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LITERATURA 27 dezembro 2017

AS ARTES ENTRE AS LETRAS | 10

Afonso Pinhão Ferreira


professor na UPorto

Acerca da ANTOLOGIA do pensamento


geopolítico e filosófico russo
(século IX-XXI)

C
onvidado, apresentei na Póvoa de Varzim, a quer ainda porque é difícil e seria arrogante sinteti- janela, e termina com Vladimir Putin e Mikhail Gor-
Antologia do Pensamento Geopolítico e Fi- zar o pensamento político de um país, apresentado batchov. Perspetiva-se outra viagem, talvez com ou-
losófico Russo, destacando aquilo que é ób- com uma perspetiva sincrética. Comentar uma obra tro meio de transporte para outros lugares e com ou-
vio. O livro é extenso, é imenso, mas é também ex- literária não deve ser resumir o seu conteúdo, em- tros passageiros, quem sabe. O comboio passa pelo
tensa e imensa a formação e a dimensão da Rússia, prestando aos outros a nossa visão e não a que legi- feudalismo, com uma visita panorâmica bicentená-
além da sua importância geopolítica no panorama timamente pertence aos autores. ria ao liberalismo depois de Pedro o Grande. Faz de-
mundial. Por isso, comecei por classificar a obra co- A apresentação da obra mais não seria que uma con- pois uma passagem breve pelo socialismo com uma
mo proporcional. ceção de cariz pessoal, certamente carregada daque- paragem demorada no comunismo, e termina com
Só pessoas com um trajeto curricular com qualidade la parcialidade que caracteriza cada um de nós. Re- a aferta de um bilhete que poderá dar acesso ao eu-
demonstrada, poderiam brindar a comunidade com tiraria contexto ao texto, enquanto anularia a vonta- rasismo enquanto poposta de futuro. Trata-se de um
um livro trabalhoso e com contéudo tão categoriza- de do futuro leitor para ajuizar, ele próprio, o pensa- passeio da Ásia à Europa e da Europa à Ásia, no com-
do. É o caso do Doutor José Milhazes, distinto corres- mento geopolítico e filosófico que edificou ao longo boio do tempo russo, em dez carruagens (leia-se ca-
pondente e comentador de política internacional e de um milénio, a Rússia. pítulos), onde se abrem trinta e duas janelas (leia-se
Comendador da Ordem de Mérito da República Por- Ora, não relatar, não descrever ou não sintetizar o mio- pensadores), umas mais abertas e outras mais fecha-
tuguesa, a quem se reconhece preocupação com os lo deste doce literário, não significa de todo que não o das. É uma excursão arejada, com alguns ventos vin-
destinos da sociedade humana, o que demonstra tenha provado. Pelo contrário, saboreei a sua textura e dos do Oriente e outros procurados no Ocidente. Por
no dia a dia, com reconhecida humildade. Formado petisquei a sua profundura, numa intensa e profícua várias vezes, os passageiros tentam avisar que a tre-
na Universidade de Moscovo em 1984, como muitos apreciação, que fiz questão de reunir em resumo pró- pidação sentida no trajeto do comboio pode levar ao
dos pensadores russos que participam nesta antolo- prio para consulta, se um amanhã o consentir. descarrilamento, e sugerem ideias para dar um ru-
gia, doutorou-se em 2007, na Universidade do Porto. “Antologia do pensamento geopolítico e filosófico mo certo aos carris da Rússia. Convido-vos a compra-
O segundo autor, o Doutor João Domingues é licen- russo”: a descodificação do título implica alguma re- rem o bilhete e a embarcarem neste comboio tempo-
ciado pela Universidade Autónoma de Lisboa e pós- flexão, o que de imediato convocou os meus senti- ral conduzido pelos maquinistas especializados, Jo-
-graduado e Mestre em Relações Internacionais. dos. É indiscutivelmente elucidativo, sobretudo para sé Milhazes e João Domingues.
O livro condensa uma obra literária notável no âm- aqueles que habitualmente se passeiam pelas ruas Há, de facto, múltiplos fundamentos para adquirir e
bito histórico-social, soberbamente acreditada com da leitura e que visitam amiudadamente a mãe cul- ler esta obra.
escritos argumentativos de feição político-filosófica, tura. Todavia, para quem caminha nas ruelas do ime- Em primeiro lugar, trata-se de um livro bem estrutra-
razão bastante, aliás, para que me seja grata a exorta- diatismo, é título que afasta, é etiqueta que assusta, é, do e redigido, onde estão plasmadas as convicções
ção da sua leitura. porventura, um rótulo a evitar. Dito de outra forma, dos pensadores numa base antológica. Trata-se de
Importa declarar que quando arrecadei o convite pa- o tema só por si gera uma elite de interessados, uma uma coletânea, onde há a construção de um diálo-
ra apresentar a obra, não calculava nem a extensão nata de leitores já consagrados, leitores que calcam go que se alicerça na contraposição e contradição de
nem a abrangência do conteúdo temático. E, só não sistematicamente os terrenos da cultura, que trilham ideias dos pensadores e políticos que foram edifican-
optei pela pronta desistência, pela circunstância da a via da filosofia ou que percorrem a crítica da cogita- do as diversas bases concetuais da sociedade russa.
leitura e sequente análise se ter revelado um inco- ção política. Mas eu que li, reli e resumi o texto que li- Às ideias, estratégias, certezas e inseguranças de um
mensurável deleite, como ainda o facto de ter perce- quefaz aquele título douto, posso garantir-vos que a dado pensador, filósofo, escritor ou político, contra-
bido que poderia enriquecer os cofres da minha cul- prosa é de leitura agradável, sendo o conteúdo deve- põem-se as de outro, às vezes totalmente antagóni-
tura. ras aliciante, envolvente e atrativo. cas. Pois bem, é precisamente esta permanente dua-
Certamente concordarão comigo que, é cada vez Digamos que os autores conseguiram descomprimir lidade o que torna o livro fascinante.
mais patente, a existência de dois mundos diferen- a complexidade do tema, dando à vivência histórica Por exemplo, lemos o moscovita e eslavófilo Alek-
tes: um pensado e um impensado. O mundo pensa- da Rússia uma aclimatada progressividade. Verifica- sei Khomiakov e compreendemos a sua preocupa-
do está cada vez menos habitado, enquanto o im- -se uma tradução onde se nota que existiu por parte ção com a ocorrida imitação russa da civilização eu-
pensado se encontra sobrelotado. Tal circunstância dos insignes autores, uma inquietação com o senti- ropeia ocidental, e, depois, lemos o moscovita e oci-
torna urgente provocar uma migração do mundo im- do de amaciar, embelezar e aromatizar a leitura dos dentalista Piotr Chaadaev e percebemos as vanta-
pensado para o pensado, o que, certamente, só se al- escritos e dos pensamentos daqueles que durante gens da assimilação da cultura europeia para o po-
cançará promovendo a educação dos residentes do mais de mil anos, tornaram a questão russa sempre vo russo. Ou seja, os autores do livro prendem os lei-
mundo impensado. Ora, é este o propósito das mani- atual. tores, ao inocularem uma enzima dialética no texto.
festações culturais, como disso é exemplo a apresen- Quem ler esta obra, fará uma viagem no comboio De facto, ao assimilarmos os argumentos que supor-
tação desta coletânea. do tempo, onde cada pensador é um passageiro tam uma dada posição, sentimos de imediato a ne-
E, quando cogitei a forma de enaltecer este ensaio que abre uma das muitas janelas daquele compri- cessidade de conhecer os fundamentos da eventual
político-filosófico ora editado, afastei prontamente a do transporte temporal. O comboio começa com a contraposição. Os autores autorizam e emprestam a
ideia de o tentar relatar, de ensaiar descrevê-lo, quer origem do pensamento russo, sendo Nestor, o Cro- arte da dialética aos seus escritos, provocando os lei-
pela exiguidade que a sensatez do tempo implica, nista nascido em Kiev em 1056, que abre a primeira tores a uma incessante pesquisa. O livro irradia a ar-
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AS ARTES ENTRE AS LETRAS LITERATURA

te da dialética, sendo os conceitos, os juízos, as con- nós, ocidentais, amiudadamente. E, como é diferen- Depreende-se desta Antologia que a Rússia tem um
vicções, as estratégias nos planos religioso, filosófico, te compreender a nossa história, a história da euro- percurso narrativo que se pode equiparar a um la-
político e socioeconómico, apresentados nos escri- pa ocidental, vista por gente de fora da nossa civili- boratório de ensaios políticos. As teorias e as práti-
tos próprios dos pensadores numa tradução assina- zação; saber como nos vêem, perceber como nos jul- cas que timonaram o Império Russo, a URSS e a Fe-
lavelmente legível. gam, entender como nos admiram, enfim, percecio- deração da Rússia nas suas diversas épocas de de-
Trata-se de uma coleção de obras curtas bem esco- nar como nos temem. Na realidade, a civilização oci- senvolvimento basearam-se em ideologias que se
lhidas e sequenciadas, que faz justiça à diversidade dental europeia, aquela que nos toca mais de perto, foram gorando, não pelas filosofias que as sustenta-
que caracteriza o ser humano. Um tratado à inteli- é abordada reiteradamente pelos filósofos russos ao vam, mas sim, pelos sistemas políticos que as aplica-
gência primata que nos determina, citando o filósofo longo da sua história, quer de forma apreciativa quer vam. Usualmente, na aplicação da ideologia perde-
Mark Rowlands. Um compêndio onde se gladia a dis- depreciativa. -se a filosofia e ganha-se, habitualmente, uma mafia.
simulação que é própria dos seres humanos, onde Pois bem, essas opiniões divergentes permitem co- Mas, a humanidade precisa de guias, de doutrinas, de
cada pensador tenta convencer o leitor da sua ver- nhecer o passado. E só a avaliação do decorrido per- utopias, de um farol que a oriente humana e social-
dade, sendo esta uma inverdade para o seu opositor, mite evitar o irrefletido. Como seria bom que os po- mente, com mais ou menos liderança. Numa época
por decerto. E é, justamente, esta procura da agulha líticos fossem detentores de uma ampla cultura his- superficial, consequência do empirismo da mundia-
da verdade no palheiro da inverdade, feita ao longo tórico-social, pois só assim saberão avaliar o mérito lização, quando lemos o que pensam os filósofos da
da história pelos pensadores, que gera as estratégias, de qualquer ação, incluindo a governamental. Co- atualidade, como o coreano Byung-Chul Hani, o es-
as doutrinas, as decisões, enfim, a filosofia e a políti- mo exemplo, e em face disto, tem lógica questionar loveno Slavoj Zizekii, o francês Gilles Lipovetskyiii e
ca que comanda o mundo social. E na Rússia não foi se a Quarta Teoria Política onde se contesta uma vez o nosso Eduardo Lourençoiv, entre outros notáveis
diferente, apesar de alguns dos escritores o suporem, mais o liberalismo (tal como na Segunda e na Tercei- pensadores, constatamos a indiscutível falta de uma
querendo dar-lhe um carácter diferenciativo que va- ra Teoria Política), foi elaborada por conhecedores utopia para encararmos poder vencer as forças des-
lorizasse a identidade nacional. do passado?! construtoras da sociedade hodierna que se infiltra-
Friedrich Nietzsche, o grande pensador natural da Há ainda dois outros entendimentos que nos levam ram tentacularmente em todas as instituições. Ora,
Prússia, escreveu com clarividência que “a astúcia é a debruçarmo-nos na leitura desta antologia. É o fac- as utopias precisam de um diagnóstico correto e sen-
melhor do que a violência”. Lembrei-me deste pen- to de ela ser, na sua essência, de caráter filosófico. Da sato do presente e do passado, donde se conclui que
samento quando, no livro, li os escritos que nos le- sua leitura sobra sempre a dúvida sobre qual teria si- talvez o realismo não se oponha por completo às uto-
gou Nikolai Danilevski. Diga-se que é quase um trata- do a melhor decisão política numa dada época, pe- pias. Sem um bom diagnóstico da realidade, não se
do, aquela frase de alto significado. Tal sentença traz rante um dado circunstancialismo. Por isso, neste li- poderá produzir uma boa utopiav.
apensa uma extrapolação política que nos diz que a vro o leitor é levado a duvidar, a dar preferência à no- Por fim, direi que o livro provoca o leitor, pois segue
astúcia sendo para proteger da crueldade insana, vi- breza da filosofia e a não se rever na pureza de ne- as regras do pensamento investigacional, preferindo
ra argúcia se for para obter tranquilidade humana. nhuma ideologia. No meio de tantas opiniões dife- abrir questões a dar respostas. Deixa-nos questões
Dito de outra forma, será sagaz e eficaz a mentira que rentes, de doutrinas falhadas, de regimes claudica- interessantíssimas, das quais destaco: - a civilização
trás a paz. Usa-se a diplomacia como via para evitar a dos, depreende-se, apesar de tudo, ser melhor dar grega é europeia? - haverá uma Quarta Teoria Políti-
violência e afiançar a paz na vivência. Esta é a via de- preferência à divergência e não nos reduzirmos a ca, ou melhor, nascerá uma nova doutrina para a vi-
fendida por muitos dos pensadores russos que via- qualquer alinhamento sem prévio entendimento. A vência da sociedade? - E a que sociedade nos referi-
jam neste comboio antológico, quando, a exemplo sua leitura leva a optar pela política do divergir, na mos? - O eurasismo tem algum sentido? - Será a Rús-
de um passado mais espiritual e menos guerreiro, re- medida em que ela nos obriga a refletir. Por outro la- sia europeia? - Qual a próxima utopia da humanida-
comendam a expansão da Rússia pela via pacífica do, parece ser melhor eleger a inconformidade ativis- de? - Qual o papel da Rússia na construção da socie-
em contraposição à obtida pela conquista, cujo para- ta baseada em julgamento educado, do que a confor- dade do futuro?
digma recai sobre os europeus ocidentalistas. midade coletivista que resulta num enfileiramento Penso ser importante sair do presente a consultar es-
Ora, desde a ponderação havida na edificação do impensado. te conhecimento arquivado, uma espécie de mate-
Império Russo pelo príncipe Vladimir por volta do Nesta viagem de mil anos do comboio russo existi- rial desusado, mas que para além do interesse nar-
ano 1000, no sentido de o povo russo adotar a reli- ram muitas paragens, onde se manifestaram os “is- rativo, induz o conhecimento reflexivo necessário à
gião cristã ortodoxa, até à “Rússia ser Putin”, o com- mos” plenos de mecanismos de sujeição para os pas- participação cívica na construção política do mundo
boio serpenteia-se por entre a união do povo em tor- sageiros que no comboio foram embarcando. Pri- que é o nosso, no qual se insere a Rússia.
no dos princípios espirituais, secundarizando os as- meiro o feudalismo com as suas relações servo-con- Esse ato tão íntimo que é a leitura, permite-nos eclip-
petos estatatais (relação que só mais tarde com Pe- tratuais, que privilegiavam os senhores feudais. Lo- sar a angústia da ausência de tempo que desqualifi-
dro I foi invertida), como forma de se organizarem go depois, o capitalismo que praticamente só favo- ca a época contemporânea e enriquece-nos o espí-
contra as invasões dos povos das estepes; o comboio recia alguns particulares, enquanto desprotegia a rito. Valoriza-nos através do conhecimento, auxilia-
vagueia depois por entre os eslavófilos e os ociden- maioria dos populares. Seguiu-se o liberalismo as- -nos a compreender a sociedade, permite-nos viver
talistas durante o Império Russo, e depois ainda en- sente em ideais tais como a igualdade e a liberdade, para além de só existir. Alguns poucos, com a escrita,
tre os socialistas, anarquistas, comunistas e todos os que pareciam ser bons sinais, mas nada mais. Com não deixam o conhecimento liquefazer-se e evitam
revolucionários e ativistas que conduziram à efetiva- o comunismo, procurou-se, no essencial, uma liber- que se torne efémero. É o caso dos doutores José Mi-
ção da União Soviética; a viagem finda com a abor- dade sem antagonismo, assente numa igualdade to- lhazes e João Domingues, que felicito.
dagem da luta pelo pós-modernismo, numa contes- tal sem paralelismo. Sem classes sociais e sem pro-
tação ao liberalismo naquilo que se denomina como priedade privada ficaram todos iguais, mas sem na-
a Quarta Teoria Política, sendo a primeira o liberalis- da. Não podendo ser mais para além do viver, nem NOTA
mo, a segunda o socialismo, a terceira o nacionalis- podendo ter mais que apenas o ser, perdeu o sentido i Byung Chul-Han.: A sociedade do cansaço.

mo/fascismo. e foi banido, até ver. Viveu-se e vive-se agora, no oci- Relógio d’Água Editores, 2014.
ii Zizek Slavoj.: Problemas no paraíso: o comunismo
Mas discorrem muitas outras motivações para en- dente, uma outra aurora, uma ideologia menos pura, depois do fim da história. Bertrand Editora Lda. 1.ª ed. 2015.
cetarmos a aventura de ler esta extraordinária an- com um pouco de tudo à mistura. Firma-se na econo- iii Lipovetsky G., Serroy J.: A cultura-mundo – resposta a

tologia, sendo que uma delas é permitir, de forma in- mia livre do mercado e dá pelo nome de neoliberalis- uma sociedade desorientada. Edições 70 Lda. 2013.
iv Lourenço E.: O esplendor do caos. Gradiva, 6.ª ed. 2012.
dubitável, conhecermo-nos melhor, não fora a cir- mo, o qual não sendo o testado liberalismo, também v Gonçalo M. Tavares.: Sobre a utopia,

cunstância de nos pensamentos escritos se falar de está longe de ser o legado do socialismo. alguns apontamentos. Jornal “O Público” de 08/01/2016.

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