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O Seminário, livro 6, O Desejo e sua Interpretação (1958-59)

Lição XV, de 18 de março de 1959, O Desejo da mãe, parte II

Hamlet é aquele que não sabe o que quer (p.300).

Eis o problema que se coloca para todos: Por que Hamlet não age? Por que esse will, esse
desejo, essa vontade, parece suspenso nele? Isso vai ao encontro, por assim dizer, do que
sir James Paget, citado por Jones, escreveu sobre a paralisia histérica: Uns dizem que ele
não quer, ele diz que não consegue; a questão é que ele não pode querer.

A tradição analítica diz que, nesse caso, tudo repousa no desejo pela mãe. Estando
recalcado, esse desejo é a causa que faz com que o herói não consiga avançar para
executar a ação que lhe foi ordenada, a saber, vingar-se de um homem que é o atual
possuidor, ilegítimo, e como!, já que criminoso, do objeto materno. E se ele não pode
atingir aquele designado para sua vindita, é porque ele mesmo já teria, em suma, cometido
o crime que tem de vingar.

[...] já que temos como pano de fundo a lembrança do desejo infantil pela mãe, do desejo
edipiano de assassinato do pai, Hamlet é de certo modo cúmplice do atual possuidor, que,
a seus olhos, é um beatus possidens. Por ser cúmplice, não pode, portanto, atacá-lo sem
atacar a si mesmo. Mas isso também poderia querer dizer - e esse mecanismo, em todo
caso, é mais perceptível na peça – que ele não pode atacar esse possuidor sem despertar
em si o antigo desejo, experimentado como culpado (p.301).

Será que não podemos dizer igualmente que tudo isso se inverte? Se Hamlet se atirasse
de primeira sobre seu padastro, diriam que encontra nisso a oportunidade de aplacar sua
própria culpa, situando o verdadeiro culpado fora dele (p. 301).

Para chamar as coisas pelo seu devido nome, Hamlet não age, embora tudo o leve a agir.
Primeiro, há o mandamento do supereu, de certo modo materializado por esse pai que
retorna do além na forma de um fantasma, para olhe ordenar esse ato vingativo [...]. Além
disso, viria trabalhar no mesmo sentido algo que poderíamos chamar, no caso, o desejo
natural de Hamlet [...] No fim das contas, nós o vemos movido por duas tendências, a
tendência imperativa, duplamente comandada pela autoridade do pai e pelo amor que lhe
devota, e a tendência a querer defender a mãe e guardá-la para si, que devem fazê-lo ir na
mesma direção: matar Cláudio. Como é que duas coisas positivas dariam como resutado:
zero? (p.302).

Há algo que torna o ato difícil para Hamlet, que torna sua tarefa repugnante para ele, que
o põe efetivamente numa posição problemática com relação a sua própria ação, e esse x
é seu desejo. O caráter impuro desse desejo cumpre o papel essencial, mas sem que
Hamlet o saiba. De certa maneira, é na medida em que sua ação não é desinteressada, não
está kantianamente motivada, que Hamlet não pode executar seu ato (p.302).

[...] não teremos com deixar de perceber que aquilo com que Hamlet tem de lidar, e o
tempo todo, aquilo com que se debate, é um desejo, mas que está muito longe de ser o
seu. Considerando-o ali onde está na peça, é o desejo não por sua mãe, mas de sua mãe
(p.303).

O Seminário, livro 10, A angústia (1962-63)

Lição III, de 28 de novembro de 1962, Do Cosmo à Unheimlichkeit, parte I

Este mundo tal como é, eis o que concerne à razão analítica, aquela a que o discurso de
Claude Lévi-Strauss tende a dar primazia. Com essa primazia, ele também lhe confere
uma homogeneidade afinal singular [...] (p. 42).

Ora, a dimensão da cena, em sua sepração do local – mundano ou não, cósmico ou não -
em que está o espectador, está aí para ilustrar a nossos olhos a distinção radical entre o
mundo e esse lugar onde as coisas, mesmo que sejam as coisas do mundo, vêm a se dizer.
Todas as coisas do mundo vêm colocar-se em cena segundo as leis do significante, leis
que de modo algum podemos tomar de imediato como homogêneas às do mundo (p.43).

Portanto, primeiro tempo, o mundo. Segundo tempo, o palco em que fazemos a montagem
desse mundo. O palco é a dimensão da história. A história tem sempre um caráter de
ficção (p.43).

Uma vez que o palco prevaleceu, o que acontece é que o mundo é inteiramente montado
nele [...] (p.43).
A partir daí, pode-se levantar a questão de saber o que o mundo, o que chamamos de
mundo no começo, com toda a inocência, deve ao que lhe é devolvido por esse palco.
Tudo o que temos chamado de mundo ao longo da história deixa resíduos superpostos,
que se acumulam sem se preocupar minimamente com as contradições. O que a cultura
nos veicula como sendo o mundo é um empilhamento, um depósito de destroços de
mundos que se sucederam e que, apesar de serem incompatíveis, não deixam de se
estender muito bem no interior de todos nós (p.13, grifo nosso).

Isso que acreditamos lidar como mundo, será que não são simplesmente os restos
acumulados do que provinha do palco, quando ele estava, se assim posso me expressar,
em turnê? (p.44).