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Relacionamentos “reais” versus relacionamentos “virtuais”: O que

esperar deste embate?

“Real” versus “Virtual” relationships: what to expect from this clash?

Gilvana da Silva Machado


Mônica Santini de Oliveira Doki
Fabíola Soares
Ana Luiza Tonelli Regis Faria

Resumo: Neste artigo, será discutido o impacto das novas tecnologias de comunicação sobre o
relacionamento entre indivíduos e comunidades. O conceito de redes sociais, ou comunidade
virtual, corresponde a uma compreensão da interação humana de modo mais amplo que o de
comunidade, pois os indivíduos já não se organizam mais segundo parâmetros convencionais de
localidade, parentesco, vizinhança, dentre outros. Observa-se, a partir deste desenvolvimento
tecnológico voltado para a comunicação, a rapidez no processamento das informações, com a
comunicação via on-line instantânea e a ampla disponibilização de arquivos de literatura
especializada e científica, um ambiente muito mais favorável à produção e compartilhamento
literário acadêmico. Contudo, se por um lado houve a viabilização da comunicação através da
propagação de informações, por outro, esse processo poderá aumentar a dificuldade relacionada
à distinção entre o que é real e o que é virtual, favorecendo e favorecido pelo isolamento em um
“cyberespaço”, alienando-nos da realidade através da substituição de atividades cotidianas
importantes pela “navegação”.
Palavras-chave: Internet; Virtual; Comunidade; Msn; Orkut.

Abstract: This article discusses the impact of new communication technologies on individuals
and communities. The concept of social network or virtual community corresponds to a broader
comprehension of human interaction, not just the conventional sense of community, as
individuals do not get organized by the conventional parameters such as locality, family hood,
neighborhood, etc. Having such communication-driven technological development, the article
highlights speed of information processing, online instant communication and great availability
of scientific and specialized literature which enhances the production and the sharing of
academic work. However, if on one hand there was the viability of communication trough
propagation of information, on the other hand comes the discussion on what effect this could
have regarding people’s capacity of distinguishing what is real and what is virtual, favoring and
being favored by the isolation in a cyberspace, alienating from reality, substituting daily
activities for “surfing” the net.
Keywords: Internet; Virtual; Communities; Msn; Orkut.

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Sobre as autoras:

Gilvana da Silva Machado


Professora do Complexo de Ensino Superior de Santa Catarina na Faculdade de Psicologia.
Leciona as disciplinas de Analise Experimental e Funcional do Comportamento nesta instituição
desde 2006.
E-mail: gilvanamachado@yahoo.com.br
Faculdade de Psicologia/CESUSC – Rod. SC 401, Km 10 – Santo Antônio de Lisboa –
Florianópolis/SC – Cep: 88050-001

Mônica Santini de Oliveira Doki


Auxiliar de Enfermagem. Graduanda do Curso de Psicologia do CESUSC.
E-mail: monicadoki@gmail.com

Fabíola Soares
Graduanda do Curso de Psicologia do CESUSC.
E-mail: bilasoares@hotmail.com
Endereço: Rua José Marcolino Soares n°55 – Cachoeira do Bom Jesus – Florianópolis/SC –
CEP: 88056-160

Ana Luiza Tonelli Regis Faria


Bacharel em Relações Internacionais. Pós-Graduação em Comércio Exterior. Graduanda do
Curso de Psicologia do CESUSC.
E-mail: analuizatr@hotmail.com

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1. Introdução

Na sociedade pós-moderna, a internet é uma realidade em vários segmentos de


nossas vidas. Os pesquisadores vêm dedicando grande esforço intelectual, no intuito de
compreender os efeitos da presença da Rede nos relacionamentos atuais. Para tanto, é
necessário conhecer como se efetuou a introdução e difusão dessa nova tecnologia em
nosso cotidiano.
Na história da humanidade, nunca houve um tempo de desenvolvimento tão
acentuado como em meados do século XVIII, e as mudanças após esta data foram
extraordinárias. De acordo com Dela Coleta e Dela Coleta & Guimarães (2008),
destacam-se a máquina a vapor, a eletricidade, os novos combustíveis fósseis, a energia
atômica, a produção industrial em larga escala e o desenvolvimento dos meios de
comunicação, transformando-se em meios de comunicação em massa.
Ao perceber o impacto da máquina a vapor no sentido de mudar a forma como as
pessoas viviam, sentiam e a visão de mundo da época, esses autores se questionaram
sobre “quais seriam as consequências, a curto, médio e longo prazo, da inovação
tecnológica a que se deu o nome de Internet.” (DELA COLETA, DELA COLETA &
GUIMARÃES, 2008, p. 278).
Essa nova ferramenta é definida, segundo o Dicionário da Informática (2004),
como:

[...] A melhor demonstração real do que é uma autoestrada da informação. [...] uma imensa
rede de redes que se estende por todo o planeta e praticamente todos os países. [...] Com
inicial maiúscula, significa a “rede das redes”, originalmente criada nos EUA, que se tornou
uma associação mundial de redes interligadas. [...] provê transferência de
arquivos, login remoto, correio eletrônico, news e outros serviços.

Em nosso País, a história da Internet data da década de 90 com dois períodos


distintos: o acadêmico, com a implantação da Rede Nacional de Pesquisa – RNP, e o
comercial, no qual o uso da Internet cresceu desvairadamente. A comunicação através
de rede de computadores se difundiu velozmente, proporcionando rapidez na troca de
informações, acúmulo de produção de conhecimento entre outros (DELA COLETA,
DELA COLETA & GUIMARÃES, 2008).
Uma pesquisa realizada no ano de 2002, por Terêncio e Soares (2003), aponta
que o Brasil é o 11º país do mundo em número de internautas, com 13,98 milhões de
usuários representando 7,77% da população total do país, além de ocupar o terceiro
lugar em relação ao continente e o primeiro na América Latina.

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Acompanhando o desenvolvimento da internet, Souza, Marinho e Guilam (2008)
ressaltam que diversas tecnologias e infraestruturas promoveram a criação de
comunidades virtuais, destacando-se entre elas as listas de correio eletrônico e as salas
de bate-papo. “Neste cenário as comunidades virtuais destacam-se como agrupamentos
humanos constituídos no ambiente virtual ou ciberespaço – como alguns preferem
denominar” (ABREU, BALDANZA & SETTE, 2008, p. 117).
A criação da primeira comunidade desse tipo data da década de 70, quando a
Internet foi concebida como uma ferramenta estratégica de comunicação militar, e
posteriormente passou a ser utilizada para troca de informações entre os centros de
pesquisa nas universidades. No Brasil, embora as primeiras conexões tenham surgido
em 1987, somente a partir de 1995 tiveram seu uso público e comercial regulamentado,
segundo Souza, Marinho e Guilam (2008).
A partir desse contexto, o conceito de comunidade, segundo Costa (2005),
sofreu profundas alterações no sentido atribuído à palavra. Inicialmente, a comunidade
era relacionada a aspectos familiares e emocionais, delimitada por um espaço físico,
uma localidade. Com a revolução tecnológica nas comunicações, particularmente com o
advento da internet, a interação entre as pessoas não requer mais um local específico,
podendo ocorrer no mundo virtual.
O termo comunidades virtuais foi criado em 1993, com o seguinte significado: [...]
agregações sociais que surgem da Internet, quando pessoas suficientes mantêm
suficientes debates públicos, com suficiente sentimento humano, para formar teias de
relacionamento no ciberespaço (TAJRA, 2002, p. 37 apud ANANA et al., 2008, p. 167,
grifos do autor).

Para definir as relações que se estabelecem via on-line, Costa (2005) apóia que
seja usado o conceito de redes sociais, ou comunidade virtual, correspondendo a uma
compreensão da interação humana de modo mais amplo que o de comunidade. Para o
autor, esse conceito consiste na quebra do conceito de comunidade tradicional, uma vez
que os indivíduos já não se organizam mais segundo parâmetros convencionais de
localidade, parentesco, vizinhança etc.
A realidade que se descortina diante de nós é a da imposição da revisão de vários
conceitos já estabelecidos há muito tempo e até mesmo de mudança de alguns
significados. Acreditamos que a facilidade com que se constrói uma comunidade dentro
dos termos atuais – redes virtuais – tem como resultado uma dissolução tão simples
quanto sua criação. A volatilidade interpessoal impera nessa nova formação
comunitária, faltando o firmamento de um compromisso social. Entretanto, negar o fato

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de que uma nova cultura vem se estabelecendo diante do avanço dessa nova tecnologia
denominada Internet, é sermos demasiados simplistas, pois palavras e frases como: O
mundo é dos NET’s, “cyberespaço”, on-line, comunicação virtual, entre outras,
tornaram-se habituais.

2. A Internet – o “bom” uso dessa nova tecnologia

Com o avanço do desenvolvimento tecnológico, que envolve rapidez no


processamento das informações, comunicação via on-line instantânea, Souza (2006)
declara que a Internet está sendo amplamente aplicada como repositório de informações
e que nesses arquivos encontram-se literatura especializada e científica. Isso tem
possibilitado a aquisição do conhecimento, a propagação das descobertas científicas e o
acesso a informações de uma forma nunca antes sonhada na história da humanidade.
O homem, por sua vez, passou a fazer uso dessa tecnologia com muitos
benefícios, em várias áreas, e assim inúmeras atividades humanas vêm migrando para o
ambiente on-line. Pontuaremos duas, citando alguns autores que desenvolveram
pesquisas nessas áreas específicas:
1. Terapia on-line - Prado e Meyer (2006) efetuaram uma pesquisa no intuito de
investigar se a relação terapêutica ocorre nesse ambiente, e concluíram com cautela: “a
relação terapêutica formou-se e manteve-se com características semelhantes às descritas
na literatura, mostrando que, via Internet e por meio de formas de comunicação
síncronas, é possível estabelecer um clima produtivo entre terapeutas e clientes” (p.
256).
Apesar desta pesquisa indicar que a relação terapêutica se forma mesmo no
espaço virtual, acreditamos que as formas de linguagem não verbais, como expressão
facial, tom e ritmo da voz e postura corporal, se perdem mesmo com o uso de
microfones e webcams. Do nosso ponto vista, o ambiente físico face a face é um dos
fatores determinantes na formação do setting terapêutico. Além disso, no âmbito virtual,
o paciente pode estar acessando o site de sua casa, de uma lan house e até mesmo do
trabalho para a seção de terapia. Consideramos que tais ambientes podem interferir, ou
seja, podem tanto atrapalhar como favorecer o resultado da terapia.
Diante desse quadro controverso, sugerimos que novas pesquisas sejam
realizadas para se assegurar que o uso dessa ferramenta, como mediadora na terapia,
proporcione mais segurança, tanto para quem oferece os serviços de terapia on-line

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quanto para seus usuários, garantindo resultados semelhantes aos que são obtidos
através da forma convencional.

2. No cenário da educação, o método a distância via on-line pode ser definido


como “parte de um processo de inovação educacional mais amplo que é a integração das
novas tecnologias de informação e comunicação nos processos educacionais”
(BELLONI, 2002, p. 123 apud LANGUARDIA, PORTELA & VASCONCELLOS,
2007, p. 515), sendo uma modalidade de aprendizagem mais flexível, apoiada nos
pressupostos de autonomia individual e liberdade intelectual. A educação a distância via
on-line vem sendo utilizada para treinamento de colaboradores em grandes e pequenas
empresas (GHEDINE, TESTA & FREITAS, 2008), para cursos de especialização como
o de Cardioversão e Desfibrilação para Enfermeiros (SANCHES & LOPES, 2008), para
cursos técnicos e de graduação. Definitivamente, esta é uma área que está em plena
expansão.
Todavia, chegamos a um consenso de que na área da educação virtual existem
dois contrapontos: no primeiro, viabilizam-se os relacionamentos entre os estudantes, a
partir da formação de grupos de estudos, o que proporciona a aquisição do
conhecimento; no segundo, se entende que falta o relacionamento educador/educando
face a face, podendo ensejar o desenvolvimento de uma sociedade cada vez mais
individualista e isolada.
Apesar desses contrapontos, alguns atributos proporcionados por essa evidente
migração acabam embutindo mais vantagens ao uso do ambiente on-line. De fato,
Cuenca e Tanaka (2005) destacam que as universidades têm sido as pioneiras e maiores
beneficiárias no uso da tecnologia de redes eletrônicas, detendo 91,3% da produção
científica do País. Com a Internet, bibliografias, bases de dados e periódicos com seus
textos completos tornaram-se mais acessíveis, permitindo à comunidade acadêmico-
científica uma atualização nunca antes pensada em termos de rapidez e eficiência no
acesso e na obtenção de informação.
Ainda em relação ao compartilhamento de dados, podemos ressaltar que
relacionamentos virtuais contam ainda com os e-mails nos quais são escritas mensagens
privadas, entregues através de contas individuais, e que substituem os correios
convencionais proporcionando rapidez na comunicação. Além desses, surgiram também
os chats, meios de comunicação por meio dos quais as pessoas se interconectam para

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conversar em tempo real, utilizando a linguagem escrita (DELA COLETA, DELA
COLETA & GUIMARÃES, 2008). Desta forma ressalta-se que:
A Internet revolucionou as formas de comunicação de maneira jamais vista. Segundo
seus criadores, é considerada um mecanismo de disseminação da informação e
divulgação mundial e um meio para colaboração e interação entre indivíduos e seus
computadores, independentemente de suas localizações geográficas (FONSECA et al.,
2008, p. 1).

Por ser uma disseminadora da informação, Romão (2006) a define como “uma
cadeia globalizada de arquivos digitalizados, interconectados e dispostos em links em
endereços fixos, cuja permanência on-line não é eterna, aliás, tem duração bastante
volátil” (p. 305).
Assim, além de disseminadora do conhecimento, podemos reconhecer que a
Internet passou a ser um grande arquivo para a humanidade e talvez o maior benefício
fornecido por essa ferramenta.

3. Comunidades virtuais – o Msn e o Orkut

Anana et al. (2008) explicam que, mesmo nas relações decorrentes de ambientes
ditos virtuais, acontece vinculação afetiva entre os integrantes das comunidades. Nesses
ambientes, está imbuída a significação de que é público e não mais privado, fazendo
com que tanto os dados quanto as informações e os debates sejam de livre acesso a
qualquer pessoa.
Assim como as comunidades reais, as virtuais se agrupam segundo afinidades de
interesses, de conhecimentos, sobre projetos mútuos, em um processo de cooperação ou
de troca, não havendo, por fim, barreiras geográficas [...]. Por serem comunidades por
escolha, diferentemente das comunidades compulsórias reais, os membros das
comunidades virtuais são capazes de abandoná-las sem aviso e com pouco custo
pessoal. Porém eles se filiam a elas porque se identificam com os seus propósitos e
valores, permitindo que as comunidades virtuais exerçam considerável influência na
definição de quem uma pessoa é como ser humano. É o caso, por exemplo, do Orkut,
comunidade virtual com enorme penetração no Brasil (ANANA et al., 2008, p. 171).

Apesar de o Orkut ter surgido nos Estados Unidos, os brasileiros representam a


maioria dos indivíduos que frequentam as comunidades que o compõem, representando
74% dos usuários, enquanto os norte-americanos ocupam a segunda posição na escala
de nacionalidades com apenas 9% de participação (ANANA et al., 2008). Esses dados
impressionam, pois as porcentagens são extremamente discrepantes, indicando o Brasil
como líder absoluto no uso do Orkut como meio de comunicação, de forma que talvez

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devêssemos nos perguntar: O que atrai tanto os brasileiros para aderirem a essa
ferramenta?
Ainda segundo os autores supracitados, o Orkut foi desenvolvido com base na
idéia de "software social", um sistema que objetiva interligar várias pessoas, entre
amigos, familiares e parentes, incentivando a formação de grupos de iguais e
comunidades, tal qual uma organização social. Esse software permite ao usuário criar o
próprio perfil, incluindo fotos, descrição, atributos físicos, detalhes de sua
personalidade, preferências, entre outros aspectos, além de possibilitar a formação de
uma rede de amigos e a criação e participação de comunidades, com propósitos o mais
variados possíveis.
Há pouco tempo, todas as informações dos usuários desse software eram
visualizadas qualquer um que o acessasse, possibilitando até mesmo visualizar as
conexões diretas de amigos, e as indiretas – que seriam os amigos dos amigos, e
convidar os amigos dessa pessoa a fazerem parte de sua rede pessoal.
Atualmente e com as mudanças implantadas, as características pessoais como os
álbuns de fotos, as mensagens e parte do perfil só são acessados com a autorização do
sujeito, o que trouxe maior privacidade e segurança, possibilitando laços mais estreitos
de afetividade e maior privacidade. Além disso, há hoje outras formas de interação, por
meio de sistemas de fóruns, mensagens privadas, dentre outros.
Outro exemplo de comunicação virtual da atualidade é o msn, que se enquadra
na classificação dos chats ou salas de bate-papos. Nesses locais, a comunicação
acontece em “tempo real” entre dois ou mais usuários via computador. Essa
comunicação pode ser feita através da troca de mensagens textuais ou verbais, inclusive
com compartilhamento simultâneo da imagem dos interlocutores (vídeo-conferência).
Cada usuário pode ser identificado por um nome fictício denominado nickname, sua
identidade virtual. A comunicação propriamente dita se dá em salas virtuais (ou canais),
agrupadas por área de interesse ou faixa etária dos usuários (TERÊNCIO & SOARES,
2003; PEREIRA, 2007).

4. A Sociedade “virtualizada”

No meio de tantas novidades envolvidas e envolvendo esse mundo novo, as


autoras Leitão e Nicolaci-da-Costa (2005) revelam que a “Internet vem se constituindo
em um novo e prazeroso espaço de vida para seus usuários” (p. 448). Além disso, citam

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Tapscott (1997), que faz uma análise detalhada do comportamento de crianças e jovens
usuários da Internet, e destaca o prazer que manifestam em habitar uma “espécie de
playground virtual. Neste novo espaço, [...] a interatividade é o aspecto central”.
Em contrapartida, os pesquisadores Abreu et al. (2008) descrevem que, anexado
ao aumento na popularidade do uso da rede mundial e dos jogos eletrônicos, surgem
relatos em jornais e revistas, e mesmo em estudos científicos, de casos de indivíduos
que estariam dependentes da realidade virtual da Internet e dos jogos eletrônicos. Vários
artigos vêm ressaltando esta queixa como cada vez mais frequente em consultórios
médicos, psiquiátricos, psicoterapêuticos, independentemente da idade, sexo,
escolaridade, ou mesmo de pais preocupados com seus filhos pelo aumento do
isolamento social e piora nos rendimentos escolares e acadêmicos (ABREU et al., 2008;
COSTA, 2005; LEITÃO & NICOLACI-DA-COSTA, 2005).
Em nossa opinião, tal dependência fica evidente a partir do aumento do tempo
destinado a atividades de jogos eletrônicos e sites de relacionamentos em detrimento de
outras atividades importantes como estudar, conviver com amigos e familiares, praticar
esportes e dormir. Dessa forma, esse comportamento passa a ser nocivo para o
indivíduo, a partir da incidência e manutenção de um desequilíbrio em seu modus
vivendi.
Entretanto, é muito difícil dizer se essa dependência tem como principal causa
somente o imenso poder de atração da Internet, ou se nada mais é que uma
consequência do empobrecimento das relações entre indivíduos, visto que:
É assim que sociólogos urbanos dizem que o tamanho, a densidade e heterogeneidade
das cidades contemporâneas têm alimentado laços superficiais, transitórios, [...] e
desconectados nas vizinhanças e ruas. Com isso, os laços de família extensos têm se
esvaziado e deixado os indivíduos sozinhos com seus próprios recursos, além de poucos
amigos, transitórios e incertos. Como conseqüência, indivíduos solitários sofrerão mais
seriamente de doenças devido à ausência de suporte social de amigos e parentes
(COSTA, 2005, p. 238).

Independentemente de opiniões contraditórias, Pierre Lévy (2002 apud COSTA,


2005) declara que as comunidades virtuais são uma nova forma de se fazer sociedade,
sendo transitória, desprendida de tempo e espaço, baseada muito mais na cooperação e
trocas objetivas do que na permanência de laços. Além disso, nesses relacionamentos
em que se permite a ocorrência de interações virtuais passageiras entre desconhecidos
frequentadores dos ambientes de encontro, a variabilidade e a quantidade de encontros
possíveis em busca de afinidades podem transformar algumas interações passageiras em
relacionamentos mais duradouros comparados aos que acontecem no mundo real.

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Assim, toda divergência de idéias em torno dos relacionamentos virtuais pode
ser resultado gerado pela “mitologia” de destruição que é entendido por Nicolaci-da-
Costa (2005) como juízo que se estabeleceu de que a Internet afasta os indivíduos da
convivência, conduz à depressão e ao isolamento, entre muitas outras coisas piores.
Compreendemos e compactuamos com este mito, afinal, o primórdio de um
novo tipo de sociedade desperta muitos receios, principalmente no que concerne o
desconhecimento das causas envolvidas e conseqüências decorrentes do uso dessa nova
tecnologia.
Leitão e Nicolaci-da-Costa reforçam a nossa opinião, ao afirmar que:

[...] sujeitos que desbravam um espaço ainda muito novo e sem limites claros; [...] se
expõem a vários tipos de excesso e são lançados a novos desafios: o de transformar um
grande volume de informações dispersas em conhecimento pessoal e coerente, o de
administrar o tempo que passam nos espaços real e virtual e, finalmente, o de construir
novas defesas para sua intimidade no mundo da Internet (LEITÃO & NICOLACI-DA-
COSTA, 2005, p. 448).

5. Afinal, o que podemos esperar?

A realidade que se descortina diante de nós é a de que vários conceitos


estabelecidos há muito tempo vêm passando por revisões, reestruturações e até mesmo
mudança de seu significado através da influencia imposta pela Internet, criando-se
assim uma nova cultura.
Neste contexto, Tapscott (1999) afirma que: “[...] é através do uso da mídia
digital que a Geração Net [a geração atual] desenvolverá e imporá sua cultura à
sociedade” (TAPSCOTT, 1999, p. 1-2 apud TERÊNCIO & SOARES, 2003, p. 140).
No entanto, em nossa opinião, a utilização dessa nova mídia deve ser feita,
observada e analisada com cautela e talvez até com reservas, já que administrar o tempo
de vida nos espaços real e virtual tem se mostrado um desafio. O excesso de horas de
conexão à Internet pode se tornar uma dependência, no momento em que se
negligenciam outras atividades importantes como estudar, conviver com amigos e
familiares, praticar esportes e dormir.
Contudo, não podemos ignorar o fato de que a comunicação, tanto no msn
quanto no Orkut, encurta distâncias, diminui o tempo (de deslocamento, por exemplo) e
gastos desnecessários (principalmente ambientais – ao substituir o transporte movido a
combustível fóssil) e favorece o relacionamento entre profissionais, familiares ou
amigos distantes.

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As opiniões divergem, pois concordamos que houve a viabilização da
comunicação mediante a propagação de informações, proporcionando contato direto em
tempo real com amigos separados pela distância. A Internet é um disseminador de
conhecimento em instituições de ensino e uma ferramenta econômica poderosa.
Entretanto, causa-nos ao mesmo tempo a impressão de que logo teremos dificuldade em
distinguir entre o real e o virtual, de que estaremos isolados em um “cyberespaço”,
alienados da realidade, substituindo atividades cotidianas importantes pela “navegação”.
Apesar das opiniões divergentes, a tecnologia está imposta. A Internet é algo
real e inegável, o seu uso indispensável para várias áreas e os relacionamentos virtuais
acontecem. Assim, tomamos como nossas, as palavras de Sanchez Gonzalez (2005):
“Esperemos pues, para un futuro proximo, los frutos” (p. 57).

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