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Eu não tenho
onde morar
Vilas operárias na cidade de São Paulo

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© Livraria Nobel S.A.
Impresso no Brasil/Printed in Brazil índice
1985

Introdução . 1

. CAPITULO I

VILAS OPERÁRIAS: O PASSADO REENCONTRADO


NO PRESENTE

PARTE 1

1. O passado e o presente . 7
2. Operário-inquilino: duplo mecanismo de extração da
mais-valia . 14
3. O operário-proprietário . 16
4. A casa própria limita a possibilidade de luta de classes? 17
A casa como forma de salário não pago . 18
E proibida a reprodução
5. O papel do Estado na produção e consumo da habitação 20
6. O operário e a vila . 28
Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida sem a permissão por
escrito dos editores, através de quaisquer meios - xerox, fotocópia, PARTE 2
fotográfico, fotomecânico. Tampouco poderá ser copiada ou transcrita, 1. As vilas operárias e o processo de industrialização 30
nem mesmo transmitida através de meios eletrônicos ou gravações. Os 2. Vilas operárias no interior do Estado de São Paulo . 32
infratores serão punidos através da Lei 5.998. de 14 de dezembro de 3. Vilas operárias paulistanas . 40
1973, artigos 122-l30.
A formação da força de trabalho urbana . 40
A concentração financeira . 42
Salário e aluguéis' . 44
Diferenciação social e ocupação do espaço . 45
Livraria Nobel S.A.
. CAPITULO Il
Rua da Balsa, 559
CEP02910 Freguesia do Ó
A POLITIZAÇÃO DO ESPAÇO URBANO (1890-1920)
São Paulo - SP 1. Industrialização e crises . 57
2. Operários e cortiços . 61
3. A comissão de exame das habitações operárias em 1893 64 6. A propriedade privada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 126
A pesquisa . 66 7. A Vila Penteado - o aluguel e o capital. . . . . . . . . .. 130
O cortiço . 66 8. "Scendiarno In Piazza" - A "Liga dos Inquilinos" de
A casinha . 68 1912 133
O hotel-cortiço . 69 9. A reurbanização de 1911-1912 vista da ótica operária 137
Prédios em sobrado convertidos em cortiço . 69 10. Vilas operárias: um investimento capitalista . . . . . . . .. 140
Vendas com cômodos nos fundos . 69 11. "Liga dos Inquilinos" - 1920 e a coerção sobre as
4. Vilas operárias: uma solução capitalista para a produ- vilas operárias 146
ção de habitações . 72
Como devem ser as casas das vilas operárias . 72 CAPITULO IV
Onde a cidade deve colocar os operários . 73
Localização das vilas ou segregação social? . 75 A VILA OPERÁRIA HOJE
A especulação imobiliária . 75 I. As vilas pesquisadas 153
A garantia da propriedade privada . 76 2. Quantos somos na casa? 157
Reprodução da força de trabalho, Estado e vilas 3. Como consegui uma casa na vila . . . . . . . . . . . . . . . . .. 162
operárias . 77 4. Quem são os atuais moradores das vilas operárias . . .. 171
5. Capitalismo monopolista x capitalismo concorrencial na 5. "Minha casa é própria" - "moro de aluguel" ..... .. 175
construção civil: o começo . 78 6. "Por que moro numa casa da fábrica?" .... . ... . . .. 179
6. O Estado burguês e a habitação operária . 86 7. "Vou ter que sair da vila" . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 189
7. Reivindicações populares e poder local . 91 8. Casa x família 201
8. A moradia operária como um (falso) problema do 9. A família e a propriedade . ....... . ...... . ... . . .. 208
poder público : . 95 10. A título de conclusão ou ... revendo Engels . . . . . . .. 213
9. As vilas operárias e a repressão . 97
10. Burguesia industrial e operariado no espaço urbano . 99
CAPITULO V
11. Caixas econômicas, Lei do lnquilinato e habitação po-
pular . 103 O PROPRIETÁRIO E O MORADOR

1. Vila Maria Zélia 219


CAPITULO III
Jorge Street: proprietário-idealizador da Vila Maria Zélia 224
A QUESTÃO DA MORADIA NOS JORNAIS OPERÁ- O outro lado da Vila Maria Zélia 229
RIOS (1899-1920) - Dona Deolinda 229
- Dona Conceição e a solidariedade paga .. 234
1. Brás e Higienópolis ". 114
Vilas operárias: uma alternativa socialista? 238
2. A pressão do aluguel sobre os conflitos das relações de
trabalho . 116 2. Vila Cerealina - Grupo Matarazzo .. . . . . . . . . . . . . .. 244
3. A "Liga dos Inquilinos" de 1907 . 118 A coerência da acumulação ao nível do empresário ca-
4. "Um projeto de construção de casas baratas" . 121 pitalista 244
5. Produção e consumo: boicote aos produtos da Mata- "Nesta casa fomos sete que "trabalhamos para o Mata-
razzo . 124 razzo" - Dona Genoveva 250
"Meus anos de serviço como entrada para uma casa ... "
- Sr. Wilson . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 257
A vila operária: as razões do capital 258
3. Vila Crespi . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 261
A Moóca e o Cotonifício Rodolfo Crespi . . . . . . . . . . .. 261
Uma casa na "Travessa do Cavo Rodolfo Crespi" ..... 273
Moóca: do proletariado à pequena burguesia . . . . . . . .. 280
4. Vila Nadir Figueiredo 282
Uma vila operária da indústria do vidro 282
O proprietário 283
O vidreiro 287
Acumulação x expropriação 294
5. Vila Guilherme Giorgi . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 297
Jardim Têxtil - Expansão urbana na década de 40 297
O preço para morar no Jardim Têxtil 300
6. Vila Beltrarno . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 306
O morador de uma vila em extinção 308 Para Silvia,
A supremacia da propriedade privada 313 minha filha,
que tanto andou comigo
CAPíTULO VI pelas vilas.

CONCLUSÃO: ALGUMAS REFLEXOES MAIS 319

Referências Bibliográficas e Documentos . 325


--,-----------------------------------------------------------------------.

PARTE 1

1- O passado e o presente

As vilas operarias não são um capítulo encerrado do passado da


criação do meio urbano brasileiro e paulista no em particular. Perduram
na paisagem, marcam a moradia, têm um papel na lógica da urbani-
zação e um sentido nos processos de reajustamento das relações de
produção.
As vilas operarias constituem um aspecto de um processo mais
amplo de construção de habitações. Percorrendo-se os antigos bairros
do município de São Paulo encontramos, com muita freqüência, a pre-
sença de vilas, isto é, "conjuntos de casas construídas no interior de um
terreno", (I) o qual contém uma entrada que comunica a via pública à
via interna para a qual as casas estão voltadas. Esta descrição corres-
f ponde ao modelo mais usual de vilas, embora haja muitas variações
dele. Há vilas de todos os tamanhos e de variada estruturação interna,
comportando desde uma rua apenas até várias ruas, jardim, praça de
esportes e outros bens de uso coletivo.v"
Os antigos bairros operários da cidade de São Paulo, como o Bom
Retiro, Brás, Moóca, Belém, Belenzinho, Lapa, Ipiranga, estão ponti-
lhados de vilas construídas junto às fábricas há pelo menos 90 anos.
Outras partes da cidade, predominantemente ocupadas pelas várias ca-
madas da burguesia, como Santa Cecília, Perdizes, Pompéia ou o Jar-
dim Paulistano, também possuem vilas.
Ao reconstituir este modo de ocupação do espaço e de constru-
ção de moradias somos reconduzidos à gênese da urbanização da cidade
de São Paulo e à análise da implantação da industrialização.

(1) Blay, Eva Alterman, 1979, p. 78.


(2) Veremos, nos capítulos 3 e seguintes, descrições das vilas.

7
o passado e o presente São Paulo se industrializa.

Vila Maria Zélia - Belenzinho (foto Antonio Carlos D'Avila) .

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Uma rua na Vila Maria Zélia hoje (foto Antonio Carlos D'Avila).
(Foto do álbum publicado por Scarpa quando este adquire o conjunto Maria Zélia)

8
9

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É no âmago do surto de urbanização da última década do sé- altas taxas de lucro. Os investidores se multiplicam na produção de
culo XIX, quando à Capital se torna o local para onde afluem quase casas para aluguel: profissionais liberais, donos de pequeno comércio
200 mil pessoas, principalmente imigrantes italianos, que são construí- ou de oficinas, industriais, fazendeiros, viúvas herdeiras, todas estas
das as primeiras vilas, inclusive aquelas destinadas aos operários. São categorias de capitalistas investem na construção de casas para aluguel.
Paulo cresce 168% entre 1890 e 1900 e 141 % entre 1900 e 1920 A estas iniciativas individuais começaram a se juntar outras, na
(ver Quadro 1), o que, no' mínimo, provoca uma demanda avulta-da . forma de "mútuas", (4)isto é, companhias de capital aberto que reúnem
por habitações. Aliando-se à concentração de população na cidade de- acionistas a fim de investir na construção de casas para aluguel e que
senvolve-se uma produção industrial, criando um novo mercado de muitas vezes as constroem na forma de vilas.
trabalho e, conseqüentemente, de produção e de consumo. O mercado
(3) No interior deste processo de produção de vilas, diferencia-se
imobiliário passou a ser atraente forma de reprodução do capital, com um outro processo especificamente destinado à produção de vilas ope-
rárias. A diferença essencial que distingue as vilas operárias reside no
fato de que elas são propriedade das próprias indústrias empregadoras
QUADRO 1 e se destinam basicamente ao uso da força de trabalho ligada à empresa.
Originariamente estas vilas são construídas pelas próprias indústrias ou
Crescimento populacional do município de são compradas já prontas.
São Paulo de 1836 a 1980
A vila operária, ou a casa na vila operária, constitui o elemento
mediador entre a venda da força de trabalho e o preço pago por esta
Ano População Incremento percentual força. Quando a casa é ofertada ao trabalhador ela passa a interferir
nas relações de produção. Ela tem, ao lado do valor de uso, um valor
1836 21.933
de troca. Mas, se percebemos com relativa clareza como a casa é usada
1872 31.385 43 pelo capital, desconhecemos como concretamente ela foi e é usada no
1886 47.697 52 ajustamento das relações de produção. Por outro lado, desconhecemos
1890 64.934 36 inteiramente a avaliação que o operário faz de uma' casa quando ela é
1900 239.820 168 introduzida como um dos componentes de sua relação com a fábrica.
1920 579.033 141 Entender a complexidade do papel da casa, nas relações de produção,
1934 1.060.120 83 é um dos principais objetivos desta pesquisa.
1940 1.337.844 26
A recuperação do valor, no sentido marxista, da casa operária
1950 2.198.096 65
impôs uma dupla estratégia de investigação. De um lado, o operário-in-
1960 3.825.351 74
quilino é o portador da história oral que permite recompor a trajetória
1970 5.978.977 56
habitacional de parcela do operariado das vilas. Sobretudo os antigos
1980 8.493.598 42
moradores podem dar, e deram, a visão que o operário tinha da casa.
FONTES: 1836 - Müller, Mar. D. P., 1923.
Por outro lado, a recuperação das origens da habitação do trabalhador
1872 a 1970 - Ver Daniel J. Hogan, 1972, apud Berlinck, M., 1975, urbano se rnecla com toda a complexidade dos movimentos político-
p.50. ideológicos do começo do século. A participação do trabalhador no
1980 - Governo do Estado de São Paulo - Secretaria de Estado dos sistema capitalista se faz inevitavelmente de forma contraditória. De
Negócios Metropolitanos. Emplasa. A Grande São Paulo Hoje.
1982, p. 27. um lado, ele se organiza e luta para tirar do sistema o mais alto preço

(3) Spindel, Cheywa, 1980. (4) Lemos, Carlos, 1975.

10 lJ

I
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fatureira, com a criação de grandes empresas industriais. O processo de
por sua força de trabalho. É por esta via que garante sua reprodução
acumulação de capital, nestas, contou com uma acumulação oriunda de
e melhores níveis de qualidade de vida. Por outro lado, e ao mesmo
setores agrários, e a industrialização já se inicia num processo de repro-
tempo que luta pela obtenção de um nível mais alto de consumo dentro
dução ampliada do capital.
do próprio sistema capitalista, o trabalhador "pode" se orientar ideolo-
gicamente contra os princípios do sistema, dentre eles, contra a proprie- A história da acumulação é a história da emergência da burguesia;
dade privada da casa. Qual é pois a posição do operariado, ao menos a história da acumulação na propriedade industrial é a própria história
uma parcela deste, frente à questão da propriedade privada da casa? da dominação da burguesia industriaJista sobre o operariado.
Historicamente quais foram as tendências observadas perante esta con- Na relação burguesia-operariado é preciso lembrar que: "as rela-
tradição? ções sociais, de acordo com as quais os indivíduos produzem, as rela-·
O anarquismo (5) foi o movimento mais atuante nas primeiras dé- ções sociais de produção, alteram-se, transformam-se com a modifica-
ção e o desenvolvimento dos meios materiais de produção, das forças
cadas da urbanização paulistana, quando se deu o grande surto de
de produção. Em sua totalidade, as relações de produção formam o que
construção das vilas operárias. Os ideólogos destas correntes, e os que
se chama de relações sociais, a sociedade, e, particularmente, uma so-
atuaram conforme seus princípios, deixaram suas marcas nos jornais
ciedade num estágio determinado de desenvolvimento". (6)
operários. Foi neles que buscamos conhecer a ideologia e a ação, vin-
culadas à habitação, propostas ao operariado pela ideologia anarquista. As vilas operárias surgem num estágio determinado do desenvol-
É do significado atribuído à casa, nas relações de produção, que decor- vimento econômico do país, e penetram nas relações de produção com
rem as orientações políticas assumidas na luta entre patrões e empre- um caráter e conseqüências que deverão ser melhor investigados. Elas
interferem nestas relações à medida que são somadas, pelo capitalista,
gados.
ao salário. Esta junção, como se verá oportunamente, tem várias for-
Como a casa interfere nos movimentos operários? Qual o signifi-
mas, mas sempre aparece articulada ao salário.
cado da casa própria, neste momento histórico, para as lideranças anar-
O salário, como o definiu Marx, é o preço da força de trabalho
quistas? Qual o significado político do aluguel?
ou seja "é o custo de produção da própria força de trabalho". Expli-
A resposta a estas perguntas indicarão as posições do operariado cando mais, "é o custo necessário para conservar o operário como tal e
urbano emergente face à propriedade privada da habitação e a luta, para formar um operário". (7)
por parte da força de trabalho e dos empregadores, para a instauração
Desta premissa decorrem duas considerações: 1. quanto menor
de uma política habitacional. Os jornais anarquistas foram as principais
for o tempo de formação profissional necessário para se ter um tra-
fontes de dados sobre esta problemática.
balhador tanto menor será seu custo e, conseqüentemente, menor seu
Mas estas questões, e as respostas a elas, não se limitam ao pas-
salário. Se o ramo industrial onde ele se situa não exige especialização,
sado, pois as vilas ainda persistem na paisagem paulistana, estão em basta que o salário lhe permita comprar os meios de subsistência ne-
pleno uso e continuam atuando nas relações entre o trabalhador-inqui- cessários à sua existência; (8) 2. a segunda consideração diz respeito à
lino e o proprietário-empregador. Qual é, atualmente, o papel da vila reprodução da força de trabalho, isto é, à substituição do operário
operária como um fator intermediário nas relações de produção? desgastado. Daí concluir Marx que: "o custo de produção de força
Do ângulo do capital as mesmas questões reaparecem. A história de trabalho simples se compõe, pois, do custo de existência e de re-
da industrialização em São Paulo - cidade aqui focalizada - é a his- produção do operário". Este preço é o salário, o mínimo de salário
tória da acumulação de capital nas grandes empresas industriais. No
processo de industrialização convivem a produção artesanal e a rnanu- (6) Marx, Kar!, 1954, p. 31.
(7) Idem, p. 28.
(8) Idem, p. 29.
(5) Magnani, Silvia, 1979.

12 13
capaz de manter e reproduzir a classe como um todo e não o indivíduo por suposto que o inquilino (operário ou não) entre na relação tendo
em particular. (9) vendido previamente sua força de trabalho, portanto possuindo o pro-
As vilas operárias são construídas para reduzir o custo de repro- duto de sua venda com o qual vai. "comprar" o aluguel da casa.
dução da força de trabalho. Estas considerações, conquanto corretas, não permitem analisar
um dos problemas colocados pelas vilas operárias onde o capitalista era
e é ainda, muitas vezes, o proprietário da casa e o empregador. A su-
perposição de papéis permitia e continua permitindo ao proprietário-
industrial exercer um duplo mecanismo de dominação sobre o inqui-
2 - Operário-inquilino: duplo mecanismo de
lino-operário.
extração da mais-valia
Um segundo problema diz respeito à condição do operário-pro-
prietário. A posse da casa, enquanto propriedade privada, é analisada
po.r Engels e sua posição! parece-nos, varia conforme a casa seja pro-
Talvez o trabalho mais completo de análise da habitação operária
pnedade do capitalista ou do operário.
na literatura marxista do século passado tenha sido o de Engels. (10) Ao
Quando a casa é propriedade de um capitalista, ela é considerada
analisar o significado da casa nas relações de produção e na ordem
uma mercadoria que pode ser vendida ou alugada. No caso de ser alu-
política, Engels tinha em mente refutar teses dos socialistas "utópicos"
gada, o aluguel ou o "preço do aluguel" compõe-se das seguintes partes:
e da burguesia. As condições habitacionais do princípio da industria-
1. parcialmente, da renda do solo;
lização européia têm muito de semelhante com o que ocorre no caso
2. em parte, do lucro do capital de construção, incluída a compen-
aqui focalizado, apesar de que entre ambas haja mais de um século.
sação paga ao construtor da obra;
A semelhança decorre da própria lógica do capital, mas a diversidade
3. em parte, por gastos de reparações e de seguros;
das condições históricas é responsável pelo trajeto diferenciado que o
4. em parte, pela amortização anual do capital de construcão m-
capital desenvolve a fim de se reproduzir e ampliar.
cluindo a compensação proporcional à deterioração da casa.02; ,
Antes de mais nada, a tese de Engels é a de que o problema habita- 1
O capital investido na casa persegue, como qualquer outro capi-
cional não é exclusivamente um problema operário: embora o operá-
tal, o lucro. O capitalista só se interessará em construir casas se ele
rio sofra mais intensamente com a carência da oferta de habitações, a
puder recuperar e ampliar seu capital através delas. É com este raciocí-
especulação imobiliária se encarrega de estendê-Ia ao resto da bur-
nio que Engels refuta toda a teoria proudhoniana de que sejam aboli-
guesia. Para expor suas idéias, Engels debate com Proudhon e Sax.
das as casas de aluguel e substituídas por casas próprias. Isto, diz ele,
Refutando o primeiro, demonstra que a relação entre o inquilino e o
"não é viável e além disso não muda a relação da exploração do capi-
proprietário é de natureza diferente da relação estabelecida entre o
talis~a para com o operário. Abolido ou não o aluguel, o capitalista
patrão e o operário. A casa é uma mercadoria, e nesta transação oope-
continua obtendo "a mais-valia que se reparte depois na forma de renda
rário entra como um "comprador", possuidor de dinheiro e o proprie-
do solo, de rendimento comercial, de lucro do capital, de impostos, etc.,
tário como o que aluga.v+' Na relação capitalista-operário, o primeiro
etc." (p. 133).
obriga o segundo a reproduzir seu próprio valor e a produzir uma mais-
Ou ainda, é indiferente que os operanos paguem aluguéis ou te-
valia, um valor excedente. Já na relação inquilino-proprietário é dado
nham a propriedade da casa pois "a massa de trabalho não pago arran-
cado à classe operária continuará sendo exatamente a mesma ... ". (l~)
(9) Idem.
(10) Engels, F., 1971 e 1975.
(11) Engels, F., 1971, p. 125. "Comprador do desfrute temporal de uma casa"; (12) Idem, p. 140.
ver especialmente as considerações da p. 156. (13) Idem, p. 133.

14 15

"
Diversamente da interpretação de Engels, nas vilas operanas, em mesmo ocorreria com a barra de ouro guardada no banco, jóia que
que o proprietário da casa é concomitantemente o capitalista empre- está sendo usada, o automóvel para uso de seu proprietário? Deixam de
gador, ele retirará do salário a mais-valia correspondente ao emprego ser capital? (l5l
direto da força de trabalho e mais a parcela da mais-valia que se re- A casa quando pertence ao capitalista, quer a habite ou não, é -,
parte na forma de renda do solo. A massa de trabalho não pago pode uma mercadoria. A casa quando pertence ao operário não perde tal
(*)

continuar sendo a mesma, mas, na relação direta capitalista-operário, condição, pois contém a possibilidade de se converter em capital.
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os capitalistas que também alugam a casa dispõem de um duplo meca- No problema aqui investigado, é fundamental aprofundar a ques-
nismo de extração da mais-valia. Portanto têm uma dupla estratégia de tão do operário-proprietário de casa. O processo que se desenrola quan-
acumulação de capital.
do a casa é da fábrica e quando ela se torna do operário constitui duas
Ao lado deste aspecto, deve-se também considerar as conseqüên- etapas da condição do trabalhador urbano. Nelas muda sua posição pe-
cias que tal extração representa sobre a relação proprietário-força de rante o mercado de trabalho, pois variam as pressões que o trabalhador
trabalho. Entre os fatores que permitem que uns extraiam maior volu- enfrenta quando dispõe' ou não da propriedade da casa.
me de mais-valia que outros, está a casa. Através dela, a relação de
compra da força de trabalho tem um mecanismo a mais de interferên-
cia e pressão no conjunto das relações sociais de produção.
Os dados da presente. pesquisa buscaram investigar, ao nível em-
pírico, estas considerações teóricas. 4 - A casa própria limita a possibilidade
de luta de classes?

Engels avança suas reflexões sobre as consequencias políticas da


3 - O operário-proprietário t extensão da condição de proprietário, proposta por Sax assim como por
Proudhon. Demonstra que a casa constitui um vínculo do trabalhador
à terra, que o escraviza, o torna "devoto e respeitoso". O dono de
(16)

Quando a casa é propriedade do operário, para Engels, ela dei-


(14)
uma casa se torna um inimigo do proletariado, perde seu espírito revo-
xa de ser uma mercadoria, ou pelo menos, deixa de ser uma merca- lucionário, perde sua capacidade de exigir melhores salários. Esta pro-
doria em sua plenitude. A mera propriedade da casa não torna o ope- priedade aproxima o trabalhador industrial do artesão escravizado peja
rário um capitalista, porque "o capital é o domínio sobre o trabalho propriedade de um pequeno pedaço de terra. O proletário, por outro
alheio não pago" (p. 152). Mas, por outro lado, este operário, admite ,lado, desprovido da casa e da terra, se constitui num proscrito. Com
Engels, deixa de ser um proletário sem s~ tornar um capitalista ...
Engels, porém, não vai às últimas conseqüências e restringe sua (*) Devo observar que uma outra interpretação desta questão, discordante da
afirmação ao dizer que quando um operário possui uma casa "o fato de que aqui apresento, considera a casa um "bem" e não uma mercadoria.

habitá-Ia ele mesmo impede que a casa se converta em capital" (p. 153).
(15) Marx, K., 1971 (especialmente v, 1 do Livro 1).
Para reforçar sua assertiva, compara a casa a um terno que, sendo com- }.
prado e vestido por seu proprietário, deixa de ser um capital. Mas o
r (16) Engels considera que o artesão, tecelão, que possuía uma casa, uma horta
e um pedaço de terra se tornava "tranqüilo e satisfeito", apesar da opressão
política e econômica. A propriedade lhe dava um "espírito de escravo".
(14) Idem, 1971, pp. 152-3. 1971, p. 129.

16 17
isso não se prende a nenhum lugar, a nenhum empregador e pode lutar
e se mudar para conseguir melhores salários.
I
I
Jhador alugava uma moradia e pagava um aluguel à fábrica. Portanto,
do ponto de vista do salário, é lícito esperar que a empresa podia em-
preender dois tipos de política: 1. manter salários baixos e oferecer a
Estudos recentes sobre São Paulo apontaram exatamente o
(7)

contrário, isto é, que o fato de ter casa própria garantia ao trabalhador casa a preço baixo, obtendo então uma redução no dispêndio mone-
uma relativa segurança para que ele mudasse de emprego quando qui- tário pela redução dos salários nominais; 2. manter salários baixos e
sesse, libertando-o para procurar melhores condições de trabalho. elevar os aluguéis, provocando com isso uma maior redução dos salá-
Na realidade por nós investigada, como o operário se define pe- rios nominais.
rante esta luta? A propriedade da casa interfere, e em que direção, so- No primeiro caso, quando a empresa reduzia seus gastos monetá-
bre os movimentos da classe operária? As histórias de vida dos mora- rios com salários mas, ao mesmo tempo, garantia um dos meios de re-
dores nas vilas e a política desenvolvida pelas empresas poderão res- produção da força de trabalho ao oferecer a casa a preço baixo, ela
ponder a estas indagações. poderia esperar um resultado imediato: aumentar a acumulação de ca-
pital, contendo seus gastos em capital variável (salários) e canalizando
j \ a maior parte dos recursos em capital fixo (máquina, matéria-prima).
A casa como forma de salário não pago Mas se este comportamento pode ser classificado como coerente
dentro da lógica da acumulação do capital, pode-se supor também que
A casa é um dos meios necessários à reprodução do trabalhador. outro tipo de comportamento ocorreu, ou seja, a empresa proprietária
Assim, infere Engels, sempre que o trabalhador investe suas peque- aumentava o preço dos aluguéis sem um aumento proporcional dos salá-
nas economias na construção da casa própria, ele vai de certo modo rios nominais. Com isto, ela esperaria acelerar a acumulação de capital
convertê-Ia em capital, não para si mesmo, mas para o capitalista. Isto obtendo uma taxa de mais-valia maior e mais rapidamente. Isto à custa
porque o item aluguel, que deveria estar contido em seu salário, poderá de uma dilapidação também muito maior da força de trabalho, à me-
ser deduzido, na medida em que ele não mais o paga. E o salário é o dida em que esta sofresse uma redução concomitante do salário nomi-
preço pago "pelos gastos de produção de força de trabalho" (p. 153). nal e do salário real.
Reduzindo-se o item aluguel, por conseqüência, vai se reduzir o custo Estes dois processos podem ter ocorrido em São Paulo. Resta ver
de produção e reprodução da força de trabalho naquele montante. se e como ocorreram.
Logo, o salário diminuirá. Deste modo, conclui ele, o operário conti-
Do ponto de vista do operariado, a mesma problemática se colo-
nuará pagando o aluguel dessa casa, só que agora não mais em dinheiro
ca. Submetido à pressão da empresa, capaz de dorniná-Io por intermé-
mas "sob a forma de trabalho não pago que iria para o fabricante para
dio dos salários e dos aluguéis, é de se supor que o operariado se orga-
o qual trabalha" (p. 153).
nize politicamente em resposta. Esta organização visa a neutralizar o
No contexto histórico analisado, a casa de propriedade da indús-
poder de dominação dos empresários, seja no que diz respeito aos alu-
tria entra na composição do salário de forma semelhante à descrita. A
guéis, seja no que diz respeito aos salários. Os movimentos sociais sur-
partir das premissas definidas por Engels, a primeira do ponto de vista
gidos teriam questionado a propriedade da casa?
da acumulação de capital pela indústria e a segunda relativa à subordi-
nação do operariado pressionado pela indústria locadora, cabe inves- Empregador e empregado, quando têm suas relações na produção
tigar o que ocorreu em torno das vilas operárias paulistanas. mediatizadas pela casa, esta passa a representar. um fator que pesa no
Durante a primeira etapa da industrialização, o industrial cons- poder de dominação dos primeiros e no instrumental de reivindicação

1
truía vilas operárias e mantinha sua propriedade sobre elas. O traba- dos segundos. Assim cabe indagar se, do ponto de vista da força de
trabalho, a casa teve o poder de rebaixar os salários e conter as rei-
(17) Cardoso, F. H. et alii, 1973, pp. 9-10.
vindicações. As casas evitaram greves? Até que ponto o trabalhador

[
18 19
avaliava economicamente o valor da casa? Até que ponto esta avalia- Ao analisar a produção capitalista da habitação, considera ela,
ção interferia e interfere sobre a organização da classe operária? como Engels já o fizera, que a casa é uma mercadoria que entra espe-
São estes alguns dos problemas precisos que visamos elucid rr. cificamente na reprodução da força de trabalho. Há uma relação entre
o custo da casa e o valor da força de trabalho, pois aquele custo entra
no preço do conjunto dos meios de subsistência do trabalhador. De-
corre que um aumento no preço desses meios de subsistência implica
um aumento do preço da força de trabalho. Mas o preço desta força
5- O papel do Estado na produção e consumo não pode aumentar além dos limites dados pelas próprias leis da acumu-
da habitação lação do capital e pelas condições de cada setor da produção. (20)
Considera ainda Magri a penetração de dois tipos de capital no
processo de construção da habitação: o capital produtivo (investido na
A habitação foi longa mente pensada como um produto a ser en- construção) e o capital de circulação (imobiliário); o capital produ-
tendido dentro da teoria das "necessidades sociais", num sistema eco- tivo tem um curso de circulação muito longo e, além disso, enfrenta o
nômico regido livremente pela procura e oferta. Susanna Magri re-
(j8)
problema da propriedade fundiária. Para superar estes dois problemas
coloca corretamente o sentido da habitação, desligando-a de um falso é que se dá uma penetração do capital de circulação (imobiliário). Há
mecanismo concorrencial e vinculando-a, em sua determinação funda- certa independência entre estes dois tipos de capital, e, em determina-
mental, às relações sociais, ou seja, dentro de um modo de produção dos momentos do modo de produção, eles se tornam incompatíveis. (21)

dominante e numa formação social específica. Nas etapas em que predomina uma produção do modo manuja-
Assim, é no interior da lógica do modo de produção que se vão tureiro das habitações, há uma compatibilidade entre os dois tipos de
organizar as atividades específicas de produção e consumo da habi- capital (o capital de circulação é capital pessoal de um proprietário
tação. Resulta pois que, para estudar a habitação, é preciso delimitá-Ia fundiário). "A construção de pequenas unidades de habitação (imóveis
historicamente. Neste sentido a habitação será aqui investigacla não isolados inseridos ou às margens do tecido urbano, em oposição aos
como um todo, mas em um de seus segmentos, que no tempo se esten- grandes conjuntos em série) é o resultado concreto desta articulação
de desde a primeira fase da concentração industrial até a etapa do no processo de produção destes dois tipos de capital correspondentes,
capitalismo financeiro, focalizando, em especial, São Paulo. O segmen- ao mesmo tempo, a uma tecnologia pré-industrial e à capacidade limi-
to pesquisado, a vila operária, constitui-se especificamente na produ- tada de investimento do capitalista-proprietário fundiário".
(22)

ção de habitações, por parte das empresas industriais, para o consumo Refletindo sobre a evolução do processo de produção habitacio-
da mão-de-obra empregada. nal francês, Magri mostra que passa a existir uma incompatibilidade
Ressalta Magri que entender a habitação é situá-Ia enquanto ativi- entre estes dois tipos de capital quando se eleva a demanda por habi-
dade social de produção e de consumo. O que determina a forma de tações provocada por uma elevação dos salários. Isto ocorre justamente
consumo da habitação pelos trabalhadores é a produção capitalista da quando a habitação deixa de ser produzida de um modo manufatureiro,
habitação. Considera ainda que este processo de produção, enquanto para o ser por um modo industrial. Neste momento, interessa ao capi-
tal industrial uma produção em massa e, conseqüentemente, um con-
processo de valorização do capital, explica em parte a intervenção do
sumo em massa das habitações. Mas isto só é possível se houver salá-
Estado no setor. (19)

(20) Idem, pp. 5 e segs.


(18) Magri, Susanna, 1972. (21) Idem.
(19) Idem. (22) Idem, p. !O.

20 21
rios compatíveis que viabilizern tal consumo. Logo passa a existir uma dições gerais para a produção ou para o consumo, isto é, o financia-
contradição entre o modo de produção industrial e o artesanal e manu- mento, atração de mão-de-obra, comercialização, etc. A industriali-
fatureiro antes predominantes no setor. Resulta uma crise imobiliária zação se daria - e esta me parece uma afirmação polêmica - nas
que, na França, foi superada pela intervenção do Estado, facilitando cidades, sem estabelecer uma divisão social do trabalho com o campo,
a criação de um "capital de circulação adequado", através da penetra- 'I o qual se achava autarcizado (autarquia da produção para comerciali-
ção dos promotores imobiliários e dos bancos no setor. (23) zação e para o consumo). Decorre desta assertiva a conclusão de que
As tendências do processo de envolvimento do Estado na questão ocorreria também uma "autarcização reflexa das unidades produtivas
habitacional encontram, em alguns trabalhos brasileiros, uma explica- industriais na cidade, que, para subsistir, se viam obrigadas a criar,
ção diferente. Num texto, de autoria coletiva, editado pela FUNDAP,(24) dentro delas mesmas, toda uma série de atividades não diretamente li-
se distingue o papel do Estado na etapa concorrencial e na etapa mono- gadas à produção propriamente dita, mas que asseguravam as condi-
polista do capitalismo brasileiro. A primeira é localizada no período ções necessárias à sua reprodução, tanto de força de trabalho como
que vai desde o início da industrialização até por volta dos anos 30, dos meios de produção (habitação, reparos e até manufatura de má-
a partir dos quais, com as grandes indústrias metalúrgicas estrangeiras, _L quinas)".<25)
se iniciaria no país o capitalismo em sua fase monopolista. A implan- A citada análise do grupo da FUNDAP reflete um procedimento
tação do capitalismo é identificada com a divisão social e técnica do mecanicista, acatando uma autarcização "reflexa" das cidades e fazen-
trabalho e a concomitante constituição de "condições gerais" para a do precipitadas generalizações a respeito do tópico das habitações ope-
reprodução da população e para a produção. No meio urbano ter-se-ia rárias. Reflexões semelhantes encontram-se num texto base, discutido
dado então a socialização das condições gerais (e, portanto, a substi- por aquele grupo e de autoria de Francisco de Oliveira, sobre a relação
tuição das formas particulares destas mesmas condições, por exemplo, entre o Estado e o Urbano. (26) O fenômeno urbano é pensado desde a
fornecimento coletivo de água, energia, transporte) e a aglomeração etapa do capitalismo comercial, quando o país se insere na divisão in-
(das condições gerais, das unidades produtivas e da população). Advi- ternacional do trabalho em plena expansão do mercantilismo. Diz Oli-
ria uma divisão social do trabalho no espaço, portanto uma divisão veira que, conquanto a participação do país, nesta divisão, se apóie
social do espaço, e daí a criação de uma rede de cidades. A aglome- na produção do campo, este "nunca controlou o Estado no Brasil". (27)
ração é a condição para o capitalismo (p. 11). O estádio do capita-
Nas cidades, a economia agroexportadora cria "os aparelhos que fazem
lismo monopolista se caracterizaria pela constituição de- unidades de a ligação da produção com a circulação internacional de mercadorias",
produção complexas, pela formação de um capitalismo financeiro e seja no período português ou no brasileiro (p. 45). As cidades são a
pela internacionalização do capital. sede do hegemônico capital comercial, controlam a produção agroexpor-
No capitalismo monopolista, segundo o trabalho citado, o Estado tadora e "fazem a ligação dessa produção agroexportadora com a cir-
é chamado a intervir para contrariar a baixa tendencial da taxa de lu- culação internacional da mercadoria" (p. 46). Oliveira indica, pois, que
cro, para facilitar a realização do valor e para minimizar os conflitos as cidades são antes o "centro do capital comercial" do que meras "ci-
sociais. Daí o Estado intervir na produção de condições gerais em bene- dades burocráticas", conforme as classificara Morse. (28) O capitalismo
fício da acumulação do capital. comercial criara poucas grandes cidades no Brasil, através das quais
Em seguida, a análise procura focalizar rapidamente as várias eta- controlava a agroexportação. Esta "rede urbana pobre" e polarizada é
pas do capitalismo brasileiro e considera que a produção de café foi
uma atividade urbanizadora, porque requeria a implantação de con- (25) Idem, p. 24.
(26) Oliveira; Francisco, 1978.
(27) Idem, p. 15. O autor não precisa as datas que delimitam os processos
(23) Idem, p. 11. apontados.
(24) FUNDAP, 1978. (28) Morse, Richard, apud Oliveira, F., 1978, p. 46.

22 23
mais uma vez explicada pelo "caráter autárquico das produções 'para trabalho era pequena e altamente especializada (p. 15) e que a espe-
exportação", que embotava a divisão social do trabalho impedindo o cialização tecnológica neutraliza aquela especialização. Daí ser neces-
surgimento de atividades urbanas. A isso se soma o trabalho escravo sária uma regulamentação das relações de produção e o Estado intervir
que impediria a formação de um mercado de trabalho (p. 51). Por- justamente neste aspecto. O fenômeno urbano se consubstancia, para
tanto, para Oliveira, a economia monocultora negava a cidade por três Francisco de Oliveira, na relação intervencionista do Estado, impondo
razões: 1. pela ausência de um mercado de força de trabalho; 2. pelo as condições salariais à força de trabalho. A partir de 50, com o capi-
caráter autárquico da produção agrícola; 3. pela exclusão da cidade talismo monopolista, o Estado penetra em setores da produção para
como espaço na divisão social do trabalho (p. 51). Considera que as regulamentar as relações capital x trabalho, basicamente controlando
cidades chegam aos anos 20 nestas condições. conflitos salariais e pela prestação de certos serviços públicos, que as
Nos últimos sessenta anos, a urbanização é entendida por Oliveira empresas internacionais exigem encontrar. Do ponto de. vista habita-
como o resultado da industrialização, a qual foi um fenômeno urbano. cional, se extinguiria a produção de habitações por parte das empresas,
Com a indústria se forma um exército industrial de reserva (e não uma desde que o Estado intervém nas relações e conflitos da produção. (29)
população marginal ou inchada). A industrialização carece de apoio Posição relativamente semelhante a esta é exposta em trabalho da
numa divisão social do trabalho com o campo e também não estabelece COGEP, (30)onde se considera que o industrial só vai se preocupar com
uma divisão do trabalho, interna à própria cidade, ligando grandes e o problema habitacional do operário antes de se constituir, na cidade,
pequenas unidades produtivas (p. 55). Criam-se grandes unidades, alta- um exército industrial de reserva, após o que deixa de se preocupar com
mente especializadas, com uma divisão do trabalho interna. Para fun- o problema da habitação.
cionar, a indústria individualmente tem de criar todos os setores cor- As análises aqui expostas sobre a relação habitação-trabalhador,
relatos e portanto tem de capitalizar muito mais. Isto se reflete numa extremamente sugestivas, merecem algumas reflexões sobre o alcance
produtividade baixa do trabalho, comparativamente ao grau de capita- com que podem ser aceitas. O primeiro trabalho que vimos, o de En-
lização. Explica o citado autor que "essa industrialização exigia uma gels, refere-se a um período histórico muito bem definido e localizado
série de requerimentos que as cidades não ofereciam. Isto é, evidente- - Inglaterra e Alemanha, no século XIX. No entanto este texto tem
mente, uma herança do padrão anterior de relações cidade-campo, sido impropriamente adotado como modelo teórico de explicação. Ao
que em novas situações projeta-se de outro lado: ao invés da autar- tratar da expansão do capitalismo inglês e alemão, o autor enraíza em-
quia dos campos, agora impõe-se uma autarquia das cidades" (p. 10). piricamente sua análise e não se propõe estabelecer uma explicação
Citam-se exemplos como Paulista, em Pernambuco, Votorantim, em universal. Mas, concomitantemente, ele oferece um projeto político,
São Paulo, onde a indústria teve de construir uma cidade, "desde fazer fazendo proposições voltadas para a solução futura do problema da
casa para operários (o quê, em muitos casos, parecia um pouco o idílio habitação. Pretende indicar que ao operariado é mais adequado o alu-
entre o capital e o trabalho), até uma complexa divisão social do tra- guel do que a propriedade da moradia.
balho no interior da própria fábrica" (p. 11). Compreender a condição da moradia operaria brasileira, ou pau-
Confrontando esta situação com a que se instala depois de 30, lista, comparando-a a outras, como a descrita por Engels, permite ava-
Oliveira considera que, na primeira etapa, "uma determinada indústria liar aspectos da lógica do capital presentes nas duas formações sociais.
construir o próprio parque residencial dos operários era uma forma de Entretanto, adotar o projeto político, como se ele fosse parte de uma
ter um mercado de trabalho cativo não regulado pelo Estado" (p. 15). explicação teórica, induz a uma inadequada compreensão da realidade
No novo patamar tecnológico depois de 30, este tipo de mercado brasileira (ou de qualquer outra). A dualidade comprar ou alugar uma
de trabalho cativo é incompatível, pois a nova tecnologia é a negação
(29) Oliveira, F., 1978.
da especialização (p. 15). Supõe o autor que antes de 30, a força de (30) COGEP, PMSP e FUNDAP, 1979, p. 19.

24 25
casa não pode ser resolvida "teoricamente"; deve levar em conta os social do trabalho e sim pela construção de unidades autônomas. Esta
valores sociais presentes na sociedade. No caso brasileiro, a proposta de visão decorre de uma perspectiva que considera o interior das unidades
-r: aluguel da moradia opõe-se a um dos mais acalentados sonhos dos e sua complexidade, deixando de lado a interação do processo produ-
trabalhadores: o de possuir sua casa própria. tivo como um todo, a relação entre as unidades produtivas e a própria
Pode-se discutir se tal sonho é ou não politicamente favorável ao expansão do capitalismo ao nível mais amplo do país. Para se entender
avanço das condições de vida do operariado, ou as origens ideológicas o que ocorre nas fazendas, nas indústrias, nos complexos agroindus-
que produzem e ratificam a permanência da valorização da proprie- triais, é preciso entender a relação de cada uma delas com o Estado,
dade, mas não se pode ignorar a presença desta opção. que nesta etapa toda financia a vinda da força de trabalho. Quando o
Estado organiza uma política de imigração é ele que está ativamente in-
O segundo trabalho examinado, o de Susanna Magri, avalia a rela-
duzindo a conformação da força de trabalho; estrutura-se uma divisão
ção entre o investimento de capital no processo de construção do ur-
social do trabalho em que o Estado, viabilizando o investimento de
bano, na realidade francesa da etapa do capitalismo financeiro. Ao con-
capital, atua para a formação da força de trabalho. b só num segundo
siderar a intervenção do Estado nos momentos em que se torna imi-
momento que esta força será usada pelas unidades de produção.
nente o conflito entre eis interesses do capital e os da população consu-
A industrialização só ocorre pela presença de trabalhadores os
midora de habitações, a autora isola apenas duas variáveis: o Estado e
quais, direta ou indiretamente, foram providos pelo Estado. Neste sen-
o capital. Deixa de lado uma conquista histórica básica, presente na
tido há uma divisão social do trabalho, condição da industrialização e
sociedade francesa: a organização das forças sociais através de sindi-
presente durante todo o processo. A aparente autarquia das unidades
catos, partidos políticos e movimentos populares. A existência desta
de produção esconde esta decisiva participação do Estado na criação de
pressão organizada reduz o alcance da intervenção do Estado, mesmo
condições gerais.
quando este se acha aliado a setores do capital. Na realidade brasi-
Os três citados trabalhos também falam numa auto-suficiência das
leira a situação é completamente distinta pois são muito frágeis os canais
indústrias do começo do século. Esta aparente auto-suficiência decorre
organizados de pressão por parte da população. Resulta que mesmo
da focalização microscópica de cada uma das unidades. Entretanto, esta
existindo um mercado de massa, ele não tem meios de consumir as
aparência se desfaz quando se observam as imprescindíveis articulações
habitações, por razões salariais. A contradição entre o capital "rnanu-
que cada unidade deve estabelecer com os demais setores da produção,
fatureiro" e o "industrial" que provoca a exclusão do primeiro pelo
segundo, observada na França, não se observa no Brasil. Ao contrário, do consumo ou da circulação. A produção das principais indústrias de
tecido de juta, por exemplo, se faz dentro de uma divisão social do
aqui convivem os dois, e a intervenção do Estado ocorre de maneira
trabalho entre cidade e campo, sendo aquele tecido usado para a expor-
flexível e circunstancial, não conseguindo controlar o processo de pro-
tação do principal produto agrícola, o café. A produção de sacaria nas
dução das habitações.
indústrias de Penteado, de Street, e de outros, supria em grande parte
Os três trabalhos brasileiros antes analisados, o da FUNDAP, da o consumo das fazendas. O mesmo ocorria com a produção de tecidos
COGEP e de Francisco de Oliveira, serão tratados em conjunto, pois para vestimenta, destinada ao largo consumo da crescente força de tra-
se assemelham na tentativa de suprir uma lacuna da literatura socio- balho, mesmo que algumas agroindústrias produzissem parcela do que
lógica brasileira, a de entender teoricamente a questão de uma defi- era consumido internamente. A divisão social do trabalho está presente
nição do urbano. A contribuição mais importante que estes trabalhos desde o início, quando nas cidades se produzem bens que permitem a
trouxeram foi a de demonstrar as raízes históricas da produção da comercialização dos produtos agrícolas, ou suprem necessidades da po-
urbanização e dos centros urbanos. Entretanto, as explicações sobre pulação trabalhadora.
o processo de industrialização deixam importantes dúvidas. Aceitam, A instalação de ramais ferroviários, dentro das agroindústrias ou
como verdadeiro, que a industrialização se teria dado sem uma divisão de algumas indústrias urbanas também é apontado como um dos argu-

26 27
r
I mentos que provariam a autarcização das unidades. Este ângulo, ao pri- Nesta pesquisa procuramos reconstruir a trajetória habitacional
i I vilegiar o que ocorre dentro da unidade, esquece que para se puxar dos atuais moradores das vilas operárias para compreender como e
I um ramal é necessário existir uma grande linha ferroviária, regular e por que eles vêm morar numa vila. Procurou-se sempre ver quais as
I
externa, ligando os vários pontos de produção. A instalação da ferrovia correlações que havia entre o trabalho e a moradia na vila. Mas o
é, portanto, prévia, necessária à circulação e distribuição da produção, próprio morar na vila, visto sob este prisma, fez vir à tona aspectos do
num sistema onde existe uma divisão social da produção. quotidiano da vida operária vividos no interior da vila. Estes dados
permitiriam um confronto entre as condições concretas de vida nas
Os limites da divisão social nacional do trabalho se alargam face
vilas operárias e as harmoniosas pressuposições acima relatadas ..
à importância dos produtos de exportação e aos interesses do capital
Procurou-se reconstruir a história da vila sob dois prismas: atra-
estrangeiro. Uma divisão internacional se soma à divisão social do tra-
vés da visão do operário e através da visão do industrial. Cremos que
balho no Brasil e em São Paulo, em particular, através do financia-
deste modo pudemos nos afastar das pressuposições e chegar mais perto
mento de toda a infra-estrutura urbana (luz, transporte, etc.).
do porquê as vilas operárias foram construídas, continuam a ser cons-
No amplo processo de divisão social do trabalho, as autarquias truídas e por que seus moradores buscar morar nelas.
(dentro das quais as vilas operárias seriam incluídas) são apenas um
ângulo.
O papel do Estado na questão da habitação varia conforme a for-
mação social e o momento histórico considerado. No caso brasileiro o
Estado tem um papel, como veremos mais adiante com detalhes, cir-
cunstancial e que reflete a frágil organização da camada trabalhadora.

6 - O operário e a vila

É impraticável indicar todas as referências bibliográficas em que


surgem considerações sobre o quotidiano das vilas operárias, seja entre
cientistas sociais ou na literatura em geral. Entretanto, por quase toda
ela passa uma visão do que se imagina ser uma vila operária: um local
criado no passado, onde as pessoas viviam harmoniosamente, onde ha-
via muita ajuda mútua entre os vizinhos e, com freqüência, festas de
confraternização geral. Há mesmo um saudosismo de um passado ima-
ginado como melhor do que o presente, mais humano, onde haveria fre-
qüente contato entre adultos ou crianças.
A figura do industrial proprietário, neste conjunto de pressuposi-
ções, é também imaginada, por vezes, como a de um capitalista des-
toante das regras do capitalismo, preocupado com o bem-estar dos ope-
rários, e conciliador nas relações capital e trabalho.

L
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