 33. Seguindo os passos
de Bourdieu, tendo a
ções maiores de capital ou poder, cute que os efeitos de obras de AHEs entender esse enqua-
usem para legitimar a necessidade de grande porte não são simples- dramento da seguinte
do projeto. A eloquência do argu- mente ou principalmente “ambien- maneira: “a função
de todas as fronteiras
mento desenvolvimentista é eviden- tais” ou “socioeconômicos”: são es- mágicas […] consiste
te quando a cooptação de unidades sencialmente políticos (Viveiros de em impedir os que se
encontram dentro, do
menores é necessária (2012: 210s). Castro & Andrade, 1988: 10). A des- lado bom da linha, de
politização da questão ambiental é saírem, de saírem da
Antes de as ameaças se tornarem linha, de se desclassifi-
encarada, na grande maioria dos ca-
carem. Segundo Pareto,
mais críticas, participei de uma re- sos, como um dogma, não podendo as elites estão fadadas
união técnica, na qual estavam pre- sequer ser questionada. a ‘extinção’ quando
deixam de acreditar
sentes diretores e funcionários da Diziam, por exemplo: “para que em si mesmas, quando
Leme Engenharia, GDF Suez, Ele- mencionar que a Funai não partici- perdem seu moral e
sua moral, dispondo-
trobras, Eletronorte, Endesa Brasil pa da AAI?”. Ou ainda, no que diz
-se a cruzar a linha no
e Ecology32. Entre as muitas críticas respeito a outros licenciamentos, mau sentido” (1996:
realizadas, destaco aquelas que fo- como o de Belo Monte: “não existe 102). Em linhas gerais, o
consórcio deixou claras
ram direcionadas ao meu trabalho. nenhuma condicionante não aten- as posições do jogo: as
De modo geral, afirmaram que “o dida”. Em relação aos AHEs São Ma- críticas devem ser feitas
por quem está do outro
documento questiona[va] a validade noel e Teles Pires, afirmaram que
lado da linha (movi-
do próprio documento”33. Além dis- todas as solicitações da Funai esta- mentos sociais, índios
so, sustentaram que “o documento vam sendo acatadas pela EPE e pela ou quem quer que seja),
não por quem está no
está [estava] desequilibrado, a ques- Companhia Hidrelétrica Teles Pires “lado bom da linha”, por
tão indígena entrou num nível de (CHTP) e que, portanto, não havia quem, ao fim e ao cabo,
dita as normas do jogo.
detalhamento muito maior do que por que tratar desses empreendi- Vale lembrar uma frase
os outros pontos”34. Observou-se mentos na AAI sobre o Tapajós. que escutei muitas ve-
que “não se trata de tese acadêmica, Seguiram-se, então, questões como zes em Brasília, durante
os anos como assessor
mas sim de um projeto hidrelétrico a seguinte: “a Ecology está dizendo da Funai: “não podemos
com foco para [sic] impulsionar esse que o licenciamento ambiental está dar tiro no nosso pró-
prio pé”.
projeto”35. Para tanto, “tem que sair desacreditado?”. De maneira mais
do conforto intelectual. É preciso enfática, observaram: “não sei por 34. Os “outros pontos”
referem-se ao espaço
deixar de lado esse misticismo”36. que os comentários feitos até agora que cabia às questões
As falas políticas se seguiam de falas não foram mudados pela Ecology”. sociais.

Ritual burocrático de ocupação do território pelo setor elétrico 159


35. O ideal de produzir Um “ponto de convergência en- ordem estabelecida e revelar, assim,
resultados práticos tre o pessoal do CTMA” foi a neces- “um poder que lhe é próprio de agir
traduzidos em utilidade
imediata acompanha sidade de revisão radical do texto, sobre o real ao agir sobre a repre-
as ciências naturais especialmente em relação às críti- sentação do real” (1982: 124).
bem antes da revitaliza-
ção das universidades
cas ao setor elétrico, ao governo, às
no século XIX. A uni- empresas e aos processos de licen- Considerações finais
versidade é vista desde
ciamento citados. Ficou claro, para À guisa de conclusão, parece-me
essa época como um
lugar de tensão entre mim, que a partir do envolvimento que, como a AAI é construída por
as artes (humanidades) da diretoria das empresas do con- perspectivas metodológicas distin-
e as ciências (naturais)
(cf. Wallerstein,
sórcio e da superintendência da tas, vez ou outra escapam constru-
1996: 17-22). Eletrobras, dificilmente as análises ções sociais divergentes – no caso
críticas, previstas em meu contrato em questão, o meu texto. No mo-
36. “Misticismo” é uma com a Ecology, poderiam perma- mento em que a Ecology teve de
categoria bastante
emblemática para
necer em um documento do setor consolidar o produto – realizando
pensarmos justamente elétrico. Outro fator que potenciali- diversas reuniões com a equipe da
na legitimidade e na
zava as interferências nas análises CTMA e fazendo ajustes para tornar
luta epistemológica
sobre o que se considera realizadas diz respeito ao estágio o documento homogêneo, neutro,
conhecimento legítimo. avançado dos procedimentos de li- incorporando as percepções e expe-
Para alguns dos
participantes dessa
cenciamento ambiental dos AHEs riências de diversos técnicos (políti-
reunião, tratar os povos Jatobá e São Luís do Tapajós, cujas cos) –, foi preciso limitar tais pers-
indígenas como sujeitos
estratégias institucionais para o an- pectivas. O resultado é um melting
diferenciados de direito,
que estabelecem damento das licenças ambientais pot, que carrega em si a falsa ideia
relações com o estavam bem encaminhadas. Por- de incorporação dos conflitos, vi-
ambiente marcadas por
uma territorialidade tanto, quaisquer novas diretrizes sando a imposição de perspectivas
totalmente avessa, que porventura o documento apon- próprias de pensar, organizar e fa-
em sua maioria, às
tasse gerariam um problema para zer a gestão de territórios alvos de
ideologias utilizadas
para justificar o o consórcio e para o governo. Ou interesses nacionais.
modo de apropriação seja, a AAI estava sendo encarada Seria possível notar nessas con-
territorial para
fins capitalistas, é pelo consórcio apenas como parte dutas persistências dos primórdios
mero “misticismo” de suas obrigações jurídicas e pela do processo de institucionalização
acadêmico. Leia-se:
empresa consultora, como parte de das ciências naturais e sociais, em
crença de cientistas
sociais, de antropólogos. sua competência técnica, vendida que passou a preponderar a busca
Diria Dumont que “a ao cliente e observada à luz dos en- por conhecimento objetivo sobre
nossa profissão não é
nem um misticismo tendimentos políticos com o mes- a realidade? Estaríamos operando
nem uma arte de mo. Já para mim, a AAI fazia parte ainda sob a perspectiva que, desde
concordância ou da
conversação. Assim, se
de um “rito de instituição”, nos ter- princípios do século XIX, procurou
justifica uma definição mos de Bourdieu, a consagrar uma conformar uma hierarquia cien-

160 Folhes
tífica, chancelando determinados parte do esforço de organização de da antropologia que
conhecimentos como “certos”, em uma nova ordem social, apoiada em coloca em plena luz,
em seu princípio, suas
oposição a conhecimentos consi- uma ciência exata e positiva. A do-
vinculações ideológicas”
derados “não científicos”? Esses minação epistemológica da ciência (2000: 205).
questionamentos mereceriam uma tem raízes profundas, na busca pela
discussão mais ampliada. Por ora, legitimação de ações e projetos de
proponho que, nesse caldeirão, Estado, bem como por prestígio so-
manter a distinção entre as ciências cial no mundo do conhecimento.
naturais e sociais é um fundamento Em suma, quando se analisa os
primordial desses estudos. Pois, se caminhos técnicos e políticos adota-
ambas as “ciências” considerassem dos na AAI do Tapajós, assim como
que desenvolvimentos futuros re- nas demais realizadas até o pre-
sultam de processos temporalmen- sente momento, depreende-se que
te irreversíveis, como então levar se trata de lançar as bases de mais
adiante projetos de desenvolvimento? uma ingerência na vida coletiva das
É preciso confundir a inteligibilida- populações indígena, ribeirinha e
de do mundo para orientar o futuro amazônida, de modo geral.
que se quer gestar. Afinal, não é pos-
sível discutir alternativas de futuro [artigo concluído em setembro de 2015]
em torno de empreendimentos que
são considerados como dados. Referências bibliográficas
Está em vigência uma política Barbosa de Oliveira, Frederico C.
que demanda a utilização de de- 2012. Quando resistir é habitar: lu-
terminados recursos naturais, ba- tas pela afirmação territorial dos
seada na necessidade, ainda vital, Kaiabi no Baixo Teles Pires. Brasí-
do Estado pós-moderno de produ- lia, Paralelo 15.
zir resultados práticos, traduzidos Barroso, Maria M. 2014. “Moedas
em utilidade imediata. A AAI pode de troca, sinceridade metodoló-
aceitar aqui ou acolá algumas reco- gica e produção etnográfica no
mendações e diretrizes, desde que trabalho com elites”. In: Casti-
visões “subjetivas” não distorçam lho, Sergio Ricardo R.; Souza
fatos “objetivos”. A rejeição da “es- Lima, Antonio Carlos de; Teixei-
peculação” e da “dedução” – carac- ra, Carla C. (org.). Antropologia
terizadas como práticas desprovi- das práticas de poder: reflexões et-
das de qualquer justificação teórica nográficas entre burocratas, eli-
ou empírica – pode ser observada tes e corporações. Rio de Janeiro,
desde a Revolução Francesa, como Contra Capa/Faperj.

Ritual burocrático de ocupação do território pelo setor elétrico 161


Barroso Hoffmann, Maria. 2005. Bourdieu, Pierre; Chamboerdon,
“Do ‘Brasil sem índios’ aos ‘ín- Jean-Claude; Passeron, Jean-
dios sem Brasil’: algumas ques- -Claude. 2004. O oficio de sociólogo:
tões em torno da cooperação metodologia da pesquisa na so-
internacional junto aos povos ciologia. Petrópolis, Vozes.
indígenas no Brasil”. In: Anthropo- Brasil. Ministério de Minas e Ener-
lógicas, v.16, nº2. Recife, Universi- gia. Secretaria de Planejamento
dade Federal de Pernambuco, pp. e Desenvolvimento Energético.
153-186. 2007. Manual de inventário hidroe-
___. 2011. “A produção social do de- létrico de bacias hidrográficas. Bra-
senvolvimento e os povos indí- sília, MME/Centro de Pesquisas
genas: observações a partir do de Energia Elétrica/Energy Sec-
caso norueguês”. In: Mana, v.17, tor Technical Assistance Loan.
nº13. Rio de Janeiro, Universida- Disponível em: <http://www.
de Federal do Rio de Janeiro, pp. biblioteca.presidencia.gov.br/
153-186. publicacoes-oficiais-1/catalogo/
Beato F., Claudio C. 1998. “‘Hard conselhos/conselho-nacional-de-
Sciences’ e ‘Social Sciences’: um en- -politica-energetica/manual-de-
foque organizacional”. In:  Da- -inventario-hidroeletrico-de-ba-
dos,  v.41, nº3. Rio de Janeiro, cias-hidrograficas/at_download/
Instituto de Estudos Sociais e Po- file> (acesso: 5 abr. 2015).
líticos da Universidade do Esta- Bronz, Deborah. 2009. Pescadores
do do Rio de Janeiro. Disponível do petróleo: políticas ambientais
em: <http://www.scielo.br/scie- e conflitos territoriais na bacia
lo.php?script=sci_arttext&pid de Campos, RJ. Rio de Janeiro, e-
=S0011-52581998000300002&ln -papers/Laced/Museu Nacional.
g=en&nrm=iso> (acesso: 29 abr. ___. 2011. Empreendimentos e empreen-
2015). dedores: formas de gestão, clas-
Bourdieu, Pierre. 1982. Ce que parler sificações e conflitos a partir do
veut dire: l’économie des échan- licenciamento ambiental, Brasil,
ges linguistiques. Paris, Fayard. século XXI. Rio de Janeiro. Tese
___. 1996. “Os ritos de iniciação”. In: de doutorado (Antropologia so-
___. A economia das trocas linguís- cial). Rio de Janeiro, Universida-
ticas: o que falar quer dizer. São de Federal do Rio de Janeiro.
Paulo, Edusp. ___. 2014. “Experiências e contra-
___. 2010. O poder simbólico. Rio de Ja- dições na etnografia de práticas
neiro, Bertrand Brasil. empresariais”. In: Castilho, Ser-

162 Folhes
gio Ricardo R.; Souza Lima, An- Folhes, Rodrigo T. 2013. “Relações
tonio Carlos de; Teixeira, Carla de poder e prática antropológica
C. (org.). Antropologia das práticas em procedimentos administrati-
de poder: reflexões etnográficas vos de licenciamento ambiental:
entre burocratas, elites e corpo- o componente indígena”. Comu-
rações. Rio de Janeiro, Contra nicação apresentada na X Reu-
Capa/Faperj, pp. 221-242. nião de Antropologia do Merco-
Castilho, Sergio Ricardo R.; Souza sul. Córdoba.
Lima, Antonio Carlos de; Teixei- Leite Lopes, Jose S. 2006. “Sobre
ra, Carla C. (org.). 2014. Antropolo- processos de ‘ambientalização’
gia das práticas de poder: reflexões de conflitos e sobre dilemas da
etnográficas entre burocratas, participação”. In: Horizontes antro-
elites e corporações. Rio de Janei- pológicos, v.12, nº25. Porto Alegre,
ro, Contra Capa/Faperj. pp. 31-64.
Corrêa, José Gabriel S. 2008. Tute- Little, Paul E. 2006. “Ecologia po-
la & Desenvolvimento/Tutelando o lítica como etnografia: um guia
desenvolvimento: questões quanto teórico e metodológico”. In:
à administração do trabalho in- Horizontes antropológicos, v.12,
dígena pela Fundação Nacional nº25. Porto Alegre, Universida-
do Índio. Tese de doutorado (An- de Federal do Rio Grande do
tropologia social). Rio de Janeiro, Sul, pp. 85-103. Disponível em:
Museu Nacional da Universidade <http://repositorio.unb.br/bits-
Federal do Rio de Janeiro. tream/10482/7772/1/ARTIGO_Eco-
Dumont, Louis. 2000. O individualis- logiaPoliticaEtnografia.pdf>
mo: uma perspectiva antropoló- (acesso: 5 abr. 2015).
gica da ideologia moderna. Rio Mignolo, Walter. 2003 [2000]. His-
de Janeiro, Rocco. torias locais/projetos globais: colo-
Escobar, Arturo. 1995. Encoutering nialidade, saberes subalternos e
development: the making and pensamento liminar. Belo Hori-
unmaking of the Third World. zonte, Editora UFMG.
Princeton, Princeton University Oliveira, João Pacheco de. 1999.
Press. “Fazendo etnologia com os cabo-
Ferguson, James. 1990. The anti-po- clos do Quirino: Curt Nimuenda-
litics machine: “development”, de- ju e a história ticuna”. In: Olivei-
politicization, and bureaucratic ra, João Pacheco de. Ensaios em
power in Lesotho. Cambridge, antropologia histórica. Rio de Janei-
Cambridge University Press. ro, Editora UFRJ, pp. 60-96.

Ritual burocrático de ocupação do território pelo setor elétrico 163


___ (org.). 1998. Indigenismo e territo- Souza Lima, Antonio Carlos de.
rialização: poderes, rotinas e sa- 1995. Um grande cerco de paz: po-
beres coloniais no Brasil contem- der tutelar, indianidade e forma-
porâneo. Rio de Janeiro, Contra ção do Estado no Brasil. Petrópo-
Capa. lis, Vozes.
Quijano, Anibal. 2000. “Coloniality ___. 2009. As órbitas do sítio: subsídios
of power, eurocentrism, and La- para o estudo da política indige-
tin America”. In: Nepantla: views nista no Brasil, 1910-1967. Rio de
from de South, v.1, nº3. Durham, Janeiro, Contra Capa/LACED/Mu-
Duke University Press, pp. seu Nacional-UFRJ.
533-580. ___. 2002. Gestar e gerir: estudos para
Ribeiro, Gustavo Lins. 2012. “Poder, uma antropologia da adminis-
redes e ideologia no campo do tração pública no Brasil. Rio de
desenvolvimento”. In: Zhouri, Janeiro, Relume Dumará.
Andréa (org.). Desenvolvimento, reco- ___. 2012. “O exercício da tutela so-
nhecimento de direitos e conflitos ter- bre os povos indígenas: conside-
ritoriais. Brasília, Associação Brasi- rações para o entendimento das
leira de Antropologia, pp. 196-233. políticas indigenistas no Brasil
Rist, Gilbert. 2008. The history of de- contemporâneo”. In: Revista de
velopment: from western origins Antropologia, v.55, nº2. São Paulo,
to global faith. Londres, Atlantic Universidade de São Paulo.
Highlands. Souza Lima, Antonio Carlos de; Bar-
Sachs, Wolfgang (org.). 2000 [1992]. roso Hoffmann, Maria (orgs.).
Dicionário do desenvolvimento: guia 2002. Além da tutela: bases para
para o conhecimento como po- uma nova política indigenista,
der. Petrópolis, Vozes. v.3. Rio de Janeiro, Contra Capa.
Santos, Boaventura de Souza; Me- Spivak, Gayatri C. 2010 [1988]. Pode
nezes, Maria Paula (org.). 2010. o subalterno falar? Belo Horizonte,
Epistemologias do Sul. São Paulo, Editora UFMG.
Cortez. Teixeira, Carla C.; Souza Lima,
Scott, James C. 2002. “Formas coti- Antonio Carlos de. 2010. “A an-
dianas de resistência campone- tropologia da administração e
sa”. In: Raízes, v.1, nº1. Campina da governança no Brasil: área te-
Grande, Universidade Federal de mática ou ponto de dispersão?”.
Campina Grande, pp. 10-31. In: Horizontes das ciências sociais no
Semprini, Andrea. 1999. Multicultu- Brasil. São Paulo, Associação Na-
ralismo. São Paulo, Edusc. cional de Pós-Graduação e Pes-

164 Folhes
quisa em Ciências Sociais, pp. Zhouri, Andréa. 2012. “Belo monte:
51-95. crise do sistema ambiental e da
Viveiros De Castro, Eduardo B.; democracia”. In: Zhouri, Andréa
Andrade, Lúcia M.M. 1988. “Hi- (org.). Desenvolvimento, reconheci-
drelétricas do Xingu: o Estado mento de direitos e conflitos territo-
contra as sociedades indígenas”. riais. Brasília, Associação Brasilei-
In: Santos, Leinad Ayer O.; An- ra de Antropologia, pp. 45-65.
drade, Lúcia M.M. (org.). As hidre- Zhouri, Andréa; Laschefski, Kle-
létricas do Xingu e os povos indígenas. mens; Paiva, Angela. 2005. “Uma
São Paulo, Comissão Pró-Índio de sociologia do licenciamento am-
São Paulo, pp. 7-23. biental: o caso das hidrelétricas
Wallerstein, Immanuel et al. 1996. em Minas Gerais”. In: Zhouri,
Para abrir as ciências sociais. Relató- Andréa; Laschefski, Klemens;
rio da Comissão Gulbenkian so- Pereira, Doralice (org.). A insus-
bre a reestruturação das ciências tentável leveza da política ambiental:
sociais. São Paulo, Cortez. desenvolvimento e conflitos so-
Wolf, Eric. 2001. “Kinship, friend- cioambientais. Belo Horizonte,
ship, and patron-client: relations Autêntica, pp. 89-116.
in complex societies”. In: Path-
ways of power building an anthropo-
logy of the modern world. Berkeley,
University of California Press,
pp. 166-183.

Ritual burocrático de ocupação do território pelo setor elétrico 165


Condicionantes e a viabilidade ambiental no processo
de licenciamento ambiental de usinas hidrelétricas
Uma análise do caso Teles Pires
Evandro Mateus Moretto, Carolina de Oliveira Jordão,
Edilene Fernandes e João Andrade

H
á mais de três décadas, o li- cursos naturais, sejam agentes eco-
cenciamento ambiental de nômicos ou não. E não poderia ser
grandes projetos de infraes- diferente, haja vista que a LP é que
trutura é objeto de diversas críticas, declara a viabilidade ambiental de
provenientes de distintos setores da um determinado empreendimen-
sociedade, especialmente quando to, de acordo com as Resoluções
está associado ao suporte técnico- nº01/1986 e nº237/1997 do Conselho
-científico da avaliação de impacto Nacional do Meio Ambiente (Cona-
ambiental. O que muitos retratam ma). Ela está atrelada a uma deter-
como momentos históricos de “cri- minada localização, a uma concep-
se do licenciamento ambiental bra- ção técnica de projeto, a requisitos
sileiro” pode ser interpretado como básicos e a condicionantes ambien-
o resultado legítimo do funciona- tais, que deverão ser executadas nas
mento da arena de disputas que fases de implantação e de operação
se instituiu no centro desse instru- do projeto, com a finalidade de ga-
mento, onde o que está em jogo é rantir a própria viabilidade ambien-
quem fará valer o seu direito de uso tal do empreendimento.
dos recursos naturais. No caso de empreendimentos
Dentre as fases do licenciamento ou atividades efetiva ou potencial-
ambiental, aquela anterior à licença mente causadores de significativa
prévia (LP) é normalmente quando degradação ambiental, são o estudo
ocorrem as mais intensas disputas de impacto ambiental e seu respec-
entre os diversos usuários dos re- tivo relatório de impacto ambiental

167
(EIA/Rima) que têm o papel de ava- vez, lastreiam a própria viabilidade
liar os cenários futuros de impactos ambiental do projeto.
ambientais esperados com a ocor- Nesse contexto, os problemas
rência do projeto e apresentar as referentes ao conjunto de condicio-
medidas preventivas, mitigadoras nantes das LPs têm chamado cada
e compensatórias que serão neces- vez mais a atenção dos diversos
sárias para que a viabilidade am- setores da sociedade relacionados
biental seja garantida durante todo ao licenciamento ambiental, es-
o ciclo de vida do projeto (Sánchez, pecialmente no que diz respeito a
2006). Porém, é bastante comum grandes empreendimentos de in-
que muitos desses compromissos fraestrutura, como as usinas hidre-
sejam alterados após a emissão da létricas (UHEs), que constituem ca-
LP e, inclusive, não implantados de- sos bastante atuais e didáticos para
vidamente, o que representa uma reflexões acerca do problema.
ameaça à própria viabilidade am- Como exemplo, tem-se o caso das
biental do projeto. UHEs Jirau e Santo Antônio, no rio
Em 2004, o Ministério Público Madeira, cuja viabilidade ambiental
da União (MPU) analisou 70 EIA de depende de cada uma das 32 condi-
diversas tipologias de empreendi- cionantes definidas pela LP, instituí-
mentos e atividades licenciadas no da em 2007. A mesma dependência
Brasil e alertou para recorrentes ocorre no caso da UHE Teles Pires,
deficiências encontradas na fase cuja LP, de 2010, traz 28 condicio-
prévia do licenciamento ambiental, nantes como sustentação da viabi-
destacando-se aquelas relacionadas lidade ambiental do projeto. Ou,
aos estudos de alternativas tecno- ainda, no caso da UHE Belo Monte,
lógicas e locacionais, à mitigação que tem sua viabilidade ambiental
e compensação de impactos e aos sustentada por nada menos que
programas de acompanhamento 40 condicionantes, estabelecidas
e monitoramento ambiental (Bra- na respectiva LP, também de 2010.
sil, Ministério Público da União & Todos esses casos têm em comum
Brasil, Ministério Público Federal, o fato de estarem alocados em rios
4ª Câmara de Coordenação e Revi- da Amazônia brasileira, revelando a
são, 2004). Assim, grande parte das importância que essa região tem ad-
deficiências apontadas pelo estudo quirido no planejamento hidrelétri-
refere-se a medidas mitigadoras e co brasileiro – cerca de 150 UHEs de
compensatórias que irão compor as diversas dimensões estão previstas
condicionantes da LP, que, por sua para serem instaladas na região.

168 Moretto, Jordão, Fernandes e Andrade


Especificamente na bacia do Ta- mesmo a inviabilidade ambiental
pajós, está em desenvolvimento um do empreendimento. Mais especifi-
complexo hidrelétrico constituído camente, busca explicitar a relação
por 43 UHEs, com potencial de ge- entre condicionantes e viabilidade
ração de cerca de 28 mil megawatts, no caso do licenciamento ambien-
contemplando 25% do potencial de tal da UHE Teles Pires, no que tange
geração de energia hídrica da Ama- aos impactos sobre as populações
zônia (Brasil, Ministério de Minas indígenas do entorno.
e Energia, Empresa de Pesquisa
Energética, 2009; Brasil, Ministério O sentido da viabilidade ambiental
de Minas e Energia, Empresa de e suas condicionantes
Pesquisa Energética & Consórcio O conceito de viabilidade ambien-
Leme-Concremat, 2010; Grupo de tal é essencial para que se possa
Estudos Tapajós & Ecology Brasil, compreender o processo de licen-
2014). Na porção da bacia localizada ciamento ambiental amparado pela
no norte de Mato Grosso, situam- estrutura completa da avaliação de
-se as sub-bacias dos rios Teles Pires impacto ambiental, o qual está mui-
e Juruena, onde estão previstas ou to distante de um sentido meramen-
em execução sete UHEs com capa- te cartorial, muitas vezes sugerido,
cidade para gerar um total de 8.200 pretendido e até empregado no
megawatts, representando cerca de debate público sobre o instrumen-
27% do total previsto a ser gerado to. Para esta análise, consideram-se
em toda a bacia do rio Tapajós (Bra- apenas os momentos anteriores à
sil, Ministério de Minas e Energia, emissão da LP, compreendida como
Empresa de Pesquisa Energética, o próprio atestado da viabilida-
2009; Brasil, Ministério de Minas e de ambiental de um determinado
Energia, Empresa de Pesquisa Ener- projeto.
gética & Consórcio Leme-Concre- De forma geral, a viabilidade
mat, 2010). ambiental é um conceito bastante
Nesse quadro, o presente artigo familiar e intuitivo para aqueles
tem como objetivo refletir sobre a envolvidos em avaliação de impac-
relação de dependência existente to ambiental, remetendo sempre
entre as condicionantes ambientais à ideia de um dado projeto que é
e a viabilidade ambiental de um de- exequível ou realizável em função
terminado empreendimento, con- de um conjunto de condições am-
siderando que o grau dessa depen- bientais requeridas. No caso de em-
dência pode indicar a viabilidade ou preendimentos e atividades efetiva

Condicionantes e a viabilidade ambiental no processo de licenciamento 169


ou potencialmente causadores de de decisão cercado de incertezas.
significativa degradação ambiental, Aqui, não se trata de explorar o mo-
o licenciamento ambiental ocorre delo decisório estabelecido no licen-
com o suporte da avaliação de im- ciamento ambiental brasileiro, mas
pacto ambiental em seu formato sim enfatizar que a decisão acerca
completo (Sánchez, 2006). Nesse da viabilidade ambiental depende
percurso, a LP é a decisão do órgão de uma construção técnico-científi-
ambiental resultante e dependente ca e política que ocorre durante o
de um conjunto de procedimentos processo de avaliação de impacto
técnico-científicos, como se apre- ambiental completo. É importante
senta de forma simplificada na ima- ressaltar que, se por um lado, a de-
gem 1. cisão sobre a viabilidade ambiental
Nesse sentido, a viabilidade de uma determinada proposta re-
ambiental é uma derivação do re- quer que se considere o conjunto
lacionamento entre componentes dos elementos técnico-científicos
técnicos, científicos e políticos, que e políticos, por outro, é plausível
constituem um cenário de tomada que apenas um dos componentes

1. Apresentação da proposta pelo empreendedor ao órgão


ambiental competente

2. Proposta classificada como efetiva ou potencialmente causadora de


significativa degradação ambiental pelo órgão ambiental competente

3. Emissão do termo de referência pelo órgão ambiental competente

4. Elaboração do estudo de impacto ambiental

5. Análise pelo órgão ambiental 6. Consulta pública e de outros


competente órgãos públicos

Imagem 1. Estrutura
do processo de 8. Decisão do órgão ambiental competente
licenciamento 7. Análise
ambiental brasileiro, inconclusiva pela
apoiado em avaliação necessidade de Proposta viável Proposta inviável
de impacto ambiental complementação ambientalmente e ambientalmente e
completa, até a decisão dos estudos e/ou emissão da licença negativa da licença
sobre a licença prévia. oitivas prévia prévia
Elaboração dos autores.

170 Moretto, Jordão, Fernandes e Andrade


já seja, per se, o elemento determi- inconclusiva (momento 7), é necessá-
nante da decisão acerca da inviabi- rio que o órgão ambiental solicite
lidade ambiental da proposta. Isso complementação de estudos ou a
é bastante comum para o caso de realização de novas consultas públi-
critérios técnicos de localização que cas, não havendo nesse momento,
conflitam com padrões ambientais ainda, qualquer classificação sobre
estabelecidos em zoneamentos, por a viabilidade ou inviabilidade da
exemplo (Montaño & Souza, 2008; proposta.
Montaño et al., 2012). A decisão sobre a viabilidade am-
O conceito de viabilidade am- biental de uma proposta, portanto,
biental, assim como o de viabilida- pretende ser o próprio testemunho
de econômica, não é unívoco e suas de um processo técnico-científico e
possíveis classificações (viável e in- político construído pela avaliação
viável) dependem dos critérios de de impacto ambiental, o qual está
referência que forem estabelecidos muito distante de ser um expedien-
– como padrões legais, por exemplo te meramente cartorial. O conjunto
– e de hipóteses que se assumem final de condicionantes ambientais
para a prospecção de cenários futu- estabelecido por uma LP é uma
ros (Sánchez, 2006). decisão do órgão ambiental com-
Observando-se o fluxograma que petente (momento 8) que pretendeu
representa o processo de licencia- observar as ações propostas pelo
mento ambiental brasileiro (imagem EIA (momento 4), as ações requeridas
1), é preciso considerar que só é pos- na consulta pública (momento 6) e as
sível que a decisão final do órgão ações apontadas pelo próprio órgão
ambiental competente (momento 8) ambiental (momento 5). Nesse con-
culmine em uma declaração de via- junto de condicionantes, estão as
bilidade ou inviabilidade ambiental ações de prevenção de impactos po-
da proposta, não cabendo qualquer tenciais, as de mitigação de impac-
classificação transiente entre esses tos efetivos e as de compensação de
estados. Ou seja, o uso do conceito danos diversos que a implantação e
de viabilidade ambiental não admi- operação do empreendimento ense-
te adjetivações que remetam a gra- jam, sendo natural que a viabilida-
dações intermediárias, sendo inade- de ambiental do empreendimento
quado, por exemplo, o emprego das seja dependente das condicionantes
expressões “pouco viável”, “muito definidas na própria LP.
viável”, “menos viável”, “mais viá- Porém, a ideia de que o conjunto
vel” etc. No caso de uma avaliação de condicionantes seja o principal

Condicionantes e a viabilidade ambiental no processo de licenciamento 171


elemento que determina a viabili- preendimento. Na imagem 2 é pos-
dade ambiental é armadilha tão da- sível verificar que a definição de
nosa para o adequado planejamento uma localização com maior vulne-
e gestão ambiental de um empreen- rabilidade ambiental (localização 1 no
dimento quanto a simplificação se- tempo 0) acaba vinculando uma qua-
mântica do licenciamento ambien- lidade ambiental inicial menor que
tal enquanto mero ato cartorial. O a escolha de uma localização com
fato de a viabilidade ambiental de menor vulnerabilidade ambiental
uma determinada proposta depen- (localização 2 no tempo 0). Indepen-
der, sobretudo, de condicionantes dentemente de onde esteja a linha
ambientais de mitigação e compen- que determina a condição de viabi-
sação pode ser o resultado do enfra- lidade ambiental, é óbvio que na lo-
quecimento de uma das fases mais calização 1 a proposta poderá assu-
importantes de qualquer processo mir ser viável ambientalmente com
de tomada de decisão, qual seja o menor esforço de condicionantes
estabelecimento e avaliação de al- que a localização 2. Nesse contexto,
ternativas tecnológicas e de locali- o esforço de condicionantes neces-
zação no momento de elaboração sário para que a proposta seja viável
do EIA. na localização 2 é superior ao esfor-
Por exemplo, a escolha de uma ço necessário para que a proposta
determinada localização para a seja viável na localização 1. É pos-
proposta também acaba fixando sível inferir, portanto, que a depen-
qual será a linha base de impactos, dência da viabilidade ambiental em
a partir da qual o conjunto de con- relação às condicionantes ambien-
dicionantes atuará para melhorar tais na localização 2 é maior que na
a qualidade ambiental decorrente localização 1. Ainda assim, é preciso
da implantação e operação do em- considerar a possibilidade de que a

Qualidade ambiental

Condição de viabilidade ambiental


Imagem 2. Cenário de
variação da qualidade
ambiental em Localização 1
função da escolha de
alternativas locacionais
Localização 2
(t0) e de implantação
das condicionantes (t1). Tempo
Elaboração dos autores. t0 t1

172 Moretto, Jordão, Fernandes e Andrade


localização 2 ou mesmo ambas as 32 municípios mato-grossenses e
localizações estejam tão distantes três paraenses que utilizam os re-
da linha de viabilidade ambiental cursos hídricos da bacia, principal-
que não haveria conjunto de con- mente para o abastecimento públi-
dicionantes possível que as fizesse co, agropecuária, pesca, turismo,
assumir a condição de viabilidade lazer e produção industrial. O rio
ambiental. Teles Pires tem suas nascentes no
Este exercício revela que, no município de Primavera do Leste
mínimo, a ocorrência de um gran- (Mato Grosso) e suas águas banham
de conjunto de condicionantes em dois importantes biomas brasilei-
uma LP pode ser uma evidência de ros: o cerrado e a floresta amazôni-
que o empreendimento ou atividade ca (Arruda, 2003).
esteja bastante distante da condição A dinâmica territorial dessa área
de viabilidade ambiental. Indica, está organizada ao longo das rodo-
além disso, que a probabilidade da vias MT-208, MT-320 e BR-163 (Cuia-
inviabilidade ambiental da propos- bá-Santarém), que são responsáveis
ta, nesse caso, aumenta na medida pelo incremento dos corredores
da baixa efetividade da implantação comerciais da região, considerada
das condicionantes ambientais, seja uma fronteira de expansão em dire-
por sua complexidade planejada ou ção à região norte do país (Araújo et
por sua não execução efetiva. al., 2014). Assim, a bacia sofre inten-
A seguir, discutimos o contexto sa pressão de desmatamento – até
das UHEs da sub-bacia do rio Teles 2012, 41% da área original de flores-
Pires e como as viabilidades am- ta já havia sido desmatada, segundo
bientais dos projetos são intensa- dados do Programa de Cálculo do
mente dependentes das condicio- Deflorestamento da Amazônia do
nantes ambientais definidas nas Instituto Nacional de Pesquisas Es-
respectivas LPs, que são de natureza paciais (Prodes/Inpe). As principais
e execução complexas. atividades econômicas desenvolvi-
das na região que concorrem pelo
As UHEs da sub-bacia do Teles Pires uso dos recursos naturais são a pe-
A sub-bacia do rio Teles Pires per- cuária de corte e leite, a agricultura
tence à porção alta da bacia do Ta- extensiva (soja, milho e algodão) e,
pajós e ocupa uma área de aproxi- em menor escala, a agricultura di-
madamente 146.600 quilômetros versificada, além do turismo, que
quadrados, incluindo porções dos tem como atrativos as belezas na-
estados de Mato Grosso e Pará. São turais (por exemplo, as cachoeiras

Condicionantes e a viabilidade ambiental no processo de licenciamento 173


e corredeiras do Teles Pires e seus da demanda por serviços e produtos
afluentes) e o patrimônio histórico locais, entre outros; e um negativo,
da região (Instituto Centro de Vida, representado pela diminuição do
2009; Araújo et al., 2014). estoque de peixes e da renda dos
Desde o início desta década, a pescadores, aumento da criminali-
região vem sofrendo alterações so- dade, pressão ocasionada pela ocu-
ciais, econômicas e ambientais devi- pação desordenada do espaço, des-
do à implantação de grandes UHEs, matamento, aumento de doenças
que acabam concorrendo com os endêmicas e deslocamento de po-
usos de recursos já existentes. Essas pulações ribeirinhas, entre outros.
obras movimentam bilhões de reais Na sub-bacia do Teles Pires, exis-
e mobilizam milhares de pessoas tem quatro UHEs em fase de licen-
nos municípios do entorno dos em- ciamento prévio e de instalação
preendimentos, provocando dois (Teles Pires, São Manoel, Colíder e
grandes conjuntos de impactos lo- Sinop), e duas em fase de planeja-
cais: um positivo, em função da in- mento (Foz do Apiacás e Magessi)
jeção de novos recursos financeiros, (ver mapa-encarte). As UHEs estão
do aumento da oferta de emprego e em diferentes fases de licencia-

Imagem 3. Situação
do licenciamento Licença de
Licença prévia
ambiental das usinas Empreendi- Órgão instalação Licença de
Localização
hidrelétricas da sub- mento licenciador operação
EIA/ PBA/
-bacia do rio Teles Pires. TR AP AF AF
Rima PCA
Elaboração dos autores,
jul. 2014. Instituto MT e PA X X X X
Brasileiro do
Meio Ambiente
UHE São
e dos Recursos
Manoel
Naturais
Renováveis
(Ibama)
Legenda
UHE - Usina hidrelétrica Ibama MT e PA X X X X X X
TR - Termo de referência UHE Teles
aprovado Pires
EIA/Rima - Estudo de
impacto ambiental e Secretaria de MT X X X X X
relatório de impacto Estado de Meio
ambiental UHE Sinop Ambiente de
AP - Audiência pública Mato Grosso
AF - Análise final (Sema/MT)
PBA - Projeto básico Sema/MT MT X X X X X X
ambiental UHE
PCA - Plano de controle Colíder
ambiental

174 Moretto, Jordão, Fernandes e Andrade


mento (imagem 3), sendo que em e à falta de consulta prévia aos indí-
todos os processos de emissão das genas no caso das UHEs São Manoel
LPs e das licenças de instalação (LIs) e Teles Pires. Já no caso de Sinop, o
houve ações do Ministério Público, MPF interveio devido ao descum-
no sentido de defender os interes- primento da LP. Pode-se considerar
ses socioambientais coletivos re- que o Ministério Público tem obtido
lacionados aos empreendimentos bons resultados, com número sig-
hidrelétricos. nificativo de decisões liminares de-
Em uma região como o norte de feridas em primeira instância: das
Mato Grosso, com carência institu- 12 ações propostas, nove obtiveram
cional e de organização da socieda- decisões favoráveis ao pedido de
de civil, o Ministério Público é uma concessão de liminar.
das poucas instâncias que têm atua- Contudo, ao chegar ao Tribunal
do para expressar juridicamente os Regional Federal (TRF), as ações
anseios sociais, no âmbito admi- têm enfrentado um procedimento
nistrativo e na proposição de ações judicial arcaico e autoritário, com
civis públicas (ACPs), visando a ga- o uso da ferramenta de suspensão
rantia de conformidade no licencia- de segurança (SS). Esse mecanismo,
mento (Maia, 2013). Nesse quadro, amplamente utilizado pela Advo-
o Ministério Público Federal (MPF) cacia-Geral da União (AGU), atribui
tem proposto diversas ações, que ao presidente do tribunal poder de
vão desde a busca por garantia da suspender a eficácia de uma decisão
regularidade dos EIA/Rima – que, liminar concedida, permitindo que
em muitos casos, não contemplam esse efeito suspensivo perdure até
os requisitos previstos pela legisla- o trânsito em julgado da ação prin-
ção – até a defesa da participação cipal. Na prática, isso significa que,
social no processo de licenciamen- uma vez concedida a SS, mesmo 1. No caso da UHE
Colíder, não há ações
to e a garantia de acesso a direitos, que a decisão de mérito seja favo-
apresentadas pelo MPF,
principalmente no que concerne à rável à paralisação das obras, para mas o município de
participação dos povos indígenas. se sanar uma irregularidade, essa Itaúba, diretamente
impactado, propôs
A importância da intervenção decisão não terá efeito enquanto diversas ações. Dentre
dos Ministérios Públicos nos licen- houver possibilidade de recurso. No os objetos dessas,
estão principalmente
ciamentos da sub-bacia do rio Teles caso das UHEs na sub-bacia do Teles
o descumprimento
Pires pode ser observada na ima- Pires, das nove decisões favoráveis de diversas
gem 41. Foram apresentadas diver- ao pedido de liminar, oito sofreram condicionantes, como
as relacionadas à área
sas ACPs, principalmente relaciona- os efeitos da SS. Em função disso, as de saúde e apoio aos
das às irregularidades no EIA/Rima obras das UHEs São Manoel e Teles municípios.

Condicionantes e a viabilidade ambiental no processo de licenciamento 175


- Estudo de impacto ambiental e relatório de impacto ambiental (EIA/Rima).
Estudo do componente indígena (ECI) insuficiente. (liminar concedida e suspensa.
Decisão de mérito favorável com eficácia suspensa até o trânsito em julgado.)
-Suspensão de audiências públicas. EIA/Rima sem tradução para língua indígena.
São Manoel (liminar concedida e suspensa.)
- Cautelar. EIA/Rima irregular. ECI insuficiente. (Liminar concedida e suspensa.)
- Revogação/concessão de licença ambiental por falta de consulta aos povos
indígenas. Aguardando decisão da liminar

- Irregularidades do EIA/Rima. (Liminar concedida e suspensa.)


- Licença concedida sem manifestação da Assembleia Legislativa de Mato Grosso e
sem participação do Conselho Estadual de Meio Ambiente de Mato Grosso (Con-
sema/MT). (Liminar indeferida, processo em andamento.)
Teles Pires - Ausência de consulta prévia. (Liminr concedida e suspensa.)
- EIA/Rima irregular por ausência de ECI (Liminar concedida e suspensa.)
- Suspensamento do licenciamento por ausência de estudos de impacto sobre
unidades de conservação (UCs) afetadas. (Aguardando decisão da liminar.)

Imagem 4. Atuação do
Ministério Público no - Usinas hidrelétricas (UHEs) de Sinop, Colíder e Magessi. Licenciamento estadual
irregular. Liminar concedida e suspensa. Decisão de mérito pela improcedência.
licenciamento ambien-
tal de usinas hidrelétri- Sinop - UHE Sinop. Descumprimento das condicionantes da licença prévia (LP). Sus-
pensão da licença de instalação (LI). (Liminar concedida e mantida pelo relator do
cas na sub-bacia do rio Tribunal Regional Federal da Primeira Região (TRF-1) em sede de agravo de instru-
Teles Pires. Elaboração mento. Aguardando julgamento da segunda turma do TRF-1.
dos autores.

Pires estão em andamento, mesmo tituto Nacional de Colonização e Re-


sob o risco de, em caso de decisão fa- forma Agrária (Incra), o que levou
vorável, não ser mais possível a con- a questão para o âmbito da justiça
cretização dos direitos requeridos. federal. Nesse caso, a União não foi
A UHE Sinop, por sua vez, en- incluída no processo – somente o
contrava-se, em julho de 2014, com foram o governo do estado de Mato
liminar vigente suspendendo a LI Grosso, a Companhia Energética Si-
até o cumprimento das condicio- nop S.A. (CES) e o Banco Nacional
nantes da LP. Das ações propostas de Desenvolvimento Econômico e
pelo MPF em relação a empreendi- Social (BNDES) –, impossibilitando a
2. Agravo de mentos na sub-bacia, o caso da UHE atuação da AGU. Na ação, só houve
instrumento é o recurso
Sinop é peculiar: como o licencia- recurso por parte da CES, que im-
usado como exceção,
em caso de decisões mento ambiental é realizado pela petrou um agravo de instrumento,
suscetíveis de causar Secretaria de Estado de Meio Am- que obteve parecer favorável à ma-
lesão grave e de difícil
reparação a uma das biente de Mato Grosso (Sema/MT), nutenção da decisão liminar2.
partes, cuja apreciação a participação do MPF somente foi As intervenções do MPF nos li-
deve ser feita de
legitimada por se tratar de conflito cenciamentos das UHEs na sub-ba-
imediato pela instância
superior. de interesse de assentados pelo Ins- cia do Teles Pires deram-se muito

176 Moretto, Jordão, Fernandes e Andrade


em razão da baixa efetividade da A complexidade do licenciamento
implantação das condicionantes da UHE Teles Pires
ambientais pelos empreendedo- O processo de implantação da UHE
res, seja por irregularidades téc- Teles Pires (imagem 5) se iniciou em
nicas e mau planejamento desde julho de 2006, quando a Agência
os estudos de impacto ambiental, Nacional de Energia Elétrica (Aneel)
seja pela própria complexidade de divulgou o estudo de inventário
execução para a garantia da condi- hidrelétrico da bacia hidrográfica
ção de viabilidade ambiental dos do rio Teles Pires. O documento
empreendimentos. identificou os locais com potencial
Um exemplo disso é apresenta- para produção de energia hidrelé-
do a seguir. Trata-se do caso da UHE trica no rio Teles Pires e nos seus
Teles Pires, mais especificamente, afluentes, apresentando seis possí-
de sua relação com os povos indíge- veis barramentos: Magessi, Sinop,
nas Kayabi, Apiaká e Munduruku. A Colíder, Teles Pires, São Manoel e
viabilidade ambiental do empreen- Foz do Apiacás. A partir dessa iden-
dimento foi atestada pelo Institu- tificação, iniciou-se o procedimento
to Brasileiro do Meio Ambiente e de licenciamento ambiental, com
dos Recursos Naturais Renováveis a realização do EIA/Rima, que pre-
(Ibama), mesmo sem uma análise viu o barramento do rio Teles Pires,
completa dos impactos sobre esses com a formação de um lago de 70
povos, presentes na sub-bacia, e quilômetros de comprimento, ocu-
tampouco dos programas ambien- pando uma área de 152 quilômetros
tais necessários. Isso levou à pro- quadrados, para a produção de 1.820 Imagem 5. Linha
do tempo da usina
posição de uma ACP pelo MPF, em megawatts de energia.
hidrelétrica (UHE) de
conjunto com o Ministério Público Em dezembro de 2010, o Ibama Teles Pires. Adaptada do
do Estado de Mato Grosso (MPE/ emitiu a LP e, em seguida, realizou- sítio na internet da UHE
Teles Pires (Linha do
MT), para a suspensão do licencia- -se o leilão de concessão, de que o tempo, s.d.). Elaboração
mento até a finalização dos estudos. Consórcio Teles Pires Energia Efi- dos autores.

Licença prévia (LP) nº386/2010


Estudos de inventário da bacia concedida pelo Instituto Licença de instalação (LI) e
hidrográfica do rio Teles Pires Brasileiro do Meio Ambiente começo das obras da usina
aprovados pela Agência Nacional de e dos Recursos Naturais hidrelétrica (UHE) Teles Pires
Energia Elétrica (Aneel) Renováveis (Ibama), leilão para ago. 2011
jul. 2006 construção
dez. 2010

Realização de estudo de impacto


Última revisão do plano
ambiental (EIA) pela Empresa de
básico ambiental (PBA)
Pesquisa Energética (EPE)
mar. 2011
ago. 2006

Condicionantes e a viabilidade ambiental no processo de licenciamento 177


ciente – formado pelas empresas integrante da avaliação de impacto
Neoenergia S.A. (50,1%), Furnas ambiental. Note-se que a não reali-
Centrais Elétricas S.A. (24,5%), Ele- zação do estudo ocorreu a despeito
trosul Centrais Elétricas S.A. (24,5%) de ele estar previsto no termo de
e Odebrecht Participações e Investi- referência, que apresenta um item
mentos S.A. (0,9%) – foi o vencedor. especifico sobre “Populações indí-
Assim, constituiu-se a sociedade de genas” (4.3.10), devendo, portanto,
propósito específico (SPE) denomi- estar obrigatoriamente presente no
nada Companhia Hidrelétrica Teles EIA (Brasil, Ministério Público Fede-
Pires (CHTP). Já em agosto de 2011, ral & Mato Grosso, Ministério Públi-
a LI foi emitida, permitindo o início co do Estado, 2012).
da obra, orçada em cerca de 3,5 bi- A ausência de um ECI específico
lhões de reais. Desse total, menos para a UHE Teles Pires deve-se à rea-
de 10% eram previstos para despe- lização de acordo entre a Fundação
sas com compensação por perda Nacional do Índio (Funai) e a Empre-
de terras e ações socioambientais sa de Pesquisa Energética (EPE), no
para mitigação e compensação dos início de 2009, para a dispensa do
impactos negativos, conforme os estudo, considerando que as TIs a
planos básicos ambientais (PBA) nos serem estudadas são as mesmas do
municípios diretamente impacta- ECI realizado para as UHEs Foz do
dos: Alta Floresta e Paranaíta (am- Apiacás e São Manoel. Nesse acor-
bos no Mato Grosso) e Jacareacanga do, os dois órgãos não considera-
(Pará). ram os impactos significativos e es-
Ao longo de todo o processo de li- pecíficos da UHE Teles Pires, como
cenciamento, houve problemas em aqueles relacionados à inundação
relação à identificação de impactos da cachoeira Sete Quedas, área de
nas terras indígenas (TIs) próximas reprodução de peixes migratórios
ao barramento e à falta de consulta que são a base da alimentação das
aos grupos Kayabi, Apiaká e Mun- populações indígenas e que, ade-
duruku que vivem no sul do Pará mais, tem importância cultural e
e norte de Mato Grosso, e que utili- religiosa, por ser lugar sagrado para
zam e dependem do rio Teles Pires os Munduruku, que consideraram
para a manutenção de seus modos que ali vive a Mãe dos Peixes.
de vida. O aceite do EIA pelo Ibama Contudo, em 2010, a própria
e a emissão da LP e da LI ocorreram Funai considerou insuficiente o ECI
sem a realização do estudo do com- das UHEs Foz do Apiacás e São Ma-
ponente indígena (ECI), como parte noel, ressaltando à EPE a necessi-

178 Moretto, Jordão, Fernandes e Andrade


dade de revisão da viabilidade dos ficiente com todos os indígenas”;
empreendimentos, a partir da con- ii) “dificuldades dos indígenas em se-
sideração dos impactos sobre os po- rem ouvidos e terem seus direitos
vos indígenas. Conforme o órgão in- respeitados”;
digenista, o ECI não trazia subsídios iii) “a importância cultural que o Sal-
conclusivos sobre a relação entre o to Sete Quedas tem para os Kaya-
empreendimento e o componente bi e Mundurucu, que não pode ser
indígena. Assim, a Funai solicitou, desconsiderada”[;]
em ofício ao Ibama, que o estudo iv) “os estudos não registraram a real
fosse reformulado, incorporando importância cultural que o Salto
todos os pontos apresentados e os Sete Quedas tem para os povos in-
impactos identificados na análise dígenas e isso precisa ser assumido
do órgão. Com isso, as falhas e pen- e corrigido nos estudos”;
dências do ECI “emprestado”, iden- v) “a correção tem que ser feita nos
tificadas pela Funai, foram converti- estudos de que os Kayabi ape-
das em uma das 28 condicionantes nas aceitaram a realização dos
da LP da UHE Teles Pires, emitida estudos e não a construção da
pela Ibama. O empreendedor refor- hidrelétrica, pois são contra o
mulou o ECI e produziu um docu- empreendimento”;
mento específico para a UHE Teles vi) “(os indígenas) deixaram claro que
Pires. estão sendo atropelados por todo
Porém, as deficiências relacio- o processo, não havendo tempo
nadas à avaliação de impacto am- para entender, discutir e ter suas
biental permaneceram e não foram posições ouvidas e respeitadas so-
sanadas até a emissão da LI, em bre todos os pontos e programas
2011. Alguns dias antes da emissão envolvidos”;
da licença, em reunião realizada na vii) “nos estudos, vários temas ficaram
aldeia Kururuzinho, na TI Kayabi, faltando, como os impactos sobre
com a participação de indígenas as plantas medicinais e as matérias
Kayabi e Munduruku, servidores da primas que os povos indígenas uti-
Funai e representantes do empreen- lizam”; e
dedor, os índios fizeram as seguin- viii) “que estes desenvolvimentos que
tes constatações em relação ao ECI: dizem que as hidrelétricas vão tra-
zer não são voltados para os povos
Na ata da reunião, destacam-se indígenas, para estes, os empreen-
como constatações: dimentos só vão trazer destruição”
i) “falta de informação e discussão su- (Idem).

Condicionantes e a viabilidade ambiental no processo de licenciamento 179


Todos esses problemas com a LP da UHE, ratificando a prevalên-
avaliação dos impactos ambientais cia inadequada das condicionantes
sobre as populações indígenas, que ambientais como lastro da viabili-
se arrastam pelas diferentes fases dade ambiental do projeto.
do licenciamento, são derivados do Assim, se o planejamento hidre-
fato de o órgão licenciador não obri- létrico avança para a região ama-
gar a revisão e complementação zônica pelo fato de lá ainda haver
do EIA/Rima com uma adequada 51% do que se considera o potencial
análise do componente indígena, brasileiro disponível para ser ex-
previamente à emissão da licença plorado, avança também com ele
prévia. Trata-se de algo que traria uma grande probabilidade de que
elementos importantes para a de- a viabilidade ambiental dos proje-
finição da viabilidade ambiental do tos seja cada vez mais lastreada nas
empreendimento. condicionantes ambientais e menos
na própria avaliação de viabilidade
Considerações finais ambiental, baseada nas alternati-
O caso aqui relatado – o licencia- vas tecnológicas e de localização do
mento ambiental da UHE Teles Pi- projeto e necessária para garantir
res – é um exemplo contundente de a legitimidade técnica do processo
como o tratamento dado às condi- de licenciamento ambiental am-
cionantes ambientais pode ser um parado pela avaliação de impacto
revés para a própria avaliação de ambiental.
viabilidade ambiental do projeto.
Considerando-se que o ECI foi [artigo concluído em julho de 2014]
produzido para um caso e transpos-
to para outro, é possível inferir que Referências bibliográficas
não houve a adequada inserção do Araújo, Adélia A.; Nogueira, Eli-
componente indígena na avaliação sângela N.; David, Fabiane S.;
de impacto ambiental da UHE, im- Silva, Flávia de A.; Ventura, Ro-
pedindo principalmente sua consi- sangela M.G.; Figueiredo; Sérgio
deração no momento de avaliação B. 2014. Relatório de monitora-
de viabilidade ambiental da locali- mento da qualidade da água da
zação proposta para a referida UHE, região hidrográfica amazônica:
durante a elaboração do EIA. Como 2010 e 2011. Coleção Monitora-
solução, muitos dos problemas mento Ambiental. Cuiabá, Supe-
identificados apenas foram tratados rintendência de Geoinformação
como uma das 28 condicionantes da e Monitoramento Ambiental, Se-

180 Moretto, Jordão, Fernandes e Andrade


cretaria de Estado do Meio Am- aspx?CategoriaID=101> (acesso:
biente de Mato Grosso. 10 jul. 2014).
Arruda, Bianca. 2003. “Consórcio Brasil. Ministério de Minas e Ener-
do Teles-Pires será criado ofi- gia. Empresa de Pesquisa Energé-
cialmente em Alta Floresta”. In: tica; Consórcio Leme-Concre-
Estação Vida. Cuiabá, 18 jul. Dis- mat. 2010. Estudo de impacto
ponível em: <http://pib.socioam- ambiental da usina hidrelétrica
biental.org/en/noticias?id=8744> Teles Pires. 7 v. Brasília/Rio de
(acesso: 10 jul. 2014). Janeiro. Disponível em: <http://
Brasil. Ministério da Ciência, Tec- licenciamento.ibama.gov.br/Hi-
nologia e Inovação. Instituto dreletricas/Teles%20Pires/EIA%20
Nacional de Pesquisas Espaciais. Ultima%20Vers%e3o/> (acesso: 10
Sítio do Programa de Cálculo do jul. 2014).
Desflorestamento da Amazônia Brasil. Ministério do Meio Am-
do Instituto Nacional de Pesqui- biente. Conselho Nacional do
sas Espaciais (Prodes/Inpe). Dis- Meio Ambiente. 1997. Resolução
ponível em: <http://www.obt. no237/1997. Regulamenta os as-
inpe.br/prodes/index.php> (aces- pectos de licenciamento ambien-
so: 10 jul. 2014). tal estabelecidos na Política Na-
Brasil. Ministério de Minas e Ener- cional do Meio Ambiente. Brasília,
gia. Empresa de Pesquisa Energé- 19 dez. Disponível em: <http://
tica. 2009. Avaliação ambiental www.mma.gov.br/port/conama/
integrada da bacia hidrográfica legiabre.cfm?codlegi=237> (aces-
do rio Teles Pires. Relatório fi- so: 10 jul. 2014).
nal. Sumário executivo. Brasília. Brasil. Ministério Público da União;
Disponível em: <http://www. Brasil. Ministério Público Fede-
epe.gov.br/MeioAmbiente/Do- ral. 4ª Câmara de Coordenação
cuments/AAI%20Teles%20Pires/ e Revisão. 2004. Deficiências em
AAI%20Teles%20Pires%20-%20 estudos de impacto ambiental: sínte-
Relat%C3%B3rio%20Final%20-%20 se de uma experiência. Brasília,
Sum%C3%A1rio%20Executivo. Escola Superior do Ministério
pdf> (acesso: 10 jul. 2014). Público da União. Disponível
___. 2014. Avaliação ambiental inte- em: <http://inspirebr.com.br/
grada da bacia do rio Juruena. 3 v. uploads/midiateca/3a81081c04be
Brasília. Disponível em: <http:// 66765838effa84f22f0a.pdf>.
www.epe.gov.br/MeioAmbiente/ Brasil. Ministério Público Federal;
Paginas/AAI/BaciadoRioJuruena. Mato Grosso. Ministério Público

Condicionantes e a viabilidade ambiental no processo de licenciamento 181


do Estado. 2012. Ação civil pública na América Latina/Hidroeléctricas
com pedido de liminar. Processo y actuación del Ministerio Público
nº3947-44.2012.4.01.3600. Cuia- en Latinoamérica. Porto Alegre,
bá. Disponível em: <http://www. Letra&Vida/Red Latinoamericana
prpa.mpf.mp.br/news/2014/ar- de Ministério Público Ambiental,
quivos/acp_Teles%20Pires_Com- pp. 116-136.
ponente_Formatada.pdf/view> Montaño, Marcelo; Ranieri, Vic-
(acesso: 10 jul. 2014). tor E.L.; Schalch, Valdir; Fon-
Grupo De Estudos Tapajós; Eco- tes, Aurélio T.; Castro, Marcus
logy Brasil. 2014. Avaliação C.A.A.; Souza, Marcelo P. 2012.
ambiental integrada da bacia “Integração de critérios técnicos,
do Tapajós. Sumário executivo. ambientais e sociais em estudos
Disponível em: <http://www.gru- de alternativas locacionais para
podeestudostapajos.com.br/site/ implantação de aterro sanitário”.
wp-content/uploads/2014/04/Su- In: Engenharia Sanitária e Ambien-
mario_AAI.pdf> (acesso: 10 jul. tal, v.17, nº1. Rio de Janeiro, Asso-
2014). ciação Brasileira de Engenharia
Linha do tempo. [s.d.]. Hidrelétri- Sanitária e Ambiental, pp. 61-70.
ca Teles Pires. Disponível em: Montaño, Marcelo; Souza, Marcelo
<http://www.uhetelespires.com. P. 2008. “A viabilidade ambiental
br/site/linha-do-tempo/#body> no licenciamento de empreendi-
(acesso: 10 jul. 2014). mentos perigosos no estado de
Instituto Centro de Vida. 2009. São Paulo”. In: Engenharia Sanitá-
Avaliação ambiental integrada: ria e Ambiental, v.13, nº4. Rio de
território Portal da Amazônia. Janeiro, Associação Brasileira de
Alta Floresta, ICV. Engenharia Sanitária e Ambien-
Maia, Leonardo Castro. 2013. “Hi- tal, pp. 435-442.
drelétricas e o Ministério Públi- Sánchez, Luis Enrique. 2006. Avalia-
co brasileiro”. In: Maia, Leonar- ção de impacto ambiental: concei-
do C.; Cappelli, Sílvia; Pontes tos e métodos. São Paulo, Editora
Júnior, Felício (org.). Hidrelétri- Oficina dos Textos.
cas e atuação do Ministério Público

182 Moretto, Jordão, Fernandes e Andrade


O BNDES e o financiamento
de barragens na bacia do tapajós1
Biviany Rojas Garzón, Brent Millikan e
Daniela Fernandes Alarcon

O
financiamento da usina hi- indicando tendências que parecem 1. O presente artigo é
uma versão traduzida
drelétrica (UHE) de Belo Mon- se repetir com os projetos de barra-
e adaptada de Rojas
te, no rio Xingu, por meio de gens na bacia do Tapajós. & Millikan (2014). Ver
Procuramos, neste texto, apontar também Millikan &
um conjunto de empréstimos que
Rojas (2015).
somam R$ 25,4 bilhões, é a maior questões-chave que possam subsi-
operação já aprovada para um úni- diar discussões sobre a atuação do
co empreendimento na história do BNDES como instituição financeira
Banco Nacional de Desenvolvimen- pública, especialmente no que diz
to Econômico e Social (BNDES). respeito a suas limitações e às mu-
Este artigo tem por objetivo ana- danças necessárias em suas políticas
lisar o envolvimento do BNDES de transparência e responsabilidade
com empreendimentos voltados socioambiental. O debate é premen-
ao aproveitamento hidrelétrico da te, já que novos e vultosos investi-
Amazônia brasileira, recuperando mentos do BNDES no setor hidrelé-
informações sobre o caso Belo Mon- trico estão no horizonte. Conforme
te – em especial, em torno das re- recentemente divulgado pelo ban-
lações entre o banco, organizações co, sua perspectiva de investimento
da sociedade civil e outros sujeitos no setor elétrico brasileiro para o
envolvidos no processo, por ocasião período de 2015 a 2018 é de R$ 192,2
da análise, aprovação e contratação bilhões, considerando-se projetos a
de empréstimos, assim como do serem finalizados até 2022 (Brasil,
monitoramento e fiscalização da Banco Nacional de Desenvolvimen-
execução do empreendimento – e to Econômico e Social, 2014: 97).

183
Essa estimativa tem por base os lei- [BNDES Participações S.A.]. Dentro
lões de geração e transmissão de do governo, há gestões também
energia já realizados, bem como as para que o InfraBrasil, fundo que
indicações do planejamento realiza- reúne recursos do próprio BNDES
do pela Empresa de Pesquisa Ener- e de fundações, como Previ [Caixa
gética (EPE) da expansão da geração de Previdência dos Funcionários do
e da transmissão de energia elétri- Banco do Brasil] e Funcef [Fundação
ca para o horizonte decenal. […] dos Economiários Federais], partici-
O destaque é a geração de energia pe dos grupos vencedores dos leilões
elétrica, cujos investimentos foram (Governo, 2011).
estimados em R$ 118,8 bilhões, en-
tre os quais R$ 56,3 bilhões referentes Os primeiros contratos entre o
a empreendimentos hidrelétricos, sendo BNDES e empreendedores ligados
mais da metade já contratada por aos barramentos na bacia do Tapa-
leilões públicos (Idem, grifo nosso). jós viriam entre o fim de agosto e
o começo de setembro do mesmo
Nesse quadro, destacam-se as ano, totalizando R$ 84,4 milhões,
barragens na bacia do Tapajós. Em destinados à implantação de cin-
meados de 2011, a participação des- co pequenas centrais hidrelétricas
2. As informações
sobre esses e os demais tacada do BNDES nos empreendi- (PCHs) na bacia do rio Juruena (ver
contratos relacionados mentos hidrelétricos planejados tabela 1)2. Ainda em dezembro de
à bacia do Tapajós
apresentadas aqui para a bacia do Tapajós já estava em 2011, a Companhia Hidrelétrica Te-
foram obtidas através pauta. À época, baseando-se em um les Pires (CHTP), a cargo da implan-
do sistema de consulta
às operações do BNDES.
“relatório reservado” e referindo-se tação da UHE Teles Pires, no rio de
Disponível em: <http:// à bacia do Tapajós, o Grupo de Es- mesmo nome, receberia do banco
www.bndes.gov.br/ tudos do Setor Elétrico do Instituto um “empréstimo-ponte” no valor
SiteBNDES/bndes/
bndes_pt/Institucional/ de Economia da Universidade Fede- de R$ 450 milhões, antecedendo
BNDES_Transparente/ ral do Rio de Janeiro (Gesel/IE/UFRJ) os contratos principais, que seriam
Consulta_as_
operacoes_do_BNDES/
observou: celebrados em setembro do ano
planilhas_operacoes_ seguinte, totalizando aproximada-
diretas_e_indiretas_
Com relação ao BNDES, o banco de- mente mais R$ 2,4 bilhões.
nao_automaticas.
html> (acesso: 18 dez. verá entrar na operação com dupla Já em abril de 2013, a Inxu Gera-
2014). Note-se que missão. De um lado, financiará até dora e Comercializadora de Energia
não constam, ali,
informações sobre
60% dos investimentos previstos Elétrica S.A. firmaria contrato com
projetos em análise. para a construção das usinas; do ou- o BNDES no valor de aproximada-
tro, participará como acionista dos mente R$ 99,5 milhões, destinados
consórcios por meio da BNDESPar à PCH Inxu, também na sub-bacia

184 Rojas Garzón, Millikan e Alarcon


Tabela 1. Investimentos do Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES) em barragens na bacia doTapajós
de jan. 2011 a jul. 2014
Data do
Empreendedor Aproveitamento hidrelétrico Valor financiado (R$) Forma de apoio
contrato

Pequena central hidrelétrica


Telegráfica Energia S.A. 13.000.000,00 31/08/2011 Direta
(PCH) Telegráfica

Campos de Julio Energia


PCH Cidezal 9.350.000,00 31/08/2011 Direta
S.A.

Sapezal Energia S.A. PCH Sapezal 7.350.000,00 31/08/2011 Direta

Parecis Energia S.A. PCH Parecis 6.500.000,00 31/08/2011 Direta

Rondon Energia S.A. PCH Rondon 6.000.000,00 31/08/2011 Direta

Indireta não
Telegráfica Energia S.A. PCH Telegráfica 13.000.000,00 01/09/2011
automática

Campos de Julio Energia Indireta não


PCH Cidezal 9.350.000,00 01/09/2011
S.A. automática

Indireta não
Sapezal Energia S.A. PCH Sapezal 7.350.000,00 01/09/2011
automática

Indireta não
Parecis Energia S.A. PCH Parecis 6.500.000,00 01/09/2011
automática

Indireta não
Rondon Energia S.A. PCH Rondon 6.000.000,00 01/09/2011
automática

Companhia Hidrelétrica
UHE Teles Pires 450.000,00 14/12/2011 Direta
Teles Pires

Companhia Hidrelétrica
UHE Teles Pires 1.212.000,00 27/09/2012 Direta
Teles Pires

Companhia Hidrelétrica Indireta não


UHE Teles Pires 1.200.000,00 27/09/2012
Teles Pires automática

Inxu Geradora e
Comercializadora de PCH Inxu 99.560.220,00 05/04/2013 Direta
Energia Elétrica S.A.

Copel Geração e
UHE Colíder 1.041.155.000,00 04/12/2013 Direta
Transmissão S.A.

TOTAL (R$) = 1.227.977.220,00

Elaboração dos autores, 2014. Fonte: Sistema de consulta às operações do BNDES. Disponível em:
<http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/bndes/bndes_pt/Institucional/BNDES_Transparente/
Consulta_as_operacoes_do_BNDES/planilhas_operacoes_diretas_e_indiretas_nao_automaticas.
html> (acesso: 18 dez. 2014). Note-se que o sistema não apresenta informações sobre projetos
em análise. Sabe-se que o BNDES aprovou empréstimo para a UHE Sinop, no rio Teles Pires, mas
informações a esse respeito não constam no sistema de consulta.

O BNDES e o financiamento de barragens na bacia do Tapajós 185


do Juruena. No mesmo ano, em de- de ações civis públicas (ACPs) ter
zembro, a estatal paranaense Copel sido ajuizada pelo Ministério Pú-
Geração e Transmissão S.A. fechou blico Federal (MPF) e por organiza-
um contrato de aproximadamente ções da sociedade civil, apontando
R$ 1,04 bilhão, para implantação da irregularidades na concessão da
UHE Colíder, no rio Teles Pires. Em licença prévia de Belo Monte (LP
evento fechado à imprensa, promo- nº342/2010) e o descumprimento de
vido pela JPMorgan, em dezembro condicionantes que deveriam ante-
de 2014, o presidente do BNDES, Lu- ceder o certame, especialmente no
ciano Coutinho, demonstrou expec- tocante à proteção de terras e popu-
tativa quanto à realização do leilão lações indígenas, conforme exigên-
da UHE São Luiz do Tapajós ainda cia da Fundação Nacional do Índio
em 2015 (Machado, 2014), anteci- (Funai), respaldada na LP. A pedido
pando um provável apoio do banco da Advocacia-Geral da União (AGU),
ao empreendimento. o presidente do Tribunal Regional
Nas próximas sessões, discuti- Federal da 1a Região (TRF-1) suspen-
remos a participação do BNDES no deu unilateralmente liminares a fa-
financiamento da UHE Belo Monte, vor de diversas ACPs na véspera do
retomando, no final do artigo, o de- leilão, lançando mão da suspensão
bate sobre a bacia do Tapajós e apre- de segurança (SS), artifício legal e
sentando algumas recomendações. uma espécie de relíquia da ditadu-
ra militar, invocando o fantasma de
O BNDES e a UHE Belo Monte um suposto apagão no setor elétri-
O caso de Belo Monte demonstra co e ameaça à “ordem social e eco-
claramente a impotência da Política nômica” no caso de atrasos na cons-
de Responsabilidade Socioambien- trução de Belo Monte.
tal (PRSA) do BNDES, tanto para No leilão, concorreram apenas
avaliar riscos socioambientais, evi- dois consórcios, montados apressa-
tando o apoio a determinados em- damente sob a coordenação do Mi-
preendimentos, como para acom- nistério de Minas e Energia (MME)
panhar eficientemente a gestão de e das Centrais Elétricas Brasileiras
riscos e impactos socioambientais S.A. (Eletrobras). O vencedor foi a
envolvidos naqueles que o banco Norte Energia S.A. (Nesa), liderada
decide apoiar. O leilão da UHE foi pela Companhia Hidro Elétrica do
realizado pela Agência Nacional de São Francisco (Chesf ), do Grupo
Energia Elétrica (Aneel) em 20 de Eletrobras, tendo como parceiros
abril de 2010, apesar de uma série principais a construtora Queiroz

186 Rojas Garzón, Millikan e Alarcon


Galvão, Gaia Energia e Participa- da pecuária – já se previa, portanto,
ções (do grupo Bertin) e J. Malucelli a atuação do banco como principal
Construtora de Obras. Logo após a financiador. O grupo foi substituído
realização do leilão, iniciou-se uma como autoprodutor pela Vale, em-
intensa “dança de cadeiras” na com- presa estatal privatizada, mas ainda
posição da Nesa, destacando-se a saí- fortemente influenciada pelo gover-
da de construtoras (Queiroz Galvão, no federal via a participação acioná-
J. Malucelli, Mendes Junior, Galvão ria do Previ.
Engenharia, Contern, Serveng) e a Em março de 2010 – ou seja, no
entrada de estatais vinculadas à Ele- mês seguinte à concessão da LP e
trobras, fundos de pensão (Funda- anterior à realização do leilão –,
ção Petrobras de Seguridade Social vários movimentos sociais de Al-
- Petros, Funcef, Previ) e outros fun- tamira, Pará, com apoio de organi-
dos de investimento controlados zações nacionais, entregaram uma
pelo governo. A grande maioria das notificação extrajudicial ao BNDES,
construtoras migrou para o Consór- advertindo sobre a fragilidade da re-
cio Construtor Belo Monte (CCBM), ferida licença ambiental, que
contratado pela Nesa para realizar
as obras. não oferece nenhuma garantia de
Esse fenômeno pode ser com- que a obra é viável do ponto de vista
preendido como reflexo de vários socioambiental, uma vez que a con-
fatores: i) os elevados riscos finan- clusão da avaliação técnica do Ibama
ceiros para investidores no consór- [Instituto Brasileiro do Meio Am-
cio concessionário de Belo Monte; biente e dos Recursos Naturais Re-
ii) a preferência das empreiteiras nováveis] de que “não há elementos
por atuar como contratadas para as suficientes para atestar a viabilidade
obras, a sua especialidade, em um ambiental do empreendimento” foi
ambiente de baixo risco; e iii) o po- desconsiderada no ato do licencia-
der de fogo do governo federal so- mento (Notificação, 2010).
bre os fundos de pensão de empre-
sas estatais. Outro fato notável nas Citando a Constituição Fede-
mudanças de composição da Nesa ral e a Lei da Política Nacional do
foi a saída da Gaia Energia e Parti- Meio Ambiente (Lei nº6.938/1981),
cipações. Ela se deu, aparentemen- o documento advertiu o BNDES de
te, em decorrência de problemas de que, caso aprovasse o financiamen-
inadimplência do grupo Bertin em to para Belo Monte, o banco seria
financiamentos do BNDES no setor passível de ser cobrado pelos im-

O BNDES e o financiamento de barragens na bacia do Tapajós 187


Tabela 2. Composição inicial e atual da Norte Energia S.A. (Nesa) e do
Consórcio Construtor Belo Monte (CCBM)
Composição da Nessa na Composição da Nesa (2014) Composição do CCBM
época do leilão (abr. 2010)

Grupo Eletrobras: Grupo Eletrobras: Centrais Elétricas Andrade Gutierrez (18%)


Companhia Hidro Elétrica do Norte do Brasil S.A. (Eletronorte) Odebrecht (16%)
do São Francisco (Chesf) (19,98%), Centrais Elétricas Brasileiras Camargo Corrêa (16%)
(49,98%) S.A. (Eletrobras) (15%),
Chesf (15%),
 OAS (11,5%)
Empresas privadas: Entidades de previdência Queiroz Galvão (11,5%)
Construtora Queiroz complementar: Fundação Petrobras Contern (10%)
Galvão (10,02%), J. de Seguridade Social (Petros) Galvão Engenharia (10%)
Malucelli Construtora de (10%),
Fundação dos Economiários Serveng (3%) 
Obras (9,98%), Cetenco Federais (Funcef) (5%) Cetenco (2%)
Engenharia (5%), Galvão Fundo de investimento em J. Malucelli (2%)
Engenharia (3,75%), Mendes participações: Caixa FIP Cevix (5%)
Junior Trading Engenharia Sociedade de propósito específico:
(3,75%), Serveng- Belo Monte Participações S.A.
Civilsan (3,75%), Contern (Neoenergia S.A.) (10%, sendo: Caixa
Construções e Comércio de Previdência dos Funcionários do
(3,75%) Banco do Brasil - Previ [49%], Iberdrola
Autoprodutores: Gaia [39%] e Banco do Brasil [12%])
Energia e Participações Autoprodutoras: Amazônia
(10,02%) (Companhia Energética de Minas
Gerais - Cemig e Light Serviços de
Eletricidade S.A.) (9,77%),
Vale S.A.
(9%),
Siderúrgica Norte Brasil S.A.
(Sinobras) (1%)
Outras sociedades: J. Malucelli Energia
(0,25%)

Elaboração dos autores. Fontes: Nesa e Valor Econômico.

pactos socioambientais do projeto, bro de 2009, antecipando a realiza-


não equacionados pelo processo de ção de análises técnicas do projeto
licenciamento, marcado por irre- pelo banco e a concessão da LP pelo
gularidades. O banco responderia, Ibama (BNDES financia, 2009; Gan-
inclusive, por custos decorrentes de dra, 2010). O documento lembrou
danos sobre a fauna, flora e pessoas que, como gestor de recursos públi-
da região, independentemente de cos, em conformidade com seu es-
seu valor estimado. tatuto social, o BNDES deve realizar
A notificação questionou o fato “exame técnico e econômico-finan-
de autoridades do BNDES anuncia- ceiro de empreendimento, projeto
rem o financiamento desde setem- ou plano de negócio, incluindo a

188 Rojas Garzón, Millikan e Alarcon


avaliação de suas implicações so- No mais, houve contradição entre a
ciais e ambientais” antes de apro- resposta do BNDES e uma nota emi-
var qualquer operação financeira. tida no dia 16 de abril de 2010 (qua-
Em resposta datada de 22 de abril tro dias antes do leilão), em que o
de 2010 (dois dias após o leilão), o banco afirmava que financiaria até
chefe de gabinete da presidência do 80% do investimento total de Belo
BNDES afirmou que o banco Monte, estimado na época em R$ 19
bilhões (Lage, 2010).
desconhece as especificidades do Segundo informações levantadas
empreendimento UHE Belo Mon- pelo MPF à época, a Nesa apresen-
te, especificidades essas somente tou ao BNDES, em 24 de setembro
conhecidas após a apresentação do de 2010, carta-consulta relativa ao
pedido de financiamento da even- pedido de financiamento de longo
tual beneficiária que resultará do prazo para a implantação da UHE
leilão público a ser promovido pelo Belo Monte. Em 8 de outubro do
poder concedente. Como o projeto mesmo ano, o pedido de financia-
da usina de Belo Monte não percor- mento foi “enquadrado”, o que ha-
reu nenhuma das etapas internas de bilitou a Nesa a iniciar o processo de
tramitação do BNDES, e ainda não envio de informações e documentos
foi licitado pelo poder concedente, necessários à análise da solicitação
o BNDES não analisou os condicio- de financiamento pelo banco. Em
nantes do licenciamento prévio da dezembro de 2010, o presidente do
usina, e tampouco verificou a con- BNDES, Luciano Coutinho, já anun-
formidade do empreendimento no ciava que o banco atuaria para re-
que toca à Politica Nacional de Meio passar à Nesa “um financiamento
Ambiente e ao normativo do Co- viabilizador do projeto”. Na época,
nama [Conselho Nacional do Meio segundo estimativa da Nesa, o custo
Ambiente]. total de Belo Monte já teria aumen-
tado para R$ 25 bilhões. No entan-
Além de desconsiderar a reali- to, o BNDES não divulgou qualquer
zação do leilão, em 20 de abril de informação à sociedade brasileira
2010, a resposta do chefe de gabine- a respeito dos critérios e análises
te da presidência não fez referência técnicas utilizados para embasar tal
às críticas da notificação extrajudi- afirmação.
cial às declarações públicas de auto- Em janeiro de 2011, as entidades
ridades do BNDES efetuadas em se- civis International Rivers e Amigos da
tembro de 2009 e fevereiro de 2010. Terra – Amazônia Brasileira lança-

O BNDES e o financiamento de barragens na bacia do Tapajós 189


ram o relatório Mega-projeto, mega- uma “LI parcial”, inexistente na le-
-riscos: análise de riscos para investido- gislação ambiental brasileira, com
res no Complexo Hidrelétrico Belo Monte o objetivo de acelerar a instalação
(Hurwitz et al., 2011). O documento de canteiros e estradas de acesso de
apresentava uma análise criteriosa Belo Monte, enquanto não saía a “LI
de riscos financeiros, legais e de re- completa”.
putação para investidores públicos Em face da ausência de divulga-
e privados, atualmente ou poten- ção pública de informações míni-
cialmente envolvidos com a UHE mas pelo BNDES sobre o emprésti-
Belo Monte, baseando-se em um mo-ponte, o MPF no estado do Pará
extenso material produzido por solicitou oficialmente dados sobre
diversas fontes: empreendedores, os critérios de análise e aprova-
órgãos governamentais, cientistas ção do financiamento, a utilização
e acadêmicos, entidades da socieda- prevista dos recursos e a posição
de civil, MPF, dentre outras. Apesar do banco quanto à legalidade de
de o relatório ter sido entregue for- uma “LI parcial” para fins de finan-
3. Os questionamentos malmente ao BNDES e de os autores ciamento de Belo Monte. Mesmo
do MPF e as respostas
terem informado seu interesse em sem informar a posição do BNDES
do BNDES podem
ser encontrados em: dialogar sobre o conteúdo do mes- quanto à legalidade da LI parcial, a
<http://www.xinguvivo. mo, inclusive para que se fizessem resposta do banco prestou alguns
org.br/2011/02/02/sem-
licenca-sem-dinheiro- eventuais esclarecimentos necessá- esclarecimentos sobre as condi-
resposta-do-bndes-a- rios, o BNDES não se manifestou. ções de financiamento do primeiro
questionamento-do-
empréstimo-ponte3:
mpf-sobre-politica-de-
financiamento-de-belo- Empréstimos-ponte
monte/> Em dezembro de 2010, o BNDES i) Para fins de aprovação do primei-
(acesso: 5 dez. 2014).
anunciou a aprovação de um primei- ro empréstimo-ponte, o BNDES
4. Essa afirmação do ro empréstimo-ponte de R$ 1,087 bi- considerou desnecessária a fase de
BNDES contrasta com
lhão para a Nesa, voltado a adiantar análise técnica de viabilidade eco-
normas do Banco
Central (Bacen) e do ações de implantação de Belo Mon- nômica e financeira do empreen-
Conselho Monetário te, enquanto se aguardava a apro- dimento, inclusive em termos de
Nacional (CMN),
que estabelecem vação do financiamento principal. análise do custo das obras e de mi-
a obrigatoriedade Tal anúncio chamou a atenção do tigação e compensação de impac-
de análise de
MPF, uma vez que, na época, o con- tos socioambientais (e seus respec-
níveis de risco de
empreendimentos pela sórcio não possuía licença de insta- tivos riscos)4;
instituição financeira lação (LI) para o empreendimento. ii) Os recursos do empréstimo-ponte
como condição para
qualquer concessão de Além disso, o Ibama dava sinais de seriam utilizados para “adianta-
crédito. que iria conceder, no início de 2011, mento de pagamentos a fornece-

190 Rojas Garzón, Millikan e Alarcon


dores de equipamentos e materiais to de longo prazo deverá prever a
nacionais, bem como a prestadores suspensão do processo de liberação
de serviços de projetos e de estu- de recursos até que a situação seja
dos para a implantação da usina”; regularizada.
iii) As condições do empréstimo in-
cluiriam “o estabelecimento de Como se demonstra na presente
obrigação de não intervenção no análise, essa afirmação contrasta
sítio do AHE [aproveitamento hi- com a atuação do BNDES no finan-
drelétrico] Belo Monte, sem que ciamento da UHE Belo Monte, desde
seja emitida a licença de instalação o início.
referente à implantação do apro- Em novembro de 2010, o MPF no
veitamento hidrelétrico como um Pará enviou uma recomendação ao
todo”. presidente do Ibama, solicitando
que o órgão
A última afirmação do BNDES
claramente criou constrangimen- se abstenha [abstivesse] de emitir
to para a Nesa, que contava com qualquer licença, em especial a de
os recursos do empréstimo-ponte instalação, prévia ou definitiva, do
para iniciar as obras dos canteiros empreendimento denominado AHE
e estradas de acesso a Belo Monte. Belo Monte, enquanto as questões
Nesse contexto, a opção da Nesa, relativas às condicionantes da LP
com o respaldo político de seu só- nº342/2010 não forem [fossem] de-
cio governamental (Eletrobras), foi finitivamente resolvidas de acordo
por pressionar o Ibama para liberar com o previsto.
a “LI parcial” no início de 2011, para
acelerar as obras preliminares de Desconsiderando a recomenda-
Belo Monte, e aguardar a conces- ção do MPF, e sob forte pressão do
são da LI completa, para assinar o setor elétrico do governo, em 26 de
contrato do empréstimo-ponte com janeiro de 2011, o presidente interi- 5. Poucos dias antes, o
então presidente do
o BNDES. Cabe ressaltar que, em no do Ibama assinou a “LI parcial”
Ibama, Abelardo Bayma
correspondência enviada ao MPF (LI nº770/2011)5. No dia seguinte, Azevedo, tinha pedido
no Pará em 18 de janeiro de 2011, o o MPF no Pará ajuizou uma ACP demissão do cargo,
aparentemente por
BNDES afirmou que contra a concessão irregular da “LI motivos que incluíam
parcial”, figura inexistente na legis- desgaste em face das
pressões para conceder
no caso de não cumprimento de lação ambiental, em um contexto
a “LI parcial” para Belo
condicionantes de caráter socioam- de grave descumprimento das con- Monte. Ver, entre outras,
biental, o contrato de financiamen- dicionantes da LP de Belo Monte. Presidente (2011).

O BNDES e o financiamento de barragens na bacia do Tapajós 191


No final de fevereiro de 2011, a Em 1 de junho de 2011, apesar de
ação recebeu uma liminar favorável um persistente quadro de descum-
do juiz federal Ronaldo Destêrro, primento de condicionantes da LP,
da Nona Vara de Belém, o que sus- o presidente do Ibama assinou a LI
pendeu tanto a LI nº770/2011 como nº795/2011, a “LI completa”, que per-
uma autorização de supressão de mitiu o início das obras principais
vegetação concedida pelo Ibama. A de Belo Monte. Cinco dias depois, o
decisão, além disso, determinou “ao MPF no Pará ajuizou nova ACP, soli-
BNDES que se abstenha de transferir citando à justiça federal a declara-
recursos à Nesa, tudo até o advento ção da nulidade da LI nº795/2011; a
da sentença ou até que, à vista da obrigação de a Nesa cumprir todas
comprovação das condicionantes, as condicionantes previstas da LP
6. De lá para cá, outras esta decisão seja revogada”6. O juiz nº342/2010 antes de requerer nova-
decisões judiciais,
declarou ainda: mente a LI; e a obrigação de o Ibama
não apreciadas neste
artigo, também não emitir nova LI para Belo Monte
determinariam a Em lugar de o órgão ambiental con- enquanto as condicionantes previs-
suspensão das obras
e do financiamento duzir o procedimento, acaba por tas na LP não fossem integralmente
concedido pelo BNDES à ser a Nesa que, à vista dos seus inte- cumpridas pela Nesa.
Nesa, sendo alvos de SS.
resses, suas necessidades e seu cro- Nesse contexto, o BNDES assi-
nograma, tem imposto ao Ibama o nou, em 16 de junho de 2011, o con-
modo de condução do licenciamen- trato do primeiro empréstimo-pon-
to de Belo Monte. te para Belo Monte, no valor de R$
1,1 bilhão, a favor da Nesa. Apesar
Poucos dias depois, o presiden- de já concedida a LI nº795/2011, o
te do TRF-1, desembargador Olindo contrato do empréstimo-ponte in-
Menezes, a pedido da AGU, assi- cluiu um item sobre a obrigação de
nou uma SS para invalidar a limi- a beneficiária
nar, permitindo a continuação das
obras de Belo Monte baseadas na LI não realizar qualquer intervenção
nº770/2011, independentemente do na área de implantação da UHE Belo
cumprimento das condicionantes Monte, antes da obtenção e apresen-
da LP. Na decisão, o desembargador tação ao BNDES da Licença de Ins-
concluiu que “não há necessidade talação relativa à integralidade do
de cumprimento de todas as condi- referido projeto…
cionantes listadas na licença prévia
para a emissão da licença de insta- Além disso, o referido contra-
lação parcial do empreendimento”. to incluiu como itens padrão: i) a

192 Rojas Garzón, Millikan e Alarcon


obrigação de a Nesa “manter em MPF e incompatibilidades da UHE
situação regular suas obrigações Belo Monte com o arcabouço legal
junto aos órgãos do meio ambien- sobre instituições financeiras e dire-
te…” (cláusula nona, item IV); e ii) trizes de responsabilidade socioam-
como condição de vencimento an- biental do BNDES. O documento
tecipado, “a existência de sentença concluía reiterando que o empreen-
condenatória transitada em julgado dimento apresentava “graves riscos
em razão da prática de atos, pela financeiros, legais e de reputação
BENEFICIÁRIA, que importem em para as instituições que venham a
trabalho infantil, trabalho escravo participar, direta ou indiretamente,
ou crime contra o meio ambiente” de seu financiamento”. Nesse sen-
(cláusula 14o, item “b”). Nessa épo- tido, questionava-se a aprovação,
ca, já era evidente que tais cláusu- pelo BNDES, do primeiro emprésti-
las contratuais não evitariam graves mo-ponte, em dezembro de 2010, e
problemas na implantação de Belo a assinatura do contrato relativo ao
Monte, marcada pelo descumpri- mesmo, em junho de 2011. A noti-
mento de condicionantes das licen- ficação não recebeu do banco mais 7. O Banco ABC Brasil
ças ambientais, o que provocou o que uma resposta genérica, em 16 S.A. é uma subsidiária
do Arab Banking
ajuizamento, pelo MPF, de diversas de novembro de 2011. Corporation, com sede
ACPs (inviabilizadas, no entanto, Em 7 de fevereiro de 2012, a dire- na Líbia. Quando o
BNDES foi indagado
pelo artificio jurídico da SS). toria do BNDES aprovou um segun-
pela International
Em outubro de 2011, o BNDES do empréstimo-ponte para a UHE Rivers, via lei de acesso
recebeu uma segunda notificação Belo Monte, em favor da Nesa, no à informação, sobre os
critérios utilizados para
extrajudicial sobre a sua participa- valor de R$ 1,8 bilhão, prevendo o escolher a CEF e o Banco
ção no financiamento da UHE Belo seguinte esquema de repasse de re- ABC Brasil S.A. como
instituições financeiras
Monte, assinada por mais de 170 or- cursos: R$ 1,5 bilhão via Caixa Eco-
repassadoras do
ganizações da sociedade civil, com nômica Federal (CEF) e R$ 300 mi- segundo empréstimo-
a finalidade de “reiterar e compro- lhões por meio do Banco ABC S.A.7. ponte, o banco
respondeu que no
var” graves problemas no processo Estranhamente, o segundo emprés- caso de “operações
de planejamento, licenciamento e timo-ponte não foi divulgado pelo realizadas através de
repasse de recursos por
implementação do empreendimen- BNDES na época de sua aprovação – intermédio de Agentes
to. A notificação apresentou infor- só foi descoberto em maio de 2012, Financeiros (chamadas
mações atualizadas sobre desvios na de ‘operações indiretas’)
como resultado de um pedido de in-
a responsabilidade
concessão de licenças ambientais e formação apresentado pela Interna- pela análise de risco
descumprimento de suas condicio- tional Rivers, utilizando a lei de aces- da Beneficiária é dos
bancos repassadores,
nantes, violações de direitos indíge- so à informação (Lei nº12.527/2011). não cabendo ao BNDES
nas, as diversas ações judiciais do Indagado pela International Rivers, efetuar tal análise”.

O BNDES e o financiamento de barragens na bacia do Tapajós 193


em agosto de 2012, sobre a moti- O dinheiro relativo a este segundo
vação para não ter divulgado o se- empréstimo-ponte só começou a
gundo empréstimo-ponte na época ser desembolsado após comprovada
de sua aprovação e sobre as datas a regularidade ambiental. A Norte
de suspensão e retomada dos de- Energia apresentou ao Banco no fi-
sembolsos do empréstimo (explici- nal de março ofício do Ibama ates-
tando os principais fatos que justi- tando que, embora tivesse sido apli-
ficaram tais decisões), o banco não cada a multa, a licença de instalação
respondeu. do projeto continuava válida e que
Naquela época, as inadimplên- a empresa permanece autorizada
cias da Nesa em relação ao cum- a prosseguir com as obras para im-
primento de condicionantes das plantar a usina (Leitão & Maniero,
licenças ambientais foram se con- 2012).
firmando, nos relatórios de sete
vistorias realizadas por técnicos do Nesse raciocínio, a existência de
Ibama, que chegaram ao ponto de graves irregularidades no cumpri-
verificar a apresentação de informa- mento de condicionantes e outros
ção inverídica nos relatórios da em- aspectos da legislação ambiental
presa. Assim, em janeiro de 2012, não seriam motivo para o BNDES
técnicos do órgão ambiental reco- interromper o repasse de recursos
mendaram a imposição de sanções para um empreendimento, desde
ao empreendedor. Em 15 de feverei- que a LI não fosse suspensa pelo
ro de 2012, o Ibama aplicou à Nesa Ibama.
uma multa de R$ 7 milhões, por
8. A Nesa contestou descumprimento de condicionan- Financiamento de longo prazo
administrativamente
tes das licenças ambientais, inclusi- No final de novembro de 2012, o
a multa junto ao
Ibama; até o presente, ve quanto à preparação do projeto BNDES anunciou a aprovação de
ela não foi paga pelo básico ambiental (PBA)8. um pacote de R$ 22,5 bilhões para
consórcio. O PBA deve
apresentar um plano Quando a jornalista Míriam Lei- o financiamento de longo prazo de
executivo para a tão indagou o BNDES por que ele Belo Monte, apesar de todas as po-
operacionalização de
aprovara o segundo empréstimo- lêmicas judiciais e administrativas
planos, programas e
projetos, assim como as -ponte, em fevereiro (assinado em relacionadas ao empreendimento
demais condicionantes março), apesar de a multa do Ibama (Brasil. Banco Nacional do Desen-
estipuladas pela LI,
associadas à mitigação ter sido aplicada naquele mês, o volvimento Econômico e Social,
e compensação de banco alegou que, ao ser informado 2012). Segundo o informe do banco,
impactos identificados
da sanção do Ibama, teria suspendi- o pacote financeiro incluiria: i) um
no licenciamento do
empreendimento. do a liberação dos recursos: empréstimo direto para a Nesa, no

194 Rojas Garzón, Millikan e Alarcon


valor de R$ 9,8 bilhões; ii) uma ope- ações ambientais e sociais (relacio-
ração indireta no valor de R$ 9 bi- nadas ao PBA e ao cumprimento de
lhões, repassada via dois agentes fi- outras condicionantes de licenças
nanceiros, CEF (R$ 7 bilhões) e BTG ambientais) na ordem de R$ 3,2 bi-
Pactual (R$ 2 bilhões); e iii) outro lhões, assim como a destinação pelo 9. No caso do
empréstimo de R$ 3,7
empréstimo direto à Nesa, no valor empreendedor de R$500 milhões ao bilhões no âmbito do
de R$ 3,7 bilhões, destinados à com- Programa de Desenvolvimento Re- PSI, o contrato com a
pra de equipamentos, no Programa gional Sustentável do Xingu (PDRS Nesa foi assinado pelo
BNDES em março de
de Sustentação do Investimento Xingu), que teria o objetivo de “me- 2011, ou seja, antes do
(PSI)9. Trata-se da maior quantia já lhorar a qualidade de vida da popu- primeiro empréstimo-
ponte (junho de 2011),
concedida na história do banco, lação da região” (Idem). com o objetivo de
abrangendo cerca de 80% do valor No dia 4 de dezembro de 2012, aproveitar uma janela
de financiamento com
total do empreendimento, confor- foi entregue na sede do BNDES, no
juros subsidiados.
me uma nova estimativa, de R$ 28,9 Rio de Janeiro, uma carta aberta No contrato do
bilhões. Entre as características dos assinada por Antônia Melo, coor- PSI, a efetivação
do empréstimo
empréstimos, destacaram-se, além denadora do Movimento Xingu ficou condicionada
do montante, os encargos financei- Vivo Para Sempre (MXVPS), e por à aprovação do
financiamento principal
ros e prazos de carência e amorti- cerca de 70 organizações brasilei-
de longo prazo para
zação (30 anos), indisponíveis entre ras e internacionais, chamando Belo Monte.
outras fontes do mercado. atenção para uma extensa lista de
Considerando os dois emprés- irregularidades e problemas econô-
timos-ponte (R$ 1,1 e 1,8 bilhões) – micos, jurídicos e socioambientais
cujos prazos de amortização foram de Belo Monte, instando o presi-
prorrogados por sucessivos adendos dente do banco, Luciano Coutinho,
contratuais, de 15 de dezembro de a não efetuar o empréstimo de R$
2011 e 15 de julho de 2012, respecti- 22,5 bilhões anunciado na semana
vamente, para 12 de março de 2013, anterior. O documento apresentou
no intuito de facilitar o fluxo de cai- evidências da inviabilidade econô-
xa da Nesa em relação à entrada de mica da UHE Belo Monte; atentou
recursos do financiamento de lon- para a falta de análise de viabilida-
go prazo –, o valor total dos finan- de econômica e de classificação de
ciamentos concedidos pelo BNDES risco em empréstimos já efetuados
para Belo Monte chegou a R$ 25,4 pelo BNDES; a inexistência do guia
bilhões, em dezembro de 2012. So- socioambiental com diretrizes para
bre a destinação dos recursos dos orientar financiamentos para o se-
novos empréstimos, o BNDES anun- tor hidrelétrico, determinado por
ciou a previsão de investimentos em resoluções internas do banco; o des-

O BNDES e o financiamento de barragens na bacia do Tapajós 195


cumprimento crônico de condicio- Pactual, os contratos de financia-
nantes das licenças ambientais pela mento de longo prazo, possibilitan-
Nesa; e o quadro de ilegalidades do do o repasse de R$ 22,5 bilhões para
empreendimento, que havia resul- Belo Monte. A facilidade do banco
tado, até aquele momento, no ajui- para se comunicar com as emprei-
zamento de 15 ações pelo MPF, 21 teiras contrasta com a ausência de
ações pela Defensoria Pública e 18 diálogo com as populações atingi-
ações de organizações da sociedade das, sobretudo povos indígenas e
10. Em 28 de civil, entre outros10. comunidades tradicionais.
novembro de 2013, Diante desse quadro, os signa- Afinal, quais os critérios e pro-
o MXVPS e parceiros
protocolaram uma tários da carta solicitaram ao pre- cedimentos de análise técnica uti-
representação junto sidente do BNDES que nenhum lizados pelo BNDES para aprovar o
ao MPF no Pará, de
conteúdo semelhante,
desembolso do financiamento prin- pacote de financiamento de longo
solicitando a tomada cipal Belo Monte, anunciado no prazo para Belo Monte, de valor iné-
de medidas preventivas
dia 26 de novembro de 2012, fosse dito na história do banco? Antes de
e investigativas sobre
a atuação do BNDES realizado antes do cumprimento de aprovar os empréstimos, quais os
em Belo Monte. medidas urgentes, em sua grande parâmetros utilizados para atestar a
Disponível em: <http://
www.xinguvivo.
maioria, obrigações formais pré- viabilidade social, ambiental e eco-
org.br/wp-content/ -existentes do banco, tais como a de- nômica de Belo Monte, inclusive a
uploads/2012/11/
monstração do pleno cumprimento “regularidade” do empreendimento
representação-BNDES1.
pdf> (acesso: 5 dez. das leis nacionais e internacionais e de seus empreendedores, em ter-
2014). aplicáveis sobre direitos humanos mos de cumprimento da legislação
e meio ambiente, e determinações atinente aos direitos humanos e à
do Banco Central (Bacen) sobre a proteção ambiental, e das condi-
necessidade de avaliação e cálculo cionantes das licenças ambientais?
do risco decorrente da exposição a Quais as garantias estabelecidas nos
danos socioambientais do empreen- contratos de empréstimo para asse-
dimento. Por fim, as organizações gurar o cumprimento da legislação
solicitaram uma audiência com a ambiental e dos direitos humanos
presidência do banco para tratar de populações atingidas, assim
das questões levantadas e da im- como as condicionantes das licen-
plementação das medidas urgentes ças ambientais, ao longo da execu-
propostas. No dia 18 de dezembro ção do projeto?
de 2012, sem ter dado retorno para Mesmo com uma série de limita-
os signatários da carta, Coutinho as- ções de acesso a informações – rela-
sinou, pessoalmente, junto com os cionada, sobretudo, a intepretações
representantes da Nesa, CEF e BTG questionáveis do BNDES sobre a

196 Rojas Garzón, Millikan e Alarcon


aplicação da lei de sigilo bancário sicionamento ficou evidenciado no
(Lei Complementar nº105/2001) –, é contrato principal de financiamen-
possível chegar a algumas respostas to de longo prazo e no comporta-
preliminares, dentre as quais cabe mento do BNDES desde meados de
destacar: 201111. Em outras palavras, via acor- 11. Cláusula 20ª
(Condições de
do contratual, o banco declara que
utilização do crédito):
i) Em decorrência do limitado acesso a inadimplência socioambiental do “Comprovação,
a informações, faltam elementos beneficiário é irrelevante para a pela BENEFICIÁRIA,
da regularidade
para avaliar a qualidade das aná- operação creditícia, desde que não socioambiental do
lises realizadas pelo BNDES no to- implique suspensão da LI; PROJETO perante os
órgãos ambientais”.
cante à viabilidade socioambiental iv) No que se refere à influência de de-
No caso de “sanção,
e econômica de Belo Monte, inclu- cisões judiciais nas suas operações, multa, advertência e/
sive o cumprimento da Resolução o BNDES utiliza como parâmetro ou penalidade pelo
órgão licenciador,
nº2.682/1999 do Conselho Monetá- único a necessidade de decisão comprovação […] de que
rio Nacional (CMN) sobre riscos fi- com trânsito em julgado, o que dá a LI continua válida”
(grifos nossos).
nanceiros e da Circular nº3547/2011 respaldo para a utilização indevida
do Bacen, no que se refere à neces- da SS por presidentes de tribunais
sidade de avaliação e de cálculo do para invalidar decisões favoráveis
risco decorrente da exposição a da- a ACPs sobre violações de direitos
nos socioambientais; humanos e da legislação ambien-
ii) No caso de empréstimos-ponte, tal, incluindo o descumprimen-
preparados e executados apressa- to de condicionantes de licenças
damente para acelerar o início de ambientais;
empreendimentos como Belo Mon- v) O BNDES não possui posiciona-
te, o BNDES não tem realizado aná- mento e política operacional so-
lises prévias de risco e de viabilida- bre a aplicação da legislação sobre
de, em contraste com as normas consulta livre, prévia e informa-
bancárias vigentes; da (CLPI) junto a povos indígenas
iii) Sobre a regularidade ambiental e outras populações tradicionais
do empreendimento, para fins de atingidas por empreendimentos,
aprovação e manutenção de de- em conformidade com o artigo 231
sembolsos, o único parâmetro efe- da Constituição Federal e com a
tivamente utilizado pelo BNDES Convenção 169 da Organização In-
é a existência de uma LI vigente, ternacional do Trabalho (OIT);
independente do grau de cumpri- vi) Conforme se indicará na próxima
mento ou descumprimento de suas seção, os mecanismos estabeleci-
condicionantes (e as da LP). Tal po- dos nos acordos contratuais para

O BNDES e o financiamento de barragens na bacia do Tapajós 197


monitorar e fiscalizar a implemen- pareceres técnicos do Ibama refe-
tação de condicionantes de licen- rentes ao acompanhamento de Belo
ças ambientais e outras obrigações Monte, não há qualquer menção a
dos empreendedores são altamen- manifestações do órgão indigenista.
te insuficientes. Em outros órgãos governamentais,
existem fragilidades institucionais
Monitoramento e fiscalização semelhantes.
A precariedade dos arranjos insti- Nesse contexto de precariedade
tucionais de monitoramento e fis- institucional, verifica-se uma eleva-
calização da implantação da UHE da dependência dos órgãos gover-
Belo Monte, especialmente no to- namentais, inclusive do BNDES, em
cante à implementação e à efetivi- relação aos relatórios do empreen-
dade de condicionantes das licenças dedor, como fonte principal de in-
ambientais, é algo surpreendente, formação. Por outro lado, pode-se
considerando que se trata do maior afirmar que existe um conflito de
empreendimento do Programa de interesse inerente, já demonstrado
Aceleração do Crescimento (PAC), pela Nesa, na medida em que o em-
com o maior financiamento da his- preendedor tende a subdimensionar
tória do BNDES. ou mesmo ocultar problemas rela-
Essencialmente, o BNDES depen- cionados ao cumprimento de condi-
de de relatórios técnicos da Nesa e cionantes e suas outras obrigações
do Ibama para monitorar a execu- socioambientais. Além disso, perce-
12. Em 2009, o Tribunal
ção de Belo Monte, inclusive quan- be-se a ausência de transparência do
de Contas da União
(TCU) publicou acórdão to ao cumprimento de condicio- empreendedor sobre suas ações, de-
sobre os processos nantes das licenças ambientais e à monstrando resistência em respon-
de licenciamento
ambiental, concluindo
tramitação de ações na justiça. No der a requerimentos de informação
que “o Ibama não entanto, é notória a precariedade da sociedade civil, inclusive para
realiza de maneira
do Ibama para realizar o acompa- tornar público o orçamento execu-
sistemática o
acompanhamento nhamento das licenças ambientais tado na implantação de cada uma
dos impactos e riscos de Belo Monte e de outros grandes das ações previstas no PBA. Para
ambientais em todas as
fases do licenciamento. empreendimentos12. Por sua parte, negar o acesso à informação, a Nesa
[…] muitos dos a Funai, encarregada de monitorar argumenta ser uma empresa priva-
compromissos
as obrigações do licenciamento re- da, que não está obrigada a prestar
assumidos pelos
empreendedores não ferentes a terras e povos indígenas, esclarecimentos à sociedade, apesar
são satisfatoriamente não possui um mínimo de estrutura da participação preponderante do
cumpridos, chegando
às vezes a serem logística, nem capacidade técnica setor elétrico do governo e de fun-
ignorados”. para acompanhar o processo. Nos dos de pensão de empresas estatais.

198 Rojas Garzón, Millikan e Alarcon


Note-se, ainda, que a maioria trimestrais e anuais elaborados
das empresas concessionárias ou pela empresa contratada, abordan-
executoras das grandes UHEs são do as obrigações socioambientais
sociedades de propósito específi- do empreendimento e indicadores
co (SPE), pessoas jurídicas criadas quantitativos de desenvolvimento
exclusivamente para executar um humano dos municípios atingidos
projeto e ser posteriormente dissol- pela obra. Conforme o anexo 2 do
vidas. Portanto, elas não têm histó- contrato principal, os relatórios tri-
rico de atuação suscetível de verifi- mestrais devem informar sobre
cação, mesmo que as empresas que
componham a SPE sejam grandes o cumprimento adequado e tempes-
violadoras de direitos socioambien- tivo das condicionantes socioam-
tais. Além disso, as beneficiárias bientais incluídas nas licenças, au-
dos empréstimos geralmente sub- torizações, outorgas, permissões,
contratam empresas construtoras ordens judiciais, termos de ajusta-
– comumente, também elas SPEs –, mento de conduta e de compromis-
que serão as reais responsáveis pela sos e ofícios expedidos pelos órgãos
instalação dos empreendimentos. competentes referentes ao proje-
Essas empresas subcontratadas são to, de acordo com o cronograma
as responsáveis por contratar e ge- neles estipulado ou outro que ve-
rir diretamente os trabalhadores, nha a ser definido por autoridades
sendo, portanto, as empresas com competentes.
maior probabilidade de violar direi-
tos trabalhistas, por exemplo. Apesar da relevância desse tipo
O reconhecimento pelo BNDES de informação, suas consequên-
das limitações do Ibama para moni- cias para a gestão do empreendi-
torar a implantação de Belo Monte mento ainda estão nebulosas. Por
teria levado o banco a estabelecer, exemplo, existem diversas ações
como acordo contratual do emprés- de cunho preventivo relacionadas
timo principal, a obrigatoriedade de a terras e povos indígenas contem-
contração pela Nesa de uma “audi- pladas entre as condicionantes das
toria socioambiental”, cujo objetivo licenças ambientais, cuja execução
principal seria “averiguar a regula- está atrasada em mais de dois anos,
ridade socioambiental do projeto”. a exemplo da implantação do Pla-
Nos acordos contratuais, consta no de Proteção às Terras Indígenas.
como obrigação da Nesa o encami- Essa inadimplência está diretamen-
nhamento ao BNDES de relatórios te relacionada ao fato de que as ter-

O BNDES e o financiamento de barragens na bacia do Tapajós 199


ras indígenas (TIs) do entorno de qualquer efeito jurídico sobre os
Belo Monte estão entre as líderes de relatórios produzidos pela audito-
ocupação e desmatamento ilegal da ria14. A obrigação da Nesa limita-se
13. Segundo Amazônia13. à apresentação dos relatórios, inde-
informações da Funai,
Mesmo confirmando a persis- pendentemente do conteúdo dos
18 meses depois de
aprovada a LI de tência de situações de grave ina- mesmos. O contrato de empréstimo
Belo Monte, o órgão dimplência, por parte da Nesa, no tampouco prevê a publicização dos
indigenista não possuía
condições de fazer que diz respeito ao cumprimento relatórios da auditoria socioambien-
uma avaliação sobre de condicionantes, o Ibama tem tal. Apesar de se tratar de assunto
o andamento das
adotado cada vez mais a postura de de natureza e interesse público, o
medidas de mitigação
e compensação de evitar sanções administrativas ao BNDES já alegou sigilo bancário
impactos da UHE sobre empreendedor, no que se refere à para se negar a informar se a audi-
os povos indígenas,
porque o plano aplicação de multas e, sobretudo, toria tinha sido contratada ou não –
básico ambiental do de suspensão da LI. Em vez disso, o o próprio contrato estabelece como
componente indígena
órgão ambiental tem apenas notifi- prazo-limite 31 de março de 2013
(PBA-CI) sequer tinha
sido contratado. cado à Nesa as irregularidades iden- para sua contratação e 30 de julho
tificadas, concedendo novos prazos de 2013 para a apresentação do pri-
14. A cláusula 20ª do para o atendimento dessas pendên- meiro relatório. Recorrendo à lei
contrato principal
cias pela empresa. de acesso à informação, o Instituto
reitera o fato de que
só o cancelamento Para efeito de desembolsos e uti- Socioambiental (ISA) obteve da Con-
administrativo ou lização de recursos, o contrato de troladoria-Geral da União (CGU), em
judicial das licenças
pode comprometer a Belo Monte estabelece que a com- setembro de 2014, autorização para
utilização dos recursos provação do cumprimento das con- ter acesso ao relatório da auditoria
desembolsados.
dicionantes socioambientais se dê independente e aos relatórios tri-
mediante envio trimestral de outro mestrais da obra. Contudo, o BNDES
relatório, elaborado pela própria tornou públicos apenas trechos dos
Nesa. Ou seja, embora esteja pre- documentos (Apesar, 2014).
vista uma auditoria socioambiental, Os relatórios solicitados pelo ISA
a verificação do cumprimento das possuem informações independen-
obrigações socioambientais é auto- tes, exigidas pelo BNDES, sobre o
declaratória (Cláusula 13ª, III). efetivo cumprimento de normas
Para efeitos de utilização de re- ambientais na construção de Belo
cursos financeiros e de vigência dos Monte. Após a decisão da CGU de se-
contratos de empréstimo, os resul- tembro, o BNDES enviou um extrato
tados da auditoria socioambiental do relatório de auditoria socioam-
não possuem qualquer valor contra- biental, contendo apenas a lista de
tual. Ou seja, o contrato não prevê capítulos do relatório e reuniões

200 Rojas Garzón, Millikan e Alarcon


realizadas pelos auditores, mas tal são considerados tão sigilosos
omitindo por completo o conteúdo pelo BNDES, que esse ousa desafiar
dos resultados finais da auditoria. a própria CGU, em vez de permitir
Segundo o banco, o envio do extra- sua publicização para a sociedade
to seria “a única forma de garantir civil interessada. Aos argumentos
que não sejam divulgadas informa- relativos à natureza e interesse pú-
ções de interesse estritamente pri- blicos da informação solicitada pelo
vado” (BNDES descumpre, 2014). ISA, o BNDES contrapõe argumen-
Nessa categoria, o banco inclui tan- tos de sigilo bancário e de cláusu-
to os dados de caráter financeiro e la de confidencialidade existente
estratégico do beneficiário quanto em contrato assinado pela Nesa e
qualquer nova informação coletada a empresa de auditoria socioam-
pelos auditores sobre o cumprimen- biental independente. O BNDES é
to de condicionantes. O argumento, totalmente refratário a qualquer
porém, contradiz a decisão da CGU, discussão sobre sua obrigação de
para quem “informações sobre o transparência em torno dos com-
cumprimento de obrigações assu- ponentes socioambientais de suas
midas com o Estado, com efeitos so- operações financeiras. Isso demos-
bre a coletividade e decorrentes de tra, na prática, a ausência absoluta
instrumentos públicos” seriam pú- de compromisso do BNDES com o
blicas (Brasil, Presidência da Repú- controle social dos empreendimen-
blica, Controladoria-Geral da União, tos que ele financia, assunto parti-
Ouvidoria-Geral da União, 2014b). cularmente preocupante diante do
Na prática, o banco ignorou a amplo portfólio de investimentos
decisão da CGU e mandou informa- em infraestrutura que o BNDES tem
ções irrelevantes para uma análise para os próximos anos.
do conteúdo dos relatórios socioam- A precariedade, assimetria e ana-
bientais. O processo de reclamação cronismo da fiscalização ambiental
do ISA terminou com a decisão do fazem com que o BNDES seja fon-
Ouvidor-Geral da União de encami- te exclusiva de informação privile-
nhar ao ministro-chefe da CGU pe- giada para acompanhar o efetivo
dido de apuração de responsabilida- cumprimento de ações de preven-
de do BNDES por descumprimento ção, mitigação e compensação de
de decisão dessa instância de con- impactos socioambientais. A in-
trole administrativo (Idem ). formação sistematizada no BNDES
O fato aqui demostrado é que os sobre cumprimento de obrigações
relatórios de auditoria socioambien- e o acompanhamento pari passo da

O BNDES e o financiamento de barragens na bacia do Tapajós 201


execução física financeira dos em- ras governamentais sobre a cons-
préstimos têm funções tanto em re- trução do empreendimento e após
lação à verificação de regularidade a concessão da LP pelo Ibama.
socioambiental do empreendimen- As etapas iniciais de planejamen-
to – que o banco tem a obrigação de to e licenciamento de Belo Monte,
fazer – quanto na geração de subsí- que antecederam o envolvimento
dios para as ações de controle social do BNDES, caracterizaram-se por
realizadas por comunidades locais graves problemas, destacando-se:
e organizações da sociedade civil i) o subdimensionamento crônico
interessada. de riscos e impactos socioambien-
tais, e deficiências em análises de
Considerações finais viabilidade econômica nos estudos
A UHE Belo Monte é um caso em- técnicos realizados por empreen-
blemático para análise e debate pú- dedores; ii) desconsideração dos di-
blico sobre importantes aspectos da reitos de povos indígenas e outras
atuação do BNDES como instituição populações tradicionais do Xingu,
financeira pública. Assim, vale res- inclusive quanto ao direito à CLPI
saltar as seguintes considerações sobre o empreendimento; iii) sé-
finais sobre questões que se desta- rias deficiências em mecanismos de
caram ao longo da presente análise, diálogo e participação da sociedade
relacionadas à inserção do BNDES civil, a exemplo das audiências pú-
em estratégias governamentais e blicas conduzidas pelo Ibama; iv)
no ciclo de seus projetos, e às limi- intervenções políticas para a con-
tações e à necessidade de mudanças cessão da LP, independentemen-
nas políticas e procedimentos do te do posicionamento de técnicos
banco referentes à análise de proje- do Ibama e órgãos intervenientes,
tos, transparência e responsabilida- como a Funai; e v) a utilização de
de socioambiental. artifícios no Judiciário, originários
O início do envolvimento do do regime de exceção, para suspen-
BNDES com Belo Monte ocorreu em der decisões em defesa dos direitos
uma fase avançada de planejamen- humanos e da proteção ambiental.
to e licenciamento do empreendi- Considerando o início do envol-
mento, após a realização de estudos vimento do BNDES com Belo Monte
técnicos conduzidos pelo setor elé- em uma fase avançada do planeja-
trico do governo e seus parceiros mento e licenciamento do projeto,
do setor privado, após a tomada e o papel do banco como executor
de decisões políticas em altas esfe- (e não formulador) de políticas go-

202 Rojas Garzón, Millikan e Alarcon


vernamentais, que desempenha obra com aproximadamente R$ 2,4
uma função estratégica no financia- milhões, desconsiderando que, em
mento de longo prazo para grandes março do mesmo ano, a justiça fe-
empreendimentos de infraestrutu- deral concedera liminar suspenden-
ra, pode-se concluir que a margem do a LI da UHE, em razão da não
para influenciar o desenho do em- realização de consulta livre, prévia
preendimento e a aprovação ou não e informada aos povos indígenas e
de empréstimos era muito reduzi- comunidades tradicionais atingi-
da. Por outro lado, a falta de trans- dos. O banco tampouco levava em
parência do banco sobre critérios e conta o fato de a obra ter sido nova-
procedimentos de análise de riscos mente suspensa, em agosto de 2012,
e de viabilidade socioambiental e por decisão do TRF-1.
econômica de grandes empreendi- Em agosto de 2013, a Internatio-
mentos como Belo Monte tem redu- nal Rivers apresentou ao BNDES um
zido enormemente as possibilida- pedido de informação a respeito da
des de uma atuação construtiva do UHE em questão, mencionando as
BNDES. A injeção de elevados recur- duas paralisações das obras deter-
sos financeiros públicos na Nesa, minadas pela justiça até então. Em
em combinação com posturas de sua resposta, o BNDES afirmou ter
leniência e omissão do banco peran- “ciência dos questionamentos rela-
te situações de descumprimento de cionados ao licenciamento, inclu-
condicionantes de licenças ambien- sive quanto à oitiva de população
tais e dos direitos humanos (por sua indígena” e explicou que “se abste-
vez, sustentadas por intervenções ve de efetuar qualquer liberação de
políticas no Judiciário, via SS), tem recursos ou contratação de finan-
contribuído para o agravamento de ciamento” enquanto as decisões ju-
conflitos na região do Xingu e para diciais “produziram efeito”. Como
a fragilização de instituições do Es- de praxe, ambas as decisões foram
tado democrático de direito, sobre- rapidamente derrubadas por SS. Ne-
tudo no âmbito do governo federal. nhuma das ações judiciais relativas
Nos projetos na bacia do Tapajós a Teles Pires chegou à fase final de
já apoiados pelo BNDES, tendências trânsito em julgado. Para o banco,
observadas em Belo Monte parecem independentemente da existência
se repetir. O caso da UHE Teles Pires de ações na justiça, desde que a
serve como exemplo. Em setembro CHTP estivesse em “situação regu-
de 2012, como se indicou, o banco lar” junto aos órgãos ambientais, o
firmou contrato para financiar a financiamento não seria afetado.

O BNDES e o financiamento de barragens na bacia do Tapajós 203


Por isso, foi incluída obrigação espe- cionantes não sejam cumpridas (grifos
cífica para que a Beneficiária man- nossos).
tenha o BNDES informado sobre
quaisquer desdobramentos proces- Importante notar que o finan-
suais que tenham efeito sobre a vali- ciamento em questão não figura no
dade do licenciamento. sistema de consulta às operações do
BNDES, o que evidencia, mais uma
A interpretação do BNDES vai vez, a falta de transparência do ban-
na contramão daquela apresentada co. Ainda sobre o imperativo de sus-
pelo MPF em Sinop, em ACP relati- pensão do financiamento, a ACP,
va à UHE Sinop (rio Teles Pires), em cuja liminar foi deferida em abril
que o banco figura como réu, jun- de 2014, enfatizava:
to à Companhia Energética Sinop
S.A. e ao Estado de Mato Grosso. Não se pode admitir o financiamen-
Motivada pelo descumprimento das to público de um empreendimento
condicionantes previstas na LP da privado que viola flagrantemente
UHE e proposta em março de 2014, a legislação ambiental, comprome-
a ação solicitava a suspensão da LI tendo o meio ambiente sadio e equi-
e do financiamento concedido pelo librado, que é um direito de todos.
BNDES ao empreendimento:
Além disso, a aprovação pelo
O BNDES, grande financiador de em- BNDES de diversos empréstimos
preendimentos desse porte, estará para os empreendimentos hidrelé-
direcionando recursos públicos para tricos na bacia do Tapajós – come-
uma obra que pode ser paralisada çando com três UHEs no rio Teles
a qualquer momento, face à exis- Pires e várias PCHs no rio Juruena
tência potencial de diversas ações –, assim como para a implanta-
civis públicas […]. Nessa hipótese, ção de uma hidrovia de grãos en-
teríamos um empreendedor privado tre Miritituba (distrito de Itaituba,
de posse de recursos públicos, sem Pará) e Vila do Conde (distrito de
poder utilizá-los. Razoável, então, Barcarena, Pará), prescindiu da
em defesa do patrimônio público, análise de impactos cumulativos
que o BNDES seja judicialmente proibido e sinérgicos entre esses e outros
de repassar qualquer tipo de recurso (ou empreendimentos.
celebrar qualquer pacto nesse sentido) Assim, considerando o exemplo
enquanto os processos estejam tramitan- de Belo Monte e as informações pre-
do, ou, pelo menos, enquanto as condi- liminares aqui reunidas acerca da

204 Rojas Garzón, Millikan e Alarcon


participação do BNDES nos projetos tras instituições financeiras. Nessa
de barragens na bacia do Tapajós, discussão, poderia ser abordada a
recomendamos: questão da retomada da elaboração
de guias socioambientais setoriais
i) O BNDES poderia assumir um pa- e subsetoriais, inclusive para em-
pel significativo no fomento de preendimentos hidrelétricos;
soluções para o setor elétrico bra- iii) É necessário um debate aprofun-
sileiro, pautadas em princípios de dando sobre políticas do banco
sustentabilidade ambiental, justiça relativas à “regularidade socioam-
social e eficiência econômica. Esse biental”, com destaque para ques-
papel poderia incluir o apoio a es- tões de direitos humanos e acesso à
tudos e diálogos entre o governo, justiça. Não é admissível que situa-
setor privado e organizações da ções de violação de direitos huma-
sociedade civil sobre temas fun- nos e da legislação ambiental – as-
damentais, como: custo-benefício sociadas a fatores como a leniência
de estratégias alternativas, incor- do Ibama para impor sanções em
porando variáveis sociais, econô- face do descumprimento de condi-
micas e ambientais; análise de im- cionantes de licenças ambientais e
pactos cumulativos de barragens a utilização exacerbada da SS por
(e projetos associados, como hi- presidentes de tribunais contra
drovias e mineração ); e métodos
15 ações do MPF – sejam tratadas com 15. Nesse sentido, um
de avaliação ambiental estratégica “normalidade” pelo banco; caso alarmante é a
instalação da empresa
em nível de bacias hidrográficas, iv) Nesse sentido, um assunto que me- canadense Belo Sun na
eficiência energética, geração, dis- rece discussão aprofundada é o de- Volta Grande do Xingu,
com a intenção de
tribuição e estruturação de cadeias senvolvimento de uma política do
implantar a maior mina
produtivas de fontes renováveis BNDES para a garantia do direito de ouro do país. A esse
à CLPI junto aos povos indígenas respeito, ver Leite (2013).
não convencionais, em especial a
energia solar; e outras populações tradicionais a
ii) O BNDES precisa abrir um diálogo respeito dos empreendimentos por
aprofundado com organizações da ele financiados;
sociedade civil e especialistas sobre v) Outro assunto fundamental para
critérios e procedimentos de análi- debate é o desenho, publicidade
se e gestão de riscos socioambien- e implementação de estratégias
tais ao longo do ciclo de projetos, de monitoramento e “auditoria
aproveitando lições de Belo Monte socioambiental independente”,
e outros casos emblemáticos, as- abordando questões-chave como a
sim como as experiências de ou- utilização de métodos participati-

O BNDES e o financiamento de barragens na bacia do Tapajós 205


vos, aproveitamento de resultados -de-ordem-da-cgu-bndes-divul-
na gestão de projetos e divulgação ga-dados-incompletos-sobre-be-
pública de informações; lo-monte.shtml> (acesso: 5 dez.
vi) Os casos aqui analisados demons- 2014).
tram a necessidade de maior BNDES descumpre decisão da Con-
transparência do BNDES no acesso troladoria da União e nega acesso
público a documentos básicos de a dados sobre Belo Monte. 2014. In:
empreendimentos – como relató- Notícias Socioambientais. Brasília,
rios de análise de riscos, contra- 24 nov. Disponível em: <http://
tos de empréstimos e relatórios www.socioambiental.org/pt-br/
de monitoramento e auditoria noticias-socioambientais/bndes-
socioambiental –, evitando o uso -descumpre-decisao-da-contro-
injustificado da legislação sobre ladoria-da-uniao-e-nega-acesso-
sigilo bancário ou desautorizando -a-dados-sobre-belo-monte>
cláusulas de confidencialidade en- (acesso: 5 dez. 2014).
tre empreendedor e terceiros; BNDES financia Belo Monte. 2009.
vii) Por fim, é preciso avançar na cria- In: Energia Hoje. Rio de Janeiro,
ção de mecanismos para garantir 22 set. Disponível em: <http://
que queixas de populações atingi- energiahoje.editorabrasilener-
das ou ameaçadas por empreendi- gia.com/news/2009/09/394348.
mentos financiados pelo BNDES html> (acesso: 5 dez. 2014).
possam ser ouvidas e suas preocu- Brasil. Banco Nacional de Desen-
pações, incorporadas à tomada de volvimento Econômico e Social.
decisões, objetivando garantias de 2012. “BNDES aprova financia-
acesso à justiça, hoje extremamen- mento de R$ 22,5 bilhões para
te precárias. Belo Monte”. Sítio do Banco Na-
cional de Desenvolvimento Eco-
[artigo concluído em janeiro de 2015] nômico e Social. Brasília, 26 nov.
Disponível em: <http://www.
Referências bibliográficas bndes.gov.br/SiteBNDES/bndes/
Apesar de ordem da CGU, BNDES bndes_pt/Institucional/Sala_de_
divulga dados incompletos Imprensa/Noticias/2012/ener-
sobre Belo Monte. 2014. In: gia/20121126_belomonte.html>
Folha de S.Paulo. Brasília, 14 (acesso: 5 dez. 2014).
nov. Disponível em: <http:// ___. 2014. Perspectivas do investimen-
www1.folha.uol.com.br/ to 2015-2018 e panoramas setoriais.
mercado/2014/11/1548228-apesar- Brasília.

206 Rojas Garzón, Millikan e Alarcon


Brasil. Justiça Federal. Nona Vara nº795/2011. Brasília, 1 jun. Dis-
da Seção Judiciária do Estado do ponível em: <http://norteener-
Pará. 2011. Decisão liminar. Pro- giasa.com.br/site/wp-content/
cesso nº968-19.2011.4.01.3900. Be- uploads/2011/07/Licenca-de-Insta-
lém, 25 fev. lacao.pdf> (acesso: 5 dez. 2014).
Brasil. Justiça Federal. Primeira ___. 2010. Licença prévia nº342/2010.
Vara da Subseção Judiciária de Si- Brasília, 1 fev. Disponível em:
nop. 2014. Decisão liminar. Pro- <http://www.ibama.gov.br/publi-
cesso nº1294-89.2014.4.01.3603. cadas/sai-licenca-previa-de-belo-
Sinop, 1 abr. -monte-com-40-condicionantes>
Brasil. Justiça Federal. Segunda (acesso: 5 dez. 2014).
Vara da Seção Judiciária do Esta- Brasil. Ministério Público Federal.
do de Mato Grosso. 2012. Decisão Procuradoria da República em Si-
liminar. Processo nº0003947- nop. 2014. Ação civil pública com
44.2012.4.01.3600. Cuiabá, 26 pedido de tutela antecipada. Si-
mar. nop, 31 mar.
Brasil. Justiça Federal. Tribunal Brasil. Ministério Público Federal.
Regional Federal da Primeira Procuradoria da República no
Região. 2011. Suspensão de li- Estado do Pará. 2011. Ação civil
minar ou antecipação de tutela pública com pedido de liminar
nº12208-65.2011.4.01.0000/PA. em face da Norte Energia S.A., do
Brasília, 3 mar. Instituto Brasileiro do Meio Am-
___. 2012. Ata de julgamento. Agra- biente e dos Recursos Naturais
vo de instrumento nº0018341- Renováveis e do Banco Nacional
89.2012.4.01.0000/MT. Brasília, 1 de Desenvolvimento Econômico
ago. e Social. Belém, 27 jan.
Brasil. Ministério do Meio Am- ___. 2011. Ação civil pública com pe-
biente. Instituto Brasileiro do dido de liminar em face da Norte
Meio Ambiente e dos Recursos Energia S.A. e do Instituto Bra-
Naturais Renováveis. 2011a. Li- sileiro do Meio Ambiente e dos
cença de instalação nº770/2011. Recursos Naturais Renováveis.
Brasília, 26 jan. Disponível em: Belém, 6 jun.
<http://norteenergiasa.com.br/ Brasil. Ministério Público Federal.
site/wp-content/uploads/2011/11/ Procuradoria da República no
Licen%C3%A7a-Pr%C3%A9via. Município de Altamira/PA. 2010.
pdf> (acesso: 5 dez. 2014). Recomendação nº05/2010-GAB2.
___. 2011b. Licença de instalação Altamira, 9 nov.

O BNDES e o financiamento de barragens na bacia do Tapajós 207


Brasil. Presidência da República. diante abertura de crédito
Controladoria-Geral da União. nº12.2.1238.1, que entre si fazem
Ouvidoria-Geral da União. 2014a. o Banco Nacional de Desenvol-
Despacho CGU s/n. Assunto: De- vimento Econômico e Social
núncia. Descumprimento de de- - BNDES e a Norte Energia S.A.,
cisão da CGU em acesso à infor- com interveniência de tercei-
mação. Brasília, 17 dez. ros. 2012. Rio de Janeiro, 18 dez.
___. 2014b. Parecer nº3.454. Pro- Disponível em: <https://titan.
cessos nº99903.000418/2013- socioambiental.org/home/oswal-
33, nº99903.000463/2013-98 e do@socioambiental.org/Brief-
nº99903.000030/2014-13. Assun- case/Contrato%20de%20Finan-
to: Recursos interpostos por ciamento%20BNDES_Norte%20
entidade à CGU contra decisões Energia%20-%20n%C2%B0%20
denegatórias de acesso à infor- 12.2.1238.1.pdf> (acesso: 5 dez.
mação, com fundamento no art. 2014).
23 do Decreto nº7.724, de 16 de Gandra, Alana. 2010. “Coutinho
maio de 2012. Brasília, de 1 set. diz que BNDES está preparado
Disponível em: <http://www. para financiar hidrelétrica de
socioambiental.org/sites/blog.so- Belo Monte”. In: Agência Brasil.
cioambiental.org/files/nsa/arqui- Brasília, 18 fev. Disponível em:
vos/decisao_cgu_-_pedidos_de_ <http://memoria.ebc.com.br/
acesso_a_informacao_isa.pdf> agenciabrasil/noticia/2010-02-18/
(acesso: 5 dez. 2014). coutinho-diz-que-bndes-esta-pre-
Brasil. Tribunal de Contas da União. parado-para-financiar-hidreletri-
2009. Acórdão nº2212/2009. Pro- ca-de-belo-monte> (acesso: 5 dez.
cesso nº009.362/2009-4. Brasília, 2014).
23 set. Governo define participações da
Carta aberta ao presidente do Eletrobras e do BNDES nos leilões
BNDES sobre o financiamento das usinas do Tapajós. 2011. Sítio
de Belo Monte. 2012. Altamira, do Grupo de Estudos do Setor
4 dez. Disponível em: <http:// Elétrico do Instituto de Econo-
w w w. x i n g u v i v o . o r g . b r / w p - mia da Universidade Federal do
-content/uploads/2012/12/Carta- Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 6
-Aberta_BNDES_Belo-Monte_ jul. Disponível em: <http://www.
Final_04dez2012.pdf> (acesso: 5 nuca.ie.ufrj.br/blogs/gesel-ufrj/
dez. 2014). index.php?/archives/20286-Go-
Contrato de financiamento me- verno-define-participacoes-da-

208 Rojas Garzón, Millikan e Alarcon


-Eletrobras-e-do-BNDES-nos-lei- posts/2012/07/17/credito-com-
loes-das-usinas-do-Tapajos.html> -risco-455818.asp> (acesso: 5 dez.
(acesso: 5 dez. 2014). 2014).
Hurwitz, Zachary; Millikan, Brent; Leite, Letícia. 2013. “Conselho Esta-
Monteiro, Telma; Widmer, Ro- dual do Meio Ambiente do Pará
land. 2011. Mega-projeto, mega-ris- ignora denúncias de ilegalida-
cos: análise de riscos para investi- de e vota por mineração”. In:
dores no Complexo Hidrelétrico Notícias Socioambientais. Brasília,
Belo Monte. São Paulo, Interna- 2 dez. Disponível em: <http://
tional Rivers/Amigos da Terra – www.socioambiental.org/pt-
Amazônia Brasileira. Disponível -br/noticias-socioambientais/
em: <http://www.banktrack.org/ conselho-estadual-do-meio-am-
manage/ems_files/download/ biente-do-para-ignora-denuncias-
mega_projeto_mega_riscos/ -de-ilegalidade-e-vota-a-favor-de-
belo_monte_megarisks_portuge- -mineracao-no-xingu> (acesso: 5
se_0.pdf> (acesso: 5 dez. 2014). dez. 2014).
Lage, Janaina. 2010. “BNDES vai fi- Machado, Tainara. 2014. “BNDES
nanciar até 80% do projeto de prevê investimento de R$ 600
Belo Monte”. In: Folha de S.Paulo. bi em infraestrutura de 2015 a
São Paulo, 16 abr. Disponível em: 2018”. In: Valor Econômico. São
<http://www1.folha.uol.com.br/ Paulo, 2 dez. Disponível em:
mercado/2010/04/721885-bndes- <http://www.valor.com.br/bra-
-vai-financiar-ate-80-do-projeto- sil/3801822/bndes-preve-investi-
-de-belo-monte.shtml> (acesso: 5 mento-de-r-600-bi-em-infraestru-
dez. 2014). tura-de-2015-2018> (acesso: 5 dez.
Leitão, Míriam. 2012. “Mundo obs- 2014).
curo”. In: O Globo. Rio de Janeiro, Millikan, Brent; Rojas, Biviany.
22 jul. Disponível em: <http:// 2015. “Belo Monte desafia os li-
oglobo.globo.com/economia/ mites da responsabilidade so-
miriam/posts/2012/07/22/mundo- cioambiental e da transparên-
-obscuro-456510.asp> (acesso: 5 cia do BNDES”. In: Villas-Bôas,
dez. 2014). André; Rojas Garzón, Biviany;
Leitão, Míriam; Maniero, Valéria. Reis, Carolina; Amorim, Leonar-
2012. “Crédito com risco”. In: do; Leite, Letícia (org.). Vozes do
O Globo. Rio de Janeiro, 17 jul. Xingu: coletânea de artigos para
Disponível em: <http://oglobo. o Dossiê Belo Monte. São Paulo,
globo.com/economia/miriam/ Instituto Socioambiental, pp.

O BNDES e o financiamento de barragens na bacia do Tapajós 209


165-169. hidroeléctrico Belo Monte”. In:
Notificação extrajudicial. Notifi- Derecho, Ambiente y Recursos
cado: Banco Nacional de Desen- Naturales. Casos paradigmáticos
volvimento Econômico e Social. de inversión del Banco Nacional de
2010. Altamira, 22 mar. Disponí- Desarrollo Económico y Social de Bra-
vel em: <http://www.socioam- sil (BNDES) en Sur América: necesi-
biental.org/banco_imagens/pdfs/ dad y oportunidad para mejorar
notificacao_BNDES_%20assinatu- políticas internas. Lima, Asocia-
ras.pdf> (acesso: 5 dez. 2014). ción Ambiente y Sociedad/Aso-
Notificação extrajudicial. Noti- ciación Interamericana para la
ficado: Banco Nacional de De- Defensa del Ambiente/Centro de
senvolvimento Econômico e Derechos Económicos y Sociales/
Social. 2011. Altamira, 25 out. Centro de Estudios para el De-
Disponível em: <http://www. sarrollo Laboral y Agrario/Con-
gbr.org.br/pdf-casos-polemicos/ federación de Pueblos Indígenas
belomonte/Belo%20Monte_ de Bolivia/Derecho, Ambiente y
Doc.%207_Carta%20Notificacao_ Recursos Naturales/Foro Ciuda-
BNDES_25out2011.pdf> (acesso: dano de Participación por la Jus-
5 dez. 2014). ticia y los Derechos Humanos/
Presidente do Ibama pede demis- Fundación Ambiente y Recursos
são do cargo. 2011. In: Folha de Naturales/Proyecto sobre Orga-
S.Paulo. São Paulo, 12 jan. Dis- nización, Desarrollo, Educación
ponível em: <http://m.folha.uol. e Investigación/International
com.br/poder/859457-presidente- Rivers/Instituto Socioambiental,
-do-ibama-pede-demissao-do-car- pp. 33-47. Disponível em: <http://
go.html> (acesso: 5 dez. 2014). www.dar.org.pe/archivos/publi-
Rojas, Biviany; Millikan, Brent. cacion/137_Casos_Paradigmati-
2014. “El BNDES y el complejo cos.pdf> (acesso: 5 dez. 2014).

210 Rojas Garzón, Millikan e Alarcon


Imprensa e barragens na bacia do Tapajós:
Apego ao discurso oficial e ocultamento das críticas
Daniela Fernandes Alarcon, Natalia Ribas Guerrero
e Vinicius de Aguiar Furuie

“O
debate sobre Belo Monte Não está no escopo deste artigo
parece uma discussão so- analisar o texto de Moreira Leite –
bre meio ambiente. Não aliás, pródigo em motivos discur-
é. A questão envolve nosso desen- sivos conhecidos, como a paranoia
volvimento e o bem-estar da popu- da ameaça à soberania nacional. O
lação, em especial a mais humilde”, que se pretende é indicar como par-
escreveu o jornalista Paulo Morei- te significativa da cobertura jorna-
ra Leite, em sua coluna no sítio da lística acerca dos aproveitamentos
revista IstoÉ (Moreira Leite, 2013). hidrelétricos (AHEs) na Amazônia,
“Faça um teste de sinceridade: an- mais especificamente, aqueles si-
tes de seguir a leitura deste texto, tuados na bacia hidrográfica do Ta-
desligue o computador por um mi- pajós, contribui para a reverberação
nuto e, no escuro, tente adivinhar das construções discursivas oficiais
qual o tema em discussão”, provoca. e para o apagamento do dissenso.
Sustenta, com isso, que a não cons- Tais construções articulam-se em
trução da usina hidrelétrica (UHE) torno de expressões como “cresci-
acarretaria “apagão”, encarecimen- mento”, “desenvolvimento”, “inte-
to da tarifa de energia (“Neste exer- resse nacional”, “técnica”, que com-
cício interativo, é só multiplicar portam sentidos diversos, mas cuja
sua conta de luz por seis para se ter definição não é efetivamente expli-
uma ideia do que estamos falando”) citada – nem oficialmente, nem nos
e, no limite, “a regressão forçada à espaços da imprensa que as fazem
vela e à lamparina”. circular mais amplamente, como

211
veremos. Desse modo, a aura de analisados, para debater a reverbe-
positividade que essas expressões ração do discurso hegemônico a res-
carregam, e que foi historicamente peito das barragens e a caracteriza-
construída, torna a argumentação ção efetuada por tais veículos acerca
crítica a aspectos da construção de do campo crítico aos empreendi-
barragens na Amazônia uma difícil mentos. Nas três seguintes, debru-
tarefa, pois não somente implica de- çamo-nos, em cada uma delas, sobre
fender argumentos, como demanda um tipo de periódico (tratando, res-
deslindar os pressupostos do campo pectivamente, do Valor, CanalEnergia,
a que se contrapõe. O Estado de S. Paulo e os três jornais
Para compor o universo de aná- locais tomados em conjunto).
lise, selecionamos um jornal diário
de circulação nacional (O Estado de S. Tudo pelo “interesse nacional” –
1. As expressões de
busca utilizadas
Paulo), um veículo também diário e menos o debate, a pluralidade ou
para a realização de abrangência nacional mas espe- a história
da pesquisa nesses
cializado em jornalismo econômico No Plano Decenal de Expansão de
veículos consistiram
na articulação (Valor Econômico), um portal de no- Energia (PDE) para o período de 2011
de termos mais tícias dedicado exclusivamente ao a 2020, elaborado pelo Ministério de
abrangentes, como
barragem, hidrelétrica, setor energético (CanalEnergia) e três Minas e Energia (MME) e pela Empre-
UHE e usina, com a jornais de alcance local, baseados sa de Pesquisa Energética (EPE), lê-se
designação de projetos
em Santarém (Pará) (Gazeta de Santa- que a justificativa para a construção
previstos ou em curso
na região, nomeados rém, O Estado do Tapajós e O Impacto). de um conjunto de projetos hidrelé-
a partir de rios ou Como se almejava uma análise emi- tricos e linhas de transmissão, para
lugares. Compuseram
as expressões buscadas nentemente qualitativa, o recorte a expansão da produção de petróleo
os seguintes nomes: temporal foi definido em função e gás natural, assim como da ma-
Cachoeira do Caí,
das possibilidades técnicas de busca lha de gasodutos, e para o aumento
Cachoeira dos Patos,
Chacorão, Colíder, Foz junto a cada veículo. Os jornais lo- da produção de biocombustíveis é
de Apiacás, Jamanxim, cais mostraram-se particularmente “atender ao crescimento da deman-
Jardim do Ouro, Jatobá,
Juruena, Santo Augusto limitados nesse sentido, oferecendo da e à necessidade de infraestrutura
Baixo, São Luiz do acesso apenas ao último ou aos dois para o desenvolvimento” (Brasil, Mi-
Tapajós, São Manoel,
São Simão Alto, Sinop,
últimos anos de cobertura indexa- nistério de Minas e Energia, Empre-
Tapajós e Teles Pires. da. Considerando-se todos os veícu- sa de Pesquisa Energética, 2011: 319,
Foram analisados 62
los, foram pesquisadas edições que grifo nosso). Note-se que “desenvol-
textos de O Estado de S.
Paulo, 177 do Valor, 179 circularam entre o final de 2009 e o vimento” – sem adjetivos, intransiti-
do CanalEnergia, 39 da começo de 20141. Nas duas primei- vo – é representado no discurso do
Gazeta de Santarém, 46
de O Estado do Tapajós
ras seções do artigo, apresentamos órgão de governo como uma meta
e 40 de O Impacto. exemplos dos diferentes veículos que prescinde de justificativas. O

212 Alarcon, Guerrero e Furuie


conceito aparece, como aponta Es- perativo para outras esferas da vida
teva, “incapaz de dar substância social e também para outras formas
e significado ao pensamento e ao de organização social.
comportamento” (2000: 61). E, no A necessidade inelutável da cons-
entanto, segundo essa passagem do trução das barragens surge como
documento oficial, temos claro que uma consequência lógica. Note-se
construir UHEs seria uma necessida- que a noção de “segurança energé-
de inconteste do “desenvolvimento”. tica”, presente no texto de Moreira
Esteva é um dos autores que re- Leite referido no início deste artigo,
flete sobre a sociogênese e a evolu- é frequentemente acionada no dis-
ção da noção de desenvolvimento, curso hegemônico acerca dos pro-
e sobre os efeitos de sua utilização jetos hidrelétricos na Amazônia,
pelo discurso hegemônico. Segun- instando à adesão automática aos
do ele, aludir a desenvolvimen- mesmos, em face da iminência de
to nos dias de hoje é sinalizar um uma crise de suprimento de ener-
sentido de mudança favorável, de gia. “Quando você for ligar a luz
avanço “segundo uma lei universal da sua casa, pense em Belo Monte”,
2. Ainda no Plano
necessária e inevitável e na direção declarou, em entrevista ao Valor, o
Decenal de Expansão
de uma meta desejável” (Ibid.: 64). diretor de Promoção ao Desenvol- de Energia (PDE) para
Teríamos, em suma, um processo vimento Sustentável da Fundação o período de 2011
a 2020, é possível
pelo qual o desenvolvimento (e sua Nacional do Índio (Funai), Aloysio ver a caracterização
contrapartida, o subdesenvolvimen- Guapindaia (Borges, 2012d). “A dis- do governo como
protagonista
to) traria uma série de significados cussão não é ser contra ou a favor,
na idealização e
amplos e inclusivos para resguardar mas sim ter uma consciência da implementação desse
seu objetivo último, o “crescimento necessidade daquele empreendi- projeto: “Finalmente,
cumpre ressaltar
econômico”. A construção social da mento. […] Não tem como ser contra a importância
noção, operada ao longo do século um projeto como Belo Monte” (Idem, deste Plano como
instrumento de
XIX, estaria calcada, segundo o au- grifo nosso). A construção de UHEs
planejamento para
tor, em um plano político: extrair contribuiria, ainda segundo essa o setor energético
da sociedade e da cultura uma esfe- linha de raciocínio, para melhorar nacional, contribuindo
para o delineamento
ra autônoma, a esfera econômica, e as condições de vida da população, das estratégias de
instalá-la como eixo da política e da ao universalizar o acesso a direitos. desenvolvimento do
país a serem traçadas
ética (Ibid.: 73). A operação, portan- Nesse quadro, o governo federal,
pelo Governo Federal”
to, faz com que o imperativo de uma como impulsor dos megaprojetos, (Brasil, Ministério
esfera – o crescimento econômico, figuraria como o garantidor do “in- de Minas e Energia,
Empresa de Pesquisa
nos moldes do modo de produção teresse geral” dos brasileiros (Ber- Energética, 2011: 16,
capitalista – seja definido como im- mann, 2012: 86)2. Esse arvoramento grifo nosso).

Imprensa e barragens na bacia do Tapajós 213


Teles Pires foram paralisadas, a
pedido do Ministério Público Fede-
ral (MPF), para que fosse realizado
o estudo do componente indígena
(ECI). Nessa ocasião, o caso chegou
ao Supremo Tribunal Federal (STF),
que suspendeu a decisão que inter-
rompia as obras, permitindo seu
prosseguimento. À época, a consi-
deração do ministro Ricardo Lewan-
doski, responsável pela suspensão,
também remetia aos imperativos
do desenvolvimento:
Imagem 1. Menina
munduruku, na aldeia
Waro Apompu, Terra Por outro lado, lembrou o ministro,
Indígena Munduruku.
Por Daniela Alarcon, o aproveitamento do riquíssimo potencial
set. 2014. hidrelétrico do País constitui imperativo
se estenderia também às empresas de ordem prática, que não pode ser des-
envolvidas no processo, como se de- prezado em uma sociedade em desenvol-
preende da fala de Evandro Vascon- vimento, cuja demanda por energia
celos, diretor de Energia da Light, cresce a cada dia de forma exponen-
em depoimento ao CanalEnergia: cial. Nesse sentido, frisou que não
se pode esquecer a crise registrada
“Porque a energia elétrica é um bem no setor elétrico em 2001, “a qual
que está sendo produzido, seja pela tantos transtornos causou aos bra-
iniciativa privada ou pela estatal, para sileiros” (STF suspende, 2013, grifo
o interesse público do país. É muito di- nosso).
ferente. Então, o licenciamento am-
biental daquele empreendimento Note-se também que a defesa
tem que ser visto pela ótica global das UHEs nesses marcos demanda
e não só pela ótica local”, observou escamotear a história. No discurso
o executivo (Medeiros, 2012, grifo hegemônico, os projetos hidrelétri-
nosso). cos contemporâneos não tendem a
ser considerados à luz dos exemplos
No poder Judiciário, também se do passado, das numerosas UHEs
encontram emanações desse dis- envoltas em escândalos políticos e
curso. Em 2013, as obras da UHE econômicos, e que acarretaram da-

214 Alarcon, Guerrero e Furuie


nos socioambientais irreversíveis; te os projetos na bacia do Tapajós a
tampouco se costuma aludir aos uma obra do passado, Balbina (Bor-
problemas envolvendo outras obras ges, 2013b e Chiaretti, 2013b). No
em construção. Quando se trata de texto de autoria de Chiaretti, lê-se:
estabelecer comparações, o mais “Há quem suspeite que a conversão
comum é que sejam acionadas ca- dos rios brasileiros em megawatts
racterizações peculiares das obras pode não dar certo em muitos ca-
do passado, recortando-se aspectos sos. […] A safra de grandes hidrelé-
supostamente positivos, como se vê tricas do passado produziu uma sé-
na declaração de João Pimentel, di- rie de erros tenebrosos. O fantasma
retor socioambiental da Norte Ener- da hidrelétrica de Balbina é o que
gia, ao CanalEnergia: mais assombra” (Idem). Ainda que
a escolha pelo verbo suspeitar seja
Ele disse ainda que a ideia da empre- questionável, ao menos o texto é
sa é fazer na região de Belo Monte o contundente na caracterização de
mesmo que foi feito pela hidrelétri- Balbina e atualiza esse “erro tene-
ca de Itaipu no Paraná. Todas as cida- broso” no presente. Em uma tercei-
des no entorno de Itaipu tinham um ra reportagem do mesmo veículo,
índice de desenvolvimento humano São Luiz do Tapajós e Jatobá são
muito baixo. “Hoje, depois de Itaipu comparadas a Belo Monte, com o in-
estar lá há alguns anos, todos esses tuito de se dimensionar os impactos
municípios tem um IDH superior a dos empreendimentos:
[sic] média do estado do Paraná, que
já é bastante alta. No Pará, onde fica O custo ambiental para o Tapajós
Belo Monte, a gente já pode observar […] faz os impactos de Belo Monte
que a construção de postos de saú- parecerem modestos. Enquanto a
de, de projetos na área de educação, hidrelétrica que está em construção
reforma de hospitais, construção de no rio Xingu vai alagar uma área de
estradas, tudo isso deve contribuir 512 km quadrados, São Luiz e Jato-
bastante para que aquela região se bá preveem que uma área de 1.368
desenvolva e se torne um local ainda quilômetros quadrados de floresta
mais seguro do que é hoje”, avaliou virgem fique embaixo d’água, uma
o diretor (Godoi, 2013). área quase do tamanho da cidade de
São Paulo (Borges, 2014).
No universo de 177 matérias do
Valor analisadas, identificamos ape- No CanalEnergia, entre as 179 ma-
nas duas que conectam criticamen- térias analisadas, não é possível en-

Imprensa e barragens na bacia do Tapajós 215


contrar qualquer menção explícita do Ministério de Minas e Energia” (Me-
a problemas decorrentes da imple- deiros, 2012, grifo nosso).
mentação de projetos de exploração Referindo-se à ausência de deba-
hidrelétrica no passado. Há apenas te no processo de tomada de deci-
uma sugestão, ainda assim revesti- são acerca dos projetos de infraes-
da de eufemismo, na fala do diretor trutura em curso ou planejados
de Geração das Centrais Elétricas para a América Latina, Bermann
do Brasil S.A. (Eletrobras), Valter aponta a existência, em pleno Esta-
Cardeal, quando defende o conceito do democrático de direito, de uma
de usinas-plataforma: “O conheci- “autocracia energética” (2012: 95).
mento adquirido na construção de Como assinala o autor, as críticas à
nossas hidrelétricas já permite que emblemática UHE Belo Monte, para
usinas como Itaipu e Tucuruí sejam citar um exemplo – notadamente
verdadeiros laboratórios de estudos aquelas formuladas por grupos im-
e pesquisas de alto nível sobre sus- pactados pelo projeto, no marco de
tentabilidade”, afirmou (Eletrobras, audiências públicas e ações judi-
2012). ciais, e aquelas sistematizadas pelo
Cumpre notar ainda, no discurso painel de especialistas conformado
oficial, a tensão entre caracterizar para esse fim – foram desconside-
algo como um imperativo a priori e radas nas decisões. Leonel, por sua
transmitir a imagem de um espaço vez, atenta para o “descolamento”
de debate, que consideraria as alter- e o “hermetismo” do setor elétrico,
nativas disponíveis e seus respecti- que, mesmo financiado em grande
vos impactos, tendo como resultado medida por fundos públicos, não se
uma escolha informada, protago- submeteria ao controle da socieda-
nizada pela própria sociedade. Al- de, gozando de “autonomia decisó-
tino Ventura Filho, secretário de ria quase completa” (1998: 186).
Planejamento e Desenvolvimento
Energético do MME, em entrevista O argumento da “técnica” como
ao CanalEnergia, sintetiza de forma estratégia de silenciamento
bastante emblemática essa esquizo- Outro ponto em torno do qual o
frenia, quando diz que o setor elé- discurso oficial se articula, para
trico “tem procurado se comunicar obter legitimidade para suas de-
com a sociedade de uma maneira a cisões, é o de que se trata de uma
ter a aceitação dela para os nossos “discussão técnica”. Como explica
programas energéticos que, no fundo, Leonel, os critérios de decisão são
são programas dela [da sociedade], não apresentados como “determinados

216 Alarcon, Guerrero e Furuie


pela relação custo/benefício, pela ve do ponto de vista técnico, essas
definição técnica da potencialidade obras são questionáveis. Exemplo
energética, sem o necessário equa- de como isso não está no debate é
cionamento com o seu impacto a posição do superintendente da
socioambiental ou sequer confron- Aneel, em matéria do CanalEnergia:
tado com alternativas” (Ibid.: 186).
Locatelli, por sua vez, chama a aten- O superintendente da Aneel afirma
ção para o fato de que a segmenta- que o projeto básico de uma usina é
ção das instâncias de planejamento sempre um aprimoramento do estu-
e gestão do setor energético ligadas do de viabilidade. Frisa que estudos
ao Estado – EPE, Agência Nacional podem ser desenvolvidos para com-
de Energia Elétrica (Aneel), Conse- plementações ou até mesmo não
lho Nacional de Política Energética aprovados pela agência, mas, uma
(CNPE), MME – acabou diluindo o vez aprovados, têm qualidade técnica
ônus político das decisões, contri- inquestionável. (Medeiros, 2012, grifo
buindo para recobrir as decisões de nosso).
governo com a aura de escolhas ex-
clusivamente “técnicas” (2011: 120). Os efeitos desse tipo de discur-
Além de ocultar a dimensão política so e prática política são considera-
das decisões, essa operação também dos por Zhouri, em sua análise em
escamoteia o fato de que, inclusi- torno do que seria o “paradigma

Imagem 2. Menino
munduruku. Por Fábio
Nascimento, set. 2014.

Imprensa e barragens na bacia do Tapajós 217


da adequação ambiental”. Todas as mou: “Uma discussão mais técnica e
ações, explica a autora, são voltadas menos emocional sobre os grandes em-
a garantir a viabilidade do projeto preendimentos seria a melhor for-
técnico, prevendo a incorporação ma de lidar com a questão dos im-
de “algumas ‘externalidades’ am- pactos provocados por essas usinas”
bientais e so­ciais na forma de medi- (Montenegro, 2012a, grifo nosso).
das mitigadoras e compensatórias, A fala de Menel propicia uma boa
des­de que estas, obviamente, não síntese do argumento da técnica
inviabilizem o projeto do ponto como instrumento de significação e
de vista econômico-orçamentário” de imposição de ordem no mundo
(Zhouri, 2012: 49). (Zhouri, 2012: 55), e antecipa outro
Ocorre que as críticas que não se ponto articulador do paradigma da
enquadram no paradigma da ade- adequação ambiental: a desqualifi-
quação ambiental, ainda que trava- cação do campo que se contrapõe.
das de um ponto de vista técnico, Na sequência, Menel admite que
são descartadas com a desqualifica- os empreendedores precisam “me-
ção de seus autores. Em artigo sobre lhorar a abordagem ambiental nos
Belo Monte publicado no Valor, que projetos”, mas que isso não deve
cita as UHEs da bacia do Tapajós de ser justificativa para se alimentar
passagem, Nivalde de Castro, Gui- “uma discussão ideológica e apaixo-
lherme Dantas e André Leite, do nada” (Montenegro, 2012a). Empre-
Grupo de Estudos do Setor Elétrico sários e governos concordam nesse
do Instituto de Economia da Uni- ponto: “É uma discussão que não
versidade Federal do Rio de Janeiro pode ser simplesmente manipulada
(Gesel/IE/UFRJ), escreveram: “Por por aspectos ideológicos, até externos
se tratar [Belo Monte] de uma obra aos interesses da sociedade brasileira”,
estratégica, que afetará o bem estar afirmou o secretário executivo do
futuro de milhões de brasileiros, a MME, Márcio Zimmermann, em en-
discussão deve se pautar em análises téc- trevista ao Valor (Rockmann, 2013a,
nicas, econômicas e jurídicas, evitando grifo nosso). Em linha análoga, em
uma avaliação sem a necessária raciona- entrevista para o CanalEnergia, Mar-
lidade (Castro, Dantas & Leite, 2012, celo Moraes, presidente do Fórum
grifo nosso). Na mesma direção, em de Meio Ambiente do Setor Elétrico,
entrevista ao CanalEnergia, o presi- afirmou que o governo está tendo
dente da Associação Brasileira dos
Investidores em Autoprodução de dificuldades no trato com as comu-
Energia (Abiape), Mário Menel, afir- nidades indígenas. Recentemente,

218 Alarcon, Guerrero e Furuie


eles proibiram os estudos no Ta- Recebem tratamento jornalísti-
pajós. O governo teve que entrar co muito mais positivo “as grandes
com proteção da [F]orça [N]acional ONGs [organizações não governa-
[de Segurança Pública] para poder mentais] ligadas à causa ambiental
fazer os estudos de viabilidade. En- no Brasil” que se caracterizam por
tão, se percebe que é algo muito mais uma abordagem “mais pragmáti-
ideológico do que socioambiental pro- ca”, como define reportagem do
priamente dito (Medeiros, 2013, grifo Valor (Vialli, 2013). “Agora, as ONGs
nosso). articulam parcerias. Se antes de-
nunciavam os crimes, agora elas
O raciocínio é claro: só há uma buscam soluções com prefeituras,
matriz de conhecimento possível, empresas e comunidades” (Idem).
e é a que sustenta os estudos con- Uma delas, segundo a matéria, seria
duzidos com a chancela do gover- a WWF-Brasil, que teria na “produ-
no. Qualquer outro conhecimento ção de conteúdo científico” uma de
que embase uma decisão – como suas vertentes de atuação (Idem, gri-
a que tomaram os Munduruku, no fo nosso).
caso em questão – é forçosamente
ilegítimo, reflexo de anseios carac- No Tapajós, por exemplo, a ONG
terizados como interesses particula- [WWF-Brasil] preparou um estudo
res, contrários ao interesse público, sobre a biodiversidade de espécies
encarnado nas ações do governo ao longo da bacia. O objetivo é dar
federal. Nas palavras de Zhouri, subsídios às empresas do setor elé-
“como capital específico do campo trico para que adotem estratégias de
ambiental, o conhecimento técnico redução dos impactos, uma vez que
se torna um elemento central de o governo federal pretende cons-
mar­ ginalização das outras formas truir um complexo de hidrelétricas
de conceber e de expressar vi­sões na bacia (Idem)3. 3. Para uma reportagem
mais detalhada sobre
e projetos distintos para o mesmo a colaboração da
território” (2012: 56). Assim, prosse- Aceitando os empreendimentos WWF-Brasil e de The
gue a autora, as falas que provêm Nature Conservancy
de antemão e “contribuindo” para
(TNC) com os planos de
dos moradores atingidos são obje- torná-los “melhores”, a organização exploração hidrelétrica
to de desqualificação por parte dos afasta-se do campo crítico às bar- na Amazônia brasileira,
ver também Chiaretti,
membros de conselhos de meio ragens, sendo alçada, pela reporta- 2013a.
ambiente como “verdadeiras ‘cho- gem, à posição de produtora de co-
ramingas’ daqueles que têm “inte- nhecimento “científico”. Operando
resses” a perder’ (Idem). dentro do paradigma da adequação

Imprensa e barragens na bacia do Tapajós 219


ambiental, ela fica imune, assim, à portagens. Uma notícia de O Impacto
grande clivagem que atua para es- sobre uma audiência pública a res-
tigmatizar e silenciar outros agen- peito da UHE São Manoel ilustra a
tes. Ao mesmo tempo, suas ações dificuldade de os indígenas se faze-
contribuem para caracterizar as rem ouvir:
empresas e o governo como aber-
tos ao diálogo. Como síntese, temos Inicialmente mais de 150 índios da
que as decisões do governo nunca etnia Mundurucus, pintados a carac-
refletem interesses que não sejam terísticas de guerra, armados de ar-
“interesse público”, nem ideologias, cos e flechas, fecharam as portas do
apenas critérios técnicos; os críticos ginásio não permitindo a entrada de
aos projetos, em contrapartida, são ninguém. Depois de muito diálogo
retratados de forma espelhada: são entre índios e os responsáveis pelo
movidos por interesses particula- projeto, foram liberadas as portas e
res, por ideologia, e seus argumen- foi realizada a audiência. Alguns ín-
tos nunca são técnicos. dios entraram, outros continuaram
Cabe notar que, entre as fontes do lado de fora do ginásio (Consór-
ouvidas para a produção das re- cio, 2013).
portagens analisadas, indivíduos e
grupos críticos às barragens estão Nem a ação direta protagoniza-
subrepresentados. O CanalEnergia é da pelos Munduruku, nem o fato
um caso extremo: somente em uma de uma audiência pública ter por
matéria do universo pesquisado foi objetivo ouvir a opinião de todas as
realizada entrevista com represen- partes impele o jornalista a relatar
tante de organização ligada à defesa o ponto de vista contrário à barra-
dos direitos de grupos impactados gem. A voz é dada aos proponentes
(Montenegro, 2012b). Quando se tra- da UHE – a notícia reproduz deta-
ta de tornar presente o campo críti- lhes técnicos da obra, apresentados
4. O campo crítico às co aos empreendimentos, os jornais na audiência –, enquanto aos indí-
barragens no Tapajós ouvem preferencialmente repre- genas resta escolher entre ficar den-
tem produzido
numerosos manifestos
sentantes do MPF e de ONGs, em tro ou fora do auditório. A carta lida
e notas de repúdio, mas lugar de membros dos próprios gru- por um Munduruku durante a au-
os jornais não têm por
pos afetados (indígenas, ribeirinhos diência é apenas mencionada, sem
hábito repercuti-los.
Dentre as matérias do e camponeses, entre outros). Nesse que conheçamos seu conteúdo4. Na
Valor analisadas, Borges quadro, os ribeirinhos tendem a ser última parte da matéria, a questão
(2012e, 2012g, 2013a) e
Chiaretti (2013c) são o segmento mais invisibilizado de indígena reaparece:
exceções. todos, mencionado em escassas re-

220 Alarcon, Guerrero e Furuie


Os estudos apresentados na audiên- como “obstáculos”: fala-se menos
cia, [sic] revelam que a UHE São Ma- dos impactos dos projetos sobre
nuel [sic] não interfere diretamente os indígenas que da “interferência
com terras indígenas, isto é, NÃO indígena” sobre os projetos. Em tal
INUNDA TERRAS atualmente de- operação, direitos constitucionais
marcadas ou declaradas pela FUNAI são torcidos e reduzidos à figura do
como Reserva INDÍGENA [sic] (Idem, “componente indígena”, um con-
grifos em maiúscula no original). junto de exigências indesejáveis,
fonte de “desentendimentos” e res-
Como se vê, para o jornalista, ponsável por aumentar custos e pra-
só há interferência direta quando zos de execução de grandes obras.
terras indígenas (TIs) são alagadas. No que talvez seja a passagem mais
Tal pressuposto – que não encontra constrangedora das matérias publi-
amparo antropológico ou jurídico – cadas pelo Valor no intervalo consi-
serve como justificativa para o apa- derado, lê-se: “Em outubro de 2011,
gamento da perspectiva indígena, durante processo de audiência pú-
ainda que o empreendimento se si- blica de discussão da obra [São Ma-
tue “a menos de 2 km do limite de- noel], quatro funcionários da Funai,
clarado da TI KAYABI” e haja “indí- dois da EPE e um antropólogo fo-
cios da presença de índios isolados” ram sequestrados pela tribo indígena
na área, como informa o mesmo Kururuzinho, que não quer a usina”
texto (Idem, grifos em maiúsculas (Rockmann, 2013c, grifo nosso).
no original). Como destaca Ber- Confundindo nome de aldeia (Kuru-
mann, referindo-se a Belo Monte, ruzinho) e povo indígena (Kayabi), o
a redução interessada da noção de repórter lança mão ainda de um ter-
“impacto” é uma estratégia recor- mo colonial (“tribo”) para se referir
rente na construção de UHEs: “Ao à ação política dos indígenas.
não inundar diretamente os territó- Ao noticiar alterações legais
rios indígenas, o projeto se adequa que flexibilizavam exigências em
à concepção dos projetos hidrelé- relação à passagem de linhas de
tricos em voga, de desconsiderar as transmissão em TIs, o jornalis-
consequências sociais e ambientais ta André Borges, do Valor, tomou
das populações não inundadas ou para si o discurso dos setores que
‘afogadas’ pela formação dos reser- defendiam a medida, por imprimir
vatórios” (2012: 76). mais “agilidade” ao processo de
Nos textos, os povos indígenas licenciamento:
são comumente caracterizados

Imprensa e barragens na bacia do Tapajós 221


O impacto em áreas indígenas tam- Rodrigo Polito – enfrentado pelas
bém ganhou definições mais claras. Até empresas:
o ano passado era preciso apresen-
tar relatórios antropológicos toda A Neoenergia, controladora da Com-
vez que uma linha de transmissão panhia Hidrelétrica de Teles Pires,
passasse pela região de uma aldeia, sofreu um novo revés em seu pro-
não importava a distância que essa es- grama de geração hidrelétrica, com
trutura ficasse do povoado (Borges, a liminar concedida ontem pela Jus-
2012b, grifos nossos). tiça Federal do Mato Grosso determi-
nando a suspensão do licenciamen-
Como se vê, a matéria é infor- to ambiental e das obras da usina,
mada pela noção de senso comum de R$ 3,6 bilhões e 1.820 MW de po-
segundo a qual índios têm “direitos tência instalada. A empresa passou
demais” e constituem “entraves” ao pelo mesmo calvário para licenciar
desenvolvimento. Mais uma vez, o as hidrelétricas de Dardanelos (MT),
jornalista arroga-se a tarefa de in- de 261 MW, e Baixo Iguaçu (PR), de
dicar critérios para a determinação 361 MW. […] Dardanelos sofreu inú-
dos impactos das obras (a distância meras invasões indígenas durante a
das linhas de transmissão em rela- sua fase de construção (Polito, 2012,
ção à aldeia) que colidem com a le- grifo nosso).
gislação, já que, no que diz respeito
às TIs, ocupação tradicional não se Note-se que a matéria recém-ci-
5. “São terras limita a moradia5. Na mesma dire- tada, de 28 de março, não informa a
tradicionalmente ção, o estudo de impacto ambiental razão da liminar, concedida na vés-
ocupadas pelos índios
as por eles habitadas (EIA) aparece, na voz do jornalista, pera. Apenas em 10 de abril o leitor
em caráter permanente, como “complexo” e “demorado” é informado da acusação que pesa
as utilizadas para suas
atividades produtivas,
(Idem). Repercutindo Nelson Hub- sobre o consórcio construtor: não
as imprescindíveis ner, presidente da Aneel e única ouvir os povos indígenas impac-
à preservação dos
fonte da matéria, o repórter fala em tados antes de iniciar o empreen-
recursos ambientais
necessários a seu bem- “entraves ambientais”, que “com- dimento, sendo que, entre outras
estar e as necessárias a prometem” cronogramas e pro- consequências, a UHE destruirá um
sua reprodução física
e cultural, segundo
vocam “atrasos” (Idem). Em outra lugar sagrado, a cachoeira de Sete
seus usos, costumes e reportagem do Valor, episódios de Quedas (Borges, 2012c). Omitir as
tradições” (Constituição
mobilização indígena e decisões ju- acusações contra consórcios cons-
Federal, art. 231, § 1º).
diciais contrárias às UHEs aparecem trutores – ocultando-as sob expres-
como etapas do “calvário” – é essa sões como “restrição ambiental” ou
a palavra escolhida pelo jornalista, “irregularidades” – é expediente re-

222 Alarcon, Guerrero e Furuie


corrente, não só no Valor. Três maté- tre índios e ruralistas não é o único
rias do CanalEnergia sobre a suspen- reflexo da incapacidade do governo em
são do licenciamento de Teles Pires definir critérios objetivos para o proces-
trazem a mesma frase (“Esta é a so de demarcação de terras indígenas”
quarta ação na Justiça que a hidrelé- (Borges & Peres, 2013). Replicando
trica enfrenta por supostas irregula- um dos argumentos esgrimidos com
ridades”), sempre sem indicar quais mais frequência pelo campo contrá-
são elas (Ministério, 2012; Medeiros, rio ao reconhecimento dos direitos
2012; Consórcio, 2012). Ao noticiar territoriais indígenas, os repórteres
liminar impedindo a participação simplesmente desconhecem que
da UHE Sinop no leilão A-5, a agên- os procedimentos administrativos
cia utiliza quatro vezes o termo “ir- de demarcação de TIs em curso no
regularidades” (Medeiros, 2013). país são regidos por uma legislação
Outra estratégia de ocultamento específica, que determina critérios
consiste em apresentar fatos como objetivos para os mesmos6. 6. Ver o Decreto
se fossem interpretações, colocan- Em outra reportagem do Valor, a nº1.775/1996, que dispõe
sobre o procedimento
do sob suspeita vozes críticas aos Fundação Nacional do Índio (Funai) administrativo de
empreendimentos. Em matéria do foi caracterizada como sorrateira e demarcação de TIs.

CanalEnergia sobre estudos de viabi- arbitrária, em razão da publicação


lidade de UHEs, lê-se que promoto- de uma instrução normativa (IN)
res do MPF resistem a determinada relacionada ao licenciamento de
obra pois “veem” um local impac- obras de infraestrutura. Duramen-
tado como área indígena (Canazio, te criticado por um fórum do setor
2012). O jornalista não informa, elétrico e pelo próprio jornalista, o
mas o leitor que tiver oportunidade órgão indigenista sequer foi procu-
de pesquisar logo descobrirá que a rado para se pronunciar. No texto,
área em questão é reconhecida pelo lê-se:
Estado como de ocupação tradicio-
nal indígena, não se tratando, pois, […] de acordo com sua instrução
da “visão” do MPF. normativa nº 1, de 2012, a Funai es-
Ainda no que diz respeito aos di- tabeleceu procedimentos que pega-
reitos territoriais indígenas, o Valor ram os empresários de surpresa. O Rima
chega ao ponto de afirmar: “O go- – relatório simplificado do estudo
verno tem sentido na pele os refle- de impacto ambiental que precisa
xos da falta de uma política indigenis- ser feito para cada projeto – deverá
ta” (Borges, 2013c). E ainda: “A crise ser encaminhado às tribos afetadas
aguda que se espalha pelo país en- “em linguagem acessível ou com

Imprensa e barragens na bacia do Tapajós 223


tradução para línguas indígenas”. se regem por critérios quantitati-
Além disso, segunda [sic] a norma, as vos? Note-se ainda que, às palavras
comunidades poderão opinar sobre do indígena entrevistado, segue-se
os futuros empreendimentos em sua caracterização como ingênuo
consulta “prévia, livre e informada”. ou mesmo intelectualmente limita-
[…] Devido à complexidade das lín- do: “Essas são questões complexas
guas indígenas e à falta de profissio- para o entendimento de Antônio
nais com conhecimento delas, a re- Daice Munduruku, isolado no Mé-
gra pode acabar encarecendo todo o dio Tapajós”.
processo de licenciamento, além de Nas notícias dos diferentes veí-
ter reflexos nos seus prazos (Rittner, culos analisados neste artigo, rara-
2012, grifo nosso). mente a decisão de construir uma
UHE é tratada como uma decisão po-
Como se vê, as passagens citadas lítica em torno da qual o dissenso é
da instrução normativa nada mais legitimo (e saudável, diriam alguns
fazem que repetir o que determina partidários da democracia). Em um
a Convenção 169 da Organização exemplo que sai da curva das notí-
Internacional do Trabalho (OIT), da cias ancoradas nos aspectos econô-
qual o Brasil é signatário. Com essa mico e jurídico da construção de
omissão do jornalista, determina- UHEs, a jornalista Marta Salomon,
ções legais são apresentadas como do Estado de S. Paulo, opta por abor-
se fossem excentricidades da Funai, dar a decisão de construir UHEs que
exigências que visam “travar” o afetariam o Parque Nacional (Parna)
desenvolvimento. da Amazônia e o Parna do Jamanxim
Mesmo em uma matéria que dá como uma ação em um campo volú-
a conhecer as preocupações de in- vel de possibilidades e interditos:
dígenas e indigenistas, e aponta a
existência, na área a ser impactada A possibilidade de construção de
por barragens, de territórios tradi- usinas nessas áreas era um tabu até
cionalmente ocupados ainda não menos de um mês atrás. No início de
reconhecidos pelo Estado, a crítica abril, o presidente Luiz Inácio Lula
vem enfraquecida sob o título “Re- da Silva assinou decreto autorizan-
gião tem poucas aldeias indígenas” do estudos de viabilidade ambiental
(Borges, 2012f). É de se perguntar: de novas hidrelétricas em unidades
“poucas” segundo que critério? E de conservação, assim como a insta-
mais que isso: qual o sentido de lação de redes de transmissão e dis-
“poucas” se direitos indígenas não tribuição nessas áreas.

224 Alarcon, Guerrero e Furuie


Dias antes, o PAC 2 lançou projetos mais de dois anos, tentamos obter
de construção de usinas-plataforma, o licenciamento”, declarou o pre-
onde o impacto ambiental seria re- sidente da EPE, Mauricio Tolmas-
duzido. O Plano Decenal de Energia quim, em entrevista ao Valor (Rock-
transformou o que era uma possibi- mann, 2013b, grifo nosso). Tomando
lidade em projetos de hidrelétricas a asserção de Tolmasquim como
com datas de inauguração definidas verdade, na introdução à entrevis-
(Salomon, 2010). ta, o repórter afirmou: “Mesmo usi-
nas sem impacto em áreas indígenas e
O que antes aparecia travestido sem reservatórios, como a de São
de abstrata racionalidade aqui assu- Manoel, no rio Teles Pires, têm en-
me a forma de operação simbólica, frentado obstáculos para seguir em
explicitando-se as relações de poder frente” (Idem, grifo nosso). E cravou
envolvidas no processo de constru- na manchete: “É preciso avançar
ção de uma UHE. A ação política (a com hidrelétricas”, sem aspas. Con-
canetada elocutória) emprega estra- vencido pelas palavras de Tolmas-
tegicamente termos instáveis como quim, o jornal aderia ao projeto?
“usina-plataforma” para operar No material publicado pelo Va-
uma mudança de paradigma que lor no período analisado, ainda que
torna politicamente possível o que haja exemplos como esse, encon-
antes era um tabu. O governo, as- tram-se algumas reportagens assi-
sim, opera como um sujeito político nadas por André Borges e outras,
capaz de mudar não apenas as leis, menos numerosas, de autoria de
mas também um suposto consenso Daniela Chiaretti que destoam da
sobre o direito à proteção ambien- tônica geral, considerando os bar-
tal na região. ramentos sob outras perspectivas.
Nesse conjunto de textos, os perfis
Valor Econômico: dos entrevistados são mais varia-
compartimentação que não con- dos, não se restringindo a repre-
textualiza os interesses em jogo sentantes do governo federal e do
“Temos de aumentar a aceitação setor empresarial. Figuram entre
desses projetos em toda a socieda- eles lideranças indígenas, ribeiri-
de. Um exemplo é o da hidrelétrica nhos, representantes de municípios
de São Manoel, no rio Teles Pires. O impactados por empreendimentos,
empreendimento não tem reserva- técnicos ambientais do Instituto
tório, e seu impacto sobre a comunida- Chico Mendes de Conservação da
de indígena é nulo. Mesmo assim, há Biodiversidade (ICMBio) mobiliza-

Imprensa e barragens na bacia do Tapajós 225


dos contra atropelos ambientais sabe sobre esse modelo; a matéria
na condução dos projetos hidrelé- informa também que a energia ge-
7. Apesar de serem tricos7, pesquisadores críticos aos rada por esses empreendimentos se
servidores públicos
barramentos e representantes de destinará principalmente à indús-
federais, esses quadros
introduzem uma entidades como International Rivers, tria, e não ao consumo doméstico
dissonância no coro Instituto de Estudos Socioeconô- (Borges, 2012a).
dos representantes
do governo federal
micos (Inesc) e Instituto Centro de Em outra reportagem assina-
comumente ouvidos Vida (ICV), entre outros. da por André Borges, os relatos
pelos jornais.
A introdução de tais perspecti- de ribeirinhos da vila de Pimental
vas faz com que emerjam dos tex- (Itaituba, Pará) ouvidos pelo jor-
tos aspectos que costumam estar nalista, em apuração in loco, põem
ausentes da cobertura, como a falta em xeque o discurso hegemôni-
de transparência do governo fede- co – reproduzido exaustivamente
ral na tomada de decisões sobre os pelo mesmo Valor – que assevera o
projetos hidrelétricos na bacia do “rigor”, o “cuidado”, o “controle”,
Tapajós, as violações aos direitos in- a “tecnologia”, o “respeito” com
dígenas no âmbito desses empreen- que estariam sendo conduzidos os
dimentos, a desafetação de unida- estudos técnicos relacionados aos
des de conservação (UCs) por meio empreendimentos:
de medida provisória (MP) para
viabilização dos projetos, o fato de Para levantar as informações sobre
eles gerarem impactos cumulativos o impacto ambiental da hidrelétrica
desconsiderados no licenciamento [São Luiz do Tapajós], empresas con-
ambiental, as pressões exercidas tratadas pela Eletrobras têm recor-
pelo governo federal sobre a Funai rido à experiência da população da
durante o processo de licenciamen- vila para entrar na floresta e percor-
to, o não cumprimento de condi- rer os rios. O Valor conversou com
cionantes e os efeitos negativos ob- alguns “mateiros”, como são chama-
serváveis em obras que já estavam dos esses guias. Cada um recebe R$
em andamento. A panaceia das 35 para ficar rodando o dia inteiro
usinas-plataforma, defendidas pelo pela mata com os pesquisadores.
governo federal como solução para Não há qualquer tipo de formaliza-
fazer frente aos problemas socioam- ção ou contrato de serviço. Também
bientais derivados da instalação de não existe nenhum tipo de seguro,
UHEs na bacia do Tapajós, também assistência médica ou mesmo roupa
é colocada em questão em um dos e sapatos adequados. O pagamento é
textos, que indica que pouco se feito no dia, em dinheiro. […]

226 Alarcon, Guerrero e Furuie


De maneira geral, a principal queixa austríaca Andritz Hydro, produtora
é a falta de informação. A população de equipamentos para geração de
vê os pesquisadores cruzarem o rio energia, conhecemos as expectati-
por todo lado, com mapas nas mãos, vas da empresa acerca de São Luiz
fazendo perguntas e anotações, mas do Tapajós, “a ‘menina dos olhos’
ainda não compreende o que será do setor”: “O projeto é fundamental
feito (Borges, 2012h). para a Andritz ultrapassar suas duas
concorrentes”, a alemã Voith Hydro
Cumpre notar ainda uma pecu- e a francesa Alstom (Fernandes,
liaridade do Valor, atrelada ao fato 2013b, grifo nosso). Aqui, São Luiz
de se tratar de um veículo voltado do Tapajós aparece distante do de-
ao mercado, que frequentemente bate sobre o “bem comum”, enre-
publica reportagens sobre as ques- dada em uma disputa no interior
tões em jogo em determinado ramo de um ramo econômico específico.
econômico, assim como longos per- Uma matéria sobre a Alstom é ainda
fis de empresas, dando a conhecer mais clara:
as estratégias declaradas por seus
executivos no momento. Tal perfil “A realização dos leilões, principal-
de cobertura faz com que se tornem mente da [usina de São Luiz dos] Ta-
visíveis, em certas matérias, alguns pajós (PA), que nós esperamos para
nós da rede de interesses que sus- 2014, é fundamental para não preju-
tentam os projetos hidrelétricos na dicar a capacidade das nossas fábricas”,
bacia do Tapajós e que nada têm de disse [Marcos] Costa [presidente da
ver com o tão propalado “interesse Alstom no Brasil], argumentando
público”. O lapso cometido por um que é importante aumentar a cele-
repórter para se referir à conces- ridade das aprovações ambientais.
sionária da UHE Colíder parece-nos Além de Tapajós, projetada para ter
pertinente quando se trata de refle- mais de 6 mil MW de potência, é
tir sobre as relações entre público prioritário para a indústria que sejam
e privado: “A companhia de energia licitadas, na avaliação do executivo,
paranaense Copel espera obter si- as usinas de Sinop e São Manoel, no
nergias operacionais e antecipar o rio Teles Pires (Fernandes, 2013a, gri-
fornecimento de energia da usina fos nossos).
Colíder – sua hidrelétrica no rio Teles
Pires” (Laguna, 2012). Vejamos ou- Emergem, desses textos, agentes
tros exemplos. Em reportagem so- de distintos setores econômicos, o
bre a atuação no Brasil da empresa que dá mostras da amplitude dos in-

Imprensa e barragens na bacia do Tapajós 227


teresses diretos e indiretos em tor- sua estratégia para o Brasil.[…] A
no dos projetos hidrelétricos. “Espe- EDF também tem planos de dispu-
ra-se que a construção de linhas de tar o leilão da hidrelétrica de São
transmissão de energia gere mais Luiz do Tapajós, de 6.133 MW, no
demanda a produtores de cabos [de Pará. […] ‘É um projeto apaixonante
alumínio] durante o segundo semes- para nós’, explicou [Olivier] Orsini
tre. Ele [Luis Carlos Loureiro Filho, [vice-presidente de Desenvolvimen-
coordenador da comissão de econo- to Internacional da EDF]” (Polito,
mia e estatística da Associação Bra- 2013).
sileira do Alumínio - Abal] cita como Dispersas, porém, em maté-
exemplo o linhão que vai escoar a rias altamente especializadas, que
energia da usina de Teles Pires, cujo atraem leitores de perfil bastante
uso de alumínio é estimado em específico, informações dessa na-
55 mil toneladas” (Alonso & Lagu- tureza não são articuladas em ma-
na, 2013, grifo nosso). “As grandes térias dedicadas especificamente
obras de infraestrutura são merca- aos empreendimentos. Assim, deli-
do expressivo para as soluções mo- neiam-se no Valor dois grandes con-
dulares metálicas. Quem opera com juntos de textos sobre os projetos
a transformação de contêiner marítimo hidrelétricos na bacia do Tapajós:
está de olho nos canteiros de obras no primeiro, eles aparecem subsu-
espalhados pelo país. […] Placas me- midos em disputas no interior de
tálicas recheadas com poliuretano diversos ramos econômicos, sem
são as bases dos ambientes cons- que a consideração de tais inte-
truídos pela Odebrecht no canteiro resses seja articulada a um debate
de obras da usina Teles Pires, na di- de fundo sobre os projetos e sobre
visa de Mato Grosso e Pará” (Menos, opções de “desenvolvimento”; no
2012, grifo nosso). “[…] a EDP Brasil segundo, essa multiplicidade de
avalia disputar a hidrelétrica de São agentes interessados é esmaecida
Manoel. […] O maior acionista da e a discussão é operada em termos
ex-estatal portuguesa hoje é o grupo muitas vezes abstratos, girando em
chinês China Three Gorges (CTG), que torno dos constructos do “desenvol-
comprou 21,3% do capital da EDP vimento”, do “interesse público” e
em 2011. […] A hidrelétrica de São da “técnica”.
Manoel também interessa à gigante Assim, ainda que a cobertura do
estatal chinesa State Grid” (Facchini, Valor sobre os empreendimentos
2013, grifos nossos). “[…] a gigante seja frequente e a mais diversifica-
elétrica francesa EDF está retomando da entre os veículos analisados aqui,

228 Alarcon, Guerrero e Furuie


proporcionando ao leitor interessa- Os pontos que Santos nominal-
do informações relevantes, a ausên- mente cita como exemplos são:
cia de articulação entre as aborda- “governos, ministérios, órgão regu-
gens jornalísticas que caracterizam lador, congresso, associações seto-
os dois conjuntos de matérias indi- riais, órgãos ambientais, tribunais
cados há pouco reduz em muito o de Justiça (STF, STJ [Superior Tribu-
potencial explicativo do veículo e as nal de Justiça], MPs e TCU [Tribunal
possibilidades de contribuição para de Contas da União]), indústrias,
a qualificação e ampliação do deba- empresas, mercado financeiro, enti-
te público. dades de fomento, como Banco Na-
cional de Desenvolvimento Econô-
Agência CanalEnergia: mico e Social (BNDES), fabricantes,
os pontos cegos da cadeia etc.” (Idem). Note-se que represen-
“Tínhamos de conquistar engenhei- tantes de movimentos sociais não
ros, técnicos, executivos, governo, figuram na lista.
jornalistas, todos aqueles envolvidos Destacamos certos pontos das
com o setor.” Assim definiu Rodrigo falas acima para refletir sobre al-
Ferreira, fundador e diretor-execu- guns pressupostos da cobertura do
tivo do Grupo CanalEnergia, que CanalEnergia, nos próprios termos
abriga a Agência CanalEnergia, o de- de seus idealizadores. Temos, de
safio que se impunha nos primeiros princípio, que o veículo deve sua
passos do portal de notícias, criado existência a um convencimento de
em 2000, com base no Rio de Janei- empresas ligadas ao setor energé-
ro (Pires et al., [201?], grifo nosso). tico, que tornaram a aposta finan-
Júlio Santos, seu sócio, indica que o ceiramente viável – estão entre os
meio para tal conquista foi vender patrocinadores do portal empresas
às empresas a ideia de que elas, “na como Siemens, Odebrecht, Queiroz
posição de agentes do setor, preci- Galvão, BTG Pactual, CPFL Energia
savam investir em uma iniciativa e Thymos. Isso situa segmentos do
em prol da comunicação, informação setor empresarial em dois pontos
e debate para esse setor que come- do processo: como patrocinadores
çava a apontar para a competição” e como público consumidor do ma-
(Idem, grifo nosso). A empreitada te- terial produzido pelo portal. Essa
ria prosperado, complementa, pelo última posição, contudo, é dividida
esforço do canal com a “busca de com outros sujeitos, como jorna-
notícia em todos os pontos da cadeia” listas, órgãos ligados ao governo,
(Idem, grifo nosso). associações setoriais e demais inte-

Imprensa e barragens na bacia do Tapajós 229


ressados em acompanhar mais pro- fonte realizadas por repórteres da
ximamente a temática do setor de própria agência. A maior parte do
energia. Como atrativo, a promessa material pesquisado é constituída a
8. No jargão jornalístico, de um canal dedicado à “comuni- partir de press releases8 de empresas
press release é um
cação, informação e debate”, por ou notas veiculadas por assessorias
comunicado produzido
por órgãos do poder meio da “busca da notícia em todos de comunicação, quando de órgãos
público, empresas os pontos da cadeia”. ligados ao Executivo ou Judiciário.
e organizações não
governamentais, entre Os resultados da análise conduzi- Não foram registrados artigos
outros, e comumente da junto ao portal contradizem essa expressamente de opinião, seja de
transmitido a
jornalistas, com o
imagem que o CanalEnergia apresen- colaboradores ou do próprio corpo
objetivo de anunciar ta a seu público-leitor, apontando de editores do CanalEnergia. No en-
algo “noticiável”, para uma cobertura extremamente tanto, as reportagens, elaboradas
transmitindo a versão
oficial a esse respeito. aderente aos motivos discursivos frequentemente a partir da cober-
oficiais e pouco propícia ao debate tura de congressos e encontros do
de versões. É sem dúvidas o veículo chamado “setor energético”, legam
que menos abriu espaço ao campo significativo espaço para a exposi-
crítico às barragens. Por outro lado, ção de pontos de vista e análises de
tal como observado na cobertura conjuntura das fontes selecionadas.
do Valor, extensa parte da cobertura Nesse ponto, emerge um primeiro
do portal permite identificar a mo- aspecto que remete à reverberação
vimentação de setores econômicos de motivos discursivos oficiais na
diversos interessados direta ou indi- cobertura do CanalEnergia: a seleção
retamente nas barragens. Tais movi- de fontes. Cabe aqui refletir tanto
mentações no campo empresarial, sobre as fontes diretamente entre-
porém, como ocorre no Valor, não vistadas, no caso das poucas repor-
são apresentadas de forma contex- tagens, como também as origens de
tualizada com a discussão sobre as releases e notas, motivadores das ou-
decisões envolvidas nos projetos de tras notícias analisadas.
exploração hidrelétrica. No primeiro caso, tomando as
Para este artigo, foram analisa- onze matérias do CanalEnergia que
das 179 matérias, de um intervalo trataram da construção de usinas
de aproximadamente dois anos. A no Tapajós, destaca-se a participa-
leitura mostrou que pouco conteú- ção de fontes ligadas a empresas
do emana do próprio veículo. Den- do setor elétrico, a associações que
tre as 179 ocorrências, apenas oito articulam empresas desse setor ou
eram reportagens, textos que en- de escritórios de consultoria que
volviam entrevista de mais de uma trabalham junto a esses grupos.

230 Alarcon, Guerrero e Furuie


Nessa categoria, presente em todas dores dos canteiros ou a resistência
as matérias, estavam 55 das 78 fon- de indígenas, ribeirinhos e campo- 9. Registre-se que, no
cômputo das fontes
tes registradas (70% do total). Em neses, em atos públicos vários. Nes- ouvidas nessas 11
seguida, note-se a participação de ses casos, o discurso desses grupos matérias, figuraram
duas fontes ligadas a
fontes oriundas de representantes surge, no máximo, por intermédio
institutos de pesquisas
do governo, ouvidos 17 vezes (22% eventual dos MPs10. e um parlamentar.
do total), em nove das 11 matérias. Observa-se, assim, que o elen-
Apenas uma fonte de governo não co de fontes, diretas ou indiretas, 10. No CanalEnergia,
somente em uma
estava ligada ao MME, constituída desvia a cobertura do CanalEnergia matéria, entre o
por representante da Funai. Por fim, da busca da notícia em “todos os universo pesquisado,
a terceira categoria de fontes, com- pontos da cadeia” – ou, no míni- foi realizada entrevista
com representante
posta por entidades ligadas à defe- mo, o que se entende por “todos” e de organização da
sa do meio ambiente ou dos direi- por “cadeia”, sugerindo que alguns sociedade civil ligada
à defesa dos direitos
tos de grupos atingidos, participou grupos são alheios ao processo e ao dos povos indígenas.
com apenas três fontes registradas, debate. Trata-se de peça de 21
set. 2012, em que se
em somente três das 11 matérias, A reverberação dos motivos dis-
entrevista Saulo Feitosa,
compondo menos de 4% das fontes cursivos oficiais vai além, contudo, do Conselho Indigenista
ouvidas, de modo geral9. do espaço ocupado por opiniões de Missionário (Cimi).
Além de desaparecer no
Quando nos debruçamos sobre agentes do governo ou da recor- universo pesquisado,
a origem de notas e releases para as rência do material produzido pelas a fala ainda teve um
tratamento lamentável,
notícias do veículo, vemos que as assessorias de comunicação. Nossa
ao receber um adendo
fontes se repetem. Há os informes pesquisa sugere que o tratamento que, desv