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Rosélia Maria de Sousa Santos

José Ozildo dos Santos


(organizadores)

ADMINISTRAÇÃO &
GESTÃO PÚBLICA

Patos - PB
2017
ADMINISTRAÇÃO &
GESTÃO PÚBLICA
Rosélia Maria de Sousa Santos
José Ozildo dos Santos
(organizadores)

ADMINISTRAÇÃO &
GESTÃO PÚBLICA

Patos - PB
2017
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Ficha Catalográfica
Catalogação na Fonte

Santos, José Ozildo dos. Administração &


GestãoPública. / José Ozildo dos Santos;
Rosélia Mariade Sousa Santos. - Campina
Grande - PB, Grupo de Estudos Sociais,
Econômicos e Ambientais – GESEA, 2017.
140p.

E-book

1. Administração. 2. Gestão Pública. 3. Inovações e


Resultados. I. Título.

CDU: 616-083

Francisco das Chagas Leite, Bibliotecário. CRB -15/0076


APRESENTAÇÃO
Profª. Rosélia Maria de Sousa Santos

Significativos foram os avanços registrados nos últimos anos no campo da


Administração e da Gestão Pública. Novos métodos e técnicas de planejamento
foram desenvolvidos, colocando de lado o chamado planejamento tradicional.
E, cada vez mais, essas inovações vêm se consolidando, mostrando-se mais
apropriadas para a condução dos negócios da administração empresarial e para
a gestão do patrimônio público.
Atualmente, no campo da iniciativa privada, existe uma maior preocupação
com o gerenciamento das cadeia de suprimentos. As organizações empresariais,
visando se consolidar no mercado, vêm desenvolvendo esforços no sentido de
se tornarem mais competitivas, privilegiando a qualidade de seus produtos e
serviços, buscando formas de conquistarem e fidelizarem novos clientes.
Assim, impulsionadas pelas exigências do mercado, tais organizações
procuram conduzir de forma cuidadosa o gerenciamento de seus estoques.
Através de parcerias com seus fornecedores, estruturam grandes cadeias de
suprimentos, ampliando cada vez o conceito de logística.
Hoje, diferentemente do que ocorria no passado, o planejamento se faz
presente em todos os setores das organizações empresariais, principalmente,
no setor produtivo. Por outro lado, a competitividade imposta pelo mercado
globalizado vem exigindo que tais organizações também façam uso das
estratégias de marketing, objetivando dar aos seus produtos e serviços uma maior
visibilidade, na esperança de que estes conquistem a aceitação do consumidor,
que a cada dia se torna mais exigente.
Se o cenário administrativo mudou no âmbito das organizações empresariais,
grandes avanços também foram registrados na condução da Gestão Pública.
Caracterizada por muito tempo como sendo patrimonialista, esta vem se
modernizando e hoje se apresenta como sendo gerencial, adotando métodos,
técnicas e ferramentas antes restritas ao setor empresarial.
Em sua nova concepção, a Gestão Pública procura conduzir-se pelo
cumprimento dos princípios constitucionais, que devem ser aplicáveis a todos os
seus atos. Hoje, exige-se um gestor público empreendedor, aberto às mudanças
e compromissado com a coisa pública. Deve-se registrar que a preservação do
patrimônio cultural e do meio ambiente também vem se constituindo em uma
preocupação do gestor público.
Por outro lado, também em cumprimento aos princípios constitucionais, a
Gestão Pública vem buscando construir parcerias, ampliando os espaços para
a participação da sociedade, principalmente, nos processos de construção das
políticas públicas e do orçamento participativo.
Essa crescente participação da sociedade tem permitido que seja colocado
em prática pela administração pública os processos de avaliação das políticas
governamentais. E isto tem possibilitado a melhoria da qualidade da formulação
e da execução das políticas públicas no país.
Tal cenário de transformações administrativas é assunto cada vez mais
presente nas discussões que se desenvolvem no contexto acadêmico. E, nessa
direção, este livro se propõe a contribuir com tal debate. Assim, dividido em duas
partes, em sua primeira unidade, esta obra enfoca o cenário das organizações
empresariais, principalmente, no que diz respeito às cadeias de suprimentos,
ao gerenciamento de estoques, ao planejamento financeiro e ao marketing de
relacionamento. E, na segunda, trata da Gestão Pública, enfatizando temas com
licitações, urbanismo, preservação do patrimônio cultural, participação social e
governabilidade democrática, dentre outros.
Sumário
PARTE I

CAPÍTULO I - A importância das cadeias de suprimentos 3


José Ozildo dos Santos, Rosélia Maria de Sousa Santos, Douglas da Silva
Cunha, José Rivamar de Andrade, Patrício Borges Maracajá

CAPÍTULO II - A importância do gerenciamento de estoque no


âmbito das organizações 17
José Ozildo dos Santos, Rosélia Maria de Sousa Santos, José Rivamar de
Andrade, Douglas da Cunha Silva, Patrício Borges Maracajá

CAPÍTULO III - Uma abordagem sobre o gerenciamento da cadeia


de suprimentos 31
Rosélia Maria de Sousa Santos, José Ozildo dos Santos, José Rivamar de
Andrade, Douglas da Cunha Silva, Patrício Borges Maracajá

CAPÍTULO IV - A importância do planejamento financeiro no


âmbito empresarial 43
José Ozildo dos Santos, Rosélia Maria de Sousa Santos, Rafael Chateaubriand
de Miranda , Iluskhanney Gomes de Medeiros Nóbrega, José Rivamar de
Andrade, Douglas da Cunha Silva

CAPÍTULO V - A importância do marketing de relacionamento 53


Juliana Gomes de Melo, Mônica Justino da Silva, Rosélia Maria de Sousa
Santos, José Ozildo dos Santos, Patrício Borges Maracajá

PARTE II

CAPÍTULO VI - Licitações públicas: Modalidades e princípios


aplicáveis 63
José Ozildo dos Santos, Rosélia Maria de Sousa Santos, José Rivamar de
Andrade, Douglas da Cunha Silva

CAPÍTULO VII - O princípio da igualdade do direito urbanístico 75


Rosélia Maria de Sousa Santos, José Ozildo dos Santos, Douglas da Cunha
Silva, José Rivamar de Andrade
CAPÍTULO VIII - O papel do agente público na preservação do
patrimônio cultural 85
Rosélia Maria de Sousa Santos, José Ozildo dos Santos, Iluskhanney
Gomes de Medeiros Nóbrega de Miranda, José Rivamar de Andrade, Rafael
Chateaubriand de Miranda, Douglas da Silva Cunha

CAPÍTULO IX - Sociedade e participação: A construção do orçamento


participativo 93
Rosélia Maria de Sousa Santos, José Ozildo dos Santos, Rafael Chateaubriand
de Miranda, Iluskhanney Gomes de Medeiros Nóbrega Miranda, José Rivamar
de Andrade, Douglas da Silva Cunha

CAPÍTULO X - Uma abordagem sobre o processo de urbanização no


Brasil 103
Rosélia Maria de Sousa Santos, José Ozildo dos Santos, José Rivamar de
Andrade, Douglas da Silva Cunha, Jessiane Dantas Fernandes

CAPÍTULO XI - Gestão Pública: Normatização, fiscalização da


qualidade dos alimentos, prevenção e cuidados com a saúde pública 115
Rosélia Maria de Sousa Santos, José Ozildo dos Santos, Douglas da Silva
Cunha, José Rivamar de Andrade

CAPÍTULO XII - A globalização e seus efeitos sobre a governabilidade


democrática 131
Rosélia Maria de Sousa Santos, José Ozildo dos Santos, Iluskhanney Gomes
de Medeiros Nóbrega, Rafael Chateaubriand de Miranda, Jessiane Dantas
Fernandes
PARTE I
A importância das cadeias
de suprimentos
José Ozildo dos Santos
Rosélia Maria de Sousa Santos
Douglas da Silva Cunha
José Rivamar de Andrade
Patrício Borges Maracajá

1 Introdução
Atualmente, a logística se apresenta como sendo algo vital para o sucesso da
organização, que já incorporou essa nova visão empresarial, que tem como meta
a satisfação de seu cliente, desenvolvendo os esforços necessários para que ele,
no tempo desejado, receba seus bens ou serviços, na forma solicitada e no local
especificado. E, mais, pelo preço desejado.
Quando se fala nas atividades “voltadas para administrar o fluxo de
materiais e de informações relacionadas com esse fluxo ao longo da cadeia
de suprimentos”, está se falando em logística (BARBIERI; MACHLINE, 2006,
p. 3), que no contexto atual, vem ganhando cada vez mais importância, face
à necessidade que as organizações possuem de constantemente reporem seus
estoques, visando manter o nível operacional de suas atividades.
Vários autores, a exemplo de Viana (2002, p. 47), mostram que toda e qualquer
organização, para ter êxito, necessita “atingir o equilíbrio ideal entre estoque e
consumo” e esta deve ser a sua meta primordial.
Acrescenta ainda Viana (2002), que para atingir esse ponto, necessariamente,
exige-se “o estabelecimento de normas, critérios e rotinas operacionais, de forma
que todo o sistema possa ser mantido harmonicamente em funcionamento”.
Em síntese, essa necessidade mostra o quanto é importante o gerenciamento
da cadeira de suprimentos e do estoque em toda em qualquer organização, que
busca o êxito em suas atividades e prima pela satisfação do cliente.
Diante do exposto, o presente trabalho, no qual se adotou como procedimento
metodológico a pesquisa bibliográfica, tem como objetivo mostrar a importância
das cadeias de suprimentos.

2 Revisão de Literatura
2.1 Logística Empresarial
Quando se discute o gerenciamento da cadeia de suprimentos (CS), é
praticamente impossível se deixar de lado o termo ‘logística’. Assim sendo, para
José Ozildo dos Santos et al.

que haja um melhor entendimento, é de suma importância que, num primeiro


momento, promova-se alguns comentários sobre a logística empresarial,
considerada com sendo, na atualidade “a responsável pelo sucesso ou insucesso
das organizações” (FERRAES NETO; KUEHNE JUNIOR, 2002, p. 39).
O termo ‘logística’ é amplamente abordado no campo da administração
empresarial, de forma que vários autores apresentam suas definições para o
referido termo, que possui origem no vocábulo francês logistique,
De acordo com Ballou (2009, p. 17):

A logística empresarial estuda como a administração


pode prover melhor nível de rentabilidade nos serviços
de distribuição aos clientes e consumidores, através de
planejamento, organização e controle e efetivos para as
atividades de movimentação e armazenagem que visam
facilitar o fluxo de produtos.

A definição acima apresentada permite o entendimento de que a Logística


Empresarial é parte da Cadeia de Suprimentos, que possui a missão de planejar
e ao mesmo tempo de controlar o fluxo e a armazenagem de bens, serviços e
informações numa organização.
A definição amplamente divulgada é aquela elaborada pelo Council of
Logistics Management, que conceitua a logística como sendo:

[...] a parte do Gerenciamento da Cadeia de


Abastecimento que planeja, implementa e controla o fluxo
e armazenamento eficiente e econômico de matérias-primas,
materiais semiacabados e produtos acabados, bem como as
informações a eles relativas, desde o ponto de origem até o
ponto de consumo, com o propósito de atender às exigências
dos clientes (CLM apud FERRAES NETO; KUEHNE JUNIOR,
2002, p. 40).

A logística embora seja vista como sendo a chave para muitos negócios,
representa um alto custo nas operações existentes nas cadeias de abastecimento.
Apesar disto, a atividade logística encontra-se presente em vários pontos da
organização. No que diz respeito à correta aplicação, esta constitui um requisito
necessário para o bom desempenho de todas as atividades levadas a cargo por
parte de uma organização.
Bowersox (2003) afirma que é de competência da logística todas as atividades
que dizem respeito à coordenação das áreas funcionais da empresa.
É importante destacar que quando se fala em as áreas funcionais, está se
relacionando as etapas de avaliação de um projeto de rede, a localização das
instalações, o sistema de informação, o transporte, o estoque e a armazenagem
do produto, criando as condições para o estabelecimento de valor para o cliente,
4
A importância das cadeias de suprimentos

em relação ao produto. A Figura 1 apresenta os elementos que dão escopo ao


conceito moderno de logística empresarial.
Analisando a Figura 1, constata-se que os itens Produto e Praça/Serviço ao
Cliente, encontram-se correlacionado às estratégias de marketing, enquanto
os diferentes custos dizem respeito à logística, estando estes interligados às
estratégias de marketing.
Segundo Pozo (2004, p.14):

A logística nas empresas estuda como a administração


pode prover melhor nível de rentabilidade no processo de
pleno atendimento do mercado e a satisfação completa ao
cliente, com retorno garantido ao empreendedor, através
de planejamento, organização e controles efetivos para as
atividades de armazenagem, programas de produção e
entregas de produtos e serviços com fluxos facilitadores
do sistema organizacional e mercadológico. A logística é
uma atividade vital para a organização, trata de todas as
atividades de movimentação e armazenagem que facilitam
o fluxo de produtos desde o ponto de aquisição da matéria-

Fonte: Fleury; Wanke; Figueiredo (2000)


Figura 1. Conceito moderno de Logística Empresarial
5
José Ozildo dos Santos et al.

prima até o ponto de consumo final, assim como fluxos de


informações que colocam os produtos em movimento, com
o propósito de providenciar níveis de serviço adequados aos
clientes a um custo razoável.

É importante também destacar que a palavra logística representa a junção


das seguintes atividades de aquisição, movimentação, armazenagem e entrega
de produtos, que são consideradas básicas numa organização (FERRAES NETO;
KUEHNE JUNIOR, 2002).
No entanto, o funcionamento dessas atividades é complexo e exigem um
completo planejamento logístico, podendo ser de materiais ou de processos,
desde que estejam relacionadas intimamente às funções de manufatura e
marketing.
Ballou (2009) também afirma que a função da Logística é composta pelas áreas
de transportes, estoques e de localização, acrescentando que conjuntamente, em
um nível de serviço especificado, todas têm por objetivo atender o cliente.
Entretanto, na visão de Christopher (2009, p. 39):

Logística é o processo de gerenciamento estratégico


da compra, do transporte e da armazenagem de matérias-
primas, partes e produtos acabados (além dos fluxos de
informações relacionados) por parte da organização e de seus
canais de marketing, de tal modo que a lucratividade atual e
futura seja maximizada mediante a entrega de encomendas
com o menor custo associado.

Partindo desse conceito, pode-se dizer que logística é um processo de


gerenciamento de compra (gestão de fluxo), que também visa criar valor para
o cliente, ao mesmo tempo, ela pode ser vista com algo que procura diminuir o
hiato entre a produção e a demanda, proporcionando aos consumidores bens e
serviços, independentemente do tempo e do local.
De acordo Bowersox (2003) a logística é única, pois ocorre a todo instante no
mundo. Poucas áreas de operações envolvem a complexidade, a abrangência e o
escopo geográfico característico da logística.
Dentro de uma outra visão, Pozo (2004, p. 13) afirma que:

A logística trata de todas as atividades de movimentação


e armazenagem que facilitam o fluxo de produtos desde o
ponto de aquisição da matéria-prima até o ponto de consumo
final, assim como dos fluxos de informação que colocam os
produtos em movimento, com o propósito de providenciar
níveis de serviço adequados aos clientes a um custo razoável.

O estudo da logística permite mostrar a organização como ela deve promover


um melhor nível de rentabilidade nos serviços de distribuição direcionados
6
A importância das cadeias de suprimentos

aos clientes e consumidores. Para alcançar esse objetivo, a logística orienta a


organização a planejar, organizar e controlar de forma efetiva as atividades de
movimentação e armazenagem, objetivando facilitar o fluxo de produtos.
Na concepção de Pires (1998), a logística engloba:
a) as mercadorias acabadas e informações relacionadas do ponto de origem
ao ponto de consumo.
b) o estoque circulante;
c) o processo de planejamento, implementação e controle da eficiência;
d) os custos efetivos de fluxos e estoque de matéria-prima;

É importante destacar que todos esses fatores que integram à logística,


tem por finalidade expressa o atendimentos dos requisitos estabelecidos pelos
clientes. Noutras palavras, é observando os fatores acima relacionados que as
organizações conseguem suprirem as necessidades de sua clientela.
Complementando esse pensamento, Novaes (2003) afirma que na atualidade,
a logística preocupa-se integrar os setores da empresa, bem como estabelecer
parcerias com fornecedores e clientes, tudo isto com foco no atendimento das
necessidades e preferências dos consumidores finais.
De acordo com Coronado (2007), utilizando-se da logística, a empresa pode
vários ganhos, dentre os quais, os principais são:
a) entregas mais rápida de acordo com a demanda; redução dos custos
operacionais;
b) aumento da produtividade;
c) aumento no giro de mercadorias e redução de estoques;
d) redução de perdas.

Por outro lado, é importante destacar que no interior das organizações, as


atividades primárias exercem um papel de significativa importância, sendo
responsáveis pela concretização dos objetivos logísticos, contribuindo também
para a coordenação da tarefa logística.
De acordo com Ballou (2009), tais atividades primárias são as seguintes:
a) transportes;
b) manutenção de estoques;
c) processamento de pedidos.

O Quadro 1 apresenta as atividades primárias responsáveis pela concretização


dos objetivos logísticos.
É importante destacar que as atividades apresentadas no Quadro 1 são
fundamentais para as organizações, porque permitem que as mesmas cumpram
melhor a sua missão. Deve-se também registrar que além das atividades
primárias existem aquelas consideradas como sendo de apoio ou adicionais,
responsáveis por oferecer suporte às primarias, contribuindo, assim, para que
estas últimas, atinjam seus objetivos.
O Quadro 2 apresenta, de forma sucinta, as descrições das diferentes
atividades consideradas de apoio.
7
José Ozildo dos Santos et al.

Quadro 1. Atividades primárias responsáveis pela concretização dos objetivos


logísticos
ATIVIDADES DESCRIÇÃO
É a atividade logística mais importante, pois
nenhuma
rma moderna pode operar sem
Transportes providenciar a movimentação de suas matérias-
primas ou de seus produtos acabados de alguma
forma.
É a atividade para atingir-se um grau razoável de
Manutenção
disponibilidade do produto em face de sua
de estoques
demanda.
É uma atividade logística primária, sendo
Processamento responsável por dá partida ao processo de
de pedidos movimentação de materiais e produtos bem como a
entrega desses serviços.
Fonte: Ballou (2009), adaptado.

Quadro 2. Diferentes atividades de apoio à logística


ATIVIDADES DESCRIÇÃO
Refere-se à administração do espaço necessário para
Armazenagem
manter estoques.
Está associada com a armazenagem e também apoia
Manuseio a manutenção de estoques, encontrando-se
de materiais relacionada à movimentação do produto no local de
estocagem.
Possibilita a movimentação dos bens, sem, contudo,
Embalagem danicá-los, facilitando o manuseio e
proporcionando uma armazenagem ecientes.
É a atividade que proporciona ao produto car
disponível, no momento exato, para ser utilizado
Suprimentos
pelo sistema logístico, constituindo-se numa área
importantíssima de apoio logístico.
É a base que servirá de informação à programação
detalhada da produção dentro da fábrica,
Planejamento
constituindo-se no o evento que permitirá o
cumprimento dos prazos exigidos pelo mercado.
São as informações necessárias de custo,
procedimentos e desempenho essenciais para correto
Sistema
planejamento e controle logístico, permitindo o
de informação
sucesso da ação logística dentro de uma organização
para que ela possa operar ecientemente.
Fonte: Ballou (2009), adaptado.
8
A importância das cadeias de suprimentos

A análise dos Quadros 1 e 2 permite compreender melhor o conceito de


logística. De forma estratégica, ela promove a aquisição, gerencia a movimentação
e a armazenagem de materiais, peças e produtos acabados, utilizando-se de um
fluxo de informações, que também permite um melhor atendimento dos pedidos
formulados pelos clientes, gerando para estes satisfação tanto pela presteza no
atendimento quanto pelo fornecimento de bens a baixo custo.
Dissertando ainda sobre a estruturação da Logística empresarial, Ballou
(2009) afirma que a esta comporta:
a) suprimento físico (administração de materiais);
b) distribuição física.

A Figura 2 representa a Logística Empresarial, na ótica de Ballou (2009).


Partindo do demonstrado pela Figura 2, a Logística Empresarial envolve
transporte, manutenção de estoque, processamento de pedidos, obtenção,
embalagem protetora, armazenagem, manuseio de materiais e manutenção de
informações.
Por outro lado, Campos e Brasil (2009) afirmam que a definição atual de
Logística Empresarial se encontra firmada nos seguintes pontos:
a) ampliação para bens e serviços o que antes era designado como matéria-
prima, estoque em processo e produto acabado;
b) reconhecimento da armazenagem;
c) reconhecimento da logística como parte da cadeia de suprimentos;
d) reconhecimento do fluxo reverso;

Analisando esses pontos que estruturam o conceito de Logística, percebe-se


que o mesmo se encontra ligado de forma muito intima à palavra fluxo, dando,

Fonte: Ballou (2009, p. 19).


Figura 2. Escopo da Logística Empresarial
9
José Ozildo dos Santos et al.

portanto, uma ideia de movimentação/transporte de materiais. Na medida em


que os meios de transportes iam se desenvolvendo, a logística empresarial ia se
modernizando.
Ao longo desse processo de evolução, ela manteve a sua essência que é
dispor do produto, atendendo o cliente e satisfazendo-o, sendo, portanto,
uma condição necessária para a sobrevivência das organizações empresariais
(CAMPOS; BRASIL, 2009).
No entanto, não existe consenso quanto à época exata do surgimento da
logística. Souza (2002), afirma que suas origens datam do século XVIII, quando,
durante o reinado de Luiz XIV, existia o posto de ‘General de Logis’, cuja missão
era transportar o material bélico para as batalhas e supri-lo.
Para Kunrath (2007), a logística remonta aos tempos bíblicos e também está
ligada ao transporte e suprimento dos armamentos e tropas, durante os períodos
de guerras.
Com o tempo, as mudanças ocorridas no interior das empresas mostraram
a necessidade de se planejar e organizar a distribuição dos produtos. E, que era
necessário verificar como armazena-los para suprir o mercado ao seu tempo.
Assim, a logística foi incorporada à atividade empresarial.
No entanto, embora desde o início do século XX a logística faça parte do
cotidiano das empresas, somente no início da década de 1990 foi que ela adquiriu
a sua atual concepção, tornando-se “uma função empresarial orientada para o
atendimento de níveis de serviço previamente estabelecidos” (GEORGES, 2010,
p. 3).
Entretanto, Ballou (2009) afirma que a evolução da logística pode ser dividida
nos seguintes períodos:
a) primeiro trata do período antes do surgimento da Segunda Guerra
Mundial;
b) segundo inicia-se após a Segunda Guerra Mundial e se estende até 1970;
c) terceiro tem início em 1970 e se estende até os dias de hoje.

É importante destacar que quando de seu surgimento, a logística possui seu


foco inteiramente voltado para o processo de armazenagem e para os transportes.
Atualmente, após a evolução verificada no conceito de logística, esta vem sendo
tratada como distribuição física, existindo o entendimento de que armazenagem
e transportes encontra-se relacionado à operação logística.

2.2 Cadeias de suprimentos: Conceito e evolução


O conceito de cadeia de suprimento (CS) é recente e embora tenha surgindo
nos primeiros anos da década de 1980, somente na década seguinte ganhou
notoriedade, consolidando-se como disciplina acadêmica e prática empresarial,
no início do atual século, estando sua origem associada ao conceito de Logística
(GEORGES, 2010).
Chopra e Meindl (2004) afirmam que uma cadeia de suprimento congrega os
diferentes estágios envolvidos, direta ou indiretamente, no atendimento de um
pedido formulado por um cliente.
10
A importância das cadeias de suprimentos

Campos e Brasil (2009, p. 16) completando esse pensamento afirmam que “a


cadeia de suprimentos abrange várias outras partes, ou seja, ela é considerada
num enfoque global/geral como visão estratégica”.
Uma cadeia de suprimentos constitui-se numa rede de vários negócios e
relações, abrangendo outras funções, além da logística e envolve várias empresas.
De acordo com Christopher (2009, p. 17), uma cadeia de suprimentos
“representa uma rede de organizações, através de ligações nos dois sentidos dos
diferentes processos e atividades que produzem valor na forma de produtos e
serviços que são colocados nas mãos do consumidor final”.
Poirier e Reiter (1997), afirma que uma cadeia de suprimentos (supply chain)
constitui um sistema, através do qual, empresas e organizações entregam
produtos e serviços aos seus consumidores, seguindo uma rede de organizações
interligadas.
Slack; Chambers e Johnston (2002, p. 415) apresentam a cadeia de suprimento
como sendo:

A gestão da interconexão das empresas que se relacionam


por meio de ligações à montante e à jusante entre os diferentes
processos, que produzem valor na forma de produtos e
serviços para o consumidor final. A cadeia de valor centra-
se em dois objetivos chaves: satisfazer efetivamente os
consumidores e fazer isso de forma eficiente.

O conceito de cadeia de suprimento é tido como complexo. Até mesmo no


âmbito internacional, encontra-se ainda em construção, o que tem contribuído
para limitar a sua implementação com sucesso por parte de um número maior
de empresas. É importante destacar que a cadeia de suprimento não é formada
apenas fabricantes e fornecedores. Dela também fazem transportadoras,
depósitos, varejistas, bem com os clientes. Ela é uma rede de vários negócios e
relações, abrangendo outras funções, além da logística e envolve várias empresas.
Souza, Carvalho, Liboreiro (2006) acrescentam que a cadeia de suprimentos
resume-se a um conjunto de instalações dispersas geograficamente interagindo
entre si, no qual se destacam as instalações:
a) centros de distribuição;
b) estoque em trânsito;
c) fornecedores de matéria-prima;
d) plantas produtivas;
e) produtos acabados entre as instalações
f) produtos intermediários;
g) varejistas.

A preocupação básica da cadeia de suprimentos diz respeito a três itens:


produção, distribuição e vendas de produtos físicos. No entanto, para poder
cumprir o seu papel ela necessita do conjunto de instalações acima apresentado,
11
José Ozildo dos Santos et al.

funcionando devidamente, estabelecendo entre si, sólidas interações. Sem o


funcionamento correto dessas instalações não se pode fazer em sucesso por
parte da cadeia de suprimento.
Por outro lado, a concretização dos objetivos formulados proporciona o
surgimento de novos potenciais entre as partes que integram a cadeia produtiva,
fortalecendo as condições para um atendimento eficiente ao consumidor final, e
mais, reduzindo custos e adicionando de mais valor aos produtos finais.
A análise da Figura 3 possibilita um melhor entendimento desse processo,
uma vez que ilustra a composição e o funcionamento da cadeia de suprimentos.
Com base na Figura 3, pode-se constatar que as fontes abastecem os
fornecedores de matéria prima, que a repassam para os processadores,
responsáveis pelo setor produtivo, que, por sua transferem o produto aos
distribuidores. Estes últimos são responsáveis pelo abastecimento dos varejistas,
que atendem as necessidades do consumidor final.
Para a concretização de cada etapa desse processo, exige-se recursos/
investimentos, permitindo a captação de informações que serão utilizadas por
cada um dos componentes da cadeia de suprimentos, possibilitando, assim, um
melhor funcionamento da referida cadeia sempre com foco no atendimento das
necessidades/exigências do consumidor final.
Explica Christopher (2009), que no interior da organização, a cadeia de
suprimento inclui:
a) desenvolvimento de novos produtos;
b) distribuição;
c) finanças;
d) marketing;
e) operações;
f) serviço de atendimento ao cliente, etc.

Assim sendo, constata-se que uma cadeia de suprimento possui uma estrutura
dinâmica, pois envolve um fluxo constante de informações, produtos e recursos

Fonte: RODRIGUES; SANTIN, 2004.


Figura 3. Composição e funcionamento da cadeia de suprimentos
12
A importância das cadeias de suprimentos

financeiros. Ela é formada por diferentes elos que encontram-se interligados


entre si, interagindo.
A Figura 4 apresenta a estrutura de uma cadeia de suprimentos.
Com base na Figura 4, uma cadeia de suprimentos possui dois lados:
fornecimento e demanda. E, que no primeiro lado, encontram-se os fornecedores
de primeira e de segunda camada, enquanto que no segundo lado, ou seja, para
que se destinam os produtos/serviços, encontram-se os clientes de primeira e de
segunda camada.
O primeiro lado é composto por grupos de fornecedores de primeira camada
que se relacionam diretamente com a empresa. Por sua vez, os fornecedores
de primeira camada são supridos pelos chamados fornecedores de segunda
camada. Algo inverso ocorre em relação aos clientes, conforme demonstrado na
Figura 4: os chamados clientes de primeira linha embora mantenham contato
direto com a unidade produtiva, suprem os clientes de segunda linha.
Afirmam Lambert et al. (2001) que raramente uma empresa participa de uma
cadeia de suprimentos, de forma que as cadeias de suprimentos se apresentam
como verdadeiras árvores ramificadas.
Por outro lado, informam Campos e Brasil (2009), que uma cadeia de
suprimentos é composta por:
a) Membros primários: são empresas ou unidades de negócio que executam
atividades (operacional o gerencial), que agregam valor ao longo da Cadeia de
suprimentos de determinado produto ou serviço.

Fonte: Slack; Chambers; Johnston (2002), adaptado.


Figura 4. Estrutura de uma cadeia de suprimentos
13
José Ozildo dos Santos et al.

b) Membros de apoio: são empresas ou unidade de negócios que fornecem


recursos e conhecimento, suportando os membros primários da cadeia de
suprimento, mas que não participam diretamente no processo de agregação de
valor.

No entanto, é oportuno destacar que uma empresa, simultaneamente, num


determinado processo de negócios na cadeia de suprimento, pode realizar
atividades primárias e noutro ser um membro de apoio.

3 Considerações Finais
No cenário atual, as organizações empresariais encontram-se diante de
um mercado cada vez mais competitivo, que lhe impõe grandes desafios,
principalmente, no que diz respeito à satisfação do cliente. No mundo
globalizado, a sobrevivência de qualquer negócio reside, principalmente, na
missão de manter clientes. E, essa realidade tem produzido profundas mudanças
nas organizações, principalmente, no que diz respeito à gestão de seus negócios.
É importante destacar que além das chamadas exigências básicas, aquelas
que impõem à empresa a obrigação de se adequar ao mercado, existem também
as necessidades dos clientes, que se ampliam e se renovam constantemente.
Estas, adicionadas às dinâmicas provocadas pelo desenvolvimento tecnológico,
vêm exigindo que as empresas tornem-se mais competitivas, modificando
profundamente o seus processos de gestão operacional, objetivando a eficiência
e buscando eliminar os desperdícios.
Nesse novo enfoque, as organizações também vêm se preocupando com as
várias atividades que envolvem a sua cadeia de suprimento, principalmente, em
relação às interações por esta produzidas. Diante dessa necessidade, a cadeia de
suprimento vem sendo reconhecida como um fator de vantagem competitiva,
beneficiando aquelas organizações que a utilizam de forma estratégica.
Por sua vez, a demanda afeta todos os processos realizados no interior de
uma organização. É no atendimento à demanda onde encontra-se a contribuição
maior da cadeia de suprimentos, cuja área se preocupa não somente com as
estimativas e pedidos, mas também com o que a organização deve fazer para
atender e satisfazer as necessidades de seus clientes. Desta forma, constata-se
que as atividades desenvolvidas pela cadeia de suprimento (desenvolvimento
do produto, distribuição, marketing, etc.) têm que obedecerem a uma ordem
bem definida, para que produza os resultados desejados, possibilitando, no
final, a satisfação do cliente.

4 Referências
BALLOU, R. H. Logística empresarial: transporte, administração de materiais,
distribuição física. São Paulo: Atlas, 2009.
BARBIERI, J. C.; MACHLINE, C. Logística hospitalar: Teoria e prática. São
Paulo: Saraiva, 2006.
14
A importância das cadeias de suprimentos

BOWERSOX, D. Logística empresarial: o processo de integração da cadeia de


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2002.

15
A importância do gerenciamento
de estoque no âmbito das organizações
José Ozildo dos Santos
Rosélia Maria de Sousa Santos
José Rivamar de Andrade
Douglas da Cunha Silva
Patrício Borges Maracajá

1 Introdução

A Logística pode ser entendida como sendo uma operação integrada para
cuidar de suprimentos e distribuição de produtos de forma racionalizada.
Assim sendo, Logística é planejamento, coordenação e execução do processo,
voltado para a redução de custos e para o aumento da competitividade de uma
organização.
Viana (2002) ressalta que a logística pode ser entendida como sendo uma
ferramenta fundamental a ser utilizada para produzir vantagens competitivas
e a administração de materiais, de forma que o sucesso do gerenciamento de
materiais nas organizações encontra-se correlacionado à aplicabilidade dos
conceitos logísticos.
Pozo (2004) afirma que a logística é vital para o sucesso de uma organização,
pois é uma nova visão empresarial que direciona o desempenho das empresas,
tendo como meta a satisfação do cliente, de modo que ele receba seus bens ou
serviços no momento que desejar, com suas especificações predefinidas, o local
especificado e, principalmente, o preço desejado.
É oportuno destacar que o objetivo fundamental da administração de
materiais consiste em determinar quando e quanto adquirir. Noutras palavras,
utiliza-se a administração de materiais para definir quando o estoque deve ser
reposto e que percentual. Para tanto, utiliza-se de estratégia do abastecimento
que sempre são acionadas pelo usuário, que é o consumidor.
Quando o assunto é produção e logística, existe sempre uma preocupação com
a demanda do mercado. É nesse contexto que surge a necessidade de controle/
gerenciamento do estoque. A organização precisa saber se terá condições de
atender a demanda existente no mercado, principalmente, quanto ao tempo
[prazo de entrega dos produtos]. Assim, para assumir o compromisso diante do
consumidor, a organização precisa possuir um completo gerenciamento de seus
estoques.
José Ozildo dos Santos et al.

O presente artigo tem por objetivo apresenta a importância do gerenciamento


de estoque para a empresa. Num primeiro momento, focaliza-se a administração
de materiais. Num segundo momento, conceitua estoque e apresenta-se suas
diferentes classificações, para logo em seguida mostrar como se desenvolve o
gerenciamento de estoque numa organização.

2 Revisão de Literatura

2.1 Administração de materiais


Na prática, a administração de materiais visa satisfazer às necessidades dos
sistemas de operação, de forma que sempre que bens necessários não estão
disponíveis no instante correto para atender às necessidades de produção ou
operação, é possível perceber com melhores detalhes a importância da boa
administração de materiais.
Na concepção de Ballou (2009), boa administração de materiais diz respeito a
uma melhor coordenação da movimentação de suprimentos de uma organização,
suprindo-a como o material certo, no local de operação certo, no instante correto
e em condição utilizável ao custo mínimo.
Assim, sem a completa observância desses requisitos não há como se falar
em boa administração de materiais. Em síntese, a missão da administração de
materiais é abastecer/suprir a organização com os materiais que ele necessita,
tendo-se a preocupação de se constituir o elo forte entre a empresa e fornecedores
de materiais.
Em relação à escolha do material certo, torna-se necessária a realização de um
conjunto de atividades, que pode ser denominadas genericamente de seleção e
classificação de materiais. A seleção dos materiais deve ser efetuada mediante
uma administração que seja capaz de explicitar as divergências e alcançar um
razoável consenso entre os diferentes atores envolvidos.
Barbieri e Machline (2006) vão mais além e afirmam que é também objetivo
da boa administração de materiais, atender o cliente certo, com o material certo
e nas quantidades e momentos certos, procurando sempre identificar quais as
melhores condições para a organização.
Vista como sendo uma área muito abrangente, a administração de materiais
se dedica ao gerenciamento de todo tipo de ativo da empresa.
De acordo com Pozo (2004), a administração de materiais se preocupa com:
a) os imóveis;
b) os materiais para projeto de expansão fabril;
c) os produtos de consumo próprio;
d) os produtos em estoque que tem a finalidade de distribuição aos clientes;
etc.

Desta forma, percebe-se que a administração de materiais constitui-se numa


área que se relaciona com diversas outras áreas dentro da organização (vendas,
produção, finanças, etc.). Completando esse pensamento, afirma Ballou (2009),
18
A importância do gerenciamento de estoque no âmbito das organizações

que administração de materiais promove uma integração que também se envolve


dentro da cadeia de suprimentos, acrescentando que esse relacionamento exige
planejamento e coordenação.
Essa preocupação é necessária para que seja garantida a eficiência dos
processos de entrada, produção e saída de materiais na organização. Por outro
lado, nesses processos recomenda-se a aplicação da metodologia just-in-time,
que consiste em trabalhar com um estoque mínimo possível, automatizando-o
de tal forma que o fluxo de entrega e reposição seja aperfeiçoado.
Para Barbieri e Machline (2006, p.3), “as atividades voltadas para administrar
o fluxo de materiais e de informações relacionadas com esse fluxo ao longo da
cadeia de suprimentos constituem o que genericamente se denomina logística”.
A logística dos materiais assume importância crescente nas entidades de
saúde. A necessidade de proporcionar um perfeito nível de atendimento aos
pacientes, sem ocorrência de qualquer falta de insumos, requerem extrema
proficiência por parte do gestor de materiais (BARBIERI E MACHLINE, 2006).
A administração de materiais possui uma grande importância dentro de
uma organização, os materiais e ativos nela existentes possuem um elevado
número de finalidades. Por outro lado, esclarece Pozo (2004) que uma das mais
importantes funções da administração de materiais encontra-se relacionada ao
controle de níveis de estoques.
Por essa razão, é de suma importância que organizações tenham uma
preocupação constante com o controle de seus estoques, uma vez que os mesmos
contribuem de forma decisiva para que elas alcance os resultados projetados.

2.2 Estoques
O balanceamento dos estoques em termos de produção e logística com a
demanda do mercado e o serviço ao cliente, constitui um dos grandes desafios que
as organizações enfrentam na atualidade, exigindo uma constante redefinição
de conceitos e estratégias.
Destaca Bertaglia (2003) que para o sucesso de uma organização, a gestão de
estoques constitui um elemento imprescindível, que deve ser administrado de
forma eficiente.
No entanto, para que possa compreender como ocorre a gestão de estoque
numa organização, é de suma importância que inicialmente se apresente um
conceito para o termo estoque.
Por estoques entende-se os acúmulos de recursos materiais entre fases
específicas de processo de transformação.
Para Corrêa; Gianesi; Caon (1999), esses acúmulos de materiais têm uma
propriedade fundamental, pois os estoques proporcionam independência às
fases dos processos de transformação entre os quais se encontram.
De acordo com Martins (2006), dentre as várias funções do estoque, destacam
as seguintes:
a) Garantir o abastecimento de materiais à empresa, neutralizando os
efeitos de: demora ou atraso no fornecimento de materiais, sazonalidades no
suprimento, riscos de dificuldade no fornecimento;
19
José Ozildo dos Santos et al.

b) Proporcionar economias de escalas: através da compra ou produção em


lotes econômicos, pela flexibilidade do processo produtivo, pela rapidez e
eficiência no atendimento às necessidades.

Desta forma, o estoque não se destina apenas a garantir o funcionamento da


empresa. É sua missão também proporcionar a economia em escala.
De acordo com Pozo (2004), as principais matérias e produtos que compõem
os estoques são os seguintes:
a) material auxiliar,
b) material de escritório,
c) material de manutenção,
d) material e peças em processos;
e) matéria-prima,
f) produtos acabados.

A organização deve ter em estoque tanto a matéria prima necessária para


a produção, quando os produtos/artigos/equipamentos de que necessita para
desenvolver suas atividades. Por isso, se justifica a existência em estoque dos
itens acima relacionados.
Ainda de acordo com Pozo (2004) existem diversos tipos de estoques, sendo
os mais comumente utilizados os seguintes:
a) Almoxarifado de acabados;
b) Almoxarifado de manutenção;
c) Almoxarifado de materiais auxiliares;
d) Almoxarifado de matérias-primas;
e) Almoxarifado intermediário.

No entanto, Moura (2004) classifica os estoques em ativo e passivo. Por estoque


ativo entende-se aquele resultante de um planejamento prévio e destinado a uma
utilização, enquanto que estoque passivo (ou inutilizado), é aquele decorrente
de alterações de programas, mudanças nas políticas de estoque ou eventuais
falhas de planejamento.
Em relação ao estoque ativo, de acordo com Malagoni (2005), sua utilização
pode ser destinada a:
a) Produção;
b) Produtos em processo;
c) Manutenção, reparo e operação;
d) Produtos acabados;
e) Materiais administrativos.

O Quadro 1, apresenta as diferentes formas de utilização dos estoques ativos.


No que diz respeito ao estoque inativo, Malagoni (2005) afirma que o mesmo
pode englobar as seguintes categorias:
a) Estoque disponível: constituído pelos materiais sem perspectiva de
utilização, sem destinação, total ou parcialmente;
20
A importância do gerenciamento de estoque no âmbito das organizações

Quadro 1. Diferentes formas de utilização dos estoques ativos


FORMA
DESCRIÇÃO
DE UTILIZAÇÃO
Constituído por matérias-primas e
Produção
componentes que integram o produto nal
Constituídos por matérias em diferentes
Produtos em processo
estágios da produção
Formado por peças e componentes
Manutenção, reparo
empregados no processo produtivo, sem
e operação
integrar o produto nal
Compreendem os materiais e/ou produtos em
Produtos acabados
condições de serem vendidos
Formado por matérias de aplicação em geral na
empresa, sem vinculação com o processo
Materiais administrativos
produtivo
Constituído por matérias-primas e
Produção
componentes que integram o produto nal
Fonte: Malagoni (2005), adaptado.

b) Estoque alienável: constituído de material disponível, inservível, obsoleto,


e sucatas destinadas à venda.

É importante destacar que existem várias classificações para os estoques. Uma


terceira classificação é apresentada por Cabanas e Ribeiro (2005), que apresenta
os seguintes tipos:
a) Estoques de matérias-primas;
b) Estoques de materiais em processamento ou em vias;
c) Estoques de materiais semiacabados;
d) Estoques de materiais acabados ou componentes;
e) Estoques de produtos acabados.

O Quadro 2 apresenta os tipos de estoque, sob a ótica de Cabanas e Ribeiro


(2005), com suas respectivas descrições.
Uma outra forma de se classificar o estoque é em relação ao seu nível. Segundo
Pozo (2004) este pode ser: mínimo, máximo e de segurança.
O Quadro 3 apresenta a classificação do estoque quanto ao seu nível.
A importância do estoque mínimo é a chave para o adequado estabelecimento do
ponto de pedido. Segundo Dias (1993), pode-se determinar o estoque mínimo através de:
a) Fixação de determinada projeção mínima (projeção estimada do consumo).
b) Cálculos e modelos matemáticos.

No que diz respeito ao estoque máximo este é igual à soma do estoque mínimo
e do lote de compra. Já o estoque de segurança diz respeito à quantidade mínima
21
José Ozildo dos Santos et al.

Quadro 2. Diferentes tipos de estoque


TIPOS DE ESTOQUE DESCRIÇÃO
Estoques de matérias- Constituem os insumos e materiais básicos que
primas ingressam no processo produtivo da empresa
São também denominados materiais em vias, os
Estoques de materiais
quais são constituídos de materiais que estão
em processamento ou
sendo processados ao longo das diversas seções
em vias
que compõem o processo produtivo da empresa.
Referem-se aos materiais parcialmente acabados,
cujo processamento está em algum estágio
Estoques de materiais
intermediário de acabamento e que se encontram
semiacabados
também ao longo das diversas seções que
compõem o processo produtivo.
Referem-se a peças isoladas ou componentes já
Estoques de materiais
acabados para serem anexados ao produto. São,
acabados ou
na realidade, partes prontas ou montadas que,
componentes
quando juntadas, constituirão o produto acabado.
Estoques de produtos Referem-se aos produtos já prontos e acabados,
acabados cujo processamento foi completado inteiramente.
Fonte: Cabanas e Ribeiro (2005), adaptado

de peças que tem que existir no estoque com a função de cobrir as possíveis
variações do sistema.

2.3 Vantagens do estoque


A organização que mantém regularmente seus estoques, pode desfrutar
de algumas vantagens. Dissertando sobre essa particularidade, Ballou (2009)
enumera as seguintes vantagens proporcionadas pelos estoques:
a) a economia de escala nas compras e nos transportes;
b) a melhoria do nível de serviço;
c) a proteção contra alteração de preços;
d) a proteção contra contingências;
e) a proteção contra oscilações na demanda ou tempo de ressuprimento;
f) o incentivo à economia de produção.

O Quadro 4 apresenta as vantagens dos estoques com suas respectivas descrições.


Entretanto, é oportuno lembrar que os estoques imobilizam o capital que a
empresa poderia dispor para empregá-lo forma diferente, tanto internamente
quanto externamente. Assim sendo, estoque é capital imobilizado. Por outro
lado, constitui um requisito primordial para uma empresa.

2.4 Custos dos estoques


Os estoques constituem algo necessário à manutenção da empresa. No
entanto, ele demanda custos, que não se limitam apenas à sua aquisição.
22
A importância do gerenciamento de estoque no âmbito das organizações

Quadro 3. Classificação dos estoques quanto ao nível


TIPOS DE ESTOQUE DESCRIÇÃO
É a quantidade mínima que deve existir em
estoque, que se destina a cobrir eventuais atrasos
Estoque mínimo no suprimento, objetivando a garantia do
funcionamento ininterrupto e eciente do
processo produtivo, sem o risco de faltas.
É o resultado da soma do estoque de segurança
mais o lote de compra. O nível máximo de estoque
é normalmente determinado de forma que seu
volume ultrapasse a somatória da quantidade do
Estoque Máximo estoque variações normais de estoque em fase
dinâmica de mercado, deixando margem que
assegure, a cada novo lote, que o nível máximo de
estoque não cresça e onere os custos de
manutenção de estoque.
É uma quantidade mínima de peças que tem que
existir no estoque com a função de cobrir as
possíveis variações do sistema, que pode ser:
Estoque de Segurança
eventuais atrasos no tempo de fornecimento,
rejeição do lote de compra ou aumento na
demanda do produto.
Fonte: Dias (1993), Pozo (2004); Martins (2006), adaptado.

De acordo com Ballou (2009), os custos relacionados aos estoques podem ser
classificados nas seguintes categorias:
a) custos de compra: estão associados às aquisições dos produtos e matérias
primas nas quantidades necessárias para a reposição do estoque da empresa,
congregando outros gastos além do valor pago por essa aquisição.
b) custo de manutenção de estoque: reúne todos os custos necessários para
manter o estoque por um determinado período de tempo, representando um
somatório dos custos relacionados à armazenagem física, aos danos, furtos,
impostos, obsolescência, oportunidades de capital, riscos de deterioração e seguros;
c) custos de falta: produzidos quando há demanda por falta de determinados
itens, dificultando a entrega dentro do prazo ou a perda de uma venda.

É oportuno ressaltar que numa empresa, os estoques não somente


desempenham um importante papel como também possuem distintas funções,
que, por sua vez, encontram-se relacionadas às demandas de mercado.

2.5 Controle de estoque


O controle de estoque pode ser definido como sendo um conjunto de métodos
e ferramentas, que deve ser observado pelos membros de uma organização,
objetivando mantê-la em sua trajetória de forma a alcançar metas traçadas.
23
José Ozildo dos Santos et al.

Quadro 4. Vantagens dos Estoques


VANTAGEM DESCRIÇÃO
Um dos objetivos dos estoques é obter descontos
nos transportes e nas compras por se tratar de
A economia de escala
grandes quantidades de matéria-prima. Compra de
nas compras e nos
pequenos lotes faz com que a organização perca
transportes
esses descontos, tanto de transporte quanto de
compras.
O departamento de marketing pode vender mais
seguramente os produtos. Além de proporcionar o
A melhoria do nível de
rápido atendimento ao cliente, traz benéco para a
serviço
empresa, pois diminui o seu custo e a falta do
produto.
Quando há previsão de aumento nos preços, as
empresas podem antecipar a compra de matéria-
A proteção contra
prima e manter em estoque, evitando o aumento
alteração de preços
dos custos, e, consequentemente, o aumento nos
preços dos produtos.
A empresa pode manter estoques de reserva para
A proteção contra
garantir o fornecimento de seus produtos em caso
contingências
de uma greve ou incêndio.
A proteção contra Diante da impossibilidade de prever as demandas
oscilações na demanda dos produtos e seu tempo de ressuprimento, a
ou tempo de empresa deve manter estoque de segurança para
ressuprimento atender a necessidade de produção ou de mercado.
Quando há estoques, pode haver economia na
O incentivo à produção, sendo possível reduzir os custos na
economia de produção produção e manter a força de trabalho em níveis
estáveis.
Fonte: Ballou (2009), adaptado.

Atkinson et al. (2000) afirmam que os controles de estoques têm por objetivo
mensurarem o desempenho das atividades de uma empresa, auxiliando na
prevenção das falhas e, ao mesmo, nas correções dos processos.
Assim sendo, eles podem ser considerados como verdadeiros centros
de informações, capazes de facilitarem a tomada de decisão na busca pela
maximização dos resultados.
Corroborando com esse pensamento, Martins e Alt (2002, p. 132) afirmam
que os controles na área de estoques, “consistem em uma série de ações ou
procedimentos que possibilitam aos administradores verificarem se os estoques
estão sendo bem utilizados”.
É importante destacar que para controlar os níveis de estoques, é necessária
a observância completa de alguns procedimentos básicos. Tratando do controle
24
A importância do gerenciamento de estoque no âmbito das organizações

de estoques, Dias (2009) afirma que este pode ser melhor alcançado quando se
segue os seguintes procedimentos:
a) acionar o departamento de compras para efetuar as aquisições;
b) controlar o estoque em termos de quantidade e valor e fornecer informações
sobre a posição do estoque;
c) determinar ‘o que’ deve permanecer em estoque;
d) determinar ‘quando’ se devem reabastecer os estoques;
e) determinar ‘quanto’ de estoque será necessário para um intervalo de tempo
predeterminado;
f) identificar e retirar do estoque os itens obsoletos e danificados;
g) inventariar periodicamente para avaliar as quantidades e o estado físico
dos produtos estocados;
h) receber, armazenar e atender os produtos conforme suas necessidades.
Verifica-se que o controle auxilia na manutenção dos níveis desejados de
estoques e dá suporte ao departamento de compras, pois os acúmulos indevidos
de materiais são oriundos de erros de pedidos, deficiências na análise da
demanda e falta de controle dos produtos.
Deve-se também registrar que para se controlar os estoques é necessária
à realização de inventários permanentes ou periódicos, através dos quais é
possível mensurá-los.
O Quadro 5 apresenta os tipos de inventários e suas respectivas definições.
Quando se compara esses dois tipos de inventários, constata-se que
o permanente possibilita, segundo Neves (1997), a qualquer tempo, uma
informação completa quanto à obtenção das mercadorias disponíveis no estoque.
E esse ponto positivo não é apresentado pelo inventário periódico.

Quadro 5. Tipos de inventários


TIPO DEFINIÇÃO
É um sistema de controle que possibilita,
permanentemente, a obtenção de informação quanto
Permanente
à movimentação dos estoques no que tange às saídas,
entradas e custos das mercadorias.
É um sistema adotado pelas empresas que não
Periódico mantém controle permanente das quantidades e
valores das mercadorias existentes.
Fonte: Martins e Alt (2002), adaptado.

2.6 A importância da gestão de estoques numa organização


O controle de estoque não se trata de uma ideia nova ou de uma necessidade
que surgiu com a modernização. Desde a antiguidade o homem constatou que
necessitava controlar a utilização de seus gêneros alimentícios para melhor
enfrentar as adversidades impostas pelo meio.
Assim, quando surgiram as primeiras organizações, a necessidade do
controle de estoque também se tornou patente, de forma que desde muito cedo,
25
José Ozildo dos Santos et al.

sempre houve a necessidade de uma adequada forma de utilização de sistemas


e métodos, objetivando melhorias nas atividades desenvolvidas (POZO, 2004).
Cedo, nas organizações foi se verificando que o desperdício gerava a ausência
de mercadorias, ocasionando, assim, prejuízos. A cultura organizacional também
possibilitou o entendimento de que se a organização perdia com o desperdício,
significativa parcela de clientes fica insatisfeita devido ao fato de que o produto
não estava disponível. E essa constatação mostrou a necessidade de uma boa
gestão de estoque.
Em Logística, o termo gestão de estoques é usado em função da necessidade
de estipular os diversos níveis de materiais e produtos, que a organização deve
manter, dentro de parâmetros econômicos (BALLOU, 2009).
De acordo com Pozo (2004), a função principal da administração de estoques
é maximizar o uso dos recursos envolvidos na área logística da empresa, e com
grande efeito dentro dos estoques.
Complementando esse pensamento, afirmam Francischini e Gurgel (2004, p.
148) que:

Para o controle de estoque ser eficaz é necessário, portanto,


que haja um fluxo de informações adequado e um resultado
esperado quando a seu comportamento. Espera-se de um
Administrador de materiais que os usuários tenham fácil
acesso aos itens estocados, quando eles forem necessários
para a elaboração de alguma atividade na empresa, mas, por
outro lado, o volume do estoque não pode ser tão alto que
comprometa a rentabilidade da empresa.

É importante ressaltar que os estoques possuem a função de ponderar as


entradas e saídas de uma empresa. Geralmente, estas oscilam, ora sendo maiores
as entradas, ora as saídas. Desta forma, quanto maior for o úmero de entradas
maior será o estoque de uma organização, consequentemente, quanto maior
forem as saídas, menor será seu estoque. Através da gestão de estoque, busca-se
o equilíbrio entre as entradas e as saídas.
Afirma Ballou (2009), que quando a velocidade de entrada for igual à
velocidade de saída, tem-se o que em administração de materiais chama-se
estoques nulos.
No entanto para se conseguir um estoque nulo é necessário o envolvimento/
integração dos diferentes setores existentes na empresa, principalmente,
entre os responsáveis pelas compras (entradas) e pelas vendas (saídas). Desta
forma, numa organização, compra e venda devem ser uma preocupação do
planejamento e do controle de produção. É importante também ressaltar que
a função de planejar e controlar estoques são fatores primordiais numa boa
administração do processo produtivo.
Dissertando sobre tal função, Pozo (2004, p.40) afirma que o planejamento e
controle de estoque possui os seguintes objetivos:
26
A importância do gerenciamento de estoque no âmbito das organizações

- Assegurar o suprimento adequado de matéria-prima, material auxiliar,


peças e insumos ao processo de fabricação;
- Manter o estoque o mais baixo possível para atendimento compatível às
necessidades vendidas;
- Identificar os itens obsoletos e defeituosos em estoque, para eliminá-los;
- Não permitir condições de falta ou excesso em relação à demanda de vendas;
- Prevenir-se contra perdas, danos, extravios ou mau uso;
- Manter as quantidades em relação às necessidades e aos registros;
- Fornecer bases concretas para a elaboração de dados ao planejamento de
curto, médio e longo prazos, das necessidades de estoque;
- Manter os custos nos níveis mais baixos possíveis, levando em conta os
volumes de vendas, prazos, recursos e seu efeito sobre o custo de venda do
produto.

Assim sendo, constata-se que o gerenciamento do estoque não é uma tarefa


fácil. Ele exige uma série de cuidados, de forma a manter um equilíbrio entre as
entradas e saídas de produtos numa organização, que, por sua vez, deve sempre
manter o estoque o mais baixo possível, mas mantendo a capacidade de atender
às necessidades de seus clientes.
Desta forma, as organizações mantêm estoques porque necessitam atender
suas necessidades internas, bem como suprirem as necessidades de seus clientes.
Noutras palavras, o estoque destina-se sempre a uso num futuro imediato. Assim,
como é praticamente impossível determina a demanda futura, a organização
para evitar ter prejuízos, deve manter um estoque num nível determinado, que
possa assegurar às demandas, minimizando os custos de sua produção.
Na gestão de estoque surge a necessidade de se inventariar os bens
disponíveis.
Dissertando sobre essa necessidade, Santos (2009, p. 23), citando Wild (2002),
afirma que “o controle de inventário é uma atividade que organiza os itens que
estão disponíveis aos clientes. Isto coordena funções de compra, produção e
distribuição para conhecer a necessidade do mercado”.
Através do controle de inventário é possível estabelecer um equilíbrio entre
as necessidades da empresa, dando, assim, uma grande contribuição à sua
gestão, estabelecendo-se quando e quanto se deve comprar, levando-se sempre
em consideração as saídas.
Segundo Slack; Chambers; Johnston (2002), para melhor gerenciar os
estoques, deve-se:
a) Discriminar todos os diferentes itens estocados, de maneira que possam
aplicar um grau de controle em cada item, de acordo com sua importância e,
b) Realizar um investimento em um sistema de processamento de informação
que tenha capacidade de gerenciar o controle dos estoques.

Assim, o estoque de uma empresa deve estar de acordo com a sua estrutura,
sempre pronto a oferecer o serviço desejado pelo cliente, mantendo o mínimo de
estoque, vislumbrando um menor custo possível.
27
José Ozildo dos Santos et al.

3 Considerações Finais

Numa organização, o gerenciamento da cadeia de suprimento possui um


papel de grande destaque. Além de contribuir para o sucesso da organização,
o gerenciamento da cadeia de suprimento em face de seu processo evolutivo,
conseguiu deixar de ser um centro de custo, numa organizações e passou a ser
uma atividade estratégica.
De semelhante importância também desfruta o gerenciamento de estoque
numa organização. Para desenvolver suas atividades de forma produtiva,
toda e qualquer organização deve conhecer suas necessidades, monitorar seus
estoques, pois este gerenciamento possibilita a redução dos custos e possibilita
oferecer ao cliente um melhor preço.
É oportuno lembrar que a princípio, nas organizações, o controle de estoque
era feito manualmente, constituindo-se numa tarefa que consumia tempo e mão
de obra, sempre condicionado ao tamanho da organização. Atualmente, graças
aos avanços tecnológicos, é possível em poucos minutos uma organização ter
concluído o seu inventário de estoque, sabendo exatamente o que deve repor,
tendo em vista as saídas ocorridas no mês ou exercício avaliado.
Assim, diante das necessidades atuais e levando em consideração o cenário
competitivo atual, as empresas necessitam de ferramentas que agilizem este
processo para diminuir riscos e perdas, possibilitando uma tomada de decisões
mais rápida e segura.
Através do presente trabalho ficou evidenciado que as empresas necessitam
aperfeiçoar-se continuamente no que diz respeito à logística, mantendo seus
estoques em ponto de equilíbrio, objetivando atender e satisfazer seus clientes,
conquistando, assim, o sucesso de precisa para manter-se no mercado.

4 Referências

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29
Uma abordagem sobre o gerenciamento
da cadeia de suprimentos
Rosélia Maria de Sousa Santos
José Ozildo dos Santos
José Rivamar de Andrade
Douglas da Cunha Silva
Patrício Borges Maracajá

1 Introdução

No cenário atual, as organizações empresariais encontram-se diante de


um mercado cada vez mais competitivo, que lhe impõe grandes desafios,
principalmente, no que diz respeito à satisfação do cliente. No mundo
globalizado, a sobrevivência de qualquer negócio reside, principalmente, na
missão de manter clientes.
Avaliando esse novo cenário, Alves (2008), afirma que essa realidade tem
produzido profundas mudanças nas organizações, principalmente, no que diz
respeito à gestão de seus negócios.
É importante destacar que além das chamadas exigências básicas, aquelas
que impõem à empresa a obrigação de se adequar ao mercado, existem também
as necessidades dos clientes, que se ampliam e se renovam constantemente.
Estas, adicionadas às dinâmicas provocadas pelo desenvolvimento tecnológico,
vêm exigindo que as empresas tornem-se mais competitivas, modificando
profundamente o seus processos de gestão operacional, objetivando a eficiência
e buscando eliminar os desperdícios.
Nesse novo enfoque, as organizações também vêm se preocupando com as
várias atividades que envolvem a sua cadeia de suprimento, principalmente, em
relação às interações por esta produzidas.
Nesse contexto, Pires (2007) destaca que a cadeia de suprimento vem sendo
reconhecida como um fator de vantagem competitiva, beneficiando aquelas
organizações que a utilizam de forma estratégica.
Por sua vez, a demanda afeta todos os processos realizados no interior de
uma organização. É no atendimento à demanda onde encontra-se a contribuição
maior da cadeia de suprimentos, cuja área se preocupa não somente com as
estimativas e pedidos, mas também com o que a organização deve fazer para
atender e satisfazer as necessidades de seus clientes.
O presente artigo tem por objetivo definir o gerenciamento da cadeira de
suprimentos e mostrar a sua importância no contexto organizacional, bem como
Rosélia Maria de Sousa Santos et al.

as práticas de gestão da cadeia de suprimentos e as técnicas e ferramentas para


melhorar esse processo.

2 Revisão de Literatura

2.1 Construindo um conceito para o termo gerenciamento da cadeira de


suprimentos
O termo Gerenciamento da Cadeia de Suprimentos possui derivação do
original inglês Supply Chain Management, representado pela sigla SCM, que
comumente é empregada no Brasil. Trata-se de uma nova postura empresarial,
em que as organizações são direcionadas para trabalhar com o foco no cliente.
Na concepção de Laudon e Laudon (2004, p. 55):

Gerenciamento da cadeia de suprimentos é a ligação e


coordenação estreita das atividades envolvidas na compra,
fabricação e movimentação de um produto. Ele integra
os processos logísticos do fornecedor, do fabricante, do
distribuidor e do cliente para reduzir tempo, esforços
redundantes e custos de estoque.

Desta forma, constata-se que as tarefas relacionadas ao planejamento e à


coordenação de toda a cadeia de suprimentos, encontram-se inseridas no SCM.
Partindo do exposto, percebe-se que o conceito de SCM é complexo. Além do
mais, envolve fornecedores, fabricantes, como também, distribuidores (ou
atacadista) e consumidores.
Completando esse pensamento, afirma Pires (1998, p. 5-6) que:

Gestão da Cadeia de Suprimentos (SCM) pode ser


considerada uma visão expandida, atualizada e, sobretudo,
holística da administração de materiais tradicional,
abrangendo a gestão de toda a cadeia produtiva de uma forma
estratégica e integrada. SCM pressupõe, fundamentalmente,
que as empresas devem definir suas estratégias competitivas
e funcionais através de seus posicionamentos (tanto como
fornecedores, quanto como clientes) dentro das cadeias
produtivas nas quais se inserem.

Desta forma, para gerir a cadeia de suprimentos, as organizações necessitam


definir suas estratégias competitivas e colocá-las em funcionalidade. Por
sua vez, a SCM possui uma visão holística e esta particularidade facilita o
desenvolvimento das estratégias que a organização necessita.
A gestão da cadeia de suprimentos é um fator determinante para o sucesso
organizacional, a partir de sua otimização é possível obtenção de ganhos, seja
evitando perdas, ou através de melhor uso do tempo, possibilitando absorver
32
Uma abordagem sobre o gerenciamento da cadeia de suprimentos

mais fatias do mercado, principalmente, pelo reconhecimento e satisfação do


cliente, o que favorece a demanda por mais produtos e/ou serviços.
Moori; Pereira e Mangini (2011, p. 472), destacam que:

A gestão da cadeia de suprimentos (SCM) é definida


pelo Global Supply Chain Forum (GSCF) como a integração
dos processos de negócios desde o usuário final até os
fornecedores originais (primários) de produtos, serviços
e informações que se apresentam como um valor para os
clientes e stakeholders.

O objetivo da gestão da cadeia de suprimentos é conectar o mercado, a rede


de distribuição, o processo de fabricação e a atividade de aquisição, de tal modo
que os clientes sejam contemplados com níveis cada vez mais altos de serviços,
e que ainda assim os custos se mantenham baixos.
Acrescentam Parra e Pires (2003, p. 2):

De maneira geral, a SCM busca intensificar, somar e


amplificar os benefícios de uma gestão integrada da cadeia
de suprimentos. Assim, as estratégias e as decisões deixam
de ser formuladas e firmadas sob a perspectiva de uma única
empresa e passam a fazer parte da cadeia produtiva como
um todo.

Embora diga respeito ao que as empresas devem fazer para definir suas
estratégias competitivas e funcionais por meio de posicionamentos nas cadeias
produtivas em que se inserem, na atualidade, vários autores têm atribuído à
SCM o status de filosofia de negócios.
As empresas que instalarem o Gerenciamento da Cadeia de Suprimentos
estão propensas a conseguir significativas reduções de estoques, otimização de
transportes e eliminação de perdas, conseguindo, assim, maior confiabilidade e
flexibilidade.
Ainda de acordo com Parra e Pires (2003, p. 2):

A SCM também introduz uma importante mudança no


modelo competitivo ainda vigente em muitas empresas,
ao considerar que cada vez mais a competição no mercado
tende a ocorrer no nível das cadeias produtivas e não apenas
no nível das unidades de negócios (isoladas).

É importante ressaltar que essa mudança altera completamente a forma de


como a organização pensa. No que diz respeito à competitividade, tal mudança
mostra a necessidade de fazer uso das Tecnologias de Informação, fazendo com
que a organização compreenda que no contexto atual, a competitividade se
33
Rosélia Maria de Sousa Santos et al.

dá virtuais unidades de negócios, que, por sua vez, são consideradas cadeias
produtivas.
De acordo com Pires (1998), a utilização do SCM tem proporcionado a
obtenção de uma cadeia produtiva mais eficiente, gerando resultados positivos,
principalmente, através da:
a) compatibilização da estratégia competitiva e das medidas de desempenho
da empresa à realidade e objetivos da cadeia produtiva;
b) concepção de produtos que facilitem o desempenho da logística da cadeia
produtiva e escolha de um operador eficiente para administrar a mesma;
c) divisão de informações e integração da infraestrutura com clientes e
fornecedores, podendo assim obter entregas just-in-time e diminuir os níveis de
estoques;
d) reestruturação e consolidação do número de fornecedores e clientes;
e) resolução conjunta de problemas e envolvimento dos fornecedores desde
os estágios iniciais do desenvolvimento de novos produtos;

Assim sendo, percebe-se que os resultados positivos gerados pelo SCM,


encontram-se condicionados a uma série de fatores, que devem ser observados
de forma conjunta, objetivando atingir as metas que foram estabelecidas para o
gerenciamento da cadeia de suprimentos.
Acrescenta ainda Pires (1998, p. 5) que:

Um objetivo básico na SCM é maximizar e tomar realidade


as potenciais sinergias entre as partes da cadeia produtiva,
de forma a atender o consumidor final mais eficientemente,
tanto através da redução dos custos, como através da adição
de mais valor aos produtos finais.

A organização deve procurar reduzir os custos ao máximo possível, redução


esta que pode ser através da diminuição do volume de transações de informações
e papéis, bem como dos custos de transporte e estocagem. Por sua vez, a redução
dos custos possibilita à organização adicionar valor aos produtos, o que pode ser
conseguido através da criação de bens e serviços customizados, possibilitando
ganhos reais tanto aos fornecedores como aos clientes.
O Quadro 1 permite que se faça uma comparação entre o modelo de
administração de materiais tradicional e o modelo introduzido pela SCM.
Analisando o Quadro 1, constata-se que o modelo tradicional prioriza a
produção em massa, direciona-se ao mercado local/regional, levando em
consideração os custos da produção na hora da tomada de decisões sobre o
que fazer ou comprar, enquanto que o SCM caracteriza-se pela customização
em massa, estado voltado para um mercado global, primando por um modelo
de gerenciamento focado no planejamento estratégico e proativo, levando
em consideração estratégia competitiva e o desenvolvimento. E, quando da
necessidade de tomada de decisões, adotando um modelo competitivo que se
desenvolve em virtuais unidades de negócios.
34
Uma abordagem sobre o gerenciamento da cadeia de suprimentos

Quadro 1. Diferenças entre o modelo de administração de materiais tradicional


e o modelo introduzido pela SCM
Variável Modelo Tradicional SCM
Contexto histórico Customização em
Produção em massa
do aparecimento massa
Geralmente
Mercado competitivo Geralmente global
local/regional
Escopo e ação gerencial Operacional e reativo Estratégico e proativo
Parâmetros
produtivos, múltiplos
(como custo,
Parâmetros geralmente Custos de produção,
qualidade,
considerados nas utilização da capacidade
ƒexibilidade),
decisões sobre 'fazer' e política de integração
estratégia competitiva
ou 'comprar' vertical
e desenvolvimento de
novas competências e
negócios.
Virtuais unidades de
Modelo competitivo Unidades de negócios
negócios
Fonte: Pozo (2004), adaptado.

Mostrando a importância do planejamento dentro do SCM, Blanchard apud


Santos (2009, p. 20) ressalta que:

O planejamento das coordenadas da cadeia de


suprimentos otimiza a entrega de bens, serviços e
informação, do fornecedor ao consumidor, equilibrando
a oferta e demanda. Permite também que as companhias
criem cenários de visualização em tempo real das demandas,
desenvolvendo previsões.

No gerenciamento da cadeira de suprimentos, o planejamento representa uma


peça fundamental, que quando bem estruturado, possibilita a entrega de bens e
serviços ao consumidor de forma eficiente, atendendo suas necessidades e gerando
satisfação. Entretanto, vários fatores podem interferir na cadeia de suprimentos. E à
medida que ocorrem os avanços tecnológicos e o mundo se torna mais globalizado,
novos fatores vão surgindo exigindo da organização esforços em administração,
logística e a utilização das chamadas Tecnologia da informação (TI).
A utilização das Tecnologias da Informação está mostrando que as empresas
necessitam mudar suas formas de fazerem negócios. Tais mudanças não se
aplicam somente a grandes organizações. Elas também estão alterando o perfil
das pequenas e médias empresas, que precisam aperfeiçoar seus canais de
distribuição para obter maior competitividade.
35
Rosélia Maria de Sousa Santos et al.

Ferraz; Kupfer; Haguenauer (1997, p. 3) define a competitividade como sendo


“a capacidade da empresa formular e implementar estratégias concorrenciais,
que lhe permitam ampliar ou conservar, de forma duradoura, uma posição
sustentável do mercado”.
Complementando esse pensamento, Ianni (1995) afirma que o conceito de
competitividade é dotado de uma dimensão extrínseca à organização ou ao
produto. No entanto, o referido conceito também encontra-se relacionado ao
padrão de concorrência que existe no mercado. E, esse padrão pode ser visto
como sendo a variável determinante, enquanto que a competitividade diz
respeito ao resultado ou variável determinada.
Afirma Silva (2001, p. 1) que:

A competitividade é um conceito dinâmico. Para


acompanhar o complexo processo concorrencial, as empresas
devem ter um olho no passado - para fortalecer os acertos e
não repetir erros; os pés firmes no presente - para posicionar-
se com segurança diante da instabilidade do mercado; e
um olhar atento para o futuro - para promover os ajustes
necessários.

A ideia de competitividade encontra-se associada à habilidade que uma


organização possui em manter ou aumentar sua participação nos mercados,
dependendo de seu interesse, no âmbito nacional ou internacional.
Por outro lado, informa Zuckerman apud Santos (2009, p. 21) que:

A gestão da cadeia de suprimentos, não só analisa


formas de promover a redução de custos em todos os canais
envolvidos, mas também deve equilibrar o aumento da
demanda dos clientes com o tempo e a eficiência dos serviços,
e ainda tem que levar em consideração as rápidas mudanças
da tecnologia. Com uma gestão eficiente, considerando a
combinação destes fatores, a organização torna-se hábil a
coordenar o processo de produção e o fluxo de materiais ao
longo de todo o canal de abastecimento.

A gestão da cadeia de suprimentos é dinâmica. Ela se preocupa com todos


os detalhes relacionados ao processo de distribuição, principalmente, com
a redução dos custos, com o uso de tecnologias eficientes, com o processo de
produção, com os canais de abastecimento, e, com o atendimento ao cliente.
Deste modo, toda organização que atua ativamente no mercado precisa definir
com clareza como vai gerir sua cadeia de suprimentos, adequando os processos
de recebimento, produção e entrega às demandas, cuidando do armazenamento
em estoque e procurando ter um serviço de transporte eficiente.
36
Uma abordagem sobre o gerenciamento da cadeia de suprimentos

2.2 Práticas de gerenciamento da cadeia de suprimentos


As práticas de gerenciamento da cadeia de suprimentos podem ser definidas
como sendo um conjunto de atividades empregadas numa organização,
objetivando promover um gerenciamento efetivo de sua cadeia de suprimentos.
De acordo com Yukimitsu e Pereira (2010), no processo de gerenciamento da
cadeia de suprimento, podem ser identificada as seguintes dimensões:
a) capacidade de just-in-time (JIT).
b) características da cadeia de suprimentos;
c) compartilhamento de informação;
d) gerenciamento do serviço ao cliente;
e) integração da cadeia de suprimentos;
f) proximidade geográfica;

Considerando as dimensões acima relacionadas é possível verificar como


a organização se apresenta, levando em consideração os indicadores de
desempenho representados por participação de mercado, retorno sobre ativos,
preço médio de venda, qualidade geral do produto, posição competitiva e nível
de serviço ao cliente.
Dissertando sobre a importância da utilização de práticas de gestão da
cadeia de suprimentos, Yukimitsu e Pereira (2010) agrupam as práticas de
gerenciamento da cadeia de suprimentos, nos seguintes grupos:
a) construção de relacionamento cliente-fornecedor;
b) identificação de medidas de performance;
c) reengenharia do fluxo de materiais;
d) uso de tecnologias de informação e comunicação.

No entanto, aqueles autores chama atenção para o fato de que à semelhança


do que ocorre em relação ao conceito de gerenciamento de cadeia de suprimento,
também não existe consenso na literatura especializada quanto às práticas de
SCM.
Por sua vez, Yukimitsu e Pereira (2010), relacionam os seguintes grupos de
práticas de SCM:
a) coordenação e compartilhamento de informação;
b) desempenho da cadeia de suprimentos;
c) diferenciação de produto;
d) distribuição e logística;
e) efeito chicote;
f) estratégia de varejo;
g) gerenciamento de estoque e de custo;
h) gerenciamento de lead-time;
i) iniciativas de SCM (softwares de gestão);
j) personalização e postponement;
l) relacionamentos comprador-vendedor.
37
Rosélia Maria de Sousa Santos et al.

É importante destacar que tais práticas são apresentadas como iniciativas


técnicas, iniciativas estruturais e iniciativas logísticas. E, sua operacionalização
se dá observando o planejamento da cadeia de suprimentos, a produção just-in-
time e práticas de entrega.

2.3 Técnicas e ferramentas para melhorar a gestão da cadeia de suprimento


O desenvolvimento de técnicas e ferramentas para melhorar a gestão da
cadeia de fornecimento contribui para uma melhor estratégia e prática. A
aplicação dessas ferramentas leva a alternativas que permitem tomar melhores
decisões.
Pozo (2004) assinala que um bom gerenciamento da cadeia de suprimentos
começa na avaliação dos gastos, no modelo atual de compras e na avaliação dos
índices financeiros aplicados na renovação dos contratos por fornecedores, etc.
Entretanto, para que ocorra um bom SCM é imprescindível também se
observar os seguintes processos: marketing, planejamento e controle da
produção, almoxarifado e armazenagem, produção, estocagem, administração
de pedidos e despacho.
A principal ideia que se tem do marketing é a que ele representa um conjunto
de práticas e estratégias. No entanto, para Kotler (2006, p. 30) marketing
constitui-se no “processo de planejar e executar a concepção, a determinação de
preço (pricing), a promoção e a distribuição de ideias, bens e serviços para criar
negociações que satisfaçam metas individuais e organizacionais”.
Paranhos et al. (2011, p. 221) definem o marketing como sendo um
conjunto de estudos e medidas que provêm estrategicamente o lançamento e
a sustentação de um produto ou serviço no mercado consumidor, garantindo o
bom êxito comercial da iniciativa, acrescendo que “o marketing também pode
ser considerado o total das atividades direcionadas a descobertas e análises das
necessidades do consumidor, determinando serviços que satisfaçam a essas
necessidades”.
Oliveira et al. (2008) afirmam que o sucesso das estratégias de marketing está
condicionado aos seguintes fatores:
a) ao envolvimento das pessoas que trabalham na empresa;
b) à percepção dos clientes em relação à qualidade;
c) a aquilo que a comunicação promete e cumpre;
d) ao novo papel do marketing como agente integrador entre clientes e
administração da empresa.

Marketing é planejamento, é definição de estratégia. Logo, para ser executado


requer o prévio conhecimento do ambiente, das necessidades/exigências
da clientela. De posse desse conhecimento é possível desenvolver estratégica
de forma que possa se atendidas as necessidades dos clientes, tornando-os
satisfeitos.
No que diz respeito ao planejamento e controle da produção, trata-se de
atividade que envolve decisão, sobre a melhor forma de se emprega os recursos
direcionados à produção. Tal atividade, envolve, pois, planejamento é produção.
38
Uma abordagem sobre o gerenciamento da cadeia de suprimentos

O planejamento, segundo Moreira (1999, p. 7), “dá as bases para todas as


atividades gerenciais futuras ao estabelecer linhas de ação que devem ser
seguidas para satisfazer objetivos estabelecidos, bem como estipula o momento
em que essas ações devem ocorrer”.
Por sua vez, o projeto da operação produtiva determina, portanto, a produção
no que diz respeito à sua forma física e à sua estrutura. Assim sendo, observando
os limites determinados pelo projeto de produção, a operação produtiva de
uma organização deve operar de forma contínua, mantendo uma preocupação
constante com o planejamento e o controle. Somente assim é possível “gerenciar
as atividades da operação produtiva de modo a satisfazer a demanda dos
consumidores” (SLACK et al., 2002, p. 318).
Partindo do exposto é possível afirmar que o planejamento e controle
da produção, buscam conciliar a demanda e o fornecimento. E mais, que seu
propósito “é garantir que a produção ocorra eficazmente e produza produtos e
serviços como deve” (SLACK et al., 2002, p. 319).
Em toda e qualquer organização, o planejamento e o controle desfrutam de
uma grande importância dentro de uma organização produtiva. Pois, se por
um lado, a operação exige planejamento, é também necessário um controle,
possibilitando que os objetivos sejam atingidos, observando os prazos e
primando pela qualidade que está se produzindo.
Toda e qualquer organização, independentemente de seu ramo, possui uma
função produção, que pode representar um bem ou um serviço.
Destacam Lopes; Siedenberg e Pasqualini (2010, p. 15) que:

Embora a função produção seja central para a organização


(porque produz os bens e servi­ ços que são a razão de
sua existência), não é a única nem, necessariamente, a
mais importante. Todas as organizações possuem outras
funções com suas responsabilidades específicas. Embora
essas funções tenham sua parte a executar nas atividades
da organização, são (ou devem ser) ligadas com a função
produção por objetivos organizacionais comuns.

Numa organização, a função produção pode ser representada pela reunião


de recursos disponibilizados tanto à produção bens quanto à produção de
serviços. Ela diz respeito à utilização de forma eficiente dos recursos que uma
organização possui, visando satisfazer sua clientela. Para tanto, a organização
precisa ser inovadora e criativa, sempre se preocupando com a qualidade de
seus produtos e serviços, tornando-se competitiva.

3 Considerações Finais

O material bibliográfico selecionado para fundamentar o presente trabalho


acadêmico, possibilitou atingir os objetivos traçados e permitiu concluir que em
39
Rosélia Maria de Sousa Santos et al.

face da globalização, no mundo atual vem ocorrendo uma grande busca por
melhores formas de gestão para as organizações.
O ambiente cada vez mais competitivo provoca uma acirrada concorrência,
dificultando a sobrevivência neste cenário, exigindo das empresas mais do que
preço e qualidade dos produtos para nele se conseguir espaços e se desenvolver.
E que os desafios se tornam maiores também devido às exigências formuladas
pelos clientes, principalmente, em relação à rapidez pela entrega do produto.
Assim, objetivando de adequarem a esse novo mercado cada vez mais
exigente e fazer a diferença, as organizações veem modernizando e ampliando
os setores de suprimentos, bem como desenvolvendo esforços no sentido de
melhorar e reforçar os relacionamentos com seus fornecedores, estabelecendo
parcerias com o fim de melhor atender aos seus clientes.
Foi também possível constatar que o gerenciamento da cadeia de suprimentos
vem recebendo uma maior atenção nos últimos anos e que as organizações já
possuem uma nova concepção de Estratégia de Compras e Suprimentos.
Nessa nova concepção, ganha espaço a logística empresarial que tem a missão
de fazer com que as organizações reduzam seus custos e melhorem a qualidade
de bens/serviços.
Atualmente, existe nas organizações uma preocupação em se criar valor
na cadeia de suprimentos, o que obriga estas a reforçar o relacionamento com
seus fornecedores, estabelecendo alianças e parcerias. Nesse mesmo tempo, as
empresas também se preocupam em colocar em prática estratégias que lhes
garantam ganhar novos clientes, fidelizando-os para obter sucesso e continuarem
no mercado.
Nessa nova concepção, o gerenciamento da cadeia de suprimento possui um
papel de grande destaque. Além de contribuir para o sucesso da organização,
o gerenciamento da cadeia de suprimento em face de seu processo evolutivo,
conseguiu deixar de ser um centro de custo, numa organizações e passou a ser
uma atividade estratégica.

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A importância do planejamento
financeiro no âmbito empresarial
José Ozildo dos Santos
Rosélia Maria de Sousa Santos
Rafael Chateaubriand de Miranda
Iluskhanney Gomes de Medeiros Nóbrega
José Rivamar de Andrade
Douglas da Cunha Silva

1 Introdução

O ato de planejar é uma difícil tarefa. No entanto, quando concretizadas


proporciona significativos resultados. Quando se planeja é possível antecipar
a forma em que determinados acontecimentos ocorrerão no futuro. E isto pode
garantir a organização mais poder financeiro e competitividade. Por isso, pode-
se afirmar que é por meio do planejamento que a organização/empresa consegue
estabelecer a ordem futura dos fatos que constituirão o seu desempenho, seja
este financeiro ou produtivo.
É, portanto, através do planejamento que a organização assegura a
funcionalidade correta, tornando-se capaz de enfrentar as interferências não
previstas em seu processo produtivo. Visto dessa forma, pode-se considerar o
planejamento como sendo um conjunto de decisões antecipadas, que serve para
orientar de forma correta e eficiente, toda e qualquer organização a atingir seus
objetivos.
É oportuno ressaltar que a forma de planejamento está condicionada ao tipo
da empresa. Entretanto, o ambiente onde a organização se encontra, é outro
fator que também determina o tipo de planejamento. Hoje, mais do que antes,
empresas de todos os tipos vêm adotando o planejamento financeiro como
ferramenta auxiliar de sua gestão por entenderem que o mesmo pode contribuir
no âmbito empresarial. Nesse rol de optantes, encontram-se pequenas, médias e
grandes empresas, bem como estabelecimentos bancários e outros organizações.
O planejamento financeiro além de auxiliar no processo de tomada de decisão,
proporciona ao administrador uma visão ampla da situação financeira da
organização, mostrando-lhe as melhores alternativas para se atingir os objetivos
traçados.
Diante dessas considerações, a importância que vem sendo dada ao
planejamento financeiro, justifica por demais, a escolha do tema do presente
trabalho, que tem por objetivo mostrar a importância que o mencionado tipo
José Ozildo dos Santos et al.

de planejamento pode exercer no âmbito empresarial. Nesse sentido, o presente


trabalho tem por objetivo mostrar a importância do planejamento financeiro no
âmbito da gestão empresarial.

2 Revisão de Literatura

2.1 Conceito de planejamento


Na atualidade, as empresas enfrentam um grande problema: não sabem
distinguir a diferença entre planejar e ‘estrategiar’. Planejar é programar,
selecionar os objetivos para a organização, e não apenas descobrir.
Esclarecem Andion e Fava (2002, p. 28), que:

Saber utilizar os instrumentos do planejamento de forma


coerente, adaptando-os à realidade da empresa e às suas
necessidades, pode ser então uma excelente arma competitiva.
Para utilizá-la eficazmente, é importante que os gestores
conheçam bem cada um dos elementos do planejamento e
suas funções, assim como as mudanças que estão ocorrendo
no contexto competitivo, as quais estão influenciando na
própria prática do planejamento e lançando alguns desafios
para a sua gestão nas empresas.

No contexto da gestão empresarial, planejar significa pensar antes de agir,


pensar sistematicamente, com método. Assim, numa ação de planejamento
analisa-se as possibilidades, as perspectivas, as vantagens e desvantagens,
propondo-se objetivos. Por essa razão, o planejamento é a ferramenta para
pensar e criar o futuro, porque proporciona uma visão ampla que serve como
suporte das decisões de cada dia.
Para Oliveira (2002), o planejamento pode ser conceituado como um
processo, cujo desenvolvimento possibilita que a organização alcance de uma
meta desejada, de forma mais eficiente, eficaz e efetiva, concentrando esforços
e recursos.
Segundo Silva (2001, p. 89) o planejamento “é a parte fundamental da
administração, e tem suas origens nas mais remotas civilizações, desde o
momento em que o homem precisou realizar tarefas e organizar recursos
disponíveis”.
Por outro lado, Bateman e Scott (1998, p. 121-122) abordando as vantagens
proporcionadas pelo planejamento, afirmam que o mesmo “é o processo
consciente e sistemático de tomar decisões sobre objetivos e atividades que uma
pessoa, um grupo, uma entidade de trabalho ou uma organização buscarão no
futuro”.
Nota-se, portanto, que o planejamento é desenvolvido para se atingir um
resultado futura, uma meta futura que tratará benefícios à empresa, seja este de
ordem financeira ou até mesmo na melhoria de seu processo produtivo.
44
A importância do planejamento financeiro no âmbito empresarial

Na concepção de Faria (2007, p. 73), o “planejamento é um processo que


implica na formulação de um conjunto de decisões sobre as ações futuras”.
Visto como sendo uma ferramenta gerencial, o planejamento oferece à
empresa as condições necessárias para que ela possa identificar os fatores de
riscos e tomem suas decisões com maior eficácia.
De forma complementar, Maximiano (2000) afirma que o planejamento é o
instrumento utilizado pelas organizações para administrar as decisões futuras.
E, que é através do planejamento que as organizações definem seus objetivos e
estabelecem que resultados esperam alcançar no futuro.
O planejamento tem a função de uma locomotiva, que puxa o trem das ações
de organizar, liderar e controlar, realizadas por uma organização/empresa
(STONER; FREMAN 1994).
Por outro lado, Oliveira (2007, p. 36) afirma que:

A atividade de planejamento é complexa em decorrência


de sua própria natureza, qual seja, a de um processo contínuo
de pensamento sobre o futuro, desenvolvido mediante a
determinação de estados futuros desejados e a avaliação de
cursos de ação alternativos a serem seguidos para que tais
estados sejam alcançados. E tudo isso implica um processo
decisório permanente, acionado dentro de um contexto
ambiental interdependente e mutável.

Definido como sendo a ação que é feita antes de se agir, o planejamento deve
procurar o máximo de resultados e minimizar as deficiências. Para que uma
organização alcance sucesso com o seu planejamento, este deve ser racional e
capaz de introduzir um maior grau de eficiência as atividades desenvolvidas.
A etapa inicial do planejamento deve ser o levantamento de dados para
conhecimento do ambiente de atuação. Depois, devem ser determinados os
objetivos e definidas as ações a serem desenvolvidas (STONER; FREEMAN,
1994).
Os meios selecionados para se conquistar as metas traçadas recebem o
nome de estratégias, que seriam o conjunto de decisões fixadas num plano
processo organizacional, que integra missão, objetivos e sequência de ações
administrativas num todo interdependente (LEMOS, 2007).

2.2 A importância do planejamento


Dissertando sobre a evolução do planejamento, Ferreira; Reis e Pereira (2002,
p. 115) destacam que:

O planejamento empresarial vem evoluindo ao longo das


últimas décadas. Inicialmente consistia no orçamento anual
a ser cumprido, posteriormente passou a incluir projeções de
tendências, resultando no planejamento de longo prazo. [...]
45
José Ozildo dos Santos et al.

a evolução mais recente do planejamento empresarial se deu


nos anos 80, caracterizando a administração estratégica.

No contexto atual, o planejamento é visto como sendo uma importante


ferramenta gerencial. Sem ele nenhuma empresa consegue tornar-se competitiva
num mercado. No cenário globalizado as organizações vêm passando por rápidas
mudanças, fato que impõe às mesmas a necessidade de utilizar ferramentas
gerenciais que lhes proporcionem respostas mais rápidas.
Na concepção de Farias (2007), existem pelo menos, quatro bons motivos
para se fazer um planejamento. São eles:
a) assegurar um funcionamento econômico;
b) contrabalançar a incerteza e as modificações;
c) facilitar o controle das ações;
d) ficar focado nos objetivos.

Ao planejar suas ações a empresa torna-se mais capaz de atingir seus objetivos.
Todas as suas podem ser controladas de forma que com o planejamento a
organização registra também ganhos econômicos.
Completando esse pensamento, Oliveira (2007) aponta dois novos motivos
importantes, pelos quais a organização deve investir pesadamente no
planejamento. São eles:
a) Possibilidade de fazerem tomadas de decisões embasadas em projetos bem
planejados, diminuindo a causa de possíveis falhas na tomada de decisão;
b) Manter vivo o espírito empreendedor, que acaba por se desvanecer em
função do crescimento e complexidade da organização.

Com base no exposto, pode-se dimensionar a importância do planejamento


para um empresa/organização.
Ainda segundo Farias (2007), existem vários aspectos importantes do
planejamento entre os quais podem ser citados os seguintes:
a) Oportunidade;
b) Planos derivativos que sejam capazes de apoiar o plano básico da
organização;
c) Prazos.

Quando se fala em oportunidade como um dos aspectos importantes do


planejamento, está se referindo à capacidade de organização de ter consciência
e conhecimento de suas potencialidades e fraquezas. Esse conhecimento é de
suma importância quando se quer competir em um determinado mercado.
Por outro lado, ao planejar suas ações, a organização desenvolver planos
derivativos que sejam capazes de respondam aos seguintes questionamentos:
O que será feito? Quem fará? Porque se fará? Como será feito? Onde será feito?
Quando será feito? (FARIAS, 2007).
Ainda com relação aos aspectos importantes do planejamento, os prazos são
condicionados às necessidades da empresa. Sem o seu devido planejamento,
46
A importância do planejamento financeiro no âmbito empresarial

as ações (planos) desenvolvidas estão sempre sujeitas aos improvisos e mais


expostas às forças do ambiente externo.

2.3 Vantagens do planejamento


Diferentes autores ao abordarem a importância do planejamento nas
organizações, enumeram uma série de vantagens/benefícios advindos da
elaboração de um bom planejamento (FISCHMANN; ALMEIDA, 1995).
Na concepção de Lemos (2007), o planejamento proporciona para as
organizações e seus gestores, as seguintes vantagens:
a) agilização do processo de tomada de decisões, melhoramento da
comunicação;
b) aumento da capacidade gerencial para uma tomada de decisão;
c) direção única para todos;
d) maior delegação;
e) melhora o relacionamento da organização com seu ambiente interno e
externo;
f) orienta programas de qualidade;
g) promove uma consciência coletiva;
h) proporciona uma visão de conjunto.

Nota-se, portanto, que um bom planejamento possibilita a organização se


manter no mercado, que cada vez mais vem se apresentando como um ambiente
turbulento, onde mudanças acontecem a todo o momento. Neste cenário, para
que as organizações tenham êxito em suas atividades, é indispensável à utilização
do planejamento, oportunidade em que as mesmas terá a possibilidade de
identificar/analisar seus pontos fortes e fracos, antecipando, com isto, possíveis
ameaças e aproveitando as oportunidades surgidas (LERMEN; BRONDANI,
2006).

2.4 Princípios do planejamento


Vários sãos os princípios aplicados ao planejamento, que, por sua vez, devem
ser levados em consideração por toda e qualquer organização, que vier a fazer
uso dessa ferramenta.
Abordando o processo de elaboração de um planejamento, Oliveira (2007)
destaca os seguintes princípios:
a) Principio da contribuição aos objetivos
b) Principio da maior eficiência, eficácia e efetividade.
c) Princípio da Precedência do planejamento.

Com base nos princípios acima relacionados, o planejamento deve sempre


visar aos objetivos máximos da empresa. Ele deve vir antes de qualquer ação
do gestor, contribuindo, assim, para a organização e controle das atividades
desenvolvidas. No planejamento deve-se sempre a eficiência, que se traduz na
missão de fazer as coisas certas de maneira adequada. E, eficácia, que obriga a
47
José Ozildo dos Santos et al.

organização (quando deseja o sucesso) fazer as coisas corretas, de forma a ter


efetividade, ou seja, a apresentar resultados (STONER; FREEMAN, 1994).
Assim sendo, observando corretamente esses princípios quando da realização
de seu planejamento, a organização ganha em operacionalidade, alcança seus
objetivos mais facilmente.

2.5 Níveis de planejamentos


Os planejamentos empresariais podem ser agrupados em dois modelos
distintos: o informal - que é obtido quando não se usa nenhuma metodologia
específica - e o formal, onde se utiliza uma metodologia (LAS CASAS, 2001).
De acordo com Lunkes (2003), o planejamento empresarial pode ser dividido
em três tipos distintos como se observa a seguir:
a) Planejamento estratégico: é um planejamento de longo prazo,
frequentemente de cinco ou mais anos.
b) Planejamento tático: sua finalidade é otimizar parte daquilo que foi
planejado estrategicamente.
c) Planejamento operacional: tem a finalidade de maximizar os resultados da
empresa aplicados em operações de determinado período.
O Quadro 1 apresenta as características dos diferentes níveis de planejamento.
Através do planejamento empresarial, a organização tem a possibilidade de
avaliar o ambiente do qual faz parte. Com esse conhecimento ela consegue traçar
as estratégias necessárias para atingir seus objetivos. A vantagem desse tipo de
planejamento estratégico reside no fato de que os gestores passam a dispor das
informações necessárias para traçar o rumo que a empresa tomará nos próximos
anos (ANDION; FAVA, 2002).
Por outro lado, o planejamento tático tem uma menor duração quando
comparado com o planejamento estratégico. Ele destina-se a melhorar o
resultado de uma área específica, enquanto que o planejamento estratégico e
engloba todos os segmentos da organização (OLIVEIRA, 2002).

Quadro 1. Características dos Diferentes Níveis de Planejamento


NÍVEIS CARACTERÍSTICAS
As decisões são tomadas em relação aos
Estratégico
objetivos e estratégias em longo prazo
São os planos estratégicos para determinadas
área da organização, geralmente é uma área
Tático funcional como os planejamentos de Marketing,
Recursos Humanos, Financeiro, Vendas,
Produção, etc.
Identi‚ca os procedimentos e processos
Operacional especí‚cos requeridos nos níveis inferiores da
organização.
Fonte: Bateman e Snell (1998)
48
A importância do planejamento financeiro no âmbito empresarial

No que diz respeito ao planejamento operacional, este pode ser de curto e


médio prazo. Contudo, diferencia-se dos demais por envolver decisões mais
descentralizadas e que possuem um caráter repetitivo e apresentam uma maior
reversibilidade (BATEMAN; SNELL, 1998).
Por último, dentre os vários planos táticos, encontra-se o planejamento
financeiro, que será abordado no item a seguir.

2.6 Planejamento financeiro


Utilizando-se de ferramentas a exemplo do planejamento financeiro, as
organizações conseguem atingir seus objetivos, metas e estratégias financeiras,
bem como melhorar o fluxo de caixa e seu desempenho. Desta forma, pode-se
afirmar que o planejamento financeiro constitui-se num importante instrumento
administrativo para as organizações (GITMAN, 2002).
Existem também várias definições para o termo planejamento financeiro. Na
concepção de Figueiredo e Caggiano (2004, p.139):

O planejamento financeiro ou orçamentário é uma


atividade que deve ser vista como uma implementação de
um segmento anual do planejamento de longo prazo, o
orçamento expressa este plano em termos financeiros e à luz
das condições correntes.

Definido como sendo um conjunto de operações financeiras, o planejamento


financeiro é realizado para atingir um determinado objetivo, de forma que
quando se obtém bons resultados é uma demonstração que o planejamento
financeiro foi elaborado e executado.
Na concepção de Gitman (2002, p. 588), o planejamento financeiro “é um
aspecto importante para o funcionamento e sustentação da empresa, pois
fornece roteiro para dirigir, coordenar e controlar suas ações na consecução de
seus objetivos”.
Acrescenta Braga (1990, p. 230), que “planejamento financeiro de uma
empresa compreende a programação dos planos financeiros e sua integração e
coordenação com os demais planos organizacionais”.
Para que se tenha um planejamento financeiro organizacional eficiente, é
necessário que todas as áreas da empresa estejam comprometidas com o processo
de elaboração do orçamento organizacional.
Completando esse pensamento, Weston e Brigham (2000, p. 343) afirmam
que “o processo de planejamento financeiro começa com a especificação dos
objetivos da empresa, após o que, a administração divulga uma série de previsões
e orçamentos para cada área significativa da empresa”.
Abordando o desenvolvimento do planejamento financeiro, acrescenta
Gitman (2001, p. 434) que:

O processo de planejamento financeiro começa com


planos financeiros em longo prazo, ou estratégicos, que por
49
José Ozildo dos Santos et al.

sua vez guiam a formulação de planos e orçamentos em curto


prazo ou operacionais. Geralmente, os planos e orçamentos
em curto prazo implementam os objetivos estratégicos da
empresa a longo prazo.

A verificação das variações orçamentárias, é, portanto, o que determina o


ritmos das etapas do planejamento financeiro, que podem ser desenvolvidas a
longo ou a curto prazo. No processo de elaboração do planejamento financeiro
existe uma série de procedimentos relevantes. Durante esse processo, é de
suma importância que tais procedimentos sejam analisados e discutidos pelas
diferentes áreas/setores da empresa, de forma a garantir as informações
necessárias à elaboração do planejamento pretendido.

3 Considerações Finais
O planejamento é um processo administrativo que vem ganhando
significativa importância nas últimas décadas, principalmente, em virtude do
ambiente econômico está caracterizado por descontinuidades e turbulências.
Estes fatores têm levado as organizações há buscarem respostas condizentes
para atender as exigências produzidas nos cenários atuais. Embora integre as
diversas áreas da organização que possuem o mesmo objetivo, o planejamento
auxiliar a organização a cumprir a sua missão. Ele também proporciona os meios
necessários para que a empresa revise as alternativas do processo decisório,
garantindo uma maior competitividade.
Através da análise do material bibliográfico selecionado para fundamentar
a presente produção acadêmica, foi possível perceber que o planejamento
financeiro proporciona ao administrado uma visualização do caminho que
cada número percorre nos diferentes orçamentos da organização. Foi também
possível verificar que o planejamento financeiro, além de auxiliar na tomada de
decisão, possibilita ao administrador os mecanismos que facilitam a escolha das
melhores alternativas, quando se quer executar o que foi planejado.
É importante frisar que é através do planejamento financeiro o gestor sabe
o momento em que necessita, por exemplo, contrair empréstimos para cobrir
a insuficiência de fundos. O planejamento financeiro também permite mostrar
o excesso de dinheiro, apontando a necessidade de aplicar esse excesso no
mercado financeiro, proporcionando maior rendimento à empresa e evitando
eventuais perdas.
O planejamento financeiro exerce uma grande importância no âmbito das
organizações. No contexto atual, caracterizado pela competitividade no mercado,
é de suma importância que as organizações saibam conquistar seus espaços.
Para tanto, devem elabora seus planejamentos financeiros objetivando impetrar
sua efetividade no mercado. Ele possui uma grande aproximação com o controle
financeiro, assumindo com este um papel de grande importância, possibilitando
que a organização alcance os objetivos traçados, melhorando também, de forma
significativa, os índices de desempenho organizacional.
50
A importância do planejamento financeiro no âmbito empresarial

4 Referências
ANDION, M. C.; FAVA, R. Planejamento estratégico. In: MENDES, J. T. G.
Planejamento estratégico. Curitiba: FAE Bussines School, 2002. (Coleção
Gestão Empresarial, 4).
BATEMAN, T. S.; SNELL, S. A.: Administração: construindo vantagem
competitiva. São Paulo: Atlas, 1998.
______; SCOTT, A. Asnell. Administração: Construindo vantagem competitiva.
São Paulo: Atlas, 1998.
BRAGA, R. Fundamentos e técnicas de administração financeira. São Paulo:
Atlas, 1990.
FARIA, J. C. Administração: Introdução ao estudo. São Paulo: Pioneira, 2007.
FERREIRA, A. A.; REIS, A. C. F.; PEREIRA, M. I. Gestão empresarial: de
Taylor aos nossos dias: evolução e tendências da moderna administração de
empresas. São Paulo: Pioneira Learning, 2002.
FIGUEIREDO, S.; CAGGIANO, P. C. Controladoria: teoria e prática. 3. ed. São
Paulo: Atlas, 2004.
FISCHMANN, A. A.; ALMEIDA, M. I. R. de. Planejamento estratégico na
prática. São Paulo: Atlas, 1995.
GITMAN, L. J. Princípios de administração financeira. 7. ed. São Paulo: Harbra,
2002.
______. Princípios da administração financeira essencial. 2. ed. Porto Alegre:
Bookman, 2001.
LAS CASAS, A. L. Plano de Marketing: para micro e pequena empresa. 2 ed.
São Paulo: Atlas, 2001.
LEMOS, A. C. F. V. O planejamento estratégico como ferramenta competitiva.
(2007). Disponível em: www.ead.fea.usp.br/semead/7semead/paginas/
artigos. Acesso: 20 jul 2014.
LERMEN, R.; BRONDANI, G. Gestão estratégica e o uso do balanced scorecard.
Revista Eletrônica de Contabilidade, v. 3, n. 1, jan-jun., 2006. Disponível
in: http://w3.ufsm.br/revistacontabeis/artigos/vIIIn01/a05vIIIn01.pdf.
Acesso: 20 jul 2011.
LUNKES, R. J. Manual do orçamento. São Paulo: Atlas, 2003.
MAXIMIANO, A. C. A. Introdução à administração. 5. ed. São Paulo: Atlas,
2000.
OLIVEIRA, D. P. R. Sistema, organizações e métodos: uma abordagem gerencial.
13. ed. São Paulo: Atlas, 2002.
______. Planejamento Estratégico: conceitos metodologia práticas. 23. ed. São
Paulo: Atlas, 2007.
SANDRONI, P. Novíssimo dicionário de economia. São Paulo: Best Seller, 2001.
SILVA, R. O. Teorias da administração. São Paulo: Pioneira Thomsom Learning,
2001.
STONER, J. A. F; FREEMAN, R. E. Administração: Rio de Janeiro, 1994.
WESTON, J. F.; BRIGHAM, E. F. Fundamentos da administração financeira. 10.
ed. São Paulo: Makron Books, 2000.

51
A importância do marketing
de relacionamento
Juliana Gomes de Melo
Mônica Justino da Silva
Rosélia Maria de Sousa Santos
José Ozildo dos Santos
Patrício Borges Maracajá

1 Introdução
No contexto atual a orientação mais moderna do marketing não mais está
focada somente na preocupação com os clientes externos e sim, na busca pela
satisfação de todos os públicos que interagem com a empresa/profissional.
É em torno dessa satisfação que atua o marketing, por meio da comercialização
de produtos que são os bens e serviços oferecidos no mercado para satisfazer as
necessidades e desejos dos consumidores. Por isso, a área é considerada hoje uma
das mais importantes e fundamentais dentro de organogramas empresariais
(LOVELOCK e WIRTZ, 2006).
Ao se implantar um plano de marketing deve-se buscar trabalhar o novo,
olhando para frente, utilizando-se de uma iniciativa bastante diferente, sempre
focado no que vai acontecer, ignorando os obstáculos, olhando para frente com o
objetivo de criar e planejar uma forma de trabalho com foco no futuro (RATTO,
2002).
O marketing de relacionamento é uma estratégia com resultados a longo
prazo, que pode ser aplicado a negócios que ofereçam produtos e serviços com
altos índices de demanda. No entanto, para a adoção dessa nova tendência requer
compromisso da empresa para com ela. Com o marketing de relacionamento,
a empresa consegue manter sua clientela, estabelecendo com a mesma um
relacionamento forte.
O presente trabalho tem por objetivo apresentar uma síntese sobre o
Marketing de Relacionamento como a tendência do marketing na atualidade,
mostrando a importância da manutenção do cliente, por parte da empresa.

2 Revisão de Literatura
2.1 Marketing: Construindo um conceito
Existe uma confusão em relação ao conceito do que seja o marketing. Alguns
enxergam o marketing e a propaganda como uma coisa só, o que distorce a
noção e limita bastante a sua área de atuação.
Juliana Gomes de Melo et al.

Muitas pessoas creem que marketing significa o mesmo que vendas. Outras
correlacionam-o com vendas e publicidade, existindo também aqueles que
acreditam que o marketing tem algo a ver com a disponibilização de produtos
nas lojas, organização nas prateleiras e manutenção de estoques de produtos
para vendas futuras (PAIXÃO, 2009).
Ainda segundo Tomaz (2003), a propaganda comunica para os clientes o
diferencial competitivo da instituição obtido através de um bom planejamento
de marketing. De nada adianta uma instituição ou um profissional investir
em propaganda se nada tem para comunicar aos clientes. Aspectos técnicos
profissionais não motivam e nada dizem aos clientes, já que esta é uma linguagem
bastante usada entre profissionais.
Para Kotler (2006, p. 30) marketing constitui-se no “processo de planejar
e executar a concepção, a determinação de preço (pricing), a promoção e a
distribuição de ideias, bens e serviços para criar negociações que satisfaçam
metas individuais e organizacionais”.
Embora possa conter propagandas e anúncio, o marketing não pode ser
confundido com tais práticas, visto ser muito mais abrangente. A principal
ideia que se tem do marketing é a que ele representa um conjunto de práticas e
estratégias.
Nesse sentido, Paranhos et al. (2011, p. 221) definem o marketing como sendo
um conjunto de estudos e medidas que provêm estrategicamente o lançamento
e a sustentação de um produto ou serviço no mercado consumidor, garantindo
o bom êxito comercial da iniciativa, acrescendo que “o marketing também pode
ser considerado o total das atividades direcionadas a descobertas e análises das
necessidades do consumidor, determinando serviços que satisfaçam a essas
necessidades”.
É importante registrar que o marketing também pode ser considerado o
total das atividades direcionadas a descobertas e análises das necessidades
do consumidor, determinando serviços que satisfaçam a essas necessidades
(PARANHOS et al., 2011).
Afirma Kotler (2006) que a definição central do marketing resume-se à troca,
que, por sua vez, envolve a obtenção de um produto desejado no qual alguém
oferece algo em troca, acrescentando ainda que entre os principais objetivos do
marketing encontra-se a preocupação de desenvolver relacionamentos profundos
e duradouros, entre cliente/empresas ou entre cliente/profissional.
Assim, o marketing não deve ser visto como sendo apenas que vista divulgar
um produto ou serviço, objetivando para posteriormente vendê-lo. Ele busca
satisfazer as necessidades dos clientes. Uma vez identificadas as necessidades
dos consumidores, a empresa tem a oportunidade de ampliar suas vendas
enquanto que o profissional a chance de prestar um maior número de serviços,
e, consequentemente, de ter uma maior clientela (VIEIRA, 2008).
Oliveira et al. (2008) afirmam que o sucesso das estratégias de marketing está
condicionado aos seguintes fatores:
a) ao envolvimento das pessoas que trabalham na empresa;
54
A importância do marketing de relacionamento

b) à percepção dos clientes em relação à qualidade;


c) aquilo que a comunicação promete e cumpre;
d) ao novo papel do marketing como agente integrador entre clientes e
administração da empresa.

Logo, partindo desses princípios, se um serviço interno deixar a desejar, o


serviço prestado externamente será com certeza, prejudicado, impossibilitando,
assim, o estabelecimento de qualquer vínculo entre cliente/empresas ou
profissional/cliente.
Destaca Kotler (2006), que um de seus princípios fundamentais é o marketing
mix ou composto mercadológico, que são os 4 Ps (quatro pês) do marketing. O
marketing mix é o conjunto de pontos de interesse para os quais as organizações
devem estar atentas se desejam perseguir seus objetivos de marketing. E, que
esses quatro pés dizem respeito ao produto; preço; praça (distribuição); e
promoção (divulgação).
Dissertando sobre a importância da utilização do marketing no cenário atual,
Paranhos et al. (2011, p. 220) fazem o seguinte destaque:

O ponto de partida do marketing como filosofia


organizacional baseia-se no fato de que os pacientes
apresentam necessidades a serem atendidas. Para tanto,
a organização tem de coordenar os esforços de suas áreas
funcionais visando não só à conquista deles, mas também à sua
lealdade à marca. Clientes satisfeitos costumam proporcionar
aumento de vendas e, portanto, lucros crescentes. O desafio
de uma empresa voltada para o marketing é desenvolver uma
proposta de valor de um produto ou serviço que atenda
integralmente às carências e expectativas dos seus clientes
efetivos e potenciais.

Marketing é planejamento, é definição de estratégia. Logo, para ser executado


requer o prévio conhecimento do ambiente, das necessidades da clientela De
posse desse conhecimento é possível desenvolver estratégias de forma que
possam ser atendidas as necessidades dos clientes, tornando-os satisfeitos.
Quando essa satisfação é atendida, ocorre o que comumente se chama de
fidelização do cliente, que se traduz numa sólida relação/vínculo entre empresa
e cliente ou entre profissional (prestador de serviços) e cliente.
A realidade é que cada vez mais o mercado torna-se mais exigente, obrigando
profissionais autônomos e organizações a buscarem ou criarem estratégias para
chamar a atenção dos clientes. E, posteriormente, fidelizá-los. Essa missão é
confiada ao marketing (PAIXÃO, 2009).
Assim sendo, a função do marketing é conquistar e preservar clientes.
Contudo, deve-se destacar que para atrair e manter clientes é preciso, segundo
Paranhos et al. (2011):
55
Juliana Gomes de Melo et al.

a) entender as oportunidades e riscos do mercado em que se atua;


b) identificar o consumidor em potencial e suas necessidades.

Nesse processo de identificação do consumidor, não existe um roteiro padrão.


Cada empresa ou profissional deve desenvolver, planejar e organizar suas
próprias estratégias. Logo, estas devem ser específicas para cada profissional
ou empresas, visto que pode haver realidades parecidas, mas nunca iguais
(PAIXÃO, 2009).
Em síntese, o sucesso e a própria sobrevivência de todo e qualquer
empreendimento encontra-se condicionado à qualidade de sua equipe
profissional e à dedicação destes em colocar em prática a missão abraçada.
Na atualidade, o marketing vem sendo visto como uma das importantes
ferramentas da administração de empresas e dos negócios, sendo fortemente
aplicado, na maioria das vezes, em processos de troca, com o fim de lucro. No
entanto, é de suma importância que as empresas/profissionais incorporem a
responsabilidade social aos seus objetivos de lucro (BOGMANN, 2000).
Por outro lado, quando da utilização de estratégias de marketing alguns
cuidados especiais devem ser observados. Pois, ética no marketing deve ser
entendida com uma área de estudo acadêmico, que pesquisa as relações do
processo de troca e suas implicações, da empresa/profissional com o mercado,
e, vice-versa, do ponto de vista ético, em uma abordagem sistêmica, a parte, que
representa o marketing, está ligada ao todo, que é o negócio (PENA, 2003).
O Marketing não pode e nem deve ser confundido com propaganda. Ele
é um processo de planejamento e execução da concepção, preço, promoção e
distribuição de ideias, bens e serviços, organizações e eventos para criar trocas
que venham a satisfazer objetivos individuais e organizacionais (BOONE;
KURTZ, 1998).
Enquanto que a propaganda é uma atividade que se limita a divulgação
de informações sobre determinado produto. Ela pode ser considerada como
difusão de ideias, mix de interesses a serem espalhados, ações de indução ao
comportamento do consumidor, de pensamento e expansão no mercado atuante,
através da mídia.
Logo, a propaganda é uma das metodologias utilizadas pelo marketing, para
desenvolver seu processo de planejamento. No entanto, o sucesso/crescimento
de uma empresa é conquistado através da manutenção de seus clientes.
Para tanto, é necessário que a empresa mantenha com este um relacionamento
forte, possibilitando que o bom cliente de hoje também lhe der preferência
no futuro. Quanto à satisfação do cliente é algo que não pode e nem deve ser
ignorado por uma empresa. Assim, cabe ao profissional de marketing mostrar
aos gestores da organização a importância das pesquisas nessa área. Conhecendo
melhor o cliente, a empresa pode desenvolver metas, visando fortalecer com o
mesmo seu relacionamento.

2.2 Marketing de relacionamento


O Marketing de Relacionamento é uma nova tendência do Marketing, que
tem como princípio a busca pela fidelização de clientes.
56
A importância do marketing de relacionamento

Kotler (2006, p. 27), definem o Marketing de Relacionamento como a forma


de “criar, manter e acentuar relacionamentos sólidos com os clientes e outros
públicos”.
O Marketing de Relacionamento vem sendo interpretado como sinônimo
moderno para as práticas ideais de marketing. Ele é uma ferramenta que uma
organização utiliza para a satisfação do cliente. Assim, para que realmente ela
cumpra seu papel, deve ser orientada para atender às necessidades do mercado,
que é caracterizado por constantes mudanças.
De acordo com Gordon (1998, p. 34), “as empresas que atendem os clientes
como eles desejam ser atendidos podem descobrir que terão de fazer alguma
coisa que nunca fizeram antes para conseguir isso”.
No entanto, é importante destacar que a organização que faz uso do marketing
de relacionamento não está buscando uma simples venda ou transação. Ela está
buscando um cliente para o qual gostaria de vender agora e no futuro.
Gummesson (2005, p. 22) afirma que o marketing de relacionamento pode ser
entendido como sendo o “marketing baseado em interações dentro da rede de
relacionamentos”.
O marketing de relacionamento é utilizado para criar uma relação forte entre
empresa e cliente, com foco na conquista da lealdade do seu público. Destaca
Orsolom (2002) que este tipo de marketing visa intensificar a relação, fidelidade
e rentabilidade do cliente, através de estratégias diferenciadas para cada um
deles de acordo com o seu perfil.
Em resumo, o marketing de relacionamento pode trazer vários benefícios
para uma empresa ou profissional liberal. O principal destes benefícios é a
manutenção dos clientes, de médio a longo prazo. Nesse ponto, encontra-se a
principal diferença que existe entre essa tendência e o marketing tradicional, que
possui como meta conquistar clientes.
O desenvolvimento de relacionamentos fortes e permanentes entre
consumidores e fornecedores, pode gera inúmeros benefícios, para ambas as
partes.
Segundo Berry e Parasuraman (1992), as empresas que mantém um forte
relacionamento com seus clientes, conseguem aumentar seus rendimentos. Estes
são mais inclinados a fazer compras adicionais de produtos e serviços e geram
novos negócios para a empresa através do boca a boca.
Ao mesmo tempo em que produz benefícios para as empresas, esse forte
relacionamento também proporciona benefícios aos clientes, dentre os quais,
podem ser citados:
a) a redução dos riscos associados à compra;
b) o recebimento de tratamento especial, que inclui descontos e tratamento
preferencial.

Tais benefícios funcionam como motivações para o engajamento em


relacionamentos duradouros.

2.3 A empresa o relacionamento com seus clientes


O foco de uma empresa deve ser a construção de relacionamentos, tendo
como compromisso o incentivo ao trabalho em grupo e ao esforço conjunto.
57
Juliana Gomes de Melo et al.

Assim sendo, para que uma empresa consiga construir fortes relacionamentos
com seus clientes é necessário o envolvimento de todos que a compõem.
Na opinião de Rust (2001), relacionamentos contínuos são relacionamentos
comprometidos, baseados em desejo mútuo de fazer com que o relacionamento
dure, e em que ambas as partes reconheçam que pode ser necessário fazer
sacrifícios para alimentar o relacionamento.
É importante destacar que empresas orientadas para o marketing de
relacionamento, aceitam comunicações com os clientes como parte natural do
negócio. Assim, ouvir os clientes faz parte do negócio e acrescenta valor. Essa é,
portanto, a postura que muitos clientes esperam de seus fornecedores.
Kotler (2006), afirma que o sucesso das estratégias de marketing de
relacionamento está condicionado à existência de comprometimento e confiança.
Desta forma, para que uma empresa mantenha um forte relacionamento com
seus clientes, ela deve:
a) trabalhar para preservar os investimentos em relacionamentos, cooperando
com os parceiros;
b) resistir a alternativas atraentes de negócios, mas de curta duração,
favorecendo os relacionamentos de longa duração;
c) acreditar que situações que seriam percebidas como de alto risco são, sob a
perspectiva do relacionamento, prudentes, na medida em que os parceiros não
agirão de maneira unilateral, oportunista.

Sabe-se que é mais oneroso atrair novos consumidores do que manter os


já existentes. Assim, é mais importante manter os já existentes do que atrair
novos consumidores. Consequentemente, a empresa lucra mais. Em síntese, a
chave para manter os consumidores atuais é a satisfação dos mesmos. Pois, se o
cliente ficar satisfeito, haverá uma probabilidade maior de ele voltar a comprar
o produto ou fazer uso do serviço oferecido pela empresa.

3 Considerações Finais
O marketing de relacionamento apresenta-se como uma alternativa viável
que as empresas podem utilizar, visando vencer a forte concorrência, que
caracteriza o mercado atual. As estratégias de marketing de relacionamento têm
a finalidade de conquistar a credibilidade do cliente, mantendo-o.
De forma direta, a adoção de um programa de marketing de relacionamento
traz vários benefícios para a empresa, que consegue manter-se no mercado
com competitividade. O marketing de relacionamento possui a capacidade
proporcionar um excelente atendimento ao cliente. Através dele é possível
fidelizar o cliente. É importante destacar que a melhor forma de manter um
cliente fiel é ter uma boa relação pessoal com ele.
Deve-se registrar que é por meio do marketing de relacionamento, que as
empresas podem planejar e executar ações voltadas aos clientes. Desta forma,
empresas e profissionais autônomos devem procurar sempre fazer com que seus
58
A importância do marketing de relacionamento

clientes se tornem cada vez mais próximos de seus produtos e serviços, de forma
a utilizá-los e recomendá-los a outras pessoas.
Para tanto, as empresas e os profissionais autônomos devem ter um
conhecimento total de seu público, a ponto de toda a corporação conseguir
enxergar o produto/serviço da mesma forma que seus clientes. Pois, esse
conhecimento é necessário para se determinar estratégias que permitam atender
da melhor forma as necessidades dos clientes.

4 Referências

BERRY, E.; PARASURAMAN, L. L. Serviços de marketing: competindo através


da qualidade. São Paulo: Maltese-Norma, 1992.
BOGMANN, I. M. Marketing de relacionamento: estratégias de fidelização e
suas implicações financeiras. São Paulo: Nobel, 2000.
BOONE, L.; KURTZ, D. L. Marketing contemporâneo. Rio de Janeiro, LTC, 1998.
GUMMESSON, E. Marketing de relacionamento total: gerenciamento de
marketing, estratégias de relacionamento e abordagem de CRM para
economias de rede. 2 ed. Porto Alegre: Bookman, 2005.
KOTLER, P. Administração de marketing. 12 ed. São Paulo: Prentice Hall; 2006.
LOVELOCK, C.; WIRTZ, J. Marketing de serviços: pessoas, tecnologia e
resultados. 5. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2006.
OLIVEIRA, F. T. et al. Ética odontológica: conhecimento de acadêmicos e
cirurgiões-dentistas sobre os aspectos éticos da profissão. Rev. odontol.
UNESP. Marília, v. 37, n. 1, p. 33-39, 2008.
ORSOLON, M. Marketing de relacionamento. Você conhece o seu cliente? Rev
Amaco, v. 11, p. 36-47, 2002.
PAIXÃO, M. V. Comportamento do consumidor e marketing de relacionamento.
Curitiba: IBPEX, 2009.
PARANHOS, L. R.; BENEDICTO, E. N.; FERNANDES, M. M.; VIOTTO, F.
R. S.; DARUGE JÚNIOR, E. Implicações éticas e legais do marketing na
Odontologia. RSBO, v. 8, n. 2, p. 219-24, 2011.
PENA, R. P. M. Ética e estratégia no marco teórico referencial dos negócios
éticos. Belo Horizonte: PUC, 2003.
RATTO, J. C. Como agregar valor aos seus serviços. Jornal APCD, São Paulo,
set., 2002.
RIBEIRO, A.; FLEURY, Â. Marketing e serviços: que ainda fazem a diferença.
São Paulo: Saraiva, 2008.
RUST, R. T. O valor do cliente: o modelo que está reformulando a estratégia
corporativa. Porto Alegre: Bookman, 2001.
VIEIRA, V. A. Comportamento do consumidor. Revista de Ciências da
Administração, v. 5, n. 10, p. 14-17, 2003.

59
PARTE II
Licitações públicas:
Modalidades e princípios aplicáveis
José Ozildo dos Santos
Rosélia Maria de Sousa Santos
José Rivamar de Andrade
Douglas da Cunha Silva

1 Introdução

A Administração Pública, seja ela federal, do Distrito Federal, estadual ou


municipal, para adquirir os bens necessários destinados ao desenvolvimento
das suas atividades de interesse público, necessita de cuidados extremos. Um
desses cuidados vem através de um requisito de controle de gastos, denominado
de licitação.
A licitação tem por objetivo selecionar a proposta que ofereça mais vantagens
para a contratação de aquisição de bens, obras e serviços de interesse da
Administração, bem como para as alienações, de forma a preservar e a garantir
um igual tratamento a todos, que, observando as determinações contidas na Lei,
possuam condições de participar do certame. E mais, que tenham interesse em
disputar o objeto contratual, de que trata o ato licitatório.
Afirma Meirelles (2005, p. 122), que a licitação visa garantir a moralidade
dos atos administrativos e dos procedimentos da Administração e “também a
valorização da livre iniciativa pela igualdade no oferecimento da oportunidade
de prestar serviços, bem como de comprar ou vender ao Poder Público”.
Na atualidade, a licitação é um gênero que se subdivide em várias
modalidades e todas têm características próprias e se destinam a determinados
tipos de contratação. No entanto, independente da modalidade escolhida, devem
ser observados vários princípios básicos do Direito Administrativo, destacando-
se entre estes, o da publicidade.
No procedimento da licitação, a ampla publicidade é destinada não só a
informar os concorrentes eventuais da abertura do certame, mas também dar
conhecimento das condições do contrato, visando dar iguais condições a todos os
participantes, bem como tornar transparentes os atos da Administração Pública.
Ademais, é por meio da publicidade dos atos administrativos que se
proporciona a possibilidade de os cidadãos participarem da gestão administrativa,
fiscalizando e exercendo o controle sobre eles. Mostrar a importância da aplicação
do princípio da publicidade nas licitações públicas.
José Ozildo dos Santos et al.

2 Revisão de Literatura

2.1 Licitações: Conceito e Considerações

O atual sistema de licitação existente no país surgiu com a Constituição


Federal de 1988, que, em seu artigo 22, estabelece as normas de licitações,
independentemente de sua modalidade de execução, tanto para a administração
pública direta, autárquica e fundacional, no âmbito da União, dos estados,
do distrito federal e dos municípios, bem como das empresas públicas
e das sociedades de economia mista. A Lei nº 8.666 de 21 de junho de 1993,
regulamentou o artigo 37, inciso XXI da Constituição Federal e instituiu as
normas para licitações e contratos da Administração Pública.
Segundo Meirelles (2005, p. 268):

A licitação é o antecedente necessário do contrato


administrativo; o contrato é o consequente lógico da
licitação, ou seja, para que exista um contrato firmado entre
um ente da administração pública e outra instituição, seja
esse contrato para aquisição de quaisquer obras ou serviços,
far-se-á necessário que ocorra uma licitação, embora sendo
a mesma realizada, isso não significa dizer que tal contrato
deverá ser firmado, mas caso seja, deverá ser com o vencedor
do processo licitatório.

Definida como sendo um ato público, a licitação jamais poderá ter um


caráter sigiloso. À ela e aos seus resultados, o público deve ter livre acesso,
havendo apenas uma ressalva quanto ao conteúdo das propostas, que, conforme
determina a lei, somente podem do conhecimento de todos por ocasião da
respectiva abertura.
Noutro momento, Meireles (1999, p. 23) argumenta que:

Licitação é o procedimento administrativo mediante o


qual a Administração Pública seleciona a proposta mais
vantajosa para o contrato do seu interesse. Visa propiciar
iguais oportunidades aos que desejam contratar com o Poder
Público, dentro de padrões previamente estabelecidos pela
Administração, e atua como fator de eficiência e moralidade
nos negócios administrativos. É o meio técnico-legal de
verificação das melhores condições para a execução de obras
e serviços, compra de materiais, e alienação de bens públicos.
Realiza-se através de uma sucessão ordenada de atos
vinculantes para a Administração e para os licitantes, sem a
observância dos quais é nulo o procedimento licitatório e o
contrato subsequente.
64
Licitações públicas: Modalidades e princípios aplicáveis

De uma maneira geral, a licitação pode ser entendida como sendo um


procedimento administrativo, do qual se utiliza a Administração Pública para
selecionar a proposta que lhe ofereça mais vantagens num contrato de seu
interesse. É importante destacar que a licitação é um procedimento obrigatório
para a Administração Pública, independentemente de sua esfera, sendo
realizadas nos casos previstos em lei.
Na opinião de Melo (2000, p. 458),

O procedimento administrativo pelo qual uma pessoa


governamental, pretendendo alienar, adquirir ou locar
bens, realizar obras ou serviços, outorgar concessões,
permissões de obra, serviço ou de uso exclusivo de bem
público, segundo condições por ela estipuladas previamente,
convoca interessados na apresentação de propostas, a fim de
selecionar a que se revele mais conveniente em função de
parâmetros antecipadamente estabelecidos e divulgados.

Desta forma, constata-se que a licitação é o ato que antecede a formulação


do contrato administrativo, sendo, portanto, o contrato a sua consequência.
Após o término dos procedimentos licitatórios pertinentes, inexiste obrigação
por parte da administração de adjudicar o objeto licitado. Isto porque o licitante
vencedor simplesmente possui o interesse em ser escolhido, fato que gera direito
subjetivo público à sua efetivação. No entanto, se a Administração adjudicar o
objeto licitado, estará obrigada a celebrar o contrato com proponente vencedor.
Desta forma:

Como procedimento, a licitação desenvolve-se através


de uma sucessão ordenada de atos vinculantes para a
Administração e para os licitantes. Isso propicia igual
oportunidade a todos os interessados e atua como fator
de eficiência e moralidade nos negócios administrativos
(SOUZA, 1997, p. 15).

No direito administrativo, a licitação foi instituída com a finalidade de


impor uma forma de restrição à Administração Pública, evitando que esta
contrate livremente, deixando, assim, de cumprir os princípios da moralidade
e da igualdade, que devem ser observados quando da contratação de qualquer
serviço público.
Acrescenta Piscitelli (2006, p. 214) que:

Licitação é o conjunto de procedimentos administrativos,


legalmente estabelecidos, através do qual a Administração
Pública cria meios de verificar, entre os interessados
habilitados, quem oferece melhores condições para realização
65
José Ozildo dos Santos et al.

de obras, serviços, inclusive de publicidade, compras,


alienações, concessões, permissões e locações.

Analisando os conceitos acima expostos pode-se facilmente identificar o


objetivo da Licitação, que é garantir a observância do princípio constitucional
da isonomia e selecionar a proposta mais vantajosa para os contratos da
Administração Pública, conforme preceitua o artigo 3º da Lei Federal nº 8.666/93.
É importante destacar que a Lei das Licitações também diversificou os casos
em que a Administração pode ou deve deixar de realizar licitação, tornando-a
dispensada, dispensável, inexigível e até mesmo vedada. No entanto, a
inexigibilidade de licitação se verifica sempre que houver impossibilidade
jurídica de competição (PAULO; ALEXANDRINO, 2006).

2.2 Modalidades de licitação


A modalidade é a forma específica utilizada para se conduzir o procedimento
licitatório a partir dos critérios definidos em lei. Em cada modalidade há um
conjunto de regras que orientam os procedimentos que lhe são peculiares e dos
quais não se pode afastar a Administração, sob pena de afronta ao princípio
constitucional da legalidade.
Informa Meirelles (2005), que a Lei nº 8.666/1993, combinada com a Lei
Federal nº 10.520/2002 preveem seis modalidades de licitação, que são:
concorrência pública; concurso; convite; leilão; pregão e tomada de preços.
A escolha da modalidade de licitação está relacionada, principalmente, ao
valor estimado para a contratação. No entanto, é importante ressaltar que não
seguem essa regra as modalidades do Pregão, do Concurso e do Leilão, pois
estas não estão vinculadas a valores, por serem modalidades com características
específicas (MEIRELLES, 2005).

2.2.1 Concorrência
Definida como sendo a modalidade mais completa de licitação, a concorrência,
destina-se “a contratos de grande expressão econômica, por sua complexidade,
a Concorrência exige o preenchimento de vários requisitos e a apresentação
detalhada de documentos” (GASPARINI, 2004, p. 49).
Na concepção de Meirelles (1999, p. 70):

Concorrência é a modalidade de licitação própria para


contratos de grande valor, em que se admite a participação de
quaisquer interessados, registrados ou não, que satisfaçam as
condições do edital, convocados com antecedência mínima
de 45 ou 30 dias (arts. 22, §1º, e 21,§ 2º).

Nessa modalidade, qualquer interessado pode participar da licitação. No


entanto, essa amplitude na participação produzirá reflexos na fase de habilitação,
já que nesta fase a Administração examina, através dos documentos exigidos no
66
Licitações públicas: Modalidades e princípios aplicáveis

edital, se o concorrente apresenta condições de idoneidade para ter sua proposta


apreciada.

2.2.2 Tomada de preços


Prevista no art. 22, § 2º, da Lei n. 8.666/93, a toma de preço é uma modalidade
mais simplificada e mais célere, quando comparadas às outras modalidades. Por
essa razão, não está voltada a contratos de grande valor econômico.
De acordo com Pereira Júnior (1997, p. 100):

O novo ordenamento jurídico estabeleceu que tanto


podem participar da licitação os inscritos quanto os demais
que tiverem interesse no certame e preencherem as condições
necessárias ao cadastramento, até três dias antes do prazo
fixado para oferecimento de todas as propostas, ensejando
uma fase antecedente para os não inscritos, a fim de que seja
avaliada a capacidade, nos termos definidos no edital. A
habilitação deverá ser compatível com o objeto licitado [...].

Essa modalidade de licitação tem gerado muitas controvérsias. Esta situação


tem sido produzida pelo fato de que podem também participar do certame os
interessados, que atenderem a todos requisitos exigidos para cadastramento, até
três dias antes da data destinada ao recebimento das propostas.

2.2.3 Convite
Definida como sendo a modalidade de licitação mais simples, o convite é
efetuado entre interessados do ramo pertinente ao seu objeto, independentemente
de possuir ou não cadastrado no órgão que está promovendo a licitação. Estes
participantes, em número mínimo de 03 (três), são escolhidos e convidados pela
unidade administrativa.
Segundo Gasparini (2004, p. 51), no convite “prevê-se a faculdade de a
Administração escolher potenciais interessados em participar da licitação, sendo
que estes convidados não necessitam estar cadastrados previamente”.
Na modalidade de convite, a administração pode convidar qualquer possível
interessado que esteja apto a atender à sua necessidade, ressalvados aqueles
que estão impedidos de realizarem negócios com o poder público, por motivos
diversos.
Acrescenta Meirelles (2005, p. 86), que “no convite, de acordo com o § 1º
do art. 32 da Lei das Licitações, a documentação exigida dos licitantes para a
habilitação, de que tratam os arts. 28 a 31 da citada Lei, poderá ser dispensada,
no todo ou em parte”.
Entretanto, alguns documentos, como as certidões negativas de débito com
a Seguridade Social (CF art. 195, § 3º) e com o FGTS (Lei nº 9.012-95, art. 2º), não
podem ser dispensados.
67
José Ozildo dos Santos et al.

2.2.4 Concurso
Definida como sendo uma modalidade de licitação de caráter específico,
o concurso destina-se a escolha de um trabalho técnico, artístico ou científico,
mediante a instituição de prêmios ou remuneração aos vencedores, conforme
critérios constantes no edital.
De acordo com Dallari (1997, p. 80):

Concurso é a definição de procedimento licitatório


especificamente destinado à contratação de serviço técnico
ou trabalho artístico, efetuado mediante convocação
genérica de um número indeterminado de pessoas que
aceitam a remuneração previamente estabelecida, cuja
idoneidade pode ser verificada tanto previamente quanto no
concurso do procedimento, como ainda após a classificação
dos vencedores, e que, pela especificidade do objeto, exige
publicidade adequada para atingir um número razoável de
possíveis interessados.

Assim sendo, percebe-se que o concurso é uma modalidade de licitação de


natureza especial, porque apesar de se reger pelos princípios da publicidade e
da igualdade entre os participantes, objetivando a escolha do melhor trabalho,
dispensa as formalidades específicas da concorrência.

2.2.5 Leilão
O Leilão é uma modalidade de licitação entre quaisquer interessados em
adquirir bens móveis inservíveis para a Administração, bem como produtos
penhorados, legalmente apreendidos ou bens móveis alienados.
Segundo Gasparini (2005, p. 63):

O leilão tem um objetivo próprio, visa à alienação de


bens. Na redação original da Lei em estudo, o leilão somente
se destina à alienação de bens móveis. A redação original,
entretanto, foi modificada pela Lei n. 8.883/94, que passou
a permitir que o leilão se destinasse, em certos casos, à
alienação de bens imóveis.

Na licitação por leilão, a compra será efetuada por quem oferecer o maior lance.
Este pode ser igual ou superior ao valor da avaliação. O leilão administrativo é
feito por servidor público. No edital de leilão deve haver a descrição sucinta dos
bens, o local onde se encontram o dia, à hora e o local do leilão além do valor da
avaliação do bem, o qual serve de preço mínimo.

2.2.6 Pregão
Afirma Meirelles (2005, p. 126), que o pregão é a “modalidade de licitação
voltada à aquisição de bens e serviços comuns, assim considerados aqueles cujos
68
Licitações públicas: Modalidades e princípios aplicáveis

padrões de desempenho e qualidade possam ser objetivamente definidos no


edital por meio de especificações do mercado”.
A modalidade do pregão foi instituída pela Medida Provisória 2.026-7, de
23 de novembro de 2000, tendo sido convertida na Lei nº 10.520 de 2002, e
regulamentada pelo Decreto nº 3.555/2000.
Segundo Gasparini (2005, p. 61), “ao contrário do que ocorre nas outras
modalidades de licitação, no pregão a escolha da proposta é anterior à análise
da documentação, razão pela qual o processo é mais célere”.
Diante disto, ao invés de se analisar toda a documentação de todos os licitantes,
analisa-se somente a documentação de quem apresentou a melhor proposta,
estando em conformidade com o que fora solicitado no edital, encerrado estará
o processo, caso a documentação não estiver nos conformes do edital, analisar-
se-á a documentação de quem apresentou a segunda melhor proposta, e assim
sucessivamente.
No entanto, é importante ressaltar que o desenvolvimento tecnológico
proporcionou o surgimento do Pregão Eletrônico, que, segundo Maurano (2004)
é uma modalidade de licitação, que visa à aquisição de bens e serviços comuns
por meio da utilização de recursos de Tecnologia da Informação.
Na opinião de Palmieri (2000), quem mais se beneficia com o pregão eletrônico
é a sociedade, pois todos os acontecimentos de um pregão são registrados em
atas eletrônicas, que podem ser consultadas por qualquer cidadão interessado.
É importante destacar que enquanto num processo licitatório comum leva até
120 dias para se ter um resultado, no pregão esse resultado é instantâneo, tudo
isto graças ao desenvolvimento tecnológico.

2.3 Princípios da licitação


De acordo com Meirelles (2005), para que a licitação aconteça, devem
ser observados os seguintes princípios básicos: legalidade, impessoalidade,
moralidade, igualdade e publicidade,
Tais princípios são reflexos dos princípios do Direito Administrativo,
essencialmente normatizado em sua estrutura. Assim, ao selecionar particulares
para prestação de serviços, a Administração não pode nunca se escusar da
observação desses princípios.

2.3.1 Princípio da legalidade


A Administração Pública só pode fazer o que a lei permite. Nesse sentido,
não se pode imaginar a realização de procedimento administrativo que não
observe a legislação em vigor (DI PIETRO, 1999).
Por outro lado, afirma Cardozo (2000, p. 26) que:

Para avaliar corretamente o princípio da legalidade


e compreender o sentido profundo cumpre atentar para
o fato de que ele é a tradução jurídica de um propósito
político: o de submeter os exercentes do poder em concreto
69
José Ozildo dos Santos et al.

- administrativo - a um quadro normativo que embargue


favoritismos, perseguições ou desmandos. Pretende-se
através da norma geral, abstrata e impessoal, a lei, editada
pelo Poder Legislativo - que é o colégio representativo de
todas as tendências (inclusive minoritárias) do corpo social
- garantir que a atuação do Executivo nada mais seja senão a
concretização da vontade geral.

Independentemente da natureza do ato, por mais simples que este seja,


somente deve ser praticado pela Administração se estiver baseado e protegido
por uma norma (lato sensu). Na falta desta formalidade, não terá eficácia.
Explica Souza (1997, p. 17) que:

A obediência da Administração, em relação à lei, há de ser


ampla geral e irrestrita. O provérbio usado pelo particular -
“Tudo que não é proibido é permitido” - não prevalece para
a Administração Pública, para a qual vige o dogma: ‘Só é
permitido aquilo que a lei facultar’.

Analisando a citada acima, percebe-se que a lei é igual tanto para o


administrador quanto para o administrado. De forma que a finalidade da
imposição do princípio da legalidade é a de impor segurança na relação jurídica
patrimonial a ser firmada, evitando, dessa forma, que desvios sejam cometidos
em prejuízo do patrimônio público.

2.3.2 Princípio da impessoalidade


De acordo com Souza (1997, p. 18), “a moral administrativa exige a
conformação do ato não só com a lei, mas também com o interesse coletivo,
inseparável da atividade administrativa”.
Nesse sentido, a Administração deve pautar as decisões sem considerar as
condições pessoais do licitante ou vantagens por ele oferecidas. Ela deve-se ser
isenta e nunca promover o favoritismo.
Acrescenta Di Pietro (1999), que tal princípio proíbe o subjetivismo nas
decisões e afasta as possíveis influências pessoais que possam contaminar a
decisão a ser prolatada no procedimento licitatório.
É importante registrar que a impessoalidade dos atos administrativos é
pressuposto da supremacia do interesse público. Assim, quebrada a isonomia
no tratamento com os particulares, o gestor público deixa de observar o interesse
da coletividade, bem maior e objeto principal do Direito Administrativo.

2.3.3 Princípio da moralidade


Como o administrador é competente para a prática de um determinado ato,
mesmo sem violar a lei, pode usar de seu poder para fins e motivos diferentes
daqueles que lhe impõe a moralidade administrativa.
70
Licitações públicas: Modalidades e princípios aplicáveis

Na opinião de Melo (2000), do princípio da moralidade decorre a ideia de


que o administrador público deve se orientar pelos padrões éticos, marcados por
uma postura honesta, correta em seu agir.
É importante ressaltar que alguns doutrinadores não reconhecem este
princípio, posto ser um “princípio vago e impreciso, ou que acaba por ser
absorvido pelo próprio conceito de legalidade” (DI PIETRO, 1999, p. 77).
No entanto, tal princípio se constitui em importante norte para o
Administrador Público, pois a administração não pode tomar postura que
desabone a boa conduta de seus atos.

2.3.4 Princípio de igualdade


Na opinião Lima (1999), o princípio da igual possui um caráter impeditivo da
discriminação entre os participantes da licitação, quer mediante cláusulas que,
no edital ou convite, favoreçam uns em detrimento de outros, quer mediante
julgamento faccioso, que desiguale os iguais ou iguale os desiguais.
Por outro lado, observa Justen Filho (2002), que este princípio dá aos
participantes do processo licitatório, iguais condições para elaborarem propostas
dentro dos critérios esboçados pelo administrador no edital.
Por isso, tal edital deve conter de modo claro e objetivo os critérios de
diferenciação que o ente administrativo se utilizará. Com base nesse princípio,
o vencedor da licitação deve ser aquele que dentro do que foi priorizado pelo
edital e pelo procedimento obtiver a melhor proposta.

2.3.5 Princípio da publicidade


O princípio da publicidade diz respeito à divulgação oficial do ato para
conhecimento público e início de seus efeitos. Tal princípio assegura a fiscalização
pelos interessados da observância pela Administração dos princípios licitatórios.
Noutras palavras, tal princípio exige que os atos administrativos sejam públicos
para demonstrarem terem sido realizados com a devida transparência.
Observa Souza (1997, p. 17) que:

A publicidade é essencial no início do certame, para dar


conhecimento dele aos possíveis interessados; na abertura
dos envelopes, para permitir o controle; e para propiciar
recursos e impugnações, etc. Sua principal meta é garantir a
transparência dos atos da Administração, sem que nada seja
oculto ou distorcido.

Assim sendo, deve-se dar conhecimento dos atos licitatórios aos interessados
pelos mesmos meios e na mesma ocasião, evitando-se o privilégio da ciência
antecipada. A publicidade, além de princípio geral do direito administrativo,
é condição de eficácia dos direitos dos envolvidos na licitação e do seu amplo
controle pela sociedade em geral.
Cardozo (2000, p. 19) define este princípio com aquele:
71
José Ozildo dos Santos et al.

[...] que exige, nas formas admitidas em Direito, e dentro


dos limites constitucionalmente estabelecidos, a obrigatória
divulgação dos atos da Administração Pública, com o
objetivo de permitir seu conhecimento e controle pelos
órgãos estatais competentes e por toda a sociedade.

Através do princípio da publicidade dos atos administrativos, todo e


qualquer membro da sociedade pode participar da gestão administrativa,
fiscalizando e exercendo o controle sobre eles. Assim, conhecendo os atos da
administração, qualquer cidadão pode denunciar irregularidades, bem como
solicitar da autoridade competente a investigação que o caso requer. Para tanto,
o artigo 7º, § 8º, da Lei de Licitações, garante ao cidadão ao processo licitatório,
possibilitando ao mesmo o conhecimento dos quantitativos das compras e/ou
serviços, além de seus preços.

3 Considerações Finais

Na atualidade, a transparência na administração pública tem sido muito


debatida. No âmbito dessa temática, surgem os aspectos relativos à licitação
como procedimento de aquisição de bens e serviços, onde a sociedade deve ter
todo o conhecimento possível desse procedimento. Tal conhecimento, dar-se
através da publicidade.
Desta forma, a publicidade administrativa como um princípio constitucional,
que garante o acesso às informações e permitir a fiscalização dos atos da
Administração Pública, por parte do cidadão. Ademais, tal princípio permite
a efetiva participação do povo na tomada de decisões administrativas,
proporcionando uma maior correspondência entre as demandas sociais e as
ações administrativas.
Dentre os atos praticados pela administração, encontram-se os inerentes
à licitação, procedimento através do qual, a Administração Pública escolhe a
proposta mais vantajosa. Previsto na Constituição Federal, esse procedimento
deve ser transparente em todas as suas fases. É importante destacar que quando
não se aplica o princípio da publicidade aos atos licitatórios, deixa-se, portanto,
de se cumprir a regra contida no art. 74, § 2°, da Constituição Federal, violando
o direito do cidadão.

4 Referências

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de Janeiro: Impetus, 2006.
PALMIERI, Marcello Rodrigues. O pregão: Aspectos práticos. Jus Navigandi,
Teresina, n. 43, jul. 2000.
PEREIRA JÚNIOR, Jessé Torres. Comentários à lei das licitações e contratações
na administração pública. 4 ed. Rio de Janeiro: Renovar, 1997.
PISCITELLI, Roberto. Contabilidade pública. 9 ed. São Paulo: Atlas, 2006.
SOUZA, Fátima Regina de. Manual básico de licitação. São Paulo: Nobel, 1997.

73
O princípio da igualdade
do direito urbanístico
Rosélia Maria de Sousa Santos
José Ozildo dos Santos
Douglas da Cunha Silva
José Rivamar de Andrade

1 Introdução
A urbanização é um fenômeno resultante do processo de industrialização
desencadeado pela Revolução Industrial, que, por sua vez, fez com que as
populações rurais se deslocassem para as cidades, onde tornaram mãos de
obras da indústria nascente. Atualmente, as grandes cidades possuem como
característica básica a aglomeração de fábricas e serviços, onde são exercidas
atividades completamente desvinculadas das antigas atividades agrícolas.
Esse processo de transformação que ocorreu nas cidades também teve
implicações no âmbito jurídico. Assim, para disciplinar as chamadas relações
urbanísticas surgiu o Direito Urbanístico, que é fruto da crescente urbanização
e constitui um dos imperativos mais prementes da civilização, que tem por
objetivo controlar o processo de urbanização (SILVA, 1997).
Na concepção de Mukai (1988), o termo urbanização é utilizado para designar o
processo pelo qual a população urbana cresce em proporção superior à população rural.
Assim, quando se fala em urbanização está se referido ao fenômeno de
concentração urbana e não ao mero crescimento das cidades. Por sua vez, esse
fenômeno necessita ser disciplinado para que se evite o caos urbano.
Atualmente, existe o entendimento de que a cidade não é uma entidade com
vida autônoma, destacada e isolada num território. Por sua vez, as questões urbanas
existem um trabalho interdisciplinar, requerendo conhecimentos sociológicos
especializados, geográficos, estatísticos, de engenharia sanitária, de biologia, de
medicina, políticos, econômicos, e, sobretudo, do direito, cuja aplicação é pautada
em diversos princípios constitucionais (GUIMARÃES, 2004).
Nesse sentido, o presente artigo tempo por objetivo mostrar a importância do
princípio da igualdade para o direito urbanístico.

2 Revisão de Literatura
2.1 Urbanismo: A construção de um conceito
Para melhor compreender como o direito urbanístico se desenvolve e como
sobre ele atuam os princípios constitucionais, é de suma importância que faça
Rosélia Maria de Sousa Santos et al.

alguns comentários sobre o termo urbanismo. Existem vários conceitos para o


termo urbanismo, que pode ser visto pelos aspectos sociais, políticos ou técnicos.
De acordo com Correia (2003, p. 15-16), o conceito de urbanismo “tem uma
natureza polissêmica, já que comporta uma pluralidade de sentidos”.
Quando se analisa o urbanismo sobre seu aspecto social, percebe-se que o
mesmo é um fenômeno ligado estritamente ao crescimento da cidade (urbis),
que, por sua vez, exercem uma grande atração sobre as populações, o que
contribui para o seu crescimento.
Informa Carneiro (1998), que a população é um dos critérios utilizados
para se definir se determinada região constitui uma cidade e se pode ser
considerada como um centro urbano. Outro critério importante também levado
em consideração para essa definição é a forma predominante da atividade
econômica (CARNEIRO, 1998).
No entanto, independente do critério utilizado, todos levam à identificação
da cidade. E, quando se consegue entender o conceito de espaço urbano já é
possível se fazer uma reflexão sobre os problemas que existe nas cidades.
Na concepção de Guimarães (2004), o urbanismo não se resume a um fato
social. Ele é uma técnica de criação, desenvolvimento e reforma das cidades.
No contexto atual, o urbanismo é visto como sendo um importante elemento
na transformação das cidades. Como fenômeno social, técnico e político, ele
promove atividades próprias, aplicando seus princípios com o objetivo de
realizar o bem comum para as populações.
Na concepção de Moreira Neto (1997, p. 37):

O urbanismo apresenta-se, assim, como uma ciência


compósita, que vai buscar conhecimentos a várias ciências,
tais como a geografia, a arquitetura e a técnica de construção,
a estatística, a ciência econômica, a ciência política, a
ciência administrativa, a sociologia, a história, a ecologia
humana, e, inclusive, à própria medicina, com o objetivo de
possibilitar um desenvolvimento harmonioso e racional dos
aglomeramentos humanos.

Visto como uma técnica e ciência interdisciplinar, o urbanismo procura


corrigir os desequilíbrios urbanos, gerados pela urbanização e agravados pela
explosão urbana, que bem caracteriza a sociedade atual (SILVA, 1997).
Desta forma, o urbanismo é um fenômeno que em sua regulação, utiliza-se
de várias ciências, entre elas, o Direito que contribui com elementos, conceitos e
princípios, na busca de soluções para as chamadas questões urbanísticas.

2.2 O direito urbanístico: Algumas considerações


O termo urbanismo possui suas origens na palavra latina ‘urbs’, que significa
cidade. Desta forma, quando se fala em Direito Urbanístico está referido ao
76
O princípio da igualdade do direito urbanístico

direito da cidade, ao direito que trata das relações que se desenvolvem na cidade
e que a ela diz respeito estritamente.
Na concepção de Guimarães (2004), o Direito Urbanístico, na prática,
constitui-se em duas ciências (Direito e Urbanismo), que possuem o mesmo
objeto de estudo. No entanto, avaliado sob óticas peculiares.
Assim como o Urbanismo, o Direito Urbanístico também se preocupa com o
fenômeno urbano, não se esquivando de tratar da utilização dos espaços rurais.
Para melhor compreender o campo de atuação do Direito Urbanístico é de
sua importância que se apresente a sua definição.
De acordo com Moreira Neto (1997, p. 41):

Direito Urbanístico é o conjunto da disciplina jurídica,


notadamente de natureza administrativa, incidente sobre os
fenômenos do Urbanismo, destinada ao estudo das normas
que visem a impor valores convivências na ocupação e
utilização dos espaços habitáveis.

O Direito Urbanístico nada mais é do que um ramo novo do Direito. Suas


origens datam do início da década de 1980, quando se intensificaram as
discussões em torno da problemática urbanista, obrigando os legisladores a
preencherem a grande lacuna que havia no que diz respeito à organização do
espaço urbano.
Por ser ainda recente, o Direito Urbanístico tem sua autonomia questionada
por muitos. Grande parte da doutrina ainda defende que trata-se de um braço
do direito administrativo. E, existem também aqueles que veem esse novo
ramo do direito como uma disciplina de síntese, possuidora de um caráter
multidisciplinar.
Construindo um conceito para o Direito Urbanístico, Silva (1997, p. 31-32)
definiu-o como sendo:

[...] um conjunto de técnicas, regras e instrumentos


jurídicos, sistemáticos e informados por princípio
apropriados, que tenha por fim a disciplina do comportamento
humano relacionado aos espaços habitáveis, ou seja [...] arte
e técnica social de adequar o espaço físico às necessidades e
à dignidade da moradia humana.

É importante destacar que é no Direito Urbanístico que se encontra as bases


legais utilizadas para a definição e implementação da chamada política de
desenvolvimento urbano, que, por sua vez, tem por objetivo ordenar de forma
plena o desenvolvimento das funções sociais da cidade, com vista a garantir o
bem estar de toda a coletividade.
Dissertando sobre a importância do Direito Urbanístico, Nogueira (1991, p.
21) afirma que o mesmo:
77
Rosélia Maria de Sousa Santos et al.

[...] é uma disciplina jurídica que a cada dia ganha foros


de desenvolvimento, justamente porque a cidade, essência
do urbanismo, e onde tal Direito incide, exige diuturnamente
a sua participação, quer seja buscando compor litígios, quer
seja oferecendo os instrumentos necessários para que o
Poder Público e o particular possam encontrar formas de
convivência no âmbito dos seus interesses.

No entanto, no que diz respeito à autonomia do Direito Urbanístico em


relação aos demais ramos do Direito, trata-se de uma questão epistemológica.
Ainda não existe um consenso entre os juristas. Alguns admitem ser o mesmo
um ramo autônomo do Direito. Outros, porém, manifestam posição contrária.
É importante destacar que o Direito Urbanístico, que considerado um
ramo do Direito Público, não somente diz respeito espaços urbanos. Ele
também disciplina os espaços rurais, no que diz respeito à ocupação humana,
objetivando encontrar meios que possibilitem o atendimento das necessidades
do homem, tanto em termos de habitação, quanto em relação ao lazer, ao direito
de circulação e ao trabalho.
Na concepção de Meirelles (1997, p. 332):

[...] não há mais como negar a autonomia acadêmica e


político-institucional do Direito Urbanístico, não só pelas
referências explícitas feitas ao ramo do Direito na Constituição
Federal de 1988, mas também pelo fato de que foram
claramente cumpridos todos os ‘critérios’ tradicionalmente
exigidos para o reconhecimento da autonomia de um ramo
do Direito: o Direito Urbanístico tem objeto, princípios,
institutos e leis próprias.

O objeto do Direito Urbanístico é estudo do conjuntos de normas/princípios/


regras, que têm por fim o ordenamento das cidades. Por isso, afirma-se que
ele preocupa-se com os direitos e limitações inerentes à propriedade urbana,
voltando-se para a regulamentação e organização principalmente dos espaços,
objetivando evitar o fenômeno da concentração urbana, que diminui a qualidade
de vida das populações.
O que é certo é que o Direito Urbanístico possui princípios e disciplina
próprios, que no ordenamento jurídico brasileiro foram ampliados após a
aprovação do Estatuto da Cidade. Contudo, tem-se que reconhecer que o mesmo
ainda preserva uma larga identidade com o Direito Administrativo.

2.3 Objeto do direito urbanístico


Como o próprio termo expressa, o Direito Urbanístico tem por objeto a função
de regular a atividade urbanística. E mais, é ele que deve disciplinar a ordenação
78
O princípio da igualdade do direito urbanístico

do território. Dissertando sobre a utilização e o objeto do Direito Urbanístico,


Silva (1997, p. 31-32) afirma que o mesmo visa:

[...] precipuamente a ordenação das cidades [...], mas os


seus preceitos incidem também sobre as áreas rurais, no vasto
campo da ecologia e da proteção ambiental, intimamente
relacionadas com as condições da vida humana em todos os
núcleos populacionais, da cidade e do campo.

Assim sendo, pode-se afirmar que o objeto do Direito Urbanístico é promover o


controle jurídico do desenvolvimento urbano, preocupando-se, principalmente,
com as questões relacionadas aos processos de uso, ocupação, parcelamento,
bem como quanto à gestão do solo nas cidades.
Como ciência, na concepção de Mattos (2001, p. 54), o Direito Urbanístico é
um “ramo do direito público que tem por objeto expor, interpretar e sistematizar
as normas e princípios; vale dizer: estabelecer o conhecimento sistematizado
sobre essa realidade jurídica”.
Meirelles (1997) argumenta ainda que o Direito Urbanístico pode se
manifestar sob os seguintes aspectos:
a) o Direito Urbanístico objetivo: consiste no conjunto de normas jurídicas
reguladoras da atividade do poder público, destinadas a ordenar os espaços
habitáveis;
b) o Direito Urbanístico como ciência: busca o conhecimento sistematizado
daquelas normas e princípios reguladores da atividade urbanística.

2.4 A consolidação da chamada ordem urbanística


É importante destacar que com o Estatuto da Cidade, aprovado pela Lei
Federal nº 10.257/2001, a chamada ‘ordem urbanística’ ficou definitivamente
consolidada e passou a ser definida como sendo um conjunto de normas do
Direito Urbanístico, que, por sua vez, adquiriu mais autonomia no âmbito
jurídico.
Previsto no artigo 182, caput, da Constituição Federal, o Estatuto da Cidade
fixa as diretrizes e dispõe a respeito das competências da União, estados/distrito
federal e municípios sobre a política urbana.
Segundo Bernardi (2011), o Estatuto da Cidade:
a) privilegia o princípio da cidade sustentável: direito a terra urbana, direito
a moradia, ao saneamento ambiental, infraestrutura urbana;
b) direciona a  Política Urbana e fortalece a gestão democrática;
c) estimula a cooperação entre os governos, a iniciativa privada e os demais
setores da sociedade no processo de urbanização, em atendimento ao interesse
social.

Em síntese, o Estatuto da Cidade não somente consolida a Política Urbana,


como também estabelece, segundo Guimarães (2004), os seguintes princípios
para essa política:
79
Rosélia Maria de Sousa Santos et al.

a) A recuperação dos investimentos do Poder Público que resultaram na


valorização de imóveis urbanos.
b) Integração entre as atividades urbanas e rurais;
c) Justa distribuição dos benefícios e ônus da urbanização;

Dissertando sob a importância do Estatuto da Cidade, Bernardi (2011), afirmar


que o mesmo prevê os seguintes instrumentos jurídicos e de ação política:
a) A concessão de uso especial para fins de moradia.
b) A servidão administrativa;
c) Desapropriação.

Ademais, o referido Estatuto também elenca instrumentos tributários e


financeiros, além de instrumentos ambientais. Um melhor entendimento acerca
de tais instrumentos, pode ser proporcionado pela análise do Quadro 1.
Analisando o Quadro 1, constata-se que com o Estatuto da Cidade, preocupou-
se em definir um conjunto de instrumentos que ampliaram o campo do Direito
Urbanístico, dando-lhe mais autonomia no âmbito jurídico.
Ao definir as competências concorrentes da União, Estados e Distrito Federal,
a Carta Magna em vigor menciona o Direito Urbanístico em seu art. 24, inciso
I. E, essa definição reforça a tese de que o mesmo é um ramo autônomo, no
contexto da ciência jurídica (GUIMARÃES, 2004).
Ademais, o Direito Urbanístico não se esgota no artigo acima citado. Num
segundo momento, a Constituição Federal em seu art. 182, volta a enfatizá-lo
quando de forma relevante trata da política de desenvolvimento urbano, que
deve ser executada pelo Poder Público Municipal,
A união possui o papel de fixar as diretrizes gerais, através de lei e da
política urbana. Quanto às legislações urbanísticas dos estados/distrito federal
e município, estas devem complementar a norma federal, nunca contrariá-la.

Quadro 1. Instrumentos jurídicos, de ação política, tributários, financeiros e


ambientais, previstos no Estatuto da Cidade
Instrumentos Descrição
- A concessão de uso especial para ns de
Instrumentos Jurídicos moradia.
e de Ação Política - A servidão administrativa;
- Desapropriação.
- IPTU progressivo no tempo,
Instrumentos Tributários - A contribuição de melhoria
e Financeiros - Os incentivos e benefícios scais e
nanceiros;
- Estudo Prévio de Impacto Ambiental (EIA)
Instrumentos Ambientais
- Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV).
Fonte: Bernardi (2011), adaptado.
80
O princípio da igualdade do direito urbanístico

Se isto ocorrer, as mesmas serão consideradas inconstitucionais (BERNARDI,


2011).
Assim, conforme a própria Constitucional Federal expressa, no ordenamento
jurídico brasileiro o Direito Urbanístico tem por objetivo a missão de ordenar o
pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade, bem como garantir o bem-
estar de seus habitantes. Para atingir tais objetivos, utilizando-se dos princípios
e normas estabelecidas pelo Direito Urbanístico o município poderá elaborar o
seu plano diretor.
Segundo Bernardi (2011), o Plano Diretor é um instrumento básico da política
de desenvolvimento e expansão urbana, estabelecido pela Constituição Federal,
em seu art. 181, sendo obrigatório para as cidades com mais de 20 mil habitantes.
Trata-se, portanto, de uma Lei Municipal, que poderá fixar áreas onde o
direito de construir poderá ser exercido acima do coeficiente de aproveitamento
básico adotado, é  a transferência do direito de construir. O Plano Diretor objetiva
organizar sistematicamente aspectos físicos, econômicos e sociais do município
(BERNARDI, 2011).

2.5 Princípios do direito urbanístico


Ao facultar ao município a prerrogativa de elaborar o seu Plano Diretor,
Direito Urbanístico está demonstrando que o princípio da função social da
propriedade constitui o seu núcleo central (SAULE JÚNIOR, 1997).
No entanto, vários outros princípios Constitucionais contribuem para que
o Direito Urbanístico tenha autonomia e relevância material, dentre os quais,
segundo Guimarães (2004), pode-se destacar os seguintes:
a) Princípio da dignidade da pessoa humana;
b) Princípio da igualdade.

O princípio fundamental da dignidade da pessoa humana concretiza-se


através dos direitos fundamentais, que por sua vez, encontram-se estabelecidos
na Constituição Federal de 1988, representando a base do Estado Democrático
de Direito brasileiro. Por sua significância, o referido princípio serve de norte
jurídico para os todos os direitos fundamentais.
Entendem Guerra e Emerique (2006, p. 386) que:

O princípio da dignidade da pessoa humana impõe um


dever de abstenção e de condutas positivas tendentes a
efetivar e proteger a pessoa humana. É imposição que recai
sobre o Estado de respeitá-lo, o proteger e o promover as
condições que viabilizem a vida com dignidade.

O princípio fundamental da dignidade da pessoa humana estabelece


para os seres humanos um dever de tratamento igualitário para com demais
semelhantes. E mais, ele não permite que em nenhuma situação, nenhum direito
seja violado ao ponto de ferir a dignidade da pessoa humana.
81
Rosélia Maria de Sousa Santos et al.

Destaca Guimarães (2004), que o Direito Urbanístico, num visível respeito


às virtudes e qualidades humanas, encontra-se voltado para o desenvolvimento
das técnicas de ordenação dos territórios, proporcionando a utilização social da
propriedade. E, com isto, concretizando o direito à dignidade da pessoa humana.
É importante destacar que não se pode falar dignidade sem se preocupar
com moradia ou com as condições de habitação. E, sem levar em consideração
dos instrumentos urbanos que garantam a circulação, o lazer e o trabalho,
preconizados na chamada Carta de Atenas.
Ainda segundo Guimarães (2004), o Direito Urbanístico é também fundado,
no princípio da igualdade, que, por sua vez, encontra-se consagrado no art. 5º,
caput, da Constituição Federal do Brasil e constitui-se num direito fundamental
do cidadão.
No que diz respeito à Administração Pública, esta encontra-se vinculada
ao princípio da igualdade, cabendo-lhe a missão de elaborar e aprovar planos,
que garantam a ocupação, o uso e a transformação do solo urbano ou rural. De
forma categórica, a todo cidadão deve ser garantido, igualitariamente, o acesso à
cidade. E, que isto é uma função do Estado, representando, portanto, a aplicação
do princípio da igual ao direito urbanístico.

3 Considerações Finais

A análise do material bibliográfico selecionado para fundamentar a presente


produção acadêmica, permitiu concluir que o Direito Urbanístico é disciplina
autônoma do Direito. Ele possui um conjunto de normas específicas, que define
o seu objeto.
Tais normas encontram-se voltadas para o planejamento e gestão das cidades,
encontram-se embasadas tanto em princípios norteadores próprios, quanto em
princípios constitucionais.
No que diz respeito ao princípio da igualdade, este é utilizado pelo Direito
Urbanístico para fazer com que a cidade cumpra as suas funções sociais, mas
que garante uma melhor qualidade de vida, sendo-lhe respeito o seu espaço e
garantindo-lhe, de forma igualitária, o seu acesso a todo e qualquer ambiente.
Desta forma, o Direito Urbanístico encontra-se ligado diretamente ao Direito
de Propriedade, que no sistema jurídico pátio é regido pelos princípios da função
social, da dignidade da pessoa humana e da igualdade.
Assim sendo, é praticamente impossível discorrer sobre o Direito Urbanístico,
sem, contudo, direta ou indiretamente fazer referência ao princípio da igualdade.

4 Referências

BERNARDI, Jorge Luiz Bernardi. A organização municipal e a política urbana.


Curitiba: IBEX, 2011.
CARNEIRO, Ruy de Jesuz Marçal. Organização da cidade: planejamento
municipal; plano diretor; urbanização. São Paulo: Max Limonad, 1998.
82
O princípio da igualdade do direito urbanístico

CORREIA, Fernando Alves. Manual de direito do urbanismo (I). Coimbra:


Almedina, 2003.
GUERRA, Sidney; EMERIQUE, Lilian Márcia Balmant. O princípio da dignidade
da pessoa humana e o mínimo existencial. Revista da Faculdade de Direito
de Campos, v. 7, n. 9, p. 379-398, dez., 2006.
GUIMARÃES, Nathália Arruda. O direito urbanístico e a disciplina da
propriedade. Jus Navigandi, Teresina, ano 9, n. 235, 28 fev. 2004. Disponível
em: www.jus.com.br./revista/texto/4884. Acesso em: 25 ago. 2016.
MATTOS, Liana Portilho (org.). Estatuto da cidade comentado. Belo Horizonte:
Mandamentos, 2002.
MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Municipal brasileiro. São Paulo: Malheiros,
1997.
MOREIRA NETO, Diogo de Figueiredo. Introdução ao direito ecológico e ao
direito urbanístico. 3. Ed. Rio de Janeiro: Forense, 1997.
MUKAI, Toshio. Direito e legislação urbanística no Brasil: História, teoria,
prática. São Paulo: Saraiva: 1988.
SAULE JÚNIOR, Nelson. Novas perspectivas do direito urbanístico brasileiro:
ordenamento constitucional da política urbana, aplicação e eficácia do plano
diretor. Porto Alegre: Fabris, 1997.
SILVA, José Afonso. Direito urbanístico brasileiro. 2. ed. São Paulo: Malheiros,
1997.

83
O papel do agente público
na preservação do patrimônio cultural
Rosélia Maria de Sousa Santos
José Ozildo dos Santos
Iluskhanney Gomes de Medeiros Nóbrega de Miranda
José Rivamar de Andrade
Rafael Chateaubriand de Miranda
Douglas da Silva Cunha

1 Introdução

Quando se fala em patrimônio cultural, nele encontra-se incluídas todas as


manifestações culturais, os acervos históricos, as construções de significado
histórico, bem como os sítios arqueológicos, que constituem vestígios de
ocupação humana deixados por civilizações antepassadas. Desta forma, percebe-
se a dimensão que envolve o tema preservação do patrimônio cultural.
No que diz respeito aos centros históricos urbanos, aos gestores públicos,
cabe à missão de julgar, por meio do estabelecimento de critérios definidos em
lei, quais bens imóveis devem ser preservados e até que ponto essa preservação
deve ser promovida, sem, contudo, prejudicar, a dinâmica urbana e o direito
à cidade, que inclui o acesso aos equipamentos urbanos, no que diz respeito à
infraestrutura, moradia e aos fluxos de tráfegos, dentre outros (BRASIL, 2011).
Em todo processo de fomentação da preservação do patrimônio cultural,
especialmente, envolvendo imóveis, entende Yamawaki (2011, p. 83), que “é
necessário buscar o equilíbrio em seus diversos níveis, entre os valores e as
expectativas de preservação, associado ao respeito do direito de propriedade e
liberdade individual”.
É oportuno lembrar que a preservação do patrimônio cultural de um povo
representa também o resgate de seus valores, de sua cultura, de sua história;
bens estes que devem ser preservados para as gerações futuras, possibilitando
a estas um melhor entendimento a cerca do desenvolvimento socioeconômico e
cultural atingido pelas gerações lhes antecederam.
Ainda na opinião de Yamawaki (2011, p. 87):

No que se refere à gestão de patrimônio, evidencia-se a


necessidade de ações conjuntas entre as diferentes esferas
de governo para uma proteção e preservação mais efetiva.
A gestão do patrimônio cultural material imóvel foi dada
Rosélia Maria de Sousa Santos et al.

maior ênfase, justamente por interferir na configuração e na


dinâmica urbana.

A preservação do patrimônio cultural é de responsabilidade do gestor


público. No âmbito do poder municipal, este deverá ter a preocupação em
educar toda a sociedade para o envolvimento nesse processo de salvaguarda.
Cabe aos gestores municipais a criação de incentivos à preservação da cultura
local, podendo, para tanto, promover a criação do Fundo Municipal de Cultura
e do Conselho Municipal de Cultura. Com esses instrumentos, a administração
municipal poderá elaborar ações e políticas voltadas para a preservação da
cultural local, envolvendo nesse processo os diferentes segmentos sociais.

2 Revisão de Literatura

2.1 Patrimônio Cultural: Conceito


A palavra ‘patrimônio’ é derivada do vocabulário grego ‘pater’ (que significa
‘pai’) e está associada à noção de herança, de bens de família. Ao longo dos
tempos, o conceito de patrimônio sofreu significativas alterações e hoje o mesmo
é visto como sendo a constituição de todos os bens materiais e imateriais referente
à identidade de um povo ou nação.
No entanto, o interesse de preservar tais bens surgiu no final do século XVIII.
E, para mostrar a necessidade de identificação e de quais patrimônios deveriam
ser preservados, foram estabelecidos limites, regras e leis voltadas para o
processo de preservação desses bens. A partir daí, houve a preocupação de fato
com a preservação, tanto dos bens materiais como imateriais.
Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN,
2010, p. 1):

O patrimônio material [...] é composto por um conjunto


de bens culturais classificados segundo sua natureza nos
quatro Livros de Tombo: arqueológico, paisagístico e
etnográfico; histórico, belas artes; e das artes aplicadas. Eles
estão divididos em bens imóveis, como os núcleos urbanos,
sítios arqueológicos e paisagísticos e bens individuais; e
móvel, como coleções arqueológicas, acervos museológicos,
documentais, bibliográficos, arquivísticos, videográficos,
fotográficos e cinematográficos.

Pode-se afirmar que o reconhecimento da importância do patrimônio material


passou por um processo evolutivo ao longo da história, oportunidade em que
um conjunto de leis e normas foi elaborado, visando não somente estabelecer
normas para esse processo de preservação, mas mostrar a necessidade de
conscientizar a sociedade para participar dessa ação.
86
O papel do agente público na preservação do patrimônio cultural

De acordo com Yamawaki (2011, p. 86-87), com o tempo, “compreendeu-se


que a beleza de um bem considerado patrimônio se justificava também pelo
conjunto que formava com o ambiente natural em que se inseria, incluindo no
conceito o patrimônio natural”.
O processo de conscientização voltado para a preservação das diferentes
formas de patrimônio teve uma construção lenta. A priori, a forte preocupação
era proteger bens materiais de forma física, a exemplo dos grandes monumentos
edificados e das obras de valor artístico. Apenas em um segundo momento
teve-se a preocupação em preservar objetos de uso cotidiano, ou seja, utensílios
domésticos, mobiliários e moradias. E, por final, aquilo que constitui bem
imaterial.

2.2 O agente púbico na preservação do patrimônio cultural


A difícil tarefa de pensar e escolher quais critérios devem ser adotados na
preservação cultural, cabe ao gestor público, cuja decisão deve ser sempre
embasada num completo estudo, que pode ser representado por um inventário
cultural, tanto para os bens materiais, quanto para os ditos imateriais.
Por outro lado, quando aborda-se a necessidade de se preservar os diferentes
tipos de patrimônios, a Constituição Federal, em seus arts. 215 e 216, expressa
que:

Art. 215 - O Estado garantirá a todos o pleno exercício


dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional,
e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das
manifestações culturais [...].
Art. 216 - Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens
de natureza material e imaterial, tomados individualmente
ou em conjunto, portadores de referência à identidade,
à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da
sociedade brasileira, nos quais se incluem:
I - as formas de expressão;
II - os modos de criar, fazer e viver;
III - as criações científicas, artísticas e tecnológicas;
IV - as obras, objetos, documentos, edificações e demais
espaços destinados às manifestações artístico-culturais;
V - os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico,
paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico,
ecológico e científico (BRASIL, 2009, p. 146).

De acordo com a citação acima, é dever do Estado, desenvolver ações que


visem conservar e preservar a memória, bem como os valores culturais da
civilização brasileira. Noutras palavras, cabe ao Estado o desafio de gerir o
patrimônio cultural, buscando, de forma responsável, alternativas de proteção
de acordo com os direitos culturais de seu povo.
87
Rosélia Maria de Sousa Santos et al.

Por outro lado, a participação da sociedade no processo de preservação do


patrimônio cultural também encontra respaldo na Constituição Federal, quando
esta em seu art. 216, § V, 1º, quando afirma: “O Poder Público, com a colaboração
da comunidade, promoverá e protegerá o patrimônio cultural brasileiro, por
meio de inventários, registros, vigilância, tombamento e desapropriação, e de
outras formas de acautelamento e preservação” (BRASIL, 2009, p. 146).
Assim sendo, a parceria do gestor público municipal com a comunidade
nesse processo de preservação do patrimônio cultural torna-se imprescindível.
Pois, cabe à comunidade a responsabilidade de tornar-se a verdadeira defensora
de seus bens, sejam eles matérias ou imateriais.
Mostrando a necessidade da preservação e da valorização do patrimônio
cultural, a própria Confederação Nacional dos Municípios (CNM, 2008, p. 20)
afirma que:

O patrimônio cultural municipal precisa ser


constantemente reinventado. Tem de ser passível de ser
revisto para que siga atual, interessante e atrativo para
diferentes públicos e mídias e, por fim, acessível a todas as
camadas. O tratamento da cultura no município deve ser feito
em duas linhas: uma de manutenção das estruturas locais
e outra da divulgação do patrimônio local constantemente
remodelado para o mundo.

É importante ressaltar que, para que o patrimônio cultural seja reinventado,


é necessário o envolvimento do gestor público, ele precisa ser o principal
protagonista e o estimulador na identificação dos patrimônios culturais do
seu município. Por outro lado, também lhe cabe à tarefa de buscar incentivos
e parcerias, que deem o devido suporte nas ações municipais voltadas para a
preservação de tudo que diz respeito à cultural local.

2.3 A importância de uma definição da estrutura de trabalho para a cultura


A definição de uma boa estrutura para o desenvolvimento de ações voltadas
para a preservação do patrimônio cultural é algo primordial. Portanto, cabe ao
gestor público juntamente com sua equipe de governo determinar o tamanho
dessa estrutura, que poderá ser composta por conselho, fundações, institutos,
etc.
Em relação à definição dessa estrutura, a Confederação Nacional dos
Municípios (2008, p. 33) faz o seguinte comentário:

A definição da estrutura é um ponto crucial no


desenvolvimento de ações de cultura. Por um lado pode ser
muito positivo, pois a criação de secretarias, departamentos,
órgãos, etc. podem dar legitimidade política e operacional
para o secretario e o agente da área [...] vale ressaltar que,
88
O papel do agente público na preservação do patrimônio cultural

entre todas, a mais importante é a da criação do Conselho


Municipal de Cultura por ser ele o autor legítimo para
definir as diretrizes da cultura do município decidir sobre
a gestão do fundo municipal de cultura e garantir a ampla
participação de diversos setores da sociedade.

De acordo com a citação acima, a criação da estrutura voltada para a


promoção da preservação da cultural local é algo que deve ter uma boa
receptividade por parte do gestor público, visto que pode proporcionar-lhe
melhor representatividade política. Essa estrutura também facilita o processo de
alocação de recursos.

2.4 A importância da criação do fundo Municipal de Cultura Municipal - FMC


As leis de incentivos culturais bem como as ações de fomento contribuem
para o surgimento de projetos relacionados à estimulação, à divulgação e à
preservação do patrimônio cultural de um município. E, dessa forma o gestor
público ganhará em sua ação maior visibilidade, legitimidade e, principalmente,
transparência.
Mostrando a importância que o Fundo Municipal de Cultural - FMC desfruta
no contexto das ações promocionais relacionadas ao processo de preservação
do patrimônio cultural, a Confederação Nacional dos Municípios (2008, p. 24)
afirma que com essas instâncias:

[...] os municípios podem criar ações e politicas ligadas


diretamente a seu interesse. Um dos grandes objetivos a ser
atingido pelos fundos é a estimulação a produção cultural
local, para que seja garantido o acesso das pessoas às
atividades culturais, o investimento em projetos inovadores
ou coletivos que tenham sentido e significado para a
população local, principalmente a de baixa renda.

Assim sendo, o Fundo Municipal de Cultura, torna-se uma forma de garantir


a materialidade das ações de preservações do patrimônio cultural do município,
podendo colocar em prática tudo que foi planejado.
Em síntese, o FMC é um mecanismo fundamental no que se refere a projetos
e atividades voltadas para a promoção e valorização do patrimônio cultural de
um município.
Ele servirá como uma importante ferramenta para obtenção recursos nas
esferas federal e estadual, bem como para o recebimento de contribuições
dos setores empresarias e privados, destinadas à promoção da cultural local
(BRASIL, 2012).

2.5 O Conselho Municipal de Cultura - CMC


O desenvolvimento cultural em alguns municípios ainda é tímido. E toda
essa timidez tem como principal motivo a falta de incentivo por parte do gestor
89
Rosélia Maria de Sousa Santos et al.

público. Prova disso é a falta de organismos oficiais para que as ações culturais
sejam congregadas. São poucos os municípios brasileiros que já dispõem de
seu Sistema Municipal de Cultura e de seu respectivo Conselho Municipal de
Cultural (BRASIL, 2012).
Por tratar-se de um órgão colegiado e fazer parte da estrutura básica cultural
do município, o Conselho Municipal de Cultura propõe a formulação de politicas
com a participação da sociedade.
Dissertando sobre a importância do Conselho Municipal de Cultura, a CNM
(2008, p. 37) afirma que o mesmo:

[...] proporciona a abertura de espaços para a participação


de representantes da sociedade e agentes ligados a politicas,
produção e gestão cultural, estabelecendo discussão
qualificada. Terá suas atenções voltadas para as necessidades
e para os requerimentos do segmento, auxiliando na
qualificação e no desenvolvimento mais eficaz do produto
cultural, tornando-se um elo com todos envolvidos no
processo.

Desta forma, o Conselho Municipal de Cultura tem caráter fiscalizador,


consultivo e opinativo. Trata-se de um órgão ligado diretamente às manifestações
culturais municipais, que apresenta participação paritária, auxiliando o gestor
público no que diz respeito à promoção da cultura local.
É importante destacar que a importância do CMC vai além do ato de
fiscalizar. Tal órgão agirá também no sentido de formularizar e promover ações
de preservação e resgate, defender direitos, e, controlar as ações voltadas para a
cultura, levadas a cargo por parte do gestor público.

3 Considerações Finais
O papel do gestor público no quesito preservação do patrimônio cultural
pode ser um caminho longo a ser percorrido. Contudo, com a globalização da
sociedade, desencadeada pelas transformações promovidas pelos meios de
comunicação, houve uma alteração na forma e na necessidade de disseminar a
cultura.
E, diante dessa nova necessidade, cabe ao gestor público o resgate das
manifestações culturais de que seus munícipes são titulares, valorizando e
dando espaço aos chamados agentes ou ativistas culturais.
Assim, promovendo a preservação do patrimônio cultural, além de tornar
seu município diferenciado culturalmente, o gestor público estará contribuindo,
em muitos dos casos, para o resgate de pessoas que se encontram numa posição
social indigna para uma forma de vida melhor, na qual esse indivíduo se sinta
valorizado.
Todo município possui sua cultura própria e única, isso o torna atrativo,
interessante e diversificado. Ao gestor publico cabe o dever de reconhecer não
90
O papel do agente público na preservação do patrimônio cultural

somente o potencial econômico de seu município. Mas, a missão de identificar e


explorar de forma racional todas as demais potencialidades.
Percebe-se que o investimento de forma legal na cultura de um povo,
poderá ser uma saída inteligente para ajudar no que se refere às dificuldades
enfrentadas por grande parte dos municípios brasileiros. Pois, além de ser
um investimento viável para amenizar muitos problemas enfrentados pelos
municípios economicamente pobres, pode trazer consigo a inclusão social de
muitos jovens ao meio cultural e promover a geração de emprego e renda.
Por fim, um município sem cultura é um município morto. E o gestor público
tem por obrigação de ressuscitar este município para o qual ele foi escolhido
como representante. É importante que esse gestor tenha um novo olhar
cultural, um olhar que mude a expressão de seu povo, valorize seus potenciais,
resgatando seus valores principais. E, com essa nova visão, transforme e
reinvente as manifestações culturais das comunidades locais de forma constante,
para que seu município torne-se atrativo, bem como interessante, despertando
o interesse de públicos diversificados. E, ao mesmo tempo, tornando-se uma
referência regional, facilitando, assim, sua inserção nas chamadas rotas culturais
e turísticas.

4 Referências

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, Senado


Federal, 2009.
_____. Ministério da Cultura. Sistema Nacional de Cultural: Guia de orientação
para os municípios. Brasília, Ministério da Cultura, 2011.
_____. Ministério da Cultura. As metas do plano nacional de cultura. Brasília,
Ministério da Cultura, 2012.
CNM - Confederação Nacional dos Municípios. Cultura: Elementos fundamental
da transformação. Brasília: CNM, 2008.
IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Coletânea
de leis sobre preservação do patrimônio. Brasília: IPHAN/Ministério da
Cultura, 2010.
YAMAWAKI. Yumi. Introdução à gestão do meio urbano. Curitiba: IBPEX,
2001.

91
Sociedade e participação:
A construção do orçamento participativo
Rosélia Maria de Sousa Santos
José Ozildo dos Santos
Rafael Chateaubriand de Miranda
Iluskhanney Gomes de Medeiros Nóbrega Miranda
José Rivamar de Andrade
Douglas da Silva Cunha

1 Introdução
A Constituição Federal promulgada em 1988 fixou os princípios que norteiam
a gestão participativa, abrindo espaços para a chamada participação popular.
Trata-se de uma iniciativa inovadora e ao mesmo tempo necessária, diante
das transformações pelas quais vem passando o Estado, do qual, com maior
frequência a sociedade vem exigindo mais transparência em suas ações.
A participação popular, como princípio constitucional, também pode ser
encontrada em diplomas legais, a exemplo do Estatuto da Cidade, da Lei da Ação
Civil Pública e da Lei de Responsabilidade Fiscal, visto que tais leis determinam
que quando da elaboração de políticas públicas urbanas ou de projetos relativos a
assuntos de interesse urbano, sejam promovidas audiências e consultas públicas.
Assim sendo, objetivando cumprir tal princípio, desenvolveu-se o chamado
Orçamento Participativo, que pode ser reconhecido como sendo um instrumento
que ao mesmo tempo em que dá a administração um aspecto de transparência,
faz com que esta se torne eficiente e apresente soluções que vão de encontro às
reais necessidades da coletividade.
Desde que foi implantado na administração pública brasileira, o Orçamento
Participativo tem apresentado de forma significativa bons resultados, mostrando
que a implementação da participação da sociedade na gestão pública constitui
uma importante iniciativa, visto que faz com que a administração adquira
transparência e seja acima de tudo, eficiente. O objetivo do presente artigo é
mostrar a importância da participação da sociedade no processo de construção
da gestão democrática.

2 Revisão de Literatura
2.1 A democracia participativa
A participação popular na administração pública é algo que cresceu de forma
significativa nos últimos anos, principalmente, após a Constituição Federal de
Rosélia Maria de Sousa Santos et al.

1988, que é considerada a Constituição Cidadã. Em seu preâmbulo, a Carta


vigente ressalta que o Brasil é um Estado Democrático, ensejando, assim, a
participação popular na gestão da coisa pública (BRASIL, 2008).
Visando garantir um conjunto de direitos ao cidadão e à sociedade como um
todo, a Carta Magna em vigor estatuiu uma série de princípios, que devem ser
observados pela administração pública no cumprimento de suas funções.
Os princípios democráticos e participativos constituem verdadeiras máximas
constitucionais e estão situados no topo da hierarquia jurídica. Baseados neles,
se estrutura a chamada democracia participativa1.
Silva (2005) lembra que a democracia repousa sobre dois princípios
fundamentais ou primários, que lhe dão a essência conceitual. São eles:
a) o da soberania popular
b) o da participação, direta ou indireta, do povo no poder.

O princípio da soberania popular se traduz na máxima de que todo direito


emana do povo e deve ser exercido em benefício do próprio povo, ou seja, em
benefício do cidadão, independentemente de sua origem ou classe social. Já em
relação ao princípio da participação, entende-se que a democracia consolida-
se com a efetiva participação do povo no poder, contribuído na formulação de
propostas e ações que podem ser executadas pelo poder público, objetivando
atender às necessidades da população.
Por outro lado, a Constituição Federal em vigor ao abordar a soberania
popular, que é reconhecida pelo Estado Democrático, afirma que:

Art. 14. A soberania popular será exercida pelo sufrágio


universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para
todos, e, nos termos da lei, mediante:
I - plebiscito;
II - referendo;
III - iniciativa popular (BRASIL, 2008, p. 24).

Partindo do que estabelece a Carta Magna, a participação popular se configura


como o direito de participação política, no exercício do qual o cidadão participa
da administração da coisa pública, fiscalizando a aplicação dos recursos e
opinando sobre aquilo que deve ser considerado prioridade.
O termo ‘participação’ vem da palavra ‘parte’, fazer parte de algum grupo ou
associação, “tomar parte numa determinada atividade ou negócio, ter parte, fazer
diferença, contribuir para construção de um futuro melhor” (BORDENAVE,
1995, p. 22).
É oportuno lembrar que na participação popular, o povo também é agente
de decisão. E sua voz deve ser ouvida. Por outro lado, de acordo com Santin e

1
Democracia participativa ou semidireta: caracteriza-se pela coexistência de mecanismos da
democracia representativa com outros da democracia direta (referendo, plebiscito, revogação,
iniciativa popular, etc.) (PEDRA, 2003, p. 14).
94
Sociedade e participação: A construção do orçamento participativo

Mattia (2008), além dos mecanismos contidos no artigo 14, da Constituição de


1988, existem outros dispositivos que garantem a democracia participativa. São
eles:
a) os direitos fundamentais de acesso de todos à informação administrativa
(art. 5º, XIV e XXXIII);
b) o direito de petição e de certidão em repartições públicas (art. 5º, XXXIV);
c) a participação dos trabalhadores em colegiados de órgãos públicos em que
se discutam seus interesses (art. 10);
d) direito de fiscalização pelos contribuintes das contas dos municípios (art.
31, § 3º);
e) possibilidade de, na forma da lei, haver a participação do usuário na
administração direta e indireta (art. 37, § 3º);
f) direito de qualquer cidadão, partido político, associação ou sindicato
denunciar irregularidades ou ilegalidade perante as Cortes de Contas (art. 74,
§ 2º);
g) obrigatoriedade de o sistema de seguridade social observar o caráter
democrático e descentralizado da administração, numa gestão quadripartite
(art. 194, VII).

Apesar de a Constituição Federal estabelecer todos esses princípios, muitos


dos dispositivos acima citados ainda aguardam regulamentação. Quanto àqueles
autoaplicáveis, os agentes políticos que conduzem as instâncias governamentais
dificilmente partilham seu poder decisório com a população que os elegeu.
E, essa posição em completo desrespeito à Carta Magna, faz com que esses
dispositivos constitucionais tornem-se inócuos.
Entendem Oliveira e Araújo Júnior (2007, p. 6631) que:

Quando a Constituição determinou que a democracia


participativa seria um modelo para o país, e o legislador
infraconstitucional operacionalizou-a, colocou em prática
este modelo, tem-se que a conquista social de participação
na gestão das cidades é um avanço da própria sociedade
e se o direito constitucional direciona à ampliação destas
conquistas, qualquer tentativa de diminuí-las constituirá
afronta aos comandos constitucionais.

Na forma demonstrada, vê-se que o direito à participação popular na


administração pública é uma garantia constitucional. A Lei Maior teve todo
um cuidado em traçar e em enumerar os passos que deve ser observados
quando da participação popular. Noutras palavras, ela colocou à disposição
da sociedade uma série de mecanismos que garantem à população os meios de
acompanhamento da gestão pública, podendo, inclusive, participar das decisões
relacionadas à gestão e aplicação dos recursos públicos.
95
Rosélia Maria de Sousa Santos et al.

Segundo Pedra (2003, p. 14), a democracia indireta ou representativa é aquela


“em que o povo, fonte primária do poder, se governa por meio de representantes
eleitos periodicamente por ele, que tomam em seu nome e no seu interesse as
decisões políticas, envolvendo assim o instituto da representação”.
No ordenamento jurídico brasileiro, a democracia representativa e a
democracia participativa convivem conjuntamente e estão aptas pelo texto
constitucional para o exercício do poder político. Mesmo assim, deve-se destacar
que “os representantes são necessários, mas a opinião do povo deve fundar e
legitimar suas decisões” (SANTIN, 2003, p. 220).
Por outro lado, a democracia participativa produz um novo cenário na
sociedade, permitindo que o espaço público passe a ser ocupado por atores que
anteriormente não tinham acesso a esse espaço, oportunizando-lhes o direito de
reivindicar junto ao Estado, consolidando, desta forma, o conceito de cidadania.
Corroborando com esse pensamento, destaca Baierle (2000, p. 192) que:

[...] a cidadania se constrói pela participação direta e


indireta dos cidadãos, enquanto sujeitos políticos, não apenas
para a solução de seus problemas sentidos, sem espaços
públicos onde as decisões coletivas possam ser cumpridas,
mas também para um processo de radicalização democrática,
através do desempenho instituinte, transformador da própria
ordem na qual operam.

Nesse sentido, percebe-se que a participação popular além de ser um meio


através do qual a administração pública pode se tornar mais transparente e
eficiente, consolida o processo de construção da cidadania, visto que essa forma
de participação já se reveste numa das maneiras de se exercer tal faculdade.
Na participação popular é dado espaço a todos os cidadãos, que se traduz no
direito de participar e tornarem-se politicamente autônomos, podendo, na esfera
pública, discutirem os seus problemas e as suas necessidades (HABERMAS,
2003).
Deve-se registrar que a Emenda Constitucional nº 19, ao alterar o caput
do parágrafo terceiro do art. 37, adicionando-lhe três incisos, introduziu a
participação popular entre os princípios constitucionais, dando uma nova
moldura ao direito administrativo brasileiro. Tal princípio possui “a importante
função de retificar o distanciamento da organização administrativa em relação
ao cidadão, trazendo aquela mais próxima deste, legitimando mais sua atuação”
(GUIMARÃES; LEMOS, 2009, p. 8055).
Desta forma, percebe-se o quanto foi positiva a contribuição dada pela
Emenda Constitucional nº 19, possibilitando a concretização da participação
popular nos organismos que integram a administração pública no Brasil. A
partir dessa alteração constitucional, a administração pública, em suas diferentes
esferas, passaram a colocar em práticas os mecanismos que veem possibilitando
a participação popular. Assim, ampliou-se os conselhos nacionais, estaduais
96
Sociedade e participação: A construção do orçamento participativo

e municipais, de forma que o povo atualmente encontra-se mais presente nas


tomadas das decisões administrativas.

2.2 A participação administrativa


No contexto atual, a Administração Pública vem assumindo uma nova
configuração, que é caracterizada pela interface entre o Estado e a sociedade.
Dessa interface, surgiu o fenômeno da participação administrativa que é uma
das linhas de evolução da Administração Pública contemporânea.
Para Medauar (2003), participação administrativa refere-se:
a) à identificação do interesse público de modo compartilhado com a
população;
b) ao decréscimo da discricionariedade;
c) atenuação da unilateralidade na formação dos atos administrativos;
d) às práticas contratuais baseadas no consenso, negociação e conciliação de
interesses.

Como o próprio nome já diz, a participação administrativa traduz-se na


divisão das decisões da administração. Na gestão democrática, o povo participa
e decide, de forma que a administração pública é obrigada a deixar de lado o
caráter unilateral que antes conduzia suas ações, passando a priorizar aquilo
que é definido como sendo de interesse público.
No contexto da administração pública democrática, a participação
administrativa proporciona efeitos extremamente positivos. Por essa razão, ela é
algo que não deve ser dificultado.
Nesse sentido, entende Santin (2003, p. 127-128) que:

Restringir a participação do povo nos processos decisórios


que digam respeito ao seu Município é recusar sua cidadania
e, além disso, uma afronta aos princípios constitucionais
fundamentais. A criação de canais institucionais que
possibilitem à cidadania a tomada de decisões com igualdade
de oportunidade ocasionará a racionalização de recursos
e a redescoberta da cidadania em cada um e em grupo,
levando a um maior comprometimento da população com o
coletivo. Só assim será inaugurada uma gestão democrática
participativa, de todos e para todos, a partir da construção de
uma cidade mais humana e mais digna de se viver.

Na qualidade de legítima proprietária da coisa pública (o Estado é apenas


gestor), a sociedade tem o direito e o dever de controlar a administração pública.
E, sua participação sem dúvida alguma, auxilia na efetivação do princípio da
eficiência na gestão Pública, dando-lhe também mais transparência e seriedade.
Entre as várias formas que proporcionam a efetivação da participação
popular na esfera administrativa, têm-se os Conselhos Municipais formados
97
Rosélia Maria de Sousa Santos et al.

por membros da comunidade ou de organizações da sociedade civil. Deve-se


registrar que:

Os conselhos representam hoje uma estratégia


privilegiada de democratização das ações do Estado. Nos
espaços da federação temos conselhos municipais, estaduais
ou nacionais, responsáveis pelas políticas setoriais nas áreas
da educação, da saúde, da cultura, do trabalho, dos esportes,
da assistência social, da previdência social, do meio ambiente,
da ciência e tecnologia, da defesa dos direitos da pessoa
humana, de desenvolvimento urbano. Em diversas áreas
há conselhos atendendo a categorias sociais ou programas
específicos (BRASIL, 2004, p. 19).

Tais conselhos possuem uma grande importância para o desenvolvimento


da ação administrativa, principalmente, com relação à transparência e à
eficiência na Administração Pública. Através desses colegiados é possível
definir as prioridades que devem ser observadas pelo gestor público em relação
à sociedade.
Nesse sentido, é importante destacar que:

No processo de gestão democrática da coisa pública,


consignada pela Constituição de 1988, os conselhos assumem
uma nova institucionalidade, com dimensão de órgãos de
Estado, expressão da sociedade organizada. Não se lhes
atribui responsabilidades de governo, mas de voz plural da
sociedade para situar a ação do Estado na lógica da cidadania.
São espaços de interface entre o Estado e a sociedade.
Como órgãos de Estado, os conselhos exercem uma função
mediadora entre o governo e a sociedade. Poderíamos dizer
que exercem a função de ponte (BRASIL, 2004, p. 20).

Os conselhos servem como uma espécie de mediadores entre a sociedade


e o Estado, Assim, no desempenho de suas funções, tais organismos buscam
encontrar soluções que atendam as necessidades da população e/ou
proporcionem benefícios à sociedade como um todo, observando sempre
às disponibilidades orçamentárias que o governo dispõe, fazendo com que o
Estado e a sociedade estejam sempre conectados.
Outro mecanismo através do qual a participação popular pode contribui
para a efetivação do princípio da eficiência na administração pública municipal
é o orçamento participativo, que segundo Baierle (2000, p. 199) rege-se pelos
seguintes princípios:
a) participação aberta a todos os cidadãos, sem nenhum status especial
atribuído às organizações comunitárias;
98
Sociedade e participação: A construção do orçamento participativo

b) combinação de democracia direta e representativa, cuja dinâmica


institucional atribui aos próprios participantes a definição das regras internas;
c) alocação dos recursos para investimento de acordo com uma combinação
de critérios gerais e técnicos (ou seja, compatibilizando as decisões e as regras
estabelecidas pelos participantes com as exigências técnicas e legais da ação
governamental, respeitadas também as limitações financeiras).

Vê-se, portanto, que com a participação popular abre espaços para que todos os
cidadãos possam exercer o direito de participarem das decisões administrativas,
que digam respeito aos interesses de sua comunidade, de seu bairro, de sua
cidade, etc., inclusive, o direito de poder contribuir na elaboração do orçamento
que será utilizado, ou melhor, colocado em prática pela administração na gestão
das atividades direcionadas ao município.

2.3 O orçamento participativo


O Orçamento Participativo (OP) é um mecanismo de representação direta
dos cidadãos na discussão da elaboração do orçamento público. Ele é conhecido
como um elemento inovador na peça orçamentária brasileira, tendo como
experiência pioneira a cidade de Porto Alegre, na década de 1980. A partir
desse momento histórico o OP passou a dimensionar mais de cem municípios
brasileiros e até internacionalmente.
De acordo com Kashiwakura (1997, p. 7), o Orçamento Participativo pode ser
entendido como a:

[...] programação das atividades governamentais em


um determinado período de tempo, geralmente um ano, a
previsão dos recursos disponíveis para atender aos gastos
correspondentes e a aprovação esse programa por um órgão
representativo da soberania estatal.

É, portanto, essa aprovação que legitima os gastos e o próprio orçamento


como um todo, visto que tal legitimidade provém do povo. Ademais, com o
orçamento participativo é possível inserir no plano de ação da administração
pública a realização de obras e serviços que são essenciais, e, que na ausência da
participação popular, poderiam ser colocadas de lado ou substituídas por outras
obras de menor relevância social.
Destaca Bernardi (2011) que o Orçamento Participativo surgiu com a
finalidade de proporcionar a sociedade civil à oportunidade de participar
democraticamente das decisões governamentais.
É importante registrar que se bem planejado, o OP tem o poder de promover
transformação social, através de educação, socialização e delegação de poder,
tendo em vista que os representantes dos conselhos municipais e comitês devem
ser eleitos, exercendo função semelhante a do Poder Legislativo.
99
Rosélia Maria de Sousa Santos et al.

Na opinião de Khair (2001, p. 77):

O orçamento participativo amplia e aprofunda a


democracia e desenvolve a cidadania, na medida em que
estabelece melhor controle social sobre o Estado, reduz
o clientelismo, cria maior coparticipação entre governo
e comunidade e, no processo de seu desenvolvimento,
são aprimoradas regras de discussão, deliberação e
acompanhamento orçamentário das prioridades pactuadas
com o governo.

O Orçamento Participativo veio para modificar a elaboração orçamentária


no Brasil, usando de maneira eficiente os recursos públicos e capacitando os
cidadãos no monitoramento dos gastos públicos. Em matéria de compromisso
político, a administração pública seja por pressão ou iniciativa própria vem
aos poucos se colocando à disposição da sociedade para discutir o orçamento
público.
O Orçamento Participativo é dotado de vários aspectos promissores que
constituem fatores de mudança, proporcionando, segundo Pires (2002), os
seguintes benefícios:
a) avaliação de resultados e correção de rumos;
b) ênfase na necessidade do ‘cliente’ e não da ‘burocracia’.
c) enfrentamento dos problemas em parceria com a comunidade;
d) exorcização do populismo;
e) fortalecimento das funções do planejamento por exigência da sociedade;
f) resgate da cidadania;
g) reversão da cultura da corrupção no setor público.

O orçamento participativo continuadamente vem mudando a realidade dos


pequenos municípios brasileiros, em especial, influenciando principalmente nos
aspectos políticos, econômicos e sociais, uma vez que é a partir da iniciativa do
Estado que o referido orçamento se efetiva e a população elenca as prioridades
que certamente causarão impactos positivos do ponto de vista econômico e
social nessas localidades.

3 Considerações Finais

A administração pública sempre foi vista como sendo algo ineficiente e


que não atendem aos interesses da sociedade, deixando, por vários motivos,
de cumprir as suas funções básicas, dentre as quais destaca-se a missão de
promover o bem estar da coletividade. Assim, por muito tempo e com grande
frequência, a administração pública realizou obras que terem sido elaboradas
‘de cima para baixa’, nunca cumpriram nenhuma função social, quando, na

100
Sociedade e participação: A construção do orçamento participativo

realidade, a comunidade residente em seu entorno necessitava de uma creche,


de um hospital ou de simplesmente de uma reforma numa escola.
A Constituição Federal de 1988 inseriu no ordenamento jurídico brasileiro
o princípio da participação popular, através do qual o Estado, ou melhor, a
administração pública, em seus três níveis, está obrigada a convocar a sociedade
para participar da elaboração de políticas públicas, bem como de projetos
relativos a assuntos de interesse urbano. No entanto, essa participação popular
ainda é um processo em construção.
No Brasil, sempre se exigiu da administração pública mais transparência
e mais eficiência. No entanto, faltava no ordenamento jurídico brasileiro
instrumentos que oportunizar-se à sociedade um maior acompanhamento das
ações realizadas pela administração pública.
No primeiro passo nesse sentido foi dado através da Constituição Federal
de 1988, quando a participação popular tornou-se um princípio constituição.
Posteriormente, surgiram alguns diplomas legais a exemplo da Lei de
Responsabilidade Fiscal, do Estatuto da Cidade e da Lei da Ação Civil Pública,
que reforçam o princípio da participação popular e condicionam a elaboração de
políticas públicas urbanas à promoção de audiências e consultas públicas.
No entanto, apesar de todo esse aparelho normativo, tem se notado que
o Orçamento Participativo - definido como sendo um dos instrumentos que
auxilia na efetivação do princípio da participação popular - ainda é algo muito
pouco utilizado na administração pública brasileira, principalmente, no âmbito
municipal. Como instrumento inovador da gestão pública, o Orçamento
Participativo é muito discutido na sociedade, principalmente, no meio acadêmico,
fato que demonstra que a sociedade brasileira ainda não é participativa.

4 Referências

ARAÚJO, Karina Baricelli Martinez de, PEDROSA NETO, Carlos; SOUZA,


Tânia Soares de. Gestão escolar em foco 2009. Boa Vista: SEECAD, 2009.
BAIERLE, Sérgio Gregório. A explosão da experiência: emergência de um novo
princípio ético-político nos movimentos populares urbanos em Porto Alegre.
In: ALVAREZ, Sonia E.; DAGNINO, Evelina. et al. (org) Cultura e política
nos movimentos sociais latino-americanos: novas leituras. Belo Horizonte:
UFMG, 2000.
BERNARDI, Jorge. A organização municipal e a política urbana. 3 ed. Curitiba:
IBPEX, 2011.
BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Conselhos
escolares: Uma estratégia de gestão democrática da educação pública.
Brasília: MEC/SEB, 2004. Programa Nacional de Fortalecimento dos
Conselhos Escolares.
______. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado
Federal, 2008.
101
Rosélia Maria de Sousa Santos et al.

GUIMARÃES, Patrícia Borba Vilar; LEMOS, Rafael Diogo Diógenes. Participação


popular e eficiência nas agências reguladoras: fundamentos, limites e
conflitos. XVIII Congresso Nacional do CONPEDI, realizado em São Paulo-
SP nos dias 04, 05, 06 e 07 de novembro de 2009. Anais...
HABERMAS, Jürgen. Era das transições. Tradução de Flávio Beno Siebeneichler.
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KHAIR, Almir Antônio. Gestão fiscal responsável: Guia de orientação para
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SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 24. ed., São
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102
Uma abordagem sobre o processo
de urbanização no Brasil
Rosélia Maria de Sousa Santos
José Ozildo dos Santos
José Rivamar de Andrade
Douglas da Silva Cunha
Jessiane Dantas Fernandes

1 Introdução

Durante séculos, o Brasil foi um país totalmente agrário. Somente quando o


foco da economia foi transferido da agricultura para a indústria foi que realmente
o país passou a sentir os primeiros reflexos do processo de urbanização.
Abordando sobre como ocorreu esse processo Santos (2005) informa que
o período de 1500 e 1720 corresponde aos ‘primórdios da urbanização’. Foi
nesse período onde ocorreu o início da rede urbana brasileira com a criação
das primeiras vilas e cidades, proporcionadas pela expansão da agricultura
comercial e pela exploração mineral.
Somente a partir do século XVIII foi que a urbanização se desenvolveu no
Brasil, atingindo sua maturidade apenas no século XIX.
No entanto, embora a quantidade de cidades e o número de pessoas
vivendo nelas tenham crescido de forma significativa nesse período, o índice de
urbanização pouco foi alterado até o final do século XIX, somente aumentando
realmente entre 1920 e 1940, quando “a população concentrada em cidades passa
de 4.500.000 de pessoas em 1920 para 6.208.699 em 1940” (SANTOS, 2005, p. 25).
Assim, percebe-se que no Brasil, a princípio, o processo de urbanização foi
lento, somente se intensificando com o início da industrialização, fator que
contribuiu para seu aumento.
O presente artigo tem por objetivo promover uma abordagem sobre o
processo de urbanização registrado no Brasil, durante o último século.

2 Revisão de Literatura

2.1 A intensificação do processo de urbanização no Brasil


No Brasil, o processo de urbanização somente se intensificou a partir da
década de 1930, quando o Estado realizou as primeiras tentativas de romper
com a dependência externa por meio da ‘substituição de importações’.
Rosélia Maria de Sousa Santos et al.

Registra Singer (2002), que naquela época, o Estado utilizou todos os


instrumentos a sua disposição para assegurar uma nova divisão social do
trabalho necessária para estimular o crescimento industrial, tendo, inclusive,
promovido a transferência de excedente dos grupos sociais de exportação
agrícola para os grupos industriais.
É importante destacar que a unificação nacional, tanto física quanto política,
produzida pelo governo revolucionário instalado no país no final de 1930,
proporcionando condições para uma crescente concentração do capital. Essa
concentração ocorreu principalmente em São Paulo, por possuir o maior parque
industrial do país formado pela cultura do café. E foi nesse Estado onde o
processo de urbanização deu-se de forma mais acelerada.
Por outro lado, registra Campos Filho (1992) que o forte movimento de
urbanização verificado a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, produziu um
grande crescimento demográfico, resultado de uma taxa de natalidade elevada
e de uma queda nas taxas de mortalidade, possibilitadas pelos progressos
sanitários e melhoria relativa nos padrões de vida.
Durante a Segunda Guerra, o Brasil acumulou grande saldo na balança
comercial graças à venda de matérias-primas estratégicas aos países aliados, o
que permitiu a acumulação de divisas. Essa situação contribuiu para intensificar
o processo de urbanização. Desta forma, pode-se afirmar que a aceleração do
referido processo no Brasil também esteve ligada ao aumento da industrialização.
De acordo com dados do IPEA (2001, p. 346), foi durante o período
compreendido entre 1956-60 a 1975-79, denominado “fase da industrialização
pesada”, que se iniciou um processo de constituição da rede urbana integrada em
âmbito nacional e foi proporcionada, principalmente, pelos recursos destinados
ao setor de energia e transporte previstos no Plano de Metas do Governo de
Juscelino Kubitschek e pelo capital estrangeiro.
O governo JK foi marcado por grandes investimentos no Brasil, ampliou-se o
número de indústrias, tanto de metalúrgicas quanto de automotores, assinalando
uma nova era na economia e no desenvolvimento do país.
A chegada de multinacionais ao país, notadamente nos anos 1950 e 1960,
somente foi possível porque o Estado brasileiro desenvolveu grandes projetos
nos anos 1940. A partir deste momento, deu-se um impacto maior da
industrialização sobre a urbanização brasileira. Entre 1940 e 1950, o crescimento
populacional total foi de 25% (BARBEIRO; CANTELE; SCHNEEBERGER, 2004).
No período de 1940 a 1950, o Brasil adquiriu um novo aspecto. Sua população
ampliou consideravelmente e passou a se deslocar mais do meio rural para
os grandes centros, que passaram a sentir mais fortemente os impactos da
industrialização que vinha ocorrendo no país.
Observa Campos Filho (1992), que no período de 1940 a 1950, no que concerne
à população urbana, o crescimento atingiu a taxa de 45%.
Analisando esses dados, percebe-se que o crescimento da população urbana
foi muito superior à população total, e isto demonstra que o Brasil cada vez mais
ia se tornando um país urbano. A instalação de novas indústrias também trazia
104
Uma abordagem sobre o processo de urbanização no Brasil

para as cidades um maior número de trabalhadores, geralmente, oriundos do


meio rural e das pequenas cidades.
Observa ainda Santos (2005), que regionalmente, a urbanização se mostrou
bastante diferenciada. Pois, foi no Sudeste, mais modernizado e industrializado,
que esse processo mais se intensificou, o mesmo não se verificando no Nordeste,
no Centro-Oeste, Sul e Norte.
Entretanto, a partir de 1960, quando a população urbana no Centro-Oeste
aumentou fez com que o Nordeste passasse a ocupar sozinho o posto de região
menos urbanizada do país.
Apesar dessas diferenças, destaca ainda Santos (2005), que todas as regiões
sofreram revigoramento no seu processo de urbanização graças às diversas
modalidades do impacto da modernização sobre o território ocorridas a partir
dos anos 1960, e principalmente na década de 1970.
Por outro lado, a partir da década de 1960, com o impulso dado pela
intensificação da industrialização, começou a ocorrer uma inversão na
quantidade de pessoas residentes na área urbana e rural. A Tabela 1, apresenta a
evolução da população brasileiro, no período de 1900 a 2000.
Analisando a Tabela 1, é possível constatar que o crescimento da população
brasileira somente foi mais lento nos períodos de 1900-1920 e de 1920-1940. A
partir da década de 1950, o Brasil passou a apresentar um crescimento bastante
significativo em sua população, saindo de 17.438.434 habitantes, em 1900, para
190.732.694, em 2010. Ainda com base na Tabela 1, constata-se que foi período
de 1980 a 1991, que a população brasileira apresentou um maior crescimento.
Até o início da década de 1960, segundo Santos (2005), a população brasileira
se concentrava mais meio rural (54,9%). Na década seguinte, o Brasil já era um
país predominantemente urbano (56%).
Isto ocorreu porque registraram-se alterações nas relações de trabalho
no campo e na cidade, que tiveram como consequências o êxodo rural e o

Tabela 1. Evolução da População Brasileira (Censo Demográfico)


DÉCADA POPULAÇÃO
1900 17.438.434
1920 30.635.605
1940 41.236.315
1950 51.944.397
1960 70.191.370
1970 93.139.037
1980 119.002.706
1991 146.825.475
2000 166.112.500
2010 190.732.694
Fonte: IBGE (http://www.ibge.gov.br.)
105
Rosélia Maria de Sousa Santos et al.

crescimento das cidades brasileiras. Nesse período uma grande parcela da


população brasileira deixou o meio rural e instalou nas grandes cidades.
Santos e Silveira (2001) afirmam que cada vez as grandes cidades foram
ampliando sua população. E, no início da década de 1990, aproximadamente
80% da população total brasileira - estimada em 146,5 milhões de habitantes, já
vivia nas cidades.
Com a institucionalização das regiões metropolitanas em 1973, São Paulo e
Rio de Janeiro continuaram a receber contingentes de migrantes. A população
migrante dirigiu-se para as cidades das regiões metropolitanas, dando-se
também o crescimento das cidades médias longe dos grandes centros.
Diversos fatores contribuíram para o aumento da urbanização no Brasil. No
entanto, Singer (2002) relaciona os seguintes:
a) a industrialização,
b) o crescimento natural da população,
c) a mecanização da agricultura (e mudanças nas relações de trabalho na
agropecuária);
d) a busca por melhores condições de vida (mais acesso à saúde, educação,
emprego).

É importante registrar que no Brasil, os processos de industrialização e


urbanização coincidiram, tanto em termos socioeconômicos como espaciais,
no fenômeno da metropolização, que pode ser entendido como a concentração
massiva de população, produção e consumo em e ao redor de algumas poucas
grandes cidades.

2.2 Urbanização versus problemas urbanos


O aumento acelerado do processo de urbanização teve como contrapartida a
geração de uma série de problemas sociais, que passaram a comprometer cada
vez mais a qualidade de vida da população.
Analisando essa situação, Guerra e Cunha (2006) relacionam os seguintes
problemas urbanos que comprometem a sustentabilidade das cidades:
a) a ocupação irregular de território que faz com que haja um aumento no
número de pessoas vivendo em moradias insalubres, produzindo o chamado
processo de favelização;
b) a falta de saneamento básico adequado, que tem como consequência
a proliferação de doenças infectocontagiosas e está diretamente ligado à
mortalidade infantil;
c) a poluição hídrica (que agrava cada vez mais a escassez de água em
algumas cidades);
d) a falta de coleta e destinação inadequada dos resíduos sólidos.

Estes problemas surgem porque o crescimento da população urbana não é


acompanhado pela implementação de infraestrutura para garantir condições
mínimas de qualidade de vida. Assim, como consequências, avolumam-se nos
106
Uma abordagem sobre o processo de urbanização no Brasil

grandes centros problemas como baixos índices de saúde, educação e salários,


aliados à falta de equipamentos urbanos.
Segundo Silva (1997, p. 21):

A urbanização gera enormes problemas, deteriora o


ambiente urbano, provoca a desorganização social, com
carência de habitação, desemprego, problemas de higiene
e de saneamento básico. Modifica a utilização do solo e
transforma a paisagem urbana. A solução desses problemas
obtém-se pela intervenção do poder público, que procura
transformar o meio ambiente e criar novas formas urbanas.

A falta de planejamento traz inúmeras consequências para as cidades,


atingindo, diretamente a sua população, principalmente, aquele segmento
mais pobre, que sofre pela falta de infraestrutura básica e obras de saneamento.
Essa situação se agrava porque os processos de urbanização estão sempre
direcionadas ao atendimento das classes médias e altas, obrigando a população
pobre a fixar-se nas periferias, vivendo em áreas sujeitas a riscos e sem acesso a
serviços básicos como água e esgoto.

2.3 Planejamento urbano


O planejamento urbano é algo abordado por diferentes áreas a exemplo
da sociologia, economia, geografia, administração e engenharia. No entanto,
independentemente da área, o conceito de planejamento urbano está sempre
correlacionado ao suprimento das necessidades da população, visando oferecer
melhores condições de vida aos habitantes dos espaços urbanos.
Nesse sentido, Duarte (2011, p. 26), afirma que o “planejamento urbano é
um conjunto de ações desejáveis para o bom desenvolvimento socioeconômico
urbano”.
Desta forma, toda e qualquer ação, elaborada por corpo técnico capacitado,
que privilegie a gestão do espaço urbano pode ser considerada planejamento
urbano.
É importante destacar que o planejamento urbano é composto por vários
planos, e que esses planos priorizam metas tecnológicas e sociais, que concretizam
a gestão urbana.
Informam Barcellos e Barcellos (2004), que as metas tecnológicas e sociais
para o planejamento da gestão urbana são várias e entre estas incluem:
a) o planejamento do desenvolvimento de comunidades e do futuro de
cidades, regiões, setores industriais e associações profissionais;
b) o desenvolvimento de planos abrangentes de reinvenção do governo;
c) o planejamento do desenvolvimento regional;
d) a gestão de conflitos entre partes litigiosas e diversos grupos de interesse
no setor público;
e) o desenvolvimento de parcerias a longo prazo com clientes, fornecedores
ou agentes reguladores governamentais;
107
Rosélia Maria de Sousa Santos et al.

Somente através de um planejamento urbano integrado é possível corrigir os


problemas gerados pela urbanização. Nesse planejamento, devem ser levadas
em considerações as condições ambientais, visando à promoção da qualidade
de vida da população. Noutra palavras, o processo de urbanização deve ser
promovido com base na concepção de desenvolvimento sustentável, sem
comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem às suas próprias
necessidades.
Nas grandes cidades brasileiras, que tiveram um substancial aumento
populacional, impulsionado pelo intenso êxodo rural, a carência de empregos
nos setores secundário e terciário, trouxe, segundo Mota (1999), as seguintes
consequências:
a) com a expansão das favelas,
b) o crescimento da economia informal,
c) o aumento do contingente de população pobre.

Desta forma, percebe-se que no Brasil, o processo de urbanização sempre foi


acompanhado de desequilíbrios demográficos, sociais, políticos e econômicos.
Para tentar mudar essa situação, informa Egler (2001) que a Constituição
Federal de 1988 determina a elaboração do Plano Diretor como elemento
definidor da política urbana no país, que deve ser elaborado pelos municípios
com mais de 20.000 habitantes.
Com a obrigatoriedade da implementação do Plano Diretor, foram
estabelecidas condições favoráveis para o desenvolvimento de parcerias e à
abertura de espaços para o estabelecimento de novas relações entre Estado,
capital e sociedade.
Outra significativa contribuição à gestão urbana foi a aprovação em 2002 do
Estatuto da Cidade, que vem sendo considerado como uma grande esperança
de criação de novos instrumentos e mecanismos que permitam enfrentar as
desigualdades que marcam o cenário urbano brasileiro (DUARTE, 2011).

2.4 As regiões metropolitanas brasileiras


No Brasil, o crescimento da economia industrial proporcionou a criação
de uma densa rede urbana, formada, segundo Santos (2005), por nove regiões
metropolitanas: Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de
Janeiro, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre.
Essas regiões metropolitanas foram criadas por lei, observando-se parâmetros
válidos à época de sua instituição. Atualmente, outras regiões urbanas merecem
idêntica nomenclatura, pois o fenômeno de metropolização é mais dinâmico que
a legislação.
Afirmando que o fenômeno metropolização vai muito além da definição
legal, Santos (2005) considera as regiões de Brasília, Campinas, Santos, Manaus
e Goiânia, como novas regiões metropolitanas e acrescenta que as regiões
metropolitanas se desenvolvem com maior velocidade do que o ato de planejar
108
Uma abordagem sobre o processo de urbanização no Brasil

o espaço. E, essa tendência gera um crescimento desordenado, implicando em


impactos sociais e ambientais.
Por outro lado, informam Guerra e Cunha (2006) que o desenvolvimento
metropolitano vem sempre acompanhado de problemas sociais e ambientais,
tais como:
a) a carência de infraestrutura urbana: a falta de saneamento básico contribui
para o aumento das doenças juntos às populações mais, reduzindo a qualidade
de vida dessas populações;
b) a falta de moradias e favelização: constitui um grande problema dos
centros, fazendo com que as populações pobres vivam em condições subumanas;
c) a intensificação do trânsito: problema que é aumento pela falta de
planejamento;
d) a ocupação de áreas de mananciais da planície de inundação dos rios, e de
vertentes de declive acentuado: coloca em perigo a vida de muitas pessoas, pois
estão expostas as chuvas e inundações e constantes perdem suas casas;
e) a periferização da população pobre: sem condições e sem trabalho, a
população pobre se concentra na periferia das grandes cidades;
f) a poluição: produzida pela indústria e pelo aumento do lixo doméstico,
que frequentemente é depositado nos rios e córregos;
g) o crescimento da economia informal: sem emprego, a população procura
na informalidade sua sobrevivência.

No Brasil, principalmente nas metrópoles de São Paulo e Rio de Janeiro, os


problemas sociais e ambientais acima relacionados são bem frequentes.
Em São Paulo, por exemplo, cresceu praticamente à revelia de um planejamento
urbano, seus equipamentos de infraestrutura, moradia e transportes não atendem
às demandas sociais. Esse crescimento, segundo Singer (2002) provocou intensa
conurbação1, criando uma gigantesca área urbana conhecida como ‘a grande São
Paulo’.
No entanto, apesar de registrar inúmeros problemas sociais e ambientais, a
cidade de São Paulo não tem reduzida a importância econômica, política e social.
E, embora viva hoje um processo de fuga de indústrias, continua assumindo
uma vocação de polo financeiro, comercial e de serviços em geral, no país.
Por outro lado, levando em consideração os aspectos apresentados, São Paulo
é a metrópole global brasileira, possuindo as principais atividades econômicas
do país.
De forma singular, Santos (2005) agrupa as regiões metropolitanas brasileiras
da seguinte forma:
a) Metrópoles globais: São Paulo e Rio de Janeiro;
b) Metrópoles Nacionais: Porto Alegre, Brasília, Salvador e Curitiba;
c) Metrópoles Regionais: Goiânia e Campinas;

1
Aglomeração formada por uma cidade e seus satélites ou por diversas cidades, área metropolitana
109
Rosélia Maria de Sousa Santos et al.

d) Centros Regionais: Manaus e Natal:


e) Centros Sub-regionais: Santarém-PA e Piracicaba-SP.

Percebe-se que no grupo das metrópoles globais encontram-se as duas


principais cidades brasileiras, agrupando grande parte da população brasileira e
o maior número de empresas/indústrias.
Nessas cidades, a urbanização tem-se caracterizado pela criação do que
Santos (2005) denominou de ‘circuitos da economia urbana’: apresentando de
um lado, a modernização tecnológica, com atividades criadas em função da
mesma e dirigidas às pessoas que se beneficiam dela e do outro, o chamado
‘circuito inferior’, caracterizado pela multiplicidade de atividades do setor
terciário e pela pequena produção manufatureira.
É importante destacar que também nessas grandes cidades brasileiras,
registram-se os maiores números problemas sociais, refletindo, principalmente,
nas condições de moradia, educação, saúde e segurança pública.
Avaliando o processo de urbanização no Brasil, Bessa; Borges e Soares (2002,
p. 10) observam que:

O processo de urbanização, que ocorreu no Brasil entre


1940 e 1990, foi responsável por uma verdadeira ‘revolução
urbana’, redefinindo os papéis das metrópoles, das cidades
grandes, médias e pequenas, visto que estas apresentaram
importantes transformações demográficas e econômicas e,
por conseguinte, criaram novas funcionalidades urbanas.

Diante dessa transformação, algumas pequenas cidades foram transformadas


em cidades econômicas, assumindo também um status de ‘cidades locais’,
diferentemente das cidades médias, que passaram a apresentar importantes
especializações, assumindo um status de ‘cidades regionais’. Nesse último
grupo, podem ser inseridas as cidades nordestinas de Campina Grande (Paraíba),
Caruaru (Pernambuco) e Mossoró, no Rio Grande do Norte.
Nesse mesmo período, as metrópoles ganharam conteúdos nacionais.
A cidade de São Paulo, por exemplo, tornou-se uma metrópole nacional/
informacional, visto que sua “força essencial deriva do poder de controle sobre
a economia e o território” (SANTOS, 2005, p. 92).

2.5 A nova tendência de urbanização no Brasil


Na década de 1990, consolidou-se no Brasil uma nova tendência de
urbanização, caracterizada pela desmetropolização, ou seja, por uma reversão
no crescimento das grandes metrópoles em favor de cidades médias. Essa nova
tendência vem sendo impulsionada pelo fato de que nas cidades médias, os
custos de produção são menores e as condições de vida tendem a ser melhores.
Analisando esse fenômeno, Santos (2005, p. 114) destaca que:
110
Uma abordagem sobre o processo de urbanização no Brasil

Os mesmos números que revelam um processo de


metropolização prestam-se a outra interpretação desde que
demos uma prioridade ao processo de macro urbanização.
Levando-se em conta uma desagregação maior da população
urbana segundo o tamanho dos aglomerados, pode levar nos
a conclusão de que, paralelamente ao crescimento cumulativo
das maiores cidades do país estaria havendo um fenômeno
de desmetropolização, definida como a repartição com
outros grandes núcleos de novos contingentes da população
urbana. Não se trata aqui da reprodução do fenômeno da
desurbanização, encontrado em países de primeiro mundo
[...].

É importante destacar que a desmetropolização se difere da desurbanização


pelo fato de não se buscar um estilo de vida diferente. Através dela, busca-
se a eliminação dos problemas gerados pelo crescimento desordenado e
desplanejado, que caracterizam as metrópoles.
Informam Sanfeliu e Torne (2004) que desde o final da década de 1990, tem
se intensificado a escolha de localizações geográficas alternativas às saturadas
metrópoles do Centro-Sul.
Desta forma, várias indústrias e empresas ligadas ao setor de serviços, vêm
cada vez mais se instalando em cidades como Campinas, São Carlos, Ribeirão
Preto (no interior de São Paulo), Goiânia e Florianópolis. Esse mesmo processo
também vem se verificando em várias capitais nordestinas, que passaram a
sediar empresas nacionais e estrangeiras.
Ainda de acordo com Santos (2005), essa desmetropolização tem como
principais causas:
a) a falta de planejamento urbano,
b) aumento da pobreza e da violência nas metrópoles.

As metrópoles brasileiras se desenvolveram motivadas pelos interesses


imobiliários ou interesses de outras naturezas, sem levar em consideração um
plano urbanístico previamente elaborado. E isto criou uma situação caótica nas
principais capitais do país e suas regiões metropolitanas, principalmente, em
São Paulo e no Rio de Janeiro. Nessas metrópoles, contornar essa situação tem
sido difícil porque o processo de modernização da economia brasileira, não tem
conseguido superar a pobreza e as desigualdades sociais. Por outro lado, essas
desigualdades foram aprofundadas pela modernização e pela concentração de
renda.
Segundo Guerra e Cunha (2006, p. 39), “quando o crescimento urbano não
é acompanhado por aumento e distribuição equitativa dos investimentos em
infraestrutura e democratização do acesso aos serviços urbanos, as desigualdades
socioespaciais são geradas ou acentuadas”.
111
Rosélia Maria de Sousa Santos et al.

Em resumo, quando o processo de urbanização ocorre de forma acelerada,


sem que as condições mínimas necessárias para o seu desenvolvimento sejam
respeitadas, gera consequências graves, que refletem em toda a população e no
meio ambiente.
Ainda tentando justificar os motivos que têm contribuído para a
desmetropolização, Sanfeliu e Torne (2004) afirmam que diferentemente das
metrópoles, as cidades médias se caracterizam por oferecer: sistemas mais
equilibrados e estáveis em seu território; maior facilidade de gestão e exercício
da cidadania; maior identidade da população com a cidade; menores problemas
ambientais; menores conflitos e custos sociais; menor diversidade social e
cultural e menor poder de competitividade econômica e maior dificuldade de
acesso aos fluxos de informação e capital.
A desmetropolização permite uma maior aproximação da população aos
serviços públicos, reduzindo os conflitos sociais e custos dos serviços públicos,
facilitando a gestão.
Em termos sociais, essa nova tendência tem contribuído para a redução
potencial da pobreza urbana, visto que as cidades de porte médio, quando
comparadas com as metrópoles, possuem também melhores possibilidades de o
setor público garantir a infraestrutura básica necessária em áreas urbanas.
Pontes (2006, p. 334) acrescenta que “as cidades médias seriam centros
urbanos com condições de atuar como suporte às atividades econômicas de sua
hinterlandia”.
Assim, por poder manter relações com o mundo globalizado, as cidades
médias ou intermediarias constituem-se numa nova rede geográfica superposta
à que regularmente mantêm com sua esfera de influência, possibilitando uma
maior inter-relação com áreas rurais ou outras cidades próximas ou mais
distantes sobre as quais, elas exercem uma condição de comando.
Abordando a importância socioeconômica dessa tendência, Santos e Silveira
(2001) assinalam que as cidades médias não metropolitanas, vivenciam não só um
crescimento populacional, mas também um surto industrial, com desdobramento
nos dois circuitos da economia urbana, permitindo a diversificação da divisão
do trabalho.
É importante também registrar que essa nova tendência tem contribuído para
a intensificação do processo de integração e ocupação do território nacional, bem
como contribuído para uma melhor preservação ambiental.

4 Referências
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Alberto. História: de olho no mundo do trabalho. História Geral e do Brasil.
São Paulo: Scipione, 2004.
BARCELLOS, Paulo Fernando Pinto; BARCELLOS, Luiz Fernando Pinto.
Planejamento urbano sob perspectiva sistêmica: considerações sobre a função
social da propriedade e a preocupação ambiental. Rev. FAE, Curitiba, v.7,
n.1, p.129-144, jan./jun. 2004.
112
Uma abordagem sobre o processo de urbanização no Brasil

BESSA, Kelly Cristine F. O.; BORGES, Gerciane Vicente; SOARES, Beatriz


Ribeiro. Dinâmica socioeconômica das ‘cidades locais’ situadas em áreas de
cerrado mineiro. Caminhos de Geografia, v. 3, n. 5, p. 9-29, fev., 2002.
CAMPOS FILHO, C. M. Cidades brasileiras: seu controle ou o caos. 2. ed. São
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EGLER, T. A gestão do lugar e da cidade. In: Cadernos IPPUR/UFRJ. Ano X, n.
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SINGER, Paul. Economia política da urbanização. 2. ed. São Paulo: Contexto,
2002.

113
Gestão Pública: Normatização,
fiscalização da qualidade
dos alimentos, prevenção e cuidados
com a saúde pública
Rosélia Maria de Sousa Santos
José Ozildo dos Santos
Douglas da Silva Cunha
José Rivamar de Andrade

1 Introdução

O crescimento dos centros urbanos desencadeado pelo processo de


industrialização, que se intensificou no final do século XIX em várias partes
do mundo, trouxe a proliferação de várias doenças contagiosas e mostrou a
necessidade de um melhor cuidado com os alimentos, partindo do princípio de
que a qualidade e a segurança destes, de forma decisiva contribui para a saúde
do ser humano (COSTA; ROZENFELD, 2008).
Na atualidade, em nível mundial, existe uma maior preocupação quanto à
qualidade dos alimentos que são consumidos pela população, bem como quanto
ao controle sanitário destes. No âmbito internacional, as normas que disciplinam
o processo de fiscalização da produção de alimentos, bem com seu controle
sanitário são elaboradas pela Organização Mundial e pela Organização das
Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (COSTA, 2009).
No caso específico do Brasil, a fiscalização da produção, o controle sanitário,
bem como todo processo de comercialização dos alimentos, constituem
atividades contempladas pelo Sistema Nacional de Vigilância Sanitária e
executadas através de ações compartilhadas com os órgãos da Agricultura e da
Saúde, das três esferas da administração pública (BRASIL, 2012)
Assim sendo, a vigilância sanitária é uma instância, que contemplada pela
gestão pública, possui poder de polícia e representa uma das funções típicas do
Estado, voltada, prioritariamente para a proteção da saúde pública. No entanto,
tem-se que reconhecer que promover a vigilância sanitária não é algo fácil,
simplesmente porque os alimentos podem oferecer riscos diversos.
Um estudo realizado por Dubugras e Pérez-Gutiérrez (2008), demonstrou
que existem mais de cinco mil perigos sanitários diferentes, de natureza física,
química e biológica, que podem ser veiculados pelos alimentos.
Rosélia Maria de Sousa Santos et al.

É importante também destacar que além dos perigos biológicos, físicos e


químicos, deve-se levar em consideração as situações de risco, desencadeadas
pelo excesso ou escassez no uso de alguns nutrientes, entre os quais se inserem
o açúcar, o álcool, as gorduras, os sais minerais diversos, o sal e as vitaminas,
responsáveis por causarem vários transtornos de natureza metabólica ou
orgânica.
Assim, objetivando reduzir os problemas, principalmente, relacionados ao
colesterol, ao diabetes, à hipertensão e à obesidade mórbida, a ANVISA baixou
instruções normativas estabelecendo as quantidades mínimas e máximas dos
nutrientes acima relacionados, que devem conter os produtos alimentícios
industrializados. Por outro lado, a mencionada agência reguladora também
estabeleceu normas voltadas para a promoção da fiscalização da comercialização
de todos os produtos alimentícios (BRASIL, 2012).
Desta forma, percebe-se que a administração pública, fiscaliza a produção
dos alimentos, promovendo seu controle sanitário e uma fiscalização sobre sua
comercialização.
O presente artigo tem por objetivo abordar o papel da gestão pública
no processo de normatização voltado para a fiscalização da produção de
alimentos, bem como para o controle sanitário destes e de todas as atividades
de comercialização que envolvem os gêneros alimentícios. Para sua produção,
utilizou-se como procedimento metodológico a pesquisa bibliográfica,
produzida, principalmente, a partir de consultas formuladas às bases de dados,
a exemplo da Scielo, BVS, Lilacs e Google acadêmico.

2 Revisão de Literatura

2.1 O papel da gestão pública na atualidade


Nos últimos anos, o mundo vem passando por uma grande transformação
de ordem econômica e social. E os reflexos dessa transformação também são
sentidos nas instituições governamentais, que, por sua vez, são obrigadas a se
adequarem a esse novo cenário. Atualmente, mais do que nunca, exige-se um
novo modelo de Gestão Pública, que possua uma natureza integrada e que se
encontre voltado para a excelência, fazendo com que os órgãos governamentais
pautem todas as suas ações na eficiência.
Quando se fala em Gestão Pública está se referido à ação do Estado, ou
melhor, a gestão executada pelos órgãos e agentes que compõem o aparelho
estatal (MOTTA, 2007).
Dentro dessa mesma linha de pensamento, França Filho (2008, p. 71) afirma
que a gestão pública “diz respeito àquele modo de gestão praticado no seio das
instituições públicas de Estado nas suas mais variadas instâncias”.
Deve-se registrar que em momento algum a gestão pública pode ser confundida
com a gestão privada. O que faz com que a primeira se diferencie da segunda
são os objetivos perseguidos: a gestão pública possui uma concepção político-
116
Gestão Pública: Normatização, fiscalização da qualidade dos alimentos, prevenção e cuidados com a saúde pública

governamental, podendo firmar-se em lógicas democráticas, tecnoburocráticas


ou clientelistas.
Na concepção de Habermas (2003) a gestão pública promove ações voltadas
para todos os cidadãos, possuindo, assim, um caráter social, se aproximando
e privilegiando os espaços abertos de discussão e deliberação por parte dos
indivíduos.
Por outro lado, a gestão pública sempre encontra-se associada ao termo
administração pública, que pode ser entendido como “todo o aparelhamento
do Estado, reordenado à realização de seus serviços, visando à satisfação das
necessidades coletivas” (MEIRELLES, 2007, p. 131).
Assim sendo, se a administração pública é o aparelhamento do Estado, a
gestão pública seria a forma como este funciona, dizendo respeito ao processo
de identificação das necessidades da população, à tomada de decisões públicas,
à promoção da participação social, objetivando garantir o exercício de uma
cidadania deliberativa.
Em síntese, cabe à gestão pública promover ações visando o bem comum
da coletividade. Nesse contexto, se insere, portanto, o controle sanitário dos
alimentos, a fiscalização da produção e comercialização destes, de forma que à
população seja garantido o consumo de alimentos saudáveis, que não coloque
em risco a saúde pública.

2.2 A segurança alimentar e as ameaças sanitárias


Os seres vivos, sem exceção, necessitam, para viverem, do aporte dos
nutrientes, que são fornecidos pelos alimentos. A essa regra não foge o ser
humano. Para ter uma vida saudável, o homem necessita de uma alimentação
rica e diversificada. Assim sendo, sua saúde também dependerá da qualidade
do alimento consumido.
Informa Bernardo (2006, p. 8), que além de suprirem o organismo dos
nutrientes suficientes à “manutenção da vida, ao crescimento, às reparações de
perdas e à realização de trabalho”, ao longo dos tempos, os alimentos adquiriram
outros valores de caráter social e cultural, expressando aspectos lúdicos (prazer
gastronômico), etnográficos e hedônicos (alimentos com efeitos psicológicos).
Entretanto, deve-se ressaltar que os alimentos também podem causar
alterações à saúde humana, algumas das quais com consequências fatais. Por
isso se faz necessário à Segurança Alimentar.
Um estudo desenvolvido por Colentti et al. (2010, p. 134) mostra que as
questões relacionadas à Segurança Alimentar, na atualidade, dizem respeito,
principalmente:

- À persistência de parasitismo crônico nos animais,


camuflados pela utilização de medicamentos e condições
artificiais de exploração;
- Ao fato de as pessoas, em consequência de novos
hábitos de vida, terem cada vez menos tempo para serem
117
Rosélia Maria de Sousa Santos et al.

as próprias a preparar os alimentos que ingerem, recorrendo


cada vez mais aos ‘pré-cozidos’ ou se alimentando em bares
e restaurantes.
- Ao uso generalizado e nem sempre convenientemente
controlado de pesticidas, antibióticos, fertilizantes orgânicos
dos solos ou mesmo aditivos alimentares;
- Aos novos métodos de produção animal e vegetal,
com recursos promotores de crescimento (anabolizantes),
cujos resíduos podem atingir concentrações perigosas nos
alimentos;

Quando se analisa as questões acima relacionadas, constata-se que as


chamadas ameaças sanitárias possuem natureza diversa, podendo ter origem
tanto na produção do próprio alimento quanto na sua forma de preparação.
É importante ressaltar que o uso excessivo de pesticidas, adubos químicos,
antibióticos, anabolizantes, bem como de aditivos, podem alterar a qualidade
dos alimentos, transformando-os em verdadeiras ameaças à saúde humana.
Desta forma, a falha ou falta de cuidados com a higiene e a qualidade
dos alimentos podem trazer sérias complicações, a exemplo da Listeriose, da
Colibacilose, da Salmoneloses e da Campylobacteriose, acometendo um número
muito elevado de pessoas, gerando, assim, um alto custo para os serviços
públicos de saúde (OPA; OMS; FAO, 2006).
Vários estudos demonstram que os riscos sanitários que atualmente se
encontram associados à dieta humana, possuem um valor econômico e político
bastante elevando, exigindo um amplo processo de regulação para a produção
dos alimentos, objetivando a promoção da redução de tais ricos (COLENTTI et
al., 2010).
Destaca Bernardo (2006) que os perigos sanitários específicos dos alimentos
podem ser agrupados, levando em consideração os agentes mais relevantes, nas
seguintes categorias: perigos biológicos; perigos físicos e perigos químicos.
O Quadro 1 apresenta as principais categorias dos perigos sanitários
específicos dos alimentos, com suas respectivas descrições.
Quando se analisa o Quadro 1 verifica-se que os perigos biológicos encontram-
se relacionados aos vírus, aos parasitas e às bactérias, enquanto os de natureza
química dizem respeito aos aditivos alimentares, contaminantes da cadeia
alimentar; organismos geneticamente modificados; resíduos de medicamentos;
às substâncias indesejáveis e às substâncias proibidas.
Por sua vez, os perigos de natureza física, a exceção dos isótopos radioativos,
são mais facilmente de serem identificados nos alimentos, devendo, portanto,
serem evitados os alimentos muito quentes.
Dissertando sobre a necessidade de aperfeiçoar a qualidade dos alimentos,
Reis (2011, p. 17) afirma que diversos trabalhos têm sido desenvolvidos nesse
sentido, “evitando, assim, que estes interfiram negativamente na saúde dos
cidadãos”.
118
Gestão Pública: Normatização, fiscalização da qualidade dos alimentos, prevenção e cuidados com a saúde pública

Quadro 1. Principais categorias dos perigos sanitários específicos dos alimentos


VARIÁVEIS DESCRIÇÃO
Bactérias (patogênicas ou potencialmente
patogênicas): Bacillus cereus, Brucella spp., C. coli,
Campylobacter jejuni, Cl. perfringens, Clostridium
botulinum, E. coli, Listeria monocytogenes,
Mycobacterium sp, Salmonella, Shigella spp.,
Perigos Staphylococcus aureus, V. parahaemolyticus, V. vulnicus,
Biológicos Vibrio cholerae e Yersinia enterocolitica.
Vírus: Astrovírus, Coronavírus, Norovírus, Reovírus,
Rotavírus e o Vírus da Hepatite A.
Parasitas: Anysakis, Cryptosporidium, Cyclospora,
Entamoeba, Fasciola hepática, Giardia, Tenia solium,
Toxoplasma e Trichinella,
Substâncias Proibidas: alguns antibióticos; beta-
agonistas, hormônios anabolizantes e tireostáticos.
Resíduos de Medicamentos: Antibióticos,
sulfamidas, organo-fosforados, piretroides
Contaminantes de a cadeia alimentar (poluentes):
dibenzofuranos, dioxinas, diversos pesticidas,
hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, metais
pesados e policlorados bifenil.
Perigos
Substâncias Indesejáveis (naturais): alcaloides dos
Químicos
vegetais, biotoxinas marinhas (bivalves e peixes
tóxicos), fatores anti-vitamínicos, …tatos, glucosídeos
cianogénicos, micotoxinas, oxalatos e toxinas dos
cogumelos.
Aditivos Alimentares: Conservantes, corantes,
edulcorantes, entre outros agentes.
OGM (organismos geneticamente modi…cados):
arroz, melão, milhos, sojas, entre outros.
Alimentos muito quentes, anzóis, areia, esquírolas de
Perigos
vidro ou de ossos, fragmentos de palha de aço,
Físicos
isótopos radioativos, lascas de madeira e terra.
Fonte: Bernardo (2006), adaptado.

Desta forma, a necessidade em aprofundar conhecimentos sobre as doenças


transmitidas por alimentos (DTAs), bem como em relação aos surtos provocados
por contaminação dos alimentos, tem levado os organismos estatais responsáveis
pelo controle sanitário dos alimentos a desenvolverem as ações relacionadas às
boas práticas de fabricação (BPF), bem como promoverem a implementação dos
chamados sistemas de Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle (APPCC),
119
Rosélia Maria de Sousa Santos et al.

entre outros sistemas de acompanhamento e de fiscalização dos alimentos (REIS,


2011).

2.2 O estado brasileiro e o processo de normatização que definem os padrões


de identidade e qualidade dos alimentos
No Brasil, o aparelho estatal, cumprindo as determinações baixadas pela
Organização Mundial da Saúde (OMS), bem como pela Organização Mundial
e pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação
(FAO), passou a regular o processo de produção de alimentos, promovido em
seus diferentes setores. No entanto, esse processo somente avançou após a
promulgação da Constituição Federal de 1988 e da edição da Lei nº Lei 8.080/1990
(Lei Orgânica da Saúde), que enfatizam o dever do estado em propiciar ‘saúde
para todos’, promovendo, inclusive, o controle higiênico-sanitário dos alimentos
(DE SETE; DAIN, 2010).
Corroborando com esse pensamento, informa Reis (2011, p. 20) que “a
formulação e adoção das medidas de segurança alimentar são de responsabilidade
do estado e de todo o pessoal envolvido nos processos produtivos”.
Por outro lado, deve-se reconhecer que a estrutura adotada pelo Estado
brasileiro a partir da vigência da atual Constituição, permitiu a criação das
chamadas agências reguladoras, entre as quais se insere a Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (ANVISA), uma autarquia especial que tem por finalidade
“promover a proteção da saúde da população por intermédio do controle
sanitário da produção e da comercialização de produtos e serviços submetidos à
vigilância sanitária, inclusive os alimentos” (DUBUGRAS; PÉREZ-GUTIÉRREZ,
2008, p. 9).
A ANVISA foi criada pela Lei nº 9.782, de 26 de janeiro de 1999, que também
estabeleceu o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária (SNVS). Em seu art. 2º,
essa lei assim expressa:

Art. 2º  Compete à União no âmbito do Sistema Nacional


de Vigilância Sanitária:
I - definir a política nacional de vigilância sanitária;
II - definir o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária;
III - normatizar, controlar e fiscalizar produtos, substâncias
e serviços de interesse para a saúde;
IV  -  exercer a vigilância sanitária de portos, aeroportos
e fronteiras, podendo essa atribuição ser supletivamente
exercida pelos Estados, pelo Distrito Federal e pelos
Municípios [...].
VIII  -  manter sistema de informações em vigilância
sanitária, em cooperação com os Estados, o Distrito Federal e
os Municípios (BRASIL, 2012, p. 17).

Quando se analisa as disposições contidas no artigo acima transcrito,


constata-se que é competência da União, além de definir a Política Nacional de
120
Gestão Pública: Normatização, fiscalização da qualidade dos alimentos, prevenção e cuidados com a saúde pública

Vigilância Sanitária (PNVS) e o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária (SNVS),


normatizar, controlar e fiscalizar os alimentos, observando seus parâmetros de
qualidade.
Deve-se ressaltar que essa intervenção no processo produtivo e nas atividades
comerciais é necessária porque destina-se ao cumprimento das disposições
contidas no texto constitucional, quando determina que o Estado tem o dever de
cuidar da saúde pública.
Por outro lado, a Lei nº 9.782/1999 quando tratou da competência da
ANVISA, estabeleceu expressamente em seu art. 6º, que:

Art. 6. A Agência terá por finalidade institucional


promover a proteção da saúde da população, por intermédio
do controle sanitário da produção e da comercialização
de produtos e serviços submetidos à vigilância sanitária,
inclusive dos ambientes, dos processos, dos insumos e das
tecnologias a eles relacionados, bem como o controle dos
portos, aeroportos e fronteiras (BRASIL, 2012, p. 17).

Desta forma, constata-se que a ANVISA foi instituída com uma missão
específica, ou seja, a de “promover a proteção da saúde da população”,
sendo, portanto, o órgão coordenador de todas as ações de vigilância sanitária
desenvolvidas no país.
Na concepção de Reis (2012, p. 15), “a criação da ANVISA foi um passo
marcante para a saúde pública”, principalmente, porque com essa agência, o
Estado brasileiro passou a ter um órgão capacitado para acompanhar o processo
de fiscalização da produção de alimentos, no que diz respeito aos padrões de
qualidade e conservação, objetivando garantir a saúde da população.
De acordo com a própria ANVISA (BRASIL, 2012), em relação à segurança
alimentar, dentre sua atribuições, podem ser destacadas as seguintes:
i. Fiscalizar as entidades e os estabelecimentos que produzem, comercializam,
distribuem, armazenam e/ou aplicam os alimentos;
ii. Fiscalizar o exercício das profissões relacionadas à produção e
comercialização de alimentos;
iii. Licenciar e cadastrar os profissionais, estabelecimentos e entidades que
produzem, comercializam e/ou aplicam os alimentos.

Para cumprir o seu papel, a ANVISA, segundo Capiotto e Lourenzani (2010)


regulamenta as ‘Boas Práticas de Fabricação’, aplicáveis à indústria de alimentos,
através dos seguintes documentos:
i. Diretrizes para o Estabelecimento de Boas Práticas de Produção e de
Prestação de Serviços na Área de Alimentos (instituída pela Portaria/MS nº
1.428/1993);
ii. Regulamento Técnico para Inspeção Sanitária de Alimentos (instituído
pela Portaria/MS nº 1.428/1993);
121
Rosélia Maria de Sousa Santos et al.

iii. Regulamento Técnico sobre Condições Higiênico-Sanitárias e de Boas


Práticas de Fabricação para Estabelecimentos Produtores/Industrializadores de
Alimentos (instituído pela Portaria MS/SVS nº 326/1997);
iv. Regulamento Técnico de Procedimentos Operacionais Padronizados
aplicados aos Estabelecimentos Produtores/Industrializadores de Alimentos e
a Lista de Verificação das Boas Práticas de Fabricação (instituído pela Resolução
ANVISA/RDC nº 275/2002).

Assim sendo, verifica-se que a ANVISA possui à sua disposição todo um


aparato voltado para a boa promoção da fiscalização das condições higiênico-
sanitárias, nos processos de produção/fabricação/industrialização dos
alimentos, bem como para promover a qualidade destes e sua conservação,
quando comercializados.
Informa a própria ANVISA (BRASIL, 2012), que a Portaria SVS/MS nº
326/1997, que instituiu o ‘Regulamento Técnico sobre Condições Higiênico-
Sanitárias e de Boas Práticas de Fabricação para Estabelecimentos Produtores/
Industrializadores de Alimentos’, foi baseada no ‘Código Internacional
Recomendado de Práticas: Princípios Gerais de Higiene dos Alimentos’ (Codex
Alimentarius).
Quanto ao Codex Alimentarius, trata-se de um programa desenvolvido pela
Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) e
pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que tem por “finalidade proteger
a saúde da população, assegurar práticas equitativas do comércio regional e
internacional de alimentos” (DUBUGRAS; PÉREZ-GUTIÉRREZ, 2008, p. 15).
Desta forma, constata-se que os instrumentos legais que regem a atuação do
Estado brasileiro, quanto à fiscalização do processo produtivo dos alimentos,
sua qualidade e conservação, encontram-se em perfeita consonância com a
legislação internacional, o que demonstra uma preocupação por parte da União
em relação à saúde pública. E, que com esses instrumentos é possível auxiliar
na “identificação dos perigos e das medidas adequadas para o seu controle”,
bem como “sugerir os procedimentos de higiene” e “indicar os métodos de
controle dos perigos que melhor se adaptem ao cumprimento das exigências
regulamentares” (NOVAIS, 2006, p. 10).

2.3 A política da avaliação de risco e o controle sanitário dos alimentos


Por política de avaliação de risco entende-se uma série de documentos,
responsáveis pela orientação das tomadas de decisão realizadas na avaliação da
qualidade dos alimentos, seguindo critérios científicos.
Acrescenta Dubugras e Pérez-Gutiérrez (2008, p. 9) que:

A definição da política da avaliação de risco é realizada


pelos gestores, assessorados pela equipe de avaliação de
risco, havendo a possibilidade de relevantes stakeholders
122
Gestão Pública: Normatização, fiscalização da qualidade dos alimentos, prevenção e cuidados com a saúde pública

darem sugestões. A documentação da política de avaliação de


risco deve garantir a transparência, coerência e consistência.

Todo o processo de gestão da Política de Avaliação dos Riscos em Alimentos


é coordenado pelos gestores dos órgãos de Agricultura e Saúde, a quem
compete a avaliação primária da produção de alimentos e de seu processo de
industrialização, bem como dos impactos produzidos na saúde humana por
estes alimentos. É importante ressaltar que quando se estabelece uma política
de avaliação de risco em alimentos, o Estado passa a possuir uma definição
completa dos níveis adequados a serem observados na proteção da saúde
pública, avaliando sempre os riscos decorrentes do consumo dos alimentos
produzidos no país ou importados.
No planejamento da avaliação de risco a escolha da metodologia e a definição
das áreas profissionais envolvidas, constituem uma das etapas fundamentais
desse processo, sendo fundamental que esse trabalho seja confiado a uma equipe
multidisciplinar independente (CAPIOTTO; LOURENZANI, 2010).
No desenvolvimento da política de avaliação de risco, ao gestor cabe não
somente a missão de definir a equipe de especialistas, mas também a avaliação
e o gerenciamento de risco.
Nesse sentido, acrescentam Dubugras e Pérez-Gutiérrez (2008, p. 41) que, no
desenvolvimento da política de avaliação de risco dos alimentos, cabe ao gestor
as seguintes responsabilidades:

- Garantir a transparência e a documentação de todo o


histórico do planeja- mento e da execução da avaliação de
risco.
- Comunicar com clareza a política, os propósitos, o
alcance desejado e as informações/relatórios esperados da
avaliação.
- Providenciar recursos e planejar um cronograma realista.
- Manter uma ‘separação funcional’ da execução da
avaliação.
- Garantir a expertise da equipe escolhida e a
independência desta de conflitos de interesse.
- Promover a efetiva comunicação durante o processo.

Pelo demonstrado, significativas são as responsabilidades dos gestores no


desenvolvimento das políticas de avaliação de riscos de alimentos, cujo plano
de ação envolve um conjunto de ações que vão desde a ação de gerenciamento
dos riscos imediatos à identificação dos grupos de interesse, ao longo da
cadeia de produção alimentar (produtores primários, indústria de alimentos,
processadores, distribuidores, associações comerciais, organização de
consumidores, profissionais de saúde e comunidade científica).
123
Rosélia Maria de Sousa Santos et al.

Para bem desenvolver o seu papel, cabe ao Estado, para concretizar o


gerenciamento de risco, promover a elaboração e a adequação de regulamentos
técnicos, que balizem a atuação dos serviços oficiais de inspeção, a vigilância
sanitária e norteiem o setor produtivo (SOUZA; STEIN, 2007).
No Brasil, a política de avaliação de risco em alimentos segue os parâmetros
definidos pela FAO e pela OMS, estabelecendo como prioridade a prevenção dos
riscos e não seu controle. No que diz respeito ao controle sanitário dos alimentos
(CSA), este é promovido por um conjunto de gestores governamentais (IVAMA;
MELCHIOR, 2009).
A Figura 1 mostra a inter-relação que existe entre os diferentes gestores
públicos envolvidos no CSA.
A análise da Figura possibilita o entendimento de que o Controle Sanitário
dos Alimentos é promovido pela ANVISA, através de sua Gerência-Geral de
Alimentos (GGA), em parceria com os Laboratórios Oficiais de Saúde Pública
(LACENS); Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS)
e com as Unidades de Vigilância Sanitária, no âmbito dos estados, do Distrito
Federal e dos municípios.
Noutras palavras, no Brasil, o controle e a fiscalização de alimentos possui
uma responsabilidade compartilhada entre órgãos e entidades existentes nas
três esferas da Administração Pública.
No entanto, esclarece a própria ANVISA (BRASIL, 2009), que nesse processo,
o destaque fica para os órgãos vinculados à Agricultura e com o próprio Sistema
Único de Saúde. Nesse processo, cabe ao MAPA, o chamado controle da
produção primária, enquanto que ao SNVS, o controle da produção industrial e
da comercialização dos produtos alimentícios.
Para um melhor entendimento quanto aos papéis do MAPA e do SNVS
no controle sanitário dos alimentos, o Quadro 2 apresenta essa competência
compartilhada.

Fonte: BRASIL (2012)


Figura 1. Gestores governamentais responsáveis pelo controle sanitário dos
alimentos
124
Gestão Pública: Normatização, fiscalização da qualidade dos alimentos, prevenção e cuidados com a saúde pública

Quadro 2. Competências do MAPA e do SNVS no controle sanitário dos


alimentos
ÓRGÃO/SISTEMA COMPETÊNCIA
Controle das empresas beneciadoras de
produtos de origem vegetal (minimamente
Ministério da Agricultura,
processados) e indústrias de processamento de
Pecuária e Abastecimento
bebidas.
(MAPA)
Controle das indústrias de processamento de
produtos de origem animal.
Controle dos estabelecimentos comerciais:
serviços de alimentação, supermercados,
dentre outros.
Sistema Nacional de Controle das indústrias processadoras de:
Vigilância Sanitária amendoins e derivados, água mineral natural,
(SNVS) conservas vegetais, gelados comestíveis, sal
para consumo humano, dentre outros.
Controle de todos os produtos alimentícios
expostos à venda.
Fonte: Brasil (2009), adaptado.

Na forma demonstrada, ao MAPA cabe o controle do beneficiamento dos


produtos de origem vegetal, do processamento dos produtos de origem animal,
bem como da produção de bebidas. Ao SNVS, ficou reservada a missão de promover
o controle dos estabelecimentos comerciais, de algumas indústrias processadoras
de alimentos e da comercialização de todos os produtos alimentícios.
Por sua vez, o MAPA promove o controle sanitário dos seguintes produtos
alimentícios: água de coco; bebidas alcoólicas; carnes e derivados; cereais e
leguminosas; doce de leite; frutas e hortaliças cruas e processadas, com exceção
de conservas; leite e derivados; margarina e manteiga; mel; ovos; patês; pescados;
polpa de frutas e de vegetais; refrescos; refrigerantes; sucos e néctares; vegetais
minimamente processados e vinagre (ALMEIDA-MURADIAN; PENTEADO,
2007).
Nos últimos anos, os órgãos componentes do SNVS, sob a coordenação da
ANVISA, veem desenvolvendo esforços no sentido de aumentar a articulação
com o MAPA e as Secretarias de Agricultura estaduais e municipais, em face de
interdependência das ações entre esses órgãos.
Em 2008, mediante uma iniciativa conjunta da ANVISA, do MAPA e do
Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor (DPDC), foi criado o
Centro Integrado de Controle da Qualidade de Alimentos (CQUALI), destinado
a coordenar as atividades dos atores acima citados, fortalecendo assim as
medidas preventivas e de controle, sendo que o primeiro produto selecionado
foi o leite, oportunidade em que se criou-se Comitê Gestor de Monitoramento da
Qualidade do Leite - CQUALI-Leite (BRASIL, 2009).
125
Rosélia Maria de Sousa Santos et al.

No entanto, é importante destacar que esta seleção primária foi fruto da


repercussão das notícias de irregularidades encontradas no leite, apuradas
em 2008, pela Polícia Federal, fato que questionou a eficiência dos órgãos de
fiscalização, mostrando a necessidade de uma atuação conjunta mais ampla por
parte dos órgãos responsáveis pela segurança dos alimentos, no âmbito federal.
É importante ressaltar que atualmente no Brasil, a fiscalização da produção/
processamento, o controle da qualidade dos alimentos e sua comercialização
é promovida pelo SNVS, sob a coordenação da ANVISA (BRASIL, 2012), que
possui à sua disposições os seguintes aparatos:
i. CQUALI-Leite: Comitê Gestor de Monitoramento da Qualidade do Leite;
ii. PAMvet - Programa de Análise de Resíduos de Medicamentos Veterinários
em Alimentos de Origem Animal;
iii. PATEN - Programa de Análise do Teor Nutricional;
iv. PEMQSA - Programa Estadual de Monitoramento da Qualidade Sanitária
de Alimentos;
v. PRÓ-Iodo - Programa Nacional para Prevenção e Controle dos Distúrbios
por Deficiência de Iodo;
vi. PROMAC - Programa Nacional de Monitoramento de Aditivos e
Contaminantes.

Para um melhor entendimento quanto ao funcionamento dos programas e


do comitê acima relacionados, o Quadro 3 apresenta suas respectivas descrições
e objetivos.
Na forma demonstrada, a ANVISA além do CQUALI-Leite que monitora o
leite produzido e comercializado no país, possui à sua disposição cinco programas
específicos, através dos quais, desenvolve o monitoramento dos alimentos,
avaliando seu teor nutricional, a presença de aditivos e contaminantes, bem
como de resíduos de medicamentos veterinários, naqueles produtos de origem
animal. E mais ainda, a quantidade de iodo nos alimentos, evitando que o excesso
ou a carência desse micronutriente não traga danos à saúde da população.

3 Considerações Finais

Através do material bibliográfico selecionado para fundamentar a presente


produção acadêmica, constatou-se que é imprescindível à atuação da Gestão
Pública no que diz respeito não somente à fiscalização do processo de
processamento dos alimentos industrializados, mas também dos produtos de
origem animal e vegetal.
Verificou-se que é também o aparato estatal quem promove o controle sanitário
dos alimentos, objetivando prevenir e cuidar da saúde pública. Entretanto, para
desenvolver esse papel, o Estado recorre ao processo de normatização, criando
órgãos fiscalizadores, instituindo programas específicos e serviços de vigilância
sanitária, que contemplam as três esferas da administração pública, ou seja,
federal, estadual e municipal.
126
Gestão Pública: Normatização, fiscalização da qualidade dos alimentos, prevenção e cuidados com a saúde pública

Quadro 3. Estrutura coordenada pela ANVISA e voltada para a promoção do


controle sanitário e da qualidade dos alimentos comercializados
VARIÁVEL DESCRIÇÃO
Tem a nalidade de denir estratégias e
Comitê Gestor de diretrizes, gerir ações integradas de
Monitoramento da monitoramento permanente do leite produzido e
Qualidade do Leite comercializado no país, fortalecendo as medidas de
(CQUALI-Leite) prevenção e combate à fraude e de proteção à saúde
e segurança da população
Programa de Análise Desenvolvido em 2003 pela ANVISA, visando
de Resíduos operacionalizar sua competência legal de controlar
de Medicamentos e scalizar os resíduos de medicamentos
Veterinários em veterinários em alimentos de origem animal ( carne
Alimentos de Origem bovina, carne de frango, carne suína, leite, mel de
Animal (PAMvet) abelha, ovo de galinha e pescado).
Tem como objetivo monitorar o perfil nutricional
Programa de Análise alimentos comparando os valores analíticos com os
do Teor Nutricional valores informados na rotulagem nutricional dos
(PATEN) produtos e com os padrões de identidade e
qualidade dos mesmos.
Programa Estadual de Engloba além dos programas de monitoramento
Monitoramento da nacionais (CQUALI, PAMVet, PATEN, PROMAC e
Qualidade Sanitária de PRÓ-Iodo) a análise de outros produtos pactuados
Alimentos PEMQSA) a nível estadual.
Visa verificar se a iodação do sal para consumo
Programa Nacional humano, está sendo realizada de forma segura e
para Prevenção controlada e avaliar se o sal oferecido à população
e Controle dos é capaz de fornecer a quantidade necessária de
Distúrbios por iodo para prevenir e controlar os distúrbios por
Deficiência de Iodo deciência de iodo (DDI) sem riscos de ocorrência
(PRÓ-Iodo) de doenças associadas ao consumo excessivo deste
micronutriente.
Programa Nacional Responsável pelo monitoramento dos aditivos
de Monitoramento (sultos, corantes articiais, nitritos/nitratos e
de Aditivos bromatos), dos contaminantes inorgânicos
e Contaminantes (arsênio, estanho, chumbo, cádmio e mercúrio), e
(PROMAC) de contaminantes orgânicos (micotoxinas).
Fonte: BRASIL (2012).

Atualmente, todo o processo de fiscalização da produção/processamento de


alimentos e seu controle sanitário é realizado em completa observância com os
princípios que norteiam o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária. Este, por
sua vez, encontra-se estruturado a partir dos órgãos de Agricultura e de Saúde
127
Rosélia Maria de Sousa Santos et al.

Pública, a quem compete à execução da Política Nacional de Vigilância Sanitária,


que é coordenada pela ANVISA.
Entretanto, ao longo do presente artigo, demonstrou-se que a ANVISA, na
condição de agência reguladora, norteia suas ações voltadas para a fiscalização
da produção e do processamento de alimentos industrializados, bem como para
controle sanitário, a partir de um conjunto de diretrizes e regulamentos técnicos,
elaborados com base no ‘Código Internacional Recomendado de Práticas:
Princípios Gerais de Higiene dos Alimentos’ - também conhecido por Codex
Alimentarius - editado através da parceria OMS/FAO.
E, que para cumprir também o seu papel, a ANVISA possui à sua disposição
um aparato estatal composto por um Comitê (o CQUALI-Leite) e cinco
programas específicos (PAMvet, PATEN, PEMQSA, PRÓ-Iodo e PROMAC).
Assim, colocando em práticas os princípios e objetivos definidos para o Sistema
Nacional de Vigilância Sanitária, a mencionada agência reguladora consegue
exercer o controle sanitário e fiscalizar a produção de determinados alimentos,
garantindo sua integridade, e, consequentemente, a saúde do consumidor.

4 Referências

ALMEIDA-MURADIAN, L. B.; PENTEADO, M. V. C. Vigilância sanitária:


tópicos sobre legislação e análise de alimentos. Rio de Janeiro: Guanabara
Koogan, 2007.
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129
A globalização e seus efeitos sobre
a governabilidade democrática
Rosélia Maria de Sousa Santos
José Ozildo dos Santos
Iluskhanney Gomes de Medeiros Nóbrega
Rafael Chateaubriand de Miranda
Jessiane Dantas Fernandes

Resumo: O fenômeno da globalização é por demais complexo, envolvendo além


das dimensões econômicas, os aspectos sociais, culturais, políticos e pessoais.
Esse processo, de maneira dramática, alterou profundamente as relações entre
sociedade e Estado. De forma ampla e rápida, a globalização mudou o papel do
Estado nacional, reconfigurando-o, alterando completamente suas relações no
cenário internacional. A governabilidade democrática diz respeito às próprias
condições substantivas/materiais de exercício do poder e de legitimidade do
Estado e do seu governo. É, portanto, a postura que o Estado assume diante
da sociedade civil e do mercado, que gera as chamadas condições substantivas
da governabilidade. De forma gradativa está ocorrendo uma mudança do
governo para a governança global e que a cada dia, os Estados nacionais têm
reduzido suas competências, mandatos e autoridade. Noutras palavras, está
ocorrendo o declínio do governo nestes estados. E, o vácuo deixado por esse
declínio vem sendo ocupado pelas organizações internacionais e supranacionais,
Organizações Não governamentais Internacionais e empresas multinacionais,
mostrando assim, a emergência da governança global. Assim, ao mesmo tempo
em que o Estado vem perdendo poder e tendo a sua competência limitada, vem
se ampliando os movimentos sociais e outras instâncias participativas, que
no cenário atual passaram a ter um papel muito importante a cumprir, visto
que podem orientar políticas públicas favoráveis aos interesses das classes
subalternas. E, essa redução do poder estatal é uma resultante do processo de
globalização.

Palavras-chave: Globalização. Efeitos. Governabilidade Democrática.

1 Introdução

O fenômeno da globalização é por demais complexo, envolvendo além


das dimensões econômicas, os aspectos sociais, culturais, políticos e pessoais.
Esse processo, de maneira dramática, alterou profundamente as relações entre
Rosélia Maria de Sousa Santos et al.

sociedade e Estado. De forma ampla e rápida, a globalização mudou o papel do


Estado nacional, reconfigurando-o, alterando completamente suas relações no
cenário internacional.
Tal transformação tem impulsionado nos últimos anos as discussões
sobre os novos meios e padrões de articulação entre indivíduos,
organizações, bem como entre empresas e o próprio Estado, fazendo com que
fique clara a importância da governança nos mais diferentes níveis. Definida
como a capacidade de governo e eficácia na condução nos negócios públicos, a
governabilidade vem adquirindo relevância e ocupando o centro dos debates
acadêmicos e políticos nas últimas décadas, principalmente, porque a sociedade
mundial vem compreendendo que a associação entre o desenvolvimento
econômico e a construção democrática da periferia capitalista, é algo necessário
e irreversível.
Assim, no contexto atual tem se intensificado os debates em torno do novo
Estado, principalmente, quanto ao que diz respeito às questões políticas,
sociais, organizacionais e gerenciais, que possuem como missão torná-lo eficaz
e eficiente, dotando-o de condições capaz de enfrentar os desafios que lhe são
impostos.
Tais preocupações são incorporadas pelos conceitos de governabilidade
e governança. No entanto, a forma como as mesmas são tratadas levam em
consideração, de um lado, as condições em determinam o espaço de possibilidade
do exercício do poder, e, de outro, as condições de maior ou menor eficácia
dentro do qual o poder é exercido nesse determinado espaço.
Através da presente produção acadêmica procurou-se demonstrar que
a governabilidade refere-se à qualidade das interações de governo de um
sistema sociopolítico como um todo. E, que a mesma não é estática: está sempre
mudando, dependendo de fatores externos e internos.
Procurou-se também dimensionar os efeitos produzidos pela globalização
sobre a governabilidade democrática, mostrando-se no final que a superação das
distorções produzidas por esse fenômeno de proporção mundial somente será
possível através de um interesse coletivo, onde se privilegie a governabilidade
democrática.

2 Revisão de Literatura

2.1 Globalização: A construção de um conceito


Definida como um fenômeno de mundialização dos processos econômicos,
a globalização encontra-se diretamente relacionada ao desenvolvimento e
consolidação da economia tecnológica avançada, produzindo um novo ciclo de
expansão do capitalismo, revelando um conjunto de transformações econômicas.
Informa Santo (2001) que:

A globalização primeiramente se refere à rede de


produção e troca de mercadorias que se estabelece em nível
132
A globalização e seus efeitos sobre a governabilidade democrática

mundial. Também designa o fenômeno do intercâmbio


político, social e cultural entre as diversas nações, atualmente
intensificado pelas profundas transformações decorrentes da
aplicação das inovações científicas e tecnológicas na área da
comunicação.

A globalização envolve a uma crescente interdependência econômica,


ambiental e de segurança em escala planetária, exigindo que os países
subordinem-se a um sistema internacional cada vez mais integrado e interligado,
sob pena de isolarem-se dos ganhos e benefícios da modernidade (BIATO, 2007).
Afirma Leão (2004), que, basicamente, o termo globalização:

[...] sugere a ideia de que uma sociedade coesa, fechada e


uma economia doméstica já não se sustentam ante o avance
de uma economia e uma sociedade efetivamente globais,
sendo a vida cotidiana dependente e movida por forças
globais.

Existem inúmeras definições para o termo globalização. No entanto, o


mesmo representa um processo de aprofundamento da integração econômica,
que também envolve os aspectos sociais, culturais, políticos e espaciais.
Pierik (2003) define a globalização como sendo um fenômeno
multidimensional, que envolve a mudança na organização da atividade humana
e no deslocamento do poder de uma orientação local e nacional, no sentido de
padrões globais, com uma crescente interconexão na esfera global.
Na concepção de Fiori (2011), o conceito de globalização ainda permanece
impreciso apesar do uso extensíssimo que dele tem sido feito na literatura
contemporânea sobre as mudanças das relações internacionais, econômicas e
políticas, que o mundo vem assistindo nas últimas décadas.
Uma compreensão melhor do termo globalização, segundo Leão
(2004) pode ser proporcionada através dos seguintes elementos comuns:
a) o domínio das finanças sobre a produção: o cenário da globalização é
marcado pela crescente importância da estrutura financeira e da criação, em
escala planetária, do crédito;
b) a importância do conhecimento: é pautada no sentido de este ser um
importante fator da produção;
c) o incremento da tecnologia: cada vez mais o mundo está ficando dependente
da inovação tecnológica, de forma que há uma ideologia universalmente
predominante de que aqueles países fora da corrida tecnológica estão fadados à
eterna dependência político-econômica;
d) a influência das corporações multinacionais: por atuarem dentro
de sociedades formalmente organizadas como Estados geram um menor
compromisso com os países que abrigam suas atividades, o que aumenta seu
poder de barganha vis-à-vis os Estados;
133
Rosélia Maria de Sousa Santos et al.

e) a erosão do estado nacional: resultante da pressão exercida pelas


corporações multinacionais (algumas mais influentes que muitos Estados) e da
paulatina retirada do estado-nacional como poder de regulação

2.2 Governabilidade democrática


A governabilidade diz respeito à capacidade que o Estado possui para agregar
os múltiplos interesses dispersos pela sociedade, reduzindo-os a um objetivo
comum para ser concretizado a curto, médio ou longo prazos. Em resumo, ela é
o agenciamento dos recursos políticos.
Entretanto, a governabilidade democrática possui um conceito mais amplo,
pois está agregada à legitimidade, que constitui uma condição para a sua
existência.
Santos Júnior (2001) define governança democrática da seguinte forma:

[...] é um regime de ação pública, caracterizado por


diferentes padrões de interação entre governo e sociedade,
constituído com base em duas dimensões fundamentais
da democracia local: primeiro, a inclusão social em termos
de exercício dos direitos da cidadania; segundo, a ampla
participação social expressa na existência de uma sociedade
civil autônoma e de esfera públicas mobilizadas. [...] No
Brasil, são os canais institucionais de participação da
sociedade que melhor exprimem a emergência desse regime
de ação pública alicerçado na governança democrática, em
que destacamos, sobretudo, os Conselhos Municipais de
Gestão, amplamente instituídos e disseminados em todos os
municípios em torno das políticas sociais.

Pode-se afirmar que a governabilidade democrática diz respeito às próprias


condições substantivas/materiais de exercício do poder e de legitimidade do
Estado e do seu governo. É, portanto, a postura que o Estado assume diante da
sociedade civil e do mercado, que gera as chamadas condições substantivas da
governabilidade.
Estas condições podem ser proporcionadas a partir do apoio obtido pelo
Estado ao seu processo político, que se solidifica a partir de sua capacidade
de articular alianças entre os diferentes grupos sócio- políticos, visando
à viabilização de projetos e programas direcionados ao atendimento das
necessidades da sociedade.
Santos Júnior (2001) também afirma que a governança democrática tem
sua origem nas formulações dos organismos multilaterais sobre as condições
de eficiência do Estado, acrescentando que além de designar estratégias de
bom governo, a governabilidade democrática é “pertinente” para identificar
transformações recentes nas instituições de governo local, mais precisamente.
134
A globalização e seus efeitos sobre a governabilidade democrática

2.3 Os efeitos da globalização sobre a governabilidade democrática


Considerada um processo civilizatório de alcance mundial, a globalização
vem se sobrepondo às fronteiras nacionais e sua dinâmica, ritmo e expansão,
vêm se desvinculado dos controles políticos e jurídicos, bem como do modelo
econômico estatal, construindo, paralelamente, o que vem sendo denominado
de capitalismo sem raízes e sem território.
Dimensionando e mostrando a importância que se deve dar ao processo
de globalização e aos reflexos por ele produzidos, Santos (2001) faz a seguinte
observação:

O progresso técnico é irreversível. A era da comunicação


e da informática une todas as regiões do mundo quase
instantaneamente. Neste contexto, é importante sublinhar
que não se trata de colocar obstáculos às conquistas da ciência
e da tecnologia e sim de criar mecanismos institucionais
capazes de orientar a racional aplicação social desses avanços.

Por sua vez, a globalização exige o estabelecimento de mecanismos


regulatórios, em nível internacional, que completem os comportamentos do
setor financeiro e das empresas. No que diz respeito ao setor empresarial,
o estabelecimento desses mecanismos sempre possibilita a precarização do
trabalho e traz prejuízos ao meio ambiente, deteriorando a qualidade de vida
em todo o planeta.
A globalização pode ser caracterizada, segundo Santos (2001), como um novo
patamar do capitalismo, onde são eliminadas todas as restrições à mobilidade de
capitais, o que possibilita o predomínio do capital financeiro internacional sobre
o capital produtivo.
Na concepção de Dupas (1999), o processo de globalização constrange o
poder dos Estados, restringindo sua capacidade de operar seus principais
instrumentos discricionários.
É oportuno também ressaltar que o processo de globalização da economia
vem deixando marcas profundas nos sistemas jurídicos, redefinindo as fontes
de direito, concentrando a produção deste em instâncias não legislativas e
suspendendo ou reduzindo os direitos sociais (PEDUZZI, 2003).
Analisando os problemas da globalização, Bodemer (1998) afirma que:

Una versión menos dogmática vincula la globalización


al socavamiento del Estado de bienestar que resulta de la
competencia en el mercado mundial, con la perdida de
empleos e ingresos y de la seguridad laboral y material,
con la nueva pobreza, el aumento de la desigualdad, la
inseguridad y la criminalidad, temiéndose una vuelta al
capitalismo manchesteriano. La globalización se identifica
con la pérdida de poder de los ciudadanos, la dictadura del
135
Rosélia Maria de Sousa Santos et al.

capital, la desestatización, la despolitización y el retroceso de


la democracia.

Nos últimos anos, no mundo inteiro, a administração pública tem sido cenário
de intensas mudanças e sofrido influências que afetam, de maneira irreversível,
o conceito e a prática da gestão, ou seja, a sua governabilidade. Devido à rapidez
com que tais mudanças se apresentam o aparelho estatal não tem condições de
adaptar-se a tempo. E essa situação tem feito com que o Estado, em muitos casos,
deixe de cumprir o seu papel.
Pierik (2003) observa que o balanço do poder e o conceito de poder político
alteram-se de forma significativa nos últimos anos. E, que isto ocorreu,
principalmente, em face da diminuição dos poderes soberanos nacionais, cenário
que começou a se desenhar, por um lado, a partir da emergência das chamadas
organizações supranacionais, e, por outro, com a presença crescente das ONGIs
(Organizações Não-Governamentais Internacionais) e empresas multinacionais.
O que se percebe, portanto, é que de forma gradativa está ocorrendo uma
mudança do governo para a governança global e que a cada dia, os Estados
nacionais têm reduzido suas competências, mandatos e autoridade. Noutras
palavras, está ocorrendo o declínio do governo nestes estados. E, o vácuo
deixado por esse declínio vem sendo ocupado pelas organizações internacionais
e supranacionais, ONGIs e empresas multinacionais, mostrando assim, a
emergência da governança global.
Güel e Lechner (2002) ressaltam que os efeitos da globalização são
sentidos na governabilidade democrática. Esta é afetada pela interiorização
dos processos globais, ocorrendo o comprometimento do poder de analise crítico
por parte da sociedade, que ‘naturaliza’ os processos e ‘interioriza’ como ‘único
caminho’ as decisões e visões determinadas pela lógica de mercado.
Ainda segundo Güel e Lechner (2002), dentro da naturalização do social, a
ordem coletiva se configura e “uma satisfação oportuna neutraliza a discussão
sobre o modelo de desenvolvimento”, eliminando das capacidades de construção
coletiva a oportunidade protagônica de construir a realidade do ‘nós’, impondo
à subjetividade social uma configuração que assume um caráter individual.
Bodemer (1998) afirma ainda que:

Tanto los pesimistas como los optimistas se preocupan


fundamentalmente por las consecuencias del proceso de
globalización para los Estados nacionales y la política. La
opinión más generalizada es la tesis de la declinación, según
la cual la globalización está socavando la soberanía de los
Estados nacionales y abriendo paso a una ‘nueva Edad
Media’ - tal el título de un best-seller sobre el tema [...].

No mundo globalizado, o poder do Estado vem sendo reduzido em


decorrência do domínio do grande capital internacionalizado e das investidas
136
A globalização e seus efeitos sobre a governabilidade democrática

promovidas pela ideologia e pelo neoliberalismo. Contudo, o Estado ainda


continua ocupando um papel de destaque na orientação e regulação do processo
de desenvolvimento.
Segundo Beck (1999), com o termo globalização são identificados processos
que têm por consequência “a subjugação e a ligação transversal dos estados
nacionais e sua soberania através de atores transnacionais, suas oportunidades
de mercado, orientações, identidades e redes”.
Entretanto, para que o Estado não se submeta inteiramente à lógica do
mercado, é de suma importância que o mesmo reforce os seus sistemas de
controle político e jurídico.
Biato (2007) ressalta que a consolidação da democracia, sobretudo em
partes do mundo em desenvolvimento, faz-se acompanhar de uma crescente
conscientização política e mobilização reivindicatória de classes historicamente
marginalizadas.
Para atingirem a chamada capacidade resolutiva, os Estados nacionais
precisam promover ajuste econômico, que permita a produção de bens públicos,
capazes de auxiliarem na redução das desigualdades sociais e de contribuírem
para o processo de eliminação da pobreza.
Ademais, a capacidade governativa do Estado engloba suas características
operacionais e diz respeito à eficiência de sua máquina administrativa. Essa
capacidade também pode ser ampliada através de novas formas de gestão
pública, bem como através de mecanismos de regulação e controle.
O processo de construção da capacidade governativa, observando os
princípios democráticos, é caracterizado por mecanismos e formas assumidas
pelas instâncias da política, que promovem a interação entre o Estado e a
sociedade. Nesse processo de construção, é o maior ou menor inclusão de grupos
sociais que determina as políticas governamentais.

3 Conclusão

O processo de globalização tem mudado o mundo de forma tão profunda


e numa escala jamais vista, causado preocupação para alguns observadores. E,
essas mudanças têm suscitado acaloradas discussões em torno da globalização,
havendo os que defendem e apontam tal fenômeno como o caminho capaz
de incrementar a racionalidade no mundo contemporâneo, ao mesmo tempo
em que existem aqueles que acreditam que os processos globalizantes geram
desigualdade e injustiça, e, por isso, devem ser combatidos.
A análise do material bibliográfico selecionado para fundamentar a presente
produção acadêmica, possibilitou constatar que se por um lado o processo
globalizante propicia uma acelerada revolução científica e tecnológica, por
outro lado, faz com que a dominação torna-se cada vez mais sofisticada e efetiva,
aumentando a exploração e exclusão de amplos segmentos da população
mundial, principalmente, pois tem causado o aumento do desemprego e das
desigualdades sociais.
137
Rosélia Maria de Sousa Santos et al.

Além de ser responsabilizado pelas guerras em busca das riquezas naturais


como o petróleo, o processo de globalização também é apontado com causado
do aumento dos problemas ambientais. Entretanto, outro efeito desencadeado
pela globalização é a redução do poder dos estados nacionais.
Mais do nunca, o capital internacional vem interferindo no poder estatal,
limitando a sua competência, distorcendo as suas atribuições e dificultando a
manutenção das relações internas com a sociedade.
Nesse novo cenário, a ideologia dominante ocupa um lugar de significativa
relevância, reproduzindo as condições que mantém e fortalecem o sistema,
disseminando os postulados e práticas neoliberais em todo o mundo.
Ao mesmo tempo em que o Estado vem perdendo poder e tendo a sua
competência limitada, vem se ampliando os movimentos sociais e outras
instâncias participativas, que no cenário atual passaram a ter um papel muito
importante a cumprir, visto que podem orientar políticas públicas favoráveis
aos interesses das classes subalternas.
Mesmo assim, as distorções resultantes do processo globalizante continuam
se ampliando. Corrigir tais distorções não é algo impossível. No entanto,
somente serão superadas quando existir um interesse coletivo, ou seja, quando o
mundo se conscientizar da necessidade de promover um desenvolvimento mais
harmônico e descentralizado, evitando que os recursos gerados no contexto
econômico deixem de serem concentrados nas mãos de poucos. Em síntese, a
correção destas distorções somente será possível quando a governabilidade
democrática receber uma maior ênfase e for mais privilegiada.

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